HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA
ANTNIO JOS SARAIVA

ANTNIO JOS SARAIVA

SCAR LOPES

HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

16. a EDIO, CORRIGIDA E ACTUALIZADA

PORTO EDITORa


OBSERVAO

scar Lopes  responsvel nico pela redaco do texto referente  7.1 poca (POCA 
CONTEMPORNEA).


Captulo I

REFLEXES PRELIMINARES

M Crtica e histria literria

H quem ponha em causa a validade da histria da literatura ou, o que tanto faz, a 
reduza a uma arrumao quanto possvel cronolgica de estilos, autores e obras, a uma 
iniciao em certos dados, necessrios ao entendimento das obras, mas que nada teriam 
a ver com o seu valor intrnseco. Segundo esse ponto de vista, os valores estticos 
estariam fora da histria.

Na verdade, no pode negar-se a permanncia de valores literrios, que chegam a 
desafiar as inevitveis infidelidades da sua traduo e interpretao, resultantes 
de, por exemplo, terem sido originalmente realizados em lnguas e instituies j 
mortas h muito. Mas tais infidelidades e, com elas, os problemas da interpretao e 
valorizao surgem logo depois que uma obra se publica. A prpria estrutura da obra 
nunca reduz todas as
intuies do autor a uma perfeita coerncia;  bem sabido que os grandes livros tm 
uma complicada histria, de antes, durante e depois da sua redaco. E as apreciaes 
de uma obra antiga que se foram impondo atravs de pocas sucessivas do-nos, 
frequentemente, a impresso de inessenciais ou insuficientemente adequadas. Sente-se 
a cada passo a necessidade de libertar a estrutura essencial de uma obra de 
preconceitos que, j a partir das prprias intenes mais superficiais e por vezes 
ostensivas do seu autor, a desfiguram; tal necessidade pode considerar-se to viva 
como a obra: vive da sua vida. Nessa libertao consiste o grande papel da crtica, 
ou, segundo uma tendncia mais recente, de uma desconstruo sem metodologia fixa e 
definida mas que permita aceder ao no-dito ou
no-pensado oculto em cada texto (literrio ou doutrinrio).

Mas esta crtica  j histrica; procura j explicar (e vencer) limitaes sociais e 
epocais, entra j em linha de conta com uma conjectural histria do livro, desde as 
suas fontes e elaborao at  apreciao predominante entre os prprios 
contemporneos do crtico. Alm disto, a crtica de um livro antigo no pode atingir 
a sua estrutura formal

8 
sem compreender a pluralidade histrica a partir da qual ele foi elaborado e que j 
se no deve considerar inteiramente informe, ou neutra,-sob o ponto de vista 
literrio; a literatura, quer como fico, quer como estilo, esboa-se no texto das 
mais elementares relaes humanas; as mais simples e constantes mudanas das coisas e 
dos propsitos sociais estimulam transferncias de significados, quer dizer, 
metforas, imaginao analgica, e at anedotas que contm verdadeiros smbolos e 
juzos. Toda a fico literria, tal como toda a expresso lingustica em que assenta 
(e que  verdadeira criao literria antiga, j sedimentar, habitual ou 
despercebida), tem origem em translaes nos significados das palavras que se referem 
ao corpo humano, suas necessidades e movimentos, ao espao organizado (casa, cidade, 
rea explorada, campo arado, etc.), s relaes de pequenos ou amplos grupos sociais, 
etc. Em nvel superior, precisamos de ter em conta certas evolues relativamente 
isolveis das prprias formas literrias especficas, como a versificao, processos 
de arte narrativa ou dramtica, os recursos estilsticos mais desenvolvidos. E estas 
formas literrias e estes processos formais relacionam-se com os meios sociais e 
tcnicos de comunicao: por exemplo, o cantar pico supe um grupo de ouvintes, o 
romance uma grande massa alfabetizada, e o cinema contaminou o teatro e os gneros 
narrativos. Outro ponto: entre as ideologias (que se relacionam sem contudo se 
confundirem com a gnese e os sentidos concretamente inerentes s formas literrias), 
h que distinguir as doutrinas de esttica literria; elas tambm apresentam a sua 
histria, cujo condicionamento pela histria geral  bem mais visvel que o da 
prpria literatura.

Por outro lado, mesmo que se considere cada obra-prima como consumada na medida em 
que, insubstituivelmente, se adequou a uma experincia humana que se no repete, 
atingindo com isso a estrutura ptima correspondente a determinada concepo e estilo 
- mesmo assim,  inegvel a histria subjectiva dos gostos, apreciaes e 
interpretaes, afectada, entre outras coisas, pelo surto de novos modelos de 
referncia valorativa. Esta a preocupao dominante na histria esttica da recepo 
ou leitura, consagrada por H. R. Jauss, M. Riffaterre, W. Iser e A. Nisin, por 
exemplo, que tem em conta os horizontes da expectativa, sua multiplicidade e 
constante fuso, e as descontinuidades na estruturao complexa dos gneros em que se 
integram quer a elaborao quer a hermenutica (ou interpretao) de uma dada obra.

Portanto, a crtica e a histria literria no podem no fundo fazer-se uma sem a 
outra. Temos de historiar para, por exemplo, compreender, e portanto criticar; mas o 
objectivo da histria literria tem de ser seleccionado, s abrange uma mnima parte 
de tudo quanto j pde passar como literrio, e tal seleco f-la a crtica 
valorativa, assumindo inevitveis riscos de erro ou omisso importante.

Literatura, cultura, nacionalidade


A histria da literatura levanta problemas muito seus (alguns dos quais discutiremos 
pouco adiante) devido a este critrio seu prprio de seleco. Como a histria de 
qualquer bela-arte, plstica ou rtmica, exprime valores cuja permanncia , em 
geral, mais

              9
reconhecida que a das tcnicas ou das instituies. Mas a matria a partir da qual se 
elabora, e que  a linguagem, ligada aos actos sociais correntes, articula-se (mais 
do que as formas plsticas ou musicais evidenciam) com ideologias historicamente 
determinadas, as transformaes tcnicas, as tenses e expectativas sociais. No 
entanto, a histria
da linguagem no se confunde com a de tais ideologias, transformaes, divises, 
pois, se a confundssemos, teramos tambm de negar a possibilidade de qualquer 
comunicao, dentro da mesma rea lingustica, entre indivduos de classes sociais 
diferenciadas, e teramos de negar, ainda, os aspectos de continuidade que persistem 
atravs de uma
mudana social profunda: a Frana no mudou de lngua com a Grande Revoluo, nem a 
Inglaterra com a industrializao da mquina a vapor. A histria da literatura 
abrange, portanto, um domnio bem especfico de problemas, embora no deixe de ser 
interdependente da histria social e, mais directamente ainda, da histria cultural.

Pelas suas relaes com a histria social, e, especificamente, com a da cultura, e 
ainda por evidncia intrnseca, no se podem negar certas caractersticas universais 
ou, pelo menos, muito extensas na histria literria, isto , uma histria mais ou 
menos universal da literatura; basta lembrar a larga generalidade de certos mitos, de 
certos motivos folclricos. H um mundo literrio indo-europeu e semtico, por 
exemplo, cuja vasta rea criou, interagindo, um patrimnio do qual se destacaram a 
Bblia e os poemas homricos, os contos das Mil e Uma Noites, as fbulas de Esopo ou 
L Fontaine. A histria da literatura portuguesa, em especial, est compreendida 
dentro deste contexto histrico-cultural, pois assimila aportaes milenrias 
(hebraicas e gregas, por exemplo), e influncias fundamentais das grandes literaturas 
do Ocidente europeu, bem visveis desde a sua
origem. Alm disso, e sobretudo at ao sculo XVIII, est integrada numa unidade 
cultural e literria peninsular, unidade to visvel, que o uso da lngua galaico-
portuguesa e o da lngua castelhana nem sempre corresponderam, como veremos,  
nacionalidade do autor.

Contudo, a estreita relao que h entre a literatura e a lngua, o facto de um 
domnio lingustico diferenciado resultar de uma duradoira comunidade econmica, 
poltica e social (e de tambm, inversamente, contribuir para uma tal comunidade), o 
facto de o uso de uma lngua determinar, s por si, o pblico imediato e, 
normalmente, inspirador das obras - tudo isto justifica um critrio lingustico para 
a classificao das literaturas. No entanto, no confundamos o nvel literrio (e, em 
geral, o nvel culto) de uma lngua com os seus nveis orais, alis diversificados em 
variantes regionais ou sociais e registos circunstanciais.

Nem sempre tal critrio se acomoda com outro que tambm se deve ter em conta:
o critrio da autonomia poltica nacional. Assim, apesar de o domnio lingustico 
portugus abranger o Brasil, no h dvida de que a literatura brasileira adquiriu 
caractersticas diferenciais, relacionadas com a progressiva diferenciao nacional 
brasileira; e, como

seria difcil, se no mesmo impossvel, apontar uma divisria intrnseca, o mais 
razovel ser deixar de incluir no nosso estudo da literatura portuguesa as obras de 
autoria brasi-

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leira posteriores  data da proclamao da independncia desse pas, embora a isso se 
oponha a intimidade de certas relaes que chegam a pr problemas de nacionalidade 
dos autores (caso de Gonalves Crespo). Os autores radicados no Brasil anteriormente 
a essa data sero ainda objecto do nosso estudo; conquanto tambm julguemos legtimo 
encar-los, a eles e at a obras de metropolitanos que viveram no Brasil (caso de 
Toms Antnio Gonzaga), sob o ponto de vista de formao da conscincia nacional e 
literria brasileira. O mesmo acontece com as literaturas dos pases africanos de 
lngua oficial portuguesa, nos seus vrios graus de autonomia cultural. E  por uma 
razo semelhante que, ao tratarmos da escola trovadoresca de lngua galaico-
portuguesa, que deu os primeiros passos de diferenciao da nossa literatura escrita, 
no exclumos os seus autores de naturalidade no portuguesa, quer galegos como Joo 
Airas de Santiago, quer castelhanos como Afonso, o Sbio, cuja corte foi to 
importante para essa escola.

Ora, se na classificao das literaturas temos de atender, no apenas a divises 
lingusticas, mas tambm aos marcos das diferenciaes polticas nacionais; se, por 
outro lado, a unidade poltica nacional fornece um esquema de referncia para estudo 
da histria literria que lhe  precursora - pode perguntar-se se so os grandes 
marcos da histria poltico-social que devem balizar o estudo da literatura nacional. 
No h dvida de que as mais importantes divises reconhecveis na histria literria 
portuguesa se correlacionam com as mais radicais transformaes da nossa histria 
social, a tal ponto que podemos distinguir dois grandes ciclos fundamentais na 
evoluo literria portuguesa: um ciclo de literatura cujo principal centro de 
elaborao  a corte rgia, para a qual podemos imaginar uma curva predominantemente 
ascendente at ao sculo XVI e que vai depois decaindo at  revoluo liberal; e um 
ciclo de literatura fundamentalmente destinada  burguesia e cuja curva, 
diferenciando-se pouco a pouco da anterior, a sobrepassa desde meados do sculo 
XVIII, absorvendo-a, com o Romantismo, na sua rea prpria, e atingindo uma fase 
cimeira mas tambm certa conscincia de crise com a chamada *gerao de 1870+ (ou *de 
1865+).

No entanto, a cronologia do desenvolvimento literrio no coincide com a do 
desenvolvimento histrico geral: as escolas literrias pressupem, em geral, os 
contornos mais ou menos definidos de uma formao social, embora surjam criaes 
literrias precursoras e at preparatrias de uma dada evoluo. Assim, o estilo 
romntico portugus, que corresponde ao domnio poltico inicial da burguesia, no se 
encontra bem estruturado em lngua portuguesa seno bastantes anos depois da 
Conveno de vora Monte, e os primeiros liberais vitoriosos, como Garrett, continuam 
fiis a certas ideias e gostos da Arcdia Lusitana, fundada no auge da monarquia 
absoluta. Outro exemplo: n'Os Lusadas encontra-se uma viso cavaleiresca que j no 
corresponde s relaes humanas reais da poca; mas, por outro lado, apreendem-se 
aspiraes que na poca seriam utpicas ou reprimidas, e que hoje se compreendem 
melhor. Ora, como vimos, a razo de ser da histria da literatura deriva de um 
critrio seu prprio de seleco: o do valor ainda permanente das obras literrias. 
Os pontos cimeiros da histria literria so as escolas,

             11
os autores e, sobretudo, as obras cuja estrutura, evidentemente condicionada por 
factores externos mais ou menos analisveis, sentimos avultar nas suas relaes 
intertextuais. Deste modo, as obras ou autores de valor menor, embora aprecivel, no 
podem, at certo ponto, deixar de ser vistos como precursores ou ento epgonos, dos 
melhores, pois no existem outros modelos ou padres de valorizao esttica seno os 
que aparecem historicamente realizados em obras-primas, e, como frisou o muito 
tradicionalista mas, por vezes, penetrante poeta e crtico T. S. Eliot, cada obra-
prima afecta o nosso modo de apreciar toda a tradio literria, nacional ou humana. 
Noutros termos, usando uma oposio que se tornou frequente em manuais lingusticos; 
o estudo diacrnico (histrico) e o estudo sincrnico (estrutural) das obras 
literrias so, em ltima anlise, interdependentes. H um tempo especfico de 
transformao dos gostos e estilos, embora no de todo separvel do tempo das 
transformaes sociais, por exemplo; mas s se pode balizar esse tempo especfico 
contrastando macro e microestruturas detectveis em obras que servem de paradigmas ao 
nosso estudo.

De acordo com estas reflexes preliminares, o objecto bsico do nosso estudo ser 
constitudo pelas obras literariamente mais qualificadas de lngua e autoria 
originariamente portuguesas, segundo uma perspectiva de desenvolvimento geral das 
estruturas formais e da matria humana socialmente comunicvel que lhes corresponde. 
Para designar as fases de estruturao e desagregao de uma escola ou estilo epocal, 
que evidentemente s poder ter-se consumado de um modo permanentemente vlido em 
obras individualizadas, usaremos por vezes, e como  costume, um nome evocativo do 
seu contexto histrico geral: Fim da Idade Mdia, poca Contempornea, por exemplo. 
No entanto, o critrio de periodizao  intrinsecamente literrio, pelo que 
tentaremos, quanto possvel, distinguir as afinidades caractersticas de cada gerao 
ou conjunto de autores que tal critrio permita, de algum modo, isolar. A ateno 
predominante que entendemos dar s obras ou autores capitais atenuou muito neste 
livro a preocupao (tradicional nos
manuais de histria da nossa literatura) de indicar os limites cronolgicos de cada 
poca ou escola, o que sublinhava os momentos de incipincia e de decadncia de cada 
estilo, em vez de sobretudo o ver em sua maturidade. Reservaremos o corpo de letra 
maior ao
estudo interno das escolas, autores ou obras. O seu condicionamento histrico geral, 
filolgico e biogrfico, bem como a bibliografia, os problemas de erudio histrico-
literria, sero apresentados em corpo menor.

Captulo II

ORIGENS E EVOLUO DA LNGUA PORTUGUESA

 Origem latina do Portugus; a Romnia

O factor decisivo da formao da lngua portuguesa foi a romanizao da Pennsula, 
cujos ltimos obstculos ficaram eliminados com as campanhas de Augusto. A difuso do 
Latim verifica-se ao mesmo tempo que as villae (latifndios), protegidas pelo direito 
e o Estado romano, integram, como colonos adscritos s suas terras, os antigos 
habitantes dos castros serranos; que as instituies urbanas se desenvolvem nos 
moldes municipais de Roma, graas a legies, praas de comrcio, tribunais, escolas, 
templos, teatros e termas; e que nas provncias ocidentais da Pennsula, a Lusitnia 
e a Galcia, se constri um sistema de vias com que, aproximadamente, viria a 
coincidir o actual traado ferrovirio e rodovirio fundamental, preludiando deste 
modo a sensvel autonomia das comunicaes internas portuguesas.

O idioma portugus , pois, um dos produtos da Romnia, nome que se d ao Imprio 
Romano e, em especial, ao conjunto das suas provncias onde o Latim veio a vingar 
duradoiramente como lngua de civilizao. Dos mais antigos falares da Pennsula 
ficou o Euscaro, ainda hoje conservado pelos Bascos, que j se julgou representar uma 
sobrevivncia de lngua dos Iberos, e que alguns fillogos explicam por substratos 
lingusticos anteriores s imigraes indo-europeias. A decifrao da escrita ibrica 
evidenciou certas afinidades mas tambm diferenas entre Proto-Bascos e Iberos, 
discutindo-se hoje qual a rea at onde, fora da Pennsula, se estenderiam tais 
substratos, e seus pontos de irradiao original. H vestgios muito afins dos Iberos 
no Norte de frica, e discutem-se ainda hoje certos alvitrados parentescos do Basco 
com lnguas caucsicas. Os primeiros povos indo-europeus que desde o 11 milnio a.C. 
submergiram essas lnguas predecessoras (com excepo do Basco) tm recebido 
designaes muito flutuantes (Lgures, Ilricos, Ambroilricos), e, aparentemente, 
foram encurralados em direco a W por posteriores migraes celtas ou celtizadas 
(Celtiberos), parecendo terem-se reconhecido

14*/*
caractersticas arcaicas indo-europeias, pr-clticas, nos poucos testemunhos 
epigrficos atribuveis aos Lusitanos que recentemente se estudaram. Dos Celtas, povo 
indo-europeu e aparentado com os Romanos, que pelo NE penetram depois na Pennsula, 
cerca do sculo VI, deve ter vindo muito da toponmia pr-romana, merecendo destaque 
no nosso territrio certos nomes terminados em -briga (como Conimbriga, donde 
Coimbra), designao de cidadela castreja; e j houve quem atribusse  sua 
influncia a sonorizao das consoantes surdas intervoclicas, trao caracterstico 
da evoluo das lnguas romnicas ocidentais.

Sobre o fundo mais ou menos comum do Latim, lngua originria do Lcio, a regio de 
Roma, e que a expanso diversificou em dialectos, elaborou-se um modelo oficial e 
literrio, o chamado Latim Culto, polido e gramaticalizado sob influncia do Grego, e 
que as tradies culturais e escolares tentaram, tanto quanto possvel, uniformizar 
em todo o Imprio. Entretanto, a sua verso falada, a que discutivelmente se d o 
nome de Latim Vulgar, obedecia a tendncias espontneas de transformao e 
diversificao, muito facilitadas, quer pelos antigos hbitos lingusticos de cada 
populao romanizada, quer pela pequena percentagem de letrados que mesmo em Roma 
existia, quer pela tardia romanizao da prpria Itlia, que no se adiantou muito a 
certas provncias exteriores: as populaes italianas meridionais, que se julga 
haverem predominado na colonizao da Hispnia, s tinham cerca de um sculo de 
cidadania romana quando, em 74 p.C., Vespasiano concedeu o mesmo direito de cidade a 
todos os hispnicos livres. De acordo com investigaes recentes, que criticam a 
noo de Latim Vulgar, a conscincia de diferenciao entre o Latim escrito, com 
ortografia padronizada mas lido de acordo com as pronncias regionais proto-romnicas 
- apenas surgiu quando, no sculo IX em Frana e no sculo ) na Pennsula Ibrica, 
se imps nos actos litrgicos do rito romano, em difuso, uma pronncia uniforme e j 
distante daquelas que se tinham aproximado dos dialectos romnicos evoludos.

Com a grave crise que o Imprio sofreu durante o sculo III, o esforo uniformizador, 
at ento exercido pela organizao administrativa e escolar, cedera j perante a 
dialectizao espontnea; e alis as necessidades de tornar a lngua assimilvel por 
outros e variados povos apressa transformaes que j se observam em processo desde a 
origem.  deste latim evoludo e diversificado geogrfica e socialmente que provm, 
entre outras lnguas novilatinas, o Portugus. Vejamos quais as principais 
transformaes consumadas no Latim falado, sobretudo entre o sculo II e a poca das 
Grandes Invases (sculo V), que fazem emergir os reinos brbaros acima dos destroos 
do Imprio. Trata-se do incio de diferenciao das lnguas novilatinas, ou 
romnicas, cujo conjunto se designa como Romnia; esta designao foi j usada em 
sentido geogrfico por Paulo Orsio, escritor latino-hispnico do sculo V.

Evoluo do Latim falado


Foneticamente, o acento tnico das palavras latinas caracterizava-se pela elevao 
meldica da slaba tnica: era um acento meldico. Havia ainda nas palavras latinas 
um contraste quanto  durao das slabas, umas longas, outras breves (com cerca de 
metade

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da durao das longas), que permanecia constante dentro de cada forma vocabular:  a 
chamada quantidade silbica. Os fillogos discutem ainda se existiriam tambm 
oposies de intensidade. Seja como for, no Latim falado, a intensidade e a 
quantidade longa tendem a concentrar-se na pronncia da slaba melodicamente tnica, 
que desta maneira ganha maior relevo. A quantidade das slabas deixou de ser um 
sistema autnomo e bem
caracterizado: a antiga distino entre vogais longas e breves reduziu-se a uma 
diferena de timbre (na Romnia ocidental, o e e o o, quando longos, deram lugar s 
vogais fechadas  e , e quando breves, s vogais abertas  e ; o i breve a um  
fechado; o u breve
a um  fechado). Por isso o ritmo do verso latino, que se baseava na sucesso regular 
de slabas longas e breves, deu lugar a um ritmo, elaborado durante a Idade Mdia, 
que assenta no nmero regular de slabas (isossilabismo) delimitado pela rima, isto 
, pela coincidncia de timbres voclicos no fim do verso.

Esta transformao do acento, fazendo acrescer ao relevo meldico da slaba tnica um 
novo relevo de durao e intensidade, precipita uma srie de evolues fonticas nas 
slabas e fonemas mais apagados, sobretudo nos mais prximos da tnica (pretnicos ou 
postnicos) e nos finais: quedas, contraces, vocalizaes, assimilaes, 
sonorizaes, etc., que j em parte se verificam na poca considerada.

Sob o ponto de vista morfolgico, a frase latina articulava-se por meio de um sistema 
de variaes dos nomes e pronomes (declinao) que marcavam a funo dessas palavras 
relativamente ao verbo ou a outras palavras da proposio; e de variaes terminais e 
outras dos verbos (conjugao) que situavam o seu significado dentro de certas 
relaes (tempo, voz, pessoa, modo, aspecto imperfeito ou perfeito, etc.). O uso de 
verbos auxiliares era restrito, mesmo no que corresponde s nossas formas 
perifrsticas e passivas. A ordem das palavras podia, em teoria, considerar-se 
arbitrria, ou antes, s dependente da jerarquia e da nfase dos tpicos do discurso, 
pois a terminao indicava a funo sintctica de cada palavra dentro da frase.

Nas lnguas romnicas conservou-se o sistema verbal, embora com desenvolvimento das 
formas analticas ou compostas, mas acabou por desaparecer a declinao, excepto em 
certos pronomes (eu, me, mim, comigo, por exemplo). O acusativo, caso que exprime o 
objecto da aco ou o destino do movimento, tende j no Latim falado a absorver os 
outros casos, regido de preposies especificadoras da circunstncia que exprime. (De 
resto, a transformao de antigos advrbios em preposies que substitussem e mais 
alialiticamente especificassem as funes dos casos nominais vinha j a processar-se 
desde as origens do Latim.) Na poca em vista, sculos III-V, a lngua falada 
apresentava trs paradigmas de declinao, dois casos, dois gneros e trs 
conjugaes, em vez das cinco
declinaes, cinco casos, trs gneros e quatro conjugaes do Latim culto.


Lexicalmente, a evoluo do Latim caracteriza-se pela perda de vocbulos de 
configurao excepcional - perda largamente compensada por um enriquecimento 
expressivo obtido graas  assimilao de estrangeirismos, de palavras da gria 
profissional e regional, e ainda  adopo de sufixos especiais (diminutivos 
afectivos e outros). Assim,

16 
as palavras guerra, cada, casa, cavalo, abelha, esperana provm, respectivamente, do 
germanismo werra, do helenismo cata, dos depreciativos casa, cabaflus, do diminutivo 
apcula e da palavra sufixalmente encorpada sperantia.

Baixo Latim; *Latim Brbaro+

As transformaes da lngua falada tornavam o Latim Culto cada vez mais artificioso, 
apesar de tambm este se ir afastando, a pouco e pouco, das normas gramaticais 
concebidas segundo o modelo clssico da prosa de Ccero e Csar. Por ocasio das 
Grandes Invases, enquanto o Latim Vulgar atingia a fase atrs caracterizada, a 
lngua literria e a literatura encontravam-se na fase conhecida por Mdio Latim ou 
Mdia Latinidade, nome que depois sugeriu o da Idade Mdia, mas diferentemente 
datado: entre fins do sculo II, com o advento dos imperadores africanos e ilrios, e 
a queda oficial do Imprio Romano do Ocidente, em 476, incio convencional da Idade 
Mdia.  o perodo dos principais Padres da Igreja, como S@ Ambrsio, primeiro 
organizador do canto litrgico, S@ Agostinho (de Hipona), primeiro importante 
filsofo cristo, e S. Jernimo, a quem se deve a Vulgata, principal traduo latina 
da Bblia, que serviram de modelo ao latim eclesistico. A este ltimo, na poca 
posterior  queda do Imprio ocidental, d-se geralmente o nome de Baixo Latim, e 
sobreviveu  queda do Imprio como nica lngua escrita. Alguns sculos passaram 
antes que vrias lnguas novilatinas faladas fossem fixadas por escrito: o Francs no 
sculo IX, o Castelhano em meados do sculo XII, o Portugus, como o Italiano, em 
incios do sculo XIII, o Catalo em meados do mesmo sculo, o Romeno apenas no 
sculo XVI.

No se confunda Latim Vulgar nem Baixo Latim com o *Latim Brbaro+, conjunto de 
frmulas jurdicas e litrgicas, deformadas ou acompanhadas por formas e construes 
coloquiais, e que se usavam em documentos tabelinicos, como contratos, doaes, 
testamentos, etc., em fase j adiantada de diferenciao das lnguas novilatinas. 
Este pseudolatim  devido  incultura dos clrigos que serviam de notrios e s 
dificuldades de ajustar uma lngua morta a novas circunstncias sociais.

O Romance: lugar do Portugus entre as lnguas romnicas

O Imprio Romano do Ocidente, que coincidia em grande parte com a Romnia 
lingustica, isto , com o domnio do Latim como lngua de civilizao (em vez do 
Grego, dominante no Imprio do Oriente), acaba por fragmentar-se politicamente depois 
das Grandes Invases do sculo V. Precipita-se a partir dessa altura o processo de 
dialectizao do Latim falado de que resultam as lnguas romnicas modernas. Ao 
conjunto de falares da Romnia, nesta nova fase de transio, d-se o nome de Romance 
(ou Romano), que vem do advrbio romanice (* maneira romnica, vulgar+), oposto a 
latine (* maneira latina, literria+). A palavra romance (neste caso com a variao 
de rimance) designa tambm um gnero de composio transmitida oralmente, em que pela 
primeira vez a lngua

               17
falada ganha forma literria, e constitui o ponto de partida do moderno gnero 
literrio do mesmo nome. Sempre que haja possibilidade de equvoco, usaremos a forma 
romano para designar a fase lingustica, e rimance para o gnero potico em questo.

A diversificao do romano acentua-se ainda com a descentralizao poltica feudal, 
a regresso  economia rural e local dos sculos VIII, IX e X; at que, com o 
progresso comercial e urbano, com as novas tendncias monrquicas centralizadoras do 
sculo XI em diante, se inicia a unificao lingustica de que resultam as lnguas 
nacionais novilatinas. J desde o sculo IX fora necessrio permitir aos pregadores o 
uso no plpito da lngua vulgar, e nos centros de peregrinao, romaria ou feira 
surgiram jograis, um misto de saltimbancos, trues e cantores, que difundiam entre o 
povo e levavam at aos castelos senhoriais verdadeiras escolas de poesia em romano.

Os mtodos da gramtica comparativa e histrica, depois aperfeioados pelos da 
geografia lingustica, possibilitaram a classificao cientfica das lnguas 
romnticas.  assim que entre elas se distingue um grupo oriental, em que se 
salientam o Romeno e dialectos do Centro e Sul da Itlia; e um grupo ocidental, que 
abrange o Italiano setentrional, os actuais dialectos reto-romanches ou ladinos 
(Sua), dolomitas (ustria) e friulanos (Itlia), e outros dois subgrupos, num dos 
quais avulta o Francs, proveniente da Langue d'oil medieval, e no outro se encontram 
o Occitnico, conhecido na Idade Mdia por Langue d'oc (em que literariamente se 
destaca o dialecto provenal), o Catalo, o Castelhano e por fim, e particularizando 
mais, um conjunto de dialectos hispnicos ocidentais: asturianos, leoneses (em grande 
parte absorvidos pelo Castelhano, que deu origem ao Espanhol hoje oficial) e galego-
portugueses, de que se originou o Portugus.


A diferenciao destas lnguas e dialectos tem sido explicada por factores vrios, 
tais como o respectivo substrato lingustico (ou seja, as diversas lnguas a que o 
Latim se sobreps), a provenincia diversa dos colonos italianos, as diversas pocas 
da colonizao romana, as linhas de migrao e comunicao econmica ou outra da 
Romnia. Assim, certas caractersticas do Portugus tm sido atribudas  sua 
localizao perifrica na Romnia, a uma origem italiana meridional dos seus 
colonizadores romanos, a um forte substrato cltico. E a tripartio do romano 
peninsular j foi explicada pelas principais e sucessivas vias fluviais de penetrao 
romana (o Ebro, primeiro, e o Guadalquivir, mais tarde), que teriam esboado a 
diferenciao entre os falares ocidentais e os catales-aragoneses, inserindo-se 
entre eles o Castelhano. De qualquer modo, a actual diferenciao do romano 
peninsular deve-se sobretudo  forma como se fez a reconquista aos Muulmanos, a 
partir de trs principais pontos de arranque: a Marca carolngia, que originou o 
Arago e a Catalunha, tornando-se esta o ltimo foco de reconquista do litoral 
mediterrnico; os montes Cantbricos, donde, atravs dos caminhos da transumncia 
pastoril, partiram, para a Meseta central, os conquistadores de fala castelhana, 
influenciada por um substrato eucaro (ou basco); e o Noroeste, de substrato cltico 
ou para-cltico, mais tarde de ocupao sueva e prestigiado pelo santurio de 
Santiago de Compostela, cujas foras cedo aguentaram o mpeto muulmano na linha do 
Douro, donde partiram em direco ao Sul ao longo de antigas vias romanas 
relativamente separadas.

18
Na sua expanso, facilitada por uma estrutura social ento mais progressiva, menos 
feudal, Castela, que em fins do sculo VIII se reduzia a simples regio fronteiria 
(por isso acastelada) de Leo em contacto com os Muulmanos, obtm a hegemonia 
poltico-militar e depois (desde Afonso X e sua corte toledana) literria sobre Leo, 
e, no s absorve os dialectos morabes do Sul, como marginaliza pouco a pouco as 
falas asturianas, leonesas, aragonesas e navarresas. Discute-se muito se o Catalo se 
integraria originariamente no romano hispnico ou no occitnico. Mas, seja como for, 
a sua semelhana em relao  Langue d'oc relaciona-se com a sua situao de ponte 
entre a Pennsula e o Sul da Frana, e ainda talvez com certas influncias de um 
comum substrato pr-romano. Quanto ao Galego-Portugus, pode ter-se diferenciado 
(como o Leons) de um fundo mais arcaico galego-asturiano; a tese, muito controversa, 
segundo a qual o Portugus teria assim uma origem fundamentalmente nortenha, embora 
recentemente reforada por investigaes lingustico-etnogrficas, parece dever 
considerar-se como descrio muito simplificada de um processo de formao na 
realidade mais complexo. Vrios linguistas salientam certos caracteres 
especificamente conservadores do romano do Noroeste, e em especial do Portugus, 
relativamente ao Latim (futuro e condicional separveis, como em am-lo-ei, atestando 
a per frase latina originria; manuteno mais tardia de certas vogais finais que, 
por metafonia, vieram a fechar no singular masculino a vogal tnica de palavras como 
porco, e, em geral, persistncia da gama voclica de quatro graus de abertura do mais 
arcaico romance ocidental: , , ; , ; i, 11; infinito pessoal, resultante do 
imperfeito do conjuntivo latino, ou/e do uso com sujeito independente; resposta 
afirmativa com o verbo da pergunta, em vez da partcula sinttica sim). Outros 
apontam certas caractersticas de uma transformao maior do que a dominante no resto 
da Pennsula (evoluo, anterior ao sculo lX, dos grupos iniciais p1-, c]- e flpara 
a africada tch, que viria a grafar-se ch; sncope, nos sculos X-XI, de 1 e ri 
intervoclicas, o qual deixou vestgio na nasalidade da vogal anterior, o que 
acarretaria consequncias fonolgicas e at morfolgicas importantes). O Noroeste 
hispnico foi mais tardia e imperfeitamente romanizado, pelo que manteve restos da 
primitiva sociedade agrcola comunitria, que ainda hoje se verificam em Rio de Onor, 
entre outros vestgios etnogrficos.

Entre a romanizao e a reconquista das monarquias neogticas, a Pennsula conheceu o 
domnio de vrias aristocracias guerreiras germnicas (Alanos, Vndalos, Suevos e 
Visigodos) e a ocupao muulmana. Mas tais conquistas no alteram fundamentalmente a 
estrutura lingustica latina.

Quanto aos invasores germnicos, isso explica-se pelo facto de eles no constiturem 
mais que minorias militares, ainda prximas dos seus tempos nmadas, que acabaram por 
ser assimiladas pela aristocracia j estabelecida e romanizada,  qual se tinham 
passageiramente sobreposto. Por isso se limitaram a introduzir algum vocabulrio 
referente, principalmente, aos seus usos tpicos de guerra, vesturio e outros que, 
de facto, prevaleceram (o corte da roupa ocidental ainda hoje  o de origem 
germnica, como as prprias palavras portuguesas roupa e fato), alm de nomes 
prprios de lugar e sobre-

             19
tudo de pessoas: Henrique, Afonso, Mendo, etc. Mas muitas das palavras germnicas 
assimiladas pelo Portugus chegaram  Pennsula antes dos invasores brbaros, porque 
haviam j sido introduzidos no Latim que os Romanos aqui trouxeram (guerra, guarda, 
bando, elmo, feltro, etc., palavras que tambm se encontram noutras lnguas romnicas 
de alm-Pirenus), pelo que  extremamente escasso o vocabulrio directamente 
introduzido por estes invasores nas lnguas peninsulares.

Quanto aos rabes, portadores de uma civilizao comercial e de novas tcnicas 
agrcolas, criaram na Pennsula centros urbanos e substituram a aristocracia agrria 
anterior, impondo-se de facto  massa rural peninsular. Conservaram, portanto, com a 
sua civilizao superior, a sua l ngua, sem eliminar a lngua e a religio do povo 
dominado, dando lugar a uma situao comparvel  que existiu em Inglaterra durante 
algum tempo aps a invaso normanda, com a sua lngua de corte (Francs) e a sua 
lngua rural (Anglo-Saxo). Chegou a haver um comeo de interpenetrao das duas 
lnguas, principalmente nos centros urbanos, de que resultou o Morabe, fala popular 
de estrutura romnica mas com numeroso recheio vocabular arbico - fenmeno que 
lembra tambm o da assimilao pelos Anglo-Saxes de um considervel vocabulrio 
francs, na origem do Ingls moderno. O domnio rabe foi todavia pouco duradouro em 
grande parte da Pennsula, e superficial mesmo em certas regies politicamente 
muulmanas. Por isso, da sua lngua, to estranha ao Romano, no ficou qualquer 
influncia notvel de estrutura morfolgica ou sintctica, mas sim um vocabulrio de 
certo vulto, relativo  vida econmica e administrativa e em que sobressaem nomes 
referentes a novos cultivos, tcnicas e instituies introduzidas pelos rabes 
(azeite, arroz, algodo, azenha, nora, acar, aorda, all,res, alcaide, algarismo, 
armazm, almude, lcool, etc.), e a curiosa expresso oxal (= *queira Deus+). 
Importa notar que a diferenciao do romano ocidental, anterior  Reconquista, quase 
coincide com a rea de uma civilizao megaltica neo- e calcoltica, de infiltrao 
litoral, que decai depois do advento do Ferro com os Celtas e, depois, com os 
Romanos.

Evoluo da lngua portuguesa

De fins do sculo IX at incios do sculo XIII, que  de quando datam os textos 
redigidos em Portugus de maior antiguidade indiscutvel, quer notariais (Notcia do 
Torto, talvez anterior a 1211, o testamento de D. Afonso II, 1214), quer literrios 
(cantigas de Joo Soares de Paiva e de D. Sancho I, de cerca de 1200, pois se provou 
ser-lhes posterior a cantiga da garvaia de Paio Soares de Taveirs), decorre a fase 
proto-histrica do nosso idioma, isto , aquela que s se pode reconstituir por 
mtodos histrico-comparativos ou  base de documentos *em Latim Brbaro+ .

Desde fins do sculo XII at cerca de meados do sculo XVI, em que o Portugus comea 
a sujeitar-se a uma disciplina gramatical e escolar, decorre o seu perodo chamado 
arcaico, embora o seu arcasmo de ento seja muito menor que o do Francs nos seus 
mais antigos textos conhecidos do sculo IX. De incio, a reconquista do Ocidente

20
peninsular traduziu-se, linguisticamente, por uma expanso para o Sul da fala galega 
e da sua aparentada de Entre Mondego e Minho,  custa dos falares morabes, que o 
domnio rabe influenciara lexicalmente e, isolando-os, mantivera numa estrutura 
gramatical mais prxima das origens latinas. Mas a formao de condados e depois de 
um reino aqum-Minho, a sucessiva consolidao da sua fronteira na linha do Mondego e 
depois na do
Tejo, por fim a conquista do Alentejo e do Algarve, a centralizao do Estado 
monrquico em Lisboa, que se tornou mais efectiva na dinastia de Avis, fizeram 
sobrelevar  influncia nortenha da conquista e colonizao agrcola a influncia 
meridional dos novos centros polticos e administrativos.  possvel, por isso, 
distinguir no perodo arcaico da lngua portuguesa uma primeira fase, at cerca de 
1350 (e portanto coincidente, como
veremos, com a fase inicial da literatura, que se caracteriza pela preponderncia do 
Galego, cujo prestgio e uso literrio se estendia ento  pr pria corte rgia 
castelhana). Das primitivas interpenetraes dos dialectos peninsulares do Ocidente 
restam ainda hoje, no
distrito de Bragana, algumas bolsas dialectais a atestar colonizaes leonesas 
(dialectos das comunidades rurais arcaicas de Miranda do Douro, Rio de Onor e 
Guadramil).

A partir de meados do sculo XIV, o Portugus comum e literrio resulta de uma rpida 
fuso e evoluo lingustica realizada sobretudo em Lisboa, com grande influncia dos 
dialectos meridionais, que deu  fontica portuguesa certas caractersticas talvez 
morabes. Se j nas cantigas de D. Dinis, por exemplo, de fins do sculo XIII, se 
observam alguns traos distintivos relativamente ao Galego, por incios do sculo XV 
os prprios poetas da Galiza esto sensivelmente castelhanizados, e a sua fala, antes 
to florescente, transforma-se em dialecto arcaizante de uma provncia de Castela. O 
dialecto interarrinense (isto , de Entre Douro e Minho) cedo fez, tambm, figura de 
arcaico, e por incio do sculo XVI Gil Vicente atribua aos camponeses da Beira o 
linguajar que usava como nota cmica de rusticidade,  maneira daquilo que no teatro 
espanhol se fazia
ento com o Leons.

Com efeito, a lngua portuguesa passara desde cerca de 1350 por uma rpida evoluo 
fontica.

No decorrer dela assistimos aos seguintes fenmenos, entre outros:
1) Uniformizam-se, j por incios do sculo XV, diversas terminaes nasais, que 
convergem no ditongo -o, um dos fonemas mais tpicos do idioma portugus moderno: 
manum > mo (dissilabo) > mo (monosslabo); panem > pan > po; leonem > > Icon > 
leo; multitudinem > multide > multidon > multido; sunt > son > so.

Discute-se ainda o processo desta convergncia, num alis rico sistema de vocalismo 
nasal originado pela queda arcaica do -n- intervoclico. Notemos que, quando se trata 
de nomes no singular, os respectivos plurais mantm-se diferentes: -os, -cs, -es 
correspondem, em geral, s terminaes latinas -anos ou -anus, -anes, e -ones ou -
udines, respectivamente.

2) Numerosos hiatos, provenientes da queda de consoantes sonoras intervoclicas do 
Latim, acabam por contrair-se, fenmeno quej principia a verificar-se hesitantemente

              21
na mtrica trovadoresca e que a conveno grfica mascara durante bastante tempo; 
outros hiatos (nomeadamente -o e -a) sero desfeitos pela epntese da semivogal que 
gratamos como i: credete > creer > crer, populum > poboo > povo; foedum > lo > > 
feio; cenam > ca > cea > ceia.

3) Modificam-se os timbres voclicos de certas terminaes, que ento ainda se 
pronunciavam abertas ou fechadas consoante a origem latina: comparativos sintticos 
do tipo de melhor e maior, que tinham o o fechado, passam a t-lo aberto; nos 
pronomes eu, meu, teu, seu e em deus o ditongo, anteriormente aberto (eu), fecha-se 
(u),  maneira de formas verbais como sofreu.

4) As terminaes verbais da segunda pessoa do plural em -ades, -edes, -ides ou -ade, 
-ede, -ide esto no sculo XV reduzidas: amades e amade do amais, amai; devedes e 
devede do deveis, devei; partides e partide do partis e parti.

5) Uniformiza-se a pronncia de certas sibilantes que a conveno grfica ainda hoje 
distingue e que se mantm distintas em certos dialectos; o x de enxada tinha o valor 
actual, mas o ch de sacho valia tch, pronncia nortenha que os gramticos 
seiscentistas ainda recomendam; o s simples ou dobrado no se pronunciava como no 
Portugus padro de hoje, em que se confunde, ora com o c antes de e ou de i, ora, na 
posio intervoclica, com o z; em servo, saber, passo e, por outro lado, em cousa as 
sibilantes tinham um valor mais aproximado de ch e dej, respectivamente, valores que 
ainda conservam em certas zonas nortenhas, ao passo que o c antes de e ou i (cervo, 
cima), o  e o z, que j no sculo XVI se pronunciavam como hoje, tinham sido 
pronunciados at ento como consoantes africadas, respectivamente ts e dz.

Sob o ponto de vista morfolgico, verifica-se, nomeadamente:
1) A biformizao quanto ao gnero dos nomes terminados em -or, -o] e ~s (senhor, 
espanhol e portugus, por exemplo, podiam, antes, ser do gnero feminino).

2) A generalizao do gnero feminino aos nomes em -agem (bom linhagem, diz ainda 
Ferno Lopes).

3) A sobreposio de um sistema ternrio de demonstrativos este, esse, aquele (isto, 
isso, aquilo) a um sistema binrio com redundncias (estelaqueste ou estolisto, 
oposto a aquel(e) e aquelo, ainda no estando esse ligado  2. > pessoa).

4) A eliminao dos possessivos femininos ma, ta, sa, dos pronomes e adjectivos 
interrogativos cujo e quejando, e de outras formas como omem (cf. Francs on), i (ai) 
en ou ende (da, disso), da partcula enftica er ou ar, da conjuno causal, 
comparativa ou integrante, ca, etc.


Sob o ponto de vista sintctico, desaparecem, entre outras, certas construes 
partitivas e a dupla negao que o Francs manteve, o gerndio com regncia 
prepositiva como em Ingls (sem teendo), a frequncia de anacolutos e de outras 
construes logicamente frouxas. Torna-se desde o sculo XVI mais frequente a 
anteposio do artigo definido aos possessivos (o meu).

Esta evoluo processa-se mais ou menos espontaneamente, pelo jogo dos factores 
histrico-sociais apontados, mas h um aspecto, o da uniformizao e padronizao de

22 
variantes lingusticas, que decerto corresponde a uma inteno preparatria da 
posterior codificao gramatical. Factos como a organizao escolar eclesistica e 
universitria, a praxe de redigir os diplomas oficiais e notariais em lngua 
portuguesa, com o abandono do *Latim Brbaro+ desde o reinado de D. Dinis, a 
multiplicao das tradues para portugus que desde ento se verifica na corte e nos 
institutos religiosos - devem ligar-se com a racionalizao e polimento do idioma. O 
estudo do Latim eclesistico e, desde o sculo XV, o do Latim clssico contribuem 
para a disciplina da lngua portuguesa. J no Cancioneiro Geral, de finais desse 
sculo e incios do sculo XVI,  visvel uma latinizao que principia por ser 
meramente grfica mas acaba por tornar-se fontica, e de que resultar a sobreposio 
de formas eruditas como inveja, virtude, acto, glria, conscincia s formas mais 
espontneas enveja, vertude, auto, grrca, concincia. Esta latinizao, que afecta 
sobretudo o vocabulrio mais culto e d lugar a formas divergentes, opera-se 
principalmente com o Humanismo e com o ensino jesuta posterior.

Aos sculos XVII e XVIII pouco resta a fazer, morfologicamente, isto , na estrutura 
fundamental do idioma, para se atingir a configurao do Portugus moderno: a 
biformizao, quanto ao nmero, da forma pronominal lhe (alis ainda hoje invarivel 
na fala rural), segundo uma tendncia de resto j medieval; a eliminao no uso oral 
do auxiliar haver como alternante de ter; o desuso do mais-que-perfeito do indicativo 
com o valor de imperfeito do conjuntivo ou de condicional (eu o fizera, se pudera), e 
pouco mais. Sob o ponto de vista fontico,  ento que o s e o z finais adquirem a 
actual pronncia palatal dominante, em vez da fricativa dental que se mantm em 
certas regies do Brasil; que o ch perde a sua africao em tch; que o o pretnico 
(por exemplo: em comer) acaba por tornar-se equivalente a um u tono. Rvah e 
Herculano de Carvalho discutiram (1959 e 1962-63) at quando se teriam mantido os 
valores  e  do o e e tonos finais, que o Galego ainda hoje conserva, sendo de crer 
que eles existissem, embora oscilantemente, at ao sculo XVIII. Em contraste com a 
fala brasileira, inicia-se ento em Portugal um processo de alteamento e/ou recuo 
articulatrio e at emudecimento das vogais tonas.
O r velar principiar s em fins do sculo XIX a sua irradiao, ainda hoje em curso, 
 custa do r apical, e entretanto o e fechado origina a fechado na pronncia lisboeta 
de expresses como dei, vejo, fecho, telha e na terminao -em, anteriormente no 
ditongada.

Pode, em resumo, dizer-se que por meados do sculo XVI est concludo o essencial 
desta evoluo, que  principalmente fontica, como vimos. O sculo XV serve de 
charneira s transies mais importantes:  vulgar encontrarmos em Ferno Lopes, D. 
Duarte, D. Pedro e, depois, no Cancioneiro Geral, formas e construes arcaicas ao 
lado de outras modernas.

Papel dos Gramticos, Dicionaristas e Escritores

Para a fixao do Portugus padro contribuem largamente a lngua literria e o 
trabalho dos gramticos e tericos da lngua.


Data de 1536 a primeira gramtica portuguesa, de Ferno de Oliveira, que  sobretudo 
uma fontica com grande senso lingustico. Segue-se-lhe a pouca distncia a de Joo

           23
de Barros (1540), que inicia um processo de relatinizao grfica e fontica do 
Portugus. O primeiro dicionrio Portugus-Latim e Latim-Portugus, da autoria de 
Jernimo Cardoso, falecido em 1569, foi editado em 1570. A preocupao de exaltar e 
cultivar o idioma acentua-se desde meados do sculo XVI (Barros, Cames, Antnio 
Ferreira, J. Ferreira de Vasconcelos, Ferno lvares do Oriente, Rodrigues Lobo), 
numa reaco de fundo popular contra a tendncia de unificao dinstica 
castelhanizante, atingindo o auge sob a dinastia filipina, no sculo XVII. Publicam-
se ento numerosos estudos gramaticais, como Origem da Lngua Portuguesa (1606) de 
Duarte Nunes do Leo, que j em 1576 publicara uma Ortografia da Lngua Portuguesa; o 
Mtodo gramatical para todas as lnguas (1619) de Amaro de Roboredo, representativo 
de mtodos novos ento introduzidos no ensino gramatical; dicionrios de Portugus-
Latim como o de Agostinho Barbosa (1611) e prosdias latino-portuguesas como a de 
Bento Pereira (1634).

No sculo XVIII, finalmente, o problema da lngua adquire um cunho pedaggico e 
prtico. Lus Antnio Verney pugna pelo ensino da lngua materna, que ento ainda se 
subordinava inteiramente ao Latim nas escolas, e por uma reforma ortogrfica 
simplificadora; Rafael Bluteau publica o importante Vocabulrio Portugus e Latino, 8 
volumes, entre 1712 e 1721, que serviu de base aos dicionrios posteriores da lngua 
portuguesa, a comear pelo Dicionrio da Lngua Portuguesa de Morais e Silva, 1. a 
edio
1789, ampliado sucessivamente pelo prprio autor at  4. > edio, pstuma (1831); 
Cndido Lusitano (Francisco Jos Freire) ocupa-se principalmente do uso literrio nas 
suas Reflexes sobre a lngua portuguesa (edio pstuma, 1842); o esforo de vrios 
ortografistas e ortofoneticistas desde o ltimo quartel do sculo XVI culmina em 1767 
num tratado de Ortografia de Frei Lus de Monte Carmelo, a melhor obra congnere at 
A. R. Gonalves Viana (1892). A Academia das Cincias empreende a publicao do seu 
Dicionrio da Lngua Portuguesa, que alis no passou do 1. O volume (1793), reedio 
actualizada e aumentada em 1977. O facto capital foi o alvar pombalino de 1770, que 
instituiu o ensino do Portugus nas escolas mdias, limitado alis a seis meses.

Apesar deste trabalho dos tericos da lngua, no chegou a formar-se uma instituio 
comparvel  Academia Francesa (1634) pela sua aco na disciplina lingustica.


Ao longo deste livro, acompanharemos a evoluo do Portugus literrio, que se no 
confunde com a lngua falada. Por agora convm notar apenas que o Portugus literrio 
, sobretudo a partir do Romantismo, uma lngua duplamente seleccionada. Em primeiro 
lugar,  a lngua de certas camadas sociais, urbanas e alfabetizadas, com 
possibilidades, hbitos culturais e econmicos de leitura. Raramente os dialectos das 
populaes rurais ou as grias socioprofissionais conseguem penetrar nas obras 
literrias, a no ser quando existe da parte do escritor a inteno de documentar 
certas peculiaridades lingusticas, em geral estilizando-as. Essa inteno encontra-
se em alguns dramaturgos, como Gil Vicente e Ferreira de Vasconcelos, em alguns 
romancistas, como Herculano (O Proco da Aldeia), Camilo Castelo Branco (Novelas do 
Minho, Brasileira de Pra-

24 
zins, etc.), Aquilino Ribeiro (Terras do Demo) e outros. Todavia, o jornal e 
ultimamente a radioteleviso tendem a uniformizar a lngua falada, segundo um modelo 
de lngua escrita corrente. Este processo est mais adiantado nas populaes urbanas 
que nas rurais. Desde o decnio de 1960 intensifica-se a difuso de registos orais 
urbanos.

Sobre esta linguagem do grupo social mais cultivado, o escritor realiza uma segunda 
seleco, apurando dela, segundo critrios vrios (lgicos, estticos e outros), 
certos termos e construes frsicas. Mas no  apenas a linguagem corrente a que 
influi sobre o escritor:  tambm a tradi o literria que o precede, e ainda as 
lnguas cultas estrangeiras. Sob estas influncias, a lngua literria tende por 
vezes a artificializar-se, afastando-se muito da lngua corrente, sobretudo da lngua 
falada pelas camadas mais largas da populao. Esta tendncia  contudo 
contrabalanada pela necessidade, em que o escritor se encontra, de se exprimir com 
vivacidade; por isso se verificam, como vamos ver, ao longo da histria literria, 
reaces no sentido de vivificar a linguagem escrita. No entanto, ao aproveitar a 
sintaxe, o lxico ou mesmo a fontica da fala oral, o escritor insere-as sempre em 
estruturas estilsticas inovadoras, em geral mais complexas. H estudiosos que 
pretendem caracterizar um estilo, pessoal ou de escola, por um conjunto de desvios em 
relao a uma norma gramaticalizada, mas esta caracterizao puramente negativa no 
basta. No se trata da simples alterao de um cdigo de regras aceites, mas da 
instituio de um novo cdigo parcial, nascido dos prprios textos, e no 
preestabelecido a eles. E, na medida em que os textos so dramticos, isto , na 
medida em que o autor se distancia das suas prprias personagens em dilogo, ou de um 
narrador fictcio, o estilo da obra abrange a arte de conotar tais personagens, ou 
tal narrador fictcio, pelos modismos da sua linguagem, e de marcar o seu 
relacionamento espcio-temporal e de atitude discursiva, para alm da simples arte de 
denotar, ou designar objectos, ideias (funo narrativa, pica, descritiva, didctica 
... ), ou da arte de simplesmente se exprimir, desabafar, expandir intuies, 
sentimentos (atitude lrica). Talvez no haja estilo literrio em que estas trs 
funes fundamentais no coexistam, embora em grau varivel.

BIBLIOGRAFIA

1 - REFLEXES PRELIMINARES

Estudos-de teoria e anlise literria:

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consulta), e A History of Modern Criticism, 1, li, 1955, trad. port., So Paulo, 1967 
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Wimsatt, W. K./Brooks, Cleanth: Crtica Literria, 1957, trad. port., Fund. C. 
Gulbenkian, 1971.

              25
Silva, Vtor M. de Aguiar e: Teoria da Literatura, vol. 1, Almedina, Coimbra, 8. ed., 
1988 (com extensa bibliografia).

Lopes, scar: Ler e depois, Modo de ler, Porto, 1969, 3. > ed. respect. 1971 e 72 
(desenvolvem pontos de vista deste livro). 
Cndido, Antnio: Literatura e Sociedade, So Paulo, 1965.

Kayser, Wolfgang: Anlise e Interpretao da Obra Literria, 6. > ed. port. refundida 
segundo a 16. alem, trad. de Paulo Quintela, Armnio Amado, Studium, Coimbra, 1979.

Ingarden, R.: A Obra de Arte Literria, trad. port., Fund. C. Gulbenkian, 1973 (ponto 
de vista fenomenolgico).

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Texto Artstico, trad. port., Estampa, 1978. 
Eco, Umberto: Obra Aberta, Difel, 1989, trad. do original ital. de 1962; La Structure 
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Todorov, T.: Potique de Ia Prose, Paris, 1971; Thories ou Symbole, 1977; Potica, 
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Brmond, Claude: Logique ou Rcit, 1973. 
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Tacca, O.: As Vozes do Romance, trad. port., Almedina, 1983.

Iniciao elementar  narratologia:

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Literatura- Texto, vol. 17 da Enciclopdia Einaudi, trad. port., IN-CM, 1989.

Algumas obras fundamentais colectivas:

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Les Chemins Actuels de la Critique, Paris, 1966 (Centre Culturel de Cerisy); 
Lingustica e Literatura, trad. port. da rev. *Langages+, 12 (1968), Lisboa, 1976; 
Thorie d'Ensemble, Paris, 1968 (grupo Tel Qual); 
Rezeptionsthetik, org. de R. Warning, W. Fink Verlag, Munique, 1975; Marxismus und 
Literatur, org. F. J. Raddatz, 3 vols., Rowohlt, Hamburgo, 1969.

Chabrol, Claude: Smiotique narrative et textuelle, Paris, 1973 (antologia de 
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1977 (antologia trad.. e coment. de problemtica marxista, semiolgica e 
estruturalista). Extensa apreciao de conjunto, sob um ponto de vista prximo da 
filosofia ps-modernista, de tradio nietzschiana e heideggeriana, que desvaloriza a 
razo

26
cientfico-positiva, humanista e progressista a favor da abordagem retrica, 
desconstrucionista e pragmtico-lingustica: Coelho, Eduardo Prado, Os Universos da 
Crtica, Edies 70, 1982.

Textos de 1

Lyotard, J.-F.: A Condio Ps-Moderna, trad. port., Gradiva, 1979. 
Vattimo, G.: O Fim da Modernidade, trad. port., Presena, 1987. 
*Revista Crtica das Cincias Sociais+, 24, Maro 1988.

Desconstrucionismo:

Derrida, J.: La Dissmination, Seuil, 1972; Marges de Ia Philosophie, Minuit, 1972. 
Norris, C.: Deconstruction, Methuen, 1982.

Obras de introduo  esttica da recepo., Jauss, H. R.: Histria Literria como 
desafio  Cincia Literria. Literatura Medieval e Teoria dos Gneros, trad. port., 
Porto, 1974.

Nisin, A.: La Littrature etle Lecteur, Les OEuvres etles SicIes, Editions 
Universitaires, Paris, 1960.

Creacin, y Pblico en Ia Literatura Espafiola, colab. colect. selec. por J.-F. 
Botrel y S. Saian, Editorial Castalia, Madrid, 1974.

Lima, Lus Costa: A Literatura e o Leitor. Textos de Esttica da Recepo, Paz e 
Terra, Rio de Janeiro, 1979.

Para estudo da terminologia:

Morier, Henri: Dictionnaire de Potique et de Rhtorique, 2. > ed. ref., Paris, 1975 
(muito desenvolvido). 
Ducrot, O./Todorov, T.: Dictionnaire Encyclopdique des Sciences ou Langage, Paris, 
1972 (sobretudo baseado no estruturalismo francs).

Lausberg, Heinrich: Elementos de Retrica Literria, trad. acresc., F. C. Gulbenkian, 
1966 (pouco manusevel, mas informativo; tem ampla bibliografia portuguesa).

Robles, Sainz de: Ensayo de un Diccionario de Ia Literatura, Madrid, 1954. Princeton 
Encyclopedia ofPoetry ano Poetics, org. A. Preminger, New Jersey, 1972. 
Angenot, Mare: Glossrio da Crtica Contempornea, trad. port., Comunicao, 1984, do 
original francs de 1979.

Carreter, Lzaro: Diccionario de Trminos Filolgicos, 5. > ed., Gredos, Madrid. 

Reis, Carlos/Lopes, Ana Cristina M.: Dicionrio de Narratologia, Almedina, 1987. 

Propostas de semiologia literria podem ser acompanhadas pela revista 
*Communications+, Paris, de que existem antologias em portugus na Editora Vozes, 
Petrpolis. 

Obras auxiliares importantes: 

Durand, Gilberto: As Estruturas Antropolgicas do Imaginrio, trad. port., Presena, 
1989; 
Chevalier, J./Gheerbrand, A.: Dictionnaire des Symboles,

              27
4 vols., Sghers, 1 973-74;,Aziza, C130livieri, CI./Patrick, R.: Dictionnaire des 
Symboles et des Thmes Littraires, Nathan, 1978.

O problema de demarcar a literatura brasileira  discutido pelos dois vols. da 
Formao da Literatura Brasileira, de Antnio Cndido, 2. > ed., So Paulo, 1963, e 
sumariamente exposto, de um ponto de vista nativista, por Afrnio Coutinho em 
Conceito de Literatura Brasileira, Rio de Janeiro, 1960, e Introduo  Literatura no 
Brasil, 2. > ed., Rio, 1964.

II - ORIGENS E EVOLUO DA LNGUA PORTUGUESA

Latim vulgar e lingustica romnica

Grandgent, C. H.: Latim Vulgar, trad. esp., Madrid, 1928, manual clssico, reed. 
1952. 
Maurer Jnior, Theodoro H.: Gramtica do Latim Vulgar, 1969, e O Problema do Latim 
Vulgar, Rio, 1962.

Neto, Serafim da Silva: Histria do Latim Vulgar e Fontes do Latim Vulgar, 3. a ed., 
rev. e melhorada, Rio, 1956.

Vannen, V.: Introduction au Latin vulgare, 2. > ed., Estrasburgo, 1967, trad. 
esp., Gredos, 1968.

Haadsma, R. A./Nucheimans, J.: Prcis de latin vulgaire, Groningen, 1963. Herman, 
Joseph: Le Latin vulgaire, col. *Que sais-je?+, n. > 1217, 1967. Daz, Manuel C. Daz 
y: Antologia dei Latin Vulgar, 2. > ed. aum. e rev., Gredos, Madrid. 
Vidos, B. E.: Manual de Lingustica Romnica, trad. do it. por Francisco B. Moli, 
Madrid, 1968, reed. 1973.

Wartburg, W. von: La tragmentacin lingistica de Ia Romania (trad. esp., Gredos, 
Madrid, 2. ed. aum.).

Bourciez, E.: lments de linguistique Romane, S. ed. rev., Paris, 1967. Eleock, W. 
D.: The Romance languages, Londres, 1960. 
Rohlfs, Gerhard: Dferenciacin lxica de Ias lenguas romnicas, trad. esp., Madrid, 
1960.

Lausberg, H.: Lingustica Romnica, trad. port., F. C. Gulbenkian, 1974, de um 
original de 1956, reed. 1963-67.

Bec, Pierre: Manuel Pratique de Philologie Romane, 2 vols., Paris, 1970-71. lordan, 
I.: Introduo  Lingustica Romnica, trad. port., F. C. Gulbenkian, 1973. 
Ldtke, H.: Historia dei Lxico Romnico, trad. esp., Madrid (Gredos), 1974. Meyer-
Lbke, W.: Romanische Etymologisches Wrterbuch, 4 vols., Heidelberga,
1956 e segs.


Revistas: 
*Romania+ (desde 1872), Paris; *Revue de Linguistique Romane+ (desde
1925), Paris; *Romanistiches Jahrbuch+, Hamburgo (desde 1947).

Ver ainda as Actas dos Congressos de Filologia e Lingustica Romnicas, o ltimo dos 
quais se realizou em 1989.

28 
Elia, Slvio: Preparao  Lingustica Romnica, Rio de Janeiro, 1974. Wright, Roger: 
Latin Tardio y Romance Temprano, Gredos, 1989, trad. esp. de original ingls de 1982 
(papel do renascimento carolngio no sc. IX e da imposio do rito romano na 
Pennsula (sc. XIX) na conscincia de diferenciao das lnguas romnicas 
ocidentais).

Lingustica hispnica geral

Enciclopedia lingstica hispnica, dirigida por M. Alvar, A. Bada, R. de Baibn, L. 
F. Lindiey Cintra, C.S.I.C., Madrid, tomos 1 e ll, e um Suplemento, 1960-67.

Pidal, R. Menndez: Manualde Gramtica Histrica Espanla, 10. ed., Madrid, 1958; 
Origenes del espaol. Estado lingistico de Ia Pennsula Ibrica hasta el siglo XI, 
9. > ed., corr. e aumentada, Madrid, 1980, obra fundamental; El Idioma espahol en sus 
primeros tiempos, Madrid, 6. > ed., 1964, resumo do anterior; Historia de Espafla, 
obra colectiva de que se publicaram de 1947 a 1956 os primeiros tomos, os que mais 
interessam como fundo histrico para a evoluo lingustica; Espafia y su historia, 2 
tomos, Madrid, 1956 e 1957, onde se renem e actualizam vrios estudos do autor.

Maurer Jnior, Theodoro H.: A Unidade da Romnia Ocidental, ed. da Universidade de 
So Paulo, 195 1.

Entwistle, W. J.: The Spanish language together with Portuguese, Catalan and Basque, 
Londres, 1969, trad. esp., Madrid, 1973.

Rohlf s, Gerhard: Manual de filologia hispnica. Guia bibliogrfica, crtica y 
metdica, Bogot, 1957.

Lapesa, R.: Historia de Ia Lengua Espa15ola, 9. > ed. rev., Gredos, Madrid, 198 1. 
Corominas, Juan/Pascual, J. A.: Diccionario crtico etimolgico castellano y 
hispnico, 5 vols., Gredos, Madrid, 1980-83, que interessa a todo o domnio 
lingustico hispnico (h uma ed. abrev.: Breve diccionaro etimolgico de Ia lengua 
castellana, Gredos, Madrid, 3. > ed. rev., 1973).

Baldinger, Kurt: La Formacin de los domnios linguisticos en ta pennsula Ibrica, 
trad. esp., 2. aed. corr. e muito aum., Gredos, Madrid, 1963, com extensa 
bibliografia crtica classificada.

Tavani, Giuseppe: Preistoria e protoistoria delle lingue ispaniche, Japadre Editore, 
L'Aquila, 1968 (ampla bibliografia, exposio clara).

Catain, Diego: Lingistica bero-Romnica (Crtica Retrospectiva), Gredos, Madrid,
1974.

Introdues             actualizada:



5ric _qeral Lara, Manuel Tun de, e outros: Historia de Espafia, 1, Introduccin, 
Primeras Culturas y Hspania Romana, Labor, Barcelona, 3. > ed., 1982.

Alarco, Jorge: Portugal Romano, 3. @ ed. rev., Verbo, Lisboa, 1983, e O Domnio 
Romano em Portugal, Europa-Amrica, 1988.

Serro, Joei/Marques, A. H. de Oliveira: Nova Histria de Portugal, vol. 1: Portugal 
das Origens  Romanizao, Editorial Presena, 1990.

              29

Lingustica galaico-portuguesa

Obras clssicas cujos dados precisam de maior ou menor actualizao:

Coelho, Adolfo: A Lngua Portuguesa. Noes de glotologia geral e especial 
portuguesa, 3. > ed., emendada, Porto, 1896.

Dias, Augusto Epifnio da Silva: Sintaxe Histrica Portuguesa, S. > ed., Lisboa, 
1970. Vasconcelos, J. Leite de: Lies de Filologia Portuguesa, 3. > ed., organizada 
por Serafim da Silva Neto, Lisboa, 1959, e Esquisse d'une dialectologie portugaise, 
2. > ed., 1970.

Vasconcelos, Carolina Michalis de: Lies de Filologia Portuguesa, reed. da *Revista 
de Portugal+, Lisboa, 1956, e Dinalivro, Porto, s/d.

Nunes, J. Joaquim: Compndio de Gramtica Histrica Portuguesa, 7. > ed. corr. e 
aum., Lisboa, 1969.

Viana, A. R. Gonalves: Estudos de Fontica Portuguesa, Lisboa, 1973 (reunio, com 
pref. de L. F. Linciley Cintra e J. A. Peral Ribeiro, de quatro estudos datados de 
1883 e 1903).

Viterbo, Frei Joaquim de Santa Rosa: Elucidrio       1 de arcasmos, 1. a ed., 2 
vols.,
1798-99; 2. > ed. rev. e aum., 1865; 3. 1 ed. rev. e aum., 2 vols., 1965-66, Porto.

Rbecamp, Rudolf: A linguagem das Cantigas de Santa Maria de Afonso X o Sbio, in 
*Boletim de Filologia+, t. 1, 1932-33, e t. li, 1933-34.

Piei, J. M.: Estudos de Lingustica Histrica Galego-Portuguesa, IN-CM, 1989.

Obras mais actualizadas:

Cuesta, Pilar Vsquez/Luz, Maria Albertina Mendes da: Gramtica Portuguesa, 3. ed. 
corr. e aum., 2 vols., 197 1, sobre a distribuio geogrfica e a histria do galego-
portugus, Gredos, Madrid, com larga bibliografia por assuntos.

Neto, Serafim da Silva: Manual de Filologia Portuguesa, 2. ed,, melhorada e 
aumentada, na *Biblioteca Brasileira de Filologia+, Rio de Janeiro, 1957, 
essencialmente constitudo por uma bibliografia histrico-crtica e uma exposio de 
problemas e mtodos; Histria da lngua portuguesa, 1952, 3. a ed. aum., Presena, 
Rio de Janeiro, 1979, deficiente no que respeita ao portugus literrio; e A 
Constituio do Portugus como lngua nacional, in *Arquivos da Univ. de Lisboa+, 19, 
1960, pp. 103-116.


Huber, Joseph: Gramtica do Portugus Antigo, 1933, trad. port., F. C. Guibenkian,
1986.

Bolo, Manuel de Paiva: Introduo ao Estudo da Filologia Portuguesa, ed. rev., 
Lisboa, 1946, e Estudos de Lingustica Portuguesa e Romnica, vol. 1, tomos 1 e li, 
Acta Universitatis Conimbrigensis, 1974-75.

Ali, M. Said: Gramtica Histrica da Lngua Portuguesa, 7. > ed. corr. e aum. de 
obras com outros ttulos, Ed. Melhoramentos, So Paulo, 197 1.

Williams, Edwin B.: Do Latim ao Portugus, 3. ed., Rio de Janeiro, 1975, trad. de 
From Latin to Portuguese, Filadlfia, 1938, reed. original ibidem, 1962.

Teyssier, Paul: Histria da Lngua Portuguesa, trad. port. corr. e aum., S da Costa, 
Lisboa, 1982; e, em conjunto, as Actas do IX Congresso de Lingustica Romnica, 
publicadas pelo Centro de Estudos Filolgicos, Lisboa, 1961.

30
Maia, Clarinda de Azevedo: Histria do Galego-Portugus [       ... 1, desde o sc. 
X111 at ao sc. XVI, 1007 pp., INIC, 1986 (baseada em 168 docs. no literrios de 
1255 a 15 16, em anexo).

Silva, Rosa Virgnia Mattos e: Estruturas Trecentistas - Elementos para uma gramtca 
do Portugus Arcaico, IN-CM, 1989 (baseia-se na anlise de uma traduo trecentista 
dos Dilogos de So Gregrio).

Convm no isolar a consulta das obras de escopo especial, galaico-portugus, 
relativamente s de escopo geral hispnico ou romnico. As obras com mais extensa 
bibliografia referem-se a revistas por meio das quais o estudioso pode manter-se 
actualizado,

Principais dicionrios etimol                ua_@7r@u_q4esa-. o de Antenor 
Nascentes,
2. > tiragem, 1955, Rio de Janeiro, e o de Jos Pedro Machado, 1952, 3, a ed. em 5 
vols.,
1977, com datas das mais antigas documentaes escritas conhecidas das palavras; ver 
a propsito deste ltimo as Anotaces de M. A. Tavares Carbonne Pico, insertas em 
*Revista de Portugal+, srie A, Lngua Portuguesa, XXVI-XXX11, desde o n. O 200, 
Dezembro de 1961, bem como as rectificaes de A. G. Cunha, sobre A Cronologia do 
Vocabulrio Portugus, nos vols. 111 e seguintes da *Revista Brasileira de 
Filologia+, Rio, e as anotaes de Lorenzo, Ramn: Sobre cronologia do vocabulrio 
galego-portugus, ed. Galaxia,
1968, 3. a ed., em 5 vols., do mesmo dicionrio, 1978. Do mesmo autor, Para o 
Dicionrio do Portugus Antigo, in *Revista de Portugal+, srie A, XXX1, e Influncia 
Arbica no Vocabulrio Portugus, Lisboa, 1958.

Bueno, F. da Silveira: Grande Dicionrio Etimolgico-Prosdico da Lngua Portuguesa, 
So Paulo, 1963.

Machado, Jos Pedro: Dicionrio Onomstico Etimolgico, 3 vols., Lisboa, 1986. Lapa, 
M. Rodrigues: Estilstica da lngua portuguesa,     11  aed., rev. e aum., Coimbra 
Editora, 1984.

Obras em que a lingustica se relaciona com problerna-shistricos e etn             f 
ic os. _ogrf _ Carvalho, Jos G. C. Herculano de: Estudos Lingusticos 1, Lisboa, 
1964, 2. > ed., Coimbra, 1973, H, Coimbra, 1969, e 111, Coimbra, 1984.

Cintra, Lus F. Lindley: A Linguagem dos foros de Castelo Rodrigo 1 ... 1. 
Contribuio para o estudo do leons e do galego-portugus do sculo XIII, Centro de 
Estudos Filoigicos, Lisboa, 1959, reimp. fac-similada, IN-CM, 1984, que incide sobre 
o Leons e o Galego-Portugus do sc. X111; Estudos de dialectologia portuguesa, S 
da Costa, Lisboa, 1983; e o artigo Les Anciens Textes Portugais non Littraires. 
Classement et bibliographie, in *Revue de Linguistique Romane+, t. XXVII, n. > 105-
106, Jan.-Junho de 1963.


Costa, Avelino de Jesus da: Os mais antigos documentos escritos em portugus, in 
*Revista Portuguesa de Histria+, XVII, 1979, pp. 263-341.

Naro, A. J.: Estudos Diacrnicos, trad., Petrpolis (Vozes), 1973. Bibliografia 
geral:

Santos, Maria Jos de Moura: Os Estudos de Lingustica Romnica em Portugal desde
1945 a 1960, sep. do vol. 11 do *Suplemento Bibliogrf ico+ da *Revista Portuguesa de 
Filologia+, Coimbra, 1966. Alm desta Revista, cujo ltimo vol., XVI, referente a 
1972-74,

            31
saiu em 1976, publica-se em Portugal o *Boletim de Filologia+, cujos tomos 23 e 24 
(1974-75) contm, entre outros, estudos de gramtica transformacional do Portugus.

Em Readings in Portuguese Linguistics, org. por Jrgen Schmidt-Radefeidt, North-
Holland Linguistic Series, 1976, h uma ampla bibliografia classificada segundo reas 
gramaticais do Portugus, em apndice a 12 estudos originais.

Ver ainda Carvalho, J. G. Herculano de/Schmidt-Radefeit J. (org.): Estudos de 
Lingustica Portuguesa, Coimbra Editora, 1984.

Ferreira, Jos de Azevedo: Bibliografia Selectiva da Lngua Portuguesa, ICALP, 1989. 
Revistas brasileiras: *Boietim de Filologia+, Rio de Janeiro; *Estudos 
Lingusticos+, So Paulo; *Revista Brasileira de Filologia+, Rio de Janeiro; 
*Revista de Letras+, Assis (So Paulo); *Alfa+, Marlia.

Principais investigaes em curso: 
o Centro de Lingustica das Universidades de Lisboa est a elaborar os dados de 
inquritos sobre o Portugus Fundamental; recolhe desde
1972 dados para o Atlas Lingustico-Etnolgico de Portugal e da Galiza e para o Atlas 
Linguarum Europae; e estuda a Gramtica da Entoao do Portugus (ver Bibliografia 
Dialectal Galego-Portuguesa, 1976, e *Boletim de Filologia+, tomos 22, 23, 24 - 1964-
73,
1974, 1975 -). H importantes edies crticas recentes de textos no-literrios 
medievais por Jos de Azevedo Ferreira (Braga) e Ana Maria Martins (Lisboa), entre 
outros.

Principais selectas de textos arcaicos

Vasconcelos, Leite de: Textos Arcaicos, 5. a ed., Imp. Nacional, Lisboa, 1970 
(comentrio minucioso).

Nunes, J. J.: Crestornatia Arcaica, 7. > ed., Lisboa, 1970, com introduo 
lingustica, breves notas e glossrio; Florilgio da literatura portuguesa arcaica, 
Lisboa, 1932, com notas e glossrio.

Tavares, Jos Pereira: Antologia de Textos Medievais, *Clssicos S da Costa+.

Lapa, Rodrigues: Crestomatia Arcaica, col. *Textos Literrios+, 1976. Com introduao 
 e notas. (A mais acessvel.)

Oliveira, Corra de/Machado, Saavedra: Textos Portugueses Medievais, 5. ed., Coimbra 
 Editora, 1974.

35
PRIMEIRA POCA: DAS ORIGENS A FERNO LOPES

Captulo I

INTRODUO

DAS ORIGENS A FERNO LOPES: A SOCIEDADE 

Na poca em que Portugal se constitui como estado independente, em meados do
sculo XII, encerra-se na Europa Ocidental o perodo em que a economia, a sociedade, 
a vida poltica e a cultura estiveram dominadas pela economia rural de auto-
subsistncia. Verifica-se aqui e alm um novo surto mercantil; em face dos castelos, 
sobranceiros aos domnios senhoriais, brotam as vilas e cidades povoadas de 
*burgueses+. Os produtos da terra comeam a ser lanados e procurados nos mercados 
pela gente citadina. Entre o senhor, que usufrui do rendimento da terra, e o servo, 
que o produz, novas classes
se instituem, quer ligadas ao trabalho rural, como os pequenos proprietrios e os 
rendeiros livres, quer a novas actividades econmicas, como os mesteirais, os 
mercadores e negociantes de dinheiro.

As circunstncias da Reconquista na Pennsula Ibrica, exigindo uma militarizao 
mais disciplinada, determinaram certos aspectos peculiares nas formas jurdicas e 
polticas que as relaes senhoriais aqui assumiram; isso levantou mesmo a certos 
historiadores, como Herculano, o problema da existncia ou inexistncia, na Idade 
Mdia peninsular, do feudalismo, concebido este segundo o estrito modelo francs 
medieval. No
entanto, a menor descentralizao poltica e administrativa das monarquias ibricas 
relativamente  carolngia e capetngia, as manifestaes relativamente precoces da 
autonomia concelhia peninsular, o facto de a principal nobreza portuguesa estar 
sujeita, no a uma cadeia de dependncias pessoais, mas a um servio rgio pago 
mediante contias monetrias - no desmentem este facto essencial: a relao 
econmico- soci al
dominante era tambm entre ns (e no podia deixar de ser) a da renda rural. Como 
observa Armando de Castro, as prprias contias representam a redistribuio pela 
nobreza de uma parte do excedente que o rei obtinha dos seus mais vastos domnios 
prprios e dos tributos concelhios. Deve no entanto salientar-se o seguinte: a 
aristocracia neogtica

36 
adaptou-se a certas condies (como a directa chefia monrquica e certa autonomia das 
populaes viloas importantes) que lhe permitiram desalojar uma outra aristocracia 
militar-rural, a muulmana, j estruturada sobre uma rede de economia mercantil e 
monetria; e, pelo que especialmente nos importa, o reino fundado por D. Afonso 
Henriques foi j bafejado pelo desenvolvimento europeu das foras produtivas e do 
comrcio que se relaciona com as Cruzadas, cujas frotas colaboraram alis na 
conquista dos nossos portos meridionais e os inseriram nas rotas comerciais ento a 
estender-se desde o Bltico at ao Mediterrneo oriental.

Existiu, por conseguinte, desde as origens do reino de Portugal, uma navegao 
costeira e comercial que activava portos martimos, como Lisboa e Porto, e portos 
fluviais de acesso ao interior, como Coimbra e Santarm. Discute-se muito o grau de 
importncia de uma actividade mercantil, que j nos relacionava com outros pases da 
Europa, e da burguesia comercial correspondente.  de considerar  parte a burguesia 
judaica, que se dedicava especialmente ao comrcio do dinheiro e desempenhava um 
papel activo na administrao financeira da casa real e das grandes casas senhoriais. 
As produes mais caractersticas da economia portuguesa (fruta, azeite, vinho, mel, 
sal, peixe salgado, couros) propiciavam uma exportao que, em navios portugueses ou 
estrangeiros, se cruzava com a importao de cereais, txteis, etc.

No entanto, a aristocracia feudal, constituda pela nobreza e pelo clero, cuja base 
econmica eram as prestaes em dinheiro, trabalho ou gneros a que estavam sujeitos 
os agricultores (colonos ou servos), no deixava de ter em Portugal uma posio 
dominante. A nobreza, que se sustentava tambm dos despojos da guerra contra os 
rabes, j concluda em 1249 com a conquista do Algarve, era sobrepujada pelo clero, 
quer em nvel de cultura, quer em poderio econmico, quer ainda porque ele estava 
apoiado na organizao internacional da Igreja e fortalecido pela primazia geralmente 
reconhecida, nos sculos XII e XIII, ao *poder espiritual+ (ou seja, o poder 
eclesistico) sobre o poder civil. Os reis de Portugal consideram-se durante muito 
tempo vassalos da Santa S; e calcula-se que no sculo XIV os rendimentos totais do 
clero e da coroa eram pouco mais ou menos equivalentes.

Convm distinguir entre o clero secular (arcebispos, bispos, procos) e o clero 
regular, que vive em regime comunitrio e obedece a uma regra especial.  este ltimo 
que desempenha o papel mais activo na histria da cultura. Ao constituir-se o Estado 
Portugus, existiam j no seu territrio vrios conventos, alguns muito antigos, que 
se tinham mantido sob ocupao rabe, como o de Lorvo. Nos primeiros anos da 
monarquia, so fundados dois importantes conventos, o dos Cnegos Regrantes de Santa 
Cruz de Coimbra e o dos Cistercienses em Alcobaa. Ambos, sobretudo o ltimo, exercem 
uma importante funo cultural.


Em meados do sculo XIII, introduzem-se em Portugal as ordens mendicantes 
Franciscanos e Dominicanos, principalmente - que se dedicam ao apostolado das novas 
populaes urbanas, rompendo o isolamento em que se confinavam os Beneditinos e 
Cistercienses. Alcanam, desde o inicio, uma posio preponderante na corte e 
extraordinria influncia nas camadas populares.

            37
O poder real estava limitado pelos privilgios do clero, das casas senhoriais e dos 
concelhos, que exerciam sobre os seus territrios uma grande parte dos poderes 
administrativos hoje confiados ao Estado. Para alcanar a ajuda do clero, nobreza e 
concelhos, sobretudo quando necessitava de recursos financeiros, o rei reunia as 
cortes, assemblia de representantes daqueles trs *estados+, cujo parecer tinha 
menor ou maior peso conforme as circunstncias. A Casa Real, embora decisivamente 
superior s outras casas
senhoriais, era ainda relativamente pobre e modesta, constituda por reduzido nmero 
de pessoas. O rei viajava pelo Pas usufruindo dos seus direitos de aposentadoria, 
procurando os locais de mais fcil abastecimento e de melhores condies sanitrias 
contra a peste, mal endmico, embora residisse com mais frequncia em certas cidades, 
como Coimbra, na 10 dinastia. S a partir de D. Pedro haver instalao permanente 
para o arquivo do Reino, e s a partir de D. Joo I ser Lisboa reconhecida como 
capital. Mas j no reinado de D. Afonso III se notam sintomas do desenvolvimento da 
vida sumpturia na corte, que correspondem ao progresso da actividade mercantil nos 
portos portugueses, e se acentuam no reinado de D. Fernando.

As instituies de cultura

Antes da inveno da imprensa, os livros reproduziam-se pelo processo de cpia 
manuscrita em folhas de pergaminho. A produo de manuscritos era lenta e cara, e a 
sua circulao extremamente reduzida. Anteriormente ao sculo XIII, s nos conventos 
existiam condies para o trabalho da produo de manuscritos. Mais tarde, 
constituem-se corporaes de escribas profissionais, principalmente  volta das 
Universidades. Este processo de reproduo d causa a variantes e interpretaes de 
manuscrito para manuscrito, segundo um processo at certo ponto comparvel ao da 
reproduo por via oral. Desta forma, alguns textos em que entraram muitas mos 
acabam por poder considerar-se de autoria colectiva.  o caso, como veremos, de 
Amadis.

Em Portugal, os conventos com oficinas de manuscritos foram principalmente os

de Lorvo (que j existia sob o domnio muulmano), Santa Cruz de Coimbra e Alcobaa. 
Neste ltimo reuniu-se a maior livraria medieval portuguesa.

Mas a escrita constitua um meio acessrio de transmisso da cultura; temos de contar 
com a transmisso oral, atravs de jograis-recitadores, cantores e msicos ambulantes 
que divulgam nas feiras, castelos e cidades um repertrio musical e literrio, por 
vezes acolhido e estilizado em cortes senhoriais e rgias. Desempenham um papel 
importantssimo os pregadores eclesisticos, que estabelecem a ligao entre o saber 
livresco e as massas populares.

As duas literaturas - a oral e a escrita - apresentam caractersticas muito 
diferentes. Ao passo que os livros produzidos ou reproduzidos nos conventos, 
destinando-se sobretudo  preparao dos clrigos e ao servio religioso, consistiam 
principalmente em tratados e obras de devoo escritos em latim, o repertrio dos 
jograis, pelo contrrio, dirigido a um pblico iletrado de viles, burgueses e 
nobres, servia-se das lnguas

38 
locais, inspirava-se na vida e interesse desse pblico e consistia sobretudo em 
poemas e narrativas versificadas.  com os jograis que nascem as literaturas 
romnicas e os gneros modernos de fico, tais como o poema lrico e o romance.

A cultura literria e cientfica por via escrita e escolar estava muito pouco 
disseminada, e restringiu-se, durante muito tempo, aos clrigos. A palavra clrigo 
(francs clerc) tornou-se sinnima de letrado. Em troca, pode falar-se de uma cultura 
*tradicional+, transmitida oralmente, que fixava padres de vida, uma viso do mundo, 
uma escala de valores, um patrimnio literrio oral, ditames de sabedoria prtica, 
etc.

As mais antigas escolas de que h notcia em territrio portugus so as escolas 
episcopais ou catedrais, destinadas  preparao do futuro clero, que funcionavam 
junto das ss, regidas por um membro do cabido, o *mestre-escola+; e as escolas 
conventuais, destinadas especialmente  instruo dos novios. Destas ltimas 
distinguiu-se a de Alcobaa. O ensino ministrado nas escolas episcopais e conventuais 
de que h notcia em Portugal no excederia muito os rudimentos da lngua latina; e 
quem queria adquirir instruo superior tinha de frequentar as universidades 
estrangeiras, entre as quais os estudantes portugueses preferiam as de Paris, 
Mompilher e Bolonha.

Desde o comeo do sculo XII desenvolvera-se na Europa o grande movimento das 
universidades, escolas de Direito, de Teologia e de Filosofia aristotlica que 
transbordavam dos quadros pedaggicos da Igreja. As universidades desempenham um 
papel capital tanto na Igreja como no Estado, pois ali se preparam os telogos e os 
letrados indispensveis a uma e outro. S em 1290 se propaga a Portugal este 
movimento, com a fundao, no reinado de D. Dinis, do Studium Generale de Lisboa, 
escola concebida segundo o modelo da de Bolonha. O seu programa inclua cadeiras de 
Gramtica e Lgica (as duas primeiras do Trvium, ao qual falta a Retrica), 
Medicina, Direito Cannico e Civil, e, a partir da segunda metade do sculo XIV, a 
Filosofia Natural. baseada na Fsica de Aristteles. A Teologia ficava reservada aos 
conventos dos mendicantes. Aps um perodo de vaivm entre Lisboa e Coimbra, a 
Universidade portuguesa fixou-se em Lisboa a partir de 1377, at  reforma de D. Joo 
III (1536). A sua histria durante esta fase da sua existncia parece no ter sido 
brilhante, e muitos escolares portugueses continuam a procurar universidades fora do 
Pas.

O ambiente cultural na Europa


 viragem da vida social e poltica iniciada no sculo XII corresponde uma viragem na 
vida cultural.  nesta poca que verdadeiramente se inicia o renascimento geral da 
cultura que vir a dar os seus melhores frutos na grande Renascena do sculo XVI. Ao 
mesmo tempo que o feudalismo declina e as cidades se multiplicam, desenvolvem-se as 
universidades, traduzem-se obras desconhecidas de Aristteles, no meio de agitadas 
polmicas; surgem e alastram heresias, quer de origem universitria, como o 
Averrosmo latino, nascido em Paris, quer de expresso popular, como a dos Ctaros ou 
Albigenses,

           39
reprimida a ferro e fogo. Atravs dos Valdenses e de outros, divulga-se entre os 
leigos a leitura da Bblia. Os Franciscanos e outras ordens adaptam s camadas laicas 
certas preocupaes doutrinrias, que at ento quase s existiam nos conventos. Na 
arte,  austeridade macia e guerreira do estilo romnico sucede a riqueza, 
diversidade e elegncia do estilo gtico, possibilitado pelo progresso do artesanato 
e pela riqueza da burguesia urbana.

A expresso caracterstica do feudalismo guerreiro na literatura foram os cantares 
picos, como os Niebelungos, as sagas nrdicas e as canes de gesta francesas. No 
sculo XIII, as canes de gesta francesas, das quais a mais clebre  a Chanson de 
Roland, esto j entradas em declnio. Mas na Pennsula Ibrica, devido possivelmente 
 persistncia da mentalidade guerreira por aco das lutas contra os rabes, o gosto 
da literatura herica prolonga-se at mais tarde, como veremos.

Em contraste com o sentimento gregrio, hierrquico e brbaro das canes de gesta, e 
com os seus temas sanguinolentos, o lirismo oriundo da Provena (seria mais exacto 
ampliar esta designao e dizer Occitnia, domnio lingustico da Langue d'oc, no Sul 
da Frana actual, regio que desempenhou um papel privilegiado na reanimao 
comercial do Mediterrneo, com as Cruzadas),  marcadamente individualista, suprime 
as distncias sociais com o salvo-conduto do amor, transpe a ideia de vassalagem ao 
plano da submisso do amante, e canta o que h de delicado, subtil e suave na mulher 
e na Primavera. Por outro lado, graas a antecedentes que ainda hoje se discutem, os 
poetas occitnicos aparecem-nos senhores de uma tcnica de expresso 
surpreendentemente desenvolvida. Atingidos pela represso desencadeada contra os 
hereges albigenses, os seus trovadores e jograis dispersam-se pelas cortes de Itlia, 
Arago e outras regies, onde divulgam a sua arte. Os Provenais tornaram-se, desta 
maneira, por incios do sculo XIII, os mestres de toda a poesia medieval posterior.

O florescimento e a propagao do lirismo provenal correspondem ao desenvolvimento 
da vida da corte, que se concentra em torno dos reis e dos grandes magnates 
senhoriais. O nobre adapta-se  vida sedentria e mundana, e cria novos interesses. 
s canes picas, relegadas para as populaes rurais, sucede nas cortes o romance 
corts em prosa, que da Frana do Norte irradia para toda a Europa. O facto de ser 
redigido em prosa atesta o progressivo deperecimento do jogral e da literatura 
cantada e o desenvolvimento de um pblico com capacidade crescente de leitura ou de 
ateno seguida. Originado possivelmente nas lendas nacionais e nos motivos 
folclricos dos Celtas da Gr-Bretanha, desde cedo um dos ciclos de romances dessa 
poca - o ciclo breto - corresponde ao ambiente e aos interesses da vida de corte, 
de que a Tvola Redonda do Rei Artur , afinal, uma idealizao.


O ciclo novelstico breto adaptou-se, ao longo do tempo, a diversos gostos e 
influncias religiosas que orientam os seus heris para a busca do Santo Graal, 
smbolo da Graa divina, e contrapuseram aos heris amorosos, como Tristo e 
Lanarote, heris ascticos, como Galaaz e Perceval.

40

Outros temas ainda (mormente da Antiguidade, transmitidos, tal como numerosos
lugares-comuns retricos, pelo clero letrado de corte: Tria, Alexandre, Jlio Csar) 
confluram no intenso caudal do romance corts, cuja procura s veio a esgotar-se no 
sculo XVIII, quando deu lugar  caricatura de Cervantes no Don Quijote de la Mancha.

Mas outras fontes de inspirao, alm da aristocrtica, convergem na literatura. O 
desenvolvimento das universidades e o consequente surto da Escolstica relacionam-se 
com uma literatura sbia mas dirigda a um vasto pblico, que usa largamente das 
alegorias ou personificaes de ideias abstractas e tem o seu principal monumento no 
Roman de la Rose, que , em parte, uma stira da nobreza, da corte, das ordens 
mendicantes e de outras instituies medievais. O progresso das cidades incentiva uma 
literatura satrica e realista, representada pelo Roman de Renard, espcie de pardia 
de epopeia, pelos fabliaux (contos em verso), pela farsa, pelo lirismo burgus do 
Norte da Frana, que conta entre os seus cultores Adam de Ia Halle e Rutebeuf, Toda 
esta literatura de ambiente citadino e inspirao burguesa ou popular est animada de 
esprito antinobilirquico e anticlerical.

Note-se que a civilizao medieva no caminha em toda a parte ao mesmo ritmo. A 
Itlia conhece muito cedo o triunfo do capitalismo mercantil, e isso possibilita o 
aparecimento de uma cultura de tipo novo, prenunciada por Dante e, j desde o sculo 
XIV, representada por Petrarca, Boceaccio, pelo pintor Giotto. Mas esta nova esttica 
no  ainda assimilvel pelo resto da Europa.

A literatura portuguesa e as literaturas peninsulares

Anteriormente a Ferno Lopes, deve falar-se de uma literatura de lngua portuguesa 
(inicialmente galego-portuguesa) dentro do mbito de uma cultura peninsular. Se h na 
Idade Mdia uma literatura ibrica de raiz autnoma em relao  do resto da 
Pennsula,  a literatura catal, intimamente ligada (at por afinidade lingustica) 
 cultura occitnica de alm-Pirenus. Esta literatura peninsular em lngua 
portuguesa e galego-portuguesa foi cultivada na corte de Fernando III e sobretudo na 
de Afonso X, o Sbio, reis de Castela e Leo, e seus sucessores. Mas  a 
personalidade poltica portuguesa, so as cortes dos seus reis, os mosteiros de Santa 
Cruz e Alcobaa, que lhe asseguram continuidade.

Como vamos ver em pormenor, algumas das obras que geralmente se incluem no
patrimnio literrio portugus medieval so produzidas noutras regies na Pennsula, 
como sucede com grande parte das composies dos Cancioneiros primitivos, e com as 
Cantigas de Santa Maria de Afonso X, o Sbio; outras so obras de portugueses sobre 
matria de interesse para toda a Pennsula, caso da Crnica Geral de Espanha de 1344; 
outras, ainda, foram veiculo, dentro da Pennsula, de correntes literrias 
transpirenaicas, caso

da traduo do ciclo do Graal, depois retraduzda para castelhano. H o caso de um 
texto cuja nacionalidade se discute e que  produto de uma cultura peninsular comum, 
podendo indiferentemente ter nascido em portugus ou castelhano: a primeira verso do 
Amadis de Gaula.

41
O perodo aqui considerado ainda, portanto, no se diferencia integralmente como fase 
da histria literria portuguesa; trata-se de uma literatura que a precede e prepara, 
de lngua portuguesa mas em certa medida regional, dentro da Ibria.

A literatura portuguesa pode considerar-se emancipada com o advento da dinastia de 
Avis. Inicia-se ento a prosa doutrinal portuguesa original com D. Duarte e uma 
historiografia nacional com Ferno Lopes. Mas at ao sculo XVIII as relaes entre a 
literatura castelhana e a portuguesa sero to ntimas, que alguns dos mais notveis 
escritores portugueses, como Gil Vicente, Cames, S de Miranda, D. Francisco Manuel 
de Melo, ilustram as duas lnguas, prolongaram a sua influncia em ambos os lados da 
fronteira e pertencem por isso a ambas as literaturas. No sculo XVI a palavra 
*Espanha+, tal como a empregam, por exemplo, Joo de Barros e Cames, servia para 
designar o conjunto peninsular em que os Portugueses se consideravam includos, e 
essa acepo do termo mantm-se at ao sculo XVIII.

BIBLIOGRAFIA

Como introduo  problemtica actual e fontes de histria medieval ver dois teis 
vols. da *Nouvelle Clio+, Paris: Le X111 Sicle Europen, 1968, e UOccident aux XIV 
et XVsicIes, 1971.

Fourquin, G.: Histria Econmica do Ocidente Medieval, trad. port., Edies 70, 
Lisboa, 1981. Ver ainda na col. Li, A. Colin, Paris: Fossier, Robert: Histoire 
Sociale de l'Occident Mdival, 1970, e Paul, Jacques: Histoire Intellectuelle de 
l'Occident Mdival, 1973 (com larga bibliografia),

Bloch, Marc: La Socit Fodale, col. *L'volution de I'Humanit+, 2 vols. Lopez, 
Robert S.: A Revoluo Comercial da Idade Mdia 950-1350, trad. port., Editorial 
Presena, Lisboa, 1980 (original ingls de 1976; ampla viso global; tem bibliografia 
crtica).

Barbero, Abilio/Vigil, Marcelo: La formacin del feudalismo en Ia Pennsula Ibrica, 
Grijalbo, Barcelona, 1978 (exposio actualizada dos problemas relativos ao processo 
social ibrico, incluindo o territrio portucalense, desde a romanizao ao sc. XI). 
Ainda quanto ao conjunto peninsular, Cortazar, J. A. Garca de: La poca Medieval, 
2. vol. da Historia de Espaa Alfaguara, 8. > ed., Madrid, 198 1.

Curtius, Ernest Rolhert: La Littrature Europenne et le Moyen-ge Latin, trad. 
francesa, Paris, 1956, da 2. > ed. alem de 1953; h tambm trad. para castelhano, 
pelo *Fondo de Cultura Econmica+, Mxico. (Obra capital para estudo da cultura 
literria medieval e do papel que ela representa como transmisso da cultura greco-
romana.)


Le Goff, Jacques: Les IntellectueIs au Moyen-ge, Seuil, Paris, 1969; Para um Novo 
Conceito de Idade Mdia - Tempo, Trabalho e Cultura do Ocidente, e A civilizao do 
Ocidente Medieval, 1 e li, trad. port., Estampa, Lisboa, 1983-84.

Badel, P. I.: Introduction  Ia vie littraire du Moyen ge, Bordas, Paris, 1969.

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Gourevitch, A. J.: Les Catgores de Ia Culture Mdivale, Gallimard, Paris, 1983. 
(Concepes medievais de tempo, espao, histria, direito, riqueza, trabalho, servio 
e

personalidade, em contraste com as da Antiguidade, dos Brbaros e do Renascimento.)

Duby, Georges: Les Trois Ordres ou L'Imagnaire du Feudalisme, Gallimard, 1978; Le 
Temps des Cathdrales, Gallimard, 1976; L'Europe au Moyen-ge, Flammarion, 1978, 
traduzidos em port., Teorema, 1989; Le Chevaler, Ia femme et le prte, Hachette, 
1981; A Europa na Idade Mdia, Teorema, 1989, trad. do original francs de 198 1.

Aris, Philippe/Duby, G.: Histria da Vida Privada do Tempo Feudal ao Renascimento, 
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Bezzola, Reto R.: La Formation des Littratures Nationales e Les Genres Littraires 
au Moyen-ge, in Histoire des Littratures, 2, *Encyclopdie de Ia Pliade+. (Obra de 
larga sntese, com abundante bibliografia.)

Nos ltimos decnios tem-se assistido a uma reinterpretao da literatura medieval  
luz da esttica da recepo, de novas teorias do texto e dos sistemas e subsistemas 
tpicos e formais de cada perodo. Salientemos: Guiette, R.: Questions de 
littrature, Gand,
1960-72; Segre, C.: 1 Segni e Ia critica, Turim, 1969; Jauss, H. R.: Histria 
literria como desafio  cincia literria. A literatura medieval e a teoria dos 
gneros, trad. port., Porto,
1974, ou, mais amplamente, o conjunto dos seus estudos de 1956-76, Alteritt und 
Moderntt des Mittetalterlichen Lteratur, W. Fink Veriag, 1977, trad. it. refundida 
Altert e Modernt della Letteratura Medievaie, Boringheri, Milo, 1989; Zurnthor, 
Paul: Essai de potique mdivale, Seufl, 1972, Langue, texte, nigme, 1975, e Parler 
du Moyen-ge, Minuit, 1980. H dois artigos de sntese por P. Zurnthor e H. R. Jauss 
em *Potique+, 3 1, Setembro de 1977. Teses dominantes: alteridade dos textos 
medievais relativamente a ns, o que recomenda uma abordagem atravs das sucessivas 
recepes histricas; anonimato fundamental desses textos, sua oralidade, 
instabilidade e integraco em tradies e subtradies conflituais; 
insubstancialidade dos gneros, sua dependncia quanto aos sistemas de oposies 
caractersticas de cada poca e suas mudanas de funo; carcter convencional e 
formal da poesia medieva, sobretudo corts.

Herculano, Alexandre: Cartas sobre a Histria de Portugal, sobretudo 4. > e 5. >, in 
Opsculos, vol. 5.O, e Histria de Portugal, com notas de Jos Mattoso, 4 vols., 
Bertrand, Lisboa, 1980-8 1. Convm atender a precises e correces de Gama Barros, 
Alberto Sampaio, Rui de Azevedo, David Lopes, Mennclez Pidal, Paulo Mera, Snchez-
Albornoz, T. Sousa Soares, e outros. Outros contributos de ainda maior actualizao 
em Alexandre Herculano  Luz do Nosso Tempo, vol. colectivo da Academia Portuguesa de 
Histria,

1977, nomeadamente o de Humberto Baquero Moreno sobre Herculano e a Histria Social e 
Econmica, e os artigos concernentes do Dicionrio de Histria de Portugal, dir. por 
Joel Serro, 4 vols., 1963-7 1.

Corteso, Jaime: Os Factores Democrticos na Formao de Portugal, cap. 1 da Histria 
do Regimen Republicano em Portugal, vol. 1, 1930, reed. em Obras Completas, 1, 
Lisboa; O Sentido da Cultura em Portugal no sculo XIV, separata de *Seara Nova+, 
1956, (Obras estimulantes, mas a actualizar e rectificar.)

Castro, Armando de: A Evoluo Econmica de Portugal dos sculos X11 a XV, vols. -
iX, Portuglia, Lisboa, 1964-70, vol. X, Limiar, Porto, 1975, vol. X1, Caminho, 
Lisboa,
1979; Portugal,@ na Europa do seu Tempo - Histria Scio-Econmica Medieval Compa-

43
rada, Lisboa, 1970, livro que condensa e situa a matria da obra anterior; Lies de 
Histra de Portugal - As classes populares na formao, consolidao e defesa da 
naconalidade, scs, X11 a XV, Caminho, Lisboa, 1982.

Moreno, Humberto Baquero: Tenses Sociais em Portugal na Idade Mdia, Porto, 1976. 
Ribeiro, Oriando: Portugal, o Mediterrneo e o Atlntico, 1. a ed. 1945, S. > ed. 
rev. e ampi., J. S da Costa, 1987; Introdues Geogrficas  Histria de Portugal, 
IN-CM,
1977; A Formao de Portugal, ICALP, 1987 (importantes contributos expositivos ou 
crticos da geografia fsica e humana para a teoria da formao e histria de 
Portugal); Ribeiro, O.Xautensach, H.: com actualizao de Daveau, S.: Geografia de 
Portugal, 1, J. S da Costa, 1987, prevendo-se mais 3 vols. Ver ainda como 
contributos para actualizao na correco das teses *atiantistas+ da formao 
portuguesa os estudos de Fernando Castelo Branco sobre o *Litoral Portugus+ e a 
*Navegao Fluvial+, no Dicionrio de Histria de Portugal, dir. de Joei Serro, vol. 
11; e, mais genericamente, a discusso do condicionamento geogrfico em Castro, 
Armando de: Histria Econmica de Portugal, i vol. (Introduo), Ed. Caminho, Lisboa, 
1978.

Saraiva, A. Jos: Histria da Cultura em Portugal, vol. 1, livro 1, caps. 11 e lii, e 
O Crepsculo da Idade Mdia em Portugal, Gradiva, 1988.

Cruz, Antnio: Santa Cruz de Coimbra na Cultura Portuguesa da Idade Mdia, 1, 
*Biblioteca Portucalense+, Porto, 1963-64.

S, A. Moreira de: Primrdios da Cultura Portuguesa, in Arquivos de Histria da 
Cultura Portuguesa, 1, Lisboa, 1967 (sobre escolas, catedrais e monsticas, dos scs. 
Xi-Xii; no mesmo vol., outro artigo sobre o mesmo assunto de Francisco da Gama 
Caeiro).
O mesmo autor publicou o Chartularium Universitatis Portugalensis, 1 e li, 1966-68, 
respeitante  poca medieval.

Martins, Mrio: Estudos de Literatura Medieval, Braga, 1956. (Estuda o fundo medieval 
alcobacense.) Estudos de Cultura Medieval, 3 vols., *Brotria+, Lisboa, 1969, 1980 
(2. ed.), 1983.

Marques, A. H. de Oliveira: Guia do Estudante de Histria Medieval Portuguesa e

A Sociedade Medieval Portuguesa (Aspectos da Vida Quotidiana), publicados em Lisboa,
1964, sendo o primeiro (5. > ed. rev., J. S da Costa, 1987) uma obra fundamental de 
orientao bibliogrfica e arquivstica, e o segundo um panorama descritivo da vida 
social. Em seus Ensaios de Histria Medieval, Lisboa, 2. ed. 1980, encontrar-se-, 
alm de vrias monografias eruditas, uma formulao muito estimulante dos principais 
problemas da economia medieval portuguesa, com bibliografia adequada. Ver tambm a 
sua Histria de Portugal, i, Lisboa, com vrias ed.

Serro, J. Verssimo: Histria de Portugal (1080-1415), Verbo, Lisboa, 1977 
(informao erudita minuciosa, dentro de uma perspectiva histrica conservadora).

Saraiva, Jos Hermano: Histria Concisa de Portugal, Lisboa, 1978 (obra de 
divulgao).

Godinho, Vitorino Magalhes: Ensaios, li, Sobre a Histria de Portugal, 1969. (Contm 
dados e reflexes importantes sobre a periodizaco hist rica e a estrutura social e 
administrativa do Estudo portugus medievo.) Mito e Mercadoria, Utopia e Arte de 
Navegar, Sculos X111-XVIII, Difei, 1990 (ampla informao documental, metodolgica e 
problemtica).

44 Coelho, Antnio Borges: Portugal na Espanha rabe, antologia, em 4 vols., de 
textos de origem rabe sobre a poca da ocupao muulmana, Seara Nova, Lisboa,
1972-73-75; Comunas ou Concelhos, 2. ed. corr_ Caminho, 1986.

Mattoso, Jos: A Nobreza Medieval Portuguesa, Estampa, Lisboa, 1981, reed. 1987; 
Religio e Cultura na Idade Mdia Portuguesa, IN-CM, 1982; Identificao de um Pas, 
ensaio sobre as origens de Portugal (1096-1325), 2 vols., Estampa, Lisboa, 1985, 3. > 
ed. 1988; Fragmentos de uma Composio Medieval, Estampa, 1987. (0 papel da 
Reconquista, da monarquia e do processo de senhorializao, em que de certo modo se 
integraria o movimento concelhio e o progresso da cavalaria viloa, na formao da 
nacionalidade; o feudalismo em Portugal.) Reexposies condensadas em O Essencial 
sobre a Formao da Nacionalidade e O Essencial sobre a Cultura Medieval Portuguesa, 
ambos pela IN-CM, 1985, e em captulos de A Escrita da Histria, Estampa, 1988.

Condio fundamental para o estudo literrio  a fixao e correcta interpretao dos 
textos medievais, Ver alguns trabalhos de crtica geral ou especfica em Critique 
Textuelle Portugaise (Actes du Colloque de Paris, de 20 a 24 de Outubro de 1983), ed. 
da Fund. C. Gulbenkian, Centre Culturei Portugais, Paris, 1986.



Captulo ii

A POESIA DOS CANCIONEIROS

Os Cancioneiros primitivos

Quase todas as literaturas se iniciam por obras em verso. Exceptuando as novas 
nacionalidades resultantes da emigrao de Europeus a partir do sculo XVI, a poesia 
surge mais cedo do que a prosa literria. No  difcil explicar este facto: nas 
civilizaes do passado, a mais corrente forma de comunicao e de transmisso da 
obra literria no  escrita, mas oral. Antes de se fixarem no bronze, na pedra, no 
papiro, no papel ou no pergaminho, as histrias, as narrativas, e at os cdigos 
morais e jurdicos gravavam-se na memria dos ouvintes; e havia artistas que se 
encarregavam de as divulgar, os
aedos e rapsodos entre os Gregos, os bardos entre os Celtas, os jograis entre os 
povos romnicos medievais. O verso , inicialmente, entre outras coisas, uma forma de 
ritmar a fala que facilite a memria, quer esse ritmo se baseie em esquemas de 
contraste quanto  durao das slabas (caso do verso greco-latino), quer em esquemas 
de contraste de intensidade silbica reforados por aliteraes (caso da poesia 
germnica), quer no isossilabismo, isto , na regularidade quanto ao nmero de 
slabas reforada pela rima (caso das literaturas romnicas medievais), quer ainda 
noutras componentes fonticas. Vestgios desta literatura oral so ainda hoje os 
provrbios que, como facilmente se verifica, obedecem a ritmos ou recorrncias 
fnicas que facilitam a fixao. As literaturas romnicas medievais apoiam-se, como 
j notmos, na literatura oral, cujos principais agentes eram os jograis, embora, por 
via clerical, apreendessem certos teMas e lugares-comuns retricos de tradio greco-
romana, sobretudo desde a sua assimilao pelos trovadores corteses (e, na Pennsula, 
tambm pelos segris nobres de parcos recursos e tambm, por vezes, instrumentistas).

Os mais antigos textos literrios em lngua portuguesa so composies em verso 
coligidas em Cancioneiros de fins do sculo Xiii e do sculo XIV, que renem textos 
desde fins do sculo XII. Mas devemos supor muito

46 
anterior a tal poca o culto da poesia testemunhado por estes textos escritos. A 
literatura oral, com efeito, s se fixa por escrito em poca tardia da sua evoluo, 
quando as condies ambientes j divergem muito daquelas que lhe deram origem. 
Portanto seria errado pensar que a poesia portuguesa nasceu com os Cancioneiros; 
estes no passam de coleces, mais ou menos tardias, de textos que de incio 
circulariam em cpias mais restritas.

Uma parte, pelo menos, da poesia conservada pelos Cancioneiros supe um longo passado 
e uma tradio oral que nos levam a pocas muito mais remotas do que aquelas em que 
se compuseram os mais antigos poemas dos Cancioneiros, datados, como vimos, de fins 
do sculo XII. Adiante aludiremos s carjas (kharajat), que parecem revelar a 
existncia, no seio das populaes submetidas ao domnio muulmano, de uma poesia 
popular muito provavelmente precursora daquela que tais cancioneiros conservaram.

Conhecem-se trs Cancioneiros ou colectneas, alis estreitamente aparentadas entre 
si, de poemas de autores diversos em lngua galego-portuguesa.
O mais antigo, o Cancioneiro da Ajuda, foi provavelmente compilado ou copiado na 
corte de Afonso X, o Sbio, em fins do sculo XIII. Os outros, o Cancioneiro da 
Biblioteca Nacional (antigo Colocci-Brancutti) e o Cancioneiro da Vaticana (com uma 
variante recentemente descoberta), so cpias, realizadas em Itlia no sculo XVI, a 
partir de uma compilao que data provavelmente do sculo XIV.

Destes, o Cancioneiro da Ajuda  o menos completo, porque apenas abrange composies 
anteriores  morte de Afonso X, excluindo, por exemplo, a vasta produo de D. Dinis; 
e porque o seu coleccionador deixou de fora os gneros mais vulgares, isto , as 
cantigas de amigo e as de escrnio ou maldizer, de que adiante falaremos. Mas tem o 
interesse especial de o seu
manuscrito pertencer  prpria poca da maioria dos poetas seus colaboradores, e  um 
documento valioso, pela grafia, pela decorao e sobretudo pelas iluminuras, que 
testemunham o carcter cantado e instrumental, embora tenham sido deixados em branco 
os espaos destinados  notao musical, entre outros sinais de inacabamento.

Os cancioneiros da Vaticana e da Biblioteca Nacional, compilados depois da morte de 
Afonso X, abarcam um espao de tempo maior, isto , no s os poetas contemporneos 
de D. Afonso iii e anteriores, mas ainda os contemporneos de D. Dinis e de seus 
filhos; abrangem, por outro lado, todos os gneros de composies, e no s as 
cantigas de amor. Destes dois, o Cancioneiro da Biblioteca Nacional  o mais 
completo, pois inclui quase todo

47
o material recolhido no Cancioneiro da Vaticana e muito outro. O Cancioneiro da Ajuda 
contm 64 poesias n o transcritas nos outros dois. Um catlogo do coleccionador 
quinhentista italiano, ngelo Colocci, a quem se deve a preservao do Cancioneiro da 
Biblioteca Nacional, revela-nos que qualquer dos cancioneiros se encontra hoje 
mutilado.  bem possvel que estejamos em presena de sucessivas cpias de uma e a 
mesma coleco, que se
iria talvez encorpando pouco a pouco; e a fase mais importante da compilao deve ter 
sido a de certo *livro das cantigas+ mencionado no testamento
do conde de Barcelos, D. Pedro, filho de D. Dinis (1350). O conjunto abarca
1679 poesias de 153 autores identificados, alm de alguns annimos.

O mais antigo dos trovadores conhecidos dos Cancioneiros  Joo Soares de Paiva, 
nascido cerca de 1140, dois anos aps a batalha de Ourique, pertencente, portanto,  
gerao de Sancho i (a quem chegou a ser atribuda a autoria de uma cantiga, afinal 
de Afonso X). Isto situa o incio da literatura escrita portuguesa conhecida cerca de 
comeos do sculo XII.  plausvel relegar para depois dos dois trovadores 
mencionados a discutidssima Cantiga de Garvaia (manto escarlate) de Paio Soares de 
Taveirs, que os primeiros estudiosos datavam de entre 1189 e 1198. Rodrigues Lapa e 
G. Tavani aceitam 1196 e outros 1213 como data da mais antiga cantiga (de escrnio) 
de Soares de Paiva: Ora faz ost o senhor de Navarra. O trovador mais recente  o 
mencionado conde de Barcelos, falecido em 1354. (H trs autores quatrocentistas 
tardiamente inseridos na coleco trovadoresca.)

Os autores pertencem a diversas regies da Pennsula, e em grande parte viveram e 
poetaram na corte do rei de Leo e Castela: tal  o caso do rei Afonso X, o Sbio, e 
dos poetas da sua corte literria, muitos deles portugueses e galegos, que ocupam uMa 
parte importante dos Cancioneiros da Vaticana e da Biblioteca Nacional. No devemos 
imaginar todos, nem talvez mesmo a maior parte dos poetas dos Cancioneiros, no 
ambiente da corte de D. Afonso iii, de D. Dinis, ou da roda de seu filho, D. Pedro, 
conde de Barcelos, mas tambm em cortes senhoriais galegas e na corte leonesa-
castelhana, com o apogeu em Afonso X, o Sbio (1252-1284). O mais antigo jogral 
conhecido desta corte  referenciado eM 1136, sob Afonso VII, e tem o nome de Palha. 
Na realidade, os Cancioneiros no constituem coleces de poesia nacional, mas sim de 
poesia peninsular em lngua galego-portuguesa. Tudo se passa como se ocurresse no 
Ocidente ibrico uma s literatura romnica, mas polidialectal, consoante os gneros, 
como acontecera com a literatura grega clssica. Devemos acrescentar aos Cancioneiros 
profanos (ou,

48 
melhor dizendo, s trs verses do Cancioneiro profano) as Cantigas de Santa Maria, 
coligidas na corte de Afonso X e, em parte, da autoria deste rei. So para cima de 
quatrocentas, com refro e acompanhamentos musicais conhecidos, alternando sries de 
poesias narrativas sobre milagres da Virgem com
loas (cantigas de loor) que lhe so tambm dedicadas.

Os gneros dos Cancioneiros

Notmos que vrios gneros de poesia esto representados nos Cancioneiros da Vaticana 
e da Biblioteca Nacional. Este ltimo inclui tambm um tratado potico truncado, do 
sculo XIV (perdeu-se todo o texto anterior ao captulo IV da 3. a Parte), 
relativamente tardio, e com certa influncia francesa, que pretende classificar 
aqueles gneros e dar as suas regras.

Distingue este tratado trs gneros: as cantigas de amigo, as cantigas de amor e as 
cantigas de escrnio e maldizer.

A diferena entre as cantigas de amor e as de amigo consiste, segundo o mesmo 
tratado, em que nestas se supe que fala uma mulher, ao passo que naquelas o trovador 
fala em seu prprio nome. As cantigas de amigo so, portanto, quanto ao tema, 
cantigas de mulher, e o nome por que so conhecidas designa o seu objecto, o amigo ou 
amado geralmente referido logo no primeiro verso. Nas poesias dialogadas, o critrio 
de classificao , segundo a mesma arte de trovar fragmentria, o do ponto de vista 
sentimental dominante: o de elas ou o de eles.

Quanto s cantigas de escrnio e maldizer, so,  claro, de assunto satrico, e 
chamam-se de escRNio, se o poeta se exprime ironicamente, sugerindo uma apreciao 
oposta  que parece fazer, ou simplesmente se abstm de nomear o satirizado; de 
maldizer, se o poeta apoda ou acusa directa e nomeadamente.

Esta classificao corresponde  prtica da poesia de corte, tal como aparecia aos 
poetas palacianos do sculo XIV. Mas estes gneros tinham sofrido uma longa evoluo, 
partindo de origens diferentes, antes que viessem a alinhar lado a lado na poesia da 
corte, como modalidades diversas de uma mesma arte. A histria da cantiga de amor  
diferente da histria da cantiga de amigo, embora com ela venha convergir.

As cantgas de amIgo

Se atendermos sobretudo aos exemplos mais tpicos, os cantares de amigo no se 
distinguem dos de amor unicamente por ap>arecerem ali *elas+ e aqui *eles+ a falar, 
mas tambm por outras diferenas de forma e inteno.

49
Cerca de uma quarentena de tais cantigas, nomeadamente designadas como 
*paralelsticas+, apresenta uma estrutura rtmica e versificatria pr- pria, 
redutvel a um muito simples esquema. A unidade rtnica no  a estrofe, mas o par 
de estrofes, ou, mais precisamente, o par de dsticos, dentro do qual ambos os 
dsticos querem dizer o mesmo, diferindo s, ou quase s, nas palavras da rima, que 
so de vogal tnica a num dos dsticos de cada par, e i ou  no outro; o ltimo verso 
de cada estrofe  o primeiro verso da estrofe correspondente no par seguinte. Cada 
estrofe vem seguida de refro.

A este sistema deu-se o nome de paralelismo. Mediante ele,  possvel construir uma 
composio de seis estrofes e dezoito versos em que apenas h cinco versos 
semanticamente diferentes (incluindo o refro), como se v pelo seguinte esquema:

1. par

verso A

estrofe 1           verso  B

refro

verso A (variante de A) estrofe 2           verso B (variante de B)

refro

2. O par

estrofe 3

estrofe 4

verso B

verso C refro

verso B

verso U refro

3. O par

estrofe 5

estrofe 6

verso C

verso D refro

verso U

verso D refro

50
Um exemplo permitir compreender melhor este esquema:

Vayamos irmana, vayamos dormir nas ribas do lago hu eu andar vi

a Ias aves meu amigo.

Vayamos irmana, vayanios folgar nas ribas do lago hu eu vi andar

a Ias aves meu amigo.

Nas ribas do lago hu eu andar vi

seu arco na mo as aves ferir

a Ias aves meu amigo.

Nas ribas do lago hu eu vi andar

seu arco na mo a Ias aves tirar

a Ias aves meu amigo.

Seu arco na mo as aves ferir

a Ias que cantavan Icx-las guarir

a Ias aves nieu amigo.

Seu arco na mo a Ias aves tirar

a Ias que cantavam non nas quer matar

a Ias aves meu amigo.

(Fernando Esquio)

O refro sugere a existncia de um coro. A disposio das estrofes aos

pares e a alternncia das mesmas rimas ao longo de toda a composio dei~ xam 
entrever que se alternavam dois cantores ou dois grupos de cantores. A repetio,  
cabea de cada nova estrofe, do verso final duma estrofe anterior  talvez o vestgio 
de um primitivo processo de composio improvisada, que obriga um dos improvisadores 
a repetir o ltimo verso do outro, para o qual devia achar sequncia (lexa pren, 
processo que ainda subsiste nas quadras ao desafio). O facto, enfim, de, em virtude 
deste sistema de repeties, a letra se reduzir a um nmero pequeno de versos mostra-
nos que ela se subordinava ao canto e ao ritmo da dana, e que a inveno literria 
desempenhava, dentro deste conjunto, um papel relativamente secundrio. At h pouco, 
era s conhecida a notao musical para seis (das sete) cantigas do jogral galego 
Martin Codax; mas, como dissemos, as iluminuras

51
do Cancioneiro da Ajuda representam grupos instrumentais, que incluem viola de arco, 
guitarra, saltro, sonalhas, pandeiro, etc., alm de cantores e de bailarinas, 
dirigidos por um nobre trovador sentado com a letra em punho. Repare-se que esta 
poesia  dramtica monologal (supe um destinatrio, a *irmana+, e poderia ser 
gesticularmente mimada); entre as cantigas paralelsticas contam-se monlogos de 
amor, mas tambm de escrnio ou maldizer.

Estas caractersticas e indcios levam-nos a uma fase da histria da poesia em que o 
poema no passa de um esboo, uma letra, para musicar, sem
autonomia em relao ao canto e  dana. De resto, o prprio nome de cantigas  a 
este respeito muito elucidativo; e a arte de trovar apensa ao Cancionero da 
Biblioteca Nacional por vrias vezes se refere a problemas de relacionao da letra 
com o som.

A estrutura rtmica que estudmos na sua forma mais corrente admite variantes ou 
complicaes. De facto, na sua maior parte, as cantigas de amigo oferecem uma 
estrutura mais complexa. Assim: em lugar de dsticos, surgem estrofes, ou coplas, de 
trs, quatro ou mais versos; o paralelismo anafrico (ou seja, a repetio literal 
entre estrofes parcadas, com excepo das palavras da rima, ou pouco mais) d lugar a 
um pareamento ou emparelhamento mais lasso, em que a segunda estrofe de cada par 
apenas repete a ideia geral da anterior; algumas composies j no respeitam 
regularmente o emparelhamento das coplas; e o prprio refro deixa de aparecer no 
final de cada estrofe, ora intercalando-se no texto, ora (o que  mais importante) 
admitindo pequenas variaes. Com este desenvolvimento da inventividade discursiva, 
chega-se  cantiga de meestria; o tratado trecentista de arte potica define-a como 
sendo a desprovida de refro, que  a forma elementar do paralelismo. No entanto, 
numerosas cantigas, chamadas de paralelismo puro, respeitam sensivelmente o esquema 
atrs descrito. O seu provvel destino coreogrfico permitiria classific-las como 
bailias ou bailadas, designao usualmente reservada a cantigas, mesmo de paralelismo 
imperfeito, que aludem ao acto de se danar enquanto so cantadas.

 complicao formal do esquema paralelstico corresponde, em geral, uma variao 
temtica. Nos cantares de amigo pode supor-se, com efeito, mais de um estrato de 
cultura, de ambiente social, embora serripre mais ou
menos assimilado por uma elaborao corts.

Um grupo numeroso de cantigas diz respeito  vida popular rural. Tem como Personagem 
principal a moa que vai  fonte, onde se encontra com o namorado; que vai lavar

52
ao rio a roupa ou os cabelos; que na romaria espera o amigo, ou oferece promessas aos 
santos pelo seu regresso. Este gnero de cantar apresenta-nos geralmente uma situao 
cujos elementos paisagsticos, muito simples e padronizados, se carregam do 
simbolismo de velhos ritos pagos, e coloca-os perante uma ou mais personagens, sob a 
forma quer de dilogo, quer de monlogo, quer at (caso raro mas muito significativo) 
de breve narrativa, como se fosse um fragmento de um *rimance+: a rapariga que vai ao 
rio lavar camisas, o corpo *velido+ que baila na romaria. Trata-se de um gnero 
sincrtico primitivo em que se confundem o lrico, o dramtico e o narrativo. Esta 
matria corresponde s cantigas de estrutura mais simples, construdas dentro do 
chamado *paralelismo perfeito+. H uma referncia da Arte de Trovar a uma categoria, 
considerada rude, de cantigas de vilaas (vils), segundo leitura de Jean-Marie 
d'Heur, e em geral lida como de vlaos (vilos). A integrao das comunidades rurais 
antigas nos domnios senhoriais ou em concelhos aforalados estava ainda em processo 
nas origens da nacionalidade.

Outro grupo de cantigas leva-nos para ambientes domsticos. Deixa-nos ver a moa a 
fiar o sirgo em casa, a discutir com a me e com as amigas: o rapaz a pedir 
autorizao  me da moa para a namorar. A protagonista aparece-nos muito mais des 
embaraada de lngua e segura de experincia; sabe jogar s escondidas com o amor, 
conhece o seu poder de seduo e maneja-o; conhece a arte de provocar o cime, de que 
alis tambm frequentemente  vtima. Os autores destas cantigas revelam uma 
elaborada concepo do comportamento feminino; e deixaram no conjunto das suas obras 
como que um romance
de amor, que vai desde a alvorada do primeiro encontro at  consumao. Este  um 
dos motivos para apreciarmos tais poesias (e outras dos cancioneiros) como se 
constitussem sries homogneas, ou subsries, de acordo com os autores e os gneros 
reconhecveis.

Um terceiro estrato situa-se no ambiente da corte. O seu tema  o amor corts (que 
estudaremos a propsito das cantigas de amor), tal como o trovador fidalgo o 
imaginaria sentido pelo lado da mulher, seja para a lisonjear apresentando-a como 
muito consciente de ser fremosa, loua ou velida, seja para se jactar daquelas que 
se finam de saudades por ele. Nem sempre  fcil determinar exactamente a fronteira 
entre as cantigas de tipo tradicional e as de tipo corts, tanto mais que a origem 
manifestamente popular do processo apenas se nos revela atravs de imitaes ou 
reelaboraes palacianas, mas  muito plausvel situar no ambiente de corte motivos 
como o do rei que manda pedir tranas  moa, e no ambiente da vila ou do campo temas 
como a entrevista do pretendente com a me da moa.

Tal estratificao da poesia dos Cancioneiros, em diversas camadas correspondentes a 
meios sociais ou a pocas diferentes,  naturalmente interferida por factores vrios, 
como influncias recprocas e contactos dos diversos meios sociais. Assim  que vemos 
assinadas por nomes da alta nobreza cantigas de tipo primitivo, de ambiente 
flagrantemente popular e vazadas

53
no paralelismo puro - caso de numerosas composies de D. Dinis, grande apreciador da 
poesia folclrica. (Esta parece ter sido reposta em moda na sua poca, depois de 
passada uma fase em que prevaleceu nas cortes um gosto mais acentuadamente 
provenalizante.) Tais autores imitam e fazem variar esquemas de origem rural j 
talvez reelaborada; assim se explicaria que variantes das mesmas cantigas apaream 
subscritas por mais de um nome, como sucede com as duas to prximas variantes da 
famosa bailada das *avelaneiras floridas+, assinadas, uma pelo poeta culto Airas 
Nunes, e outra pelo jogral Joo Zorro.

A escola trovadoresca galego-portuguesa legou mais de meio milhar de cantigas de 
amigo, de sensvel homogeneidade temtica e formal (quase todas com refro). A 
existncia de uma herana tradicional hispnica preservada nos cantares de amigo 
parece atestada j no sculo X1 pelas carjas, designao rabe dos remates de certas 
composies de autoria e lngua rabes ou
hebraicas escritas entre meados do sculo X1 e o final do sculo XIII. Estas carjas 
so constitudas geralmente por um ou dois versos em lngua morabe (isto , em 
lngua romnica fortemente penetrada de arabismos, falada, como vimos, pela parte da 
populao crist sob o domnio rabe), conquanto seja rabe ou hebraica a muaxafa 
(muwaxahat), ou corpo da composio; e consistem precisamente em fragmentos de 
cantigas de mulher que lembram muito de perto os caracteres das de amgo. Os poetas 
semitas recolheram-nas certamente de um folclore que deixou outros vestgios, 
sobretudo nas

reas perifricas de influncia trovadoresca (Ocidente hispnico, Siclia, Alemanha).

Sucessivos jograis e poetas, sucessivas pocas e meios sociais adaptaram e variaram, 
pois, a poesia folclrica. As formas versificatrias mais simples coincidem grosso 
modo com os temas rurais e primitivos; e as mais complexas incorporam tradies e 
reelaboraes de retrica e potica corts j letradas. A cantiga feminina nasceu na 
comunidade rural, como complemento do bailado e do canto colectivo dos ritos 
primaveris, prprios das civilizaes agrcolas em que a mulher goza da maior 
importncia social; e  assim que, no apenas na Pennsula ou na Romnia, mas em 
povos to distantes como o chins, se verificam vestgios, quer do paralelismo, quer 
da cantiga de mulher. Transplantada a outros meios, as suas formas variaram e, em 
muitos sentidos, enriqueceram-se, ao mesmo tempo que se adapta~ vam a novos temas.

54
O primitivismo de muitas cantigas de amigo constitui precisamente a sua
principal atraco para muitos leitores de hoje. Algo se evidencia nelas de muito 
diferente da mentalidade do homem actual, permitindo entrever certas formas de 
sensibilidade, que nem por terem sido recalcadas por aquisies posteriores deixaram 
de subsistir na psicologia moderna, sempre prontas a despertar. H, por exemplo, em 
alguns cantares de amigo uma intiridade afectiva com a natureza que  muito 
diferente do gosto cenogrfico da paisagem (como quadro ou reflexo dos sentimentos 
humanos), e que deve antes relacionar-se com o animismo tpico de certa mentalidade 
pr-mercaritil. Dir-se-ia existir uma afinidade mgica entre as pessoas e tudo o que 
parece mover-se ou transformar-se por uma fora interna: a gua da fonte e do rio, as 
ondas do mar, as flores da Primavera ou Vero, os cervos, a luz da alva, a dos olhos. 
Todas estas coisas participavam ainda de tantas associaes m gi~ cas, as suas 
designaes evocavam tantas correspondncias entre o impulso
amoroso e o florescer das rvores, o comportamento animal, os movimentos das coisas 
naturais, que o esquema repetitivo era como o imperceptvel e subtil desenvolvimento 
de um tema atravs de modulaes que sugerem os seus inesgotveis nexos com a vida. 
Assim, na to simples cantiga de Fernando Esquio com que ficou atrs exemplificado o 
paralelismo tpico, a imagem das raparigas que, por sugesto de uma delas, entrevemos 
dispostas a dormir na margem de um lago - s gradativamente se apaga perante a imagem 
das aves feridas pelo amigo de arco em punho; dir-se-ia que as
moas vo, incautas, substituir tais peas de caa. Mas, em nova lenta gradao, a 
nota de crueza dissipa-se no amigo, pois o seu frino arco poupa as aves canoras e 
isso faz pressentir a ternura do seu trato amoroso perante a doce fala da moa, 
depois de sentirmos a sua prvia e cruenta desenvoltura de caador. No poderia 
traduzir-se melhor o enleio da donzela frente ao seu insculo e, todavia, meigo 
namorado. Ora imagens como estas de uma altanaria extensiva ao amor eram smbolos 
tradicionais, imediatamente reconhecidos e, pela sua prpria obliquidade de aluso, 
capazes de evocar em conglomerado muito diversas vivncias dos cantores-danarinos e 
seu
pblico. E observemos que, a julgar pelos poucos textos musicais subsistentes, o 
canto desta lrica acusa a influncia da antfona ou do responsrio eclesisticos, - 
os quais por seu turno tiveram uma das origens em ritos rurais antiqussimos.

Nada disto (nem os processos formais repetitivos, nem o erotismo feminino como que 
ritualizado em smbolos) se pode atribuir apenas  veia popular

55
galaico-portuguesa. Alguns traos de arcasmo fontico, nomeadamente a

manuteno do n intervoclico em palavras-chave como fontana, louana, etc., permitem 
suspeitar neste gnero uma origem que vem da proto-histria, talvez morabe, do 
Galego-portugus. As carjas referidas fazem supor uma
tradio romnica peninsular suficientemente antiga e pujante para ser comum, quer a 
uma lrica morabe meridional do sculo XI pelo menos, quer a uma
lrica do Noroeste peninsular, onde pouco se fez sentir a influncia rabe.  mesmo 
possvel, como oportunamente observou Rodrigues Lapa, entrever um fundo tradicional 
romnico de poesia rural baseado em dsticos
paralelsticos seguidos de refro, do qual proviriam, quer a bailia galaico-
portuguesa, quer a carja morabe, quer o conductus litrgico, quer o strambotto 
italiano. Sobre esta comum tradio se teria elaborado a poesia folclrica galego-
portuguesa, a qual teria acabado por diferenciar-se e enrazar-se

na vida local, como atestam certos traos regionais bem distintivos de flora 
(pinheiro, avelaneira), paisagem fsica e humana (ria de Vigo, ribeiras e romarias 
nortenhas).

Em toda a Cristandade medieval, viu-se a Igreja obrigada a reprimir a

prtica de ritos e festas pags, cuja persistncia mais ou menos ingnua sob a 
liturgia crist apresentava como um dos seus aspectos mais pertinazes os

cnticos erticos de mulheres dentro dos prprios templos, por ocasio de romarias ou 
das festas pascais que cristianizaram as festas gentilicas das Maias sob a forma de 
jbilo da Ressurreio. H, em lnguas castelhana e catal, vestgios antigos de 
paralelismo em cantigas de mulher. O que singulariza o lirismo galaico-portugus mais 
tpico  a sua confinao  esttica do paralelismo, mesmo nos espcimes j de certo 
reelaborados que nos chegaram. D-se uma rarefaco extrema de elementos narrativos 
ou descritivos; avultam poucos mas densos smbolos de participao imaginria entre, 
por um

lado, certas coisas naturais e, por outro lado, uma cota feminina sem 
individualidade, sem ambiente domstico, quase toda personificada nos *Meus olhos+

a luzirem numa situao vaga - na presena ou ausncia do amigo, que todo ele se 
reduz tambm  carga amorosa de sinal contrrio. Cada verso vale

por si, recortado por repeties simtricas e modulantes, reevocado por outras 
associaes (corno as da rima final e do refro, a intervalos fixos), delimitado por 
uma ntida pausa de pontuao. A impreciso dos sinnimos e do

uso dos tempos verbais, nos lugares das rimas alternantes, afrouxa aj lassa

56
ligao lgica, que poucas e montonas conjunes sustentam. Dificilmente se poder 
imaginar um tipo de poesia mais prximo da encantao mgica, ou da msica. Mas o 
mais impressionante  encontrarem-se, dentro de uma
tal simplicidade estilstica, algumas das melhores poesias que jamais se fizeram em 
lngua portuguesa. Contam-se entre elas as que principiam por *Sedia-m'eu na ermida 
de S Sime+ (Meendinho), *Levad'amigo, que dormides as manhanas frias+ (Nuno 
Fernridez Torneol) e *Levantou-s'a velida>@ (D. Dinis), cujo esquema repetitivo 
estrutura um poderoso crescer e multiplicar de representaes emocionais, cujas 
modula es de timbres vocli~ cos do fundo harmnico s modulaes do humor ou 
sentimento, cujas hiprboles ou ambiguidades, virtualmente mitolgicas pela sua 
audcia, nada ficam a dever  liberdade metafrica da poesia moderna. Nestas 
composies, as proezas ou maravilhas de que a poesia, ainda um pouco ingenuamente 
mgica, julgava capazes as pessoas ou as coisas revelam-nos, na mxima sobriedade de 
expresso verbal, algumas fundas aspiraes ou fruies estticas que as 
possibilidades tcnicas modernas tendem a ocultar. J, evidentemente, nos 
encontramos, com estas poesias, perante elaboraes cultas de uma tradio; o prprio 
D. Dinis, e ainda Pro da Ponte, entre outros, chegam a combinar habitualmente certos 
recursos paralelsticos com recursos de origem corts occitnica.  de resto 
impossvel reconstituir o longo processo de interaco das origens pags rurais com a 
cultura do clero e da nobreza. Mas no h dvida de que tais pequenas obras-primas 
so a consumao de uma arte paralelstica de trovar assente numa cultura arcaica com 
alguns traos regionais.

 costume classificar as cantigas de amigo, segundo os seus temas, em bailadas ou 
bailias, cantigas de romaria, marinhas ou barcarolas, a que, no menos 
justificadamente, se poderiam acrescentar cantigas de fonte, de cenas
venatrias, de amiga e me, de amiga e amigas (s vezes designadas como irmanas), de 
despedida, etc. O que, realmente, mais interessa apontar  a

grande quantidade (cerca de 60) das cantigas onde h referncia a romarias que se 
podem quase todas localizar na Galiza ou no Minho; a originalidade temtica 
galaico~portuguesa destas e ainda de cerca de uma vintena de outras respeitantes a um 
ambiente martimo (mar, ondas, ria, barcas partindo ou chegando); o carcter 
geralmente muito castio das bailias, porventura representantes do estrato histrico 
mais antigo porque mais difundido na Europa, se

no em todo o mais velho mundo agrrio (cerca de meio cento de espcimes).

        57
Se os cantares de ainigo de tipo primitivo, evocadores de uma poca remota da 
histria da poesia, podem interessar sob estes aspectos alguns leitores modernos, os 
de tipo mais complexo, correspondentes s estratificaes burguesa e palaciana, no 
deixam tambm de ter interesse, embora diverso. No  uma sugesto encantatria (e, 
nos melhores casos, extraordinariamente moderna) a que fica da sua leitura. Os poetas 
conseguem dar com vivacidade os diversos estados da mulher namorada, no decorrer da 
intriga sentimental. A saudade, o cime, o ressentimento, os amuos, as ansiedades, as 
desconfianas, a reivindicao da liberdade de amar perante a interveno materna, 
etc., exprimem-se de modo muito vivo; e ao lado da diversidade de situaes  de 
notar a dos tipos psicolgicos simulados: as mulheres ora so ingnuas, ora 
experimentadas; ora compassivas e inclinadas  piedade, ora astutas e calculistas; 
ora indiferentes, ora susceptveis; ora se entregam, ora desfrutam os amigos. Os 
trovadores deixaram nestas poesias o resultado duma experincia ampla da vida 
sentimental, com a qual seria possvel imaginar um romance precursor da Menina e 
Moa.  de notar, por outro
lado, a simpatia com que alguns destes poetas sabem colocar-se dentro do ponto de 
vista da mulher e dos interesses femininos, com uma candura que ainda ressoar na 
poetisa galega oitocentista Rosala de Castro.

A influncia occitnica e as cantgas de amor

Outro caminho temos de seguir se quisermos estudar, nas suas origens, a cantiga de 
amor.

Quer eu en maneira de proenal fazer agora u cantar d'amor

escreve o poeta D. Dinis, declarando o que provavelmente todos os trovadores galego-
portugueses tinham presente no esprito: a ideia de que os Provenais eram os modelos 
a seguir.

Com efeito, foi nas cortes feudais occitnicas (e no restritamente provenais, como

costuma dizer-se) que floresceu a primeira grande escola da poesia romnica, 
elaborada numa lngua (Langue d'oc) que seria mais tarde eclipsada pelo Francs do 
Norte (Langue d'oil) mas que ento exprimia uma civilizao mais adiantada, ligada a 
uma j antiga dinmica comercial mediterrnica. Ainda hoje se investiga e se discute 
quais fossem as

tradies literrias que permitiram uma to rpida evoluo do lirismo provenal. No 
h dvida, porm, de que uma parte da cultura latina clssica deve ter sido 
transmitida at aos trovadores por intermdio da literatura eclesistica medieval, 
sobretudo atravs

58
de certas formas ainda em latim mas j impregnadas de esprito profano 
(epistolografia amorosa espiritualizada entre clrigos e freiras, poesia dos 
goliardos, estudantes medievais); e  ainda mais evidente que entre o canto, a 
poesia, o drama litrgico com que o clero fomentava a participao do povo na 
celebrao do culto e, por outro lado, o

folclore rural, de origens mais antigas que o Cristianismo, se exerceu, durante toda 
a Idade Mdia, uma intensa influncia recproca a cujos progressos muito deveu essa 
nascente literatura aristocrtica de corte.

Com efeito, aps longa polmica, os fillogos apuraram a etimologia do verbo trovar, 
que afinal vem de tropare; isso refora as ligaes histricas j conhecidas entre a 
lrica profana medieval e os tropos, desenvolvimentos musicais e depois tambm 
versificados (estrficos e rimados) que desde os sculos VIII e IX se inseriram na 
liturgia. Essa inovao, mais tarde condenada no sculo XVI e que tanta importncia 
teve no desenvolvimento da poesia, da msica e at do teatro religioso e laico,  o 
resultado de uma tendncia do clero romano para melhor atrair os fiis populares e os 
trazer  participao do culto, tendncia evidente desde a adopo do canto litrgico 
no sculo IV at ao incremento da salmodia responsarial (solista e coro, como na 
ladainha) e antifonal (dois semicoros), cujas relaes com o paralelismo galaico-
portugus j apontmos. A inovao dos tropos fora alis precedida pela da sequncia 
(textualmente pro sequentia, que, por abreviatura, refez e prestigiou a palavra 
prosa), adaptao de textos ao melisma (neste caso, jubilus) da vogal final da 
palavra Alcluia, que se sustentava originariamente sobre sucessivas notas musicais.

Os Provenais foram depois os mestres e iniciadores da poesia europeia moderna,


sem os quais se no compreenderiam nem Dante nem Petrarca. Os jograis occitnicos 
levaram a sua arte apuradssima a todas as cortes da Europa. Diversas notcias 
documentam as suas estadias na Pennsula Ibrica, e a corte de Afonso X, o Sbio, foi 
um dos refgios dos trovadores dispersos pela matana dos Albigenses. A moda de 
trovar  maneira provenal introduziu-se, pois, nas cortes peninsulares, incluindo a 
corte portuguesa, onde j se manifestava sob o reinado de Sancho 1. Havia de resto 
entre as cortes de alm-Pirenus e o novo reino do Ocidente da Pennsula relaes 
estreitas que facilitavam a influncia transpirenaica: o conde D. Henrique trouxe 
consigo numerosos senhores franceses; s o bem conhecidas as influncias do clero, 
nomeadamente atravs das reformas monacais de Cluny e Cister, que se relacionam com 
as origens francesas da dinastia portuguesa e que impuseram o ritual de Roma e a 
adopo da escrita carolngia em substituio da anterior escrita visigtica; muitos 
portugueses frequentavam a peregrinao a Santa Maria de Rocamador, no Sul da Frana, 
e muitos trovadores occitnicos vieram peregrinar a Santiago de Compostela; e 
diversas vagas de exlio, como a provocada pelas lutas civis do tempo de D. Afonso 
11, levaram senhores portugueses a Frana, destacando-se entre elas, pelas 
influncias literrias bem conhecidas'que trouxe, a que acompanhou na sua Juventude o 
futuro Afonso III. Os casamentos de D. Afonso Henriques, D. Sancho 1 e

D. Afonso III com princesas criadas em cortes cultural e at politicamente ligadas

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com a Provena, respectivamente Sabia, Arago (unida com a Catalunha) e Bolonha, 
devem tambm ter facilitado a influncia occitnica. No entanto o encontro mais 
produtivo da joglaria galaica com o trovar occitnico deve ter-se produzido na corte 
castelhana.

Quando a poesia provenal, atravs dos seus trovadores e jograis ou dos seus 
imitadores peninsulares, chegou  Pennsula, existia j aqui ( difcil duvidar) uma 
escola local de poesia jogralesca, provavelmente relacionada com as carjas morabes, 
aquela mesma que recolheu, adaptou e divulgou nas vilas e nas cortes a poesia 
folclrica a que pertencem as cantigas de amigo.
O Galego, falado aqum e alm do Douro, era a lngua materna dos jograis 
tradicionais. A Galiza alm-Douro escapou ao domnio muulmano e contriburam para o 
seu desenvolvimento cultural precoce diversos factores, entre os quais as 
peregrinaes a Santiago de Compostela, em que participavam romeiros de toda a 
Europa. O mais antigo jogral galego de que h notcia (Palha) pertenceu  corte de 
Afonso VI, av do primeiro rei de Portugal.

 inegvel nas cantigas de amor galego-portuguesas uma avassaladora influncia 
provenal. A prpria lngua dos poetas ficou embutida de provenalismos, como sen, 
senso (em vez da palavra indgena seso, donde provm o actual siso); cor (em vez de 
coraon); prez (em vez de preo); gru (em vez de grave, com o sentido de pesado, 
difcil). Com estas e muitas outras palavras e com diversas frmulas tambm de origem 
provenal, forjaram os poetas galego-portugueses um formulrio de expresses que se 
distingue da lngua dos cantares de amigo de inspirao folcl rica, embora tambm 
nestes, e logo na fase mais antiga que o Cancioneiro corts documenta, se verifiquem 
vestgios da influncia estrangeira.

Quanto aos temas, elaboraram os Provenais o ideal do amor corts, muito diferente do 
idlio rudimentar nas margens dos rios ou  beira das fontes que os cantares de amigo 
nos deixam entrever. No se trata agora de uma

experincia sentimental a dois, mas de uma aspirao, sem correspondncia, a um 
objecto inatingvel, de um estado de tenso que, para permanecer, nunca pode chegar 
ao fim do desejo. Manter este estado de tenso parece ser o ideal do verdadeiro 
amador e do verdadeiro poeta, como se o movesse

o amor do amor, mais do que o amor a uma mulher. E no s a esta dirigem os poetas as 
suas imploraes, queixas ou graas, mas o prprio Amor personificado, figura de 
retrica muito comum entre os trovadores provenais e por eles transmitida aos 
galego-portugueses. O Amor reina, at, numa Vila

ideal, com as suas cortes, os seus foros e leis.

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O trovador imaginava a dama como um suserano a quem *servia+ numa

atitude submissa de vassalo, confiando o seu destino ao *bon sen+ da *senhor+.

*Je soy votre homme lige+, diz em lngua francesa e em termos de vassalagem feudal um 
poeta portugus. Todo um cdigo de obrigaes preceituava o *servio+ do amador, que, 
por exemplo, devia guardar segredo sobre a

identidade da dama, coibindo toda a expanso pblica da paixo (o autodomnio, ou 
*mesura+, era a sua qualidade suprema), e que no podia ausentar-se sem sua 
autorizao. O apaixonado deveria passar provaes e fases comparveis aos ritos de 
iniciao nos graus da cavalaria, antes de chegar a drudo, amante espiritual da 
midons, ou dama. Mesmo em algumas cantigas de amigo as damas manifestam o seu 
desagrado por os amadores respectivos terem infringido estas ou outras regras do 
*servio+.

A este ideal de amor corresponde certo tipo idealizado de mulher, que atingiu mais 
tarde a mxima depura o na Beatriz de Dante ou na Laura de Petrarca: os cabelos de 
oiro, o sereno e luminoso olhar, a mansido e a dignidade do gesto, o riso subtil e 
discreto. As cantigas de amor oferecem-nos uma cpia simplificada e fruste do retrato 
original pintado pelos trovadores provenais, referindo-se ao *catar+ (olhar) da 
*senhor+, ao seu *prez+ ou *sn+, ou *bon riir+, ou *falar+, ou *parecer+, etc.

 tambm com os Provenais que os poetas dos Cancioneiros peninsulares aprendem a 
objectivar paisagens. A descrio das flores de Maio, da brisa excitante da 
Primavera, do cantar malicioso dos rouxinis so motivos obrigatrios dessa lrica 
corts. D. Dinis, discpulo confesso dos occitnicos, mas, como vimos, tambm fiel s 
tradies regionais, critica mesmo o convencional ismo deste quadro primaveril 
obrigatrio do amor provenal. Teve entre os Provenais grande voga o tema do 
cavaleiro que, seguindo por um caminho florido, encontra e requesta de amores uma 
pastora. Este gnero, denominado entre ns pastorela,  imitado por alguns poetas 
mais cultos dos Cancioneiros com certa nitidez formular e descritiva que fica j 
longe do ambiente paisagstico sugestivo mas vago das cantigas de ainigo. (Veja-se a 
clebre pastorela: Pelo souto do Crexente de Joo Airas de Santiago.) De um para 
outro caso difere muito a relao do homem com o meio. Nos modelos occitnicos 
desfruta-se um espectculo de coisas belas, referi~ das segundo uma ordem retrica 
precisa, como um cenrio, ao passo que nas cantigas de amigo em que se vazam h 
antes, como vimos, e para usar
termos conhecidos, uma participao animista entre pessoas e coisas.

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Resultado da influncia provenal  ainda o esboo de anlise introspectiva que se 
encontra em alguns dos trovadores peninsulares. O sentimento dos contrastes do amor - 
do querer e no-querer, da timidez e da violncia impulsiva do desejo, do doce-amargo 
da saudade - so temas muito correntes entre os Provenais, que os transmitiriam a 
Petrarca, em quem por sua vez iro aprend-los Bernardim Ribeiro e Cames. Os poetas 
dos Cancioneiros galego-portugueses no os desconhecem, mas repetem-nos um pouco como 
frmulas decoradas e reduzem-nos quase sempre a breves esquemas verbais exprimindo 
unidade na contradio, como prazer-pesar, viver-morrer, bem-mal.

Basta um breve confronto para revelar que as qualidades caractersticas da poesia 
trovadoresca provenal se esbatem ao serem adaptadas  lngua e ao estilo dos 
trovadores peninsulares. A nitidez descritiva, a introspeco, o brilho e a justeza 
das analogias e imagens, tudo isto se embacia nas pginas dos nossos Cancioneiros. As 
metforas e comparaes quase aqui no existem, e brilha pela singularidade um poeta 
que diz ser a sua dama como

um rubi entre as pedras; o retrato da dama  extremamente vago e convencional; s em 
imitaes da pastorela occitnica se encontram aluses descritivas ao mundo das 
plantas e aves; a anlise dos sentimentos estereotipa-se. Por outro lado, a poesia 
oceitnica caracteriza-se por uma grande variedade de temas, mas a monotonia domina o 
conjunto dos cantares de amor recolhidos nos Cancioneiros peninsulares, exceptuando 
um ou outro poeta, como Airas Nunes, que descreve a Primavera, e que nota o contraste 
entre a constncia dos sentimentos e a mudana das estaes, ou como Joo Garcia de

Guilhade, que encara com humorismo os jogos do amor.

A diferena entre o lirismo provenal e o dos Cancioneiros peninsulares revela-se 
principalmente na estrutura formal. O gnero provenal caracterstico, a cans 
(cano), no se aclimatou na Pennsula, a no ser muito mais tarde, no sculo XVI, 
por influncia de Petrarca. As cantigas de amor sem refro nem repeties - 
conhecidas pelo nome de *cantigas de meestria+ por serem aquelas que exigiam maior 
conhecimento da tcnica provenal - constituem minoria. O refro encontra-se, 
efectivamente, na
maior parte das cantigas de amor, assim como o paralelismo, embora atenuado e por 
vezes mascarado. O poeta galego-portugus s por excepo desenrola um pensamento com 
princpio, meio e fim ao longo de uma srie

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de estrofes; prefere o processo de modular em cada estrofe, variando palavras e 
rimas, a Mesma ideia.

Esta construo d  maior parte das cantigas de amor um tom de lamento repetido e 
insistente, quando muito um desenvolvimento, por assim dizer, em espiral, espcie de 
compromisso entre a retrica de progresso rectilnea dos provenais e a esttica 
repetitiva, circular, das baffias. H quem considere isto como o produto de uma 
sensibilidade tnica, mas h que ter em

conta que faltava aos poetas peninsulares ocidentais (portugueses, galegos, leoneses, 
castelhanos) uma experincia literria que lhes permitisse acompanhar o largo flego, 
a complexa estrutura e a eloquncia discursiva da cans provenal. Nestas condies 
se vazaram os temas provenais, alis imperfeitamente assimilados, dentro dos moldes 
praticados pela escola jogralesca local, isto , dentro do paralelismo e do refro; a 
isso ajustaram os

seus dons, s vezes notveis.

A influncia provenal, portanto, ainda que flagrante,  integrada numa poesia 
peninsular, de origem folclrica, difundida porjograis galegos, cujas formas 
originrias esto representadas nas cantigas de amigo de estrutura paralelstica mais 
simples.

O relativo primitivismo dos trovadores galego-portugueses que assimilaram a 
influncia provenal, adaptando-a s formas poticas j existentes no seu pas, no 
deve confundir-se com a expresso de uma pura espontaneidade. Pelo contrrio, h 
exemplos de como o paralelismo e o refro constituem para muitos deles um quadro 
formal artificiosamente aproveitado.  fcil documentar em numerosas composies dos 
Cancioneiros, sobretudo nas cantigas de amor, um exerccio formalista, que dispe de 
uma arte ainda primitiva. Numerosos poetas se dedicam a inventar sentidos novos com 
jogos de ritmos e de palavras.

Contam-se entre estes processos formalistas os do *dobre+ e do *mordobre+ (noutra 
leitura *mozdobre+). Consistia o primeiro em repetir uma mesma palavra por cada 
estrofe, sempre nos mesmos lugares de estrofe e verso (por exemplo, no final do 
primeiro e do ltimo verso), jogando por vezes com os seus vrios sentidos, o que 
transformar em trocadilho um simples processo repetitivo. Assim, um poeta comemora a 
tomada de Valena (Valncia), repetindo este vocbulo, ora para significar a cidade 
conquistada, seu valor ou importncia, ora para designar a valentia do rei 
conquistador. O mordobre s difere do dobre por se no fazer com uma forma nica, mas 
com flexes da mesma palavra ou com formas etimologicamente afins.

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Tal  o caso tambm do processo conhecido pelo nome de *at-flinda+, alis pouco 
vulgar entre os provenais: cada estrofe termina no meio de uma frase, de modo que o 
leitor tenha de procurar imediatamente o seu complemento na estrofe seguinte, 
seguindo sem parar at a um remate de dois ou trs versos, onde finalmente o perodo 
se completa. Trata-se, afinal, de um caso especial de encavalgamento ou 
*enjambement+, pelo qual as palavras indispensveis ao sentido de um verso so 
atiradas para

o verso seguinte, com a particularidade de que os versos assim ligados constituem, na 
*at-flinda+, o termo e o comeo de duas estrofes consecutivas. Ao contrrio do que 
poderia parecer  primeira vista, geralmente no conduz a uma sequncia ininterrupta 
do discurso, porque cada estrofe exprime afinal o mesmo pensamento, segundo o 
processo repetitivo tradicional.  um mero jogo rtmico (no coincidncia da pausa 
frsica com a

pausa estrfica); espertina a ateno do leitor, e cria nele um estado de expectativa 
que pode ser utilizado para pr em relevo a concluso ou *flinda+.
O uso regular, estrofe a estrofe, do verso branco (*palavra perduda+)  tambm 
considerado, na Arte de Trovar do Cancioneiro da Biblioteca Nacional, como um 
artifcio de mestria, por tornar ritmicamente menos ntida a percepo do verso, 
apoiando-a apenas no isossilabismo (nmero certo de slabas). Todos estes processos, 
quebrando a coincidncia das pausas sin~ tcticas com as pausas versificatrias, 
criando uma certa margem de imprevisibilidade e de indeterminao rtmica (e isto 
numa altura em que o predomnio da transmiss o oral sobre a escrita ainda mais 
acentuava a importncia do ritmo do verso), constituem, sem dvida, manifestaes de 
uma mestria versificadora superior quela que era exigida pelos esquemas 
paralelsticos ou repetitivos mais fixos e com apoio musical.

A anlise destes e de outros processos formais permite~nos acompanhar o trabalho 
laborioso de poetas, em muitos casos profissionais, como Pro da Ponte, que ensaiam 
formas de expresso, adaptando esquemas antigos e imitando modelos estranhos. O 
conjunto dos cantares de amor ressente-se

destes tenteios, deste esforo dos poetas para ascenderem a uma expresso culta a 
partir de formas primitivas. Daqui resulta uma forma por vezes inacabada, uma srie 
de tentativas malogradas, uma oscilao entre o primitivismo e o preciosismo ingnuo 
que caracterizam no seu conjunto este gnero, onde  difcil seleccionar uma obra-
prima. Merecem todavia salientar-se algumas realizaes de D. Dinis, Pro da Ponte, 
Joo Garcia de Guilhade, Airas Nunes e alguns n@ais.

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Entre os gneros occitnicos de que  possvel encontrar algum eco

nos cancioneiros galaico-portugueses contam-se a pastorela, j mencionada; a alba, 
despedida dos amantes ao romper do dia (esboo da clebre cena shakespeariana em 
Romeu e Julieta), de que indevidamente j foi aproximada a bela cantiga atrs 
referida de Nuno Fernndez Torneol; a cano de tear (*Sedia Ia fremosa su sirgo 
torcendo+ de Estvo Coelho), que revela a influncia da chanson de toile dos 
trouvres da Frana do Norte; o pranto  morte de um senhor venerado; a despedida 
(cong) e o descordo (descort), que pretende traduzir um abalo emocional por vrias 
mudanas de estrutura estrfica, por uma sintaxe acidentada de hiprbatos ou por 
pretensas inconsequncias lgicas. As correspondncias galaico-portuguesas a estes 
gneros caracterizam-se pela simplificao j apontada, pelo recato da notao 
sensual, pela imaturidade das suas tentativas doutrinais e, na sua maioria, por uma 
tendncia para a expresso paralelstica da subjectividade feminina, o que permite 
classific-las, por vezes (como com maior ou menor razo se tem feito a muitas), 
entre as cantigas de amigo.

A stira

As cantigas de escrnio e maldizer ocupam grande espao nos Cancioneiros da Vaticana 
e da Biblioteca Nacional de Lisboa, mal se distinguindo entre si. Tm por assunto, na 
sua grande maioria, certos aspectos particula~ res da vida de corte e especialmente 
da bomia jogralesca.

A sua leitura revela-nos, alm do resto, uma sociedade bomia em que entravam jograis 
de corte, cantadeiras, soldadeiras (bailarinas), fidalgos. O jogral e a sua 
companheira tinham um estatuto social de marginais. Eram *artistas+ da bomia, e por 
isso mesmo permitiam-se-lhes liberdades de costumes e de fala vedadas no mundo 
regularmente constitudo. Isto explica que os vcios mais ntimos, as aventuras mais 
pcaras destes heris truanescos surjam assoalhados escandalosamente: as andanas e 
percalos de uma bailarina verstil, os sapatos dourados de um fidalgo pretensioso, a 
voz de um cantor enrouquecida pelos abusos do lcool, etc., no faltando mesmo uma

abadessa elogiada ou satirizada por um segrel quanto  sua experincia sexual. Mas 
estes marginais fraternizavam com fidalgos, clrigos e at reis no mundo da bomia; 
vemo-los misturados nos mesmos mexericos, usando a mesma linguagem, com grande 
abundncia de termos hoje considerados obscenos.  uma exploso carnavalesca com 
razes antiqussimas e tpica da Idade Mdia.

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Raro se encontram nas cantigas de escrnio temas de alcance geral. Mas, nos muitos 
casos anedticos a que se referem, distinguem-se certos motivos frequentes, 
condicionados pelo ambiente. Toda uma massa de composies espelha os problemas 
tpicos da vida jogralesca. Numerosas cantigas, por exemplo, ocupam-se da sovinice 
dos ricos-homens, da misria envergonhada dos infanes:  escassez das classes 
nobres so, naturalmente, muito sensveis os jograis que, em paga do seu trabalho 
artstico, pedem roupas ou alimento. Outro grupo de cantigas mostra-nos as disputas 
entre os jograis e

os trovadores fidalgos: aqueles porque pretendiam ultrapassar a sua condio, que 
era, pelo menos convencionalmente, de simples executantes musicais, metendo-se tambm 
a compor versos; estes porque defendiam a jerarquia, que limitava o papel do jogral 
ao acompanhamento instrumental e ao

canto da composio j criada pelo trovador. Patenteia-se nestes conflitos que o 
jogral era um vilo, e o trovador, na maior parte dos casos, um indivduo da classe 
nobre. No admira por isso que tambm a ideologia da nobreza se exprima em numerosas 
cantigas satricas. O plebeu, nobilitado ou no, aparece muitas vezes coberto de 
ridculo, nos seus trajos e na sua figura: esboa-se aqui o tipo do *burgus+, 
satirizado j pela comdia clssica, e mais tarde pela conunedia dell'arte, por 
Molire (Le Bourgeois Gentilhomine) e por D. Francisco Manuel de Melo. Mas no  
menos frequente a troa  pelintrice da pequena nobreza, de um modo que preludia a 
farsa vicentina sobre os escudeiros esfomeados.

Como repertrio pcaro ou pitoresco de costumes, testemunho voluntrio ou 
involuntrio de uma ideologia, a stira trovadoresca completa os Livros das 
Linhagens; em muitos casos o gosto, por assim dizer, naturalista, da anedota vivida 
ou testemunhada prevalece mesmo sobre a inteno trocista. E assim perpassam, j s 
por si interessantes, o velho que desesperadamente se pinta e enroupa muito caro; a 
rapariga que a me antes ensina a saracotear-se do que a coser e fiar; um cavalo 
faminto abandonado, como mais tarde o de Tolentino, mas que se refaz com erva fresca 
depois das chuvas; gabarolices de falsos romeiros  Terra Santa; fracassos 
imprevistos por um astrlogo; uni juiz que se deixa peitar; agoiros e supersties; 
incidentes variados de viagem e hospitalidade; uma ex-soldadeira queixando-se, no

confessionrio, no dos antigos pecados, mas da velhice; raparigas casadas (o poeta 
considera que vendidas)  fora, ou impunemente raptadas; abadessas cheias de 
condescendncias, etc. Estas pequenas iluminuras entru-

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descas de costumes so apresentadas com uma cordialssima satisfao pelos simples 
factos, ou com uma desfaatez, um amoralismo, uma real ou imaginria auto-
ridicularizao pelos seus protagonistas que contrastam surpreendentemente com a 
pudiccia moralizante de quase toda a posterior literatura portuguesa.

Contam-se pelos dedos as composies em que os poetas cultivaram a

stira como gnero de interesse geral, versando temas morais ou sociais,  maneira do 
*sirvents+ moral occitnico: tal  o caso de dois clrigos ambos muito conhecedores 
dos modelos provenais - Martim Moxa e Airas

Nunes. O primeiro justifica uma viso pessimista apocalptica do mundo com

os desacatos da honra e autoridade, a venalidade dos validos rgios, o empobrecimento 
geral, a omnipotncia da lisonja e o desprezo pela clerezia, ou

cultura, chegando a abonar a imoralidade prpria com a alheia. O segundo apresenta-se 
procurando de porta em porta e sem resultado uma Verdade

que no existe em parte alguma, nem nos conventos e mosteiros, nem na cidade santa de 
Santiago de Compostela. Pro da Ponte d-nos tambm alguns dos melhores testemunhos 
do tempo, quer atravs dos seus prantos, de que a stira no est ausente, quer pela 
crtica s arbitrariedades exercidas sobre certos concelhos.

Como arma poltica, instrumento de aco sobre a opinio pblica, tambm a stira foi 
entre ns pouco brandida. Sobressaem, no entanto, as canes compostas por Afonso X, 
o Sbio, acerca dos fidalgos que desertaram numa campanha contra Granada; e as 
composies em que se profligam os

alcaides dos castelos que atraioaram Sancho 11 na guerra civil de 1245, inspiradas 
talvez na corte de Afonso X, amigo e aliado daquele rei.

Quer as composies anedticas, quer as de interesse geral, usam de processos 
mtricos e estilsticos que esto longe de ser espontneos. O teorizador annimo da 
arte de trovar trecentista que at ns chegou truncada parece reconhecer a 
influncia, na cantiga de escrnio, de uma retrica de tradio eclesistica, 
portanto indirectamente clssica, no uso satrico da acquivocatio, da aluso oblqua, 
talvez mais apreciada como processo artstico do que usada como eufemismo. Abunda, 
no s o trocadilho malicioso, que serve mesmo de ossatura a vrias composies mais 
escabrosas, mas uma variadssima tcnica servindo toda a gama de humor a que a 
matria de facto pode ser sujeita. Nem sequer falta aquela subtil malcia a que as 
retricas clssi-

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cas chamam a ltotes e em ingls se designa expressivamente como understatement: Gil 
Peres Conde atribui  sua m sorte, ou m hora, o esquecimento rgio de tantos bons 
servios como os que enumera. E estes poetas, to adestrados pelas cantigas de amigo 
no mimetismo finamente irnico dos sentimentos alheios, assumem frequentemente a voz 
das personagens focadas, ou de outras cujo ngulo visual melhor trai o objecto de 
troa: assim, Diego Pezelho ascende ao sarcasmo imaginando um prisioneiro, vtima da 
fidelidade a D. Sancho 11, disposto a comprar a liberdade em troca de um juramento... 
de traio. At a blasfmia serve de veculo ao humor, como, depois, em Gil Vicente, 
e v de acusar desabridamente a Providncia de cumplicidade na clausura violenta da 
amada, se no mesmo de pecado mortal, porque negou proteco aos seus mais fiis 
vassalos. Agora a utilizao literria do sonho: Martim Moxa caracteriza a cedncia 
dos senhores s insdias dos lisonjeiros com um sonho em que teria visto um pequeno 
pssaro dominar, pela crista, outra ave mais encorpada. E o absurdo: Martim Eanes 
Marinho faz o rol das ddivas de um infano pobretanas mas sempre a prometer mundos 
e fundos: urnas calas de nvoa de antanho, um potro cor de mentira, uma loriga 
invisvel, sem peso e cravejada de intrujice, um pau de nevoeiro e outras muitas 
coisas de chutas guarnecidas. Outro satrico pergunta ao rei se lhe pagar depois de 
morto o que lhe deve, falando a propsito de *os vossos meus dinheiros+. Alegorias 
chistosas: os projectos de uma aventura de amor so divertidamente descritos pelo 
protagonista e por um seu an-go em termos de materiais de construo civil, pois se 
trata de *madeira nova+, em calo de hoje *material novo+; outro satrico imagina 
deserto o

leilo a que se expe a pessoa de um mau rico-homem. Em tons mais amargos, h aquele 
poeta que, numa teno de escrnio, se recusa, perante insistncias do antagonista 
mordaz, a reconhecer de todo em todo a morte da bem-amada; alm de tantos outros que 
assoalham, rindo, os seus desaires erticos mais ntimos, hoje inconfessveis. E h o 
admirvel descordo em que Afonso X, saturado de cuidados sentimentais, econmicos e 
militares, desabafa a sua nsia de fugir aos lacraus da Meseta, abalar sozinho, feito 
mercador ou marinheiro, pelo mar em fora at qualquer outra gente.

Conforme se v, o escrnio galaico-portugus dos anos de mil e duzentos ou mil e 
trezentos contm em ovo muitas tonalidades que mais tarde se

reconheceriam afinal como lricas. No admira por isso que Rodrigues Lapa,

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ao presentear-nos finalmente com a edio crtica de todas as 428 composies 
classificveis neste terceiro g nero da escola trovadoresca, tenha includo 
espcimes que tambm se poderiam considerar como de amor, e at de amigo.
O escrnio era o refgio de uma variada gama de subjectividade que ainda se no 
valorizava a si prpria.

VersiFicao trovadoresca

O verso (que o fragmento de Potica includo no Cincioneiro da Biblioteca Nacional 
designa como palavra)  normalmente definido por uni nmero certo de slabas, mas o 
isossilabismo acaba s por impor-se com rigor ao cabo de uma persistente influncia 
occitnica, pois de incio (e nas cantigas de recorte paralelstico) h sinais de uma 
regularidade mais frouxa. No se nota a observncia de regras uniformes quanto  
incluso da ltima slaba na contagem, quando o verso termina ew palavra grave; 
apenas se exige que a distribuio de rimas agudas e graves obedea ao mesmo esquema 
em todas as

estrofes de uma mesma composio. Predomina, alis, o verso agudo. O nmero de 
silabas oscila entre 4 e 16, dominando os versos de 7, 8 e 10 slabas.

A Potica tambm no regista regras de acentuao tnica obrigatria, o que, tal como 
a instabilidade na contagem silbica, revela a dependncia do ritmo versificado 
relativamente ao do canto.  contudo mais fcil reconhecer algumas tendncias de 
regularidade rtmica na cantigas de amigo, sobretudo paralelsticas, certamente por 
corresponderem a esquemas de canto e dana mais fixos e tradicionais.

A estrofe (cobla, cobra ou talho) abrange de 2 a 10 versos, com predomnio de 7 nas 
cantigas de mestria e de 4 nas de refro.

Os trs gneros admitem, em regra, uma estrutura dialogal, mais tpica do escrnio 
(teno); nas tenes o reptado deve obedecer s rim@Ls do desafiante. Assemelham-se 
s tenes as cantigas de seguir, cujas letras, semelhailtes ou contrastantes, se 
adaptam a um mesmo som, ou msica, e tendem para a pardia.

Os numerosssimos hiatos que a grafia arcaica regista impem-se, normalmente,  
contagem silbica, mas h sinreses mais ou menos frequentes, conforme o timbre das 
vogais e o grau de uso correntio das palavras. Isto revela uma evoluo fontica em 
marcha, provavelmente retardada no verso por velhos hbitos de ritmar as palavras 
pelo canto.
O mencionado tratado de Potica ou Arte de trovar classifica j esse hiato como um 
erro

comparvel  cacofonia, embora parea admitir um hiato por verso desde que se no 
trate

de vogais do mesmo timbre.


Jean-Marie d'Heur descobriu num cdice alcobacense do sculo XIV (CDIV/286), junto de 
um dicionrio latino-portugus de verbos editado por H. H. Carter, curiosas anotaes 
em latim que confirmam e completam esta Arte de trovar quanto s estruturas dos 
versos e estrofes.

          69
BIBLIOGRAFIA

1. Textos

Cancioneiro da Aiuda-:

Ed. crtica, hoje carecida de reviso, por Carolina Michalis de Vasconcelos, 2 vols. 
(sendo o segundo um estudo bibliogrfico e histrico), Halle, 1904; reed. Turim, 1966 
reed. pelo IN-CM, 1990, com pref. de lvo de Castro.

Ed. diplomtica por Henry H. Carter, Nova lorque, 1941. Ed. por Marques Braga, com 
base na de Carolina Michalis de Vasconcelos, col. *Clssicos S da Costa+,   em 2 
vols., estando publicado apenas o 1.o, Lisboa, 1945.

Cancioneiro da Vaticana;

Ed. diplomtica por Ernesto Monaci, com fac-smiles, Halle, 1875. Ed. por Tefilo 
Braga, precedida de um estudo crtico e histrico, Lisboa, 1878. (A restituio do 
texto nem sempre  segura.) Ed. fac-similada, Lisboa, 1973, com introd. de L. F. 
Linciley Cintra. A. Lee-Francis Askins encontrou uma cpia seiscentista deste 
cancioneiro, por enquanto conhecido como Cancioneiro      de Berkeley e actualmente 
em estudo por esse e outros especialistas.

Cancioneiro da Biblioteca Nacional   (antigo Colocci-Brancutti):

Ed. diplomtica dos textos que no esto includos no da Vaticana, por Enrico 
Moiteni, Halle, 1880.

Ed. por Elza Paxeco e Jos Pedro    Machado, publicado na *Revista de Portugal+,
1947-64, com fac-smiles, transcrio,   leitura e comentrios, incluindo as cantigas 
dos Cancioneiros da Ajuda e da Vaticana que se encontram no da Biblioteca Nacional. O 
8. > e ltimo vol. contm um glossrio. A sua leitura do manuscrito tem sido muito 
criticada.

Ed. fac-similada, IN-CM, 1982, apres. por L. F. Linciley Cintra, que, com Giuseppe 
Tavani, publicar um estudo no anunciado vol. 11.

Ver Ferrari, Ana: Formazione e struttura dei Canzoniere Portoghese delia Biblioteca 
Nazionale di Lisbona.--- in *Arquivos do Centro Cultural Portugus+, Paris, XIV, 
1979, pp. 25-140.

A Tavola Colocciana dos poetas trovadorescos tem uma ed. diplomtica por Monaci e ed. 
crtica, com reprod. fotogrfica e estudo de E. Gonalves, in *Arquivos do Centro 
Cultural Portugus+, X, Paris, 1976, pp. 387-448.

Cantigas de Santa Maria de Afonso X:


Ed. da Real Academia Espafiola, 2 vols., Madrid, 1889; ed. de Walter Mettmann,
3 vols., Coimbra, 1959, 1961 e 1964, reimp. fac-similada por Edicins Xerais de 
Galicia, Vigo, 2 vols., com pref. de Ramn Lorenzo, 198 1.

As cantigas de amigo e as de amor dos trs primeiros Cancioneiros foram editadas com 
comentrios e glossrios por Nunes, Jos Joaquim: Cantigas de Amigo, 3 vols.,
1926-28, reed. Lisboa, 1973; Cantgas de Amor, 1 vol., Lisboa, 1932, reed. Lisboa, 
1972.

As cantigas de escrnio foram mais tardiamente editadas: Cantigas d'escarnho e de 
maldizer dos cancioneiros medievais galego-portugueses, ed. crtica de Manuel Rodri-

70
ques Lapa, que contm o mais copioso glossrio medieval portugus, Editorial Galaxia, 
Vigo, 1965, reed, 1970.

H ed. separadas das poesias de alguns autores: Cancioneiro de EI-ReiD. Dinis, por 
Henry R. Lang, Halle, 1894 (reimpresso em 1972, Georg Oli-ris, Nova lorque).

Cantigas de Joo Garcia de Guilhade, por Oskar Nobiling, Eriangen, 1907. Cancioneiro 
de Payo Gmez Charii@o, A. Cotareio y Valiedor, Madrid, 1934, reed. com prlogo e 
apndices de E. M. Romero, Xunta de Galicia, 1984.

Cancioneiro de Paay Grnez Charinho, Rio de Janeiro, 1945. Cancioneiro de Joan Zorro, 
Rio de Janeiro, 1949, e Cancioneiro de Martin Codax, Rio de Janeiro, 1956, por Celso 
Ferreira da Cunha.

11 Canzonieri di Martin Codax, org. por Barbara Spaggiari, sep. de *Studi Medievali+, 
XX1, 1, 1980.

Pousa, R. Fern,idez: Cancionero Gallego del Trovador Ayras Niez, in *Revista de 
Literatura+, 5, 1954.

Le poesie di Ayras Nunez, ed. crtica por Giuseppe Tavani, *Collezione Internazionale 
di Filologia Romanza+, Milo, 1964.

11 Canzoniere del Giullar Loreno, G. Tavani, in *Cultura Neolatina+, XIX, 1959. 
Canzoniere de Joan Nunes Canans, G. Tavani, in *Annali deii'istituto Universitario 
Orientale+, li, 2, 1960.

11 Canzoniere di Pero Anes Solaz, E. Reali, ibidem, IV, 2, 1962. Le Poesie d'amore di 
Vidal, giudeo di Elvas, ed. L. Stegagno Picchio, *Cultura Neolatina+, 22, 1962, pp. 
46-61.

Le poesie di Martin Soares, Valeria Bertolucci Pizzorusso, ed. Bolonha, 1963. Le 
*Cantigas+ di Juyo Bolseyro, in *Annali deli'istituto Universitario Orientale+, VI, 
 2, Npoles, Julho 1964.

Loureno. Poesie e Tenzoni, ed. crtica, G. Tavani, Mdena, 1964.
O Cancioneiro de Pro Meogo, ed. X. L. Miridez Ferrin, Galaxia, Vigo, 1966.
11 Canzoniere di Pedro Eanes Solaz, ibidem, lX, n. 2, Julho 1967. Pero da Ponte. 
Poesie, ed. critica, introd. e notas de Saverio Panunzio, Adriatica EdBari, 1967.

Martin Moya. Le Poesie, por L. Stegagno Picchio, Ed. dell'Ateneo, Roma, 1968. Le 
Poesie di PedrAmigo de Sevilha, ed. por G. Marroni, *Annali dellIstituto 
Universitario Orientale+, 10, Npoles, 1968, pp. 189-339.

Las once cantigas de Juan Zorro, por M. Alvar, Granada, 1969.
11 Canzoniere di D. Lopo Lins, Silvio Pellegrini, *Annali deii'istituto 
Universitario Cirientale+, Npoles, 1969.

11 Canzoniere di Estevam di Guarda, por W. Pagani, *Studi Mediolatini e Volgari+, 
XIX, 1971, pp. 53-179.

As Cantigas de Pro Meogo, Leodegrio A. de Azevedo Filho, Rio, 1974, reed. 1981. Le 
Poesie di Ayras Carpancho, Vicenzo Minervi, *Annali dellIstituto Universitario 
Crientale+, Npoles, 1974.

             71
Femand'Esquyo, Le poesie, ed. crtica, introd. e notas de Fernanda Toriello, Bari, 
1976.
11 Canzoniere diJohan Baveca, ed. crit., introd. e notas por Carmelo Zilli, Bari, 
1977. Bernal de Bonaval - Poesie, ed. M. L. Indini, Bari, 1978.
11 Canzoniere di Fernan Velho, por G. Lanciani, L'Aquila, Japadre Editore, 1977.
11 Canzoniere di Roy Gomez de Briteyros, por E. Finazzi-Agr, L'Aquila, Japadre 
Ediiore, 1979.

11 Canzonieri di Estevan Fernandez di Elvas, ed. C. M. Radulet, Adriatica, Bari, 
1979.
11 Canzonieri di Vasco Perez Pardal, ed. M. Maiorano, Adriatica, Bari, 1979. Le 
Poesie di Roy Pez di Ribela, M. Barbieri, Studi Mediolatini e Volgari, XXVII, 1980, 
pp. 7-104.

El Cancionero de Joan Aires de Santiago, ed. e estudo de Jos Lus Rodrigues, Univ. 
de Santiago de Compostela, 1980.

As Cantigas de Pedro Mafaldo, ed. S. Spina, Rio de Janeiro-Fortaleza, 1983. Les 
chansons de Pero Garcia Burgals, ed. Pierre Blasco, C. Cultural Portugus, Paris,
1984.

11 Canzioniere di D. Pedro de Portugal, ed. por M. Simes, em publ. in *Romanica 
Vulgaria+, L'Aquila.

Fernan Garcia Esgaravunha - canzoniere, ed. M. Spampinato Beretta, 1990. Cantigas de 
Joo Servando, ed. crt., Cacilda O. Camargo, C. A. lannone, J. Cury e S. R. Pereira, 
Araraquara (So Paulo), 1990.

De Martim Coclax foram publicados, alm das cantigas, os respectivos textos musicais 
(os nicos que se conhecem nos Cancioneiros) por Vindel, Pedro: Martin Codax. Las 
siete canciones de amor. Poema musical del siglo XII, Madrid, 1915, reprod. 
prefervel in Cuesta, Femndez de Ia: Las Cantigas de amigo de M. Codax, *Cahiers de 
Ia civilisation mdivale+, 25, 1982, pp. 179-185. Boa reproduo fotogrfica em 
Ferreira, Manuel Pedro: O Som de Martin Codax, Lisboa, 1986.

O Prof. Harvey L. Sharrer, da Univ. da Califrnia, Santa Brbara, revelou em 1990 a 
descoberta de um fragmento de manuscrito do sc. XIV que contm sete cantigas de amor 
de O. Dinis com notao musical, nos Cartrios Notariais de Lisboa do Arquivo 
Nacional da Torre do Tombo; esse Arquivo fez j uma edio a cor do pergaminho, que 
ser objecto de comunicaes especializadas num Encontro marcado para Outubro de 
1991.


Achados como este e o do Cancioneiro de Berkeley, estudos em curso de natureza 
lingustico-filolgica ou em torno das cortes senhoriais peninsulares noroestinas e o 
melhor conhecimento dos textos romnicos medievais podem alterar significativamente a 
actual viso da literatura galego-portuguesa dos scs. X11-XIV.

2. Antologia e extractos

Encontram-se nas antologias medievais e crestomatias de Pereira Tavares, Leite de 
Vasconcelos (4. > ed., 1959), Rodrigues Lapa (col. *Textos Literrios+, 4. > ed., 
*Clssicos do Estudante+, 1976), mas sobretudo em Nunes, Jos Joaquim: Crestomatia 
Arcaica,
5. > ed., Lisboa, 1959; Florilgio da literatura portuguesa arcaica, Lisboa, 1932; 
Cantigas de Amigo, Coimbra, 1926-28, reed., Centro do Livro Brasileiro, Lisboa, 1972; 
e Cantigas de Amor, Coimbra, 1932, reed. ibidem, 1972.

72
Spina, Segismundo: Apresentao da Lrica Trovadoresca, Rio de Janeiro, 1956,
3. > ed. rev. como Lrica Trovadoresca, ed. Univ. de So Paulo, 1991. (Antologia 
comentada e traduzida das diversas escolas trovadorescas europeias, com glossrios; 
bibliografia por actualizar.)

Bertoni, Giulio: Antiche Liriche portoghese, Mdena, 1937. Cidade, Hemni: Cantigas 
de Amigo, col. *Textos Literrios+, Lisboa, 1939. Pimpo, Costa: Cantigas d'el-rei D. 
Dinis, col. *Clssicos Portugueses+, Lisboa, 1942, e col. *Atlntida+, Coimbra, 
1960.

Nemsio, Vitorino: Antologia da Poesia portuguesa. A poesia dos trovadores (sculos 
X11-XV), Lisboa, 1950; A Poesia dos Trovadores, col. *Obras-Primas da Lngua 
Portuquesa+, Lisboa, 1962.

Fonseca, Fernando V. Peixoto da: Cantigas de Escrnio e Maldizer, col. *Clssicos 
Portugueses+, Liv. Clssica Editora, 1961.

Oliveira, Corra de/Machado, Saavedra: Textos Portugueses Medievais, Coimbra,
1959, 5. a ed. actualizada, 1974 (antologia escolar).

Correia, Natlia: Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses, Lisboa, 1970, reed. 
Estampa (textos modernizados).

Fiza, Mrio: Textos Literrios Medievais, Porto, 1977 (antologia escolar). Do 
Cancioneiro de Amigo, estudos de Stephen Reckert, Roman Jakobson e Hlder Macedo, e 
ainda 50 cantigas de amigo seleccionadas pelos dois primeiros e comentadas por S. 
Reckert, Assrio e Alvim, 1976.

Antologia da Poesia Trovadoresca Galego-Portuguesa, introd., selec. e notas por 
Alexandre Pinheiro Torres, Lello e Irmo, Porto, 1977. Inclui composies em todos os 
gneros, de 64 autores.

A Lrica Galego -Portuguesa, apres., selec., notas de Elsa Gonalves, com uma boa 
sntese lingustica de Maria Ana Ramos, col. *Textos Literrios+, 1983. Muito segura.

Alvar, Carlos/Beltrn, Vicent: Antologia de Ia poesia gallego-portuguesa, Alhambra, 
Madrid, 1985.

Deluy, H.: Troubadours Galego -Portugais (em trad.), P.01--- Paris, 1987. O n. > 94 
da rev. *Action Potique+, Paris, 1984,  tambm constitudo por uma antologia trad. 
de trovadores galego-portugueses.

3. Estudos

Alm dos que esto includos nas ed. crticas e comentadas (que nem sempre servem 
para iniciao), aconselhamos os seguintes, como ponto de partida:

Anglade, J.: Les Troubadours, Paris, 1929 (obra de divulgao).

Jeanroy, A.: La Posie Lyrique des Troubadours, Paris, 1934 (amplo estudo de 
conjunto).

Marrou, Henri-1rne: Les Troubadours, Paris, 197 1.

73
Lavaud, R./Nelli, R.: Ls Troubadours, 2 vols., Paris, 1960-68 (antologia com trad. 
francesa); Nelli, Ren: L'rotique des troubadours, 2 vols., col. 10/18, Paris, 1974, 
e

Troubadours et Trouvres, Poitiers, 1979.

Badel, PA.: Introducton  Ia vie littraire ou Moyen ge, Paris, 1959. Pidal, R. 
Menndez: Poesia juglaresca y jugIares, Madrid, 1924, obra fundamental, reed. Madrid, 
1975; La primitiva Lrica Hispana y los Origenes de Ias Literaturas Romnicas, 
includo in Espa#a y su Historia, vol. 1, Madrid, 1957.

Gentil, Pierre le: La posie Iyrique espagnole et portugaise  Ia fin ou Moyen Age,
2 vols., Rennes, 1949-52.

Pellegrini, Silvio: Repertorio bibliogratico della prima lirica portoghese, Mdena, 
1939, actualizado como Nuovo repertorio [    ... 1, S. PellegrinilG. Marroni, 
L'Aquila, 1981; Studi su Trove e Trovatori della Prima Lirica Ispano-Portoghese, 2. 
ed. rev,, Bari, 1959; Variet Romanze, Adriatica Ed., Bari, 1977 (reunio pstuma de 
estudos, org. por G. E. Sansone, incluindo cinco trabalhos sobre trovadores galaico-
portugueses).

Angls, H.: La msica de Ias Cantigas de Santa Maria, 2 partes, Barcelona, 1958 
(mtrica e melodia, com informao geral sobre a melodia lrica hispnica e europia 
dos scs. X11-XIII).

Cunha, Celso Ferreira da: Estudos de potica trovadoresca, Rio de Janeiro, Instituto 
Nacional do Livro, 196 1; Lngua e Verso, 3  . aed. rev. e aum., S da Costa, Lisboa, 
1984, e, mais desenvolvidamente, Estudos de Versificao Portuguesa (sculos XIII e 
XIV), F. C, Gulbenkian, Centro Cultural Portugus, Paris, 1982.

Valverde, Jos Figueira: Lrica medieval gallega y portuguesa, captulo da Historia 
General de Ias Literaturas Hispnicas, vol. 1, Barcelona, 1949.

Stem, S. M.: Les Chansons mozarabes. Les vers finaux (*kharyas+) en espagnol dans les 
*muwashshas+ arabes et hbreux, ed. anotada, Palermo, 1953, reed. Oxford, 1964. 
Confrontar com Alvar, Manuel: Poesia tradicional de losjudios espa1@oIes, Mxico, 
1966, e Cantos de boda judeo-espa5oles, Madrid, 1971.

Alatorre, Margit Frenk: Lasjarchas mozrabes y los comenzos de Ia lrica romnica, 
Mxico, 1975, e Estudios sobre lrica antigua, ed. Castalia, Madrid, 1978.


Lapa, Rodrigues: Lies de Literatura Portuguesa. poca Medieval, 10. > ed. rev., 
Coimbra, 1981 ( ainda o mais claro livro portugus de sntese, com ampla 
bibliografia crtica); Miscelnea de Lngua e Literatura Medieval, Rio de Janeiro, 
1965, reed. *Acta Universitatis Conmbrigensis+, 1982; As *jarchas+ e as origens da 
lrica galego-portuguesa, in *Grial+, n, 7, Jan.-Maro 1965.

Pimpo, lvaro J. da Costa: Histria da Literatura Portuguesa. Idade Mdia, 2      a 
ed Coimbra, 1959. (Obra de consulta, sobretudo quanto a informaes eruditas e 
bibliogrficas.)

Saraiva, Antnio Jos: A Cultura em Portugal. Teoria e Histria, vol. li, Cap. 5, 
Lisboa, 1984; O Crepsculo da Idade Mdia em Portugal, Gradiva, 1988, pp. 13-43, 
reimpr. com ndice remissivo 1990; Nota sobre os Cancioneiros, in Poesia e Drama, 
Gradiva, 1990.

Asensio, Eugenio: Poetica y Realidad en el Cancionero Peninsular de Ia Edade Media,
2. a ed, aurn., Gredos, Madrid (estudo minucioso da temtica e sobretudo do 
paralelismo);

74
O Cancioneiro de Martin Codax, in Estudios Portugueses, Centro Cultural Portugus, 
Paris, 1974.

Spina, Segismundo: Do Formalismo Esttico Trovadoresco, So Paulo, 1966; Manual de 
versificao romnica medieval, Rio de Janeiro, 1973.

Heur, Jean-Marie d: Les Descors Oceitans et tes Descors Galiciens-Portugais, in 
*Zeitschrift fr Romanische Philologie+, 84 (1968), pp. 335-336; Troubadours d'Oc et 
Troubadours Galiciens-Portugais, Centro Cultural Portugus, Paris, 1973; L'Art de 
Trouver du Chansonnier Colocci-Brancutti, in *Arquivos do Centro Cultural Portugus+, 
9, Paris, 1975, pp. 321-398; Recherches internes sur Ia Iyrique amoureuse des 
troubadours galiciens-portugais (XII-XIV SicIes), 1975 (tese de doutoramento) .

VossIer, Karl: Formas Poticas de los Pueblos Romnicos, trad. esp. de Coco Ferraris, 
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comparativos.)

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na Literatura Medieval Portuguesa (Sculos XIII e XIV), *Biblioteca Breve+, Instituto 
de Cultura Portuguesa, 1977.

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iberica, Roma,
1969; Parallelismo e iterazione, in *Cultura Neolatna+, 1973; Problmes de Ia Posie 
Lyrique Galgo-Portugaise, in *Colquio-Letras+, 17, Janeiro de 1974, pp. 45-56; La 
Poesia Lirica Galego-Portoghese, in *Grundriss der Romanischen Literaturen des 
Mitteialters+, vol. 11/1, fasc. 6, Heidelbergue, 1980, trad. galega, A Poesia Lrica 
Galego-Portuguesa, Galxia, Vigo, 1986, trad. port. rev. Ed. Comunicao, Lisboa, 
1989 (estudo bsico sobre o mbito do trovadorsmo galego-portugus, gnese dos 
cancioneiros conhecidos, gneros, evoluo da escola e fichas biobibliogrficas que 
actualizam o anterior Repertorio... Ensaios Portugueses, IN-CM, 1988.

Pellegrini, S,/Tavani, G.: Nuovo repertorio bibliografico della prima lirica-
portoghese (1814-1977), L'Aquila, Japadre Editore, 1981. Bagley, C. P.: Cantigas de 
amigo and cantigas de amor, in *Builetin of Hispanic Studies+, 43, n. 4, Outubro 
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Crespo, Firmino: A Tradio de uma Lrica Popular Portuguesa antes e depois dos 
Trovadores, in *Ocidente+, desde n. O 339, Julho de 1966.


Alegria, Jos Augusto: A Problemtica Musical das Cantigas de Amigo, Lisboa, 1968. 
Lesser, Ariene T.: La Pastorela Medieval Hispnica - Pastorelas y Serranas galaico-
portuguesas, ed. Galxia, Vigo, 1970.

Romeralo, Antnio Snchez: El Villancico, col. *Biblioteca Romnica Hispnica+, 
Madrid, 1969.

Zurnthor, Paul: Essai de Potique Mdivale, Seuil, Paris, 1972; La Posie et Ia VoiX 
dans Ia Civilisation Mdivale, PLIF, 1984; e colab. em L'Enseignement de Ia 
Littrature, org. de S. Doubrovsky e T. Todorov, pp. 55 e seguintes.

            75
Picchio, Luciana Stegagno: Filtri d'oggi per testi medievali: h papagay muy fremoso, 
sep. do vol. IX dos *Arquivos do Centro Cultural Portugus+, Paris, 1975; A Lio do 
Texto - Filologia e Literatura, trad. port., Edies 70, Lisboa, 1979.

Jensen, Frede: The Earliest Portuguese Lrics, Odenne Universitary Press, Oslo, 1978. 
Rossi, Luciano: A literatura novelstica da Idade Mdia Portuguesa, *Biblioteca 
Breve+, Instituto de Cultura Portuguesa, 1979: contm um pequeno mas importante 
estudo das caractersticas e fontes das narrativas satricas ou exemplos nas cantigas 
de escrnio e nas Cantigas de Santa Maria.

Rico, Francisco: Otra lectura de Ia *Cantga da Garvaia+, in *Studia Hispanica+, 1, 
pp. 443-453.

Ferrari, Anna/Gonalves, Elsa/Ramos, Maria Ana: Geografia da lrica galego-
portuguesa, in *Tiraclicion, actualidade y futuro do Galego+, Actas do Colquio de 
Trveris, Santiago de Compostela, 1982, pp. 191-201. Ver ainda a comunicao destas 
autoras s Primeiras Xornadas Galegas, Barcelona, 1988 (ainda no publicada).

Duarte, Lus Fagundes: Acerca do ritmo das Cantigas de Amigo (comunicao ao

17. Congresso de Filologia e Lingustica Romnica, Aix-en-Provence, 1983, com o 
estudo inovador das regularidades prosdicas musicais e versificatrais das cantigas 
de Martim Coclax).

Ferreira, Manuel Pedro: O Som de Martim Codax, IN-CM, 1986 (o estudo mais seguro 
sobre o assunto;  completado por um disco.) O Pergaminho Vindel com as 7 cantigas de 
M. Coclax, seis das quais se encontram na Pierpont Morgan Library, Nova lorque.

Osrio, J. Alves: *Cantigas de Escarnho+ Galego-Portuguesas: Sociologia ou Potica?, 
in *Revista da Fac. de Letras+, Porto, II, vol. 111, 1986, pp. 155-198.

Oliveira, Antnio Resende de: Do *Cancioneiro da Ajuda+ ao *Livro dos Cantigas+ do 
Conde D. Pedro, in *Revista de Histria das Ideias, vol. X, Coimbra, 1988, pp. 691-
751; A Galiza e a Cultura Trovadoresca Peninsular, ibidem, vol. XI, 1989, pp. 7-36; A 
Cultura Trovadoresca no Ocidente da Pennsula, in *Biblos+, vol. 63, 1987, pp.1-22. 
(Estuda a distribuio e, da, a gnese da coleco de fins do sc. XIII que teria 
dado origem aos cancioneiros trovadorescos; caracteriza a evoluo do predomnio dos 
trs tipos de cantigas, as clivagens sociais e os  possveis mecenas senhoriais mais 
antigos, sobretudo galegos.)

Em Estudos Portugueses -     Homenagem a Luciana Stegagno Picchio, Difel, Lisboa,

1990, salientemos os seguintes trabalhos: Gier, A.: Prologomnes  Ptude structurale 
des *Cantigas de Santa Maria+, pp. 57-68; Hart, T. R.: New perspectives on the 
Medieval Portuguese Lyric, pp. 69-78; Alonso, D. P.: A mtrica acentual na Cantiga de 
Amigo, pp. 111- 142; Valverde, X. F.: A servidume de amor e a expresin feudal nos 
Cancioneiros, pp,185-208.

Em Mattoso, Jos: A Escrita da Histria, Estampa, 1988, h sugestes relevantes 
quanto  interpretao geral da poesia dos Cancioneiros.


Captulo III

HISTORIOGRAFIA E PICA

Algumas caractersticas da historiografia peninsular

Na Pennsula Ibrica a historiografia em lngua romance conhece desde o sculo XIII 
um notvel desenvolvimento. Quando em Frana encontramos apenas narrativas pessoais 
de tipo memorialista, j aqui se empreende a composio de uma Crnica Geral de 
Espanha, ampla histria peninsular, onde se integra o material recolhido em autores 
latinos clssicos ou medievais que tinham falado da Hispnia, em historiadores e 
gegrafos rabes, e em numerosos cantares de gesta, narrativas histricas nacionais 
divulgadas pela literatura oral. Esta obra, assim como a General Estoria, quer dizer, 
uma Histria Universal que lhe serve de introduo,  realizada na corte

de Afonso X, o Sbio, por escribas ao servio do rei e sob sua imediata 
superintendncia. Tambm neste aspecto a corte de Afonso X, onde, como vimos, se 
produziu grande parte da poesia profana e religiosa em galaico-portugus, e onde se 
levou a cabo a mais importante codificao medieval de leis, aparece como um 
brilhante foco de cultura cuja irradiao certamente se no limitou a Castela e Leo.

Certas circunstncias devem ter concorrido para este surto da historiografia 
peninsular. Uma delas  comum a toda a Europa crist: a existncia de uma 
historiografia latina medieval, produzida predominantemente nos conventos. Outras so 
peculiares  Pennsula: a tradio criada por Santo Isidoro na poca visigtica com o 
seu Cronicon Universal e que produziu vrios tratados e crnicas latinas precursores 
da Crnica General; o brilhante desen-

78
volvimento da historiografia rabe, que no era desconhecida do lado cristo da 
fronteira, como se verifica pela traduo livre da Crnica do Mouro Rass, feita na 
corte portuguesa; e a existncia de cantares narrativos divulgados por jograis, sobre 
reais acontecimentos e personagens, tomados pelo pblico e pelos prprios autores, 
no como fico potica, mas como narrativas verdicas. Toda uma histria nacional da 
Espanha era fragmentariamente conhecida atravs dos diversos cantares de gesta, como 
o Cantar de mo Cid. Histrica e geograficamente mais prximos dos acontecimentos que 
celebram, estes poemas peninsulares so mais realistas que as chansons

de geste francesas.

A historiografia rabe serviu certamente de estmulo e de modelo, mas a sua 
contribuio como fonte de obras crists posteriores nunca poderia comparar-se com a 
das outras duas fontes aludidas: a historiografia em latim medievo, de origem 
clerical, e as narrativas populares, em lngua romance, divulgadas pelos jograis. 
Grandes diferenas de mentalidade e de perspectivao dos acontecimentos distinguiam 
estas duas correntes: enquanto a historiografia em latim traduz, como  bvio, o 
ponto de vista clerical, a epopeia ocupa-se principalmente dos feitos dos reis e dos 
nobres. O ponto de vista da epopeia  muito diverso do do clero, ao qual se mostra 
inclusivamente hostil quando este entra em conflito com a coroa ou com a nobreza. Por 
outro lado, notam-se entre a epopeia e a historiografia clerical grandes diferenas 
quanto ao modo de expresso. Esta vaza-se num estilo impessoal e solene, propende 
para a oratria, e recorre  hiprbole; as suas descries de batalhas so clichs 
feitos e sempre repetidos, sem realismo; prefere o

discurso indirecto, quando no atribui s personagens longos discursos bem ordenados, 
como prdicas; estas personagens so desprovidas de traos caractersticos. Pelo 
contrrio, a epopeia, de frase mais tosca, mas tambm mais directa, distingue-se pelo 
gosto do pormenor, pelo realismo testemunhal dos feitos de armas, pelo recurso 
constante ao dilogo, pela viveza e individualidade marcada dos heris.

Os principais textos de hstoriograFia medieval portuguesa

No esto ainda completamente esclarecidas as origens da historiografia portuguesa 
medieval, que atingir no sculo XV um extraordinrio brilho. S recentemente este 
campo de investigao comeou a ser desbravado.

79
Ao passo que na monarquia sture-leonesa e depois castelhana surge, j no Sculo lX, 
uma historiografia latina inspirada em Santo Isidoro e ordenada segundo a concepo 
da unidade e permanncia de um povo hispnico, em Portugal s se conhecem em poca 
mais tardia anais fragmentrios (segundo designao do seu principal estudioso, 
Pierre David, Annales Portugalenses veteres, 987-1079, continuados at 1111 e ainda 
at 1168) que so meros registos de acontecimentos importantes ocorridos na regio 
portuguesa entre o Minho e o Mondego. Na passagem para o sculo X111 o reinado de D. 
Afonso Henriques  objecto de registos latinos e de notcias anlsticas.

Mas em 1344 (a data consta do texto da obra) redge-se uma Crnica Geral de Espanha 
em lngua portuguesa, da qual s se conservou a traduo castelhana. O autor desta 
crnica inspira-se na Crnica General de Espafla, de Afonso X, o Sbio, mas no se 
limita a traduzi-Ia e adapt-la, pois prolonga a sua narrativa at ao reinado de D. 
Afonso IV (bisneto de Afonso X), e em parte utiliza fontes diferentes das da Crnica 
General, como a Crnica

do Mouro Rasis, traduzida para portugus, e outras ainda. Entre a Crnica General de 
Afonso X e a Crnica Geral de 1344 interpe-se uma Crnica Geral Galego-Portuguesa, 
correntemente considerada como uma simples traduo da crnica alfonsina, mas que 
parece derivar, em parte, de outras origens.

H grandes afinidades entre a Crnica de 1344 e o Livro das Linhagens do Conde D. 
Pedro. Utilizam fontes idnticas, sem que uma das obras possa considerar-se derivada 
da outra. Tudo leva a crer que ambas se devem  iniciativa do conde de Barcelos, 
filho natural de D. Dinis, bisneto de Afonso X, que foi tambm o mecenas que fez 
compilar o mencionado Livro das Cantigas, onde se conservou uma grande parte do nosso 
lirismo primitivo.

No que se refere  histria de Portugal, a fonte imediata da Crnica de
1344  o texto da IV Crnica Breve de Santa Cruz de Coimbra, que contm notcias de 
anais existentes no mosteiro, tradies picas relativas a D. Afonso Henriques e 
relatos alusivos aos seus sucessores. Ora esta IV Crnica Breve parece poder 
identificar-se como a parte portuguesa de uma Crnica Portuguesa de Espanha e 
Portugal redigida  volta de 1342, e referenciada mais tarde por Cristvo Rodrigues 
Acenheiro e por Frei Antnio Brando. Esta crnica , pelas suas fontes, independente 
da Crnica General de Espaja e seus derivados.

80
No fica por aqui a lista das crnicas, porque a Crnica de 1344 do conde D. Pedro 
foi largamente refundida e alterada cerca de 1400. Conservou-se

o texto portugus desta sua refundio.

Desta forma, temos durante o sculo XIV os seguintes grandes textos histricos, uns 
conservados, outros perdidos:

1 - A Crnica Geral de Espanha em galego-portugus, que  uma traduo de textos 
castelhanos;

2 - A Crnica Portuguesa de Espanha e Portugal (c. 1342), cujas fontes so 
principalmente portuguesas, e da qual se conservou um fragmento da IV Crnica Breve 
de Santa Cruz;

3 - Trs Livros das Linhagens, sendo os dois ltimos da iniciativa de

D. Pedro, conde de Barcelos;

4 - A primeira verso da Crnica Geral de 1344, atribuda ao mesmo

conde, de que s se conhece a verso castelhana;

5 - A segunda verso da Crnica Geral de 1344, redigida em 1400.

A esta lista poderamos acrescentar, j  entrada do sculo XV, uma Crnica galego-
portuguesa de 1404, cujo autor utiliza fontes comuns  de 1344.

Ainda do sculo XIV temos, alm de notcia da j citada Crnica do Mouro Rasis (isto 
, Ahmed AI-Razi, ou Arrazi, cronista mouro cordovs de incios do sculo X), 
traduzida na corte de D. Dinis por Gil Peres; a Rela o da Vida da Rainha Santa 
Isabel; a Crnica de como D. Paio Correia tomou este reino do Algarve aos Mouros; 
acrescentemos a Crnica da Fundao do Mosteiro de S. Vicente, traduo j 
quatrocentista de um texto conventual originalmente em latim. O sculo X111 apenas 
nos deixara, que se saiba, o mais antigo Livro das Linhagens, redigido cerca de 1282-
90, e ao qual nos referiremos adiante.

A gesta de D. Afonso Henriques

Na parte relativa a D. Afonso Henriques, a Crnica de 1344 apresenta um relato 
lendrio, com princpio, meio e fim, um heri central que  D. Afonso Henriques, e 
outros secundrios, entre os quais Egas Moniz. A mesma lenda afonsina aparece, de 
forma certamente mais prxima da

81
sua verso original, na IV Crnica Breve de Santa Cruz e na crnica castelhana de 
Onze ou Vinte Reis. Tanto a IV Crnica Breve (fragmento de uma

Crnica Portuguesa de Espanha e Portugal de 1342) corno a mencionada crnica 
castelhana recolheram cada uma por seu lado a mesma tradio pica oral, mas a verso 
portuguesa est mais prxima do estilo jogralesco. O conde D. Pedro na Crnica de 
1344 teria reproduzido, resumindo-a e alterando-a em parte, a verso da lenda de 
Afonso Henriques que encontrou na Crnica Portuguesa de 1342 (ou, o que  o mesmo, na 
IV Crnica Breve de Santa Cruz). Este resumo  tambm o que se encontra na III 
Crnica Breve de Santa Cruz, simples cpia em lngua modernizada de uma parte da 
Crnica de 1344, do conde D. Pedro.

No se conhece a verso original da lenda de Afonso Henriques. Mas sabemos que ela se 
congrega em torno dos seguintes acontecimentos: a) morte do conde D. Henrique; b) 
lutas de Afonso Henriques contra a me e o padrasto pela posse da herana do conde D. 
Henrique; c) lutas de Afonso Henriques contra o Papa, na defesa do poder real; d) 
lutas de Afonso Henriques pela independncia do seu condado, contra Afonso VI de Leo 
e Castela; c) assalto e tomada de Santarm; t) desastre de Afonso Henriques, em luta 
contra Fernando de Leo e Castela, no assalto de Badajoz.

Este ciclo de tradies est ordenado por uma trama de conjunto que lhe d unidade 
trgica; desde a revolta contra a me at ao desastre de Badajoz, a vida do heri 
desenvolve-se como um perfeito encadear de acontecimentos, que tem origem na maldio 
de D. Teresa, ao ver-se agrilhoada pelo filho, maldio que vem a cumprir~se quando 
este, em Badajoz, sofre um

desastre que o inutilizou para o resto da vida.

Preside a este ciclo lendrio a inteno de exaltar a figura e feitos do primeiro rei 
de Portugal e defender a sua causa. De modo especial, pretende mostrar, contra as 
pretenses de D. Teresa, que ele  o herdeiro legtimo do territrio deixado pelo 
conde seu pai; e tambm que a razo est do seu

lado no conflito com a Santa S.

Em torno do protagonista constelam-se outros heris, principalmente Egas Moniz, aio 
de Afonso Henriques e seu salvador no cerco de Guimares. Egas Moniz no aparece 
todavia na verso da IV Crnica Breve; aqui o aio  Soeiro

Mendes, senhor da Maia, vassalo do conde D. Henrique. O que parece mostrar que Egas 
Moniz  o heri de outro relato lendrio que aquela verso no

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recolheu, mas que foi includo na Crnica Geral do conde D. Pedro (e num

seu extracto, a IH Crnica Breve). Teria, portanto, existido no s um relato, mas 
todo um ciclo de tradies  picas sobre as origens do reino de Portugal.

O territrio em que se desenvolve a aco ou aces deste ciclo lendrio abrange o 
espao do novo reino e territrios fronteirios do lado de Leo e Castela: Astorga, 
Guimares, Santarm e Badajoz, e muito especialmente Coimbra e arredores, teatro dos 
conflitos com o cardeal legado, e donde parte a expedio contra Santarm. Santo 
Tirso, onde est sepultado Soeiro Mendes, pode ter sido um foco gerador desta 
tradio pica.

Afonso Henriques aparece-nos a como um cavaleiro bravio e impulsivo, capaz de 
algemar a me e de erguer a espada para cortar a cabea a um cardeal legado. O perfil 
brbaro de um heri irmo do Cid recorta-se fero, com uma individualidade palpitante, 
atravs de actos enrgicos e directos e de

uma linguagem sem adjectivos. O ponto de vista do narrador exclui qualquer referncia 
 subjectividade das personagens, que se definem apenas pelo comportamento. O estilo 
da narrativa  sbrio e brusco, por vezes brutal, com recurso constante ao discurso 
directo, muito familiar, e ao dilogo. Pelo estilo e pela prpria concepo do heri, 
esta narrativa contrasta singularmente com os relatos de origem monstica, 
nomeadamente com o da Crnica da fundao do mosteiro de S. Vicente, em que o 
primeiro rei de Portugal aparece como um pio homem temente a Deus, empenhado numa 
cruzada religiosa, dentro de uma composio literria carregada dos esteretipos da 
oratria eclesistica.

Estes vestgios em prosa que ficaram da tradio de Afonso Henriques derivam muito 
provavelmente de poemas jogralescos perdidos, e talvez at de um nico poema, como o 
sugere a unidade de conjunto, da qual no entanto

se pode separar, sem prejuzo, o relato da tomada de Santarm, soberbo episdio de 
guerra, de um realismo testemunhal que no deixa de ter toques de lenda.  tambm 
provvel (j vimos) que corresse independentemente a histria de Egas Moniz.

Sobre a origem deste ciclo lendrio formularam-se duas hipteses: segundo a primeira, 
seria ele de origem portuguesa, segundo a outra, de origem leonesa. O prprio 
esprito do relato que apresenta Afonso Henriques como

heri invencvel da autonomia do novo reino contra os Leoneses, a localizao 
geogrfica, que revela o conhecimento da regio de Coimbra, embora

83

nos primeiros versos se situe em Astorga, onde morreu o pai do heri, tornam 
plausvel a origem portuguesa do ciclo pico de Afonso Henriques, mas

no  de excluir uma origem leonesa. A anlise estilstica comparada das suas mais 
antigas verses (a da IV Crnica Breve e a da crnica castelhana de Vinte Reis) 
mostra que a primeira est mais perto do estilo potico j ogralesco. No  
impossvel, alis, que fosse integrado neste ciclo, por jograis portugueses, um poema 
leons sobre a aco de Badajoz.

De qualquer modo, a perdida gesta de Afonso Henriques, cuja existn~ cia no pode j 
deixar de ter-se como provvel,  um documento literrio ligado s origens do reino 
de Portugal. Revela o surto de um sentimento nacional a definir-se e pode considerar-
se como uma gesta de independncia. Porventura encontramos aqui a primeira expresso 
de um sentimento pico ligado ao *amor da terra+ e  conscincia de uma actividade 
nacional que inspirar essa grande epopeia que so as crnicas de Ferno Lopes. Por 
outro lado, o sentimento anticlerical que anima esta gente tanto pode ser nobre como 
popular e traduz em todo o caso a posi o da coroa portuguesa perante Roma.  de 
notar que nas suas ltimas palavras, espcie de testamento poltico, o conde D. 
Henrique recomenda ao filho os cavaleiros (*filhos de algo+) e os *concelhos+, 
omitindo qualquer aluso  Igreja e aos clrigos. As lutas violentas entre Sancho 1 e 
o Papa, em 1209, teriam sido a ocasio que deu publicidade a este texto oral.

Ao lado da joglaria lrica, representada pelos cantares de amigo, existiu 
plausivelmente, em territrio portugus, uma j oglaria pica semelhante  castelhana. 
O desaparecimento da sua primitiva verso em verso pico apenas exemplifica o 
esquecimento que em geral atinge as produes da literatura oral; estas, 
frequentemente, no chegam a ser fixadas por escrito. O mesmo

destino sofreu quase toda a epopeia castelhana, que s recentemente se reconstituiu 
em parte, quer pela descoberta, no sculo XVIII, de um manuscrito do Cantar do Cid, 
quer atravs de prosificaes que conservam aqueles poemas, alterados, em obras 
histricas.

Os Livros das Linhagens

Interessam principalmente  historiografia medieval (mas tambm  literatura de 
fico) os Livros das Linhagens. So registos de famlias nobres, compilados em 
pocas diversas, acrescentados e interpolados de cpia em

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cpia at ao sculo XVI. A sua realizao est intimamente ligada aos interesses da 
nobreza, porque, registando as linhas de descendncia, tinha-se em vista acautelar os 
direitos patrimoniais dos membros das famlias fidalgas, especialmente os direitos de 
*padroado+ (direito a receber determinadas prestaes devidas pelos mosteiros ou 
igrejas aos seus fundadores e descendentes) e os de *avoenga+ (preferncias no caso 
de vendas dos bens e senhorios). Havia ainda o problema das alianas matrimoniais, 
que o direito cannico impedia entre parentes at ao 6. grau, dando lugar a litgios 
e anulaes a que se prestava o desconhecimento real ou simulado dos parentescos. 
Pretendia-se tambm assegurar s grandes famlias nobres o galardo dos servios 
prestados pelos antepassados, e contribuir para o prestgio e unidade da classe 
aristocrtica.

Existe um corpo de trs livros das linhagens, sendo os dois mais antigos (1. 1, o 
Livro Velho, de cerca de 1282-90, 2. >, o Livro do Deo, de cerca de 1340 - esta 
numerao cronolgica  inversa  que Herculano lhes deu na seco Scrptores dos 
Portugaliae Monumenta Historica) independentes entre si, deles derivando, em grande 
parte, o 3., organizado por iniciativa do conde D. Pedro. O Livro Velho encerra j 
algumas narrativas curiosas, como a lenda de Gaia, mas o Livro do Deo quase no 
passa de um registo genealgico; o primeiro apresenta maiores pretenses literrias. 
 nestes que encontramos tradies largamente desenvolvidas e verses em prosa de 
narrativas jogralescas. Avulta, refundida, a lenda de Gaia ou do rei Ramiro, curiosa 
novela de astcia e coragem militar, onde se conta o palpitante reconhecimento de D. 
Ramiro, disfarado, pela esposa aprisionada, a traio desta, a salvao in extremis 
do trado monarca pelo filho e a sangrenta vingana final. Salientam-se tambm os 
contos do rei Leir, da Dama P de Cabra e

da Dama Marinha (ou Sereia), de que se encontram variantes na tradio oral europeia, 
se no mundial, e em obras de autoria, como uma tragdia de Shakespeare para o 
primeiro e uma narrativa de Herculano baseada no segundo. Os nobilirios, portanto, e 
sobretudo o conde D. Pedro, apresentam-nos, confundida com a inteno histrica, uma 
matria ficcionista, que alis, alm de temas folclricos nacionais ou europeus, 
abrange, como veremos, tradues ou adaptaes da novelstica cavaleiresca francesa. 
Mas, entre tais fices e os seus ridos registos de filiao, aparecem narrativas 
realistas de raptos, assaltos armados, truculentas revindictas conjugais e de bando,

85
e outras violncias grotescas ou abominveis, por vezes entremeadas de actos de 
pundonor ou galanteria, que constituem, como Herculano salientou, o mais vivo 
testemunho da vida senhorial portuguesa na Idade Mdia, e singularizam estes 
nobilirios entre os congneres europeus.

A principal narrativa histrica contida no corpo dos Livros das Linhagens  a da 
batalha do Salado, inserta no Livro Terceiro, a propsito do Prior do Hospital, D. 
lvaro Gonalves Pereira, que nela participou. Este texto

revela uma arte literria muito mais adestrada que a maioria dos mencionados. Nesses 
outros a vivacidade do dilogo vem j animar breves cenas dramticas nos momentos 
decisivos de uma narrao ingenuamente unilinear, articulada por parataxe (conjunes 
coordenativas) do tipo infantil *e depois... e depois ... +; mas a quebrar esta 
simples ordenao unilinear no tempo, apenas surge uma que outra relao causal ou 
final, e s vezes um esboo de prlogo ou eplogo, de quadro introdutrio ou lio 
moral. No relato do Salado, porm, e embora se lhe tenha perdido o comeo,  visvel 
uma larga composio artstica: preparao e lineamentos tcticos gerais da batalha, 
adensamento gradativo da luta, vicissitudes inquietantes de avano e recuo

cristo, tudo a rematar no clmax da vitria, aps o aparecimento da Vera Cruz, que 
decide a batalha a favor dos cristos. O dilogo no apenas converte em cena 
dramtica os momentos culminantes da simples descrio, como

serve, por exemplo, para desenhar o fatalismo e a subjectividade dos chefes 
muulmanos, com uma vontade de compreenso humana incompatvel com

o fanatismo de cruzada. As imagens ou comparaes hiperblicas (sangue *at aos 
cotovelos+, barulheira que parecia *desarreigar os montes+), a hipotaxe ou 
subordinao conjuncional, hiperbolicamente consecutiva (frechadas *to espessas que 
tolhiam o sol+) ou sobriamente causal, sobrepem  simples seriao temp rea dos 
factos uma inteno estilstica evidente: a de ampliar a intensidade emocional da 
narrativa, circunstancializando-a com pormenores adequados a tal efeito. H a um 
saber retrico, embora ainda algo ingnuo, de clrigo letrado, que se alia a uma 
evidente informao testemunhal. Trata-se do texto narrativo mais notvel deste 
perodo, e revela at que ponto estava j afinado no sculo XIV o instrumento de que 
iria servir-se Ferno Lopes.

Segundo hiptese recente, o autor desta narrativa teria incorporado no

Livro do Conde D. Pedro outros textos da sua lavra, entre os quais o da

86
morte do Lidador, Gonalo Mendes da Maia; a histria de Pedro, o Cru, de Castela; a 
guerra entre Garcia e Sancho de Castela; um episdio do cerco

de Sevilha e talvez a refundio da lenda do rei Ramiro. Todos estes textos se 
referem a antepassados do heri da narrativa do Salado, o prior D. lvaro, cujo 
falecimento em 1373 se regista.

O Ttulo 1 (edio Mattoso)  encabeado por uma histria gencalgica universal; as 
linhagens vm de Ado a Jesus Cristo, passando  histria dos Hebreus,  dos reis e 
imperadores de Roma,  dos reis da Gr-Bretanha mencionados nos romances da matria 
de Bretanha, e finalmente  Reconquista neogtica, onde iriam entroncar as principais 
famlias nobres portuguesas. Esta introduo  muito semelhante a outra do mesmo tipo 
que precede a

Crnica de 1344, e utiliza as mesmas fontes. Concebe-se a histria universal como um 
vasto ciclo de proezas de cavalaria - o esquema vulgar na Idade Mdia.

A evoluo da Hstoriografia trecentista

Notmos j o papel importante do conde D. Pedro nas origens da historiografia 
portuguesa. Este filho bastardo do rei D. Dinis, envolvido nas lutas e intrigas de 
que foram protagonistas o pai e os irmos, viveu exilado na corte castelhana, onde 
aps a morte de seu bisav, Afonso X, se continuava a compilao e redaco da 
Crnica General de Espafla. Foi possivelmente na corte castelhana que por sua 
iniciativa se traduziu parte da Crnica General, juntamente com outros textos, 
conjunto que ficou constituindo a Crnica Geral Galego-Portuguesa, atrs mencionada.

Mas parece que simultaneamente (e talvez at na corte portuguesa) se

organizava outra crnica geral em portugus (a Crnica Portuguesa de Espanha e 
Portugal, de 1342), que tinha por origem, no j a Crnica General de Espafla, mas 
fontes portuguesas, corno as notcias analsticas registadas em

Santa Cruz de Combra e as tradies picas afonsinas.

Esta segunda crnica portuguesa, que vai at  batalha do Salado (1340), foi tambm 
aproveitada pelo conde de Barcelos, tanto no IV Livro das Linhagens corno na Crnica 
de 1344.

No Livro das Linhagens, onde as estirpes aristocrticas portuguesas se

inserem numa imaginria rvore genealgica das maiores personagens histricas 
universais ento conhecidas, exprime-se a viso universalsta trazida

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por Afonso X  historiografia dinstica castelhana, e certamente relacionada com o 
ttulo de Imperador, que se arrogava. No entanto, a concepo histrica do Conde 
difere profundamente da do Imperador, por ser genealgica ou linhagstica, ao passo 
que a Crnica General obedece a uma ordem cronstica (isto , segue a ordem dos 
acontecimentos por reinados e no a das linhagens). Esta concepo genealgica da 
histria passou  Crnica de 1344, onde so incorporadas nova matria e novas fontes.

J, porm, na refundio ou segunda redaco desta crnica, de cerca

de 1400, o esquema linhagstico desaparece. A histria universal das linhagens  
substituda por uma pr-hist ria fabulosa da Espanha, com material

tirado da Crnica General alfonsina; a qual, de forma geral, tem maior presena, quer 
como fonte, quer como modelo, nesta segunda verso, redigida depois da morte do 
Conde, do que na primeira.

Esta breve resenha das sucessivas tentativas historiogrficas trecentistas em lngua 
portuguesa mostra em primeiro lugar haver, j na primeira metade do sculo XIV, uma 
historiografia portuguesa a separar-se da de Castela e

com fontes diferentes das da Crnica Geral alfonsina; e em segundo lugar que para a 
elaborao dessa historiografia contribuiu mais de um foco, sendo um deles a corte do 
conde de Barcelos, e outro, provavelmente, a prpria corte rgia. Muito importante e 
significativa  a integrao de tradies picas orais ligadas  luta pela 
independncia.

Este esprito herico, revigorado pelo sentimento popular que inspira a insurreio 
antifeudal de 1383-1385, juntamente com a conscincia mais

clara da personalidade ptria, ir animar as crnicas de Ferno Lopes, que retomar 
numa nova verso as crnicas trecentistas e que ser o primeiro cronista-mor do 
Reino, cargo criado pela dinastia de Avis, como veremos

a seu tempo. Com ele se consumar a criao de uma historiografia inteiramente 
portuguesa.

Ainda no foi deitado balano ao patrimnio de recursos estilsticos legados por toda 
a massa, de resto muito irregular, dos textos incorporados, por transcrio, 
parfrase ou traduo, nesta vasta enciclopdia histrica que  a Crnica Geral 
(textos latinos eclesisticos, cantares jogralescos prosificados, cro~

nices ulicos ou conventuais, novelas de cavalaria, registos genealgicos, lendas 
romnicas ou rabes, uma crnica muulmana). Seria preciso, em

primeiro lugar, distinguir nela vrios nveis: o da simples prosificao de

88
relatos orais tradicionais; o da prosa escrita mas ainda primitiva e tacteante, e o 
da prosa apurada, da autoria de mestres no ofcio de escrever e j com

formao literria eclesistica. No entanto, a importncia deste patrimnio pode ser 
exemplificada pela simples enumerao de elementos como os seguintes: a atitude 
desenvolta de um narrador que fala a um pblico ouvinte, o

interpela por vezes, ou o convida com bom humor a mudar de assunto; interrupes 
hbeis, dir-se-ia que folhetinescas, de um enredo em sua fase mais palpitante, e  
qual se regressa mais tarde, depois de esporeada a impacincia; efeitos de surpresa 
narrativa, como a de nomear finalmente uma personagem cuja importncia se vinha 
sublinhando desde muitas linhas atrs; descries pitorescas de trajos ou riquezas, 
armas, edifcios maravilhosos, das excelncias de uma cidade e seu termo; larga 
movimentao de um cerco

ou batalha; e exerccios retricos, mobilizando velhos esteretipos de tradio 
eclesistica em torno de uma situao humana definida (cairtas de amor ou splica; 
exortaes morais e religiosas; dilogos ou discursos sublinhando actos momentosos, 
como investimentos de cargos, conselhos de guerra ou justia, o uso dramtico da 
personagem confidente, para desabafo e deciso audvel de uma perplexidade moral; 
prantos fnebres); exclamaes, interrogaes, apstrofes, hiprboles glorificantes 
ou patticas. Isto tudo sem

embargo de uma composio narrativa onde a repetio e a inconsequncia lgica 
abundam, de uma sintaxe predominantemente coordenativa quando no anacoltica, e de 
muita narrao sumria, que s vezes nos sensibiliza pela crueza de trao.

111111,61,61i06,AFIA

1. Textos

Crnica Geral de Espanha de 1344, por Lus F. Linciley Cintra, vol. 1, 1951, 
Introduo; vol. li, 1954; e vol. fli, 1961, texto at cap. DXXXIX, Academia 
Portuguesa de Histria, Lisboa, com base no manuscrito de Lisboa e aproveitamento de 
outros textos portugueses e castelhanos; reimp. fac-similada, IN-CIVI, 1983-84. O 
vol. IV e ltimo desta ed. crtica foi ed. em 1991 pela IN-CM. O manuscrito de Paris 
foi parcialmente editado por A. Nunes de Carvalho com o ttulo Histria geral de 
Espanha composta em castelhano por el-rey de Leo e Castela D. Affonso, o sbio, 
trasladada em portugus por el-rey D. Dinis ou por seu mandado e continuada na parte 
que diz respeito a Portugal at ao ano de 1455, no reinado d'el-rey D. Afonso V... 
Paris, 1863.

             89
Crnica de 1344 que orden el Conde de Barcelos, por Diego Catain M. Pidal e Maria 
Soledad de Andrs, ed. Gredos, Madrid (texto castelhano), 197 1.

Crnica del Moro Rasis, ed, pluritextual por Diego Catain M. Pidal e Maria Soledad 
de Andrs, Gredos, Madrid.

Livros das Linhagens: ed. de Alexandre Herculano, nos Portugaliae Monumenta 
Historica, vol. 1, Scriptores. H uma publicao parcial (Livro Velho 1 e 11) por 
Edies Bblion, Lisboa, 1937. Os trs primeiros nobilirios foram reeditados em 
outros tantos vols., sob o ttulo de Livro Velho 1, 2 e 3, respectivamente, pelo 
Gabinete de Estudos Herldicos e Genealgicos, Lisboa, 1960-61-64, com introd., notas 
e ndices por Lus Saldanha Monteiro Bandeira. Para os 2 primeiros, sob os ttulos de 
*Livro Antigo+ e *Livro Velho+ existe um vol. de *Achegas+ e outro de *Subsdios+ 
destinados  sua coordenao, por Artur Nrton, Instituto Portugus de Herldica, 
1974 e 1971, respectivamente. Ed. crtica por Jos Mattoso nos Portugaliae Monumenta 
Historica, Academia das Cincias, nova srie, vols, 1 e 2, Lisboa, 1980 (a melhor 
edio).

General Estoria, verso galega do sc. XIV, ed. por Ramn Martnez Lopez, Oviedo,
1963.

Crnicas Breves de Santa Cruz de Coimbra: ed. de Alexandre Herculano, nos Portugaliae 
Monumenta Historica, vol. 1, Scriptores, e de Cruz, Antnio: Anais, Crnicas e 
memrias avulsas de Santa Cruz, Biblioteca Municipal do Porto, 1968 (ed. completada e 
corr. dos textos seleccionados para a ed. anterior por A. Herculano).

Crnica de como D. Paio Correia [   ... 1 tomou este reino do Algarve aos Mouros, 
publicada, segundo manuscrito do sc. XVIII, por Frei Joaquim de Santo Agostinho nas 
*Memrias da Literatura+ da Academia Real das Cincias, vol. 1, 1792, e nos 
Portugaliae Monumenta Historica, vol. 1, Scriptores.

Relao da vida da gloriosa Santa Isabel rainha de Portugal, publicada por Frei 
Francisco Brando, na Monarquia Lusitana, parte VI, apndice, republicada por Jos 
Joaquim Nunes, Coimbra, 1921, sob o ttulo de Vida e Milagres de Dona Isabel, Rainha 
de Portugal.

2. Antologias e extractos

Dentre as j citadas antologias e crestomatias, utilizem-se especialmente as de Jos 
Joaquim Nunes e de Leite de Vasconcelos, e ainda:

Pimenta, Alfredo: Fontes medievais da Histria de Portugal, 1, na col. *Clssicos S 
da Costa+.

Cintra, Lus Filipe Linciley: *Crnica Geral de Espanha de 1344+ - A Lenda do Rei 
Rodrigo, com introd., notas e glossrio, ed. Verbo, 1965.


Mattoso, Jos: Narrativas dos Livros de Linhagens, selec., introd. e comentrios, IN-
CM, 1985.

Prosa Medieval Portuguesa, apres., selec. e notas de Hlder Godinho, col. *Textos 
Literrios+, Ed. Comunicao, 1986. (Tem ampla bibliografia.)

90
3. Estudos

Como introduo ao problema da Crnica Geral de Espanha leia-se o ensaio de Pidal, 
Menndez: La Crnica General que mand componer Afonso el Sabio, de que h uma ed. no 
vol. Estdios literrios da col. *Austral+.

Sobre a redaco portuguesa da Crnica de 1344 no existe ainda um trabalho ao 
alcance do estudante. A nossa exposio baseia-se no vol. 1 (Introduo) da Crnica 
Geral de Espanha de 1344, por Lus Filipe Lindley Cintra, em que pela primeira vez o 
problema  abordado analiticamente, e de que aconselhamos aos principiantes a leitura 
do resumo final sobre Origens da Historiografia Portuguesa, pp. CDXII-CDXIX, e os 
esquemas de pp. LXXXVII, CCX e CDM, que permitem um relance acerca das suas 
concluses. Estas devem, no entanto, ser actualizadas com as investigaes que vamos 
referir no pargrafo seguinte.

A descoberta da Crnica portuguesa de Espanha e Portugal (1342) deve-se a Pidal, 
Diego Catain Menndez: La Version Portuguesa de ta *Crnca General+, in *Romance 
Philology+, XIII, n. 1 1, 1959. Ver, do mesmo autor, De Alfonso X ai Conde de 
Barcelos, Madrid, Gredos, 1962, especialmente pp. 284-288, e a importante introduo 
 ed. crtica do texto castelhano da Crnica de 1344, Madrid, 197 1, j atrs 
referida.

Fonseca, Fernando V. Peixoto da: Les chroniques portugaises des *Portugaliae 
Monumenta Historica+, in *Revue des Langues Romanes+, 77, 1967 (introd. e uma ed. do 
texto corrigido e seu estudo filolgico).

Os anais em latim que, com a historiografia castelhana e muulmana, serviram de base 
 mais antiga historiografia portuguesa esto editados e estudados por David, Pierre: 
tudes historiques sur Ia Galce et le Portugal du VI au Xl sicie, Coimbra, 1947.

Sobre a pica medieval interessa conhecer a obra de Pidal j citada, Poesia 
jugiaresca yjuglares, e ainda, do mesmo autor, La epopeya castellana atravs de Ia 
literatura, Buenos Aires, 1945, e Espana y su Historia, 1, Madrid, 1957.

Sobre a i)ica medieval jwrtuquesa. Saraiva, Antnio Jos: Histria da Cultura em

Portugal, vol. 1, Lisboa, 1950, cap. IV; Sobre o texto da tradio pica de Afonso 
Henriques, in Les langues no-latines, Janeiro-Maro de 1968; A pica Medieval 
Portuguesa, *Biblioteca Breve+, 1979; O Crepsculo da Idade Mdia em Portugal, 
Gradiva, 1988, pp. 151-165.

Sobre os Livros das Linhageins.Lapa, Rodrigues: Lies de Literatura Portuguesa, 10. 
ed. rev., 1981, onde se encontra tambm um estudo sobre as Crnicas Breves de Santa 
Cruz.


Saraiva, A. J.: O autor da Narrativa da Batalha do Salado e a refundio do Livro do 
Conde O. Pedro, in *Boletim de Filologia+, tomo XX11, Lisboa, 1971.

Mattoso, Jos: A Nobreza Medieval Portuguesa, Estampa, Lisboa, 198 1, reed. 1985, 
especialmente pp. 35-100, e Ricos-Homens, Infanes e Cavaleiros, Guimares Ed., 
1982, reed. 1985, alm da Introduo  nova srie de Portugaliae Monumenta Historica, 
1980.

Rossi, Luciano: em A literatura novelstica na Idade Mdia portuguesa, *Biblioteca 
Breve+, Instituto de Cultura Portuguesa, 1979, tem um sucinto e excelente estudo da 
estrutura e fontes das narrativas dos Livros das Linhagens, sobretudo da * Lenda de 
Gaia. +

91
A falta de originalidade nacional e a de um justificativo interesse histrico-
literrio levaram-nos a excluir do nosso estudo da prosa medieval numerosas verses, 
sobretudo de textos latinos, que se encontram entre os cdices provenentes da 
livraria conventual de Alcobaa ou que foram descobertos noutras bibliotecas: regras 
monsticas, vidas de santos, textos bblicos, vises, obras didcticas para uso do 
clero, tratados morais alegricos, um fabulrio, etc. O leitor pode encontrar muitos 
desses textos nos Portugaliae Monumenta Historica, seco Scriptores. O Inventrio 
dos Cdices Alcobacenses, por Atade e Meio, 1930-32, tem algumas inexactides. A 
importncia cultural de tais obras  discutida na Histria da Cultura em Portugal, de 
A. J. Saraiva, vol. l; e o estudo exemplificativo dos diversos gneros pode ser feito 
nas crestomatias e se@ectas indicadas. No primeiro captulo da Introduo da Histria 
da Literatura Portuguesa por A. da Costa Pimpo, 1959, vem uma extensa relao 
bibliogrfica desses textos. Em Estudos da Literatura Medieval, 1, 1969, li, 1972, 
Mrio Martins deu de alguns deles resumos e comentrios. O mesmo autor fez estudos 
literrios sobre certas obras copiadas em Alcobaa, em Santa Cruz de Coimbra e em 
Lorvo (Vida de S. Rosendo, Vida de S. Teotnio, Livro das Aves, Sermes de Frei Pais 
de Coimbra), em Alegorias, Smbolos e Exemplos morais da literatura medieval 
portuguesa, Lisboa, 1975.

Captulo IV

primeira poca: A PROSA DE FICO

Gnese da fico medieval em prosa

Tal como aconteceu com a poesia lrica e (adiante veremos) com o teatro, a narrativa 
medieval de carcter mais ou menos imaginrio resulta da sntese entre a tradio 
literria latina que o clero pde manter e a tradio ou inventiva oral jogralesca. A 
uma srie

de poemas narrativos de cunho apologtico ou hagiogrfico produzido pelo clero na 
Alta

Idade Mdia, sucederam, nos pequenos renascimentos latinizantes das cortes germnicas 
(como o renascimento anglo-saxnico, o carolngio e o otnida), poemas herico-
apologticos representativos da aliana de ento entre a aristocracia militar feudal 
e a

aristocracia letrada eclesistica. Seguidamente, ao progresso das lnguas nacionais 
corresponde o surto de poemas ou prosificaes, narrativas em lngua vulgar, ainda 
mais ou menos influenciadas pela retrica latina, mas de tema nacional, o que se 
verificou

primeiro nos povos onde o Latim no dominou o falar cltico ou germnico (Irlandeses, 
Anglo-Saxes, Germanos de alm-Reno). Aparecem depois em verses corteses da lngua 
de oil os romances de matria greco-romana (Alexandre Magno, Encias, Guerra de Tria, 
ete.), cuja transmisso ainda s podia ser eclesi stica. Mas, quase 
contemporaricamente, no sculo XII, emergem do anonimato pela escrita as canes de 
gesta, centradas em torno de heris ou rebeldes mais ou menos lendrios e projectadas 
trs sculos atrs, nos tempos carolngios, como a Chanson de Roland, cuja origem 
jogralesca no oferece grandes dvidas, apesar de nos aparecer j reelaborada por um 
clrigo ou outro

poeta de corte. E desenvolvem-se os grandes ciclos picos nacionais: os Niebelungos 
germnicos, as sagas irlandesas, os cantares castelhanos do Cid, de Bernardo de 
Crpio ou

dos Infantes de Lara, e os lais bretes, por exemplo, e tambm poemas jogralescos 
sobre matria da Antiguidade. Um poeta francs distinguiu trs matrias (matires): 
de Frana, de Bretanha e de Roma, a Grande.

A matria de Bretanha, que originariamente exprimia, na figura lendria do rei Artur, 
a reaco nacional das populaes clticas perante o domnio do invasor anglo-
saxnico,

94
e que j se inserira na hstoriografia em latim da Gr-Bretanha, acaba por chegar  
corte franco-normanda inglesa e s cortes senhoriais do Centro-Oeste da Frana, 
graas a Maria de Frana e a Chrtien de Troyes. Ento o simbolismo religioso e 
nacional das origens clticas  deformado pelo desenvolvimento de dois temas cuja 
incompatibilidade s mais tarde ser sentida: o culto do Amor, fatal e independente, 
seno adversrio, do sacramento matrimonial cristo, tema de fonte evidentemente 
occitnica e clssica; e o idealismo cavaleiresco de cruzada, exaltador da fidelidade 
feudal e da graa divina. Nesta fase da matria arturiana avultam as histrias do 
amor inquebrantvel entre Flores e Brancaflor, do amor fatal e pecaminoso entre 
Lanarote e a rainha Genebra, entre Tristo e Isolda. Mas segue-se outra fase, 
influenciada por movimentos de reaco monstica e cruzadista, como o de Cister, ou 
talvez at j por uma nova religiosidade, como a dos Franciscanos e Espirituais; e 
ento, nas novelas do ciclo breto erradamente atribudas a Map, a Boron ou, 
posteriormente, de autores alemes, o amor passa a desempenhar um papel negativo em 
contraste com o ideal de valentia e castidade, e os cavaleiros don~ zis (Boors, 
Perceval ou Parsifal, e Galaaz) logram antegozar na terra a bem-aventurana celeste, 
depois de imensas e extremas provaes, antecipando-se  Divina Comdia de Dante na 
viso das penas do Inferno para os amores adulterinos.

A matria de Bretanha em Portugal

Nesse mesmo meio palaciano onde se apreciava e coleccionava a poesia lrica no podia 
faltar o interesse pelos relatos de aventuras de amor e cavalaria, difundidos por 
poemas jogralescos e finalmente fixados em prosa, como

vimos anteriormente. D. Dinis e os poetas seus contemporneos aludem com frequncia a 
personagens romanescas, como Tristo e Isolda, Merlim, Flores e Brancaflor; e quem 
quer que coleccionou o Cancioneiro da Biblioteca Nacional encabeou-o com a traduo 
em verso de cinco lais da fase corts-sentimental, dos quais trs, referentes a 
Tristo, so provadamente traduzidos do Francs.

 de presumir que adaptaes portuguesas ou castelhanas de histrias da Bretanha 
fizessem parte do repert rio dos jograis peninsulares. Mas, independentemente disso, 
realizaram-se no ltimo quartel do sculo XIII, talvez j na corte de D. Afonso III, 
tradues de romances franceses em prosa do ciclo da Demanda do Graal e talvez de 
outros. Manuscritos do sculo XV conservam uma traduo da terceira parte deste 
ciclo, conhecido pelo nome

de Demanda do Santo Graal; outro manuscrito do Sculo XVI reelabora uma

verso (ou vrias) da primeira parte, intitulada Jos de Arimateia, a que atribui a 
data de 1314: quanto  segunda parte, intitulada Merflin, sabemos ter existido na 
livraria de D. Duarte. A cpia quinhentista de Jos de Arimateia  dedicada a D. Joo 
III, grande aficionado de romances de cavalaria.

95
No est ainda esclarecido em que condies foram produzidas as duas primeiras partes 
da verso portuguesa do ciclo do Graal. Quanto  terceira parte, provaram Rodrigues 
Lapa e Ivo de Castro que o manuscrito da Demanda portuguesa  cpia quinhentista de 
um original do ltimo quartel do sculo XIII, traduzido do francs para portugus por 
Frei Joo Vivas. Sobre esta traduo portuguesa fez-se depois uma traduo 
castelhana, que em numerosos lusismos vocabulares e gramaticais deixou vestgios do 
texto utilizado. A argumentao a favor de uma redaco portuguesa do sculo XIII 
baseia-se num conjunto de arcasmos lexicais e morfolgicos do texto conhecido, mas 
h razes para supor uma estrutura narrativa relativamente tardia na prpria fonte 
francesa mais directa, onde parecem cruzar-se motivos provenientes de vrios romances 
de matria bret.

O ciclo pertence  ltima fase das sucessivas verses da matria de Bretanha, na qual 
os feitos de cavalaria e os enredos de amor foram adaptados

a uma inteno religiosa. Conta a provenincia do Santo Graal, ou vaso que continha o 
sangue de Cristo, recolhido por Jos de Arimateia e por ele transportado, atravs de 
mltiplas vicissitudes, desde Jerusalm at ao castelo de Corberie em Inglaterra, 
onde ficou guardado pelo *Rei Pescador+, misteriosamente doente; as profecias de 
Merlim, anunciando os novos tempos que seriam inaugurados pela chegada de um 
predestinado, capaz de romper o

encantamento do Santo Graal; as longas e complicadas aventuras que servem para pr  
prova a virtude dos cavaleiros do rei Artur lanados na busca do Graal, prova a que 
s resistem Boors, Perceval e Galaaz, aos quais  dado como prmio a graa da vida 
<@espiritual+ antes de se despojarem da carcaa terrena; finalmente o colapso do 
reino de Logres e a morte do rei Artur no meio de sangue, traies e lgrimas. Esta 
histria teve vrias verses, das quais a conhecida em Portugal foi a falsamente 
atribuda a Roberto Boron.

O interesse da traduo portuguesa est em que ela nos oferece o mais antigo texto 
portugus em prosa literria, embora de matria no original. A ordenao geral, a 
sucesso dos episdios, o processo de narrar so, evidentemente, qualidades do autor, 
e no do tradutor, que, alis como os seus

confrades desta poca, no tinha a precauo da fidelidade escrupulosa ao

texto traduzido. Mas a linguagem (o vocabulrio, a construo sintctica, as locues 
e o ritmo) teve o tradutor de a ir buscar ao seu prprio fundo

96
idiomtico. Ora ressalta da primeira leitura a perfeita fluncia da prosa do 
tradutor, a regularidade e boa composio sintctica, e ao mesmo tempo a ductilidade 
estilstica com que se adapta, ora a narrativas movimentadas de combates, ora a 
largas tiradas oratrias. Na traduo da Demanda pode dizer-se que a prosa narrativa 
portuguesa aparece amadurecida e inteiramente apta para obras originais. Convm notar 
que se trata de uma prosa destinada a

ser ouvida e no lida individualmente, em estilo falado, com frequentes interpelaes 
ao ouvinte, que fazem sentir constantemente a presena do enunciador, com largo 
recurso ao dilogo - notavelmente fluente - e abundante em interjeies exclamativas. 
No lhe falta sequer o ritmo cantante e redondo adequado  leitura em pblico.

 data em que se conclui esta traduo estava sem dvida criado o instrumento 
lingustico adequado  narrativa, no apenas ficcionista mas tambm histrica. 
Confirmam esta concluso tradues feitas na corte, como vimos a propsito da 
historiografia, e que j incluem textos de matria greco-romana, carolngia e bret, 
alm de prosificaes de gestas jogralescas portuguesas e castelhanas; e tradues em 
Alcobaa ou outros conventos de originais latinos - particularmente a do maravilhoso 
conto de Barlao e Josafate (verso crist da histria de Buda), a da Viso do 
Cavaleiro Tndalo, de que h duas verses diferentes, alm de um isopete, ou 
fabulrio, de exemplos, ou contos moralistas, e de hagiografias como as de S. Brando 
e Sto. Amaro, portadoras do velho mito da ilha Afortunada, verdadeiro paraso 
terrestre, to importante para a ideologia dos Descobrimentos.

Sob outro aspecto , ainda, significativa a traduo portuguesa da Demanda do Santo 
Graal. A obra tem uma inteno religiosa e representa, relativamente  moral corts 
que inspira os cantares de amor, uma completa inverso de valores. Ao passo que na 
lrica corts, como em todo o romance corts anterior a esta fase, se exala o amor 
como o caminho para a felicidade e a perfeio moral, na Demanda todo o amor  
considerado pecaminoso, e a virgindade recomendada como o estado mais perfeito. O 
antigo heri, modelo de cavaleiros e amantes, Lanarote do Lago, v-se eclipsado por 
seu filho, que  tambm a sua rplica, Galaaz, o qual no quis conhecer nunca mulher.

O romance tem um arcaboio simblico muito bem concatenado que exprime alegoricamente 
uma doutrina moral e religiosa, relacionada talvez com a heresia dos Espirituais, que 
anunciavam o advento de uma nova Igreja,

        97
a do Esprito (Santo). Pode supor-se que a sua traduo revele o extravasamento para 
os meios laicos dos problemas morais e religiosos, que durante a Alta Idade Mdia so 
de especulao quase exclusiva do clero, e corresponda ao alargamento dos interesses 
culturais da aristocracia nobiliria portuguesa, a qual se sugestionou por esta obra 
at ao ponto de adoptar muitos dos nomes novelescos: Lanarote, Perceval, Tristo, 
Guiomar, etc.

A influncia em Portugal do ciclo breto foi prolongada. As cpias hoje existentes 
so, como vimos, dos sculos XV e XVI, o que significa que desde fins do sculo XIII 
at quela poca a obra no deixou de ser lida. Ferno Lopes, na primeira metade do 
sculo XV, refere-se repetidamente aos seus protagonistas, um dos quais, Galaaz, 
teria servido de modelo a Nuno lvares Pereira. A D. Joo 111 so dedicados vrios 
textos cavaleirescos.

O Amadis de Gaula e o problema da sua autoria

Se abundam na literatura medieval portuguesa hoje conhecida as referncias  Demanda 
do Santo Graal, so muito escassas, em compensao, a um outro romance clebre e 
escrito na Pennsula Ibrica, o Arnadis de Gaula, que, ao contrrio do ciclo do 
Graal, no existiu na livraria de D. Duarte.

Este facto  importante para a discusso do problema da lngua em que teria sido 
escrito o primitivo original da obra.

Nenhuma prova apareceu at hoje capaz de pr termo  polmica entre os que defendem a 
tese da autoria portuguesa e os que defendem a da autoria castelhana.

A favor da tese castelhana alega-se o facto de ser castelhano o nico texto at h

poucos anos conhecido da obra, o da primeira edio, feita em Saragoa, 1508, por 
Garcia Rodriguez, ou Ordofiez, de Montalvo; e o facto de existirem aluses espanholas 
ao

romance e at um seu fragmento, em castelhano, do sculo XV, ao passo que em Portugal 
essas aluses datam somente da segunda metade do sculo seguinte.

A favor da tese portuguesa alegam-se, primeiramente, a aluso de Zurara na Crnica de 
D. Pedro, de Meneses a um Vasco de Lobeira que teria sido o autor do romance; em 
segundo lugar, o facto de no texto da verso castelhana figurar um ]ais de Leonoreta, 
traduzido de um original portugus conservado no Cancioneiro da Vaticana e subscrito 
por Joo de Lobeira; em terceiro lugar, o facto de na mesma verso castelhana se 
afirmar que o *senhor infante D. Afonso de Portugal+ (que s poderia ser o futuro 
Afonso IV ou o seu tio do mesmo nome, irmo de D. Dinis) mandou alterar determinado 
episdio do romance; e, finalmente, uma referncia que faz ao romance, em dois 
sonetos escritos

HL_P - 7

98
em linguagem arcaizante, o poeta quinhentista Antnio Ferreira, que, segundo 
testemunho do filho, tinha em vista um texto trecentista portugu s ainda ento 
existente.

Os argumentos a favor da tese portuguesa no so de modo algum decisivos. Zurara 
escrevia pelo menos sculo e meio depois da primitiva verso, que ningum antes dele 
mencionara em Portugal, nem mesmo Ferno Lopes, inclinado a aluses a romances de 
cavalaria. O episdio em que figura o cantar de amor de Lobeira  um incidente sem 
sequncia, simples anexo, que poderia facilmente surgir por interpolao feita em 
verso

posterior  primitiva. Quanto  interveno do *senhor infante D. Afonso de 
Portugal+, s prova que, anteriormente  alterao que ele mandou introduzir, j o 
romance existia.

Este ltimo facto revela que o infante interveio numa verso nova do romance, 
diferente da primeira. E nada garante que a verso em que teriam colaborado um 
Lobeira (ou dois) e o infante portugus, e que Antnio Ferreira pde ler ainda no 
sculo XVI, no fosse ampliada ou traduzida a partir de um primeiro texto castelhano, 
embora a coincidncia de vrias notcias e a filiao provada entre Joo e Vasco 
Lobeira paream indicar a existncia de textos portugueses trecentistas do romance. 
No se pode portanto decidir qual fosse a lngua da primitiva verso do Amads, mas  
plausvel que anteriormente  edio de Montalvo existissem diversas verses da obra 
e que uma delas fosse realizada por portugueses, talvez por um dos Lobeiras, sob 
patrocnio do *Infnte de Portugal+, filho ou irmo de D. Dinis, Ainda no sculo XVI 
parece haver conhecimento de um texto portugus antigo da obra, sobre cujo tema e 
linguagem arcaica se inspirou o poeta Antnio Ferreira em dois sonetos, Em 1957 foram 
publicados alguns fragmentos de uma verso

castelhana do sculo XV, mas isso no altera substancialmente os dados do problema, 
salvo ao revelar que Montalvo suprimiu extensas partes do texto anterior.

Em qualquer caso, o Amadis  uma obra peninsular, contempornea ainda da primeira 
fase da poesia de corte medieval, e mais representativa do que a Demanda do Graal da 
galantaria palaciana peninsular idealizada nas cantigas de amor. S conhecemos, 
alis, uma verso certamente j muito *polida+ e floreada pela galantaria ainda mais 
requintada do Renascimento, da qual veio a ser, por seu turno, um dos principais 
paradigmas.

Ainadis  o fruto dos amores clandestinos de Elisena e do rei Perion, que o abandonam 
s guas do mar. Salvo por uma famlia que lhe no sabe a origem, vem a ser escolhido 
para pajem da infanta Oriana, a quem a rainha apresenta com estas palavras:

- *Amiga, este  o donzel que vos servir+. O donzel guarda tais palavras no corao, 
e desde a a sua vida desdobra-se num longo *servio+ inteiramente consagrado  
amada. Durante muito tempo, a timidez inibiu-o de se declarar. Depois, o amor entre 
os dois foi um segredo cuidadosamente guardado. Ningum sabia que era por Oriana que 
Amadis se arriscava a combates assombrosos com gigantes ou monstros. O cavaleiro 
invencvel

       99
quase deixa cair a espada das mos ao ver, da arena de combate, a *senhora+ na 
assistncia; e quando, por um mal-entendido, ela o acusa injustamente de 
infidelidade, resolve deixar o mundo e fazer-se ermito. O longo servio de Amadis 
teve no entanto a sua

recompensa carnal: uma aventura propcia deixa os dois namorados a ss na floresta, 
e, escreve o autor, *naquela erva e em cima daquele manto, mais por graa e 
comedimento de Oriana que por desenvoltura e ousadia de Amadis, foi feita dona a mais 
formosa donzela do mundo+.

O tema da sensualidade que percorre o Amadis traduz uma concepo de vida bem 
diferente, portanto, da que est simbolizada na Demanda do Graal. O ideal do 
cavaleiro ao mesmo tempo faanhudo e generoso, fogosamente combativo mas terno e 
suspiroso no amor; rodo de crus, graves ou mortas desejos, mas fielmente casto; 
ao servio de uma paixo bem humana, mas cujo preo  a vitria sobre incrveis e 
infindveis dificuldades de todos os gneros - esse ideal, em cuja confeco, no 
Amadis, se tem reconhecido a participao do maravilhoso breto e da gesta francesa, 
corresponde bem ao comedimento de uma aristocracia cada vez mais palaciana. Falta-lhe 
o picante do amor adulterino e trgico de Tristo ou de Lanarote, bem como o 
ascetismo que o profliga e corrige na Demanda, embora acuse claras influncias do 
maravilhoso arturiano.

Trata-se na realidade de uma obra integrada num sistema social que d um lugar ao 
amor na ordem estabelecida, fixando-lhe regras e reconciliando-o com o casamento, 
embora, por esprito de fidelidade formal ao ideal amoroso da matria de Bretanha, 
esse casamento aparea como posterior  unio carnal dos amantes. A virtude  
premiada no happy-end com que se encerra a obra. O Amadis constituiria, afinal, um 
manual romanceado das virtudes do bom amador corteso seu contemporneo. Os discursos 
grandloquos dos cavaleiros a quem os respectivos *servios+ amorosos impem justas 
em passagens de floresta, os dilogos melfluos e conceituosos dos amantes ou das 
homenagens cerimoniosas, as cartas, mensagens de desafio ou de queixume, oferecem 
modelos retricos de vida fidalga, por entre um rosrio de aventuras empolgantes. No 
sabemos at que ponto poderemos responsabilizar o

texto ou textos primitivos do romance pelo esprito que desabrocha na redaco de 
Montalvo. Mas chispas deste cavaleirismo mesureiro e bem falante encontram-se ao 
longo do sculo XV na nclita Gerao, em Afonso V e seu cronista Zurara, no 
Cancionciro Geral, editado em 1516.

100
No sculo XVI a obra dar origem a todo um ciclo, constitudo por nada menos de doze 
novelas de cavalaria (ciclo dos Amadises), em competio com o ciclo mais recente, e 
nele inspirado, dos Palmeirins. Graas a estes

dois ciclos, graas s suas tradues e adaptaes, a Pennsula converter-se- no 
ltimo foco irradiador de imaginao cavaleiresca para toda a Europa Ocidental, o que 
ento corresponde a um certo seu arcasmo relativo de estrutura social e respectiva 
ideologia.

A traduo de romances de cavalaria continua no sculo XV com a Hstra do Imperador 
Vespasiano, de que h um precioso incunbulo lisboeta datado de 1496; so de incio 
desse sculo ou do final do anterior as primeiras tradues ou adaptaes portuguesas 
de fico alegrica em prosa, e entre elas se salienta o Orto do Esposo, a nossa

primeira colectnea conhecida de exemplos. A ausncia entre ns do conto satrico, ou

fabliau, bem como da fico alegrica ou apologal (o segundo Romance da Rosa ou o

Romance da Raposa, por exemplo), pode aproximar-se da, pelo menos aparente, 
insignificncia do nosso teatro medieval popular, nomeadamente da farsa sua afim, 
antes de Gil Vicente.

11111MINf 106,,4FIA

1. Textos

Demanda do Santo GraaJ @verso portuguesa): ed. diplomtica incompleta por Karl von 
Rheinhardstoettner, Berlim, 1887 (fls. 1 a 70 do manuscrito). Ed. de Auguste Magne, 
Rio de Janeiro, 1944, 3 vols., sendo o ltimo de glossrio incompleto e bibliografia 
(ed. nem sempre fiei, quer quanto  leitura paleogrfica, quer por terem sido 
suprimidos sem aviso alguns passos); ed. fac-similada e transcrio crtica pelo 
nnesmo autor, 3 vols.,
1955-65; ed. de J.-M. Piel e 1. F. Nunes, IN-CM, 1988; verso modernizada por Heitor 
Megaie, ed, Univ. de So Paulo, 1988.

Joseph ab Arimatia, do pseudo-Boron: ed. paleogrfica, com ntrod., notas e glossrio 
por Henry Hare Carter, da verso portuguesa de 1313-14, segundo cpia incorrecta do 
sc. XVI, Chapei Hfi, University of North Carolne Press, 1967. Est em preparao 
uma ed. crtica por Ivo de Castro, Centro de Lingustica das Universidades de Lisboa.


Texto Crtico da Lenda dos Santos Barlao e Josefate, tirada do cdice de Alcobaa, 
Vasconcelos Abreu e Gonalves Viana, Lisboa, 1898; reprod. paleogrfica por Richard 
D. Abraham, 1938; ed. fotoliptica pela Junta de lnvestigaes do Ultramar, introd. e 
notas de Margarida Correia de Lacerda, 1963. Castro, Ivo de et alii (ed.): Vida de 
Santos de Um Manuscrito Alcobacense, Centro de Estudos Geogrficos, Lisboa, 1985.

Amadis de Gaula: reprod, da ed. de 1508 na *Biblioteca de Autores Espafioles+ 
(Rivadeneyra), vol, 40, 1857; nova ed. por Edwin B. Place, Conseio Superior de 
Investigaciones Cientficas, 4 vols., Madrid, 1959-69.

            101
Muitos dos textos referidos encontram-se em Portugaliae Monumenta Historica, secco 
Scriptores, ou em n@meros da *Revista Lusitana+. Para informao precisa, consultar 
Cintra, Maria Adelaide Vale: Bibliografia de Textos Medievais Portugueses, Centro de 
Estudos Filolgicos, Lisboa, 2. ed., 1960. (Recenso de Luciana Stegagno Picchio 
includa no seu vol. A Lio do Texto - Flologia e Literatura - 1 - Idade Mdia, 
Edies 70, Lisboa, 1979.@ Ed. de Crnica Troyana, por Ramn Lorenzo, Corunha, 1985.

2. Antologias

Textos da Demanda e do Joseph ab Arimatia nas crestomatias e selectas anteriormente 
citadas de Jos Joaquim Nunes, Rodrigues Lapa e Pereira Tavares,

Demanda do Graal, org., introd. e notas de Maria Leonor Carvalho Buescu, *Textos 
Clssicos Verbo+.

Tradues de textos do Amadis em vols. prprios das col. *Textos Literrios+, 
*Clssicos Portugueses+ e *Atlntida+, o primeiro organizado por Rodriques Lapa e os 
dois ltimos (sendo o ltimo mais actualizado) por 1`. Costa Marques.

Afonso Lopes Vieira fez do Amadis uma adaptao a seu gosto, O Romance de Amadis, 
Lisboa, 1925.

Ofiveira, Corra de/Machado, Saavedra: Textos Medievais Portugueses, S. a ed., 
Coimbra  Editora, 1974.

3. Estudos

Pelayo, Menndez y: Origenes de Ia Novela, Madrid, >19051910, reed. 1943, Arthurian 
Literature in the MicidIe Ages, dir. de R. S. Loomis, Oxford, 1961. Malk@el, Maria 
Rosa Lida de: La Literatura Artrica en Espaha y Portugal, in Estudios de Literatura 
Es~ola y Comparada, Ruenos Aires, 1966.

Lapa, M, Rodriques: Lies de Literatura Portuguesa - poca Medieval, 10. > ed. rev. 
e aum- Coimbra Editora, 1981. Traz ampla bibliografia comentada. Miscelnea de Lngua 
e Literatura Medieval, Rio de Janeiro, >l 965; A Questo do *Arnadis de Gaula+ no 
Contexto Peninsular, in * Grial+, 27, )970.

Entwistle, J.: A Lenda Arturiana nas Literaturas da Pennsula Ibrica, trad. de A. 
Alvaro Dria, rev. e acresc. pelo autor, lmprensa Nacional, Lisboa, 1942,

David, Pierre@ Sentiers dans Ia fort du Graal, Coimbra, >l945.


Piel, J. M.@ Anotaes criticas ao texto da *Demanda do Graal+, <,Biblos+, 31, 1946. 
Keller, 3. E.: Motif. Inclex of medieval spanish Exempla, Knoxville, Tennessee, >l 
949. Rodriguez-MoNno, Antnio/Carlo, Augustn Miilares/Lapesa, Raf ae@: E] primer 
manuscrito del Amadis de Gaula, Madrid, 1957 (trata-se de um fragmento 
quatrocentista, em castelhano).

Tom, J. L. Pensado: Fragmento de um *Livro de Tristn+ galaico-portugus, ed, e 
estudo, Consejo Superior de Investigaciones Cientficas, Santiago de Compostela, 
1962,

Gual, C. Garc(a: Primeiras Novelas Europeas, Madrid, 1974.

102
Castro, lvo de: Livro de Jos de Arimateia, dissertao de doutoramento, Fac. Letras 
de Lisboa, 1984; Quando foi copiado o *Livro de Jos de Arimateia+, *Boletim de 
Filologia+, XXV, 1976-79; Sobre a data da Introduo na Pennsula Ibrica do ciclo 
arturiano da Post-Vulgata, *Boletim de Filologia+, XXVIII, 1984; Nota sobre o *Livro 
de Jos de Arimateia+, *Revista Fac. Letras+, Lisboa, 5. a srie, 2, 1984.

Moiss, Massaud: A Novela de Cavalaria Portuguesa (achega bibliogrfica), in *Revista 
de Flistria+, S. Paulo, 29, 1957, e, entre outros estudos ibidem do mesmo autor,  
Margem da Demanda do Graal, 10, 1955Bruneti, Almir de Campos: A Lenda do Graal no 
Contexto Heterodoxo Portugus, Lisboa, Sociedade de Expanso Cultural, 1974.

Martins, Mrio: Alegorias, Smbolos e Exemplos Morais da Literatura Medieval 
Portuguesa, ed. Brotria, Lisboa, 1975.

Frappier, Jean: Le Roman jusqu Ia Fin ou Xlll sicle, in *Grundriss der Romanischen 
Literaturen des Mitteialters+, t. ]V, Heidelbergue, 1978, pp. 183-211.

Rossi, Luciano: A literatura novelstica na Idade Mdia portuguesa, *Biblioteca 
Breve+, ICALP, 1979 (alm de estudar o ciclo arturiano em portugus e o Orto do 
Esposo, tem observaes importantes sobre aspectos originais das verses alcobacenses 
dos exemplos e hagiografias com ampla difuso europeia).

Y11era, Alicia: Tristan e Iseo, Madrid, 1984.

Saraiva, Antnio Jos: O Crepsculo da Idade Mdia em Portugal, Gradiva, 1988, pp. 
44-102.

Jauss, Hans Robert: Alterit e Modernit della Letteratura Medievale, Bollati 
Boringheri, Milo, 1989 (trad. it. aum. de Alteritt und Modernit t des 
Mittelalterlichen Literatur, W. Fink, Munique, 1977), espec. pp. 203-268, sobre a 
teoria dos gneros narrativos medievais.

Ver mais bibliografia nas antologias atrs indicadas.


20 POCA: DE FERNO LOPES A GIL VICENTE

Captulo 1 INTRODUO

20 poca: A sociedade

A partir de meados do sculo XIV, o antagonismo entre a organizao feudal e as

foras que dela irrompem com o crescente desenvolvimento do comrcio, da circulao 
monetria, das cidades, etc., d lugar a insurreies sangrentas, particularmente na 
Flandres. Os senhores tm de fazer face, no apenas  rebelio dos mercadores e 
mesteirais nas cidades, mas tambm s insurreies de grandes massas de camponeses 
(iacqueries), tanto mais oprimidos quanto mais as rendas senhoriais se desvalorizam 
em consequencia do desenvolvimento da riqueza mobiliria.

Este mesmo desenvolvimento, permitindo aos reis o recurso aos emprstimos, a novos

tipos de impostos, aos lucros da manipulao da moeda, etc.,  tambm uma das causas 
do fortalecimento do poder real relativamente s grandes casas senhoriais. Os reis 
encontram o apoio das novas camadas que lutam contra o feudalismo. A centralizao 
administrativa da resultante acarreta uma numerosa classe de funcionrios mais ou 
menos letrados.

A Igreja atravessa uma poca conturbada ao longo dos sculos XIV e XV. Surgem novas 
heresias, como os Lolardos na Inglaterra e os Hussitas na Bomia, que se expandem 
largamente entre os camponeses e a populao das cidades; a autoridade do Papa  
repetidamente atacada, e arrasta-se durante muitos anos o conflito entre o Papa e o

Concilio, que pretendia sobrepor-se-lhe. Durante um longo perodo, em consequncia de 
divergncias internas da Igreja, existiram dois papas antagonistas, um em Roma, outro 
em Avinho, cada qual deles apoiado por uma parte dos reis europeus. Os prncipes 
auxiliaram por vezes os movimentos antipapais.

Em Portugal, concluda a conquista do territrio, a nobreza achou-se privada dos 
recursos que obtinha pela guerra, e o seu poder econmico declinou em face da 
burguesia das cidades, beneficiada por um comrcio cada vez mais activo com o 
exterior, principalmente com a Inglaterra, Flandres e Frana. A estrutura feudal 
agrria , por outro

106
lado, fortemente abalada. Affiantando-se o processo de emancipao dos servos ou 
adscritos, j findo no sculo XIII, o progresso dos camponeses mais folgados, os 
cavaleiros-viles, mina certos rendimentos da nobreza.

A necessidade para os nobres de compensar este declnio relaciona-se com as aventuras 
guerreiras do reinado de D. Fernando; mas, por outro lado, este rei protege o 
comrcio martimo, pois que ele era uma das principais fontes do enriquecimento e 
fortalecimento da Coroa.

A crise dinstica que se segue  morte de D. Fernando serve de rastilho  rebelio 
das cidades de Lisboa, Porto e outras, e a uma insurreio de camponeses, 
constituindo no conjunto uma coligao contra o poder senhorial (1383),  volta do 
Mestre de Avis, D. Joo, A maioria da nobreza apoia D. Joo de Castela, herdeiro da 
coroa segundo o

direito feudal. Finalmente, D. Joo 1 sobe ao trono depois de eleito nas Cortes, que 
se consideram depositrias da soberania nacional e que conseguem, juntamente com a 
Cmara de Lisboa, exercer certo controlo sobre o poder monrquico.

Este, porm, tende a refazer-se, e a nobreza, reconstituda a partir dos filhos de D. 
Joo 1 e de Nuno lvares (e incluindo adventcios), muda de estrutura, perdendo o

seu carcter local. A luta recomea com episdios sangrentos, aps a morte de D. 
DuWe, a propsito da questo da regncia.  uma luta entre fraces da nobreza, que 
eventualmente buscam apoio exterior. O infante D. Pedro, como D. Joo I, recorre ao 
apoio, sem finalmente o conseguir, da burguesia de Lisboa, outras cidades e vilas 
para conquistar o poder. A aristocracia militar encontrara uma nova razo de ser: a 
guerra de conquista em Marrocos iniciada em 1415 com a tornada de Ceuta, e os saques 
e resgates nas terras descobertas na costa de frica.

Com D. Joo 11, o trfego do ouro na costa de frica, para o qual se fundou a 
fortaleza-feitoria de S. Jorge da Mina, vem fortalecer a posio da Coroa, sob cuja 
direco passava a realizar-se a explorao geogrfica e econmica das novas terras 
descobertas. O fortalecimento da Coroa significava o fortalecimento da nobreza, 
porque era nesta que principalmente se recrutava o pessoal administrativo e militar 
dirigente das empresas ultramarinas; mas impunha um novo tipo de governo 
centralizado, em que as casas senhoriais perdiam a sua autonomia e os nobres se 
concentravam na corte, em torno do rei, como um corpo disciplinado e burocratizado. 
Esta transformao no se faz sem conflitos, que enchem todo o reinado de D. Joo 11. 
Mas o seu resultado final  o de colocar nas mos desta nobreza de novo tipo, 
estruturada em torno do seu chefe, o monoplio dos proventos da expanso ultramarina, 
afastando a burguesia comercial da posio dominante que quase alcanara entre o 
reinado de D. Fernando e o de D. Afonso V.

10 POCA: Os meios e agentes da cultura

Embora s em meados do sculo XV viesse a descobrir-se a impresso com caracteres 
tipogrficos, j anteriormente se multiplicavam as cpias manuscritas, organizando-se 
corporaes de escribas e livreiros, e procurando-se processos mais rpidos de cpia.

            107
Os conventos acabam por perder o exclusivo da produo do livro, ultrapassados por 
instituies laicas, principalmente pelas universidades e pelas cortes reais ou 
senhoriais, o que incentiva a produo de obras literrias por leigos. Mas o escritor 
profissional, quando no  um universitrio ou membro de uma ordem religiosa, 
encontra-se na dependncia de patronos, geralmente prncipes, membros da alta nobreza 
e da grande burguesia. O regime de mecenato domina a actividade literria. Em 
Portugal, o principal foco de cultura literria tende a ser a corte, cada vez mais 
numerosa. D. Duarte rene uma livraria, conservada e aumentada por Afonso V; o 
condestvel D. Pedro, filho do Regente,  tambm grande coleccionador de livros. 
Vrios membros da famlia real se dedicam  literatura.

O movimento das universidades mantm-se, com tendncia a emancipar-se da tutela da 
Igreja. As ordens mendicantes desempenham um papel cada vez mais activo dentro de 
certas universidades. Em Portugal, o rei D. Fernando intentou uma reforma da 
Universidade; D, Joo 1 concedeu  cidade de Lisboa o privilgio de ser a sua sede 
permanente; e tanto ele como os seus sucessores intensificaram a interveno na vida 
universitria. No entanto, a universidade portuguesa no parece desempenhar um papel 
cultural ou literrio notvel.

20 POCA: O ambente cultural na Europa

A Escolstica, esforo que a Igreja vinha realizando desde o sculo X1 para assimilar 
aos seus doginas os problemas levantados pelo desenvolvimento da tcnica e pelas 
transformaes sociais e polticas, perdera o confiante impulso racionalista dos seus 
pioneiros, como Santo Anselmo; recuava j mesmo em relao ao racionalismo mais 
comedido de S. Toms, que estruturara uma doutrina de conciliao entre os dogmas e 
Aristteles. Com Duns Escoto (1274-1303) e Guilherme de Occam (1270-1347) e os 
chamados *terministas+ do sculo XIV, tendia a colocar as verdades religiosas e 
morais acima da inteligncia humana e dependentes de um puro arbtrio divino. Duns 
Escoto  chamado, muito caracteristicamente, o *doutor subtil+, pois com refinamentos 
de subtileza prolongam a Escolstica os seus ltimos grandes doutores.

Esta retirada da razo escolstica coincide com duas tendncias ligadas s novas 
condies sociais: o empirismo, que anuncia o movimento cientfico da Renascena 
(Nicolau de Cusa e outros) e tivera j um precursor em Rogrio Bacon; e o misticismo, 
que se revela na grande difuso da clebre Imitao de Cristo, atribuda a Toms de 
Kempis, nas obras de msticos alemes, corno Eckart, Tauler, Suso, nas seitas 
msticas como a

dos Irmos da Vida Comum, nas confrarias de artesos, organizadas com fins religiosos 
e reivindicativos.

Na arte, onde predomina o estilo gtico, o grande acontecimento  o brilhante surto 
da pintura, sobretudo nas regies onde existem ricas cortes senhorias articuladas a 
uma


economia mercantil: a Flandres e a Itlia. Com Giotto, a escola de Siena e a de 
Florena, a arte ganha interesse pela paisagem, pela figura humana e pela composio, 
descobre

108
leis de perspectiva; com os pintores fiamengos, e sobretudo os Van Eyck, dignifica os 
interiores burgueses e a vida das cidades e humaniza os temas religiosos.

A literatura corts refina-se at chegar a um preciosismo formalista, com Charles

de Orlans e Eustache Deschamps na poesia, corri a escola dos Grands Rhtoriqueurs 
flamengos na prosa, onde o cronista Froissart fora o ltimo grande representante do 
estilo medieval. Para um pblico mais largo, desenvolve-se uma novelstica realista, 
cujos grandes representantes so o ingls Chaucer, o espanhol D. Joo Manuel, e o 
italiano Boceaccio. A novelstica em prosa parece supor a difuso do livro, quer pela 
leitura, quer pela audio, num pblico considervel. O desenvolvimento do teatro 
supe tambm um pblico popular e burgus. Os seus principais gneros so, nesta 
poca, as farsas, as moraldades alegricas e os mistrios. Estes ltimos 
representavam-se por iniciativa e obra das corporaes de artesos. O mais 
extraordinrio poeta deste fim da Idade Mdia  porventura Villon, estreitamente 
enraizado na vida urbana de Paris, de que evoca as tabernas, as lojas, os oficiais da 
justia, os elercs da universidade, as ruas e o cemitrio.

Graas ao seu precoce desenvolvimento mercantil e ao facto de ali persistir com mais 
fora a tradio romana, as cidades italianas, em especial Florena, renem condies 
para uma literatura de novo tipo, que vai servir de base  renovao literria da 
Renascena. Pelos traos gerais da Divina Comdia, Dante est ainda dentro da 
literatura alegrica medieval, que nesta poca atinge uma voga intensa. Mas por 
outras intenes, mais individualistas, ligadas a uma forma nova, fortemente 
influenciada pelos escritores latinos, e sobretudo ao verso, de uma flexibilidade 
desconhecida de qualquer autor medieval,  um dos iniciadores da literatura da 
Renascena. Petrarca, herdeiro dos Provenais, cria, dentro deste novo estilo, uma 
poesia confitente, introspectiva, expresso maravilhosamente plstica de estados 
emocionais, que vai dar o tom a grande parte da poesia moderna, at ao Romantismo 
inclusive. J ento o conhecimento da Antiguidade Clssica suscitava, em torno dos 
mercadores ou dos condotticri governantes, sobretudo dos Mdcis, senhores de 
Florena, toda a literatura erudita. em verso e prosa, informada de *humanismo+, e a 
criao de uma nova crtica de textos cujo grande representante ser Lorenzo Valla. 
Mas o resto da Europa no se encontra desde logo em condies de acompanhar estes 
primeiros passos do Humanismo italiano.

1111111U1MA06,14F1,4

Huizinga, J.: Declnio da Idade Mdia, trad. port., 2. a ed., Ulisseia, 1986. 
Caimette, J.: L'laboration ou Monde Moderne, col. *Clio+, Paris, Guene, Bernard: 
L'OccidentauxXit@'etXt@'sicles. Les tats, *Nouvelle Clio+, PUF.


Delumeau, Jean: Naissance et affirmation de Ia Rforme, *Nouvelle Clio+, P. U@ F.; A 
Civilizao do Renascimento, 2 vols., Estampa, 1983 (original francs de 1964).

          109
Febvre, LucieniMartin, Henri-Jean: LAppariton ou livre, coi. *L'volution de 
l'Humanit+, ed. AIbin Michel.

Martins, Jos Vitorino de Pina: Cultura Italiana, Lisboa, 1971 (informao segura, 
com ampla bibliografia classificada).

Saraiva, Antnio Jos: Histria da Cultura em Portugal, 1. > vol. No prelo o vol. 2. 
O

de A Cultura em Portugal. Teoria e Histria, que reinterpreta os problemas anunciados 
nesta Introduo.

Simes, Veiga: O Infante D. Henrique. O seu tempo e a sua aco, na Histria da 
Expanso Portuguesa no Mundo, vol 1.

Documentos sobre a Expanso Portuguesa, organizao e notas de Vitorino Magalhes 
Godinho, 3 vols., 1943, 1956; deste mesmo autor, A Economia dos Descobrimentos 
Henrquinos, Lisboa, 1962, e Ensaios, 11, Sobre Histria de Portugal, 1968 
(caracterizam clara e actualizadamente a transio social, e contm ampla 
bibliografia crtica); e ainda A Estrutura na Antiga Sociedade Portuguesa, Lisboa, 
1971, 4. > ed., Arcdia, Lisboa, 1980,

Corteso, Jaime: Os Descobrimentos Portugueses, 2 vols., Lisboa, 1960-62. Coelho, 
Antnio Borges: A Revoluo de 1383, 5. > ed. corr_ Caminho, 1984. (Sntese 
documentada, com boa bibliografia crtica, que se completa com Raizes da Expanso 
Portuguesa, 1964, e Comunas ou Concelhos, 1973, do mesmo autor, col. *Cadernos de 
Hoje+, Lisboa.)

Serro, Joel: O Carcter Social da Revoluo de 1383, 3, > ed., Livros Horizonte, 
Lisboa, 1978.

Barreirinhas, Alvaro: Les Luttes de Classe au Portugal  Ia fin du Moyen Age, Centre 
d'tudes et Recherches, 1967. Verso em portugus: Cunhal, lvaro: As Lutas de 
Classes em Portugal nos Fins da Idade Mdia, Lisboa, 1975.

Branco, Fernando Castelo: Aspectos e Problemas da Crise de 1383, in *Anais da 
Academia Portuguesa de Histria+, 11 srie, vol. 19, 1970, pp. 11-26.

Castro, Armando de: A Evoluo Econmica de Portugal dos sculos XII a XV, vol. XI, 
Caminho, 1979; Histria Econmica de Portugal, vol. li, Caminho, 1981.

Marques, A. H, de Oliveira: PortugaIna Crisedos SculosXlVeXV, Presenca, 1986, vol. 
IV da Nova Histria de Portugal, e Guia do Estudante de Histria Medieval Portuguesa, 
2. ed., Estampa, 1979.

Lobo, A. de Sousa Silva Costa: Histria da Sociedade em Portugal no sculo XV, 
Lisboa, 1903. Obra precursora, reproduzida por Edies Rolim, Lisboa, 1984, pref. de 
Jos Mattoso.

Captulo 11

20 POCA: A PROSA DOUTRINAL DE CORTE

A leitura, a produo do livro e a criao literria desenvolvem-se nas cortes 
hispnicas do sculo XV. Os prncipes organizam livrarias, empreendem iniciativas 
como a redaco de grandes compilaes histricas, promovem ou fazem tradues, so, 
por vezes, autores de obras originais.

Entre os livros traduzidos contam-se obras de Ccero, de Santo Agostinho, os 
Evangelhos cannicos e os Actos dos Apstolos, o Regimento de Prncipes de Egidio 
Romano, guia moral da realeza, de inspirao tomista; obras francesas como o Livre de 
Ia Cit des Dames de Cristina de Pisano (traduzido sob os ttulos Livro das trs 
Virtudes ou Espelho de Cristina, e que  um cdigo moral, muito exemplificado, para 
senhoras nobres) ou a rvore das Batalhas; obras inglesas como a Confisso do Amante 
de John Gower, onde se contam e reprovam numerosos amores pecaminosos. A tradio dos 
reis letrados e

protectores de letrados vinha de longe, e a literatura de corte, iniciada com os 
Cancioneiros e as tradues de romances de cavalaria, metamorfoseou-se com a expanso 
do livro impresso e o crescente declnio da arte jogralesca, que era oral.

O advento da dinastia de Avis intensificou na corte portuguesa o interesse pelos 
problemas tericos e doutrinrios, religiosos, polticos, morais e at psicolgicos. 
Nada sabemos da poesia lrica sob os reinados de D. Joo
1 e D. Duarte e sob a regncia do infante D. Pedro, a no ser a existncia na 
biblioteca de D. Duarte de um volume que se intitulava Livro das Trovas de E]-Re; e, 
embora seja difcil admitir que o lirismo se tenha apagado de todo numa corte onde 
tinha a seu favor uma longa tradio, o facto  que os problemas dominantes nas obras 
que nos restam dos prncipes de Avis encontram na prosa a sua expresso mais 
apropriada. Entre essas obras

112
incluem-se o Livro da Montaria de D. Joo 1, a Ensinana de bem cavalgar toda sela de 
D. Duarte, o Leal Conselheiro do mesmo, e a Virtuosa Benfetoria do infante D. Pedro, 
que fez tambm tradues de Ccero, Sneca, Vegcio e Egdio Romano.

O Livro da Montaria de D. Joo, escrito depois de 1415 e antes de 1433, liga-se a uma 
srie de tratados tcnicos e didcticos de que conhecemos, como

originalmente portugueses, o Livro da Falcoaria de Pro Menino, falcoeiro do rei D. 
Fernando, o Livro de Alveitaria de Mestre Giraldo, fsico de D. Dinis, e um Livro de 
Cetraria. O livro de D. Joo contm, no entanto, muito mais matria literria do que 
aqueles tratados que o precederam. Principia por uma classificao escolstica dos 
encantos da caa monts, que chega a comparar aos da msica do clebre polifonista 
Guillaume de Machaut e, at certo ponto, aos da Bem-Aventurana celestial; junta-lhes 
algumas digresses e apreciaes, por vezes curiosas, sobre o prazer saboreado da 
caa. A linguagem, rica de vocbulos e metforas provenientes da gria dos caadores, 
e a construo da frase, enredada e anacoltica, sugerem um pblico de ouvintes e um 
autor pouco afeito  disciplina literria, embora com conhecimentos patrsticos e 
escolsticos. Algumas pginas revelam uma sensibilidade aberta ao encanto sensorial 
do ar livre.

J a Ensinana de bem cavalgar toda sela tem, mais que uma inteno didctica, um 
propsito pedaggico e social amplo. D. Duarte parece querer restaurar o culto da 
equitao contra certo relaxamento que levara nobres palacianos ou de origem burguesa 
a descuidar desportos para-militares como

esse e o da montaria. O saber andar a cavalo exigiria a prtica de uma disciplina 
sobre os instintos e o medo, que D. Duarte deseja impor como padro moral e snibolo 
social da nobreza.

Mais declaradamente moralista, o Leal Conselheiro, compilado em 1437 ou 1438, 
pretende tambm oferecer  nobreza, incluindo nela os prncipes, normas e modelos de 
conduta. Para esse fim, expe uma teoria psicol gica de inspirao tomista, segundo 
a qual a vontade inteligente predomina sobre as outras faculdades da alma, seguida de 
um tratado sobre as virtudes e de outro sobre os pecados, sem que este esquema, alis 
muito lasso, o impea de enveredar por toda a espcie de apartes e digresses. Ao 
lado de conceitos e divises escolsticas, D. Duarte apresenta-nos vrios exemplos e 
consideraes tiradas da sua expenencia pessoal e embrenha-se em anlises intros-

113
pectivas que alcanam por vezes grande subtileza, como quando faz a distino entre 
as diversas formas (todas condenveis, porque sentimentais) da tristeza. Para esta 
distino, seguindo um mtodo que hoje classificaramos de fenomenolgico, o autor 
precisa o objecto semntico de diversas palavras significativas das diversas formas 
de tristeza, meditando sobre uma experincia variada, que metodicamente regista. Eis 
que, pela primeira vez em

lngua portuguesa, um autor procura analisar introspectivamente uma vivncia pessoal, 
interessar os outros com problemas tirados do seu sentir-se existir.  D. Duarte 
quem, pela primeira vez na literatura portuguesa, tenta definir a *saudade+ como 
expresso de um sentimento contraditrio e pretende ser essa palavra intraduzvel 
noutras lnguas. D. Duarte conta a sua experincia para ensinar aos leitores como 
ho-de resistir  s tentaes do pecado. No  porm no fim a que se dirige o autor, 
mas no caminho que ele percorre, que est a originalidade do Leal Conselheiro.

O ensinamento e os mandamentos da Igreja so sempre o critrio final, mesmo em 
problemas que nesta poca podiam considerar-se em aberto, como o da influncia dos 
astros sobre as aces dos homens (astrologia judiciria).

Tem igualmente um propsito moralizante e normativo a Virtuosa Benfeto,ria de D. 
Pedro, infante e depois regente de Portugal, a qual apresenta uma estrutura e matria 
muito diferentes das do Leal Conselheiro. Colaborou neste livro e *fez dele a maior 
parte+ o confessor do Infante, Frei Joo de Verba. O autor pretende expor e encarecer 
a teoria poltica, social, econmica, e at religiosa do feudalismo, que na sua poca 
se encontrava em

crise sem que no entanto tivesse aparecido uma alternativa terica capaz de 
substituir a doutrina feudal. A Virtuosa Benfeitoria apresenta o mundo como uma 
pirmide em degraus que tivesse Deus por vrtice e os irracionais por base, sendo a 
Benfeitoria, ou benefcio dado pelo superior ao inferior em prmio de servios, o elo 
que liga os diversos degraus da jerarquia social. Esta doutrina, transposta da moral 
j teolgica de Sneca, ope o acto originariamente divino de dar ao lucro mercantil 
e ao divertimento jogralesco; a sua

presena  notria na historiografia da Expanso, nomeadamente em Zurara.

O infante D. Pedro e, at certo ponto, o rei D. Duarte colocam-se exclusivamente no 
ponto de vista do prncipe ou do senhor, e, de um modo explcito ou implcito, 
consideram a autoridade destes como uma ordenao divina, ignorando a ideia da 
soberania popular, do pacto entre governantes e governados, que j nesta poca e at 
anteriormente fora aflorada por autores de autoridade reconhecida, sobretudo S. 
Toms, e que, ademais, estava implHLP - 8

114
cita na elevao da Casa de Avis ao trono, por voto das cortes de 1385. Ambas as 
obras, na realidade, testemunham o predomnio da ideologia da nobreza, que procura 
fortalecer a sua autoridade e consolidar a sua posio dirigente, dentro de uma 
sociedade instvel em que a direco poltica era disputada por diversos grupos 
sociais. D. Pedro usa um smile, vindo j da literatura latina, que equipara a 
sociedade ao corpo humano, onde  cabea, aristocrtica, cumpre dirigir - e aos 
membros, vilos, trabalhar. Mas as pretenses de melhor acesso ao governo pelos 
vilos, nesta poca, e o facto de que a

recente dinastia de Avis devia o trono a uma eleio das cortes parecem levar os dois 
prncipes a problematizar o poder que exerciam, e - sobretudo em

D. Duarte - a idealizar o seu exerccio sob uma norina racional e *virtuosa+. D. 
Duarte manifesta, de modo muito evidente, uma conscincia preocupada que medita sobre 
a sua prpria funo de prncipe.

Grandes diferenas separam as duas obras. D. Pedro coloca-se dentro de um ponto de 
vista objectivo; considera o homem dentro da sociedade, e  em funo desta que 
procura determinar as normas de conduta individual. D. Duarte situa-se, como vimos, 
dentro do ponto de vista moral subjectivo; faz da conscincia o juiz das aces dos 
homens, dando-lhe por critrio decisivo os mandamentos da Igreja. A Virtuosa 
Benfeitora, acabada por um clrigo, tem uma estrutura escolstica, com citaes, 
divises e subdivises estabelecidas a partir de definies de conceitos, atravs de 
uma

argumentao sistemtica de prs e contras, como nas disputas escolares.
O Leal Conselheiro, que resulta de uma ordenao de apontamentos vrios do monarca, 
feita por sugesto da rainha, apresenta, pelo contrrio, disposio mais irregular, e 
o pensamento do autor, registado inicialmente em

apontamentos dispersos, segue uma linha sinuosa, no evitando tratar, uns atrs de 
outros, variados temas que vm a talho de foice. A Virtuosa Benfeitora  uma 
tentativa para transpor em lngua portuguesa as formas tpicas da literatura 
escolstica; o Leal Conselheiro, o primeiro esboo de uma literatura de tipo novo, de 
que Montaigne estabelecer o paradigma nos Essais. Por isso mesmo, e pela concreta 
experincia pessoal que refere, como a admirvel reaco do autor contra a 
neurastenia e hipocondria (humor menencrico) e o quadro exemplar da convivncia no 
seu lar paterno, o Leal Conselheiro  dos dois livros o de maior interesse actual.

A redaco em lngua portuguesa destas obras, e sobretudo a do Leal Conselheiro, 
oferecia grandes dificuldades, porque a lngua estava pouco

115
ajustada  expresso das ideias e das discusses abstractas, que normalmente se 
realizavam em latim (salvas poucas excepes, algumas delas adiante estudadas). O 
Portugus escrito exercitara-se quase exclusivamente na narrativa. Era preciso pr em 
circulao termos novos correspondentes aos termos latinos da Escolstica, 
aperfeioar a sintaxe de maneira a definir precisamente a relao lgica entre as 
diversas proposies, que a prosa narrativa enlaava frouxamente, servindo-se 
sobretudo das conjunes coordenativas. Era preciso tambm (trabalho muito mais 
difcil do que nos parece hoje) *apontar+, estabelecer a pontuao, que praticamente 
no existia.

O Portugus escrito, tal como no-lo revelam as tradues do romance

de cavalaria e ainda as crnicas de Ferno Lopes, no se afastava muito da

lngua falada, pelo menos quanto ao ritmo e  estrutura periodal. As prprias 
intervenes do cronista, que interpela frequentemente o ouvinte, nos mostram que o 
escritor destinava o seu livro  leitura em pblico. O ritmo da frase, as pausas e 
suspenses, que hoje, at certo ponto, se registam pelos sinais de pontuao, eram 
ento confiadas  competncia do leitor pblico do livro. Ora, obras como o Leal 
Conselheiro e a Virtuosa Benfeitoria destinam-se, no j tanto  leitura em voz alta 
para ouvintes, como  leitura

individual de gabinete. D. Duarte refere-se no s aos *ouvintes+ mas tambm aos 
*leitores+ do seu livro, e a estes ltimos d conselhos muito sintomticos: que leiam 
devagar, com ateno e *apontando bem+, isto , determinando eles prprios, com 
cuidado, as pausas adequadas ao texto.

D. Pedro tem conscincia desta dificuldade de criar uma lngua literria distinta da 
fala coloquial quando previne o leitor de que o seu livro est em

parte escrito com *pausas curtas+, mais trabalhosas ao ditar, mas apreciadas pelos 
*engenhosos+ e *subtis+, e parte com *pausas compridas, que  mais ch maneira de 
falar+. As pausas da lngua escrita estabelecidas pelos sinais de pontuao so, com 
efeito, mais frequentes que as da lngua falada, em

que o ritmo  mais fluido e mais simtrico e, sobretudo, estabelecido por critrio 
diverso. A dificuldade de ditar em *pausas curtas+ resultava de que o autor tinha de 
constranger o ritmo natural da fala, para se adaptar  s articulaes impostas pelo 
mais analtico entendimento escrito.

O Latim, e sobretudo o Latim escolstico, foi, como no podia deixar de ser, a lngua 
sobre a qual a prosa doutrinal portuguesa apoiou os primei~ ros passos, quer 
decalcando nele as suas formas, quer aprovisionando-se do

116
vocabulrio que lhe faltava. Por isso D. Pedro declara que a matria do seu livro 
obriga a recorrer a palavras *latinadas+ e a termos difceis. E D. Duarte socorre-se 
frequentemente de latinismos, embora condene o seu uso imoderado. Palavras como: 
abstinncia, nfnto, fugitivo, evidente, sensvel, intelectual, circunspeco, 
etc., contam-se entre os latinismos que nesta poca so enxertados no tronco da 
lngua. De resto algumas das melhores pginas do Leal Conselheiro so precisamente 
aquelas em que ele medita sobre a lngua:  o caso da anlise de campos semnticos, 
como tristeza, nojo, aborrecimento, pesar, desprazer e saudade, ou avisado, 
percebido, previsto e

circunspecto. No seu esforo para criar expresso rigorosa, os novos prosadores so 
levados a adoptar tambm latinismos sintcticos, mesmo ao arrepio das tendncias 
lingusticas nacionais. Tais so a transposio do verbo para o fim da frase, e o 
abuso da orao infinitiva - processos frequentes da prosa de D. Duarte. Ainda 
segundo modelo latino, era possvel, por outro lado, desenvolver o uso das conjunes 
subordinativas, que do  frase uma

jerarquia mais precisa do que aquela que  estabelecida pela simples coordenao. Ora 
D. Duarte, ao aventurar-se por domnios novos em que no encontra modelos, v-se por 
vezes em dificuldades para manejar este instrumento delicado; e no raro se encontram 
no Leal Conselheiro frases enoveladas, em que o leitor perde de vista, no enredo dos 
incidentes, a conexo que liga o comeo com o fim. A Virtuosa Benfetoria, que no 
sai do terreno da discusso escolstica, e cuja matria grandemente parafraseia De 
Beneficis de Sneca,  alis de exposio muito mais fcil, oferece uma estrutura 
periodal muito mais slida e eurtmica.

11111161,6,106,A,FIA

1. Textos

D. Joo 1: Livro da montaria. Ed. de Esteves Pereira, Coimbra, 1918. Reed. em curso 
pelo Centro de Lingustica das Universidades de Lisboa.

Pro Menino: Livro de Falcoaria. Ed., introd., notas e glossrio por Rodrigues Lapa, 
Coimbra, 1931.

Me-stre Giraldo: Livro de Alveitaria. Leitura crtica de Gabriel Pereira, in *Revista 
Lusitana+, 12 (1-2), 1909; reed. da primeira e segunda partes com apres., introd. e 
notas de Cacilda de O. Camargo, C. A. lannone e J. Cury, Univ. Estadual Paulista, 
Araraquara, 1988.

           117
D. Duarte: Livro de Ensinana de bem cavalgar toda sela. Ed. crtica com glossrio 
por Joseph M. Piei, Lisboa, 1944, rep. fac-smile IN-CM, 1986 (prefervel  ed. do 
visconde de Santarm e J. 1. Roquete, Paris, 1842, reproduzida na ed. Roliandiana).

Leal Conselheiro. Eci. crtica e anotada de Joseph M. Piei, Lisboa, 1942 (prefervel 
 do visconde de Santarm e J. 1. Roquete, Paris, 1842, e  da Tipografia 
Roliandiana, Lisboa, 1843). Serve de base  ed. com actualizao ortogrfica, introd. 
e notas de Joo Morais, 1982. H conhecimento de vrios dispersos de D. Duarte, 
alguns refundidos, e outros no, no Leal Conselheiro. Ver o vol. 1 das Provas apensas 
 Histria Genealgica de Antnio Caetano de Sousa, alm da eci. parisiense do Leal 
Conselheiro. Est a ser preparada nova ed, crtica pelo Instituto Nacional de 
Investigao Cientfica / Centro de Lingustica da Universidade de Lisboa, com 
leitura, pref. e notas de Maria Helena Lopes de Castro,

Livro dos Conselhos de EI-Rei D. Duarte (Livro da Cartuxa). Ed. diplomtica, 
transcrio de Joo Jos Dias, introd. de A. H. de Oliveira Marques e J. J. Dias, 
Editorial Estampa, Lisboa, 1982.  um complemento, mais acentuadamente prtico e 
compilatrio, do Leal Conselheiro, com regulamentos, cartas e conselhos de autoria ou 
provenincia diversa, e contm dados de ordem religiosa, moral, medicinal, 
administrativa e cultural.

D. Pedro: Da Virtuosa Benfeitoria. Ed. de J. Pereira de Sampaio (Bruno), Porto,
19 10, e Joaquim Costa, Porto, 1940 (reed. em 1946), segundo manuscritos diferentes. 
No so ed. rigorosamente crticas. Amrico da Costa Ramalho refere um manuscrito 
desconhecido (ver adiante).

Tiracluckes. Livro dos Ofcios de Marca Tulio Ciceram, o qual tornou em linguagem o 
infante D. Pedro, Duque de Coimbra, ed. J. M. Piei, Coimbra, 1948. Da obra de Pisano, 
Cristina de: Livre des Trois Vertus ou Cit des Dames, h uma traduo em manuscrito 
de e. 1447-55 com o ttulo Livro das Trs Virtudes (reproduzido por: Carstens-
Grockenberger, Dorothee: Christine de Pisan Buch von den drei Tugenden, Mnster, 
Westfalen, 1961); e uma ed. impressa em Lisboa, em 1518, com o ttulo Espelho de 
Cristina, registando-se diferenas importantes entre os dois textos. Ver Willard, 
Charity Cannon: A portuguese translation of Christine de Pisan's *Livre de Tros 
Vertus+, Publications of the Modern Language Association of America, LXXVIII, n. > 
15, 1963; ed. fac-similada
1987. Mencionemos aqui, pelo seu interesse cultural e lingustico, um texto 
narrativo, Vida e Feitos de Jlio Csar, ed. crtica da trad. portuguesa 
quatrocentista de um original francs, 2 vols- F. C. Gulbenkian, 1970, por Maria 
Helena Mira Mateus, que tambm organizou uma sua antologia, com estudo histrico e 
lingustico, na col. *Textos Literrios+, 1980.

2. Antologias e extractos


De todos estes textos, excepto as tradues, nas crestomatias de Leite de 
Vasconcelos, J. J. Nunes e J. Pereira Tavares, Rodrigues Lapa, e ainda:

D. Duarte e os prosadores da Casa de Avis, da col. *Textos Literrios+, com introd. e 
notas de Rodrigues Lapa.

D. Duarte: *Leal Conselheiro+, da col. *Clssicos Portugueses+, e Leal Conselheiro e 
Livro da Ensinana de Bem Cavalgar Toda Sela, col. *Atlntida+, ambas com introd. e 
notas de F. Costa Marques. (Tm bibliografia crtica.)

118
3. Estudos

Saraiva, Antnio Jos: Histria da Cultura em Portugal, 1. > vol., Livro li, cap. V, 
' 1;
O Crepsculo da Idade Mdia em Portugal, Gradiva, 1988, pp. 216-276.

Maurcio, P.e Domingos: D. Duarte e as Responsabilidades de Tnger (1433-38), ed. 
comemorativa do V Centenrio do Infante D. Henrique, 1960.

Mera, Paulo: As teorias polticas medievais no * Tratado da Virtuosa Benfeitoria+, 
in *Revista de Histria+, 8, pp. 1-121.

Ricard, Robert: L'Infant D. Pedro de Portugal et *0 Livro da Virtuosa Benfeitoria+, 
in *Builetin des tudes Portugaises+, t. XVII, 1953; Le *Leal Conselheiro+ ou RoiD. 
Duarte de Portugal, sep. da *Revue du Moyen ge Latin+, t. IV, Nov.-Dez. 1948, 
reeditados no vol, tudes sur l'histoire morale et religieuse ou Portugal, Paris, 
srie *Histria e Literatura+, IV, Centro Cultural Portugus, 1970.

Lapa, Rodrigues: Lies de Literatura Portuguesa - poca Medieval, 10. > ed. rev.

e aum., Coimbra, 1981 (tem bibliografia crtica).

Carvalho, Martins de: O Livro da Virtuosa Benfeitoria: esboo de estudo, Coimbra, 
Imprensa da Universidade, 1925.

Palhano, Herbert: A Expresso Lxico- Gramatical do Leal Conselheiro, 2. > ed. aum., 
in *Revista de Portugal+, 1948-49.

Russo, Harold J.: Morphology and Syntax of The *Leal Conselheiro+, Filadlfia, 1942. 
Ramalho, Amrico da Costa: Um manuscrito desconhecido de *0 Livro da Virtuosa 
Benfeitoria+, in *Boletim de Filologia+, 9, 1948, pp. 278-284.

Ferreira, Lus Afonso: Algumas consideraes  volta dos manuscritos do *Livro da 
Virtuosa Benfeitoria+, in *Bibios+, 25, 1949, pp. 488-508.

Martins, p.e Diamantino: O Sistema Moral da *Virtuosa Benfeitoria+ e O *De 
Beneficis+ de Sneca e a *Vrtuosa, Benfeitoria+ do Infante Dom Pedro, sep. da 
*Revista Portuguesa de Filosofia+, 21, n. 3, Braga, 1965, contendo o 1. estudo um 
resumo e o 2. um amplo cotejo de textos; O Sistema do Universo na * Virtuosa 
Benfeitoria+ do Infante Dom Pedro, in *Actas do Congresso Histrico de Portugal 
Medievo+, t. li, Braga, Jan.-Dez. 1964.


Martins, Mrio: Estudos de Cultura Medieval, Lisboa, 1969 (dois estudos sobre o Livro 
da Montaria, entre outros que aqui importam); Alegorias, Smbolos e Exemplos Morais 
da Literatura Medieval Portuguesa, Lisboa, 1975 (um captulo sobre a Virtuosa 
Benfeitoria, outro sobre o Leal Conselheiro). Este autor editou um Guia Geral das 
Horas de D. Duarte, 1972.

Fernandes, Rogrio: D. Duarte e a educao senhorial, in *Vrtice+, 37, n. 396-397, 
Maio-Junho 1977.

Castro, Armando de: As ideias econmicas no Portugal Medievo (scs. XIII a XV), 
*Biblioteca Breve+, ICALP, 1978.

Pereira, M. Helena da Rocha: Helenismo no *Livro da Virtuosa Benfeitoria+, in 
*Bibios+,
57, 1981, Coimbra, pp. 217 e segs.

138311385 e a Crise Geral dos Sculos XIV e XV, *Actas das Jornadas de Histria 
Medieval+, Lisboa, 1985.

Monteiro, Joo Gouveia: Orientaes da Cultura da Corte na 1. > metade do sc. XV (A 
Literatura dos Prncipes de Avis), in *Vrtice+, 2. > srie, Agosto 1988, pp. 89-103. 
Botelho, Afonso: Da Saudade ao Saudosismo *Biblioteca Breve+, ICALP, 1990, pp.
25-106 (sobre os livros de D. Duarte).

Captulo 111

FERNO LOPES

FERNO LOPES: Vida e obras

A maior personalidade da literatura medieval portuguesa, e tambm um
dos nomes cimeiros da nossa literatura em geral,  o cronista Ferno Lopes, com quem 
se inicia a srie dos cronistas gerais do Reino.

Ferno Lopes deve ter nascido entre 1380 e 1390, aproximadamente, visto que em

1418 j ocupava funes pblicas de responsabilidade. Pertence, portanto,  gerao 
seguinte quela que se bateu no cerco de Lisboa e em Aljubarrota. A guerra com 
Castela

s acabou em 1411. Ferno Lopes pde ainda acompanhar a sua ltima fase, e conhecer 
pessoalmente alguns dos seus protagonistas, como D. Joo I, Nuno lvares Pereira, os

cidados de Lisboa que se rebelaram contra D. Leonor Teles e elegeram o Mestre seu

Defensor em comcio popular, alguns dos procuradores s Cortes de Coimbra de 1385 
que, apoiando o Dr. Joo das Regras, declararam o trono vago, e, chamando a si a 
soberania, elegeram um novo rei e fundaram uma nova dinastia.

Profissionalmente, Ferno Lopes era tabelio, com certeza de origem viloa, talvez 
mesteiral, porque contava um sapateiro na famlia da mulher. Foi empregado da famlia 
real e da corte, escrivo de D. Duarte, ainda infante, do rei D. Joo 1, e do infante 
D. Fernando, em cuja casa serviu de *escrivo da puridade+, e cujo testamento lavrou. 
A partir de 1418 aparece a desempenhar as funes de guarda-mor da Torre do Tombo, ou 
seja, de chefe dos arquivos do Estado, lugar de confiana da corte. Como prmio dos 
seus servios como cronista recebeu, em 1434, alm de uma <@tena+ anual pecuniria, 
o ttulo de <,vassalo de EI-rei+, carta de nobreza atribuda ento com certa 
liberalidade a membros das classes no nobres. Em 1454 foi reformado do cargo de 
guarda-mor do Tombo devido  sua idade, segundo reza o documento respectivo. Ainda 
vivia em 1459.

120
A carreira de Ferno Lopes como cronista comea, segundo parece, em

1419 ou antes, pois nesse ano colaborava com o ento infante D. Duarte na compilao 
e redaco de uma crnica geral do reino de Portugal. S em 1434, porm, aparece 
referncia oficial ao cargo para que o nomeou o rei D. Duarte de *pr em crnica as 
histrias dos reis que antigamente foram em Portugal+ e os feitos do rei D. Joo 1, 
pelo qual  remunerado com a

tena j referida. Aps a morte deste rei, o regente D. Pedro, em nome de

D. Afonso V, confirma Ferno Lopes na mesma incumbncia, mantendo-lhe a tena. Com o 
fim do governo do Regente, viu chegar Ferno Lopes o fim do seu cargo de cronista da 
corte. Em 1449, pouco antes da batalha de Alfarrobeira, ainda recebe uma tena de D. 
Afonso V pelos seus trabalhos literrios, mas j nessa poca entrara em actividade um 
outro cronista, Gomes Eanes de Zurara. A ltima obra em que Ferno Lopes trabalhou, a 
terceira parte da Crnica de D. Joo I, ficou incompleta e foi continuada

por Zurara.

Como resultado desta longa actividade, chegaram at ns: Crnica de E]-Re D. Pedro, 
Crnica de E]-Rei D. Femando, Crnica de E]-Rei D. Joo,
1. a parte (que trata do interregno entre a morte de D. Fernando e a eleio de D. 
Joo), a Crnica de E]-Rei D. Joo, 2. > parte (que abrange o reinado

de D. Joo 1 at  paz com Castela em 1411), e ainda, provavelmente, inacabadas, as 
crnicas dos reis de Portugal, desde o governo do conde D. Henrique, at D. Afonso 
IV, inclusive.

Conhecem-se duas cpias feitas no sculo XVII, de manuscritos do sculo XV, contendo 
um (cdice da Biblioteca Pblica do Porto) as crnicas dos reis de Portugal desde o 
conde D. Henrique at Afonso III, inclusive; outro, as mesmas crnicas acrescentadas

das de D. Dinis e D. Afonso IV, esta ltima constituda em parte por extractos de Rui 
de Pina (cdice da Casa Cadaval). Segundo um passo do prprio texto, esta crnica foi 
realizada por um infante de Portugal e a partir de 1419.

O sucessor de Ferno Lopes, Gomes Eanes de Zurara, afirma que aquele foi encarregado 
por D. Duarte, sendo infante, ainda em vida de D. Joo 1, de escrever as crnicas dos 
reis de Portugal. O prprio Ferno Lopes nos diz que a sua obra constava de dois 
volumes e inclua o governo do conde D. Henrique. isto leva, portanto, a crer que as 
referidas crnicas sejam as que Ferno Lopes escreveu, por iniciativa de D. Duarte, 
mencionado no manuscrito como autor da obra. Acresce que as referncias feitas por 
Ferno Lopes  sua obra sobre os primeiros reinados coincidem inteiramente com o 
texto dos


dois cdices mencionados, salvo no que respeita ao governo do conde D. Henrique, que

        121
est incompleto em ambas@ Tais crnicas de Ferno Lopes foram, no sculo XVI, 
aproveitadas por Rui de Pina, que as reescreveu, actual izando-lhes a linguagem, e 
por Duarte Galvo, que, de acordo com a tica e as funes cronsticas, as copiou, 
amputando-as e acrescentando cap tulos da prpria lavra na sua crnica de D. Afonso 
Henriques.

Estas crnicas dos reis de Portugal tm como fundo principal a parte da Crnica Geral 
de 1344 referente aos respectivos reis; mas o seu redactor completou-as com 
documentos autnticos, tais como inscries epigrficas e documentos de chancelaria, 
que decerto encontrou na Torre do Tombo.

Entre as fontes mencionadas, conta-se uma crnica de D. Afonso Henriques e verses 
contraditrias do reinado de Sancho 11 (que, baseados na Crnica

Geral de 1344, j sabamos existirem).

Damio de Gis, que fora o primeiro a reivindicar para Ferno Lopes as crnicas

dos reis de Portugal que corriam com o nome de Rui de Pina, atribui tambm quele a 
terceira parte da Crnica de D. Joo I, tida como de Zurara, e a Crnica de D. 
Duarte, atribuda a Pina. Mas estas ltimas atribuies so conjecturais.

Fontes de Ferno Lopes

Alm das crnicas trecentistas referidas noutro captulo, as obras de Ferno Lopes 
atestam a existncia de outras crnicas hoje perdidas. Ele cita uma crnica de Martim

Afonso de Melo sobre o reinado de D. Fernando, e uma crnica latina de um Dr. 
Christophorus (Cristvo) sobre o reinado de D. Joo 1, ambas desaparecidas. Conhece-
se ainda uma Crnica do Condestabre de Portugal D. Nuno lvares Pereira, que tem 
numerosos

e extensos passos comuns s crnicas de D. Fernando e de D. Joo I de Ferno Lopes. 
Tanto a Crnica do Condestabre como as crnicas de Ferno Lopes aproveitaram 
provavelmente uma fonte comum.

Pelo facto de Ferno Lopes reproduzir captulos quase ntegros do seu predecessor na 
histria de Nuno lvares, no deve pensar-se que ele fosse um plagirio, no sentido


infamante que a palavra tem em nossos dias. Um cronista medieval, como vimos a 
propsito da Crnica de 1344, era um compilador que ordenava cronologicamente (*punha 
em crnica+) anais diversos, gestas prosificadas, estrcas monogrficas ou j 
integradas, sem, na maior parte dos casos, explicitar qualquer critrio de escolha e 
fuso.  ainda como compilador que Rui de Pina ordena e *pe em crnica+ as histrias 
dos reis de Portugal, limitando-se a modernizar-lhes o estilo.  como compilador que 
o prprio Ferno Lopes aproveita, entre outras, as crnicas do castelhano Pero Lopez 
de Ayala, embora as complete j com investigao de testemunhos orais e 
arquivsticos.

122
A crtica documental e histrica em Ferno Lopes

Ferno Lopes excede a craveira de um cronista  maneira medieval. Se  verdade que 
parte da sua obra faz a compilao de memrias anteriores, tambm  verdade que outra 
parte j resulta de uma investigao original e crtica. Isto representa um grande 
avano sobre a historiografia medieval, nomeadamente sobre a francesa, que no passa 
de uma reportagem baseada em recordaes pessoais ou relatos de testemunhas. Como 
guarda-mor da Torre do Tombo, Ferno Lopes tinha ao seu alcance os arquivos do 
Estado, circunstncia de que soube fazer uso, transcrevendo, resumindo e aproveitando 
a correspondncia diplomtica, os diplomas legais, os captulos das Cortes, e outra 
documentao, que ainda enriqueceu examinando, fora da Torre do Tombo, os cartrios 
das igrejas e lpides de sepulturas. Com este material foi-lhe possvel fazer a 
crtica e a correco das memrias existentes, segundo um mtodo que antecipa o de 
dois a trs sculos mais tarde. Sempre que uma tradio ou uma memria  desmentida 
pelos documentos, Ferno Lopes rejeita-a; e, avanando neste caminho, declara 
submeter a uma

reviso metdica todos os relatos que lhe chegavam s mos, notando as suas 
contradies e inverosimilhanas, e decidindo-se,  falta de documento, pela verso 
que julga *mais chegada  razo+. At hoje no foi possvel abalar, em nada de 
importante, a solidez desta obra sob o ponto de vista documental, e as polmicas que 
se travaram sobre o valor histrico de Ferno Lopes, quando acusado de denegrir a 
figura de D. Pedro ou de caluniar os inimigos de D. Joo 1, nomeadamente D. Leonor 
Teles, s tm levado a

confirmar o constante escrpulo do cronista de se estribar em documentos autnticos, 
embora sem as transcries explcitas que apenas principiaro a impor-se dois sculos 
mais tarde.

O primeiro cronista portugus pode, assim, ser chamado tambm com justia o primeiro, 
em data, dos historiadores portugueses, isto , o primeiro que, no se limitando a 
compilar, se informa nas fontes documentais e submete a tradio a uma anlise 
crtica.

A viso da realidade histrica em Ferno Lopes

Mas no basta saber criticar as fontes para ser um historiador. O melhor historiador, 
conforme hoje o concebemos, ser aquele que compreender os

123
mais complexos factores de uma dada sociedade em transformao, determinar a cada 
passo a importncia relativa de cada um deles, de maneira a poder dar-nos dessa 
sociedade, no uma faceta, mas uma viso de conjunto.

Tambm sob este aspecto a literatura medieval no nos oferece verdadeiros 
historiadores. Normalmente, os cronistas medievos esto ligados a

uma corte real ou senhorial, a um convento, a um grupo social aristocrtico ou 
governante, e apenas relatam os acontecimentos que interessam a esse

restrito meio em que parece resumir-se para eles uma nao inteira ou at todo o 
universo. Trabalhando geralmente para cortes de cavaleiros, a histria aparece 
atravs deles como um srie de feitos de cavalaria, torneios, aventuras de reis ou 
grandes senhores, intrigas palacianas. A grande massa da

nao, os interesses e os ideais que impelem os conjuntos de homens so por estes 
cronistas ou desconhecidos ou incompreendidos. Assim  que, para um dos mais clebres 
cronistas franceses, Froissart, os acontecimentos importantssimos que se desenrolam 
na Flandres durante os sculos X11 e XIV, determinando uma viragem no progresso da 
civilizao no Ocidente, no passam de tumultos e desordens provocados por 
malfeitores.

Em contraste com esta viso unilateral e fragmentria de outros cronistas medievais, 
Ferno Lopes d-nos da sociedade portuguesa dos sculos XIV e XV um amplo panorama em 
que entram mltiplos e contraditrios factores, e em que, combinada com as aces 
individuais, desempenha um papel preponderante a movimentao de grandes foras 
colectivas e annimas.

Lendo Ferno Lopes, no perdemos de vista a corte e a sua vida ntima, bodas e 
amores, intrigas e conjuras palacianas. Mas vemos tambm, e com um relevo 
proporcionado, a cidade de Lisboa e os seus mesteirais, que largam o trabalho para 
organizar *unies+ na rua, participar em comcios populares, pegar em armas quando  
a ocasio; vemos alfaiates, tanoeiros, camponeses erigidos em heris e falando em 
nome de grandes agrupamentos dotados de vontade prpria; vemos gente de trabalho 
arrebanhada  fora nas aldeias, para as gals que o rei D. Fernando envia contra a 
esquadra castelhana; vemos *povos do reino+ assediando os castelos, derrubando-lhes 
as muralhas, que uma longa opresso tornara odiosas. Perante os desgnios da corte, 
manifesta-se constantemente uma determinao massiva, como quando pela voz do 
alfaiate Ferno Vasques a arraia-miLda se ope ao casamento de D. Femando com Leonor 
Teles.  cidade de Lisboa, que se comove,

124
anima, ou canta pela boca de raparigas annimas, se deve, na verso de Ferno Lopes, 
a principal contribuio para a vitria contra os Castelhanos e os *portugueses 
desnaturados+; e a revoluo popular que levou ao trono o mestre

de Avis, derrubou a velha aristocracia, fiel na sua maioria ao partido castelhano, e 
derrotou o poderio do rei de Castela, -nos descrita como um movimento social 
irresistvel que faz cair todos os planos urdidos, quer pelas grandes personagens que 
intentam manej-lo, quer pelos que dele desdenham como

um alvoroo de *dois sapateiros e dois alfiates>@. As intrigas destas personagens 
biam  deriva na torrente da insurreio social, que as empurra irresistivelmente ou 
as despedaa nos escolhos. E o sentido pico do cronista no se detm em comentrios 
moralistas sobre os actos da multido, cujos motivos encara com uma objectividade de 
pormenor, que no desmente, mas

antes confirma a sua adeso global.

Nesta grandiosa viso de uma colectividade urbana e nacional, no escapam ao nosso 
cronista certos aspectos que s no sculo XIX voltaram a ser

considerados por historiadores portugueses. Embora na sua poca no houvesse o que 
possa chamar-se uma cincia econmica, o senso profundo do nosso cronista, ou talvez 
antes o seu conviver com vilos sujeitos ao peso dos impostos,  desvalorizao da 
moeda, s devastaes da guerra, etc., leva-o a considerar com ateno certas coisas 
prticas, especialmente aquelas que incidiam na vida dos burgueses e mesteirais. 
Assim  que encontramos nas suas pginas longas explicaes acerca do sistema 
monetrio, e especialmente sobre as quebras da moeda, to frequentes na Idade Mdia; 
acerca do imposto das sisas; da administrao do tesouro real, etc.

Compreende-se que, abrangendo este largo horizonte, Ferno Lopes considerasse a 
cavalaria e a guerra com olhos diferentes daqueles com que as viam os cronistas 
palacianos. A guerra de que Ferno Lopes nos fala no

 a faanha cavaleiresca, a alegre aventura em que os bravos ganham ttulos de 
glria. Situando-se dentro de um ponto de vista nacional, Ferno Lopes sabe dar-lhe 
grandeza quando uma massa annima, assaltando os castelos

ou resistindo dentro das muralhas das vilas, defende a sua terra e a sua

liberdade; e atreve-se a conden-la quando no passa de uma aventura

cavaleiresca ou monrquica, como (segundo Ferno Lopes) foram as guerras de D. 
Fernando. As suas narrativas de batalhas so geralmente sbrias, e na de Aljubarrota 
condena expressamente o costume de exagerar as

  125
proezas dos cavaleiros com *fbulas patranhosas+ que nenhum *sisudo+ pode

crer.

O nico cavaleiro que sai engrandecido e certamente idealizado das pginas de Ferno 
Lopes - Nuno lvares Pereira -  exaltado pelo seu patriotismo, pela sua sabedoria, 
pelo seu respeito perante casas e propriedades dos vilos, pela sua castidade - por 
qualidades em que ele contrasta com os cavaleiros

do seu tempo, e fazem dele, aos olhos do cronista, o modelo do cavaleiro

cristo, ao servio de Deus e do seu povo.

A grandeza de Ferno Lopes como historiador consiste, principalmente, nesta viso 
multifacetada que abrange os aspectos sociais da vida nacional e que lhe permitiu 
transmitir-nos o fresco global de uma poca, em vez de

simples narrativas de aventuras individuais vistas segundo a ideologia cavaleiresca, 
como as que nos apresentam outros cronistas medievos. Graas a

esta superioridade de viso, possumos hoje um precioso relato de conjunto da grande 
crise social que marcou em Portugal a passagem da Idade Mdia para os tempos 
modernos.

Esta viso da sociedade deve-se, sem dvida, ao gnio do cronista, que soube 
aproveitar testemunhos de uma mutao social que pe em crise os

valores tradicionais e possibilita a contestao da ordem estabelecida por outras 
classes sociais at ento excludas do poder.

FERNO LOPES: A matria literria das Crnicas

Para dar expresso a esta poderosa e ampla viso da sociedade era preciso um escritor 
com qualidades excepcionais de artista, que lhe permitissem organizar num conjunto 
convincente a reconstituio dos acontecimentos.

Vimos como so mltiplos os aspectos da vida a que a sua pena tem de acudir;  o 
interior das cortes, com os seus tipos psicolgicos prprios, os

seus enredos, os dramas secretos da ambio e do amor, as suas horas de

luto ou de folga;  a praa pblica movimentada e ruidosa, percorrida por enchentes 
humanas;  o acampamento de guerra, embandeirado em festa, onde alguns ditos 
*saborosos+ nos chegam atravs do rumor;  o campo de batalha que um exrcito 
numeroso recobre com suas lanas e elmos resplandecentes ao sol; so as torres das 
fortalezas a cuja sombra se tecem artes e intrigas entre os sitiados e os sitiantes; 
so as altercaes violentas nos

126
conselhos e assembleias; so querinesses coloridas nas cidades em festa, engalanadas 
de flores e ramos verdes. De noite os archotes alumiam nas ruas um baile popular, ou 
velam no salo da alcova os soluos de um rei vencido; o dia tanto mostra 
galhardetes, bandeiras e ferros reluzentes, como o casario de uma cidade latejante de 
vibrao humana.

Esta variedade e animao nos aspectos e episdios de todo um mundo

que ressurge  narrativa do Cronista do  sua obra um interesse espectacular, 
teatral, especialmente grato ao gosto romntico do *pitoresco+, que quatro sculos 
depois tiraria partido deste enorme caudal de episdios, ambientes e figuras. No 
entanto, o aspecto exterior da realidade aparece em Ferno

Lopes apenas como expresso da aco humana e da vida moral dos indivduos e 
colectividades. No encontramos nele o mero descritivo, embora se possa interessar 
mida e pitorescamente pelo simples espectculo de uma tempestade, nas suas diversas 
fases. O seu interesse vai predominantemente para a gente que se move e faz mover as 
coisas.

O conjunto das suas crnicas d-nos uma galeria de caracteres vigorosos uns, outros 
indecisos, mas todos de um realismo convincente, sagazmente observados e por vezes 
desmontados na sua estrutura psicolgica. Nenhuma poca da histria de Portugal est 
hoje para ns to cheia de personagens como este final do sculo XIV, por obra do 
extraordinrio reprter que a relatou e que serviu de fonte a toda uma literatura 
evocatva, em segunda e terceira mo. Herculano nas Lendas e Narrativas, Garrett no 
Arco de SantAna e no Alfageme de Santarm, Oliveira Martins na Vida de Nun'lvares, 
Marcelno de Mesquita em Leonor Teles, contam-se entre os que trabalharam sobre o 
grande elenco de personagens desenhadas por Ferno Lopes. Certos comparsas desta 
grande comdia humana oferecem uma

extrema complexidade psquica, como o Mestre de Avis, criatura hesitante e violenta 
ao mesmo tempo, tenaz na sua mediocridade, vivisseccionada por Ferno Lopes ao longo 
de episdios variados, por vezes triviais, mas todos eles significativos, traos 
midos e mltiplos de que ressalta no fim um poderoso retrato de uma figura vulgar. 
Mas j Leonor Teles, personalidade enrgica, que ele secretamente admira num plano 
trgico para alm do bem e

do mal imediatos,  colhida em poucos mas certeiros traos - trs ou quatro cenas 
intensamente dramticas. E se o cronista soube pr de p todo um

mundo de gente vria, em que no h dois indivduos iguais,  porque teve

127
a arte shakespeariana de relacion-los e confront-los em intrigas, cenas e

dilogos, aliando assim  largueza da epopeia a tenso do drama e a anlise do 
romance. Esta compreenso da vida psicolgica e o senso da realidade que lhe anda 
associado pressupem a mentalidade que observamos ao estudar a viso histrica de 
Ferno Lopes. Todos os figurantes da histria aparecem nele reduzidos  mesma 
humanidade comum, pouco importando a sua

jerarquia social  luz justiceira com que lhes alumia os recessos ntimos.

D. Fernando, D. Joo so-nos apresentados como homens comuns sujeitos a vilezas, 
indecises, paixes ou pusilanimidades. D. Pedro 1  um carcter

fora do vulgar, mas o narrador confere-lhe a representao sublimada e

atraente do heri passional popular.

Ora estes caracteres e estes enredos pessoais so parte de um todo em

que ocupam no menor lugar as personagens colectivas: Ferno Lopes sente-se decerto 
solicitado pela santidade de Nuno lvares, ou pelos violentos impulsos de Leonor 
Teles, mas no o tocam menos as ansiedades da populao de Lisboa, e a sua indomvel 
coragem multitudinria. Os *moradores da cidade+, os *povos do reino+, a *arraia-
mida+, so para ele entidades to reais como

os comparsas da sua comdia humana. O gnero narrativo oferece aqui possibilidades 
que mal caberiam ao teatro de Shakespeare. As narrativas da insurreiao de Lisboa, 
dos assaltos dos camponeses aos castelos, da ansiedade da gente da Cidade, suspensa 
do combate naval no Tejo, dos levantes de alvoroo ocorridos em Lisboa enquanto em 
Aljubarrota os guerreiros quebram lanas, so pginas em que Ferno Lopes procura 
comunicar-nos uma

vibrao gregria cuja vontade se exprime em ditos de personagens annimos. E o 
estilo do cronista assume um tom de ternura filial para falar dessa grande entidade 
de contornos indefinidos, mas animada de deciso e conscincia, me e ama que 
alimenta ao peito a resistncia do Reino. Numa tentativa para dar figura e rosto a 
esta fora que ele sente de maneira to pessoal, Ferno Lopes imagina uma prosopopeia 
em que a cidade de Lisboa, como principal personagem da resistncia, aparece a 
dialogar com o Autor.

Como se v, a matria que Ferno Lopes tem para transmitir ao leitor  densa e vasta, 
na humanidade amplamente compreensiva que a anima toda, na finura e diversidade das 
personagens, na percepo da vida colectiva, no

colorido e vivacidade dos aspectos do mundo exterior que o interessavam, e at na sua 
concepo multifacetada da vida social. Ferno Lopes necessi-

128
tava de criar formas de expresso em que se consumassem tais foras da sua obra, mais 
prxima do que se tem julgado do antropocentrismo que caracteriza o Quattrocento 
italiano.

FERNO LOPES: O estilo e a composio das Crnicas

Havia antes dele, como vimos, a prosa do romance de cavalaria, que, trabalhada em 
sucessivas verses e refundies, se apurara, ganhando uma

forma cada vez mais polida e amaneirada. Havia as prosificaes dos cantares de 
gesta, numa lngua mais rude e mais familiar, com grande emprego do dilogo e dos 
modismos orais, como no conto popular. Havia o sermo, que assimilava o estilo 
bblico ou evanglico, a retrica antiga que os Doutores da Igreja adaptaram. Na 
poca de Ferno Lopes traduziam-se, como

vimos, os Evangelhos cannicos, recopiavam-se a Demanda do Graal e os

outros romances do mesmo ciclo, e refundiam-se, literariamente, tradies como a de 
D. Afonso Henriques, registada na Crnica Geral de 1344. Ao

mesmo tempo, davam-se os primeiros passos para a assimilao do estilo clssico 
latino e da lngua abstracta dos escolsticos, atravs de tradues e imitaes que 
mencionmos.

Ferno Lopes assimila toda esta herana. Recebe do romance de cavalaria a arte de 
contar e talvez certa elegncia no corte da frase, mas temperando-lhe o amaneiramento 
com a simplicidade familiar e directa da tradio pica e enriquecendo-a com um 
vocabulrio e imagens muito variados e flagrantes. Recebe tambm o flego oratrio, a 
frase larga e redonda dos pregadores, a solenidade do estilo bblico e a 
familiaridade do estilo evanglico, processos e tons que sabe empregar a propsito, 
com mudanas de registo estilstico. Estes afluentes aparecem harmoniosamente 
integrados numa prosa muito correntia onde nunca se deixa de sentir a voz do autor, 
que parece falar a um auditrio, despert-lo com exclamaes, com perguntas, com 
apelos  imaginao e  simpatia. Sob este aspecto de prosa recitada, Ferno Lopes  
o ltimo grande representante da arte literria medieval, destinada mais  recitao 
em pblico do que  leitura privada.

E esta tradio, assimilada numa sntese equilibrada, enriqueceu-a Ferno Lopes com a 
sua prpria contribuio: a vibrao humana que faz viver cada uma das suas pginas 
com certa robustez mscula e popular, to dife-

129
rente do comedimento corteso; um ardor polmico que ora ressoa numa

clera poderosa, ora numa ironia risonha; a forte visualidade, que o leva a muitas 
comparaes inditas. Tudo isto d a esta prosa uma feio individualizada. Ferno 
Lopes , em data, o primeiro prosador portugus de quem se pode dizer que o estilo 
identifica o homem, porque antes dele a prosa no passava de uma terra-de-ningum, 
transmitida de verso para verso, cerzida de frmulas estereotipadas.

A originalidade de Ferno Lopes revela-se muito particulannente na composio das 
crnicas. No seguiu a simples ordem cronolgica dos acontecimentos, antes procurou 
ordenar a matria variada que constitui a sua viso histrica em grandes conjuntos 
animados. Por este lado as crnicas merecem ser analisadas no apenas como narrativa 
de dados objectivos estranhos ao autor, mas como produo romanesca ou pica.

Se as compararmos com os romances de cavalaria, que serviram de modelo narrativo, por 
exemplo, a Froissart ou a Zurara, damo-nos conta de uma

diferena essencial. O autor romanesco medieval ordena a sua matria como uma 
sequncia de episdios individuais num plano nico. Falta-lhes o sentido dos diversos 
planos do espao, bem como o dos ambientes e o dos agrupamentos das figuras. Essas 
narrativas so comparveis aos baixos-relevos serialmente historiados das catedrais, 
em contraste com a composio pictural que, a partir de Giotto, ordena as figuras  
volta de pontos fulcrais, as envolve em ambientes (de interior, urbanos ou 
paisagsticos), e descobre pouco a pouco a profundidade do espao. A narrativa de 
Ferno Lopes no cabe naquele gnero de plana sequncia romanesca; oferece-nos os 
planos mltiplos da realidade social, ordenando, em conjuntos complexos, massas

e indivduos; desenha em segundo plano processos annimos, sobre os quais avultam as 
figuras e os episdios de que trata em pormenor. As intrigas palacianas, as batalhas, 
os cercos, inserem-se num contexto social ora compacto, ora difuso, que so as falas 
dos povos do Reino, os levantamentos das vilas contra os castelos, a *voz de grande 
espanto+ que se ouve em Portugal inteiro quando o rei de Castela atravessa a 
fronteira.

Por outro lado, as sries de acontecimentos convergem para pontos nodais, que 
constituem como que interseces de muitas linhas. Cada episdio aparece, assim, 
situado no entrelaado de acontecimentos antecedentes e consequentes, em que 
participam diversas camadas sociais em toda a extenso

130
geogrfica do Pas. Em torno do cerco de Lisboa, por exemplo, ordenou Ferno Lopes os 
levantamentos locais, a entrega dos castelos ao rei de Castela em marcha para a 
cidade, as intrigas que ocorrem entre ele e Leonor

Teles, as diversas aventuras dependentes da frota destinada a levantar o cerco do 
Tejo, a campanha de Nuno lvares Pereira no Alentejo, etc., etc. O cerco

de Lisboa, constantemente evocado como acontecimento que se prepara ou como aco em 
curso,  o ponto nevrlgico de cujo destino depende o enlace

ou desenlace das malhas que em torno dele se entretecem, estando, por sua

vez, ele prprio dependente do entretecer daquelas. Assim, Ferno Lopes soube dar um 
sentido e encontrar uma unidade de aco para todas as cadeias

de acontecimentos.

Encarregado de historiar a monarquia portuguesa, sobretudo em vista

do advento da dinastia de Avis, Ferno Lopes colocou-se dentro de uma perspectiva 
alis facilitada pela rarefaco e a incerteza que, em geral, vo crescendo  medida 
que se recua no passado. E, assim, as crnicas indubitavelmente ferno-lopinas de D. 
Pedro, D. Fernando e D. Joo constituem, de facto, um todo. O seu centro de gravidade 
reside na eniaranhada guerra em que a nova dinastia se consolida. As duas primeiras 
no passam, em suas menores propores, de um acesso ao drama central; a funo delas 
consiste em ilustrar narrativamente (e com o encanto das evoca es de um artista) 
aquelas razes com que o Dr. Joo das Regras advogou a candidatura do Mestre ao trono 
portugus. A Crnica de D. Pedro  como um prlogo: parece mero desenvolvimento 
actualizado da Crnica Geral de Espanha, pois a histria paralela de Pedro, o Cru, de 
Castela e seu meio-irmo inimigo e sucessor, Henrique de Trastmara (extractada do 
cronista Lopez de Ayala), ocupa cerca de metade dos seus cap tulos, A Crnica de D. 
Fernando, j mais longa e especificamente nacional, dir-se-ia um primeiro acto, 
preparatrio do drama central.

Assim, e excluindo o caso ainda controvertido da Crnica de 1419, onde tambm D. 
Afonso Henriques, como fundador do Reino, merece um desenvolvimento excepcional 
(alis facilitado pelo acmulo de relatos nas crnicas trecentistas), Ferno Lopes , 
por excelncia, o cronista de uma re-fundao do Reino. Cabe-lhe, por encargo, 
exaltar a brilhante ascenso de alguns patriticos nobres, antes obscuros ou 
segundognitos, como D. Nuno, e uma no menos patritica alta burguesia recm-
brasonada (que ir reagru-

131
par-se e cerrar fileiras, junto  nobreza fiel e  amnistiada em 1411). Mas a sua 
poca bem lhe fez sentir a importncia da adeso ao Mestre por parte de toda a 
capital, do Porto e, em suma, da maioria dos Portugueses. E, assim, embora sejam 
bvias, nessa perspectiva, as linhas dialcticas e retricas de uma apologia 
dinstica, a que nem mesmo falta a sano sobrenatural de vrios pressgios e 
milagres, como no falta a cruzada contra os hereges castelhanos (partidrios do 
antipapa de Avinho) - o que mais palpita no

corao popular do cronista  a epopeia de uma revoluo vitoriosa, que impe um novo 
rei, os heris vilos (ou, heterogeneamente, vilos-cavaleiros) de uma Stima Idade, 
e privilgios acrescidos para os homens-bons rurais

e a gente dos mesteres.

FERNO LOPES: As Crnicas como epopeia

Este gnero de ordenao, se por um lado constitui um progresso em relao  
narrativa romanesca medieval, por outro faz pensar num gnero literrio que  muito 
anterior a este tipo de narrativa. A mesma combina o de feitos individuais e de 
movimentos de massas, a mesma unidade de aco onde convergem acontecimentos 
mltiplos para um desfecho, a mesma ordenao de grandes sries de episdios, 
encontramo-las nas epopeias, nomeadamente nos poemas homricos e na Chanson de 
Roland. H outros aspectos por onde as crnicas de Ferno Lopes se aproximam das 
epopeias, sendo um deles a identificao do poeta com uma colectividade em que se d 
a

encarnao do Bem (alguns diriam: da razo histrica), e  qual est prometido, de 
forma irreversvel, o destino vitorioso. A colectividade com que Ferno Lopes se 
identifica , conforme o ponto de vista, a gente mida que triunfa sobre os seus 
opressores (isto , os senhores feudais), ou a nao portuguesa que repele os 
Castelhanos. Trata-se, de facto, da mesma entidade, visto que, segundo as Crnicas,  
no povo mido que se encontra a

genuinidade nacional, o *amor da terra+, e os fidalgos *desnaturados+ se comprometem 
com Castela.

Esta comunho do autor num grupo tnico (que  simultaneamente um

grupo social), num destino e numa razo histrica,  o que faz das Crnicas, mais do 
que um simples relato cronstico, mais do que uma simples histria romanesca (por 
muito complexa que seja), um autntico poema - algo

132
em que se traduz o sentimento de uma totalidade significativa.  ela que lhe d o 
optimismo manente em que os acontecimentos mais cruis (COMO a morte do arcebispo de 
Lisboa) se justificam globalmente, como efemrides de um processo necessrio e justo 
pela finalidade.  ela tambm que d ao autor a convico de ser objectivo. O autor 
pico sente-se realista, naturalmente, sem perplexidades nem hesitaes, pelo simples 
facto de que a colectividade com que ele se identifica  portadora da razo. Para ele 
no h duplicidade entre o subjectivo e o objectivo.

Nisto consiste a estatura de Ferno Lopes e a fora que impulsiona a

extraordinria criao que so as suas Crnicas. Nele, mais do que em

Cames, pode dizer-se que encontramos na sua forma mais consumada e viva a epopeia 
nacional portuguesa, que j vimos esboar-se nas tradies picas afonsinas. Em 
comparao com estas crnicas, Os Lusadas aparecem-nos como uma epopeia pstuma, 
inspirada pelo sentimento de uma decepo que quer resgatar -se, e vibrando de 
inquietaes acerca do destino nacional, social e humano.

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1. Textos

Crnica de D. Pedro. A 1. 3 ed., acrescentada,  de 1735, pelo P. Joseph Pereira 
Baio. As ed. actualmente mais acessveis so a de Barcelos, 1932, e a do Porto, 
1964, ambas dirgidas e prefaciadas por Damio Peres (a ltima reproduz o manuscrito 
quinhentista do Arquivo Nacional), e a de *Clssicos do Povo+, org. e pref. por A. 
Borges Coelho, 1967, baseada na ed. da Academia das Cincias, in *Coleco de 
Inditos+, 1790, reed. em 1925. Sobre esta se baseia tambm o texto da *Biblioteca de 
Clssicos Portuqueses+, Lisboa, 1895. Ed. crtica, segundo os trs manuscritos do 
sc. XV e outros, por Giuliano Macchi, Edizioni dell'Atheneo, Roma, 1966.

Crnica de D. Fernando. A 1. > ed.  de F. M. Arago Morato, in * Inditos de 
Histria Portuguesa+, Lisboa, 1916. Ed. acessvel por Damio Peres, 2 tomos, 
Barcelos, 1933-35. Tambm ed. na *Biblioteca de Clssicos Portugueses+, 3 tomos 
(1895-96). Reed. segundo o texto da 1. a ed. na *Biblioteca Histrica - Srie Rgia+, 
Porto, 1966. Ed.

             133
crtica por Giuliano Macchi, IN-CM, 1975; ed. bilingue (portugus e francs) do texto 
estabelecido por G. Macchi em Paris, ditions du Centre National de Recherches 
Scientifiques, 1985. Verso modernizada da anterior com pref. e notas de A. Borges 
Coelho, ed. Horizonte, 1977.

Crnica de D. Joo 1. A 1. > ed.  de Lisboa, 1644. Ed. diplomtica da 1       parte 
por Anselmo Braameamp Freire, Lisboa, 1945, reimpressa em fac-smile, IN-CM, 1973, 
com introd. de L. F. Linciley Cintra. Ed. diplomtica da 2. > parte por William J. 
Entwistle, Lisboa, Imprensa Nacional, 1968. H tambm ed. da *Biblioteca de Clssicos 
Portugueses+, em 2 tomos, Lisboa, 1897-98. 1. > parte com texto actualizado, introd. 
e notas por Jos Hermano Saraiva, sob o ttulo Histria de Uma Revoluo, Lisboa, 
1977.

Atribudas a Ferno Lopes: Crnicas de 5 reis de Portugal, ed. diplomtica com 
prlogo de Magalhes Basto, vol. 1, Porto, 1945. Entre outros importantes apndices, 
contm textos da Crnica Geral de Espanha de 1344, da de D. Afonso Henriques (cdice 
aic. 290, provvel original ms. da Crnica de Duarte Galvo), e o Resumo das crnicas 
dos reis de O. Sancho 1 a D. Afonso V, aproveitados e em parte transcritos por 
Cristvo Rodrigues Acenheiro, cd. 111/2-12 da Biblioteca Pblica e Arquivo 
Distrital de vora.

Crnica de D. Dinis (texto indito da Casa Cadaval), ed. diplomtica com pref. por 
Carios da Silva Tarouca, S. J., Coimbra, 1974.

Crnica dos Sete Reis de Portugal, ed. crtica por Carios da Silva Tarouca, S. J.
1952-53, 3 vols., 2 de texto e 1 de glossrio e ndice onomstico.

2. Antologias e extractos

Campos, Agostinho de: Antologia Portuguesa, 3 vols., 1921-22. Quadros @ Crnica de 
D. Joo 1, selec., pref. e notas de Rodrigues Lapa na col. *Textos Literrios+, 3. a 
ed., *Clssicos do Estudante+, 1976.

Crnica de D. Joo / de Ferno Lopes, col. *Textos Literrios+, apres., selec. e 
notas de Teresa Amaro, 1980.

Crnica de D. Pedro 1 e Crnica de D. Fernando, na col. *Clssicos Portugueses+ (2. > 
ed. corr.), com introd., selec. e notas de Torquato de Sousa Soares.

Ferno Lopes, na col. *Saber+, 2. > ed. rev. por A. J. Saraiva, que tambm condensou 
e actualizou as trs crnicas em As Crnicas de Ferno Lopes, Lisboa, 1960Oliveira, 
Corra de/Machado, Saavedra: Textos Medievais Portugueses, Coimbra Editora, 5. > ed., 
1974.

3. Estudos

Herculano, Alexandre: Ferno Lopes, in Opsculos, t. S.

Peres, Damio: introd.  sua ed. da Crnica de D. Pedro 1.

134
Cidade, Hernni: Lices de Literatura e Cultura Portuguesa, 7. > ed., 1. > vol., 
Coimbra, 1984.

Lapa, Rodrigues: Lies de Literatura Portuguesa, 10. > ed., rev. e aum., Coimbra,
198 1, Cap. X. Contm extensa bibliografia crtica.

Saraiva, Antnio Jos: Ferno Lopes (2. a ed. refundida), Lisboa, 1965 (col. 
*Saber+). Contm bibliografia. O Crepsculo da Idade Mdia em Portugal, Gradiva, 
1988, reimp. aum. 1990, pp. 166-215.

Cintra, Lus F. Lindley: Ntula sobre os manuscritos das obras de Ferno Lopes, in 
*Colquio+, n. 1 29, Junho de 1964, resumo dos problemas a resolver por uma ed. cri  
      ,tica da obra de Ferno Lopes, que ainda no existe, apesar (ou por causa) da 
existncia de numerosos manuscritos, alguns deles do meio sculo posterior  sua 
morte, o que alis revela a repercusso da obra; recenso a A Tese de Damio de Gis 
em favor de Ferno Lopes, de Magalhes Basto, in *Revista da Faculdade de Letras de 
Lisboa+, 17,
1951; e Sobre o cd. 290 (ant. 316) da Biblioteca Nacional de Lisboa, in *Boletim de 
Filologia+, t. 23 (1947), pp. 255-275. (Mostra ser plausvel que se trate do ms. 
original da Crnica de Afonso Henriques de Duarte Galvo, a quem tambm atribui os 
Sumrios das crnicas de D. Sancho 1 e D. Joo 11 depois aproveitados, com o 
acrescento de *lembranas+ pessoais sobre D. Manuel e D. Joo lii, por C. R. 
Acenheiro nas Crnicas dos Senhores Reis de Portugal, 1535, e por Rui de Pina - o que 
tudo faz avultar o trabalho de ordenao e redaco executado por Duarte Galvo no 
conjunto da Crnica Geral do Reino, levada a cabo pela srie de cronistas-mores do 
Reino e seus resumidores.)

Beau, Aibin E.: Estudos, 1, *Acta Universitatis Conimbrigensis+, Coimbra, 1959. 
Basto, Artur de Magalhes: Estudos (Cronistas e Crnicas Antigas. Ferno Lopes e a 
Crnica de 1419), 1960, *Acta Universitatis Conimbrigensis+.

Macchi, Giuliano: Bibliografia de Ferno Lopes, in *Cultura Neolatina+, 24, 1964. 
Contribuio fundamental para qualquer estudo actualizado. (H outros trabalhos sobre 
assuntos afins nos nmeros 23 e 24 da mesma revista.)

Uma importante anlise estilstica de Ferno Lopes pode ler-se em Nemsio, Vitorino: 
Alguns aspectos da prosa medieval, in *0 lnstituto+, vols. 80-82, 1930-3 1. Ver ainda 
Chaves, Maria Adelaide Godinho Arala: Representao da Paisagem e Formas do 
Pensamento em Portugal no sculo XV, Lisboa, 1970, o nico livro metodologicamente 
actualizado sobre o assunto que se prope; Atkinson, Dorothy M.: O Estilo Narrativo 
de Ferno Lopes, in *Ocidente+, 62, 1962; e Martins, Mrio: Alegorias, Smbolos e 
Exemplos Morais da Literatura Portuguesa Medieval, Lisboa, 1975.

Coelho, Antnio Borges: Para a anlise da filosofia poltica de Ferno Lopes, in 
*Seara Nova+, n. 1455, Jan. 1967; A Revoluo de 1383, S. a ed. corr. e aum., 
Caminho, Lisboa, 1984.

Serro, Joaquim Verssimo: A Historiografia Portuguesa, 1 (sculos X11-XVI), Lisboa,
1972.

Sobre a idealizao do Condestvel ver Gerli, Michael E.: Nunlvares and the *topos+ 
of the seven virtues in the *Crnica, de D. Joo /+, in * Romance Notes+, Univ. of 
North Carolina, v. 14 (1972-73), pp. 203-206; e ainda Passos, M. L. Perrone Faro: O 
Heri na *Crnica de D. Joo /+ de Ferno Lopes, Lisboa, Prelo Editora, 1974.

          135
Ver tambm a introduo  ed. da 1. > parte da Crnica de D. Joo 1, 1977, por Jos 
Hermano Saraiva.

Rebelo, Lus de Sousa: A Concepo do Poder em Ferno Lopes, Horizonte, Lisboa,
1983.

Monteiro, Joo Gouveia: Femo Lopes, Texto e Contexto, Minerva, Coimbra, 1988; Ferno 
Lopes e os Cronistas Coevos. O Caso da *Crnca do Condestabre+, in *Biblos+, vol. 
11, 1989, pp. 37-61.

Quanto  estratgia e condies locais de Aljubarrota, ver Veiga, A. B. da 
Costa/Matos, G. de Melo/Pao, Afonso do: Aljubarrota. Trabalhos em execuo de 
arqueologia militar, Lisboa, 1959; e Howorth, A. H. de Arajo Stott: A Batalha de 
Aljubarrota (Dvidas, certezas e probabilidade militar inerente), Lisboa, 1960. 
(Discutem a adequao do relato de Ferno Lopes.)

Captulo IV

20 POCA: OUTROS CRONISTAS

GOMES EANES DE ZURARA

O cargo de cronista oficial da Corte mantm-se aps o termo da actividade literria 
de Ferno Lopes. Alguns anos antes do falecimento deste, Gomes Eanes de Zurara (c. 
1420-1473/74) concluiu (1450) a Crnica de D. Joo I

(3.1 parte), tambm intitulada Crnica da Tomada de Cuta. A orientao e a 
mentalidade do novo cronista afastam-se muito das do seu antecessor.

O velho cronista (que alis ainda mantinha, pelo menos no ttulo, o cargo de 
cronista-mor da Torre do Tombo) dir-se-ia afastado como representante de uma poca 
que se procurava fazer esquecer.

Gomes Eanes de Zurara, ou de Azurara, nascido  roda de 1420, filho de um cnego, 
foi, segundo diz, instrudo por D. Afonso V, o que no passa talvez dum exagero 
lisonjeiro, porquanto era bastante mais velho do que este rei, que tinha dezoito anos 
quando Zurara publicou a sua primeira crnica. No entanto, a sua cultura formou-se, 
de facto, em idade madura, e algo dever a esse rei j educado no Humanismo. 
Cavaleiro da Ordem

de Cristo (que parece ter favorecido com um documento notarial falsificado), era, por 
essa via, dependente do infante D. Henrique, que o gratificou entre 1451 e 1454 com

duas comendas dessa Ordem. Por duas vezes se deslocou zelosamente a Marrocos a fim de 
se documentar sobre as campanhas de D. Duarte de Meneses.

Alm da terceira parte da Crnica de D. Joo I, em que aproveitou possivelmente um 
texto j parcialmente escrito de Ferno Lopes, Zurara comps crnicas de grandes 
personagens da nobreza, escritas a pedido ou em ateno a casas senhoriais. Tais so 
a Crnica dos Feitos da Guin, feitos que o autor endossa ao infante D. Henrique 
(sendo

138
por isso essa crnica, simultaneamente, um panegrico daquele infante, alis j em 
tal sentido encomendado pelo monarca); a Crnica do Conde D. Pedro de Meneses, 
primeiro capito de Ceuta, escrita a pedido da duquesa de Bragana, sua filha; a 
Crnica de D. Duarte de Meneses, filho do anterior, com o texto muito truncado, 
sobretudo no

que se refere  poca que medeia entre o fim da regncia do infante D. Pedro e o 
acesso

de Afonso V ao trono; e talvez a Crnica de D. Fernando, conde de Vila Real, hoje 
desaparecida. Esta simples enumerao das obras do segundo cronista-mor do Reino 
evidencia as tendncias descentralizadoras, a ideologia aristocrtica de cruzada 
antimuulmana do reinado de D. Afonso V. Continua mais o esprito dos Livros das 
Linhagens que a

orientao dada por Ferno Lopes  Crnica Geral do Reino. Por outro lado assinala 
uma certa secundarizao desta Crnica Geral do Reino a favor da gesta ultramarina, 
fenmeno que na segunda metade do sculo XVI se evidenciar mais claramente.

Com efeito, Zurara desenvolve nos seus prlogos a teoria de que a finalidade das 
crnicas  perpetuar a glria dos que praticaram grandes feitos, de modo que eles ou 
os seus descendentes recebam, por esses feitos, as merecidas recompensas rgias. Por 
isso d o mximo relevo aos feitos cavaleirescos individuais, minimizando a aco da 
gente mida, pela qual explicitamente manifesta desdm. Refere-se quase apenas a 
actos palacianos, a feitos de guerra ou de explorao e corso litoral, cujos 
principais protagonistas eram os cavaleiros (nobres). A sua viso histrica deixa de 
fora, em contraste com Ferno Lopes, a quase totalidade da realidade nacional. Assim, 
o que deveria ser a 3. a parte da Crnica de D. Joo I transforma-se, como vimos, na 
glorificao de uma campanha blica dos filhos do rei. Esta unilateralidade deu lugar 
a deformaes de perspectiva, como a que consistiu em ver no infante D. Henrique, seu 
protector, a causa nica dos Descobrimentos, deixando na sombra outras personagens 
individuais ou institucionais, circunstncias, antecedentes e motivaes que 
certamente contriburam para a grande empresa. Com esta concepo se deve relacionar 
o mtodo de informao utilizado e encarecido por Zurara, que  o de atender 
sobretudo aos depoimentos orais das pessoas socialmente mais qualificadas, em 
especial o prprio Infante. A estadia que fez em Marrocos, no desempenho das suas 
funes, e pela qual foi elogiado e galardoado por D. Afonso V, obedece a um 
propsito de objectividade, em reaco a reparos feitos  Crnca de D. Pedro de 
Meneses, mas tal objectividade diz apenas respeito a

verses opostas de vrias casas senhoriais rivais. Para o relato das exploraes 
martimas baseou-se, segundo declara, numa crnica anterior, de Afonso Cerveira, hoje 
perdida.

139
A guerra em Marrocos, comeada com a tomada de Ceuta em 1415 e que se torna, no 
reinado de D. Afonso V, a principal ocupao da corte e

da nobreza, deu lugar a grandes controvrsias em que no foi esquecido o

problema da sua legitin-dade. Competia a Zurara, cronista da corte, justific-la 
como cruzada antimuulmana, de acordo com o esforo diplomtico que de facto, a 
partir de D. Duarte (1436), obteve sucessivas bulas com indulgncias e, desde 1455, 
assegurando a exclusividade da explorao do litoral africano desde o cabo No *at 
s ndias+ (plausivelmente, o lendrio reino do Preste Joo). Esta justificao 
abrange o comrcio de escravos, a cujo incio, em Lagos, Zurara consagra algumas 
pginas comovidas da Crnica dos Feitos da Guin, que o no impedem de concluir que 
por esse meio as almas dos gentios viriam a salvar-se.

Das quatro crnicas conhecidas, a mais interessante  a primeira, a da

Tomada de Ceuta (1450), em que assistimos s discusses em conselho e ao trabalho dos 
mesteirais e mercadores que armavam os barcos e reuniam as provises nas margens do 
Tejo. Algumas pginas mais vivas desta parte da obra, pelo poder de evocao 
pormenorizada e pela amplido da perspectiva social, fazem suspeitar que o autor  
Ferno Lopes. Esta qualidade falta nas restantes crnicas. Na dos Feitos da Guin 
(1453), a retrica panegrica alterna com um cerzido mal datado, por vezes mal 
arrumado e omisso

de episdios de corso contra mouros ou gentios em geral mal armados, mas

correndo riscos reais e com toques frequentes de vivacidade testemunhal e

at de uma contraditria simpatia humana - defeitos e qualidades que no encontramos 
no relato quase paralelo, mais objectivo e metdico, de Cadamosto, mercador 
veneziano. Nas duas crnicas consagradas aos Meneses (D. Pedro, 1463; D. Duarte, 
1468), a acumulao de episdios de combate, narrados com a mincia de um contador de 
histrias de caa, todas diferentes e todas iguais, e sem preciso cronolgica, chega 
a ser fatigante. Notamos que, como bom apreciador de cavalarias, Zurara no omite 
inteiramente as do inimigo, nem alguma simpatia ocasional pelos pobres camponeses 
espoliados, embora sobressaia mais a justificao da cruzada com frequentes notas 
sobre a pretensa crueza e perfdia islarnitas.

O estilo de Zurara est de acordo com as preocupaes de vida requintada da corte de 
D. Afonso V, que, a exemplo da corte dos duques de Bor~ gonha, se adornava j com as 
primeiras influncias culturais da antiguidade

140
greco-latina.  recheado de hiprboles, de citaes dos autores antigos, de aluses  
mitologia e  histria antiga, deixando ouvir a cada passo a exaltao dos *bares 
assinalados+, que Joo de Barros e Lus de Cames, no sculo XVI, sabero fazer de 
maneira mais requintada. Na preocupao de acumu~

lar adornos e figuras de estilo antecipa-se  arte barroca, como alis toda a escola 
flamenga dos Grands Rhtoriqueurs. Prefere a frase longa, com largo uso da 
subordinao conjuncional ou pronominal relativa, e sob este aspecto pertence a uma 
fase nova da arte literria, comparado com Ferno Lopes: a fase, j assinalada por D. 
Pedro e D. Duarte, em que a expresso escrita predomina sobre a expresso oral.

RUI DE PINA

O terceiro cronista-mor do Reino foi Rui de Pina (1440-1522), natural da Guarda, 
oriundo da pequena nobreza, secretrio de D. Joo 11, agente diplomtico deste rei e 
de D. Manuel. Deixou uma obra extensa: as cr nicas dos reis de Portugal de D. Sancho 
a D. Afonso IV, que, embora separadas, constituem um conjunto; as crnicas de D. 
Duarte, D. Afonso V e D. Joo 11.

Destas obras, a mais pessoal, ou seja aquela em que Pina se baseou no seu 
conhecimento directo dos factos ou em documentos oficiais,  a Crnica de D. Joo 11. 
O autor apresenta os acontecimentos segundo a verso oficial que este rei quis impor 
aos seus contemporneos. A personalidade do *Prncipe Perfeito+ domina inteiramente a 
obra como domina a corte, enche quase completamente o campo de viso do cronista. As 
poucas pginas comovidas e literariamente interessantes do livro so inspiradas pela 
morte do prncipe D. Afonso e pele doena final do rei: h nelas uma sobriedade por 
vezes

eloquente. Mas em geral o estilo  a expresso discreta do ponto de vista oficial 
monrquico. Os captulos consagrados  viagem ao Congo so a acta

das declaraes do prprio navegador, Diogo Co.

Garcia de Resende escreveu uma verso mais testemunhal e anedtica desta Crnica de 
D. Joo II, publicada em 1545 juntamente com uma Miscelnea em verso, 
estilisticamente muito desprendida, que d conta dos grandes acontecimentos europeus 
e portugueses do seu tempo, nomeadamente aqueles que se relacionam com o 
reconhecimento martimo de outras civilizaes, suas riquezas e estranhos costumes, e 
com as repercusses sociais do comrcio transocenico.

141
As crnicas de D. Duarte e de Afonso V tm certamente menos originalidade, mas 
extremo inter1esse. Ambas expem dos acontecimentos uma verso que , no conjunto, 
desfavorvel ao infante D. Henrique e encomistica para o regente D. Pedro. A 
primeira, que atribui a D. Henrique as culpas do desastre de Tnger,  um precioso 
documento sobre a crise moral e ideolgica da nobreza dirigente no final do reinado 
de D. Duarte. Damio de Gis supe que Pina compilou nesta obra escritos de Ferno 
Lopes e de Zurara. Quanto  Crnica de D. Afonso V, pode dividir-se em duas partes 
que so, na realidade, duas crnicas: a da regncia, ou seja a de D. Pedro, e a do 
governo de D. Afonso V. Na primeira contam-se as lutas entre o regente e a nobreza, a 
insurreio popular de Lisboa e outras cidades, numa perspectiva muito semelhante  
de Ferno Lopes, enibora. em estilo discreto, quase oficioso. Na segunda, alm da 
narrativa das guerras de frica, no estilo de Zurara, e da campanha de Toro, 
encontramos um relato da ida de Afonso V a Frana, e sua entrevista com Lus XI, que 
 admirvel sob o ponto de vista psicolgico. Os galicismos que aparecem nestes 
captulos da obra fazem supor que Pina aproveitou um escrito deixado por um portugus 
que esteve em Frana com D. Afonso V.

Quanto s crnicas de D. Sancho a D. Afonso IV, so, como vimos, adaptaes da 
Crnica de 1419, embora com alteraes sensveis. Pina deixou de lado a crnica de D. 
Afonso Henriques, cuja redaco D. Manuel confiou a Duarte Galvo, que parece ter em 
grande parte preparado as referidas adaptaes. No esqueamos ainda que a verso 
trecentista portuguesa da Crnica Geral de Espanha se estendeu, graas a redactor no 
identificado, at ao ano de 1455.

A historiografia senhorial

J nos Livros das Linhagens se manifesta o interesse das grandes casas senhoriais 
pela historiografia, nomeadamente dos Pereiras. Esse interesse aumenta e a respectiva 
ideologia desenvolve-se e sistematiza-se com o advento da dinastia de Avis e as lutas 
sociais que se lhe seguiram.

Mais que cronista do reino, Zurara  o cronista do infante D. Henrique, no s na 
Crnica dos Feitos da Guin, mas tambm na da Tomada de Ceuta. Depois disso ser o 
cronista dos Meneses, D. Pedro e D. Duarte.

Por ordem do mesmo infante D. Henrique, Frei Joo lvares, que acompanhara no seu 
cativeiro o infante D. Fernando, escreveu entre 1451 e 1460

142
a pattica crnica deste ltimo, com uma mincia biogrfica que testemunha a 
convivncia ntima entre o autor e o frgil e martirizado protagonista. Ressalta o 
propsito de exaltar o Infante como mrtir da f e da cruzada contra os Mouros. Na 
parte referente aos preparativos da desastrada expedio de Tnger, a crnica de Frei 
Joo lvares procura ilibar de responsabilidades o infante D. Henrique, endossando-as 
ao rei D. Duarte, o que est em desacordo com a documentao hoje conhecida.

Em sentido contrrio, houve uma literatura histrica favorvel ao infante D. Pedro, 
que as obras de Rui de Pina nos deixam claramente entrever.

Possivelmente relaciona-se com a Casa de Bragana, que entronca no casamento entre a 
filha de Nuno lvares Pereira e o bastardo de D. Joo 1, D. Afonso, a redaco da 
Crnica do Condestabre de Portugal entre 1431 (data da morte do biografado) e de 1433 
(data da morte de D. Joo 1, ltimo captulo). A comparao entre esta crnica e os 
captulos de Ferno Lopes relativos a Nuno lvares sugere que tanto este como o 
redactor daquela utilizaram uma fonte comum, porquanto certos passos da Crnica do 
Condestabre parecem resumos dos de Ferno Lopes e com outros se d o contrrio. A 
tese de que Ferno Lopes seria o autor da Crnica do Condestabre est definitivamente 
prejudicada, porque, alm de outras razes, Ferno Lopes ataca duramente certa verso 
contida nesta Crnica. O Nuno lvares que nos apresenta a Crnica do Condestabre 
diverge um pouco do que nos apresenta Ferno Lopes: este ltimo figura mais 
idealizado e transfigurado pela lenda; aquele aparece-nos sujeito a fraquezas e 
crises que Ferno Lopes omitiu e que o fazem mais verosmil. Por outro lado, a 
Crnica do Condestabre tem um carcter menos polmico que as de Ferno Lopes e relata 
certos desaires dos Portugueses durante a guerra com Castela omitidos ou desmentidos 
por Ferno Lopes. A Crnica do Condestabre, notvel pelo seu realismo sbrio e pelos 
pormenores psicolgicos do heri, deve talvez considerar-se como o ltimo vestgio da 
tradio cronstica portuguesa que vem desaguar em Ferno Lopes. Entwistle atribui a 
sua autoria a Gil Aires, escrivo da puridade do Condestvel.

Entre os autores de ernicas perdidas, h um Afonso Cerveira que foi assassinado por 
um vassalo do infante D. Henrique e cuja narrativa dos Descobrimentos teria sido, 
entre outras, aproveitada por Zurara.

Entre os manuscritos de matria historiogrfica contam-se a Crnica da Ordem dos 
Frades Menores, cheia de ingnuos recontos hagiogrficos sobre matria do sculo X111

          143
(1209-85), traduzida de um original latino por fins do sculo XIV, editada com 
introduo, notas, glossrio e ndice onomstico por J. J. Nunes, Lisboa, 1918; a 
sumria Crni.ca Breve do Arquivo Nacional, datada de 1429, e editada por Herculano 
in Scriptores, Portugalix Monumenta Historica; e a chamada II Crnica de Santa Cruz 
de Coimbra, posterior a 145 1.

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1. Textos

Gomes Eanes dezurara: Crnica da Tomada de Ceuta (ou 3. > parte da Crnica de D. Joo 
1); a 1. > ed.  de Lisboa, 1644. Ed. diplomtica com introd. por Esteves Pereira, 
Lisboa, 1916. Ed. da *Biblioteca de Clssicos Portugueses+, 1899-1900, por Luciano 
Cordeiro e Meio de Azevedo.

O humanista Mateus Pisano, preceptor de D. Afonso V, redigiu em latim uma verso 
desta crnica por incumbncia do mesmo rei: De Bello Septensi, ed. por Correia da 
Serra, in *Coieco de Livros Inditos de Histria Portuguesa+, por seu turno 
traduzida em portugus por Roberto Correia Pinto, Livro da Guerra de Ceuta, 191 S.

Crnica do Descobrimento e da Conquista de Guin (ou Crnica dos Feitos de Guin). 
Eci, com introd. e notas do visconde de Santarm, Paris, 1841. Ed. aparentemente 
baseada na anterior, com ortografia actualizada e estudo de Jos de Bragana, 2 
vols,, Liv. Civiiizaco, Porto, 1937, reed. 1973. Ed. com ortografia actualizada por 
A. J. Dias Dinis, Agncia-Geral das Colnias, Lisboa, 1949 (defeituosa, mas 
informativa). Ed. sob o ttulo de Crnica dos feitos notveis na conquista da Guin 
por mandado do Infante D. Henrique, introd. e notas de Torquato Soares, Ac. 
Portuguesa de Histria, 1978, 2 vols., o

primeiro com tratamento diplomtico, o segundo com texto actualizado. Ed. actualizada 
e anotada por Reis Brasil, Europa-Amrica, 1989, fundamentalmente baseada na ed. de
184 1. Uma verso resumida desta crnica est includa no Manuscrito * Valentim 
Fernandes+, ed. por Joaquim Bensade, rev. de Antnio Baio, Publicaes 
Comemorativas do Duplo Centenrio da Fundao e Restaurao, Academia Portuguesa de 
Histria,
1940, pp. 133-185. H uma trad. francesa, feita e prefaciada por Lon Bourdon, in 
*Mmoires de Vinstitut Franais d'Afrique Noire+, n. 60, Dacar, 1960.

Crnica do Conde D. Pedro de Meneses, ed. nica em *Coleco de Livros Inditos de 
Histria Portuguesa+, 11, Lisboa, 1972, com ortografia actualizada. Reprod. fac-
similada desta ed., apres. de J. Adriano F. Carvalho, na srie de Edies 
Comemorativas dos Descobrimentos, Porto, 1988.


Crnica dos Feitos de D. Duarte de Meneses, idem, ffi, 1973. H um captulo 
anteriormente indito, publicado por A. J. Dias Dinis in *Bibios+, 24, 1948. Ed. 
diplomtica por Larry King, Universidade Nova de Lisboa, 1978, com pref. de Oliveira 
Marques.

Brocardo, M. Teresa Leito: As Edies das Crnicas de Gomes Eanes de Zurara, *Actas 
do V Encontro da Ass. Portug. de Lingustica+, Fac. de Letras, Lisboa, 1989, pp.
27-53; e outro estudo sobre a Crnica de D. Pedro de Meneses que sair nas *Arfdo Vil 
Encontro da Ass. Portug. de Lingustica, realizado em Out. de 1991- 11, ciosa conta 
da situao editorial da obra de Zurara: manuscritos agora cor apgrafos, e 
caractersticas das ed. indicadas.)

144
Rui de Pina: As crnicas de D. Duarte, D. Afonso V e O. Joo 11 esto publicadas na 
citada *Coleco de Livros Inditos de Histria Portuguesa+, vol. 1, 1790. H eds. 
modernas da Crnica de O. Joo 11, corn pref. e notas de A. Martins de Carvalho, 
Coimbra, 1950, e na col. *Alfa - Biblioteca da Expanso Portuguesa+, com grafia 
modernizada; e outra de D. Duarte, pref. por A. Borges Coelho, Lisboa, 1966, que 
reproduz a de 1790, actualizando a ortografia e a pontuao. Ver Uma Relao de Rui 
de Pina sobre o Congo escrita em 1492, ed. Francisco Leite de Faria, Junta de 
Investigao do Ultramar, 1966, que contm a primeira redaco indita de 7 captulos 
desta crnica, baseados num dirio de bordo. As de O. Sancho 1, D. Afonso 11, D. 
Sancho li, D. Afonso 111 e O. Dinis (baseadas, como vimos, em crnicas 
quatrocentistas) tm ed. setecentista de Miguei Lopes Ferreira, Lisboa, 1727-29; e a 
ltima uma ed. da Liv. Civilizao, Porto,
1945, segundo verso de um cdice da Biblioteca Municipal desta cidade. As Crnicas 
(completas) foram editadas com introd. de M. Lopes de Almeida, na col. *Tesouros da 
Literatura e da Histria+, Lelio, Porto, 1977. Da Crnica de D. Dinis a ed. mais 
correcta  a da Liv. Civilizao, Porto, 1945.

Garcia de Resende: Crnica     1 deirey Dom Joam 11, Coimbra, 1788, reed. fac-
similada com introd. de J. Verssimo Serro, IN-CM, 1973 (inclu a Miscelnea). 1. > 
ed., Lisboa,
1545, sob o ttulo Livros de Obras de Garcia de Resende; reed. 1554, vora, incluindo 
Miscelnea; 3., Lisboa, 1596, j com o ttulo de Crnica... ; 4. >, Lisboa, 1607; S. 
>, Lisboa, 1622 (inclui 2. > ed. de Miscelnea); 6. >, Lisboa, 1752; 7. >, Coimbra, 
j referida, que  a mais cuidada; 8. >, Lisboa, 1902, de acordo com as de 1622 e 
1788. Ed. da Miscelnea com pref. e notas de Mendes dos Remdios, na col. *Subsdios 
para o Estudo da Literatura Portuguesa+, Coimbra, 1917.

Todas as anteriores e ainda a Crnica de D. Afonso Henriques de Duarte Galvo 
(anteriormente editada em 1726, por Miguei L. Ferreira) foram reproduzidas com texto 
deturpado na *Biblioteca de Clssicos Portugueses+. Desta ltima h ainda as 
seguintes eds.: Lisboa, 1906; Cascais, 1917 (ed. do Conde Castro Guimares); ed. 
segundo ms. da Torre do Tombo, notas e glossrio de Jos de Bragana, Lisboa, 
Portuglia, s/d (1948); ed. parcial com introd. e notas de A. R. NykI, Harvard 
University, Cambridge, Mass., 1942; ed. apres. por Jos Mattoso de dispersos 
impressos pela Imprensa da Universidade de Coimbra (1930-35), IN-CM, 1986.

A Crnica de D. Afonso W foi publicada em Lisboa, 1653. Annimo: Crnica do 
Condestabre de Portugal. 2 ed. quinhentistas, 1526, 1554, Reed. em 1623 e 1848. Ed. 
moderna por Mendes dos Remdios, com introd. e glossrio, Coimbra, 1911. Nova ed. com 
introd, e fixao do texto por Antnio Machado de Faria, Academia Portuguesa de 
Histria, Lisboa, 1972, ed. fac-similada, Lisboa, 1969. Estoria de Dom Nuno Alvrez 
Pereyra, ed. crit. da Crnica do Condestabre, com introd., notas e glossrio de 
Adelino de Almeida Calado, Por Ordem da Univ., Coimbra, 199 1.


Frei Joo Alvares: Crnica do Infante D. Fernando. 2 ed. quinhentistas, 1527, 1577. 
Ed. moderna, segundo manuscrito do sc. XV, por Mendes dos Remdios, Coimbra, 1911; e 
em Obras de Frei Joo lvares, ed. por Adelino de Almeida Calado, Coimbra, 1960,
1 vol., sob o ttulo de Trautado da vida e feitos do muito vertuoso s.or lfante d. 
Fernando, *Acta Universitatis Conimbrigensis+ (o vol. 11 das Obras, abrangendo Cartas 
e Tradues, sara em 1959; entre as suas tradues conta-se a Imitaco de Cristo, 
sermes de S.10 Agostinho e a Regra de S. Bento). A Crnica foi pelo autor resumida 
em latim.

145
2. Antologias

Zurara: Prosas Histricas, na col. *Textos Literrios+, selec., pref. e notas de 
Rodrigues Lapa.

Crnicas dos Feitos da Guin, na col. *Clssicos Portugueses+, pref., selec, e notas 
de A. J. da Costa Pimpo.

Crnica da Tomada de Ceuta, ibidem, reed. 1964.

Dos restantes autores encontram-se extractos nas crestomatias citadas de Leite de 
Vasconcelos, Jos Joaquim Nunes e Pereira Tavares, que tambm incluem extractos de 
Ferno Lopes e Zurara.

3. Estudos

Zurara: Quase toda a bibliografia sobre Zurara se refere a problemas histricos e 
eruditos, dela se destacando: Pereira, Esteves: pref.  sua ed. da Crnica da Tomada 
de Ceuta.

Leite, Duarte: Acerca da *Crnica, dos Feitos da Guin+, Bertrand, 1941.

Carvalho, Joaquim de: Sobre a erudio de Gomes Eanes de Azurara, includo nos seus 
Estudos sobre a Cultura Portuguesa do sculo XV, vol. 1, Coimbra, 1949.

Dinis, Antnio J. Dias: Vida e Obras de Zurara, vol. 1, onde serve de introd. da ed. 
da Crnica dos Feitos de Guine da Agncia-Geral das Colnias, 1949.

Soares, Torquato de Sousa: Acerca da chamada *Crnica dos Feitos da Guin+ de Gomes 
de Zurara, in *Revista Portuguesa de Histria+, lX, Coimbra, 1960.

Carvalho, Joaquim Barradas de: As Edies e Tradues de *Crnica dos Feitos de 
Guin+, in *Revista de Histria+, 30, n. 61, So Paulo, Jan.-Maro 1965.

King, Larry D.: In the shadow of the Master: the present state of Zurara research, na 
ed. diplomtica da tese de doutoramento pela Indiana University, 1976, cujo texto foi 
reproduzido em 1978 pela Universidade Nova de Lisboa.

Moreno, Humberto Baquero: O Valor da Crnica de Zurara sobre a Conquista de Ceuta, in 
Contente F./Barreto, L. F. (orgs.): A Abertura do Mundo. Estudos de Histria dos 
Descobrimentos Europeus, Presena, 1987-88, 2.1 voL, pp. 191-203.

Sob os aspectos literrio e ideolgico vejam-se:

Lapa, Rodrigues: introd. s Prosas Histricas; e Lies de Literatura Portuguesa 
poca Medieval -, 10. > ed. rev. e aum., Coimbra Editora, 1981 (com ampla 
bibliografia crtica).

Pimpo, Costa: Histria da Literatura Portuguesa, 2. > ed., 1959 (contm 
bibliografia). Saraiva, Antnio Jos: Histria da Cultura em Portugal, 1950, vol. 1, 
livro li, cap. V. Coutinho, B. Xavier: A ideia de Cruzada em Portugal sobretudo no 
sc, XV, in Ensaios, li, Porto, 1953 (o cruzadismo  uma ideologia oficializada, 
sobretudo no sc. XV, em Portugal, atravs de sucessivas bulas romanas).

HLP - 10

144
Rui de Fina: As crnicas de D. Duarte, D. Afonso V e O. Joo 11 esto publicadas na 
citada *Coleco de Livros Inditos de Histria Portuguesa+, vol. 1, 1790. H eds. 
modernas da Crnica de O. Joo 11, com pref, e notas de A. Martins de Carvalho, 
Coimbra, 1950, e na col. *Alfa - Biblioteca da Expanso Portuguesa+, com graf ia 
modernizada; e outra de O. Duarte, pref. por A. Borges Coelho, Lisboa, 1966, que 
reproduz a

de 1790, actualizando a ortografia e a pontuao. Ver Uma Relao de Rui de Pina 
sobre o Congo escrita em 1492, ed. Francisco Leite de Faria, Junta de Investigao do 
Ultramar, 1966, que contm a primeira redaco indita de 7 captulos desta crnica, 
baseados num dirio de bordo. As de O. Sancho 1, O. Afonso 11, D. Sancho 11, D. 
Afonso 111 e D. Dinis (baseadas, como vimos, em crnicas quatrocentistas) tm ed. 
setecentista de Miguei Lopes Ferreira, Lisboa, 1727-29; e a ltima uma ed. da Liv. 
Civilizao, Porto,
1945, segundo verso de um cdice da Biblioteca Municipal desta cidade. As Crnicas 
(completas) foram editadas com introd. de M. Lopes de Almeida, na col. *Tesouros da 
Literatura e da Histria+, Lello, Porto, 1977. Da Crnica de O. Dinis a ed. mais 
correcta  a da Liv. Civilizao, Porto, 1945.

Garcia de Resende: Crnica [..] delrey Dom Joam 11, Coimbra, 1788, reed. fac-similada 
com introd. de J. Verssimo Serro, IN-CM, 1973 (inclui a Miscelnea). 1. a ed., 
Lisboa,
1545, sob o ttulo Livros de Obras de Garcia de Resende; reed. 1554, vora, incluindo 
Miscelnea; 3., Lisboa, 1596, j com o ttulo de Crnica... ; 4. >, Lisboa, 1607; 5. 
>, Lisboa, 1622 (inclui 2. > ed. de Miscelnea); 6. >, Lisboa, 1752; 7. >, Coimbra, 
j referida, que  a mais cuidada; 8. >, Lisboa, 1902, de acordo com as de 1622 e 
1788. Ed. da Miscelnea com pref. e notas de Mendes dos Remdios, na col. *Subsdios 
para o Estudo da Literatura Portuguesa+, Coimbra, 1917.

Todas as anteriores e ainda a Crnica de O. Afonso Henriques de Duarte Galvo 
(anteriormente editada em 1726, por Miguei L. Ferreira) foram reproduzidas com texto 
deturpado na *Biblioteca de Clssicos Portugueses+. Desta ltima h ainda as 
seguintes eds.: Lisboa, 1906; Cascais, 1917 (ed. do Conde Castro Guimares); ed. 
segundo ms. da Torre do Tombo, notas e glossrio de Jos de Bragana, Lisboa, 
Portuglia, s/d (1948); ed. parcial com introd. e notas de A. R. NykI, Harvard 
University, Cambridge, Mass., 1942; ed. apres. por Jos Mattoso de dispersos 
impressos pela Imprensa da Universidade de Coimbra (1930-35@, IN-CM, 1986.

A Crnica de D. Afonso IV foi publicada em Lisboa, 1653. Annimo: Crnica do 
Condestabre de Portugal. 2 ed. quinhentistas, 1526, 1554. Reed. em 1623 e 1848. Ed. 
moderna por Mendes dos Remdios, com introd. e glossrio, Coimbra, 19 11. Nova ed. 
com introd. e fixao do texto por Antnio Machado de Faria, Academia Portuguesa de 
Histria, Lisboa, 1972, ed. fac-smiiada, Lisboa, 1969. Estoria de Dom Nuno AIvrez 
Pereyra, ed. crt. da Crnica do Condestabre, com introd., notas e glossrio de 
Adelino de Almeida Calado, Por Ordem da Univ., Coimbra, 199 1.


Frei Joo lvares: Crnica do Infante D. Fernando. 2 ed. quinhentistas, 1527, 1577. 
Ed. moderna, segundo manuscrito do sc. XV, por Mendes dos Remdios, Coimbra, 1911; e 
em Obras de Frei Joo lvares, ed. por Adelno de Almeida Calado, Coimbra, 1960,
1 vol., sob o ttulo de Trautado da vida e feitos do muito vertuoso s.or lfante d. 
Fernando, *Acta Universitatis Conimbrigensis+ (o vol. 11 das Obras, abrangendo Cartas 
e Traduces, sara em 1959; entre as suas traduces conta-se a Imitaco de Cristo, 
sermes de S.10 Agostinho e a Regra de S. Bento). A Crnica foi pelo autor resumida 
em latim.

145
2. Antologias

Zurara: Prosas Histricas, na col. *Textos Literrios+, selec., pref. e notas de 
Rodrigues Lapa.

Crnicas dos Feitos da Guin, na col. *Clssicos Portugueses+, pref., selec. e notas 
de A, J. da Costa Pimpo.

Crnica da Tomada de Ceuta, ibidem, reed. 1964.

Dos restantes autores encontram-se extractos nas crestomatias citadas de Leite de 
Vasconcelos, Jos Joaquim Nunes e Pereira Tavares, que tambm incluem extractos de 
Ferno Lopes e Zurara.

3. Estudos

Zurara: Quase toda a bibliografia sobre Zurara se refere a problemas histricos e 
eruditos, dela se destacando: Pereira, Esteves: pref.  sua ed. da Crnica da Tomada 
de Ceuta.

Leite, Duarte: Acerca da *Crnica dos Feitos da Guin+, Bertrand, 1941.

Carvalho, Joaquim de: Sobre a erudio de Gomes Eanes de Azurara, includo nos seus 
Estudos sobre a Cultura Portuguesa do sculo XV, vol. 1, Coimbra, 1949.

Dinis, Antnio J. Dias: Vida e Obras de Zurara, vol. 1, onde serve de introd. da ed, 
da Crnica dos Feitos de Guin da Agncia-Geral das Colnias, 1949.

Soares, Torquato de Sousa: Acerca da chamada *Crnica dos Feitos da Guin+ de Gomes 
de Zurara, in *Revista Portuguesa de Histria+, IX, Coimbra, 1960.

Carvalho, Joaquim Barradas de: As Edies e Tradues de *Crnica dos Feitos de 
Guin+, in *Revista de Histria+, 30, n. 61, So Paulo, Jan.-Maro 1965.

King, Larry D.: In the shadow of the Master: the present state of Zurara research, na 
ed, diplomtica da tese de doutoramento pela Indiana University, 1976, cujo texto foi 
reproduzido em 1978 pela Universidade Nova de Lisboa.

Moreno, Humberto Baquero: O Valor da Crnica de Zurara sobre a Conquista de Ceuta, in 
Contente F./Barreto, L. F. (orgs.): A Abertura do Mundo. Estudos de Histria dos 
Descobrmentos Europeus, Presena, 1987-88, 2. vol., pp. 191-203.

Sob os aspectos literrio e ideolg@'co vejam-se:

Lapa, Rodrigues: introd. s Prosas Histricas; e Lies de Literatura Portuguesa 
poca Medieval -, 10, ed. rev. e aum., Coimbra Editora, 1981 (com ampla bibliografia 
crtica).

Pimpo, Costa: Histria da Literatura Portuguesa, 2. ed., 1959 (contm 
bibliografia).

Saraiva, Antnio Jos: Histria da Cultura em Portugal, 1950, vo). 1, livro li, cap. 
V. Coutinho, B. Xavier: A ideia de Cruzada em Portugal sobretudo no sc. XV, in 
Ensaios, li, Porto, 1953 (o cruzadisr-no  uma ideo)ogja oficializada, sobretudo no 
sc. XV, em Portugal, atravs de sucessivas bulas romanas).

HLP - 10

146
Barreto, Lus Filipe: G. Eanes de Zurara e o nascimento do discurso historiogrfico 
de transio, in Descobrimentos e Renascimento. Formas de Ser e Pensar nos Sculos XV 
e XVI, IN-CM, pp. 63-126.

Na obra cit. de Mrio Martins encontram-se tambm elementos acerca de Rui de Pina, 
Joo lvares e a Crnica do Condestabre.

Estudo biogrfico sobre Duarte Galvo e sua famlia por Jean Aubin in *Arquivos do 
Centro Cultural Portugus+, 10, Paris, 1975, pp. 43-85. Anteriormente: Viterbo, 
Sousa: Duarte Galvo e a sua famlia, 1. srie, in Histria e Memrias da Ac. Real 
das Cincias, t. 11, parte 1, Lisboa, 1905; 2. > srie, Coimbra, 1913; Veiga, A. 
Botelho da Costa: Duarte Galvo e a sua Crnica de Afonso Henriques, Imprensa 
Nacional, 1945.

Sobre Frei Joo lvares e a Crnica do Condestabre ler ainda as introd. de Mendes dos 
Remdios s ed. atrs citadas; Cidade, Hernni: Lies de Literatura e Cultura 
Portuguesa, 1. vol., 6. ed. Coimbra, 198 1; e Calado, Adelino de Almeida: Frei Joo 
lvares, Coimbra, 1964.

Ideoloqia historioorfica do sc. XV:

Herculano, A.: Historiadores Portugueses (F. Lopes, Azurara, Pina, F. Lucena, Garcia 
de Resende), in Opsculos, 5.

Leite, Duarte: Coisas de Vria Histria, Lisboa, 1941.

Corteso, Jaime: A Expanso dos Portugueses no Perodo Henriquino, in Obras 
Completas, vol. V, Lisboa, 1965.

Godinho, Vitorino de Magalhes: A Economia dos Descobrimentos Henriquinos, Lisboa, 
1962, obra fundamental pela bibliografia crtica e discusso da ideologia 
quatrocentista.

Carvalho, Margarida Barradas de: L'Idologie religieuse dans Ia *Crnica dos feitos 
de Guin+ de Gomes Eanes de Azurara, in *Builetin des tudes Portugaises+, t. XIX,
1955-56.

Cidade, Hernni: A Literatura Portuguesa e a Expanso Ultramarina, vol. 1 (Sculos XV 
e XVI), 2. ed. refundida, *Coleco Studium+, Coimbra, 1963.

Serro, Joaquim Verssimo: A Historiografia Portuguesa, 1 (Sculos X11-XVI), Lisboa,
1972, e Cronistas do Sc. XVposteriores a Ferno Lopes, *Biblioteca Breve+, Instituto 
de Cultura Portuguesa, 1977.


Moreno, Humberto Baquero: A Batalha de Alfarrobeira. Antecedentes e Significado 
Histrico, 2 vols., Lisboa, 1979; A Conspirao contra O. Joo 11: ojulgamento do 
Duque de Bragana, in *Arquivos do Centro Cultural Portugus+, vol. li, Paris, 1970, 
pp. 47-103; e Do Valor Histrico de Gaspar Dias de Landm, separata de A 
Historiografia Portuguesa anterior a Herculano, actas de colquio assim intitulado, 
Academia Portuguesa de Histria, 1977, pp. 177-195 (trabalhos fundamentais sobre as 
vicissitudes que conduziram  centralizao rgia, do infante D. Pedro a D. Joo li, 
com rectificaes importantes de Rui de Pina e crtica de Landim, tardio apologeta 
seiscentista dos duques de Bragana, que se baseia, adulterando-os, em dados de Rui 
de Pina).

Boxer, C. R.: O Imprio Colonial Portugus (14 15-1825), trad. port., Edies 70,
2. > ed. 1981 (original ingls de 1969).

         147
Ver ainda Ricard, Robert: tudes sur 1'histoire des Portugais au Maroc, Coimbra, 
1955, sobre Resende, Pina e Damio de Gis.

Quanto s to debatidas questes do plgio que Rui de Pina teria feito  custa de 
textos desconhecidos de Ferno Lopes, e ainda dos seus presumveis erros, sobretudo 
pelo que respeita s crnicas de D. Duarte e D. Afonso V, ver, nomeadamente, alm das 
obras j indicadas:

Maurcio, Domingos: Do valor histrico de Ru de Pina, in *Brotria+, 15 (1932), e

D. Duarte e as responsabilidades de Tnger (1433-38), Comisso Executiva do V 
Centenrio da Morte do Infante D. Henrique, Lisboa, 1960.

Cintra, Lindley: recenso ao livro de Magalhes Basto, A Tese de Damio de Gis em 
favor de Ferno Lopes, in *Revista da Faculdade de Letras de Lisboa+, t. XVII, 1951, 
e Sobre o cdice 290 (ant. 316) da Biblioteca Nacional de Lisboa, in *Boletim de 
Filologia+, t. 23 (1974), pp. 255-275.

Corteso, Jaime: Os Descobrimentos Portugueses, vol. 1, pp. 274 e seguintes. Coelho 
A. Borges: pref.  sua ed. da Crnica de O. Duarte. Brsio, Antnio: Alguns problemas 
da *Crnicade D. Joo H+ deRuidePina, in *Uitramar+, 9, n. 34, Out.-Dez. 1968.

Captulo V

20 POCA:  LITERATURA APOLOGTICA E MISTICA

At fins da Idade Mdia, os temas msticos, morais e apologticos so em geral 
tratados em latim. Vimos os factores que concorrem para modificar desde o sculo XII

este estado de coisas: o desenvolvimento das cidades e os conflitos que dentro delas 
se

desencadeiam oferecem um campo propcio a discusses religiosas de novo gnero; as

rebelies de camponeses e artesos, mesmo contra o clero, autorizam-se com o 
Evangelho; os reis em luta com o Papado procuram ter do seu lado a razo teolgica; 
aumentam os interesses culturais da nobreza palaciana e da burguesia.  medida que as

heresias populares ganham terreno, a Igreja  obrigada a combat-las no prprio campo 
em que se desenvolvem, com as mesmas armas e dirigindo-se s mesmas camadas da 
populao.

Como resultado desta disseminao das questes religiosas, desenvolvem-se 
congregaes laicas, como a dos Irmos da Vida Comum, as ordens terceiras, e 
confrarias artesanais, dedicadas a certos cultos particulares, como o do Nome de 
Deus. Deve-se s confrarias artesanais a realizao em Frana, e depois noutros 
pases, dos *mistrios+ religiosos no sculo XV, que so mais uma arma catequstica, 
a acrescentar  pr dica. A eles se

devem ainda outras manifestaes religiosas populares, como as procisses do *Corpo 
de Deus+.

Este movimento geral reflecte-se numa literatura propria, em lngua vulgar, de que se 
conservam em Portugal alguns documentos.

A primeira traduo da Bblia de que h notcia segura em portugus realiza-se por 
iniciativa de D. Joo 1, sob cujo reinado adquirem esplendor as procisses do Corpo 
de Deus e se fundam confrarias do Nome de Jesus.

Outras tradues de obras religiosas influentes se conhecem do sculo XV, como a da 
Imitao de Cristo por Frei Joo lvares (o autor da Crnica do Infante D. Fernando), 
e a de um tratado alegrico francs sobre a Virgem Maria, intitulado Castelo 
Perigoso.

150
O culto do Nome de Jesus inspira uma obra de autor desconhecido, redigida em fins do 
sculo XIV para o sculo XV, intitulada Orto do Esposo, que  uma colectnea de 
meditaes sobre aquele tema, sobre a Sagrada Escritura e sobre a vaidade das coisas 
mundanas, acompanhadas de exemplos, ou histrias edificantes, tudo forrageado, por 
vezes apenas resumido ou transcrito, de numerosas fontes, que umas vezes nomeia e 
outras no.

Ao mesmo culto do Nome de Jesus se refere a obra Laudes e Cantigas Espirituas de 
mestre Andr Dias (tambm chamado Andr Hispano ou Andr

Escobar), bispo de Ajcio e de Mgara (1348-1437), oferecida aos membros da Confraria 
do Bom Jesus em Lisboa, cerca de 1435.  um conjunto de composies em verso muito 
irregular, que chega a reduzir-se a prosa ritmada, expressamente destinadas ao canto 
e dana com msica instrumental. Inspira-se nas Laudes de Jacopone de Todi, 
franciscano heterodoxo, animadas daquele sentimento de reconciliao com a natureza e 
de glorificao de um Deus suave e meigo que caracteriza nas suas origens o movimento

franciscano. Andr Dias, ora traduzindo, ora imitando, ora glosando o seu

modelo, ora inventando com a sua prpria inspirao, sabe veicular este impulso 
franciscano; uma alegria primaveril, um enternecimento que nada tem da severidade do 
claustro, singularizam, dentro da literatura mstica portuguesa, a sua obra, que s 
tem, neste aspecto e em certa vocao dramtica, paralelo com algumas composies 
lrico-religiosas de Gil Vicente.

A par destas obras, ao nvel da sensibilidade popular, encontramos outras obras 
religiosas dirigidas certamente a um pblico mais selecto, embora no exclusivamente 
clerical. Tal  o Boosco Deleitoso, redigido talvez em princpios do sculo XV, cujo 
autor, desconhecido, se revela conhecedor da Divina Comdia (que imita na 
introduo), de Petrarca, de quem traduz numerosos captulos, e ainda de alguns 
autores da Antiguidade, como Ccero e Sneca, que cita, enxertando estas influncias 
profanas num conhecimento ntimo da literatura mstica medieval. O livro conta as 
atribulaes da Alma, desnorteada pelo pecado, o seu encontro com a Misericrdia, o 
seu julgamento, o seu retiro na vida solitria, as diversas fases da sua ascenso 
para Deus, com quem, ainda antes da morte, chega a ter comunicao directa. As 
ltimas pginas relatam uma experincia mstica vivida que prenuncia o mais clebre 
livro do gnero, as famosas Moradas de Santa Teresa de vila. O Boosco Deleitoso 
assimila toda a experincia estilstica dos autores msticos em latim

151
medieval, alguns deles traduzidos em Alcobaa nos Sculos XIV e XV, que decerto se 
enxertou na lngua verncula dos pregadores. A linguagem imaginosa e lrica do 
Cntico dos Cnticos, a frase comovida e ritmada de S. Bernardo tm um condigno 
sucessor nestas pginas, em que se combina a espontaneidade ou fluncia fraseolgica 
com a vibrao de quem pretende comunicar um estado inefvel. Como expresso de 
estados emocionais, o

estilo do Boosco Deleitoso no tem talvez paralelo entre ns no sculo XV, e 
dificilmente o ter em toda a literatura portuguesa. Resta averiguar at que ponto se 
trata de uma produo original.

A um tipo completamente distinto, embora integrado nas mesmas circunstncias 
histricas, pertence uma obra que, como as precedentes, deve datar de fins do sculo 
XIV, incios do XV: a Corte Imperial. Trata-se de uma apologia, por razes que o 
autor pretende serem *evidentes e necessrias+, da teologia catlica. O livro 
polemiza principalmente contra os Judeus

e Mouros, embora tambm argumente contra os Pagos, os Cristos orientais e at 
contra os que no tm religio alguma. A Corte Imperial insere-se num ambiente 
caracterstico da Pennsula Ibrica, onde persistiam as comunidades judaicas e 
muulmanas (judiarias e mourarias) com os respectivos cultos, tolerados pelas 
autoridades, e onde, com a tomada de Ceuta (1415), se erguia o problema da converso 
dos Mouros de frica. Relaciona-se certamente com a cruzada pacfica de converso de 
judeus, gentios e sobretudo

islamitas, proposta e empreendida pelo catalo Raimundo Llio. Vale-se confessamente 
de vrias fontes, mas segue principalmente Raimundo, que teve adeptos em Portugal, os 
*reimonistas+, criticados por D. Duarte, e que talvez influenciem ainda Gil Vicente. 
Sob o ponto de vista literrio,  , como

o Boosco Deleitoso, um documento notvel do desenvolvimento da prosa religiosa 
portuguesa de comeos do sculo XV, oferecendo-nos, quer trechos descritivos em 
estilo solene e pomposo, embora convencional, quer argumentaes em linguagem 
escolstica sempre clara e rigorosa, com grande nmero de termos da lngua teolgica 
adaptados ao Portugus. Confrontada com o Leal Conselheiro e com os trechos 
doutrinrios de Zurara, a Corte

Imperial (como o Boosco Deleitoso) indica a existncia de uma escola de prosa 
doutrinal portuguesa cuja preparao no desmerecia a dos autores narrativos, que 
tinham de vencer outras dificuldades.

152
Estas obras, ainda mal estudadas, e outras, como o Virgeu de Consolaam e o Castelo 
Perigoso, adaptados, respectivamente, das obras de um dominicano espanhol e de

um cartuxo francs, ao gosto do alegorismo doutrinrio dos sculos XIV e XV, embora 
talvez desprovidos de originalidade literria, so importantes como exerccio e 
comprovao das possibilidades do idioma.

111111flifi-6f06,AFIA

1. Textos

Bblia Medieval Portuguesa, 1 vol., ed. Serafim da Silva Neto, Rio de Janeiro, 1958.

As Laudes e Cantigas Espirituais de mestre Andr Dias, Bibi. Nac. de Lisboa, ilum.
61, no esto globalmente editadas, mas foram publicados largos extractos por Mrio 
Martins nas obras Laudes e Cantigas Espirituais de Mestre Andr Dias, Lisboa, 195 1, 
e Ladainhas de Nossa Senhora em Portugal (Idade Mdia e sc. XVI), Lisboa, 196 1. 
Anuncia-se a ed. crtica completa por Virglio Madureira, Instituto Nacional de 
Investigao Cientfica, Centro de Lingustica da Universidade de Lisboa.

Do Boosco Deleitoso, ed. quinhentista, Lisboa, 1515, reed. por Augusto Magne, Rio de 
Janeiro, 1950.

Corte Imperial, nica ed., por J. P. de Sampaio (Bruno), Porto, 1910.

Orto do Esposo, ed. crtica, introd., notas e glossrio por Bertil Maler, 2 vols., 
texto e fontes, Rio de Janeiro, 1956 (Instituto Nacional do Livro), completado por um 
3. >, ed. Upsala, 1964, com glossrio, estudo e correces.

Outros textos: Castelo Perigoso, ed. de Augusto Magne, em *Revista Filoigica+, vols. 
IV e V, 1942, e *Verbum+, li, n. > 1, 1945; Vrgeu de Consolaan, ed. crtica, 
introd. por Aibino de Bem Veiga, Universidade da Bahia, 1959; Imitao de Cristo, 
trad. de Frei Joo lvares, ed. de Magalhes Basto em *Anais das Bibliotecas e 
Arquivos+, XIII, n.os
65 a 70; Obras de FreiJoo lvares, ed. por Adelino de Almeida Calado, 11 vol., 
Coimbra,
1959; Barlaam e Josafate (Lenda de, ou Vida dos santos), cdice alcobacense, ed. 
crtica de Vasconcelos Abreu e A. Gonalves Viana, em Histria e Memrias da Academia 
Real das Cincias, Vil, parte 2, Mem. 1, Lisboa, 1898; ed. paleogrfica de Richard D. 
Abraham, Philadeiphia, 1938; ed. fotoiptica por Margarida C. de Lacerda, Junta de 
Investigaes do Ultramar, Lisboa, 1963; Obras de Frei Joo Claro, ed. por Frei 
Fortunato de So Boaventura em Histria cronolgica e crtica da real Abadia de 
Alcobaa, Lisboa, 1827, e Inditos, 1.


Pelo Instituto Nacional de Investigao Cientfica (Centro de Lingustica da 
Universidade de Lisboa) esto a ser feitas as seguintes edies crticas: Vidas e 
Paixes dos Apstolos, leitura, pref. e notas de Isabel Vilares Cepeda (ver adiante), 
e Histria de Vespasiano, leitura, pref. e notas de Virglio Madureira.

         153
2. Antologias e extractos

Destes e de outros textos encontram-se extractos nas crestomatias arcaicas citadas, 
sobretudo na Crestomatia Arcaica, no Florilgio da literatura portuguesa medieval de 
J. J. Nunes e em Oliveira, Corra de/Machado, Saavedra: Textos Portugueses Medievais@ 
5. a ed., Coimbra Editora, 1974.

3. Estudos

No h ainda estudos de conjunto sobre todas estas obras. Ver panormica de algumas 
obras por Saraiva, A. Jos: Histria da Cultura em Portugal, 1. > vol., 1950, L. O 1, 
Cap. VI, e L. li, Cap. Vil, e Crepsculo da Idade Mdia em Portugal, Gradiva, 1988, 
pp.
73-102; e numerosas monografias publicadas em 1964 na *Brotria+ e na *Revista 
Portuguesa de Filosofia+ por Mrio Martins, S. J., algumas delas j reunidas em 
Estudos de Literatura Medieval, Braga, 1956, e Estudos de Cultura Medieval, Lisboa, 
1969, t. 2, Braga,
1972. Ver ainda deste autor Introduo Histrica  Vivncia do Tempo e da Morte - 1, 
Braga, 1969, que se refere a alguns destes textos medievais; Peregrinaces e Livros 
de Milagres na Nossa Idade Mdia, 2. a ed., Lisboa, 1957; Alegorias, Smbolos e 
Exemplos Morais da Literatura Medieval Portuguesa, *Brotria+, Lisboa, 1975, e A 
Stira na Literatura Medieval Portuguesa (Sculos XIII e XIVI, *Biblioteca Breve+, 
ICALP, 1977, que inclui estudos sobre pregadores e o *Orto do Esposo+; O Riso, o 
Sorriso e a Pardia na Literatura Portuguesa de Quatrocentos, ibidem, 1978, incluindo 
referncia ao Boosco Deleitoso.

Vallicroso, Jos Maria Milis: La apologtica luliana en Ia obra *Livro da Corte 
Emperial+, in Actas do Congresso Histrico de Portugal Medievo, n. > especial da 
*Revista Cultural da Cmara Municipal de Braga+, n. 41-42, Jan.-Dez. 1965.

Pontes, J. M. da Cruz: Valor filosfico do *Livro da Corte Imperial+, in *Revista 
Portuguesa de Filosofia+, t. 11, 1955, pp. 412-415; Estudo para uma edio crtica do 
Livro da *Corte Emperial+, separata da *Biblos+, vol. XXX11, 1956, e A controvrsia 
com os muulmanos e as fontes rabes do Livro da Corte Emperial, in *Monumenta+, 
Loureno Marques, n. 3, 1967.

Martins, Ablio: A Literatura rabe e a *Corte Imperial+, *Brotria+, 26, 1938, pp.
61-68; Originalidade e Ritmo na *Corte Imperial+, ibidem, 26, pp. 368-376; Literatura 
Judaica e a *Corte Imperial+, ibidem, 31, 1940, pp. 15-24.

Willard, Charity Cannon: A Portuguese Translation of the Christine de Pisan's *Livre 
des Trois Vertus+, in Publications of The Modem Language Association of America, 
LXXVIII, n. 5, Dezembro 1963.

Bresson, Marie: *Castelo Perigoso+, version portugaise ou *Chastel Prilleux+, in 
*Romania+, Paris, 89, 1968.

Williams, Frederik G.: Breve estudo do *Orto do esposo+ com um ndice analtico dos 
*exemplos+, in *Ocidente+, 74, Jan.-Junho 1968. (Propugna a autoria de Frei 
Hermenegildo de Tancos, analisa a estrutura geral dos 4 livros e seus captulos e, ao 
indicar os exemplos, aponta a fonte mais provvel de muitos deles: Jacques de 
Voragine, Cassiodoro, Pedro Comestor, etc.).

154
Martins, Ablio:  volta do *Orto do Esposo+, *Brotria+, 46, 1948, pp. 164-176. 
Cepeda, Isabel Vilares: Vidas e Paixes dos Apstolos, ed. crtica e estudo, vol. 1, 
Centro de Lingustica da Universidade de Lisboa, 1982 (trad. quatrocentista 
portuguesa de um texto trecentista castelhano).

A importncia das tradues do Latim suscitou j no sc. XV a confeco de um 
dicionrio de verbos, que se encontra editado: A Fourteenth-Century Latn-Old 
Portuguese Verb Dictionary, ed. por Henry Hare Carter, sep. da *Romance Philology+, 
vol. VI, n.os
2 e 3, Novembro de 1952 e Fevereiro de 1953.

Lucas, Maria Clara de Almeida: Hagiografia Medieval Portuguesa, *Biblioteca Breve+, 
ICLP, 1984; A Literatura Visionria da Idade Mdia Portuguesa, *Biblioteca Breve+, 
ICLP,
1986.

Captulo VI

20 POCA: A POESIA PALACIANA

M A evoluo do lirismo galego-portugus

Entre meados do sculo XIV (falecimento do conde de Barcelos, D. Pedro) e meados do 
sculo XV, nenhum texto literrio ficou a atestar o culto da poesia na corte 
portuguesa. Seria temerrio inferir que ela no fosse cultivada; basta que um 
cancioneiro manuscrito se tenha perdido (como se perderam, por exemplo, os originais 
das cpias dos da Vaticana e da Biblioteca

Nacional) para com ele desaparecer toda a grande produo em verso de um longo 
perodo. Pode mesmo ter-se dado o caso de se no ter empreendido, por falta de 
iniciativa, o trabalho de coleccionao dos originais e dos

pequenos cadernos avulsos, condenados a vida efmera, onde os apreciadores da poesia 
copiavam peas poticas a seu gosto. Se Garcia de Resende no tivesse empreendido a 
coleco, no seu clebre Cancioneiro Geral, das composies produzidas e j 
recolhidas nas cortes de D. Afonso V, D. Joo
11 e D. Manuel, estaramos hoje na ignorncia de um considervel conjunto de obras 
versificadas.

O factor mais importante da crise e definhamento da tradio potica portuguesa  o 
deperecimento das escolas locais de jograis, por fora dos novos meios dominantes de 
comunicao da poesia - que se torna escrita e no j oral. Por isso a lngua 
portuguesa deixa de ser na Pennsula o veculo mais conhecido dos poetas.

Algumas notcias isoladas sugerem a existncia de uma produo potica nos reinados 
de D. Fernando, D. Joo 1 e D. Duarte, que se teria per-

156
dido. H notcias de trovadores portugueses e galegos de cujas obras no ficaram 
vestgios, como Joo Loureno da Cunha, Ferno Casqucio e sobretudo Vasco Pires de 
Cames (sculo XIV), e de um trovador hebreu ao servio da rainha D. Filipa de 
Lencastre; e D. Duarte tinha na sua livraria um Livro das Trovas, que no foi 
possvel identificar. O clebre msico-poeta francs Guillaume de Machaut era 
conhecido na corte, como mostra a aluso que lhe faz D. Joo 1 no Livro da Montaria.

Acresce que a partir da insurreio de 1383, uma fraco considervel da nobreza 
emigra para Castela, e gente nova, com outras tradies, vem

ocupar os seus lugares vazios. Sabemos que alguns daqueles emigrados cultivaram a 
poesia nas cortes onde se refugiaram, contribuindo para os cancioneiros castelhanos 
do sculo XV. Por outro lado, alguns dos elementos novos que entraram na corte dos 
primeiros reis de Avis eram alheios  tradio palaciana. A subverso e a 
reconstruo da corte portuguesa - reinados

de D. Joo 1  e D. Duarte - trouxeram certamente modificaes nos hbitos, nos 
gostos, na-moral e tambm, portanto, na poesia da corte.

Os cancioneiros castelhanos do sculo XV, em especial o de Joo Afonso

de Baena (cerca de 1445), mostram-nos a lenta decadncia da tradio lrica galaico-
portuguesa. So ainda numerosas as composies em galego-portugus a atestar a 
sobrevivncia da escola jogralesca galega, cultivada como no passado por poetas das 
vrias regies da Pennsula. O galego Macias, celebrizado pela lenda, e o castelhano 
Afonso lvares Villasandino contam-se entre os continuadores da tradio galaica. Mas 
as suas formas tpicas tendem a desaparecer, em especial o paralelismo; a diversidade 
mtrica que a caracteriza restringe-se, dando lugar ao predomnio crescente do 
heptasslabo ou

redondilha maior; e sobretudo a mediocridade literria e social dos seus sequazes 
contrasta com o brilho de alguns autores categorizados e cultos que preferem a lngua 
e o estilo castelhanos. Esta evoluo realiza-se em grande parte sob a influncia de 
modelos franceses e aproveitando formas tpicas do lirismo popular ibrico.

Nestes cancioneiros assistimos, pois, ao ocaso de uma poesia que conhecera uma poca 
de esplendor na corte de Afonso X de Castela e noutras partes peninsulares, como a de 
D. Afonso 111 e D. Dinis de Portugal. A histria sumria de tal evoluo  j feita 
pelo marqus de Santillana, D. Ifligo Lpez de Mendoza, um dos vultos literrios 
castelhanos mais notveis do tempo,

157
numa carta que em 1449 escreveu ao condestvel D. Pedro. A Pennsula Ibrica 
continuava a constituir uma unidade cultural com o seu foco em Castela, e assim como 
da corte castelhana irradiara o prestgio peninsular da joglaria galega, tambm a 
partir dela se impem as novas formas e o novo estilo, onde se assinalam j 
influncias de Dante e Petrarca.

O Cncioneiro Geral de Garcia de Resende

 s cortes de Castela, e no aos trovadores portugueses da corte de D. Dinis, que 
temos de remontar para encontrar os antecedentes do Cancioneiro Geral, compilado por 
Garcia de Resende, empreendimento que se inspira no Cncionero General de Hernandez 
del Castillo, publicado em 1511.

Resende compilou o que conseguiu recolher do material potico, em lngua portuguesa e 
castelhana, produzido nas cortes de D. Afonso V, D. Joo 11 e D. Manuel.  muito 
significativa do renovado interesse pela poesia nos

meios palacianos, e provavelmente noutros, esta edio confiada ao prelo (1516) numa 
poca em que a tipografia era ainda recente em Portugal, e

reservada a um nmero escassssimo de obras.

A leitura do Cancioneiro Geral mergulha-nos em plena vida palaciana.  medida que se 
concentrava em torno do rei, a corte desenvolvia e variava a sua vida social, 
procurava formas prprias de passatempo e animao. A grande maioria das composies 
do Cancioneiro Geral destinava-se aos seres

do pao, onde se recitava, se disputavam concursos poticos, se ouvia msica, se 
galanteava, se jogava, se realizavam pequenos espectculos de alegorias ou pardias. 
Tudo isto se fazia dentro dum estilo que tendia a apurar-se como se apurava o 
vesturio, o penteado, a linguagem e a etiqueta.

O ambiente corteso explica o carcter ldico, ligeiro e circunstancial de grande 
parte do contedo do Cancioneiro Geral, e ao mesmo tempo as formas estilizadas, 
espirituosas que nele por vezes se encontram. No Prlogo, a arte de trovar  includa 
no conto das *cousas de folgar e gentilezas+. Os senhores e as damas do Pao 
comentam-se reciprocamente o feitio dos chapus, a cor dos vestidos, os pequeninos 
acidentes que saem fora das regras da compostura ou dos padres da moda. Certo 
fidalgo foi objecto de larga risota porque trouxe de Castela um chapu demasiado 
grande em relao aos que se usavam c. O vestido amarelo de uma dama sugere 
reflexes a

158
um fidalgo, etc. Tudo  jogo, espectculo e representao, anunciando as

cortes da Renascena e as cortes barrocas, s quais a de D. Joo 11 serve

j de preldio.

A tradio trovadoresca do amor, enriquecida pelas aportaes de Petrarca e Dante,  
continuada nos sculos XV e XVI. Alguns poetas acabam por chegar ao requinte de que o 
verdadeiro amor implica a renncia  posse do ser amado, porque a consumao do 
desejo extingui-lo-ia no amador.  o

que sustenta, numa teno com Aires Teles, o poeta conde de Vimioso, D. Francisco de 
Portugal, precursor, neste ponto, de certas obras lricas de Cames. E, logo  
entrada da colectnea, quem sabe mesmo se constituindo o seu ponto de partida, uma 
longa discusso em verso - intitulada O Cuidar e o Suspirar - versa este tema: Qual 
dos dois  o melhor amador: aquele que deixa transparecer o seu sentimento, ou aquele 
que sabe guard-lo, para si? Este formalismo do galanteio, aliado ao gosto do 
paradoxo conceituoso, enche centenas de pginas do Cancioneiro Geral; mas encontra um 
correctivo escandaloso em alguns poemas satricos, por vezes ostensivamente 
pornogrficos, na continuidade da veia das cantigas de escrnio e maldizer.

Uma parte considervel do Cancioneiro Geral  de facto preenchida por discusses de 
casustica amorosa em moda nas cortes do tempo e que tendem a assumir o aspecto de um 
processo judicial, com testemunhos ou ajudas, alegaes, contestaes e um veredicto 
final, revelando uma grande familiaridade com os trmites oficiais da Justia, que 
poderemos alis acompanhar em vrias manifestaes literrias dos sculos XVI e XVII, 
e acusam quase sempre a autoria de juristas e a importncia cultural da nobreza de 
cargo, formada pela Universidade.  precisamente a um juiz, Aririque da Mota, que se 
devem as produes onde a discusso ou o dilogo assume um carcter mais 
distintamente dramtico de farsa. Uma das suas cinco peas, O Processo de Vasco Abul, 
obedece mesmo s vicissitudes de um processo judicirio, destinado a decidir se o 
protagonista tem ou no direito a reaver um colar oferecido, com inteno gorada, a 
uma bailarina popular; as outras

peas (Pranto do Clrigo, Farsa do Alfaiate, Farsa do Hortelo, Lamentaes da Mula) 
so j farsas ou prantos teatrais cuja relacionao cronolgica com as de Gil Vicente 
levanta problemas ainda no resolvidos. Tais farsas esto muito presas ao arremedo 
carnavalesco de casos acontecidos, e o autor intervm as mais das vezes para 
interrogar ou sentenciar sobre uma

159
questo grotesca; mas os tipos do clrigo beberro, do cristo-novo roubado, do 
hortelo fisicamente ridculo mas orgulhoso do ofcio apresentam uma

vivacidade notvel, e a Lamentao da Mula ergue-se bem  altura de smbolo para um 
perodo de grandes fomes.

A tenuidade dos temas, o gosto do paradoxo e o formalismo cerebrino fazem do 
Cancioneiro Geral um documento caracterstico. da literatura peninsular aristocrtica 
que ir culminar no cultismo e no conceptismo do sculo XVII, embora o tom dominante 
no Cancioneiro Geral no se repita na poesia seiscentista, porque com o pessimismo e 
desencanto que caracterizaro o sculo XVII contrasta ainda no Cancioneiro Geral um 
certo esprito festivo, uma vitalidade intensa.

Algumas peas lricas da colectnea conservam interesse perdurvel, quer pela sua 
tenso emocional, quer por um apuramento formal verdadeiramente lapidar. Tal  o caso 
de composies do conde de Vimioso, de Francisco de Sousa, de Jorge de Aguiar, de 
Joo Rodrigues de Castelo Branco, de Diogo Brando, e das Trovas de Garcia de Resende 
 morte de Ins de Castro. Gil Vicente, Bernardim Ribeiro e S de Miranda contam-se 
entre os mais
novos colaboradores do Cancioneiro.

Apesar dos encarecimentos patriticos de Garcia de Resende no Prlogo da obra, a 
expanso ultramarina inspira pouqussimos autores, dos quais convm salientar Diogo 
Velho no poema Da caa que se caa em Portugal. Mas os poetas satricos presenciam as 
suas consequncias sociais. Alguns destes retomam e actualizam tpicos que vm da 
antiguidade clssica, como Nuno

Pereira numa carta a um corteso sobre as vantagens da vida na sua casa

de lavoura em comparao com a de corte, ou Joo Rodrigues de Castelo Branco noutra 
em que se faz ressaltar a fartura, independncia e segurana da vida rstica. Outros 
tratam polemicamente problemas da actualidade instante, como Duarte da Gama nas 
Trovas s desordens que agora se costumam em Portugal e lvaro de Brito Pestana numa 
longa carta aberta a um

vereador de Lisboa. Os dois primeiros criticam a vida corts segundo o ponto de vista 
da nobreza provinciana mais tradicionalista, que reagia contra a centralizao 
monrquica, a qual poria termo  sua independncia e estilo prprio de vida. Os 
ltimos protestam contra a transformao que o trfego ultramarino operava na 
sociedade portuguesa (a ganncia mercantil, o poder do dinheiro em prejuzo da velha 
jerarquia senhorial, a nsia geral de ascen-

162
Tem interesse particular um gnero narrativo, conhecido por Inferno dos Namorados, 
derivado de um epis dio clebre do Inferno de Dante (aquele em que o poeta escuta os 
queixumes e as recordaes de Francesca de Rimini, pecadora por amor, traindo uma bem 
pouco ortodoxa simpatia pelo seu caso

sentimental), atravs de Santillana. Nestas composies exalta-se o sentimento de 
predestinao amorosa, relacionando-o, de um modo pattico, com a condenao a que os 
amantes se afoitam. Trata-se, pois, como que de virar do avesso a inteno moralista 
das vises infernais atribudas aos ltimos heris castos do ciclo arturiano (h uma 
passagem sobre este tema na Demanda do Graal), bem como ao cavaleiro Tndalo e outras 
personagens.

Alm de cultivado por Duarte de Brito, D. Joo Manuel e Diogo Brando (cujo 
Fingimento de Amores constitui o melhor e mais ousado espcime do gnero, com a sua 
explcita e galanteadora aceitao das penas infernais para os amantes, visto *que  
impossvel que hajamos duas bem-aventuranas+), ele deu visivelmente o molde em que 
se vazam as Trovas  morte de Ins de Castro, de Garcia de Resende, inspiradas num 
caso que j impressionara os cronistas e que se tornar doravante o grande smbolo 
portugus do amor trgico.  um poema narrativo bem encadeado, em que o pattico 
*galardo do amor+ resulta de um jogo fatal de situaes; a nitidez do seu 
desenvolvimento e eloquncia deixa como traos modelares a irresponsabilidade do par 
amoroso e o dever poltico de D. Afonso IV, que a

protagonista reconhece *forado, pelo seu, de me matar+. Os Infernos dos Namorados do 
Cancioneiro Geral anunciam uma importante tradio de sensibilidade literria que se 
prolongar atravs de Bernardim Ribeiro e Cames at  novela camiliana, criando uma 
imagem convencional da ndole portuguesa, caracterizada pelo sentimentalismo e pelo 
saudosismo. A famosa frase de Francesca de Rimini, que fez sobressair a glria j 
extinta do seu amor

acima dos prprios tormentos infernais presentes (*Nessun maggior dolore/Che 
ricordarsi del tempo felice/Nella miseria+), comea tambm a

ser exaustivamente parafraseada, mesmo fora do contexto dos Infernos dos Namorados.

Outra influncia italiana que surge e se avolumar  a de Petrarca, o qual, alm de 
apurar o sentido das contradies do amor, j importado da escola provenal e 
tendente a cristalizar em meros jogos formais de conceitos e

trocadilhos, conduz Duarte de Brito, D. Joo Manuel e Diogo Brando a

confrontar estados de alma com paisagens mais ou menos convencionais,

      163
mesmo quando nomeadas, pois, atravs de Petrarca (e tambm de Dante), atravs da 
literatura mstica (de que tambm eles foram cultores), evocam, ora vergis 
paradisacos ou bosques sagrados de modelo clssico, ora o ermo

rido ou montanhoso dos anacoretas, ora as trevas e os horrores do Inferno dantesco. 
De alegoria mstica, a natureza transforma-se deste modo em alegoria amorosa, 
anunciando Bernardim Ribeiro.

Ainda outro sinal dos novos tempos que raiavam consiste em certo interesse pela 
cultura clssica latina. J o seguimos desde os primeiros infantes de Avis e de 
Zurara, e at mesmo Ferno Lopes; mas agora o gosto da Latinidade torna-se modaj to 
espalhada, que permite aluses satricas; na construo sintctica, na ortografia, 
nas referncias mitolgicas, o seu rasto salta

aos olhos; e so parafraseadas por Joo Roiz de Lucena e Joo Roiz de S

algumas das epstolas imaginrias dos amantes mitolgicos que constituem as Herodes 
de Ovdio e suas imita es pr-renascentistas, epstolas alis j mencionadas por 
Ferno Lopes e por vrias obras medievais.

Com estas influncias e ainda com a da poesia francesa, que, manifestando-se 
principalmente no gosto alegrico, no era desconhecida em Portugal, e muito menos em 
Espanha, constituiu-se a escola potica peninsular cuja expresso portuguesa se 
encontra no Cancioneiro Geral. Se no revela poetas geniais, esta colectnea mostra 
todavia um grupo de artistas aplicados ao trabalho de apurar e ensaiar formas, 
ajustar a linguagem. E assim se cria, como apontmos e melhor veremos adiante, uma 
tradio duradoira, porque corresponde a uma aquisio definitiva de desenvolvimento 
psicolgico e ideolgico, embora comprometido por certo formalismo e decorativismo

curiosamente anlogos aos do gtico flamejante, seu contemporneo nas artes 
plsticas.

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1. Textos

As sobrevivncias no sc. XV da escola trovadoresca galaico-portuguesa encontram-se 
no Cancioneiro de Joo Afonso de Baena, de que existem as seguintes ed.: Madrid, 
1851, Leipzig, 1860, Nova lorque, 1926 (em fac-smile do manuscrito primitivo, com 
pref. de Henry R. Lang), Buenos Aires, 1949, Madrid, 1966 (ed. crtica em 3 vols., 
por

164
Jos Maria Azceta, C. N. 1. C.); e ainda no Cancioneiro Musical de los Siglos XV y 
XVI, editado por F. A. Barbieri, Madrid, 1890. O estudo est no entanto facilitado 
por uma ed. do Cancioneiro Galego- Castelhano, constitudo por todos os poemas 
galegos de 1350 a 1450 que se encontram em tais colectneas, o que se deve a Henry R. 
Lang, Nova lorque, 1902.

Cancioneiro Geral de Garcia de Resende: Ed. prnceps, na of icina de Hermo de 
Campos, 15 16. Existe na Biblioteca Nacional de Lisboa um exemplar com as emendas e 
rasuras manuscritas da Inquisio.

Ed. fac-smile por A. M. Huntington, 1904, Nova lorque. H outra mais recente, 
impressa pela Kraus Reprint Corporation, Nova lorque, 1967.

Ed. de Kaussier (1846-52), Ed. de Gonalves Guimares, 5 vols., Coimbra, 1910-17. Ed. 
de A. da Costa Pimpo e Aida Fernanda Dias, 2 vols., Centro de Estudos Romnicos, 
Coimbra, 1973-74.

Ed. de Andre Crabb Rocha, 5 vols., com vocabulrio, Lisboa, 1973.

Em 1554 saiu postumamente o Livro das Obras de Garcia de Resende, com uma Miscelnea, 
sumrio em verso de *histrias, costumes, casos e cousas que em seu tempo 
aconteceram+, reed. por Mendes dos Remdios, Coimbra, 1917, e novamente na ed. fac-
similada da Crnica de D. Joo fi, com introd. de J. Verssimo Serro, IN-CM, 1973.

2. Antologias

As melhores poesias do Cancioneiro de Resende, sei., pref. e notas de Rodrigues Lapa, 
col. *Textos Literrios+, Lisboa, 1939.

Poetas do Cancioneiro Geral, pref., sei., notas e glossrio por A. J. da Costa 
Pimpo, col. *Clssicos Portugueses+, Lisboa, Liv. Clssica Edit., 1942.

O *Cancioneiro Geral+, sei., pref. e notas de Andre Crabb Rocha, col. *Textos 
Clssicos+, Lisboa.

Oliveira, Corra de/Machado, Saavedra: Textos Medievais Portugueses, 5. ed., Coimbra 
Editora, 1974.

3. Estudos

Braga, Tefilo: Histria da Literatura Portuguesa 1 - Idade Mdia, Charciron, Porto,
1909, reed. com pref. de Joo Palma-Ferreira, IN-CM, 1984.

Pelayo, Menndez y: Historiade lapoesia castellanaen Ia EdadMdia, 111, pp. 305-352.


Ruggieri, Jole: Canzionere di Resende, Genebra, Leo llschki, 1931 (obra clssica 
sobre o assunto).

Le Gentil, Pierre: La posie Iyrique espagnole et portugaise  Ia fin ou moyen ge,
2 vols., Paris-Genve, Slatkime-Reprints, 198 1.

         165
Rocha, Andre Crabb: Aspectos do Cancioneiro Geral, Coimbra, 1950; bauches 
dramatiques dans le *Canconeiro Geral+, in *Builetin d'Histoire du Thtre 
Portugais+, Tome li, 1951, n. > 2; Garcia de Resende e o Cancioneiro Geral, 
*Biblioteca Breve+, Instituto de Cultura Portuguesa, 1979.

Tavani, Giuseppe: Considerazioni sulle origine dell'*arte mayor+, in *Cultura 
Neolatina+, 24, 1965.

Mateus, Maria Helena Mira: Poesias de Jorge de Aguiar e de Jorge de Resende, e duas 
composies de Joo Roiz de Castelo Branco, in *Revista da Faculdade de Letras de 
Lisboa+, 3. a s., 11, 1967.

Cidade, Hernni: Lies de Literatura e Cultura Portuguesa, 1. > vol., 6. a ed. rev., 
Coimbra, 1981.

Martins, Mrio: O Cancioneiro Geral, o Tempo e a Morte, in Introduo Histrica  
Vidncia do Tempo e da Morte, Braga, 1969.

Romeralo, Antonio Snchez: El Villancico, *Biblioteca Romnica Hispnica+, Gredos, 
Madrid, 1969.

Rodriguez-Moffino, Antonio: Poesia y Cancioneros (Siglo XVI), Madrid, 1968; Tres 
Cancioneros Manuscritos, Madrid, Castalia, 1969-70.

Lobo, Maria Edith: Contribuio para o estudo da mtrica e da rima no *Cancioneiro 
Geral+, in *Ocidente+, 80, n. 395, Maro 1971.

Lapa, Rodrigues: Lies de Literatura Portuguesa, 10. > ed. rev. e aum., Coimbra,
1984. Contm ampla bibliografia crtica.

A gnese histrico-literria do tema de Ins de Castro e a importncia das Trovas que 
Garcia de Resende lhe dedica so desenvolvidamente analisadas por Jorge de Sena em 
Estudos de Histria e de Cultura, 1, sep. de *Ocidente+, 1967; por M. Leonor Machado 
de Sousa, em Ins de Castro, um Tema Portugus na Europa, Edies 70, 1987; e por 
Adrien Roig, em Inesiana ou Bibliografia Geral sobre Ins de Castro, ed. Biblioteca 
Geral da Universidade de Coimbra, 1986 (mais de duas mil referncias).

Dias, Aida Fernanda: O Cancioneiro Geral e a poesia peninsular de Quatrocentos. 
Contactos e sobrevivncias, Almedina, Coimbra, 1978.

Dias, Helena Marques/Castro, Ivo de: A Edio de 1516 do Cancioneiro Geral de Garcia 
de Resende, in *Revista da Faculdade de Letras+, Lisboa, IV Srie, 1976-77, pp. 93 e

segs, (foca, nomeadamente, as variantes sucessivamente corrigidas ao longo da 
impresso tipogrfica).



30 POCA

RENASCIMENTO E MANEIRISMO

Captulo 1 INTRODUO

 RENASCIMENTO E MANEIRISMO: Aspectos sociais

Do final do sculo XV a meados do XVI os principais pases do Ocidente da Europa, 
seguindo a Itlia, que se antecipara pelo menos de um sculo, entram decisivamente na 
fase moderna da sociedade mercantil, que assim vem engrenar-se em estruturas agrrias 
e polticas feudais.

A indstria desenvolve-se para alm dos quadros corporativos das cidades, e em certos

ramos os artesos passam a trabalhar por conta de capitalistas empresrios. H um 
surto

de invenes e melhoramentos tcnicos, favorecidos pela procura crescente de 
mercadorias. Os senhores feudais apropriam-se tanto quanto podem de terras comunais, 
reduzindo muitos servos ou colonos a assalariados e produzindo para o mercado. O 
aumento

do volume de trocas, implicando o da circulao monetria, traz como resultado a 
procura de ouro, prata e outras mercadorias preciosas. Intensifica-se o trabalho 
mineiro e

buscam-se minas, quer dentro quer fora da Europa. O descobrimento da prata na Amrica 
e o do caminho martimo para a ndia vm ao encontro desta necessidade de acrscimo 
dos meios de troca, e provocam uma alta de preos, ruinosa para os que apenas vivem 
de foros e servios feudais.

Tornam-se possveis grandes acumulaes de capital e operaes bancrias  escala de 
toda a Europa e respectivos interesses ultramarinos. Formam-se grandes casas 
financeiras, como os Fugger e os Welser. Descobrem-se meios de drenagem de capitais, 
como o emprstimo pblico.

Estas diversas formas de concentrao e mobilizao dos meios monetrios servem

de base aos grandes estados nacionais e at supranacionais, como o reino de Frana, o 
imprio de Carlos V (dependente da casa Fugger e das minas de prata) e o imprio 
portugus (dependente do ouro da Mina e da pimenta). Os monarcas, recorrendo 
largamente ao emprstimo, consumindo em massa material de guerra, onde j ento 
figurava a arti-

170
lharia, oferecendo garantias de diversa ordem, estimulam fortemente o crescimento do

capitalismo mercantil. Por vezes a realeza favorece a burguesia mercante; outras 
vezes, ajudada pela concentrao do poder econmico e poltico, actua como vrtice de 
uma aristocracia militar e administrativa, na sua maior parte oriunda da aristocracia 
agrria.

Os bens feudais da Igreja do origem a constantes conflitos entre a Igreja e os 
prncipes, que tendem a chamar a si, no todo ou em parte, o poder religioso e os bens 
eclesisticos, quer separando-se de Roma, como Henrique VIII de Inglaterra, quer 
arrancando-lhe, como o rei de Frana, concesses importantes.

Com o incremento do volume da produo, sob o estmulo do comrcio europeu e

intercontinental, acelera-se o ritmo de desenvolvimento de algumas cidades, 
especialmente no Reno, no Bltico e na Flandres. A burguesia industrial e comercial 
destas cidades resiste s tentativas de dominao empreendidas por Carlos V e por 
outros prncipes. Ao mesmo tempo, o aumento da explorao agrcola, em que se lanam 
alguns senhores feudais, agrava a situao dos camponeses e provoca insurreies 
corno a de 1525 na Alemanha.

Estas circunstncias facilitaram a propagao da heresia religiosa desencadeada pelo 
protesto de Lutero contra a venda de indulgncias, em 1517. Os escritos de Lutero e

outros protestantes tomaram-se rapidamente conhecidos, graas  recente inveno da 
imprensa. A burguesia das cidades, desejosa de se libertar da tutela eclesistica, 
apoiou, em grande parte, o movimento. O mesmo fizeram os prncipes alemes, que 
cobiavam os bens feudais da Igreja. Massas de camponeses, artesos e assalariados 
das cidades insurreccionavam-se em nome do Evangelho contra a complexa frmao 
social - senhorial e mercantil - que os oprimia. Mas Lutero condenou os levantamentos 
populares.

A Igreja atravessa ento um momento difcil. O rei de Inglaterra separa-se do Papa; o 
de Frana toma uma atitude ambgua; e mesmo os prncipes favorveis ao Papa desacatam 
a Santa S, como Carlos V, cujo exrcito em 1527 saqueia Roma. Este famoso sacco

di Rorna, que mesmo certos catlicos interpretaram como castigo divino das intrigas 
tem- porais da Cria romana, revelou at que ponto a religio se sujeitara a 
interesses dinsticos e, em geral, polticos e sociais.


A necessidade duma reforma religiosa  geralmente admitida, at por alguns cardeais. 
Encontra grande favor uma corrente que, sem pr em discusso a autoridade do Papa, 
preconiza a emenda dos abusos e a interiorizao do sentimento religioso. Essa 
corrente, que tem o seu intrprete mximo em Erasmo de Roterdo, chegou a aparecer 
como um compromisso possvel entre Luteranos e *Papistas+.

Aps uma poca de anarquia e de indeciso, define-se a nova fisionomia poltica e

religiosa da Europa. No concilio de Tremo (1545-63) cortam-se as pontes entre os dois 
fragmentos da antiga cristandade: a Pennsula Ibrica torna-se o mais forte baluarte 
do mundo catlico; as cidades do Reno, do Bltico e do mar do Norte, o eixo do mundo 
protestante. A Frana est dividida entre um e outro. No fragmento catlico 
desenvolve-se unia reaco conhecida pelo nome de *Contra-Reforma+, que consiste, sob 
seu aspecto

         171
negativo, numa represso por meios coactivos de todas as manifestaes culturais 
suspeitas de heterodoxia, incluindo manifestaes toleradas durante pocas 
anteriores; e sob o aspecto positivo, numa tentativa de recuperao da Escolstica e 
no desenvolvimento de formas exteriores de devoo. A Inquisio (romana, espanhola e 
portuguesa) torna-se o principal instrumento de represso ideolgica.  Companhia de 
Jesus cabe o papel principal na difuso do novo catolicismo *tridentino+. No mundo 
protestante, as condies foram, em geral, mais favorveis  expanso da cincia, 
assim como  difuso de

uma cultura laica.

As duas mentalidades afrontar-se-o nas guerras com que Filipe H tenta submeter a 
Inglaterra e as cidades da Flandres e Pases Baixos. O imprio espanhol, abrangendo, 
alm da Espanha, Portugal, domnios nas ndias Ocidentais, o Brasil, grande parte da 
Itlia, etc., funcionar em benefcio de uma aristocracia de sangue, servida por uma 
poderosa organizao militar e que possui, alm da maior parte da terra em Espanha, 
postos dominantes no comrcio transocenico e os saques e tributos de guerra ou 
domnio. A

defesa da f catlica  o motivo mais frequentemente invocado por esta aristocracia 
feudal para as guerras no exterior e as confiscaes ou perseguies no interior. Em 
contraste, os Pases Baixos aparecem como uma federao de cidades burguesas 
invocando princpios que mais tarde se diriam democrticos, como o direito ao 
autogoverno e  liberdade de crena.

Em Portugal

Acentua-se, aps a descoberta do caminho martimo para a ndia, o processo de 
concentrao do poder poltico e econmico sob a chefia do rei, iniciado com as 
campanhas do Norte de frica e a explorao do ouro da Mina. A explorao econmica 
do ultramar faz-se grandemente em regime de monoplio da Coroa. Apesar dos progressos 
da burguesia rural e comercial desde o sculo XIV, ela no conseguiu evitar que as 
novas

expanses econmicas fossem na maior parte absorvidas como renda feudal, sob formas 
variadas (rendas da colonizao insular e brasileira, monoplios dos *resgates+ e 
*tratos+

ultramarinos, monoplios de produo interna sujeita a direitos *banais+, e, 
finalmente, administrao da Coroa a favor duma oligarquia), o que dificultou a 
acumulao do capital propriamente dito e seu posterior investimento na agricultura 
e, em geral, na produo interna.


Esta espcie de monoplio comercial ultramarino a favor da nobreza palaciana encontra 
dificuldades crescentes, no s por vcios internos do seu funcionamento, mas tambm 
porque os ataques vindos do exterior - de Holandeses, Franceses, Ingleses, aliados 
por vezes no Oriente a populaes locais - dificultam cada vez mais o domnio militar 
das estradas e feitorias. O sistema entra em crise por meados do sculo XVI. D. Jo o 
III  obrigado a evacuar algumas praas marroquinas. Realizam-se tentativas para 
descobrir novas minas de ouro ou prata na Amrica e na  frica, mas volta-se depois 
ao projecto

172
da guerra africana, tendo em mira a ocupao do reino de Fez. O desastre de Alccer 
Quibir vem agravar a bancarrota econmica com o colapso militar e poltico. A unio 
com Castela apareceu finalmente  maior parte da camada dirigente como uma sada.

E, assim, a Coroa portuguesa integra-se, desde 1580, no sistema de hegemonia 
espanhola, que se mantm at finais da Guerra dos Trinta Anos, cerca de meados do 
sculo XVIL como uma extensa coligao de coroas, distintas mas acumuladas sobre a 
mesma

cabea imperial ou ligadas entre si pela consanguinidade dos monarcas Habsburgos.

No entanto, mesmo dentro de Portugal e Espanha, a burguesia mercantil no deixava de 
progredir, desafiando o monoplio do Estado e o poder da nobreza. Pouco a

pouco domina a praa de Lisboa e o comrcio entre o ultramar e a Europa. Grande parte 
destes homens de negcios descende dos judeus convertidos  fora em 1496 e 
efectivamente assimilados. Daqui tiram pretexto os crculos dirigentes para instituir 
a Inquisio (1536), em teoria dirigida sobretudo contra a prtica clandestina do 
judasmo. Graas ao Santo Ofcio, estabeleceu-se a discriminao contra os *Cristos-
Novos+ , verdadeiros ou supostos descendentes dos Judeus, que eram grande parte dos 
*homens de negcios+, e tentou-se impedir o acesso deles a postos de direco no 
Estado, na Igreja e at na

Universidade; ao mesmo tempo que, atravs do fisco inquisitorial, se expropriava uma

parte dos seus bens. Esta perseguio foi contraproducente, pois teve, entre outros 
resultados, o de que muitos cristos-novos emigraram e constituram uma rede 
internacional com ncleos na Holanda, na Frana, na Inglaterra, no Brasil, no Peru, 
na frica e na ndia, pelas malhas da qual passava uma grande parte do comrcio 
mundial. Atravs destas relaes, a burguesia mercantil portuguesa tende a ganhar um 
carcter cosmopolita.

Aspectos culturais: Renascimento, Humanismo e Classicismo

O desenvolvimento do comrcio, das actividades industriais e das cidades relaciona-se 
com o grande movimento que se designa pela palavra Renascimento em sentido lato. A 
velha cultura clerical no consegue satisfazer as novas necessidades e aspiraes 
culturais. E alguns grandes acontecimentos, aparentemente sbitos, mas na realidade 
preparados por um longo processo, transformam rapidamente o horizonte mental dos 
grupos sociais mais dinmicos.


A descoberta da tipografia em meados do sculo XV  estimulada pela existncia de um 
pblico em crescimento, para o qual j no bastava a reproduo manuscrita do livro. 
Mas essa inveno, de alcance a princpio insuspeito, alm de mostrar  evidncia as 
possibilidades da tcnica, acelerou prodigiosamente a difuso das ideias e das 
notcias, e constituiu-se em poderoso factor de transformao ideolgica.

O descobrimento do caminho martimo para a ndia e o da Amrica - ambos rapidamente 
divulgados pela imprensa - assim como o encontro de civilizaes desconheci-

           173
das, como a chinesa, modificam as concepes multisseculares do Europeu acerca do 
planeta, dos costumes e das crenas.

Outras invenes e aperfeioamentos tcnicos, como a artilharia, os novos processos 
de explorao de minas, etc., mostram de forma flagrante as possibilidades de domnio 
da natureza, abrindo caminhos para a cincia conexamente matemtica e experimental, 
que ser um facto no final do sculo XVI com os trabalhos de Galileu.

No surpreende por isso que aqui e alm, sobretudo antes de se desencadearem e depois 
de terminarem as lutas religiosas que ensanguentaram os meados do sculo XVI, 
principie a esboar-se um moderno ideal de sociedade, sob a alegoria, por exemplo, de 
uma distante cidade quimrica e racionalizada, sem tribunais nem violncias - a 
Utopia (1516) de Toms Morus (a que se seguiram, mais tarde, a Cidade do Sol, escrita 
em

1602 na priso por Campanella, e a Nova Atlntida, 1627, de Francisco Bacon).

 neste contexto que se torna possvel uma assimilao muito mais ampla da cultura 
greco-latina. Embora alguns autores latinos no fossem ignorados antes do sculo XV 
(especialmente Sneca, Ccero e Ovdio) e muitos lugares-comuns literrios da 
Antiguidade tivessem feito caminho at  literatura corts atravs das obras do clero 
medieval, certas facetas da cultura clssica eram inassimilveis pelo mundo feudal e 
agrrio. O desenvolvimento da sociedade mercantil e de toda uma cultura ligada  sua 
experincia pe em causa a sntese doutrinria lentamente elaborada pelo clero das 
universidades nos sculos

imediatamente anteriores, e um dos efeitos desta situao  o alargamento da 
curiosidade a outros aspectos do patrimnio cultural antigo em que, contrariamente  
Escolstica, se dignificassem as actividades civis, o saber prtico ou especulativo 
sem directrizes teolgicas, o lucro e a operosidade mercantil, a inteligncia e at o 
corpo humano, a vida

terrena. Pouco a pouco, o esquema teolgico da Criao, Queda e Redeno serve de 
modelo a este outro: Luzes greco-romanas, Trevas *gticas+ e monacais, Renascer da 
cultura antiga. Daqui a designao de Renascimento, que alis s mais tarde se 
comeou

a usar explicitamente em relao ao Quattrocento (sculo XV italiano) e a uma parte 
(cuja demarcao  problemtica) do sculo XVI europeu. Os quatrocentistas italianos 
ainda no atacam a Escolstica de frente: encarecem apenas o magistrio literrio dos 
clssicos antigos, e apuram novos mtodos histrico-filolgicos que permitam a sua 
fiel recuperao.

Os promotores deste movimento so os Humanistas, letrados cuja actividade se exerce


geralmente fora da hierarquia clerical, e que constituem um grupo cada vez mais 
numeroso. Alguns gozam de sinecuras eclesisticas ou seculares, outros exercem 
funes diplomticas e de chancelaria, muitos so pedagogos leccionando em colgios 
ou casas senhoriais e burguesas. A palavra humanismo com que se designou este 
movimento, inspirada pelo conceito de humanitas (o da humanidade, ou qualidade 
humana, como cultura e estrutura moral) de Ccero, exprime a crena num conjunto de 
valores morais e estticos universalmente humanos, os quais se achariam definidos 
tanto nas Escrituras e na Patrstica

como na cultura profana da Antiguidade.

174
J Petrarca, herdeiro da poesia provenal, coroado no Capitlio (1341), como prncipe 
dos poetas,  maneira romana, viaja incansavelmente em busca de cdices latinos.

Boccaccio (1313-1375), Poggio (1380-1459), Alberti (1404-1472) e outros letrados 
italianos descobrem e do a conhecer textos ignorados de Tcito, Ccero, Quintiliano, 
Tito Lvio. Prelados bizantinos fixados em Itlia por ocasio dos conclios 
quatrocentistas, outros intelectuais de Bizncio, posteriormente fugidos aos Turcos, 
e eruditos italianos, como Filelfo, e Lorenzo Valla (1405-1457), criador da filologia 
clssica -, contribuem para a revelao da lngua e da literatura helnicas, quase 
completamente ignoradas no

Ocidente medieval.

Os primeiros focos desta cultura *renascida+ situam-se em Florena, onde Cosme de 
Mdicis, por influncia do neoplatnico Marslio Ficino, funda a clebre Academia

Platnica, frequentada por Pico della Mirandola, Leo-Baptista Alberti e outros; 
Ficino e Mirandola procuraram incorporar na doutrina crist tradies esotricas 
afins do neoplatonismo, como a do hermetismo de pretensa origem egpcia, a do 
misticismo dos Gnsticos e a da Cabala judaica, incluindo a alquimia e a astrologia; 
este esoterismo permeia todo o Renascimento e apresenta, mesmo posteriormente, 
complexas ligaes com as cincias matemticas e experimentais nascentes. O 
Renascimento encontrou importantes apoios na corte pontifcia, nas de vrios 
prncipes italianos (e depois transalpinos) e ainda nas

cortes dos burgueses ou dos condotticri que dominam Milo, Ferrara, Mntua, Rimini, 
etc.


Por incios do sculo XVI, e sobretudo por 1520-30, o movimento humanista (italiano) 
transpe os Alpes. Entretanto os seus prprios progressos de rigor erudito e a crise 
religiosa criam condies para uma atitude mais ofensiva. Os mtodos de crtica 
histrico-filolgica aplicam-se s Escrituras e  Patrstica, nos seus textos 
originais hebraicos, gregos e latinos, com o mesmo -vontade com que tinham versado 
autores profanos. Os Humanistas arrostam ento com a resistncia das velhas 
universidades, e especialmente das Faculdades de Teologia. Em Paris, os Humanistas, 
em luta com a Sorbona, levam Francisco I a fundar o Collge Royal (1530), onde se 
ensinam, alm do Latim, o Grego e o Hebraico, e que conta entre os seus mestres o 
grande helenista Guilherme Bud. Em Espanha, o Humanismo consegue penetrar na 
Universidade de Salamanca e inspira a fundao pelo cardeal Cisneros da Universidade 
de Alcal de Henares (1508), que tem entre os seus mestres o grande fillogo Antnio 
de Nebrija. Foi nesta universidade que se preparou e editou em 1571 a Bblia 
poliglota (em latim, grego e hebraico). Em Lovama funda~se o Colgio Trilingue, onde 
ensina Juan Luis Vives. Em Vitemberga distingue-se Melancliton (forma helenizada do 
seu apelido: Schwarzerd -  letra Terra Negra).

A difuso da cultura clssica  favorecida pelas novas tcnicas de produo do livro. 
Entre outros, Aldo Mancio, de Veneza, lana-se, em 1493, num vasta empresa de edio 
dos clssicos greco-latinos e das obras de exegese dos Humanistas, precursoras da 
Reforma.

Os humanistas de 1520-30 atacam directamente a Escolstica. Sob o ponto de vista 
pedaggico, o seu ideal  a realizao harmoniosa das faculdades morais e estticas 
do

         175
indivduo, ideal que  exaltado e difundido por Juan Luis Vives, Melancliton, 
Guilherme Bud, Antnio de Nebrija, Erasmo, e outros. Em lugar da dialctica e da 
retrica formalistas e disputadoras, propunham a leitura e o comentrio dos textos de 
autores clssicos, tendentes a apreender, pela crtica filolgica e histrica, o seu 
significado preciso. s matrias tradicionais acrescentavam outras, como a Histria e 
(progresso decisivo) as

obras dos autores cientficos da Antiguidade.

Sob o ponto de vista filosfico, os Humanistas combatem o aristotelismo escolstico; 
muitos voltam-se para Plato e para os filsofos neoplatnicos (especialmente 
Plotino), facilmente conciliveis com o Cristianismo (cuja teologia foi estruturada 
pelo neoplatonismo), e que autorizam uma religiosidade intimista, seguindo assim no 
encalo da Academia Platnica de Florena, j mencionada. Outros renovam o 
aristotelismo, quer seguindo a corrente pantesta e materialista de Averris 
(averrosmo de Pdua, s culo XV e incio do XVI), defendido por Pomponcio (1462-
1542) de acordo com o comentador grego Alexandre de Afrodsias; quer tentando a 
barmonizao do aristotelismo e do platonismo, como Bessario em Roma e Ermolao 
Brbaro em Veneza.

Em matria religiosa, muitos humanistas (em regra, os mais prximos da Reforma) 
preconizam o regresso a um cristianismo primitivo, enquanto outros, como Erasmo, 
vivem uma f autorizada pelas Escrituras mas aberta a um progresso exegtico 
permanente. Todos concordam, todavia, em descartar-se da dialctica elucubratria e 
anistrica das Escolas

medievais, condenam as exterioridades formalistas do culto, o excesso da tutela 
clerical

sobre os leigos mesmo mais cultos e exemplares, o monaquismo ocioso, a insinceridade

ritualista e a suficincia doutoral. Encontram-se frequentemente em contradio com a

doutrina oficial da Igreja, nas fronteiras da heresia. J Lorenzo Valla demonstrara a 
apocrifia do famoso texto de doao ao Papa da cidade de Roma pelo imperador 
Constantino. Erasmo, coleccionando, comparando e traduzindo diversos textos gregos da 
Bblia,  levado a pr em dvida certas interpretaes e at certos dogmas 
tradicionais. Alguns humanistas, como Melancliton, Lefevre d'taples, Reuchlin, 
aderem  Reforma; outros,

como o prprio Erasmo, hesitam muito tempo entre ela e a ortodoxia romana. Outros

ainda, como o cardeal Sadoletto, inclinam-se para uma reforma dentro da Igreja 
Romana.


Enfim, sob o ponto de vista social, os Humanistas advogam a escolha dos dirigentes 
segundo o saber e a capacidade, condenam a guerra e abeiram-se por vezes do ideal 
moderno de tolerncia, preconizando, nomeadamente, uma soluo pacfica (irenismo) 
dos dissdios entre cristos: o Cristianismo consistiria numa f ntima e vivida, 
mais do que em teorias ou ritos, ento fanaticamente discutidos.

Muitos humanistas, dependentes de sinecuras eclesisticas ou palacianas, procuram 
evitar as polmicas arriscadas e inteis, canalizando os seus entusiasmos para a 
simples ressurreio do mais puro classicismo estilstico em latim ou grego.  uma 
nova aristocracia intelectual que assim se forma, abroquelada atrs do privilgio de 
um saber dif-

176
cil, com expresso em lnguas mortas, que exige talento e cio, varrendo a brbara 
terminologia escolstica, substituindo a subtileza lgica pela elegncia verbal. Esta 
tendncia generalizou-se,  medida que a represso instaurada pela Contra-Reforma 
tornou perigosas todas as manifestaes de audcia e de iniciativa mental. Certo 
Humanismo cortou

por fim o contacto com as foras e aspiraes a que devia quer a existncia quer o 
prprio nome, convertendo-se numa erudio formalista.

Pela sua vida e pelas suas obras, o mais tpico representante dos Humanistas  
Desidrio Erasmo, de Roterdo, recebido, solicitado e recompensado pelos mais 
poderosos soberanos do tempo (Carlos V, Leo X, Paulo III, Henrique VIII, Francisco 
1, D. Joo III), que viaja atravs da Europa e afirma ostensivamente o seu 
cosmopolitismo, carteando-se em latim, nica lngua que utiliza, com correspondentes 
de todas as nacionalidades.

Procurou manter-se fora das lutas religiosas, apesar de solicitado pelo Papa e por 
Lutero; mas, pelas suas edies e exegese bblicas, pela denncia da corrupo 
eclesistica, pela critica da Escolstica, pela campanha contra o ritualismo, criou 
uma corrente religiosa reformista que chegou a ter numerosos e influentes adeptos.

O esforo dos Humanistas para criar uma religio, uma filosofia, uma moral e uma 
pedagogia que substitussem as do mundo feudal no consegue todavia integrar todas as

tendncias que se manifestam no Renascimento. Com a sua erudio livresca, sem 
abertura para a actividade produtiva, o humanista no realiza a sntese entre a 
cincia terica

da Antiguidade e as realizaes tcnicas de *prticos+ como Bernardo de Palissy 
(Recette vritable, 1563). No encontra resposta para certos problemas religiosos e 
morais postos pela descoberta de novas civilizaes, problemas que do argumentos ao 
cepticismo filosfico de Montaigne e outros. Deixa de fora, igualmente, o desiderato 
da laicizao do Estado, a que Maquiavel responde colocando este acima da moral 
religiosa (0 Prncipe,
1516). Enfim, no cabem dentro do Humanismo certas formas extremas de esteticismo e 
individualismo, representadas por personalidades como Celini, Aretino, Miguel ngelo, 
para quem a realizao pessoal e o culto da beleza esto acima de quaisquer normas 
religiosas ou morais. Esta ltima tendncia  muito caracterstica de algumas cortes 
italianas do Renascimento, incluindo em dada fase a pontifcia, e da corte de 
Francisco I de Frana.


O Humanismo adoptou como modelos as regras, os gneros, as formas mtricas, os 
recursos estilsticos, a disciplina gramatical dos antigos autores gregos e romanos. 
No cabe considerar-se aqui o uso das lnguas literrias clssicas, que ps os seus 
prprios problemas de adaptao vocabular e fontica, ento muito debatidos. 
Problemas ainda mais graves punha-os a adaptao das lnguas modernas ao estilo 
antigo. As normas literrias prescritas pela Potica de Aristteles, pela Arte 
Potica de Horcio, pelos preceitos retricos de Ccero, Quintiliano e Plnio, o 
Moo, s limitadamente poderiam aproveitar aos escritores quatrocentistas e 
quinhentistas, de mentalidade diferente (embora nem sempre tendo conscincia disso) e 
embaraados por um meio lingustico tambm diferente, que no permitia, por exemplo, 
a versificao antiga.

          177
Os escritores do *Quattrocento+ italiano deram incio aos esforos em tal sentido, 
realizando as primeiras snteses entre a tradio literria nacional e os modelos 
*clssicos+, os modelos por excelncia, os da Antiguidade. O classicismo de incios 
do sculo XVI consistiu, por isso, numa latinizao directa, ou por via dos 
latinizantes italianos, das diversas literaturas nacionais, quase sempre feita com o 
desequilbrio, o exagero de todas as inovaes. Foi o que aconteceu com o grupo 
francs da *Pliade+. O manifesto desta escola, Dfense et Mustration de Ia Langue 
Franase, redigido em 1549 por Joachin du Bellay, s concebe o enriquecimento do 
idioma nacional atravs da imitao sistemtica, ou, segundo uma metfora militar 
caracterstica, a *pilhagem+ dos clssicos antigos, e atravs do virtuosismo formal. 
As guerras de Itlia, as lutas entre a Casa de Frana e a Casa de  ustria, colocam 
as aristocracias francesa e espanhola em contacto

com o Renascimento italiano e precipitam a italianizao maior ou menor das 
principais literaturas europeias, sobretudo a partir de fins do primeiro quartel do 
sculo XVI, embora, como vimos, o terreno j estivesse preparado muito antes.

A adopo dos gneros literrios, de certas formas mtricas de tradio greco-romana 
ou quatrocentista italiana, bem como de referncias culturais (como a mitologia), 
manter-se- predominante at ao sculo XIX, apesar de certas oscilaes a que 
atenderemos, e isso deu origem ao uso do termo *classicismo+ como nome genrico de 
toda a literatura

compreendida entre a Idade Mdia e o Romantismo. Todavia assistimos, no decorrer 
destes trs sculos, a importantes alteraes no teor de vida, na ideologia e nas 
formas patentes de sensibilidade artstica e literria, o que recomenda uma 
periodizao diferente.

Deste modo, vingou entre muitos investigadores da histria da arte e da literatura

a tendncia para restringir o uso do termo *classicismo+. Mais especificamente, o 
Classicismo renascentista, ou Renascimento, tende a cobrir apenas o *Quattrocento+ 
italiano

e um perodo muito breve de incio do sculo XVI europeu. Esse perodo, tambm 
designado como Alta Renascena, assinalar-se-ia pela fase mais expansiva e atrevida 
do Humanismo literrio e critico, pelo prestgio absorvente dos modelos clssicos 
greco-romanos, por uma concentrao de meios artsticos que tem a sua expresso mais 
caracterstica na rigidez geometrizante das leis da perspectiva cnica, numa 
pretenso de intemporalidade das alegorias mitolgicas, na busca de um equilbrio 
sereno entre o ideal e o real, entre o esprito e a natureza.


A partir de cerca de 1520, avolumam-se os sinais de uma desagregao dos ideais 
estticos do Alto Renascimento: a maneira, ou estilo individual, de um artista como 
Miguel ngelo comea a ser mais apreciada pela sua carga de insatisfao espiritual 
do que pela apreenso, em perspectiva, em equilbrio mecnico ou proporcionalidade 
anatmica, daquilo que haja de essencial e imanente a este mundo, tal como  
caracterstico de Leonardo da Vinci. Os motivos de ateno plstica ou potica 
despolarizam-se, criando tenses insolveis e no raras vezes um sentimento perplexo 
de irrealidade em torno de figuras ou objectos minuciosamente observados. A arte 
ope-se  natureza comum, em vez de

lho procurar a essncia. Admiram-se a sugesto de graa numa atitude improvvel, as
178
posies contorcidas como uma serpente ou uma lngua de fogo ascensional (figura 
serpentnada), a insinuao do suspenso ou inconsumado; os prprios lugares-comuns 
clssicos ou petrarquistas de transitoriedade da vida e das contradies do 
sentimento requintam-se numa pungncia mais subtil, num estilo torturado; o belo 
aparece s vezes

contrapontado com o disforme; e o tom humoral mais caracterstico  o de um 
pessimismo ora pattico ora surdamente cerebral, ou o de um senso resignado e cptico 
de incompreensibilidade radical ou labirntica da vida.

Estas caractersticas tpicas do perodo de entre 1520 e 1620, aproximadamente, so 
muitas vezes postas em relao directa ou indirecta com o recuo do Humanismo 
interventor, optimista e conciliatrio perante o desencadeamento dos grandes 
conflitos religiosos, dinsticos e sociais, com a reduo final desse Humanismo a 
simples erudio ou elegncia de estilo, com a Contra-Reforma tridentina, com a 
generalizada represso censria, com fracturas da integridade tica (por exemplo, o 
reconhecimento de uma razo de Estado alheia  moral corrente, que Maquiavel formulou 
em 1516 em O Prncipe); e, tambm, com uma crise de relaes sociais e polticas 
agravada pelo surto do comrcio transocenico e que apenas no sculo XVII conduz a um 
novo sistema de equilbrio. Surgiro ento o absolutismo rgio, a razo cientfica 
mecanicista, e um novo estilo, o

Barroco, cuja pompa decorativa, cujo maior poder de integrao organizativa de 
elementos anteriormente contraditrios (pitoresco sensorial e racionalidade, requinte 
e grotesco, aristocratismo e populismo, por exemplo) daro um novo sentido global a 
certas linhas de continuidade, ou alternncia, renascentistas ou maneiristas.

Aspectos gerais do Renascimento em Portugal

O desabrochar do Humanismo em Portugal realiza-se sob a gide da Coroa, e foi

o Pao o principal foco da cultura literria.


D. Afonso V, educado por italianos - Estvo de Npoles e Mateus Pisano (que escreveu 
uma crnica latina da tomada de Ceuta) -, fez vir o humanista Justo Baldino para 
verter em latim os cronistas portugueses, e foi o mecenas de Zurara. O humanista 
Cataldo Siculo instruiu D. Joo II e a sua roda de cortesos. Muitos nobres e 
eclesisticos vo ento a Itlia, especialmente a Florena, para assegurar uma boa 
carreira mediante o conhecimento de *letras mais humanas+, preferindo como mestre o 
prestigioso ngelo Policiano, que procurou acolher-se ao mecenato da corte 
portuguesa, tal como vrios outros humanistas clebres de fins do sculo XV e incios 
do sculo XVI, incluindo Erasmo.

D. Manuel parece ter sido o primeiro monarca a animar com penses estes estudos no 
estrangeiro, que at ento estavam principalmente a cargo dos institutos religiosos, 
e D. Joo III criou em 1527 cinquenta bolsas no clebre colgio universitrio 
parisiense de Santa Brbara. Alguns dos estudantes bolseiros tornaram-se celebridades 
europeias.

Contam-se entre eles Aires Barbosa, que introduziu os estudos helensticos na 
Universidade de Salamanca, onde tambm professou Pedro Margalho; e Aquiles Estao, um

          179
dos mais notveis comentaristas filolgicos dos textos clssicos. O Colgio de Santa 
Brbara foi durante largos anos dirigido por portugueses. Salientam-se especialmente 
os Gouveias: Diogo de Gouveia, o Velho, importante personalidade da Sorbona, que  
alis um

defensor zeloso da velha Escolstca; e os seus sobrinhos: Antnio, que se celebrizou 
numa polmica a favor de Aristteles contra Pierre Ia Rame e que ensinou em vrias 
universidades francesas; Marcial, erasmista, que ensinou tambm em Poitiers; Andr, 
reformador dos estudos conimbricenses; Diogo de Gouveia, o Moo, que professou tambm 
em Coinibra.

So numerosos os letrados portugueses relacionados com os principais humanistas 
europeus, quer como discpulos, quer corno protectores, quer simplesmente como amigos 
ou correspondentes; entre eles podemos distinguir Andr de Resende, precursor 
incrtico e algo falsrio da arqueologia (De Antiquitatibus Lusitaniae, 1593), cuja 
Oratio pro rostris, na abertura das aulas da Universidade de Lisboa em 1534, se pode 
considerar o grito de guerra do Humanismo contra a Escolstica em Portugal; e Damio 
de Gis, de quem voltaremos a falar, e que era amigo, como o anterior, de Erasmo.

Sob os governos de D. Manuel e D. Joo III, verifica-se uma forte tendncia para 
intensificao da cultura literria. Na poca de D. Manuel torna-se obrigatrio para 
os

moos da corte o ensino da gramtica. Imprimem-se cartilhas para aprender a ler (Joo 
de Barros, 1539, Frei Joo Soares, 1550). Muitos moos fazem a sua primeira 
aprendizagem literria na corte.  o caso de Joo de Barros e de Diogo do Couto. As 
prprias mulheres da aristocracia se mostram interessadas na cultura literria. Lusa 
Sigea parece ter estudado, no s latim e grego, mas hebraico, siraco e aramaico. 
Esta e outras notabilidades femininas foram protegidas pela infanta D. Maria, filha 
de D. Manuel. Pblia Hortnsia de Castro, menina-prodgio, doutorou-se aos dezassete 
anos de idade.

D. Joo HI empreendeu uma reforma da Universidade pela qual procurou desenvolver, 
dentro dos velhos cursos de Artes, os estudos humansticos; para esse fim, 
transferiu-a para Coimbra e subordinou-a ao Mosteiro de Santa Cruz desta cidade, 
tendo previamente mandado vir professores do estrangeiro. Anos depois, aps 
insistentes convites do rei, veio para Portugal Andr de Gouveia, humanista convicto, 
principal do Colgio da Guyenne (onde estudou Montaigne, que elogiou Gouveia como *le 
plus grand principal de France+). Em 1548 Gouveia e o seu grupo de professores, 
alguns notveis - Jorge Buchanan, Nicolau Grouchy, Diogo de Teive, Joo da Costa e 
outros -, inauguraram em Coimbra o novo Colgio Real, directamente subordinado ao rei 
e completamente independente da Universidade. Desde o incio se verificou um grande 
concurso de alunos vindos da nobreza.


A difuso da tipografia faz-se com relativa lentido. Entre as primeiras impresses 
predominam as de livros em caracteres hebraicos, para uso da comunidade hebraica. O 
mais antigo livro cristo impresso em Portugal , talvez, O Sacramental de Clemente 
Sanchez de Verceal (1487-88), seguido de um Tratado de Confisso, 1489, ambos impres~ 
sos em Chaves. Em 1494 imprime-se o primeiro livro em latim, o Breviarium bracarense, 
em Braga, numa oficina alem. So alemes os primeiros tipgrafos. Entre os primeiros 
livros portugueses impressos (8 antes de 1500), salientam-se tradues da Vita

180
Christi de Ludolfo de Saxnia (1495) e da Histria de Vespasiano (1496), romance de

cavalaria, o Almanach Perpetutun de Abrao Zacuto, obra importante para a astrologia 
e para a navegao (1496), e ainda do Livro de Marco Plo (1502). Anos depois, em

1516, a impresso do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende  uma curiosa e 
significativa manifestao do interesse da corte por assuntos literrios, o mesmo 
podendo dizer-se da Crnica do Imperador Clarimundo do moo Joo de Barros, em 1520. 
No entanto, antes de 1536 a impresso de livros  escassa e como que excepcional.

Os volumes acima indicados destinam-se a um pblico selecto, predominantemente 
corteso, o nico, alis, com acesso ao objecto caro e raro que era, nesta data, o 
livro

impresso. Mas desde cedo se imprimem tambm pequenos folhetos com obras destinadas a 
mais larga difuso.  o caso do Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente, impresso 
cerca de 1518, e de outras obras que constituem a chamada *literatura, de cordel+, 
cujos exemplares se vendiam nas ruas.

Como iniciadores dos Descobrimentos martimos, os Portugueses tiveram um grande papel 
no Renascimento. As viagens ao largo da costa africana exigiam numerosos 
aperfeioamentos, adaptaes e invenes tcnicas. O astrolbio, instrumento 
utilizado pelos astrlogos, foi adaptado  determinao das latitudes no alto mar. O 
conhecimento dos

ventos e das correntes martimas contribuiu muito para a determinao da rota que 
permitiu dobrar o cabo da Boa Esperana. As embarcaes utilizadas na navegao  
vista da costa tiveram de ser modificadas para as longas viagens atravs dos oceanos. 
A cartografia registou novas terras. Para alm do equador os navegadores encontravam 
estrelas desconhecidas, e por elas tiveram de regular a navegao. Todo este caudal 
de conhecimentos e toda a tradio tcnica acumulada em poucas dezenas de anos, assim 
como a

confiana que elas inspiravam, possibilitaram um empreendimento como a viagem de 
circum-navegao levada a cabo por Ferno de Magalh es em 1521 - porventura o mais 
importante acontecimento cientfico do sculo.


A experincia naval transocenica levantou dvidas crescentes sobre muitas concepes 
antigas de transmisso literria. Duarte Pacheco Pereira, que entre 1505 e 1508 
registou a sua prtica de navegador no Esincraldo de Situ Orbis, afirma que *a 
experincia  a me de todas as coisas+, e em nome dela rejeita certos mitos da 
Antiguidade (mas no todos). D. Joo de Castro nos seus Roteiro de Lisboa a Goa 
(referente a uma viagem de 1538) e Roteiro do Mar Roxo anota experincias j pr-
cientficas sobre a declinao magntica, na continuidade do rigor j quase algbrico 
do seu mestre, o Dr. Pedro Nunes, cosmgrafo-mor do Reino. Este, por sua vez, embora 
de formao universitria, est inteiramente ligado  prtica nutica, para a qual 
escreve *regimentos+ com um rigor conceptual que confere novo sentido ao termo 
*experincia+, to encarecido pelos peritos navais portugueses, embora nem sempre os 
pilotos considerassem esses regimentos adequados aos seus problemas pr ticos.

Esta atitude comunica-se a outros ramos. Garcia de Orta, de origem liebraica (foi 
processado postumamente, e os seus ossos queimados pela Inquisio), e amigo de 
Cames, dedica-se ao estudo da farmacopeia oriental em Dilogos dos Simples e Drogas 
(1563),

            181
que despertaram enorme curiosidade europeia, como atestam numerosas tradues totais 
(4 tradues latinas em Anturpia entre 1567-93, cujo texto serviu de base a trs 
italianas de 1576 a 1615 e a duas francesas de 1602-19, fora as tradues e 
incorporaes parciais). Amato Lusitano aplica largamente  medicina a atitude de 
observao emprica.

Como  natural, tal critrio de apreciao directa e prtica incide sobre domnios 
limitados. Por qualquer razo, no se deu em Portugal a generalizao e 
sistematizao desta atitude empirista como mtodo cientfico aplicvel a outras 
disciplinas. Assistiremos, pelo contrrio, a um renovo da Escolstica. Analogamente, 
descobertas como a

de novas faunas e flores, formas de civilizao, etc., no chegaram a transformar 
pela raiz a mundividncia tradicional. Foi pouco a pouco e nas regies social e 
economicamente mais adiantadas da Europa que tal transformao se operou. Algumas 
marcas importantes deixou todavia na nossa literatura a realizao das descobertas, 
como veremos.

Outro aspecto a considerar no Renascimento portugus  a influncia do Humanismo.
O Humanismo filolgico e erudito inspirou dicionrios e gramticas do latim clssico 
(Estvo Cavaleiro, 1516, Jernimo Cardoso, 1570); comentrios filolgicos, edies 
crticas de clssicos latinos (Martinho de Figueiredo, Aquiles Estao); a 
latinizao, sobretudo lexical e sintctica, da lngua literria (Barros, Cames, 
etc.); o uso do latim, e mais escassamente do grego, em discursos, cartas, obras de 
apologia nacional ou de panegrico dos grandes (Andr de Resende, Gis, Jernimo 
Osrio), todo um conjunto de poesias em latim, sobretudo buclicas (Henrique Caiado, 
Jorge Coelho, as irms Sigeas, Joana Vaz, e outros includos no Corpus Iflustrium 
poetarum lusitanorum qui ]atine scripscrunt, editado pelos padres Antnio dos Reis e 
Manuel Monteiro em 1745-48).  tambm por influncia humanista que se fazem as 
primeiras gramticas portuguesas, acompanhadas de uma exaltao do idioma ptrio. Tem 
a primazia um homem com uma vida mirabolante, que foi mestre universitrio, agente 
diplom tico e tcnico naval, Ferno de Oliveira, 1536, seguido por Joo de Barros, 
1540, mais latinizante, e pelas *Ortografias+ de Magalhes Gndavo, 1562 (reimpresso 
fac-similada, Biblioteca Nacional, 1981) e Duarte Nunes do Leo, 1576 (reedio 1784, 
1864 e 1983).

Mas a influncia do Humanismo no se limitou a estas manifestaes eruditas. Veremos 
que a leitura de Erasmo se faz sentir muito em Joo de Barros e talvez em Gil 
Vicente.
O erasmismo, protegido na corte de Carlos V, parece ter-se propagado  corte 
portuguesa: a rainha D. Catarina, irm daquele imperador, possui livros do humanista 
de Roterdo, que em 1533 foi convidado pelo rei a vir ensinar em Portugal. Nesse 
mesmo ano


Andr de Resende publica um enrgico Encomium Erasmi em verso, que Aires Barbosa 
tentou rebater noutro poema latino, Antmoria (1536).  erasmista convicto um dos 
professores convidados aquando da transferncia da universidade para Coimbra, Joo 
Fernandes, que ainda em 1546 publica uma edio dos Adgios adaptada s suas aulas de 
Retrica. Veremos tambm que em S de Miranda e no seu crculo se manifestam 
tendncias como o estudo do texto bblico, alm de crticas s tendncias sociais 
prevalecentes; e que Antnio Ferreira  o porta-voz de alguns ideais caractersticos 
dos Humanistas, como o da superioridade do saber sobre o sangue e a riqueza.

182
O Humanismo como impulso criador e crtico anima, pode dizer-se, a primeira metade do 
sculo XVI e atinge o seu apogeu pouco antes de 1550 com o Colgio Real das Artes

e o magistrio dos humanistas a ele ligados, incluindo as representaes acadmicas 
de teatro clssico. Neste meio ou perto dele se formam algumas personalidades que 
viro a revelar-se na segunda metade do sculo, como Cames, Antnio Ferreira, Jorge 
Ferreira de Vasconcelos e Heitor Pinto. Mas entre as duas metades o contraste  
flagrante: ao optimismo, confiana e audcia dos que escreveram cerca de 1540 
corresponde o sentimento de crise - assumindo s vezes formas pungentes - dos homens 
que escrevem

cerca de 1570; e o retraimento, produto da prudncia, do desnimo, por parte dos que 
se lhes seguem.

A Contra-Reforma e a unio com a Espanha

Cerca de 1550 ocorrem, com efeito, alguns acontecimentos decisivos, que coincidem com 
a crise geral atrs aludida. Em 1547  definitivamente estabelecida a Inquisio em 
Portugal, aps esforos que datavam de 153 1. Naquele mesmo ano sai o primeiro rol de 
livros proibidos, sucessivamente acrescentado em 1551, 1561, 1564, 1581, 1624. Em 
1550 o grupo de professores trazido a Portugal por Andr de Gouveia O falecido em 
1548)  posto  margem aps um processo movido por inimigos do Colgio. Em 1555 o rei 
entrega este colgio, rebaptizado como Colgio das Artes,  Companhia de Jesus, que 
ento dominava os Estudos Menores (hoje diramos secundrios) em Lisboa e vora, e 
que no mesmo ano funda uma universidade sua nesta ltima cidade. A partir de 1557, 
ano da morte de D. Joo III, a principal personagem do reino  o cardeal-infante D. 
Henrique, inquisidor-geral, que alterna a regncia com a rainha-viva. Em 1564 as 
decises do concilio de Trento so promulgadas em Portugal sem restries, caso nico 
entre os

reinos da Europa Ocidental. Desde cerca de 1550 foram silenciados mesmo os mais 
estrnuos erasmistas, como Andr de Resende, Damio de Gis e Diogo de Teive, e por 
1580 est extinta a gerao dos letrados e gramticos antiescolsticos que tinham 
campeado por altura das grandes reformas escolares do incio do reinado de D. Joo 
III. Mesmo Heitor Pinto, que to bem conhece os clssicos, preconiza em 1572 a 
subordinao das belas-artes  obra pia de salvar as almas.


Entre os autores proibidos ou amputados pela Censura contam-se Gil Vicente, Bernardim 
Ribeiro, S de Miranda, Joo de Barros, Jorge Ferreira de Vasconcelos, Jorge de 
Montemor, Antnio Ferreira. Nenhum livro podia sair, na segunda metade do sculo XVI, 
sem trs licenas: a do Santo Ofcio, a do Ordinrio eclesistico na diocese 
respectiva e a do Pao. O relator do Santo Ofcio examinava o livro em manuscrito e 
obrigava o autor a alter-lo, amput-lo ou acrescent-lo, antes de lhe conceder a 
frmula *nada contm contra a nossa Santa F e bons costumes+. E, assim, desde a 
segunda metade do sculo XVI at  reforma pombalina da Censura no podemos afirmar 
que conhecemos o texto original de uma obra impressa, mas somente um texto ao qual os 
censores

           183
anuram. A impresso, a venda, a herana e a entrada de livros vindos do estrangeiro 
estavam sujeitas a apertada vigilncia, incluindo inspeces domicilirias, 
declaraes peridicas obrigatrias e as mais graves penalidades, com recompensa de 
denncias secretas  custa dos bens confiscados.

Aos efeitos da Contra-Reforma vieram juntar-se, a partir de 158 1, os da unio com 
Espanha. Do primeiro resultou, como apontmos, murcharem as promessas do Humanismo. O 
segundo teve como consequncia o desaparecimento da corte de Lisboa, o foco literrio 
mais estimulante do Pas. Os homens de letras e artistas, que at ento viviam 
sobretudo da munificncia rgia, procuraram a proteco da corte de Madrid, ou 
acolheram-se ao mecenato das maiores casas senhoriais, como as dos condes de Vila 
Real e dos duques de Bragana. Outros viveram  sombra das ordens religiosas a que 
pertenciam, tratando uma temtica predominantemente devota. O teatro, o grande gnero 
das cortes monrquicas do sculo XVII, decaiu aps as criaes de Gil Vicente e 
Antnio Ferreira. Na lrica e na pica os padres renascentistas mal se renovaram. Na 
prosa, o primeiro plano da cena  ocupado pelos cronistas das diversas ordens 
religiosas, quer se ocupem da histria do Reino, quer da dos conventos e santos 
respectivos. Tirante os discpulos dos quinhentistas refugiados em vrias *cortes na 
aldeia+, o clero refora a posio predominante na produo literria.

A Universidade de Coimbra, que se tornou um dos principais focos da neo-escolstica 
no imprio espanhol e nos restantes pases da Contra-Reforma,  dominada pelos 
Jesutas, embora as outras principais ordens religiosas tenham acesso s suas 
ctedras. O jesuta Pedro da Fonseca (1528-1599), que foi provincial de Portugal, 
ensinou ali a Lgica dentro deste esprito. Francisco Suarez (1548-1617), jesuta 
espanhol, teve em Coimbra a ctedra donde irradiou o seu famoso magistrio, 
especialmente importante na filosofia do Direito. Durante o sculo XVII atinge o seu 
apogeu a *escola conimbricense+, que  uma tentativa para adaptar a Escolstica e o 
Aristteles dos Escolsticos  problemtica mais recente. Contam-se entre estes 
conimbricenses Baltasar do Amaral, Baltasar Teles, Francisco Soares (dito Lusitano, 
para se no confundir com o seu homnimo espanhol atrs citado), Incio de Carvalho. 
A universidade jesuta de vora  outro foco importante de Teologia escolstica, e 
nela se distinguiu o espanhol Lus de Molina (1536-1624), autor de uma clebre teoria 
que visava conciliar a teoria da Graa com a do livre arbtrio - teoria que encontrou 
forte oposio por parte dos Dominicanos.

O ensino universitrio jesuta, de incio razoavelmente actualizado e eficiente, 
decai  medida que se aproxima e avana o sculo XVII, convertendo-se os tratados 
universitrios em manuais, e estes em postilas sem autoria responsvel, equivalentes 
s sebentas no nosso tempo.


Alm do ensino universitrio, os Jesutas dominam, em geral, com os seus colgios de 
Artes, os Estudos Menores, ou preparatrios, em toda a extenso do imprio da Casa da 
ustria, atravs de numerosas escolas onde se educam tanto a aristocracia de sangue

como a burguesia. Nesses colgios, entre os quais se destacam o Colgio das Artes de

184
Coimbra e o de S.10 Anto de Lisboa, alm de noes de Matemtica e Geometria 
necessrias  construo ou manobra naval,  vida militar, etc., ministra-se 
principalmente uma cultura geral que, embora adoptando as formas da erudio 
humanstica, era escolstica na sua inspirao mais profunda. A Ratio Studiorum, 
regulamento pedaggico de todas as escolas jesutas (1599), tem em vista desenvolver 
a expresso oral e escrita

em latim, a capacidade de disputa e de exibio literria em pblico, atravs de 
sabatinas, concursos de emulao escolar, rcitas, representaes teatrais, 
proscrevendo expressamente todo o magistrio ou prtica escolar que favorea a 
curiosidade intelectual, o gosto da novidade, o esp rito crtico. Aristteles, base 
de todo o ensino, deve ser interpretado segundo os comentadores consagrados, 
especialmente S. Toms.

Diferentemente do que sucede em Espanha, o papel cultural das outras ordens 
religiosas  em Portugal nesta poca modesto em comparao com o dos Jesutas. Devem-
se no entanto aos Cistercienses de Alcobaa, aos Dominicanos, aos Franciscanos e a 
outros, numerosas hagiografias, histrias monsticas, histrias nacionais, que 
constituem o grosso

da produo impressa em lngua portuguesa no sculo XVI.

Convm ter bem presente que sob o governo dos Filipes so, mais do que nunca, 
bilingues no s os autores como o pblico portugus. Um exemplo de como os autores 
espanhis se dirigiam aos portugueses  o panegrico de Lisboa com que abre E] 
Burlador de SevlIa de Tirso de Molina. Significativo  tambm que o Quijote de 
Cervantes tenha duas edies em Lisboa no prprio ano da sua primeira edio; e que a 
primeira edio do Guzmn de Alfarache, 2. parte, de Mateo Alemn, seja igualmente 
lisboeta. Esboa-se desta forma uma tendncia a dar ao castelhano, lngua geral da 
Pennsula, preponderncia no teatro e nos gneros de grande circulao, como o 
romance, ficando o portugus reduzido  condio de lngua regional. Tendncia 
passageira, resultante como

vimos da ausncia de uma corte rgia em Lisboa, e que pode ter contribudo para a 
deca~

dncia ou falta de continuidade do romance e do teatro em lngua portuguesa.

A literatura castelhana desta poca sofre tambm, mas, pelas razes j apontadas, com 
muito menor intensidade, a influncia da Contra-Reforma. Apresenta numerosas

sobrevivncias medievais a que o esplendor da corte espanhola e o gosto de que se 
rodeiam os *grandes+ de Espanha do por vezes vida nova e maior brilho: a neo-
escolstica tomista nas universidades; a expresso analgica e alegrica; o gosto do 
espectacular; o culto


das imagens; o auto sacramental no teatro; a literatura asctica e mstica (Frei Lus 
de Granada, que viveu em Portugal e c produziu uma parte importante da sua obra, 
S.ta Teresa de vila, S. Joo da Cruz, Frei Lus de Leo). Um sentimento de 
frustrao, de instabilidade e de desequilbrio, os violentos contrastes de grandeza 
e misria, os desastres militares, parecem traduzir-se esteticamente pelo exagero 
pattico; pelo arroubo mstico e pela macerao asctica; pela oposio entre a 
sublimidade da alma e o grotesco do corpo, entre o cavaleiresco e o pcaro; por um 
misto de bizarria fidalga e de

pitoresco folclrico; pela obsesso do transracional; pela pesquisa dos recessos da 
alma,

          185
pela evaso para o inefvel, pela sugesto do inapreensvel, subtil e fugidio. Estas 
tendncias diversamente combinadas conforme as conjunturas gerais, os meios, os 
autores e as artes, assinalam a verso espanhola do trnsito do Maneirismo ao 
Barroco.

Encontramo-las, de modo cambiante, em Cervantes, que deu no Quijote o melhor smbolo 
ou paradigma do atraso feudal da Espanha; Lope de Vega, que exaltou o *ponto de 
honra+ juntamente com uma ideal monarquia; Lus de Gngora, criador de uma poesia em 
que a sugesto por imagens e pelo ritmo tende a anular a expresso discursiva; Mateo 
Alemn, que no Guzmn de Alfarache produziu o principal momento da novela picaresca, 
a qual escarnece a *honra+ cavaleiresca, pondo em aco uma espcie de heri 
negativo, o pcaro.

No meio portugus, como veremos, o classicismo da Alta Renascena mal bruxuleia por 
incios do reinado de D. Joo III, com alguns rastos mais tardios em Joo de Barros, 
Antnio Ferreira, Cames; o Maneirismo, de que s muito recentemente se comeou a 
editar e a identificar metodicamente a autoria de muita produo potica dispersa, 
parece

acusar a importncia acentuada de certa regresso asctica goticizante, alis comum a

outras literaturas contemporneas; quanto ao Barroco, no  tambm difcil descobrir 
o germinar de alguns dos seus ingredientes cerca de 1620 e at anteriormente, mas as 
condies nacionais s propiciaram as suas manifestaes mais caractersticas pelo 
final da Restaurao e poca de D. Joo V, quando j na Frana e em Itlia se 
definira um

neoclassicismo acadmico.

111111,81,6-fl06,AFI,4

SOBRE O RENASCIMENTO E A CONTRA-REFORMA EM GERAL

Elton, G. R.: A Europadurantea Reforma (1517-1559), trad. port., Presena, 1982. 
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port. do 1. > tomo da ed. francesa 1967 (reed. aum. em 3 vols., 1970-85), Cosmos, 
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Maria: El Regime Sei@orial en e/ siglo XVI, Instituto de Estudios Polticos, Madrid, 
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A teoria tpica do Maneirismo, como fase central e dinmica de um Renascimento em 
sentido muito amplo, encontra-se em Sypher, Wylie: Four Stages of Renaissance Sty1e 
(Transformation in Art and Literature: 1400-1700), Nova lorque, 1955; a sua 
integrao histrico-social pode ver-se em Hauser, Arnold: Histria Social da Arte e 
da Cultura, 1. > vol., trad. port., 1950; indicaes bibliogrficas e crticas em 
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1964; Jorge de Sena prope uma tal periodizao para a literatura renascentista 
portuguesa em vrios artigos, nomeadamente em Maneirismo e Barroco na Poesia 
Portuguesa dos sculos XVI e XVII, sep. da *Luso-Brazilian Review+, 1965.

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Tradues mais acessveis de obras capitais do Renascimento: da Utopia de Morus, do 
Elogio da Loucura de Erasmo, da Cidade do Sol de Campanelia e do Prncipe de 
Maquiavel na *Coleco de Filosofia e Ensaio+, Lisboa; dos dois primeiros na 
*Coleco Cosmos+; do primeiro na coleco Ib, Europa-Amrica. O *Fondo de Cultura 
Econmica+ editou Utopias del Renacimiento (Morus, Campanelia e Francisco Bacon), 2. 
ed., 1956.

SOBRE O RENASCIMENTO E A CONTRA-REFORMA EM PORTUGAL

Condices gerais:

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XXV, n.os 264-266, Set. a Nov. 1965. (Artigo de sntese.)

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sculos X111-XVIII, Difei, 1990.

Boxer, Charies R.: O Imprio Colonial Portugus (1415-1825), trad. port., 2.1 ed., 
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Gulbenkian, Paris, 1970.

Condices culturais:

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autor, Estudos sobre a Cultura Portuguesa do sculo XVI, vol. li, Coimbra, 1948.

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Saraiva, A. Jos: Histria da Cultura em Portugal, vols. 11 e lii. Ramalho, A. da 
Costa: Estudos sobre o sculo XVI, F. C. Gulbenkian, Paris, 1980, com especial e 
importante incidncia sobre Cataldo Sculo, Andr Falco de Resende, irradiao e 
influncias literrias do Humanismo em Portugal, obra posteriormente completada por 
outros estudos do autor, entre eles A Introduo do Humanismo em Portugal, in 
*Humanitas+, 23-24, 1972, pp. 455 e segs., Notas de Investigao, ibidem, pp,
473 e segs., Alguns aspectos da introduo do Humanismo em Portugal, Coimbra, 1979, e 
Para a Histria do Humanismo em Portugal, 1, INIC, 1988.

Vasconcelos, Carolina Michalis de: A Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577) e

as suas Damas, Porto, 1902.

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Serro, Joaquim Verssimo: Antnio de Gouveia e o seu tempo, in *Boletim da Faculdade 
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Dias, Jos Sebastio da Silva: Correntes do Sentimento Religioso em Portugal nos 
scs. XVI a XVIII, vol. 1, Coimbra, 1960; A Poltica Cultural da poca de D. Joo 
111, vol.
1, Coimbra, 1969, obra fundamental de cerca de mil pginas de erudio e comentrio, 
que integra obras anteriores do mesmo autor (tem perto de 50 pp. de referncias 
arquivsticas e bibliogrficas preliminares); Os Descobrimentos e a Problemtica 
Cultural do

188
Sculo XVI, Ed. Presena, 1982, 3.1 ed. 1987; Regimento Escolar de Santa Cruz de 
Coimbra, ibidem, 1974; O Erasmismo e a Inquisio em Portugal, ibidem, 1975.

Osrio, J. Alves: O Humanismo Portugus e Erasmo (Os *Colquios+ de Erasmo editados 
em Coimbra), tese de doutoramento, 2 vols., Porto, 1979.

Martins, Jos V. Pina: Aspectos do Erasmismo de Andr de Resende, sep. de 
*Euphrosyne+, nova srie, n. 3, 1969, Lisboa; Humanismo e Erasmismo na Cultura 
Portuguesa do sc. XVI, F. C. Guibenkian, Centro Cultural Portugus, Paris, 1973, e 
Humanisme et Renaisance de I'Italie au Portugal, ibidem, 2 vols., 1989, entre outros 
trabalhos seus.

S, Artur Moreira de: De Re Erasmiana. Aspectos do Erasmismo em Portugal, Braga,
1977; Humanistas Portugueses em Itlia, Lisboa, IN-CM, 1983.

Ver ainda rubricas Humanismo e Renascimento no Dicionrio de Histria de Portugal, 
dir. por Joel Serro, e no Dicionrio de Literatura, 2. > ed., dir. por Jacinto do 
Prado Coelho (tm bibliografia).

Rebelo, Lus de Sousa: A Tradio Clssica na Literatura Portuguesa, Livros 
Horizonte, Lisboa, 1982.

Inventrios bibliogrficos:

H uma Bibliografia das Obras Impressas em Portugal no Sculo XVI, por Antnio 
Joaquim Anselmo, Public. da Biblioteca Nacional, Lisboa, 1926. Ver, a este respeito, 
Macedo, Jorge Borges de: Livros Impressos em Portugal no Sculo XVI. Interesses e 
Formas de Mentalidade, in * Arquivos+, lX, 1975, pp. 183 e segs.

Rego, Raul: Os ndices expurgatros e a cultura portuguesa, *Biblioteca Breve+, 
ICALP, 1982.

Descobrimentos e metodologia pr-cientfica:

Albuquerque, Lus: Cincia e Experincia nos Descobrimentos Portugueses, *Biblioteca 
Breve+, ICALP, 1983; As Navegaes e a sua Projeco na Cincia e na Cultura, 
Gradiva, 1987; O Humanismo Portugus, 1500-1600, Acad. das Cincias, Lisboa, 1988.

Barreto, Lus Filipe: Descobrimentos e Renascimento, IN-CM, 1983, e Caminhos do saber 
no Renascimento Portugus, IN-CM, 1985.

Martins, Isaltina das Dores Fiqueiredo: Bibliografia do Humanismo em Portugal no 
Sculo XVI, Centro de Estudos Clssicos e Humansticos da Universidade de Coimbra, 
INIC, 1986 (obra fundamental de consulta: refere 3314 ttulos).


Traduces de textos latinos do Humanismo_@m Portugal. Resende, Andr de: Orao de 
Sapincia (Oratio pro rostris), trad. Miguel Pinto de Meneses, Lisboa, 1956.

Obras Portuguesas, com estudo e notas de Jos Pereira Tavares, col. *Clssicos S da 
Costa+.

Barbosa, Aires: Antimoria e Epigramas, trad. Jos Pereira Tavares, sep. *Arquivo do 
Distrito de Aveiro+, XXVI, 1960.

Fernandes, M.e Joo: Orao sobre a Fama da Universidade (1548), trad. do latim, com 
pref. sobre os humanistas conimbricenses e bibliografia, por Jorge Alves Osrio, 
Instituto de Estudos Clssicos, Coimbra, 1967.

Latim Renascentsta em Portugal, selec., trad. e notas de A. da Costa Ramalho, INIC, 
Coimbra, 1985.


Captulo 11

GIL VICENTE

O estudo da obra dramtica vicentina deve preceder o das outras personalidades ou 
correntes renascentistas, quer por razes cronolgicas, quer pelo facto de tal obra 
se poder encarar como acabamento das melhores tradies do teatro medievo europeu.  
surpreendente que a emergncia de uma tal personalidade de sntese se tenha 
verificado num pas onde essas tradies dramticas medievais no parecem ter 
florescido de um modo brilhante, ou sequer, hoje, distintamente perceptvel. Mas 
seria inexacto ver os autos

de Gil Vicente apenas como ltimos e amadurecidos frutos de uma cultura prestes a 
murchar. Graas a certos elementos doutrinrios e estticos, o teatro vicentino 
tambm participa, entre ns, de uma incipiente atmosfera humanista e renascentista, 
que as condies histricas j referidas mal deixaram sobreviver  carreira do 
dramaturgo. Por outro lado, a despreconceituosa diversidade das suas fontes, 
estruturas e tonalidades comunica a esse to saboroso teatro uma vivacidade que, por 
vezes, o torna extraordinariamente moderno, embora, se medssemos a obra vicentina 
pela mais racionalizada ou formalizada esttica dos clssicos posteriores (e at dos 
romnticos e realistas), pudesse dar a impresso global de uma certa e desconcertante 
heterogeneidade.

GIL VICENTE: Vida e obra

O que se sabe de Gil Vicente, dramaturgo, reduz-se ao seguinte: nasceu  roda de
1465; encenou a sua primeira pea em 1502; foi colaborador do Cancioneiro Geral de

190
Garcia de Resende. Desempenhou na corte a importante funo de organizador das festas 
palacianas, como, por exemplo, da recepo em Lisboa  terceira mulher de D. Manuel.

Recebeu tenas e prmios de D. Joo 111. Alcanou nos meios ulicos uma situao de 
autoridade, que lhe permitiu, em 153 1, por ocasio de um terramoto, num discurso 
feito perante os frades de Santarm, censurar severamente os sermes terrficos em 
que estes explicavam a catstrofe corno resultado da ira divina. A este propsito 
escreveu ao rei

uma carta na qual se pronunciava contra a perseguio movida aos Judeus. O seu ltimo

auto data de 1536, e no deu mais sinal de si posteriormente a esta altura. Preparou 
uma

compilao das suas obras, que no chegou a concluir. O seu contemporneo Garcia de 
Resende menciona em Miscelnea a actividade teatral de Gil Vicente entre os notveis 
acontecimentos do tempo.

Gil Vicente publicou em vida alguns dos seus autos, em folhetos de cordel que depois 
foram reeditados. Destas edies, algumas das quais proibidas pela Inquisio, apenas 
se conheceni o Auto da Barca do Inferno, a Farsa de Ins Pereira, o D. Duardos e o 
Pranto da Mara Parda. Nomeemos ainda trs peas que no figuram na Copilaam de 
todalas obras de Gil Vicente, organizada e publicada em 1562 pelo filho Lus Vicente, 
manifestamente incompleta e defeituosa; essas trs peas so o Auto da Festa, 
publicado pelo conde de Sabugosa, e o Auto de Deus Padre, Justia e Misericrdia e 
Obra da Gerao Humana, publicados em 1948 por 1. S. Rvah. A autenticidade destas 
trs obras tem sido posta em dvida, mas  indubitvel que a Copilaam, fonte quase 
exclusiva, como

vemos, do teatro vicentino, est incompleta: faltavam-lhe pelo menos trs autos de 
que temos notcia e que foram proibidos (Auto da Aderncia do Pao, Auto da Vida do 
Pao e Jubileu de Amores). Por outro lado, a cronologia indicada por Lus Vicente tem 
vrios erros evidentes, deficincia que prejudica o bom conhecimento da sua linha 
evolutiva; a sua classificao e a denominao dos autos exigem tambm correces, 
que adiante discutiremos. Graas a vrios investigadores, como Braanicanip Freire, 
scar de Pratt e 1. S. Rvah, tem sido possvel reconstituir uma ordenao verosmil. 
Transcrevemos a arrumao apurada pelo ltimo destes investigadores, que de resto no 
se deve considerar definitiva, mas muito aproximada, mantendo contudo os nomes 
tradicionais tanto quanto possvel, a fim de evitar dificuldades de identificao com 
as edi es existentes de Obras Completas:

1502 - Auto da Visitao (ou Monlogo do Vaqueiro).
1504 - Auto de S. Martinho.
1506 - Sermo perante a Rainha D. Leonor.
1509 - Auto da ndia; Auto Pastoril Castelhano.

1510 - Auto dos Reis Magos; Auto da F.
1512 - Velho da Horta.
1513 - Auto dos Quatro Tempos; Auto da Sibila Cassandra.
1514 - Exortao da Guerra.

  191
1515 - Quem Tem Farelos?; Auto da Mofina Mendes (ou Mistrios da virgem).
1517 - Auto da Barca do Inferno.
1518 - Auto da Alma; Auto muito impropriamente chamado da Barca do Purgatrio.
1519 - Auto da Barca da Glria.
1520 - Auto da Fama.
1521 - Cortes de Mpter, Comdia de Rubena; Auto das Ciganas.
1522 - D. Duardos.
1523 - Farsa de Ins Pereira; Auto Pastoril Portugus; Auto de Amadis de Gaula.
1524 - Comdia do Vivo; Frgua do Amor, Auto dos Fsicos,
1525 ou 26 - O Juiz da Beira.
1526 - Templo de Apolo; Auto da Feira.
1527 - Nau de Amores; Comdia sobre a Divisa da Cidade de Coimbra; Farsa dos

Almocreves; Tragicomdia da Serra da Estrela; Breve Sumrio da Histria de Deus 
seguido do Dilogo dos Judeus sobre a Ressurreio; Auto das Fadas (?).

1527 ou 28 - Auto da Festa,
1529 - Triunfo do Inverno (e do Vero).
1529 ou 30 - O Clrigo da Beira,
1532 - Auto da Lusitnia.
1533 - Romagem de Agravados.
1534 - Auto da Canancia.
1536 - Floresta de Enganos.

Origens e estruturas do teatro vicentino

Durante a Idade Mdia existiu um teatro religioso, nascido, em parte pelo menos, das 
representaes litrgicas do Natal e da Pscoa. Os seus gneros principais so, no 
sculo XV: os mistrios, que punham em cena, de forma mais ou menos realista, por 
vezes com centenas de figurantes e dezenas de episdios, a vida de Cristo segundo o 
Novo Testamento, e a parte do Velho Testamento que se considerava como *prefigurao+ 
daquele; as

moraldades, peas mais curtas cujas personagens eram abstraces personificadas, 
como os vcios e virtudes, ou tipos psicolgicos; os milagres, que apresentavam 
situaes dramticas das vidas dos santos, ou em que estes

ou a Virgem intervinham miraculosamente; as farsas, gnero particularmente popular, 
normalmente de inten o satrica; as sotties, farsas carnavalescas cujo protagonista 
era um *sandeu+ (francs sot), o que permitia crticas livres e

192
aceradas. Havia ainda representaes mais breves, como os tambm carnavalescos 
*sermes burlescos+, representados por actores mascarados com

vestes sacerdotais.

Faltam documentos a atestar a existncia de mistrios, moralidades e milagres em 
Portugal. Sabe-se, no entanto, que se representavam ou improvisavam sermes 
burlescos, se mimavam pequenas farsas sobre histrias de clrigos e freiras; que nas 
igrejas e abadias, por ocasio do Natal, da Pscoa e da procisso de Corpus Christi, 
se realizavam *jogos+ e *autos+, *representaes+, com pastores e reis magos 
adorando o Prespio, apstolos, santos, mscaras e figuras alegricas de anjos ou 
demnios. Os *momos+ da

corte de D. Joo 11 e de D. Manuel no passam de pantomimas alegricas muito 
espectaculares, com escasso dilogo em verso; limitam-se a vistosos

desfiles de personagens das novelas cavaleirescas ou de smbolos da majestade rgia 
aqum e alm-mar. Ficou clebre o morno do Cavaleiro do Cisne, comemorativo do 
casamento do prncipe D. Afonso, em que o prprio D. Joo 11 desempenhou um papel. 
Encontramos j no Cancioneiro Geral

pequenos esboos de farsa, como os de Aririque da Mota, que podem estar na linha de 
desenvolvimento de velhos arremedos truanescos e jogralescos.

Gil Vicente no parece ligado a esta tradio, alis mal conhecida. A primeira pea 
vicentina, o Auto da Vistao,  o simples monlogo de um

vaqueiro, destinado a festejar o nascimento de um prncipe (o futuro D. Joo
111), e filia-se directamente em representaes de outro poeta palaciano, o

castelhano Juan del Encina, cuja linguagem dialectal imita. A corte portuguesa era 
bilingue, sendo castelhanas todas as esposas dos reis de Portugal no sculo XVI. Por 
via dos contactos entre as cortes peninsulares, Gil Vicente, como, de resto, todos os 
poetas portugueses do Cancioneiro Geral, conhecia familiarmente os poetas de lngua 
castelhana. Assim  que os seus primeiros pastores tm, no o portugus rstico, mas 
um dialecto semicastelhano, semileons, alis j literariamente artificializado e 
convencionalizado, o saiagus, que Juan del Encina e seu discpulo, como ele de 
Salamanca, Lucas Fernndez, trouxeram para a cena.

Mas,  medida que vai avanando e enriquecendo as suas formas e repertrio teatral, 
Gil Vicente integra novos elementos, alguns sem dvida tradicionais: o sermo 
burlesco (gnero que existe na literatura espanhola do sculo XV, e nas 
representaes populares portuguesas da mesma poca),

  193
outras imitaes jocosas de actos religiosos, como ladainhas; despropsitos de 
sandeus com razes no Sandeu carnavalesco (Sot, Narr ou Fool), to conhecido por toda 
a Europa, etc. Vai integrando, por outro lado, novas formas teatrais criadas fora de 
Portugal, como a fantasia alegrica de Torres Naliarro (se  que no se lhe 
antecipou); as moralidades e os mistrios franceses e ingleses, que cultivou de 
maneira a fazer supor algum conhecimento do teatro religioso europeu, se no 
preferirmos acreditar que j seguiu tradies, hoje ignoradas, na Pennsula. E vai 
principalmente aprendendo a estilizar a prpria realidade nacional: os seus pastores 
habituam-se a falar o portugus rstico, e trazem aos espectadores as preocupaes e 
os desejos prprios da sua condio.

Nem todas as fontes vicentinas tero um carcter literrio ou dramtico.

Certos episdios de farsa (a Mofina Mendes, o da Mulher Brava e Mulher

Mansa, por exemplo) vm de exemplos e/ou de contos orais. Certos autos inspiram-se em 
romances de cavalaria. Os autos das Barcas baseiam-se numa alegoria cuja tradio 
remonta aos Dilogos dos Moaos de Luciano de Samsata, sculo 111 a. C. Por outro 
lado, a investigao recente evidenciou a influncia, no apenas dos textos, como das 
iluminuras dos Livros de Horas, de que h vrias edies, algumas lisboetas, de 
incio do sculo XVI, quer em

tipos sociais das moralidades (sobretudo os das Barcas), quer em simples pormenores 
simblicos.

O flego potico, a complexidade e variedade de estrutura dramtica desenvolvem-se ao 
longo desta produtiva carreira de 34 anos, em que se pode escalar uma srie de 
inovaes mais ou menos notveis: em 1509, uma primeira e logo excelente farsa (Auto 
da ndia) emergindo entre as cIogas dramticas (ou autos pastoris) de escola 
salmantina que predominam de incio; em 15 10, primeiro esboo de uma moraldade 
(Auto da F), a que se seguem duas novas tentativas em 1513, at  elaborao, em 
1517-19, das quatro obras-primas desse gnero. Entretanto, em 1514, com a Exortao 
da Guerra, lana Gil Vicente, ao par de Naliarro, a fantasia alegrica de comemorao 
ulica ou poltica, mais tarde designada como tragicomdia, que (por vezes

inextricavelmente misturada com a comdia propriamente dita) vir a predominar desde 
o decnio de 1520, para comprazimento de D. Joo 111 (grande apreciador de romances 
de cavalaria), conforme se declara em prefcio ao

D. Duardos; mas  a Comdia de Rubena, de estrutura ainda muito narra-

194
tiva e irregular, que estreia de facto a comdia sentimental cavaleiresca, com uma 
histria de amor entre prncipes que ( maneira da nova comdia tica e a romana) se 
encaminha para um happy-end graas  peripcia de um feliz reconhecimento: a 
identificao da alta estirpe de um apaixonado (ou apaixonada). A tenso profunda da 
comdia sentimental consiste no seguinte: h uma ambiguidade entre a exaltao do 
amor como privilgio de um sangue nobre (que se ignora), e a ideia, oposta, de que 
*el precio est en Ia persona+. Como obra-prima dram tica (e lrica) deste gnero 
deve considerar-se o mencionado D. Duardos. O ano de 1527 assinala quantitativamente 
a acm, ou apogeu, da carreira vicentina, e desse ano data o mais importante (e o 
nico incontroverso) dos seus mistrios de larga perspectiva bblica (Breve Sumrio 
da Histria de Deus). Gil Vicente produzira j em 1504 a nica das suas peas, alis 
muito breve, baseada num episdio hagiogrfico, ou seja, um milagre, gnero que no 
entanto far larga carreira entre os dramaturgos da *escola vicentina+.

So mal conhecidas as condies da encenao vicentina. Mas, pelas poucas referncias 
contidas nas peas,  de conjecturar que de simples representao ao rs do soalho se 
tenha passado depois  montagem de um estrado. Neste se faria, mais tarde, a 
instalao das barcas, da frgua, da estalagem, etc., exigidas pelas moralidades ou 
fantasias alegricas mais complexas. Os diversos espaos simblicos da cena seriam 
assinalados por cortinas e outros
meios. Na farsa de Ins Pereira, o exterior da rua contrasta com o interior 
domstico. A primeira cena do Auto da Lusitnia decorre em dois andares, e vrias 
peas requerem multiplicidade de entradas ou portas. Os autos de devoo integravam-
se em cerimnias religiosas, num templo, rematando por uma deposio de Cristo no 
*moimento+ da Semana Santa (Auto da Alma), ou por um quadro vivo de Natividade, com o 
correr de uma cortina (Sibila Cassandra). Nada comprova a existncia de uma companhia 
profissional de actores, embora perodos de intensa actividade cnica, como os de 
1523-24 e 1526-28, requeressem uma certa permanncia e treino do elenco.

Destas circunstncias singulares em que nascem e se desenvolvem resultam certas 
caractersticas muito prprias das peas vicentinas, que em grande parte  difcil 
reduzir aos gneros tpicos do teatro medieval.

A primeira classificao metdica das peas de Gil Vicente deve-se ao

filho e editor do Poeta, que as dividiu em autos de devoo, farsas, comdias, 
tragicomdias e obras menores.

195
Esta classificao  arbitrria, pelo menos quanto s obras profanas. Nenhuma 
diferena se descobre entre a comdia (palavra que Lus Vicente usa, no no sentido 
que lhe dava o teatro clssico, mas na acepo mais surnria de Torres Naharro: pea 
de enredo com remate alegre) e a tragicomdia.
O facto de os autos vicentinos alinharem, em geral, diversas estruturas dificulta as 
classificaes. Podem, no entanto, distinguir-se grupos de peas, sem grande rigor de 
critrio. Deixando de lado os simples monlogos, como

o Auto da Vistao e o Sermo perante a Rainha D. Leonor, que  um *sermo burlesco+ 
(ou antes, serniburlesco), e o Pranto de Maria Parda, que pertence tambm a um gnero 
medieval, o *pranto jocoso+, podemos considerar os seguintes grupos:

Em primeiro lugar, os autos pastoris, que se estruturam como ciogas encenadas,  
maneira de Juan dei Encina. Trata-se de dilogos cmicos de pastores, como o Auto 
Pastoril Castelhano ou o Auto Pastoril Portugus. Por vezes estes dilogos de 
pastores combinam-se com alegorias, como acontece no Auto da F, no Auto Pastoril da 
Serra da Estrela; por vezes, tambm, os pastores so figuras bblicas, como no Auto 
da Sibila Cassandra. H muitos dilogos pastoris, com funes diversas em peas 
religiosas, como

no Auto da Mofina Mendes, ou profanas, como no Templo de Apolo.

Em segundo lugar, encontramos o teatro religioso, que poderemos caracterizar pelos 
autos de moralidade.  um grupo vasto em que se podem distinguir dois tipos. H, com 
efeito, autos que, a propsito do nascimento ou

da ressurreio de Cristo, resumem a teoria teolgica da Redeno: a vinda de Cristo 
para redimir o pecado original  anunciada ou prefigurada por profetas e por 
episdios do Velho Testamento, ou at da literatura e da histria pags. Eis o tema 
do Auto da Sibila Cassandra (em que os profetas e sibilas, como vimos, so pastores); 
do Auto dos Quatro Tempos; do Auto da Mofina Mendes, alis dos Mistrios da Virgem; 
do Breve Sumrio da Histria de Deus. Este ltimo  o que desenvolve o tema de modo 
mais completo, e

poderia antes considerar-se como um mistrio muito resumido e esquematizado. Outro 
tipo constituem-no aquelas peas que, sob forma inais pronunciadamente alegrica, nos 
do um ensinamento religioso ou moral: tal o caso do Auto da Alma, que pe em cena a 
Alma solicitada entre o Diabo e o Anjo da Guarda, e salva graas aos mritos da 
Paixo de Cristo; e o Auto da Feira, onde se mercam virtudes e vcios; o dos trs 
Autos das Barcas, onde estes

196
so castigados e aquelas premiadas. Estas peas estruturam-se como alegorias; as 
personagens so personificaes alegricas ou tipos reais caricaturados. Por vezes o 
esquema alegrico religioso parece oferecer um pretexto, um quadro exterior para a 
apresentao em cena de stiras ou caricaturas profanas.  em grande parte o caso do 
Auto da Barca do Inferno, cujo propsito de stira social (ao contrrio do que 
acontecer com o da Barca da Gl,ria) predomina sobre o de edificao religiosa,

Em terceiro lugar h a considerar a farsa. Na forma mais simples, a farsa reduz-se a 
um episdio cmico colhido em flagrante na vida da personagem tpica. Tal o caso de 
Quern Tem Farelos?, onde se conta o percalo sucedido a um triste escudeiro 
namorador, corrido pela me da requestada, sob uma chuva de troas e maldies. Por 
vezes estes quadros sucedem-se, sem

haver qualquer relao entre a cabea e o cabo da pea.  o caso da Farsa dos 
Almocreves,, ou o de O Clrigo da Beira. Nesta ltima aparecem-nos sucessivamente um 
padre rezando distraidamente as matinas, um rstico roubado na corte, e um escravo 
negro que rouba: as personagens do lugar umas

s outras, sem qualquer unidade de aco. Por vezes, tambm, os episdios e as 
personagens desfilam em torno de um motivo central, embora faltando-lhe um processo 
de desenvolvimento, como no caso de O Juiz da Beira, perante cujo tribunal comparecem 
vrias causas. Enfim, h a considerar certas farsas mais desenvolvidas que so 
histrias completas, com princpio, meio e fim.  o caso do Auto da ndia, onde se 
apresenta o caso de uma mulher que engana o marido, alistado no ultramar; ou o do 
Auto de Ins Pereira, que ilustra com uma histria picante o dito popular *antes 
quero burro que me leve que cavalo que me derrube+; ou ainda o do Velho da Horta, que 
nos exibe, desde o princpio at seu ridculo desfecho, a paixo de um velho por uma 
moa. Nestes autos, a histria corre em dilogos e aces que se sucedem sem 
transio; so como contos dialogados no palco, sem qualquer preocupao de unidade 
de tempo, e sem qualquer compartimenta o de quadros ou actos a marcar a 
descontinuidade dos tempos. Nisso diferem estruturalmente da comdia de Plauto ou de 
Molire. Poderamos talvez classific-los como autos de enredo. Trata-se da forma 
mais desenvolvida, mas

excepcional, da farsa vicentina.

Normalmente, Gil Vicente fica nos pequenos quadros ou flagrantes, e

estes aparecem frequentemente enquadrados em esquemas que lhes so exte-

197
riores, nomeadamente em alegorias. Por exemplo, alegorias religiosas, como

o Auto da Feira, e a Barca do Inferno e do Purgatrio, encerram vrias pequenas 
farsas. Certas alegorias profanas parecem ter sido especialmente concebidas para 
enquadrar sries de farsas, como a Romagem de Agravados, na qual, a caminho de uma 
romaria, passam, evidenciando os seus vcios tpicos em monlogos e dilogos, 
camponeses, fidalgos, freiras, clrigos; ou

como a Floresta de Enganos, que insere uma comdia sentimental numa cadeia de 
variadas vigarices. Grande parte dos autos pode conceber-se como simples desfile de 
tipos ou casos a pretexto de uma alegoria central (as Barcas, a Romagem, a Frgua ou 
Nau de Amores, etc.), o que constitui o ltimo

vestgio da sua origem processional medieva.

Em quarto lugar, h a considerar os autos cavaleirescos, como o Amadis de Gaula, o D. 
Duardos, a Comdia do Vivo, meras encenaes de episdios sentimentais 
cavaleirescos, ento em grande voga na Corte. Estas peas tm de comum com as farsas 
desenvolvidas, como a Ins Pereira, o serem autos de enredo, histrias dialogadas e 
monologadas no palco. No D. Duardos, tido como o melhor exemplar do gnero, h uma 
grande efuso de lirismo nos monlogos do protagonista, dentro dos padres do amor 
corts, e o auto conclui por um belssimo rimance ou balada.

Dentro do mesmo grupo deve englobar-se a Comdia de Rubena, histria de uma 
enjeitada, desde que nasce at que casa com um prncipe. Esta pea tem a 
particularidade de estar dividida em cenas, cada uma delas com o seu interesse 
prprio (por vezes de farsa) e separada da anterior por intervalos de vrios anos. 
Aquilo que nestes autos cavaleirescos, depois to cultivados pelos continuadores de 
Gil Vicente, lembra a comdia clssica  a importncia que no seu enredo assume o 
reconhecimento de personagens aristocrticas, antes tidas por viloas, de forma a 
resolver pelo casamento
* conflito entre o amor e a desigualdade social. Mas alguns (e sobretudo
* de Rubena) no dispensam um narrador que ligue as cenas entre si.

Enfim, um quinto e ltimo grupo a considerar  o das alegorias de tema profano, que 
oferecem formas variadas. H uma alegoria de conjunto que serve de tema central ou de 
quadro,  roda ou dentro do qual se desenvolvem episdios de farsas, cenas de amor, 
cnticos e at bailados. Por exemplo, Jpiter rene cortes para garantir boa viagem e 
condigna despedida  infanta D. Beatriz, duquesa de Sabia:  o auto das Cortes de 
Jtpiter.

198
Ou, a propsito do casamento de D. Joo 111, a desposada, D. Catarina, apresenta-se-
nos sob a forma de um Castelo, a cujo alcaide (o Corao) o

deus Cupido obedece; dentro do Castelo h uma grande forja cujos ferreiros so quatro 
planetas, que tm por companheiras os quatro Gozos de amor; esta forja transforma os 
homens: dos negros faz brancos, dos frades leigos, e da Justia, uma velha muito 
corcovada, faz uma moa escorreita.  a Frgua do Amor. Estas peas, como a Nau de 
Amores, o Templo de Apolo e outras, que exigem uma cenografia vistosa e complicada, 
esto ainda aparentadas com os mornos que se realizavam j tradicionalmente na corte 
portuguesa, talvez por influncia da corte dos duques de Borgonha. Gil Vicente 
converteu em espectculos falados aquelas alegorias mudas e embutiu nelas

quadros de farsa, em cadeias unilineares comparveis s das *revistas+ populares 
modernas. Nas alegorias mencionadas, a fico alegrica no est em

relao orgnica com o contedo da pea. Noutras, em compensao, essa relao  mais 
ntima, como sucede n'O Triunfo do Inverno, na Romagem de Agravados, na Exortao da 
Guerra, e em geral nas peas aleg ricas de tema religioso, de que j falmos.

Esta classificao do teatro vicentino em autos pastoris, moralidades, farsas, autos 
cavaleirescos, autos alegricos (de tema profano) no passa de simples tentame 
aproximativo. O auto pastoril e a moralidade entrelaam-se, como vimos, no Auto da 
Sibila Cassandra. A fantasia alegrica de terna religioso e a de tema profano tocam-
se por vezes, como no Auto dos Quatro Tempos, em que o Menino-Deus  adorado pelas 
foras da natureza personificadas e pelo prprio Jpiter, ou no Auto da Feira, que  
ao mesmo tempo uma stira social e uma *obra de devoo+.

Por outro lado, se analisarmos a estrutura das peas, verificamos que os autos 
pastoris so farsas de assunto caracterizadamente campestre; que as farsas mais 
desenvolvidas, como a Ins Pereira, constituem, exactamente como os autos 
cavaleirescos, formas de teatro de enredo; que, enfim, s quanto ao tema se 
distinguem facilmente as alegorias profanas das moralidades. Assim, podemos dizer que 
encontramos em Gil Vicente tr s formas de estrutura cnica: a farsa, simples 
episdio caracterstico de um caso ou um tipo social-moral, que tem talvez o seu 
melhor exemplo em Quem Tem Farelos? (autntica Farsa do Escudeiro); o auto de enredo, 
com modalidades exemplificveis pela Ins Pereira e pelo Amadis de Gaula; e o auto 
alegrico,

199
quer religioso, como a dos autos das Barcas, quer profano, como a Frgua do Amor ou o 
Triunfo do Inverno. Destas trs estruturas, a mais comum e a que integra maior nmero 
de elementos  a do auto alegrico, aquele que talvez melhor represente a concepo 
vicentina do teatro.

O auto de enredo no deve considerar-se como simples tentativa de comdia molieresca 
ou de tragdia shakespeariana, que tendem a definir um carcter central. , na 
realidade, uma histria romanesca (como um conto de Boccaccio) representada no palco, 
gnero a que autores modernos, como Bertolt Breclit, deram imprevistos 
desenvolvimentos.

Diferentemente do que sucede com o teatro clssico, o teatro vicentno no tem como 
propsito apresentar conflitos psicolgicos. No  um teatro

de caracteres e de contradies entre (ou dentro de) eles, mas um teatro de stira 
social ou um teatro de ideias. No palco vicentino no perpassam caracteres 
individualizados, mas tipos sociais agindo segundo a lgica da sua condio, fixada 
de uma vez para sempre; e outros entes personificados. Especificando, poderamos 
distinguir: a) tipos humanos, como o Pastor, herdado de Encina e adaptado  realidade 
portuguesa, o Campons, o Escudeiro, a Moa de vila, a Alcoviteira, figura j 
celebrizada em Espanha pela Celestina, o Frade folio,  volta do qual havia toda uma 
literatura medieval; b) personificaes alegricas, como Roma, representando a Santa 
S, a Fama Portuguesa, as quatro Estaes; c) personagens bblicas e mticas, com os 
Profetas e Sibilas, os deuses greco-romanos; d) figuras teolgicas, como o

Diabo, ou Diabos, a hierarquia dos Anjos, e a Alma; e) e, caso  parte, o

Parvo, que  um tipo tradicional europeu, s vezes vazado nos moldes de certos 
pastores bobos, do vilo Janafonso e do Juiz da Beira, etc., e que serve para 
exprimir alguns dos mais reservados pensamentos vicentinos. So estas figuras que, 
contracenando, divertem simplesmente os olhos e os ouvidos; ou expem a doutrina 
crist tal como a concebia Gil Vicente; ou participam no debate de ideias em que ele 
se empenha; ou, ainda, realizam no

palco aquilo a que poderamos chamar uma poesia cenografada.

Convm registar aqui que alguns passos dos autos revelam em Gil Vicente um interesse 
despreconcebido e no polmico por certos aspectos da vida ou da sociedade.  assim 
que na Comdia de Rubena encontramos uma cena infantil repassada de ternura em que se 
procuram imitar a linguagem e as

reaces da garotada; e que na introduo ao Auto da Lustnia vem  cena

200
a atmosfera ntima de uma famlia judaica, sem deformao caricatural ou

acrimnia aparente. Estes esboos embrionrios condizem de resto com a

inspirao potica que iremos encontrar nos autos vicentinos.

GIL VICENTE: A stira social

Na enorme parada de tipos que nos oferece Gil Vicente importa distinguir, dos tipos 
satricos propriamente ditos, aqueles a que poderamos chamar os tipos folclricos, 
como so, nomeadamente, os pastores e outras personagens rsticas. Nos pastores 
vicentnos h uma grande parte de conveno literria, como j vimos. Servem para 
fazer rir a gente da corte, com a sua ignorncia e simplicidade. Mas, quando Gil 
Vicente se eleva ao teatro de ideias, esta mesma simplicidade de crianas grandes d 
lugar a paradoxos

e a j uzos que pem em causa toda a ordem estabelecida. De toda a maneira, so quase 
s eles, juntamente com os Parvos, outro tipo da tradio folclrica, que tm direito 
a entrar no reino dos cus.

Comparecem outros tipos tradicionais e em grande parte convencionais, embora com 
alguma dose de realidade reconhecvel, como, por exemplo, a velha beberrona (Maria 
Parda), a desavergonhada e vivaz alcoviteira (0 Juiz da Beira, Comdia do Vivo, Ins 
Pereira, Barca do Inferno) e o Judeu (0 Juiz da Beira, Ins Pereira, Barca do 
Inferno, Dilogo sobre a Ressurreio). Em relao a estes tipos, Gil Vicente 
limitou-se a seguir a opinio e

at os preconceitos correntes, tanto na corte como no seio do povo. Mas, como vimos, 
os Judeus inspiraram-lhe uma cena em que parece esquecer aqueles preconceitos, 
apresentando-nos (Auto da Lusitna) a intimidade de uma famlia hebraica a uma luz 
que, pelo menos hoje, nos parece simpatizante, em contraste com a caricatura dos 
traos de mesquinhez e ganncia de outras suas personagens israelitas.

O tipo mais insistentemente observado e satirizado por Gil Vicente  sem dvida o 
clrigo, e especialmente o frade, presente em todos os sectores da sociedade 
portuguesa, na corte e no povo, na cidade e na aldeia. Gil Vicente censura nele a 
desconformidade entre os actos e os ideais, pois, em lugar de praticar a austeridade, 
a pobreza e a renncia ao mundo, busca a riqueza e os prazeres,  espadachim, 
blasfema, tem mulher e prole, ambiciona honras e cargos, procedendo como se a 
ordenao sacerdotal o imunizasse

201
contra os castigos que Deus tem reservados para os pecadores. A principal ambio dos 
clrigos vicentinos  bispar, ou seja, tornarem-se bispos ou prelados. Para o 
conseguir, um frade que participa na Romagem de Agravados defuma-se com palha amarela 
de modo a aparentar um rosto macilento de jejuns e mortificaes.

A stira vicentina anticlerical, que atinge uma extraordinria violncia, tem, alm 
do seu fundo popular e tradicional, intenes bem definidas e s vezes alvos 
directos. Segundo Gil Vicente, os frades so indesejavelmente numerosos: *Somos mais 
frades que a terra+. Na Frgua do Amor, que simboliza a regenerao de Portugal a 
propsito do casamento do rei, um frade

sem vocao entra na frgua e sai transformado em soldado; e mais sete mil frades 
aguardam o mesmo tratamento. Na Exortao da Guerra, Gil Vicente faz-se intrprete da 
pretenso do rei a cobrar o tero dos rendimentos dos bens eclesisticos para a 
*guerra santa+ em frica. Desta forma se critica a multiplicao excessiva do clero e 
dos rendimentos eclesisticos, que os monarcas queriam ento desamortizar e adjudicar 
 coroa e  alta nobreza.

Mesmo a Cria romana, ento em conflito latente com o rei de Portugal, no escapa, 
como veremos, aos ataques de Gil Vicente.

Outro tipo insistente nos autos vicentinos  o Escudeiro, gnero de parasita ocioso e 
vadio, com algumas caractersticas semelhantes s do Lazarllo de Tormes, novela 
picaresca espanhola de meados do sculo. O Escudeiro imita os padres da nobreza, 
toca guitarra, verseja, faz serenatas s filhas dos *oficiais mecnicos+, pavoneia-se 
de bravo e cavaleiro, espera o seu

*acrescentamento+, que o instalar de vez na nobreza. Mas no trabalha, passa fome 
estreme, tem medo,  corrido sob a chuva de insultos da me da pretendida, que o 
aconselha a aprender um ofcio para no morrer  mngua. Esta parasitagem faminta, 
que tendia a multiplicar-se com a decadncia da baixa nobreza e seus ramos 
desqualificados, levantava protestos da parte de burgueses e artfices.

Tambm aqui Gil Vicente se faz eco de um sentimento popular, ao mesmo

tempo que de um problema colocado ao nvel dos governantes. Mas cabe perguntar em que 
medida ele visa, atravs do Escudeiro, o prprio ideal de vida nobre. O facto  que, 
embora relativamente raros, os fidalgos aparecem tambm duramente atacados nos autos. 
Na Barca do Inferno e na Farsa dos Almocreves caracterizam-se por uma presuno 
balofa e por explora-

202
rem o trabalho dos servidores sem lhes pagar (o que tambm sucede com

os Escudeiros relativamente aos respectivos moos).

No fica mais favorecido o grupo dos magistrados e dos administradores. Meirinhos, 
corregedores, juzes, insaciveis espoliadores do povo, so impiedosamente fustigados 
na Barca do Inferno, na Floresta de Enganos, na Frgua do Amor, onde a Justia  uma 
velha corcovada com as algibeiras repletas de galinhas, perdizes e bolsas, as mo 
enormes, habituadas a *apanhar+. A corte, vrias vezes saudada como o jardim onde se 
cultivam as belezas

e os requintes, aparece outras vezes como um foco de corrupo, rapina e

nepotismo, responsvel pelos males da Nao, tal como a v S de Miranda na Carta a 
D. Joo 111. Aderncias (isto , empenhos) do Pao, eis o ttulo de uma das suas 
peas eclipsadas. No Triunfo do Inverno, uma nau prestes a naufragar, por 
incompetncia do piloto, que deve o cargo aos favores da corte, escapa graas a um 
simples marinheiro que, vtima da sua franqueza, nunca subira de posto, Os altos 
funcionrios rgios distribuem as benesses e despacham os requerimentos de acordo com 
os seus interesses: *eles so os presidentes e os mesmos requerentes+, diz uma 
queixosa da Romagem de Agravados.

No escapam, enfim,  crtica vicentina oficiais mecnicos, como o sapateiro que 
rouba o povo nos preos, o usurrio, alm do piloto incompetente. E de notar, 
todavia, que o nico ourives que aparece (os ourives eram ento numerosos em 
Portugal) figura como vtima do fidalgo que lhe no paga o trabalho. No comparecem 
mercadores e homens de negcio, intermedirios capitalistas, armadores, 
contratadores, etc., que ganhavam j ento uma

importncia crescente. Estes tipos esto, aparentemente, fora do circuito mental de 
Gil Vicente, provavelmente por no serem personagens padronizadas, por estarem fora 
da tipologia tradicional. Mas ao usurrio, explorador dos *pobres mesteirais+, no 
faltam correctivos.

Quem suporta a carga desta hierarquia social de parasitas e ociosos? Segundo Gil 
Vicente, o *Lavrador+. Este Lavrador, que faz duas rpidas mas impressionantes 
entradas em cena (Barca do Purgatrio, Romagem de Agravados), no  o rstico 
simpaticamente ridculo de que falmos a propsito dos tipos folclricos.  uma 
personagem pattica cuja voz acusadora tem acentos comoventes. Trabalha at  
extenuao, sem tempo sequer para limpar as gotas do suor. O produto do trabalho -
lhe arrancado pelos cobra-

203
dores de rendas ou pelosfrades. Na igreja escorraam-no como um co. At Deus, 
segundo Joo Murtinheira, parece comprazer-se em persegui-lo enviando-lhe o sol e a 
chuva fora de tempo - curiosa expresso de um quadro de valores meramente humanos. Em 
resumo, segundo o Lavrador do Auto impropriamente dito da Barca do Purgatrio:

Ns somos vida das gentes e morte das nossas vidas.

E todavia, pondera o mesmo Lavrador, todos vimos do mesmo pai Ado. Este sentimento 
da condio miservel do campons, alis sustentculo dos privilgios senhoriais, tem 
um acento profundamente sincero em Gil Vicente, e  a contrapartida grave do riso que 
ele prodigaliza a propsito das outras camadas.

Para abranger o conjunto da tipologia vicentina no nos podemos todavia circunscrever 
 pirmide feudal. Por exemplo, um dos tipos que Gil Vicente observa com mais 
realismo  a *moa da vila+, a Isabel de Quem Tem Farelos?, ou a Ins Pereira. O pai 
da moa est ausente e desconhecemos a sua condio social, mas trata-se certamente 
da filha de um oficial mecnico, que vive na *vila+, isto , fora da corte, num 
aglomerado urbano. Ela pretende subir de condio e por isso tem ouvidos atentos para 
o Escudeiro, que blasona de fidalgo. Reage contra o trabalho em casa a que a quer 
sujeitar a me. Ins Pereira, depois de ter querido libertar-se da condio viloa 
casando com o Escudeiro, ilude a fidelidade conjugal em segundas npcias com um 
rstico que se guia pela cabea dela. Isabel preludia, pois, aquela Ins Pereira que, 
em vez de amassar o po da casa, pinta o rosto e ensaia

os gestos diante do espelho. E a personagem principal do Auto da ndia  a mulher do 
soldado que faz vida alegre na ausncia do marido (tipo de fenmeno alis aludido 
numa carta humorstica de Cames). H uma longa tradio de farsa medieval sobre o 
tema do adultrio feminino, e a ela se liga esta veia vicentina, mas impressiona a 
extraordinria vivacidade destas figuras.

Se ponderarmos todos estes lados, verificaremos que Gil Vicente no se afasta de uma 
concepo tradicional da sociedade, em que os lavradores sustentam a hierarquia 
feudal, constituda principalmente por clrigos e nobres. A stira anticlerical, 
assim como a stira dos escudeiros, so temas tradicio-

204
nas, como o mostram o Livro de Buen Amor do arcipreste de Hita (sculo XVI) ou o j 
citado Lazarillo de Tormes. Em troca, falta nos autos vicentinos a observao de 
fenmenos muito tpicos do sculo XVI, como a acumulao da riqueza, e portanto do 
poder, nas mos de aventureiros e negociantes, em prejuzo da ordem senhorial, 
fenmenos que irritam vivamente S de Miranda e os dois satricos atrs mencionados 
do Cancioneiro de Resende, Duarte da Gama e lvaro Brito Pestana. Mas Gil Vicente 
regista outro fenmeno social coincidente com aquele: a migrao dos provincianos 
para a corte, onde iam aumentar a multido dos vidos de melhoria:

Cedo no h-de haver vilos:

Todos d'EI-Rei, todos d'EI-Rei!

E, a este propsito, pela voz do Almocreve, exalta a sociedade de outrora em que o 
filho do lavrador casava com lavradora, o filho de oficial com filha de oficial, em 
que os fidalgos de casta serviam os reis e senhores, e em que os camponeses davam o 
po a todos. O sentimento popular que faz vibrar os autos vicentinos  evidente, mas 
tambm salta aos olhos que esse sentimento popular se cristaliza em torno dos valores 
tradicionais. Gil Vicente aceita-os, como os tinha de aceitar o povo. O grupo deveras 
inovador nesta poca, e perigoso para a hierarquia feudal, no era o do campons nem 
o do arteso, mas sim o do mercador, que Gil Vicente ignora, como vimos. Todavia, 
numa famosa cena inicial do Auto da Feira, atribui ao Diabo mercador uma apologia do 
comrcio livre que de um modo admirvel resume o contraste entre uma tica 
radicalmente mercantil e a tica feudal, dentro de cujo quadro de valores h sempre 
algo de demonaco no comrcio.

Consideraes aproximadamente semelhantes se aplicam ao esprito de *cruzada+ que 
inspira a Exortao da Guerra, o Auto da Fama ou o episdio dos cavaleiros na Barca 
do Inferno, o que parece desmentido no Auto da ndia, onde um soldado do Oriente 
confessa, na intimidade, no ter tido outro propsito seno o de enriquecer com a 
pilhagem guerreira. O esprito de *cruzada+ servia, sem dvida, os interesses do rei 
de Portugal, mas era

tambm a representao colectiva e herica sem alternativa, que arrastava para a 
guerra uma parte activa da populao e que no podia deixar de ser aceite pelos 
prprios participantes, fossem eles capites ou simples

205
soldados. As clebres Trovas do Bandarra, contemporneas de Gil Vicente, que to 
populares se tornaram, comprovam que o esprito de cruzada, produto de uma estrutura 
social, penetrara em todas as camadas. E o episdio do Auto da ndia situa-se 
provavelmente num plano donde se no extraem implicaes gerais. Quanto aos Judeus, 
que ora so satirizados segundo o

padro dos preconceitos demaggicos, ora observados de, forma realista e 
despreconceituosa no mencionado episdio do Auto da Lusitnia, a carta a

D. Joo 111 talvez mostre que, sem pr em causa uma atitude religiosa anti-hebraica, 
Gil Vicente se mantinha favorvel  poltica de assimilao tolerante que fora a de 
D. Manuel e que s a partir de 1531 deixou de ser a

de D. Joo 111.

 portanto difcil uma destrina absoluta entre o que h de cortesanesco e o que h 
de comum na obra de Gil Vicente. O seu caso compara-se ao

de Lope de Vega, que simultaneamente consegue exprimir os ideais da monarquia 
espanhola e os da tradi o comum. Hoje  que damos por certa vis crtica talvez 
ento despercebida.

O que no quer dizer que no houvesse o sentimento, alis abstracto, da injustia da 
sociedade no seu conjunto, e especialmente em relao ao

campons, que servia a essa sociedade de instrumento e de sustentculo produtivo. Uma 
curiosa pea parece pr em causa os mais bsicos valores admitidos. No Juiz da Beira, 
um rstico ignorante e meio sandeu aparece a julgar as pessoas normais: um rapaz que 
desfiorou uma moa  absolvido, porque, segundo o juiz, isso no tem mal; uma 
alcoviteira que desencaminhou a filha de um judeu sai tambm absolvida, porque o juiz 
considera as alcoviteiras uma instituio til e necessria; um escudeiro que deve o 
salrio ao criado  condenado a sustentar o criado at pagar a dvida, etc. Estas 
sentenas so exactamente o oposto do que exigiam nesta poca as leis e os costumes, 
um pouco como as sentenas do juiz Azdak de Breclit, ou como, antes, as de Sancho 
Pana na ilha da Barataria. Mas a crtica que elas representam  to radical que s 
pode corresponder  afirmao, pelo paradoxo, de certos direitos imanentes  vida.

GIL VICENTE: O teatro de ideias

Gil Vicente participa no grande debate de ideias que agita a primeira metade do 
sculo XVI e que assume principalmente a forma de discusses

206
teolgicas. Alguns dos seus autos, e especialmente o Auto da Feira, intervm na 
polmica religiosa. Circunstncias peculiares, entre as quais os litgios de D. Joo 
111 com o clero nacional e com a Santa S, e as violentas dissenes entre o Papa e 
Carlos V, cunhado do rei de Portugal, que culminaram no saque e incndio de Roma em 
1527, deram-lhe oportunidade para, neste campo, ir muito mais longe do que qualquer 
outro autor portugus do sculo XVI.

Roma, quer dizer, a corte pontifcia,  uma das personagens principais do Auto da 
Feira. Pretende comprar a paz em troca de indulgncias, perdes e outros bens 
supostamente espirituais, de valor venal. O Serafim recusa

aceitar-lhe esta mercadoria e censura-lhe os vcios sem cerimnia. A situao resume-
se neste dito de Roma:

Oh, vendei-me a paz nos Cus, pois tenho o poder na Terra!

A crtica das indulgncias, perdes e semelhantes fontes de rditos para a Santa S 
fora levantada por Lutero e estava ento na ordem do dia.  assunto repetidamente 
versado pelos erasmistas. Gil Vicente no pode ser considerado erasmista (falta-lhe, 
por exemplo, o radical antibelicismo do sbio de Roterdo, e sobeja-lhe um forte 
culto da Virgem), mas coincide nalguns pontos com uma crtica reformadora comum a 
Erasmo. Faz tambm a crtica das rezas mecnicas, do culto dos santos, das romarias 
(Triunfo do Inverno; lembremos o seu desinteresse pelos milagres hagiogrficos, 
reduzidos a um breve S. Martinho sem sobrenatural, talvez simples sketch de alfaiates 
para procisso de Corpus); satiriza os pregadores medievais e suas subtilezas 
escolsticas (Sermo perante a Rainha D. Leonor); fustiga certos supersticiosos que 
pretendem ver em fenmenos naturais, como os terramotos, a mo vingadora de Deus 
(Auto da Mofi-na Mendes); condena a violncia como mtodo de converso dos Judeus.  
tambm tpica de certos humanistas a stira, to frequente nos seus autos, das artes 
ocultas, astrologia, feitiaria, adivinhao e outras. Isso no quer dizer que exclua 
a possibilidade de influxos astrolgicos: o que ele exclui  a possibilidade humana 
de devassar o oculto e s, de resto, lhe interessam os bens que se podem conciliar 
pela graa divina, mediante a f e as boas obras.

207
Gil Vicente vai todavia alm dos temas erasmistas e aproXima-se da heterodoxia, ou 
daquilo que, aps o conclio de Tremo, se consideraria heterodoxo. No Auto da Feira, 
os nicos que merecem o bom acolhimento do Serafim so os pastorinhos simples, que 
no pretendem comprar virtudes e imaginam o Cu como um stio parecido com a serra da 
Estrela. Dir-se-ia

que a simples pureza moral j basta para merecer o Cu. So os mritos

da Paixo de Cristo que salvam, gratuitamente, os protagonistas do Auto da Barca da 
Glria, os quais, pelas obras, mereciam o Inferno. Isto, combinado com a j referida 
crtica das indulgncias, oraes e outras *obras+, mostra que Gil Vicente no anda, 
por vezes, muito longe de algumas teses da Reforma. O seu Cristianismo parece 
aparentar-se com o franciscanismo

de tendncia heterodoxa, representado por Jacopone de Todi; e h uma ntida

inspirao franciscana em alguns passos lrico-religiosos, como a loa cantada por 
Abel no Breve Sumrio da Histria de Deus. A influncia de Erasmo, que Gil Vicente 
leu, e at imitou, pelo menos num passo da Romagem de Agravados, s podia fortalecer 
estas razes tradicionais.

Combinando a ausncia de verdadeiros milagres hagiolgicos em Gil

Vicente, o seu descaso quanto ao culto dos Santos (sobretudo em Triunfo

do Inverno), o carcter popularmente simples mas no milagreiro do seu

culto da Virgem, a sua constante troa das adivinhaes ou profecias - com

o teor da carta a D. Joo III, em que se insurge contra a tendncia dos frades para 
ver os fenmenos naturais aterradores como puros milagres ou castigos divinos -, no 
 difcil descobrir em Gil Vicente uma tendncia para racionalizar a ideia de Deus, 
de forma a garantir uma ordem da natureza

obedecendo a leis constantes, embora transcendentes  razo humana, pois o sentido da 
vida est na salvao post-mortem. Ora Gil Vicente conhecia a teologia de Raimundo 
Llio, que  uma tentativa de identificao do sentimento mstico da divindade como 
Razo Absoluta, tentativa mais afim de Plato que de Aristteles, e por isso oposta 
ao sistema tomista. A exposio sobre a Trindade no Auto dos Quatro Tempos parece ser 
de inspirao luliana, como tambm a carta de Santarm a D. Joo III. Atravs do 
lulismo podiam unir-se em Gil Vicente o misticismo franciscano atrs referido e a 
crena
na ordem inaltervel da natureza.

208

A poesia religiosa em Gil Vicente

Nesta contiguidade do real verosmil e do imaginrio, que  a expresso mais completa 
do teatro vicentino, o realismo sensorial aparece-nos como
uma faceta apenas de um todo que o transcende, articulando-se, por contraste ou por 
outras formas, com a alegoria. De facto, Gil Vicente no ser realista, se 
reservarmos tal conceito para quem configure a realidade observvel como um todo 
independente e encerrado em si mesmo, com o seu dinamismo prprio; esta realidade 
observvel constitui para ele somente uma das faces do mundo. Gil Vicente no procura 
apenas no homem e nos grupos humanos a mola que desencadeia os conflitos e suas 
resolues. As suas peas alegricas corporizam uma viso religiosa, em que a 
realidade observvel entra como um elemento.

Nos autos alegricos religiosos, o real quotidiano exerce uma funo muito definida: 
faz sobressair, pelo contraste, o carcter absoluto, imutvel, permanente do 
sobrenatural.  neles flagrante a busca de um efeito de oposio entre os dois mundos 
que lembra os pintores que, como o seu contemporneo Frei Carlos, contrapem  
transparncia luminosa das figuras sagradas a espessura opaca das personagens 
terrestres.

No Auto dos Mistrios da Virgem, mais conhecido pelo nome de Mofina
Mendes, patenteia-se este efeito do contraste entre o profano e o divino, entre as 
trevas e a luz. O intermezzo pastoril que deu o nome ao auto exerce uma funo dentro 
do simbolismo geral da pea, materializado e resumido no
pote de azeite que a Mofina, bailando, deixa cair no cho. Acentua, por contraste, a 
intemporalidade do mundo ideal, representado pela Virgem, pelas personificaes das 
virtudes e pelos anjos, cuja linguagem reveste uma solenidade litrgica, realada 
pelo latim das Escrituras. A prpria Mofina  ambgua (ora pastora real, ora 
personificao da sorte mofina), e o dramaturgo, num rasgo, salta finalmente da sua 
risvel leviandade individual  conscincia amarga de que, afinal, todos temos o 
nosso pote de azeite *que h dar consigo em terra+.

O Auto da Alma, inspirado no conceito medieval de que o mundo  o
mero trnsito para a vida verdadeira e perdurvel, conceito que deu origem a toda uma 
literatura - mais tarde, o Pilgrims Progress de Bunyan, e anteriormente o poema de 
Guillaume de Digulleville, Plerinage de Vie Humaine, de que existiu uma traduo 
parcial portuguesa, ao alcance de Gil Vicente -,

209
pode considerar-se uma das mais acabadas e lapidares expresses da arte gtica e do 
Cristianismo medieval. A situao define-a o Anjo, logo de incio, num plano 
simblico e sobrenatural: a Alma  uma entidade teolgica, posta em termos abstractos 
muito precisos. Quando ns vemos esta entidade imaterial, este raio luminoso que 
caminha pelo palco, enfiar, por sugesto do Diabo, braceletes nos braos, calar 
sapatos, recobrir-se de um vestido colorido e roagante, temos imediatamente o 
sentimento de que est a acontecer algo de incoerente. Na estrutura bsica da pea s 
h lugar para valores intemporais, expressos simbolicamente; tudo o que tem feitio, 
cor, stio e data  uma interveno espria e abusiva. Ora o pecado s existe no 
concreto, no tempo e no espao. O pecado, isto , o interesse pelas coisas 
terrestres, perturba portanto o ambiente inicial da pea. O Diabo est no seu
papel, procedendo como se ignorasse este ambiente, esta ordem intemporal de valores, 
dirigindo-se  Alma como a uma criatura mudvel, passvel de sentimentos e procurando 
arrast-la para a relatividade espacial e temprea. Por momentos, o Diabo consegue 
trazer para o palco a realidade psicolgica e sensorial, despertar na Alma a vaidade, 
o cansao, o desespero, esboar um mundo contingente em que h braceletes, e 
espelhos, e chapins de Valncia, e dias da semana, e prazos. Se tivesse levado a cabo 
o seu trabalho de seduo, o Diabo teria transformado a Alma numa Ins Pereira, e o 
auto numa farsa, onde j o Anjo perderia a cartada. O Anjo, contudo, intervm a tempo 
de atalhar a obra do Diabo, de salvar uma pureza apenas simbolizvel, transcendente 
ao mundo sensvel, repondo as coisas no plano intemporal e abstracto em que 
inicialmente as colocara.

 este jogo que faz do Auto da Alma uma obra nica e uma expresso viva, e em dado 
sentido dramtica, de uma concepo da vida segundo a qual a realidade aparente no 
passa de uma iluso, e os valores intemporais, que se postulam,  que so o 
verdadeiro real. Mas tambm no Auto da Feira h uma dualidade irredutvel de planos 
entre o mundo dos Anjos e o do Diabo.

A poesia csmica em Gil Vicente

Bem diverso  o esprito que anima certas outras peas alegricas. Movimentando uma 
populao fantstica de mitos tradicionais ou imaginados por ele prprio, Gil Vicente 
cria verdadeiros poemas encenados, revelando-se

210
um extraordinrio poeta de tipo pouco frequente na literatura portuguesa, no 
introvertido,  maneira de Bernardim Ribeiro, antes aberto  inesgotvel e plurifrme 
beleza do vasto mundo, cuja expresso mais tpica se encontra
nos Triunfos das estaes: Auto dos Quatro Tempos e, sobretudo, Triunfo do Inverno, 
personificado num portentoso Joo da Grenha, que assume, em
admirvel friso de metforas, toda a pica grandeza dos elementos em fria.

Atravs das suas falas e cantares, os deuses, os montes, os ventos personificados, as 
estaes do ano, os pastores, evocam no palco as foras csmicas, e, contracenando, 
levantam um hino a vrias vozes  natureza vigorosa e juvenil, bela na grandeza e na 
diversidade das suas manifestaes. Neste hino tem um papel importante a poesia 
popular ou em voga, onde subsistem esquemas e motivos da primitiva poesia galego-
portuguesa.

Esta inspirao insinua-se tambm nos autos cavaleirescos (por exemplo D. Duardos), 
nas farsas (Quem Tem Farelos.) e *tragicomdias+ (Comdia de Rubena, Auto da 
Lusitnia). Pode dizer-se que no teatro vicentino cristaliza certo folclore 
peninsular, enriquecido com a dupla herana da mitologia clssica, da literatura 
bblica, e ainda com a contribuio dos romances de cavalaria e dos rimances 
castelhanos, ento em voga na corte. Tudo isto se funde num todo maravilhoso, feito 
de campos floridos, de searas e de serras propcias ao amor, de ventos, de eflvios 
de Maio, de florestas onde bichos inmeros se fartam das migalhas de Deus, de neves, 
rios e charcos de Inverno, de mares de prata sob as estrelas, de barcos embandeirados 
a vogar para pases de lenda; em que Jpiter adora o Menino-Deus, em que David todo 
nu dana com Betsab sada do banho, e Salomo quer casar com a Sibila, e o Diabo, 
evocado por um frade nigromante, vai buscar Ambal ao Inferno para enaltecer el-rei D. 
Manuel - e todos se movimentam ao som de gaitas e pandeiros, por entre um coro de 
pastores em festa.

Este hino multiforme  Natureza transborda de todas as convenes, incluindo a que 
consistiria em enquadrar a realidade em limites definidos. A natureza de Gil Vicente 
tem uma fora mgica, no cabe dentro das suas prprias criaes; e, como um vento de 
cumeada, varre todas as atmosferas sentimentais em que se aninham os homens. Mesmo o 
D. Duardos, que em grande parte obedece aos padres convencionais do lirismo de 
corte, conclui num belo rimance que canta a partida dos amantes para a aventura 
ilimitada na companhia do mar e das estrelas. E na primeira cena da Comdia

211
de Rubena, a parteira faz entrar no quarto da menina grvida e queixosa um vento 
poderoso que expulsa todas as pieguices para s deixar lugar  vida, que  mgica e 
animal, burlesca e grandiosa, acima de todas as convenes humanas.

Talvez pudesse chamar-se a esta uma poesia csmica, a expresso verbal cheia de 
alegria, da fora criadora imanente ao universo, uma poesia afim da de Walt Whitman. 
Aparentemente tal poesia est em contradio com o ascetismo e o dualismo que inspira 
obras como o Auto da Alma; mas poderia lembrar-se que encontramos uma inspirao at 
certo ponto comparvel no Cntico, das Criaturas de S. Francisco de Assis, na medida 
em que este parece orientar-se para a negao do ascetismo medieval.

Aspectos estticos e estilsticos dos autos vicentinos
*/* a ler e a marcar
Imaginando a um plo o Auto da Alma e a outro, por exemplo, uma obra como o Triunfo 
do Inverno, veremos que os autos vicentinos oscilam entre uma expresso gtica 
coerente e de pureza estreme, e, por outro lado, uma acumulao de elementos 
heterogneos dentro de quadros que os no integram funcionalmente, como sucede no 
gtico flamejante, no plateresco e no manuelino. A arte de Gil Vicente faz-nos, 
assim, assistir  desintegrao do gtico, sem ser ainda uma arte realista, isto , 
uma arte em que acomposio j converge para a figura ou para os grupos humanos. De 
resto, a riqueza de temas e de aspectos da vida que integra exige porventura 
essaenorme liberdade de fico, incompatvel com as regras do jogo do realismo 
directo.

Se considerarmos os lineamentos gticos desta arte, no podemos deixar de ficar 
impressionados com a linha depurada e elegante (por exemplo, nas intervenes do Anjo 
no Auto da Alma), a solenidade sagrada, cheia de sugesto litrgica (Auto da Mofina 
Mendes), a fora do pathos (o arrependimento da Alma e as intervenes dos quatro 
Doutores), a majestade da invocao dos mistrios divinos (Auto dos Quatro Tempos, 
Breve Sumrio da Histria de Deus); enfim, os contrastes admiravelmente conseguidos 
entre o espiritual e o carnal, segundo a concepo da Idade Mdia (dilogo entre a 
Alma e o Diabo no Auto da Alma; dilogo de alguns compradores com o Serafim, no Auto 
da Feira). Entre todo o teatro medieval europeu,

212
talvez esta faceta vicentina constitua a mais elevada realizao do ideal da arte 
gtica.

Se atentarmos, por outra banda, nos momentos realistas, notaremos o extraordinrio 
vigor e certeza de trao com que se desenham as personagens atravs de dilogos que 
vo direitos ao essencial. De curtos dilogos como os travados entre o Diabo e as 
diversas personagens do Auto da Barca do Inferno, ou, no final de Quem Tem Farelos?, 
a disputa entre Isabel e a me, ressaltam com vigoroso relevo e recorte os tipos 
sociais. E toda a personalidade de Ins Pereira, ao longo da extensa pea a que serve 
de protagonista, resulta, alm de poderosamente saliente e definida, inexcedivelmente 
certa no seu comportamento psicolgico. Os tipos agem segundo a sua lgica e ritmo 
prprios, sem notas falsas. Notaremos tambm que a caricatura no  gratuita nem 
artificiosamente conseguida: resulta da acentuao dos traos tpicos. Da mesma 
forma, o cmico nasce, naturalmente, quer dessa caricatura, quer do encontro das 
concepes diferentes e contraditrias subjacentes ao comportamento de cada tipo 
social: seja exemplo o encontro a ss de Ins Pereira, ainda solteira, moa 
*despejada+ e ansiosa por se desfazer da donzelia, com o pretendente Pro Marques, 
que procura uma esposa honesta e respeitvel. Se fosse caso de procurar na literatura 
portuguesa um paralelo deste aspecto de Gil Vicente, ocorreriam certamente algumas 
pginas de Camilo, como aquelas em que descreve com igual vigor, lgica 
eautenticidade tipos como o ferrador Joo da Cruz, a Maria Moiss, o Bento Pedreiro e 
outros.

Se considerarmos, enfim, a obra de Gil Vicente sob o aspecto potico, notaremos a sua 
diversidade de tons, de temas, de atitudes e de gneros.
O lirismo corts inspira alguns passos delicadssimos do D. Duardos, entre outros. A 
poesia folclrica est presente sob vrias formas: os antiqussimos cantares 
paralelsticos, de que Gil Vicente recolheu os ltimos exemplares; as serranilhas; as 
loas tradicionais de Natal; as baladas ou rimances, que imitou, alm de reproduzir 
fragmentos, alis predominantemente castelhanos, e ento em moda. A poesia religiosa, 
ou at litrgica, est representada por hinos, alguns de inspirao franciscana, e 
por numerosas composies inspiradas nos Salmos ou em outros livros bblicos: o 
Gnesis, o Livro de Job ou o Cntico dos Cntcos. J falmos da poesia inovadora e 
enaltecedora da natureza prodigiosa. No seu conjunto, os autos de Gil Vicente

213
arrecadam um enorme tesouro potico, resumindo toda a tradio peninsular nos seus 
diversos aspectos popular, clerical e corts, mas todos fundidos ao calor de uma 
sensibilidade enraizada na vida popular, aberta aos impulsos mais pujantes da 
natureza e da sociedade.

Uma vida intensa percorre a expresso verbal em Gil Vicente, e d-lhe uma aparncia 
viosa, sem partes mortas, concreta, sem deixar de ser tradicional. Gil Vicente no  
sob o ponto de vista lingustico e estilstico um inovador. A sua retrica s conhece 
as formas simples do encarecimento, e prefere as imagens tradicionais, como estrela, 
flor, nave, mar, em cascata ao estilo de ladainha. Mas h um admirvel ritmo em 
crescendo, copioso e entusiasta, alm da constante riqueza de evocaes a percorrer 
estas sequncias. Gil Vicente  tambm fiel  tradio no uso predominante da 
redondilha maior (verso de sete slabas) e no modo de combinar este verso com os seus 
quebrados, como sucede no Auto da Alma ou n'O Velho da Horta. Mas sabe usar com 
mestria o verso mais longo (onze, doze, treze slabas).

No obstante o uso do verso, Gil Vicente sugere toda a vivacidade da linguagem 
coloquial. O verso no serve nele para marear distncia literria, a no ser em 
certas tiradas intencionalmente lricas ou oratrias. Serve, sim, para valorizar a 
lngua corrente, chamando a ateno do leitor para paralelismos ou contrastes, enfim, 
para tirar efeitos implcitos na fala quotidiana, tal como sucede com a maior parte 
dos provrbios tradicionais.

No se pode, alis, falar de uma linguagem coloquial em Gil Vicente, antes de vrias, 
de acordo com o estilo das peas e com a condio social das personagens. Na poca de 
Gil Vicente devia existir maior diversidade lingustica, segundo no s a diversidade 
das regies, mas tambm a das condies sociais. O dramaturgo acusa esta diversidade, 
variando a expresso fontica ou sintctica, o vocabulrio e as frmulas de 
tratamento conforme a origem social das personagens. O estudo de P. Teyssier, que 
alis quase se limita ao terreno lexical, regista a considervel variabilidade desses 
indicativos sociais e at psicolgicos. So os rsticos que empregam exclusivamente 
certas formas, como por exemplo ergueja (em lugar de igreja, que  a forma utilizada 
pelas personagens urbanas), e so eles, em geral, que se exprimem em linguagem 
arcaica, no relatinizada pelos humanistas, da mesma forma que entoam os cantares e 
executam as danas que caam em desuso nas cidades.

214

GIL VICENTE: Dramaturgos populares

Ainda que representado nos sales do Pao, Gil Vicente fez sentir a sua influncia 
num crculo muito mais amplo que o da corte. As suas peas, como vimos, corriam 
impressas pelo autor, em folhetos *de cordel+, e a sua Compilao de 1562 contava sem 
dvida com um grande apreo pblico.  certo, portanto, que se popularizaram; e no 
se deve excluir a hiptese de terem sido representadas tambm fora do Pao (hiptese 
perfeitamente vivel, visto que o texto impresso estava ao alcance de muitos).

Tal como sucedeu em outros pases da Europa, o gosto do teatro desenvolveu-se em 
Portugal ao longo do sculo XVI, num pblico burgus e popular. Apesar de vrios 
surtos de oposio e perseguio pelas autori~ dades, o interesse pelas 
representaes cnicas era tal, que em 1588 o Hospital de Todos-os-Santos de Lisboa 
obtinha o privilgio de conceder a respectiva autorizao, arrecadando uma parte do 
lucro. As representaes realizavam-se j antes em ptios e casas particulares por 
grupos modestos mas que parecem j ter alguma organizao regular, como se verifica 
pelo prprio testemunho auto-humorstico dos autos de E]-Rei Seleuco (Cames), da 
Natural Inveno (Chiado) e dos Stiros (annimo); mas a partir de 1591 constroem-se, 
em Lisboa, mediante contrato com o Hospital, dois edifcios prprios de pedra e 
alvenaria.

Outro indcio de certo interesse pela literatura teatral nesta poca  a publicao 
em 1587 de um volume intitulado Primeira parte dos autos e comdias portuguesas, 
compilado por Afonso Lopes; contm 12 autos, de Lus de Cames, Antnio Prestes, 
Anrique Lopes, Jorge Pinto e Jernimo Ribeiro.

No saiu todavia a anunciada segunda parte desta coleco. Entretanto publicavam-se 
em folhas volantes diversos autos de outros autores no includos naquele volume, 
como Antnio Ribeiro Chiado, Baltasar Dias, Afonso lvares, alm de outras peas 
annimas. Nos palcos representavam-se peas castelhanas, com o que contavam os 
autores daquela lngua. E] Burlador de Sevilla, de Tirso de Molina, abre com uma 
extensa descrio elogiosa da cidade de Lisboa, e isso evidencia que o autor tinha em 
mente a representao da pea na capital portuguesa.

Mais do que em Espanha, o teatro foi prejudicado em Portugal com proibies 
inquisitoriais muito severas e com a ofensiva dos Jesutas contra a representao de 
comdias. O ndex portugus de 1581 manda vigiar com

215
ateno as peas de teatro, e probe expressamente toda a crtica a pessoas 
eclesisticas - isto , ao poderoso e numerosssimo estrato social de que se 
alimenta, mais do que qualquer outro, a stira vicentina. O ndex de 1624 enumera 23 
autos, proibidos ou expurgados, no contando com os de Gil Vicente. O patronato rgio 
de que beneficiou Gil Vicente s acidentalmente parece ter acolhido uma obra cnica, 
como o Auto da Natural Inveno de Chiado; mas o bom acolhimento, tambm ocasional, 
de algumas casas nobres deve ter sido mais frequente.

Os autores includos na citada colectnea de Afonso Lopes e os editados nas folhas 
volantes costumam ser, e nem sempre adequadamente, englobados numa *escola 
vicentina+. A herana de Gil Vicente , com efeito, flagrante na maior parte deles. 
Conservam, em geral, o heptasslabo j tradicional; a impreciso de lugar e tempo; 
certa desarticulao de estrutura que permite a entrada de tipos e cenas alheias ao 
desenvolvimento da intriga, reduzindo-se at por vezes ao simples desfile de tipos 
caractersticos; assentam, por vezes ainda mais, na linguagem popular. Subsistem 
muito tipos vicentinos, tais como o Escudeiro pobre, a Alcoviteira, a Rapariga 
burguesa, o Magistrado, a Regateira, o Fsico, etc. Trata-se de uma herana que 
sobrevive, empobrecendo-se e arcaizando-se.

A maior parte das obras deste conjunto pode classificar-se dentro de trs gneros: a 
farsa, o auto novelesco e o auto religioso.

Pertencem  primeira categoria obras de Chiado, de Antnio Prestes, a Farsa do Fsico 
de Jernimo Ribeiro, a farsa de O Estudante ou Cena Policiana de Anfique Lopes, o 
Auto do Casciro de Alvalade, annimo (que lembra flagrantemente Quem Tem Farelos? e 
Ins Perera), o Auto do Escudeiro Surdo, annimo, que parece ter sido muito popular, 
porque tambm se lhe chamou da Fome e do Centeio e Milho, etc.; e  segunda 
categoria, o auto novelesco - cavaleiresco ou sentimental - no estilo do Dom Duardos, 
que gozou voga persistente at ao sculo XVIII: o Auto do Duque de Florena, de Joo 
de Escobar; o Auto de Florisbel, annimo, que tem muitas analogias com a Comdia do 
Vitvo; o Auto dos Sbios; o Auto dos Dous Ladres, de Antnio Lisboa; o Auto da Bela 
Menina, de Sebastio Pires; e provavelmente o Auto da Donzela da Torre e o Auto de D. 
Lus e dos Tu,rcos (ambos perdidos).

216
Quanto ao auto religioso, convm distinguir dois ramos. Um  a moralidade vicentina, 
a que pertencem o Auto da Av-Mara de Antnio Prestes, pea alegrica; o Auto do Dia 
de Juzo, annimo, anterior a 1559, onde ressalta a imitao dos Autos das Barcas; o 
Auto da Paixo do P.e Francisco Vaz, de Guimares, 1. 1 edio 1559, de que Manuel de 
Oliveira filmou uma representao popular transmontana. O outro  um gnero que Gil 
Vicente cultivou escassamente, as vidas dos santos: quase todas as obras de Afonso 
lvares e de Baltasar Dias. Tambm se conservam vestgios do auto religioso pastoril, 
como a Prtica de trs pastores, annimo, 1. edio 1601, natividade de flagrante 
tradio vicentina. Podemos aqui referir os sete ingnuos autos ou passos em 
redondilha, sobre S.t,, Agostinho, S. Francisco, antecedentes ou episdios da vida de 
Cristo, que o nobre e corajoso Francisco da Costa (1553-1591) escreveu para consolo e 
edificao dos seus companheiros de crcere em Marrocos, onde se representaram, e que 
se encontram no chamado Cancioneiro de D. Maria Henriques, publicado em 1956. Mantm 
as caractersticas dos autos vicentinos de devoo, com muito menos talento.

Antnio Ribeiro, de alcunha @@Chiado>@, e Antnio Prestes, bem menos *vicentino+, so 
porventura as personalidades mais marcantes. Chiado foi um frade franciscano de vora 
que fugiu  vida conventual e fez em Lisboa vida goliardesca, no decorrer da qual 
comps e possivelmente representou os seus autos: Prtica de oito figuras (1543), 
Auto das Regateiras (1569), Prtica dos Compadres (1572), Auto da Natural Inveno, 
representado perante D. Joo 111, Auto de Gonalo Chambo. Destas peas apenas o Auto 
das Regateiras tem uma aco consequente, que desfecha numa boda de casamento, entre 
gente tpica de Alfama. Nas outras h apenas tipos isolados, ou quando muito uma 
aco que se esboa e  depois esquecida. Os seus tipos so arrancados  rua, de que 
trazem para o palco a linguagem, as preocupaes, as usanas. Chiado distingue-se 
como observador da vida e linguagem popular, das quais nos d flagrantes.

Antnio Prestes, de Torres Novas, era um funcionrio judicial, que residia em Lisboa 
em 1565; escreveu sete autos, todos publicados na colectnea de Afonso Lopes (1586): 
Auto da Av-Maria, extensa moralidade alegrica de um castelo das virtudes assaltadas 
por vcios (tambm apresenta analogias com o Auto da Mofina Mendes de Gil Vicente), 
Auto do Procurador, Auto

217
do Desembargador, Auto dos Dois Irmos, Auto da Ciosa, Auto do Mouro Encantado, Auto 
dos Cantarnhos. Prestes satiriza o petrarquismo, o platonismo amatrio e, de modo 
geral, a influncia italiana, e manifesta simpatia por uma concepo pacatamente 
domstica de vida. Paira nos seus autos uma atmosfera de interior burgus. No Auto 
dos Dois Irmos revela influncia da comdia latina, sobretudo de Plauto. A sua 
linguagem  notavelmente rica e plstica, assim como o seu metaforismo, colhido em 
grande parte na vida quotidiana, mas tambm revelador de uma fantasia quase barroca. 
As suas intrigas tm uma certa coerncia, embora sejam um tanto lassas, para permitir 
intercalaes de cenas e tipos. O que h de mais morto nos seus autos so as 
alegorizaes, que neles ocupam papel importante.

Pela sua larga e perdurvel popularidade, convm salientar Afonso lvares, mulato de 
vora, contemporneo de Gil Vicente, autor dos autos de Santa Brbara, Santo Antnio, 
Santiago e S. Vicente; e Baltasar Dias, cego, natural da ilha da Madeira, autor dos 
autos ou dos rimances dialogados de El-Rei Salomo, da Paixo de Cristo, de Santo 
Aleixo, de Santa Catarina, da Feira da Ladra, do Nascimento de Cristo, do Marqus de 
Mntua, do Prncipe Claudiano, da Histria da Imperatriz Porcina, alm de Trovas 
moralistas sobre a Malcia das Mulheres ou com Conselhos para bem casar. Ambos 
exploraram o filo das vidas dos santos, aproveitando o que h de potico e romanesco 
na Legenda Aurca. Foram muito editados como literatura de cordel; e o ltimo, 
sobretudo, linearmente doutrinrio, ganhou largo pblico, ao ponto de ainda figurar 
em representaes populares no princ pio deste sculo e de continuar vivo no 
folclore brasileiro.

Para melhor perspectiva cronolgica, convm lembrar que s Anrique da Mota, nosso 
conhecido do Cancioneiro Geral, acompanhou Gil Vicente nos seus incios, pois as suas 
farsas e prantos so anteriores a 1516, e um dos seus esboos provadamente anterior a 
1506. Afonso lvares, com uma pea de 153 1, e Baltasar Dias, com privilgios de 
impresso outorgados em 1537, parecem pouco mais ou menos contemporneos da fase 
final da carreira vicentina. A primeira obra de Chiado data de 1542, segundo a 
estimativa mais recente. Os restantes autores e obras annimas pertencem, em geral, 
ao terceiro quartel do sculo.

A fuso da tragi.comdia comemorativa vicentina em redondilha com certo teatro 
decassilbico renascentista  representada por duas comdias bilin-

218
gues de Simo Machado, editadas em 1601 sob o ttulo de Comdias Portuguesas: uma, de 
cunho herico, a Comdia do cerco de Dio, e outra, de carcter pastoril e mitolgico, 
a Comdia da Pastora Alfea. O que h de comum a ambas  uma enredada aco novelesca, 
muito imaginativamente lrica, pattica ou principalmente espectacular. Na comdia 
herica, onde predomina o portugus (servindo o castelhano para distinguir as 
personagens muulmanas), a exaltao da coragem e do humanitarismo portugus enlaa-
se com a da abnegao amorosa e do cavaleirismo, virtudes alis reconhecidas aos 
inimigos da religio, com uma generosidade talvez originada na moda recente 
dosrimances mouriscos; e a glorificao militar dos heris dos cercos no impede 
certos quadros realistas da guerra nem uma apologia humanista da paz. Quanto  
comdia pastoril, particularmente adequada aos gostos do melodrama barroco, e escrita 
quase sempre em castelhano, embora destinada a celebrar a cidade do Porto, 
desenvolve-se como um ballet de mutaes rpidas e numerosas,  base de uma cadeia de 
desencontros do amor semelhante  do Auto Pastoril Portugus de Gil Vicente. Isto 
lembra a contempornea *tragicomdia+ jesuta. Com efeito, Simo Machado, como o 
teatro escolar jesuta de que vamos ocupar-nos, assinala a formao do gosto barroco.

O teatro escolar jesuta

Os Jesuitas, na sua Universidade de vora, no seu Colgio das Artes coimbro, nos 
colgios de Lisboa, Braga, da ndia e do Brasil, continuam a servir-se do teatro como 
exerccio de conversao latina e como nmero de festas comemorativas para visitas 
ilustres (pessoas rgias, provinciais, prelados, etc.) ou para grandes acontecimentos 
escolares (distribuies de prmios), tal como tinham feito os professores bordaleses 
trazidos por Andr de Gouveia. Os gneros mais representados eram: a tragdia bblica 
(predominante no sculo XVI); a fantasia alegrica j cultivada por Naharro e Gil 
Vicente, denominada (como na Compilao dos autos vicentinos, 1562) de tragicomdia e 
enquadrada numa cenografia que pretende deslumbrar; a tragdia hagiogrfica 
(dominante desde 1619), e espectaculosas pastorais, sobretudo pretextadas na histria 
de David (frequentes sob o domnio filipino). A grande novidade apresentada em 
Portugal pelo teatro escolar jesuta foi uma encenao enriquecida com as criaes 
cenogrficas italianas do sculo XVI: os panos de fundo pintados segundo as leis da 
perspectiva, mutaes mecnicas de cenrio, decorao e guarda-roupa aparatosos, 
efeitos de acompanhamento instrumental ou

coral. As personagens contavam-se em regra por dezenas (ou centenas); os coros ser-

         219
viam, mesmo nas tragdias, de entremez vistoso, e a inteno edificante era 
condimentada com cenas truculentas, duelos oratrios ou sentenciosos, cortejos, 
marchas sob fan~ farras e pendes, caadas, bailados e apoteoses finais.

Na sua fase final, do tempo de D. Joo V, a coreografia e a cenografia jesuta 
atingiro o apogeu, com profuso de bastidores movidos  mquina, dispostos em 
profundidade, coros  vista ou ocultos, e complicados conjuntos de ballet. Mas nunca 
se igualou a magnificncia da tragicomdia A Conquista do Oriente, representada no 
Colgio de Santo Anto por ensejo da visita de Filipe Il (de Portugal) em 1619, cujo 
guarda-roupa, reunido por emprstimo de conventos, igrejas e famlias fidalgas, 
contava alguns milhares de pedras preciosas, tecidos e baixelas riqussimas, num 
estenda] espalhafatoso. Deve acrescentar-se que o contedo ideolgico, psicolgico ou 
potico deste teatro no tem originalidade. A Ratio Studiorum, admitindo-o como 
exerccio escolar, recomendava a seu respeito a mxima cautela, excluindo a 
interveno de personagens femininas, o uso

de outra lngua que no fosse o latim e preceituando o confinamento a assuntos pios. 
Entre os dramaturgos jesutas neolatinos cujas peas se representavam em Portugal 
destaquemos apenas, pelos mritos literrios e por certo cunho temtico algo nacional 
(advertncias veladas a D. Sebastio, certo aparente anticastelhanismo), o P.e Lus 
da

Cruz, ou Ludovicus Crucius, cujas Tragicae Comicacque Actiones foram impressas em
Lio, 1605.

Criao da escola teatral espanhola

 a partir da obra vicentina e daquelas que nela convergiram que se cria a notvel 
escola teatral espanhola do sculo XVII. Pela importncia que ela assume entre ns 
at meados do sculo XVIII, vamos resumir a sua evoluo.

Lope de Rueda (falecido em 1565) percorre durante anos as regies do Sul da Espanha 
com a sua companhia de actores profissionais, que se assemelha s da commedia 
dell'A,rte italiana. Filipe 11 de Espanha, em 1598, a poucos meses da morte, lana 
sobre o teatro profano uma proibio que no vigora muito tempo; mas acontece, ao 
mesmo tempo, que alguns prelados protegem os espectculos cnicos, vinculando-os s 
grandes festividades, como a do Corpo de Deus ou as dos santos padroeiros das 
cidades, ou delas


extraindo rendimentos para hospitais e outras instituies beneficentes. Estas 
circunstncias impulsionam em Espanha, no sculo XVII, uma florao de autos 
sacramentais, que ainda continuam, enriquecendo-a, a tradio do teatro medievo. No 
mesmo momento em que aqui conhece uma revivescncia fulgurante, o teatro litrgico 
agoniza em Frana, onde acaba por ser proibido. Os principais dramaturgos 
seiscentistas espanhis so por isso clrigos, por vezes *familiares do Santo 
Ofcio+, o que condiciona sensivelmente o significado e a tcnica da escola, 
assinalando-lhe uma orientao consonante com a

Contra-Reforma e toda a ideologia do absolutismo espanhol. No entanto, o contacto 
popular que o teatro consegue manter, e que  mesmo indispensvel aos desgnios 
eclesisticos

220
a que ento obedece, faz que nele ressoem certos anseios, preocupaes e tendncias 
enraizadas do povo espanhol.

Nos ltimos anos de Filipe 11, que reinou de 1556 a 1598, anos j ensombrados pela 
derrota da Invencvel Armada (1588), assiste-se  lenta ascenso da tragdia de tema 
patritico e do drama de costumes, tingidos de naturalismo renascentista, com Juan de 
Ia Cueva

e Cervantes. Lope de Vega (1562-1635) finalmente, esse *monstro da natureza+ que 
escreveu mais de duas mil peas teatrais, no apenas desenvolve o auto sacramental, 
como cria de vez a comdia espanhola de capa e espada, com aco rpida e emaranhada, 
toda assente nos conflitos e equvocos levantados por pontos de honra  hombridade 
tradicional dos heris. O ponto de honra deste gnero dramtico retintamente espanhol 
reduz-se por vezes a um prurido formalista, que leva duelistas e vingadores a 
baterem-se no palco (como na vida real) por preconceitos de classe prprios da velha 
aristocracia; intervm, por outro lado, nestas peas, figuras rgias, quer para 
dirimir os conflitos mais graves, quer para se vencerem a si prprias nos seus erros, 
exprimindo uma idealizao do absolutismo. Mas Lope faz entrar nos quadros destas 
idealizaes certos casos da lenda espanhola em que magistrados concelhios ou figuras 
populares do tambm a sua lio de honra, sob final sano do rei, a aristocratas 
degenerados e at a reis que so levados a reconsiderar. Na medida em que consegue 
identificar a Nao com um absolutismo idealmente justo, Lope ergue uma crtica ao 
feudalismo; e as suas qualidades de concepo potica, de versificao 
penetrantemente lrica, mantm o culto renascentista do amor e das foras criadoras 
da natureza humana.

A escola de Lope conserva de incio o tratamento optimista, pico e pundonoroso de 
temas nacionais (Guilln de Castro, 1569-163 1, Luis Vlez de Guevara, 1579-1644, 
Ruiz de Alarcn, 1581-1639, Tirso de Molina, 1571-1648), repudiando os preceitos 
clssicos que nessa poca tanto preocupavam crticos e doutrinrios teatrais 
franceses. Neles a acao a vista do espectador predomina sobre as falas que definem 
caracteres ou situaes; o desenvolvimento da intriga salta fora de estritas unidades 
de tempo e de lugar, interrompendo-se apenas sob a presso de arroubos lricos, 
Enraza-se o profissionalismo teatral por conta das confrarias religiosas, primeiro 
nos ptios das hospedarias (corrales) de Sevilha, o grande emprio das ndias 
Ocidentais, depois nos de Madrid, onde, desde incios do ltimo quartel do sculo 
XVI, os principais teatros funcionavam quase diariamente e havia cerca de uma dezena 
de companhias de actores em concorrncia.

O reinado de Filipe IV (1621-1665) coincide com o apogeu da voga do teatro, mas


o seu alcance ideolgico altera~se profundamente. J em Tirso de Molina, que 
consagrou o tipo depois universalizado de D. Juan Tenrio, a natureza humana parece 
irresistivelmente obsessionada pelo pecado, a alma do drama tende a cifrar-se na 
busca, por parte dos protagonistas, de uma felicidade quase metafsica, atravs do 
mal e do logro. Em CaIdern de Ia Barca (1600~1681) as personagens esvaziam-se de 
psicologia ou de consistncia social e convertem-se em alegorias, salvo dentro dos 
limites em que a influncia lopesca se mantm. Tal como acontecer com os dramaturgos 
simbolistas, por exem-

     221
plo Maeterlinck -, Caldern, nas suas peas significativas, dir-se-ia pr em causa a

realidade objectiva da vida terrena, que se mantm apenas como verificao ou 
contrastaria das virtudes e sobretudo dos pecados por que cada um  responsvel (La 
Vida es

Suco). Neste idealismo que parece preferir a morte ao pecado, neste avesso do 
naturalismo que, embora por entre contradies fundamentais, pulsava ainda em Cames, 
Lope e Cervantes, o teatro deixa de ser uma representao plstica da vida; a vida  
que se

reduz, na concepo calderoniana, a um palco de alegorias teolgicas. O tema da dana 
da morte, que obsessionara j a primeira fase decadente do feudalismo (a fase pr-
absolutista), inspirara a Barca da Glria e o Breve Sumrio da Mistria de Deus de 
Gil Vicente, culmina em E] gran Teatro de] Mundo, pea que, como nenhuma outra, 
assinala o sentimento da inanidade que acompanha a derrocada filipina.

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SOBRE GIL VICENTE

1. Textos

A 1. > ed. de conjunto das obras de Gil Vicente foi publicada em 1562, Lisboa, com o 
ttulo Copilaam de todalas obras de Gil Vicente, pelo filho do autor, Lus Vicente. 
Declara este no prlogo que o pai comeara e deixara incompleta a compilaco dos seus 
autos, e que ele, Lus Vicente, acrescentara as obras de que pudera haver notcia. 
Declara tambm que se dera ao trabalho de *apurar+ as obras paternas. Nela se ] 
ainda uma dedicatria do prprio Gil Vicente a D. Joo lii, para a ed. impressa, que 
chegara a concluir. A Copilaam serviu de base a todas as ed. posteriores. Destas, s 
uma, a de 1586,  anterior ao sc. XIX, e foi catastroficamente mutilada pela 
Censura; contm um auto o D. Duardos - em que o editor no seguiu a ed. princeps, mas 
sim uma folha volante j emendada pela Censura, antes de 1551. Passaram perto de 250 
anos antes que a Compilao voltasse a ser impressa, em Hamburgo, 1834, por Barreto 
Feio e J. Monteiro, ed. que marca o ini 1cio dos estudos vicentinos e a restaurao 
de tal obra nos palcos portugueses.

Das ed. modernas so mais acessveis, embora muito imperfeitas, as de Mendes dos 
Remdios, em trs tomos, Coimbra, 1907, 1912 e 1914, com pref. e glossrio; a de 
Marques Braga, na col. *Clssicos S da Costa+, 6 vols., com pref., notas e 
glossrio; a do Porto, 1965, 1 vol. em papel bblia, sem indicao de organizador nem 
critrio expresso de fixao dos textos. Reprod. fac-similada, mas inabilmente 
retocada, da Compilao, Lisboa, 1928.


Os autos da Mofina Mendes e da Alma, segundo a Compilao, esto fac-similados em 
Silveira, Sousa da: Dois Autos de Gil Vicente, 3. a ed., Fund. da Casa de Rui 
Barbosa, Rio, 1973.

222
Ed. da Compilao, com introd. e texto normalizado por M. Leonor Carvalho Buescu,
2 vols- IN-CM, 1984.

Apesar da tentativa de Pimpo Costa, em Obras Completas de Gil Vicente, Barcelos,
1956, falta ainda uma ed. crtica ao conjunto da produo vicentina.

A Copilaam no inclui todas as obras de Gil Vicente. Trs autos, de publicao 
avulsa, provavelmente em vida do autor, foram proibidos pela Inquisio e 
desapareceram definitivamente: Auto da Aderncia do Pao, Auto da Vida do Pao e 
Jubileu de Amores. Um auto no includo na Copilaam, o Auto da Festa, foi descoberto 
numa folha volante quinhentista, e publicado pelo conde de Sabugosa em fac-simile 
(1906, reed. 1909). Finalmente, dois autos annimos foram tambm reivindicados para 
Gil Vicente, por Rvah, que os editou no vol. Deux autos mconnus de Gil Vicente, 
Lisboa, 1948: Auto de Deus Padre, Justia e Misericrdia e Obra da Gerao Humana, 
mas surgiram ponderosas objeces a tal atribuio.

Anteriormente  Copilaam, o prprio Gil Vicente editara alguns dos seus autos em 
folhas volantes. Dessas edies apenas se conhecem a do Auto da Moralidade (Barca do 
Inferno), de cerca de 1518, reeditado por 1. S. Rvah em Recherches sur les oeuvres 
de Gil Vicente, 1, dition critique ou premier Auto das Barcas, Lisboa, 1950 (reed. 
Lisboa, *0 Mundo do Livro+, 1959, com introd. de Rvah); da Tragicomdia D. Duardos, 
como vimos, reed. com estudo e notas de Dmaso Aionso, Madrid, 1942; e do Pranto de 
Maria Parda (1522), reeditado por Luciana Stegagno Picchio, Npoles, 1963. Uma folha 
volante quinhentista da Farsa de Ins Pereira, editada por 1. S. Rvah: Recherches 
sur les oeuvres de Gil Vicente, li, dition critique de l'Auto de Ins Pereira, 
Lisboa, 1955, reproduz provavelmente o texto de uma ed. anterior  Compilao.

O confronto das ed. feitas em vida de Gil Vicente (ou seus vestgios) com a Copilaam 
de Lus Vicente, mostra que esta, alm de incompleta,  defeituosa. O compilador 
modernizou, sem grande critrio, a lngua do original, alterou, suprimiu e 
acrescentou versos. As discrepncias so principalmente visveis entre as duas 
verses do Auto da Barca do Inferno, a da Compilao e a da folha volante 
quinhentista. Quem queira inteirar-se do problema encontra elementos nos trabalhos j 
mencionados de Rvah, 1. S.: Recherches sur les oeuvres de Gil Vicente, 1 e li, em 
artigos ou comunicaes de L. Stegagno Picchio, em Teyssier, Paul: Normes pour une 
dition critique des oeuvres de Gil Vicente, em Critique Textuelle Portugaise, Centre 
Culturei Portugais, Paris, 1986, pp. 123-130, e em Askins, Arthur Lee-Francis: *Notes 
on Pre- 1536 Portuguese Theatrical Chapbooks+, in Estudos Portugueses - Homenagem a 
L. Stegagno Picchio, Difel, Lisboa, 1990, pp.
301-310 (com indicaes textuais e bibliogrficas sobre literatura de cordel teatral 
quinhentista).


Edices crticas parciais e de textos nicos: Tragicomdia de Amadis de Gaula, por T. 
P. Waldron, Manchester, 1959; Comdia dei Viudo, prlogo e notas de Aionso Zamora 
Vicente, Centro de Estudos Filolgicos, Lisboa, 1962; Comdia de Rubena, introd. e 
notas de Giuseppe Tavani, Roma, 1965; Gil Vicente, Farces ano Festival Plays, texto, 
introd. e notas de Thomas R. Hart, University of Oregon, 1972. Da Tragicomdia D. 
Duardos h uma ed. baseada no confronto dos dois textos existentes (v. supra), por 
Stephen Reckert, na sua obra adiante citada.

3. @ POCA - RENASCIMENTO E MANEIRISMO                                               
    223
Durante os scs. XVI, XVII e XVIII realizaram-se vrias edies avulsas populares de 
certos autos vicentinos, principalmente dos autos das Barcas, do Auto da Mofina 
Mendes, do Juiz da Beira, do O. Duardos e do Pranto de Maria Parda. Gil Vicente era, 
pois, um dos autores predilectos da chamada *literatura de cordel+. Encontra-se uma 
bibliografia completa das antigas edies vicentinas em Freire, Braamcamp: Vida e 
Obras de Gil Vicente, * Trovador, Mestre da Balana+, Porto, 1919, reed. Lisboa, 
1944.

2. Antologias e edies escolares

Pululam as ed. avulsas modernas dos Autos: da Alma, de Ins Pereira, da Exortao da 
Guerra, do Auto da Cananeia, de Quem Tem Farelos?, do Auto da India e da Barca do 
Inferno, entre outras. Antologia de autos vicentinos em portugus, sob o ttulo 
Teatro de Gil Vicente, por Antnio Jos Saraiva, col. *Antologias Universais+, 4. a 
ed., Dinalivro, Lisboa, 1968, com pref., notas e vocabulrio; e outra, mais antiga, 
na col. *Lusitffia+, Porto.

A Fund. Casa de Rui Barbosa editou Dois Autos de Gil Vicente (Mofina Mendes e da 
Alma), 1972, Rio de Janeiro, com apresentao de Maximiano da Silva Carvalho/Cleonice 
Berardinelli e explicao de Sousa da Silveira.

As principais peas satricas esto reunidas no vol. Stiras Sociais, notas e estudo 
por  Maria de Lourdes Saraiva, Publ. Europa-Amrica, Lisboa, 1975.

3. Estudos

Obras clssicas, ainda muito importantes, mas que devem ser cotejadas com estudos 
actualizados:

Freire, Anseimo Braarncamp: Vida e Obras de Gil Vicente, *Trovador, Mestre da 
Balana+, Porto, 1919, reed. Lisboa, 1944 (obra que fixa os principais dados 
cronolgicos, bibliogrficos e histricos).

Pratt, scar de: Gil Vicente, notas e comentrios, Lisboa, 1931 (discutiu 
renovadoramente, entre outras coisas, a cronologia, classificao e inteno de 
vrias peas).

Pimpo, A. Costa: Histria da Literatura Portuguesa, t. li, Coimbra, 1947. Carvalho, 
Joaquim de: Os Sermes de Gil Vicente e a arte de pregar, in Estudos sobre a Cultura 
Portuguesa do sc. XVI, *Acta Universitatis Conimbrigensis+, Coimbra, 1948.

Vasconcelos, Carolina Michalis de: Notas Vicentinas, reunidas num volume, Lisboa,
1949 (importante reunio de dados eruditos variados).

Rvah, 1. S.: Recherches sur les oeuvres de Gil Vicente, 1 e li, Lisboa, 1951-
55Trabalhos mais recentes:

Moser, Fernando de Meio: Liturgia e iconografia na interpretao do *Auto da Alma+, 
in * Revista da Faculdade de Letras de Lisboa+, 3. > s rie, n. > 6, 1962.

Martins, Mrio: in Estudos de Cultura Medieval, Lisboa, 1969; e Introduo Histrica 
 Vivncia do Tempo e da Morte, 1, Braga, 1969 (permite teis relacionaes do teatro 
vicentino com as Laudes de Mestre Andr Dias, com a tradio geral e nacional de

224
prantos fnebres literrios e ainda com o terna da dana da morte). Do mesmo autor: 
Gil Vicente e o Texto dos Livros de Horas, in *Colquio/Letras+, n. 3, Setembro 
1971.

Saraiva, Antnio Jos: Gil Vicente e o Fim do Teatro Medieval, 1942, reed. 1965, 
Lisboa; Histria da Cultura em Portugal, vol. li, cap. 111; e Poesia e Drama 
(Bernardim, Gil Vicente, Cantigas de Amigo), Gradiva, 1990.

Teyssier, Paul: La Langue de Gil Vicente, Paris, 1959 (anlise lingustica e 
estilstica), e Gil Vicente - o autorea obra, *Biblioteca Breve+, ICALP, 1982 
(sntese excelente).

Sobre a versificao e a pronncia: Cunha, Celso: Regularidade e irregularidade na 
versificao do primeiro auto das Barcas de Gil Vicente, in Lngua e verso, 3. > ed. 
rev., S da Costa, Lisboa, 1984 (e tambm em Estudos de Versificao Portuguesa, F. 
C. Guibenkian, Centro Cultural Portugus, Paris, 1982).

Keats, Laurence: The Court Theatre of Gil Vicente, Lisboa, 1962, trad. port. Teatro 
de Gil Vicente na Corte, Teorema, 1988.

Malkiel, Maria Rosa Lida de: Para Ia gnesis del *Auto de Ia Sibila Cassandra+, in 
Estudios de Literatura Espai@ola y Comparada, Buenos Aires, 1966.

Lopes, scar: O Sem-Sentido em Gil Vicente, in Ler e Depois, Porto, 1969, 3. ed.
1971.

Torn[ins, Jack E.: Toward an aesthetic of Gil Vicentes drama, in *The Journal of The 
American Portuguese Cultural Society+, fl, n.os 1-3, 1968.

Hart, Thomas R.: The dramatic unity of Gil Vicente's *Commedia de Rubena+, *Bulletin 
of Hispanic Studies+, 46, n. > 2, Abril 1969; Gil Vicente, Farces and Festival Plays, 
University of Oregon, 1972.

Asensio, Eugenio: De los momos cortesanos y los autos caballerescos de Gil Vicente; 
Las Fuentes de Ias Barcas en Gil Vicente; El auto dos Quatro Tempos de Gil Vicente. 
Estes trs estudos esto publicados em Estudios Portugueses, do mesmo autor, Paris, 
Fund. C. Gulbenkian, Centro Cultural Portugus, 1974,

Post, H. Howens: As Obras de Gil Vicente como elo de transio entre o drama medieval 
e o teatro do Renascimento, in *Arquivos do Centro Cultural Portugus+, 9, Paris, 
1975.

Barata, Jos Oliveira: O vilo s avessas de seu mundo, sep. *Bibios+, Coimbra, vol.
51, 1975 (estudo contrastivo entre peas de Gil Vicente e outras do seu quase 
contemporneo veneziano Angelo Beolco, dito Ruzzante).

Saraiva, J. Hermano: Testemunho social e condenao de Gil Vicente, Lisboa, 1976. 
Reckert, Stephen: Gil Vicente, espiritu y letra, ed. Gredos, Madrid, 1977. Rebelo, 
Lus-Francisco: O Primitivo Teatro Portugus, *Biblioteca Breve+, Instituto de 
Cultura Portuguesa, 1977. (Contm antologia, incluindo descries de momos e textos 
neles utilizados.)

Osrio, Jorge Alves: O Testemunho de Garcia de Resende sobre o Teatro Vicentino. 
Algumas Reflexes, sep. de *Humanitas+, vols. 31-32, 1979, Coimbra, pp 71-96. 
(Contraste entre os momos de ostentaco ulica e os entremezes populares; concepo 
vicen-

          225
tina de comdia como forma dramtica mais categorizada do ponto de vista retrico e 
exemplarista).

Tavani, G.: Gil Vicente e a *Comdia, de Rubena+, in Estudos Portugueses, IN-CM,
1988, pp. 399-412.

Convm compulsar o *Bulletin d'histoire du thtre portugais+, 1950-54, onde, entre 
outros, se publicaram estudos e edies crticas de vrios autores, depois sados em 
volume, e ainda bibliografias dos estudos publicados entre 1947 e 1950.

Para informao bibliogrfica exaustiva, mas no crtica, e j desactualizada, 
consultar Bibliografia Vcentina, ed. da Biblioteca Nacional de Lisboa, 1942. 
Constantine C. Stathotos publicou em Sillages, 1977175, Poitiers, pp. 127-156, uma 
extensa bibliografia anglo-americana, incluindo recenses, 1940-75, sobre Gil 
Vicente.

Para dados mais actualizados, incluindo bibliografia, consultar Picchio, Luciana 
Stegagno: Storia del Teatro Portoghese, Roma, 1964 (trad. portuguesa corr. e 
aumentada, Histria do Teatro Portugus, Lisboa, 1969), e Ricerche sul Teatro 
Portoghese, Edizioni dell'Ateneo, Roma, 1969 (um dos textos que inclui, e que 
contesta a importncia dos arremedilhos jogralescos como precursores de Gil Vicente, 
est traduzido em A Li o do Texto, Filologia e Literatura, 1 - Idade Mdia, Edies 
70, 1979); e ainda vrios dos Estudos Portugueses - Homenagem a L. Stegagno Picchio, 
Difel, Lisboa, 1990, nomeadamente o de Asensio, Eugenio: Gil Vicente ysu cluda con el 
humanismo: Luciano, Erasmo, Beroaldo, pp. 277-300; e os de Jos L. A. Hernndez, 
Cleonice Berardinelli, Stephen Reckert, M. 1. Resina Rodrigues, C. C. Stathotos e 
Stanislav Zimia. Ver ainda nmeros especiais comemorativos do quinto centenrio 
vicentino da revista *Vrtice+ (XXV, n.os
264-66, Set. a Nov. 1965) e do suplemento literrio de *0 Estado de S. Paulo+ (1965-
12-04).

SOBRE A *ESCOLA VICENTINA+, TEATRO JESUTA E ESPANHOL

1. Textos

So muito insatisfatrias as ed. de que em geral se dispe para o estudo dos autores 
de literatura dramtica de cordel no sc. XVI. O estudioso poder encontrar uma 
extensa bibliografia das ed. antigas  entrada do captulo Os Continuadores de Gil 
Vicente, pp.
97-102 da Histria da Literatura Portuguesa Ilustrada, vol, li, cap. de Matos 
Sequeira. A Primeira parte dos autos e comdias portuguesas, de 1587, teve repr. fac-
similada na Editorial Lysia, Lisboa, 1973, pref. de Hernni Cidade e nota 
bibliogrfica de Jos V. de Pina Martins.

Edices modernas:


Ed, fac-similada de Dezanove Autos Portugueses que se acham na Biblioteca Nacional de 
Madrid, por Carolina Michalis de Vasconcelos, 1922.

Autos de Antnio Prestes, por Tito Noronha, 1871 (muito incorrecta), e ed. mais

recente na col. *Clssicos S da Costa+.
226
Autos da A v-Maria e dos Cantarinhos, Lisboa, 1889, Auto da Av-Maria de Antnio 
Prestes, ed. crtica e anlise por Simone Ribet, multigrafado com 4 fac-smiles, Fac. 
de Letras de Bordus, 1961.

Pimentel, Alberto: Obras do Poeta Chiado, Lisboa, 1889 (ed. incorrecta). Prtica de 
oito figuras, de Ribeiro Chiado, ed. com nota preambular de Maria de Lourdes Belchior 
Pontes, *0 Mundo do Livro+, Lisboa, 196 1.

Prtica dos Compadres, de Ribeiro Chiado, ed. apresentada por Luciana Stegagno 
Picchio, *0 Mundo do Livro+, Lisboa, 1964.

Auto da Natural Inveno, ed, conde de Sabugosa, Lisboa, 1917. Autos de A. Ribeiro 
Chiado, vol. 1, por Cleonice Berardinelli/Ronaldo Menegaz, Instituto Nacional do 
Livro, Rio de Janeiro, 1968.

Auto do Fsico, de Jernimo Ribeiro, ed. de F. M. Esteves Pereira, *Monumentos de 
Literatura Dramtica Portuguesa+, Lisboa, 1918.

Auto de Santo Aleixo, de Baltasar Dias, Porto, 1907. Auto de Santa Catarina e Auto da 
Malcia das Mulheres, do mesmo autor, respectivamente, Lisboa, 1864, e Porto, 1863 
(outras peas de Baltasar Dias esto includas em Floresta de Vrios Romances, 1868).

Autos e trovas de Baltasar Dias, pref., notas e glossrio de Alberto F. Gomes, 
Funchal, 1961, e IN-CM, 1984.

Auto de Santo Brbara, de Afonso lvares, Porto, 1907.

Auto do Bem-Aventurado Senhor Santo Antnio, ed. fac-similada, Porto, 1962; h outra 
ed. do Auto de Santo Antnio, com pref. e notas de Almeida Lucas, sep. da *Revista de 
Portugal+, 1948.

Auto da Paixo de Jesus Cristo, de Francisco Vaz, Porto, 1893.

O *Bulletin d'Histoire du Thtre Portugais+ editou: Auto dos Stiros, pea annima 
(tomo 1, n. > 2, 1950, reimpresso em Asensio, Eugenio: Estudos Portugueses, 1974); 
Prncipe Claudiano, de Baltasar Dias (t. li, n. > 1, 195 1); Auto de S. Vcente, de 
Afonso lvares (t. li, n. > 2, 195 1); Auto de Santo Aleixo, de Baltasar Dias (t. 
111, n. > 2, 1952), reproduzido em Rebelo, Lus-Francisco: Teatro Portugus, vol. 1, 
1. 1 vol., 1959.


Auto dos Dois Ladres, de Antnio de Lisboa, ed. fac-simiada por Eduardo Cafezeiro, 
Instituto Nacional do Livro, Rio de Janeiro, 1969. Texto prnceps (completo) e 
restituio crtica (incompleta) por Almeida Lucas, na *Labor+, n.o 112-114 e 116, 
1951.

Ed. recente do Auto das Regateiras, de Antnio Ribeiro Chiado, com introd. e notas de 
Giulia Lanciani, Edizioni dell'Ateneo, Roma, 1970.

Estudos do Teatro Portugus, Dom Andr, ed. do texto annimo de 1625, *Arquvos do 
Centro Cultural Portugus+, XIII, 1978, pp. 523-569.

O Auto das Padeiras chamado da Fome ou do Centeio e Milho, texto annimo do sc. XVI, 
ed. crtica e anotada por Maria Jos de Lencastre, Braga, 1982.

Cena Policiana, de Anrique Lopes, e Auto de Rodrigo e Mendo, de Jorge Pinto, por Joo 
Ribeiro na *Revista da Lngua Portuguesa+, Rio de Janeiro, Novembro de 1919 e Maro 
de 192 1.

              227
Auto de Vicente Anes Joeira, annimo, reprod. fac-similada de duas ed. quinhentistas, 
introd,, leitura crtica, notas e ndice lexical por Cleonice Berardinelli, Rio de 
Janeiro, 1963.

Machado, Simo: Comdias Portuguesas, 1. @ ed. 1601, Lisboa; 2.3 e 3.3 ed. 1631, 
ibidem; 4. > ed. 1706, ibidem. Comdia de Do, ed. crtica, com ntrod. e comentrios 
por Paul Teyssier, Edizioni dell'Ateneo, Roma, 1969.

De Anrique da Mota, alm das trs ed. do Cancioneiro Geral, que contm os seus

textos dramticos conhecidos, h uma ed. da Farsa do Alfaiate, por Leite Vasconcelos, 
Lisboa, 1924, e a incluso da Farsa do Hortelo em Pimpo, A. J. Costa: Poetas do 
Cancioneiro Geral, col. *Clssicos Portugueses+. Ver na Histria do Teatro de Luciana 
S. Picchio referncias a outras peas teatrais annimas, dispersas ou perdidas do 
sc. XVI, incluindo os textos religiosos dramatizados de Francisco da Costa, 
includas no Cancioneiro de D. Maria Henriques, ed. Lisboa, 1956.

Foi editada uma traduo de uma tragdia em latim, Eduardus, de Diogo de Paiva de 
Andrade (n. 1 576-t 1660), por J. N. Pereira Pinto, sob o ttulo port. de A Tragdia 
de Eduardo, IN-CM, 1986. Escrita c. 1650-60, tem como assunto a morte no cativeiro 
castelhano de D. Duarte de Bragana. Caracteriza-se por uma ideologia proseltica 
catlica e resta uracionista e conforma-se com o modelo de tragdia sentenciosa e 
oratria de Sneca.

O realizador Manuel de Oliveira filmou, sob o ttulo de Acto da Primavera, a Paixo 
de Francisco Vaz, representada por populares de uma aldeia transmontana.

2. Antologias

Rebelo, Lus-Francisco: Teatro Portugus: Das Origens ao Romantismo.

3. Estudos


Alm da Histria do Teatro Portugus de Tefilo Braga, 4 vols., Porto, 1870-7 1, e da 
Escola de Gil Vicente e Desenvolvimento do Teatro Nacional, Porto, 1898, do mesmo 
autor, obras hoje antiquadas mas ainda teis, podem ler-se o segundo captulo, j 
atrs citado, de Matos Sequeira, na Histria da Literatura Portuguesa Ilustrada e a 
obra do mesmo autor Teatro de Outros Tempos, Lisboa, 1933; a monografia de Eugenio 
Asensio sobre El Teatro deAntnio Prestes, *Builetin d'Histoire du Thtre 
Portugais+, t. V, n. 1, 1504, reimpressa in Estudos Portugueses, 1974; o estudo de 
Maria de L. Belchior Pontes, sobre teatro de Chiado, in Os Homens e os Livros, 
Lisboa, 197 1; os estudos includos em A Evolu o e o Esprito do Teatro em 
Portugal, ciclo de conferncias promovidas por *0 Sculo+ e editadas em 2 vols., 
1947-49; Frches, Claude-Henri: * Comdas de Simo Machado+, in *Builetin d'Histoire 
du Thtre Portugais+, t. li, n. 2, 1951, e t. lli, n. o
1, 1952, e Le Thtre, No-Latin au Portugal (1550~1745), Paris-Lisboa, 1964, que 
examina minuciosamente as principais peas jesutas representadas em Portugal. 
iRecenso importante por L. Stegagno Picchio, in *Cultura Neolatina+, XX1V, 1964, 
fasc. 2-3, Mdena),

Gomes, Alberto Figueira: Poesia e dramaturgia populares do sculo XVI - Baltasar 
Dias, *Biblioteca Breve+, ICALP, 1983.

228
Viso actualizada de conjunto e ampla bibliografia em Picchio, L. Stegagno: Histria 
do Teatro Portugus, atrs mencionada.

Teyssier, Paul: Le thtre populaire portugais aprs Gil Vicente: quelques travaux 
imprims et indits, in *lBulletin des tudes Portugais et Brsiliennes+, t. 44-45, 
Institut Franais de Lisbonne, 1983-85, pp. 44-45 (actualiza, com indicao de 
edies crticas, inditas, a bibliografia de Picchio, L. Stegagno: Histria do 
Teatro Portugus, Lisboa, 1964).

Para aspectos gerais do teatro espanhol e europeu, Dzhivelgov, Boiadzhev/ignatov: 
Histria del Teatro Europeo, trad. castelhana, Buenos Aires, com trad. portuguesa, e 
os dois primeiros vols, de Histoire ou Thtre da col. *Marabout Universit+, trad. 
frane. rev. e aum. da Storia Universali del teatro drammatico de Vito Pandolfi, 
Turim, 1964.

Para o teatro medieval, Aubailly, Jean-Claude: Le Thtre Mdival Profano et 
Comique, Larousse, 1975.


Captulo III

BERNARDIM RIBEIRO

Pouco se sabe documentalmente de Bernardim Ribeiro, alm de que colaborou no

Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. Pode portanto supor-se que pertenceu, como

S de Miranda, Gil Vicente e Garcia de Resende,  roda dos poetas palacianos. Um dos 
pastores da cloga Jano e Franco chama-se Franco de Sandomir, o que parece ser um 
anagrama ligeiramente alterado do nome de Francisco de S de Miranda, que teria sido, 
nesse caso, seu companheiro. No est provada, embora seja verosmil, a identificao 
do poeta com um seu homnimo que frequentou a Universidade de Lisboa entre 1507 e 
1511, e que em 1524 foi nomeado escrivo da cmara. Na cloga Basto, redaco 
anterior a 1544, S de Miranda fala do seu *bom Ribeiro amigo+ como j falecido 
(versos
397-398).

Uma aluso claramente autobiogrfica  *aldeia que chamam Torro+, assim como

outra aluso a um *monte+ e rpidos apontamentos da paisagem alentejana permitem-nos 
supor, com algumas probabilidades de acerto, que Bernardim Ribeiro era do Alto 
Alentejo, da actual Vila do Torro.

Data de 1536 a primeira impresso (provavelmente j pstuma) de uma cloga sua (a de 
Silvestre e Amador) sob o ttulo Trovas de dous pastores. Em 1554 so editadas em 
Ferrara, na oficina do hebreu emigrado Abrao Usque, as suas obras, juntamente com as 
de Cristvo Falco e vrios outros. Em 1557 sai nova edio em vora da Menina e 
Moa, continuada certamente por outro autor, com nova redaco e novos captulos.

A propsito da Menina e Moa aventuram-se algumas hipteses que adiante sero 
resumidas.

230

As obras menores e as clogas

No contando com as poesias que tambm so atribudas a Cristvo Falco, as obras 
conhecidas como sendo de Bernardim Ribeiro so: diversas cantigas, vilancetes, 
esparsas e outras composies includas no Cancioneiro

Geral; cinco cIogas; a sextina heptassilbica Ontem ps-se o sol, e a noute, com 
mais duas poesias; e o Livro da Menina e Moa.

A colaborao no Cancioneiro pouco tem,  primeira vista, de pessoal: so peas de 
cortesia amorosa e dialctica sentimental, em que as relaes e os sentimentos vm 
referidos abstractamente segundo um estilo e uma versificao usados por outros 
poetas do Cancioneiro, como S de Miranda.

As clogas podem considerar-se, at pela sua estrutura versificatria

(estncias de 10, e num caso de 9, redondilhas maiores), como desenvolvimento das 
cantigas do Cancioneiro em que as estncias, deixando de sujeitar-se a motes, 
passassem a ligar-se entre si por uma intriga amorosa-pastoril, mais ou menos 
entretecida de aluses autobiogrficas e de elementos convencionas, tal o 
emagrecimento do gado devido  incria do pastor enamorado. As contradies do 
sentimento amoroso podem assim exprimir-se mais estrememente.

A cIoga, gnero helenstico consagrado pelo grego siracusano Tecrito (sculo IV a. 
C.) e seus discpulos Mosco e Bon, tendeu sempre, sobretudo desde que Vrgilio a 
assimilou, para um certo convencionalismo, pois exprime, em regra, a nostalgia da 
vida campestre tal como a idealiza o amaneiramento cortesanesco. Como quadro de 
costumes que foi na origem, apresenta normalmente uma estrutura dialogal; pelo que 
ora tende para a encenao dramtica (Encina, Gil Vicente), ora se desenvolve em 
sentido novelesco, geralmente entremeando prosa e verso (Ameto de Boccaccio, Arcdia 
de Sannazzaro, Dana de Montemor), ora se transforma num dilogo contrastivo. Em 
Bernardim predomina a ltima tendncia; uma das clogas desdobra-se em solilquio (a 
de Jano); trs limitam-se a contrastar o desabafo lrico com os conselhos do bom 
senso; outra (a de Jano e Franco) esboa uma aco sobre o motivo do sapato da Gata 
Borralheira, mas logo se converte em monlogo lrico. O gado, uma paisagem em que h 
um rio, matas, s vezes um *monte+ alentejano, servem de fundo ao dilogo ou monlogo 
dos pastores.

Nesta parte versificada da obra de Bernardim Ribeiro - tanto as lricas do 
Cancioneiro Geral, como as cIogas - encontramos alguns temas e

231
lugares-comuns caractersticos daquele Cancioneiro. Bernardim, hipostasia a 
Esperana, o Cuidado, a Mudana, o Tempo, o prprio Eu convertido em

objecto, ou Mm. Combina-os, ope-nos num jogo de extrema subtileza e

de denso significado. A emoo como que se desentranha do sujeito, se objectiva em 
relao a ele, num desdobramento mltiplo da personalidade, que fica como que 
assistindo a esse jogo das coisas no qual se converte: o Eu contempla o Mim, o 
Cuidado, a Esperana, a Mudana que ele prprio foi ou est sendo. Na finura com que 
se exprime uma tal alienao psquica, h um amaneiramento quase gramatical que  
precursor do de Fernando Pessoa:

De esperana em esperana me levou aps si grande engano ou confiana. Se me isto 
tomara outrora cuidara de ver-lhe a fim. Mas que hei-de cuidar j agora sem esperana 
e sem mim?

ou

Dentro do meu pensamento h tanta contrariedade

que sento contra o que sento vontade e contra-vontade.

Outro aspecto que salta  vista nestas composies  um certo apego narcsico  dor, 
ou talvez melhor, uma vontade de viver a dor at ao fim, de a transcender 
compreendendo-a. Voltaremos a encontrar isto a propsito da Menna e Moa. So de 
notar igualmente breves anotaes pictricas da paisagem - por exemplo, o espectculo 
dado pelas patas movendo-se na gua  primeira vista surpreendentes neste poeta 
introvertido.

Apesar do seu tradicionalismo mtrico, Bernardim evidencia uma formao mais 
renascentista que a que j se revela no Canconeiro Geral. So disso prova, quer a 
concepo de vida das suas novelas, quer o cultivo da cloga e da sextina, quer 
certos vestgios mais ou menos claros e directos de Virgilio, Ovdio, Petrarca, 
Sannazzaro e Boceaccio.

232
A cloga Crisfal. Problema que levanta

Editada primeiro anonimamente, a cloga dita *de Crisfal+ aparece reeditada em 
Ferrara, 1554, juntamente com a obra de Bernardim Ribeiro e atribuda em nome da fama 
pblica a Cristvo Falco, a cujos amores precoces e infelizes com D. Maria Brando 
seria alusiva.

Bouterweck, o primeiro historiador crtico da nossa literatura, e D. Carolina 
Michalis apontaram analogias estilsticas flagrantes com as clogas de Bernardim. 
Delfim Guimares defendeu depois, em 1908, a tese de que a autoria da cloga era 
bernardiniana, acrescentando s analogias atrs mencionadas determinadas conjecturas 
biogrficas, que mais tarde o brasileiro Raul Soares, Tefilo Braga, D. Carolina 
Michalis, Silva Gaio e outros

rebateram. Antnio Jos Saraiva, em 1940-41, voltou a propugnar a autoria de Bernar~

dim, desenvolvendo a anlise das analogias estilsticas: a maior objectividade da 
construo desta cloga dever-se-ia ao facto de Bernardim nela versar um caso alheio 
e j famoso. De Cristvo Falco figura tambm, naquele volume de 1554, uma Carta em 
verso cheia

de veemncia passional, que se descobre atravs de nexos lgicos mais elpticos, mas

num movimento sentimental mais sequente e comunicativo que o das cIogas.  hiptese 
da autoria bernardiniana opem-se crescentes dificuldades extrnsecas: ela  
infirmada pela convico de dois autores quinhentistas, Gaspar Fructuoso e Diogo do 
Couto, e pelo facto de a cioga e a Carta no figurarem na 3. 1 edio das obras de 
Bernardim (vora,
1557-58) nem nos dois manuscritos destas obras recentemente encontrados em Madrid.

H um flagrante parentesco entre a cloga Crisfal e a Menina e Moa. Trata-se de uma 
cloga novelesca. Um sonho (explicado por antecedentes psicolgicos) permite que o 
protagonista, *corno ave voante+, viaje do Alentejo litoral at Lorvo, cruzando o 
Tejo, avistando do alto as serranias da Estrela e depois os soutos da Beira Alta. 
Antes de se encontrar e explicar com a

amada, num dilogo intenso de dramatismo e ternura sensual, h curtas digresses 
narrativas: a histria de Natnio e Guiornar, referida entre o ladrar dos ces, o 
mugir do gado e o *triste coaxar das rs+; e a histria de uma mal-maridada. A 
estrutura  mais elaborada que a das clogas incontroversamente bernardinianas. As 
convenes pastoris passam a plano secundrio, substitudas pela imaginao, que hoje 
parece ingnua, do que seja a paisagem vista em voo, e dos quiproqus que retardam a 
explicao amorosa final, no sonho desenganado pelo acordar. A subtileza psicolgica 
da Menina e


Moa ocorre em vrios passos, como quando Crisfal (tal como Avalor na

233
novela) est *com um temeroso prazer / Que si ter quem deseja+, e sobretudo ao 
descrever-se o embarao e os lapsos de lngua da mal-maridada perante o seu idoso 
marido:

Quando com ele me assento a falar, caio em mngua, porque, por esquecimento, falando, 
descobre a lngua o que jaz no pensamento.

A Menina e Moa: novela de psicologia do amor

Quer a cloga Crisfal seja ou no de Bernardim, a verdade , pois, que, pela sua 
estrutura novelesca e psicolgica, estabelece a transio para a obra em que 
superiormente se exprime o seu sentimento trgico de uma vida apenas orientada pelo 
amor: uma novela de psicologia amorosa em prosa que, afinal, se pode considerar 
potica.

No sabemos que forma tinha essa novela tal como saiu das mos do autor. H duas

verses diferentes, uma de 1554, editada em Ferrara por Abrao Usque, outra de 1557, 
editada em vora por Andr de Burgos. Diferem no    > s textualmente, mas tambm 
porque a segunda  muito mais extensa que a outra, pretendendo oferecer ao leitor 
completa e acabada a obra que na edio de Ferrara se apresenta sem concluso. A 
diferena manifesta-se logo no primeiro perodo:

*Menina e moa me levaram de casa de minha me para muito longe+ (1554); *Menina e 
moa me levaram de casa de meu pai para longes terras+ (1557).

H na verso de vora captulos certamente apcrifos, mas no tem havido consenso

crtico at hoje quanto ao texto genuno de Bernardim e quanto  extenso dos textos 
posteriores. Contradies flagrantes entre os ltimos captulos e os primeiros 
denunciam que o texto eborense contm acrescentos apcrifos, e nisto convm quase 
todos os crticos. Parecem-nos sem grande consistncia os argumentos de Jos Pessanha 
e lvaro da

Costa Pimpo, que restringem a autoria de Bernardim, respectivamente,  primeira 
parte, mais os 9 primeiros capitulos da segunda parte. A anlise interna torna 
verosmeis as

hipteses que tm como autnticos todos os capitulos at ao XXIV (inclusive) da 
segunda parte (Antnio Salgado Jnior) ou ainda, alm disso, alguns grupos de 
capitulos subsequentes (Antnio Jos Saraiva). Contudo, tambm no se exclui a 
probabilidade de que

234
a apocrifia principie justamente no capitulo XVIII da segunda parte, a partir do qual 
nos

encontramos apenas com o texto de vora, hiptese que tem um importante argumento a 
seu favor: o facto de os dois manuscritos conhecidos, um de finais do sculo XVI e 
outro, parcialmente publicado, de cerca de 1545, coincidirem com o texto de Ferrara. 
A titulao dos capitulos, que s aparece na edio de vora, deve ser da 
responsabilidade do editor, pois, alm de outras estranhezas que apresenta, est por 
vezes em contradio com a matria correspondente, nomeadamente nos capinilos XVH-
XIX, LII e LVII

da segunda parte.

Independentemente de qualquer determinao erudita do cnone da Histria da Menina e 
Moa (ou Saudade de Bernardim Ribeiro, na edio eborense),  legtimo encarar a 
obra, globalmente, como espcime portugus da novelstica sentimental do sculo XVI, 
examinando-a e julgando-a tal como

se apresenta nas diferentes verses conhecidas. A novela sentimental, consagrada com 
a Elegia di Madonna Fiammeta de Boccaccio e as histrias trgicas da jornada IV do 
Decmeron, encontrou cultores peninsulares, como

foram Rodriguez de Ia Craera, ou del Padrn (E] Siervo Libre de Amor), e Diego de 
San Pedro, com cujo Tractado de Arnalte y Lucenda tem importantes pontos de contacto 
o enredo inicial da Menina e Moa.

Principia o romance de Bernardim pelo monlogo de urna *Menina e Moa+ (dir-se-ia o 
desenvolvimento, em prosa rtmica, de uma cantiga de amigo), de que se entrev um 
amor infeliz, uma dolorosa separao e duas mudanas de terra, tudo isto em vagas 
aluses que se inserem num extenso rebusque de razes de ser triste - pois cada 
motivo de sofrimento  logo a seguir ultrapassado por outro motivo mais forte, numa 
dialctica sentimental contnua que se exprime atravs de frases antitticas, de 
jogos de palavras, de apartes entre parnteses. Nas canes camonianas iremos 
encontrar uma

dialctica sentimental muito semelhante, frias mais cheia de referncias concretas. A 
sugesto lrica deste solilquio inicial  intensa, embora se espraie numa languidez 
contemplativa que no deixa prever o desenvolvimento concatenado de uma aco 
romanesca. A Menina e Moa declara que *o livro h-de ser do que vai escrito nele+ e 
que o escreveu para si prpria, sem propsito de o acabar, porque as mgoas tambm 
no acabam. Parece responder assim, antecipadamente, s perplexidades dos crticos 
como o positivista Tefilo Braga - que explicaram o inacabamento e as inconsequncias 
da obra por uma alienao mental do autor. Toda a fala

235
da *Menina e Moa+ exprime um querer sofrer porque sim, Uma interpretao fatalista 
sentimental de quanto existe, o gosto da solido, da noite, da distncia indefinida 
(*... olhar a terra como ia acabar ao mar, e depois o mar como se estendia logo aps 
ela, para se ir acabar onde ningum o visse+).

A partir do fim do captulo 11 at  concluso do captulo IV, o monlogo cede lugar 
a um dilogo entre a donzela e uma *dona do tempo antigo+, que tambm sofre de coita 
de amores. As falas da dona tm cada vez mais extenso, o que altera sensivelmente o 
estilo e at a sintaxe da obra; o lirismo  substitudo por uma certa reflexo 
amadurecida, que formula uma filosofia sentimental-feminista: os homens (nomeadamente 
os cavaleiros das novelas ... ) no sabem o que so profundos cuidados amorosos, 
porque s o isolamento domstico permite, s mulheres, o culto dos sentimentos 
delicados. Exceptuam-se dois homens, de que ela, dona, vai contar a histria triste.

Segue-se (captulos V-IX) a parte introdutria da narrativa, em que h um lance 
cavaleiresco (a morte do Cavaleiro da Ponte), e onde ganham relevo diversos agouros 
dos desastres que vo seguir-se, entre eles a morte, durante um parto, de Blesa, a 
companheira do Cavaleiro da Ponte.

Do captulo X at ao fim da primeira parte desdobra-se o caso sentimental de 
Binmarder-Ania. O cavaleiro Narbindel enamora-se de Ania, irm de Bilesa; para 
viver perto dela faz-se pastor e, corri pequenas outras modificaes, troca a ordem 
s letras do nome, passando a chamar-se Birimarder.

Ao episdio cavaleiresco sucede o episdio buclico, de fundo burlesco, em contraste 
com a delicadeza sentimental do falso pastor. Ania enamora-se por sua vez *sobre a 
sombra de piedade+ causada pelo sofrimento do pretendente, processo psicolgico 
perspicazmente observado. Bernardim constri aqui uma novela que,  parte certos 
excessos e convenes de escola, se desenvolve em circunstncias bem notadas de 
enquadramento natural, domstico e humano, e sobretudo atravs de uma anlise da 
intimidade feminina que s vir a desentranhar-se no romance psicolgico moderno ou 
em

De l'Amour de Stendlial. Esta parte conclui pelo casamento da protagonista, levada 
para longe, e pelo desaparecimento do apaixonado desgostoso. O futuro fica em 
suspenso, mas o autor adverte que *mudana possui tudo+.

A segunda parte constitui, at final do captulo XI, urna interessantssima novela: o 
caso sentimental de Avalor-Arima (a filha de Bilesa), que

236
decorre todo em ambiente palaciano. Sobressai a impressionante anlise da timidez 
ablica de Avalor em declarar-se (apogeu, alis, de um tema do Amadis e de certa 
novelstica arturiana), onde encontramos passos como este:

* ... outras muitas vezes tornou a falar com ela, e tambm nunca lho disse; ora lhe 
parecia que, se aquilo no fora, que lho dissera, ora se no fora aqueloutro; e 
quando no achava a quem se tornar, nunca lhe deixava de parecer seno que lhe 
falecera tempo. [... 1 E j quando veio l ao cabo do ano, mais diligncia punha em 
buscar desculpas para consigo s, por onde cuidasse que no pudera ser, do que punha 
em buscar outras cousas. + (capitulo VIII, 2. a parte).

Esta parte, paralelamente  anterior, remata pela partida de Arinia, por mar, atrs 
da qual seguiu o amado, em barco  deriva para destino desconhecido - o que se sabe 
por uma maravilhosa balada, ou rimance, *que ficou daquele ternpo+. Este, j 
anteriormente  Menna e Moa, se publicara num

Cancioneiro de Romances castelhano de 1550, facto inslito por ser a o nico

texto portugues.

Em ambas as novelas a imaginao cavaleiresca, ou mesmo aventurosa em geral, 
desempenha um papel secundrio. O fulcro da aco  inteiramente psicolgico e 
exprime uma filosofia trgica do amor. Da a hiptese, aventada por Antnio Salgado 
Jnior, de que Bernardim tivesse em mente

um *Decmeron sentimental+, isto , uma srie de novelas ligadas entre si, como as da 
coleco de Boccaccio, por um enredo central - aqui o encontro da *menina e moa+ com 
a *doria do tempo antigo+. De facto, a parte da autoria incontroversa deixa-nos na 
expectativa de narrativas como as da

morte traioeira dos *dois amigos+ (um dos quais  Binmarder e o outro, talvez, 
Avalor, embora isto j se no possa garantir), o suicdio das respectivas amadas, os 
prprios casos sentimentais das interlocutoras e o da ama

de Ania.

No entanto, em contraste coni o desenvolvimento lento e pormenorizado das histrias 
de Birimarder e de Avalor, desenvolvimento que excede o mbito

da novela decamernica aproximando-se do romance moderno, em contraste

tambm com a perspiccia e com a extraordinria originalidade das suas histrias, as 
aventuras cavaleirescas que se seguem nada trazem de novo e sujeitam-se inteiramente 
s conven es do gnero.

         237
As aventuras de Avalor, feito cavaleiro andante, preenchem os captulos XII-XX1V 
(cuja autenticidade, alis, h quem conteste) e consistem, fundamentalmente, em repor 
nos seus direitos amorosos Ziclia, que o cavaleiro Donanfer repudiara por Olnia. 
Mantm-se um certo interesse sentimental, tanto mais que a simpatia do romancista 
passa a envolver Olnia, quando, por seu turno,  repudiada. Salgado Jnior sustenta 
que este episdio se pode integrar numa superior concepo de conjunto dum 
*Decrneron sentimenta]+: tal como nas duas novelas mais importantes, as desventuras 
da personagem simptica so fatalmente desencadeadas pela revolta do amor-paixo 
contra um compromisso anterior. No entanto, o interesse psicolgico  muito inferior 
ao do dos anteriores casos, e, sobretudo, no se compreende a intercalao de uma 
aventura do pai de Avalor, muito semelhante  do filho.

Os captulos XXV~XXXI (certamente apcrifos) pretendem introduzir o *segundo amigo+, 
que seria Tasbio e no Avalor, como at ento parecia, e reconstituir os 
antecedentes do episdio introdutrio de Bilesa-Lamentor. So meras andanas 
cavaleirescas, muito emaranhadas, em que chega a no compreender-se a arrumao 
cronolgica. Comea a notar-se a predileco dos combates sangrentos. Ressaltam 
numerosas contradies corri a primeira parte.

Os captulos XXX11-L (onde alguns julgam haver fragmentos autnticos) procuram 
rematar tragicamente a histria de Binmarder-Ania. O ritmo da narrao volve-se mais 
lento e sentimental, e alguns captulos atingem certa finura psicolgica 
(nomeadamente XLIV-XLV); mas  bastante sensvel o decalque dum passo do Amadis de 
Gaula, e a

imitao da maneira benardiniana trai s vezes outra mo mais rude; o enredo integra-
se na ortodoxia catlica daqui em diante, e o livro vai rematar por uma morte e dois 
casamentos sacramentais: Tasbio, afinal, depois de um comportamento apagadssimo, 
tanto cavaleiresca como sentimentalmente, vai casar feliz. Estes casamentos esto 
inteiramente fora do esprito que anima a obra at ao capitulo XX1V.

Pensamento da Menna e Moa

No seu conjunto, e considerando especialmente a parte incontroversamente 
bernardiniana, a Meina e Moa tende a exprimir uma filosofia segundo a qual o que 
confere  vida humana o seu mais alto valor  o empenhamento amoroso. O amor faz ali 
valer direitos contra o dever comum, contra o sacramento conjugal, absorve os outros 
fins do indivduo, cria um ambiente de irresponsabilidade fatalista, que se confirma 
por sonhos premonitrios, aparies, vozes sobrenaturais, agouros, palpites, smbolos 
ou contrastes na natureza. A natureza da Menina e Moa tem um duplo aspecto: ora  um 
espelho, em que as criaturas humanas se vem ou vem o seu contraste, um espelho

238
que conta histrias de amor, felizes ou desastrosas; ora  uma fora que impele as 
personagens para fora de si mesmas, numa inquietao sem objectivo definido. No 
primeiro caso h um paralelismo entre a personagem e o ambiente natural. No segundo, 
a fronteira entre uma e outro dissolve-se: o apelo do longe, por exemplo, ecoa na 
personagem como que ampliando os limites aparentes do eu.  neste segundo aspecto que 
Bernardim pode considerar-se um precursor do gosto da distncia e da bruma que 
caracterizar alguns romnticos e saudosistas.

As donas e donzelas nobres eram ento, pelas suas condies de vida, os protagonistas 
ideais para este tipo de romance, pois s o Romantismo

e o romance psicolgico moderno transferem tal contemplativismo para personagens 
masculinas, de que Bininarder e sobretudo Avalor so curiosos precursores. Em 
contraste com as impiedosas *mudanas+, sempre para pior, de todas as coisas, as 
figuras femininas bernardinianas (sobretudo Arima) encarnam a mansido compassiva ou 
uma nsia de *soidade+, de indefinido e de longnquo.

Visto pelo lado das personagens femininas, o amor  na Menina e Moa alguma coisa de 
muito diferente do enamoramento adolescente das personagens masculinas. As conversas 
entre mulheres tm por vezes uma feio muito vital e prtica, sempre em busca dos 
meios mais viveis, dentro de uma tctica psicolgica feita de intuio ou de saber 
experimentado, para levar a

cabo o irreprimvel imperativo de amar, e este constitui um dado em si, uma realidade 
que no se contesta. A conselho de Ins, Ania, recm-casada, pe termo s lgrimas 
causadas pela ausncia de Bininarder, no s para evitar as desconfianas do marido, 
mas tambm para no danificar a beleza do rosto, que ela quer intacta, a fim de, no 
regresso do amante, lha oferecer. Talvez em relao com isto, h na Menina e Moa 
alguma coisa de muito concreto, quotidiano, domstico e casual, feito de lgrimas, de 
contacto, de olhares que se prendem quase materialmente, e que inspira cenas 
admiravelmente realistas como a do parto de Bilesa. Isto distingue de um modo 
cortante o amor da novela bernardiniana do amor *deal+ da maioria dos romances 
cavaleirescos ou buelicos: ligam-no  instintividade razes pro~ fundas e poderosas.

Um aspecto que no tem sido considerado devidamente na Menina e Moa (e que  comum 
s clogas e s composies lricas)  o dinamismo perma-

         239
nente e universal que as personagens encontram nas Coisas e dentro de si prprias. 
Tudo se transforma sem paragens, todo o estado se converte noutro estado, tudo  
instvel, *mudana possui tudo+. O rio ou ribeira, imagem predilecta do autor, 
sublinha este sentimento do devir, que transparece, como veremos, na prpria 
estrutura do estilo de Bernardim.

Poderia dizer-se que em Bernardim tudo se transforma - incluindo os seres inanimados 
- num anseio cuja realizao  sempre adiada, mas nunca

transferida para o sonho, nunca sublimada, porque se identifica com a vida. Os 
Dilogos do Amor de Leo Hebreu, judeu portugus emigrado, exprimem at certo ponto 
concepo semelhante. O encerramento na tristeza poderia interpretar-se com a 
expresso de um inconformismo perante os obstculos  efectivao do amor.

O que parece certo  estar implcita em Bernardim a negao do dualismo medieval, da 
transcendncia, a afirmao de uma natureza nica movida por uma fora imanente, no 
havendo outros valores seno os que se relacionam com a sua realizao. A obra 
harmoniza-se, portanto, com as tendncias mais profundas do Renascimento, de que 
constitui uma das mais significativas expresses em Portugal.

BERNARDIM RIBEIRO: Hipteses biogrficas

No admira, por isso, que a Menina e Moa acabasse por ser proibida pela censura 
nquisitorial, e que em seguida tenha sido expurgada de vrios textos que infringiam 
a
ortodoxia tridentina.

Foi aventada pelo investigador Teixeira Rego a hiptese de que Bernardim Ribeiro 
fosse de origem hebraica. No  hiptese a refugar; pois no s o estilo de queixume 
arrastado nos captulos iniciais  vulgar na literatura judaica (e nomeadamente se 
verifica na Consolao s Tribulaes de Israel do quinhentista Samuel Usque, irmo 
do primeiro editor de Bernardini), mas certos passos seriam susceptveis de uma 
interpreta o alegrica pantestica  maneira da Cabala hebraica. Assim, por 
exemplo, no captulo XI, 1. parte, o falecimento  chamado *transmudao+ ou 
*transmigrao+; no captulo XIV os

fados esto ligados s letras do nome prprio; no captulo XVI h a fala dum maioral 
em que nos no parece injustificado ver (corno viu Teixeira Rego) uma aluso s 
perseguies e cises do povo hebraico, pela semelhana que tem com outros passos de 
Usque; no captulo XII, 2. parte, admite-se que *tambm moram nas guas coisas que 
guardam religio+; nas falas misteriosas da *donzela magra+ do captulo V, 2,1 parte, 
C na *voz+

do captulo XIII, 2. parte, parecem ressoar quaisquer textos heterodoxos. Mesmo 
admi-

240
tindo interpolaes feitas j pelo primeiro editor de Bernardim Ribeiro (algumas 
outras foram recentemente provadas), haveria a estranhar o prprio estilo lamentoso 
algo bblico de Bernardim, o que condiz com o facto de a primeira edio das obras de 
Bernardim ter sido realizada por um impressor hebraico. Hlder Macedo refundiu de 
modo mais interessante a hiptese do esoterismo cabalista e gnstico na obra de 
Bernardim, e, embora a sua leitura levante numerosas perplexidades (e sobretudo 
dificuldades biogrficas), a

sua proposta de uma alegoria gnstica e cripto-judaica tem a vantagem de se conciliar 
com o efeito mais impressionante e duradoiro dos textos benardinianos: uma meditao 
mstica pessimista (e pantesta) em torno do amor huftiano e da saudade.

Pelo seu prprio contedo, a Menina e Moa no pode deixar de ter um fundo 
autobiogrfico, de ser, pelo menos em parte, um *rornan  elef@>, como sugerem 
numerosos anagramas transparentes: Bininarder (Bernardim), Ania (Joana), Avalor 
(lvaro), Arima (Maria), Donanfer (Fernando), etc. Mas tal aspecto da obra desnorteou 
a crtica literria. J no sculo XVII Faria e Sousa se faz eco de uma lenda segundo 
a qual o livro

aludiria a uma paixo infeliz do autor pela infanta D. Beatriz, que casou com o duque 
de Sabia; o crtico brasileiro Varnhagem imaginou uma paixo do autor por Joana, a

Louca; Tefilo Braga sups, primeiro, que a paixo tivesse como objecto D. Joana de 
Vilhena, esposa que foi do primeiro conde de Vimioso; e mais tarde atribuiu a 
Bernardim um amor fatal por urna sua prima, Joana Tavares Zagalo. Esta ltima tese 
pareceu em dada altura confirmada por um documento judicial seiscentista, 
provadamente falso pelo teor, e de resto nunca patenteado no original. O ensaio de 
Antnio Salgado Jnior, A Menina e Moa e o Romance Sentimental no Renascimento 
(1940), denunciou os preconceitos biografistas, valorizando os problemas da estrutura 
e inteno potico-narrativa.

O estilo de Bernardim Ribeiro

 principalmente na prosa que Bernardim manifesta os seus recursos de artista 
literrio. O verso bernardiniano, normalmente em redondilha e ao estilo tradicional, 
no oferece novidade notvel sob o ponto de vista rtmico. J a Menina e Moa pode, 
no essencial, dizer-se um livro singular.

Se tivssemos de o filiar em alguma corrente, seria certamente na prosa do romance de 
cavalaria, elegante e cantante, relativamente prxima da linguagem coloquial 
palaciana, embora mais arcaica. Mas nem no romance de cavalaria nem alhures 
encontramos termo de comparao para o solilquio da Menina e Moa, na sua 
ressonncia surda e envolvente, e no seu tom

penetrante de confidncia feminina. Nem to-poucoo encontramos para as


palavras que exprimem os estados de enamoramento com extraordinria leveza e poder de 
transfigurao.

241
Nos textos mais caractersticos a construo da frase aproxima-se da linguagem oral 
feminina. Certo desdm pelo rigor lgico do discurso  contrabalanado por recursos 
altamente sugestivos: anacolutos, pleonasmos, muitas repeties vocabulares prximas, 
sbias negligncias sintcticas ou

estilsticas; dilogos breves e reticentes, como os que se trocam entre Binmarder e 
Ania; inverses da ordem vocabular normal, que tornam a frase sensorialmente mais 
impressiva, ou mais plangente, ou mais emotiva:

*Via a menh como se erguia fermosa+; *e COM isto, deixaram-se-lhe os seus olhos ir 
cansadamente cerrando pera sempre+.

A atmosfera moral dos protagonistas  dada por um vocabulrio predilecto em que 
distinguiremos as palavras dos radicais de triste, s, longe, cansado, manso, 
saudoso. (Note-se, em contraste, a preferncia de palavras do radical de stibto nos 
captulos quase unanimemente tidos como apcrifos.)

Os perodos prolongam-se s vezes imprevistamente, por meio de antteses que sobrevm 
ou se intercalam, levando atrs de si o flego e como

que pedindo um suspiro compensador, sendo esse prolongamente por vezes

reforado pelo facto de a ltima slaba tnica ser alongada por uma nasal

ou por uma constritiva:

* ... dizia que nunca iam contente se achara, parecendo-lhe que andava l com a 
senhora

Arima, ouvindo-lhe falar aquelas palavras vagarosas que pareciam dizerem~se para 
sempre+.

(Ver, como mais tpico, o longo 1. > perodo do 2. O captulo.) Estes prolongamentos 
que quebram as pausas previsveis sugerem, por outro lado, um

constante desvio, o encadeamento dos estados mudveis uns nos outros.

So frequentes os efeitos de aliterao ou paronmia, os trocadilhos e

outros jogos formais: *Menina e moa me levaram de casa de minha me para muito 
longe+; *o livro h-de ser do que vai escrito nele+. O sentimento do devir inspira a 
preferncia por conjugaes perifrsticas que exprimem a mudana contnua: *o sol 
[... 1 vinha tomando posse dos outeiros+. De notar, sobretudo, as numerosas 
perfrases com os auxiliares estar, ir, comear e tambm o uso do pretrito 
imperfeito. Repare-se, ainda, na predileco pela voz mdio-passiva (aparentemente 
reflexa) e pela substantivao dos infinitos verbais (e esta ltima particularidade 
leva-nos de novo a Fernando Pessoa): *foi-se+, *ficava-se+, *veo-se+, *estando-se 
assi+; *um s pr de olhos

242
e abaxar+; *comecei a cuidar como nas cousas que no tinham entendimento havia tambm 
fazerem-se as  s outras nojo+.

Considere-se, por outro lado, a humanizao espontnea de coisas como

a terra (que encerra em si os destinos humanos e s vezes parece albergar as almas 
das finados), o Sol, a gua corrente (smbolo da transitoriedade de tudo), o 
rouxinol; e de entidades psicolgicas abstractas como a esperana, a vontade, o 
sentido, o fado. Segundo uma tradio que j vem dos Cancioneiros prin-tivos, a 
personificao dos olhos tem um grande relevo em expresses como *deixando-se ficar 
toda com os olhos+; *com os olhos cheios da senhora Ania e de gua+.

Bernardim Ribeiro recolheu e deu expresso pessoal a um conjunto de temas e 
tendncias que se encontram numa roda de poetas palacianos colaboradores do 
Cancioneiro Geral. Atravs da sua sensibilidade minada pelo gosto da auto-anlise e 
da sua arte muito singular, capaz de captar pelo ritmo e por certas associaes 
verbais estados ditos *inefveis+, aquele conjunto de temas ganha vida intensa com 
novas ressonncias. Por isso Bernardim Ribeiro, que se tornou o intrprete sugestivo 
de uma certa atitude mental, exerceu na literatura portuguesa uma influncia 
subtilmente profunda. Jorge Ferreira de Vasconcelos testemunha que alguns dos seus 
versos e frases se

tornaram proverbiais nas rodas palacianas; Heitor Pinto, onde encontramos frases 
extradas da Menina e Moa e ecos ntidos do ritmo saudosista, ou

*romntico+, se se quiser, do mesmo livro, mostra que esta influncia atingiu a 
literatura asctica. E, acima de todos, Cames, na sua dialctica das razes de ser 
triste, aproveitou o legado de Bernardim: a introduo  cano Vinde c meu to 
certo secretrio tem analogias evidentes com a fala introdutria da Menina e Moa. 
Esta influncia prolonga-se at muito perto de ns: Garrett evoca o rouxinol de 
Bernardim; e o movimento chamado *saudosista+ deve certamente uma parte da sua 
inspirao  fora com que o poeta e prosador das *saudades+ exprimiu o anseio de 
fuga, o apelo do *longe+, o narcisismo da dor. S que, nas circunstncias em que o 
poeta viveu, esta posio tem um significado bem mais inconformista, bem mais 
audacioso e bem mais inovador do que aquele que os *saudosistas+ lhe atribuam. 
Bernardim  o autor portugus que mais prximo parece das tendncias esotricas, 
entre cabalistas e gnsticas, de certos Humanistas (Ficino, Mirandola, ReuchIin, 
etc.).

     243
De uma miscelnea manuscrita entre 1543 e 1546 data uma novela sentimental que 
fundamentalmente concatena uma srie de cartas e tamb m de vilancetes, cantigas e 
dilogos conceituosos, cujo remate sugere a realizao de um amor extraconjugal 
justificado pela retrica de uma paixo incontvel: Naceo e Amperidnia. Recentemente 
editada e anterior  publicao de Menina e Moa, o seu interesse  fundamentalmente 
histrico.

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1. Textos

a) *Menina e Moa+

H duas edies quinhentistas da Menina e Moa que serviram de fonte a todas as 
subsequentes:

a) Ferrara, 1554, em casa de Abrao Usque. Comea: *Menina e Moa me levaram de casa 
de minha me para muito longe+. Conclui com o cap. XVII da 2. > parte da ed. de 
vora; mas no apresenta diviso em captulos nem em partes.

b) vora, 1557-58, impressa por Andr de Burgos. Comea: *Menina e Moa me levaram de 
casa de meu pai para longes terras+. Divide o texto em 2 partes: a 1. > com
31 captulos, a segunda com 58.

Uma 3. a ed. quinhentista, Colnia, 1559,  reproduo da de Ferrara, quase sem

alteraes. Alm destas edices impressas, deve ter-se em conta para os problemas do 
texto o manuscrito da Biblioteca da Real Academia de Histria de Madrid (cpia de um 
cdice quinhentista de cerca de 1560) que coincide, salvo poucas variantes, com a ed. 
de Ferrara; e ainda outro manuscrito, adquirido e revelado por Eugenio Asensio, com 
um texto que parece datar de cerca de 1545.

As edies subsequentes (1645, 1785, 1852, *Coleco Lusitnia+, sem data, 1891, e as 
3 de Delfim Guimares: 1905, 1916 e 1930) reproduzem a de vora.

O texto de Ferrara s voltou a estar acessvel depois da sua reimpresso em Obras de 
Bernardim Ribeiro e Cristovam Falco, ed. preparada e revista por A. Braarricamp 
Freire, prefaciada por Carolina Michalis de Vasconcelos, 2 vols., Coimbra, Imprensa 
da Universidade, 1923.

Na Histria de Menina e Moa de Bernardim Ribeiro, variantes, introd., notas e 
glossrio de D. E. Grockenberger, Lisboa, Livraria Studium, 1947, inclui-se a 
reproduo do texto de Ferrara, acompanhada das variantes dos de vora, Colnia e do 
manuscrito da Real Academia de Hist ria de Madrid, e ainda a reproduo do texto de 
vora na parte que falta ao de Ferrara. Contm extensa bibliografia.


Castro, Anibal Pinto de: Uma edio crtica de *Menina e Moa+ de Bernardim Ribeiro: 
Problemas e Solues, in *Critique Textuelle Portugaise+, Fund. C. Gulbenkian, Centre 
Culturei Portugais, Paris, 1986, pp. 163-178 (com dados actualizados e proposta de 
normas).

244
Obras Completas, col. *S da Costa+, sem data, pref. e notas de Aquilino Ribeiro e 
Marques Braga, 2 vols., 4. > ed., 1982.

Menina e Moa, texto reconstruido com base nos quatro apgrafos, actualizao e 
comentrio de Maria de Lourdes Saraiva, pref. de J. S., Lisboa, 1975.

Menina e Moa, fixao selectiva do texto e introd. com interpretao dentro da 
tradio esotrica por Hlder Macedo, Dom Quixote, 1990.

b) Obra potica

Encontram-se as primeiras edies: no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, e

na ed. de Ferrara da Menina e Moa. O romance *Ao longo de uma ribeira+, includo na

cioga V e que no consta destas edies, aparece atribudo a Bernardim Ribeiro na 
ed. da Menina e Moa de 1645.

Ed. moderna por Braga, Marques: cIogas de Bernardim Ribeiro, 1939, reproduzida na 
ed. das Obras, col. *S da Costa+, j citada.

Trovas de Dous Pastores, ed. fac-similada, Porto, 1963,

Hlder Macedo estuda nove textos de uma coleco adquirida em 1983 pela Biblioteca 
Nacional de Lisboa em S de Miranda, Bernardim Ribeiro e a escola bernardiniana, in 
Estudos Portugueses - Homenagem a L. Stegagno Picchio, Difel, Lisboa, 1990, pp.
603-627.

c) Obras de Cristvo Falco e outras

1. 1 ed., em folha volante annima, sem indicao de lugar nem de data, que os 
eruditos supem fixar-se entre 1543 e 1547. Reprod. fac-smile juntamente com a mais 
antiga verso da Carta (adiante referida) em Trovas de Crisfal, estudo, variantes e 
notas por Guilherme G. de Oliveira Santos, Lisboa, 1965.

2. aed. com a Carta e as obras de Bernardim Ribeiro, 1554, Ferrara.

Entre as edies modernas so de preferir, alm da j referida: Obras de Cristovam 
Falco, ed. crtica e notas por Augusto Epifnio da Silva Dias, Porto, 1893 (baseada 
indirectamente na ed. de Ferrara, atravs da de Colnia); Crisfal, cIoga de 
Cristovam Falco, anotada por Sousa da Silveira, Rio de Janeiro, 1933 (baseada 
directamente na de Ferrara).

Naceo e Amperidnia, ed. diplomtica por David Hook, em Portuguese Studies, 1985, pp. 
11-46; ed. com leitura corrigida e normalizada, seguida de fac-smile, por Lus 
Fagundes Duarte, IN-CM, 1986.

2. Antologias

O Livro da Menina e Moa e cIogas, na col. *Textos Literrios+.

Menina e Moa e Crisfal, na col. *Clssicos Portugueses+.

            245
Menina e Moa, texto crtico (embora sem aparato erudito) baseado no manuscrito de 
Madrd de c. 1545, col. *Atlntida+, com estudo, notas e bibliografia actualizadora 
da de D. E. Grockenberger, por Herculano de Carvalho (2. > ed., corr. e aum., com uma 
densa e actualizada introd., 1966; 3. > ed. corr_ 1973); Costa Marques reeditou nesta 
col. a ed. de Crisfal que preparara para a anteriormente referida. Ed. de Crisfal por 
Rodrigues Lapa, na col, *Clssicos do Estudante+, 1978. Ed. por Teresa Amado, col. 
*Textos Literrios+, Comunicao, 1984.

3. Estudos

Sobre Bernardim Ribeiro, a obra fundamental de conjunto  de Salgado Jnior, Antnio: 
A Menina e Moa e o Romance Sentimental do Renascimento, na revista *Labor+, vols. 
X11-XIV, 1940 (h separata).

Veja-se tambm: Pimpo, A. Costa: Bemardim Ribeiro (Uma Fraude Documental), in 
*Bibios+, XVI, t. 1. >, 1940, que prova a falsidade jurdica do documento 
sescentista sobre o qual se baseavam as mais importantes conjecturas biogrficas 
acerca de Bernardim.

Buceta, Erasmo: Algunas relaciones de Ia *Menina e Moa+ con Ia literatura espa@oIa, 
especialmente con Ias novelas de Diego de San Pedro, in *Revista de Ia Biblioteca, 
Archivo y Museu+, Ano X, 1933, Madrid.

Pelayo, Menndez y: Orgenes de Ia Novela, vol. 11 da Edicin Nacional, 1943. Rego, 
Jos Teixeira: Estudos e Controvrsias, 2. 1 srie, Porto, 1931; e colaborao do 
mesmo autor in Histria de Portugal de Barcelos, vol. V.

Moreil, An tnio Gallego: Bernardim Ribeiro y su novela *Menina y Moa+, Biblioteca H 
ispano- Lusitana, vol. IV, 1960.

Sena, Jorge de: A sextina e a sextina de Bernardim Ribeiro, sep. da * Revista de 
Letras+, vol. 4., 1963, Assis, So Paulo.

Lopes, scar: A prosa rtmica e o clima trgico em Bemardm, in Modo de Ler, Porto,
3. ed., 1971.

O problema do texto da Menina e Moa, encontra-se resumido na introd. de D. E. 
Grockenberger  2. > ed. citada da Histria de Menina e Mo a, onde o leitor 
encontrar a bibliografia correspondente.

O problema da autoria da cioga Crisfal est resumido por Antnio Jos Saraiva em 
Ensaio sobre a Poesia de Bemardim Ribeiro, Lisboa, 1938 (separata da *Revista da Fac. 
de Letras+, t. fl, n.'s 1 e 2, 1940-41, incluso no vol. Poesia e Drama, Gradiva, 
1990). Ver ainda Crespo, Firmino: O Problema Literrio da cioga *Crisfal+, in 
*Builetin of Hispanic Studies+, vol. 37, 1960; e, mais actual izada mente, o estudo 
que precede a ed. fac-smile das Trovas de Crisfal por Guilherme G. de Oliveira 
Santos.

Celso Cunha, estudando a versificao das ciogas e de Cristal in Lngua e Verso,
3. > ed. rev., S da Costa, Lisboa, 1984 (ou Estudos de Versifcao Portuguesa, 
Fund. C. Guibenkian, Centro Cultural Portugus, Paris, 1982), conclui que a linguagem 
potica de Crisfal  mais antiga que a das ciogas, sendo destas as mais antigas a 3. 
> e a 5. a.

246
Na *Revista da Faculdade de Letras de Lisboa+, 111 srie, n. > 1, 1957, incluem-se 
dois estudos com interesse: Bataillon, M.: Alonso Nufiez de Reinoso et les marranes 
portugais en Italie, que estuda um imitador judeu da Menina e Moa anterior  sua 
ed.; e Carvalho, J. G. Herculano de: A Influncia Italiana em Bernardim Ribeiro.

O texto de 1545 da Menina e Moca foi revelado pelo seu adquirente, Eugenio Asensio, 
em: Bernardim Ribeiro a Ia luz de n manuscrito nuevo, in *Revista Brasileira de 
Filologia+, Rio de Janeiro, lii, 1957, t. 1. O, pp. 59-81; este autor tem um 
importante artigo sobre El romance de Bernardim Ribeiro *Ao longo da ribeira+, in 
*Revista de Filologia Espafiola+, 41, 1957. Este e outros estudos de Asensio sobre 
Bernardim esto reunidos no seu volume Estudios Portugueses, Paris, 1974.

Casteleiro, Joo Malaca: A influncia da *Fiammeta+ de Boccaccio na *Menina e Moa+ 
de 8. Ribeiro, in *Ocidente+, 74, n. > 360, Abril 1968. (Atribui  possvel 
influncia da *Fiammeta+ a narrao subjectiva feminina, o feminismo sentimental, um 
fatalismo mitigado por *avisos+, o pessimismo, etc., indicando todavia diferenas.)

Rossi, Giuseppe Cario: 11 Boccaccio nele letterature in portoghese, sep. *Studi sul 
Boccaccio+, n. > 8, Florena 1974.

Frches, Claude-Henri- Tradition et nouveaut dans les *Saudades+ de Bernardim, 
Ribeiro, in *Annali+, Npoles, 17 (1975).

Deyermond, A. D.: The Fernale Narrator in Sentimental Fiction: *Menina e Moa+ e 
*Clariseo y Florisea+, in *Portugueses Studies+, Londres, 1, 1985.

Ver ainda estudos contidos em Estrada Larga, 1, Porto, s/d (Porto Editora). Hlder 
Macedo estuda possveis influncias judaicas em Bernardim, nomeadamente de Sefer-ha-
Zohar, ou Livro do Esplendor, obra cabaistica peninsular do sc. XIII e de um 
conjunto de tradies esotricas, sobretudo gnsticas, que se entrecruzam no 
judasmo, no cristianismo e no islamismo: Do Significado Oculto da Menina e Moa, 
Lisboa, Moraes,
1977, trad. da sua importante tese, originalmente em ingls, de 197 1, que retoma na 
sua ed. atrs mencionada da Menina e Moa.

Quanto  bernardniana religio de amor,  til acompanhar a sua tradio em 
Rougemont, Denis de: LAmour et I'Occident, 1939 (h trad. portuguesa).

Margato, Isabel: As Saudades da *Menina e Moa+, IN-CNI, 1988 (recapitula as 
perplexidades biogrficas, textuais e interpretativas, e, em oposio  tese do 
feminismo sentimental, salienta o esforco gorado do redactor no sentido de apreender 
a sensibilidade feminina).


Captulo IV

S DE MIRANDA entre as tradies medievaise as inovaes italianas

A grande maioria das composies do Cancioneiro Geral est, como

vimos, versificada em redondilhas, portanto em versos curtos (sete ou cinco slabas) 
e dentro de certos moldes peninsulares quatrocentistas (vilancete, cantiga, etc.), 
cuja caracterstica dominante  a de serem constitudos por um mote e respectiva 
glosa. Nesta *medida velha+ (como passou a chamar-se-lhe depois da introduo do novo 
estilo) ainda trovou Bernardim Ribeiro, at mesmo numa sextina e nas  cIogas, que 
pertencem j a um gnero inovado, de tradio clssica.

Entretanto, j no sculo XIII se consagrara na Itlia um novo tipo de verso e de 
composio potica, o chamado *dolce stil nuovo+. A partir de ento imps-se o verso 
de dez slabas, o decassilabo, por fim acentuado obrigatoriamente ou na 4. a e 8. a 
silabas (verso sfico) ou na 6. a (verso herico) ento denominado *hendecassilabo+ 
(isto , verso de onze slabas), visto que, segundo o sistema italiano, se contava a 
slaba postnica quando a ltima palavra era grave. Sendo mais longo, admitindo maior 
variedade de acentos facultativos e de pausas, o decassilabo  mais flexvel, presta-
se a maior nmero de combinaes que a redondilha, e consente portanto maior 
liberdade ao poeta. Adapta-se a uma poesia mais individualizada, a uma maior

variedade de tom e de temas.

Quanto s combinaes de versos, s construes estrficas, Petrarca seleccionou 
algumas j cultivadas pelos Provenais: - o soneto, com dois quartetos de rima 
geralmente abba e dois tercetos sujeitos a combinaes regulares de duas ou trs 
rimas; a cano, com nmero varivel de estrofes

248
iguais e um remate, mas sendo o tipo de estrofe (que  um agrupamento de decassilabos 
e quebrados) da escolha do poeta; a sextna (seis sextilhas e

um terceto final, com as mesmas seis palavras em diferentes finais de verso para cada 
estrofe); as composies em tercetos (de rima aba, bab, cdc, etc., e rematando por um 
quarteto em xyxy), e em oitavas (abababcc), composies que se podem prolongar 
indefinidamente; e outras. A cano, a composio em tercetos, a composio em 
oitavas proporcionam largos desenvolvimentos, um longo espraiamento do contedo 
discursivo ou emocional, em contraste com o molde rgido das formas estrficas 
quatrocentistas peninsulares. O soneto e a sextina, pelo contrrio, um pelo esquema 
estrfico e

ambos por um sistema obrigatrio de rimas ou remates dos versos, mantm~ -se mais 
prximos do formalismo da poesia medieval, e obrigam a uma condensao conceituosa do 
pensamento ainda comparvel quela que era imposta pelas composies com mote e 
glosa.

Alm destas formas e gneros, os Italianos assimilaram gneros lricos 
caractersticos das literaturas grega e latina, como a cloga, quadro, geralmente 
dialogado, de tipos populares, sobretudo pastoris (tendo por moldes Tecrito e 
sobretudo Virgilio); a elegia, poema de tonalidade melanclica ( imitao de Tibulo 
e Proprcio) ou sentenciosa (conforme os modelos helnicos), a que os poetas 
renascentistas adaptaram a composio em tercetos; a ode, quer laudatria (modelo: 
Pndaro), quer lrica, mais heterognea (modelos: Safo, Alceu, Anacreonte, Catulo e 
principalmente Horcio); a ep-stola, ou carta em verso (que tem igualmente o modelo 
em Horcio); o epigrama, composio curta e conceituosa, de contedo geralmente 
satrico (modelos: Juvenal, Marcial); o epitalmio, composio congratulatria 
dirigida a nubentes.

A forma nova, o novo estilo, correspondia alis a um novo conceito da poesia. O 
*poeta+ quer distinguir-se do *trovador+, pretende ser mais que um simples artfice 
do verso. Arroga-se a vocao e o destino de revelar o mundo ntimo do amor e de 
apontar o caminho glorioso por onde devem seguir, no os homens vulgares, mas os 
grandes do mundo. A poesia tem para os poetas humanistas uma funo doutrinria e 
edificante. No falando na poesia herica, de que noutro lugar trataremos, nem no 
teatro, a poesia lrica s por si comporta os assuntos mais diversos alm do amor: 
elogios de heris, conselhos epistolares sobre o bem pblico, ensinamentos morais, 
polticos, religiosos e filosficos.

249
A influncia italiana na lrica peninsular manifesta-se j na primeira metade do 
sculo XV: o petrarquismo, como nova expresso do amor,  corrente nos cancioneiros 
castelhanos do sculo XV e nos poetas quatrocentistas do Cancioneiro Geral. Mas, 
embora j muito antes o marqus de Santillana tivesse escrito sonetos *al it lico 
modo+, e o italiano castelhanizado Francisco Imperial praticasse os metros do novo 
estilo, s no sculo XVI, com Juan Boscn e Garcilaso de Ia Vega, enraizou ele 
definitivamente na Pennsula.

ffiS DE MIRANDA (1481-1558)

Em Portugal a consagrao do novo estilo deveu-se em grande parte a

Francisco de S de Miranda, secundado por uma pliade de discpulos.

Filho de um cnego de Coimbra de cepa fidalga, Francisco de S de Miranda estudou e 
doutorou-se na Universidade, onde parece ter desempenhado funes docentes, e 
frequentou o Pao na sua juventude, participando nos torneios poticos e nos seres

palacianos, cuja melhor fase mais tarde evocar com saudade:

Os mornos, os seres de Portugal to falados no mundo, onde so idos e as graas 
temperadas do seu sal?

Dos motes o primor e altos sentidos, os ditos delicados cortesos que  deles, quem 
lhes d somente ouvidos?

Em 1521 empreendeu uma viagem a Itlia, onde se demorou alguns anos, o que lhe deu o 
ensejo de conhecer mais de perto alguns dos grandes escritores italianos vivos 
(Bembo, Sarmazzaro, Sadoletto, Ariosto) e outras personalidades marcantes, como 
Vitria Coloriria, a amiga de Miguel ngelo, sua suposta parenta. No regresso, de 
passagem por Espanha, em 1526, talvez tenha conhecido Boscri e Garcilaso, alis mais 
novos e

que ento se estavam a interessar pela potica italiana. Logo em 1527 se lana na 
composio de uma comdia em prosa,  imitao de Plauto, os Estrangeiros, isto numa 
poca em que Gil Vicente estava no auge da sua actividade e prestgio. A Fbula do 
Mondego, a cloga Alexo e alguns sonetos so talvez as primeiras expresses 
portuguesas conhecidas do novo estilo. Bem relacionado junto do rei, S de Miranda 
obteve duas comendas da Ordem de Cristo. Cerca de 1530, por razes desconhecidas, 
retirou-se com a mulher

para a sua terra de Duas Igrejas, no Alto Minho. Entregou-se a uma vida de fidalgo 
lavrador, alheado da corte, mas mantendo convivncia epistolar com uma roda de 
admirado-

250
res, entre eles Pro de Andrade Caminha, D. Francisco de S de Meneses, D. Manuel de 
Portugal, e mais tarde Diogo Bernardes, Jorge de Montemor e Antnio Ferreira, que a 
seu respeito escreve, resumindo uma opinio corrente:

Novo mundo, bom S, nos foste abrindo co'a tua vida e c'o teu doce canto.

Entre as personalidades com que o poeta-lavrador convive cpistolarmente contam-se o 
prncipe real, D. Joo, a cujo pedido organizou uma colectnea das suas poesias, e o 
prprio rei D. Joo HI. A consagrao das suas inovaes teve de vencer grandes 
resistncias, de que se queixa, mas foi animado nessa campanha pelos jovens 
admiradores e, talvez mais tarde, pelo conhecimento da obra de Garcilaso.

Como Herculano, sculos mais tarde, S de Miranda d um sentido exemplar ao seu 
retiro, de protesto contra um estado de coisas social com que no se conformava, 
especialmente contra a modificao de costumes e valores resultantes da expanso 
ultramarina. Em oposio aos contemporneos, especialmente os da corte, afirma-se 
como:

Homem dum s parecer, dum s rosto, da f, d'antes quebrar que volver.

Corroborando este auto-retrato, um contemporneo chama-lhe *hornem de alto e herico 
entendimento+.

S de Miranda, colaborador do Canconeiro Geral, cultivou em lngua portuguesa e 
castelhana as formas consagradas nessa colectnea, antes e depois da sua converso ao 
novo estilo. Nunca, alis, repudiou a *medida velha+, em que aprendeu a versejar: na 
cloga Alexo, que  uma das primeiras expresses da nova escola em Portugal, aceita a 
coexistncia dos dois estilos; numa elegia dedicada a Antnio Ferreira, muito mais 
tarde, reconhece o interesse das antigas formas de trovar, vilancetes, glosas 
esparsas, poesia obrigada a mote; e numa carta a Antnio de Meneses, em versos atrs 
citados, manifesta-se preso ainda ao ambiente dos extintos mornos e seres de 
Portugal, onde se fizera poeta.

Na primeira fase da sua carreira, anterionnente  sua campanha pelo novo

estilo, S de Miranda cultiva exclusivamente a poesia amorosa dentro dos

temas petrarquianos ento em voga. A nota que mais frequentemente fere  a da 
contradio entre a razo e a *vontade+, isto , a inclinao amorosa. Os seus versos 
testemunham um esprito torturado e tenso; j ento os repassa

251
uma melancolia inconfundvel, que se acentuar posteriormente; e j por vezes

se nota a expresso condensada, elptica, que  uma das grandes dificuldades, mas 
tambm um dos interesses do seu estilo conciso, em que as palavras parecem faltar 
para cingir a intensidade ou a largueza do pensamento.

Em fase ulterior, nos poemas que marcam a sua campanha pela introduo em Portugal 
das formas italianas, enriquece e varia consideravelmente o seu material literrio. 
Nas cIogas, em que segue o modelo de Garcilaso, exibe um estendal de erudio 
histrica e mitolgica, reconta histrias clebres da Antiguidade e alude 
constantemente a lugares-comuns clssicos. Mas os melhores valores da cultura greco-
romana, mesmo os de expresso mtica, pareciam-lhe provir dos *Livros Divinos+. Tanto 
nas clogas como noutras

obras de inspirao clssica - elegias, sonetos, canes - toca certos tpicos 
caractersticos da literatura renascentista: o desdm pela vulgaridade, a 
superioridade do culto das letras sobre o das armas, a necessidade de renovao pelo 
estudo dos modelos estrangeiros, e exorta  composio de poemas hericos de assunto 
portugus.

Mas a parte mais original, e porventura mais interessante, da obra potica de S de 
Miranda  em redondilha menor: a cloga Basto e as Cartas, editadas em 1626 como 
stiras de tipo horaciano. O autor expe a, de forma desenganada e livre, o que 
pensa do mundo que o rodeia. Falando do seu

retiro rstico, com uma rudeza ostensiva de *guarda-cabras+, a sua ateno privilegia 
o contraste entre a vida rural e a vida urbana e palaciana. O elogio da simplicidade 
rstica, como estado mais seguro e mais repousado que a

vida artificial na cidade ou na corte,  um tema caracterstico da Antiguidade 
clssica e particularmente de Horcio. Mas S de Miranda d-lhe novos

traos datados e combina-o com uma crtica social que lembra alguns dos utopistas do 
sculo XVI, num fundo de austeridade estica ou senequista.

Est talvez na origem desta crtica um certo sentimento cioso da liberdade pessoal. A 
personalidade tem o direito de no se conformar com as

convenes correntes. *Eu aos meus palmos me meo+  uma das frmulas significativas 
desta atitude, alis muito generalizada no Renascimento e tambm muito ajustada ao 
odprofanum vulgus, horaciano. O homem da corte, e de modo geral todo o que vive no 
seio da civilizao urbana, teria alienado a liberdade. S de Miranda parece 
considerar essa alienao, por um lado, sob a forma da presso social que se 
manifesta nas convenes e intrigas

252
da vida da corte; por outro lado, sob a forma de sujeies resultantes da estrutura 
produtiva. O homem apenas seria livre conformando-se com a *boa razo>@ e a *me 
natureza+, *madre antiga+, que bastaria  satisfao das nossas

necessidades; segundo o dito evanglico, as aves do cu no fiam nem tecem e andam, 
todavia, mais ricamente vestidas que Salomo. S de Miranda desdenha doutra 
actividade alm da lavoura, que lhe parece a prpria dos homens; condena o trfego 
martimo, a busca de ouro debaixo do solo, que os obriga, de costas para o dia, a 
entrar pela noite dentro. A ambio do ouro origina, segundo ele, as guerras, que 
desviam para a destruio o fogo, antes dado para proveito dos homens, e formas reais 
ou metafricas de escravatura, que levam a pr aos lanos na praa *espritos vindos 
do cu+. A inveno, ento recente, da artilharia  para S de Miranda mais um 
exemplo dos malefcios resultantes do afastamento da natureza.

Dentro desta lgica, at mesmo a propriedade individual da terra aparece ao mesmo 
tempo como efeito e causa da violncia: a sangue e fogo foi a terra desigualmente 
repartida; o meu e teu est na origem das guerras.

Estes tpicos so frequentes na poesia clssica, em que a Idade de Ouro, tida como 
anterior  propriedade agrria individual,  moeda, ao Estado,  guerra, constitua a 
idealizao potica do comunitarismo primitivo ou do cl patriarcal.  bem possvel, 
contudo, que S de Miranda tenha em vista qualquer fenmeno social que ento se 
processasse entre ns, no gnero das vedaes (*cercas+) e apropriaes, pela 
aristocracia inglesa, de terrenos comunais dos aldeos, que inspirou uma crtica 
semelhante do humanista Toms Morus. A sua indignao pelo que ento se passa neste 
sentido e que ele testemunha como fidalgo  antiga, patriarcalmente prximo do 
trabalhador rural, atinge uma vibrao ainda hoje bem comunicativa, ao afirmar, por 
exemplo, que certos *salteadores com nome e rosto de honrados+ andam quentes, 
*forrados de peles de lavradores+. A idealizao clssica do comunitarsmo primitivo 
pelo mito da Idade de Ouro, no qual a prpria agricultura

e a prpria pastorcia eram ainda sentidas como sacrlegas e antinaturais, transfere-
se assim para as relaes agrrias ento existentes, pintadas com

as cores idlicas da *urea mediania+ rural de Horcio.

Por outro lado, S de Miranda percebe claramente a ligao existente entre este 
exacerbarnento e crise da explorao feudal, o absentismo da nova nobreza cortes e a 
expanso ultramarina, que despovoa o Reino * ao cheiro

253
desta canela+. No esconde a sua antipatia pelo modo de vida que ento contribua 
para a alterao  da estrutura medieva do Pas:

Os marinheiros vadios

que vilmente a vida apream pelas cordas dos navios volteiam como bugios, inda que 
vos al paream.

Outro tema grato a S de Miranda  a crtica da corte como centro do

governo: a astcia dos privados, o seu engrandecimento  custa dos pequenos; a 
corrupo da justia, o exibicionismo devoto; todo um sistema de explorao em 
proveito de um grupo dirigente, que consegue perverter as boas

leis tornando-as *fracas teias de aranha+, de que so vtimas as mulheres, os rfos, 
a *pobreza dos mesteres+. Eles no se atrevem sequer a falar diante dos poderes, 
esses poderes que deviam ser *nossos+ mas que os envolvedores *buscaram para si+. 
Contra estes males, S Miranda v o remdio num

poder rgio justamente exercido, ao servio do Povo, idealizao tpica do 
Renascimento.

Tais ideais exprimem-se num tom nostlgico. S de Miranda volve os

olhos para os costumes dos antigos portugueses, para a *casa antiga e a torre+, 
smbolo de um mundo em desaparecimento: evoca os reis antigos, que se

prezavam do nome de *lavradores+, e tambm D. Joo Il com a sua divisa *Pela lei e 
pela grei+. Para ele o mundo est em decadncia. A utopia de uma vida natural no seio 
da *madre antiga+, em que no existia o teu e o

meu, nem a guerra, casa-se com aquela melancolia que ensombra os seus

versos. No  por acaso que nestas cartas (em que predominam as quintilhas de 
redondilhas com dois esquemas alternativos de rima) S de Miranda conservou 
construes e vocbulos arcaicos, como que acentuando o carcter arcaizante do seu 
pensamento.

Tal arcasmo ostensivo - prprio sobretudo das composies na medida velha - combina-
se, todavia, com uma acentuada originalidade, e at com um pessoalismo muito acusado. 
S de Miranda foge  expresso discursiva ento letrada, quase no estabelecendo 
transio sintctica entre o texto bsico

e os comentrios incisos, ou os exemplos, com lio moral. Com vista a

este efeito, a sua expresso  fortemente condensada e muitas vezes elptica. O

254
seu lxico prefere os termos concretos s generalidades e aos eufemismos, 
sacrificando para isso a dignidade classicizante to grata a Joo de Barros ou a 
Antnio Ferreira. As imagens, por vezes muito evocativas, provm do mundo familiar, e 
no apenas do arsenal da tradio literria erudita; e mesmo quando a este recorre, 
S de Miranda veste-o de uma aparncia verncula e at quase rstica. Esta tendncia 
foge s convenes do estilo novo, e sobretudo ao carcter discursivo, expositivo e 
oratrio que est na essncia do classicismo. Pelo contrrio, orienta-se para uma 
expresso engenhosa, feita de agudeza conceptual, combinando uni artifcio extremo 
corri um certo folclorismo apaixonado por aplogos, provrbios e efeitos de 
oralidade. Ora a importncia da elipse avultar, como veremos, no estilo de Grigora, 
que  directamente avesso  expresso discursiva. Desta forma, S de Miranda est na 
corrente que conduz ao Barroco peninsular, e torna-se um dos precursores do 
conceptismo seiscentista. J Ferreira de Vasconcelos elogia a

*novidade+ do seu estilo, e Francisco Manuel de Melo considera S de Miranda como um 
dos seus mestres. Baltasar Gracin cita-o pelas frases sentenciosas.

No entanto Francisco Manuel de Melo engana-se talvez ao atribuir a S de Mranda o 
propsito de *esconder altos conceitos e misteriosos, como os Egpcios, em estilo 
tosco+. A eliminao das redundncias correntes na linguagem e at de certa argamassa 
lgica explcita, as incises de aforismos, exclamaes, perguntas, a multiplicao 
de exemplos, de aplogos, anexins e metforas comezinhas, em obras doutrinais como as 
Cartas e a

cloga Basto, resultam de urna tenso dirigida s referncias prticas, quotidianas, 
e no dirigida ao jogo conceptista. Ns sentimos o estilo mirandino

romper de uma convico que fora a custo o seu caminho, e no do comprazimento numa 
dada retrica; e  por isso que os seus mais belos sonetos de amor ou de angstia 
incompreendida nos deixam uma profunda impresso de autenticidade, no tanto pelo 
tema como pelo esforo patente (e triunfante) na acumulao de encavalgamentos 
rtmicos, nos contrastes de ordem

directa e hiprbato, nos verbos elipticamente intransitivos ou plurissignificantes, 
nas bruscas mudanas de focagem (saltos de tempo, de lugar, de realidade exterior ou 
ntima, de tom monologal ou dialogal, de interlocutor vago ou directamente 
apostrofado) e, finalmente, em vrios remates crispados no

limiar do inefvel. (Ver os sonetos: Em tormentos cruis, tal sofrimento; No sei que 
em vs vejo, no sei que; O Sol  grande, caem coa alma as aves; Quando eu, Senhora, 
em vs os olhos ponho.)

        255
Talvez exista uma relao profunda entre aquele arcasmo, aquele descontentamento, 
aquele protesto que s pode ser verbal, e por outro lado este estilo que se 
desenvolve no sentido do requinte sem se afastar de um eixo tradicional e que tende 
sobretudo a cortar as pontes com certo mundo circundante.

Alm dos primeiros versos na medida nova, deve-se a S de Miranda a primeira comdia 
em estilo clssico. Sabe-se tambm que escreveu uma tragdia com o ttulo 0cpatra, 
de que nos restam poucos versos, em redondilha maior.

Os Estrangeiros, sua primeira comdia em prosa, localiza-se na Itlia. Os tipos e 
situaes evidenciam a imita o de Plauto e Terncio e da comdia renascentista 
italiana em fala vulgar portuguesa. H a competio de um jovem, um fanfarro e um 
doutor  volta de uma rapariga posta a preo. As regras do classicismo renascentista 
so acatadas: aco concentrada num

troo de rua, onde se atam e desatam os ns dos interesses em conflito.

Posterior a esta, e com caractersticas muito semelhantes, a comdia Vilhalpandos, 
que tem por personagens uma cortes, a me proxeneta, dois fanfarres e um escrivo 
hipcrita, est animada de um anticlericalismo intenso, que tira partido da 
localizao do enredo em Roma. Ambas as comdias, de resto, do expresso a um 
iderio humanista renascentista: ridicularizao das bravatas militares, crtica da 
Escolstica, do monaquismo e da mendicncia beata, da remisso pecuniria dos 
pecados, exaltao das Letras humanas clssicas e da paz.

Embora com xito contestvel, S de Miranda luta no teatro contra o

gosto ento dominante dos autos: o prlogo da sua primeira comdia supe o pblico 
surpreendido por no estar a assistir a um auto em verso e rima.

111111,6187f106,,4F1,4

1. Textos

A 1. > ed. das Obras, feitas por um autgrafo,  a de Manuel de Lyra, Lisboa, 1595A 
2. a, que utiliza outros manuscritos,  de 1614 e vem acompanhada de uma biografia do 
poeta. Houve reimpresses destas edices, at que Carolina Michalis de Vasconcelos, 
utilizando as duas ed. mencionadas, mais cinco manuscritos inditos, publicou uma ed. 
crtica, com diversas (e numerosas) variantes, em Halle, 1885, reed. fac-similada 
pela IN-CM, 1989. O grande nmero de variantes resulta de que o autor, de manuscrito 
para manuscrito, corrigia e alterava, por vezes profundamente, o original.

256
Satyras de Francisco de Saa de Miranda, reprod. fac-similada da ed. de 1626 (verses 
no consideradas na ed. de Carolina Michalis), *0 Mundo do Livro+, Lisboa, 1958.

Texto da lamentao Alson de los vientos por Eugenio Asensio in *Revista da Faculdade 
de Letras+, vol. 13, 111 srie, Lisboa, 1971, pp. 1-19Ver estudo dos manuscritos e 
variantes nos livros de J. V. de Pina Martins e T. F. Earle, adiante referidos.

Comedias Famosas Portuguesas dos doutores Francisco de S de Miranda e Antnio 
Ferreira, Lisboa, 1622.

Vilhalpandos, 1. > ed., Coimbra, 1560. H urna ed. rnoderna, em separado, Coimbra, 
1930. Estrangeiros, 1. > ed., Coimbra, 1559; includos na 1. 1 ed. das Obras, 1595.

Ambas as comdias se encontram reproduzidas nas edies das Obras. As mais recentes 
edies destas so a de Jos Pereira Tavares, Lello, Porto, 1928; e a de Rodrigues 
Lapa, em 2 vols., na col. *S da Costa+, Lisboa, 1937, 1942-43 (baseia-se na 1. > 
ed., aproveitando o trabalho de Carolina Michalis), vol. 1, 4 . aed. rev., 1976, 
vol. li, 3.1 ed. rev., 1977.

2. Antologias

Na col. da *Seara Nova+, 1939, org., introd. e notas de Rodrigues Lapa; na col. 
*Textos Clssicos Verbo+, 1969, org., introd. e notas de Jos Vitorino de Pina 
Martins; e na col. *Textos Literrios+, 1984, org., introd. e notas de Alexandre M. 
Garcia. (Os dois ltimos muito informativos.)

Antologia ilustrada por desenhistas: Rgio, Jos: As mais belas poesias de S de 
Miranda, Lisboa, 1961.

3. Estudos

 fundamental o vol. 1 - Bibliografia, Lisboa, 1972, de que Jos Vitorino de Fina 
Martins fez preceder o seu estudo: S de Miranda e a Cultura do Renascimento.

Braga, Tef ilo: S de Miranda e a escola italiana, Porto, 1893.

Vasconcelos, Carolina Michalis de: Introdurco  sua ed. das Poesias (ocupa-se 
especialmente do problema das variantes); Novos Estudos sobre S de Miranda, Academia 
de Cincias de Lisboa, 1911.

Viterbo, Sousa: Estudos sobre S de Miranda, sep. de *0 Instituto+, 42-48, 1895-96. 
(Dados bibliogrficos importantes.) Lapa, Rodrigues: pref.  sua ed. das Obras 
Completas. Machado, Jos de Sousa: O Poeta do Neiva, Braga, 1928 (estudo genealgico 
e biogrfico).


Saraiva, A. Jos: Histria da Cultura em Portugal, vol. li, cap. V, 34. Pimpo, A. 
Costa: O Soneto *0 Sol  grande+, in *Biblos+, vol. XIV, 1938, includo em Escritos 
Diversos, Coimbra, 1972; e Histria da Literatura Portuguesa, 2. > vol. (sc. XVI, 
que ficou incompleto, em fascculos), Coimbra.

Rocha, Andre Crabb: O Teatro de S de Miranda, in *Colquio+, n. 12, 1961.

         257
Picchio, Luciana Stegagno: Histria do Teatro Portugus, Lisboa, 1969 (tem bibliograf 
ia); e Ricerche sul Teatro Portoghese, Edizioni dell'Ateneo, Roma, 1969.

Carvalho, Cariota Almeida de: Glossrio das Poesias de S de Miranda, ed. Centro de 
Estudos Filolgicos, 1953.

Artigos do suplemento de *0 Comrcio do Porto+ comemorativo do IV centenrio, 
includos no vol. 111 de Estrada Larga, Porto Editora, s/d.

Sena, Jorge de: Reflexes sobre S de Miranda, in Da Poesia Portuguesa, Lisboa,
1958, e A Viagem de Itlia, inserto no suplemento literrio de *0 Estado de So 
Paulo+,
1962-09-08, textos includos em Estudos de Literatura Portuguesa, Ed. 70, 198 1, pp.
49-56 e 57-67.

Lopes, scar: SdeMiranda: Permanncia da sua Crtica, in Lere Depois, Porto, 1969.

Mouro-Ferreira, David: S de Miranda: Inovao e Polemismo, in Hospital das Letras, 
Lisboa, 1966, pp. 23-44.

Cirurgio, Antnio Amaro: A Natureza na *Fbula do Mondego+ de S de Miranda, in 
*Vrtice+, 28, n. 296, Maio 1968.

Asensio, Eugenio: Texto integral y comentarios del poema de S de Miranda *Al son de 
los vientos que van murmurando+, in Estudios Portugueses do mesmo autor, 1974 (estuda 
vrios aspectos estilsticos e temticos da obra de S de Miranda).

Busnardo-Neto, J. M.: The eclogue in the sixteenth century Portugal, tese de 
doutoramento policopiada, Michigan, 1974.

Carvalho, Jos Adriano de: Os *Divinos Versos+ de S de Miranda.- Bblia ou Poesia?, 
in *Colquio/Letras+, 29, Jan. 1976, pp. 23-24, e S de Miranda entre a Poesia e a 
Bblia (com a colab. de J. V. de Pina Martins), in *Arquivos do Centro Cultural 
Portugus+, Paris, 10, 1976, pp. 45-62 e 63-8 1. Deste ltimo autor, S de Miranda e 
a Cultura do Renascimento, vol. 1, Lisboa, 1972.

Roig, Adrien: Quines fueran Salicio y Nemoroso?, in Criticn, Toulouse, Universit 
le Mirail, France-lbrie Recherche, 1978, 4, pp. 1-36 (identifica os pseudnimos 
Salcio e Nemoroso, na cioga com este ltimo nome, como designando, respectivamente, 
S de Miranda e Garcilaso); e O Teatro Clssico em Portugal no sculo XVI, 
*Biblioteca Breve+, lCLP, 1983.


Subirats, Jean: Les comdes et Ppitre de Jorge Ferreira de Vasconcelos, 
Contribution  l'tude socio-littraire du XVIe sicle portugais, tese defendida na 
Universidade de Lille, 2 vols., 1976.

Matos, M. Vitalina Leal de: Ler e Escrever, IN-CM, 1987 (contm ensaios sobre S de 
Miranda e Cames).

Earle, T. F.: Tema e imagem na Poesia de S de Miranda, IN-CM, 1985 (trad. do 
original ingls, Oxford Univ. Press, 1980).

Tavani, Giuseppe: As Caractersticas Nacionais das Comdias de S de Miranda, in 
Ensaios Portugueses, IN-CM, 1988, pp. 413-428.
258                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

A antologia organizada por Jos V. de Pina Martins  acompanhada de um minucioso 
aparato erudito, quanto a fontes textuais e s verses dos textos escolhidos, A 
introduo est includa, com correces, em Cultura Portuguesa, do mesmo autor, ed. 
Verbo, 1974, pp. 67-80. Ainda de Jos V. de Pina Martins ver problemas e normas Para 
uma tentativa de edio crtica das poesias de S de Miranda, in *Critique Textuelle 
Portugaise+, Centre Culturel Portugais, Paris, 1986, pp. 147-16 1, e o artigo de 
sntese: S de Miranda um poeta para o nosso tempo, in Estudos Portugueses - 
Homenagem a L. Stegagno Picchio, Difel, Lisboa, 1990, pp. 1025-1045.

A antologia org. por Alexandre M. Garcia contm importantes comentrios aos 
principais poemas e trechos importantes dos prefcios das edi es dos scs. XVI, 
XVII e XVIII, e ainda numerosos trechos que documentam a recepo a S de Miranda 
desde os seus contemporneos at cerca de 1970.

Captulo V

ANTNIO FERREIRA um clssico renascentista isolado

Os poetas nascidos entre 1520 e 1530 cultivam as formas consagradas pelo Renascimento 
e introduzidas por S de Miranda - de quem quase todos se declaram discpulos - e 
ainda por vezes ecoam o triunfo momentneo do Humanismo nos cursos de Artes de 
Coimbra. No entanto apenas um, o

Dr. Antnio Ferreira (1528~1569), pode considerar-se representante ntegro e sem 
concesses do esprito classicista e humanista que entre ns se

confrontou com a tradio literria e com o esprito da Contra-Reforma.

Filho de um funcionrio da casa do duque de Coimbra, D. Jorge, frequentou a 
Universidade entre 1543 e 1555, quando a influncia do Humanismo se encontrava no seu

auge em Portugal. Diogo de Teive foi seu mestre, e devem t-lo sido tambm Jorge 
Buchanan, Nicolau Grouchy e outros. Com as representaes escolares em Coimbra, 
iniciou-se no teatro clssico. Estas circunstncias deram-lhe talvez a mais completa 
educao humanstica de todos os poetas portugueses quinhentistas. Em 1554 exercera 
funes de lente universitrio substituto. Foi no perodo de estudos em Coimbra que 
escreveu a maior

parte da sua obra lrica e dramtica. Durante os dois ltimos anos da sua vida breve 
exerceu o cargo de desembargador da Casa do Cvel em Lisboa.

A obra lrica de Antnio Ferreira

A obra de Ferreira foi compilada pelo autor num volume editado por seu filho, Miguel 
Leite Ferreira, em 1598, e intitulado Poemas Lusitanos, ttulo significativo, como 
veremos.

Todas as composies deste volume - sonetos, odes, elegias, cIogas, epitalmios, 
cartas, epigramas, epitfios e uma histria de Santa Comba dos

260
Vales, assim como as comdias e a tragdia Castro - so afeioadas pelos moldes 
italianos, latinos e gregos. Confinando-nos por agora  parte lrica desta obra, 
verificamos que nela se combinam uma erudio, uma mestria

da tcnica do *novo estilo+, uma conscincia dos valores e uma inteno pedaggica 
que nos obrigam a consider-la como obra-piloto dos italianizantes portugueses.

O interesse das composies lricas  desigual. Os sonetos, por vezes

harmoniosos, repisam os lugares-comuns petrarquianos, mas s h vibrao nos 
referentes  morte da primeira esposa. Tambm no interessam muito as ciogas, 
geralmente de cunho vrgiliano ou sannazzariano, nem as elegias, algumas delas,  
maneira grega, de tom sentencioso e no lamentoso.

Mas aqueles gneros em que expe doutrina - nas odes horacianas, de que parece ter 
sido o primeiro cultor portugus, e acima de tudo nas cartas -, Ferreira  um autor 
significativo, e pode considerar-se o mais completo teorizador portugus 
quinhentista, em vernculo, dos padres e valores humansticos, sobretudo os 
relacionados com a arte literria.

As cartas e odes de Ferreira dirigem-se a uma roda de personagens constituda por 
poetas, como Pro de Andrade Caminha, Diogo Bernardes, S de Miranda, Francisco de S 
e Meneses, e por figuras de relevo social,

como o duque de Aveiro, o padre Lus Gonalves da Cmara, D. Francisco Coutinho, D. 
Constantino de Bragana, o infante D. Duarte, o cardeal D. Henrique, o rei D. 
Sebastio. A todos prodigaliza conselhos e encorajamentos, que encobrem por vezes uma 
crtica discreta. Ferreira entendia exercer por este meio aquela autoridade 
espiritual que mais de uma vez

reivindica, em termos enrgicos, para os poetas e os doutos em Humanidades. A 
competncia dos prticos e a dos dialectas do direito e da teologia ficaria 
desequilibrada sem a educao do senso dos valores desinteressados, pois

As artes entre si se comunicam.

Do conjunto das cartas e das odes desprende-se uma atitude horaciana mais ou menos 
harmonizada com uma sabedoria crist. A atitude do poeta  a de uma impassvel 
superioridade perante as opinies irracionais do *vulgo+ e perante a vacuidade dos 
bens por que se bate a maioria dos homens. O odi profanum vulgus soa bem alto em 
Antnio Ferreira, para

261
quem, no entanto, o *vulgo+ OU *Povo+  um conceito basicamente moral e no social:

Eu chamo povo onde h baixos intentos;

considera sbio quem, guiando-se pelo prprio j uzo, pode desprezar o que lhe  
exterior:

Ditoso aquele que em si s se encerra

e, estimando o tesouro que em si tem, pisa soberbamente toda a terra.

A razo: eis o nico guia em que o poeta parece confiar. No a razo

escolstica identificada com a sabedoria divina, mas uma razo humana, educada nas 
letras clssicas, feita de ponderao, buscando uma felicidade terrestre ao abrigo de 
paixes e iluses, e que  a mais alta forma de autodomnio. Em nome dela, condena 
todas as manifestaes de impulsividade, incluindo o esprito de aventura e a 
brutalidade guerreira:

Que me aproveita a lana ensanguentada no peito do rei mouro, se aventurei perder a 
vida e no ganhar c nada?

Mesmo quando transige com a ideologia expansionista, entre ns quase unnime, e se 
dirige em estilo herico a heris militares, Ferreira insiste na superioridade da 
razo sobre a coragem fsica. No  raro tambm cen~

surar ou lamentar aqueles que trocam a quietude da meditao e do estudo

pelos riscos dos mares e da guerra, levados pela ambio da riqueza. So motivos que 
encontrmos j em S de Miranda, mas no seu discpulo integram-se de forma mais 
explcita em contextos que lembram as respectivas fontes clssicas, sobretudo 
horacianas ou virgilianas.

Frequentemente se aventura Ferrera pelo campo das ideias polticas e

sociais. Em carta a D. Sebastio expe, de maneira inequvoca, a doutrina

do contrato social (que pode ter aprendido em Aristteles); nega o poder monrquico 
absoluto:

absoluto poder no h na terra, que antes ser injustia e crueldade;

262
afirma a condio humana dos reis:

iguais somos, Senhor, na natureza:

assim entramos na vida, assim samos.

 nobreza do sangue contrape a aristocracia do saber, lamentando que lhe no sejam 
reconhecidas no seu tempo as prerrogativas a que se sente com direito:

Aquela proveitosa liberdade aos antigos Poetas concedida porque entre ns ser mal 
recebida?

Estes tpicos so caractersticos do Humanismo, mas ningum talvez os

formulou entre ns com tanta convico e por forma to acabada e independente da 
tradio medieval.

Uma parte da obra de Antnio Ferreira, sobretudo as epstolas que dirige aos 
confrades em letras, consagra-se a problemas do ofcio de escritor. Um dos pontos que 
trata com mais insistncia  aquele que, por analogia com

os renascentistas franceses, poderamos designar como a defesa e ilustrao da lngua 
portuguesa.

Ferreira interessou-se a fundo pelo idioma, inclusivamente na sua forma medieval, de 
que fez duas imitaes felizes a propsito do texto do Amads. Reagiu contra o 
emprego da lngua castelhana pelos poetas seus contemporaneos, e foi um dos poucos 
portugueses do sculo XVI que no escreveram

em castelhano um s verso. Tal como vrios renascentistas estrangeiros apologetas da 
centralizao monrquica nacional, exalta o idioma ptrio em versos

vibrantes como estes:

Floresa, fale, cante, oua-se e viva

a portuguesa lngua, e, l onde for, senhora v de si, soberba e altiva. Se >t >qui 
esteve baixa e sem louvor, culpa  dos que a mal exercitaram, esquecimento nosso e 
desamor.

Esta defesa da lngua, que encontramos tambm em Joo de Barros e

em Ferreira de Vasconcelos, tem em Antnio Ferreira uma tonalidade anti-

263
castelhana (de igual modo patente em Vasconcelos). Antnio Ferreira, que em dado 
passo apenas deseja perdurar corno da lngua amigo, d porventura vazo a um 
sentimento popular oposto ao castelhanismo da corte. De toda a maneira, a sua obra 
literria parece-lhe valer acima de tudo como amostra ou expresso em lngua 
portuguesa, e por isso lhe deu o ttulo geral de Poemas Lusitanos. Encontram-se na 
dedicatria do volume estes versos sgnificativos:

Eu desta glria s fico contente: que a minha terra amei, e a minha gente.

Como promotor do elassicismo literrio, Antnio Ferreira expos com

insistncia e magistral clareza as normas tpicas da escola. A sua doutrina

(como alis outros aspectos da sua obra) tem por fonte principal Horcio, e 
especialmente a Epstola aos Pises (tambm conhecida por Arte Potica). Alguns 
tpicos deste magistrio:

a) a primazia do estudo e do trabalho sobre a inspirao:

doutrina, arte, trabalho, tempo e lima

fizeram aqueles nomes to famosos por quem a Antiguidade se honra e estima

b) a necessidade do conhecimento aprofundado e de uma imitao que afinal consiste em 
apropriao nacional do patrimnio literrio das lnguas clssicas:

Do bom escrever, saber primeiro  fonte.

c) a necessidade da crtica e da autocrtica: o poeta deve desconfiar de si prprio e 
fazer discutir pelos entendidos as suas composies;

d) o sentido da justa proporo:

h nas cousas um fim, h tal medida, que quanto passa ou falta dela  vcio.

c) a proscrio de toda a herana peninsular medieval (*a antiga Espanha deixo ao 
povo+), conservando apenas, como mal inevitvel, a rima, que restringe a liberdade 
dos versos *e com som leve o juzo engana+, enquanto se no encontrar outro sistema 
rtmico mais prximo do verso latino.

264
Ocupam, ainda, um lugar importante na campanha de Ferreira as exortaes dirigidas a 
vrios confrades para que intentem a realizao de uma epopeia nacional. Alguns 
passos das suas odes e os epitfios podem, de resto, considerar-se sugestes para um 
estilo e temas hericos. Mas a epopeia imaginada por Ferreira  um monumento da 
cultura, e sobretudo da Lngua, muito mais do que uma afirmao dos valores 
guerreiros e cruzadistas ento vigentes. Segundo Ferrera, o herico vale, acima de 
tudo, como tema do poeta; e com o gnero pico ficaria enriquecida a assimilao dos 
modelos clssicos pela literatura portuguesa, e, acima de tudo, enobrecida a lngua. 
Cames, ao realizar Os Lusadas, integrou-se, como veremos, neste desiderato.

Na sua produo literria Ferreira , at onde chega a sua capacidade, de todo 
coerente com a doutrina que ensina. O seu estilo expe e discorre sem deixar espao 
aos efeitos engenhosos. Aqui ressalta um contraste com

S de Miranda, J. Ferreira de Vasconcelos e at com Cames. Ferreira est no plo 
oposto ao do Barroco. Dentro de um puro classicismo, esfora-se por criar uma lngua 
moderna eliminando os arcasmos, filtrando o vocabulrio de ressaibos pitorescos ou 
provinciais. Procura tambm introduzir a

liberdade da sintaxe latina na colocao das palavras. Nos seus melhores momentos 
logra uma expresso clara (anloga  do academismo francs) e

por vezes enrgica. Deixou muitos versos aforsticos, de conciso proverbial.

Ferreira representa, desta forma, tanto pela doutrina como pela obra, o ponto mais 
avanado que atingiu entre ns o primeiro classicismo literrio, ao mesmo tempo que o 
expositor mais coerente da doutrina humanista, Isto coloca-o  margem da evoluo 
que, dos cancioneiros do sculo XV, passando pela assimilao da influncia italiana 
e latina, conduz aos estilos maneirista e barroco. Teremos de saltar toda a poca 
barroca para encontrarmos discpulos de Ferreira entre os rcades da segunda metade 
do sculo XVIII, que alis, como ele, se recrutaro de preferncia entre a burguesia 
nobilitada pelo cargo.

Antnio Ferreira e o teatro clssico

O mais importante aspecto a considerar na obra de Antnio Ferreira , porventura, a 
sua tentativa de introdu o do teatro clssico, e sobretudo da tragdia, na lngua 
portuguesa. A sua tragdia Castro constitui sem dvida uma das mais felizes 
tentativas quinhentistas, em toda a Europa ocidental, para a ressurreio da tragdia 
grega.

265
Enquanto se processa a evoluo do teatro medieval, tornam~se conhecidas as tragdias 
de Sneca e as comdias de Plauto e Terncio, que os escolares universitrios se 
habituaram a representar em dias festivos, no original latino. Durante os sculos XIV 
e XV e incios do XVI, o movimento humanstico de exumao e publicao de cdices 
clssicos leva ao conhecimento dos estudiosos, no apenas uma grande parte ainda 
desconhecida dos drarfiaturgos romanos, mas at numerosos fragmentos e obras inteiras 
de tragedigrafos gregos. Seguem-se logo as imitaes e tradues. Petrarca, Leo 
Baptista Alberti escrevem comdias ao gosto das de Terncio; Albertino Mussato, 
Alberti, Leonardo Dati e outros italianos imitam as tragdias de Sneca em lngua 
latina, abrindo assim o caminho  Sofnisba de Trissino, a primeira tragdia europeia 
escrita em lngua vulgar (1515), embora irrepresentvel. A representao de Orbeche 
de Crizio, em 1541, assinala o autntico renascimento da tragediografia, que na 
segunda metade do sculo encontra cultores notveis, posto que nem sempre com sentido 
teatral, como os franceses

Jodelle, Roberto Garnier, o portugus Antnio Ferreira, integrando-se no teatro 
nacional ingls do tempo da rainha Isabel (Marlowe, Shakespeare, etc.) e atingindo a 
sua forma

moderna tida como regular com Corneille e Racine nas cortes de Lus XIII e Lus XIV.

De preferncia  obra de Aristfanes, o maior comedigrafo grego, cujas audcias 
reflectem a intensa vida poltica do cidado ateniense do sculo V a. C., os 
comedigratos do Renascimento utilizam como modelo, mediante as imitaes latinas de 
Plauto e Terncio, a comdia nova hel nica, da transio do 111 para o II sculo a. 
C., muito mais comedida. Assim a parbase, comentrio directo  actualidade poltica, 
que era parte integrante da comdia velha, desapareceu completamente. Plauto e 
Terncio apresentaram sempre a comdia em ambiente grego (*comedia palliata+, do nome 
do trajo nacional grego @<pallium+), como simples traduo ou, quando muito, fuso 
(*contaminatio+) de originais de Menandro, Dfilo, Filmon, Demfilo ou Apolodoro.

O assunto central  quase sempre o do jovem que, graas ao auxilio dum solerte e 
dedicado escravo ou parasita, obtm, contra o traficante de mulheres (*Leno+) e 
contra a rivalidade ou simples oposio do prprio pai e dum soldado fanfarro 
(*Miles Gloriosus+), o amor duma bela escrava, que acabar por ser reconhecida corno 
de nascimento

livre, perdida em naufrgio ou raptada por piratas. Quase toda a aco depende das 
artimanhas do escravo, que criam as mais complicadas situaes familiares e 
jurdicas, e

das peripcias causadas pelos infalveis reconhecimentos e regressos finais de certas 
personagens (especialmente o pai da bela escravizada).


H um tipo especial de comdia, a de quiproqu, nomeadamente o tipo de Amphytruo e de 
Manacchmi de Plauto, que tem uma considervel importncia como fonte do teatro 
renascentista e clssico europeu; todo o seu enredo se baseia na confuso, 
intencional ou acidental, de personagens.

No entanto, as variantes do esquema fundamental j indicado so quase s obtidas pelo 
relevo especialmente dado a um tipo ou a um caso de conscincia, com que geralmente 
se designa a pea: o escravo ou parasita e suas manhas peculiares (Curculio,

266
Epidicus, Mostellaria, Persa, de Plauto; Eunuchus, Phormio, de Terncio), o fanfarro

(Miles Gloriosus, Plauto), o pai avaro (Aulularia, Plauto), o amigo fiel (Trinumnus, 
Terncio), o brutamontes (Truculentus, Plauto), o pai severo que se arrepende ou que 
contrasta desfavoravelmente com o educador compreensivo (Heautontimoroumenos, 
Adelph, de Terncio), etc.

Nesta revivescncia de comdia latina fomentada pelos colgios universitrios, as 
festas de S. Nicolau, patrono dos estudantes, desempenham um

papel comparvel ao das festas do Corpo de Deus na evoluo dos mistrios e milagres 
medievais franceses ou ingleses e na formao do teatro espanhol do Siglo d'Oro. J 
em 1538 os estudantes do Colgio de Santa Cruz de Coimbra celebravam representaes 
cnicas que D. Joo 111 tornar obrigatrias na universidade desde 1546.

Em Coimbra, como em Paris ou Salamanca, deve ter-se comeado por representar peas 
latinas no original, de que se vendiam argumentos em lngua vulgar entre a 
assistncia menos culta. Surgem depois as tradues e adaptaes. Na dedicatria da 
comdia Bristo ao prncipe D. Jo o, Antnio Ferreira declara que escreveu esta pea 
quando estudante em Coimbra, e refere-se a outras obras teatrais representadas na 
universidade *que a todas as dos antigos levam ou no do vantagem+. Dessas peas, 
todavia, s subsistem em portugus as do prprio Ferreira, pois que as de S de 
Miranda provm de uma influncia italiana directa.

A primeira comdia original portuguesa parece ser Estrangeiros, de S de Miranda, de 
que j falmos. Nesta comdia e em Vilhalpandos encontramos as caractersticas 
tpicas do gnero: intrigas amorosas, oposies de tipos burgueses e servis, 
anagnrises (reconhecimentos).

Bristo, de Antnio Ferreira, cabe inteiramente dentro deste esquema, s com a 
variante de que o cmico se funda principalmente na rivalidade e na recproca 
mistificao de dois fanfarres, e de que a intriga reside na

emulao amorosa de dois amigos, depois resolvida por um reconhecimento e trs 
casamentos inesperados, inteiramente alheios s inclinaes sentimentais.

Cioso, comdia da maturidade de Antnio Ferreira, desenvolve-se como

um conto malicioso de Boccaccio: - Jlio, marido ciumento e contudo perdido pela 
cortes Faustina, acaba por ser duplamente enganado, porque se

enleia nas manhas das suas prprias perfdias e cautelas; a aco tende, portanto, 
para o recorte de um carcter moral.

         267
Certos elementos lembram a maneira terenciana, como a tese formulada nesta pergunta e 
resposta (acto III, cena 5): *Ardlio: Cuidas tu que pode com a mulher mais o medo 
que o amor?- Bernardo: Nem com os homens tampouco!+.  tambm terenciana a oposio 
de caracteres e pontos de vista, por vezes numa esgrima dialogal em que se

reconhece o autor de certas cenas da Castro (por exemplo, o dilogo Csar-Jlio, 11, 
3, acerca de como se deve tratar a esposa; e o de Octvio-Bernardo, 11, 5, sobre um 
tema que voltaremos a encontrar em Canies e em Jorge de Vasconcelos: a polmica 
entre o amor *activo+ e o amor *contemplativo+).

H em Cioso um evidente progresso sobre as trs tentativas precedentes, mas nem mesmo 
com tal progresso de originalidade e factura se pode concluir que o gnero tenha 
produzido em Portugal uma obra notvel. As quatro comdias no oferecem qualquer 
interesse para o leitor moderno, e ficam muito abaixo de obras similares italianas, 
como a Calndria de Bibbiena e a Mandrgora de Maquiavel. A aco , de comeo, quase 
imperceptvel ao longo de dilogos e de monlogos conceituosos e desligados, e

acumula-se no final em peripcias que chegam a reduzir-se a curtas e secas 
explicaes entre comparsas. As coincidncias a propsito, os reconhecimentos 
inesperados de amigos e parentes que se ignoravam e outros episdios virtualmente 
miraculosos - o chamado deus ex machina - que funcionam como trama da aco, alm de 
constiturem lugares-comuns, retiram toda a verosimilhana s peas e no consentem 
qualquer lgica verdadeiramente dramtica, isto , uma aco que resulte 
organicamente dos caracteres e seus conflitos. O gnero, de resto, fora j exaurido 
pelos comedigrafos latinos, com as suas inmeras *contaminaes+ de fontes.

A tragdia clssica

Para os autores clssicos a tragdia era o mais nobre dos gneros. Aristteles, que a 
sobreps  epopeia, dedicou-lhe o essencial da sua Potica. Horcio tinha-a em vista, 
mais que a outro gnero, quando redigiu a sua Epstola aos Pises (mais conhecida por 
Arte Potica) e quando escreveu as suas odes  maneira de coros trgicos, sob a 
invocao da musa Melpmene, que preside  tragdia.

Originria do culto popular helnico de Dioniso, comeou por ser um dilogo entre um 
solista, que faz as perguntas (hipcrita, palavra que depois significa actor), e um 
coro

representativo de stiros, que responde.  letra, tragdia significa, segundo uns, 
cntico de stiros, segundo outros, cntico do bode ofertado a Dioniso. Nos trs 
grandes tragedigrafos do sculo V a. C., squilo, Sfocles e Eurpides, aparece j 
bem definido

268
o papel do actor principal (protagonista), o elenco alarga-se at o mximo de trs 
actores

em cena, e o coro aparece reduzido a comentar a aco ou at a preencher com 
interldios o intervalo dos episdios, ento equivalentes a actos. Nos anfiteatros ao 
ar livre, perante os quais se representavam as tragdias, cabia praticamente a 
totalidade dos cidados de Atenas, incluindo os mais pobres, a quem eram pagas as 
entradas. O Estado ins~ tituiu tambm concursos pblicos, em que se premiava o autor 
da melhor tetr.9]ogia, constituda por uma trilogia trgica (trs tragdias) e um 
drama satrico.

As personagens da tragdia clssica, representadas por actores de coturno, uma 
espcie de calado simblico de alta dignidade, eram normalmente deuses, semideuses e 
heris lendrios. O trao caracterstico do protagonista  o descomedimento, o 
desafio arrogante (hybris) aos deuses, ao destino, ou simplesmente s autoridades 
estabelecidas, atitude esta geralmente contrastada com as reflexes moderadas do 
coro, que assim se torna

o ndice da sensata mediania humana. De acordo com uma concepo de Aristteles, que 
decerto corresponde a uma ideia feita, o espectculo trgico destinava-se a operar 
uma purificao (cathrsis) das tendncias imorais de cada espectador, exibindo a 
consequncia horrvel (o pthos) de um descomedimento por forma a excitar o terror 
religioso e a compaixo. A tenso afectiva criada pela aco recproca do repto 
herico e das suas

consequncias patticas vai sempre em crescendo (clmax) at  peripcia, ou sbita

mudana de situaes entre as personagens, que muitas vezes resulta do reconhecimento

(anagnrise) de urna relao de parentesco, ou outra, entre elas. Segundo 
Aristteles, a esttica da tragdia estaria em ntima relao com o seu prprio 
princpio tico de que a virtude consiste em saber evitar os extremos e excessos. 
Contudo,  na contradio entre essa tica conservadora e a heroicidade desmesurada e 
subversiva do protagonista que reside, para ns, o interesse mais profundo de muitas 
tragdias gregas.

O ambiente em que se trava o conflito central evolui: em squilo tem um tom 
acentuadarnente religioso, de oposio entre o heri e o destino, ou os deuses; em 
Sfocles o aspecto herico positivo da hybris  mais acentuado e visa, por vezes, 
prepotncias humanas; em Eurpides o protagonista anda  merc, no tanto de foras 
externas (sobrenaturais ou tirnicas), como da lgica interna de uma paixo 
irreprimvel, num mundo


de acasos, de foras cegas e irresponsveis. Apesar disso e apesar de ter feito pela 
primeira vez do amor o tema fundamental do teatro, Eurpides dilui a hurnanidade dos 
seus temas num rebusque de truculncias patticas, de tiradas retricas, e resolve 
por vezes os conflitos por forma demasiado brusca, graas  cmoda interveno de uma 
divindade

(dcux ex machina).

Estas tendncias agravam-se consideravelmente nas peas dificilmente representveis 
de Sneca, contemporneo de Nero, o mais influente tragedigrafo romano, moralista 
estico, cujos tratados tiveram grande voga na Idade Mdia. So caractersticas do 
teatro de Sneca o gosto da violncia e da nfase, os longos monlogos cheios de 
digresses, as tiradas sentenciosas, o individualismo (senequismo) exaltado dos 
heris, que nunca, intimamente, se reconhecem derrotados.

       269
No Renascimento os tericos da tragdia acrescentaram novos preceitos aos de 
Aristteles e Horcio. Aristteles exigia, por exemplo, como essencial, a unidade de 
aco e preconiza que esta se imaginasse como decorrida dentro de um dia, em oposio 
ao

largo mbito de uma epopeia. Indo mais longe no mesmo sentido, Castelvetro, na sua

Potica de 1570, e Jean de Ia Taille, na sua Arte de Tragdia de 1572, entre outros 
preceptistas, formularam a famosa *lei das trs unidades+: aco, tempo e lugar. Mas 
esta doutrina  j posterior  Castro de Antnio Ferreira.

A tragdia clssica em Portugal

Algumas das tragdias de Sneca figuravam j na livraria de D. Afonso V; e corriam em 
traduo portuguesa impressa deste 1559, pelo menos. Em
1528 publicou-se A Vingana de Agammnon, adaptao, em dcimas heptassilbicas, da 
traduo da Electra de Sfocles, por Hernti Perez de Oliva, que no pas vizinho se 
notabilizou pelas suas verses de comdias e tragdias gregas. Uma traduo 
portuguesa da mesma pea, com o mesmo ttulo da castelhana (e provavelmente baseada 
nela), foi concluda em 1536 por Henrique Aires Vitria e impressa entre aquele ano e 
o de 1555.

As primeiras tragdias modernas conhecidas (o que no quer dizer representadas) no 
meio universitrio de Coimbra, alis em lngua latina, devem ter sido Jeftes e 
Baptistes, originais de Jorge Buchanan, as verses latinas de Alcestes e Medeia de 
Eurpides pelo mesmo professor, e outras peas de Gurente e Mrat. Diogo de Teive 
escreveu um David que se representou em Santa Cruz, em 1550, na presena de D. Joo 
111, rainha e infantes, e outras peas, entre as quais uma tragdia que tinha como 
assunto a morte do infante D. Joo (Joannes Princeps, Trageedia). A representao de 
peas em latim tornara-se j ento uma praxe, sobretudo por ocasio de visitas 
solenes rgias ou episcopais s universidades de Coimbra ou vora. A primeira 
tentativa de tragdia original em lngua portuguesa foi provavelmente a C]cpatra de 
S de Miranda, de que nos restam alguns versos heptassilbicos.

 dentro deste teatro acadmico, onde nascera tambm a comdia Bristo, que surge, sob 
a provvel influncia das tragdias latinas de Buchanan e sobretudo Diogo de Teive, a 
tragdia Castro de Antnio Ferreira. Directa ou indirectamente (como, em geral, para 
o teatro trgico renascentista) serve-lhe Sneca de modelo.

270
A Castro foi a primeira das obras do seu autor a ser impressa, embora postumamente, 
em 1587, ficando depois includa nos Poemas Lusitanos (1598). As comdias s em 1622 
saram  luz, juntamente com as de Miranda. Ora, em 1577, publicava-se em

Madrid a Nise Lastimosa de Frei Jernimo Bermudez, que pode considerar-se uma verso 
castelhana com algumas variantes da tragdia de Ferreira. Isto ps o problema da 
prioridade das suas redaces, a portuguesa e a castelhana. A data da morte de 
Ferreira (1569) e a provvel estadia de Bermudez em Portugal tornam extrinsecamente 
defensvel a primazia do texto de Ferreira, que tem a seu favor, como argumento muito 
importante e reconhecido, a sua maior elegncia idiomtica e a inferioridade de outra 
pea daquele domnico galego, Nise Laureada, com que pretendeu continuar a tragdia 
traduzida.

A histria de D. Pedro e Ins de Castro - cujo eplogo Ferno Lopes narra em termos 
impressionantes - inspirara j as Trovas  morte de D. Ins de Garcia de Resende.

Embora constitudo por um nionlogo de Ins enquadrado por dois comentrios 
compassivos, as Trovas contm, j, como veremos, alguns lineamentos da tragdia. O 
assunto havia sido tambm abordado em termos patticos por Rui de Pina, Acenheiro e 
numa

viso, em prosa e verso, de Aririque da Moia.

Dentro dos cnones aristotlico-horacianos da tragdia, a aco da Castro, que  una, 
decorre num curto espao de tempo (pouco mais de um dia), e resulta da 
interdependncia de trs personagens: Ins de Castro, D. Pedro, Afonso IV. Mas D. 
Pedro no chega a contracenar com as outras personagens e encontra-se, durante a 
maior parte do tempo, num local muito afastado daquele onde se desenrola a aco. 
(Falta, portanto, a unidade de espao, que no era ainda exigida pelos preceptistas 
da tragdia.)

Os trs figurantes principais revelam-se um a um, e sucessivamente, dialogando com os 
seus confidentes. Segundo a tcnica teatral clssica, os confidentes servem para as 
personagens principais manifestarem os seus

sentimentos e desgnios: Ins de Castro dialoga com a sua Ama; o infante D. Pedro com 
o seu Secretrio (etimologicamente: confidente de segredos) (Acto 1). D. Afonso IV 
discute com os seus trs Conselheiros, que o decidem  morte de Castro (Acto II). No 
Acto 111 reencontramos Ins de Castro e a Ama, mas desta vez o clmax precipita-se e 
o coro intervm na aco, como requerem as mais antigas convenes greco-latinas, 
anunciando a morte

da protagonista. No Acto IV, com a participao do coro, Ins, mais os filhos, 
enfrenta finalmente o Rei e seus Conselheiros, os conflitos atingem o auge


e o pthos consuma-se. O acto final, sem coro, no passa de um eplogo: D. Pedro  
colhido de surpresa pela notcia, trazida por um mensageiro, e,

271
entre imprecaes, promete tirar do crime todas as consequncias que a histria 
regista.

A figura de D. Pedro fica, de certa maneira, desgarrada. O poeta parece ter preferido 
evitar o seu encontro quer com D. Ins, quer com D. Afonso, como se fundamentalmente 
no tivesse em vista o caso sentimental entre os dois amantes. Isso e a 
multiplicidade de confidentes singulares ou colectivos desagradaram ao culto 
romntico do individualismo sentimental, mas condizem com a problemtica tradicional 
da tragdia. O verdadeiro n da pea est no encontro de D. Ins, que representa o 
direito ao amor e  vida, e como que o protesto da natureza e da liberdade, com 
Afonso IV, que por lgica do cargo deveria encarnar a Razo de Estado, mas, 
angustiado perante a opo difcil, se limita, in extrems, a deix-la actuar por 
iniciativa dos Conselheiros.

Pelo que toca a D. Afonso IV e aos seus Conselheiros, o conflito trava-se entre a 
Razo de Estado ou *bem comuni+, propugnada por esses ulicos

(*0 bem comum, Senhor, tem tais larguezas/com que justifica obras duvidosas+), e o 
sentimento de justia, individualmente considerado no caso de

Ins, tanto mais que se trata duma pena de morte e *enganam-se os juizes muitas 
vezes+. Seria difcil encontrar-se uma tragdia cujas determinantes decorram de uma 
to irresistvel lgica de situaes. Mas, esmagado por uma responsabilidade de opo 
inevitvel entre dois males, D. Afonso, que em certo momento se justifica com a 
presso do *povo baixo+, acaba por deixar correr os acontecimentos, lavando as mos 
como Pilatos:

Eu no mando nem vedo. Deus o julgue, vs outros o fazei, se vos parece justia assi 
matar quem no tem culpa.

Mais tarde, depois de perpetrado o assassnio, o Rei mostra-se arrependido, o que, 
afinal, lhe restitui a dignidade de ser responsvel, com a qual antes no arcara 
inteiraniente:

Afronta-se-me a minha alma.  quem pudera desfazer o que  feito!

O conflito ntimo de D. Pedro, o do Amor~Dever, exposto no dilogo do 1. O Acto,  
mais banal em teatro, e o seu desdobramento faz-se por forma

272
que o tom conceituoso prima sobre a eloquncia verdadeiramente dramtica. Dir-se-ia 
uma smula da casustica moral de Sneca e da deontologia dos muitos *regimentos de 
prncipes+ que se escreveram na poca. Compensa-0 um pouco de lirismo do coro 
seguinte:

Quando Amor nasceu, nasceu ao Mundo vida--No ltimo acto, os monlogos de D. Pedro 
so patticos, embora devamos descontar o muito que encerram de imitao. O modelo 
podia ser, por exemplo, uma tirada monologada do protagonista do Thyestes de Sneca.

Ferreira encontrou j, como vimos, nas Trov@2s de Garcia de Resende um conflito 
dramaticamente bem gizado; graas a isso, a sua tragdia supre a aco de um Destino 
transcendente, sob qualquer das verses que ele apresenta na tragediografia antiga. 
Se h Destino em Castro, ele  imanente ao

prprio jogo das aspiraes e obrigaes em luta, exerce-se atravs de vontades 
humanas cuja autodeterminao se entrechoca, e define, em vez de

eliminar, as responsabilidades individuais, quer na aco, quer na absten~ o. Pode 
ainda notar-se que o idealismo antimaquiavlico (*No se h-de

fazer mal por quantos bens/Se possam da seguir>@, proclama o bem-intencionado D. 
Afonso IV) no deixa tirar partido dramtico de todos os

motivos que, historicamente, assistiam  Razo de Estado no caso pendente (iminncia 
de interveno de D. Pedro nas lutas internas de Castela, ao lado dos irmos de D. 
Ins; risco de uma futura questo dinstica, por legitimao dos filhos de D. Ins; 
vrios actos de rt---eflexo passional do prncipe; etc.).

O coro aparece em todos os actos excepto no ltimo, o que acentua a impresso de que 
a clera final de D. Pedro no tem uma ligao intrnseca com o intuito bsico. 
Segundo as regras clssicas, o coro desdobra-se em

coro e anticoro, sendo clssicos tambm os temas cricos: elogios do amor

ou evocao do seu poder e malefcios; apologia da *urea mediania+; exortaes ao 
comedimento,  prudncia,  piedade e respeito convencionais.

Seria fcil exemplificar a falta de originalidade destes temas: confira-se o fim do

Acto 1 com os versos 274 e seguintes da Fedra e os versos 806 e seguintes da Octvia, 
de Sneca (ou sua escola); e igualmente o fim do Acto II com os versos 1123 e 
seguintes da mesma Fedra e os versos 57 e seguintes do Agamrnnori do mesmo autor.

273
Mas o lugar-comum  prprio de todos os coros, justamente na medida em que exprimem 
uma sabedoria tradicional, mediana e colectiva, em contraste com o desafio do 
protagonista. E o que importa, finalmente,  a beleza de tom, a atmosfera que o 
lirismo coral introduz na Castro.

Ferreira tentou, nesta sua obra, o verso branco, isto , sem rima. Trata-se de 
inovao capital, que s veio a ser continuada no sculo XVIII pelos rcades, e que 
faz parte do programa de restaurao dos moldes clssicos, segundo a doutrina de 
Ferreira. Deve reconhecer-se que esta experincia foi por ele admiravelmente lograda. 
Usa o decassilabo, com quebrados de 4 e

6 slabas sobretudo no coro. Para certos efeitos particulares, recorre, embora 
raramente,  rima.

Apesar das frequentes *confidncias+, do discorrer quase jurdico de certos dilogos, 
como o que se trava entre o Rei e os seus Conselheiros, difcil de seguir no palco, a 
pea tem ainda hoje boa defesa cnica. Isto resulta da autenticidade dos seus 
conflitos centrais; da intensa eloquncia lrica ou

dramtica de Ins (1. O e 3. > Actos); de certa dialctica entre a esperana

e a expectativa do desastre, a alegria de emprstimo e a tristeza adiada; de certa 
grandeza potica, em que entram o admirvel aproveitamento dos factos, o efeito dos 
coros, e a nobreza e adequado ritmo dos versos. Ferreira evita habilmente a queda ao 
nvel do prosaico (o bthos, como dizem os preceptistas clssicos) nas falas sumrias 
que relacionam logicamente as cenas

entre si - escolho em que to amide esbarra mesmo a melhor dramaturgia

em verso.

111111,61,61106,A,FIA

1. Textos

Teive, Diogo de: Tragdia do Prncipe Joo, trad. e estudo do autor e original do 
Joannes Princeps por Nair de Nazar Castro Soares, Coimbra, 1977.

Vitria, Henrique Aires: Vingana de Agammnon, 1. > ed., perdida (1536-1555); reed. 
rev. 1555; 3. > ed. por Esteves Pereira, em Monumentos da Literatura Dramtica 
Portuguesa, Lisboa, 1918.

Antnio Ferreira. A 1. > ed., pstuma, dos Poemas Lusitanos, pelo filho Miguei Leite 
Ferreira,  de 1598, Lisboa. Outras: 1771, 1829. H uma reproduo da 1. > por 
Marques Braga, com introd. e notas, na col. *S da Costa+, 2 vols., 1939-40, reed. 
1953.

274
Castro, 1   ed., 1587, ed. *novamente acrescentada+, porque a tragdia j fora 
representada em Coimbra cerca de 1550. A 2. 1 ed., nos Poemas Lusitanos de 1598, est 
bastante refundida e serve de base s reed, posteriores. Alm das ed. em conjunto com

os Poemas Lusitanos, h vrias ed. modernas: a de Mendes dos Remdios, Coimbra, 1915; 
a de Damio Peres, Gaia, 1930; e as das col. *Teatro de Bolso+, *Atlntida+, 
*Portugal+ e *Textos Quinhentistas+ (Rio de Janeiro). Mais recentemente, uma ed. 
crtica baseada nas de 1587 e 1598, com trad. francesa, por Adrien Roig, Centro 
Cultural Portugus, Paris, 1971. Existe uma adaptao modernizante de Jlio Dantas, 
tamb m editada (1920) e levada ao palco,

Bristo e Cioso no foram includos na 1       ed. dos Poemas Lusitanos, e publicaram-
se pela primeira vez juntos em 1622, no vol. Comdias famosas portuguesas dos 
Doutores Francisco de S de Miranda e Antnio Ferreira, juntamente com Vilhalpandos e 
Estrangeiros. A 2, a ed. dos Poemas Lusitanos, de Lisboa, 1771, contm as comdias de 
Antnio Ferreira. Descobriu-se na Biblioteca Nacional de Madrid uma ed. annima de 
Bristo, Lisboa, 1562, sob o ttulo que se tornou chocante, e foi talvez por isso 
depois substitudo, de Comdia do Fanchono. Roig, Adrien: La Comdie de Bristo ou 
VEntremetteur, ed. crtica, P.U.F., Paris, 1973.

2. Antologias

Antnio Ferreira, Poemas Lusitanos, sei. e notas de F. Costa Marques, 2.         a 
ed. rev. e aum., col. *Atlntida+, Coimbra, 1973.

3. Estudos

Alm dos das antologias e edies modernas das obras, pode ler-se a Histria do 
Teatro Portugus, de Tefilo Braga: com bastante proveito, embora sujeito a cauo; a 
Histria da Literatura Clssica - segunda poca, Lisboa, 1930, de Fidelino de 
Figueiredo; e As Correntes Dramticas na Literatura Portuguesa no Sculo XVI, Costa 
Pimpo, conferncia do ciclo A Evoluo e o Esprito do Teatro em Portugal, pror-
novido por * O Sculo+ (ed. 1947, 1. > vol.); os trabalhos de Marques Braga e Matos 
Sequeira sobre o Teatro Clssico insertos na Histria da Literatura Portuguesa 
Ilustrada, 11 vol., e, mais actualizada, a Histria do Teatro Portugus, de Luciana 
Stegagno Picchio, Lisboa, 1969. Ver ainda, desta autora, Da *Fanchono+ a *Bristo+, 
in *Cultura Neolatina+, Mdena, sep. do fasc. 2-3, vol. 28, 1968.

Cidade, Hernni: Lies de Cultura e Literatura Portuguesa, 1, 6. > ed., 198 1, 
Rebelo, Lus de Sousa: A Tradio Clssica na Literatura Portuguesa, Livros 
Horizonte, Lisboa, 1982.

Roig, Adrien: O Teatro Clssico em Portugal no Sculo XVI, *Biblioteca Breve+, lCLP,
1983.

Sobre as comdias mirandinas:

Rocha, Andre Crabb: O Teatro de S de Miranda, in *Colquio+, n. 12, 1961.

Tavani, Giuseppe: 1 Caratteri Nazionali deite Commedie di S de Miranda, in 
*Ocidente+, LVII, 260, Dezembro 1959.

                275
Sobre Antnio Ferreira:

Saraiva, Antnio Jos: Histria da Cultura em Portugal, vol. 2., id., ibid., cap, V, 
' 5.O,

Determinao das fontes clssicas:

Castilho, Jlio de: Antnio Ferreira, poeta quinhentista, 3 vols., Rio, 1875; Pelayo, 
M. Mennclez y: Historia de Ias ideas estticas en Espai@a, tomo li, Madrid, 1947 
(Obras Completas); Gonalves, Rebelo: Horcio na Poesia Portuguesa, includo em 
Filologia e

Literatura, So Paulo, 1937; Matos, Lus de: O Humanista Diogo de Teive, in *Revista 
da Universidade de Coimbra+, vol. Xiii, 1937; e Pereira, Maria Helena da Rocha: 
Alguns aspectos do classicismo de Antnio Ferreira, in *Humanitas+, vol. X1, Coimbra, 
1960, e in Temas Clssicos na Poesia Portuguesa, Lisboa, 1972, e ainda A *Elegia e 
Slvia+ de Antnio Ferreira, in *Biblos+, 41, 1973.

Roig, Adrien: Antnio Ferreira, tudes sur sa vie et son oeuvre, Paris, 1970 
(estabelece criticamente o cnone da obra lrica de Antnio Ferreira e reconstitui a 
sua biografia,  base de novos documentos; ampla bibliografia de manuscritos e 
impressos, reprod. fotogrfica de textos e quadros de sntese); e Deux sonnets 
dAntnio Ferreira dans Ia langue des Troubadours, in Mlanges de Philologie Romane 
offerts  Charles Camproux, Montpellier, Universit Paul Valry, t. 1, 1978, pp. 195-
216.

Belchior, Maria de Lourdes: Os Homens e os Livros. Sculos XVI e XVII, Lisboa, 1971.

Terra, Jos da Silva: Antnio Ferreira e Antnio de S de Meneses. Quelques notes 
d'histoire, in *Builetin des tudes Portugaises et Brsiliennes+, t, 35-36, 1974-75, 
pp.
11-64. (Estudo de mbito biogrfico.)

Dal *Fanchono+ al *Bristo+ (Per una storia delle commedie di Antnio Ferreira), in 
Picchio, Luciana Stegagno: Richerche sur Teatro Portoghese, Edizioni deii Ateneo, 
Roma,
1969, pp. 191-226.

Roger Bismut, em dois artigos publicados em *Les lettres romaines+, 29 (1975), pp. 
320-355, e 31 (1977), pp. 99-143, impugna a autoria da *Castro+ por Antnio Ferreira. 
Entre os seus contraditores contam-se: Castro, Anbal Pinto: Antnio Ferreira, autor 
da *Castro+, in *Arquivos+ , X1, 1977; Teyssier, Paul: La *Castro+, est bien de 
Antnio Ferreira, in *Arquivos do Centro Cultural Portugus+, 10, Paris, 1976, pp. 
695-733, e Soares, Nair de N. C.: A *Castro+  luz das suas fontes, in *Humanitas+, 
35-36, 1983-84, pp. 271-348.


Rplica de Roger Bismut a estes propugnadores de autoria da Castro por Antnio 
Ferreira: Spectographie de I'dition da *Tragedia muy sentida e elegante de Dona Ines 
de Castro+, in Estudos Portugueses - Homenagem a L. Stegagno Picchio, Difei, Lisboa,
1990, pp. 325-338.

Earie, T. S.: A musa renascentista - A poesia de Antnio Ferreira, trad. port., Cami- 
nho, 1990, da ed. original inglesa de 1988.

Sobre a Castro e a sua relacionaco com a tragdia clssica ver os livros clssicos 
de Highet, Gilbert: La Tradicin clssica, ed. Fondo de Cultura Econmica do Mxico, 
e Kitto, H. D. F.: Form ano Meaning in Drama, ed. University Paperbacks, ou, mais 
acessivelmente, Pereira, Maria Helena da Rocha: Estudos de Histria da Cultura 
Clssica, 1965; e ainda Coelho, J. do Prado: Relendo a *Castro+ de Ferreira, in 
*Ocidente+, 26, 1949;

276
Martins, A. A. Coimbra: La Fatalit dans Ia *Castro+ de Ferreira, in *Builetin 
d'histoire du Thtre portugais+, t, 111, n. > 2, 1952. Horrent, J.: La Tragdie 
*Castro+ d'Antnio Ferreira, in *Revue des Langues Vivantes+, Bruxelas, XXVII, 1961,

Jorge de Sena, em Estudos de Histria e de Cultura, 1. > srie, sep. de *Ocidente+,
1967, e 2. > srie incompletamente publicada como separata dessa revista, faz um 
estudo minucioso e perspicaz das origens ideolgicas e literrias do tema de Ins de 
Castro e da estrutura da Castro.  o estudo estrutural mais completo sobre a 
tragdia. Ver ainda a este respeito Asensio, Eugenio: Ins de Castro: de Ia Crnica 
ai Mito, in Estudios Portugueses, F. C. Gulbenkian, Centro Cultural Portugus, Paris, 
1974; e, mais recente e extensamente, Sousa, M. Leonor Machado de: Ins de Castro - 
Um Tema Portugus na Europa, Edices 70, 1987, e Ins de Castro na Literatura 
Portuguesa, * Biblioteca Breve+, ICALP, 1987.

Tambm sobre o tratamento internacional do tema inesino ver Cornil, Suzanne: Ins de 
Castro - Contribution  1'tude ou dveloppement littraire du thme dans les 
littratures romanes, Bruxelas, 1952, e Nozick, Martin: The Inez de Castro, Theme in 
european litterature, in Comparative Literature, lii, 1951, pp. 330-341.

Captulo VI

JOO DE BARROS e outros Prosadores da Primeira Fase do Sculo XVI

Vinculado, como Gil Vicente, S de Miranda e provavelmente Bernardim Ribeiro,  corte 
portuguesa da 1. a metade do sculo, onde fez a sua formao, Joo de Barros, cuja 
obra vasta abrange grande diversidade de temas e gneros,  talvez, na primeira 
metade do nosso sculo XVI, o representante mais completo de um complexo de 
tendncias renascentistas, entre elas as que esto mais de perto relacionadas com a 
expanso martima portuguesa. A prpria diversidade da sua obra tem um sentido, e os 
seus aspectos diversos completam-se ou esclarecem-se mutuamente. Importa, por isso, 
consider-la no seu conjunto.

Nascido, em 1497, de uma famlia de funcionrios, criado e educado no Pao, Joo de 
Barros desempenhou vrios cargos na administrao ultramarina. Esteve em S. Jorge da 
Mina, na Costa do Ouro, a ocupar o cargo de feitor. Foi depois tesoureiro e 
finalmente feitor da Casa da ndia, lugar importante este ltimo, pois superintendia 
em todo

o comrcio do Ultramar desembarcado em Lisboa. Recebeu prmios pela sua actividade

literria e de funcionrio, entre eles uma capitania do Brasil, para a qual, de 
sociedade com outros interessados, armou uma frota que naufragou antes de aportar. 
Juan Luis Vives, o grande humanista catalo, dedicou-lhe, com palavras elogiosas, um 
dos seus livros.

Faleceu em 1562 nas proximidades de Pombal, onde possua uma quinta.

A par da sua carreira de funcionrio, manteve Joo de Barros uma assdua actividade 
de homem de letras, iniciada com a Crnica do Imperador Clarimundo, 1. edio
1522, obra oferecida a D. Joo III, que era grande amador de romances de cavalaria.
O vasto labor literrio de Joo de Barros inclui uma srie de livros didcticos, em 
parte destinados ao ensino de povos ultramarinos: a Cartinha (ou Cartilha) para 
aprender a

278
ler, publicada juntamente com a Gramtica da Lngua Portuguesa e o Dilogo da Viciosa 
Vergonha, livro de leitura dialogado (1540). Inclui obras doutrinrias e polmicas, 
como o Dilogo da Doutrina Crist (1532), onde polemiza contra os Hebreus; a 
Ropcapneima, dilogo de personagens alegricas; o Tratado das Causas ou Problemas 
Morais, e a Esfera da Instrutura das Cousas, talvez um tratado de cosmologia, que, 
como o anterior, s se conhece por aluso do autor. Inclui, por ltimo, obras 
histricas e biogrficas, como os

Panegricos da infanta D. Maria e do rei D. Joo 111, postumamente publicados; e 
alguns volumes de uma vasta enciclopdia histrico-geogrfica que ficou inacabada.

Compunha-se esta enciclopdia, segundo o plano exposto por Joo de Barros, de trs 
partes: a primeira, referente  *Milcia+, era a histria das conquistas dos 
Portugueses em quatro partes do mundo (Europa, frica, sia, Santa Cruz); a segunda, 
referente  *Navegao+, era uma geografia extensiva a todo o mundo descoberto, e 
seria redigida em latim; a terceira tinha por tema o *Comrcio+, e tratava dos 
produtos naturais e *artificiais+, das trocas, pesos e medidas, etc. A parte da 
*Milcia+ seria exposta em Dcadas, conjuntos de dez livros. Deste ambicioso plano 
(que hoje no sabemos em que medida chegou a ser realizado) apenas ficou uma parte da 
*Milcia+: algumas dcadas da sia. H notcia de que Joo de Barros chegou a 
escrever, pelo menos, grande parte da Geografia.

Esta simples indicao revela os mltiplos interesses de Joo de Barros, o seu 
sincronismo corri as preocupaes da poca, as influncias quer das ideias 
contemporneas, quer da situao histrica em que se achou. Obras como o Elogio da 
Lngua Portuguesa e a Gramtica da Lngua Portuguesa mostram-no interessado na 
corrente humanstica, que pretendia nobilitar e racionalizar as lnguas nacionais, 
representada por humanistas como Juan Luis Vives (Dilogo de Ia lengua castellana) e 
por Antnio de Nebrija. Por outro lado, uma obra como o Dilogo da Doutrina Crist 
inspira-se directamente num

problema que nas vsperas do estabelecimento da Inquisio ganhava relevo nas 
preocupaes dos rinonarcas. O conhecimento, terico e prtico, que Joo de Barros 
tinha do comrcio mundial, no seu posto de feitor da Casa da ndia, relaciona-se com 
o intento monumental de construir uma sntese geogrfica, econmica e histrica da 
Expanso.

Poderemos talvez distinguir em Joo de Barros as obras da juventude e as outras, da 
maturidade. Entre as primeiras oferecem maior interesse, sob o ponto de vista 
literrio, a Crnica do Imperador Clarimundo e a Ropicapnefina. As segundas reduzem-
se, para ns, aos volumes conhecidos das Dcadas.

JOO DE BARROS: Crnica do Imperador Clarmundo


O gosto pelo romance de cavalaria, que ganha novo favor com a publicao, em 1508, do 
Amadis de Gaula por Montalvo, tem a sua primeira expresso quinhentista - quase 
contemporaneamente aos autos cavaleirescos de Gil Vicente - na Crnica do Imperador 
Clarmundo donde os reis

279
de Portugal descendem, tirada da linguagem hngara em a nossa portuguesa... (1522), 
redigida em oito meses pelo jovem Joo de Barros, e revista em manuscrito pelo 
Prncipe, que veio a ser D. Joo 111, a acreditarmos no seu bigrafo Severim de 
Faria. O romance inspira-se numa genealogia imaginria do conde D. Henrique registada 
por Duarte Galvo. O autor declara ser seu

intento exaltar as glrias da monarquia portuguesa quando para tanto se sentir 
amadurecido, parecendo que ainda ento hesita entre a historiografia e a epopeia. O 
estilo faz pensar j, por vezes, nas Dcadas: alguns perodos complexos e longos, 
sempre sistematicamente arquitectados, com predomnio da orao subordinativa - um 
estilo oficioso, em que a adjectivao e a subordinao consecutiva so os principais 
processos de encarecer as grandes virtudes aristocrticas dos heris (coragem, 
dedicao ao suserano, liberalidade, devoo crist, castidade, esprito de cruzada 
contra os Infiis, aqui especialmente os Turcos). Os captulos terminam quase sempre 
por uma sentena moral, como  de uso no romance de cavalaria da ltima fase (em 
especial no ciclo dos Palmeirins).

Descrevem-se pormenorizadamente os combates. O maravilhoso cltico de filtros, 
gigantes, bruxedos, sonhos premonitrios e outros espantos  cuidadosamente 
harmonizado com o maravilhoso cristo. Nada destoa do propsito moralizador e 
pedaggico, mesmo nos incidentes amorosos da Segunda Parte, a que falta o picante 
sensual, caracterstico de muitos romances peninsulares, especialmente no ciclo dos 
Amadises. O mais interessante da obra so os primeiros captulos do Livro 111. As 
aventuras levam Clarimundo  terra dos seus gloriosos descendentes futuros, os reis 
de Portugal. Passando por uma maravilhosa ilha Encoberta, destinada ao domnio 
portugus, avista o Faial, depois o cabo da Roca, Sintra; entra no esturio do Tejo, 
ostentando como armas uma *Saudade+ chorosa em campo verde, e, no meio das suas 
aventuras, deparam-se-nos explicaes mitolgicas fantasistas de vrios nomes de 
lugar (Sintra, Lisboa, Santarm, Chelas, etc.). No captulo IV, o feiticeiro Fanimor, 
em vestes alvas, vaticina-lhe do alto da torre de Sintra, ao luar, os feitos dos reis 
portugueses, em oitavas de arte maior (estrutura mtrica que conhecemos do 
Cancioneiro Geral) com o esquema de rimas em abbaacca, entrecortados de explanaes 
em prosa. Este esboo de poema herico, precursor d'Os Lusadas, principia por uma 
invocao  SS. Trindade, insiste no milagre de Ourique e d o maior relevo s 
conquistas feitas

280
no Oriente sob D. Manuel. Encontram-se descries admirativas e pitorescas da terra 
portuguesa, com certo sentido do concreto, que os romances

de cavalaria desta fase em geral s conhecem na descrio de roupagens e

brases. A flora, por exemplo, vem especificada (faias no Faial; macieiras, pereiras 
e marmeleiros na Estremadura).

De maneira geral, a Crnica do Imperador Clarimundo exprime a adeso do autor aos 
valores convencionais da corte, onde pode dizer-se que a

obra nasceu, e prenuncia o esprito que h-de inspirar as Dcadas.


JOO DE BARROS: A Ropicapnefma

A obra principal da juventude de Joo de Barros, e tambm uma das mais

significativas do nosso Renascimento,  o dilogo a que deu o ttulo irregularmente 
helenizado de Ropicapnefma, com a pretenso de significar *Mercadoria Espiritual+. 
Foi este livro escrito em 153 1, quando o seu autor, tendo deixado o cargo de 
tesoureiro da Casa da ndia e Mina, vivia momentaneamente retirado, entregue aos 
livros, na sua quinta de Leiria. Trata-se de um

colquio, gnero predilecto do Renascimento (Colquios de Erasmo, de J. Luis Vives, 
dos irmos VaIds, de Castiglione, etc.), e os interlocutores so alegorias ao gosto 
de ento: por um lado o Tempo, a Vontade e o Entendimento, que pretendem passar na 
alfndega da vida eterna as mercadorias mundanas (afinal constitudas pelos sete 
pecados mortais); por outro lado, a Razo, que vigia a ponte da Morte. Sob este 
aspecto alegrico, a obra lembra imediatamente o Auto da Feira de Gil Vicente. A 
ideia de ordenar o conjunto da vida em torno de mercadorias tem um significado, 
sublinhado pelo autor: *Cousa alga h no mundo fora de mercadoria+. Estava-se, no 
incio, com efeito, na poca da grande expanso da sociedade mercantil. Atravs da 
discusso entre tais alegorias prope-se o autor combater heresias que negam: a) a 
imortalidade da alma; b) a existncia de prmios e castigos na outra vida; c) a 
superioridade da religio crist sobre as outras religi es. Compete  Razo defender 
a doutrina ortodoxa. Mas a eloquncia dos interlocutores herticos  por vezes 
impressionante, tanto que se fica a pensar em que medida o prprio Joo de Barros 
seria sensvel  argumentao dos heterodoxos, particularmente pelo averrosmo 
paduano (o que negava a imortalidade da alma). Notemos, alm disso, que o captulo 
no conclui pela vitria

281
inequvoca da Razo: por interveno do Tempo, a discusso suspende-se, para que o 
Entendimento e a Vontade possam sossegadamente reflectir.

Mas, alm desta discusso doutrinria, a Ropicapncfma tem outra inteno implcita. 
No decorrer do debate h numerosas digresses que ladeiam o tema principal, e a que 
por isso mesmo a Razo no responde. Nessas digresses encontramos crticas por vezes 
contundentes (embora sempre num

plano de generalidade) ao clero, acusado de hipocrisia, farisasmo e mundanismo 
(nomeadamente as ordens religiosas e a hierarquia), reivindicando-se o direito de os 
leigos participarem na edificao religiosa;  nobreza, satirizada na sua feio 
palaciana e na sua prospia linhagstica; aos mdicos, em termos que lembram o Auto 
dos Fsicos de Gil Vicente; aos juristas,  escolstica dos pregadores,  prpria 
teologia corrente. A respeito dos fidalgos diz, por exemplo: *Querem mostrar que so 
compostos da quinta-essncia, sem parte dos elementos populares, como se no 
soubssemos que o estado real teve princpio em pastores, e o sacerd cio em 
pescadores, e que a fidalguia comum de agora no  mais que um esquecimento entre os 
vivos da pequena fortuna que os avs daquela tiveram+. Joo de Barros vai mais longe 
ainda: aventura-se a pr em discusso o problema da origem do poder e da propriedade, 
fazendo dizer pelas suas personagens, e sem contradita da Razo, que tal origem foi a 
violncia dos *maliciosos+, e negando mesmo expressamente a doutrina do consenso 
universal e do contrato social, com que Aristteles, S. Toms de Aquino e, entre os 
seus contemporneos portugueses, Antnio Ferreira legitimavam o poder dos prncipes. 
Os termos em que estas questes esto postas so eloquentes e inequvocos.  evidente 
que Joo de Barros ecoa a ideologia antinobilirquica e anticlerical dos Humanistas, 
e at certas correntes mais radicais do Humanismo, como a

expressa na Utopia de Toms Morus, autor que cita com simpatia no prlogo da Dcada 
III.

Certamente, o livro est animado de uma inteno de apologtica religiosa, mas dentro 
de uma religiosidade tipicamente humanista, de afinidade erasmiana: de entre os 
preceitos de Cristo salienta, mais de uma vez: *Aprendei de mim, que sou manso e 
humilde de corao+. H uma pgina onde se criticam os comentadores escolsticos que 
vieram sobrepor-se  doutrina dos primeiros Padres: os *tomistas+, *albertistas+, 
*scotistas+ e *occamistas+.

Em resumo, a Ropicapnefma pode considerar-se uma obra substancialmente erasmista, 
quer quanto  crtica social, quer quanto  inteno reli-

282
giosa.  flagrante a influncia do Elogio da Loucura (alis citado) e de outras obras 
de Erasmo, como a Querella Pacis.

O humanismo da Ropicapnelma (tambm nisto de acordo com Erasmo)  mais doutrinrio 
que formal. As sobrevivncias medievais abundam. Aristteles mantm-se como principal 
autoridade; assistimos a discusses dentro das regras mais formalistas da lgica 
escolstica. A teoria do homem- _microcosmo vem l sugestivamente resumida. A prpria 
estrutura alegrica da obra integra-se no gosto literrio dos finais da Idade Mdia.

Estilisticamente, a Ropicapnefma  a obra mais viva de Joo de Barros. No est 
sobrecarregada com os per odos longos e pretensamente majestosos das Dcadas. 
Oferece, pelo contrrio, uma linguagem fluente, desembaraada, entrecortada de 
exclamaes, de gargalhadas, de mordacidade irnica. As imagens abundam, mas baseadas 
no paralelismo entre o fsico e o espiritual, de acordo com a tendncia analgica 
caracterstica da mentalidade medieva.

No seu atrevimento ideolgico e no seu desembarao de linguagem, a

Repcapnefma  a nica obra em prosa doutrinria da primeira metade do sculo XVI 
comparvel aos autos de Gil Vicente, com os quais oferece flagrantes afinidades. Tais 
audcias so possveis ainda em 153 1, antes de introduzida a Inquisio; cinquenta 
anos mais tarde, a Ropicapnefina ser posta no ndex (1581), e s voltar, por isso, 
a ser publicada no sculo XIX.

JOO DE BARROS: As Dcadas

Da grande enciclopdia geogrfico-histrico-econmica concebida por Joo de Barros, a 
parte da Milicia, que se ocupava especialmente das conquistas dos Portugueses, estava 
dividida por continentes: Europa (seria uma

histria de Portugal at  conquista do Algarve), frica, sia, e Santa Cruz (o 
Brasil). Deste conjunto apenas ficou a sia, dividida em conjuntos de dez livros ou 
*dcadas+, nome por que a obra  mais conhecida. (1. > volume
1552, 2.- 1553, 3. pstumo 1563, 4.1 reformado e acrescentado por Joo Baptista 
Lavanha, 1615.) A inteno declarada desta obra  erguer um monumento aos feitos 
portugueses no Oriente, no estilo do que Tito Lvio levantou  grandeza de Roma. 
Nesta tarefa, Joo de Barros cinge-se  ideologia oficial do Estado, segundo a qual a 
expanso portuguesa era uma cruzada da F, iniciada com a reconquista ibrica, 
continuada em Marrocos, na costa

283
de frica e na ndia, onde Portugal, campeo da Cristandade, defrontava o poderio 
muulmano, cuja ala direita, sob a direco dos Turcos, ameaava a Europa pelo 
Mediterrneo.

Para se fazer intrprete deste pensamento, Joo de Barros adopta um adequado conceito 
de histria. Ele prprio no-lo expe nos prlogos das Dcadas, ao contrapor s obras 
desordenadas, embora verdadeiras, que se ocupavam do mesmo assunto (juzo relativo  
Histria de Castanheda), uma

concepo de histria como espelho de exemplaridade herica, construda e torneada de 
acordo com as regras de retrica clssica, aproveitando todos os ensejos para pr 
alocues solenes na boca dos grandes dirigentes, concepo j exposta por Ccero, 
executada por Tito Lvio e reformulada por humanistas como J. Luis Vives. Segundo o 
preceito ciceroniano, a primeira lei da histria seria no mentir, e a segunda no 
contar tudo o que  verdade. Entende Barros que o amor da verdade no deve ir at ao 
ponto de relevar os vcios e as fraquezas dos heris; e aponta com aplauso o exemplo 
de um pintor que, tendo de retratar um prncipe cego de um olho (Filipe da 
Macednia), o colocou em posio tal que s a face inderime ficaria visvel: assim, 
deixa o leitor prevenido de que a outra metade do rosto, nesse grande retrato 
colectivo que  a  sia, est deliberadamente ocultada.

Joo de Barros pde, pois, colocar-se ao abrigo das reaces das famlias dos heris, 
de que foi vtima o seu rival Castanheda. E pde perspectivar convenientemente os 
feitos dos Portugueses, segundo a doutrina oficial, omitindo (a no ser em casos 
demasiado conhecidos) os actos menos gloriosos, a pilhagem, a pirataria e outros 
aspectos da conquista e ocupao. A histria, escreve,  um campo *onde est semeada 
toda a doutrina divinal, moral, racional e instrumental+ que serve para alimentar a 
memria e o entendimento dos homens e lev-los a uma *justa e perfeita vida+. Donde 
se conclui que a histria deve manter-se dentro dos limites e garantias da 
credibilidade, mas exaltando a cruzada ou apostolado cristos da monarquia 
portuguesa, as prprias figuras rgias e os seus melhores servidores.

Mediante esta orientao historiogrfica, as personagens histricas tornam-se 
convencionalmente nobres e hericas; as molas reais do comportamento humano ficam 
ocultas; o povo deixa de ter qualquer papel activo e serve

apenas para relevar por contraste as personagens hericas; a Providncia

torna-se, mais ou menos explicitamente, o motor da histria. Esta orienta-

284
o pr~aristocrtica da historiografia vem, como vimos, de Gomes Eanes de Zurara, e 
obedece alis a uma tradio antiga. A preocupao de enquadrar a histria portuguesa 
em modelos clssicos e de a dotar da maior antiguidade possvel conduzir aos 
absurdos romances pseudo-histricos de Frei Bernardo de Brito (de resto preludiados 
com o Cla-rimundo).

H, no entanto, um aspecto positivo e moderno na obra histrica de Joo de Barros: 
aquilo a que poderamos chamar a sua concepo ecumnica da histria. , com efeito, 
uma histria concebida  escala do Planeta, repartida pelos quatro continentes. O 
autor tem permanentemente diante dos olhos a esfera terrestre e os mapas dos 
continentes. Antes de apresentar uma aco histrica, comea por descrever ao leitor 
a corografia, a economia, os costumes, religies, etc., da regio respectiva. Para 
clarificar a exposio, aconselha ao leitor que tenha presente, visualmente, o espao 
geogrfico. Esta ligao estreita entre a histria e a geografia (e uma geografia  
escala de continentes inteiros), ultrapassando os limites regionais a que ainda na 
poca de Joo de Barros se confinavam os historiadores,  uma concepo moderna.
O plano da Geografia de Barros, de que se encontram referncias nas Dcadas, mostra 
que ele tinha tambm em mente as estradas e os plos do comrcio mundial. Foi tal 
concepo que permitiu a Joo de Barros aperceber-se, ao

mesmo tempo que da unidade do mundo, da diversidade das civilizaes, da relatividade 
da civilizao europeia e da relativa pequenez da Europa. Deu-se conta de que o culto 
catlico tinha, comparativamente, um nmero reduzido de fiis, e de que a China 
constitua uma civilizao original, equivalente - se no superior -  dos Europeus. 
E foi o primeiro historiador europeu a utilizar anais, cronologias, corografias e 
vrias fontes persas, indianas, chinesas e outras, que obteve por diligncias 
oficiais, que mandou traduzir e que at chegou a facultar a personalidades 
estrangeiras. Dispunha, alis, dos arquivos da Casa da ndia e de tradutores nativos, 
embora nunca

tivesse viajado no Oriente.

Joo de Barros inaugurou um estilo novo na historiografia portuguesa. A prosa dos 
cronistas seus contemporneos pode considerar-se ainda medieval. Para fugir a essa 
tradio, para enobrecer convenientemente os feitos dos seus heris e para expor com 
clareza as suas grandes snteses dos espaos geogrficos e das civilizaes, Joo de 
Barros encostou-se ao estilo latino de Tito Lvio. Levado por um incontestvel 
sentido do monumental,

285
eliminou *o cascalho dos feitos midos+ e seleccionou as *pedras lavradas e polidas 
dos mais ilustres feitos+. Deitou fora, por consequncia, o particularismo pitoresco 
e anedtico dos cronistas, levantando um edifcio majestoso, geomtrico, bem 
proporcionado, mas algo frio e descolorido. Atribui s suas personagens -  maneira 
dos historiadores latinos - discursos bem ordenados, que definem as situaes e os 
altos propsitos. A frase  longa e complexa, agrupando, por subordinao, mltiplas 
circunstncias  volta da aco principal. Embora quase sempre bem jerarquizados, os 
seus perodos afastam-se excessivamente da lngua oral e sente-se-lhes o artifcio 
literrio. Por isso, esse estilo no vingou. Joo de Barros acreditava na analogia 
gramatical entre o Portugus e o Latim clssico (escreveu, para o provar, versos que 
tanto podem ser portugueses como latinos), e, em suma, aspirava a um portugus 
alatinado. Esmaltou algumas pginas com hiprboles  maneira epopeica, em que Cames 
viria a inspirar-se. No entanto, encontram-se por vezes nas Dcadas ressaibos da 
lngua arcaica e curiosas expresses ou imagens tiradas da faina martima e outras 
realidades quotidianas, que mostram mais qualidades que as de um simples retrico, 
como

alis j sabemos pelo estilo da Ropicapnefma.

Outros historiadores

Os descobrimentos e conquistas dos Portugueses inspiraram uma abundante literatura, 
que teve grande repercusso dentro e fora de Portugal e que se prolonga at bem 
entrado o sculo XVII.

Convm distinguir nesse conjunto as grandes snteses histricas realizadas em ligao 
mais ou menos imediata com a Corte, e as obras inspiradas directamente na experincia 
ultramarina, em certos casos, at, produzidas na ndia, Estas ltimas, que 
estudaremos adiante, esto mais permeadas de pitoresco, de extico e de realidade 
experimentada.

Quanto s primeiras, estudaremos neste captulo as obras que pela data da composio 
ou da preparao podem considerar-se da primeira metade do sculo XVI. Elas revelam, 
com efeito, uma capacidade de sntese, urna

viso objectiva e cientfica da realidade que s por excepo encontraremos na 
historiografia do final do sculo e incios do seguinte. Os seus autores, 
diferentemente de Joo de Barros, no consideram a histria como um ramo da retrica.

286
Ferno Lopes de Castanheda, falecido em 1559, publicou quase contemporaneamente s 
Dcadas de Joo de Barros a Histria do Descobrimento e Conquista da ndia pelos 
Portugueses: livro 1. 1, 155 1; livros 2. O e 3. >,
1552; livros 4.1 e 5.1, 1553; livros 6.O e 7.1, 1559; livro 8. (pstumo),
1561. Por ordem da rainha D. Catarina, ento regente, os livros 9. e 10. no foram 
impressos. O livro 1. 1 teve de ser retirado da circulao e refundido, devido  
interveno de alguns fidalgos que no sentiam os respectivos antepassados bastante 
favorecidos no relato do historiador. Isto sugere o seu escrpulo e amor da verdade. 
Filho de um funcionrio que exerceu um cargo na ndia, Castanheda percorreu durante 
dez anos os locais onde se situam os sucessos narrados pela sua Histria, e teve 
ocasio de ouvir testemunhas presenciais. Soube aproveitar, juntamente com a 
documentao escrita, este conhecimento directo, para uma narrativa que os 
historiadores de hoje consideram a mais sincera e objectiva de todas as que versam a 
mesma matria. Alm disso, apresenta descries geogrficas e etnogrficas de grande 
interesse, muitas delas em primeira mo, de Estados e regies orientais (o Deco, o 
So, Ormuz, o Pegu, etc.). Graas a esta riqueza informativa, a Histria do 
Descobrimento e Conquista da ndia pelos Portugueses mereceu uma traduo em francs 
por Nicolau Grouchy, que Montaigne conheceu e utilizou largamente. De longe em longe 
encontram-se na Hist- ,ria algumas pginas de certa vivacidade, mas normalmente o 
estilo apresenta uma secura tabclinica, em contraste com a violncia por vezes 
extrema dos acontecimentos testemunhados, pois no poupa a narrao de certos actos 
indecorosos dos dirigentes, embora a sua principal fonte de informao seja a de 
capites e fidalgos. Conserva, por outro lado, a construo da prosa medieva, em que 
a coordenao sintctica predomina sobre a subordinao.

Contemporneo de Joo de Barros, e como ele ligado ao comrcio mundial da especiaria, 
Damio de Gis (n. Alenquer, 1502 - t 1574) teve no entanto um destino diferente, que 
fez dele uma das primeiras importantes vtimas da Inquisio portuguesa.

Foi durante anos o feitor do rei de Portugal em Anturpia, o mais importante centro 
do grande comrcio internacional. Desempenhou ao servi o do monoplio diversas 
misses comerciais e diplomticas, que o levaram aos pases blticos;  Polnia, com 
demorada passagem na Alemanha;  Itlia, onde frequentou durante quatro anos a 
Universidade de Pdua, uma das mais abertas s inovaes do Renascimento. 
Estabeleceu-se depois em Lovaina, onde casou com uma rica burguesa da terra e em cuja 
Universidade se inscreveu. Participou na defesa desta cidade, cercada pelos Franceses 
em 1542, e, aprisionado, teve ocasio de conhecer a corte de Francisco 1.

         287
Durante to longa estadia de 22 anos no estrangeiro, Damio de Gis relacionou-se com 
o movimento humanista e com os seus principais representantes. Foi amigo e seis meses 
hspede de Erasmo, para quem chamou a ateno do rei de Portugal, conheceu Juan Luis 
Vives, os cardeais Sadoletto e Bembo, carteou-se com Melanchton, jantou com

Lutero, e Alberto Dilrer testemunhou num retrato a sua estima pelo portugus. 
Colaborou em diligncias conciliatrias entre Lutero e Roma em 1536, como 
intermedirio de Melancliton e do cardeal Sadoletto.

Regressou a Portugal em 1545, a convite de D. Joo III, para ocupar as funes de 
mestre do Prncipe e guarda-mor da Torre do Tombo, embora s mais tarde fosse 
incumbido da Crnica de D. Manuel. Nesse mesmo ano foi denunciado  Inquisio pelo 
providencial dos Jesutas no nosso pas, P.e Simo Rodrigues. D. Joo 111 era nessa 
poca um protector decidido dos humanistas e a denncia s teve o efeito de o privar 
do cargo de mestre do Prncipe. Mas em 157 1, quando a Contra-Refrina estava j 
reinante, Damio de Gis foi preso e processado pela Inquisio, perante a qual 
propugnou corajosamente a ortodoxia de Erasmo. Devido talvez  idade,  doena e ao 
seu grande prestgio, a acusao final foi abrandada e, depois de reconciliado em 
sesso fechada, condenaram-no a *crcere perptuo+ no Mosteiro da Batalha, donde 
pouco depois saa. Faleceu em 1574, de modo estranho, pois alega-se ter cado na 
lareira junto da qual estaria lendo.

Anteriormente s suas crnicas, escreveu Damio de Gis alguns opsculos latinos. No 
De Bello Cambaico apresenta ao pblico ilustrado europeu alguns feitos portugueses na 
ndia e defende o monoplio das especiarias. Na Hispania, polemiza com o gegrafo 
Sebastio Mnster, que dera um quadro sombrio do nvel de vida e da expanso 
transocenica dos povos ibricos, na sua famosa Cosmografia Universalis, onde alis, 
e sem

indicao de autor, se inclui um anterior texto latino de Gis acerca da Lapnia, 
Lappiae Descriptio. Este ltimo texto, resultante da sua estadia na Sucia, servia de 
introduo

a uma Deploratio Lappanac Gentis, endereada ao Papa, onde se denuncia a desumana 
explorao dos Lapes pelos grandes senhores religiosos e civis cristos dos pases 
escandinavos. Na Legatio magna Indorum imperatoris Presbyteri Joanis ad Emmanuelem 
Lusitaniae regem divulga notcias da Etipia e sua religio. No Fides, Religio, 
Moresque Aethiopum, que se baseia, talvez de um modo excessivamente crdulo, nas 
declaraes de um monge abexim durante algum tempo embaixador em Lisboa, insiste no 
mesmo assunto e advoga um entendimento com a religio etope para alm das diferenas 
rituais.
O cardeal inquisidor, D. Henrique, alarmado com o irenismo, ou tolerantismo, desta 
obra, e ainda com os problemas que ela erguia acerca dos mais antigos ritos cristos, 
proibiu a sua entrada em Portugal em 1544.


Alm de personalidade marcante, Damio de Gis revelou  Europa culta conhecimentos 
palpitantes sobre a Abissnia, o crculo polar habitado e a gesta portuguesa do 
ndico; e sobretudo foi o melhor apologeta da poltica oficial portuguesa (abrangendo 
assuntos espinhosos corno o regime de monoplio e o trfico negreiro), atravs destes 
folhetos, redigidos num latim alis nem sempre seu e nem sempre impecvel.

288
Damio de Gis  um historiador consciencioso na Crnica do Prncipe D. Joo (1567), 
referente ao perodo em que este prncipe governou como

regente, e nas quatro partes de que se compe a Crnica do Rei D. Manuel

a
O     e 2. partes, 1566; 3. a e 4. >, 1567). Num estilo incolor, segundo uma

ordem cronolgica que no permite abranger qualquer perspectiva ou viso

de conjunto dos acontecimentos, procurou dar sem artifcios uma narrao objectiva 
dos factos. A sua prosa s estremece quando expe a brbara matana dos Judeus em 
1507, havendo nestas e noutras pginas uma reprovao implcita deste e de outros 
actos contrrios ao seu tolerantismo humanista. Mas a impassibilidade da sua narrao 
e os rodeios a que recorre para salvar uma

objectividade incmoda no o puseram ao abrigo de perseguies e censuras.

O primeiro volume foi cassado e alterado at ao ponto de nele se introduzirem 
acrescentos de elogio ao cardeal-infante D. Henrique e  Inquisio. Por outro lado, 
a obra

sofreu uma severa crtica do conde de Tentgal, que acusou Damio de Gis de-
manifestar excessiva simpatia por D. Joo II em prejuzo da Casa de Bragana, e ainda 
neste

ponto o cronista foi obrigado a fazer concesses, a alterar o texto. A Crnicq do 
Prncipe D. Joo tambm teve de amenizar certas referncias a actos da nobreza.

Gis, sem contemplaes com a alta nobreza, escreveu a Crnica do Pribcpc D. Joo 
(futuro D. Joo 11) que resistira  tendncia feudalizante do poder, apontando-o, 
implicitamente, como modelo de prncipe perfeito aos

sucessores. A oligarquia, refeita e escudada com a Inquisio, no lhe per~ doou. 
Mas, com todo o seu escr pulo informativo, Damio de Gis no rejeita mitos, 
milagres e seres fabulosos (trites, sereias); e embora se furte ao tom

laudatrio e aos heris da conveno, inaugurados por Zurara, no consegue animar 
caracteres, descobrir paixes e fraquezas dos protagonistas da sua histria nem 
representar movimentos colectivos nacionais. A sua crtica mais sensvel tem como 
alvo as intrigas da corte manuelina, s quais atribui vrios actos de ingratido 
rgia, como aquele de que foi vtima Duarte Pacheco Pereira, e at mesmo o desaire 
resultante de Ferno de Magalhes colocar

os seus prstimos ao servio do rei de Espanha.


 margem do cargo de cronista-mor, existe uma terceira Crnica de EI~Rei D. Joo II, 
alm das de Pina e de Gis: a de Garcia de Resende, que, como vimos, foi secretrio 
particular do monarca e o admirava profundamente. Decalca livremente a crnica de 
Pina, acrescentando-lhe anedotas

289
e episdios pitorescos ou dramticos, interessantes para conhecimento do carcter do 
rei, que nos parece desenhado ao vivo: sagaz, espectaculoso, com o gosto das 
reviravoltas teatrais de atitude, manhoso, usando cilcios e ouvindo missa todos os 
dias, inteiramente compenetrado das suas responsabilidades transcendentes, 
contraditrio, volvel. Um rei feito, no apenas por uma vontade tenaz, mas tambm, 
sente-se bem, pela contrio dos erros

do pai e pelo ouro de Mina. Essa crnica vem acompanhada de urna Miscelnea em 
redondilhas, tambm de Garcia de Resende, curiosa revista do panorama nacional e 
internacional do tempo, pois refere os acontecimentos que maior impresso tinham 
causado, Embora descrevendo, ou antes, enumerando de um modo mido e sem brilho, o 
autor manifesta uma viva conscincia da transformao do mundo operada no curto 
espao de uma vida por acontecimentos como a inveno da imprensa, a descoberta da 
Amrica e da ndia, a rebelio de Lutero, etc. Coincide com o Auto da Feira, com a 
Ropicapnefma e outros textos do reinado manuelino ou incio do joanino na crtica  
venalidade e simonia do alto clero.

Outros prosadores doutrinrios

No h na primeira fase do sculo XVI muitas obras em prosa de polmica e doutrina. A 
Ropicaprielma parece ser uma obra isolada. Mencionemos as Sentenas do conde de 
Vimioso, editadas em 1553 com as suas obras poticas, simples conjunto de aforismos 
de inspirao senequista. Merecem uma ateno mais demorada as obras de Francisco de 
Holanda (c. 1517-1589), que  um representante de certas tendncias humansticas 
muito audaciosas.

Filho de um minaturista, holands contratado pela corte portuguesa, pintor e 
arquitecto de profisso, fez como bolseiro do rei de Portugal uma permanncia de 
alguns anos na Itlia, onde travou conhecimento com notveis humanistas, e foi 
discpulo de Miguel ngelo. , portanto, como Damio de Gis e outros, um 
estrangeirado. Das suas conversas com Miguel ngelo resultaram os dilogos recolhidos 
no tratado Da Pintura Antiga (1548), traduzido para diversas lnguas europeias e que 
constitui uma das exposies mais notveis das ideias relacionadas com as artes 
plsticas do Renascimento. Publicou tambm Do tirar polo Nataral (1549), Da Fbrica 
que falece  cidade

HLP - 19

290
de Lisboa (157 1), livro precursor da esttica urbanstica, e De quanto serve a 
Cincia do Desenho (1571).

Holanda considera a *pintura+ como o prottipo de toda a criao humana e at divina. 
*Pintar+ (mais exactamente: desenhar)  conceber e exprimir as relaes que regem a 
natureza, as ideias ou arqutipos que se projectam no mundo sensvel. Deus, na 
criao do inundo, foi o pintor supremo. O artista da pintura , de entre os homens, 
o que fica mais prximo de Deus, quer pela maravilhosa capacidade de criar, quer por 
ser o que mais completamente se identifica com o pensamento divino, na medida em que 
se assenhorcia da natureza pelo conhecimento. Sob a influncia de Plato, a 
reproduo da natureza tende a ser concebida como a apreenso e a expresso plstica 
de uma *ideia+ existente na mente divina, ideia de algum modo inerente s formas da 
natureza, apreensvel pelo intelecto do artista, e no imposta de fora pelos te 
logos. , pois, um dos tericos europeus do Maneirismo, estilo da segunda fase (1520-
1620) do Renascimento (na acepo mais ampla do termo), de que Miguel ngelo foi, 
precisamente, um dos primeiros e mais tpicos representantes. Muito 
significativamente, o censor inquisitorial do tratado Da Fbrica que falece  cidade 
de Lisboa, por sinal o mesmo de Os

Lusadas, obrigou o autor a declarar, expressamente, *que a dita arte ou cincia [a 
pintura]  natural e adquirida por meio natural e indstria humana, e no  dom 
infuso e sobrenatural+.

Assim, seguindo fielmente a doutrina e o exemplo de Miguel ngelo, seu mestre, 
Francisco de Holanda no reconhece quaisquer limites  liberdade do artista. Combate 
quer as limitaes corporativas, quer as imposies da Igreja.  o mais explcito 
representante terico da doutrina que coloca o valor esttico acima de qualquer 
outro. Embora tal posio parea muito audaciosa no Portugal da poca, e tal 
problemtica parea mais prpria do Renascimento italiano, Holanda no est 
completamente s, pois que o mesmo

pensamento se encontra implcito na obra do seu contemporneo Lus de Cames, que 
alis n'Os Lusadas (repetindo uma ideiaj expressa por Horcio) define a poesia como 
uma *pintura que fala+, e a pintura como uma *poesia muda+.

Embora pelo seu destinatrio privado, e no pblico, pertenam a um

outro gnero, a elevao doutrinria e moral das cartas de Jernimo Osrio (1506-
1580), bispo de Silves, autor de uma crnica latina de D. Manuel,

291
De Rebus Emmanuelis Gestis, 1571, merece Ser aqui nomeada, especialmente quando 
procurou dissuadir D. Sebastio das expedies africanas e

do celibato. Encontra-se uma combinao semelhante de ponderao, elegncia exemplar 
de carcter e estilo nalgumas das cartas de D. Joo de Castro, o clebre militar e 
cosmgrafo, sendo justamente famosa a dirigida em

1546  Cmara de Goa, na qual pede um emprstimo para fortificar Diu, ameaada por um 
assalto, mandando como penhor as suas barbas de homem honrado, pois que os ossos do 
filho, morto em combate, ainda se no podiam tirar da terra.

1111118M1A06,AFIA

A - JOO DE BARROS

1. Textos

Primeira parte da Crnica do emperador Clarimundo donde os reys de Portugal 
descendem. H notcia de duas edies quinhentistas desta obra, ambas perdidas, uma 
de Lisboa, 1520 (ou 22), outra de 1555. Outras edies: 1601, 1742, 1791, 1843, todas 
em Lisboa. Ed. moderna por Marques Braga, na col, *Clssicos S da Costa+, 3 vols.

Rhopica Pnefma, 1. > ed. Lisboa, 1532. Includa posteriormente na Compilao de 
vrias obras do insigne portugus Joo de Barros, 2. > parte, Porto, 1869. 
Reproduzida em zincogravura e em ed. diplomtica, com pref. e estudo de 1. S. Rvah, 
2 vols., Lisboa,
1952 e 1955; nova reimpresso desta reproduo em 3 vols., dois em 1983 e o 3. 
(estudo de Rvah) a sair, pela IN-CM.

Cartnha com os preceitos e mandamentos da Santa Madre Igreja, Lisboa, 1539; 2. a na 
Compilao... atrs mencionada, 1 . > parte, Lisboa, 178 5.

Gramtica da Lngua Portuguesa, 1540, compreendendo um tratado Da Ortografia e 
seguida do Dilogo em louvor da nossa linguagem, Lisboa, 1540. Ambas includas na

1. parte da Compilao.... Lisboa, 1785. Ed. da Gramtica, por Jos Pedro Machado, 
Lisboa, 1957. Idem do Dilogo, por L. Pereira da Silva, Coimbra, 1917, e por Luciana 
Stegagno Picchio, Mdena, 1959, Istituto di Filologia Romana dell'Universit di Roma. 
Da Gramtica, da Cartinha, do Dilogo em louvor e do Dilogo da Viciosa Vergonha h 
uma ed. conjunta por Maria Leonor Carvalho Buescu, Lisboa, Faculdade de Letras, 
1971; M. L. C. Bueseu reed. tambm a Gramtica de Oliveira, com int. e notas, IN-CM, 
1981.

A 1. > ed. do Dilogo da Viciosa Vergonha  de 1540. Esta obra foi reeditada 
juntamente com a Rhopica pelo visconde de Azevedo em 1869.


Dilogo de Joam de Barros com dous filhos seus sobre preceptos morais, em modo 
dejogo. H notcia de uma ed. de 1540, mas s se conhece a de Lisboa, 1563. Ver 
Terra, Jos F. da Silva: Ldition princeps ou *Dilogo de Preceitos Morais+ de Joo 
de Barros, in *Builetin des tudes Portugaises+, 30, 1969.

292
sia: Dcada 1, Lisboa, 1552; Dcada 11, Lisboa, 1553; Dcada 111, Lisboa, 1563; 
Dcada IV, reformada por Joo Baptista Lavanha, Madrid, 1615. Reimpresses completas: 
Lisboa, 1628; idem, 1777-78, juntamente com as Dcadas de Diogo do Couto. Esta ltima 
foi reimpressa em ed. fac-similada, com a Vida de Joo de Barros, por Manuel Severim 
de Faria, Livraria Sam Carlos, Lisboa, 1973. Modernamente a Dcada 1 foi reeditada 
por Antnio Baio, Coimbra, 1932, e as quatro por Hemni Cidade, Lisboa, 4 vols.,
1945-46. Em 1988 a IN-CM reimprimiu em fac-smile a ed. da Dcada 1 por A. Baio e da 
11 iniciada pelo mesmo e continuada por L. F. Linciley Cintra.

Panegyricos: 1. ed. do Panegrico de D. Joo 111 nas Notcias de Portugal de M. 
Severim de Faria, 1655; 2. > ed., Lisboa, 1770; 1. > ed. do Panegirico da Infanta D. 
Maria nas referidas Notcias de Portugal, 1655; ed. conjunta, Lisboa, 1791. Ed. 
conjunta com pref. e notas de R. Lapa, na col. *Clssicos S da Costa+, 1937.

Dilogo Evanglico sobre artigos de F contra o TaImud dos Judeus, escrito em

1542-43, ed. com introd. de 1. S. Rvah, Lisboa, 1950.

Ver Matos, Lus de: Acerca dos Inditos de Joo de Barros, in *Actas do 111 Colquio 
Internacional de Estudos Luso-Brasileiros+, Lisboa, 1959.

2. Antologias

Textos das Dcadas: na *Antologia Portuguesa+ de Agostinho de Campos, 1. > vol.; na 
col. *Clssicos S da Costa+, com pref, de Antnio Bai o, 4 vols. H vrias ed. 
escolares da Dcada 1, livro IV, nomeadamente O Descobrimento da ndia, pref. e notas 
de R. Lapa, 7. a ed., *Clssicos do Estudante+, S da Costa, 1977.

Joo de Barros, Textos Pedaggicos e Gramaticais, introd., selec. e notas de Maria 
Leonor Carvalho Buescu, col. *Textos Literrios Verbo+.

Rodriques, Graa Almeida: Cinco Autores Histricos (F. Lopes, Zurara, Pina, Barros e 
Gis), Editorial Presena, Lisboa, 1979.

3. Estudos

A principal fonte para o estudo da biografia e bibliografia de Joo de Barros  a 
Vida de Joo de Barros, includa em Discursos Vrios Polticos, de Manuel Severim de 
Faria, vora, 1624, reproduzida no 1. vol. da Crnica do Imperador Clarimundo, ed. 
de Marques Braga. O trabalho de Severim de Faria foi completado e em certos pontos 
corrigido por:

Baio, Antnio: Documentos Inditos sobre Joo de Barros, ed. da Academia das 
Cincias de Lisboa, 1917. Este trabalho est resumido na Introduo de Baio  sua 
ed. de textos selectos das Dcadas na col. *Clssicos S da Costa+.


Martins, Atlio A. Rego: Subsdios para uma edio crtica da *sia+ de Joo de 
Barros, Braga, 1963.

Sobre os asp-ectos ideol,

--- gicos e literrios de Joo de Barros: Saraiva, Antnio Jos: Histria da Cultura 
em Portugal, vols. 11 (Rhopica Pnefma) e

111 (Dcadas); e Joo de Barros e a concepo planetria da Histria, in Para a 
Histria da Cultura em Portugal, vol. 11, 1962.

            293

Rvah, 1. S.: Le Colloque Ropica pnefma de Joo de Barros, Gense, structure et 
technique, in Mianges offerts  Marcel Bataillon, *Bulletin Hispanique+, t. 64. bis, 
Bordus, 1962, pp. 572-592; Antiquit et christianisme anciens et modernes dans 
l'0euvre de Joo de Barros, in *Revue philosophique de Ia France et de l'tranger+, 
92, Paris, 1967; tudes Portugaises, Paris, 1975.

Cidade, Hemni: Joo de Barros Gegrafo, in *Boletim da Academia Internacional de 
Cultura Portuguesa+, n. > 1, 1966.

Boxer, C, R.: Joo de Barros, Portuguese Humanist and Historian of Asia, New Delhi,
1981.

Na antologia de M. Leonor Carvalho Buescu h bibliografia e uma condensada introd. 
sobre Joo de Barros como gramtico e apologeta do idioma; da mesma autora, ver 
Gramticos Portugueses do sculo XVI, *Biblioteca Breve+, Instituto de Cultura 
Portuguesa,
1978, e Babel ou a Ruptura do Signo. A Gramtica e os Gramticos Portugueses do 
sculo XVI, IN-CM, 1982.

Maria Helena Novais Paiva, do Centro de Lingustica da Universidade do Porto, prepara 
um trabalho fundamental sobre os gramticos quinhentistas e a sua definio da norma 
culta do Portugus.

Nagel, Ralf: Die Einheit der Gramatik des Joo de Barros, in rev. *lbero-Romania+, 
vol, 3, 197 1, Munique, pp. 11 - 1 S.

Ramalho, Amrico da Costa: Ropicapnefma: um Biblinimo Mal Enxertado, sep. de 
*Humanitas+, vols. 27-28, Coimbra, 1975-76 (indica a origem e a irregularidade do 
ttulo *Ropicapnefma+, sobretudo quando separado em duas palavras).

Osrio, Jorge Alves: Contribuio para o estudo do humanismo de Joo de Barros, 
dissertao complementar de doutoramento, Faculdade de letras do Porto, 1979.

B - OUTROS HISTORIADORES

1. Textos

a-stanheda Fern_@o Lopes de. Histria do Descobrimento e Conquistada ndia pelos 
Portugueses, 1. ed., Coimbra, Livro 1, 1551; li, 1552; 111, IV e V, 1557; VI e Vil, 
1559; Vi li, 156 1. O Livro 1 foi alterado e reimpresso em 1554. O autor deixou 
outros livros manuscritos, que no se imprimiram por ordem da rainha D. Catarna. 
Reimpresso da obra em

1883, 7 vols. Ed. moderna por Pedro de Azevedo e Laranjo Coelho, Coimbra, 1924-33. 
Alm dos 8 livros publica ainda o Uvro X, at ento indito. Ed. em papel bblia, 2 
vols., Lello, Porto, 1979. O 1. > vol. teve duas tradues francesas imediatas, uma 
de Michei Vascosan, 1553, Paris, retraduzida para alemo em 1565, e outra de Nicolau 
Grouchy,
1554, Anturpia, reed. 1576; e, mais tarde, foi traduzida para castelhano, italiano e 
ingls.

Gis, Damio de: Crnica do felicissimo rei O. Emanuel,     1 . ae2 . apartes, 1566; 
3. > e 4. > partes, 1567, reimpressa em 1619, 1749, 1790. Ed. moderna rev. e pref. 
por David Lopes, 4 vols., Coimbra, 1926, reimpressa em 1949-55; Crnica do Prncipe 
O. Joo,
1 . > ed., Lisboa, 1567; reed. em 1724, 1790, 1905. Ed. crtica e comentada por Graa 
Almeida Rodrigues, Universidade Nova de Lisboa, 1977. Sob o ttulo de Opsculos

294
Histricos foram editadas obras de Damio de Gis em latim trad. para portugus por 
Dias de Carvalho, Porto, 1945, compreendendo Fides religio moresque aethiopum, ed. 
Lovaina, 1540, Lappiae descriptio e Deploratio Lappianae Gentis, publicadas 
juntamente com a anterior e reed.  parte em Paris, 1541, Hispania, 1542, De Bello 
Cambaico, Lovaina,
1549, reed . de uns Commentarii 1 ... L 1539, sobre o 1. > cerco de Diu, a que se 
seguiu em 1549 De Bello Cambaco ultimo, sobre o 2.1 cerco de Diu - entre outras. 
Urbis Olysiponis descriptio, Lisboa, 1554, foi reeditada juntamente com uma trad. em 
portugus por Raul Machado, sob o ttulo de Lisboa de Quinhentos..., Lisboa, 1937. 
Ver indicao de outros textos latinos editados mas no traduzidos nas bibliografias 
goisianas adiante referidas. Lus de Matos apresentou em 1959  Sorbona o texto para 
uma ed. com introd. e notas de La Correspondance latine de Damio de Gis, H uma ed. 
das Cartas Latinas por Joaquim de Vasconcelos, Porto, 1912. .ResendeGarcia de. 
Crnica del-re O, Joo 11, 1. > ed., 1545; 2.3 no Livro das obras de Garcia de 
Resende, 1554; 3. a, 1798; 4. 3 muito incorrecta, 1902. A Miscelnia, inclusa nas 
Obras, foi editada  parte por Mendes dos Remdios, Coimbra, 1917. As duas obras 
foram rempressas em conjunto pela IN-CM, 1973.

Crnica dos Descobrimentos e Primeiras Conquistas da ndia pelos Portugueses, texto 
annimo a que nomeadamente faltam os 4 primeiros captulos, que rene vrias fontes, 
elaborado no 1 . > quartel do sc. XVI, talvez utilizados (com omisses) por 
Castanheda e Barros, ed. dipi. por Adlia Lobato/Lus de Albuquerque, 1974, ed. 
actualizada com introd. e notas por Lus de Albuquerque, IN-CM, 1986.

2. Antologias

Historiadores Quinhentistas, col. *Textos Literrios+, sei., pref. e notas de M. 
Rodrigues Lapa. (Castanheda, Gaspar Correia, Barros, Gis.)

O livro a seguir mencionado de Hernni Cidade contm numerosos textos 
exemplificativos, alguns de certa extenso,

Robert Richard publicou em Rabat, 1937, extractos traduzidos e anotados da *Crnica 
de D. Manuel+ de Damio de Gis, sob o ttulo de Les Portugais au Maroc de 1445  
1521.

Damio de Gis (Trechos Escolhidos), introd., selec. e notas de Antnio lvaro Dria, 
col. *Clssicos Portugueses+,

Ver ainda, de Rodrigues, Graa Almeida: Cinco Autores Histricos (F. Lopes, Zurara, 
Pina, Barros e Gis), Editorial Presena, Lisboa, 1979.

3. Estudos


Constituem boa iniciao os pref. de Rodrigues Lapa ao volume antolgico acima 
indicado. Ver tambm de Cidade, Hernni: A Literatura portuguesa e a expanso 
ultramarina, vol. 1, 2. > ed., 1963, e Lies de Cultura e Literatura Portuguesa, 6. 
a ed., 1. O

vol- 1981, Coimbra.

Azevedo, Visconde de: Elenco das Variantes de Diferenas notveis que se encontram na 
1. >parte da Crnica del-rei D. Manuel, Porto, 1866, e Aditamento ao Elenco.--
Coimbra, Imprensa da Universidade, 1913.

        295
Vterbo, Sousa: Estudos sobre Damio de Gis, in *0 Instituto+, vois. 46 e 47, 1899 e 
1900.

Henriques, J. C. Guilherme: Inditos Goesianos, coligidos e anotados, 2 vols., 
Lisboa, 1896 e 1898.

Vasconcelos, Joaquim de: Goesiana. Bibliografia, Porto, 1879, e Damio de Gis, Novos 
Estudos, Porto, 1897.

Baio, Antnio: Episdios Dramticos da Inquisico Portuguesa, 2. ed. corr. e aum., 
t. 1, Lisboa, 1936.

Beli, Aubrey: Damio de Gis. Um Humanista Portugus, trad. de Antnio A. Dria, 
Lisboa, 1942.

Batailion, Marcei: Le Cosmopolitisme de Damio de Gis, no vol. tudes sur ]e 
Portugal au temps de Phumanisme, Coimbra, 1952, obra reed. pelo Centro Cultural 
Portugus de Paris, 1972. Trad. portuguesa de Castelo Branco Chaves, 1983.

Hirsch, Elisabeth Feist: The Friendship of Erasmus and Damio de Goes, separata de 
*Proceedings of the American Philosophic Society+, vol. 95, 195 1; The Friendshp of 
the *Reform+ Cardinais in Italy with Damio de Goes, sep. dos mesmos *Proceedings+, 
vol. 97, 1953; Damio de Gis: The Life and thought of a portuguese humanist (1502-
1574), Haia, 1967 (recenso de A. Costa Ramalho, in *Colquio+, 48, Abril de
1968; trad. port. ed. pela Fund. C. Gulbenkian, 1987); Damio de Gis as a 
representative of his era (1502-1574), *Bibios+, vol. 56, Coimbra, 1980, pp. 327-338.

O Processo de Gis na Inquisio, principal fonte biogrfica, foi integralmente 
editado em Lisboa, 1971, com introd. e notas de Raul Rego; algumas das suas peas 
tinham j sido transcritas por A. P. Lopes de Mendona, em Darnio de Gis e a 
Inquisio Portuguesa, separata dos *Anais+ da Academia das Cincias, Lisboa, 1859, e 
sobretudo (e complementarmente) por J. C. Guilherme Henriques, no 2. O vol. dos 
referidos Inditos Goesianos. Pereira, lsaas da Rosa: O Processo de Damio de Gis 
na Inquisio de Lisboa, sep. dos *Anais+, srie li, 23, tomo 1, da Academia 
Portuguesa de Histria, 1975.

Matos, Lus de: Un Umanista portoghese n Itlia, in Estudos Italianos em Portugal,
1. ed., Lisboa, 1960.


Osrio, Jorge Alves: Em tomo do humanismo de Damo de Gis: A divulgao dos 
opsculos atravs da correspondncia latina, in *Annali, Sezione Romanza+, Istituto 
Universitario Orientale, XVIII, 2, Julho de 1976, Npoles, pp. 297-342. (D ideia do 
contedo e relevncia da correspondncia entre Damio de Gis e diversas 
personalidades nacionais e estrangeiras, inclusa numa ed. de 1544, Lovaina, dos seus 
OpsculosJ

Rodrigues, Graa Almeida: Damio de Gis face  ideologia e ao poder vigentes, 
*Arquivos do Centro Cultural Portugus+, 11, Paris, 1977, pp. 107-131; e Damio de 
Gis Historiography. A document of the new-born - but promising - Europe, ibidem,
13, 1978, pp. 421-434.

Faria, Francisco Leite de: Estudos Bibliogrficos sobre Damio de Gis, Lisboa. 
Augin, Jean: Damio de Gis dans une Europe vanglique, *Humanitas+, Coimbra, vols. 
31-32, 1979-80, pp. 197-227,

296
Sobre as relaces entre as crnicas de Garcia de Resende e Rui de Pina, ver o estudo 
de Martins de Ca'rvalho, na sua ed. desta ltima, 1950, Coimbra.

Serro, Joaquim Verssimo: A Historiografia Portuguesa, 1 (scs. XII-XVI), Lisboa,
1972; Damio de Gis, Historiador, Lisboa, 1976.

Torres, Amadeu: Noese e Crise na epistolografia goisiana, 1 - As Cartas Latinas de 
Damio de Gis, 1/ - Damio de Gis na mundividncia do Renascimento, Centre Culturei 
Portugais, Fund. C. Guibenkian, Paris, 1982.

C - FRANCISCO DE HOLANDA e outros

1. Textos

Da Pintura Antigo: ed. de Joaquim de Vasconcelos, Porto, 1910, reed. Porto, 1930. 
Outra ed., segundo uma verso quinhentista castelhana, por Elias Tormo, Madrid, 1921. 
Ed. com introd. e notas de Angei Gonzlez Garcia, IN-CM, 1983.

Do Tirar pelo Natural, ed. de Joaquim de Vasconcelos, Porto, 19 15, e Elias Tormo, 
Madrid, 1921.

De quanto serve a cincia do Desenho e entendimento da arte da pintura na repblica 
crist, assim na paz como na guerra, ed. de Joaquim de Vasconcelos, in Archeologia 
artstica, Porto, 1879.

Da fbrica que falece  cidade de Lisboa, seguido de Da cincia do Desenho, ed. de 
Joaquim de Vasconcelos, in Archeologia artstica, 1877, e de V@rglio Correia, in 
Archivo Espai5ol de Arte y Archeologia, Madrid, 1929. A fotocpia do cdice da Ajuda 
que contm estas obras com os respectivos desenhos foi publicada por Jorge Segurado 
na obra abaixo indicada.

Os DilogosdeRoma, pertencentes  parte final do livro Da PinturaAntiga, tm uma ed. 
portuguesa  parte na col. *Clssicos S da Costa+, 1955, com pref. e notas de Manuel 
Mendes, e numerosas tradues estrangeiras, devido  importncia capital que assume 
como testemunho do pensamento esttico de Miguei ngelo.

Ed. na *Coleco Francisco de Holanda+, Horizonte: Da Pintura Antiga, Dilogos em 
Roma, De Tirar pelo Natural, todos em 1948, e Da Fbrica.--- Da Cincia do Desenho, 
ambos em 1971. As Imagens da Idade do Mundo (De Aetatibus Mundi Imagines), ed. fac-
smile, 1983, e o estudo As Imagens das Idades do Mundo, de Sylvie Deswarte, IN-CM, 
1987.

Vimioso, Francisco de Portugal, 1. 1 conde de: Sentenas, Lisboa, 1605, reed. Mendes 
dos Remdios, Coimbra, 1905, que, alm das Sentenas em prosa, inclui outras em verso 
e ainda a colaborao de D. Francisco no Cancioneiro Geral.


Cartas Portuguesas de D. Jernimo Osrio, Paris, 1819; outra ed. Coimbra, 1922. De 
Rebus Emmanuelis Gestis foi reed. em 3 vols. pela Imprensa da Universidade de Coimbra 
e trad. por Filinto Elsio, sob o ttulo Da Vida e Feitos de EI-Rei D. Manuel, 3 
vols., 1804-06, reed. na *Biblioteca Histrica+, Porto, 1944.

De uma coleco annima de Ditos Portugueses dignos de memria, com grande interesse 
documental e pitoresco, segundo um manuscrito da Biblioteca Nacional que regista

        297
anedotas e ditos atribudos  nobreza do tempo de D. Afonso V at ao tempo de D. 
Sebastio, saiu uma ed. actualizada, prefaciada e comentada por Jos Hermano Saraiva, 
sld, Europa-Amrica. Foram entretanto localizadas outras cp@as da mesma coleco, 
dos sculos XVI, XVII e XVIil, tendo sido publicadas Anedotas Portuguesas e Memorias 
Biograficas da Corte Quinhentista e Hstorias e Ditos Galantes que sucedero e se 
dissero no Paco, leit., introd., notas e ndices de Christopher L. Lund, Almedina, 
Coimbra, 1980.

Cartas de O. Joo de Castro, ed. por Elaine Sanceau, Agncia-Geral do Ultramar, 1955.

2. Estudos

Santos, Maria Machado: A Esttica de Francisco de Olanda, Coimbra, 1940.

Segurado, Jorge: Francisco de Olanda, Lisboa, 1970. Frches, Jos: Les Dialogues de 
Rome de Franois de Hollande, Fund. C. Gulbenkian, 1973 (trad. frane., com introd., 
notas e bibliografia).

Saraiva, Antnio Jos: Histria da Cultura em Portugal, vol. li, cap. V. Mendes, 
Manuel: introd.  ed. indicada de Dilogos. Sobre as cartas de Jernimo Osrio e D. 
Joo de Castro ver estudo, bibliografia e antologia em Rocha, Andre Crabb: A 
Epistolografia em Portugal, pp. 87-106, Coimbra, 1965.

Deswarte, Sylvie: Contribution  Ia Connaissance de Francisco de Holanda, *in 
Arquivos do Centro Cultural Portugus+, vol. 7, 1973, Paris.

Alves, Jos da Felicidade: Introduo ao estudo da obra de Francisco de Holanda, 
Horizonte, 1986.

Vilela, Jos Stichini: Francisco de Holanda - Vida, Pensamento e Obra, *Biblioteca 
Breve+, ICALP, 1982.

Captulo VII

LITERATURA DE VIAGENS ULTRAMARINAS

Carcter geral da literatura de viagens

A revelao de novos espaos, paisagens, floras, faunas, costumes e religies, as 
aventuras e peripcias de viagens mais fabulosas que as dos romances

de cavalaria e as dos poemas da Antiguidade, inspiraram, como vimos, uma vasta 
literatura descritiva e narrativa, que assumiu vrias formas desde os

grandes tratados histricos ou geogrficos em grossos volumes at s curtas 
reportagens em folhetos de cordel, estes dirigidos a um pblico numeroso

em que tanto entrava o humanista ou cosmgrafo como o simples curioso de aventuras e 
de maravilhas. Vem j da Idade Mdia o gosto por este gnero de livros, como se v 
pelo sucesso do Lvro de Marco Plo, cuja traduo portuguesa foi impressa em Lisboa, 
1502. Os precursores portugueses desta literatura, hoje perdidos, devem ter servido 
de fonte a Gomes Eanes de Zurara, primeiro cronista conhecido das viagens ocenicas. 
Durante todo o sculo

XVI e ainda no XVII multiplicam-se as crnicas, descries e relatos.

Uma parte desta produo no tem valor propriamente literrio.  o caso,

no s da literatura propriamente nutica, como os *livros de marinharia+, escritos 
para pilotos, mas tambm o de muitos relatos das primeiras viagens. Merecem, no 
entanto, especial meno o Dirio da Viagem de Vasco da Gama, por lvaro Velho, que 
nela participou, e sobretudo a carta em que Pro Vaz de Caminha d notcia ao rei D. 
Manuel do *achamento+ da terra do Brasil, cujas qualidades de preciso descritiva e 
de animao, nas cenas de contacto com os Amerndios, so sem dvida notveis. Mas h 
interesse

300
narrativo e pitoresco em vrios relatos do manuscrito de Valentim Fernandes e ainda 
no Esmeraldo de Situ Orbis de Duarte Pacheco Pereira, que datam de incios do sculo 
XVI.

Podemos distinguir um segundo grupo, constitudo por narrativas de viagens que tm 
por assunto principal a descrio dos novos pases visitados pelos viajantes, como a 
Verdadeira Informao do Preste Joo da ndias (1540), cujo autor, P. Francisco 
lvares, capelo da primeira embaixada portuguesa  Abissnia (1520-26) faz um relato 
quase diarista da sua acidentada viagem, com uma caracterizao precisa de uma 
atrasada sociedade agro-pecuria, seus costumes, sobretudo religiosos, economia de 
troca, cultura e paisagem; o Itinerrio, de Antnio Tenreiro, que da ndia veio por 
terra a Portugal em 1529, atravessando audaciosamente as terras do Gro-Turco, a fim 
de se informar dos seus preparativos blicos (1. ed. 1560); a Corografia, de Gaspar 
Barreiros, relato de uma viagem pelo Mediterrneo, de ida e volta a Roma (1. ed. 
1561); o Tratado das Cousas da China e de Ormuz, de Frei Gaspar da Cruz (1. 1 ed. 
1570), que contm a primeira extensa, compreensiva e pitoresca descrio de cidades, 
burocracia, vida econmica e costumes, com base em experincia missionria (falhada) 
e em

depoimentos de comerciantes portugueses, alguns deles presos e julgados por comrcio 
ilegal e por intriga burocrtica; o Itinerrio da Terra Santa, de Frei Pantaleo de 
Aveiro (1. > ed. 1593); a Jornada do Arcebispo de Goa, de Frei Antnio de Gouveia (1 
. > ed. 1606); a Etipia Orienta], de Frei Joo dos Santos (1. ed. 1609); o 
Itinerrio da ndia por Terra, de Frei Gaspar de S. Bernardino (1. ed. 1611); a 
Relao do novo caminho que fez por terra e mar vindo da ndia para Portugal no ano 
de 1663, do P. Manuel Godinho. Toda uma s rie de obras deste gnero  devida a 
missionrios j esutas, que exploraram extensas regies do Brasil e da  sia em busca 
de povos para catequizar: as Cartas do Japo, que despertaram grande interesse; a 
Narrativa epistolar de uma viagem e misso jesuta pela Baa, Ilhus, Porto Seguro, 
Pernambuco, Esprito Santo, que s veio a ser publicada no sculo XIX; o Novo 
descobrimento do Gro Cataio, pelo p.e Antnio de Andrade, em

que se descreve uma viagem ao Tibete por um missionrio que tentou catequizar o rei e 
a corte deste pas (1626); Etipia a Alta,, do P. Manuel de Almeida, refundida por 
Baltasar Teles (1660). Antnio Galvo, herico governador das Molucas, fez no seu 
Tratado dos Descobrimentos, 1563, uma

301
histria do reconhecimento martimo da Terra, desde a antiguidade at aos

descobrimentos portugueses, espanhis e outros dos sculos XV e XVI, com perspicazes 
anotaes de geografia fsica, botnica, zoologia e etnolgicas. Apenas muito 
tardiamente tiveram edio portuguesa duas obras que (entre outras), primeiro em 
traduo italiana na coleco veneziana de G. B. Ramuzio Delle Navigationi ct vaggi, 
1, 1550, edio moderna, 6 volumes, Turim,
1978, e, no sculo XIX, em tradues inglesas da Hakluyt Socety, revelaram a 
geografia poltica e econmica, com importantes dados etnolgicos, do litoral 
oriental de frica, da sia e parte da Ocenia, tais como apareciam a atentos 
observadores portugueses cerca de 1512-15: o Livro... de

Duarte Barbosa e a Suma Orienta] de Torn Pires.

Acrescentemos outras corografias mais ou menos entretecidas com matria histrica ou 
lendria, descries de costumes, etc.: Saudades da Terra, por Gaspar Fructuoso (ver 
Bibliografia); Miscelnea, por Miguel Leit o de Andrade (1629); Tratado Descritivo 
do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa (1587); etc. A Histria Insulana, de Antnio 
Cordeiro (1717), ser ainda um ramo desta mesma rvore.

A enumerao est longe de ser completa, pois para a poder completar seria necessria 
uma bibliografia, ainda hoje dificilmente elassificvel e mal conhecida, da 
literatura que se prende com a ocupao militar ultramarina, as misses, o comrcio e 
com diversos interesses afins. Alm disso, numerosos textos de autoria portuguesa 
sobre tais assuntos foram incorporados noutros, perderam-se ou sobreviveram em 
tradues ou adaptaes para outros idiomas, especialmente, que se saiba, para 
castelhano ou italiano.

Finalmente, convm distinguir num grupo  parte as curtas narrativas

de naufrgios, editadas em folhetos de *cordel+, que, reunidas mais tarde em volumes, 
vieram a constituir a Histria Trgco-Martima. Tais so a

Relao do Naufrgio de Seplveda (1. edio talvez 1554); a Relao do Naufrgio da 
Nau S. Bento (1564); a Relao do Naufrgio da Nau Santago, pelo P. Manuel Godinho 
Cardoso (1602); a Relao dos Sucessos do Galeo Santiago, por Melchior Estcio do 
Amaral (trs vezes impressa em 1604), e vrias outras.

Colocamos ainda neste captulo uma obra que, embora seja de intuito histrico, 
condensa de forma narrativa a experincia de vida do autor no
mundo oriental: as Lendas da ndia, de Gaspar Correia.

302
A maior parte destas obras so ainda hoje de leitura interessante, pelo exotismo das 
regies descritas, pelo imprevisto e arriscado das situaes em que vieram a 
encontrar-se os protagonistas, pela linguagem especfica, directa, por vezes 
colorida, enriquecida de metforas e expresses prprias da marinharia. Os seus 
autores, em alguns casos, tinham mais conhecimento dos factos que formao literria, 
e servem-se por isso de um estilo familiar, no alatinado. Outros, como os viajantes 
jesutas, deixam transparecer uma

formao literria humanstica.

Nos relatos que vieram a integrar-se na coleco setecentista da Histria Trgico-
Martima encontram-se at pginas impressionantes, eco das horas

aflitivas por que tinham passado os sobreviventes no decorrer dos naufrgos ou nas 
longas viagens a p por regies inspitas. Sobressai entre elas a narrativa do 
naufrgio dos Seplvedas, que inspirou um poema pico de Jernimo Corte Real: 
atirados contra a costa africana, perto do Cabo, os

sobreviventes empreenderam uma longa caminhada para o Norte, em direco ao rio onde 
o portugus Loureno Marques comerciava com os negros do interior; corpos prostrados 
pela fome, pela fadiga, pela pilhagem dos Cafres e pelas feras, mortos ou vivos, 
ficam a assinalar a passagem da coluna portuguesa; a tragdia atinge o ponto 
culminante quando o capito, Manuel de Seplveda, j louco, se interna como um 
sonmbulo pela floresta, depois de contemplar atnito a mulher falecida, que se 
enterrara na areia, para encobrir a nudez, quando os Cafres lhe arrancaram os 
vestidos. Os narradores da Histria Trgico-Martima sublinham intencionalmente os 
episdios patticos e dolorosos, de maneira a impressionar a sensibilidade do 
pblico, mas

fazem-no em linguagem correntia.

No entanto,  excepo, como veremos, da Peregrinao, de Ferno Mendes Pinto, a 
literatura de viagens portuguesa quinhentista e seiscentista no passou de um nvel 
de reportagem; raro se elevou quela tipifica o ou quele simbolismo que 
caracterizam a obra de arte. A experincia humana nelas registada  intensa e m 
ltipla, mas no foi suficientemente elaborada para dar origem a uma viso nova do 
mundo. Os Portugueses e Espanhis levaram ao conhecimento da Europa novas regies e 
novas civilizaes, mas foi fora da Pennsula que se elaboraram as primeiras 
construes morais e filosficas estimuladas por esta literatura de viagens, como a 
Utopia que Toms Morus, sob influncia talvez das viagens de Colombo e de Vespcio, 
situa

         303
numa ilha desconhecida do continente americano; a Nova Atlntida que Francisco Bacon, 
dir-se-a por sugesto de Mendes Pinto, imagina entre a China e o Japo; as Viagens 
de Gullver, de Swft; e finalmente o mito do *bom selvagem+, inspirado pelos ncolas 
do Brasil, e que  precursor de certas concepes de J. J. Rousseau (a bondade 
natural do homem), como j de certas pginas de Montaigne sobre a relatividade dos 
costumes. Mas em vo se procurar nas fontes portuguesas desses e outros autores 
coisa que se parea com uma reflexo crtica, a no ser num caso, a que vamos j 
referir-nos.

ffiFERNO MENDES PINTO

O mais interessante livro de viagens do sculo XVI portugus, e um dos mais 
interessantes da literatura mundial,  a Peregrinao, de Ferno Mendes Pinto (c. 
1509/14-1583).

O autor conta a sua vida prodigiosa de aventuras: nascido em Monternor-o-Velho, 
trazido para Lisboa, logo na infncia  protagonista de uma fuga e vitima de um 
assalto dos corsrios franceses. Serviu na casa do duque D. Jorge, filho de D. Joo 
11. Embarcou para o Oriente em busca de fortuna. Correu os mares e as costas desde a 
Arbia at ao Japo, sendo, ao que ele prprio diz, *treze vezes cativo e dezassete 
vendido nas partes da ndia, Etipia, Arbia Feliz, China, Tartria, Macssar, 
Samatra e outras muitas provncias daquele oriental arquiplago dos confins da sia, 
a que os escritores chins, siameses, guus e lquios nomeiam nas suas geografias por 
Pestana do Mundo+. Conheceu especialmente as escalas do Extremo Oriente entre Malaca 
e o Japo, como agente do capito de Malaca e como mercador - por vezes tambm 
participando em expedies de pirataria. Um sopro de vento lanava-o na misria, e um 
acto de audcia fazia-o senhor de fabulosos tesouros; algumas vezes salvou a vida 
oferecendo-se como escravo.

Pretende ter percorrido o imprio chins at  Monglia, e  certo que foi um dos 
primeiros europeus a pr o p no Japo. Numa das suas viagens a este pas conheceu S. 
Francisco Xavier. Impressionado pela personalidade do clebre missionrio, decidiu, 
pouco depois da morte dele, e quando se encontrava no apogeu da riqueza, entrar na

Companhia de Jesus, e promover uma misso jesuta ao Japo, em que participou. Mas, 
por razes desconhecidas, saiu depois da Ordem, deixando nela a maior parte dos seus

bens. Regressando a Portugal em 1558, obteve uma tena de Filipe 11. Escreveu de 
memria o grande relato das suas viagens, que s veio a ser publicado em 1614, vinte 
e um anos depois da morte do autor.  duvidoso que a forma em que o livro nos chegou 
seja a original, antes  verosmil que sofresse cortes e talvez alteraes, a que no 
seriam alheios os Jesutas, bastando dizer que no se encontra na Peregrinao a 
menor referncia 

passagem do seu autor pela Companhia,

304
A fico e a realidade entrelaam-se admiravelmente na Peregrnao, porque o autor 
soube imprimir a tudo quanto quis contar-nos uma aparencia verosmil de coisa vivida, 
geralmente convincente, mesmo quando descreve regies que no visitou, ou inventa 
situaes e personagens. Quer as descries de cidades e civilizaes, quer as 
narrativas das suas vagabundagens pelo Oriente tm uma extraordinria fora 
presencial. At mesmo topamos com frequncia frases inteiras de lnguas que 
desconhecemos (e Ferno Mendes Pinto provavelmente tambm). Noutros casos encontramos 
em saborosa

verso portuguesa frmulas e saudaes de pases mal conhecidos dos Europeus.

No entanto, podem distinguir-se na Peregrinao captulos que se inspiram claramente 
na experincia directa e captulos que so reconstrues a

partir de fontes literrias e outras igualmente indirectas. Est no primeiro caso a 
descrio do Japo, ou antes, dos meios aristocrticos japoneses, de que Ferno 
Mendes Pinto apreendeu com finura feies tpicas, como o esprito guerreiro, a 
cortesia fidalga, a fria da honra, e outros - antecipando-se aos observadores 
exotistas do sculo XIX. Est no segundo caso a descrio da China, prodigiosa 
civilizao que o espanta e cuja superioridade ele procura explicar pela histria, 
leis, normas morais e preceitos religiosos. Esta descrio da China  na realidade o 
esboo de uma utopia, j preludiada noutros livros de viagens, como os de J. 
Mandeville (sculo XIV), e antecipa-se  crtica social mediante contrastes de 
civilizaes, to praticada no sculo XVIII.

O exotismo de Ferno Mendes Pinto resulta do seu interesse incessante pelas formas 
das civilizaes que percorreu. No  um mero compilador, e, ao contrrio dos autores 
de literatura extica do sculo XIX, no se trata de um simples desfrutador de 
curiosidades. No tem o preconceito da superioridade da sua civilizao ou da sua 
raa, e por isso facilmente assume perante os orientais uma atitude admirativa e 
atenta que o leva, por exemplo, a desejar que as leis da China sejam imitadas em 
Portugal. Pe na boca das suas personagens orientais os comentrios mais 
depreciativos acerca dos Europeus. Para eles, estes homens brancos e barbudos no 
passam de vagabundos miserveis ou de salteadores brbaros, sem educao, sem 
humanidade, sem verdadeira religio. No entanto no deixa de chamar a ateno para as 
terras e riquezas abertas a uma explorao potencial. Quer o con-

       305
junto da obra quer cada ciclo aventuroso surgem como Uma provao tico-religiosa e 
um sinal da dependncia dos homens em relao ao divino.

Os comentrios que atribui a orientais limitam-se a tirar a concluso implcita no 
relato das aces dos piratas, mercadores ou guerreiros com que o nosso aventureiro 
anda associado: levados unicamente pela cobia, afundam barcos indefesos, incendeiam 
povoaes desprevenidas, roubam mulheres e crianas, saqueiam templos e sarcfagos, 
desenterrando esqueletos para se apoderarem dos tesouros com eles sepultados. No 
respeitam os vivos nem os mortos, mas invocam a cada passo Deus e a Virgem, quer para 
lhes valer nas afli es, quer para os ajudar nas faanhas de pirataria. Este 
contraste entre a crena num Deus supremamente justo e universal, e um comportamento 
brbaro - que parece passar despercebido aos Europeus da poca -  sublinhado por 
vrias personagens orientais da Peregrinao, entre elas uma criana chinesa raptada 
pelo pirata Antnio de Faria, que fala nos seguintes termos eloquentes de moralista:

--- Sabeis porque vo-lo digo? Porque vos vi louvar a Deus depois de fartos, com

as mos alevantadas e com os beios untados, corno homens que lhes parece que basta 
arreganhar os dentes ao cu, sem satisfazer o que tm roubado. Pois entendei que o 
Senhor da Mo Poderosa no nos obriga tanto a bulir com os beios quanto nos defende 
tomar o alheio - quanto mais roubar e matar, que so dois pecados to graves quanto 
depois de mortos conhecereis no rigoroso castigo da sua divina justia.+

Outra forma que assume em Ferno Mendes Pinto esta crtica implcita dos seus 
compatriotas reside no tom pcaro de uma grande parte da sua narrativa.  picaresca a 
estrutura autobiogrfica da obra; a vagabundagem do heri, criado de vrios amos, que 
lhe permite ir conhecendo e descrevendo meios sucessivos; o mbil que o guia 
permanentemente, o da luta pelo po, e, se possvel, pela riqueza; e, sobretudo, o 
carcter desta espcie de Sancho Pana das cavalarias do Oriente, pobre diabo que no 
tem de seu seno

o que espera ganhar por suas mos, sem sombra de preconceito ou de amor prprio, 
despido de bizarria fidalga, movido unicamente pela necessidade material, tremendo de 
pavor ante a perspectiva da morte, falando de si prprio como o *pobre de mim+. 
Picaresco tambm o tom de ingnuo cinismo com que se narram as mais impressionantes 
atrocidades. O heri da Peregrinao equivale pois a um pcaro, isto , a um anti-
heri - e nisso con~ trasta com os heris das crnicas e dos outros livros de 
viagens.

HLP - 20

306
Esta atitude to desempoeirada que permite ao nosso autor colocar-se ao rs das 
gentes exticas que conheceu, ao mesmo tempo que satirizar de torma burlesca e quase 
feroz as supostas cavalarias dos seus compatriotas, relaciona-se talvez com a sua 
condio de mercador viajante, e porventura oriundo de cristos-novos, gente de algum 
modo estrangeira na sua prpria ptria. A cada passo Mendes Pinto fala de negcio, 
indica preos, avalia rendimentos e tesouros, cifra perdas, como se tudo em ltima 
anlise se reduzisse a nmero, mercadoria - at ele prprio quando na situao de 
escravo.

A sua utopia chinesa poderia caracterizar-se como um paraso de mercadores, onde 
todos os comrcios possveis esto organizados e protegidos de forma perfeita. Mas 
este mercador  ao mesmo tempo um aventureiro infatigvel, infinitamente sensvel  
diversidade das coisas e das gentes. Tudo lhe surge rico, apaixonante, *espantoso+, 
*incrvel+. Escarnece do curto entendimento daqueles que no derem crdito s suas 
narrativas e descries, porque esses, diz ele, avaliam o mundo pelo pouco que viram 
e sabem.

O leitor encontra-se, com efeito, perante um universo caudaloso e subjugante: as 
maiores cidades do mundo, os templos mais ricos; os mercados mais infindveis; canais 
atravessando extenses maiores que a Europa; procisses alucinantes; exrcitos de 
milhes de homens com milhares de elefantes, chocando-se em batalhas que os Europeus 
nem sonhavam; naufrgios em que se perdem tesouros; combates navais de uma ferocidade 
sem limites; vagabundagens atravs de pntanos e florestas infestadas de feras; 
banquetes e festanas monstruosas. Um universo onde as multides so inumerveis e s 
vezes se massacram em tumultos que no deixam pedra sobre pedra; e onde encontramos 
gente de todas as espcies, desde os homens louros e barbudos da Moscvia at aos 
japoneses cavaleirescos, velhos centenrios, crianas formosas, piratas fora da lei, 
princesas, santos, escravos

e reis, parricidas, pederastas; onde as paixes assoladoras destroem cidades e 
imprios.  o maior tesouro imaginrio da literatura portuguesa. E esta torrente 
desloca-se a um ritmo ao mesmo tempo poderoso e leve, sobre uma arte de contar quase 
miraculosa que nunca se embaraa na enormidade da matria e que sabe reter a ateno 
do leitor, em longas sequncias de episdios onde no h um desfalecimento, por entre 
contrastes de fortuna e desfechos inesperados que geralmente so o incio de uma 
aventura nova e no menos extraordinria que a antecedente. Algumas das histrias da 
Peregri-

  307
nao equiparam-se a pequenas novelas, ou short stories, dignas de figurar numa 
antologia universal.

Toda esta diversidade inesgotvel se expe numa prosa oral, como a de Ferno Lopes, 
com certo ressaibo medievo, no s por isso, mas tambm por certa falta de rigor na 
hierarquia sintctica, e pela monotonia de tantas oraes sindticas ou adjectivas; 
se bem que j, por outro lado, a prosa seiscentista se reconhea no hbito de arrumar 
certas circunstncias por meio de oraes participiais ( maneira do *ablativo 
absoluto+ latino). O sentido do movimento  talvez o atributo mais notvel desta 
prosa, em que mesmo as pginas descritivas acumulam sucessivamente os objectos cada 
vez mais estupendos, num ritmo de crescendo. Nunca, ou muito raramente, se chega a um 
ponto morto.  tambm caracterstico da prosa de Ferno Mendes Pinto o sentido dos 
contrastes entre a pequenez e a grandeza, ou entre a ternura das coisas tenras e 
feminis e a ferocidade dos suplcios. Considerem-se tpicas frases como esta, 
dirigida por uma mulher a um tirano:

*usando comigo piedade ser uma tamanha grandeza na fama da tua pessoa, que at os 
meninos deixaro de mamar a alvura dos peitos de suas mes, para te darem louvores 
com os beios limpos de sua inocncia.+

Normalmente, Ferno Mendes Pinto no tira efeitos particulares da adjectivao. 
Repetem-se os adjectivos emocionais e amplificadores, como grande, terrvel, etc., o 
que d um tom frequentemente emocionado  sua prosa. As metforas e comparaes 
parecem querer evocar um mundo oriental e so por vezes magnficas hiprboles. Os 
efeitos resultam sobretudo da acumulao de objectos ou aces, da construo rtmica 
j apontada, da articulao consecutiva (*mato to vasto, que nenhum pssaro, por 
muito pequeno que fosse, podia passar por entre os espinhos+). Destacam-se alguns 
trechos de eloquncia, esmaltados de frmulas, imagens ou evocaes orientais, a que 
j nos referimos, e em que o sentimento da divindade  expresso em termos comovidos, 
de uma grandeza bblica.

Graas a tudo isto, a prosa de Ferno Mendes Pinto chega at ns cheia de frescura e 
de poder comunicativo.

ffiGASPAR CORREIA

Aparentam-se com a Histria de Castanheda as Lendas da ndia, de Gaspar Correia, que 
tm ademais um cunho acentuadamente memorialista. Chegou

308
 ndia em 1512 e viveu mais de 50 anos no Oriente, desempenhando diversas funes 
(entre elas a de escrivo de Afonso de Albuquerque) que lhe permitiriam ser 
testemunha pessoal de muitos dos acontecimentos narrados e privar com os seus 
protagonistas. Por isso foi encarregado de orientar a

pintura dos retratos dos vice-reis e governadores, na maior parte j falecidos. As 
Lendas da ndia, livro que no destinava  imprensa, a no ser depois da morte, 
constituem um documento prodigiosamente minucioso em que os factos se ordenam ano por 
ano, ms por ms, s vezes dia por dia, e em que as personagens se erguem pouco a 
pouco da acumulao de actos, de gestos, de ditos, at se nos tornarem familiares 
como vizinhos. O autor no cura de elegncia retrica, nem de correco gramatical; a 
construo da frase  descuidada; os seus captulos so informes; a ideia de 
composio equilibrada est inteiramente fora do seu esprito. O estilo  o da 
narrativa oral, com dilogos, chegando a lembrar cantares de gesta peninsulares. Mas 
deste conjunto amorfo - e todavia ressumante de vida, em contraste com a secura 
tabelinica de Castanheda - resulta para o leitor da sua enorme narrativa uma forte 
adeso aos factos e figuras. Quanto ao prprio narrador, esquecemos a sua

presena a no ser como personagem do mesmo mundo que impassivelmente desenrola 
diante de ns. O seu peclio de ideias  muito reduzido, e identifica-se, no fundo, 
com um certo sector da populao portuguesa no Oriente: a gente pobre oprimida pelos 
capites, ou, talvez mais certo, o *soldado prtico+ da ndia, carne de canho, que 
ajudava a ganhar os louros para os fidalgos. Cremos descobrir Gaspar Correia entre a 
gente que nas ruas de Goa grita contra o governador, sobretudo quando nos diz que, 
para endireitar os desmandos da ndia, o rei de Portugal devia mandar degolar em 
plena praa de Goa um vice-rei. E a sua obra , com efeito, uma minuciosa denncia 
dos vcios e desmandos que Diogo do Couto resumir n'O Soldado Pr tico. Mas, por 
outro lado, Gaspar Correia exprime as ideias mais enraizadas da gente portuguesa do 
seu tempo. Ao contrrio de Ferno Lopes, que testemunha flagrantemente um mundo com 
os seus valores em crise, Gaspar Correia atesta a estabilidade dos valores 
hereditrios. E  com os dados deste automatismo social e cultural que ele constri, 
ou melhor, porque as suas

Lendas no tm arquitectura, que ele deixa correr a sua imensa obra, baseando-se, 
quer em recordaes, quer em documentos escritos, quer em testemunhas.

O interesse desta obra como documento da vida quotidiana, testemunho acerca das 
personalidades e seus m veis inconfessados e at como esboo

3. @ POCA - RENASCIMENTO E MANEIRISMO                                     09
de uma epopeia da aventura indiana, deixa a perder de vista qualquer dos cronistas do 
Oriente.

Gaspar Correia deixou ainda um manuscrito com a Crnica dos Reis de Portugal e 
sumrios das suas vidas e diversas outras obras. Entre as crnicas contam-se as de D. 
Manuel e D. Joo 111, assim como uma lenda do apstolo S. Tom.

Reservando para outro captulo a obra de Diogo do Couto, que s tem de comum com 
Gaspar Correia o ter feito da ndia Portuguesa a sua ptria adoptiva, damos a seguir 
breves apontamentos de algumas obras de carcter biogrfico ou memorialstico da 
autoria de protagonistas de guerras e aces no Oriente, ou baseadas no testemunho 
destes. Geralmente tais obras escudam-se na glorificao de importantes casas 
senhoriais, como tambm sucede com as Lendas da ndia protegidas com a casa dos 
Gamas. Esta famlia teve outros apologistas, como Miguel de Castanhoso na Histria 
dos Feitos de D. Cristvo da Gama (1564), morto na Abissnia em guerra com os 
Muulmanos. J anteriormente Brs de Albuquerque, utilizando as cartas do pai, 
publicara, em 1557, os Comentrios de Afonso de Albuquerque; e Lopo de Sousa 
Coutinho, nobre de alta linhagem, o Livro do Primeiro Cerco de Dio (1556), em que ele 
prprio tomara parte. Deve-se a Antnio de Castilho, guarda-mor da Torre do Tombo, o 
Comentrio do Cerco de Goa e Chaul no ano de 1570 (1572); a Jorge de Lemos uma 
Histria dos Cercos de Malaca (15 85); a Gabriel Rabelo uma Informao das cousas de 
Maluco (1569) sobre a acidentada e escandalosa histria portuguesa nas Malucas. Este 
tipo de historiografia memorialista e de inspirao geralmente senhorial prolongou-se 
at tarde, como o mostra a edio, em 1607, da Histria do Cerco de Mazago, de 
Agostinho Gavy de Mendona. Foi recentemente chamada a ateno para Lus Fris (n. 
1532), autor de uma Histria do Japo e ainda de um Tratado em que se contm muito 
sucinta e abreviadamente algumas contradies dos costumes entre a gente da Europa e 
esta provncia do Japo, parcelarmente editados no original, em tradues japonesa, 
alem e francesa. Foi publicado um conjunto de textos quinhentistas de Enformao das 
Cousas da China, introduo e leitura de Raffiela d'lntino, IN-CM, 1989, na maioria 
dos quais se exalta a justia e a boa administrao chinesa, que Ferno Mendes Pinto 
visivelmente contrape tambm  sociedade europeia.

310

BIBLIOGRAFIA

1. Textos

Manuscrito de Valentim Fernandes, ed. por Antnio Baio, Lisboa, 1940. Pereira, 
Duarte Pacheco: Esmeraldo de Stu Orbis, texto redigido c. 1505-07 de que restam dois 
apgrafos setecentistas, 1. > ed. por Azevedo Basto, Lisboa, 1892; 2. a ed. por 
Epifnio Silva Dias, 1903-04; 3. a ed. por Damio Peres, Lisboa, 1954; ed. Centro de 
Estudos da Guin Portuguesa, Bissau, 1956. (, fundamentalmente, um roteiro da costa 
ocidental africana, precedida de instrues cosmogrficas e nuticas, com precises 
histricas, etnogrfcas e sobretudo econmicas;  nele caracterstico o 
encarecimento da prtica da experincia como *madre de todas as cousas+ alis ligado 
ao acatamento de textos bblicos e de certos autores antigos, a um forte sentimento 
de cruzada anti-islmica; o realismo descritivo conjuga-se com alguma credulidade 
fabulosa, por vezes apresentada de modo testemunhal.)

lvares, Francisco: Verdadeira Informao das terras do Preste Joo das ndias, 1540.
2. a ed., Lisboa, 1889. 3. a ed., da Agncia-Geral das Colnias. Eds. recentes da 
Europa-Amrica, e de Publicaes Alfa, * Biblioteca de Expanso Portuguesa+, Lisboa, 
com grafia modernizada, 1989. Teve ainda, no sc. XVI, trs ed. em castelhano (1557, 
1561 e 1588), duas em francs (ambas de 1558) e uma em alemo (1567).

Tenreiro, Antnio: Itinerrio em que se contm como da ndia veio por terra a 
Portugal. 1. 1 ed., 1560. Reimpresso em 1565, 1725, 1762, 1829, 1923 (juntamente com 
o Itinerrio de Mestre Afonso, que efectuou em 1565 um trajecto semelhante, de Ormuz 
a Lisboa, numa descrio tamb m quase diarista, mas mais descritiva e romanesca, 
atravs de um Mdio Oriente geogrfica e etnicamente muito heterogneo e pitoresco).

Aveiro, Frei Pantaleo de: Itinerrio da Terra Santa, 1. > ed., 1593; reimpresso em
1596, 1600, 1685, 1721, 1732. Ed. modernas, Coimbra, 1927, Lisboa, 1974.

Barreiros, Gaspar., Corografia, Coimbra, 1561. Reed. 1968, *Acta Universitatis 
Conimbrigensis+.

Fructuoso, Gaspar-. Saudades da Terra. O 2. > livro, que muito interessa  histria 
insulana, foi editado por A. Rodrigues de Azevedo em 1873, Funchal, reeditado por 
Damio Peres, Porto, 1926, e, mais recentemente, pelo Instituto Cultural de Ponta 
Delgada, 1968; fragmentos vrios foram publicados no Archivo dos Aores em 1876, e na 
*Revista da Faculdade de Letras do Porto+, 1920. Em 1922, quarto centenrio de Gaspar 
Fructuoso, editaram-se os livros 3. > (reed. 1983) e 4. O (reed. em 3 vols., 1977-81-
85), em 1939 publicou-se o 1. O vol. em Ponta Delgada. O livro Vi teve em 1963 uma 
ed. crtica (reed.

1978), organizada por Oliveira Rodrigues e custeada pelo Instituto Cultural de Ponta 
Delgada, que em 1964 completou a ed. da obra, publicando o livro V (reed. 1983), com 
estudo de J. de Almeida Pavo sobre a poesia e novelstica de Gaspar Fructuoso, e em
1963, e depois em 1984, reeditou o livro 1.  no 2. > livro que se contm a novelesca 
histria do descobrimento da Madeira por Machin e Ana d'Arfet, que recentemente se 
verificou basear-se numa Relao quatrocentista de Francisco Alcoforado, da qual se 
descobriram duas cpias, uma do sc. XVI e outra do sc. XVII, a ltima aproveitada 
por D. Francisco Manuel de Melo na Epanfora Amorosa. A fonte directa de Fructuoso 
parece

         311
ser um Descobrimento da Madeira... de Jernimo Dias Leite, tambm j conhecido em 
mais que uma cpia. Ver informao actualizada e bibliografia nas Palavras Prvias de 
Joo Bernardo de Oliveira Rodrigues  ltima ed. mencionada desse Livro Segundo.

Santos, Frei Joo dos: Etipa Oriental, vora, 1609; 2. > ed. na *Biblioteca de 
Clssicos Portugueses+, 2 vols., 189 1.

Cruz, Frei Gaspar da: Tratado das cousas da China e de Ormuz, vora, 1570. Reed.
1829, tip. Rollandiana. Ed. moderna: Portucalense Editora, Barcelos, 1937. Primeiros 
Escritos Portugueses sobre a China por Galiote Pereira e Gaspar da Cruz, ed. Alfa, 
*Biblioteca da Expanso Portuguesa+, Lisboa (Galiote Pereira  o principal informador 
do livro de Gaspar da Cruz).

Andrade, Antnio de: Novo descobrimento de Gr Cathayo, ou reinos de Tibete, Lisboa, 
1626. Bento de Goes e Antnio de Andrade, Viagens na sia Central em Demanda do 
Cataio, introd. e notas de Neves guas, Europa-Amrica, 1988.

O Roteiro da Viagem de Vasco da Gama de lvaro Velho foi editado por Alexandre 
Herculano e Castelo de Paiva em 1838. Eds. modernas por Fontoura da Costa, 1940,
3. ed. 1969, e ainda, sob o ttulo de Dirio da Viagem de Vasco da Gama, Porto, 2 
vols.,
1945 (fac-smile, transcrio e verso em grafia actual), por Damio Peres, Antnio 
Baio, Magalhes Basto, estudos de Gago Coutinho e F. Hrnerich; Porto, 1 vol., ed. 
fac-similada com breve nota de apresentao por Antnio Cruz, comemorando o V 
centenrio do nascimento de Vasco da Gama (1468?), 1969; e por Joo Pedro Machado e 
Viriato Campos, Lisboa, 1969. Ed. apres. e anotada por Neves guas, Europa-Amrica, 
1987.

A Carta de Pro Vaz de Caminha: ed. de Os Sete nicos Documentos de 1500, por Antnio 
Baio, Agncia Geral do Ultramar, 1940, reed. 1968; ed. com fac-smile, transcrio, 
texto modernizado e estudo, por Jaime Corteso, na col. *Clssicos e Contemporneos+, 
Rio de Janeiro, 1943; ed. com introd. e organizao do texto por Leonardo Arroyo, So 
Paulo, 1963; ed. crtica por J. F. de Almeida Prado, texto e glossrio de M. Beatriz 
Nizza da Silva, col. *Agir+, Rio de Janeiro; ed. crtica por Joaquim Barradas de 
Carvalho, na srie O Descobrimento do Brasil atravs dos Textos, in *Revista da 
Histria+, 33, n. > 65, S. Paulo, Jan.-Maro, 1966; ed. com introd. e notas de M. 
Viegas Guerreiro, leitura de Eduardo Nunes, IN-CM, 1974.

Galvo, Antnio: Tratado dos Descobrimentos antigos e modernos, feitos at  era de 
1550, Lisboa, 1563. Reimpresso em 173 1. Eds. modernas (3. > e 4. >), Porto, Liv. 
Civilizao, 1944, 1987, com pref. do visconde de Lagoa, com reprod. paleogrfica, e

em Publicaes Alfa, *Biblioteca de Expanso Portuguesa+, com grafia modernizada.

Castro, O. Joo de: Obras Completas, contendo, alm dos Roteiros, o Tratado da Esfera 
e Notas, ed. crtica por Armando Corteso e Lus de Albuquerque, 3 vols., Academia 
Internacional de Cultura Portuguesa, Coimbra, 1968-76. A. Fontoura da Costa j fizera 
em

1939-40 a 2. > ed. dos Roteiros, e ainda, em 1940, do Tratado da Esfera e outras 
obras, com prefcios e anotaes. As Cartas foram coligidas e anotadas por Elaine 
Sanceau, Lisboa, 1945.

Dois Roteiros do sc. XVI, de Manuel Monteiro e Gaspar Ferreira Reimo atribudos a 
Joo Baptista Lavanha, introd. e notas de Humberto Leito, Centro de Estudos 
Ultramarinos, Lisboa, 1963.

312
Gndavo, Pro de Magalhes: Histria da Provncia de Santa Cruz, Lisboa, 1576; ed.  
modernas, So Paulo, 1964, e Rio de Janeiro, 1965.

Coutinho, Lono de Sousa: Livro do Primeiro Cerco de Dio, Coimbra, 1556. Ninto ---
Ferno Mendes: Pere rinao, 1. > ed., 1614. Eds. modernas: 1908, com um

9    , importante pref. de Brito Rebelo; Porto, 1930, com pref. de Jordo de Freitas; 
Porto, 1944, com um estudo de Costa Pimpo. Ed. de luxo, acompanhada de texto 
actualizado, por Casais Monteiro, Soc. de Expanso Cultural Luso-Brasileira, 2 vols., 
1952-53. (Inclui duas cartas de Ferno Mendes Pinto quando jesuta e uma Informao 
de algumas cousas da China, de autoria duvidosa.) Ed. em portugus moderno por Maria 
Alberta Meneres, com estudos de vrios autores e documentao grfica, Afrodite, 
Lisboa, 197 1. Ed. conforme a de 1614, organizada por A. J. da Costa Pimpo e Csar 
Pegado, Portucalense Editora, 1944-45, reimpr. 1962; e na col. *Clssicos S da 
Costa+, uma ed. da Peregrinao e outras obras de Mendes Pinto, em 5 vols., com 
pref., notas e texto fixado por Antnio Jos Saraiva, 1981-84. Ed. da transcrio por 
A. Casais Monteiro da ed. de 1614, IN-CM, 1983. Ed. por Anibal Pinto de Castro, Lello 
e Irmo, 1984.  importante, por conter passos eliminados da 1. > ed., a traduo 
espanhola de Maldonado, Herrera: Histria Oriental de Ias Peregrnaciones, Madrid, 
1620.

Correia _Gaspau Lendas da ndia, 1. > ed., dirigida por Rodrigo Feiner, Lisboa,
1858-64, 4 vols.; 2. > (reed. da  1 . a), Lisboa, 1973; reed. em papel bbla, Lello, 
Porto, s/d.

Alibuquer ue Brs de: Comentrios do grande Afonso de Albuquerque, 1. ed., Lisboa, 
1557. Reed. em 1576 e em 1774, Lisboa. Ed. moderna, pref. e dir. de Antnio Baio, 
Coimbra, 1923. 5.1 ed. com estudo de Joaquim Verssimo Serro, 2 vols., IN-CM, 1973. 
Ver ainda Afonso deAlbuquerque: Cartas, ed. de A. Bulho Pato, acompanhada de outros 
documentos, 7 vols., Lisboa, 1884-1935: Cartas para FI-Rei D. Manuel, selec., pref. e 
notas de Antnio Baio, in *Clssicos S da Costa+.

Godinho _Pe Manuel: Relao do novo caminho que fez por terra e mar vindo da ndia 
para Portugal no ano de 1663, ed. com introd. e notas de A. Machado Guerreiro, IN-CM, 
1974; reed. Lisboa, 1944.

H~stria T@rqico-M@art 2 vols., 1735-36.  uma compilao realizada por Bernardo 
Gomes de Brito de folhetos impressos ou manuscritos referentes a naufrgios.

O compilador preparava mais trs vols. da mesma coleco. Com efeito, existem outros 
folhetos sobre naufrgios alm dos que aqui ficaram recolhidos. Os mais antigos 
destes folhetos remontam a meados do sc. XVI: de 1554  a mais antiga ed. da relao 
do naufrgio de Seplveda, annima; de 1564 a dos sucessos do galeo S. Tiago, 
escrita por Melchior Estcio do Amaral. Muitos dos relatos so conhecidos apenas pela 
ed. de Gomes de Brito. O texto das ed. originais foi alterado pelo editor da Histria 
Trgico-Martima. - Iniciou-se uma ed. completa com notas e estudo de Antnio Srgio 
(1956). Ed. em 2 vols., col. *Clssicos+, Afrodite, Lisboa; e ed. da Portuglia 
Editora. Ver informaes sobre coleces e edies monogrficas de narrativas de 
naufrgios do sc. XVI at ao sc. XIX no pref. de Joo Palma-Ferreira a Naufrgios, 
Viagens, Fantasias e Batalhas, IN-CM, Lisboa, 1980, que contm antologia dessas 
narrativas dos scs. XV11-XIX.

Cartas do Japo desde o ano de 1549 at o de 1560 (dos padres jesutas), Coimbra,
1570. Foram reimpressas posteriormente com alteraes e acrescentos. Sousa, p.e 
Celestino de: Oriente Conquistado a Jesus Cristo pelos Padres da Companhia de Jesus 
da Provncia de Goa, col. *Tesouros da Literatura e da Histria+, 1978.

          313
Viagens dos Descobrimentos, org., introd. e notas de Jos Manuel Garcia, Editorial 
Presenca, 1983 (textos de Diogo Gomes, Cadamosto, Usodimare - traduzidos ou 
retraduzidos - e de lvaro Velho, Pro Vaz de Caminha, entre outros).

Santa Maria da Barca, trs testemunhos de um naufrgio (1557), introd. e leitura de 
Giulia Lanciani, IN-CM, 1983.

Est por estudar, sob o ponto de vista literrio como sob o histrico, a col. de 61 
vols. de documentos intitulada *Jesutas na sia+, existente na Biblioteca da Ajuda, 
em cpias setecentistas de que se descobriram os originais em Madrid (ver *Brotria+, 
vol,
92, 1961, Janeiro). Josef Wicki iniciou em 1947 a publicao de 10 vols. de Documenta 
Indica. Em Coutinho, Bernardo Xavier: Bibliographie Franco-Portugaise, Porto, 1939, 
encontram-se numerosas referncias, cronologicamente ordenadas desde 1468, a verses 
francesas, latinas e outras de textos de histria e documentos de expanso 
ultramarina, militar e missionria. Uma obra testemunhal: Silveira, Francisco 
Rodrigues: Memrias de um Soldado da ndia, relativas ao perodo entre 1585 e 1589, 
ed. Lisboa, 1877, com arrumao e explicaes de A. de S. S. Costa Lobo, reimp, 1988, 
IN-CM.

Bair_bosaDuarte. O Livro de.--- ed. M. Trigoso na *Col. de Notcias para a Histria e 
a Geografia das Naes Ultramarinas ... +, t. I I, Lisboa, 1913; Livro em que se d 
relao do que viu e ouviu no Oriente.... ed. R. Machado, Lisboa, 1946; Uma Geografia 
Quinhentista, ed. L. Ribeiro, *Studia+, n. > 7, Lisboa, 196 1; Livro do que viu e 
ouviu no Oriente.--- ed. Alfa, Lisboa, 1989. Aguarda-se uma ed. crtica de trs 
cpias ms. desta obra existentes na Biblioteca Nacional de Lisboa e na Torre do 
Tombo.

Nire_sTorn. Suma oriental, ed. por Armando Corteso, Coimbra, 1944 e 1978.

Entre os trabalhos onde se inventariam itinerrios ou roteiros contam-se: os tomos V 
e Vi das Obras Completas do Cardeal Saraiva, Lisboa, 1875-76; os 7 tomos da Coleco 
de Notcias para a histria e geografia das naes ultramarinas, Academia das 
Cincias, 1812-56; e Viagens da  ndia e Portugal por terra e vice-versa, de Sousa 
Viterbo, Coimbra, 1898.

2. Antologias

Peregrinao de Ferno Mendes Pinto, selec., pref. e notas de Rodrigues Lapa, S. ed., 
*Clssicos do Estudante+, S da Costa, 1977.

Peregrinao, selec., resumos, glossrios por Joo David Pinto Correia, col. *Textos 
Liteirrios+, 1979, reed. 1983 (com uma muito informativa e condensada apresentao).

Ferno Mendes Pinto, por Antnio Jos Saraiva, col. *Saber+. H uma antologia da 
Peregrinao org. por Jos Manuel Garcia Gravata em 4 cassetes, com leitura de Lus 
Lima Barreto, Dom Quixote, 1989.

Quadros da Histria Trgico-Martima, por Rodrigues Lapa, col. *Textos Literrios+. 
Srgio, Antnio: Naufrgios e Combates no Mar, 2 vols., Lisboa 1950 (com um estudo de 
Jaime Corteso). Histria Trgico-Martima (Naufrgios do galeo grande S, Joo, nau

S. Bento e nau Santiago), Portuglia, Lisboa, 1966. . As Grandes Viagens Portuguesas, 
por Branquinho da Fonseca, col. *Antologias Universais+ (alm de relatos mais 
modernos, contm o Roteiro de lvaro Velho, a Carta de

314
Pro Vaz de Caminha, trechos do Itinerrio de Tenreiro e do Descobrimento do Gro 
Cathayo de Antnio de Andrade); uma 2. 8 srie, ed. 1966, contm, entre outros, 
trechos de Cadamosto, Pigafetta, P.e Francisco lvares e Pro Lopes de Sousa.

Historiadores Quinhentistas (inclui Gaspar Correia), introci., selec. e notas de 
Rodrigues Lapa, *Textos Literrios+.

A Revoluo da Experincia: Duarte Pacheco, D. Joo de Castro, pref. e notas de Joo 
de Castro Osrio, Lisboa, 1947.

Ferno M. Pinto, A. Tenreiro et alii, Peregrinao, Itinerrio, Tratado das Cousas da 
China, introd, Anbal Pinto de Castro, col. *Tesouros da Literatura e da Histria+, 
1984.

A Literatura de Wagens nos Sculos XVI e XVII, apres., selec., fixao do texto, 
notas por Manuel Simes, *Textos Literrios+, Comunicao, 1985 (com ampla 
bibliografia e referncia a relatos no includos na colectnea de Gomes de Brito).

3. Estudos

Constituem boa iniciao os pref. de Rodriques Lapa aos vols. antolgicos acima 
indicados. Ver Cidade, Hemni: A Literatura portuguesa e a expanso ultramarina, vol. 
1, 2. a

ed., ref. e ampi., Coimbra, 1963, vol. li, ibidem, 1964, que se refere ainda a 
autores quinhentistas, embora incida sobretudo em obras dos scs. XVII e XV111; do 
mesmo autor, Lices de Cultura e Literatura Portuguesa, 6. > ed ., 1. O vol., 198 1.

Ferno Mendes Pinto:

Aires, Cristvo: Ferno Mendes Pinto, Subsdios para a sua biografia e para o texto 
da sua obra, in Histria e Memrias da Academia Real das Cincias, nova srie, 11 
classe, Lisboa, 1904; e Ferno Mendes Pinto e o Japo. Pontos controversos, Lisboa, 
1906.

Lagoa, Visconde de: A Peregrinao de Ferno Mendes Pinto: Tentativa de 
reconstituio geogrfica, in *Anais da Junta das Misses Geogrficas+, vol. li, t. 
1, Lisboa, Junta das Misses Geogrficas e das Investigaes Coloniais, 1947.

Gentil, Georges le: Ferno Mendes Pinto, un prcurseur de 1'xotisme au XVie scle, 
Paris, 1947.

Saraiva, A. Jos: Histria da Cultura em Portugal, vol. 111 e o vol. acima mencionado 
sobre Ferno Mendes Pinto (recenso em Lopes, scar: Ler e Depois, 2. > ed., Porto, 
1969).

Pinho, Clemente Segundo: A Linguagem de Ferno Mendes Pinto, segundo um sistema de 
conceitos, tese de docncia livre, 2 vols. copiografados, Araraquara, So Paulo,
1966.

Erilde Malilia Reale, que em 1970 deu  estampa uma trad. italiana, Peregrinazione
1537-58, Longanesi e C., Milo,  tambm autora de Note sull'esotismo linguistico 
nella Peregrinao de F. M. Pinto, in *Annali Sezionne Romanza+, 9, n. 2, Npoles, 
1969, e de Una *Peregrinao+ inconclusa, Quaderni Portoghesi, n. O 4, Pisa, 1978, 
adiante referida.

Cirillo, Teresa: Note sulle Traduzione di Herrera Maldonado delia * Peregrinao+ di 
F. Mendes Pinto, in *Annali+, Istituto Universitario Orientale, 19, 2, Npoles, 1977.

Catz, Rebecca: A Stira Social de Ferno Mendes Pinto - Anlise Crtica de 
Peregrinao, Prelo Editora, Lisboa, 1978; F. Mendes Pinto - Stira e anticruzada na 
*Pere-

          315
grinao+, *Biblioteca Breve+, ICALP, Lisboa, 198 1; Cartas de F. Mendes Pinto e 
outros documentos (de colab. com F. Mendes Rogers), Presena, IN-CM, Lisboa, 1983.

Rossi, Giuseppe Cario: Ancora su Ferno Mendes Pinto, in *Annali+, Istituto 
Universitario Orientale, XV, 2, Npoles, 1973, pp. 235-268.

Margarido, Alfredo: La multiplicit des sens dans 1'criture de Ferno Mendes Pinto 
et quelques problmes de Ia littrature de voyages ou xvie sicle, in *Arquivos+ do 
Centro Cultural Portugus, vol. 11, Paris, pp. 159-200, 1977; F. Mendes Pinto. Um 
heri do quotidiano, in *Colquio/Letras+, 74, Julho 1983, pp. 23-28.

Flores, A./Gomes, R. V./Sousa, R. H. P. de: Ferno Mendes Pinto - subsdios para a 
sua bio-bibliografa, Cmara Municipal de Almada, 1983.

Barreto, Lus Filipe: Introduo  *Peregrinao+ de F. Mendes Pinto, in Contente, 
F./Barreto, L. F. (orgs.): A Abertura ao Mundo. Estudos da Histria dos 
Descobrimentos Europeus, 1. vol., 1987, pp. 101-117.

Correia, J. David Pinto: Para uma nova leitura da *Peregrinao+         1, in 
*Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa+, srie 101. >, 7-12, 1983, pp. 217-228.

Picchio, L. Stegagno: Ferno Mendes Pinto e a sua *Peregrinao+, ibidem, p. 229 e 
segs.

Hart, Thomas R.: Sty1e and substance in the *Peregrination+, in *Portuguese 
Studies+, 2, Londres, pp. 49 e segs.; Pleasant HarmIess Lies, F. Mendes Pintos 
Peregrination, in *Boletim de Filologia+, t. 29, 1984, pp. 220-230.

Outros textos de descrico local e de viagens:

Carvalho, J. Barradas de: As Fontes de Duarte Pacheco Pereira no *Esmeraldo de Situ 
Orbis+, So Paulo, col. *Revista de Histria+, 1967, e anteriormente, nessa revista, 
desde vol. 31, n. > 62, Abril-Junho 1965, at vol. 33, n. > 68, Out.-Dez. 1965; e As 
Edies e Tradues do *Esmeraldo de Situ Orbis+, ibidem, vol. 39, n. 59, Jul.-Set. 
1964.

Carvalho, Margarida Barradas de: L'Idologie religieuse dans Ia *Carta+ de Pro Vaz 
de Caminha, in *Builetin des tudes Portugaises+, t. XX11, 1959-60.

Boxer, C. R.: An introduction to the *Histria Trgico-Maritima+, in *Revista da 
Faculdade de Letras de Lisboa+, 111 srie, n. > 1, 1957; e art. sobre Ferno Mendes 
Pinto na Encyclopaedia Britannica, vol. 17 (1965).

Alves, Jos: Sento de Gis em demanda do Cataio, in *Brotria+, LXXV, n. 2-3, 
Agosto-Setembro 1962.


Andrade, A. A. Banha de: Gaspar Correia indito, Coimbra, 1977. Losa, A.: O 
*Itinerrio+ de Antnio Tenreiro. O Islo visto por um portugus de Quinhentos, *Atti 
dei Terzo Congresso di Studi Arabi e lslamici+, ed. Istituto Universitario Orientale, 
Npoles, 1967; Aubin, Jean: Pour une  tude critique de l'*Itinerrio+ dAntnio 
Tenreiro, in *Arquivos do Centro Cultural Portugus+, vol. 3, Paris, 1971.

Chaves, Maria Adelaide Arala: Formas de Pensamento em Portugal no sc. XV, Lisboa 
1970. (Abrange relatos do manuscrito de Valentim Fernandes e outros datados at 
1516.)

Mendes, J. Sousa: Ainda o chamado *Dirio+ da Viagem de Vasco da Gama, no suplemento 
literrio de *0 Comrcio do Porto+, 1972-02-22 e 1972-02-14. (Discute, nomea-

316
damente, o ttulo, o texto e o autor, e aponta a verosimilhana de uma influncia 
directa em Os Lusadas.)

Sanceau, Elaine: O. Joo de Castro, trad. por A. lvaro Dria, Porto, 1946, reed. 
1956. Asensio, Eugenio: Un Relato rabe Recojido por O. Jo o de Castro, in Estudos 
Portugueses, F. C. Gulbenkian, Paris, 1974.

Acerca de Lus Fris, nomeadamente da sua bibliografia em portugus, japons, alemo 
e francs, ver o artigo Um Clssico Portugus por Descobrir: Lus Fris, por Armando 
Martins Janeiro, in *Colquio/Letras+, 36, Maro 1977.

Aquarone, J. B.: O. Joo de Castro, gouverneur et vice-roi des Indes Odentales, 2 
tomos, P.U.F., Paris, 1968. (Essencialmente biogrfico.)

Matos, Lus de: A *Utopia+ de Toms Moro e a expanso portuguesa, in *Estudos 
Polticos e Sociais+, IV, n. 1 3, 1966.

O n. > 4 de Quaderni Portoghesi, Giardini editori, Pisa, Outono de 1978,  dedicado  
histria e  literatura da expanso quinhentista portuguesa, contendo, entre outros 
estudos, os seguintes: Pizzorusso, Valeria Bertolucci: Uno sptettaculo per i/ Re: 
Pinfanzia di Adamo nella *Carta di Pero Vaz de Caminha+, pp. 49-82; Reale, Erilde 
Melilla: Una *Peregrinao+ inconclusa, pp. 10 1 - 134; Cirillo, Teresa: Francisco de 
Herrera Maldonado apologeta d Ferno Mendes Pinto, pp. 183-198.

Lanciani, Giulia: Os Relatos de naufrgios na literatura portuguesa dos sculos XVI e 
XVIL * Biblioteca Breve+, Instituto de Cultura Portuguesa, 1979. (Faz um balano de
19 relatos do sc. XVI e evidencia, nomeadamente, fontes, motivos e variantes da sua 
estrutura narrativa. Extensa bibliografia.)

Graa, Lus: A Viso do Oriente na Literatura de Viagens: Os Viajantes Portugueses e 
os Itinerrios Terrestres (1560-1670), IN-CM, 1983.

Barreto, Lus Filipe: Descobrimentos e Renascimento, IN-CM, 1983 (analisa obras de 
Zurara, lvaro Velho, Duarte Barbosa, Torn Pires, Duarte Pacheco Pereira e Garcia de 
Orta), e Caminhos do Saberno Renascimento Portugus, IN-CM, 1985 (analisa, 
nomeadamente, obras de D. Joo de Castro e Garcia de Orta).

Godinho, Vitorino Magalhes: Entre Mito e Utopia: os Descobrimentos, a construo do 
Espao e inveno da Humanidade nos sculos XVe XVI, in *Revista de Histria 
Econmica e Social+, n. 12, Julho-Dez. 1983, pp. 1-44. (Sntese excelente.)


Margarido, Alfredo: Une incursion sociologique dans le domaine de Ia critique 
textuelle. A propos de I'*Histria Trgco-Martima+, in Critique Textuelle 
Portugaise, Centre Culturei Portugais, F. C. Gulbenkian, Paris, 1986, pp. 243-257. 
(Sociologia da produo e recepo dos relatos de naufrgios desde 1555, e sobretudo 
desde 1564, e da recolha selectiva por Gomes de Brito.)

Captulo VIII

LUIS DE CAMES

CAMES: Vida e obras

A biografia e a bibliografia de Lus Vaz de Cames levantam numerosos problemas 
insolveis por falta de dados. Alguns factos apurados como certos, ou mais provveis, 
atravs de documentos oficiais (registos das armadas, carta de perdo, cartas de 
tena ou pagamento), de memrias conservadas pelos primeiros bigrafos, que 
conheceram o poeta ou contemporneos dele, e de aluses autobiogrficas precisas na 
sua prpria obra, permitem formar uma ideia geral do que foi a vida de Cames.

Nascido em 1524 ou 1525 >, de uma famlia provavelmente oriunda da Galiza, quando 
novo, rodou na rbita de centros aristocrticos (talvez mesmo a corte), e frequentou 
ao mesmo tempo a bomia de Lisboa. As suas cartas particulares mostram-no envolvido 
em brigas nocturnas entre bandos, com outros fidalgos arruaceiros e com mulheres 
fceis do Bairro Alto. Fosse pelo que fosse, esteve fora do crculo dos letrados, 
especialmente daqueles que constelavam em torno de S de Miranda. Talvez uma vida 
desassossegada e aventurosa o desclassificasse perante os graves desembargadores e 
homens

de Letras, cujo tipo mais representativo foi o seu contemporneo Dr. Antnio 
Ferreira. Acabou esta fase da sua vida na priso do Tronco, por causa de uma rixa em 
que feriu

com um golpe de espada um funcionrio do Pao. Obteve a liberdade com a promessa de 
embarcar para a ndia, para onde seguiu em 1552 como simples homem de guerra.

A estadia no Oriente foi acidentada. Assinalamo-lo no s em Goa, mas ainda no golfo 
Prsico, em Ternate, no desempenho de um cargo de provedor de defuntos e ausentes

1 Segundo o registo da Armada de 1550, que lhe atribui 25 anos, publicado por Faria e 
Sousa. Este documento deve presumir-se verdadeiro, visto corrigir-se a data de 
nascimento

anteriormente adoptada pelo prprio Faria e Sousa (1517).

318
em Macau, na costa da Cochinchina, onde naufragou, perdendo os haveres, e salvando-se 
a nado com o manuscrito d'Os Lusadas, episdio que assinalou no prprio poema. Em 
Goa enredou-se em complicaes que o levaram de novo  cadeia, por dvidas. No lhe 
faltaram, todavia, relaes e talvez proteces, que alis procurou: perante o 
governador Francisco Barreto representou o Auto do Filodemo; sobre o vice-rei D. 
Constantino de Bragana comps uma ode, em que o defende contra crticas ou censuras 
de que era objecto e lhe promete a imortalidade nos seus versos; com o vice-rei 
Francisco de Sousa Coutinho teve relaes amistosas. De um deles obteve a nomeao 
para a feitoria de Chaul, mas no chegou a ocupar o cargo. Manteve ainda relaes de 
camaradagem ou convivncia corri Diogo do Couto, o continuador das Dcadas, e com o 
Dr. Garcia de Orta, para cujo Dilogo dos Simples e Drogas escreveu uma ode de 
recomendao ao vice-rei. Em 1567, quando, aps tantos anos de estadia no Oriente, as 
dificuldades econmicas o afligiam mais do que nunca, um amigo nomeado como capito 
para Moambique promete-lhe a um emprego e adianta-lhe o pagamento das passagens; 
tal estadia moambicana serviu-lhe de escala de regresso a Lisboa, pois cerca de dois 
anos depois  um grupo de outros amigos, em trnsito para a Metrpole, que se cotiza 
entre si para o resgate das dvidas entretanto contradas e para a sua viagem at 
Lisboa. Aqui chegou, em 1569; trazia na bagagem Os Lusadas, que logo tratou de 
editar; entretanto fora-lhe roubada uma colectnea de poemas lricos, o Parnaso 
Lusitano, segundo o seu companheiro Diogo do Couto. Aps a publicao d'Os Lusadas 
(1572) alcanou uma tena trienal, alis modesta, e nem sempre paga com regularidade. 
O seu nome comeou a

correr; composies lricas suas, e at cartas, foram recolhidas em cancioneiros 
particulares manuscritos; mas s comearam a ser publicados a seguir  sua morte no 
Cancionciro de Lus Franco Correia (1580). Os ltimos anos foram de misria, segundo 
os tes~

temunhos mais prximos. O seu enterro (1579 ou 1580) teve de ser feito a expensas de 
uma instituio de beneficncia, a Companhia dos Cortesos.

Em alguns passos da obra atribui Cames a responsabilidade dos seus desastres a 
amores infelizes: mas no passa de romance biogrfico sem fundamento tudo o que desde 
o sculo XVII at ao 1. 1 quartel do sculo XX se tem imaginado acerca de desterros 
ou perseguies devidos a amores infelizes por uma alta dama do Pao, seja ela 
Catarina de Atade ou a infanta D. Maria. A nica coisa segura  que amores diversos 
e diversamente sucedidos desempenham um papel importante na vida deste poeta, que 
poderia aplicar a si prprio o verso de Bernardim: *Fui e sou grande amador+.

Algumas caractersticas gerais da poesia camoniana

Escreveu August-Wilhelm SchIegel que Cames, s por si, vale uma literatura inteira. 
Esta observao fundamenta-se decerto no facto de a obra multifacetada de Cames 
abranger diversas correntes artsticas e ideolgicas do

 319
sculo XVI em Portugal, ser elaborada sobre uma experincia pessoal mltipla que 
nenhum outro escritor contemporaneo realizou, e de, enfim, este poeta ter sido capaz 
de dar forma lapidar e definitiva a um conjunto de ideias, valores e tpicos 
caractersticos da sua poca. Quase tudo o que se manifestou na literatura de 
Quinhentos, atravs de autores to diferentes como Bernardim Ribeiro, Antnio 
Ferreira, Ferno Mendes Pinto, Joo de Barros, e at Garcia de Orta ou Duarte Pacheco 
Pereira, encontra eco na

lrica ou na pica de Cames.

Comparado com ele, qualquer dos mais notveis escritores qunhentistas nos aparece 
incompleto, embora por vezes mais profundo neste ou naquele aspecto particular. Se o 
compararmos com os poetas humanistas, torna-se evidente que nenhum deles pde 
exprimir a experincia vivida na guerra e da vida oriental,  da cadeia e de fome:

Agora peregrino, vago, errante, vendo naes, linguagens e costumes, cus vrios, 
qualidades diferentes...

Agora com pobreza aborrecida por hospcios alheios degradado; agora da esperana j 
adquirida de novo mais que nunca derribado; agora s costas escapando a vida que de 
um fio pendia to delgado.

Poucos poderiam tambm, com tanto conhecimento de causa, referir-se s

injustias daqueles que o confuso regimento do mundo, antigo abuso, fez sobre os 
outros homens poderosos.

Se, por um lado, compararmos Cames com os experimentados viajantes e aventureiros 
portugueses do sculo XVI, sentimos imediatamente a diferena entre o humanista que 
medita a sua experincia a luz de uma cultura elaborada, e os simples anotadores 
empricos de casos curiosos ou espantosos:

Nem me falta na vida honesto estudo com longa experincia misturado.

320
Por outro lado, ainda, como nenhum outro, Cames soube realizar a sntese entre a 
tradio literria portuguesa (ou antes peninsular) e as inovaes introduzidas pelos 
italianizantes. Foi o melhor poeta portugus de escola petrarquista, e, ao mesmo 
tempo, o mais acabado artfice da escola do Cancioneiro Geral, na redondilha e no 
mote glosado. Foi o poeta que, finalmente, produziu uma epopeia, aspirao literria 
do Renascimento portugus, refundindo tpicos que Antnio Ferreira e outros apenas 
fragmentariamente formularam. De entre os principais gneros clssicos, s no 
cultivou a tragdia.

Viajante, letrado, humanista, trovador  maneira tradicional, fidalgo esfomeado, numa 
mo a pena e noutra a espada, salvando a nado num naufrgio, manuscrita, a grande 
obra da sua vida, Cames assumiu e meditou a experincia de toda uma civilizao 
cujos conflitos viveu na sua carne e procurou superar pela criao artstica.

CAMES: Alguns aspectos formais da Lrica

Como j notmos, seguindo S de Miranda e afastando-se de Antnio Ferreira, Cames 
cultivou igualmente a escola tradicional em redondilha maior e menor (vilancetes, 
cantigas e outras composies obrigadas a mote, quintilhas, etc.) e os gneros em 
hendecassflabo. Num e noutro metro escreveu em portugus e castelhano. Por a ele 
constitui uma ponte entre certa tradio peninsular representada pelo Cancioneiro 
Geral e os seiscentistas.

Cames atingiu uma mestria do verso que deixa para trs os seus antecessores em 
redondilha ou em decassilabo. A arte com que narra uma curta

histria (como em Sete anos de pastor Jacob servia), ou estiliza o discurso interior 
(como na cano Vnde c ou nas redondilhas Sobre os rios), ou

desenvolve musicalmente, como que sem discurso, um tema tradicional (voltas ao mote 
Saudade minha), ou discorre de modo reflexivo (Mudam-se os tempos, mudam-se as 
vontades), fazem de Cames, pela diversidade do registo, pelo poder de sntese, pela 
flu ncia, pela adequao exacta a um sentir que se est pensando ou a um pensar que 
se est sentindo - o maior poeta portugus antes de Fernando Pessoa.

A variedade do ritmo camoniano evidencia-se nas canes e nas odes, graas  
liberdade que estas formas concedem, de um para outro poema,

321
na combinao estrfi ca entre decasslabos e hexassilabos, com predomnio destes 
ltimos nas odes, por isso ritmicamente mais leves. Note-se que algumas clogas no 
passam de canes ou odes dialogalmente cruzadas ou justapostas, sob uma conveno 
pastoril ou piscatria. Mas as redondilhas esto geralmente no plo oposto: enquanto 
as canes parecem tender para a confidncia queixosa, as redondilhas deixam-nos ver 
o autor lapidando os seus estados de esprito em lavores de joalharia verbal com que 
ele mesmo parece divertir-se. Muitas destas composies so caracterizadas por um 
humor s vezes enternecido, com que o poeta se d o espectculo dos seus prprios 
pensamentos e sentimentos, a desprenderem-se dele e a moverem-se na sua sem-razo e 
nas suas contradies, caso de Perdigo perdeu a pena. Esta tendncia faz de Cames 
um dos precursores do conceptismo de Seiscentos.

J a poesia do Cancioneiro Geral tendia, como vimos, a insistir no formalismo das 
antteses, paradoxos e comparaes. Cames, seguindo a mesma

veia, brinca com os paradoxos, utiliza as imagens de maneira mais gil; e

o que sabia a escolasticismo no Canconeiro Geral ganha agora uma graa livre, onde o 
mito consciente e a hiprbole formular se confundem, caso das redondilhas em que 
atribui aos olhos de Helena a verdura dos campos, ou exalta o encanto da pastora que, 
com a luz dos olhos, faz parar a corrente de gua.  sobretudo nestas composioes e 
anlogas, onde abundam exemplos de *discurso engenhoso+, que encontramos a transio 
do Quinhentismo para a poesia seiscentista, a qual em Espanha preferiu os gneros em 
redondilha aos gneros decassilbicos.

No seu conjunto, a esttica da redondilha camoniana talvez se possa comparar  das 
fases finais do estilo gtico, como a flamejante ou a manuelina, pela desenvoltura 
formalista mais oficinal do que individualizada dos seus

moldes, pelo carcter prefixado e impessoal dos trocadilhos, das imagens (j 
reduzidas a emblemas usuais), pelo seu jogo consumado de ambigudades que s a 
entoao viva desfaz. Nesta arte de poetar como quem est fazendo glosas, Cames 
lana, por assim dizer, uma ponte que, em arco sobre

o seu prprio estilo clssico renascentista (muito mais discursivo e geornetricamente 
racional), parece unir o gtico de Quatrocentos ao barroco de Seiscentos, ambos mais 
dados  encantao verbal.

Cames encontra usos superiores para recursos tradicionais: por exemplo, toda uma 
teoria psicolgica para o duplo significado da palavra pena.

322
Com imagens-smbolos formulares, consegue impor por monientos ao esprito do leitor 
um senso do real bem diferente do senso comum: certas qualidades tornam-se coisas 
substantivas, se no mesmo elementos ou essncias, tais o verde, a luz dos olhos 
amados; ou, pelo contrrio, como que descobre as qualidades neve, fogo, gua - 
dizemos qualidades e no coisas, porque tais palavras trazem apenas  poesia o matiz 
afectivo despertado por certas associaes de ideias ou impresses.

Se passarmos s formas de origem italiana, revelam-se-nos outras tendncias dos 
tormentos do amor, desde o xtase perante a bela figura que na alma do poeta se 
pinta, desde o doce engano inicial, at s consequncias das mudanas, externas e 
internas, verdadeiras metamorfoses em que se opera um seu absoluto transformar-se na 
vontade amada. Sem nunca deixar de ser *homem formado s de carne e osso+, o Poeta 
impe-se todavia um verdadeiro martrio-testemunho de f amorosa: *sofra, seus males, 
pera que os merea+.

As cIogas, onde Cames reconhece explicitamente o seu dbito a Virglio e a 
Sannazzaro, constituem, pelas convenes prprias do gnero, a

menos interessante seco da *medida nova+ camoniana, embora a de Almeno e Agrrio 
contenha interessantes confisses sobre o amor (que no se verificaria seno onde  
ilcito e perigoso), e a chamada dos Faunos seja a melhor expresso de uma filosofia 
pan-ertica alis antiga: o amor estaria, por essncia eterna, presente a tudo quanto 
aumenta ou simplesmente se mantm na natureza, sendo por seu intermdio que se 
reforma a matria.

Ritmicamente mais montonas, na sua rgida cadncia decassilbica, as

elegias, como entre os Gregos acontecia, no apresentam qualquer especificidade clara 
de temas ou de tom, destacando-se entre elas a autobiogrfica
O poeta Simnides, falando. As oitavas, sempre endereadas a altas personagens, 
correspondem um pouco ao sirvents moral ou poltico provenal, merecendo relevo as 
que dedica ao Desconcerto do Mundo, ou em que intercede a favor de uma mulher que, na 
ausncia do marido no Ultramar e apertada pela misria, se prostitura, e que por 
isso a hipocrisia da lei condenara ao degredo para a ndia, expondo-a a todas as 
violncias da marinhagem e da soldadesca.

As odes, metricamente, so as mais graciosas composies da *medida nova+, na sua 
intentada correspondncia  estrofe alcaica ou sfica; acusam

323
muitas vezes o magistrio de Horcio e, de acordo alis com isso, assentam geralmente 
em aluses mitolgicas; mas entre elas contam-se duas obras-primas, Nunca manh 
suave, encantadora sntese entre a eloquncia corts, ironicamente galante, e a mais 
larga partitura fraseolgica do petrarquismo renascentista, e Pode um desejo imenso, 
uma das mais convincentes meditaes sobre o amor que o neoplatonismo inspira.

No entanto, o terreno eleito da meditao de largo flego , em Cames, a cano, 
forma a que deu uma cerrada contextura reflexiva muito sua, sem

deixar de aproveitar nisso todos os materiais de escola petrarquista italiana, 
espanhola e portuguesa. A can o camoniana  um desabafo a ss, que nem as 
apstrofes nem, por vezes, as convenes epistolares romanas (tempos verbais ou 
advrbios de lugar determinados sob o ponto de vista do destinatrio e no do 
redactor: estive em vez de estou, ali em vez de aqui) conseguem disfarar, pois o 
remate, ou commiato, onde o poeta acaba por se dirigir  prpria cano, se encarrega 
de sublinhar o seu isolamento, e at a gratuitidade de um tal desafogo entregue aos 
ventos. No admira, pois, que a mais extensa cano, Vnde c, meu to certo 
secretrio, fale ao prprio papel onde  escrita e assuma o carcter de um balano 
autobiogrfico, em

busca de um sentido para a vida; e que outra das mais conhecidas, Junto de um seco, 
fero, estril monte, muito circunstanciadamente localizada junto ao mar Vermelho, 
aprofunde a inquirio bernardiniana acerca das razes, sucessivamente mais radicais, 
do seu sentir-se muito infeliz. Pela extraordinria fluncia, Vo as serenas guas 
aproxima-se das odes. Mas  nas trs verses, mais complementares do que 
jerarquizveis segundo uma ordem de aperfeioamento, de Manda-me Amor que cante 
docemente (ou Manda-me Amor que cante o que a alma sente) -  a que o poeta melhor 
apura a intensidade e os resultados da sua reflexo sobre o amor. Cames no elimina 
os lugares-comuns, motivos e figuras retricas de tradio petrarquista e 
neoplatnica; mas tem a coragem de perseguir at s mais ousadas consequncias os 
paradoxos, analogias e hiprboles da escola - e os resultados dessa aparente aposta 
num jogo de conceitos, precursora do conceptismo seiscentista, revelam-se por vezes 
extraordinrios: Cames descobre a o movimento mais ntimo, onde o eu e o no-eu, o 
desejo e a razo se convertem reciprocamente, e isso numa tenso extrema em que (o 
poeta o proclama) * mais o que canto que o que entendo+.

324
Assim, a sua to insistente hiprbole segundo a qual a beleza amada irradia espritos 
que sensibilizam os seres brutos, insensibilizando em contrapartida o poeta, 
converte-se em expresso (que apetece j chamar expressionista) de um estado de alma, 
e de um modo to audaciosamente directo, mtico (neste, como alis noutros seus 
passos), que a cano nos deixa perplexos acerca dos limites a traar entre o eu e o 
no-eu: Porque haveria de ser mais verdadeira a paisagem quando no incendiada pelo 
seu desejo exttico, a paisagem vista por um estado de alma banal? Mas tal 
perplexidade radical legitima, por seu turno, a metamorfose do apetite, ou desejo 
carnal, em razo (*que era razo ser a razo vencida+), momento decisivo, em que 
afinal o idealismo neoplatnico e, com ele, a tica crist medieval do amor, se 
negam. E assim se evidencia existir um movimento imanente s prprias categorias 
lgicas e morais humanas; evidncia alis assustadora para o poeta, que por isso logo 
a consagra como manifestao divina, postulando ao mesmo tempo para tal evidncia um 
novo pensamento que supra as carncias do pensamento vulgar, uma nova adequao 
mental ao ser-e-no-ser, ao eu-e-no-eu das transformaes radicais, que *sai pela 
boca convertido em canto+.

No soneto atinge o poeta uma admirvel e rara variedade. Deve advertir-se que, pela 
sua brevidade e pela sua estrutura, o soneto se presta a exerccios de engenho, como 
o vilancete e outras formas tradicionais; embora, por outro lado, a sua disposio em 
duas quadras e dois tercetos favorea um discurso em tese e anttese, seguidas de 
concluso e desfecho sentencioso; e, por outro ainda, essa mesma brevidade seja 
apropriada a uma grande concentrao emocional. Por isso o soneto foi preferido por 
poetas to diferentes como

Sror Violante do Cu, Bocage, Antero de Quental e Florbela Espanca. Cames usa 
largamente esta disponibilidade, variando imensamente o registo fraseolgico, numa 
gama que, por exemplo, se estende desde a aparente narrativa unilinear de Sete anos 
de pastor Jacob servia at  plangncia magoada dos tercetos de Alma minha gentil,  
reflexo como que pr-hegeliana de Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e ao 
remate subtilmente intrigante de Busque Amor novas artes, novo engenho. s vezes, 
como nas

canes, vem um golpe de gnio animar um mero jogo de analogias conceptuais, o que 
acontece no primeiro terceto de Quando a suprema dor muito me aperta. Cames utiliza, 
porm, muitas vezes o esquema geral,

325
aparentemente dedutivo, como simples quadro de referncia para variaes; se usarmos 
terminologia da lgica clssica, diremos que o silOgiSmo se reduz com frequncia aos 
dois termos do entimema, ou se amplia num encadeamento polissilogstico; outras 
vezes, o quadro lgico fundamental mantm-se, mas todo o calor emotivo se concentra 
nos momentos pretensamente preparatrios:  o caso da srie de paradoxos de Amor  um 
fogo que arde sem se ver, ou de Um mover de olhos, brando e pcdoso, em que o Poeta 
usa as contradies seriadas, no para explicar um sentimento dado por introspeco, 
mas para descrever um temperamento feminino, e em que cada oximron, ou paradoxo 
frasicamente muito concentrado, dilui os seus

contornos conceptistas num belo uso do artigo indefinido e do encavalga- mento 
mtrico. Sob o ponto de vista estritamente rtmico, no  menos admirvel a sugesto 
de repouso fatigado e de imensidade espacial produzida pela enumerao suspensa, 
reticente e quase anacoltica do soneto O cu, a terra,
* vento sossegado.

O tom confitente e o individualismo exacerbado pela hostilidade do meio,
* inconformismo que luta pela sobrevivncia, expressos com uma intensidade

que no tem paralelo em qualquer outro escritor clssico, conferem ao Cames

de algumas canes e sonetos um carcter congnere daquele a que se convencionou 
chamar *romntico+. Mas, no meio deste desabafo, o Poeta conseirva-se sempre atento 
ao desenrolar dos seus estados de esprito,  sucesso das emoes, recordaes, 
desejos, pensamentos, s respectivas contradies e aparente irracionalidade.  uma 
inquirio que procura sada para as aspiraes mais ntimas, atravs das mudanas de 
um mundo hostil e impossvel de ignorar na sua objectividade. A realidade desse mundo 
 incomensurvel com os ideais cavaleirescos ou letrados, com a tica religiosa 
medieval, com a razo classificatria escolstica, com o estilo literrio 
tradicional. A sua apreenso e ainda a da sua relao dialctica com o esprito 
exigem um esforo inovador para romper o verbalismo que ainda predomina na maior

parte das composies em redondilhas. Obrigam a retoques descritivos, a

um novo uso dos recursos aprendidos nos clssicos antigos e modernos, ao acmulo de 
comparaes aproximativas, e a verdadeiras inovaes metafricas, em vez de (como nas 
redondilhas) simples glosas sobre frases e meras

combinaes de smbolos ou emblemas bem conhecidos.

326

Tenses fundamentais da Lrica de Cames

Seria inexacto afirmar que a obra de Cames no passa de uma *congeminao+, um 
monlogo filosfico. Se assim fosse, teramos um doutrinrio e no um poeta. No 
entanto,  evidente que o poeta articulou a sua longa e variada experincia em termos 
filosficos e religiosos correntes na poca, e que sentiu, a fundo, o desajustamento 
entre os ideais da sua formao social, escolar, literria e essa mesma experincia. 
Tal desajuste fundamental  frequentemente, e por vezes com veemncia dramtica, 
expresso em numerosas composies lricas, e serve de ponto de partida a uma luta 
ntima em que o Poeta tenta reconstituir numa totalidade harmoniosa, coerente e 
significativa a confuso fragmentada e contraditria das situaes que viveu. As 
canes, muitos sonetos, certas redondilhas como Sobre os rios que vo, a cloga As 
doces cantilenas que cantavam so momentos sucessivos, renovados, por vezes 
antitticos, deste esforo para encontrar uma essncia na existncia. Examinemos 
algumas tenses dominantes desse esforo, que contrasta com a fcil rendio devota e 
o formularismo dos seus contemporneos e compatriotas maneiristas, aos quais nos 
referiremos noutro captulo.

a) O Amor. - Cames interessara-se muito pelo neoplatonismo, como

alis todo o cristo culto da sua poca e todo o poeta petrarquista. Os primeiros 
telogos cristos foram platonzantes, e o mesmo sucede com Santo Agostinho, o doutor 
da Igreja que maior influncia exerceu anteriormente a S. Toms de Aquino. Quando o 
Humanismo ressuscitou a Antiguidade, foi tambm o platonismo a doutrina filosfica 
pela qual se tentou a conciliao das duas doutrinas. Eis em que consiste a voga de 
Plato durante o Renascimento.

J a concepo do amor provenal est informada de platonismo, alis por via crist: 
a Mulher aparece ali, no como uma companheira humana, mas como um ser anglico que 
sublima e apura a alma dos amantes. Beatriz conduz Dante pelas alturas do Paraso; e 
das mesmas alturas, depois de morta,  que Laura serve de inspirao  parte mais 
importante da lrica amorosa

de Petrarca.

Cames herdou esta concepo da Mulher e do Amor. Nos seus sonetos, odes, canes e 
redondilhas, a mulher amada aparece iluminada por uma

luz sobrenatural que lhe transfigura as feies carnais: luminosos so os cabelos de 
oiro, e o olhar resplandecente tem o condo de serenar o vento; a

327
sua presena faz nascer as flores e at enternecer os troncos das rvores. Toda a sua 
figura  o revestimento corpreo de um ideal: respira gravidade, serenidade, altura. 
No retrato da Amada, Cames no faz mais do que seguir o padro de Laura.

Mas a experincia vivida e cultural de Cames mal poderia cingir-se a tais 
convenes. E, assim, regista o conflito (e unio) entre o desejo carnal * o ideal do 
amor desinteressado que consiste s no *fino perisamento+. Se * amor  um *efeito da 
alma+, como perceber que o amante deseje ver corporalmente a amada? - pergunta num 
soneto. Uma personagem do Auto de Filodemo, Duriano, aponta ironicamente esta 
contradi o entre o amar

*pela activa+ (corporalmente) e o amar *pela passiva+ (espiritualmente), observando 
que nenhum dos amadores de estilo petrarquiano deixar de proceder em contrrio ao 
seu apregoado ideal, quando lhe aparea um ensejo. E a

carnalidade do amor foi deslumbradamente cantada por Cames na ilha dos Amores, 
episdio d'Os Lusadas, poema em que Vnus desempenha um papel central, como smbolo 
e imagem do pretenso temperamento ertico portugus, e na cloga As doces cantilenas 
que caritavam.--- verdadeiro hino  sexualidade, encarada como principal fora 
criadora da Natureza.

Cames tenta resolver esta tenso pelos prprios meios do platonismo, atravs da 
verso de Santo Agostinho. Imaginara Plato que as qualidades por ns experimentadas 
no mundo em que vivemos so manifestaes limitadas e contraditrias de Ideias 
absolutas, isto , de atributos da divindade. A beleza das coisas terrenas no passa 
de uma imitao da Beleza plena, que existe substancialmente num mundo a que este 
apenas serve de sombra. Tal  a teoria perfilhada por Cames:

E aquela humana figura que c me pde alterar no  quem se h-de buscar:  raio da 
Formosura que, s, se deve de amar.
1..............................  sombra daquela ideia que em Deus est mais 
perfeita. E os que c me cativaram, so poderosos afeitos que os coraes tm 
sujeitos: sofistas que me ensinaram maus caminhos por direitos.

328
Se confinssemos a nossa ateno s estrofes finais das redondilhas Sobre os rios que 
vo, donde se extractam estes versos e que constituem a expresso nuclear da 
concepo neoplatnica camoniana do amor, poderia parecer que o poeta lamenta o seu 
desatino juvenil de cantar *cantares de amor profano /por versos de amor divino+. Mas 
em estncias anteriores Cames protesta, citando Boscn, que em todas as vicissitudes 
* ter presente a los ojos/por quin muero tan contento+. E a prpria enigmtica e 
to brusca transio que em tal poema se tem notado entre Sio, como smbolo da mera 
saudade do seu amor na mocidade terrena, para a Jerusalm Celeste, como smbolo da 
eternidade j pr~natal, e, mais ainda, o contraste entre o calor imediato das 
saudades terrenas iniciais e o tom abstractamente parentico do desfecho (talvez 
escrito na velhice) sugerem bem que o que, no fundo, Cames pretende nada tem que ver 
com a extirpao, no esprito, do amor humano, mas a sua transposio a um plano, 
inimaginvel mas a seu crer real, em que ele deveras se realize, embora no se saiba 
como. Esse plano parece assumir uma configurao gnstica, esotrica, sobretudo na 
Ilha dos Amores.

Em vrios outros passos, e dos mais poticos da sua obra, o objectivo claramente 
posto consiste numa realiza o do desejo que transcende a razo.  certo que o 
simples querer ver a amada pode, num excesso de requinte, ser qualificado como uma 
baixeza (*que amor nunca se afina nem se apura/enquanto est presente a causa dele+); 
o poeta pode mesmo proclamar com insistncia que *de meu no quero mais que o meu 
desejo+ - o que ele nunca recusa nem desvaloriza (nem mesmo em Sobre osrios)  esse 
mesmo desejo. Como j vimos, a trplice cano Manda Amor que cante mais no faz do 
que reabilitar tal desejo contra qualquer razo que se lhe oponha; e

a bela ode Pode um desejo imenso tambm exalta a superao, e no a abdicao do 
desejo. Mais abstracto, o conhecido soneto Transforma-se o amador na cousa amada 
recorre  metafisica aristotlica para explicar que a Ideia platnica da Beleza e do 
Bem, desperta pela amada no seu esprito, no passa afinal de uma como que matria 
indefinida, que s objectivando-se numa

forma plena (e femininamente) humana, corpo e alma, se consuma. O problema radical de 
Cames , portanto, o de realizar a sntese sempre procurada, por vezes entrevista, 
mas jamais consumada, entre aquilo que h de infinito e de finito na sua nsia mais 
consciente, a do amor;  o da sntese entre um ansiado absoluto e as suas 
possibilidades viventes. E na realizao de tal sntese muito conta, afinal, a 
prpria expresso potica, isto , o facto

329
de a tenso *sair pela boca convertida em canto@>, o facto de, por tal expresso, se 
comunicar a outrem, se *eternizar+ em tradio literria, social,

A tenso camoniana entre a espiritualidade e a carnalidade, entre Latira e Vnus, 
situa num terreno concreto a tenso humana existente entre os objectos imediatos, 
finitos e definidos a que tende o comportamento instintivo, e os objectos do 
comportamento consciente, estes escalonados de um modo que, tanto quanto possvel, 
vai recuando infinita e indefinidamente todos os

obstculos e limites s aspiraes humanas em progresso. Dentro da concepo do mundo 
em que o nosso poeta se formou, a mulher ora aparecia, em estilo corts medieval e 
neoplatnico, como suserana distante ou mensageira dos Cus, ora, de um modo mais 
naturalista, como presa de caa nos jardins de Vnus. Em vez de uma sntese 
propriamente doutrinria, Cames transmite-nos, entre os dois plos da contradio, 
uma tenso potica bem superior  da simples plangnca espiritualista de Petrarca, 
seu modelo; d-nos uma idealidade amorosa mas com suas razes instintivas, uma mais 
larga realidade idealizada, e at por vezes, como na cano Manda-me Amor que cante 
docemente, certos relances fundos de uma converso recproca entre os dois opostos, 
um esboo da prpria marcha de dois ps, o p do real e o p do ideal, o definido e o 
indefinido, das nsias em que o desejo se vai, afinal, constantemente recriando como 
coisa humana. Na Ilha dos Amores o desejo ertico acaba por transfigurar-se no gozo 
do saber proftico e da

contemplao (esotrica?) da prpria mquina do mundo ou de um transunto

do seu arqutipo.

b) O desconcerto do mundo. - Um tema frequente na lrica camoniana e separvel do 
tema amoroso  o da incomensurabilidade ou desajuste entre as exigncias ntimas da 
vida pessoal e os meios que lhe so dados para as satisfazer:

Que segredo to rduo e to profundo nascer para viver, e para a vida faltar-me 
quanto o mundo tempo tem para ela.

Ou entre o mrito individual e a sorte do indivduo:

Verdade, Amor, Razo, Merecimento qualquer alma faro segura e forte.

Porm Fortuna, Caso, Tempo e Sorte

tm do confuso mundo o Regimento.

330
O mundo aparece, pois, como um desconcerto, produto de um destino confuso e 
irracional. Mais valeria, admite o Poeta nas oitavas Ao desconcerto do inundo, ser 
louco, como certa personagem ateniense que vivia feliz at que um irmo, fazendo-o 
curar, lhe restituiu, com a sade mental, a infelicidade.

Este desajuste entre os valores e a realidade, entre a razo e o facto, entre as 
necessidades vivas e a sua satisfao poderia estar na origem de uma poesia moralista 
e satrica, como  o caso de S de Miranda ou de Ferreira. Mas a stira de Cames 
quase se reduz a Os Disparates da ndia, salada obscura de versos prprios ou alheios 
e de rifes, onde se podem reconhecer a troa a bazfias herldicas ou guerreiras,  
hipocrisia eclesistica (*mas que lobo est em ti/ metido em pele de oveja+),  
cobia corruptora da justia, etc., rematando por esta exortao aos *secretrios+ 
das conscincias rgias: *Porque no pondes um freio / ao roubar que vai sem meio / 
debaixo de bom governo?+.

Para Cames o problema central no  o de injustias sociais (que ele decerto 
profliga, como veremos, em Os Lusadas), mas o da no correspondncia entre os 
anseios, os valores, as razes e a realidade da vida social e material; problema 
tanto mais rduo quanto a filosofia platnica assenta o mundo sobre as Ideias e delas 
faz tudo derivar. Este problema sente-o compenetradamente o poeta, est no mago de 
seu prprio existir e no em simples congeminaes sobre matria objectiva, como so 
os tpicos filosficos ou as convenes sociais. Ele reage individualizadamente, 
torna-se cnscio da sua experincia vivida. O desconcerto do mundo reside na prpria 
relao entre ele, como pessoa paradigmtica, e um destino com que ele se encontra e 
que, ao mesmo tempo, lhe  opaco.

Na verdade, a ideia do progresso sobre a Terra, que se esboa nalgumas obras 
renascentistas e at mesmo, embora entre contradies, como veremos, n'Os Lusadas, 
est de todo ausente na lrica de Cames. Para al m do imediato desconcerto do 
mundo, exemplificado por anedotas histricas e mticas ou por aluses 
autobiogrficas, deste mundo onde conhecemos nsias sem satisfao nem mesmo objecto 
definido, e onde s, s vezes, os maus e medocres *nadam em mar de contentamentos+, 
o poeta apenas concebe vagas entidades que, temerosamente, maiuscula (a Mudana, 
sempre para pior, o Tempo, a Fortuna, o Caso, ou Acaso, arbitr rio), e sob cujo 
signo

331
os homens se arrastam de esperana em esperana, de desejo em desejo.

Que grande alma gozou alguma vez uma felicidade presente? Onde uma felicidade que se 
no reduza a mera lembrana de outro e anterior estado menos mau, nesse logro que  a 
saudade terrena? Soluo: o cepticismo e o retiro para a vida buclica 
epicuristicamente saboreada entre a paisagem idlica e leituras predilectas, sob os 
auspcios de um mecenas (a aurea mediocritas da sabedoria horaciana); ou ento (se 
no mesmo cumulativamente), o postulado platnico de uma *reminiscncia+ pr-natal, 
anterior  simples *memria+ terrena, uma Saudade, sim, mas de outra vida *donde esta 
alma descendeu+, resolvendo-se a tenso viva do desconcerto, o dilogo ainda ento 
mal encetado entre o imediato e o infinito, por um remergulho na F herdada, 
portadora de uma Salvao inerente  observncia do seu declogo - tal

como o julgava poder interpretar sem sobressaltos (hoje  bvio o egosmo desta aurca 
medocritas) esse pobre escudeiro portugus que, ao mesmo tempo, era um letrado e se 
sabia ser um dos melhores poetas de Quinhentos.

Este paliativo no o sossega, afinal. O *desconcerto do mundo+ inspira-lhe expresses 
de angstia incomparveis na lngua portuguesa, como o soneto

O dia em que nasci morra e perea, parafraseado do *Livro de Job+. Mas o Poeta, 
envelhecendo, parece evoluir da teoria platnica, em que a aspirao  felicidade lhe 
aparece como reminiscncia de um mundo inteligvel, para o resgate do absurdo do 
mundo pela graa do Deus ps-platnico de Sto. Agostinho:

doutos vares daro razes subidas (mas so experincias mais provadas).

.. ............................................... Mas o melhor de tudo  crer em 
Cristo.

A plenitude amorosa parece-lhe to inatingvel como a apreenso de uma

ordem racional. Renuncia, aparentemente, ao mundo *desconcertado+ das aparncias e 
depe a lira profana para s cantar a Divindade.

No entanto este momento asctico  s um dos plos da sua poesia, sendo o outro o da 
fruio esttica desse mesmo mundo das aparncias, to magnificamente cantado e 
frudo n'Os Lusadas, bem como em algumas odes e

cIogas. O interesse da poesia camoniana reside, em parte (no  de mais repeti-lo), 
na alternncia dos dois p los, na tenso por eles criada, na tenta~

332
tiva sempre inacabada e sempre recomeada de os abranger numa totalidade e de lhe dar 
um significado global. O mundo aparece em Cames fragmentado, contraditrio, 
problemtico, em perptua nsia e dor de negar-se e fazer-se, at  resignao da sua 
decrepitude (evoluo tpica do maneirismo portugus).

De facto o lirismo camoniano est mais perto da inquietao maneirista, incompatvel 
com qualquer concepo esttica do mundo, do que do equilbrio renascentista.  
verdade que  ptolemaico e renascentista o mundo em que o Poeta supe viver, o cosmos 
de esferas concntricas, limitado no espao e no tempo, constituindo um sistema 
nico, em que a Terra, e portanto o

homem (senhor, ento recente, dos oceanos), ocupava o centro, mundo equilibrado e 
confinado em si mesmo. O ser humano, nessa concepo, era um
microcosmos, participante de todos os elementos csmicos, e devolveria por fim cada 
elemento que o compunha ao respectivo *lugar natural+: a matria desceria  Terra, a 
alma irromperia sozinha para alm da ltima das esferas celestes. Mas  evidente que 
a problemtica da lrica camoniana no cabe nesta bela arquitectura tranquilizadora 
que com o *maneirismo+ se desfar, quando o continente mais conhecido e depois o 
prprio planeta se perderem num mundo cada vez mais vasto, talvez infinito e sem 
centro, quando a mecnica da Terra e do Cu deixarem de diferenciar-se, e o espao, o 
tempo, a causalidade j no couberem em imagens visuais simples.

 que as vibraes da angstia meditativa de Cames excedem esses quadros 
cosmolgicos e sociais onde o Poeta ainda se situa. Como veremos, Os Lusadas exaltam 
uma divindade ainda essencialmente concebida  luz de uma tica de cruzada 
cavaleirosa, mas tambm exaltam a intruso humana nos *trininos vedados+ do espao 
divino. Na sua lrica, o verbo doba-se-nos palpitante porque as vias segundo as quais 
uma nsia, ou uma razo ntima, acaba por passar  nsia, ou  razo contrria, nem 
sempre so as

do formulrio de tradio petrarquista; h um senso agudssimo, e sem precedentes, de 
como *todo o mundo  composto de mudana+, composto de sim e no, at ao ponto de que 
nem sequer *muda como soa+, infringindo as prprias leis ou ritmos j conhecidos de 
mudana; as esperanas, sem as quais *no pode haver desgosto+ autntico, so 
detectadas at  inefabilidade ou subconscincia de um *no sei qu, que nasce no 
sei onde/ vem no sei como, e di no sei porqu+; o apego petrarquiano e 
bernardiniano  prpria dor desvenda fundas raizes, *porque essa mesma imagem, que na

333
mente / me representa o bem de que careo / mo faz de um certo modo ser presente+. O 
mundo geometricamente fixo da perspectiva linear renascentista e o da dogmtica 
tridentina esto ambos, nesta lrica, j despercebidamente abalados por um violento 
sismo, embora a localizao aparente do seu epicentro apenas apreenda uma dialctica 
que quase se restringe  s nsias do amor e seus objectos distantes.

CAMES: O ideal renascentista da Epopeia

A ideia de realizar um poema herico sobre a expanso portuguesa manifesta-se j 
desde o sculo XV, dentro e fora de Portugal. O humanista italiano ngelo Policiano 
ofereceu-se a D. Joo 11 para cantar em verso latino os seus feitos, e Luis Vives 
exaltou os Descobrimentos numa dedicatria a D. Joo 111. No prlogo do Cancioneiro 
Geral, Garcia de Resende lamenta que os feitos dos Portugueses no estejam 
condignamente cantados. Antnio Ferreira, apesar da sua averso - vrias vezes 
manifesta - pela vida guerreira e martima, encorajou mais de um confrade a escrever 
a epopeia, e ele mesmo ensaiou o estilo herico em mais de uma ode e nos Epitfios de 
vrios personagens histricos, como D. Afonso Henriques, D. Dinis, D. Joo 1, regente 
D. Pedro. Este projecto dos Humanistas relaciona-se com a ambio de ressuscitar um 
dos mais nobres gneros greco-romanos. As viagens dos Portugueses prestavam-se a uma 
comparao emuladora com

as de Ulisses, dos Argonautas e de Eneias, assim como os seus feitos guerreiros com 
os dos Gregos e Troianos.

O gnero pico, isto , narrativo, tinha para o classicismo do Renascimento certas 
regras abstradas de modelos, que eram sobretudo a Mada e a Odisseia homricas, a 
Argonutca de Apolnio de Rodes e a Encida de Virgilio. Assim se impusera o esquema 
de uma intriga dos deuses, divididos em partidos, numa determinada aco humana (uma 
guerra, uma viagem martima ... ). A Encida, embora se tenha destacado muito de entre 
os poemas hericos em latim, deve considerar-se uma fonte j secundria destas 
regras, porque surgiu como repto imitativo aos poemas homricos.

Ora estes correspondem a uma fase civilizacional de que Virglio e os

poetas do Renascimento j estavam muito afastados. Para Homero, os deuses constituam 
entidades reais, foras superiormente vivas, e por isso voluntrias e 
antropomrficas, que irrompiam da realidade e que participavam nas

334
lutas dos bandos dos guerreiros ou piratas dos arquiplagos e costas do Mediterrneo 
oriental, Muitos sculos antes de Cristo. Cada qual deles est pessoalmente empenhado 
em alcanar a vitria para o seu bando de adoradores, e portanto o seu critrio do 
justo  o de um cl. Os homens, por sua

vez, pondo  prova os seus msculos em combates singulares, ou a sua astcia em 
enganar o adversrio, e at os deuses adversos, ganham propores sobre-humanas, 
candidatam-se  imortalidade. Por isso os poemas homricos caracterizam-se pelo 
relevo impressionante e inesquecvel dos seus heris. Se quisermos um paralelo, 
devemos procur-lo nas epopeias brbaras de civilizaes at certo ponto comparveis 
 que precedeu e originou o das cidades gregas: os Niebelungos, a Chanson de Roland, 
o Cantar de Mio CM, as Sagas islandesas, com os quais se aparenta a tradio pica de 
Afonso Henriques, atrs referida. Aquiles o iracundo, Ulisses das muitas manhas, 
Roldo o bravo, Olivero o prudente, e ainda Cid o campeador, embora mais complexo 
porque mais histrico, constituem uma galeria de heris criada pela imaginao 
epopeica na sua fase prpria. Notemos que nestas epopeias medievais o maravilhoso 
mitolgico desempenha um papel muito menos

importante do que nos poemas homricos e, em geral, arcaicos: a viso do mundo era 
mais racionalmente unitria (monotesta).

Deve acrescentar-se que estes poemas, surgidos na fase da literatura oral, eram tidos 
como relatos de acontecimentos verdicos, que as sucessivas verses, culminando na 
que acabou por ganhar a forma escrita, foram tornando cada vez mais inverosmeis. Mas 
j a Encida  um poema de escola, feito segundo um modelo literrio, e deve o 
interesse  sua cuidada factura, j sem repeties e unilinearidades *primitivas+, ao 
trgico amor de Dido a Eneias,  oposio oratria entre personagens, e a outras 
qualidades do mesmo teor. As personalidades dos heris vo-se apagando, destitudas 
de mola interior, como  flagrante no caso do *pio+ Eneias, joguete nas mos dos 
deuses, que de resto j na poca de Virglio tendiam a converter-se em alegorias 
filosficas e polticas. O Estado juridicamente definido absorvera o destino dos 
antigos heris gentilicos, mais individualizados,

Ressuscitar a epopeia homrica na poca do Renascimento - quando o esprito 
abstractor de um mundo j muito mercantil pouco se prestava  admirao de heris 
semidivinos; e quando a mitologia clssica, caracterstica do gnero, era uma 
expresso irrecupervel, salvo para um certo naturalismo de insinuao esttica - 
constitua um nobilitante desafio ao engenho dos poetas.

335
Os poemas picos do Renascimento ou so romances cavaleirescos versificados, como o 
Orlando Enarnorado de Boiardo e o Orlando Furioso de Ariosto, ou procuram reflorir, 
com grande margem de alegorias j sem a

fora dantesca, a grandiosidade da histria teolgica crist, como a Jerusalm 
Libertada de Torquato Tasso. Na verdade, desde o sculo X11 formas narrativas 
modernas (o conto, a novela e sobretudo o romance) sobrepunham-se ao gnero pico. A 
narrao oral antiga (para audincia de praas ou

festins) de um mundo animado e maravilhoso, onde cada heri vai talhando

a sua prpria lei, por entre as intrigas de uma outra humanidade superior, a dos 
deuses, d lugar, em geral,  leitura (muda, ou em pequenos grupos) de enredos em 
cenrios bem mais limitados, num mundo de coisas inertes, desprovido de qualquer 
maravilhoso capaz de enquadrar as aspiraes de um certo individualismo (que afinal 
se reajusta transferindo-se de condies gentilicas para condies cada vez mais 
burguesas). Criaes eruditas e artificiosas, fora de tempo, os poemas renascentistas 
em que se procurou ressuscitar a epopeia clssica dentro dos cnones hornricos e 
virgilianos malograram-se, como a Francade de Ronsard, cujo canto 1 e nico saiu no 
mesmo ano que Os Lusadas.

Foi precisamente o desiderato da ressurreio da epopeia clssica segundo o padro 
homrico que Cames procurou satisfazer, levando a cabo um objectivo caracterstico 
dos escritores humanistas. O ambiente martimo do assunto central aponta para a 
filiao do poema sobretudo na linhagem da Odisseia, da primeira metade da Encda e 
dos poemas sobre os Argonautas escritos pelo grego Apolnio de Rodes e pelo romano 
Valrio Flaco. E de facto alguns investigadores salientam algum dbito de Cames ao 
poema Argonutica (Feitos dos Argonautas) deste ltimo.

 ideia da epopeia ptria andava associada certa ideologia nascida da expanso, e 
cujas razes encontrmos j em Zurara. Segundo essa ideologia, os Portugueses 
cumpriam uma misso providencial, dilatando tanto o Imprio como a F: eram os 
Cruzados por excelncia. As lutas internas entre Cristos (Catlicos e Reformados, 
Casa de Frana e Casa de ustria), coincidindo com o avano turco nos Balcs, que 
chegara at Viena (1529) dois anos depois do saque de Roma por tropas luteranas do 
catlico Carlos V, vinham tornar mais actual esta misso divina atribuda ao Reino 
Lusitano, exemplo que envergonharia o resto da Cristandade.

336

CAMES: Intenes inerentes  forma d'Os Lusadas

O tema escolhido por Cames para o seu poema foi toda a histria de

Portugal, como se v pelo prprio ttulo: Os Lusadas. Esta palavra (neologismo 
inventado por Andr de Resende) designa os Portugueses, que a erudio humanstica 
assim nobilitava como descendentes de Luso, filho ou companheiro de Baco. O prprio 
autor explicita o seu propsito, ao afirmar que canta *o peito ilustre lusitano+.

Para aco nodal, escolheu Cames a viagem de Vasco da Gama, uma

rota martima como as de Ulisses e Eneias. Havia dela relatos pormenorizados - o do 
roteiro de lvaro Velho, o de Castanheda na Hstria do Descobrimento e Conquista da 
India, o de Joo de Barros nas Dcadas, alm das verses orais que certamente 
corriam. Era a propsito da viagem do Gama que Cames pretendia evocar toda a 
histria de Portugal, sendo o prprio Gama e um dos seus companheiros aproveitados ( 
imita o dos poemas clssicos) para narradores principais da histria.

Mas a viagem do Gama no bastava a Cames para estruturar uma epopeia clssica. Uma 
obra de arte narrativa deste tipo exige uma unidade de aco, isto , a convergncia 
dos acontecimentos para uma situao crucial, e seu desenlace; por outras palavras: 
um enredo. Na viagem do Gama mal descobriu Cames um enredo, mas sobretudo uma 
sequncia cronolgica de acontecimentos. Mais ainda: num poema narrativo no podem 
dispensar-se caracteres palpitntes e paixes, que movem a aco; e entre os 
protagonistas da viagem tambm Cames no viu caracteres ou paradigmas flagrantes, 
como so os dos poemas homricos, apesar da sua proporo sobre-humana. Os heris de 
Cames raramente parecem de carne; faltam-lhes carcter e

paixes. So, em geral, esttuas processionais, solenes e impassveis. Na resoluo 
desta dificuldade de dar unidade dinmica e caracteres ao seu poema, o Poeta 
encontrou a seu favor certas praxes greco-romanas do gnero, que lhe forneceram 
prottipos de uma intriga entre deuses apaixonados.
O dinamismo aparente de Os Lusadas no reside tanto nas dificuldades e peripcias da 
viagem do Gama como na rivalidade que ope Vnus, protectora dos Portugueses, a Baco, 
inimigo deles. Desta intriga resultam os obstculos que a esquadra encontra na costa 
oriental africana, a tempestade no

337
Indico (alis fictcia, desconhecida dos cronistas, ou antes, deslocada do princpio 
para o fim da viagem) e as intrigas que indispem contra os Portugueses o Samorim. 
Baco  quem, disfarado, prepara, onde pode, mau ambiente aos Lusos, quem em sonhos 
lana a desconfiana contra os recm-vindos, quem leva os deuses martimos a 
desencadear a tempestade.  Vnus, por outro lado, quem intercede por eles junto de 
Jpiter, quem se serve das nintas para relaxar o esforo dos deuses martimos que 
agitam as ondas, etc. Os deuses desejam, palpitam, lutam, tm nervos, em contraste 
com os homens histricos, que ( excepo de Veloso e dos amorosos) parecem de bronze 
ou de mrmore. Tudo se passa como se os deuses desencadeassem ainda todas as foras, 
fsicas ou psquicas, que movimentam o mundo sublunar - ou

fossem eles essas mesmas foras ignotas, mas, ao mesmo tempo, e com certa ironia, 
neles se traduzissem os mais secretos mbeis humanos.

 certo que, por sob a sua histria imaginria de inspirao clssica, o poeta 
procura ressalvar a possibilidade de uma interpretao positiva: os

contactos de Baco e Mercrio com os homens passam-se em sonho ou em

encarnaes humanas. Os prprios deuses poderiam ser foras anglicas, demonacas ou 
astrolgicas, muito aceites no tempo e pelo prprio Cames, numa palavra, *causas 
segundas+, intermedirias entre a causa primordial e os acontecimentos visveis. Mas 
o facto  que todo o peso da sugesto potica vai cair no maravilhoso. Com o desfecho 
do poema, a fico mitolgica dissolve-se. Na Ilha dos Amores as deusas marinhas 
concedem aos nautas, ento de regresso, todas as volpias, e com elas a imortalidade; 
o Gama substitui Neptuno no amor de Ttis, senhora das guas. E neste ponto a mesma

Ttis, declarando que os deuses servem s para fazer poemas, esclarece que tal 
mitologia  meramente aleg rica. Sem ela, contudo, o poema perderia muito da sua 
palpitao e encanto.

Formalmente, a mitologia desempenha portanto uma funo central n'Os Lusadas: a de 
lhe dar uma unidade de aco e um enredo dinmico. Mas

Cames procurou tirar dela um partido concepcional e esttico mais original, como j 
veremos.

O que anima esteticamente Os Lusadas no so, pois, as qualidades propriamente 
picas, a identificao afectiva do leitor com heris. So, em pri- meira evidncia, 
as qualidades textuais com que recria uma viso luminosa da vida: o verso oratrio em 
que se vazam os discursos do Velho do Res-

338
telo, de Nun'lvares, do Gama, da prpria Ins de Castro; as frmulas cantantes e 
densas que se fixaram na tradio nacional letrada; a evocao majestosa dos 
esplendores do Olimpo, a da beleza feminina (a *bela forma hurnana+, que as 
redondilhas Sobre osrios acabaro por esconjurar); a nitidez e preciso da frase, por 
vezes enredada com transposies e liberdades sintcticas modeladas sobre o latim e 
com a sobrecarga de aluses mitolgicas; a prodigiosa arte do ritmo, que j tivemos 
ocasio de apreciar na obra lrica, e que aqui se adapta, ora  movimentao, ao 
pandemnio das batalhas (classicamente sugerido por formas onomatopeicas), ora  
lentido tediosa das

calmarias, ora ao paraso luxurioso da ilha de Vnus,  majestade olmpica, ao 
pitoresco martimo ou etnogrfico, s situaes mais picantes.

Mas Os Lusadas opem s inverosimilhanas dos poemas antigos o seu

prprio realismo, e exprimem deveras um senso novo do mundo e das maravilhas reais 
(*Que estranheza, que grandes qualidades! / E tudo sem mentir, puras verdades.+). 
Isso confere, afinal, como veremos, uma funo nova

aos mitos antigos.

Cames no quis apenas fazer uma enciclopdia histrica, mas tambm uma enciclopdia 
naturalista, contrapartida quanto possvel real do antigo maravilhoso homrico. Para 
isso, descreveu impressivamente regies, situaes estranhas e fenmenos naturais mal 
conhecidos, enquadrando tudo na

cosmologia ptolernaica, ainda corrente na poca. Por vezes estas descries sugerem a 
mincia e preciso dos grandes pintores naturalistas do Renascimento, corno Drer ou 
Miguel ngelo; o Poeta procura aviv-las recorrendo a imagens flagrantes: tal a 
descrio do escorbuto, doena tpica da nova

navegao transocenica, a da tromba martima, comparada nas suas vrias

fases a uma sanguessuga chupando o sangue, a um *vaporzinho+, uma coluna, um p, um 
cano. Esta notao do mundo faz tambm de Os Lusadas a obra mais elaborada da 
literatura naturalista portuguesa de Quinhentos, com o

seu ponto de partida e o seu ponto de chegada bem caracterizados: de um

lado, como ponto de partida, comparaes que, na peugada dos autores clssicos, dos 
bestirios medievais, dos emblemas de Alciato, usam as coisas da natureza como meros 
smbolos de qualidades ou defeitos morais; do outro lado, o equivalente moderno da 
tenso pica, a maravilha dos novos mundos que se abrem ao mundo j banalizado, uma 
surpresa e pitoresco comuns

339
aos relatos postos em crnica por Zurara,  Carta de Vaz de Caminha, a

tantos passos dos itinerrios e dirios de bordo, e  Peregrinao de Mendes Pinto.

Outra caracterstica tambm tipicamente renascentista de Os Lusadas,

e em oposio  severa moral medieva,  - j o vimos a outro respeito - a

palpitao afrodisaca que vibra em todo o poema, exaltao do *amoroso

ajuntamento+, lei do universo

que no somente d vida aos malferidos, mas pe em vida os inda no nascidos.

Vnus, por cujas *lisas colunas+ os desejos se enrolam como hera, quando, despida, 
pretende amolecer o poderoso Jpiter, seu pai,  a rainha irresistvel do mundo:

no ar lascivos beijos se vo dando. Ela, por onde passa, o ar e vento

sereno faz, com brando movimento.

No se trata de uma ou outra nota ertica a condimentar a narrativa:  uma tenso 
permanente, ressumante a cada pretexto, distendendo-se e repousando finalmente na 
ilha de Vnus, coroamento do poema, a ilha Afortunada, a utopia onde Cames 
transfigura a sua mais aguda percepo do maravilhoso real, o maravilhoso do amor. A 
Ilha d a imagem de um possvel regresso ao den bblico, atravs de um desejo 
sensual que, por mediao das ninfas e de Ttis, se ergue at a uma viso 
transparente de toda a mquina do mundo - vista de fora, num arrebatamento de gnose 
mstica.

A expresso sugestiva e nobilitante deste pan-erotismo  uma das razes profundas do 
maravilhoso pago de Os Lusadas. O mito antigo, ao assumir esta funo, extra-orbita 
da simples alegoria. D corpo visvel a um impulso no racionalizado,  a 
antropomorfizao imaginosa de uma fora vital. Neste sentido o maravilhoso pago no 
se reduz a um ornamento retrico; compraz a curiosidade do poeta, faminto de todas as 
apetncias de amor e violncia que no se cansa de registar em anedotas mticas ou 
histricas, portuguesas ou antigas.

Essa esfera do maravilhoso alterna com a daquele outro maravilhoso real, geogrfico, 
restritamente corogrfico, meteorolgico ou emogrfico que os

Descobrimentos proporcionavam: ao da cosmografia ptolemaica; ao maravilhoso 
guerreiro, quer das proezas cavaleirescas de recorte novelstico, quer

340
desse novo espanto, o da artilharia naval; e at ao maravilhoso cristo, alis em 
grande parte destinado a sagrar em Ourique o direito divino do fundador

da monarquia, a sagrar tambm D. Joo 1 por indcios celestes, e a sobrenaturalizar 
vrios corajosos feitos no ultramar. O poema realiza a proeza retrica de congraar 
todas estas maravilhas to dspares.

Assim, nos casos de amor alcanam Os Lusadas a sua maior pulsao emotiva; o 
temperamento amoroso  inerente  nova concepo de heri, o heri lusada camoniano, 
que no chega a encarnar de todo numa personagem do poema, mas se desprende do 
conjunto. Nota-se isto na histria do

gigante Adamastor, que pretende ser ameaador e terrvel, e acaba por se

tornar comovente e deplorvel no choro disforme com que lamenta a irremedivel 
falncia da sua paixo por Ttis. Sente-se no Adamastor o smbolo

de uma experincia amorosa, o desejo desiludido pelo dissipar de uma miragem:

que te custava ter-me neste engano ou fosse monte, nuvem, sonho ou nada?

Dir-se-ia que para Cames, como j para a novela arturiana da fase corts, e para os 
redactores do Amadis, a virilidade da coragem blica se liga to intimamente ao 
temperamento amoroso como ao aristocrtico desprezo dos bens monetrios.

CAMES: Iderio d'Os Lusadas

N'Os Lusadas combinam-se ou coexistem ideologias e iderios heterogneos, alm do 
sentimento da vida mais palpitante e mais congnito ao poeta, que acabmos de 
indicar. L encontramos ideias pessoais ou colectivas, ou

at oficiais; de origem cavaleiresca feudal ou de origem humanstica. Assim, o autor 
recolheu e lapidou muitos lugares~comuns oficializados que j tinham sido expressos 
por Zurara, Gil Vicente, Joo de Barros e tantos outros. V a histria de Portugal 
como uma cruzada, iniciada por Afonso Henriques, que deveria servir de exemplo aos 
outros estados cristos, ento em luta fratricida

como os dentes de Cadmo desparzidos.

341
A famosa exortao aos estados cristos - aos Alemes, *soberbo gado@>, rebelados 
contra o *sucessor de Pedro+, ao *duro Ingls+ que *nova maneira faz da 
Cristandade+, ao *Galo indigno+ que desonra o ttulo de *cristianssimo+ atacando o 
Papa,  Itlia *submersa em vcios mil+ - para que se unam contra os Turcos, reproduz 
com maior eloquncia exortaes anlogas de Gil Vicente, Antnio Ferreira, Joo de 
Barros e outros, inspirados pela poltica dos reis de Portugal, interessados numa 
cruzada contra os Turcos que propiciasse a sua expanso no Oriente.

Tem-se querido interpretar esta concepo fazendo de Cames o paladino da *cultura 
ocidental+, contra a barbrie. Mas, falando de barbrie e

de cultura ocidental, cumpre no ignorar a ideologia guerreira, de conquista, 
frequentemente exaltada n'Os Lusadas. Se julgarmos pelo sonho de D. Manuel e por 
outros passos, a nenhuma honra mais alta poderiam os povos do Oriente aspirar do que 
a de sofrer o *jugo+ ou o *freio+ portugus, imagens que alis tambm caracterizam o 
domnio rgio sobre os seus sbditos.

E ao iniciar o seu discurso perante o rei de Melinde, Vasco da Gama anuncia o assunto 
nestes termos:

Primeiro tratarei da larga terra, depois direi da sanguinosa guerra.

A uma *sanguinosa guerra+ se reduziria com efeito toda a histria de Portugal, 
segundo Cames, tirando os amores de Fernando, os de Ins de Castro, e pouco mais. 
Poderamos dizer das suas estrofes o que o mesmo

Cames diz das bandeiras que Paulo da Gama explicou aos Indianos:

Nelas esto pintadas as guerreiras obras que o forte brao j fizera, batalhas tm 
campais, aventureiras, desafios cruis, pintura fera.

Em vo procuraremos n'Os Lusadas o elogio dos reis *lavradores+, to queridos de S 
de Miranda; ou a evocao dos *ofcios mecnicos+, para os quais Antnio Ferreira 
chama a ateno. Cames exprime fielmente a

ideologia da nobreza guerreira,  certo que tambm letrada, dentro da qual ele 
prprio se inclui,

nua mo sempre a espada e noutra a pena.

342
No admira, por isso, que o poeta censure a ganncia mercantil quando se

lhe oferece a ocasio. F-lo, por exemplo, a propsito das negociaes do Gama com os 
de Calecut, para obter a entrada, no porto, de mercadoria portuguesa. Sem embargo de 
j se ter dito de Os Lusadas que so a <@epopeia do comrcio+ - o autor qualifica de 
*vil+, isto , como prprio de vlo, burgus, o dinheiro que intervm nesse 
memorvel acto iniciador do comrcio transocenico, intencionalmente aberto pela 
viagem do Gama:

Veja agora o juzo curioso quanto no rico, assi como no pobre, pode o vil interesse e 
sede imiga do dinheiro, que a tudo nos obriga.

Aliado a este sentimento aristocrtico e guerreiro, detecta-se n'Os Lusadas um 
individualismo abstracto. Embora no haja heris de carne e osso no

poema, todo ele  um friso de nomes aristocrticos em constante paralelo emulador com 
outros da Antiguidade; e no resta lugar para a aco annima doutras camadas 
nacionais. Nada mais frisante a este respeito do que a narrativa dos acontecimentos 
de 1383-1385, sobretudo se a confrontarmos com a sua fonte, Ferno Lopes. Cames 
omite o episdio central da luta contra os Castelhanos, o cerco de Lisboa, cujo 
herosmo colectivo Ferno Lopes narrou com uma vibrao autenticamente herica. Omite 
a aco dos *povos do reino+, das *unies+, e fala apenas de Nuno lvares, D. Joo 1 
e Anto Vasques de Almada, protagonista da batalha de Aljubarrota, na qual resume 
toda a resistncia. Desta maneira fica, afinal, apoucada essa luta em que a 
nacionalidade se manifestou como um todo, precisamente contra uma

minoria aristocrtica que ainda a no reconhecia. Isso no impede,  certo, que n'Os 
Lusadas encontremos as nicas crticas sociais, e at polticas, realmente 
desassombradas, de Cames, feitas evidentemente sob o ponto de vista de uma tica 
aristocrtica e monrquica ideal: no desfecho do canto VII recusa-se a exaltar todo 
aquele que *veio, / por contentar o rei, / a despir e roubar o pobre povo+, ou que 
no *pague o suor da servil gente+; no

canto X vemos Cupido preparar uma campanha contra amores desencaminhados, como o dos 
que s mulheres preferem a caa (D. Sebastio), o dos egostas aduladores, o dos 
amantes de mandos e rquezas; quase no final do poema, h uma censura clara ao 
desprezo beato das Letras, e repete-se

343
uma j insistente condenao dos conselheiros inexperientes, nomeadamente dos 
clrigos que, em vez de orar ou missionar, se dedicam a satisfazer ambies.

Esta valorizao exclusiva dos feitos de guerra, esta concepo da histria nacional 
como uma sequncia de proezas de heris militares - caractersticas significativas da 
ideologia dominante em Portugal na segunda metade do sculo XVI - constituem hoje o 
peso morto conceptual d'Os Lusadas. No entanto, encontramos no poema outro miolo 
mais vivo, na reaco dos deuses  audcia dos descobridores portugueses: por um 
lado, a ideia de Ptria, entendida sob a forma de comunidade lingustica e 
independncia dinstica, d um sentido novo  j antiga exaltao das linhagens e 
seus bares assinalados, como reflexo da centralizao monrquica e do culto do 
idioma

nacional, difundido no Renascimento pelos humanistas de origem burguesa; por outro 
lado, esse sentimento patritico, ento reforado por historiadores, gramticos e 
gegrafos, liga-se n'Os Lusadas a uma apologia dos poderes humanos.

Assim, na sua significativa alocuo no canto VI aos deuses marinhos, os mais 
directamente ameaados pelas navegaes transocenicas que culminam com a do Gama, e 
por isso mais fceis de alertar, Baco resume, e impugna, um ousado ideal de futura 
divinizao colectiva da Humanidade,  custa dos antigos deuses, pois receia que, de 
progresso em progresso, os homens

venham a deuses ser, e ns humanos.

Do mesmo modo, Adamastor promete vingar-se dos Portugueses, por esta razo que 
declara ao Gama:

pois os vedados trminos quebrantas e navegar meus longos mares ousas.

Esta vitria dos homens sobre os deuses  uma ideia adequada ao impulso do 
Renascimento, que assistiu a um importante avano no domnio do planeta por parte do 
homem. , alis, tambm um mais vago ideal antigo, simbolizado pelo mito de Prometeu, 
o heri que roubou o lume divino para erguer os homens ao nvel dos deuses. Cames 
reala-o, contrastando a heroicidade revolucionria com a sensatez do Velho do 
Restelo, que exprime o

344
ponto de vista oposto, segundo lugares-comuns dos coros trgicos clssicos: o Velho 
alude ao mito de caro, castigado pela ambio de querer elevar-se nos ares, ao mito 
de Prometeu, e o que  mais (e seria extremamente audacioso se no fosse feito por 
forma to hbil), aproxima tudo isto, aproxima a prpria viagem de Vasco da Gama, 
tema central da epopeia, da desobedincia de Ado. A viagem do Gama, os 
Descobrimentos em geral aparecem assim, num relance, como renovao do Pecado 
Original: o da autodeterminao humana. Este orgulho humanista, de que a seguir 
encontraremos outros aspectos, verifica-se sobretudo nos lineamentos gerais do poema: 
repare-se que o humano Gama alcana, com a posse de Ttis, smbolo do domnio dos 
mares, aquilo que fora negado a Adamastor, um tit semidivino.

Resumindo, Cames pouco tem que ver com a ideologia burguesa ento em avano na 
Europa, com o comrcio transocenco encarado como tal; Os Lusadas exaltam uma 
expanso que, na sua fase decisiva, foi conduzida em moldes monrquicos a favor da 
classe ento dominante, e no pela concorrncia capitalista privada,  maneira da 
Holanda. No entanto, a aristocracia que o pico se prope imortalizar tem a 
conscincia de proceder a

uma revoluo no mundo, revoluo de que o poeta no v o resultado social, embora 
lhe atribua um significado poltico, religioso, cientfico e esttico, que j basta 
para se orgulhar como indivduo integrado numa comunidade nacional. Talvez possa, por 
isso, falar-se de uma tenso entre dois sentimentos opostos: o da dignidade do Homem, 
quebrantador impenitente de todos os vedados trminos, colectivamente candidato  
divinizao, e o da sua insignificncia de bicho da terra to pequeno. O primeiro 
destes senti~ mentos alimenta-se da maravilha de todo um mundo geogrfico recm-
descoberto e de toda a funda apetncia carnal camoniana; o segundo, daquela *austera, 
apagada e vil tristeza+ em que o poeta asfixia, daquela decadncia nacional cuja 
lcida previso se atribui ao Velho do Restelo, e da rgida hierarquia do cosmos 
ptolemaico, cujas esferas o Homem no conseguiria nunca

atravessar sem se dividir em corpo e alma, e sem se render  divindade.

Podem descobrir-se ainda outras implicaes ideolgicas na efabulao mitolgica do 
poema. Assim, em primeiro lugar, a exaltao dos prceres nacionais, a deformao que 
consiste em a eles restringir afinal a representao do povo lusada (povo que, 
dentro de outro ambiente histrico, pudera fazer-se globalmente sentir em Ferno 
Lopes), toda essa subalternizao,

345
enfim, do gnio potico ao mecenato que faz de Os Lusadas uma glorificao 
versificada de gente de linhagem ou de coroa, vem trair-se naquela referida alienao 
esttica em que o concreto da psicologia humana transita para as paixes mitolgicas, 
como contrapeso do hieratismo oficial sob que pretende impor-se o grupo dirigente. 
Por outro lado, a nsia de Cames por um amor sem barreiras sociais nem convenes 
hipcritas, e a conscincia que tem do seu direito a um galardo terreno pela obra de 
poeta (no menos importante e mscula, a seu ver, que a guerreira) traduzem-se no 
poema, como vimos, pelo patrocnio de Vnus, pelo relevo atribudo  deusa em

todas as aces dos nautas e dos outros heris histricos, e pelo modo como

sublinha e censura casos de ingratido rgia e senhorial, e, ainda mais vivamente, a 
falta do apoio devido aos que redouram a glria das armas com a glria, bem mais 
permanente, das letras.

Outro conceito importante a relevar n'Os Lusadas  a contraposio da experincia e 
da observao directa  cincia livresca da Antiguidade. Trata-se de uma ideia 
caracterstica dos grupos ligados  actividade martima - astrnomos, pilotos, 
construtores de barcos, viajantes - que, para possibilitar a navegao no alto mar, 
tiveram de criar uma tcnica apropriada com base na experiencia, visto que nos livros 
no encontravam a chave dos problemas; e que, por outro lado, puderam verificar a 
falsidade de noes correntes na literatura geogrfica medieval e antiga, tais como 
as da impossibilidade de antpodas ou de vida na zona trrida, do prolongamento da 
frica at ao plo sul, da existncia de seres com configurao semi-humana, 
semianimalesca, etc . Esta mentalidade experimental, precursora do empirismo 
cientfico de Bacon, teve representantes como Duarte Pacheco Pereira, D. Joo de 
Castro, o Dr. Pedro Nunes e o Dr. Garcia de Orta, que Cames conheceu na ndia. N'Os 
Lusadas encontra-se, mais de uma vez, a observao de que os Antigos ignoravam regi 
es descobertas pelos Portugueses, e

registam-se fenmenos a que os livros no se referem, como a tromba martima, cuja 
descrio termina com este repto:

Vejam agora os sbios na escritura

que segredos so estes de natura.

No entanto, o saber experimental portugus do sculo XV no chegou a ultrapassar a 
fase do empirismo, no chegou a converter-se em atitude cien-

346
tfica formalizada. Esta ltima veio a nascer de uma aproximao entre as

descobertas de Arquimedes e outros precursores da mecnica e o desenvolvimento da 
tcnica fabril, que entretanto se verifica em regies como Veneza

ou a Holanda, mas no em Portugal. A verdade  que as descries camonianas de 
fenmenos meteorolgicos, regies geogrficas ou da cosmologia ptolemaica subentendem 
uma atitude bem mais contemplativa do que inquisitiva, e as suas referncias ao 
escorbuto ou operaes nuticas insinuam um sentimento de impotncia humana ou de 
desinteresse pelo trabalho especializado, pelos problemas mecnicos. No sabemos 
exactamente que significado lhes atribua Cames. Mas (observemos) o empirismo, nesta 
fase, tanto podia conduzir a um estado mais adiantado na histria da cincia, como

a uma simples negao da inteligncia, quer escolstica, quer mecanicista: a 
experincia, na inedida em que parece negar a razo, pode levar, quer  dvida 
metdica e  elaborao de modelos cientficos, quer ao misticismo, que desiste da 
explicao e da transformao humanizante do universo.

CAMES: As comdias camonianas

O teatro de Canies, constitudo pelas comdias Anfitries, E]-Rei Seleuco e 
Filodenio, ocupa um lugar  parte no teatro portugus quinhentista.  difcil 
enquadr-lo na evoluo entre ns da comdia clssica, visto que tanto o B-Rei 
Seleuco como o Filodemo ainda lembram a estrutura vicentina. Mas os Anfitries, 
decalcados sobre Plauto, parecem integrados dentro do teatro escolar de imitao 
clssica. Por outro lado, mesmo nos autos de tradio vicentina, Cames aparece-nos 
principalmente interessado, no por tipos e

instituies sociais, como Gil Vicente, mas por problemas psicomorais, pela filosofia 
do amor. As peas de Cames, no que tm de mais significativo, so a transposio 
para a cena de alguns temas da Lrica, sem que possam pr-se ao par da fora 
dramtica vicentina.

Anfitries foi decalcado sobre o Amphytruo plautino, cujo plano  emaranhado pela 
introduo de dois comparsas suprfluos (Calisto, Feliseu), que atrasam no primeiro 
acto a intriga principal com intermdios de farsa, condescendncia talvez para com um 
pblico afeito aos autos vicentinos.
O n do enredo consiste nas confuses provocadas pelo industrioso Mercrio, quando, 
num papel equivalente ao do *servus+ ardiloso das outras com-

347
dias latinas, sugere a Jpiter o estratagema de tomar a aparncia humana do guerreiro 
Anfitrio, e a si prprio se transforma no seu criado Ssia, a

fim de que o Pai dos Deuses trave amores com a fiel esposa Alcrnena, amores cujo 
fruto ser Hrcules. A tenso fundamental do conflito plautino reside no dever, em 
que o Anfitrio se encontra, de calar um sentimento humano, o cime conjugal, em 
homenagem a um seu divino senhor; mas Cames sublinha mais um outro tema que lhe  
grato: a omnipotncia do amor, que se

estenderia aos imortais.

Cames explora desenvoltamente, numa imitao livre do modelo latino, todo o chiste e 
at toda a filosofia do equvoco entre Anfitrio e Jpiter, e sobretudo entre 
Mercrio e Ssia. Trata-se de uma imitao clssica destinada a um pblico culto, 
valorizada pelo aproveitamento de toda a bagagem estilstica e ideolgica que se 
acumulou na redondilha maior, graas  galantaria cortesanesca do Cancioneiro Geral e 
ao teatro vicentino, este ltimo filtrado de plebesmos. No h uma variedade mtrica 
que corresponda, como

no modelo plautino, aos matizes de dignidade moral e social que a aco vai 
assumindo. Contudo Cames encontrou, em parte, um sucedneo no bilinguismo de Gil 
Vicente. O idioma castelhano converte-se no teatro camoniano (como na novela 
dramatizada de Jorge Ferreira de Vasconcelos) em

indicativo do bthos, isto , da queda do dilogo ao nvel do corriqueiro e

mesmo do grotesco, ou da inferioridade social.  a lngua de Ssia, como

ser a do ridculo Fsico de E]-Re Seleuco e a dos pastores (incluindo o Bobo) de 
Flodemo.

A interpretao das culturas idiomticas peninsulares, possibilitada pela fcil 
inteligibilidade recproca, permitia ento, no s a inquestionvel unidade da 
cultura hispnica (de que todos os escritores tinham viva conscincia), mas at um 
uso esttico de oposies lingusticas e mesmo dialectais que lembra a convivncia de 
dialectos diversos na literatura grega clssica.  impressionante o nmero de motes 
castelhanos, no apenas glosados pelos nossos poetas quatrocentistas e quinhentistas, 
mas referidos no teatro

de Gil Vicente, Cames e Jorge Ferreira de Vasconcelos, como quem cita 
humoristicamente uma frase feita correntia. Este factor de variedade  que salpica um 
pouco a monotonia, alis saltitante, da redondilha maior - metro

que decerto contribui para que se aligeire e abrevie o dilogo, relativamente a

um modelo que o autor, Plauto, classificou de tragcomdia, e no de comdia.

348
E]-Rei Seleuco, num s acto, no se pode considerar uma comdia regular.
O seu ncleo reduz-se a uma anedota, referida por Plutarco e outros historiadores 
clssicos, e mencionada tambm no Espelho de Casados do Dr. Joo de Barros: o 
prncipe Antoco, filho do rei Seletico da Sria, apaixonou-se pela madrasta de tal 
maneira, que o pai, habilmente colocado por um mdico

arguto entre o dilema de perder o filho ou a mulher, cede ao filho a esposa com uma 
parte do reino. Cames releva, na anedota, sobretudo o caso de conscincia de 
Antoco, atingindo a subtileza pr-pscanaltca deste passo, que tem correspondncia 
na lrica:

Que maneira de tormento to estranho e evidente, que nem cuidar se consente,

porque o mesmo pensamento h medo do mal que sente.

Isto, de resto, no o impede de, por outro lado, criticar o caso sentimental das trs 
rgias figuras, pela boca da Moa que, enquanto faz uma cama, se ri dos amores dos 
grandes, *porque de meros vosos/no podem com

a sade+.

J se pensou que esta pea aludisse, pelo contraste dos comportamentos, ao facto

de D. Manuel se haver casado com a noiva contratada para seu filho, D. Leonor da 
ustria. Parece ter-se boquejado muito de D. Joo 111 e da madrasta. Mas uma aluso 
aos

pregadores jesuitas, contida no prlogo, avana a data provvel da redaco para 
depois de 1540, em pleno reinado de D. Joo 111, o que enfraquece tal hiptese. A 
fonte directa parece ser o comentrio de Bernardo Cicino a um passo dos *Trionfi+ de 
Petrarca. Vide Asensio, Eugenio: *Les Sources de I'Espelho de Casados du Dr. Joo de 
Barros+, Coimbra, 1949.

Pormenor curioso e significativo do predomnio das coisas psicolgico-sentimentais na 
pea  a omisso da cedncia do reino por Seleuco, fixando todo o interesse do remate 
na cedncia da esposa, enquanto a verso plutarquiana frisa tambm a vantagem de 
parcelar o extenso reino srio. Neste ponto Cames segue, de resto, a verso que do 
caso se d na fonte atrs indicada.

No confundir com o autor das Dcadas.

         349
A anedota histrica  encorpada por entreactos de farsa, Como as pretenses falhadas 
dum Porteiro junto de uma Moa de cmara, as tentativas ridculas de versificao 
pelo Porteiro, o dilogo castelhano entre o Fsico e o seu Moo. Est enquadrada por 
um prlogo e um eplogo em prosa, inteiraniente desligados do essencial e que 
despertam curiosidade pelas aluses pormenorizadas ao costume de representar autos em 
ptios de casa particular lisboeta. Mencionam-se as atrapalhaes e omisses 
costumeiras da ltima hora, a afluncia incontrolvel de assistentes desconhecidos, a 
atarantao do Mordomo, dono da casa; nomeiam-se actores, msicos e at o dramaturgo 
popular Antnio Ribeiro Chiado.  provvel que todas as personagens a referidas 
sejam reais, e que a pea tenha sido representada nas condies caricaturadas, sob a 
proteco de uma personagem grada que pudesse apreciar as suas intenes mais subtis 
e literrias.

Filodemo  uma comdia novelesca; apresenta evidentes analogias com

a vicentina Rubena e com a Celestina de Rojas, embora se enquadre nos clssicos cinco 
actos divididos em cenas. A novela cavaleiro-pastoril do seu entrecho foi reduzida a 
tratamento teatral de um modo diferente do de Gil Vicente; a aco concentra-se, 
dispensando quer o subentendimento de saltos no tempo, quer a interveno de um 
narrador - o que tudo revela a lio do classicismo.

Relega-se a um pretrito s conhecido por aluso a histria do nascimento dos irmos 
gtricos Filodemo e Florimena, filhos do infeliz amor de um casal nobre que findara 
num naufrgio e numa morte de parto ao descampado. Os gnicos desencontram-se. 
Filodemo apaixona-se pela fidalga Dionisa, de cujo pai se fez criado, ao passo que 
Florimena, transformada em pastora, entusiasma Venadoro, irmo de Dionisa. Transpondo 
todos os obstculos, o amor realiza-se nos dois casais, quer por intercesso da 
esperta criada Solina, quer porque Venadoro chega a resignar-se  condio de pastor. 
O ponto mais fraco da aco reside, talvez, na intil inverosimilhana do 
reconhecimento da estirpe dos gmeos (que tudo resolve) graas s artes mgicas de um 
pastor. Toda a pea ressuma uma tpica preocupao do tempo com os problemas 
gencalgicos: o sangue azul dos protagonistas revela-se, antes do seu reconhecimento, 
pela generosidade (generosidade quer, etimologicamente, dizer qualidade hereditria) 
do seu temperamento amoroso.

Apesar do desenrolar romanesco desta comdia, da sua disperso pelo tempo e pelo 
espao, da aco dupla e paralela, qualidades incompatveis com a condensao exigida 
pelo teatro moderno, Filodemo pode ser classificado como uma das obras mais 
interessantes da maturidade de Cames. Porqu?

350
Primeiro, porque a sua apresentao formal rene o mximo de variedade e adequao 
rtmica do teatro camoniano ao seu assunto, aproximando-se da do teatro elisabetiano 
ingls de fim do sculo. Com efeito, alm da redon~ dilha maior (em ritmo 
predominantemente construdo  base de dois ps iambicos - tona, tnica - e um 
anapstico - tona, tona, tnica - ritmo

muito marcado nos fechos importantes de frase, mas de quando em quando variado por um 
comeo de verso em p trocaico - tnica, tona -, que em portugus soa quase sempre 
prosaico); alm dos contrastes bilingusticos j nossos conhecidos e de certos 
interldios musicados, Cames usa tambm aqui a prosa,, um pouco  maneira de 
Shakespeare, para denotar a presena, no dilogo, do realismo amoroso personificado 
em Duriano, que ama

*pela activa+ e zomba dos *contemplativos+, ou ento uma explicao sumariante do 
enredo ou uma cena parodstica. A prosa predomina para o final, aliviando um 
idealismo excessivo at ento predominante e que tambm vai dar a nota de remate. Mas 
deve notar-se que o ponto de vista de Duriano, to contrastante com o idealismo dos 
dois casos amorosos centrais, se no confunde por forma alguma em dignidade com o 
ridculo das preocupaes servis ou grotescas, cuja expresso prpria , nestas 
peas, o idioma castelhano. O metaforismo de Duriano destaca-se pela vivacidade, pelo 
pitoresco e mesmo por um ineditismo potico bem *modernista+ relativamente s 
convenes estilsticas da poca; coincide impressionantemente com o tom da 
epistolografia particular de Cames. Tal estilo, bem diferente do dos gneros 
decassilbicos renascentistas, pode comparar-se ao da Eufrosina de Jorge Ferreira de 
Vasconcelos, que estudaremos. Reencontr-la-emos em Soropita e outros, e lembra 
certos artistas de Quinhentos e incios de Seiscentos, que gostam de forar os 
contrastes, de combinar coisas requintadas com coisas disformes ou prosaicas, se no 
mesmo insistir nestas ltimas, por exemplo, Breughel-o-Velho, Velsquez, Murillo.

Com efeito, a verso que Duriano d dos casos sentimentais a que assiste no tem 
menos verdade que a da expresso sentimental dos protagonistas. Afinal, o platnico 
Filodemo que lhe dissera: *eu no pretendo dela mais que o no pretender dela nada, 
porque o que lhe quero consigo mesmo se

paga+ e que, de to afeito ao sofrimento, chega a no receber no seu coraao a boa 
notcia de ser amorosamente correspondido, por j no ter agora *sujeito para tamanho 
bem+, - acaba por fazer aquilo que Duriano assevera de todos

  351
os neoplatnicos treslidos em Petrarca e Bembo: *se a qualquer destes lhes entregasse 
sua dama tosada e aparelhada entre dous pratos, eu fico que no lhe ficasse pedra 
sobre pedra+. A pardia e crtica antipetrarquista tem alis uma tradio 
renascentista italiana.

Alm disto, nas cenas em prosa que dominam o desfecho da pea e que decorrem sob o 
clima moral de Duriano, h, a par das explicaes condensadoras da aco e de uma 
certa brejeirice plebeia, imagens curiosas acerca de Dionisa, *a mais formosa dama 
que nunca espalhou cabelos ao vento+, *mais formosa que uma manh de S. Joo, mais 
mansa que o rio Tejo, mais branca que um soneto de Garcilaso, mais delicada que um 
pucarinho de Natal+. De tudo isto ressalta uma sensibilidade nova, comum, como 
veremos, a Jorge Ferreira de Vasconcelos, e mais tarde a Rodrigues Lobo, a Soropita e 
outros autores de Seiscentos, sensibilidade que poderemos considerar manein.sta, em 
contraste com o gtco final das glosas em redondilha e com o 
classicismo,renascentista da poesia decassilbica. Encontramo-la, tambm, nas

partes em prosa de E]-Rei Seleuco.

Mas no  esta a nica das facetas realistas da comdia a contrastar com a 
sentimentalidade dos seus heris.  criadagem corresponde um ponto de vista tambm 
aceitvel, e muito afim. Na verdade, enquanto Filodemo, reduzido a criado, no pode 
dormir de amor e precisamente disso nos faz inferir

a sua ascendncia nobre (*nem so vilos os meus cuidados+), o seu companheiro 
Vilardo sofre antes os padecimentos de fadiga e sono inerentes  sua

condio servil, e comenta  sua maneira a situao da amada de Filodemo, que ele no 
conhece:

E se tal , eu daria, por conhecer a donzela, a rao de hoje em dia, porque a 
desenganaria, somente por ter d dela. Havia-lhe perguntar:
- Senhora, de que comeis? Se comeis de ouvir cantar, de falar bem, de trovar, em boa 
hora casareis.

Porm se vs comeis po, tende, Senhora, resguardo.

352
Eis o ponto de vista plebeu vicentino. Doutra banda, Solina, a criada alcoviteira,  
uma frtil mina de experincia, como a Celestina, que tanto lembra. Comenta assim o 
recato inicial e a indiferena afectada de Dionisa:

Se eu tantas dobras tivesse como quantas [mulheres] houve erradas sem que o mundo 
soubesse,
-  f que eu enriquecesse e fosse das mais honradas [quer dizer: respeitadas].

E poderia ainda reparar-se no curioso monlogo (11, 3) em que Solina caracteriza as 
vicissitudes de humor de Dionisa, secretamente apaixonada. Solina representa, pois, 
um realismo popular que, de resto, a censura atenuou muito, como se verifica pelo 
original manuscrito conservado no Cancioneiro de Lus Franco Correa. At o prprio 
Bobo insensato corresponde a um ponto de vista vlido, nas contradies do panorama 
humano de Filodemo. Basta atentar na densidade da cena em que ele quer passar por 
fidalgo portugus, graas s roupas que trocou com Venadoro. O pai desmente-o, e ele 
queixa-se:

Padre, no me dejars ser lo que quisicre un dia?

Ah Santo Dios verdadero! No ser lo que otros son?

O pai manda-o calar, e ele comenta:

Ya me calo: aora um poco h de ser ]o que yo quisiere.

De resto todas as falas deste Bobo so uma reivindicao dos direitos da fantasia e 
dos instintos recalcados por uma coaco social de aparncia lgica. , por assim 
dizer, um doido pr-surrealista.

Por toda esta multiplicidade e fundura de experincia humana lterariamente 
mobilizada, pela finura de tantas observaes psicolgicas (por exemplo, a auto-
apologia de Dionisa, que procura justificar os amores de altas damas com homens de 
condio baixa, pela falta de distraces que elas tm, em comparao com o sexo 
masculino fidalgo), talvez no seja descabido considerar Filodemo uma das peas 
quinhentistas portuguesas de interesse hoje mais vivo. Que se trata de um produto da 
maturidade de Cames (isso

353
est alis confirmado por um testemunho segundo o qual foi representada a um vice-rei 
na ndia), parece-nos indicado, no s pela sua craveira, como pela sua afinidade com 
algumas das melhores peas lricas camonianas. A autobiografia de Florimena, no 
incio do acto 11, parece conter a chave de algumas obscuridades da cano 
autobiogrfica. O soneto Transforma-se o amador na coisa amada est condensado num 
passo de IV, 6. O final da cano X  parodiado em 11, 8. H ainda numerosas 
coincidncias secundrias que convergem para nos deixar a mesma impresso.

11111M1,61106XWFZ4

1. Textos

Os Lusadas. 1. > ed., Lisboa, em casa de Antnio Goncalves, 1572. Com a mesma data 
de 1572 existem duas impresses, que graficamente quase se confundem, tendo uma, na 
portada, um pelicano com a cabea virada para a esquerda, a outra um pelicano muito 
semelhante com a cabea virada para a direita. O texto  idntico, salvo midas mas 
numerosas diferenas, sobretudo gramaticais, sendo a primeira (muito tpica) no verso 
7. > da 1 . > estrofe: *E entre gente remota edificarar-n+ (pelicano de cabea  
esquerda); *Entre gente remota edificaram+ (pelicano de cabea  direita). Deu-se  
1. > destas impresses a designao Ee,  segunda E (primeiras letras do verso 
citado). Tm-se aventado vrias hip teses para explicar estas duas impresses: ou se

teria realizado unia 2. > impresso logo a seguir  primeira, quer porque a obra se 
esgotasse rapidamente, quer porque se reconhecesse a necessidade de corrigir os 
numerosos erros da 1 . > impresso; ou se trataria de uma contrafaco para 
aproveitar o xito da obra, ou explorar a sua raridade bibliogrfica, ou ainda para a 
fazer circular integralmente numa poca posterior em que ela fora barbaramente 
mutilada pela censura inquisitorial.

Num minucioso estudo comparativo de 18 exemplares desta presumida ed. <@princeps+ 
dupla, K. D. Jackson chegou  concluso que a vers o E resulta de progressivas 
emendas da Ee feitas no decorrer da impresso (da a intrincada mistura das folhas da 
Ee e da E nos volumes que se conhecem); ver, nomeadamente, Para uma edio crtica de 
*Os Lusiadas+, 1572: a contribuio dos exemplares mais raros, in Estudos Portugueses 
- Homenagem a L. Stegagno Picchio, Difei, Lisboa, 1990, pp. 589-601.

A 2. > ed. de Os Lusadas  a chamada *dos Piscos+, 1584. Foi expurgada e alterada 
pela censura inquisitorial, que dela eliminou a designao de *deuses+ atribuda s 
personagens da mitologia e cortou numerosas estrofes, como as alusivas aos Jesutas, 
e

as de mais viva vibrao ertica, sobretudo no episdio da ilha dos Amores. Em 1586 o 
poema voltou a ser reimpresso sem estes cortes, embora ainda no ntegro, o mesmo 
sucedendo com a 4. > ed., de 1609, ltima em que o texto de Os Lusadas foi mutilado 
ou adulterado por escrpulos religiosos ou outros.


So numerosssimas as ed. de Os Lusiadas, contando-se 18 s at 1670. Das ed. 
modernas destacam-se a de Epifnio da Silva Dias, 1910, e a de A. Jos Saraiva, com

354
introd. e notas, Porto, 1979. H tambm impresses fac-similares da 1. > ed. (E--) 
pela Biblioteca Nacional de Lisboa, 1928, e pela *Revista de Portugal+, esta em 
pequeno formato, com pref. e notas de Cludio Basto, Lisboa, 1943. Logo em 1580 o 
poema tem duas tradues para castelhano, seguidas de uma terceira em 159 1.

Vejam-se dados sobre o cotejo entre as edies Ee e E em recenso de R. Bismut, 
*Bulletin des tudes Portugaises et Brsiliennes+, vols. 35-36, 1974-75, pp. 286-289, 
e um artigo de Francisco Dias Agudo sobre o mesmo assunto, in *Garcia de Orta+, 
nmero comemorativo da 1. a ed. do poema, 1972.

Lrica. S se publicaram em vida de Cames trs poemas lricos seus: a ode ao conde 
de Redondo, inserta na 1. > ed. dos Colquios dos Simplices e Drogas, de Garcia de 
Orta (1563); o soneto *Vs,  ninfas da gangtica espessura+, e a elegia *Depois que 
Magalhes teve tecida+, que acompanha a      1 . aed. da Histria de Santa Cruz, de 
Pro de Magalhes Gndavo (1576); no  inteiramente certa a autoria camoniana do 
soneto *Ditosa pena, como a mo que guia+ que, sem designao de autor, acompanha o 
tratado de caligrafia de Manuel Barata (Exemplares de vrias sortes de letras, 
Lisboa, 1570).

A 1. ed., com o ttulo Rhytmas de Lus de Cames, impressa por Manuel de Lyra, 
Lisboa, 1595, e a 2. >, Rimas de Lus de Cames, impressa por Pedro Craesbeeck, 
Lisboa, 1598, ambas custeadas por Estvo Lopes, *mercador de livros+, foram 
organizadas por Ferno Rodrigues Lobo Soropita, que se socorreu de cancioneiros 
manuscritos, onde andavam coleccionadas as composies lricas de Cames juntamente 
com as de outros poetas. Pela informao deficiente dos organizadores destes 
cancioneiros, e pela maneira defeituosa como se cosiam os cadernos nos respectivos 
volumes, acontece que se encontram neles muitas atribuies errneas e muitos versos 
mal copiados. As ed. de Soropita acumulam estes defeitos, chegando a incluir 
composies do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. A 1. > ed. foi reproduzida em 
fac-smile em 1972, e a de
1598 em 1980, com estudo de Vtor M. de Aguiar e Silva, pela Universidade do Minho.

A 3. aed., organizada por Domingues Fernandes (1607), reed. da de 1598, promete novo 
material, que, vagamente certificado por D. Rodrigo da Cunha, bispo de Portalegre, 
vir a incluir-se na Segunda Parte das Rimas, 1616, assim se iniciando a especulao 
com os apcrifos de Cames.


Mais audacioso  o critrio seguido por Faria e Sousa (na sua pstuma ed. das Rimas 
de Cames, 1. > e 2.1 partes, 1685-89), que se resume nas palavras *yo doy [a Cames] 
todo lo que he haliado con sombra de suyo+, incluindo composies reconhecidamente de 
outros poetas, sobretudo de Diogo Bernardes, que ele considerou roubadas a *mi 
poeta+. Por outro lado, partindo do pressuposto de que os versos de Cames andavam 
adulterados nos manuscritos, Faria e Sousa emendou-os, por vezes profundamente, a seu 
gosto (por sinal apurado),  hoje praticamente impossvel saber em que medida as 
atribuies de Faria e Sousa (excepto nos casos em que se conhecem os autores 
espoliados) e as suas correces so arbitrrias, o que no  razo para as excluir 
*a priori+.
O trabalho de Faria e Sousa, falecido em 1649, foi aproveitado por outros, entre os 
quais D. Antnio lvares da Cunha, guarda-mor da Torre do Tombo, na sua chamada 
Terceira Parte das Rimas, 1668. Novos *inditos+ so acrescentados nas ed, de 1720 e 
1779, esta ltima realizada tambm sobre manuscritos de Faria e Sousa. (Ed. 
comemorativa das Rimas com comentrios de M. de Faria e Sousa, IN-CM, 1972.)

           355
Novo passo dado, no sc. XIX, pelo visconde de Juromenha, na sua ed. completa das 
obras de Cames, 6 vols., Lisboa, 1860-69, que utilizou manuscritos de Faria e Sousa 
e outros manuscritos do sc. XVI. Tefilo Braga segue o mesmo critrio de avolumar  
custa alheia a lrica camoniana, nas suas ed. de 1873-75 e 1880. Deve-se a Wilheim 
Storck e a Carolina Michalis de Vasconcelos a primeira tentativa, nem sempre 
criteriosa, de joeiramento deste material e a restituo aos seus legtimos autores 
de composies abusivamente reivindicadas para Cames. Deste trabalho se aproveitou a 
ed. da Lrica por Jos Maria Rodrigues e Afonso Lopes Vieira, 1932, na qual foram 
eliminadas nada menos de 248 composies que andavam atribudas a Cames (cerca de 
metade do total que lhe era atribudo na ed. de Juromenha).

Jos Hermano Saraiva, na obra adiante citada, pe em causa os pareceres de alguns 
crticos de Faria e Sousa. No entanto, no est concludo o trabalho de apuramento 
definitivo do texto camoniano.

Duas posteriores ed. - a de Hemni Cidade, na col. *Clssicos S da Costa+,
1946-47, 3. > ed. 1962, e a de Costa Pimpo, pela Companhia Editora do Minho, 1944, 
reed. corr., Atlntida, Coimbra, 1973 - oferecem divergncias. E est ainda por 
concluir o estudo minucioso dos manuscritos subsistentes: o ndice do manuscrito do 
Cancioneiro de 1577, do p.e Pedro Ribeiro; o Cancioneiro de Lus Franco Correa, 
coligido entre 1557 e 1589; o Cancioneiro Fernandes Toms; o manuscrito da Biblioteca 
da Universidade de Coimbra; o manuscrito da Biblioteca Municipal do Porto, estes dois 
ltimos supostamente pertencentes a Frei Agostinho da Cruz; o Cancioneiro de D. Maria 
Henriques (sc. XVI) e dois cancioneiros luso-espanhis, um na Biblioteca da Academia 
de Histria de Madrid, outro na Biblioteca do Escorial, aproveitados por Cruz, Maria 
Isabel G. Ferreira da: Novos Subsdios para uma edio crtica de Cames (Os 
Cancioneiros inditos de Madrid e do Escorial), Porto, 19 7 1.

H uma ed. recente da Obra Completa, Lello, Porto, 1970, que inclui todo o material 
compilado at Tefilo Braga. H uma ed. crtica expurgada das obras contestadas, 
segundo um critrio eclctico: Obra Completa, na *Biblioteca Luso-Brasileira+, Rio de 
Janeiro, 1963, org., introd. e notas de Antnio Salgado Jnior. Outra com ref. e 
notas de Maria de Lourdes Saraiva, Lisboa, IN-CM, 3 vols., 1980-81.

Jorge de Sena, em Uma Cano de Cames, 1966, Os Sonetos de Cames e o Soneto

Quinhentista Peninsular, 1969, e A estrutura dos Lusiadas, 1970, alia a erudio de 
tipo tradicional a dados de estatstica versificatria.

Silva, Vtor M. de Aguiar e: Notas sobre o Cnone da Lrica Camoniana, *Revista de 
Histria Literria de Portugal+, Coimbra, 3, 1968, pp. 185-202, e 4, 1972-75, pp.
87-122.

Roger Bismut (autor de uma trad. francesa de Os Lusadas), em La Lyrique de Cames,

197 1, baseia-se principalmente em dados de minuciosa comparao tpica e 
estilstica. De notar, a recenso crtica do primeiro dos livros indicados de Jorge 
de Sena por R. Bismut, in *Builetin des tudes Portugaises+, Paris, 30, 1969, a que o 
criticado responde no vol. 31, 1970,

Azevedo Filho, Leodegrio de: A Lrica de Cames e o problema dos manuscritos, 
Arquivos do Centro Cultural Portugus, Paris, 13, 1978, pp. 63-74, e Lrica de Cames
1: Histria, Metodologia, Corpus, IN-CM, Lisboa, 1984 (recenso de E. Paulo Ramos em

*Colquio/Letras+, 93, Set. 1976, pp. 144-147, e de R. Bismut em *Builetin

356
des tudes Portugaises et Brsiliennes+, t. 46-47, 1986-87, pp. 305-317), 11 Sonetos,
1989, e Introduo  Lrica de Cames, *Biblioteca Breve+, ICALP, 199 1.

Berardinelli, Cleonice: Sonetos de Cames Corpus dos Sonetos Camonianos, Centro 
Cultural Portugus/Fundao Casa de Rui Barbosa, Lisboa, Paris, Rio de Janeiro, 1980.

Askins, Arthur Lee-Francis: The Cancioneiro de Cristvo Borges, ed. crtica, Braga,
1979, compilado entre 1568-78, portanto ainda em vida de Cames e contendo numerosos 
dos seus poemas, alm de poemas de outros autores de fins do sc. XV e incios do 
sc. XVI, como Bernardes, S de Miranda, D. Manuel de Portugal, Francisco de S de 
Meneses e Jernimo Corte Real e ainda autores castelhanos. Encerra uma enumerao de 
manuscritos, ed. e estudos recentes que permitiro fixar de modo muito mais rigoroso 
o canone da obra camoniana.

Registemos, pela sua importncia, a dissertao de Jensen, Gordon Kay: A 
reexamination of the role of the *ndice do Cancioneiro do padre Pedro Ribeiro+ in 
the Cames-Bernardes question, Univ. Wisconsin, 1975.

Teatro. A 1. > ed. dos Autos de Cames vem includa no vol. Primeira parte dos autos 
e comdias portuguesas por Antnio Prestes e por Lus de Cames e por outros autores 
portugueses, compilada por Afonso Lopes, Lisboa, 1587. Reed. fac-similada com pref. 
de H. Cidade e nota bibliogrfica de J. V. de Fina Martins, Lisboa, 1973. Foi 
reproduzido na ed. citada da col. *Clssicos S da Costa+. H ed. separada por Braga, 
Marques: Lus de Cames, Autos, 1928; e ainda a da col. *Lusitnia+, s/d. Ed.  parte 
de EI-Rei Seleuco, da col. *Portugal+, Porto, s/d, e nas ed. *Ocidente+, com pref. e 
notas de Vieira de Almeida. Ed.  parte dos Anfitries nesta ltima col., tambm com 
pref. e notas

de Vieira de Almeida, e na col. *Textos Literrios+, apres. e notas de Clara Rocha, 
198 1.

2. Antologias

De entre as vrias, apontamos as de Rodrigues Lapa na col. *Clssicos do Estudante+,
6. > ed., S da Costa, 1976; de Antnio Jos Saraiva, uma na col. *Os Textos 
Explicados+, outra na col. *Saber+; de Hemni Cidade na col. *A Obra e o Homem+; a 
de Maria Vitalina Leal de Matos, na col. *Textos Literrios+, 1979; e os cinco vols. 
dedicados a Cames Lrico pela Antologia Portuguesa, de Agostinho de Campos.

3. Estudos


Para a vastssima bibliografia camoniana e os diversos problemas que ela versa, podem 
servir de guia os estudos de conjunto de Gentil, Georges le: Cames, Paris, 1954 
(trad. portuguesa anotada por Jos Terra, Lisboa, 1969), e de Cidade, Hemni: Lus de 
Cames,
1, O Lrico, 3. > ed., rev. 1967, e O pico, 2. a ed., 1953, reed. conjunta, 
Presena, 1987: Os Autos - As Cartas, 1956.

Colectnea de estudos dedicados ao 4. > Centenrio: *Arquivos do Centro Cultural 
Portugus+, 16, Fund. C. Guibenkian, Paris, 1981.

Interessa ler, por oferecerem matria de reflexo, os seguintes textos: Antnio 
Srgio, notveis estudos sobre Cames em Ensaios, IV e V.

          357
Saraiva, Antnio Jos: Os Lusiadas e o ideal renascentsta da epopeia, no vol. Para a 
Histria da Cultura em Portugal, 1, Lisboa, 1946, e Lus de Cames, col. *Saber+.

Sena, Jorge de: A Estrutura de *Os Lusadas+, 1, 1961, li, 1964, *Revista do Rio+, 
Rio de Janeiro, alm de outros artigos dispersos referidos e, em parte, integrados 
nos seus vols. atrs referidos sobre Uma Cano de Cames, Os Sonetos de Cames, 198 
1, * A Estrutura dos Lusadas, 1980: Trinta Anos de Cames, 1 e li, 1980, e Estudos 
sobre * Vocabulrio de Os Lusadas, 1982, todas por Edies 70, Lisboa.

Berardinelli, Cleonice: Estudos Camonianos, MEC, Departamento de Assuntos Culturais, 
Rio, 1973.

Cunha, A. Geraldo da: ndice Analtico do Vocabulrio de *Os Lusiadas+, 2. ed., 
Inst. do Livro/Presena, Rio de Janeiro, 1980.

Verdelho, Teimo: Indice Reverso de *Os Lusadas+, Biblioteca Geral da Universidade, 
Coimbra, 1981.

Namorado E./Rebelo, L. de Sousa/Walker, R. M./Mendes, Joo: Cames e o Pensamento 
Filosfico do seu tempo, Prelo, Lisboa, 1979.

Macedo, Hlder: Cames e a Viagem Inicitica, Moraes, Lisboa, 1980. Como 
interpretao sob um ponto de vista geral e estrangeiro, interessa ler Bowra, C. M.: 
From Virgil to Milton, 1945, traduzido por Antnio Alvaro Dria, Porto, 1945, e Studi 
Camoniani SO, a cura de G. Lanciani, Japedre-L'Aquila, 1980.

Outros estudos e monografias: Rodrigues, Jos Maria: Fontes dos Lusadas, 1913. 
Silva, Carios Eugnio da: Ensaio sobre os latinismos de *Os Lusadas+, Coimbra, 193 
1. Figueiredo, Fidelino de: A pica Portuguesa no sc. XVI, 7. ed., IN-CM, 1987. 
Gonalves, Rebelo: Dissertaes Camonianas, Rio-S. Paulo, 1937. Monografias de 
Antnio Salgado Jnior, publicadas nas revistas *Labor+, vol. X, e *Ocidente+, vols. 
XXX1V e XXXVIII, e na *Biblioteca Fenana+, Porto, 1939.

Sobre o teatro camoniano fez Vieira de Almeida, alm dos pref. s ed. mencionadas, 
uma apreciao de conjunto publicada no *Bulietin d'Histoire du Thtre Portugais+, 
t.
1, n. 2, 1950.

Post, H. Howens: A Little known source of the Lusiadas, Groningen, 1962, includo na 
Miscelnea de Estudos a Joaquim de Carvalho, 3. vol., Figueira da Foz, 1960.

Asensio, Eugenio: Sobre El Rey Seleuco de Cames, in Estudios Portugueses, Paris,
1974, vol. que inclui estudo sobre La Fortuna de Os Lusadas en Espaia.

Bismut, Roger: Plaidoyer pour Dynamne, in *Builetin des tudes Portugaises et 
Brsiliennes+, 3. 1 vol., 1969, pp. 89-93, e Les thmes lyriques dans les *Lusiades+ 
de Cames, tese complementar de doutoramento, roneotipada, Paris, 1971Albuquerque, 
Lus de: A viagem de Vasco da Gama entre Moambique e Melinde segundo *Os Lusiadas+ e 
segundo as crnicas, rev. *Garcia de Orta+, nmero comemorativo da 1. > ed. do poema, 
1972, pp. 11-35. @Aponta como fontes lvaro Velho e Castanheda, excluindo Barros e 
Gis.)

358
Giaser, Edward: Portuguese Studies, Fund. C. Gulbenkian, Centro Cultural Portugus, 
Paris, 1976.

Matos, M. Vitalina Leal de: O Canto na Poesia pica e Lrica de Cames. Estudo de 
Isotopia Enunciativa, Fund. C. Gulbenkian, Paris, 1981, Introduo  Poesia de 
Cames, *Biblioteca Breve+, ICALP, 1980, e Ler e Escrever, IN-CM, 1987 (com ensaios 
camonianos).

Problemas biogrficos:

Saraiva, Jos Hermano: Elementos para uma Nova Biografia de Cames, sep. das 
*Memrias da Academia das Cincias+, t. XIX, Lisboa, 1978 (recenses de Vtor M. de 
Aguiar e Silva e de Amrico da Costa Ramalho, in *Colquio/Letras+, 47, Janeiro 
1949).

Albuquerque, Martim de: A expresso do poder em Lus de Cames, IN-CM, 1988 (sustenta 
a categoria nobre de Cames). Coelho, Jacinto do Prado: Cames, poeta do desengano, 
in Problemtica de Histria Literria, tica, Lisboa, 1961; Cames, um lrico do 
transcendente, in A Letra e o Leitor, Portuglia, Lisboa, 1969; e Ao Contrrio de 
Penlope, Bertrand, 1976.

O Instituto de Estudos Portugueses da Universidade de So Paulo publica uma *Revista 
Camoniana+, de que saram 7 vols. de 1964 a 1986-87Em 1980 publicaram-se 2 n.@ da 
rev. *Cames+, dir. por scar Lopes, Caminho, Lisboa.

H algum desenvolvimento ou discusso dos nossos pontos de vista em Lopes, scar: Ler 
e Depois, trs ed., Porto, 1969 e 197 1, e Cifras do Tempo, Caminho, 1990. E entre os 
trabalhos relacionados com o 4. > centenrio da publicao de Os Lusadas, salientam-
se Visages de Lus de Cames (conf. de C. Pimpo, R. Bismut, J. V. Pina Martins, J. 
de Sena, F. Mauro, E. Loureno, L. de Albuquerque), Centro Cultural Portugus, Paris, 
1972, as

Actas da 1 Reunio Internacional de Camonistas, 1973, e as da 111 Reunio 
Internacional de Camonistas (Coimbra, 1980), ed. Univ. de Coimbra, 1987; os n.@ 415 e 
Nmero Especial de *Ocidente+, Nov. de 1972, e os n.@ 42-43 de *Panorama+, Set. 
1972.

Silva, Margarida Garcs da: *Os Lusiadas+ e o poder poltico, in *Brotria+, vol. 
94, n. O 1, Jan. 1972, sobre a ideologia poltica do poema.

Ramalho, Amrico da Costa: Estudos Camonianos, 2. ed., INIC, 1980 (pesquisa de 
fontes clssicas).

Piva, Lus: Do Antigo e do Moderno na pica Camoniana, Braslia, 1980. Moura, Vasco 
da Graa: Lus de Cames, Alguns Desafios, Vega, Lisboa, 1980, Cames e a Divina 
Proporo, Lisboa, 1985 (importante contribuio para a interpretao de Sobre os 
rios... ), e Os Penhascos e a Serpente, 1987.


Osrio, Jorge Alves: As redondilhas *Sobre os rios+: ensaio de leitura a partir do 
Cancioneiro de Cristvo Borges, *Arquivos do Centro Cultural Portugus+, 16, 1981, 
Paris.

Silva, Vtor M. de Aguiar e: Amor e Mundividncia na Lrica Camoniana, in 
*Colquio/Letras+, 55, 1980, pp. 33-46, e Aspectos Petrarquistas da Lrica de Cames, 
in Cuatro Lecciones sobre Cames, Fund. J. March/Ctedra, Madrid, 198 1, pp. 99-116.

Brando, Fiarna H. Pais: O Labirinto Camoniano e outros labirintos, Teorema, 1986 
(sobre a Cabala em Cames e outros autores dos scs, XVI-XVIII).

        359
Cunha, M. Helena Ribeiro da: Dialctica do Desejo em Cames, IN-CM, 1989. Reunio de 
estudos de autoria diversa no vol. Cames  Ia Renaissance, Centro Cultural 
Portugus, Fund. C. Gulbenkian, Paris, 1983,

Na seco Estudos Camonianos dos Estudos Portugueses - Homenagem a L. Stegagno 
Picchio, Lisboa, 1990, esto contidas vrias importantes contribuies, de que aqui 
salientaremos: Anastcio, Vanda: Aparncia e Identidade no *Auto dos Enfatries+ de 
Cames, pp. 519-568; Rebelo, Lus de Sousa: Petrarquismo e antipetrarquismo no *Auto 
de Filodemo+, pp. 633-652.

Tambm importam os Catlogos das Exposies Bibliogrficas e Iconogrficas 
comemorativas do IV centenrio de Os Lusadas, de 1972, ed., respectivamente, do 
Centro Cultural Portugus de Paris e da Biblioteca Nacional de Madrid, com introd. de 
J. V. Pina Martins e de Antnio Coimbra Martins, que contm dados sobre edies, 
tradues e repercusses culturais noutros pases, sobretudo em Espanha. H um 
informativo e complementar Catlogo de exposio anloga organizada por Fina Martins 
na Academia Nazionale dei Lincei, Roma, 197 5, ed. Fund. C. Gulbenkian e Instituto de 
Alta Cultura.

Bernardo Xavier Coutinho, cuja Bibliographie Franco-Portugaise, Porto, 1939,  em 
parte uma camoniana francesa, reuniu o maior nmero de dados sobre iconografia 
internacional camoniana em Cames e as Artes Plsticas, 2 vols., Figueirinhas, Porto, 
1946-48, que actualizou em Ensaios 111, Fernando Machado, Porto, 1975, acrescidos de 
A Medalhistica Camoniana do sc. XVIII aos nossos dias, Lisboa, 1974.

Serro, Vtor/Moura, V. Graa: Femo Gomes e o retrato de Cames, IN-CM, 1989. A 
Micrologia Camoniana, de Joo Franco Barreto (n. 1600, f. no antes de 1674), que 
organizou a ed. de 1663 de Os Lusadas e a da 1. > parte das Rimas de 1666, e ao 
poema dedicara um Discurso Apologtico, permaneceu em manuscrito at  ed. de 1982 
pela IN-CM, com pref. de Anbal Pinto de Castro.  um minucioso comentrio por 
entradas alfabeticamente ordenadas.

Esta bibliografia, necessariamente muito incompleta, deve ser completada e 
actualizada pela que est contida nas obras mencionadas,

Captulo IX

POESIA MANEIRISTA

A caracterizao de estilos ou fases da poesia portuguesa quinhentista (e 
seiscentista) oferece grandes dificuldades, e ainda se no poder fazer de um modo 
satisfatrio. As ideias at agora dominantes a este respeito baseavam-se quase 
exclusivamente em antigas obras impressas e em tentativas isoladas de reconstituio 
erudita do patrimnio dos autores mais famosos. A publicao e o cotejo gerais e 
metdicos dos cancioneiros manuscritos, e

em geral de autoria variada e muito baralhada,  um acontecimento em curso

desde 1965, e j com importantes incidncias at sobre a determinao de auiorias com 
prestgio consagrado.

Acresce que as generalizaes acerca da literatura e da esttica renascentistas, na 
acepo mais ampla do Renascimento, que abrange o Maneirismo e at por vezes o 
Barroco, se baseiam sobretudo em dados culturais italianos e germnicos, que, ainda 
para alm dos seus srios problemas de estrutura e cronologia, nem sempre nos ajudam 
a compreender a histria cultural ibrica. No caso particular da literatura 
portuguesa, h tambm a

atentar em duas circunstncias opostas mas correlativas: por um lado, o poeta 
portugus de Quinhentos e Seiscentos estava to familiarizado com a literatura de 
lngua castelhana, na qual de resto muitas vezes participava, e at

mesmo com a italiana, que sem referncias estrangeiras se torna impossvel 
compreender a continuidade do seu contexto histrico-literrio portugus; por outro 
lado, as vicissitudes da histria poltico-social portuguesa (a expanso ultramarina, 
a represso inquisitorial de uma minoria cultural e economicamente dinmica, o 
desastre de Alccer Quibir com a consequente ausncia

362
de uma corte rgia lisboeta, os efeitos econmico-sociais da colonizao brasileira, 
etc.) do a certos temas e formas europeus intenes peculiarmente portuguesas que 
escapam a quem no atenda ao contexto das obras e se satisfaa com um ficheiro de 
topos e tropos.

Assim, entre o Cancioneiro Geral e cerca da Restaurao brigantina, mantm-se, tal 
como em Espanha, o cultivo das formas heptassilbicas de mote glosado; alm disso, o 
gosto, igualmente hispnico, do romanceiro popular e suas imitaes narrativas ou 
parodsticas, em heptasslabo monrrimo assonante, principia a acusar-se em autores 
portugueses como Gil Vicente ou Bernardim, para conhecer a sua maior voga durante 
todo o sculo XVII. Eis um importante trao *gtico+ peculiar a quase toda a lrica 
peninsular renascentista, e que faz ressaltar por contraste o caso isolado de um puro 
italianizante versificatrio como Antnio Ferreira. A prpria tendncia barroca para 
opor  idealidade majestosa e requintada o contrapeso da vulgaridade pitoresca, se 
no mesmo grotesca e repulsiva, tem razes quinhentistas sempre  vista desde Gil 
Vicente, como veremos.

Por outro lado, o humanismo leigo cuja influncia se sente na poltica cultural at 
cerca de meados do sculo XVI e que transparece em vrias manifestaes de um 
Renascimento apenas esboado, no chega aqui a firmar posio. A independncia e 
dignidade das letras humanas colocam-se explicitamente na defensiva perante o novo 
teocentrismo da Contra-Reforma, e tm o seu grande pregoeiro mais uma vez em Antnio 
Ferreira, alm de bran~ dos queixumes dos discpulos italianizantes mas conformados 
de S de Miranda. Os desastres nacionais de 1578-80 acentuam, por outro lado, a 
importncia de certos motivos com que se tem procurado caracterizar a oposio do 
Maneirismo  Alta Renascena: o desconcerto da vida e dos juzos humanos, o sem-
sentido e confuso de uma existncia j originariamente degradada, pecaminosa, a cada 
passo posta em tormenta (ou, e  tambm curiosa esta outra predileco lexical, em 
tormento), os tropeos humanos de desengano em desengano e sem outra esperana que a 
da Graa e Juzo Final de Deus. So, com efeito, numerosos e significativos os poetas 
que cerca do ltimo quartel do sculo XVI e incios do XVII consagram os seus dons 
poticos a uma tal concepo religiosa, que reata, afinal, as tradies monsticas 
medievas (estamos no tempo dos Autos Sacramentais); e alguns deles acabam mesmo por 
abjurar as musas profanas.  no entanto notvel

363
que, em verso como em prosa, a literatura portuguesa fique bastante aqum da 
vivacidade de arroubo mstico de certos espanhis, como Santa Teresa de vila e S. 
Joo da Cruz.

E aqui se levanta o problema de traar a divisria das guas entre duas margens 
batidas por uma mesma retrica, que a propsito do sculo XVI se costuma classificar 
como petrarquismo, isto , como continuidade estilisticamente complicada e 
formalizada daquilo de que Petrarca se tornou paradigma (a reelaborao italiana da 
lrica corts provenal), e que no sculo XVII nos aparece trabalhada com um ainda 
maior artifcio formal, cujos padres se encontram no poeta andaluz Gtigora 
(gongorismo) e no italiano

Giambattista Marino (marinismo). Uma dessas margens  a glorificao do amor humano 
at aos ltimos requintes da espiritualizao e abnegao; a

outra  a da lrica ao divino, com uma desencantada renncia a quaisquer valores 
temporais. A estrutura concepcional  em grande parte comum: em

qualquer dos casos, o bem, ou glra (palavra significativamente virada para ambas as 
margens), est normalmente ausente (na distncia ou no passado), e a mediao entre 
isso e o poeta faz-se atrs de uma nsia, ou saudade, imorredoira que se arrasta 
atravs de desenganos, atravs de mudanas irre- versveis e sempre para pior, mas 
num apego ao sofrimento, ou tormento, que assume j todo o trgico absurdo do mundo 
como vontade de Schopenhauer: o grande mal de amar (de viver) residiria precisamente 
em no podermos deixar de quer-lo, e essa vontade estaria no foco de todo um mundo 
torturantemente incompreensvel, ou desconcertado. Ainda mais indiscernvel do que 
estes topos, ou lugares-comuns,  a microestrutura estilstica com que tanto se 
exprime o amor profano como o amor a Deus: unidade na oposio do morrer vivendo, da 
mor alegria na mor tristeza, da dor e glria, do querer-se livremente cativo, da 
insatisfao satisfeita, do ganhar perdendo, do subir descendo, da razo na sem-
razo, da paz em plena guerra ntima, do frio ardente, etc. Se aproximarmos estes 
recursos daqueles com que se tecem dedicatrias, panegricos ou elegias necrolgicas 
aos grandes deste mundo, verificaremos que a utensilagem literria  em grande parte 
a mesma,

restando o problema fundamental do discriminar onde, e porqu, ela assume uma funo 
viva e perdurvel, ou onde se fica, inertemente, ao nvel da ideologia e da retrica 
de uma poca.

Assim, a expresso literal de pessimismo, cepticismo ou desengano  muito ilusiva. Na 
maior parte das poesias e dos poetas sente-se que os para-

364
doxos e a hiperbolizao do sofrimento, do desconcerto ntimo ou externo,

servem um propsito de encarecer a prpria paixo; e o que importa  o

toque de um qualquer fervor ou originalidade, nem sempre facilmente definvel, que se 
nos comunique atravs (e a despeito) de todos os ingredientes formulares. Bernardim 
Ribeiro (e Cristvo Falco), ainda no italianizado quanto  mtrica,  neste ponto 
bem renascentista: se a incomensurabilidade do amor com o mundo imediato nele alcana 
algum significado religioso, tal religio nada tem que ver com a do catolicismo que 
prevalecer no Conclio de Trento. E foi por nos parecer que at nos acentos mais 
patticos da sua lrica, at no idealismo neoplatnico de Sobre os rios, e at nos 
momentos em que o ar parece faltar-lhe, vibra, distintamente, em Cames, um infinito 
apego ao amor humano e  vida em carne e osso - foi por isso, e conexamente pela 
exaltao entusistica da bela forma humana, do maravilhoso geogrfico ou 
cosmogrfico, da candidatura humana a antigos senhorios divinos, que antecipmos o 
seu estudo, aproximando-o da mundividncia renascentista mais tpica.

Ora a nica feio claramente naturalista-renascentista da cultura portuguesa de 
Quinhentos  a que se relaciona com os Descobrimentos, e que encontra n'Os Lusadas a 
sua expresso mais acabada, e alis procurada desde o sculo XV e preservada do 
vandalismo censrio; mas ela  afinal solidria de um dos limites tipicamente 
peninsulares do Humanismo erasmista: a quase total ausncia do ideal de paz, ou 
coexistncia proseltica, entre todos os

credos, que a ideologia oficial da expanso reprimia a favor de uma doutrina de 
cruzada, e que mesmo em S de Miranda, Damio de Gis e Antmo Ferreira quase se 
limita s exortaes de concrdia entre os cristos, com a condenao cada vez mais 
explcita dos hereges e cismticos.

 falta de melhor designao, aceitaremos aqui o nome algo flutuante de Maneirismo 
para o estilo dos poetas em que a lrica do amor j movimenta o complexo formulrio, 
mais ou menos amaneiradamente melanclico, do petrarquismo quinhentista, quer ele se 
vaze em formas mtricas ibricas vindas de Quatrocentos, quer utilize a versificao 
italiana e certos

gneros greco-romanos. Salientaremos a inflexo em sentido religioso que se patenteia 
nos ltimos decnios do sculo XVI e princpios do XVII. E, tomando como referncia o 
rasto da obra de Cames (ou da que por ento se lhe atribua), tentaremos seguir a 
lenta formao do gosto barroco, j bem definido um ou dois decnios antes da 
Restaurao.

365
Do magistrio de Miranda  lrica ao divino

Entre os poetas mais prximos, em idade, de S de Miranda e que poderemos considerar 
seus discpulos imediatos, predominam membros da alta nobreza, alguns deles de sangue 
real: D. Joo de Lencastre, 1. O duque de Aveiro (1501-71), o infante D. Lus (1505-
55), filho de D. Manuel 1, e Francisco de S e Meneses, filho daquele Joo Roiz de S 
e Meneses, colaborador do Canconeiro Geral, que se julga ter sido o mais importante 
precursor de S de Miranda na consagrao do gosto clssico (Antnio Ferreira chama-
lhe *antigo pai das musas desta terra+). As poucas composies em verso

deste primeiro grupo que chegaram at ns, em muitos casos de autoria duvidosa, no 
abonam qualquer assimilao do humanismo crtico do mestre, mas antes aquela 
melanclica alternncia de lamento religioso (D. Lus) ou

enamorado (D. Joo de Lencastre) e de bucolismo convencional (Francisco de S e 
Meneses, que no se deve confundir com um seu quase homnimo, poeta pico 
seiscentista) que atravessa todo o Maneirismo.

Entre os poetas que, como Antnio Ferreira e Cames, nasceram por incios do segundo 
quartel e que, directa ou indirectamente, beneficiaram ainda das melhores reformas 
escolares joaninas, contam-se D. Manuel de Portugal (1520-1606), filho do 1. > conde 
de Vimioso, este j nosso conhecido como poeta, Pro de Andrade Caminha (1520-1589) e 
Diogo Bernardes (c. 1530-1594/5), que s mantm da sua formao humanstica o culto 
das formas italianas e a apologia das belas letras, as quais unanimemente lamentam 
ver preteridas, alm de Andr Falco de Resende, que estudaremos mais adiante. As 
Obras de D. Manuel de Portugal publicadas em 1605, pois h-as ainda inditas ou 
dispersas, so de assunto exclusivamente religioso, trazendo mesmo em anexo um 
Tratado breve da orao, e todas em castelhano, o que singularmente contrasta com a 
corajosa fidelidade a

D. Antnio Prior do Crato, o candidato antifilipino. Os seus mritos de mecenas 
(Cames elogia D. Manuel de Portugal de modo hiperblico) sobrelevam provavelmente 
aos de poeta sem originalidade.

Pro de Andrade Caminha, com a sua fama denegrida por uma lendria inimizade a Cames 
e pelo seu depoimento inquisitorial contra Damio de Gis,  um petrarquista sem 
traos pessoais nas formas decassilbicas e que apenas sentimos  vontade nos moldes 
ligeiros do mote glosado. Com efeito, interessou-se bastante por poesia musicada:  o 
poeta portugus mais

366
representado no Cancioneiro Musical e Potico da Biblioteca de Pblia Hortnsia, 
editado em 1940, onde se registam 101 composies dos sculos XV e XVI com letras em 
castelhano ou portugus.

Certos poetas quinhentistas constituem um grupo ligado pelo reconhecimento a certos 
protectores coniuns, pelas dedicatrias e cartas versejadas que trocam entre si, 
pelas elegias e outras composies onde figuram desabafos ou referncias a dadas 
circunstncias, em geral revestidas de convenes pastoris. Neste pastoralismo 
convencional, a naturalidade ou residncia do poeta tem como emblema um rio: o Neiva 
de Miranda, o Minho de Caminha, o Lea de S e Meneses, como alis o Tejo ou o 
Mondego de Cames e, mais tarde, o Lis de Rodrigues Lobo, etc. Aquele que mais 
insiste nesta referncia geogrfica, com alguns traos locais alis muito delidos,  
Diogo Bernardes, o *poeta do Lima+.

Alm de ter sido tabelio em Ponte da Barca, onde nasceu e viveu muito tempo, exerceu 
vrios cargos nas cortes de D. Sebastio e de Filipe 11, e

foi mesmo incumbido pelo primeiro de cantar a sua planeada gesta africana, para o que 
o acompanhou at Alccer Quibir, onde ficou prisioneiro. Temperamento brando, nem 
mesmo as agruras da derrota e do cativeiro lhe provocam mais do que um queixume tnue 
e formular. Os seus temas tpicos so um enamoramento espiritualizado com todo o 
recheio dos paradoxos petrarquistas; uma saudade, ou seja, o gosto de uma nostalgia 
indefinida, na intimidade a ss com a espessura viridente do seu alto Minho rural, 
com as penedias e, principalmente, com o derivar de guas nascentes ou fluviais, que 
tanto evocam as lgrimas como o curso irreversvel do tempo; e, nos

ltimos anos, o desengano de todas as esperanas terrenas e um fervor religioso de 
reconciliao sem notas originais. As suas obras, Vrias Rimas ao

Bom Jesus, colectnea de poesias religiosas e elegacas, incluindo as do cativeiro, 
1. a edio 1594; Rimas Vrias, Flores do Lima, 1. > edio 1597; e

O Lima, principal recolha de clogas e de cartas em verso dirigidas a magnates e 
sobretudo a confrades nas Musas, onde ainda debilmente ecoam a apologia das letras 
humanas de Miranda e Ferreira, e o tema da urea mediania rural emparelhada com o 
desencanto de um mundo em decadncia, 1. a edio
1596 - foram vrias vezes republicadas, portanto apreciadas, no sculo XVII.

A buclica ao divino, alternada com reflexes mais directas, e ora formulares ora 
pungentes, sobre os enganos e os males insanveis do mundo,

367
constitui um dos veios mais copiosos desta lrica maneirista auspicada pela Contra-
Reforma. Urna das personalidades a esse respeito mais marcantes  a de Frei Agostinho 
da Cruz (1540-1619), no sculo Agostinho Pimenta e irmo mais novo de Diogo 
Bernardes, que se fez capuchinho arrbido e

cuja obra apenas principiou a publicar-se no sculo XVIII, aguardando ainda uma 
edio crtica, j possibilitada pela publicao e pelos estudos em curso

dos manuscritos de autoria vria (e no raro confundida). Os seus assuntos so a 
saudade do Cu, a evocao pattica e contrita da Cruz, o testemunho e smbolo do 
Criador que descobre nas coisas naturais circundantes. Poeta religioso, e com frmito 
muitas vezes sensvel, Frei Agostinho no chega todavia, em boa verdade,  
intensidade da mstica. Nos seus versos, onde, com efeito, ele pinta um irreprimvel 
auto-retrato das suas mortificaes de cenobita esquecido dos amigos (h no entanto 
uma tocante troca de cartas em verso com o irmo poeta), pouco mais interessa do que 
isso, um ou outro

arroubo, e lampejos da amplido de horizontes da Arrbida, com a agitao do Oceano 
amortecida a distncia, tudo feito sinal de desprendimento, senso

de intemporalidade e de profunda serenidade reconciliada.

Entre os poetas religiosos que cronologicamente se podem aqui agrupar, mencionemos 
mais alguns.

Pedro da Costa Perestrelo, autor quinhentista mal conhecido a quem se atribuem dois 
poemas picos perdidos sobre Vasco da Gama e sobre D. Joo da ustria, figura 
proeminente numas Obras Inditas dos nossos insignes poetas, tomo 1, editadas em 1791 
por Antnio Loureno Caminha. Nos sonetos, epigramas, odes, uma cloga e umas nove 
Lies, ou meditaes, em que parafraseia lamentos do Livro de fob, contm-se alguns 
dos mais pungentes desabafos do tempo sobre o desamparo fsico e moral do homem, seus 
desvarios, sua cega obstinao no mal. Alm das Lies, as suas mais interessantes 
composies so urna Carta a D. Sebastio, em decassilabos, exortando-o a no se 
envolver em aventuras guerreiras, que alis tambm noutras poesias condena, e urna 
Stira, em castelhano, onde principalmente visa os maus ares e os costumes femininos 
de Madrid (assunto frequente de stira portuguesa no sculo XVII).

Vasco Mouzinho de Quevedo Castel-Branco, quer no seu poema pico sobre D. Afonso V a 
que mais adiante nos referiremos, quer na sua poesia lrica recolhida em Discurso 
Sobre a Vida e Morte de Santa Isabel Rainha

368
de Portugal e outras vrias rimas, 1597, obedece estritamente ao esprito tridentino, 
banindo de todo a mitologia greco-romana e tomando comoltemas de fundo a 
instabilidade e perplexidade do senso do eu moral, a vacuidade e os enganos das 
coisas mundanas. No primeiro destes ternas atinge uma

finura que, para alm da psicomaquia j expressa desde Bernardim e Miranda, s viria 
a ser recuperada por Fernando Pessoa, como acontece com o notabilssimo soneto que 
principia: Quando [s] vezes a mi por mi pergunto, 1quern fui responde que me no 
conhece [   ... 1. Observe-se que h alguns momentos de anloga vacilao no senso de 
identidade e sinceridade pessoal noutros poetas do tempo, como Soropita e Estvo 
Rodrigues, de que nos ocuparemos. E, tal como tambm neste ltimo nomeado, sente-se 
com particular evidncia em Mouzinho de Quevedo um espao vazio entre aquilo que se

prope exprimir (ou apreender) e toda uma complexa maneira, ou estilo, que, alm dos 
lugares-comuns j resumidos do petrarquismo de Quinhentos, se aventura a processos 
que culminaro no Barroco literrio: diviso como que geomtrica do verso, da estrofe 
ou de todo um soneto em membros semanticamente equivalentes, sua distribuio por 
ordem directa ou

inversa, disseminao de conceitos-chave (ou mesmo palavras~chave) e seu

reagrupamento num foco prximo do remate; explorao insistente, em versos

sucessivos, de vrios nexos-na-contradio entre termos antitticos, como bem e mal. 
Isto, sobre um fundo de melancolia que tambm no  apenas pessoal, pois tem como 
pano de fundo a catstrofe de Alccer Quibir, intriga o leitor moderno. Dir-se-ia que 
a unidade entre o significado e o significante fraseolgico j no preexiste numa 
dada intuio pr-verbal, mas  uma coincidncia que se busca, e umas vezes se 
encontra e outras no, mediante o simples exerccio intencional e como que heurstico 
de um estilo.

H poetas desta poca exclusivamente consagrados a preocupaes religiosas e que 
verberam a lrica profana. Conta-se entre eles Eli de S Sotto Maior, que em Jardim 
do Cu, 1607, tira partido das analogias sacras para um conceptismo e outros brincos 
j barrocos, e que  tambm autor de uma

emaranhada novela pastoril, Ribeiras do Mondego, 1623; Diogo Mendes Quintela, o 
lrico penitencial sem vigor de Converso e lgrimas da gloriosa Santa Madalena, e 
outras obras espirituais, 1615; Baltasar Estao (n. 1570), que em Sonetos, canes, 
clogas e outrasrimas, 1604, glorifica vrios santos e condena as vaidades mundanas 
num estilo que se prope dar, j ele,

369
o exemplo da humildade mas que  sobretudo feito da explorao teolgica dos 
paradoxos e da coincidentia oppositorum no amor a Deus; D. Francisco da Costa (1533-
91), que morreu no Marrocos, vergonhosamente abandonado por outros nobres cuja 
libertao negociou e de quem se constituiu refm, e que no cativeiro comps, alm de 
sete autos, ou passos, atrs referidos, numerosas outras poesias, em vrias formas 
hepta ou decassilbicas, em portugus ou castelhano. Este ltimo autor  aquele que 
hoje mais nos sensibiliza, quando, no meio de longas composies montonas, e por 
entre certa ingenuidade de recursos onde a mitologia se pe ao servio de uma Calope 
divina, ou crist, ns deparamos, ora com coisas j s por si tocantes (os frenesis 
da ausncia, as evocaes da sua carreira militar no Oriente, a comoo perante um 
rosrio ou a mecha de cabelos brancos enviados pela mulher), ora com autntica poesia 
feita da mais completa e pungente renncia pessoal, como nos sonetos: Que falo eu, 
Senhor, que quero ou peo; Bem sabes, Redentor, minha fraqueza; Nas vossas santas 
mos resi      .gno e ponho.

A Manuel Soares de Albergaria, bacharelado em leis em 1604 e que depois professou na 
Companhia de Jesus, atribuem-se apenas cinco poesias ainda dispersas, quatro das 
quais notveis (a quinta  de stira desbocada

a uma freira): uma cano de amor extremamente densa e depurada, Glria to merecida, 
e dois sonetos e uma cano de meditao moral-religiosa sobre a brevidade da vida e 
a inutilidade do af humano.

Antes de seguirmos os rastos mais visveis do magistrio de Cames, na transio 
gradual do gosto maneirista para o barroco que se observa desde fins do sculo XVI, 
vamo-nos referir a dois poetas que a publicao dos cancioneiros Frnandes Toms e 
Manuel Faria permite trazer do conhecimento dos eruditos at ao alcance de um pblico 
largo.  um deles Martim Castro (ou Crasto) do Rio, filho afidalgado de um dos mais 
ricos cristos-novos liboetas, aprisionado em Alccer Quibir, falecido em 1613. Os 
sonetos que lhe so atribudos, entre os quais dubitativamente se insere um dos mais 
imitados do tempo, Perdi-me dentro de mi como em deserto, assinalam uma das mais 
fluentes dialcticas das contradies sentimentais. Mais extensa  a produo 
conhecida de Ferno Correia de Lacerda, que foi mestre e em

1602 nomeado regente de uma cadeira universitria de Coimbra. Os seus sonetos, 
elegias e canes, onde quase invariavelmente se encarecem os divinos extremos de 
certa Lises, tm em geral uma fria desenvoltura ldica,

370
mesmo quando se pretendem melanclicos ou parecem factualmente motivados (*outrem 
roubou meu bem, ah triste fado,/ e quem lho deu bem sabe que mo deve+).

Primeiros rastos de Cames: na poesia lrica

Quando na Corte na Aldeia se quer explicar a figura retrica chamada antonomsia, um 
dos exemplos  que, ao dizer-se *o Poeta+, por excelncia, se subentende logo Cames. 
De facto, a influncia camoniana domina j a transio do sculo XVI para o sculo 
XVII e acompanha a formao do gosto barroco entre ns, que alis Cames preludia em 
certos aspectos, conforme verificmos. Vamos rastrear o ascendente camoniano nesta 
fase de transio, primeiro quanto  poesia lrica, depois quanto  poesia pica ou 
narrativa.

Mas, antes disso, lembremos que a consagrao, embora j pstuma, do gnio de Cames 
se d pouco depois de 1580. Ao Cancioneiro de Lus Franco Correia, *companheiro, em

o Estado da ndia e muito amigo de Lus de Cames+, se deve uma das primeiras 
reunies de lricas camonianas (no falando nas pouqussimas poesias avulsas 
publicadas em vida do poeta), em conjunto com *obras dos melhores poetas do tempo+. A 
publicao em 1979 do Cancioneiro de Cristvo Borges, datvel de 1568-78, e 
aparentado com

o anterior, sugere que Cames teve grandes admiradores j em vida. As Rimas foram, 
como vimos, editadas por Ferno Rodrigues Lobo Soropita em 1595 e 1598. Vimos tambm 
que as edies da Lrica camoniana e d'Os Lusadas se sucedem durante o sculo XVII, 
numa atmosfera de entusiasmo que acaba por atribuir a Cames tudo o que tinha *sombra 
de seu+, quer dizer, sombra de gnio potico (Faria e Sousa).

Surgem entretanto os comentaristas e bigrafos (e tambm, por vezes, as crticas, 
logo seguidas de refutaes). Francisco Manuel de Melo far uma longa enumerao 
deles no Hospital das Letras, onde os discute como uma seco  parte. Destaquemos, 
apenas a ttulo exemplificativo e como mais importantes ou conhecidos, os nomes de 
Pedro de Mariz (Prlogo  edio comentada d'Os Lusadas por Manuel Corra, 1613), 
Manuel Severim de Faria (Discursos Vrios Polticos, 1624; da Vida de Cames, 
includa neste volume, conhece-se um manuscrito editado por Reis Brasil, Lisboa, 
1988) e Manuel de

Faria e Sousa (Lusadas [ ... 1 comentadas, 1639, e Rimas Vrias de Lus de Cames, 2 
volumes, edio pstuma, 1685).

Entre os primeiros que compreenderam a importncia da obra de Cames e que 
contriburam para a sua influncia contam-se dois poetas, alis de valor 
aparentemente muito desigual, mas que s podero ser devidamente analisados e 
apreciados quando se fizer uma edio integral e crtica das suas

produes, hoje dispersas e em grande parte, ou praticamente, inditas.

 um deles Andr Falco de Resende (1527-1599), sobrinho do clebre humanista e 
antiqurio quase seu homnimo, contemporneo e amigo de

371
Cames e tradutor de Horcio, cujas obras manuscritas em portugus s em
1849, ao que parece, principiaram a ser impressas em Coimbra, numa edio que ainda 
no estava concluda em 1881 e de que saram, ao todo, 480 pginas para venda 
restrita, embora um seu poema religioso (Microcosmografia) tenha sido dado  estampa 
sob o nome de Cames e os romances em castelhano, contra os corsrios ingleses, 
tenham sido editados em 1890. Quer pela sua mundivivncia platnico-agostiniana, onde 
o desprezo das coisas mundanas particularmente se acentua, atingindo o amor humano, 
quer pelo seu estilo, embora mais formalista e prximo do barroco, parece no passar 
de um epigono camoniano, tanto quanto nos  possvel ajuizar de uma obra

ainda por editar e por estudar em conjunto.

O outro  o cristo-novo Ferno Rodrigues Lobo, por alcunha Soropita, editor das 
Rimas camonianas, prestigioso advogado em Lisboa e autor

de um trabalho de jurisprudncia, cuj a vida e obras andam confundidas com

as de Francisco Rodrigues Lobo, provavelmente seu parente e compatrcio de Leiria, 
mesmo na nica e incompleta edio que teve em 1868, apresentada por Camilo Castelo 
Branco. A falta de uma edio crtica faz-se enormemente sentir quanto a Soropita, 
pois deve tratar-se de uma das mais significativas personalidades da transio do 
estilo maneirista para o barroco.

A recente edio fac-smile, embora infelizmente ainda no crtica, do Cancioneiro 
Fernandes Toms, onde este poeta se encontra largamente representado (so-lhe 
atribudos 34 sonetos, alm de outros dois glosados em oitavas, 6 motes glosados, 
cerca de uma dezena de composies lricas maiores decassilbicas, uma stira, 12 
cartas e outras prosas por vezes acompanhadas de versos), ajuda-nos a reconstituir 
uma compleio pessoal mais definida, onde podemos distinguir trs facetas distintas 
e algo contrastantes: um

gil lrico ps-camoniano do amor, um irregular mas por vezes certeiro satrico em 
prosa e verso, e um poeta religioso menos produtivo mas de rara autenticidade 
comunicativa.

Como poeta lrico do amor falta-lhe a pujana emocional do mestre. H s breves 
rasgos de comoo (*que eu tenho por sepulcro a natureza>@), mas, em compensao, um 
consumado manuseio de todos os recursos tpicos e

estilsticos destinados a erguer a amada a uma transcendncia virtualmente divina, 
ante a qual o poeta se prosterna na mais rendida servido moral: firmeza inabalvel 
ante as mudanas, se no ferezas ou cruezas, que o matam

372
(*viveis para matar-me, que no sou / que abismo de temor e de tormento+); finezas de 
abnegao at ao ponto de que *[ ... 1 nunca quis mais de meus

cuidados / que saber merecer-lhe seu tormento+; requintes novos na dialctica de uma 
partida, uma ausncia ou passada glria que so todo um absoluto e paradoxal presente 
no melhor da alma; a antimundanidade da divina graa (ou mesmo da divindade inteira) 
da amada, evidenciada pela incompreensibilidade radical dos extremos ou contradies 
sentimentais desencadeadas (*s o mais triste me alegra+, por exemplo) e, de modo 
mais sucinto, por um ou outro oximron cada vez mais formular (a viva morte, o doce 
perigo, a liberdade presa) e pela qualidade rara, estranha, peregrina, quer ento 
dizer, excepcional e transcendentemente estrangeira, de to grande beleza feminina - 
ainda alis talhada pelo figurino aureoladamente louro, sereno e distante da Latira 
petrarquiana. Vamos exemplificar por um dos

melhores sonetos de Soropita a consumao da arte camoniana e, em geral, renascente-
maneirista, no sentido de uma mxima fluncia eficaz, de um perfeito encadeamento de 
imagens e razes, por tal forma que os nexos lgicos se diluem no embalo do ritmo 
frsico ou surgem apenas a dar consistncia

final a sugestes j criadas pelas imagens ou emblemas:

Do grande mar do meu tormento antigo, Corno aurora de amor, sai a esperana, Vestida 
j da luz que de si lana
O sol que eu sempre temo e sempre sigo.

Ao seu aparecer, foge o perigo; Aonde quer que a claridade alcana, Rompe o vu negro 
da desconfiana Que juntamente aprovo e contradigo.

Mas o secreto da alma, inda toldado Das nuvens negras com  que antigamente A cercou 
por mil partes meu cuidado,

Se a luz de tanta glria inda no sente,
- So efeitos cruis do mal passado, Que lhe no deixam ver o bem presente.

Um dos problemas histrico-literrios mais apaixonantes  o da emergncia e longa 
perdurabilidade desta lrica trovadoresca-petrarquista-maneirista

373
que equivale a uma religio literariamente muito ritualizada do amor humano, da 
Amada, com a sua glria e o seu inferno, com a sua inintelegibilidade radical 
evidenciada pelos paradoxos, ou extremos, quer dos atributos da Amada objecto de 
adorao, quer da experincia na sua subjectividade do amador, convertendo a Amada no 
mesmo e transcendente impossvel (outra palavra-chave destes lricos), no mesmo ponto 
de coincidncia dos contrrios que, para os msticos,  o prprio sinal patente da 
divindade. Como pde ser esta heresia literria tolerada sob o signo de Trento? Eis 
um tpico de reflexo que faz acudir logo outro: no seria esta lrica do amor 
petrarquista afinal teolgica, na medida em que a Amada se no individualiza mas se 
ergue a mero smbolo, ao cabo de uma dialctica e de uma retrica facilmente (e 
tantas vezes) transferidas para a divindade ortodoxa?

O caso  que atingimos, neste trnsito para o Barroco, a fase em que tal complexo 
rito literrio de topos e de tropos j revela os limites da sua sinceridade, e at 
mesmo talvez os das suas possibilidades de combinatria formal. Soropita d muitas 
mostras, nesta lrica, quer de um hiperbolismo definidamente barroco, quando o Sol, o 
azul-celeste e, em geral, as entidades do Cu, na sua ambgua conotao astronmico-
teolgica (j ento destruda por Galileu), lhe servem de encarecimento metafrico  
Amada, quer de um certo gosto naturalista ocasional de imagens (*unhas cruis do 
pensamento, as mos do esquecimento+), que nos abeira da sua faceta satrico-
prosaica.

Esta faceta vem alis de longe. H um veio escuso de bucolismo grotesco, dir-se-ia 
vicentino, a correr em certos passos de Bernardim, numa

cloga de Diogo Bernardes (Ins), etc., e que mais ou menos contemporaneamente a 
Soropita se continua de Ferno lvares do Oriente para Rodrigues Lobo (cloga 
Vaqueiros). No  de resto Soropita o nico autor do tempo a chasquear em verso das 
condescendncias das freiras e a alternar a exaltao do tipo feminino petrarquiano 
com a de outros menos cannicos (umas sobrancelhas negras): se ele tece o elogio 
parodstico de uma negra, outros cantaro fregonas (criadas domsticas), mulheres da 
aldeia e at mesmo de ruela. Mas o que, literariamente, mais importa  o facto de 
Soropita nos

aparecer como o mais interessante estafeta por enquanto conhecido entre a

prosa das cartas camonianas (e da Eufrosina, a que nos referiremos) e a stira 
barroca, ainda hoje quase toda indita, e at j prenunciar a ironia observadora de 
Tolentino.

374
As cartas e os textos entremeados de prosa e verso (estes incongruentemente 
petrarquianos) testemunham, com efeito, uma fonte inestancvel, e regurgitante at  
obscuridade, de metforas, comparaes, aluses imensamente mais vivas do que as da 
conveno italianizante, porque em geral so extradas da realidade imediata 
(abboras, queijos frescais, alguidares vidrados, caranguejos em mar vaza, etc.), 
evocando pitorescos porrnenores acerca

de comestveis, modos de os cozinhar, tecidos e talhes de roupa, cenas e

objectos nuticos, cortes de cabelo e barba, passatempos, atitudes corpreas, 
ocupaes profissionais populares, a avidez de boatos, camaradagem de viagem fluvial 
ou terrestre e de pernoitada em estalagem. Soropita compraz-se imenso em classificar 
tipos ou casos humanos, ligando-os a feies, ademanes, etc. (Sobre as Barbas deste 
Mundo); e quer numa stira em tercetos, quer numa prosa sobre Desastres e Desvarios 
deste Mundo, antecipa-se a

Tolentino ao captar os pequenos ridculos dirios do amor pelintra;  um

dos primeiros seiscentistas a divertir-se com cartas de viagem ou reportagem, ora 
sobre uma fuga, at Palmela e Setbal,  incurso naval inglesa ao Tejo, de 1595, ora 
sobre a recepo de um vice-rei filipino. Mesmo um

texto moralizante como um seu Regimento Escolstico, todo feito de bons conselhos a 
um estudante, vale como pitoresco testemunho de costumes.

Mas este prosaico pitoresco tem j muito de barroco. Em primeiro lugar, a sua 
estilstica  altamente engenhosa. O facto de as metforas serem de extraco 
comezinha afina tais obras por um dado diapaso, mas sem quebra de exigncia formal, 
pois bem se sente o propsito de nos ofuscar com a heterognea exuberncia desse 
metaforismo. Eis uma breve amostra do processo, quando usado de um modo cumulativo: 
*passar a vida sem amar

 picado sem azedo, selada sem cebolinha, morrio sem plumagem, boda sem confeitos 
para rapazes+. Em segundo lugar, h j a tendncia para as

largas construes decorativamente alegricas: a superlativao sentimental recorre 
de modo predilecto s personificaes psquicas (Despojos de um

Contentamento, Soneto a umas Lgrimas de uma Despedida), e, para alm disso, chegamos 
at  larga alegoria barroca, ora se imaginando os Desposrios da Saudade com o 
Descontentamento, por entre toda uma genealogia de sentimentos, ora percorrendo uma 
Casa da Lembrana, toda habitada, em vrios andares, por entidades psquicas. Em dado 
texto, os Prognsticos do ano de 1595, a arte tambm barroca da subtileza conceptual 
vai at ao

375
virtuosismo de nos propor horscopos em linguagem sibilina, que logo a seguir se 
decifram como simples aluso s festas e usanas dos primeiros meses do ano. Outra 
arte barroca, a da hiperbolizao, corre variados registos, desde uma carta e um 
soneto de amor, trocistas mas engenhosos, que atribui a um negro, at quele supra-
sumo petrarquista que j vimos, passando por tons mais ou menos lricos ou prosaicos, 
como o desta caricatura a umas faces sardentas: *Se lhes olhardes a cara, achareis 
mais seis almudes de sardas acamadas umas sobre as outras, como o sal em marinhas.+

 tambm atribuda a Soropita uma notvel stira antifilipina que ainda hoje sentimos 
palpitante. Nela chasqueia-se do *asno de Luso, coitado+, que veio parar a *dono 
estranho+. Entre os sarcasmos a tal *asno+ contam-se estes:

*agora que te comprou / hs-de pagar o fiado+; *Tantos a tapar-te os olhos

/ e a destapar-tos to poucos+! Tambm na sua cano includa no Canc0neiro 
Fernandes Toms (onde alis  saliente a colaborao de cristos-novos e se contm 
mesmo, a p. 109, um pesado remoque  crist-velhice), se podem ler versos 
inconformistas como estes: *o amor e a lealdade, / da Ptria perseguida, / j 
desagasalhados / dos principais estados, / no vulgo baixo e pobre acham guarida; / e 
tal se tomou tudo / que quem falou verdade, agora  mudo. +

As poesias lricas afectivamente mais convincentes de Soropita so religiosas, no 
sentido de uma profunda decepo com a vida vivida e de uma esperana extrema 
postulada sob a forma de um Deus imanente quilo que, intimamente, se : *Quem no 
conhece Deus no se conhece [      ... 1 Meu Deus, dai-me outros olhos com que veja / 
que o mundo em aparncia se esvaece

/ e vs sejais meu fim para que eu seja.+ Esta religiosidade s pela sua formulao 
dogmtica externa se pode identificar  de tantos maneiristas (ou, ainda mais, 
barrocos) que se limitam a operar uma reconverso, ao divino, da tpica e do estilo 
que o petrarquismo canalizara atravs do amor humano espiritualizado.

Entre os cristos-novos mais largamente representados nos cancioneiros a que mais nos 
temos reportado conta-se Estvo Rodrigues de Castro (1559-11-19 - 1638-06-30), que 
se formou em Medicina, em 1588, por Coimbra, emigrou quase quinquagenrio por ocasio 
de uma breve liberalizao de sadas, comprada a peso de ouro pelos cristos-novos, e 
que veio a ser um eminente professor universitrio em Pisa, com larga bibliografia 
mdica e filosfica (31 espcimes publicados). A edio das suas Rimas, feita

376
em Florena, 1623, a que outra, no de todo criteriosa, se seguiu em 1792, foi nos 
nossos dias, 1967, ampliada e criticamente revista nas Obras Poticas, em castelhano, 
italiano, latim e, o que mais nos interessa, portugus (cerca de 50 sonetos, e ainda 
composies em oitavas e uma cIoga). Seria defensvel a sua incluso na esttica 
barroca, se atendssemos ao denso conceptismo das suas poesias religiosas de cristo-
novo recm-converso (que interessam mas exigem profunda informao escriturria e 
teolgica) e ainda  arte decorativa da hiprbole madrigalesca ou, sobretudo, 
panegrica e epicdica.

Mas por outra parte podemos seguir em Estvo Roiz, como  mais mencionado no tempo, 
o acabamento da lrica neoplatnica de Cames, seu mestre

e modelo, ora em linhas coincidentes com as de Soropita e outros, e que por isso no 
repisaremos, ora em certos aspectos mais peculiares. Entre estes conta-se uma grande 
mestria na variao do ritmo mtrico, pelo encavalgamento oportuno e gratificante de 
pausas sintcticas no coincidentes com

as do verso; e, em geral, a plurimembrao do poema, sobretudo do soneto, em seces 
de relativa autonomia semntica, propiciando a sua recombinao variada, numa 
arquitectura que opera com segurana sobre mdulos.
O reconhecimento de tais mdulos frsicos, e at lexicais, revela a fase adiantada e 
quase exausta da lrica maneirista.  o que se verifica pela enumerao final de 
certos poemas, apresentando-nos, como num coro final de pera  boca do palco, os 
figurantes conceptuais que antes se haviam combinado em diversas marcaes. Um 
exemplo: *S nunca poder [Amor cruel], por mais que ordene, / fazer que me arrependa 
de perder-me, / com pena, espanto, dor, fora ou engano.+ Estvo Roiz , tambm, um 
dos vrios poetas que nesta altura praticam a proeza de preencher todo um soneto com 
sucessivos emparelhamentos contrastivos entre dois valores semnticos diferentes da 
palavra *tempo+ (e a sua *conta+): o tempo-dimenso rreversvel e aquele tempo-
fraco (ou unidade) em que o primeiro se pode fragmentar (e esquecer). Para no nos 
alongarmos, vamos suprir toda a exemplificao possvel dessas e outras destrezas COM 
esta sequncia de versos onde se condensa uma herana camoniana j bastante 
trabalhada:

De que Me queixo, se me estais presente? Se ausente, a quem me queixo? E se vos quero 
bem, que outro bem quero? Se  bem, como me traz to descontente? Se mal, porque o 
no deixo?

377
Poeta bastante menos dotado que os dois anteriores, D. Francisco de Portugal (1585-
1632) exerceu contudo uma influncia talvez maior na poesia do tempo, graas ao 
prestgio de que gozou na corte madrilena e que lhe conferiu uma espcie de 
pontificado sobre as maneiras corteses, atravs da Arte de Galanteria (1670), * 
oferecida a Ias Damas de Palacio+; e graas tambm ao recorte conceptista, j 
gongrico e superficial, bem mais assimi- lvel, dos seus versos. A Arte de 
Galantera entremeia poesias em portugus e castelhano com extensas reflexes acerca 
das boas maneiras, da etiqueta, da conversao, vesturio, coches, poesias, cartas e 
*servio+ amoroso no pao, sem o ar didctico e sistemtico da Corte na Aldeia, que 
estudaremos. Cames - *0 Poeta+ -  por ele constantemente citado e imitado.

Igual estrutura (versos lricos entremeados de reflexes morais em prosa), mas desta 
vez em vernculo, tm Prises e Solturas de uma Alma, que vm includas no volume de 
Divinos e Humanos Versos (1652), obra com produes ora num ora noutro idioma, e em 
que se notam muitas influncias do estilo gongrico degradado (*monarquias de luz 
tiranizam+), e sobretudo do formalismo de nexos conceptuais cujo padro europeu era 
Marini (exemplo, este princpio de um soneto  queda de uma Dama de Palcio: 
*Mquinas de hermosuras descuidadas / De blanco pi, a que almas atropela ... +). A 
evoluo espiritual de D. Francisco de Portugal pode ser seguida atravs do contedo 
das 114 cartas conhecidas que entre 1616 e 1631 escreveu ao bispo D. Rodrigo da 
Cunha. J nos Divinos e Humanos Versos se vislumbra, de resto, a trajectria que, 
atravs de desgostos de amor (o seu indefectvel amor por Clia) e sobretudo das 
decepes de origem cortesanesca, o levou a professar na ordem franciscana.

Entre os buclicos menores de incios do sculo XVII mencionemos ainda Manuel da 
Veiga, por sobrenome Tagarro, autor de uma celebrada Laura de Anfriso, 1627, volume 
constitudo por 4 clogas e 6 livros de odes. As cIogas e algumas odes contm uma 
hiperblica e nacionalstica exaltao dos seus dois mecenas da Casa de Bragana, o 
duque D. Teodsio 11 e

D. Duarte, marqus de Frechilha, com frequentes decalques fraseolgicos de Os 
Lusadas. Por outro lado, as odes em conjunto pontuam o trajecto de um exemplar amor 
entre Laura e Anfriso, onde certas obscuras desgraas, nomeadamente a ameaa repetida 
da doena e da morte, evidenciando a vaidade da beleza fsica e os enganos do seu 
amor tirano, conduzem os dois

378
enamorados at aos esponsais com Jesus, quer dizer, at  renncia conventual em 
plena idade das flores. Afectivamente pouco comunicativo, Tagarro  j muito marcado 
pelo gosto barroco da pompa ofuscante. Transfigura a

beleza feminina e a paisagem buclica em termos de pedrarias ou de qualquer outra 
preciosidade, detendo-se, por exemplo, a esmiuar analogias faustosas para 
configuraes de nuvens tingidas pelo sol, ou para a folhagem outonal da vinha. Esta 
retrica e os consabidos topos clssicos da urea mediania rural, dos malefcios da 
ambio, etc., so apenas de longe a longe animados por alguma imagem mais original 
(a vide, contorcida em gavinhas,  uma parda serpe, os altos rochedos litorais so 
mordaas do Oceano, etc.), ou por urna nota de melancolia maneirista ou, se se 
preferir, pr-romntica (*se no vivesse triste, morreria; fartando-se de ser 
desesperado; ai, quanto pode uma mulher chorando!+).

O rasto de Cames na pica seiscentista

O nmero de poemas picos (narrativos ou didcticos) escritos por autores portugueses 
na esteira de Os Lusadas, desde a data da sua primeira edio (1572) at meados do 
sculo XVII, atinge a meia centena. Dessa longa srie vamos referir apenas os poemas 
em portugus e de maior merecimento que se encontram ao nosso alcance, sem no entanto 
deixar de notar, como caracterstico, que os moldes da epopeia camoniana serviram 
ento por vezes

a fins de didctica religiosa (uma vintena de espcimes) ou  exaltao, em

idioma castelhano, de glrias hispnicas em geral (Jernimo Corte Real, a

poetisa portuense Bernarda Ferreira de Lacerda, etc.).

Cronologicamente, o primeiro mulo conhecido de Os Lusadas  Jernimo Corte Real, da 
famlia dos clebres navegadores, que, alm de um

poema castelhano sobre a Flicissima Vitria [    ... 1 de Lepanto (1578), produziu o 
Segundo cerco de Dio (1574) e o Naufrgio e Lastimoso Sucesso da Perdio de Manuel 
de Sousa Septlveda (1594, edio pstuma). No primeiro destes poemas, Corte Real 
exalta as faanhas do clebre cerco de 1546, cujos protagonistas foram o vice-rei D. 
Joo de Castro e o capito D. Joo de Mascarenhas, em *estilo grosseiro, rude e mal 
polido+, isto , narrando os factos por ordem cronolgica, com base nas *mais certas 
e verdadeiras informa es+ que pde haver, A monotonia do decassilabo herico 
branco, o uso meramente decorativo e acessrio dos smbolos mitolgicos clssicos,

379
a preocupao pormenorizante, enumeradora, no deixam ir esta obra alm do nvel de 
uma crnica metrificada, escrupulosa e fluente. A invocao a

Jesus, com repdio expresso de aluses pags, d o tom da explcita f ortodoxa que 
percorre todo o texto e que apenas consente  entrada do poema uma viso das Frias, 
em pesadelo, pelo rei de Cambaia, e os vaticnios finais feitos pelo Merecimento a D. 
Joo de Castro, interpretando os painis do Templo da Vitria, num decalque visvel 
do canto VIII de Os Lusadas.

O Segundo Cerco de Do, dedicado a D. Sebastio, antev para este (como a epopeia 
camoniana) grandes glrias militares. Em contraste com isto, o Naufrgio de 
Septilveda traduz manifestamente o ambiente pattico e ttrico de Alccer Quibir. 
Toda a concepo do poema obedece a um sentimento de tragdia colectiva, que abrange 
de um modo muito especfico a aristocracia nobiliria. Os seus primeiros cantos 
narram minuciosamente o romance

de amor de Manuel de Sousa Seplveda e D. Leonor de S, intercalando os decassilabos 
hericos brancos da narrativa com tercetos de expanso lrica ou de missiva amorosa. 
O tom herico, cheio de nfase, decorativamente embutido de episdios mitolgicos ou 
alegricos (como aquele em que na ilha da Vingana o Amor trama, por indicao de 
Vnus, a morte do rival amoroso de Manuel de Sousa), no condiz com o assunto. 
Interpolaes enormes, como a descrio de toda a terra conhecida, cortam, sob 
qualquer pretexto, o flego  aco. O significado mais profundo do poema comea a

descortinar-se naquilo que apetece chamar a reportagem dos esponsais dos 
protagonistas, com jogos de canas de galhardos cavaleiros e festas dos naturais da 
ndia, onde toda a aco decorre: Manuel de Sousa e D. Leonor ressaltam a como 
personificao da nobreza lusa, no auge da sua glria, j ensombrada de tristes 
augrios.  escusado apontar as incongruncias da aco subsequente; basta dizer que 
a radiante beleza da protagonista desencadeia, num contraste barroco, as paixes 
funestas do *escamoso Proteu+ no mar, e do * sernicapro Po+ (P) na selva, do que 
resultam cimes de outras divindades e a consumao do destino que bafeja D. Leonor 
desde o bero. As expresses lricas dos deuses e os discursos solenes so vazados em 
oitava rima. O poema atinge certa grandeza e emoo nos ltimos cantos, no tanto 
pela narrativa do doloroso episdio central (que no atinge o pattico do reconto da 
Histria Trgico-Martima) como pela amplificao do seu alcance

trgico. Manuel de Sousa, a um passo da loucura e da morte, visita em sonho

380
o Templo da Verdade, povoado de mrtires da F, e o Templo da Mentira, cheio de 
heresiarcas, alguns em plena aco virulenta; e Pantaleo de S

escuta um *sbio varo+ a recapitular-lhe a histria de Portugal, com os feitos dos 
Ss e dos Cortes Reais em primeiro plano, dir-se-ia que numa hipermnsia de 
moribundo, rematando pela descrio pattica de Alccer Quibir, em que se vem 
baquear os filhos de toda a primeira nobreza *Entre canalha vil degenerada/Sem 
diferena alga ali abraada+.

Ao orgulho camoniano pela dilatao da F e do Imprio sucedia, dentro dos moldes 
picos, a expresso de um no menos orgulhoso sentimento trgico de classe, de 
nacionalidade e de f religiosa. O mesmo encontramos na Elegada (1588) de Lus 
Pereira Brando, que  narrativa trgica de Alccer, seus antecedentes e 
consequentes, em oitavas camonianas que s pela marcao versificada se distanciam da 
prosa cronstica.

Esta concepo que reduz o poema pico a uma crnica em oitava rima tem o seu mais 
puro expoente em Francisco de Paiva de Andrade (1540-1614), o autor da Crnica de D. 
Joo III. Da terceira parte desta obra aproveita ele o episdio clebre da defesa de 
Diu por Antnio da Silveira (1583) para, numa porrnenorizao mais abundante, com 
umas escassas pinceladas alegrico-mitolgicas e uma dose pouco maior de considera 
es morais, debitar um longo poema em vinte cantos dedicado a Filipe 11: O primeiro 
cerco que os Turcos puseram  fortaleza de Do nas partes da ndia, defendido pelos 
Portugueses, 15 89. Notar o prosasmo do ttulo. Um escrpulo digno da prosa de 
anais, um forte sentimento aristocrtico relativamente a *espritos baixos e 
plebeios+ so a mola deste livro, escrito sob a invocao do *Eterno Pai+. Francisco 
de Andrade (ou Andrada)  tambm autor de muitas poesias religiosas ou amorosas, 
dispersas ou inditas, onde tenta firmar-se sobre ingredientes pobres, principalmente 
trocadilhos.

Se recapitularmos a evoluo do gnero pico na literatura portuguesa

at ao momento em que se acaba de publicar o Condestabre (1610), de Rodri~ gues Lobo, 
que  um elogio da Casa de Bragana tambm em estilo de crnica rimada, verificaremos 
que ela corresponde a uma profunda crise na ideologia da nobreza. O flego herico 
est efectivamente perdido, deixando apenas como sucedneo o gosto narrativo ou um 
sentimento elegaco recortado contra um fundo de orgulho nobilirquico exacerbado.

O Afonso Africano (1611), de Vasco Mouzinho de Quevedo Castel-Branco, assinala uma 
viragem estilstica e ideolgica, alis j a desenhar-se

381
anteriormente. Nele ainda se faz sentir a influncia camoniana, mas apenas no que 
respeita  frascologia, ao material primeiro do estilo, pois a matriz

do seu poema, como a da Malaca Conquistada de S de Meneses,  a Jerusalm Libertada 
(1581) de Tasso, o poema por excelncia da Contra-Reforma, sobretudo na sua 
refundio de 1593. Ao prosasmo cronstico vai seguir-se * alegorizao da aco em 
termos moralistas e religiosos. D. Afonso V  * Varo Forte que conquista, em Arzila, 
a Cidade da sua prpria alma, forando cinco portas, que so os Cinco Sentidos, 
mediante a luta entre cavaleiros cristos e mouros, cujos smbolos herldicos 
representam outras tantas virtudes ou vcios opostos. A conquista foi sugerida em 
sonho por uma

Donzela Formosa, que  a F; o sulcar do Oceano pelas naus foi a vitria

contra as tentaes infernais, cujo orientador, o mago Eudolo, consegue a

certa altura prender o prncipe D. Joo, ou seja o Amor, numa ilha de Deleites que o 
ia perdendo.  escusado continuar o esmiuamento dos smiles alegricos, em que a 
influncia de Tasso, quase a sua parfrase, se sente, por exemplo, na paixo da moura 
Zaida pelo prncipe D. Joo. A escolha do tema, que em grande parte pode explicar, 
pela semelhana de contedo, a

preferncia do modelo tassiano, decorre sensivelmente do propsito de dar uma 
contrapartida de Alccer Quibir. Com efeito, o mago Eudolo, depois de vencido, 
vaticina toda a histria de Portugal no Norte de frica, detendo-se especialmente no 
martrio do Infante Santo, que prenuncia o ambiente trgico em que se assiste, no 
penltimo canto, ao destroo do exrcito de D. Sebastio, com a consabida enumerao 
dos membros da aristocracia a

morrer em beleza.  uma pgina lutuosa de nobilirio metrificado.

Em Malaca Conquistada (1634), de Francisco de S de Meneses (pertencente a uma 
linhagem fidalga e quase homnimo de um discpulo imediato de Miranda), que tem 
Afonso de Albuquerque por heri principal, o

modelo tassiano  ainda mais transparente, se possvel, apesar de uma forte
influncia fraseolgica de Cames: o mesmo alegorismo, os mesmos enleios amorosos num 
heri secundrio, vindos de uma bela adversria e tramados

pelas potnciais infernais, digresses interminveis e a fuso do tom pico

com a prdica moralista e religiosa, sintoma claro de uma subordinao da cultura 
especificamente nobre  do clero.

Com a Anacephalcosis de Monarchia Lusitana (1624), de Manuel Bocarro Francs, que 
viria a judaizar no estrangeiro, introduz-se na epopeia

382
o mito do Quinto Imprio universal, expresso de um messianismo que atingiu tanto O 
Povo como a aristocracia, alimentado pelas Trovas de Gonalo Anes Bandarra (c. 1540), 
e do qual o P.e Antnio Vieira ser o principal intrprete depois da Restaurao. 
Bocarro, que decalca o verso camoniano, apoia-se em recursos astrolgicos e 
cabalsticos.  entre o Afonso Africano e a Malaca Conquistada que se intercalam os 
principais poemas de didctica religiosa em metro pico: Os Novssimos (1623) de 
Rolim de Moura, e o

Poema sobre S. Toms de Aquino (1525) de Manuel Toms.

Do ponto de vista da doutrina esttica, o novo gosto exprime-se por uma

polmica, mais ou menos explcita, entre a tendncia tassiana e a camoniana, que est 
na lgica da evoluo atrs apontada. Notemos, por fim, que a cruzada antimuulmana  
o assunto da epopeia incompleta Espafia Libertada (primeira parte, 1618; segunda 
parte, edio pstuma, 1673) de Bernarda Ferreira de Lacerda, escrita em castelhano, 
que historia ao longo dos sculos a luta dos povos hispnicos contra os Infiis.

As alegorias inspiradas na teologia crist,  maneira de Tasso, no puderam, em suma, 
produzir um sucedneo para o impulso humanista que, sob a

forma mitolgica, animava Os Lus-adas. Se j em Cames as paixes criadoras, sem 
deixarem de exprimir-se, se alienam em grande parte dos homens e encarnam nos deuses, 
os poemas alegrico-teolgicos da escola tassiana esgotam o fundo de experiencia e de 
anseios humanos em elucubraes estreis, sufocam numa redoma moralista a palpitao 
dos momentos histricos passados.

Deste fracasso, que sobrevinha ao fracasso das epopeias cronstcas, advm novos 
rumos de tentativa pica. A verdade  que o rasto da epopeia camoniana, j de si to 
aristocrtica de esprito, se no podia apagar, pois estimulava, no plano literrio, 
um ideal de independncia nacional cada vez mais definido nas prprias camadas nobres 
e letradas,  medida que o domnio filipino, na sua crise generalizada, se tornava 
mais opressivo. Essa ideologia, sob a sua forma pica, vai usar dois recursos 
principais: o primeiro  uma explorao mais erudita e formalista da mitologia e dos 
processos da epopeia greco-latina, pois se cuidava que assim se encareceriam melhor 
os temas, superando, pretensamente, Os Lusadas, por mera receita retrica; o segundo 
 o recurso ao profetismo cabalista. Quanto aos temas, a exaltao da Casa de 
Bragana, que encontraremos no Condestabre de Rodrigues

 383
Lobo e que  geral entre os escritores portugueses seiScentistas de todos os

gneros literrios, vai ter como curiosa alternativa a exaltao da antiga capital do 
Reino, em dois poemas que se publicam, pode dizer-se, nas vsperas da Restaurao: 
Ulisseia (1636), de Gabriel Pereira de Castro, falecido anteriorniente, em 1632, e 
Ulissipo (1640), de Antnio de Sousa de Macedo, que se distinguiria na apologtica e 
na diplomacia da Restaurao brigantina.

A Ulisseia ou Lisboa Edificada tem um prefcio do mais importante teorizador do poema 
pico neste perodo, Manuel de Galhegos, expoente do classicismo formal. Galhegos 
publicara em 1626, em lngua castelhana, a sua Gigantomaquia, que trata um assunto 
mitolgico (a revolta dos Tits contra Jpiter) com toda a castigada estilstica da 
escola gongrica e  base de uma erudio copiosa, que expe em prefcio. Em 1635 
cantara os esponsais do futuro D. Joo TV no Templo da Memra, pomposo epitalmio de 
estrutura mitolgica, em sextilhas de decasslabos hericos que fazem desfilar todos 
os feitos dos Pereiras de Bragana e dos Gusiri es de Medina Sidnia. O poema, 
escrito em vernculo, traz tambm um prefcio em que o autor se mostra apreensivo, 
porque *quem se atreva a sair do mundo com um livro em portugus, arrisca-se a 
parecer humilde, pois escreve uma lngua cujas frases e cujas vozes se usam nas 
praas, o que no deixa de ser embaraoso para a altivez+. Agora, no prefcio para o 
poema de Gabriel Pereira, procura demonstrar a sua superioridade relativamente a Os 
Lusadas, com vrios argumentos que no fundo se reduzem  convico de estar a 
Ulisseia muito mais dentro dos cnones homricos, tal como o autor alis reconhece, 
ao anunciar que espera * cantar de Ulisses, imitando Homero+. A Ulisseia no passa, 
realmente, de uma imitao to esteticamente perfeita quanto o permitia o escrpulo 
formal, unido a urna tal falta de originalidade, que, desejando regressar a Virglio 
e sobretudo a Homero, nem sequer dispensa as

principais solues formais e fraseolgicas dadas por Cames ao problema de 
transferir o gnero pico de feies clssicas para a mentalidade moderna e os 
assuntos histricos.

Antnio de Sousa de Macedo tratou tambm a lenda da fundao de Lisboa por Ulisses, 
mas dentro de outro esprito. Grande entusiasta da Cabala, que anteriormente j 
inspirara, como vimos, a Anacephaleosis de Bocarro Francs, toda a engrenagem 
mitolgica da Ulissipo se converte num duplicado das foras intermedirias entre um 
Jpiter, que figura o Deus Trino,

384
ou um Pluto, sinnimo do Prncipe das Trevas, e os homens. As consabidas falas 
profticas de todos os poemas picos abrangem, neste, no s os feitos histricos da 
aristocracia portuguesa ao longo dos sculos, mas

tambm a Encarnao de Deus (cronologicamente posterior  aco lendria de Ulisses). 
O que mais enfada na obra , precisamente, este compromisso insustentvel, decerto 
mais para o gosto moderno que para o do

tempo, entre a mitologia e uma realidade notada, por vezes, o mais prosaicamente 
possvel, como quando, por exemplo, se enumeram no Canto

11 todas as culturas agrcolas, todas as principais espcies botnicas e zoolgicas 
da regio de Lisboa, pelos seus prprios nomes, sem transposio mitolgica.

Deixamos para outro lugar os poemas narrativos de assunto braslico, pois constituem 
um cicio que atinge a maturidade j na poca arcdica, no obstante ser anunciado 
desde o sculo XVI por precursores que Francisco Adolfo Varnhagem enumera, estuda e 
exemplifica no seu Florlgio da Poesia Brasilera (1850). Contudo, mencionaremos 
ainda a Insulana (1635), de Manuel Toms, autor tambm, como vimos, de um poema da 
literatura proftica da Restaurao brigantina, que apresenta a originalidade de 
exaltar, sob todos os aspectos, a ilha da Madeira, donde o seu autor devia ser 
natural. Manuel Toms comemorou depois, com Fnx da Lusitnia (1649), a

Restaurao, que alis foi objecto de numerosos poemas de recorte epopeico, quase 
todos hoje perdidos. A Fnix Renascda e o Postilho de Apolo, coleces de poesia 
seiscentista j tipicamente barrocas e s editadas no sculo XVIII, contm numerosos 
poemas narrativos sobre assunto mitolgico ou sobre vitrias militares da 
Restaurao, em oitava rima moldada pela influncia de Os Lusadas, alm de 
frequentes parfrases e glosas da pica e lrica camoniana, devidas sobretudo ao Dr. 
Antnio Barbosa Bacelar.

O rasto de influncia e imitao de Os Lusadas poderia seguir-se atravs de toda a 
histria da literatura portuguesa, mesmo posteriormente ao

sculo XVII. As vicissitudes dessa influncia, como vimos, acompanham uma crise de 
iderio por parte das camadas dirigentes, e saldam-se numa inadequada resoluo dos 
problemas estticos da epopeia. Podemos dizer que o remate dessa crise, ou seja, a 
sua liquidao esttica, est bem vista no Virato Trgico de Brs Garcia de 
Mascarenhas, publicado em 1699 mas concludo muitos anos antes, pois o autor falecera 
em 1656.

         385
Brs Garcia de Mascarenhas, que escreveu tambm um poema, infelizmente perdido, sobre 
a luta contra os Holandeses no Brasil, teve uma acidentada e picaresca vida, que ele 
prprio resume no canto XV do poema, em sonho proftico do seu heri. Nascido em 
1595, de uma famlia nobre da Beira, junto ao rio Alva, foi preso em Coimbra por 
motivo de urna aventura amorosa. Evadiu-se no meio de peripcias animadas. Principiou 
a poetar com os seus primeiros amores, *que amor sem versos  jardim sem fiores+. 
Durante nove anos percorre a Espanha, Itlia, Flandres, o Brasil, at que, depois de 
tantas aventuras, *apstata do mar, a terra beijo+, diz ele, regressando  Ptria. 
Turbulento como era, resolve um litgio com um irmo clrigo  espadeirada, criando 
fama de valento, no desmentida durante a guerra pela independncia ento iniciada, 
pois ficou clebre a Companhia dos Lees que comandou nas Beiras. Um dos mais 
corajosos feitos que praticou resultou de uma desobedincia a ordens superiores, o 
que mais urna vez

o levou  priso. A,  falta de tinta e pena, consegue escrever uma apologia em 
verso, com letras recortadas de um Flos Sanctorum e coladas com farinha. Passada s 
grades da masmorra e entregue a D. Joo IV, essa composio valeu-lhe a liberdade. 
Recolhe-se por fim  aldeia, onde escreve o Viriato Trgico, inspirado por musa *mais 
natural que culta+.

Trata-se de uma obra curiosssima, no como poema herico, pois,  excepo da 
metrificao em oitava rima e de umas vagas tinturas mitolgicas, infringe as regras 
e o tom do gnero, mas como romance histrico, cheio do realismo calejado de um 
militar veterano que as convenes versificatrias clssicas afinal s prejudicam. 
Viriato  nele um novo tipo de heri: representa,  maneira do prprio autor, como 
que uma sntese entre o heri pico convencional e o anti-heri da novela picaresca 
espanhola.  *bisonho+, sem veleidades cavaleirescas na luta: recusa o combate quando 
convm, e o autor, que abundantemente lecciona, cheio de bom senso, sobre a arte 
militar, faz a propsito o elogio das retiradas estratgicas:

No  melhor, antes que o mal suceda, no ir  luta que leva  queda? Lute quem sabe, 
quem no sabe aprenda.

Numa arenga aos Lusitanos, o chefe proclama, em matria de religio: *A todos os 
nossos deuses fao votos/que, se no nos ajudam, que no os

temos+. Viriato encarna verdadeiramente a resistncia nacional da Restaurao pela 
pena de um fidalgo que era o aventureiro nato e uma personificao da tradicional 
guerrilha peninsular.

386
Ao arrepio de toda a mistificao literria usual do gnero, este autor guerreiro no 
nobilita a guerra; considera-a um mal inevitvel da condio humana tal qual a 
conhece, at como aspecto particular da luta constante que impera em toda a natureza 
fsica. Os mbeis dela no so generosos: *Vem a parar todo o furor da guerra/ no 
saco [saque] aonde sempre as guerras param+. E espanta-se: *que de instrumentos 
blicos inventam /Os homens nscios contra a prpria vida+! Quanto  coragem, define-
a assim, com a

sua peculiar preocupao de definir conceitos: *Fortaleza no  falta de medo,/ antes 
 medo de cair em falta+.

Ridiculariza, na esteira dos Humanistas, o *vulgo+ inconsistente, sem opinio 
prpria, esclarecendo, entretanto, que entende por *vulgo+ a escria *dos estados 
trs+ da sociedade. Usa imagens inditas: uma assola o militar  uma *gafanhota+ 
(praga de gafanhotos); uma fuga  uma carreira de cavalos bravios na pampa argentina, 
que decerto conheceu. Mitifica j ocosamente a Ocasio, ou oportunidade, que seria a 
divindade por excelncia de Viriato.

Apesar de certos episdios amorosos de conveno e de alguns brincos formais 
(trocadilhos, ecos, etc.), o livro raramente sai deste tom comezinho, experimentado e 
imensamente prosaico.

O fundo da aco do livro no  n-tolgico: vem expressamente daMonarquia Lusitana 
de Bernardo de Brito, e por isso as transposies fantasistas s o so segundo os 
padres da historiografia posterior. E a infrac o das regras clssicas da epopeia 
est, afinal, em consonncia com o assunto do poema, que  o da resistncia contra os 
Romanos, portadores da civilizao clssica.

Mencionemos ainda os seguintes poemas picos seiscentistas: Prosopopeia (1601), de 
Bento Teixeira, pequeno poema de assunto brasileiro; Destruio de Espanha (167 1), 
de Andr da Silva Mascarenhas, que contm plgios do Viriato Trgico, ainda ento 
indito; Menriqueida (1741), de Francisco Xavier de Meneses, sobre o conde D. 
Henrique.

        387
1111119191106,AFIA

1 - CANCIONEIROS EDITADOS OU INVENTARIADOS, COLECES DE TEXTOS

Como a maior parte das edies de autor no tm um carcter crtico e muitos dos 
poetas, mesmo dos mais importantes, se encontram praticamente inditos ou 
inadequadamente representados nas edies correntes, subsistindo srias dvidas, at, 
acerca do cnone das obras mais conhecidas,  de recomendar o recurso aos 
cancioneiros recentemente publicados e s numerosas coleces de manuscritos que 
aguardam publicao e at estudo.

Colectneas publicadas:

The *Cancioneiro de vora+, ed. crtica e anotada por Arthur Lee-Francis Askins, 
University of California Press, 1965, j precedida de uma ed. completa deste 
cancioneiro por Jos Pedro Machado, in *A Cidade de vora+, 1951, VIII, n.@ 23-24 e 
25-26, e por uma sua ed. parcial, por Victor Eugne Hardung, Lisboa, Imprensa 
Nacional, 1875. (interessa em especial ao estudo de autores de meados do sc. XVI, 
embora contenha algumas composies mais antigas.)

Cancioneiro de Corte e de Magnates, ed. e notas do mesmo erudito, ibidem, 1968. (De 
especial relevncia para os primeiros discpulos palacianos de S de Miranda; contm 
muitos autores espanhis.)

The *Cancioneiro de Manuel de Faria+, ed. crtica, introd. e notas de Edward Glaser, 
Mnster, Vesteflia, Portugiesische Forschungen der G rresgeselischaft, 1968. (0 
pref. est includo em Glaser, Edward: Portuguese Studies, Fund. C. Gulbenkian, 
Centro Cultural Portugus, Paris, 1976. Interessa em especial quanto a poetas do 
perodo filipino, dando principal relevo ao castelhanizado Diego da Silva y Mendoza, 
marqus de Alenquer e vice-rei de Portugal, a Martim de Castro do Rio, Estvo 
Rodrigues de Castro e

Ferno Correia de Lacerda.)

Cancioneiro Fernandes Toms, ed. fac-similada, com simples histria preambular do 
manuscrito nico, ed. Museu Nacional de Arqueologia e Etnografia, Lisboa, 197 1. 
(Especialmente importante quanto a poetas mal conhecidos, como Soropita, Ferno 
Correia de Lacerda, Martim de Castro do Rio, abrangendo 45 autores diferentes e 
muitas compo- sies annimas.)

Cancioneiro de Lus Franco Corra (1557-1589), reprod. fac-similada do manuscrito da 
Biblioteca Nacional de Lisboa, com apresentao de Maria de Lourdes Belchior Pontes, 
Lisboa, 1972 (contm Filodemo, o 1. O canto de Os Lusadas aparentemente copiado do 
original, poemas de Cames, Miranda, Bernardes, Francisco de Andrade, D. Manuel de 
Portugal, Jernimo Corte Real, etc.).


The Cancioneiro de Cristvo Borges, ed. and notes by Arthur Lee-Francis Askins, 
Barbosa e Xavier Ed., Braga, 1979. (Preciosa col. j completada em 1578.)

A permanncia das formas heptassilbicas no sc. XVI sugeriu a Antnio Francisco 
Barata a publicao de uma Continuao do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, 
Lisboa, 1902, que, alm de muito discutvel no seu critrio geral, tem numerosas 
incor-

388
reces. A ed. do Cancioneiro de vora, por Hardung, baseada em parte no mesmo 
material,  tambm, praticamente, uma antologia da medida velha quanto aos 
manuscritos utilizados. Em 1969, Antnio Rodriguez-Moino, em La Silva de Romances de 
Barcelona,
156 1, Salamanca, deu conta de cerca de oitocentos folhetos de cordel em verso 
heptassilbico publicados em Espanha no sc. XVI, o que prova a preferncia do 
pblico pela medida velha.

No livro de Silva, Vtor Manuel Pires de Aguiar e: Maneirismo e Barroco na Poesia 
Lrica Portuguesa, Coimbra, 1971, encontra-se um extenso inventrio de 140 
manuscritos de 11 bibliotecas e arquivos portugueses, a que  preciso acrescentar os 
que se encontram em bibliotecas e arquivos estrangeiros, inventariados pelas ed. 
crticas de A. L.-F. Askins e E. Glaser.

O vol. de estudo e antologia de Rocha, Andre Crabb: A Epistolografia em Portugal, 
ed. Almedina, Coimbra, 1965, contm textos e bibliografia em prosa de Diogo 
Bernardes, Francisco Rodrigues Lobo e D. Francisco de Portugal.

11 - DISCPULOS IMEDIATOS DE MIRANDA; POETAS RELIGIOSOS

1. Textos

Globalmente,  de notar que a ed. de obras de devoo, de historiografia e mesmo de 
narrativa herica (Cames, Jernimo Corte Real) se antecipa aos da lrica 
italianizante, que sobretudo corria em coleces manuscritas.

Portugal, D. Manuel de: Obras, Craesbeeck, Lisboa, 1605; Poesia de O. Manuel de 
Portugal, 1. Prophana, ed. L. F. de S Fardilha, Inst. de Cult. Port., Porto, 1991 
(textos inditos ou dispersos).

Caminha, Pro de Andrade: Poesias, ed. da Academia das Cincias, 179 1; 2. > ed. 
consideravelmente alargada com inditos, por Robert Priebsch, Halle, 1898, reprod. em 
fac-smile pela IN-CM, 1989.

Bernardes, Diogo: Vrias Rimas ao Bom Jesus e  Virgem gloriosa sua me e a santos 
particulares, 1. > ed. Lisboa, 1594, reed. em 1601, 1608, 1616, 1622, 1770. O Lima,
1. > ed. Lisboa, 1596, reed. de 1633 e 176 1. Rimas Vrias. Flores do Lima, 1. > ed. 
Lisboa, 1597, reed. 1633, 1770, e reprod. fac-similada da 1. a ed. com nota 
introdutria de Anbal Pinto de Castro, IN-CM, Lisboa, 1985, onde lacunas do exemplar 
da Bib. Nac. de Lisboa so supridas pelo recurso a folhas de exemplares no 
estrangeiro. De todas estas obras h ed. na col. *S da Costa+, 3 vols., 1945-46, 
pref. e notas de Marques Braga.


Cruz, Frei Agostinho da: Vrias Poesias do venervel P. FreiAgostinho da Cruz, ofic. 
Miguel Rodrigues, Lisboa, 1771 (algumas composies tinham sido anteriormente 
insertas em obras de doutrina religiosa). Obras de A. Cruz, pref. e notas de Mendes 
dos Remdios, Coimbra, 1918. No estudo j mencionado de Vtor M. P. de Aguiar e 
Silva, pp. 53-66, impugna-se a atribuio de 45 composies aceites por Mendes dos 
Remdios e, em apndice, transcrevem-se 6 composies suas de um manuscrito indito. 
H um vol. de Poesias Selectas deste autor, org. e pref. por Augusto C. Pires de 
Lima, ed. Barreira, Porto,
1941, que se baseia na ed. de Mendes dos Remdios.

Perestreio, Pedro da Costa: Obras Inditas dos nossos insignes poetas. Pedro da Costa 
Perestrelo, coevo do grande Cames.... ed. de Antnio Loureno Caminha, ofic. Antnio 
Gomes, Lisboa, 1791, tomo 1.

                389
Quevedo (Castel-Branco), Vasco Mouzinho de: Discurso Sobre a Vida e Morte de Santa 
Isabel Rainha de Portugal e outras vrias rimas, ed. Manuel de Lyra, Lisboa, 1597.

Sotto Maior, Eli de S: Jardim do Cu dirigido a Deus Nosso Senhor, ed. Vicente 
Alvarez, Lisboa, 1607; Ribeiras do Mondego,        1 . aed. 1623, 2  . aed. rev. e 
pref . por Martinho da Fonseca, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1932.

Costa, D. Francisco da: Cancioneiro chamado de O. Maria Henriques, introd. e notas do 
p.e Domingos Maurcio, Agncia-Geral do Ultramar, Lisboa, 1956. (Contm uma extensa 
biografia do autor, um seu desenvolvido enquadramento histrico, glossrios portugus 
e castelhano, alm de outras precises eruditas.)

Estaco, Baltasar: Sonetos, canes, cIogas e outras rimas, of ic. Diogo Gomez 
Loureiro, Coimbra, 1604.

Quintela, Diogo Mendes: Converso e lgrimas da gloriosa Santa Madalena, e outras 
obras espirituais, 1615, reed. fac-similada, com introd. de Joo de Castro Osrio, 
Academia Portuguesa de Ex-Libris, Lisboa, 1964.

Jorge de Sena, em obra adiante indicada, refere-se a um poema pico ainda manuscrito 
de Ferno Correia de Lacerda, Imprio Lusitano, que estudou na Biblioteca Pblica de 
vora.

2. Estudos

Alm das observaes disseminadas ao longo do livro de Vtor M. P. de Aguiar e

Silva, ver:

Braga, Tefilo: Histriados Quinhentistas, Porto, 1891, e Recapitulao da Histria 
da Literatura Portuguesa, 11, Renascena, Lello, Porto, 1914. (Conferir 
cuidadosamente com estudos posteriores.)

Rossi, Giuseppe Cario: La tradzione dei Petrarchismo nelle Letterature Portoghese, 
in *Atti+ do Convegno Internazionale, Francesco Petrarca, Roma, Accademia Nazionale 
dei Lincei, 1976.

Carolina Michalis de Vasconcelos analisou com erudio ainda hoje bsica os 
canc(oneiros Fernandes Toms e do pe Pedro Ribeiro em Estudos Camonianos, 1-11, 1922-
24, Imprensa da Universidade de Coimbra, e deixou numerosos dados que aqui importam, 
quer em monografias e edies de autores quinhentstas, quer em trabalhos recolhidos 
em Dispersos, 1-V ria, de *Ocidente+, 1969.


Sena, Jorge de: Uma Cano de Cames, Portuglia, Lisboa, 1966 (com o estudo em geral 
da cano petrarquista de Quatrocentos e Quinhentos); Maneirismo e Barroquismo na 
poesi   .a portuguesa dos sculos XVI e XVII, in * Luso- Brasil ian Review+, li, 2,
1965 (sobre problemas de periodizaco e caracterizao); Os Sonetos de Cames e o

soneto peninsular, Portuglia, 1969; e Estudos de Histria e Cultura, vol. li, sep. 
de *Ocidente+, em publicao desde 1967 (refere-se aos poetas representados nos 
cancioneiros recentemente publicados).

Gama, A. Pimenta da: Diogo Bernardes, apontamentos genealgicos e biogrficos, in *0 
Instituto+, vols. 57 e 58, 1910-11.

390
Delfim Guimares traz vrias achegas sobre questes biogrficas respeitantes a Diogo 
Bernardes, in *Arquivo Literrio+, vols. 1 a 4, 1922-27.

Martins, Mrio: A Poesia Mstica de D. Manuel de Portugal, in *Revista da 
Universidade de Coimbra+, t. 20, 1960.

Pimpo, A. Costa: Frei Agostinho da Cruz, in *Biblos+, vol. 16, tomo 1, 1940. 
Martinez, Maria Teresa Leal de: Um Cancioneiro de Frei Agostinho da Cruz, in 
*Ocidente+, vol. 82, n. > 406, Fev. 1972.

Belchior, Maria de Lourdes: Poesia e Mstica: Frei Agostinho da Cruz, in *Aufsaetze 
zur Portugiesische Kulturgeschichte+, 4. > voi., Goerresgeselischaft, Mnster, 1964, 
includo no vol. da mesma autora, Os Homens e os Livros - sculos XVI e XVII, ed. 
Verbo, Lisboa, 1971.

Pires, Maria Luclia Gonalves: A Crtica Camoniana no sc. XVII, *Biblioteca Breve+, 
Instituto de Cultura e Lngua Portuguesa, 1982.

Baio, Antnio: Episdios Dramticos da Inquisio Portuguesa, vol. 1, 2. > ed. rev. 
e aum., *Seara Nova+, Lisboa, 1936 (sobre o processo de Baltasar Estaco, com 
transcrio de textos, incluindo trs sonetos).

111 - ESCOLA CAMONIANA: LRICOS

1. Edies individuais

Resende, Andr Falco de: ed. incompleta pela Imprensa da Univ. de Coimbra, em
480 pp., incluindo Microcosmografia e outros numerosos poemas em decasslabo e 
reclondilha, com notas de rodap, postas  venda sem capa antes de 1867. As poesias 
em castelhano esto includas em Peres, Domingos Garcia: Catlogo Razonado biogrfico 
y bibliogrfico de autores portugueses que escribieron en castellano, Madrid, 1890. 
Ver notcia da impresso incompleta e dos manuscritos conhecidos, bem como uma breve 
antologia, sobretudo de verses horacianas, no livro de Amrico da Costa Ramalho 
adiante mencionado.

Lobo, Ferno Rodrigues (por alcunha Soropita): Poesias e prosas inditas, pref. e 
notas de Camilo Castelo Branco, tip. Lusitana, Porto, 1868 (publicao muito 
incompleta e insatisfatria, que  falta de uma ed. crtica dever ser completada 
pela colaborao atribuda ao autor no Cancioneiro Femandes Toms e noutras fontes).

Castro, Estevo Rodrigues de: Rimas, ed. Zanobio Pinhoni, Florena, 1623; Obras 
Inditas de [... 1 Estvo Rodrigues de Castro [  ... 1, tomo 11 de uma col. editada 
por Antnio Loureno Caminha, ofic. Filipe Jos de Frana, Lisboa, 1792; Obras 
Poticas, ed. crtica, fixada, prefaciada e anotada por Giacinto Manuppella, *Acta 
Universitatis Conimbrigensis+, 1967 (com bibliografia e fac-smiles dos 
frontispcios).


Portugal, D. Francisco de: Divinos e Humanos Versos, Lisboa, Craesbeeck, 1652; Arte 
de Galanteria, 1670, de que h uma adaptao prefaciada e anotada por Joaquim 
Ferreira, ed. Barreira, Porto, 1943; Tempestades y Batallas de un cuydado ausente, 
1683. Ver referncia a inditos no estudo de Carlos Alberto Ferreira adiante 
mencionado.

Tagarro, Manuel da Veiga: Laura de Anfriso, 1. > ed. vora, 1627; 2. > Lisboa, tip. 
Rollandiana, 1788.

               391
Sousa, Manuel de Faria e: Fuente de Aganipe Y vrias rimas, 1624-27 (7 vols., 
incluindo ciogas em portugus).

2. Estudos

Silva, Vtor M. Pires de Aguiar e: Maneirismo e Barroco na Poesia Lrica Portuguesa, 
Centro de Estudos Romnicos, Coimbra, 197 1. (Obra fundamental. Discute os conceitos 
histrico-literrios em causa, tendo especialmente em vista a lrica portuguesa dos 
scs. XVI e XVII. D conta da situao quanto a problemas de erudio textual e 
procede a um largo inventrio dos termos e motivos maneiristas e barrocos. Abundante 
bibliografia, em parte comentada.)

Montes, Jos Ares: Gngora y Ia poesia portuguesa del sigio XVIII, ed. Gredos, 
Madrid,
1956.

Ramalho, Amrico da Costa: Estudos sobre o Sculo XVI, Fund. C. Gulbenkian, Centro 
Cultural Portugus, 2. > ed. aum., IN-CM, 1983. (Rene e actualiza investigaes 
anteriores do autor sobre a biografia e bibliografia de Andr Falco de Resende, 
incluindo, corrigido, um romance); e O Essencial sobre Andr Falco de Resende, IN-
CM, 1988. Ver ainda Sauvage, Odette: L'Itinraire rasmien dAndr de Resende (1500-
1573), Fund. C. Guibenkian, Centro Cultural Portugus, Paris, 1971.

Miguel, A. Dias: *cloga Penitencial+ de Ferno Rodrigues Lobo Soropita, in 
*Ocicente+, vol. 47, 1954.

Ferreira, Carios Alberto: D. Francisco de Portugal, autor da *Arte de Galanteria+. 
Poesias, cartas inditas e outras fontes manuscritas para o estudo da sua vida e 
obras, in *Bibios+,
1947 (com resumo de 114 cartas dirigidas por D. Francisco a O. Rodrigo da Cunha).

Rocha, Andre Crabb: A Epistolografia em Portugal, 2. ed., IN-CM, 1984. Coelho, 
Jacinto do Prado: Um Poeta Esquecido: Manuel da Veiga Tagarro, in A Letra eo   
Leitor, Lisboa, 1969, reed. 1977.

Bene, Orietta dei: Manuel da Veiga Tagarro e a lngua da *Laura de Anfriso+, in 
*Arquivos  do Centro Cultural Portugus+, vol. 4, 1972, Paris.

Carvalho, Jos Adrano de: No texto do *Cancioneiro de Corte e de Magnates+: os 
psalmos pentenciais de D. Jorge de Soto Mayor, in *Annali, Sezione Rornanza+, 
Istituto Universitario Orientale, XVIII, 2, Julho 1976, pp. 233-295 (inclui o texto 
dos salmos segundo um manuscrito da Biblioteca Municipal do Porto).

Roig, Adrien: La biographie de Pero de Andrade Caminha, d'aprs de nouveaux 
documents, in *Arquivos do Centro Cultural Portugus+, vol. X, pp. 449-492, Paris, 
1976.

Cirurgio, Antnio: Pedro de Andrade Caminha e a potica, in *Arquivos do Centro 
Cultural Portugus+, 17 (1982), pp, 79-92.

IV - POESIA PICA

1, Textos

S se indicam os livros com reed., pois as primeiras ed. vm indicadas no corpo do 
captulo:

Corte Real, Jernimo: Naufrgio de Seplveda, 1594, 1783, 1840; Segundo Cerco de Dio, 
1574, 1783; Obras de Jernimo Corte Real, introd. e rev. de Manuel Lopes de Almeida, 
1979.

392
Brando, Lus Pereira: Elegada, 1588, 1785Andrade, Francisco de Paiva de: Primeiro 
Cerco de Dio, 1589, 1852.

Quevedo, Vasco Mouzinho de: Afonso Africano, 1611, 1786, 1844.

Castro, Gabriel Pereira de: Ulisseia, 1636, 1642 ou 1643, retocada no sentido da 
exaltao dos Braganas (e j no de Filipe 111), 1745 (com o texto original 
restitudo),
1827 (duas ed.).

Meneses, Francisco de S de: Malaca Conquistada, 1634, 1658, 1779.

Macedo, Antnio de Sousa de: Ulissipo, 1640, 1848.

Mascarenhas, Brs Garcia de: Viriato Trgico, 1699, 1846. Tagarro, Manuel da Veiga: 
Laura de Anfriso, 1627, 1788.

2. Antologias

H uma Antologia de Poemas Narrativos Portugueses, com comentrios, inventrio e 
excertos por Cabral do Nascimento, Lisboa, 1949; e do Viriato Trgico foi feita uma 
adaptao para crianas por Joo de Barros, na col. *Os Grandes Livros da 
Humanidade+.

3. Estudos

Quanto  literatura pca podem ler-se, alm da introd. de Cabral do Nascimento  
antologia atrs mencionada:

Figueiredo, Fidelino de: A pica Portuguesa no Sculo XVI, S. Paulo, 1950, in 
*Boletim da Faculdade de Filosofia, Cincia e Letras+ ( a 6. > ed. de um trabalho 
sucessivamente refundido pelo autor, sob ttulos semelhantes; reed. fac-similada, IN-
CM, 1987). Em A Crtica Literria em Portugal, Lisboa, 1910, discute a importncia 
das polmicas seiscentistas sobre a epopeia.

Cidade, Hernni: A Literatura Autonomista sob os Filipes, Lisboa, 1948 (vide crtica 
por Asensio, Eugenio: Espa15a en Ia pica filipina, sep. da * Revista Espafiola+, t. 
33, 1949, incluso em Estudios Portugueses, Fund. C. Gulbenkian, Paris, que contesta a 
existncia de uma pica de resistncia antifilipina e aumenta consideravelmente o roi 
dos poemas narrativos feito por Fidelino de Figueiredo e Hernni Cidade, reimpresso 
nos j citados Estudios Portugueses do mesmo autor).

Sena, Jorge de: em Estudos de Histria e de Cultura, vol, li, sep. de *Ocidente+ 
incompletamente publicada desde 1967, analisa um conjunto de poemas narrativos da 
poca filipina, pp. 77-93 e passim.

Pires, Maria Luclia Gonalves: A Crtica Camoniana no sc. XVII, *Biblioteca Breve+, 
ICALP, 1982.

Cirurgio, Antnio: O Carcter Moralizador de *0 Primeiro Cerco de Diu+ de Francisco 
de Andrade, in *Biblos+, 63, 1987, pp. 73-96.

Ab ordagem geral: Cuesta, Pilar Vsquez: A Lngua e a Cultura Portuguesas no Tempo 
dos Flipes, Europa-Amrica, 1988.

Captulo X

FICO CAVALEIRESCA E BUCLICA, SEU ESGOTAMENTO E O GOSTO DE NOTAO DOS COSTUMES

Na ltima parte do capitulo anterior, referida  evoluo da poesia narrativa, 
pudemos verificar a instabilidade dos moldes clssicos renascentistas, que s n'Os 
Lusadas e quase miraculosamente se preservam, graas a um hbil compromisso entre 
certo naturalismo inerente  gesta transocenica e a ideologia oficial de cruzada em 
que ele se vazava. Como hoje facilmente se v, a catstrofe de D. Sebastio (ltima 
esperana herica do poema), a dissipao dos fumos da ndia e o puritanismo 
religioso imediatamente subsequente  Contra-Reforma (que s com o Barroco se 
aliviar, depois de assegurada a margem indispensvel de ortodoxia e de estabilidade 
social) teriam de converter as fanfarras epopeicas em alegoria tassista da 
exemplaridade ortodoxa.

A novelstica vai seguir uma evoluo at certo ponto paralela. O romance

de cavalaria incorporar um cruzadismo antiturco no Palmeirim de Inglaterra, surgido 
na fase de inflexo da poltica cultural joanina, para logo se desagregar em alegoria 
moral e doutrinal. Entretanto, a fico pastoril dever tambm a um autor portugus o 
seu mais notvel e influente fruto de meados do sculo, a Diana, 1559, de Jorge de 
Montemor. Mas trata-se de um

gnero particularmente compsito: o fio enredado de uma espcie de odisseia de um 
pastor (ou dois), a cada passo cruzando a sua trajectria num

lacete sobre si prpria, em busca da sua pastora, e a enredar-se em sucessivos 
subenredos anlogos; um jogo teatral de quiproqus, de travestis e de cabras-cegas 
sentimentais, com desabafos lacrimosos, descantes e jogos, para repousar o ritmo da 
intriga, a que no faltam os reconhecimentos e at

394
s vezes os raptos de corsrios da comdia clssica; numerosas poesias buclicas 
enfiam-se, em colar, nesse cordo enredado que  a intriga central. Dir-se-ia uma 
cloga ampliada e multiplicada, com alternncia de prosa e verso.

Encena a apologia permanente da simplicidade arcdica em oposio aos artifcios 
urbanos ou palacianos. No seu cenrio h uma ambiguidade anacrnica entre a atmosfera 
de bosque sagrado pago, com os seus templos e mistrios, sacerdotisas, ninfas, 
situaes mitolgicas, e o aparecimento de ermites, entidades e institui es 
crists. Como as cIogas, est recheada de aluses biogrficas ao autor e s 
personagens disfaradas pelos nomes

pastoris. Ora,  medida que a combinatria das peas bsicas da efabulao se esgota, 
o frgil equilbrio desta pastoral de conveno desconjunta-se, e

o autor cruza uma ou mais fronteiras, internando-se na fico cavaleiresca e, 
sobretudo, no longo monlogo saudoso de Bernardim e na alegoria exemplarista ou 
obscuramente alusiva.

Entretanto enraiza-se o gosto do picaresco. No  bem, em portugus, a novela do 
anti-heri pcaro, que entretanto se multiplicava e corria em castelhano, a lngua 
franca do sistema imperial habsburgo, mas algo que ainda no encontra a sua forma 
literria especfica: o quadro pitoresco e folgazo de costumes burgueses ou 
populares, corno aqueles incidentes em que se comprazem Breughel-o-Velho e outros 
pintores flamengos da mesma poca. Encontrmos j esta matria em Gil Vicente, no 
Cancioneiro Geral, nas cartas de Cames e ultimamente em Rodrigues Lobo Soropita; 
vamos encontr-la ainda no teatro de Jorge Ferreira de Vasconcelos, contemporneo de 
Cames, que tambm, e muito significativamente, nos aparecer como um dos coveiros do 
gnero cavaleiresco.

O PalmeIrim de Inglaterra

As cavalarias imaginrias entusiasmaram a tal ponto o pblico da Pennsula, que, s 
no sculo XVI, produziram-se vrias dezenas de romances cavaleirescos, a maior parte 
deles constituindo os dois ciclos concorrentes dos Amadises e dos Palmeirins; algumas 
das novelas tiveram numerosas edies e mesmo tradues ou imitaes estrangeiras, e 
certas personalidades hist~ ricas parecem ter sido profundamente influenciadas pelo 
idealismo cavaleiresco, como D. Sebastio, Carlos V, S.Ia Teresa de vila e S.10 
Incio de Loiola. Descartes ainda apreciou a leitura do 4madis.

395
A impresso em castelhano do Amadis de Gaula, em 1508, na redaco de Montalvo, 
iniciara uma nova e grande vaga de produo de romances

de cavalaria, que, graas  tipografia, podem agora atingir um pblico mais amplo que 
o da corte.

Esta, no entanto, impe ao gnero os seus valores. Perdendo cada vez mais em 
densidade humana e religiosa, o romance de cavalaria torna-se um espelho dos ideais 
de galantaria sentimental, de conversao conceituosa, de sujeio ao monarca, e de 
cruzada. Como a historiografia e a epopeia se encarregavam de elaborar a ideologia da 
expanso ultramarina, o romance

cavaleiresco, correspondendo cada vez menos s realidades sociais e nacionais, 
entretinha a imaginao do seu pblico com aventuras que visam de preferncia o 
turco, mas progressivamente inverosmeis, fantsticas, constituindo uma geografia e 
uma histria irreais, com dinastias de heris impossveis, modelos de honra, de 
coragem, de fora e de eloquncia.

Cronologicamente, o primeiro romance de cavalaria desta segunda fase, quase 
contemporneo dos autos cavaleirescos de Gil Vicente,  a Crnica do Imperador 
Clarimundo, de Joo de Barros, de que j falmos. Segue-se o Palmeirim de Inglaterra, 
de Francisco de Morais, de que se conhece a 3.1

edio impressa em vora em 1564-67; do prlogo se infere que a 1. edio foi 
publicada em vida de D. Joo 111 (antes de 1557), existindo uma traduo castelhana 
de 1547.  a mais clebre e interessante novela de um ciclo lanado pelo castelhano 
Palmeirim de Olva (1511, annimo). Verifica-se mais uma vez a estreita 
interdependncia da novelstica nas duas principais literaturas peninsulares, a tal 
ponto que chegou a agitar-se a hiptese da prioridade de uma autoria castelhana para 
este romance, embora a autoria de Francisco de Morais, demonstrada j em 1866 pelo 
brasileiro Odorico Mendes, tenha sido geralmente reconhecida pelos eruditos espanhis 
mais competentes na matria, como Diaz Benjumea e Menndez y Pelayo.

Em tempos modernos, o renome desta novela provm de, juntamente com o Amadis de 
Gaula, ter sido poupada pela troa de Cervantes, quando no D. Quixote, depois de 
parodiadas as andanas cavaleirescas, pe os amigos do tresloucado fidalgo da Mancha 
a lanar ao fogo todos os romances

de cavalaria, com excepo dos citados. O seu interesse literrio no nos parece 
extraordinrio, contudo. Trata-se de um emaranhado de aventuras de Palmeirim e outros 
cavaleiros, to compridas como as do Texas Jack ou

396
dos velhos filmes em 24 partes e to extraordinrias como as do Super-Hornem na banda 
desenhada: combates e lutas com gigantes, feiticeiros, selvagens, drages; prises e 
libertaes; passagens de pontes e outros passos defesos; traies castigadas; 
equvocos e reconhecimentos; duelos, torneios, sortes de magia. O her i vence todos 
estes obstculos e  recompensado no final. Alm destas aventuras que tendem para o 
miraculoso, oferece exemplos e

modelos de cortesania e boas maneiras fidalgas. Vrios episdios, nomeadamente a 
grande batalha final, so inspirados pela ideia de cruzada contra os Turcos. Uma 
construo sintctica correcta, tanto na narrao como no dilogo corts (complicada 
por vezes com consideraes doutrinais, como quando se expem os altos motivos morais 
do comportamento cavaleiresco), construo que arruma e jerarquiza em frases 
participias e gerundivas, como

que perfiladas, as circunstncias secundrias que se embrecham nas oraes; a 
cortesania requintada dos dilogos; a animao da narrativa dos combates, a descrio 
pormenorizada e por vezes pitoresca de brases, roupas e festins - eis as principais 
contribuies do Palmeirim de Inglaterra para a

prosa literria portuguesa. Mas a toada de encarecimento (sobretudo mediante frases 
subordinadas consecutivas) torna a leitura do livro demasiadamente montona para um 
leitor de hoje.

O grande xito da obra contribui para a proliferao do ciclo dos Palmeirins e 
descendentes, que vai at incios do sculo XVII, como veremos.

O gosto pelas aventuras cavaleirescas permanece ainda em princpios do sculo XVII - 
o que no surpreende se pensarmos que em pocas muito posteriores este tipo de 
imaginao inspira a fico geogrfica imaginria do sculo XVIII, o cavaleiresco 
romntico de Walter Scott, o romanesco de Eugne Sue, Dumas Filho ou mesmo Dickens, a 
novela de perseguio policial ou de *cow-boys+, etc. O elemento propriamente 
cavaleiresco das aventuras  que entra em dissoluo. Em 1587 sai a 1. a edio da 
Terceira e Quarta Parte do Palmeirim de Inglaterra, na qual se tratani as Grandes 
Cavalarias de seu filho o Prncipe D. Duardos II... por Diogo Fernandes. O mbito 
geogrfico das aventuras alarga-se, sobretudo, para o Oriente e para a frica, 
tornando-se ao mesmo

tempo mais preciso. Acentua-se o maravilhoso: os seres da mitologia greco-romana vm 
misturar-se com a fantasmagoria cltica. Por vezes o romance tende para a pastoral e

para o didactismo da cultura clssica. Na Quinta e Sexta Parte da Crnica de 
Palmeirim de Inglaterra, na qual se contam as grandes Cavalarias do Prncipe D. 
Clarisol de Bretanha, filho do prncipe D. Duardos (1602), por Baltasar Gonalves 
Lobato, o protagonista, excedendo tudo o que tinham feito os Palmeirins, Primalees, 
Polendos, Duardos,

        397
Daliartes, etc., ao longo de todo este ciclo de romances peninsulares, vence em 
combate todos os guerreiros famosos da Antiguidade, e, por fim, o prprio deus Marte 
e as Frias.
O estilo empola-se com latinismos lexicais, num tom constantemente sentencioso, e em

narraes tentas e prolixas. Abundam as poesias pastorais e as divisas conceituosas 
em verso nos escudos dos cavaleiros. O gnero estava literariamente exausto. Chegara 
o tempo da caricatura, do D. Quixote. No entanto, resta o esplio de mais algumas 
novelas de cavalaria mais ou menos alegricas e doutrinantes, em textos manuscritos 
portugueses que no chegaram a imprimir-se.

ffiJORGE FERREIRA DE VASCONCELOS

Incluiremos aqui o estudo deste autor, sem embargo de a parte mais importante da sua 
obra consistir numa srie de trs *comdias+ em prosa, atendendo a que estas, embora, 
excepcionalmente, pudessem ter sido representadas, se destinam acima de tudo  
leitura.

Sabe-se que Jorge Ferreira de Vasconcelos, *criado+ da casa dos duques de Aveiro, e 
cuja famlia era originria de Montemor-o-Velho, frequentou o meio universitrio  
roda de 1540, pois que a composio da sua primeira obra, a Comdia Eufrosina, que 
ele diz ter sido realizada em idade ainda tenra,  datvel, pelas aluses que contm, 
de cerca de 1542-1543 e ocorre em ambiente coimbro. Deste modo, a formao de 
Vasconcelos  um pouco anterior  de Antnio Ferreira, e a sua aprendizagem coimbr 
deve ter aproximadamente coincidido com a de Cames, o que parece confirmado por 
curiosas analogias estilsticas entre as comdias de Vasconcelos e a prosa dos autos 
e cartas de Cames, assim como por aluses que lhes so comuns.

Posteriormente, Vasconcelos ingressou na burocracia como escrivo da Fazenda Real e 
da Casa da ndia. Faleceu em 1585.

No gnero do teatro para leitura escreveu a Comdia Eufrosina (1. edio
1555); a Comdia Ulissipo, cuja mais antiga edio conhecida  a 2.a, de
1618, sabendo-se no entanto que a 1.  anterior a 1561, porque est proibida no 
ndice inquisitorial deste ano; a Comdia Aulegrafia, de que s se

conhece uma edio de 1619. No gnero do romance da cavalaria publicou o Memoral das 
Proezas da Segunda Tvola Redonda, em 1567. H aluses a outras obras de Vasconcelos 
hoje desconhecidas, como Triunfos de Sagramor (1554); Dilogos das Grandezas de 
Salomo (para instruo do rei D . Sebastio); Peregrino (segundo Barbosa Machado, 
tratava-se de um livro curioso escrto no estilo da Eufrosina); Colquio sobre Parvos 
(composto em 1556).

398
O Memorial das Proezas da Segunda Tvola Redonda (1567) apresenta-se como 
*trasladado+ de cronistas antigos, e no primeiro captulo esboa uma imaginria 
histria geral da cavalaria, que abrange os companheiros das andanas de Baco na 
ndia, os heris helnicos, contemporneos supostos de Alexandre e Augusto, os 24 
cavaleiros da Tvola Redonda arturiana e os 12 pares de Frana. A segunda Tvola 
Redonda seria a dos companheiros do rei Sagramor, que teria sucedido ao rei Artur. 
Nos ltimos trs captulos opem-se s cavalarias, j descritas, da Segunda Tvola, 
as dos Portugueses. No esquema deve ter-se includo o romance de Sagramor, que o 
autor

redigira antes,

O Memora] oferece muitas pginas inspiradas na realidade contempornea do autor. H 
uma curiosa descrio de Lisboa, em que se sublinha o branquejar do casario, a 
abundncia de hortas e pomares e a existncia de uma fonte termal. A parte 
interessante do livro , sem dvida, a pormenorizada descrio, historicamente 
verdica, do torneio celebrado na praia de Xabregas, em que fora armado cavaleiro o 
infante D. Joo (pai j falecido de D. Sebastio), a cujo casamento e morte o autor 
consagra uma nota final. Jorge Ferreira descreve-nos os embandeiramentos, palanques, 
cais artificiais, luminrias, fogos-de-vistas, toilettes femininas e masculinas, a 
multido apinhada em barcos, empoleirada em rvores e telhados (chegou a haver 
desabamentos) e o decorrer das cerimnias, esmiuando sempre o vesturio dos juzes, 
mantenedores, figuras alegricas, pajens, msicos e demais comparsas, vindos em parte 
de terra e em parte de uma urca e outros navios. Recordemos que a fico cavaleiresca 
era, desde D. Joo 11, encenada como momo ou torneio, dando depois origem a 
tragicomdias vicentinas.

Sente-se bem o intuito pedaggico da novela. Jorge Ferreira de Vasconcelos foi um dos 
muitos autores portugueses de obras sobre a educao de prncipes: o Memorial, 
dedicado a D. Sebastio, est recheado de sentenas, algumas adequadas ao tempo, 
como, por exemplo, aquela em que, a propsito de uma temeridade do rei Artur, se 
censuram os reis que desamparam *o prprio estado por ir conquistar o alheio+. No 
menos sensvel  a influncia estilstica da historiografia latina nos retratos das 
personagens, nos discursos que elas proferem em ocasies solenes, numa certa mincia 
de localizao geogrfica, de onomstico, de referncias  administrao rgia, a 
cerimnias pblicas, etc.

        399
As trs *comdias+ de Jorge Ferreira pertencem a um gnero criado pela Clestna, o 
do teatro em prosa, de aco muito extensa, mas revelam ao mesmo tempo o conhecimento 
do teatro latino, influncias do teatro italiano do Renascimento, quer atravs das 
comdias de S de Miranda, quer por via directa (o esquema da Eufrosina coincide com 
o de Philodoxeos de Leo Baptista Alberti). Tambm no desdenham a tradio 
vicentina, da qual conservam alguns ressaibos. No entanto, a preocupao propriamente 
dramtica  muito menor em Jorge Ferreira do que no seu modelo italiano; as comdias 
perdem em aco o que ganham na caracterizao de personagens, de ambientes vrios e 
de concepes de vida, pela conotao da fala e por numerosos adgios e rifes. Este 
aspecto descritivo e analitico das comdias de Jorge Ferreira ainda mais as aproxima 
do romance de costumes e as distingue do teatro propriamente dito.

A preocupao de retratar meios e tipos sociais  neste autor um propsito consciente 
e at programtico. A todas as trs comdias se poderia aplicar o que ele diz no 
prlogo da Comdia Aulegrafia:

*Nesta selada portuguesa vereis vrias diferenas e certezas que passam em costume 
por estes bairros. Donde deve notar-se e advertir-se que as calidades e eptetos 
atribudos em singular a toda a espcie de pessoa aqui introduzida competem 
geralmente ao gnero de tais espcies. Convm a saber, declarando-me: Quando se pinta 
ila espcie de corteso ou cortes, que dizemos especiais, ao natural de suas artes e 
modos, principal e singularmente, entende-se em geral por o gnero de tais pessoas. 
Ca do particular nada se

trata, porquanto seria odioso e alheio do estilo cmico moderno [    ... 1 .

Este  o primeiro fundamento de sentirdes esta msica. E o segundo seja que tudo o 
que estes ministros dizem  um decorado manuscrito do que comummente se diz, pratica 
e trata entre os que por eles se representa [... ]+.

Contrariamente ao que sucede com o teatro clssico, que pretende apresentar no palco 
o comportamento de um homem universal, as obras de Jorge Ferreira de Vasconcelos, de 
acordo com o programa acima enunciado, esto cheias de pormenor local e epocal, e 
apresentam tipos prprios de cada meio, que vivem e se explicam por ele.

Em Coimbra e em vrios meios desta cidade decorre a aco da primeira, em data, das 
comdias de Jorge Ferreira de Vasconcelos,. a Eufrosna (nome grego, que deveria 
pronunciar-se como esdrxulo segundo as boas regras filolgicas da sua latinizao, e 
que designa uma das Graas, podendo repre-

400
sentar-se por Alegria). Zeltipo, corteso, mas da escala inferior da nobreza, ama 
Eufrosina, filha de um grande senhor. O recato da pretendida e a sua alta

jerarquia so um obstculo difcil ao empreendimento do apaixonado. Tem ele por 
confidente Carifilo, experiente conquistador de mulheres, que, alm de diversas 
aventuras com raparigas de cntaro e criadas, est empenhado na conquista da filha de 
um ourives cristo-novo, por intermdio de uma

alcoviteira. Enquanto Zeltipo tende a idealizar o amor e julgar inacessvel

o seu objectivo, Carifilo prope-lhe uma tctica amorosa que consiste em

mobilizar certa intermediria, Slvia de Sousa, uma dama de companhia da pretendida e 
prima do pretendente, para conseguir de Eufrosina uma entrevista nocturna que a 
comprometa e coloque o pai perante o facto consumado. Uma carta, cuidadosamente 
redigida de colaborao pelos dois amigos, desperta a curiosidade, a ansiedade e por 
fim o desejo da donzela, oprimida pelo isolamento em que a encerrava o pai (ausente a 
pretexto de uma peregrinao a Santiago de Compostela). A situao que se cria entre 
os dois apaixonados remata num casamento clandestino. O pai de Eufrosina, ao 
regressar, tenta desfazer esse casamento, recorrendo para isso, mas em vo, s artes 
de um clebre homem de leis, o Dr. Carrasco. Finalmente, tem de contentar-se com o 
genro imprevisto. Por seu lado, o sabido Carifilo, que soube conduzir este negcio, 
deixa-se surpreender em flagrante pelo pai da sua *rapariga+, e  forado a casar com 
ela, quando da filha do ourives pretendia apenas a fruio de uma aventura. Mas acaba 
por se resignar gostosamente.

A parte propriamente psicolgica da novela ocupa pequeno espao da comdia, mas tem 
interesse incontestvel: trata-se do enamoramento de Eufrosina, que se desenvolve em 
luta com a timidez e o pudor de donzela encer~

rada e inexperiente, atravs de fases que comeam na curiosidade e acabam no desejo 
irreprimvel, embora medroso.  at certo ponto o mesmo processo que Bernardini 
Ribeiro soubera j descrever. Tem interesse tambm sob o ponto de vista psicolgico a 
situao em que se encontra a intermediria Silvia de Sousa, dividida entre a 
dedicao pela ama e a ternura que sente pelo primo. Como tambm j apontara 
Bernardim Ribeiro, a intensidade irreprimvel do desejo feminino est relacionada com 
o *encerramento+ em que viviam as mulheres, quer dizer, a recluso domstica em que 
as confinavam os pais (ou os maridos). Mas  muito diferente, na Eufrosina, o 
comportamento das mulheres da aristocracia e o das do povo.

Os episdios, com efeito, decorrem em diferentes meios: ora na casa
401
de Eufrosina, ora entre a juventude bomia, ora entre a criadagem, inclusive as moas 
que vo lavar ao rio. Na caa s moas cruzam-se os estudantes ou nobres valdevinos 
com os *mecnicos+ futricas. Cada um destes meios  caracterizado pela sua linguagem 
prpria e por reaces peculiares. As frmulas de saudao e tratamento, as 
supersties, as cantigas, os anexins, a liberdade de linguagem - tudo isto varia 
conforme o lugar onde a aco se passa. Interessa muito notar que neste ambiente 
coimbro, carregado de cor local, no faltam ecos do mundo exterior. Assim, cartas 
enviadas da ndia pelo irmo de Slvia mostram-nos a mentalidade do nobre em busca de 
fortuna na guerra ou nos empregos do Ultramar. Uma carta recebida da Corte, que 
estava em Almeirim, pe-nos a par de certas aventuras e passatempos cortesanescos.

Outro aspecto saliente da Eufrosina  a discusso ou o comentrio de certos tpicos 
muito em voga, como o Costume e a Mudana, as Letras e as Armas, e sobretudo o Amor 
activo e o Amor contemplativo, isto , o

amor que procura a simples realizao sexual ou aquele que prefere a sublimao 
espiritual. O contraste mais saliente ao longo da obra  o dos dois amigos, Zeltipo, 
representante do amor segundo o modelo trovadoresco e cavaleiresco, tmido e 
sofredor, de *altos pensamentos+; e Carifilo, que se diz *mais calaceiro de pernas 
de rio que um minhoto de tripas+, e que pretende apenas *lanar o arpu onde ferre+, 
e no guindar-se a enlevaes e castelos de vento.

A segunda comdia de Vasconcelos, Ulissipo, foi j escrita em Lisboa, depois de 1554. 
S se conhece a 2. a edio, expurgada pela censura inquisitorial, de 1618. O autor 
prope-se estudar a classe mdia de Lisboa, a propsito- da famlia de um cidado 
(isto , burgus), chamado simbolicamente Ulissipo, vem a ser, Lisboa.

 um pai que tem aventuras clandestinas nas hortas da ento arrabaldina Mouraria, mas 
impe a maior severidade em casa, forando a mulher e as filhas  recluso domstica. 
A me no tem outro escape seno as devoes supersticiosas e escassas relaes, quer 
com uma vizinha que se encontra em iguais circunstncias, quer com uma *beata+ (por 
imposio da censura, designada como *viva+ na 2. a edio), que  uma alcoviteira 
de ares respeitveis. H ainda um filho que vive na estroina, e anda de amores com

402
Florena, rapariga explorada pela prpria me e sustentada por um comerciante rico 
casado. As filhas espreitam pela janela os rapazes que passam na rua, e por 
intermdio da *beata+ acabam por entrar em relaes com dois galantes, a ocultas dos 
pais. As diversas pontas desta estrela que tem por centro o burgus Ulissipo 
desvendam-nos assim toda uma comdia burguesa de Lisboa que decorre, em parte, no 
plano decente e legal do namoro entre

rapazes e filhas-famlia casadoiras; em parte no plano clandestino ou desqualificado 
das mulheres mantidas pelos burgueses, dos rufias e dos parasitas que os servem como 
intermedirios. No remate, as filhas de Ulissipo casam com os seus pretendentes; a 
amante casa com o criado dele, ficando  disposio de ambos; o filho arnanceba-se 
com Florena, que continua a ser protegida e paga por outro burgus, amigo e 
conivente de Ulissipo. Este fica planeando despachar o filho para a guerra, em 
Mazago, ao mesmo tempo que o rapaz fica aguardando a morte do pai para dispor da 
herana e casar

com Florena.

, como se v, um depoimento sem concesses sobre as taras da clula familiar 
burguesa no sculo XVI, s comparvel pelo seu pessimismo ao

Auto da nda e  Farsa de Ins Pereira, ou ao Primo Basilio numa poca posterior. 
Paralelamente, a obra abre uma janela sobre o meio das *mundanas+ ou *cortess+, 
*mancebas+, proxenetas, rufias, intermedirios, etc., sustentados em ltima instncia 
pelo dinheiro dos burgueses. Embora a comdia latina contribua certamente para este 
aspecto de Ulssipo, documentos como as cartas em prosa de Cames corroboram a sua 
verosimilhan a.

A intriga  muito mais complexa e enredada que a da Eufrosna, e isso resulta do 
prprio facto de o autor querer dar-nos, no j a histria de um par de amantes, mas 
a de uma famlia. Tambm em comparao com a primeira comdia, o autor mostra-se 
muito menos interessado pela psicologia do sentimento amoroso, e muito mais pelo 
comportamento das personagens como tipos sociais. Os temas de discusso, corno o do 
Amor contemplativo e do Amor activo, deixam de presidir  estrutura da obra e aos 
contrastes

de personagens, embora continuem a constituir tpicos de conversao entre eles. 
Subsiste o uso frequente de rifes e adgios, mas com mais equilbrio. Em resumo, o 
autor parece ter querido fazer obra de tipifica o estrita.

A terceira comdia de Vasconcelos, editada postumamente em 1619, inttula-se 
Aulegrafia (isto : *descrio da corte+), e *pretende mostrar-vos

403
ao olho um rascunho da vida cortes+, segundo se diz no prlogo. Aulegrafia  o nome 
de uma dama que orienta a vida amorosa da jovem Filomena, desgostosa de um antigo 
apaixonado, encaminhando-a para novo galante que pretende seduzi-Ia, mas se deixa 
cair no lao do casamento, armado pelas duas mulheres. A par disto, assistimos aos 
devaneios amorosos de dois criados e de dois senhores. Grasidel de Abreu, o 
pretendente de Filomena, tem tambm o seu confidente. O que mais parece interessar o 
autor  o esprito

e a linguagem dos diversos escales palacianos, da resultando o abuso do processo 
clssico dos confidentes, mediante o qual cada protagonista faz conhecer o seu 
sentimento do amor, as suas preferncias literrias, as suas

pretenses hierrquicas, etc. A linguagem cortesanesca, com um gosto marcado pelo 
preciosismo e pelos jogos de palavras, desempenha papel relevante nesta comdia. 
Embora, segundo o Morno do Prlogo, as falas dos protagonistas sejam *um decorado 
transunto do que comummente se diz, pratica e trata+ entre os cortesos, no restam 
dvidas acerca da viso humorstica do autor.

 enorme o valor documental das comdias de Vasconcelos para o historiador dos 
costumes, das instituies e at da vida econmica: frmulas de saudao e 
tratamento, modas, supersties, cantigas em voga, valor dos rendimentos, preos de 
gneros, etc., etc.; mas elas so muito mais do que um repositrio filolgico e 
histrico. Em todas estas comdias se revela uma admirvel capacidade de observao 
social, um sentimento vivo de diversidade dos meios, das mentalidades e das 
linguagens, e um poder de vivificao tambm notvel. Dir-se-ia um Gil Vicente menos 
genial, mas tambm mais minucioso e com um sentido menos formular ou tico do 
quotidiano, que se tenha exprimido em prosa e assimilado recursos da comdia latina e 
renascentista. Nelas entram tambm largamente os ventos do Renascimento: uma atitude 
livre e superiormente irnica perante o comportamento das vrias espcies sociais faz 
pensar no Elogio da Loucura, de Erasmo. Este erasmismo, que critica as devoes 
supersticiosas, suscitou a desconfiana da Inquisio e levou ao ndex primeiramente 
a Ulissipo (1561) e mais tarde a Eufrosina (1581).  de assinalar ainda outro aspecto 
comum s trs comdias: a defesa das mulheres contra os preconceitos que postulavam a 
sua *maldade+ e inferioridade, e contra os costumes patriarcais que as reduziam  
recluso domstica e  tutela masculina. Por este lado, as comdias valem

404
como refutao antecipada da doutrina patriarcal e antifeminista de Francisco Manuel 
de Melo na Carta de Guia de Casados. Perante o amor, Vasconcelos mantm a sua 
superior e desenganada ironia: o amor  uma fora real e poderosa constantemente 
presente no comportamento dos homens, mas assume subjectivamente formas sempre 
ilusrias. O amador cavaleiresco, que diz amar a sua dama espiritualmente, s 
consegue chegar ao fim dos seus desejos utilizando as artes de um prtico sedutor de 
mulheres. Mas o

sedutor inveterado, que se julga ao abrigo de paixes, acaba por se comprometer ao 
ponto de se unir pelo casamento  mulher que pretendia desfrutar.

Ligado a tudo isto, o principal interesse das comdias reside ainda no

facto de nelas se intentar uma experincia lingustica e estilstica que pode 
considerar-se uma das mais ricas de toda a literatura portuguesa. Parece ser

fito do autor captar a linguagem viva aos seus diversos nveis - desde a

rua  corte - e, depurando-a, condimentando-a e passando-a ao crivo da

erudio humanstica, forjar um estilo literrio novo, simultaneamente moderno e 
castio, popular e culto. Essa experincia pode considerar-se admiravelmente 
conseguida, ao ponto de as comdias de Vasconcelos se contarem entre as mais 
completas e apuradas realizaes das virtualidades da lngua portuguesa.

Antes de Garrett,  nos dilogos da Eufrosina que encontramos a notao de falas com 
subentendidos, suspenses, reticncias; talvez nem seja arriscado ver a influncia de 
certas cenas desta *comdia+ em algumas do Frei Lus de Sousa. A aguda conscincia 
estilstica de Vasconcelos manifesta-se tambm na sua sensibilidade s diferenas de 
registos, quer resultantes do tempo e da moda literria, quer da condio social, 
quer do tipo psicolgico da personagem. Assim, ao sedutor prtico, no gnero de 
Carifilo, ocorrem

frequentes imagens que evocam o prazer da mesa: - *Estes [diz o criado Miranda 
referindo-se a fidalgos que s falam de olhos e suspiros] no so para saber tratar 
iJa dama cristalina, feita de leite, que eu comeria como requeijo+. Em contraste, os 
amadores de alta hierarquia, que se conformam com o molde cavaleiresco e 
petrarquiano, usam largamente do *falar derivado+, isto , dos equvocos e jogos de 
palavras, como *mouro+, ora no sentido de infeliz (evoluo do primitivo significado 
de mouro escravo), ora no sentido de morro. Outro contraste frisado nas comdias 
trava-se entre o estilo *antigo+, na rota de Juan del Encina, e o estilo *moderno+, 
que descreve

      405
a dama nestes termos-- *Os seus olhos so cometas. Pois o rosto?  de estrela boieira 
pondo-se o Sol. Cabelos? No h mais lindo alcaneve. As mos? No venham alfloas de 
acar refinado.+

Os efeitos que Vasconcelos tira da lngua falada (e particularmente da falada na 
corte) evidenciam que ela dispunha de muitos recursos inaproveitados pela lngua 
escrita, tanto a tradicional como a de imitao clssica e

italiana. Assim, enquanto a lngua escrita s nos oferece retratos convencionais, 
segundo o modelo literrio petrarquiano, sem individualizao fsica, Vasconcelos 
mostra-nos que j em meados do sculo XVI a lngua falada estava apta a retratos 
humoradamente pitorescos, como o deste concentrado:

*Germnio: - Que dizeis quele belo rosto? Parece-vos que pudera Apeles tirar a

sua Vnus? - Artur: - Bom est... Quisera-lho eu porm sobre o comprido, e no tanto 
de feio de joelho... - Germ.: - Oh! Mas matizai-a! Vs quereis o que ningum tem. 
Bom  olhos castanhos rasgados, com o seu escabeche de tredice grave. Bom , tambm, 
beicinho derrubado e morder bem o freio. Bom, barbinha com cova e papadinha ao p. 
Pois orelha? Assentai que  viva como azougue. Eu no quero mais do mourisco: vs 
sereis de outras divindades ... +

Da mesma forma, Vasconcelos antecipa-se a Tolentino ao surpreender gestos e atitudes 
como as de damas de palcio aguardando que chegue o galante:

*Vos esperam: seus olhos de esguelha, ar no peito, tento no descalar da luva, 
guedelha descuidada, compondo a gorgueira, chamando a modo de perdigo para as 
amorosas telas, e bem adargados da amorosa arte.+

Em contraste com a lngua escrita, Vasconcelos usa uma frase nervosa, de perodos 
curtos, avessa  rotundidade e  simetria oratrias; metforas e imagens de uma 
riqueza, novidade, imprevisto e graa surpreendentes, colhidos na navegao, no jogo, 
na caa, na culinria e noutros aspectos da vida quotidiana. Mas  evidente que, se 
ele quis surpreender a lngua corrente no propsito de oferecer aos leitores um 
panorama realista da sociedade,

essa mesma lngua se tornou nas suas mos um material de arte intencionalmente 
trabalhado. A sua prosa - e nisto a experincia de Vasconcelos preludia a de Aquilino 
Ribeiro - realiza um aproveitamento artstico, mediante seleco, concentrao e 
desenvolvimento imaginativo indito, da lngua falada. Mostram-no, alm de 
numerosssimas imagens e metforas, alm do

406
prprio ritmo nervoso e enrgico da frase, o gosto dos ditos conceituosos e das 
sentenas, como esta, que formula de modo subtil um pensamento mais tarde celebrizado 
por Pascal (*Ia coutume est une seconde nature+): *o costume de longe  outra 
natureza, que a vencC+.

Sob o ponto de vista da evoluo do gosto literrio, as *comdias+ de

Vasconcelos constituem um documento capital para o estudo das origens do estilo 
barroco. Mostram, com efeito, que havia j na primeira metade do sculo XVI um estilo 
palaciano, mais ou menos coloquial, caracterizado pelo uso frequente dos jogos de 
palavras (o *falar derivado+), pelo gosto da linguagem metafrica, das imagens novas, 
por hprboles formulares (os *seus

olhos so cometas+, por exemplo), pelas sentenas conceituosas, e ainda por certa 
brevidade e concentrao.

 este estilo, porventura, o que j transparece em S de Miranda, mencionado na 
Aulegrafia pelo *seu estilo sentencioso, mui limado e novo+: e  ele tambm que, 
sobrepondo~se ao estilo clssico e combinando-se com a

tradio escolstica medieval, vem a dar origem ao estilo *engenhoso+ do sculo XVII.

E eis o que explica a voga e a influncia profunda das comdias de Vasconcelos. A 
Eufrosina teve quatro edies em onze anos (1555-66), e a interrupo desta carreira 
brilhante deve-se certamente  interveno da censura

inquisitorial. Rodrigues Lobo conseguiu ainda reedit-la, alterando-a, em

1616. Os autos da chamada *escola vicentina+ recorreram s comdias de

Vasconcelos como a um repositrio de formas lingusticas, provrbios,, situaes e 
tipos. No E]-Rei Seleuco, de Cames, h imitaes e decalques flagrantes da 
Eufrosina, sendo de notar a afinidade do estilo em prosa de Cames com o de 
Vasconcelos, cuja continuidade directa j conhecemos das cartas e outros textos de 
Soropita. D. Francisco Manuel de Melo conta-se ainda entre os admiradores das 
comdias. O interesse pela Eufrosina passou a fronteira: h uma traduo castelhana 
de Fernando Ballesteros y Saavedra, de
163 1, e Lope de Vega inspirou-se nela para a composio de La Dorotea.

Em parte, esta voga deve-se certamente ao facto de Jorge Ferreira de Vasconcelos ter 
conseguido realizar, quer na sua prosa, quer na inspirao geral das suas comdias, 
uma sntese da tradio e do humanismo de acordo com o gosto do pblico culto da sua 
poca. Nessa sntese reflecte-se o facto

         407
de que a cultura portuguesa quinhentista, sem embargo da forte conscincia da sua 
personalidade,  tambm profundamente peninsular. O estilo seiscentista tinha razes, 
tanto em Portugal como em Espanha.

FRANCISCO RODRIGUES LOBO

Entre os discpulos de Cames, mas distinguindo-se dos anteriormente estudados pela 
conscincia teortica dos padres estticos a que visava, conta-se Francisco 
Rodrigues Lobo. Algumas das suas obras exercem um papel importante na formao do 
estilo barroco peninsular, sem que ele deixasse de ser uma personalidade muito 
caracterstica da escola camoniana. A sua

insero neste captulo justifica-se pela posio central que ocupa na fico 
buclica maneirista, embora no possamos deixar de o ter em mente como

teorizador ou preceptista da literatura, e ainda como poeta lrico.

FRANCISCO RODRIGUES LOBO: Vida e obras

A descoberta, cerca de 1930, do processo inquisitorial de Miguel Lobo, irmo do 
poeta, permitiu verificar que a Inquisio lhe atribua *trs quartos de nao+ (isto 
, de sangue judaico), visto que o pai, Andr Lus, era cristo-novo de Leiria, tendo 
chegado a gozar da categoria de escudeiro-fidalgo, e a me *meia crist-nova+. 
Nascido talvez em 1574, formou-se em Direito, em Coimbra, recebeu ordens menores, e 
aps uma

vida mal conhecida, na qual no consta que tivesse exercido cargos a que dava acesso

o seu diploma, e grande parte dela passada na sua terra natal, morreu em 162 1, 
afogado, numa viagem de barco entre Santarm e Lisboa. O facto de tomar ordens sacras 
no garante a ortodoxia do seu catolicismo, pois em diversos processos de que a 
famlia foi vtima, depois da sua morte, consta a presena de clrigos catlicos em 
sesses rituais hebraicas, facto que alis se verifica em vrios outros processos 
inquisitoriais. Mas o facto de ser

considerado *cristo-novo+ pela Inquisio nada significa quanto  heterodoxia do 
acusado: o processo inquisitorial no oferecia garantias de credibilidade. O retrato 
que lhe  atribudo (alis duvidosamente) parece conter smbolos judaicos na 
ornamentao. Diversas aluses nas suas obras mostram-no-lo ligado com a nobreza, ou 
fosse por via das relaes paternas ou graas  camaradagem coimbr. Vrias das suas 
obras so dedicadas a nobres, especialmente ao duque D. Teodsio II e a seu irmo D. 
Duarte, marqus de Frechilha e Malago, os dois principais representantes da Casa de 
Bragana, cuja genealogia exalta no Condestabre. Isso valeu-lhe, por parte do duque, 
uma penso que consistia no rendimento de um priorado em Porto de Ms.


O esplio literrio de Rodrigues Lobo apresenta-o absorvido numa actividade assdua 
de publicista profissional, a cultivar diversos gneros, a editar at algumas obras

408
alheias, a procurar certos temas de interesse oportuno e susceptveis de remunerao 
material, como a viagem de Filipe 11 a Lisboa em 1620.

Quando estudante em Coimbra, Rodrigues Lobo estreou-se nas letras com o Romanceiro 
(1596), onde se apresenta como o inaugurador em Portugal deste gnero de suposta 
origem popular castelhana, em verso narrativo, quinrio ou septenrio, de rima 
toante, aristocratizado por Lope de Vega, Espinel, Grigora e Salinas (autores 
mencionados na

obra) e que podia considerar-se uma variante da conveno buclica, admitindo a 
substituio dos zagais e zagalas por mouros ardentes e mouras esquivas. Os 
*romances+ de

Rodrigues Lobo, que tm por tema a *vida escolstica+, isto , as atribulaes 
picarescas do estudante bomio e necessitado, so quase todos em lngua castelhana e 
revelam afinidades com o Gngora inicial.  pois sob um signo castelhanizante que 
Rodrigues Lobo inicia a sua carreira. Posteriormente, porm, e j em 1600, data em 
que foi aprovada pela censura a Primavera (1. a edio 1601), romance buclico no 
estilo de Sannazzaro, acentua-se a herana camoniana.  esta que passa a dominar, 
embora influam tambm no poeta outros quinhentistas como Miranda e at Gil Vicente. 
Isto mesmo se confirma nas cIogas, editadas em 1605, e no poema pico Condestabre de 
Portugal, sado em

1609, mas j pronto em 1603. Na continuao, porm, da Primavera, O Pastor Peregrino, 
obra autorizada em 1604, sada em 1608, e O Desenganado, sado em 1614, verifica-se, 
por vezes, uma tendncia para regressar  maneira do Romanceiro. A partir de 1614 
predominam as obras em prosa: reedio da Eufrosina *emendada+ (para escapar  
proibio inquisitorial) em 1616; Corte na Aldeia em 1619. Veremos adiante o 
significado desta ltima obra. Rodrigues Lobo volta  poesia em 1619 com La Jornada 
de] Rey D. Filipe III a Portugal (edio 1623), srie de 50 * romances+ 
comemorativos, interessantes como descrio minuciosa das festividades preparadas 
para a recepo daquele monarca. Aqui acusa-se, de novo, um estilo de tradio 
castelhana, numa obra que alis dir-se-ia contradizer o insistente apostolado 
nacionalista do seu autor, patente no Condestabre e na Relao das Cortes presentes 
(manuscrito datado de 1612, que pode considerar-se como stira ao domnio 
castelhano), e que destoa tambm, pelo uso da lngua castelhana, do culto que, como 
veremos, a Corte na Aldeia consagra  lngua portuguesa. Talvez Rodrigues Lobo 
quisesse, com a Jornada, defender-se da acusao de antifilipismo. Desta forma, o que 
parece nele mais autntico  a sua tend ncia camoniana, embora conjugada com outras 
tendncias maneiristas. Alm da obras indicadas, publicou Elegias de Devoo, obra 
perdida, mas anunciada na 1. edio da Corte na Aldeia; e deixou inditas Cartas, 
Cartas dos Grandes do Mundo, e Hospital de Cupido.

FRANCISCO RODRIGUES LOBO: A teoria do Barroco na Corte na Aldeia


A Corte na Aldea (1619), uma das mais tardias e a mais amadurecida das obras de 
Rodrigues Lobo,  o melhor ponto de referncia para o estudo da formao do estilo 
barroco na literatura portuguesa. Esta obra contribuiu muito para educar o gosto das 
geraes cultistas portuguesas. Francisco

              409
Manuel de Melo presta-lhe as suas homenagens; e Baltasar Gracin, teorizador do 
conceptismo peninsular, satida-a qualificando-a de *livro eterno+.

Constituem-na dezasseis dilogos didcticos sobre os preceitos da vida de corte, em 
que participam, alm do dono da casa, antigo membro da corte, um *Doutor+ letrado, 
que ocupara cargos na magistratura, um *Fidalgo manccbo>@, um Estudante curioso da 
Poesia, um Velho *no muito rico+ (Solino), de extraco mais popular, ao que parece, 
antigo servidor de um dos *grandes da Corte+, ao qual compete, na funo de *cardeal-
diabo+, a crtica cptica, terra-a-terra. Pelo plano, pela feio didctica e por 
outros aspectos (discusso da superioridade das armas ou das letras, e temas 
anlogos) inspira-se no

clebre Corteso de Castiglione, que tanta influncia exerceu na Pennsula, sobretudo 
desde a sua traduo por Boscn (1534). Mas tanto pela informao como pelas 
intenes, a Corte na Aldeia afasta-se muito do seu modelo. Jos Adriano de Carvalho 
discute em vrios estudos as possveis fontes do livro como preceiturio de 
comportamento corts, desde os tratados latinos de retrica e Erasmo at II Galateo, 
(1558) do italiano Giovarmi della Casa, sua adaptao espanhola (1593) por L. Gracin 
Dantisco, Piazza Universale (1585) de T. Garzoni, sua adaptao espanhola (1615) por 
C. S. de Figueiroa, entre outros. Ressalta a reduzida margem de originalidade de 
Rodrigues Lobo em tal matria. No fecho do ltimo dilogo o autor anuncia a sua 
inteno de continuar a obra, editando dentro em breve outra srie de dilogos, o que 
parece no se ter verificado.

Um dos aspectos importantes da Corte na Aldeia consiste em dar uma expresso da 
resistncia contra a absoro castelhana. Dedicada ao irmo do duque de Bragana, d 
razo ao desgosto que sentem a nobreza de sangue e a de cargo com o desaparecimento 
da corte portuguesa: *retirados os

ttulos pelas vilas e lugares do Reino, e os fidalgos e cortesos por suas quints e 
casais, vieram a fazer cortes nas aldeias, renovando as saudades da passada, com 
lembranas devidas quela dourada idade dos Portugueses+. O livro destina-se, 
portanto, a servir de incentivo e padro  cortesania dos paos e solares senhoriais, 
que efectivamente vieram no sculo XVII a animar numerosas academias literatas, e 
sugere na dedicatria uma vaga esperana da restaurao em torno da casa ducal de 
Bragana, ao achar meio de tratar os Braganas como *prncipes+, lembrando que 
descendem dos reis da corte extinta. O tom patritico vibra principalmente na 
apologia insistente, quase religiosa, da lngua portuguesa, para a qual o livro 
contm numerosos preceitos estilsticos. Destes  exemplo o prprio texto, redigido 
com

extremo apuro, e que constitui, pela frase elptica e preciosamente corts, e por ser 
repositrio de provrbios e graas idiomticas, um paradigma de prosa acadmica.

410 
Por outro lado,  de notar que entre os seus interlocutores s se conta, ao que 
parece, um aristocrata de sangue (D. Jlio), pois os outros, embora com 
possibilidades de acesso  corte rgia, ou mesmo j com o seu trato, representam 
sobretudo a nobreza de cargo que ascende, atravs, principalmente, dos degraus da 
universidade, s magistraturas e outras altas funes pblicas, civis ou militares; 
no faltando um interlocutor de extraco mais popular que desempenha um papel muito 
importante. Os trs ltimos captulos discutem e acabam por equiparar os mritos 
relativos das educaes feitas na corte, no exrcito e na universidade (esta ltima 
reservada, como esclarece, aos *filhos segundos e terceiros da nobreza+, aos *dos 
homens honrados e ricos+ e aos *religiosos escolhidos nas suas provncias+, ou 
seces nacionais de ordens regulares). Verifica-se, portanto, que toda a vasta

doutrinao de cortesia deste volume se destina a uma aristocracia muito permevel 
aos intelectuais burgueses.

A obra exclui assuntos religiosos e polticos, e abrange tudo o que respeita  
redaco de missivas,  arte de conversar, de executar diligncias pessoais ou 
oficiais, incluindo as diplomticas, s boas maneiras, frmulas de tratamento mais ou 
menos cerimonioso,  arte de galantear, etc. Alm disso, discute gneros e estilos 
literrios e questes de tica aristocrtica, nomeadamente vantagens e limites da 
cortesia, da liberalidade, da vida amorosa e das preocupaes da ambio. Pelo quadro 
de valores que exalta (a liberalidade dadivosa e o amor sentimental em oposio  
avareza argentria, a discrio ou agudeza de engenho, a cultura literria, o 
requinte de convivncia, o patriotismo idiomtico, a bravura militar), v~se bem que 
o livro tem em vista a formao de um escol nacional, em que a nobreza de cargo, 
distanciando-se das suas origens burguesas, se fundisse com a de linhagem.

Para nos limitarmos s questes de doutrina literria, registemos, antes do mais, a 
predileco pela literatura didctica e pela epistolografia, embora certas 
personagens produzam apologias interessantes do romance de cavalaria, da 
historiografia e da poesia. Tal predileco no surpreende no conjunto das obras de 
Rodrigues Lobo, pois, como veremos, as suas produes lricas, pastoris e picas 
tendem sempre para a exposio didctica dialogal. Vimos que coleccionou e traduziu 
(com um ou outro retoque no sentido do estilo acadmico) Cartas dos Grandes do Mundo, 
e publicou algumas das suas prprias cartas, que em grande parte so exerccios de 
estilo concei-

3. >POCA - RENASCIMENTO E MANEIRISMO                                        411

tuoso e mordaz. Rodrigues Lobo aparece-nos, deste modo, a satisfazer o gosto de 
escrever cartas para a posteridade, a pretexto de um destinatrio particular, gosto 
to caracterstico do sculo XVII, e que se diria herdado do patriciado romano 
(Plnio-o-Moo  o mais tpico precursor do gnero, como do gosto das dissertaes e 
recitativos acadmicos). Os preceitos da Corte na Aldeia sobre a epistolografia, que 
tudo regulam desde o endereo no sobrescrito at s frmulas de fecho e  assinatura, 
abrangem normas

gerais de estilstica, tal corno, noutra parte da obra, sucede com os preceitos da 
conversao galante.

Mas, sob o ponto de vista estilstico, a matria mais importante vem a

propsito dos encarecimentos e dos ditos graciosos e agudos, nos dilogos V e XI. 
Naquele discute-se e exemplifica-se largamente a arte literria de encarecer, ou 
superlativar, que est na base do gongorismo, e conclui-se pela apologia do esprito 
de encarecimento lrico, justificado pelo poder de transfigurar as coisas que o amor 
concede aos que muito amam.

A matria referente aos ditos graciosos e agudos faz de Rodrigues Lobo um precursor, 
no apenas de D. Francisco Manuel de Melo e de todo o conceptismo, que atinge entre 
ns o apogeu ao tempo da Restaurao, mas at, pelas suas preocupaes j 
classificatrias e analticas, de Gracin, o corifeu terico desse estilo, que por 
isso tanto admirou este livro.

 de assinalar, entretanto, na Corte na Aldeia, que, ao nvel do vocabulrio e da 
construo frsica, Rodrigues Lobo preconiza um critrio de valor permanente: o do 
uso idiomtico correntio, com excluso das formas obsoletas ou sem naturalidade.

O bucolismo em Ferno lvares do Oriente e em RodrigueSLobo

0 romance buelico, que na poca helenstica produzira uma obra-prima, a Dafnis e 
Clo de Longo, foi ressuscitado por Sannazzaro, que na sua Arcdia (1502-04) liga 
vrias clogas por trechos em prosa, com um enredo de ambiente e personagens 
pastoris. Mas   Diana (1559) de Jorge de Montemor, escrita em castelhano (facto que 
Lobo criticou) com uma fala e duas poesias em portugus, que se deve a grande voga 
europeia do gnero.

Tal foi o xito do livro de Montemor, que as suas numerosas reedies principiam logo 
nos anos seguintes, 1560 (2. a edio) e 1561 (3 . > edio),

412                                       HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

e j em 1564 surgiam duas pretensas continuaes de diversa autoria espanhola 
(Segunda Parte de Diana e Diana Emendada), a que outras se seguiram. 0 gosto 
tipicamente maneirista do equvoco pastoral, onde o artifcio palaciano veste as 
roupagens da simplicidade arcdica, encontra nessa obra o modelo segundo o qual 
depois se talharam, com variantes, a Galatea (1585) de Cervantes, a Arcdia (1590) de 
Sidney e sua homnima (1598) de Lope de Vega e, ainda, com mais flego e carga de 
intencionalidade, a Astrc de Honor d'Urf, paradigma do preciosismo francs. Surgiu 
mesmo uma

derivante teatral: o drama pastoril, Aminta, 1573, de Tasso, Pastor Fido,
1590, de Guarini, em que por vias travessas renasce, mais ambiciosa, a tragicomdia 
pastoril vicentina.

Em lngua portuguesa, o primeiro livro de novelas pastoris que se aproxima, no seu 
conjunto, da Arcdia de Sannazzaro  a Lusitnia Transformada de Ferno lvares do 
Oriente (1530-1600 a 1607), publicada postumante, em 1607. 0 autor, feito *cavaleiro 
fidalgo+ em 1547, tomou parte em vrias expedies e campanhas no ndico, ficou 
prisioneiro em Alccer Quibir e foi depois nomeado para cargos importantes pelos dois 
primeiros Filipes, embora no livro parea lamentar a perda da independncia. A parte 
narrativa do livro no tem qualquer interesse como aco novelesca, apesar da nota de 
variedade introduzida mediante um episdio cavaleiresco. A parte versificada revela 
uma imitao, sem originalidade, de Cames. Os temas (amores e mudanas) s prendem a 
ateno pelas aluses que contm aos

poetas contemporneos, nomeadamente Cames (*prncipe dos poetas+), Jorge de Montemor 
e Diogo Bernardes, e sobretudo pela sua experincia de viagens e vida na ndia, China 
e Japo (em particular no Livro 111, a partir da Prosa IV).  ento que cessam os 
decalques de Sannazzaro e de Cames, e que os dons de observao do autor, 
exercitados na descrio minuciosa de tantas auroras, crepsculos, sestas, luares e 
por tanta nomeao de vegetais arcdicos, nos do impresses mais concretas da flora 
indiana, de costumes chineses, etc. 0 espectculo da chatinagem e da corrupo de Goa 
imprime um tom muito desiludido a algumas prosas e poesias do Livro Il (como a Prosa 
V e as poesias que se seguem  Prosa VIII), e parece ter favorecido a inclinao do 
autor para certa religiosidade, tal como sucedera ao seu modelo, Cames.

No  hoje muito convidativa a leitura da Lusitnia Transformada; enfada o seu 
repertrio de lugares-comuns, quer na adjectivao (as fontes e guas

3. - POCA - RENASCIMENTO E MANEIRISMO                                       413

so sempre *claras+ ou @<cristalinas+, os arvoredos ou ervas so sempre *frescos+ ou 
*verdes+, a fortuna  sempre *cruel+ ou *avara+, etc.), quer na fraseologia 
retintamente camoniana, quer no pastoralismo convencional  Sannazzaro. 0 formalismo 
barroco est  vista em jogos conceptuais e verbais e outros exerccios de engenho, 
como rimas esdrxulas, poesias poliglticas, labirintos (estrofes dispostas em 
colunas e tais que tm significado qualquer que seja o sentido em que se leiam), etc. 
No entanto, sob o ponto de vista da correco sintctica e da limpidez de expresso, 
Ferno lvares, alis apologeta da lngua portuguesa, oferece pginas modelares.

Considerado no seu conjunto, o bucolismo em verso e prosa, a cujo desenvolvimento 
temos assistido desde as pastorelas de influncia provenal, exprime um amaneiramento 
crescente da aristocracia. Por uma curiosa inverso de smbolos, segundo a qual a 
vida simples se transforma em aparente padro do viver artificioso, a literatura 
corts mostrou-se sempre muito interessada em temas pastoris, que, desde as cortes 
helensticas e romanas, inevitavelmente convencionalizou. 0 estilo barroco das cortes 
absolutistas europeias levar ao apogeu o culto destas convenes buclicas, de que a 
Arcdia

de Sannazzaro e a Diana de Montemor foram os principais modelos. A transio da 
tragdia clssica para a pera basear-se- em enredos pastoris.

Na literatura portuguesa, as convenes buclicas assumem outro aspecto interessante. 
J vimos como em Usque o pastoralismo, inspirado, a um tempo, em Sannazzaro e na 
Bblia, se converte em alegoria da histria hebraica e

como certos passos da novela de Bernardim (quem sabe se originais ou se

interpolados) parecem ter um alcance anlogo. Ora  de notar que entre os

principais autores buclicos, com obras cheias de obscuras aluses sob disfarce 
pastoril, se destacam escritores de famlias mais ou menos perseguidas pela 
Inquisio, sob a acusao de judaizarem. Tal  o caso de Ferno lvares do Oriente, 
o de Gaspar Fructuoso, cujo segundo e mais novelesco livro das Saudades da Terra nos 
ocupar a propsito de uma epanfora de Francisco Manuel de Melo, e o de Rodrigues 
Lobo. Jorge de Montemor tambm passou por cristo-novo.

A influncia conjugada da novela buelica e da redondilha camoniana faz-se sentir na 
srie constituda pelas novelas Primavera (1601), Pastor Peregrino (1608) e 0 
Desenganado (1614) de Rodrigues Lobo. Embora o seu

enredo novelesco no prenda o leitor moderno, merc do emaranhamento

414 
de numerosos episdios secundrios e alheios s andanas do pastor Lereno entre o 
Lis, o Mondego e o Tejo, seguidas pelas do seu amigo Oriano, at ao casamento feliz 
do ltimo e ao desengano definitivo do protagonista, a

verdade  que estes livros tiveram um considervel xito no tempo; a Primavera 
conheceu seis edies pelo menos no sculo XVII. Toda a longa peregrinao do 
protagonista se consome em congraar casais desavindos por irreflexo ou quiproqu, 
em testemunhar costumes campestres idealizados, ou semear saudades bernardinianas por 
todas as paisagens, incluindo rotas martimas at misteriosas ilhas.

Se ainda ento existisse uma corte rgia em Lisboa e se dispensasse s letras o favor 
que lhes era dado no tempo de D. Manuel, Rodrigues Lobo reuniria todas as qualidades 
necessrias a um Malherbe portugus. Com o

seu estilo correntio, lgico, frio, a sua metrificao aperfeioada, o seu pendor 
para a doutrinao esttica, ele opera uma decantao no lirismo quinhentista e 
atinge nas letras aquele gosto acadmico de perfeio formal que Malherbe preludia em 
Frana e que l ficou como uma instituio.  um

escritor sensato, racionalista, cptico quanto possvel, que reduz o sobrenatural, 
to useiro nesta novelstica, a simples alegorias de contedo biogrfico e, 
possivelmente, alusivas a perseguies inquisitoriais (ver, por exemplo, o episdio 
da Cova do Segredo em 0 Desenganado, XI-XII 2. a Parte). Apesar da sua admirao por 
Ferno lvares do Oriente, a quem parece aplicar-se o comentrio de que *venceu no 
conto a todos os da sua idade+ (Primavera, Jornada IV), Rodrigues Lobo sabe eximir-se 
 sua hipertrofia de descries, s suas imitaes servis,  sua adjectivao 
cansada. Conserva o tom sentencioso, mas prefere s curtas frases proverbiais as 
explanaes ou discusses doutrinrias de certo flego, concatenadas com abstracta 
segurana, utilizando com preciso as gradaes de sinnimos e

antnimos, e construindo longas antteses.

Corno exemplo, veja-se este trecho de uma discusso conceptista acerca do cime (o 
Desenganado, Discurso IX, 1.a Parte): S me parece que dous gneros de cime se no 
compadecem: - o primeiro, mostrar-se um cioso do que ainda no alcanou; o outro, ter 
cime do bem que outro possui. Porque um  impedir o bem que pode alcanar com pr 
leis de antemo a quem ainda no est obrigado a sofr-las; o derradeiro  obrigar a 
novos preceitos a quem est sujeito ao

alheio, e, no que outrem goza com liberdade, querer um amante constituir novo 
senhorio. +

3. a pOCA - RENASCIMENTO E MANEIRISMO                                       415

Esta tendncia para o debate, que est na raiz da Corte na Aldeia, caracteriza desde 
sempre o romance buclico, posto que originariamente limitado  dialctica 
sentimental. Ferno lvares j insere diversas disputas, como

a que se refere aos primores da lngua portuguesa (Prosa VI, 2. Parte), mais tarde 
desenvolvida na Corte na Aldeia. Mas Rodrigues Lobo distingue-se pelo prazer da 
anlise e do paradoxo conceituoso. So exemplo disto as prosas e poesias de apologia 
a uma mulher feia (in Primavera, Jornada XI, e

0 Desenganado, Discurso VII, 1. a Parte); e as cartas (por exemplo, as do Discurso 1, 
1. a Parte de 0 Desenganado).

Tal conceptismo, aliado a um excelente sentido do ritmo verbal, permite-lhe atingir 
nas *serranilhas+ e sobretudo nas *endechas+ (versos quinrios) a mais fina graa 
versificatria das redondilhas de herana camoniana.  o nico mulo de Cames neste 
gnero, assim como  o melhor precursor de Toms Gonzaga, Garrett (que o considera 
*eminentemente romntico+) e de Joo de Deus na estrofe lrica de metro variado, em 
que se combinam decasslabos, redondilha maior ou menor, e quebrados de herico.

Tal como acontece nas novelas, so as poesias curtas, as cantigas obrigadas a mote 
ainda  maneira do Cancioneiro Geral, que, de um modo geral, do interesse potico s 
dez clogas de Rodrigues Lobo, especialmente  cloga dos Vaqueiros, aquela que ( 
imitao da Ins de Bernardes)  mais *realista+ e que contm, afora as clebres 
glosas de Descala vai para a fonte, rivais das de Cames, a Cantiga s Serranas, em 
rima toante, e a de Violante, verdadeiras obras-primas no gnero. As clogas so 
precedidas de um Discurso sobre a vida e o estilo dos pastores, que as justifica pelo 
mito regressivo da Idade do Ouro, a Idade da simplicidade idlica, extinta por causa 
da cobia humana e de que s restariam vestgios na vida de pastor. Como  de esperar 
no gnero, e tal como nas novelas pastoris, encontram-se nelas evidentes aluses 
biogrficas e mais que provveis referncias  Inquisio. Alternam uma tendncia 
para a disputa abstracta sobre temas morais, e outra tendncia ainda mais forte para 
o desabafo aziumado contra o *desprezo das belas artes+, o *dio+, a *inveja 
literria+, a *cobia+ e certas *murmuraes+.  visvel que Rodrigues Lobo se 
refugiou na sua Leiria natal depois de cruis desenganos em Lisboa e que criou firmes 
amizades em Coimbra; que os seus xitos literrios lhe causaram invejas e 
perseguies anlogas quelas que a cobia moveu contra outros da sua casta. Da

416                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

constncia do amor masculino e sobretudo feminino pouco fiava este clrigo, que teve 
aventuras com cmicas espanholas e to experiente e desenvolto se mostra a tal 
respeito em duas clogas cpticas e fluentes (a 7. > e a 8.). Mas o tom mais srio e 
a sinceridade mais funda so atingidos na

cloga Quinta, onde a aluso transparente  perda da independncia do Reino se 
interliga com outra, menos clara, s perseguies pelo Santo Ofcio, sobretudo na 
elegia final: o tema do incndio de Tria (explicitamente usado a

propsito da perda da independncia poltica portuguesa num passo da Corte na Aldeia, 
Dilogo XII) enlaa-se a com o da propagao do *fogo to cruel+, do *spero 
costume+ resultante da *inveja e do engano+.

A cloga Sexta,  morte de pessoas amigas em Lisboa, deve tambm conter aluses 
semelhantes, por entre notas frequentes de fatalismo, como esta:

Buscamos mil rodeios, mil cautelas, encontramos em todas sempre a morte, que a vida 
est nos fados, nas estrelas.

0 tema da cobia, to obsessivo em Rodrigues Lobo, parece muitas vezes, nas clogas, 
como noutras obras, conexionar a causa da perdio nacional, a miragem das riquezas 
dos Descobrimentos, com a causa da perseguio de que ele e os seus so vtimas. 
Deste modo, o seu pastoralismo, o seu mito da Idade de Ouro, adquirem um bem concreto 
sentido, sobrepostamente nacional, cristo-novo e pessoal.

A exausto desse hbrido to apreciado que foi a novela pastoril entremeada de prosa 
e verso pode, entre ns, assinalar~se na poca filipina com os seguintes espcimes: 
Ribeiras do Mondego, 1623, do j nosso conhecido Eli de S Sotto Maior, cujo 
protagonista, o pastor Ondlio, se expande em

largos desabafos sentimentais e assiste a truculentos assassnios que j pouco tm 
que ver com a paisagem e os costumes idlicos da conveno arcdica, embora os 
procure retratar com ninfas, um templo de Diria e tudo; Campos Elisios, 1626, do 
padre Joo Nunes Freire, com muitas franjas de gongorismo estilstico e de prendas 
eruditas, inclusivamente textos em italiano e latim; e Desmaios de Maio em Sombras do 
Mondego, 1635, de Diogo Ferreira de Figueiroa (ri. 1604), nome que d s por si o 
diapaso de um livro onde o Mondego se glorifica, no seu curso da nascente at  foz, 
sob a forma de um enredo alegrico-sentimental.

          417

BIBLIOGRAFIA

A. FRANCISCO DE MORAIS E FERREIRA DE VASCONCELOS

1. Textos

Morais, Francisco de: Palmeirim de Inglaterra: A 1. > ed. saiu em castelhano, Toledo,
1547. A mais antiga ed. portuguesa conhecida  de vora, em 1564-67, em cuja portada 
se l: Cronica do famoso e muito esforado cavalleiro Palmeirim Dinglaterra, filho 
del Rey d Duardos [  ... ] Vay corregida e emendada nesta terceira impressam. Foi 
reimp. em 1592, 1786, 1852, sempre em Lisboa; e em 1946 no Brasil. Eugenio Asensio 
revelou a existncia de um exemplar da ed. eborense que, ao contrrio dos dois nicos 
at ento conhecidos, conserva a folha do rosto, com texto no integralmente 
reproduzido em 1592, excluindo a meno de Francisco de Morais como autor, mas 
provando a existncia de duas ed. em portugus anteriores  de vora.

Vasconcelos, Jorge Ferreira de: Memorial das Proezas da Segunda Tvola Redonda, 
vora, 1567, Lisboa, 1867.

Crnica do Imperador Maximiliano, cd. 490 col. Pombalina da Biblioteca Nacional, 
pref. Joo Palma-Ferreira, transcrio de L. Carvalho Dias, reviso ortogrfica de F. 
F. Portugal, co-edio IN-CM/Biblitoteca Nacional, 1983. (Enumera, com os respectivos 
captulos, trs grupos de manuscritos da Biblioteca Nacional com textos 
novelsticos.)

Comdia Eufrosina, 1. ed., Coimbra, 1555; 2. Coimbra, 1560; 3. vora, 1561;
4. > vora, 1566. Proibida no ndex de 1581, a obra voltou a circular depois de 
revista em conformidade com as instrues da Censura, Lisboa, 1616. Esta ed. foi 
reimp. por Sousa Farinha, em Lisboa, 1786. H diferenas importantes entre a 1 . > e 
a 3. > ed. A
1. > foi reimpressa, com variantes da 2. > e 3. >, por Eugenio Asensio, Madrid, 1951 
(ver adiante referncia a uma projectada nova ed. crtica pelo mesmo investigador); a 
2. > por Aubrey Beli, Lisboa, 1919. Barbosa Machado apenas regista a ed. de 1616,

Comdia Ulysippo. nica ed., Lisboa, 1618. 0 editor diz ser uma ed. *comentada e 
inteira+, tendo unicamente a *beata+ Constana de Dornelas passado a ser *viva+. A 
1 . > ed. perdida  anterior a 1561, visto que no roi dos livros proibidos desse ano 
j figura LIlysippo.

Comdia Aulegrafia, 1. > ed., Lisboa, 1619; 2. > ed., com glossrio e notas por 
Antnio A. Machado, Porto Editora, 1969.

2. Antologias


H antologias do Palmeirim de Inglaterra nas col. *Textos Literrios+, *Clssicos 
Portugueses+ e *Avelar+.

Novelistas e Contistas Portugueses do sculo XVI, pref., se.lec. e notas de Joo 
Palma-Ferreira, Biblioteca Nacional/Casa da Moeda, 1982.

Afonso Lopes Vieira fez uma adaptao em portugus, e a seu gosto, da Diana de 
Montemor, 1924.

HLP - 27

418                                        HISTORIA DA LITERA TURA PORTUGUESA

3. Estudos

Sobre o romance de cavalaria:

Pelayo, Mennciez y: Orgenes de Ia Novela, 3 vols., Santander, 1943. Thomas, Henry: 
Las novelas de caballaria espai5olas y portuguesas, Madrid, 1952. Moiss, Massaud: A 
Novela de Cavalaria no Quinhentismo Portugus, *Boletim da Faculdade de Filosofia, 
Cincias e Letras+, 218, So Paulo, 1957.

Glaser, Eciward: Nuevos datos sobre Ia crtica de los libros de caballerias en tos 
siglos XVI e XVII, in *Anuario de Estudios Medievales+, n. 3, 1966, includo em 
Portuguese Studies do autor, F. C. Gulbenkian, Centro Cultural Portugus, Paris, 
1976.

Eugenio Asensio ocupa-se do problema da primeira verso do Palmeirim em Estudios 
Portugueses, Paris, 1975.

Luciana Stegagno Picchio, num estudo de 1966 incluso em A Lio do Texto. Filologia e 
Literatura 1 - Idade Mdia, Edies 70, Lisboa, 1979, sob o ttulo de Proto-histria 
dos Palmeirins: A Corte de Constantinopla do Cligs ao Palmeirim de Oliva, pp. 167-
206, salienta a importncia que no cicio dos Palmeirins assume o tema da reconquista 
de Bizncio aos Turcos. Contm ainda uma resenha de impressos e manuscritos 
portugueses deste ciclo.

Goertz, Wolf: Strukturelle, uno thematische Untersuchungen zur Palmeirim de 
Inglaterra, Lisboa, 1968.

A colectnea *Garcia de Orta+, em n. > especial, Lisboa, 1972, contm dois 
importantes estudos sobre novelstica: um de Eugenio Asensio (incluso depois nos seus 
Estudios Portugueses, Paris, j mencionados), e outro de Cirurgio, Antnio: Ser 
Cames o personagem Urbano da *Lusitnia Transformada+?, pp. 165-181.

Finazzi-Agr, Ettore: A novelistica portuguesa dosculoXVI, *Biblioteca Breve+, ICLP, 
Lisboa, 1978. (Com bibliografia.)

Sobre Jorge Ferreira de Vasconcelos:

Sequeira, Matos: in Histria da Literatura Portuguesa Ilustrada, vol. li, pp. 172-
182. Saraiva, A. Jos: Histria da Cultura em Portugal, vol. li.

Sobre a Eufrosina:


Asensio, Eugenio: introd.  sua ed. da Eufrosina atrs indicada, e Para uma Nueva 
edicin crtica y comentada de Ia *Comdia Eufrosina+, in * Critique Textuelle 
Portugaise+, F. C. Gulbenkian, Centre Culturei Portugais, Paris, 1986, pp. 179-184. 
(Alude ao importante problerna da i ntertextual idade da obra: tradio da Celestina 
de Rojas e sobretudo da Segunda Celestina, 1534, de Feliciano da Silva, adagirios, 
repertrios de anedotas, de ditos jocosos, discusses galantes na moda, etc.).

Simes, Joo Gaspar: Histria do Romance Portugus, 1, 1969, pp. 163-172, reed. em 
1987 pela Dom Quixote sob o ttulo de Perspectiva Hist rica da Fico Portuguesa das 
Origens at ao Sculo XX (tem antologia).

Piper, Anson C.: The Lisbon of Jorge Ferreira de Vasconcelos, in *Luso-Brazilian 
Review+, 4, n. > 1, Junho de 1967.

3. J POCA - RENASCIMENTO E MANEIRISMO                                               
   419

B. FRANCISCO RODRIGUES LOBO E FERNO LVARES DO ORIENTE

1. Textos

Lobo, Rodrigues: Romanceiro, 1596, 1645; ciogas, 1605, Lisboa, 1924; Coimbra, 1928, 
e Lisboa, 1964 (conformes  ed. de 1605); Jornada dei-Rey 0. Filipe 111, 1623; Corte 
na Aldeia, 1619, 1630, 1670; ed. modernas de 1890 e da col. *Clssicos S da Costa+; 
Condestabre, 1609, 1610, 1627, 1785; ed. moderna tendo em conta um ms. indito, por 
Carios Alberto Ferreira, Lisboa, 1958; Primavera, 160 1, Pastor Peregrino,
1608, e 0 Desenganado, 1614, 1670. Estas trs novelas tm uma ed. moderna de
1888-89. Ed. em conjunto destas obras: Obras Polticas, Morais e Mtricas.... Lisboa,
1723, e Obras Polticas e Pastoris.... Lisboa, 1774 (4 vols.). Os estudos, adiante 
nomeados, de Ricardo Jorge e Carios Alberto Ferreira contm obras inditas ou verses 
inditas de obras de Rodrigues Lobo. As Cartas dos Grandes do Mundo foram editadas 
por Ricardo Jorge, Coimbra, 1934.

Oriente, Femo lvares do: Lusitna Transformada, 1. > ed. Lisboa, 1607, 2. > ed. 
Lisboa, Rgia Oficina Tip., 178 1; 3. >, com introd. e actualiza o do texto por 
Antnio Cirurgio, IN-CM, 1985.

Sotto Mayor, Eli (ou Elio) de S: Ribeiras do Mondego, ed. Craesbeeck, Lisboa, 
1623. Ree"v. e pref. por Martinho da Fonseca, Imprensa da Universidade, Coimbra, 
1932.

2. Antologias

De Rodrigues Lobo: Poesias, sei. e notas de Afonso Lopes Vieira, na col. *Clssicos 
S da Costa+, vol. quase exclusivamente constitudo pelas poesias que esto includas 
nas novelas pastoris; Pastorais e cIogas, seL de Mrio Gonalves Viana, col. 
*Autores Clssicos+, Porto, 1942; Poesias e Prosas seleccionadas pelo mesmo, Porto, 
1943; Poesias de F. Rodrigues Lobo, pref. e notas de J. de Almeida Lucas, Liv. 
Franco, Lisboa, 1956; Poesia, selec., com importante apres. e notas por Lus Miguei 
Nava, *Textos Literrios+, Comunicao, 1985; a cioga Sobre o dio e a  cloga 
contra o Desprezo das Belas-Artes foram editadas  parte em Lisboa, respectivamente 
em 1889 e 1890.

3. Estudos

Gerhardt, Mia I.: La Pastorale. Essai d'analyse littraire, Assen, 1950. Estrada, 
Francisco Lpez: Los Libros de Pastores, Gredos, Madrid. Cirurgio, Antnio A.: 0 
Papel da Palavra na *Diana+ de Jorge de Montemor, in *Ociciente+, n. > 360, Abril de 
1968.


Jorge, Ricardo: Francisco Rodrigues Lobo. Estudo Biogrfico e Crtico, 1920Ferreira, 
Carios Alberto: Francisco Rodrigues Lobo, Fontes inditas para o estudo da sua vida e 
obra, in *Bibios+, vol. 19, 1934Pontes, Maria de Lourdes Belchior: Itinerrio Potico 
de Rodrigues Lobo, Lisboa, 1959, reed. IN-CM, 1985. (Estudo fundamental, sob o 
aspecto literrio.)

Schneer, Walter J.: Two Courtiers: Castiglione and Rodrigues Lobo, in Comparatve 
Literature, Univ. do Oregon, vol. 13, n. > 2, 1961, pp. 138-153.

420                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Carvalho, J. G. Herculano de: Um Tipo literrio humano do Barroco: o *corteso 
discreto+, in *Boletim+ da Biblioteca da Univ. de Coimbra, vol. 26, 1963.

Rocha, Andre Crabb: As Cartas de F. Rodrigues Lobo, in *Colquio+, 20, Junho 1964, 
e A Epistolografia em Portugal, 1965, reed. IN-CM, 1984.

Preto-Rodas: Richard A.: F. Rodrigues Lobo - Dialogue and Courtly Love in Renaissance 
Portugal, Univ. of North Carolina Press, 1971.

Pouso-Smith, Selma: The judaism of F. Rodrigues Lobo, *The Modern Language Review+, 
78, parte 2, Abril 1983, pp. 328-339 (com relevantes contributos biogrficos e 
confirmando o judasmo de F. Rodrigues Lobo).

Cirurgio, Antnio: Ferno lvares do Oriente e a sua *Lusitnia Transformada+, in 
*Dirio de Notcias+, 1970-07-16 e 1970-07-23; Ferno  lvares do Oriente. 0 Homem e 
a Obra, Centro Cultural Portugus, F. C. Guibenkian, Paris, 1976.

Carvalho, Jos Adriano de: A Leitura de 11 Galateo de Govanni della Casa na 
Pennsula Ibrica. Damsio de Fris, L. Gracin Dantisco e Rodrigues Lobo, in 
*Ocidente+, vol.
79, 390, Out. 1970; Francisco Rodrigues Lobo e Tornaso Garzoni, in *Arquivos do 
Centro Cultural Portugus+, 10, Paris, 1976; Contribuio para o Estudo das Fontes da 
*Corte na Aldeia+ de F. Rodrigues Lobo, dissertao complementar de doutoramento, 
Porto, 1978, que refunde os trabalhos anteriores e servir de base a um seu estudo 
completo sobre as fontes e a recepo literria da obra no sc. XVII,

Chevalier, Maxime: *La Diana+ de Montemor y su pblico en Ia Espafia del siglo XVI, 
in Creacin y Pblico en Ia Literatura EspaiVa, org. por J.-F. Brotei e S. Salan, 
Castalia, Madrd, 1974.

Finnaz-Agr, Ettore: A novelistica portuguesa do sc. XVI, *Biblioteca Breve+, 
ICALP, Lisboa, 1978.

Estudos de carcter geral:

Thomas, Henry: Spanish and portuguese romances of chivalry, Cambridge University 
Press, 1920, trad. esp., Madrid, 1952.

Pelayo, Menndez y: Origenes de Ia Novela, ed. Conseio Superior de Investigaciones 
Cientficas, Madrid, 1943, vols. 11 (para a novela sentimental e a novela pastoril) e
111 (a Eufrosina, encarada dentro da escola da Celestina).

Reynier: Le Roman Sentimental avant l'Astre, Paris.

Rennert, Hugo: The Spanish Pastoral Romances, 2 vols., Londres, 1892.

Simes, Joo Gaspar: Histria do Romance Portugus, 1. > vol., Estdios Cor, Lisboa. 
(Alm dos estudos genricos, sumaria o entrecho de cada obra e contm textos 
antolgicos.)

Acerca da elaborao portuguesa de uma teoria do gosto barroco, ver Castro, Anbal 
Pinto de: Retrica e Teorizao Literria em Portugal do Humanismo ao Neoclassicismo, 
Centro de Estudos Romnicos, Coimbra, 1973, especialmente no que se refere

3.3 POCA - RENASCIMENTO E MANEIRISMO                                                
 421

a Rodrigues Lobo (pp. 73-78), ao Sermo da Sexagsima de Antnio Vieira e ao 
vieiriano *mtodo portugus+ de pregar (pp. 83-139),  *Nova Arte de Conceitos+ de 
Francisco Leito Ferreira, 1718 (pp. 143-227) e ao barroquismo setecentista (pp. 229-
339). Ver ainda estudos de Maria Lcia Lepeckie e Lucilia Gonalves Pires, em Para a 
Histria das Ideias Literrias em Portugal, Instituto Nacional de Investigao 
Cientfica, 1980.

Em Os Cavaleiros do Amor, Guimares Editores, 1960, com apresentao de Joel Serro, 
est postumamente reunida uma srie de artigos de Sampaio Bruno, que, entre outros 
autores, foca vrios buclicos portugueses dos perodos maneirista e barroco, 
atribuindo-lhes uma inteno esotrica cripto-judaizante e anti-inquisitorial, 
precursora das sociedades secretas iluministas e liberais.

Captulo XI

PROSA DOUTRINAL RELIGIOSA

Consideraremos  parte da prosa de fico um conjunto de obras que, embora contenham 
elementos ficcionistas, tais como a alegoria, o dilogo e a descrio de vises, se 
caracteriza todavia pelo predomnio dos motivos religiosos. No pode falar-se, na 
literatura portuguesa, de uma literatura

propriamente mstica, entendendo-se como tal aquela que exprime, por meios 
estilsticos tendentes  sugesto emocional, uma experincia imaginada ou

experimentada de contacto directo com a divindade. Nada na literatura portuguesa se 
pode comparar s Moradas de Sta. Teresa ou s obras de

S. Joo da Cruz. No parecem numerosas as obras que  usual classificar como 
ascticas, isto , as que se ocupam dos preceitos que levam  perfeio espiritual e 
preparam para o gozo da unio com Deus (gnero que tem a sua melhor expresso na 
Imitao de Cristo). Deve todavia ressalvar-se que os textos de devoo no tm sido 
sistematicamente explorados pelos historiadores da literatura. 0 grande xito que 
tiveram as obras de Frei Lus de Granada, autor de lngua castelhana, mas que viveu e 
editou em Portugal,  significativo da existncia de um pblico numeroso para este 
gnero de obras.

Entre as poucas obras de inspirao religiosa que seguidamente vamos

examinar, inclui-se uma de cunho liebraico e publicada em Itlia. Embora adoptando a 
fico pastoril, a sua inspirao  fundamentalmente bblica, e o seu tema nada tem 
com o bucolismo, excepto a descrio idealizada de um lugar ameno campestre.

424                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

SAMUEL USQUE

A Consolao s Tribulaes de Israel (Ferrara, 1553), do judeu portugus emigrado em 
Itlia Samuel Usque,  constituda por trs dilogos entre pastores (Icabo, Numeu e 
Zicareu - anagramas de nomes judaicos) e tem

como propsito rememorar as perseguies sofridas pelo povo bblico e

recordar-lhe as divinas promessas de resgate. Parece  primeira vista estarmos 
simplesmente em presena de um livro de forma buclica e de fundo religioso: tudo so 
reflexes e queixumes acerca das matanas, das escravizaes, vexames, padecimentos 
sofridos pelos Israelitas, em constante parfrase de textos bblicos e histricos, ou 
sobre recordaes familiares, mitigando-se o sofrimento com a consolao das 
profecias e dos mistrios cabalsticos (a transmigrao das almas, os poderes 
ocultos). No entanto, o pastoralismo de Usque vai talvez mais fundo do que o dos 
outros buclicos portugueses, dado que a Bblia, em que as suas alegorias se apoiam 
constantemente, elabora a histria e as crenas de um novo nmada, ao passo que o 
bucolismo de Tecrito e Virglio  muito mais evoludo em relao s razes do 
gnero. A imaginao literria, o estilo de Usque constituem talvez por isso um caso 
nico na nossa literatura quinhentista, se esquecermos um certo parentesco com a obra 
em prosa de Bernardim.

Depara-se-nos em Samuel Usque o estilo bblico, em que o liame lgico  
indirectamente dado por alegorias e metforas simples (ao nvel suposto de uma 
cultura de pastores), com repeties insistentes, com descries pitorescas de 
circunstncias que, logicamente, nada fazem ao caso, mas inculcam uma representao 
imaginosa das ideias. Este processo  sobretudo sensvel no 1. > dilogo, Dilogo 
pastoril sobre as cousas da Sagrada Escritura, o mais abundante em descritivo 
campestre, traando um quadro paradisaco anterior s atribulaes israelitas. Icabo 
(anagrama de Jacob), que no simbolismo bblico se confunde corporeamente com o 
prprio povo judaico (tambm representado, alis, pelas suas ovelhas), no entra na 
matria histrica dos seus lamentos sem primeiro nos dar todo o lento desenrolar de 
um dia de pascigo, parece que hora a hora, rs a rs, numa contemplao logicamente 
preguiosa que mal suporta substantivo sem adjectivao pitoresca, verbo sem 
adverbiao esmiuadora, em longos perodos enumerativos que, ainda assim, no 
dispensam um espraiamento parenttico de longe a longe.

3. a POCA - RENASCIMENTO E MANEIRISMO                                               
  425

Sannazzaro no deixou de concorrer para este pastoralismo, pois certas parfrases 
suas j foram reconhecidas pelos eruditos. Mas, mais do que a

cloga, domina a inspirao do autor o versculo imaginoso e ritmado dos cnticos das 
Escrituras, o que ainda mais se evidencia se desse trecho descritivo passarmos s 
lamentaes. A parece at que a exigncia de melopeia, o tom agridoce dos lamentos e 
interrogaes, o ritmo de balanceamento ou intensificao gradativa preexistem  
prpria significao das frases e a comandam:

* ... Quando cansaro meus males e fadigas, minhas enjrias e ofensas, minhas 
saudades e misrias, as feridas n'alma e minhas mgoas, as bem-aventuranas longas e 
to

cansadas? E quando ter paz tanta guerra contra o fraco sujeito, temor, suspeita, 
receios de minhas entranhas? T quando gemerei, suspirarei, matarei a sede coas 
lgrimas de meus olhos?+

HEITOR PINTO

 ainda sob uma reconhecvel influncia do Humanismo renascentista, como vamos ver, 
que Heitor Pinto redige a Imagem da Vida Crist, cuja publicao se conclui no 
prprio ano em que se imprimem Os Lusadas (1572).

Heitor Pinto  contemporneo de Antnio Ferreira, quer dizer, formou-se na poca em 
que estava no apogeu o Humanismo em Portugal, sob o impulso dos Bordaleses do Colgio 
das Artes. Nascido na Covilh em 1528, professou, ainda adolescente (1543), na Ordem 
dos Jernimos, e fez a primeira escolaridade na afamada escola humanstica do 
Convento da Costa de Guimares, que chegou a ter privilgios universitrios, at que 
por 1551 foi transferido para a Universidade de Coimbra. Deve ter sido notavelmente 
completa a sua educao humanstica, a ajuizarmos pelos autores que cita na sua obra:

no apenas os Antigos mais conhecidos (Aristteles, Plato, Ptolomeu, Homero, 
Digenes Larcio, Pitgoras, Anaxgoras, Eurpides, Zeno, Plutarco, Ccero, 
Xenofonte, Plotino, etc., ete.), mas ainda os de menor tomo e mais raramente 
conhecidos; numerosos autores medievais, como (alm dos Padres Santos e de S. Toms) 
Hugo de S. Vtor, Nicolau de Cusa, o pseudo-Areopagita; numerosssimos humanistas, 
como Petrarca, Lorenzo Valia, Pico della Mirandola, Luis Vives, Bessario, Eneias 
Silvio Piccolomini, Guilherme Bud, Marsilio Ficino, Castiglione, o prprio Toms 
Morus, embora deva ter-se em conta que muitas destas citaes se encontravam em 
compndios como o de Ravsio Textor. Em
1567, j conhecido como comentador das Escrituras, concorreu  regncia da cadeira 
respectiva em Salamanca, mas foi preterido, ao que parece, porque, no critrio dos 
examinadores, *era mais pregador que telogo+. J ento publicara (1566) o primeiro 
volume

426                                              HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

dos seus dilogos. Aps um doutoramento em Teologia na Universidade de Siguenza, 
ascende ao alto cargo de Provincial da sua ordem em Portugal, no mesmo ano em que sai 
o 2. > volume da Imagem. 0 livro teve um xito fulminante, dando lugar  concorrncia 
dos editores: em 32 anos publicaram-se 10 edies. Heitor Pinto, talvez no exerccio 
do seu cargo, pde por vezes viajar no estrangeiro. Assim, estanciou em Roma, onde se 
interessou pelas runas da cidade antiga, como bom erudito que era. Conta-se entre os 
raros eclesisticos portugueses que se opuseram ao domnio filipino em Portugal, o

que lhe valeu, em 1583, um desterro para Castela. A partir de ento perdem-se 
definitivamente as suas pegadas.

A imagem da Vida Crist, constituda por 11 dilogos,  ainda uma importante 
expresso do Humanismo portugus, marcando embora j, como a lrica de Cames e no 
mesmo grau que esta, a inflexo para o ascetismo e o barroco da poca seguinte. 0 
autor  um platonizante convicto, que cita, constantemente e com reiterados encmios, 
Plato e discpulos seus, como Plotino

e o pseudo-Areopagita. 0 panegrico de Plato acompanha-se mesmo de crticas a 
Aristteles. No dilogo 1, Da Verdadeira Filosofia, trata-se de inferiorizar o 
conhecimento sensvel colhido pelos *olhos corporais perante o

conhecimento+ que se obtm pelos *olhos do entendimento+. No dilogo Da Justia, 
captulo IV, desenvolve expressamente a teoria platnica das Ideias, que nos permite 
*pintar e descrever um princpio justssimo e perfeitssimo, no como retrato dos que 
a h-, mas corno ideia que em nossa alma conhecemos+. E, dentro da mesma concepo, 
afirma que *as cousas do mundo no so substncias estantes, mas figuras que passam+. 
A *verdadeira filosofia+  definida socraticamente como o conhecimento de si prprio, 
nica maneira de nos erguermos ao conhecimento de Deus. Este *conhecimento, de si+ 
faz-se, segundo a interpretao crist, no sentido de um refgio asctico, 
identificado com as esperanas sobrenaturais da religio. Pelo que fica dito, no 
admira encontrarmos neste concorrente preterido  Universidade de Salamanca um 
discreto mas inequvoco ataque  teologia escolstica: *Bem pode um homem saber muita 
teologia sem ter esta cincia [a verdadeira sabedoria unida com a caridade]; e ser-
lhe-ia melhor ser simples com virtudes que telogo com vcios+ (dilogo Da Discreta 
Ignorncia, captulo V). Isto no o impede, naturalmente, de nos seus dilogos dar em 
geral a ltima palavra a um interlocutor telogo, que nem por o ser deixa de acudir 
em defesa de Plato, contra um precipitado estudante de Teologia (dilogo Das Causas, 
captulo XX).

No iderio social de Heitor Pinto encontra-se tambm um eco, embora j muito 
amortecido, do Humanismo. Manifesta-se contra as distines hie-

3. a POCA - RENASCIMENTO E MANEIRISMO                                              
427

rrquicas - *bem pobre  de honra quem a anda mendigando de seus antepassados ... +-. 
Mas a ideia da igualdade da condio humana aparece numa

perspectiva asctica, como suceder em El gran Teatro dei mundo de Caldern:

*0 mundo  como uma farsa, onde entram diversas figuras, umas de prncipes, outras de 
mecnicos e lavradores, e acerta-se que os mecnicos entram por figuras de nobres, e 
os nobres por figuras de mecnicos. Dura isto enquanto dura o auto, e, acabado ele, 
fica cada um no que era+ (dilogo Dos Verdadeiros e Falsos Bens, capitulo IV).

Heitor Pinto exalta, no dilogo Da Justia, uma imagem idealizada do absolutismo, 
seguindo nisto uma corrente em que tambm se inserem Cames, Amador Arrais, toda a 
srie dos *Regimentos de Prncipes+ que na Pennsula se escreveram em latim, 
castelhano ou portugus, as cartas de Jernimo Osrio para D. Sebastio, e em geral 
as crnicas, epopeias, novelas cavaleirescas, e muitas dedicatrias, incluindo as dos 
Humanistas.

0 platonismo de Heitor Pinto no  incompatvel com a tradio teolgica, mas aparece 
tambm associado a certa sabedoria estica, de impassibilidade perante os instveis 
bens mundanos, o sofrimento fsico e a morte, e de contemplao espiritual de um 
mundo que se encontraria no fundo da conscincia individual. Mais de um captulo da 
Imagem faz pensar no ensaio de Montaigne *Que philosopher c'est apprendre  mourir+. 
As coincidncias so frequentes mas breves, porque a *vida espiritual+  para Heitor 
Pinto uma introduo  vida eterna.

Pela concepo literria, a obra lembra, mais do que os Dilogos de Plato (no h na 
Imagem o verdadeiro dilogo socrtico, mas simples discursos, s vezes entrecortados 
de silogismos), o Corteso de Castiglione; e por esse facto convir aproxim-la da 
Corte na Aldeia de Rodrigues Lobo. Cada dilogo enquadra-se entre uma abertura e um 
remate, por vezes saudosista, com ar buclico.  sensvel a influncia da Menina e 
Moa de Bernardim Ribeiro, que alis no aparece citado, em certas frases, por vezes 
decalcadas palavra a palavra, como esta: *quo azinha se mudou aquilo que em longo 
tempo se buscou e para longo tempo se buscava+.

0 aspecto mais saliente da forma literria deste livro  a profuso, variedade e 
interesse das imagens, que por vezes surgem aos cachos para dar corpo

428                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

a um mesmo pensamento: assim, a atribulao onde se revela a fortaleza

de nimo compara-se, num breve trecho,  *noite em que resplandece o luar

da virtude+,  sacudidela que faz rescender um frasco de gua de flor,  percusso 
que faz soar um instrumento musical. Algumas destas imagens so de origem literria, 
colhidas na Bblia, na Patrstica, em Plato ou ainda em

outros autores clssicos; outras provm do ambiente fsico quotidiano; muitas da vida 
do mar, e numerosas da geometria, da geografia, da cosmografia. Algumas captam com 
viveza a ideia em vista.

Um exemplo:

*0 Sol, quando nasce e quando se pe, parece maior que ao meio-dia, sendo ele sempre 
de um tamanho; mas enganam-nos a vista os vapores que pela manh e  tarde

se nos pem ante os olhos, os quais vapores nos servem de culos, em que os raios 
visuais

batem corno em vidros transparentes e, estendendo-se por eles, fazem parecer ao Sol 
nior

do que parece ao meio-dia, e doutra cor [  ... 1. Estes vapores que sobem da terra 
so nossas afeies que saem de ns, que somos terra, e eles so os que, 
atravessando-se-nos diante dos olhos da alma, fazem parecer-nos as cousas vistas 
maiores e doutra cor+ (dilogo Da Justia, captulo III).

0 paralelismo entre a vida fsica e a vida moral  normalmente o eixo

destas comparaes, como se v aqui:

*Assim como as verdes canas vo crescendo, mas de quando em quando vo fazendo uns 
ns como descansos, em que parece que a natureza repousa, no para ficar ali, mas

para com maior fora tornar a subir, assim os homens disciplinados no trabalho vo s

vezes interpondo repouso a suas molstias como ns+ (dilogo Da Discreta Ignorncia, 
captulo I).


Mas acontece por vezes que o autor vai muito alm das analogias pitorescas, e procura 
termos de comparao para conferir rigor a relaes conceptualmente estabelecidas: 
assim, para definir a igualdade a que so obrigados os prncipes, relativa aos 
mritos e demritos de cada sbdito, o Telogo do dilogo Da Justia encontra esta 
expresso:

*0 Sol, quando bate na frontaria de um alto edifcio, entra por todas as janelas 
abertas daquela banda, enchendo-as de sua claridade, mas, como umas so grandes, 
outras pequenas, por urnas entra muito esplendor e por outras pouco. E dizemos que o 
Sol entra

igualmente por todas aquelas janelas, no porque tanto entra por uma como pela outra, 
mas porque entra igual e conforme ao tamanho e capacidade de cada uma+ (captulo 3).

3. - POCA - RENASCIMENTO E MANEIRISMO                                       429

Sem dvida que a tcnica medieval da pregao e da exegese bblica, que Vieira levar 
ao extremo, exerce influncia neste gosto de imagens to caracterstico da Imagem da 
Vida Crist. Mas outras fontes concorrem para o mesmo resultado, particularmente a 
leitura dos Dilogos de Plato, de que Heitor Pinto aproveitou e at justificou 
algumas imagens (como a que compara a Alma a uma recta e a uma circunferncia); e, 
alm disto, ainda, uma grande vocao metafrica a trabalhar espontaneamente sobre os 
dados correntes, como quando diz: * to pequeno o pavio de nossa vida e vai-se 
consumindo com tanta ligeireza a cera da idade...+. H sem dvida muito conceptismo 
nas inmeras comparaes de Heitor Pinto. Mas, de maneira geral, no encontramos nele 
o artifcio engenhoso que no sculo XVII caracteriza autores COMO o p.e Antnio 
Vieira e D. Francisco Manuel de Melo. 0 cultismo de Heitor Pinto, que no vai alm do 
de Cames e de Bernardim Ribeiro, serve em geral para sublinhar conceitos 
contraditrios, particularmente o

do fluir do tempo. *A vida que sempre morre, que se perde em que se perca?+. Por 
isso, literariamente, Heitor Pinto est neste ponto mais perto de ns do que Vieira: 
as suas imagens interessam-nos muito mais como smiles sugestivos e motivos de 
reflexo do que como exerccios de engenho; apoiam-se numa observao naturalista sem 
precedentes no seu gnero literrio.

A prpria cultura humanstica variada e profunda, derramada ao fio das consideraes 
por um processo de associao que lembra alguns dos ensaios de Montaigne, torna 
Heitor Pinto inconfundvel e d-lhe uma atitude mental bem diversa da que 
possibilitar a Vieira a sua erudio jesuta. E este caudal humanstico no era - em 
Heitor Pinto, como em Cames, como em

Antnio Ferreira, ou em qualquer grande humanista - exclusivamente literrio, de 
esprito mtico. Ressaltam na Imagem da Vida Crist as constantes referncias 
matemticas (entendendo-se por tal um conjunto de conhecimentos aplicados  
cosmografia). 0 interesse por esta cincia evidencia-se atravs de comparaes e de 
digresses, como aquela em que se faz a demonstrao da existncia, nos plos, de 
dias e noites de seis meses. Um protagonista *matemtico+ faz o elogio da sua 
cincia, onde ressalta esta afirmao curiosa: *Deus fez o mundo, e Ptolomeu o 
descreveu e matizou+. A cultura cientfica de Heitor Pinto (como, por exemplo, a de 
Antnio Ferreira)  de origem humanstica, com base em Ptolomeu, Aristarco, Plnio, 
etc., mas tambm lembra conhecimentos geogrficos impulsionados pela nutica 
portuguesa, incluindo o matematicismo platnico de Pedro Nunes.

430                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Heitor Pinto como humanista  o representante de uma elite clerical que no anda 
muito longe do ideal proposto por Erasmo. No pode considerar-se um mstico, nem 
mesmo, em todo o sentido, um asceta. Para ele a religio consiste na caridade, e o 
primeiro passo para o conhecimento de Deus est no conhecimento socrtico de ns 
prprios. 0 saber  por ele considerado imprescindvel a um verdadeiro cristo, 
embora um saber temperado de *discreta ignorncia+ (de que d como exemplo S. 
Francisco de Assis) relativamente a certos livros mundanos e a certas subtilezas dos 
disputadores telogos.

Mas j na sua prosa h uma superabundncia barroca de imagens e ressoam ecos 
saudosistas de Bernardim, que no falam j da saudade da carne, mas da de *aquela 
Santa Cidade+ a que tambm se refere Cames, convidando ao isolamento e ao 
desprendimento do mundo, notas ambas que vamos

encontrar acentuadas na poca seguinte.

AMADOR ARRAIS

No pode deixar de sentir uni grande desnivelamento quem passa da leitura da Imagem 
da Vida Crist aos Dilogos (1. a edio 1589) de Frei Amador Arrais, da Ordem dos 
Carmelitas Calados, falecido em 1600, aps ter desempenhado importantes cargos 
eclesisticos, entre eles o de bispo de Portalegre. Se aquela ainda conserva algo do 
impulso humanstico, estes cingem-se ao critrio da Contra-Reforma. Os Dilogos foram 
comeados, segundo declara Frei Amador, por seu irmo, o doutor Jernimo Arrais. No 
so propriamente arquitectados como debates entre teses opostas, ao modo da Imagem, 
mas por simples conversas  beira de um doente, que  sucessivamente visitado por dez 
amigos (um mdico, um pregador, um fidalgo, legistas, etc.), limitando-se por vezes 
os interlocutores a reforar entre si as opinies comuns. A erudio clssica 
constituda por exemplos, anedotas, ditos de filsofos,  nestes dilogos simples 
excrescncia, exterior ao pensamento do autor. 0 interesse da discusso rasteja, 
chegando a discutir-se se devem merecer preferncia os santos nacionais ou os santos 
estrangeiros. Amador Arrais no  j um humanista, mas um catequista com a memria 
recheada de preceitos da cadeira de Retrica. A sua prosa limita-se a ser correcta e

acessvel, evitando o conceptismo barroco, o prprio autor declara: *quis usar de 
estilo comum e vulgar, que serve para todo o gnero de gente.

3.'POCA - RENASCIMENTO E MANEIRISMO                                         431

e deixar muitas cousas que so das escolas e dos entendimentos nelas exercitados+. 
Sob este aspecto, preludia a melhor prosa dos autores religiosos seiscentistas que, 
apesar do arcasmo ou ingenuidade da sua ideologia relativamente  mais evoluda 
cultura europeia, apresentam um progresso literrio na medida em que, para se 
dirigirem a um pblico leitor mais largo, assimilam a disciplina gramatical e os 
recursos estilsticos clssicos ao uso das formas correntias do idioma. Mas est por 
averiguar a originalidade literria da obra: pginas inteiras e seguidas so, sem 
aviso ao leitor, transcritas psis verbis dos Panegricos de Joo de Barros.

0 que pode interessar neste livro  o testemunho de certa problemtica tpica da 
poca. 0 Dilogo terceiro  uma extensa diatribe contra os Judeus, em que se lhes 
censura a consabida nsia de lucro usurrio. Pelo contrrio, o Dilogo quarto faz a 
glorificao dos rasgos cavaleirescos e cristos da histria portuguesa, na qual o 
autor tanto admira a dilatao da f de Cristo pela pregao como pela espada. A 
cobia e usura, sobretudo da gente judaica, seriam os responsveis pela decadncia 
portuguesa, at mesmo (o que raia o absurdo) pelo desastre de Alccer Quibir. Por 
outro lado, Arrais defende a subordinao do poder poltico aos preceitos da 
religio, dentro de uma

tendncia teocrtica. Nestes moldes de ntido recorte sociopoltico se articula o 
regimento do bom Prncipe com que termina a primeira parte da obra, a mais concreta e 
significativa.

Os dilogos que consideraremos como formando uma segunda parte da obra constituem um 
tratado moral, onde se do, por exemplo, regras precisas sobre o testamento, a 
maneira de suportar a agonia, etc.

FREI TOM DE JESUS

Ficou atrs notado como o fervor mstico encontrou muito poucas manifestaes 
originais na literatura portuguesa, se descontarmos o Boosco Deleitoso. Isto apesar 
de se ter criado entre ns o culto das atitudes sentimentais: a saudade (cujo 
portuguesismo j D. Duarte sublinhava), o finar-se de amores, usados quase corno 
emblemas nacionais por diversos escritores dos sculos XV, XVI e XVII.

Em rigor, no h nenhum escritor mstico portugus no sculo XVI, se aceitarmos a 
definio atrs dada. Mas, se definirmos o misticismo literrio, sem ter em conta a 
experincia mstica, como uma efuso emocional,

432                                              HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

poderemos incluir dentro daquela designao os Trabalhos de Jesus de Frei Tom de 
Jesus, obra publicada postumamente (1. parte 1602, 2.1 1609).

Irmo do cronista e poeta Francisco de Andrade, a que j temos feito referncia, e do 
telogo Diogo de Paiva de Andrade, e, por parte daquele, tio do escritor tambm 
chamado Diogo de Paiva de Andrade, Frei Torn de Jesus professou, em 1547, na 
Congregao dos Eremitas de Santo Agostinho, acompanhou D. Sebastio a frica, foi 
capturado e morreu na priso (1582), depois de escrever os Trabalhos de Jesus, quando 
aguar~ dava o resgate. Antes compusera uma biografia do padre Lus de Montia, 
conclura uma

Vida de Jesus iniciada por este seu biografado e ainda redigira um manual para o 
noviciado na sua ordem.

Os Trabalhos de Jesus destinam-se a consolar o autor, os seus companheiros de 
infortnio e, em geral, toda a *Nao, Portuguesa, no tempo daqueles grandes 
trabalhos da jornada de frica+, como diz o endereo da carta prefacial. Escritos s 
escondidas, sem livros de consulta, embora acusem leituras anteriores da escola de 
msticos flamengos e alemes dos sculos XIV e XV, os Trabalhos de Jesus so 
constitudos pela reconstituio imaginria de cinquenta dos padecimentos (ou 
trabalhos) de Cristo, e ainda de

outros passos da sua vida, seguidos de exerccios ou preces de resignao e 
humilhao. 0 contraste medieval, e maneirista, entre a sublimidade dos padecimentos 
voluntariamente aceites pelo Deus-Homem e o negrume do pecado humano, ou entre as 
promessas de infinita Glria post-mortem e as

misrias e provaes da existncia carnal, forma a medula deste livro, que, ao 
contrrio das obras dos Carmelitas Descalos espanhis e de tantos outros msticos, 
se no salienta pelo pitoresco nem pela energia da imagem, mas

apenas pelo quente arroubo com que procura erguer toda a amargura dos companheiros de 
crcere e de uma nao inteira  comunho das dores daquele que serviu de Mediador 
entre a natureza humana e a natureza divina. Os perodos de Frei Tom de Jesus 
parecem muitas vezes querer prolongar-se at aos limites do flego, numa enumerao 
(dir-se-ia sado-masoquista) dos sofrimentos de pormenor que os Evangelhos no 
registam, mas que Cristo teria provavelmente padecido. Este tipo de evocao realista 
e torturada dos sofrimentos carnais da Via Sacra tinha j ento uma longa tradio.

Deste modo, Frei Tom de Jesus, estimulado pelas circunstncias histricas nacionais, 
elaborou em especial uma mstica da dor, centrada na Paixo de Cristo. Os muito 
amados de Deus so os que muito sofrem e muito

3. @ POCA - RENASCIMENTO E MANEIRISMO                                     433

se humilham, vtimas de *um amor, o qual, se muito d, tambm muito crucifica+.  
ainda esta mstica, embora desvestida do seu invlucro teolgico, que preside, uns 
sculos mais tarde, a Os Pobres de Raul Brando: a conscincia de uma comunho 
colectiva de dores, sem horizontes, emparedada por determinadas circunstncias, s 
consegue superar-se, divinizando-se.

Mentor, dentro da sua Ordem, de uma campanha de afervoramento piedoso que, no 
conjunto, se pode considerar falhada, Frei Tom de Jesus , em Portugal do seu tempo, 
um caso pouco tpico. A orientao tridentina, de que os Jesutas e o Santo Ofcio se 
fizeram campees, olhava com desconfiana uma tal interiorizao religiosa de 
tradio agostiniana, e o ndex chegou a abranger alguns dos seus mestres flamengos, 
alemes e franciscanos italianos. S em pequenos crculos, e sobretudo entre 
mulheres, se registaram ento entre ns alguns sinais, logo inquisitorialmente 
reprimidos, de um misticismo ardente e at visionrio comparvel ao dos Alumbrados 
espanhis seus contemporneos. H que ter em conta, no entanto, a enorme difuso, j 
referida, das obras de Frei Lus de Granada, editadas em Lisboa.

BIBLIOGRAFIA

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uma contrafaco realizada muito posteriormente. Ed. moderna com pref. e notas de 
Mendes dos Remdios, Coimbra, 1906,

Pinto, Frei Heitor: Imagem do Vida Crist, 1. > parte, 1563, 1565, 1567, 1580, 1591,
1592; 2. a parte 1572, 1575, 1680, 1585, 1591, 1592, 1593. Ed. modernas: Tip. 
Rollandiana, 3 vols., 1843, e na col. *Clssicos S da Costa+, 4 vols., 1952-58. 
Reed. f ac-similada da ed. rollandiana, Lello e Irmo, Porto, 1984, com introd. de J. 
V. de Pina Mar~ tins. H uma ed. crtica recente da trad. cast., Imagen de ta vida 
cristiana, introd. e notas de Edward Glaser, Barcelona, 1967. Quint, Anne-Marie: A 
propos de Ia traduction francaise de 1'*Imagem da Vida Crist+, in *Bulletin des 
tudes Portugaises et Brsliennes+, t. 35-36, 1974-75, pp. 65-92, d conta de 10 ed. 
da 1. > parte entre 1563 e 1592, e

6 da 2. > parte entre 1572 e 1595, alm de 5 tradues espanholas de 1571 a 1573, de 
duas tradues francesas, uma de 1580 (1 . > parte), outra de 1584 (2 partes), e de 
uma em latinn, 1589-90, feita sobre a traduo francesa.

Arrais, Amador: Dilogos, 1. > ed., 1589; 2. > refundida, 1604; 3. >, 1846; 4. >, 
Lello, Porto, 1974, com pref. de M. Lopes de Almeida.

Jesus, Frei Torn de: Trabalhos de Jesus, duas partes, 1602-1609, 1662, 1773,
1781, 1865, 6. > ed., 2 vols., Porto, 195 1.

HLP - 28

434                                                  HISTORIA DA LITERATURA 
PORTUGUESA

2. Antologias

De Amador Arrais, Dilogos, sei., pref. e notas de Fidelino de Figueiredo, na col. 
*Clssicos Antigos e Modernos+, Porto, 1944.

De Heitor Pinto, Amador Arrais, Torn de Jesus e Samuei Usque, h duas antologias: 
Prosadores Religiosos do Sculo XVI, sei., pref. e notas de Alcides Soares e Fernando 
Campos, Coimbra, 19 50; Quatro Prosadores Ascetas do Sculo XVI, textos escolhidos 
por Maria do Cu Novais Faria, Porto, 1950.

3. Estudos

Fidelino de Figueiredo, sobre Arrais, no pref. ao vol. citado da coi. *Clssicos S 
da Costa+.

Alcides Soares e Fernando de Campos, sobre Heitor Pinto, Amador Arrais e Tom de 
Jesus, no pref, ao vol. citado Prosadores Religiosos do Sculo XVI.

Jong, Marcus de: Samuel Usque, Ntulas bibliogrficas, in *Ocidente+, 7 1, n. > 34 1, 
Set. 1966.

Manuel Alves Correia, sobre Heitor Pinto, no pref.  ed. da Imagem na col. *Clssicos 
S da Costa+.

Carvalho, Joaquim de: Frei Heitor Pinto e Frei Lus de Len, in Estudos sobre a 
cultura portuguesa do sculo XVI, vol. li, Coimbra, 1948; e colaborao na Histria 
da Literatura Portuguesa Ilustrada, vol. lii, pp. 86 e seguintes.

Loureiro, Mrio J. Pereira: Antecedentes Barrocos na *Imagem da Vida Crst+ de Frei 
Heitor Pinto, in *Actas do V Colquio Internacional de Estudos Luso- Brasileiros +, 
IV, Coimbra, 1966; e A *Imagem da Vida Crist+ de Frei Heitor Pinto no seu aspecto 
estilstico e literrio, in *Revista de Histria Literria de Portugal+, li, 1964, 
pp. 199-230.

Antnio Jos Saraiva, sobre Heitor Pinto: Histria da Cultura em Portugal, vol. 3.
1955.

Martins, Mrio: 0 pseudo-Taulero e Frei Torn de Jesus, in *Brotria+, vol. 41, 1,
1946; A Filiao Espiritual de Tome de Jesus, in *Brotria+, vol, 42, 6, 1946; Samuel 
Usque, in *Brotria+, vol. 25, 1, 1937; 0 Ritmo em A Filosofia Isotrca no *Speculum 
Haebraeorum+ e em Samuel Usque, in * Revista Portuguesa de Filosofia+, vol. 2, 4, 
1946.


Rossi, Giuseppe Cario: 11 Petrarca e l'umanesimo italiano nell'opera di Frei Heitor 
Pinto, in *Annali deii'istituto Universitario Orientale+, vol. 1, Roma, 1959.

Giaser, Edward: Frei Heitor Pinto's Imagem da Vida Crist, in Aufstze zur 
Portugiesischen Kulturgeschchte, 3. 0 vol., Munique, 1962~63, includo em Giaser, 
E.: Portuguese Studies, Centro Cultural Portugus, Paris, 1976.

Carvalho, Lus Fernando de: Frei Heitor Pinto, novas achegas para a sua biografia, 
Coimbra, 1953.

Ricard, Joseph: La Connaissance de soi-mme chez Frei Heitor Pinto, in *Arquivos do 
Centro Cultural Portugus+, vol. 5, Paris, 1972.

3. 1 POCA - RENASCIMENTO E MANEIRISMO                                               
    435

Osrio, Jorge Alves: Frei Heitor Pinto leitor da *Menina e Moa+. Reflexes sobre o 
horizonte cultural portugus da segunda metade do sc. XVI, in *Bibios+, 53, 1977, 
pp. 459-500. (Adaptao *ao divino+ de certo pitoresco pastoril e do confessionalismo 
saudoso de Bernardim, com detectao de outros motivos intertextuais da poca, e 
nomeadamente do tema da *terra alheia+, comum a Bernardim, Heitor Pinto e ao to 
glosado salmo 136 *Super flumina ... +.)

Obras de conjunto:

Thomas, Lothar: Contribuio para a histria da filosofia portuguesa, trad. 
portuguesa, Lisboa, 1944, especialmente no cap. IV.

Dias, Jos Sebastio da Silva: Correntes do Sentimento Religioso em Portugal nos 
scs. XVI a XVIII, tomo 1, Coimbra, 1960 (resumo e recenso por Domingos Maurcio, in 
*Brotria+, vol. 74, n. > 3, 1962), e 0 Erasmsmo e a Inquisio em Portugal - 0 
Processo de Frei Valentim da Luz, Coimbra, 1975.

H uma Bibliografia Cronolgica da Literatura da Espiritualidade em Portugal.
1501-1700, Instituto de Cultura Portuguesa, Fac. de Letras do Porto, 1988, dir. por 
J. Adriano de Carvalho.

Captulo XII

A EVOLUO DA HISTORIOGRAFIA: Persistncia da tradio quinhentista

Como vimos ao tratar a historiografia da primeira fase do sculo XVI, alguns 
historiadores so dominados por um sentimento muito vivo da veracidade histrica, 
enquanto outros propendem a considerar a histria como

ramo da retrica, segundo uma doutrina que vem de Ccero e Tito Lvio.

Castanheda e Gis representam a primeira tendncia,, Joo de Barros pe a retrica ao 
servio de uma perspectiva simultaneamente humanstica e nobilitante da histria 
nacional, deixando na sombra os factos que desdouram a majestade do conjunto.

A orientao representada por Castanheda prevalece em Diogo do Couto (1542-1616), que 
passou a maior parte da sua vida na ndia, onde foi guarda-mor do Arquivo Real de 
Goa. Props-se continuar as Dcadas de Joo de

Barros, mas a atribulada histria dos seus livros mostra bem como a preocupao da 
veracidade incomodava certas famlias, cujos antepassados tinham sido protagonistas 
da histria portuguesa no Oriente. Escreveu, alm de uma Vida de D. Paulo de Lima 
Pereira, editada postumamente na Histria Trgico-Martima, as dcadas 4. a 12.. 
Mas a 6.1 ardeu na casa do impressor; a 8. a e a 9. a foram-lhe roubadas; a 11. a 
perdeu-se. Desta forma, apenas conseguiu publicar a 4. a, a 5. >, a 7. a @ e um 
resumo da 8. a e 9. a. Saiu postumamente a 12. 1. As Dcadas de Couto so documentos 
preciosos pela sua

objectividade corajosa. Embora o seu estilo se aproxime dos seiscentistas por certa 
geometria da frase e da construo, fica muito longe do amaneira-

438                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

mento e da expresso eufemstica que os caracteriza. 0 esprito que anima a obra 
histrica de Couto est bem patente num escrito polmico, o Soldado

Prtico, onde se critica com vigor a administrao do Oriente, descrita como uma 
rapina organizada em benefcio de clientelas cujo vrtice era o prprio vice-rei. 0 
*soldado prtico+ (isto , *experiente+)  o portugus de pequena categoria e de 
demorada permanncia no Oriente, que se considera vtima

dos capites e administradores de alta hierarquia, dominados pelo esprito de 
*chatinagem+ e empenhados em enriquecer em pouco tempo nos cargos que ocupam. 0 ponto 
de vista de Diogo do Couto no deixa de lembrar o

de Gaspar Correia, e o Soldado Prtico pode considerar-se o libelo acusatrio cujas 
peas documentais se encontram nas Lendas da ndia.

No entanto o *soldado prtico+ acaba por exaltar o domnio indiano como

Terra da Promisso divina para os portugueses, superior a uma Lisboa assolada

por pestes e terramotos e a cuja promoo tudo se deveria preterir noutras regies. 
Certo tratamento hidico dos escndalos e certo reformismo ainda optimista lembram por 
vezes a futura e barroca Arte de Furtar.

Couto realizou as suas Dcadas por encargo oficial, o qual passou por sua morte a 
Antnio Bocarro, tambm guarda-mor do Arquivo de Goa, que escreveu as Dcadas XIII e 
XIV da sia (a XIII s veio a ser editada em 1876). Semelhantemente, os reis 
filipinos mantiveram o cargo de cronista-mor do reino de Portugal, ligado ao de 
guarda-mor da Torre do Tombo. No final do sculo desempenhava-o Francisco de Andrada 
(c. 1540-1614)

e nessa qualidade escreveu a Crnica de D. Joo 111 (1. edio 1613).  uma obra 
volumosa, bem ordenada e documentada, mas que descuida aspectos fundamentais da 
poltica metropolitana, como o do papel do monarca nos problemas poltico-religiosos, 
desenvolvendo, em compensao, as efemrides militares do Oriente. Nesta parte 
utilizou, sem o nomear e indicando-o apenas como dum *homem honrado+ que passou na 
ndia larga cpia de anos, o manuscrito das Lendas da ndia de Gaspar Correia.  
visvel o eufemismo

com que se versam assuntos to melindrosos como o pouco rendimento dos estudos 
infantis do monarca e as suas relaes com o pai e a madrasta. Aspectos como estes e 
outros contam-se provavelmente entre as coisas *frvolas+ e de *pouca substncia+ 
que, no juzo do cronista, no merecem lugar em

*histria de tanta honestidade+. No entanto, D. Manuel aparece alvejado por diversas 
crticas.

3. a POCA - RENASCIMENTO E MANEIRISMO                                               
 439

 curioso que a histria do mesmo reinado de D. JOO 111 tivesse, posteriormente  
publicao da obra de Andrada, sido entregue por Filipe 111 a

Frei Lus de Sousa, de que adiante nos ocuparemos. Este utilizou, entre outros dados, 
uma crnica manuscrita do mesmo rei por Antnio Castilho, mas apenas deixou um 
rascunho, que foi publicado por Herculano em 1844, com o ttulo Anais de D. Joo III.

Por falecimento de Francisco de Andrada foi nomeado cronista-mor, em 1616, Frei 
Bernardo de Brito, que nessa qualidade preparou uma crnica de D. Sebastio, hoje 
perdida. A seguir falaremos deste autor. Antes, porm, registe-se que se conhecem 
duas crnicas de D. Sebastio: uma, com o ttulo Relao da vida de E]-Rei D. 
Sebastio, do jesuta Amador Rebelo, s foi editada em 1978; outra, de propsito 
acentuadamente antifilipino, foi editada por Herculano com o ttulo de Crnica d'el-
rei D. Sebastio por Frei Bernardo da Cruz e mais recentemente com o de Crnica [    
 ... 1 pelo padre Amador Rebelo, se bem que no seja nem de um nem de outro destes 
autores. Sobre o cardeal

D. Henrique conhece-se uma sucinta Crnica, annima, que s foi publicada em 1840.

Ficou provado por Queirs Veloso que esta crnica e a anteriormente referida so da

autoria de Antnio de Vaena. Mencionemos, ainda a propsito, duas descries 
testemunhais da batalha de Alccer Quibir: Jornada de frica, 1607, de Jernimo de 
Mendona, e a que est contida na Miscelnea, j referida, de Miguel Leito de 
Andrade; e uma

Crnica de E]-Rei D. Antnio, por Frei Pedro de Frias, sobretudo curiosa como espcie 
de dirio de um antifilipista exilado. Outro importante testemunho do final da 2. 
dinastia  o Memorial de Pro Roiz Soares, apenas em 1953 editado.

RENASCIMENTO E HUMANISMO: Novas tendncias da historiografia

Vimos como j nas origens da historiografia portuguesa se manifesta o gosto pelas 
grandes snteses cujo modelo  a prpria Crnica Geral de Espanha de Afonso X, o 
Sbio. Pertence ainda a esta tradio a Crnica dos Senhores Reis de Portugal de 
Cristvo Rodrigues Acenheiro, compilao de crnicas antigas manuscritas, hoje 
perdidas, como a Crnica Portuguesa de Espanha e Portugal, anterior  Crnica de 
1344, de que atrs falmos. Em

1600 publica Duarte Nunes de Leo as Crnicas dos Reis de Portugal. Antes, em 1594, 
Pedro de Mariz pusera em acessveis Dilogos de Vria histria todo o resumo dos 
feitos ptrios. Em lngua castelhana, para que alcance larga difuso, Manuel de Faria 
e Sousa (1590-1649) edita um Eptome de Ias Historias Portuguesas (1628, reedio 
1663 e em 1730 (?) com o ttulo de Histria de] Reyno de Portugal) e prepara uma 
srie de outras grandes snteses que s parcialmente e mais tarde sero publicadas, 
como Europa

440                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTU6MA

Portuguesa (1663), sia Portuguesa (3 tomos, 1666-74-75), frica Portuguesa (168 1), 
Amrica Portuguesa, esta ltima perdida, que obedecem declaradamente a um plano 
inspirado por Joo de Barros. Mencionemos ainda os Paralelos histricos (1623) de 
Toscano, e os Elogios dos Reis de Portugal (1603) de Bernardo de Brito. Nestas obras 
pode reconhecer-se uma tendncia para a epitomizao e a vulgarizao da histria de 
Portugal, destinada a um pblico que se teria alargado. A crnica geral do reino era 
uma

funo da Coroa, por ela custeada. Os novos eptomes, sumrios, dilogos, etc., so, 
pelo contrrio, estimulados por esse pblico que j encontrmos a propsito dos 
romances de cavalaria, da literatura de viagens, das obras de Jorge Ferreira de 
Vasconcelos, etc. Por outro lado, o interesse pela histria de Portugal d expresso 
a um sentimento antifilipino de autonomia nacional, vivo sobretudo entre as camadas 
populares e burguesas.

A principal tentativa de uma grande sntese historiogrfica fora dos modelos da 
crnica geral do reino (cuja elaborao cessa praticamente com a morte

de Francisco de Andrada em 1614)  a Monarquia Lusitana, iniciada por Frei Bernardo 
de Brito e continuada por Frei Antnio Brando e Frei Francisco Brando. Esta obra 
heterognea revela a convergncia de factores contraditrios: por um lado, a erudio 
humanstica na sua fase decadente, coleccionando textos sem senso crtico, colocando 
no mesmo plano as fbulas e as informaes da literatura antiga; a concepo da 
histria como um ramo

da retrica, j patente em Joo de Barros; o gosto do novelesco, de acordo

com o padro do romance de cavalaria; a tradio hagiogrfica, propensa ao miraculoso 
e sem o sentido da verosimilhana; - e, por outro lado, o surto

de novos mtodos paleogrficos, diplomticos, cronolgicos e comparativos, 
caractersticos de uma historiografia documental j praticada pelos Humanistas e que 
se imps como reforo da apologtica religiosa contra a crtica racionalista que 
contestava a autoridade da Igreja e a origem divina da Bblia.

A hagiografia, o romance de cavalaria e a pseudo-erudio caracterizam as partes 
redigidas por Frei Bernardo de Brito (Baltasar de Brito e Andrade,
1569-1617), monge e cronista da Ordem de Cister, que, j depois de publicadas todas 
as suas principais obras, viria a ser nomeado cronista-mor do reino de Portugal.

Na Crnica de Cister, de que s publicou a 1. a parte (1602), enlaa a

histria da sua ordem, contada desde S. Bento de Nrcia, com a dos primeiros reis da 
dinastia afonsina, sustentando pela primeira vez a tese de que

3. a pOCA - RENASCIMENTO E MANEIRISMO                                       441

os destinos de Portugal e Cister esto intimamente ligados, por desgnio de Deus e 
at pelo pretenso parentesco entre S. Bernardo e o conde D. Henrique, tese retomada 
com desenvolvimento nos seus Elogios dos Reis de Portugal (1603) atrs mencionados. 
Na Monarquia Lusitana, de que redigiu a
1. a e a 2. a partes (1597-1609), assentando na identificao tnica e territorial de 
Portugal com a Lusitnia, pretende descrever a corografia e a histria nacionais, 
desde o dia da criao da luz at D. Afonso Henriques. A Nao Lusitana teria incio 
com Tbal, filho de No, a que se seguiria toda a dinastia de reis lusitanos, 
identificveis com heris da mitologia clssica ou com

topnimos: Ibero, Tago, Hrcules, Luso, Ulisses, etc. A narrativa corre, 
naturalmente, apressada e inada de reflexes moralistas, maravilhosa e mgica como 
os mais incrveis romances de cavalaria; e o mais intrigante para o leitor 
desprevenido  que Bernardo de Brito alega sempre numerosos

autores a confirmar as suas prodigiosas asseres.

Isto no causa espanto, se tivermos presente que a historiografia alcobacense do 
sculo XVII assinala, em Portugal, o ponto crtico da evoluo historiogrfica a que 
acima nos referimos. Bernardo de Brito escreve para um

novo pblico que, se, por um lado, se no satisfaz com a crnica palaciana, relato 
oficial dos acontecimentos considerados sob o ponto de vista do poder rgio, por 
outro lado,  mais sequioso de romanesco, mais curioso de coisas remotas, que 
dificilmente distingue das coisas lendrias. Bernardo de Brito tinha, assim, as mos 
livres para reconstituir as fases mais remotas da nacionalidade, servindo-se da 
pseudo-arqueologia de certos humanistas tardios, carecidos de dados que no fossem a 
Bblia, as referncias dos historiadores ou mitgrafos greco-romanos e uma filologia 
incipiente que se exercia sobre as aparncias etimolgicas da toponmia e da 
antroponmia. Assim fizera Lcio Andr de Resende num livro publicado ainda havia 
pouco, De antiquitatbus Lusitaniae (1593). Quase toda a reconstituio da pr-
histria portuguesa, na Monarquia Lusitana (1. a e 2. a partes), alega autores deste 
tipo que se haviam ocupado de assuntos hispnicos, sobretudo o quatrocentista nio de 
Viterbo; e a sua concepo de metodologia da histria  anloga  dos espanhis Juan 
de Mariana, Floriano de Ocampo e Romano Higuera, quase seus contemporneos. Esta 
explicao todavia no basta, porque o
vemos utilizar documentos falsificados (em certos casos, tudo o leva a crer, por ele 
prprio), e abonar-se com autores que nunca existiram.

442                                          HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

A psicologia desta falsificao ou desta credulidade no se relaciona apenas com o 
desejo, alis evidente, de garantir, pelo prestgio de um remoto e brilhante passado, 
os foros de autonomia da sua ptria e os direitos da sua ordem.

Vejamo-la, tambm, em grande parte, como consequncia do predomnio do raciocnio 
analgico e inverificvel relativamente  anlise dos dados objectivos, assim como da 
tradio hagiogrfica, inada de milagres, na qual se

inclui a Crnica de Cister do prprio Brito. Tal psicologia no constitui 
peculiaridade pessoal deste ou de qualquer outro historiador, mas uma corrente

da poca e do meio, como o revelam, no s o facto de a metodologia de Brito ser a 
mesma de contemporneos e patrcios seus (Manuel de Faria e

Sousa, Gaspar Fructuoso, Leito de Andrade, etc.), mas at uma polmica acerca da sua 
obra entre Diogo de Paiva de Andrade, filho do seu antecessor no cargo de cronista-
mor do reino, e o cisterciense Frei Bernardino da Silva, travada fundamentalmente, 
no em torno da autoridade e autenticidade dos textos alegados, mas de pormenores da 
sua interpretao. No se

discutia a autoridade histrica de Homero, mas sim o itinerrio de Ulisses, que 
ningum duvidava ser o fundador de Ulisseia (Lisboa).

0 continuador de Brito foi Frei Antnio Brando, que redigiu a 3.1 e
4. a partes (1632), referentes, respectivamente, uma ao conde D. Henrique e a D. 
Afonso Henriques, e a outra a D. Sancho 1, Afonso 11, Sancho 11 e Afonso IH. A 
preocupao documental  nele muito mais sria, patenteando o progresso da erudio 
histrica, nomeadamente da paleografia, cronologia, da crtica filolgica e da 
diplomtica, disciplinas que, iniciadas na fase ascendente do Humanismo, viriam a ter 
um grande representante no francs Mabillon, alis posterior a Antnio Brando.  de 
crer que, conforme declara, tivesse explorado os arquivos e cartrios do Pas, pois 
aduz grande quantidade de documentos verificveis, que desbravaram o caminho a 
Herculano, e tem ideias precisas sobre certas instituies medievais; repele e 
substitui, por indocumentado, o texto da 3. > parte tal como o deixara o antecessor, 
discute verses contraditrias, e mostra-se cptico em relao a documentos que, no 
entanto, transcreve, como as actas das clebres Cortes de Lamego. Contudo, o melhor 
dos seus contributos para uma historiografia cientfica consiste nos apndices 
documentais do seu texto, pois a preocupao apologtica deforma ainda nele bastantes 
interpretaes e consente considervel margem de aco miraculosa, providencialista 
ou de simples idealismo

3,1 POCA - RENASCIMENTO E MANEIRISMO                                                
   443

moralizante na histria. Em todo o caso, Antnio Brando pode considerar-se um 
precursor da historiografia erudita e documentada da Real Academia de Histria, na 
poca de D. Joo V.

Frei Francisco Brando, empossado j por D. Joo IV no cargo dos anteriores e autor

de diversas obras de polmica restauracionista, escreveu a 5. a e 6. partes (1650-
72) da Monarquia, que versam o reinado de D. Dinis, sem a reflexo criteriosa do seu 
tio e antecessor, embora o assunto no consinta os voos novelescos de Bernardo de 
Brito.
0 beneditino Frei Rafael de Jesus levou a obra, com a sua 7. > parte (1683), at ao 
fim do reinado de D. Afonso IV, procurando sobretudo fazer conceptismo literrio com 
o

material que os cronistas, principalmente Rui de Pina, lhe legaram. Finalmente, com o

cisterciense Frei Manuel dos Santos, a pretensa refundio conventual da histria 
portuguesa no sculo XVII atinge os reinados de D. Fernando e D. Joo (8. parte, 
1727), omitindo, no se sabe porqu, o reinado de D. Pedro. Manuel dos Santos utiliza 
quase exclusivamente os dados de Ferno Lopes, insistindo nos incidentes miraculosos 
e sublinhando o papel da sua abadia na crise trecentista da independncia. Pouca 
originalidade tem tambm a sua Histria Sebstica. Em compensao,  a este autor que 
o clebre mosteiro deve a mais importante resenha histrica, possibilitada pela 
consulta da sua magnfica livraria e cartrio: Alcobaa Ilustrada (17 10). 0 sculo 
XVIII dar a conhecer ainda

mais trs notveis historiadores alcobacenses, que usaro os mais seguros mtodos de 
investigao, exercitados pela Academia Real de Histria: Frei Manuel da Rocha, Frei 
Manuel de Figueiredo e Frei Fortunato de S. Boaventura.

Fora da tradio alcobacense, merece ser mencionado Manuel Severim de Faria, de quem 
voltaremos a falar, pelo seu escrpulo e rigor erudito, que o colocam a par de 
Antnio Brando.

agiografias e historiografia clerical

A apropriao da histria oficial portuguesa por uma ordem religiosa no passa de 
ndice significativo de uma tendncia genrica: aquela que, na

ausncia de uma corte rgia em Lisboa, faz avultar de novo a importncia da 
literatura conventual, ao lado do mecenato senhorial da Casa de Bragana e ainda de 
outras,


J por incios do sculo XVII se verifica, no apenas o desenvolvimento quantitativo 
da historiografia conventual, que se prolongar para alm da Restaurao, mas um 
notvel esforo no sentido de aperfeioamento da prosa literria em assuntos 
narrativos, na sequncia de Barros e dos doutrinrios eclesisticos quinhentistas que 
estudmos.

444                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Assim, pertence ainda ao sculo XVI o jesuta Joo de Lucena, a quem se deve a 
redaco de uma Histria da Vida do Padre Francisco Xavier (1600), que incorpora 
alguns dados de Ferno Mendes Pinto (ainda ento indito)

e se distingue, quer pelo exclusivismo da homenagem prestada  Companhia e ao famoso 
missionrio, exclusivismo to excessivo que irritou o domnico Lus de Sousa, quer 
por um estilo notavelmente elegante, flexvel e conciso, que, como o de Heitor Pinto 
e Amador Arrais, deve ter contribudo para a formao da prosa clssica a culminar 
mais tarde em Bernardes.

 extensa a bibliografia missionria da Companhia de Jesus. Deixemos aqui referidas 
apenas trs obras de conjunto: Oriente Conquistado (1710), do padre Francisco de 
Sousa; Crnica da Companhia de Jesus na provncia de Portugal (2 partes, 1645-47), do 
padre Baltasar Teles, lente em diversos colgios e provincial da sua ordem no nosso 
pas, que na Histria Geral de Etipia a Alta ou Prestes Joo (1660) refundiu com 
elegncia os dados pitorescos e dramticos directamente relatados por seus confrades 
Pro Pais, Manuel de Almeida e Afonso Mendes (este em latim).

Quanto aos Franciscanos, apontemos a Histria Serfica da Ordem dos Frades Menores (2 
partes, 1656-66), por Frei Manuel da Esperana.

Os cronistas dos Dominicanos foram Frei Lus de Ccegas e Frei Lus de Sousa, ao 
primeiro dos quais se deve a ordenao inicial e ao segundo a redaco final da 
Histria de S. Domingos (3 partes, 1623, 1662, 1678), depois continuada por Frei 
Lucas de Santa Catarina (4. parte, 1733).

Fora dos conventos, aponte-se ainda D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Braga e de 
Lisboa, autor de: Catlogo e histria dos bispos do Porto (1628), Histria 
eclesistica dos arcebispos de Braga (1634-35) e Histria eclesistica da Igreja de 
Lisboa (1642).

Estas obras, ainda que redigidas com elegncia, alis convencional e feita em grande 
parte de frmulas estereotipadas, no passam de anais apologticos, em que sobressai 
a preocupao de registar a santidade dos costumes

de cada congregao, a assistncia miraculosa de Deus, relaes existentes entre a 
proteco dos reis ou infantes de Portugal e a glria terrena ou espiritual que dessa 
proteco lhes adveio. A estreiteza do seu mbito reflecte-se no facto de polemizarem 
em torno de diversos ttulos de primazia de cada ordem religiosa, tais como a 
antiguidade, o nmero de santos, o nmero

e a qualidade dos milagres, os estabelecimentos escolares ou caritativos, os

3. a pOCA - RENASCIMENTO E MANEIRISMO                                              
445

cargos e crditos na corte, etc. Pelo esprito apologtico e ausncia de esprito 
crtico, estas crnicas tm flagrantes afinidades com as obras de Frei Bernardo de 
Brito; a sua atmosfera  permanentemente milagreira, dir-se-ia que pretendem entre si 
ganhar um concurso de prodgios.

FREI LUS DE SOUSA

Salienta-se no entanto a vrios ttulos no conjunto da historiografia seiscentista o 
dominicano Frei Lus de Sousa (c. 1556-1632).

No sculo, Manuel de Sousa Coutinho era fidalgo de linhagem, e teve, enquanto leigo, 
uma vida acidentada, em que sobressaem um cativeiro em Argel, onde teria privado com 
Cervantes, viagens por mar s ndias Ocidentais e Orientais, e (se porventura for 
mais do que uma simples lenda) um fogo posto ao seu palcio de Almada, em 1599, por 
animosidade contra os governadores do Reino, que a pretendiam albergar-se de uma 
epidemia em Lisboa. Com ele casara D. Madalena de Vilhena, anteriormente mulher de D. 
Joo de Portugal, aprisionado em Alccer Quibir. Na 4.1 parte da histria de S. 
Domingos o seu bigrafo Frei Antnio da Encarnao regista a tradio segundo a qual 
a entrada de ambos os cnjuges na Ordem Dominicana, em 1613, se deveria ao regresso 
inesperado de D. Joo de Portugal. Tal  o ponto de partida do conhecido drama de 
Garrett. Havia, de resto, antecedentes ascticos na sua famlia.

A mais interessante biografia do sculo XVII , provavelmente, a Vida

de Frei Bartolomeu dos Mrtires (1619), bispo de Viana e arcebispo de Braga, redigida 
por Frei Lus de Sousa, sobre materiais coligidos por Frei Lus de Ccegas, seu 
antecessor como cronista da provncia portuguesa de S. Domingos. Concebida 
originariamente como um retrato a mais na galeria dos domnicos ilustres, esta obra 
ultrapassa os lugares-comuns da hagiografia. Para isso contribuiu talvez o ter sido 
redigida a instncias da Cmara Municipal de Viana do Castelo, que tambm custeou a 
impresso. A fluidez da prosa de Frei Lus de Sousa, a agilidade narrativa com que 
sabe enlaar os factos e at algumas pinceladas de pitoresco tambm se fazem sentir, 
apesar de certa monotonia, na Histria de S. Domingos, j referida, que no passa de 
uma srie de monografias sobre cada convento dominicano do Pas, com

biografias dos seus frades, freiras ou familiares mais relevantes. 0 prprio autor, 
embora frisasse no prlogo desta Histria que a escrevia em obedincia a directivas 
superiores (observao que se repete em quase todos os escri-

446                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

tores conventuais), no se esquece de reivindicar a sua autoria, com um orgulho 
artstico mal contido, opondo a sua arte ao *monte de cousas indigestas e informes+ 
que o seu antecessor lhe legara.

Antes da Vida de Frei Bartolomeu dos Mrtires, a biografia existia j sob a forma de 
crnica ou hagiografia, talhada segundo o figurino da ideal vida crist, do ideal 
cavaleiresco ou do ideal do Prncipe; e este livro participa ainda muito dos modelos 
hagiogrficos em vista. 0 que singulariza, contudo,  a preocupao to nova, que 
nele se revela, de recriar o pitoresco pessoal e local: o estrabismo e outras 
peculiaridades fsicas e psquicas do Arcebispo, o seu trajar, maneiras, objectos de 
uso (com as designaes que tinham na gria da Ordem), certas paisagens onde ele se 
achou, etc. J na Histria de S. Domingos se v tal pitoresco a propsito do mosteiro 
de S. Domingos de Benfica, onde o escritor viveu, por um curioso desdobramento em que 
ele parece querer j, como um escritor moderno, recriar o seu ambiente de vida na 
imaginao alertada e um tanto indiscreta do leitor. 0 bigrafo de Bartolomeu dos 
Mrtires segue pitorescamente as pisadas do biografado nas suas celas conventuais, no 
palcio arquiepiscopal de Braga, nos fraguedos de Barroso, no seu retiro final de 
Tui.

Mais ainda: sente-se o depoimento oral do campons, da mulher popular, do pedinte, do 
cidado de Braga ou de Viana (terra natal de Frei Bartolomeu), prestado ainda a 
poucos anos de distncia da sua morte. Frei Bartolomeu aparece-nos no nimbo de uma 
santificao popular; os seus actos de caridade extravasam do formulrio 
hagiogrfico.  o caso, por exemplo, duma ddiva furtiva da enxerga a uma moa que 
nada tem de seu para casar. Vemo-lo calcorreando a Terra Fria e falando com a sua 
gente simples. Eis um prelado que recusa enviar lampreias  rainha, para poder 
restituir aos pobres o seu preo; que critica abertamente injustias do rei, vaidades 
e luxos do papa; que em Trento protesta contra a falsificao das actas referentes a 
discusses j havidas, contra a bajuladora preeminncia concedida aos cardeais, 
declarando-os carecentes de uma *Ilustrssima e Reverendssima Reformao+.

Esta atitude, em que visivelmente o bigrafo se compraz, obriga-o a usar

de cautelosa ambiguidade ao tratar da posio do biografado por ocasio da crise 
dinstica. Por um lado, Frei Lus de Sousa tem de respeitar a autoridade filipina; 
por outro lado, a biografia dirige-se aos cidados vianenses,

3. a pOCA - RENASCIMENTO E MANEIRISMO                                               
    447

cujos sentimentos antifilipinos se entrevem com clareza, pois ele prprio nos mostra 
que *todas as vilas grandes@> do Minho lanaram voz por D. Antnio:

* formoso nome Rei natural; no enche menos os olhos um esprito pronto a se

perder pela Ptria. Onde havia gente deste humor, levantavam logo a bandeira por D. 
Antnio, e bastavam poucos para o efeito, que logo eram seguidos do povo, fcil de 
levar da boa sombra da cousa e do brio dos animosos.+

Como se avm o Arcebispo ante o dilema? Ganha o tempo que pode, at que (deciso 
inslita, com o que o bigrafo se espanta) pe a questo a votos, em Braga. A maioria 
revela-se filipista, no se sabe como. Mas o resultado no convence os diocesanos 
mais *animosos+. Frei Bartolomeu dos Mrtires continua a tergiversar perante as 
Cortes, depois da vitria de Filipe, e, desgostoso, renuncia  prelatura.

Os cronistas costumavam principiar ou rematar a sua obra por um retrato

do protagonista, muitas vezes minucioso, exacto de linhas e cor, mas esttico. S 
Ferno Lopes e Garcia de Resende (este quanto a D. Joo 11) tinham conseguido dar uma 
psicologia individual em aco. Frei Lus de Sousa no estava em condies de repetir 
a proeza de Ferno Lopes, porque, para o Arcebispo nos parecer mais vivo, era preciso 
vir contrastado com outros

caracteres, numa atmosfera social mais densamente descrita. No entanto, ultrapassa o 
anedtico de Garcia de Resende, e fica muito acima, em vivacidade, do pastiche 
classicista que Jacinto Freire de Andrade posteriormente apresentaria como retrato de 
D. Joo de Castro.

BIBLIOGRAFIA

1. Textos

Couto, Diogo do: Dcada IV da sia, Lisboa, 1602; V, 1612; 1614; Vil, 1616; Viii,
1673 (desta ltima existe um manuscrito na Biblioteca Pblica do Porto, ainda no 
estudado); XII, Paris, 1645; IX (juntamente com as IV, V, VI, Vil e VIII), Lisboa, 
1736; X e X1 (juntamente com todas as anteriores), Lisboa, 1778-88. Esta ltima eci. 
foi reimpressa pela Livraria Sam Carlos, Lisboa, 1973-75, abrangendo todos os vols., 
do 10. 1 (que contm a biografia de Couto por M. Severin de Faria) ao 24. >, da srie 
integral das Dcadas, sendo o ltimo vol. o ndice das da autoria de Couto. Desta 
forma as Dcadas IV a Viii tiveram
3 ed., as Dcadas IX e Xil duas ed., e as Dcadas X e X1 uma ed. 0 Soldado Prtico 
tem duas redaces, ambas publicadas por Antnio Caetano do Amar'al, Lisboa, 1790. A 
2. a

redaco foi reeditada segundo manuscrito indito na col. *Clssicos S da Costa+, 
com pref. de Rodrigues Lapa, 1937. Eci. Europa-Amrica, 1988. Vida de D. Paulo de 
Lima Pereira, Lisboa, 1756; reed. 1903, in *Biblioteca de Clssicos Portugueses+.

448                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Pereira, Antnio Pinto: Histria da ndia no tempo em que governou o viso rei Dom 
Lus de Ataide, 1616-1617, rep. fac-smile, IN-CM, 1987 (minucioso relato poltico-
militar baseado em informaes indirectas, que Diogo do Couto utilizou).

Andrada, Francisco de: Crnica de D. Joo 111, Lisboa, 1613, reed. Porto, 1976, com 
introd. e reviso de M. Lopes de Almeida.

Acenheiro, Cristvo Rodrigues: Crnica dos Senhores Reis de Portugal, in *Coleco 
de Inditos de Histria Portuguesa+, T. V., Lisboa, 1926.

Mariz, Pedro de: Dilogos de Vria Histria, Coimbra, 1594, reed. 1597 (e 1598),
3

-6--- . a ed. 1 74, 4. > ed. 1749, estes ltimos com suplementos de apologia 
histrica nacional  por outros autores.

Leo, Duarte Nunes de: Primeira Parte das Crnicas dos Reis de Portugal, 1. > ed. 
1600;
2. a ed. 1677; 3 . aed. 1774. A obra completa (abrangendo da crnica do conde D. 
Henrique at  de Afonso V) foi reeditada em 1975, Lello, Porto, com introd. de M. 
Lopes de Almeida. Ortografia e Origens da Lngua Portuguesa, 1576 e 1866, 
respectivamente. Reed. 1784 e 1866. Reed. de Origens por J. P. Machado, Lisboa, 1945. 
Reed, dos dois livros IN-CM, 1983, com introd. e notas de Maria Leonor Carvalho 
Buescu, que organizou tambm uma antologia das Origens: *Duarte Nunes de Lio+, 
Clssica Editora, 1975.

Galvo, Duarte: Crnica de D. Afonso Henriques, 1. > ed. 1726 ou 1727. Ed. moderna 
por Jos de Bragana.

Sousa, Manuel de Faria e: sia Portuguesa, reed. moderna, trad. em port. em 6 vols., 
col. *Biblioteca Histria de Portugal e Brasil+, Liv. Civilizao, Porto, 1944-45, 
introd. de Manuel Lopes de Almeida.

Monarquia Lusitana: 1. > parte 1597, 1690, 1806, 5 vols.; 2. > 1609, 1690,
1806-1809, 7 vols.; 3. > 1632, 1690, 1806; 4. > 1632, 1725; 5. > 1650, 1752; 6. > 
1672,
1751; 7. > 1683; 8. > 1727. Na *Biblioteca Histrica - Srie Rgia+, Porto, esto 
editados parte dos volumes de Frei Antnio Brando, sob o ttulo de Crnica do Conde 
D. Henrique, D. Teresa e Infante D. Afonso, Crnica de Afonso Henriques; e Crnica de 
D. Sancho 1 e D. Afonso 11. Ed. completa em 5 vols., IN-CM.


Polmica seiscentista sobre a Monarquia Lusitana: Andrade, Diogo de Paiva de: Exame 
de Antiguidades, 1616; e Silva, Frei Bernardino da: Defenso da Monarquia Lusitana, 
1620. _Brito, Frei Bernardo de: Crnica de Cister, 1602, 1720. Elogios dos Reis de 
Portugal, 1603, 1726, 1761, 1786, 1825.

Frei Rafael de Jesus  tambm autor de uma Vida do Serenissimo Rei D. Joo IV, cuja 
1. > parte se perdeu, estando a 2. > e ltima editada em Coimbra, 1940-42. 0 
manuscrito destinava-se, ao que parece,  Monarquia Lusitana.

Lucena, Joo de: Histria da Vida do Padre Francisco Xavier, 1. a ed. 1600. Reprod. 
fac-smilada peIaAgncia-GeraI do Ultramar, 1952, com pref . de C. Pimpo; ed. 
anotada e com grafia actualizada, 2 vols., Lisboa, 1959-60.

Sousa, Frei Lus de: Vida de Frei Bartolomeu dos Mrtires, 1619, 1760, 1763, 1785,
1818, 1850, 1857. Ed. na col. *Clssicos S da Costa+ com pref. e notas de Reis 
Machado. Histria de S. Domingos,      1 . a1623; 2. > 1662, 3. > 1678, todas 
reeditadas, com a 4. > parte de Frei Lucas de Santa Catarina, em 1767 e 1866. Reed. 
da Histria

3. a POCA - RENASCIMENTO E MANEIRISMO                                               
  449

de S. Domingos de Frei Lus de Sousa com pref. de Lopes de Almeida, Lello e Irmo, 
Porto,
1977. Frei Antnio da Encarnao escreveu umas Adies  Histria de S. Domingos e 
uma Vida de Frei Lus de Sousa para estas reedies. Anais de 0. Joo Ifi: alm da 
ed. de Herculano, 1844, h a dos *Clssicos S da Costa+, 1944.

Andrade, Jacinto Freire de: Vida de D. Joo de Castro, 165 1, reed. 1671 (seis reed. 
conhecidas durante o sc. XVIII).

Na *Biblioteca Histrica - Srie Rgia+, Porto, h uma ed. moderna da Histria da 
Etipia, por Pro Pais, em 4 vols.

Frias, Pedro de: Crnica del-Rei D. Antnio, estudo e leitura por Mrio Aiberto Nunes 
Costa, *Acta Universitatis Conimbrigensis+, 1955.

Jornada Delrei Dom Sebastio a frica e Crnica de Dom Henrique, est. e introd. de F. 
Sales Loureiro, IN-CM, 1978.

2. Antologias

sia de Diogo do Couto, colectnea em dois vols. na col. *Clssicos S da Costa+ com 
um estudo de Antnio Baio.

Da Vida de S. Francisco Xavier, por Joo de Lucena, Lucena, 2 vols., *Antologia 
Portuguesa+ dirigida por Agostinho de Campos.

Os Historiadores de Alcobaa, introd., organizao e notas de Alfredo Pimenta, col. 
*Clssicos Portugueses+.

Historiografia Alcobacense, sei. e notas de Jos Pereira Tavares, Lisboa, 1940. Da 
Vida de Frei Bartolomeu dos Mrtires: Frei Lus de Sousa, voi. da *Antologia 
Portuguesa+ dirigida por Agostinho de Campos; Vida do Arcebispo, pref., seleco e 
notas de Agostinho da Silva, na col. *Textos Literrios+; este mesmo escritor 
preparou outra seleco mais pequena, A Austeridade do Arcebispo, na col. 
*Antologia+, que editou em
1942; Pginas Escolhidas de Frei Lus de Sousa, seleco, introd. e notas de Jos 
Adriano de Carvalho, *Textos Clssicos Verbo+.

D. Sebastio e o Encoberto, estudo e antologia por A. Machado Pires, Fund. C. 
Gulbenkian.

Ver prefcios s edies modernas e antologias.

3. Estudos


Beli, Aubrey: Diogo do Couto, Oxford University Press, 1924. Sobre Diogo do Couto ver 
tambm o estudo de A. Baio na colectnea indicada.

Martins, Antnio Coimbra: Sobre as dcadas que Diogo do Couto deixou inditas, in 
*Arquivos do Centro Cultural Portugus+, vol. 3, 1971, Paris, pp. 272-355 (referncia 
a uma cpia da Dcada VIII encontrada em Madrid e que confirma a autenticidade da do 
Porto); e Sobre a gnese da obra de Couto (1569-1600). Uma carta indita, ibidem, 
vol. 8, 1974.

Cruz, M. Augusta Lima: *Dcada 8. > da sia+ de Diogo do Couto, *Arquipiago+,
6, Jan. 1984, pp. 151-166.

HLP - 29

450                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Carvalho, A. Farinha de: Diogo do Couto, *0 Soldado Prtico+ e a India, Vega, Lisboa, 
1979.

Queirs Veloso, em Estudos Histricos do Sculo XVI, Lisboa, 1950, demonstrou que a 
crnica atribuda por Alexandre Herculano e A. A. Costa Paiva a Bernardo da Cruz (ed. 
1837, reeditada em 1903) no pode ser deste autor, e atribuiu-a a Antnio de Vaena. 
Francisco Rodrigues, in *Brotria+, 1926, vol. lii, fasc, IV, pp. 193-195, mostrou a 
inconsistncia da atribuio desta obra a Amador Rebelo, feita por Ferreira Serpa na 
ed. incorrecta de 1925, Porto. Queirs Veloso descobriu captulos que continuam esta 
crnica, ficando a saber-se, deste modo, que ela abrangia provavelmente todo o 
reinado de D. Henrique. A Relao da vida de EI-Rei 0. Sebastio de Amador Rebelo, 
ms. da Torre do Tombo, cdice 1745 da Livraria, foi ed. em 1978. Joo Palma-Ferreira, 
em 0 *Bigrafo+ de Lus de Cames, Pedro de Mariz, como autor da *Crnica de EI-Rei 
D. Sebastio+, in *Arquivos do Centro Cultural Portugus+, vol. 7, 1973, pp. 471-484, 
prova, de acordo com a cpia ms. 435 da Biblioteca Geral da Universidade de 
Salamanca, ser

Pedro Mariz o autor da crnica em questo.

Alves, Francisco Manuel (abade de Baal): 0 clssico Frei Lus de Sousa. Tragdias 
Martimas. Notas inditas, in *Portucale+, vols. V-VI, Porto, 1933.

Pontes Maria de Lourdes Belchior: estudo sobre Frei Lus de Sousa in Os homens e os 
livros, 19 7 1.

Ricard, R.: estudo sobre Frei Lus de Sousa, in tudes sur Phistore morale et 
religieuse ou Portugal, Paris, 197 1.

Serro, Joaquim Verssimo: Historiografia Portuguesa, vol. 1 (Scs. X11-XVI) e 11 
(Sc. XVID, ed. Verbo, Lisboa, 1972-73; 0. Frei Bartolomeu dos Mrtires e a Sucesso 
de 1580, in *Aufgestze zur Portugiesischen Kulturgeschichte+, Mnster, Band 4, 1964;
0 Reinado de D. Antnio Prior do Crato (1580-82), Atlntida Editora, Coimbra, 1958; 
Itinerrios de D. Sebastio, 1-11, 1963-64; A Crnica de 0. Joo ffi, de Antnio de 
Castilho, *Arquivos do Centro Cultural Portugus+, Paris, 11, pp. 319-326.

Castro, Anbal Pinto de: Frei Luis de Sousa, Escritor, sep. do vol. 111/3 das *Actas+ 
do 11 Encontro sobre Histria Dominicana, 1982 (fontes e cultura latina de Frei Lus 
de Sousa).


Figueiredo, Fidelino de: Histria da Literatura Clssica - 2. > poca, 192 1. Cidade, 
Hernni: Lies sobre a cultura e a literatura portuguesa, 1. > vol., 6. > ed. corr. 
e aum., Coimbra, 198 1; A Literatura Autonomista sob os Filipes, Lisboa, s/d.; A 
Literatura Portuguesa e a Expanso Ultramarina, vol. I I, Coimbra, 1964; A 
Historiografia Alcobacense sob os Filipes, vol. Vi das Publicaes do Congresso do 
Mundo Portugus,
1940.

40 EPOCA

pOCA BARROCA

Captulo 1 INTRODUO

POCA BARROCA: Evoluo europeia. Papel precursor da Holanda

Enquanto os domnios ultramarinos permitiam  aristocracia peninsular um 
reagrupamento defensivo em torno da Coroa, mantendo na sociedade e na cultura de 
Portugal e Espanha certas caractersticas feudais, e propiciavam depois uma hegemonia 
poltica mundial da Espanha que atinge o apogeu sob Filipe 11 (1556-98), e se 
prolonga at ao

desfecho da Guerra dos Trinta Anos (1618-48) - em alguns pases da Europa Ocidental, 
no sujeitos ao seu domnio, a estrutura social e poltica sofre considerveis 
alteraes.  que, afinal, a Bolsa de Anturpia (1531), centro do comrcio 
continental das especiarias portuguesas, e os banqueiros da Alemanha do Sul, 
principais financiadores das Coroas peninsulares, apesar das sucessivas falncias 
individuais, tinham exercido o

real controlo da nova economia mundial recm-nascida. Os recursos dos reinos de 
Portugal e Espanha esgotavam-se j no sculo XVI, cada vez mais incapazes de ocorrer 
aos

gastos da oligarquia administrativa e militar e de satisfazer os juros de dvidas 
astronmicas. 0 senhorio da *Conquista, Navegao e Comrcio da Etipia, Arbia, 
Prsia e ndia+, em plena bancarrota, tenta de novo a aventura cavaleiresca em 
Marrocos e afunda-se

em Alccer Quibir (1578); a Casa de ustria acrescenta o imprio portugus aos seus

domnios, mas em 1588 v a sua *Invencvel Armada+ batida pelos Ingleses. 0 sculo 
XVII vai assistir ao triunfo de um grande capitalismo mercantil, constitudo em 
companhias de accionistas paniulares que pertencem, indiferentemente, a vrios 
credos ou naes e que utilizam um Estado nacional como garantia do seu monoplio.

A inovao parte dos Holandeses, cujos armadores, associando-se a capitais 
internacionais (em grande parte dos Marranos, ou Cristos-Novos expulsos da 
Pennsula), criam, a partir de 1592, as clebres Companhias das ndias, primeiro para 
fazer a guerra de corso s frotas filipinas, e depois para desalojar o imprio 
habsburgo dos seus principais entrepostos da Indonsia, ndia, frica do Sul, Amrica 
do Sul e Central. A expanso colo-

454                                                   HISTRIA DA LITERATURA 
PORTUGUESA

nial holandesa  facilitada por um tolerantismo comercialista, prprio de um Estado 
federativo, descentralizado, dir-se-ia que ele prprio imagem de uma empresa por 
aces. A Banca de Amesterdo (1611) torna-se o centro do capitalismo internacional. 
0 calvinismo, dominante entre a burguesia holandesa, reabilita o juro e a especulao 
bancria.

A Holanda torna-se na primeira metade do sculo a estante giratria com prateleiras 
para as heresias que minam os estados monarco-feudais: refgio dos judeus 
peninsulares, dos dissidentes ingleses fugidos aos Stuarts, dos huguenotes franceses. 
Giordano Bruno, Galileu, Descartes editam l as obras que teorizam a mecnica celeste 
e geral; impressores holandeses, como os Elzevir, erguem a arte tipogrfica a um novo 
nvel; nasce das informaes bolsistas a imprensa peridica, com as Gazetas; o 
naturalismo renascentista prolonga-se ali. No se trata apenas do culto da cincia 
experimental e algbrica (Huyghens), que atravs da ptica e da criao do 
microscpio lana a microbiologia com Leeuwenhoek; um judeu de origem portuguesa, 
Bento de Espinosa, identifica Deus com a Natureza, critica a autoridade de quaisquer 
Escrituras Sacras e do poder monrquico, concebe a liberdade moral como no passando 
de uma conscincia interiorizadora da causalidade universal, considerando 
comportamento tico apenas aquele que s obedece a razes - depois de armado com o 
conhecimento das causas. Grcio fundamenta

o direito internacional em regras que julga existirem, no por decreto sobrenatural, 
mas

na natureza humana (direito natural). A escola holandesa de pintura, inovadoramente 
naturalista, substitui a iconografia religiosa por retratos, interiores burgueses e 
paisagens (Franz Hals, Hooch, Vermeer, Hobbema, Ruysdael). Rembrandt, como veremos, 
representa j algo para alm desse naturalismo.

 O papel da Inglaterra seiscentista

Na Frana e na Inglaterra o capitalismo comercial e a cultura burguesa no dominam 
to livremente, mas, por vias mais sinuosas, impem a sua influncia.

No segundo destes pases, o absolutismo dos Tudors elimina desde Henrique VIII a alta 
aristocracia feudal e o clero regular, mas a nobreza que ascende com as 
secularizaes (gentry) e a burguesia, mais ou menos *puritana+, ou calvinista, de 
Londres mantm o controlo do fisco pelo Parlamento. Os filhos segundos da gentry, 
vedado o acesso


 carreira do clero regular, das armas ou do funcionalismo, em resultado das 
secularizaes e da moderao do fisco rgio, ingressam por isso na burguesia. A 
Coroa garante o monoplio, a que se associa, das companhias criadas para fazer o 
corso s frotas hispnicas e conquista os entrepostos do Bltico, do Mediterrneo e 
depois do ndico e da Amrica do Norte. 0 reinado de Isabel (1558-1603) e ainda o do 
primeiro Stuart, Jaime I, correspondem por isso, no apenas ao desenvolvimento de uma 
cultura amaneirada de

corte, em que se salientam a poesia para canto e o pastoralismo convencional (Sidney, 
Spenser, John Lily, autor do romance Euphues, 1579-80, donde derivou o nome de 
eufusmo para o estilo culto ingls), mas tambm ao surto de uma riqussima escola

4. - POCA - POCA BARROCA                                                           
  455

teatral em que se fundem   o naturalismo renascentista, a cultura universitria de 
muitos dramaturgos, a nsia de aventura e domnio, as inquietaes ideolgicas da 
burguesia, o estilo floreado da corte (Marlowe, Shakespeare, Ben, Jonson, Fletcher, 
etc.).

0 desenvolvimento posterior da burguesia e o endurecimento da sua ideologia puritana, 
por um lado, a reaco correspondente por parte dos monarcas Stuarts e da 
aristocracia mais exclusivamente agrria, por outro lado, precipitam depois as 
revolues de
1648 e 1688, cujo saldo final  uma vitria sobre o absolutismo por parte de uma 
coligao tcita entre a burguesia londrina menos puritana e a aristocracia Whig, que 
lhe est estreitamente ligada. Estas duas camadas vo realizar durante o sculo XVIII 
urna dupla revoluo: a revoluo agrria da enclosure, eliminao do pequeno 
campesinato feudal, j iniciada em comeos do sculo XVI, e a revoluo industrial. 
Atravs das vicissitudes seiscentistas, o puritanismo revolucionrio exprime-se 
literariamente pela obra de Milton (Paraso Perdido, 1667) e Bunyan (Caminhada do 
Peregrino, 1678); a aristocracia ope ao zelo puritano um teatro e um lirismo 
profundamente cnicos e intelectuais (Wycherly, Congreve, Lovelace, etc.); enquanto 
que o futuro equilbrio do sculo XVIII ingls, com o seu compromisso entre os Whigs 
e a burguesia, e a lenta deslocao para esta do controlo econmico e cultural, 
principia a manifestar-se em Dryden, que inaugura o gosto clssico depois dominante.

Por meados do sculo XVII, a Sociedade Real de Londres, ilustrada por figuras como

Roberto Boyle e Newton, torna-se o foco mundial da investigao cientfica, onde se 
lanam as bases de uma nova disciplina da fsica, a dinmica, articulada com o tambm 
recente clculo infinitesimal. No desenvolvimento do empirismo, e sensualismo ingls, 
Hobbes e Locke sucedem a Francisco Bacon, que em 1620, com o Novum Organum 
Scientiarum, dera o primeiro tratado de metodologia cientfica experimental. Locke, o

filsofo da revoluo de 1688, que escreve em ingls para toda a gente, e no j em 
latim escolstico,  o pensador que mais influncia exerce na Europa por todo o 
sculo XVIII. Este conjunto de circunstncias sociais e culturais explicam que a 
Inglaterra, pas onde a revoluo burguesa, embora menos radical e rematando num 
compromisso que dura at  poca vitoriana (reforma eleitoral de 1832), se antecipa 
de um sculo  da Frana e, em geral, do Continente, seja no incio do sculo XVIII a 
herdeira imediata das criaes holandesas de incios do sculo XVII: jardins, 
conforto do lar, pintura de paisagem, de retrato e de interiores, jornalismo, 
filosofia progressiva, livre-cambismo, teoria dos direitos fundamentais do homem e da 
diviso dos poderes do Estado.

Classicismo francs. poca de Lus XIV

Em Frana, as guerras de religio, ponto crtico da anarquia renascentista, haviam 
rematado no sculo XVI pelo Edicto de Nantes (1598) e o advento da dinastia 
bourbnica. Deste compromisso precrio entre a burguesia huguenote e a aristocracia 
catlica resulta, como fiel da balana, a poltica absolutista de Richelien, Mazarino 
e Lus XIV, profundamente diferente, no seu significado social, do absolutismo 
peninsular. A coroa

456                                                 HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

sustenta, alm da nova burocracia do absolutismo, a velha aristocracia de sangue, 
que, domesticada depois do esmagamento da Fronda, faz uma vida ociosa de corte. A 
burguesia ascende, em parte,  categoria de nobreza de cargo, prevalece na 
administrao central, enriquece com os fornecimentos e arremataes dos impostos da 
Coroa, impe a

poltica mercantilista que permite o desenvolvimento da manufactura (indstrias de 
luxo, minerao, construo naval, txteis, etc.). Batidos os Filipes na Paz dos 
Prentis de
1659, a Frana torna-se a potncia hegemnica da Europa. Mas a *guerra do dinheiro+, 
de conquista surda dos mercados e do ouro, que Colbert e as suas Companhias mercantis 
conduzem contra as outras potncias, complicada ainda por outras consideraes 
dinsticas e estratgicas, empurra Lus XIV a uma srie de lutas armadas que 
desprestigiam o absolutismo e do lugar ao agravamento da situao econmica das 
massas populares.

Sob o ponto de vista cultural, o grande foco  ainda ento a corte, que deve  corte 
madrilena a iniciao em muitos requintes; mas essa e outras influncias refundem-se 
num sentido que denota a presena de uma burguesia culturalmente individualizada.  
dentro dela que tendem a radicar-se ideologias dissidentes ou de oposio  ideologia 
oficial. 0 prprio modo de vida das camadas burguesas acentuar esta 
incompatibilidade, que acabar por se traduzir no sculo XVII numa oposio total aos 
prprios fundamentos da ideologia catlica.

No campo literrio, Honor d'Urf, com o incio da publicao da Astre em 1608, 
introduz na corte francesa o formalismo da alegoria pastoral anteriormente consagrada 
pela Diana de Montemor, dando o modelo para as damas preciosas dos sales da marquesa 
de Rambouillet e de MIle. Scudry; e Corneille, com o Cid (1636-37), adapta o

drama espanhol ao gosto francs, inaugurando o teatro clssico em Frana. Mas a um

estado de coisas poltico e social mais estvel e a um nvel j superior corresponde 
um

esprito mais analtico e racionalista, um sentimento de vida mais confiante, mais 
equilibrado e menos pattico que o prevalecente em Espanha. H uma enorme florao de 
doutrinadores e preceptistas literrios, cheios de ponderao sensata, entre os quais 
se destacam o poeta Malherbe,  entrada do sculo, e Boileau, cerca do ltimo quartel 
(Arte Potica,
1674). Ao mesmo tempo a Academia Francesa (1635) e vrios gramticos racionalistas 
desempenham o seu papel de codificao e apuramento lingusticos.


No terreno filosfico, a figura dominante do sculo XVII francs  Descartes, tambm 
um dos criadores da lgebra, da geometria analtica e da mecnica. A sua filosofia, 
como a do seu contemporneo ingls Bacon, centra-se no problema da metodologia 
cientfica (Discurso do Mtodo, 1637). Pode dizer-se que, em ltima anlise, o mtodo 
cartesiano se reduz a interpretar os fenmenos segundo esquemas mecnicos, 
geomtricos e algbricos. No entanto, embora veja um futuro cheio de esperanas para 
a cincia mecanista, Descartes acautela o idealismo tradicional e a teologia, e no 
discute as instituies polticas e sociais do tempo; sustenta a imaterialidade e 
eternidade do esprito, mas concebido como simples conscincia das leis mecnicas do 
mundo, e afirma a existncia de Deus, mas como garantidor da realidade objectiva das 
leis cientficas - um Deus, alis, que (pelo menos sob certa leitura de Descartes)  
a negao mesma do milagre.

4. - POCA - POCA BARROCA                                                           
    457

Esta filosofia progressista mas cautelosa vai casar-se, atravs de geraes, com um

importante sector da intelectualidade francesa de origem burguesa. Apesar da oposio 
dos Jesutas, ganha adeptos at no clero, como Malebranche. Contudo, o seu 
geometrismo unilateral, a sua absteno cautelosa quanto aos problemas morais, 
histricos e polticos, a sua tendncia para reduzir o mundo a massa e movimento, 
abstraindo-se das foras e das transformaes qualitativas, provocam a reaco 
posterior de Pascal e do

filsofo alemo Leibniz. Com estes e com Newton, alm do mtodo experimental, 
integram-se no pensamento cientfico os conceitos de energia e de infinito. A 
preocupao da infinidade e da omnipotncia divinas, agora que a cincia impunha uma 
concepo infinitista e energtica do mundo, sente-se nos Jansenistas de Port~Royal, 
de que Pascal foi a figura dominante. Notemos que o Jansenismo tem a mais ampla 
repercusso na nobreza de cargo, como ideologia em que se apoia a reivindicao de 
independncia da Igreja Galicana, ou Francesa, contra o *ultramontanismo+, expresso 
que designa a tendncia, principalmente impulsionada pelos Jesutas, para a 
supremacia absoluta do papa sobre os bispos e at sobre as autoridades civis. A 
apologtica catlica, dominada pela figura de Bossuet e aliada  contra-ofensiva 
absolutista de Lus XIV, no apogeu do reinado, consegue fazer frente s borrascas 
cartesiana e jansenista, mas sacrificando o prestgio dos Jesutas e reajustando, 
aburguesando os mtodos de exegese e de oratria sacra.

As ideologias revolucionrias do sculo XVIII francs iro inspirar-se em Locke, 
ultrapassando o Jansenismo.

 ascenso do absolutismo em Frana corresponde o teatro de Corneille (Horcio, 
Cinna, 1640), em que se apresenta sempre a vitria da autodisciplina cvica do 
protagonista sobre as paixes pessoais mais veementes. Com Racine, os conflitos da 
tragdia j lisonjeiam mais as paixes, e a noo de dever desloca~se do clima cvico 
para o clima

familiar (Fedra, 1677). Um e outro levam  maior perfeio o esquema das trs 
unidades (aco, lugar e tempo), que ao teatro clssico francs confere uma grande 
densidade psicolgica e ideolgica. Entretanto, a comdia de caracteres de Molire, 
fundindo o racionalismo francs com a experincia de palco da Commedia dell'Arte, 
critica penetrantemente a hipocrisia e a fatuidade do sistema feudal remodelado sob o 
absolutismo, atingindo ao mesmo tempo a caa ao lucro, ou ao prazer e vrias 
deformaes psicolgicas, tpicas no s da nobreza mas tambm da burguesia 
dirigente, com um poder de apreenso que os idelogos burgueses perdero mais tarde 
no seu propagandismo revolucionrio (Preciosas Ridculas, 1659; D. Joo, 1665; 
Tartufo, 1669; As Sabichonas, 1672, etc.).


Os sintomas de dissoluo ideolgica do regime de Lus XIV comeam por se fazer

sentir nos meios aristocrticos. Tal como na aristocracia tory inglesa, desenvolve-se 
o

cepticismo galante dos libertinos, que transvasa para as obras de um estilo seco e 
cnico (Mximas de Rochefoucauld, 1665, Caracteres de L Bruyre, 1688, Fbulas de L 
Fontaine, 1668); os espritos volvem-se para as pequenas coisas, registam efemrides 
e ditos, redigem memrias, correspondncia literria, mantm o tom racionalista, mais 
virado para o mundo psicolgico ou para uma perspectiva pessimista do mundo social 
(Mein-

458                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

rias do cardeal de Retz e do duque de Saint-Sinion; Cartas de M.@ de Svign; 
Princesse de Clves, romance de M.me de Lafayette, 1678). Entre 1680 e 1715 decorre o 
perodo que Paul Hazard denomina de *crise da conscincia europeia+, no qual se 
confirma o descrdito das instituies e formas culturais da poca de Lus XIV.

O Barroco

Generalizou-se o uso do nome Barroco para designar as caractersticas mais gerais que 
assumem a arte e at a cultura seiscentistas ocidentais. Esta designao tornou-se 
ambgua, porque, ora se refere a um conjunto de tendncias artsticas e culturais 
prevalecentes durante o sculo XVII nos domnios da Casa da ustria, e portanto 
condicionadas pela estrutura especial que o absolutismo a reveste, nomeadamente a 
sua orgnica ligao com a Contra-Reforma tridentina; ora abrange as tendncias 
artsticas e culturais que acompanham o absolutismo em toda a Europa ocidental; ora 
pretende cobrir, na mxima

generalidade, toda a vida cultural europeia da poca, incluindo as manifestaes 
tipicamente burguesas que ela assume na Holanda e, em menor grau, noutros pases, 
como a Inglaterra.  ainda frequente designar-se de barroco um certo conjunto de 
caractersticas estticas formais que, aparentemente, emergem em certas pocas, como 
no helenismo, no gtico flamejante, no sculo XVII, no romantismo e no decadentismo. 
A qualificao de barroco era originariamente depreciativa (parece ter de incio 
designado certas prolas imperfeitas), e passou a aplicar-se a determinado estilo 
plstico e depois literrio, cuja reabilitao data de finais do sculo XIX 
(Wlfflin, 1888).

No seu sentido histrico mais geral, mas determinado, Barroco designa um certo

nmero de estruturas formais ligadas com inovaes tcnicas e cientficas que 
essencialmente correspondem  coexistncia e interdependncia, mesmo conflituosa, de 
formas sociais profundamente diferentes na Europa; tal a renovao da pintura que 
permite, tanto a Rubens como a Velsquez, criar a sensao da atmosfera organizando o 
espao pintado segundo gradaes de cor ou segundo linhas de movimento aparente; ou 
que permite, tanto a Rembrandt como a Zurbarri, recriar a sensao de espao pelo 
claro-escuro; tal o crescimento da arte dos sons que permite, primeiro a Vitria e 
Palestrina, depois a


Bach e Haendel, organizar a msica em profundidade, segundo os esquemas polifnicos 
que do o contraponto e a fuga; tal a passagem de uma concepo finitista e esttica 
do mundo a uma concepo infinitista, energtica e dinmica, com Giordano Bruno, 
Pascal, Newton. A histria da arte e, em geral, da cultura tende, nos ltimos trinta 
anos, a acidentar a evoluo geral desde o gosto renascentista, reconhecendo certos 
perodos cclicos de desequilbrio e equilbrio aparente, nomeadamente o Maneirismo 
(2. metade do sculo XVI), o Barroco (I . metade do sculo XVII), o Academismo 
(fins do sculo XVII) e o Rococ (sculo XVIII), cujas caractersticas e cronologia 
so muito oscilantes ou discutidas.

Na medida em que se considere o Barroco como ligado ao absolutismo, o seu contorno 
define-se mais claramente. Com efeito, a centralizao rgia levada a auge, e de 
resto

4. - POCA - POCA BARROCA                                                           
    459

em perfeito sincronismo com o reforo da autoridade papal e da disciplina 
eclesistica catlica, faz-se sentir, por exemplo, na arquitectura: muitos edifcios 
so planeados no

sculo XVII para produzirem amplos efeitos de conjunto, tendo em considerao a 
paisagem circundante, abrangendo espaos ajardinados, buscando uma convergncia maior 
de impresses na ondulao de salincias e reentrncias, na simetria radial, no 
disfarce das linhas estruturais rectilneas pela profuso ornamental, ou pela 
modulao em curva

do revestimento interno. A mesma concentrao conduz  escultura policrmica, ao 
planeamento, com pompa e grandiosidade, de todo o exterior da vida oficial; e, 
aspecto tpico,  pera, gnero novo de arte que integra o drama representado, o 
verso, a msica vocal e instrumental, solista e coral, o ballet, a pintura 
cenogrfica, a mecanizao dos bastidores, o guarda-roupa e um novo tipo de 
arquitectura para edifcios de espectculo.

Limitando-nos agora  perspectiva hispnica, convm ter presente a distino moderna 
entre o Barroco e o Maneirismo. Este aparece-nos como a expresso artstica e 
literria

de um sentimento de desequilbrio, de frustrao e instabilidade relacionveis, 
dentro da Pennsula, com a represso a que era sujeita qualquer ideologia burguesa 
que desse alternativa optimista a um estado de coisas j abalado desde a derrota da 
Invencvel Armada em 1588. 0 estilo dominante no imprio dos Habsburgos caracteriza-
se pelo exagero pattico, pela expresso de um ascetismo macerado ou de um exaltado 
misticismo, pela oposio da sublimidade espiritual ao grotesco da carne, do 
idealismo puro ao pcaro burlesco, pela alternncia entre a bizarria fidalga e o 
pitoresco folclrico, pelo gosto dos extremos patticos ou decorativamente festivos, 
sublimes ou impulsivos, panegricos ou

sarcsticos, tenebrosos, contritamente penitenciais ou ento luminosos, celestiais - 
e

sobretudo pela subtileza engenhosa que encontra analogias entre dados heterogneos ou

que descobre trans-racionalmente os limiares de metamorfose, ou, dialecticamente, a 
coincidncia dos opostos ou, em terminologia j de Heraclito, a enantiodromia, ou 
movimento de um oposto para o seu contrapolo (tempo e eternidade, realidade e 
idealidade). Contrariamente ao Maneirismo, o Barroco caracteriza-se pelo 
objectivismo, pela pompa, pelo exibicionismo material do poder e da f. Na realidade, 
as duas tendncias coexistem. Algumas destas caractersticas fazem-se sentir mesmo em 
pequenos empreendimentos e manifestaes estticas de regies rurais portuguesas ou 
brasileiras at onde no chega a pompa das cortes.

Criando padres de requinte formalista e corts, o barroco literrio espanhol vai-se 
inspirar no bucolismo artificioso da Diana de Montemor, do drama pastoril de Tasso e

Guarini, que j influenciam escritores to diferentes como Cervantes, Lope de Vega e

Lus de Gngora. Este ltimo torna-se o modelo acabado do estilo potico dito culto, 
cultista ou gongrico, em que, de um modo caracterstico, predomina a sugesto por 
imagens e por efeitos fno- sintcticos sobre a expresso discursiva ou qualquer 
forma de exposio conceptual. Todavia com o cultismo conjugam-se, 
contraditoriamente, o gosto da simplicidade pastoril e a reabilitao de certas 
tradies folclricas peninsulares: a

redondilha maior e os romances populares nela vazados esto na moda, sobretudo os de

tema mourisco; os prosadores fazem gala no adagirio; a novela picaresca renasce com

o Guzmn de Alfarache (1599) de Mateo Alemn, denunciando atravs de sucessivos

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autores, at Francisco de Quevedo, as torpems e hipocrisias do feudalismo ibrico 
retardatrio, a pretexto ou  luz de um pessimismo asctico.

No teatro, Lope de Vega (1562-1635) cria a comdia de capa e espada, de aco rpida 
baseada no ponto de honra cavaleiresco e no humorismo do gracioso, que se lhe

contrape; mas, ao cabo de urna evoluo, que seguiremos oportunamente, surge 
Caldern, e a vida converte-se em teatro do mundo, alegoria teolgica, de um gosto 
espectacular que impe a msica instrumental e vocal (zarzuela, ou comdia de 
Zarzuela, nome do palcio real).

Cervantes, heri de Lepanto e ex-cativo de Argel, que conheceu por experincia todo o 
aventurismo glorioso ou pcaro do tempo, depois de cultivar o teatro patritico, a 
novela exemplar, a sentimental e a picaresca, e o bucolismo convencional, d no D. 
Quixote (1. a

parte, 1605) um smbolo universal nascido do prprio atraso feudal de Espanha. Mas 
esta caricatura dos ideais cavaleirescos ainda ressuma de alegria de viver e tem 
certa luminosidade de viso e estilo mais ou menos comuns aos seus contemporneos 
Lope, o pintor Velsquez e certo Gngora.  medida que avana o sculo XVII, o estilo 
torna-se, contraditoriamente, mais intelectual e mais sensual, mais pomposo e mais 
pattico. No verso, ao luxo da imagem acrescenta-se, ou ope-se, o rebusque de 
conceitos, cujo padro est no Adone (1623) do italiano Marino - donde o estilo 
designado de conceptismo ou marinismo. 0 conceptismo sentencioso, recheado de 
provrbios, carregado de toda
* tradio moralista e pessimista de Salstio, Tcito, Sneca e do Eclesiastes, 
produz
* prosa torturada de Francisco de Quevedo e, combinando-se com uma teoria da metfora 
corno mtodo de revelar o lado inslito e recndito das coisas, encontra o seu 
doutrinrio em Baltasar Gracin (Agudeza y Arte de Ingenio, 1642, rev. 1648).

 Condies da Restaurao portuguesa

Em Portugal, como em Espanha, passa-se quase insensivelmente de um ambiente de 
incipiente Renascena para um ambiente de Contra-Reforma e para o estilo maneirista, 
como j vimos. No entanto, certas condies peculiares, nomeadamente, como veremos, 
um sensvel desenvolvimento da burguesia durante o sculo XVII sob o estmulo da 
colonizao brasileira e um tardio reforo do absolutismo e do feudalismo decadente, 
graas s minas do Brasil sob D. Joo V, justificariam que reservssemos a designao 
de poca Barroca para o perodo de intensa crise poltica, social e cultural que se 
processa entre a Restaurao e as reformas de Pombal.


Embora includa no sistema do imprio da Casa da ustria, tal como o descrevemos no 
incio desta Introduo, a realidade portuguesa apresenta alguns caracteres 
especficos j antes da Restaurao.

Com efeito, a colonizao brasileira, o comrcio transatlntico do acar, do tabaco, 
do pau-brasil, alm do contrabando da prata peruviana, o asiento (ou trfico de 
negros africanos para a Amrica do Sul) e a incrementada exportao do sal, 
sustentaram e desen-

4. - POCA - POCA BARROCA                                                           
     461

volveram a burguesia comercial, ligada a uma rede mundial de comrcio constituda, 
como

vimos, por *cristos-novos+ emigrados. Muitas linhagens fidalgas encontram uma 
soluo para as suas dificuldades no cruzamento matrimonial com famlias de cristos-
novos, outras no comrcio aucareiro. Nos colgios jesutas, sobretudo no de Santo 
Anto em Lisboa e no Colgio das Artes de Coimbra, e depois nas universidades, 
sobretudo na

de Coimbra (que desde D. Joo III perdeu muitos privilgios a favor da de vora, 
inteiramente jesuta, e do Colgio das Artes), muitos filhos da burguesia, em grande 
parte cristos-novos, alcanam o acesso  alta convivncia, apesar das terrveis 
revoadas de represso inquisitorial.

Com estas circunstncias, e tambm com a resistncia popular espontnea  
castelhanizao forada, se relaciona a produo, em todo o perodo filipino, de uma 
intensa literatura oral ou manuscrita, e por vezes impressa, de oposio 
antifilipina, desde as

stiras clandestinas atribuveis aos dois Rodrigues Lobo, at aos pasquins eborenses 
da sublevao rural e urbana do Sul do Pas em 1637, assinados com o nome de 
Manuelinho: so coplas, romances, cartas, dilogos, entremezes, actas supostas de 
cmaras municipais mais sertanejas, etc. Este gnero de literatura prolonga-se para 
alm da Restaurao, em denncias constantes das conspiraes de certos altos 
aristocratas e clrigos contra D. Joo IV, e intervm mais tarde nas intrigas em 
torno dos comandos militares, da corrupo burocrtica, da questo judaica, do golpe 
de Estado de Castelo Melhor, etc. (Cartas ou Testamentos escritos por Miguel de 
Vasconcelos no Inferno, a Catstrofe e a Anti-Catstrofe sobre D. Afonso VI e os 
outros numerosos panfletos citados, por exemplo, em Monstruosidades do Tempo e da 
Fortuna, dirio redigido sobre acontecimentos de
1662 a 1680). A obra-prima desta literatura panfletria annima  a Arte de Furtar, 
que estudaremos. J muito anteriormente corriam as cpias das Trovas de Bandarra, 
sapateiro de Trancoso condenado pela Inquisio em 1541, que foram interpretadas em 
sentido messinico e especialmente sebastianista e anticastelhano, e pela primeira 
vez impressas em 1644 em Nantes.


H outras manifestaes de uma certa ascenso da classe mdia desde fins do sculo 
XVI. A exaltao do idioma e a intensificao do seu estudo gramatical, a 
multiplicao de compndios de histria nacional, de elogio aos antigos reis 
portugueses, as reedies sucessivas d'Os Lusadas e das Rimas de Cames, uma srie 
de comentaristas camonianos e de poemas picos que sucedem desde D. Sebastio, se por 
vezes reflectem mais particularmente um pattico preconceito da linhagem (caso das 
epopeias), correspondem em geral a um sentimento nacional de resistncia, assente 
principalmente na burguesia comercial e togada, nos grupos urbanos; a isto acrescem o 
descontentamento geral ( medida que a crise final do regime filipino intensifica a 
explorao tributria e a mobilizao militar), que atinge artfices e camponeses, as 
esperanas de tolerncia futura para a minoria designada com o nome de *Cristos-
Novos+, as preocupaes da Companhia de Jesus, atingida na sua expanso ultramarina 
pela Guerra dos Trinta Anos e consequente expanso  custa das possesses 
portuguesas, e finalmente a desiluso de uma

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parte da nobreza, preterida na corte madrilena por estrangeiros ou por funcionrios 
de origem menos ilustre e, por isso, mais submissos aos ministros filipinos. A 
Epanfora de D. Francisco Manuel de Melo sobre as Alteraes de vora, que  talvez o 
mais interessante livro de memrias e historiografia escrito na poca da Restaurao, 
entremostra-nos muitos dos aspectos desta dinmica social portuguesa, em que as 
correntes e contracorrentes mudam por vezes de sentido (o descontentamento da nobreza 
e dos cristos-novos,

sob os Filipes, so entre si colidentes).

As minas do Brasil e o apogeu do Barroco em Portugal

A burguesia lisboeta, portuense e de outros portos, embora desenvolvendo-se durante o 
sculo XVII e parte do sculo XVIII, tem de vencer grandes obstculos antes de poder 
ocupar posies dominantes na cultura e na vida pblica. 0 grosso da produo 
literria continua durante longo tempo a ser de origem clerical, como veremos; as 
mais notveis personalidades literrias da Restaurao, incluindo D. Francisco Manuel 
de Melo, esto ainda modeladas pela Retrica das escolas jesutas e pela cultura 
barroca peninsular, embora acusem j reaces a problemas novos. A luta entre a velha 
ordem nobilirquica, apoiada na represso inquisitorial, e as novas foras de 
mentalidade burguesa trava-se sob roupagens estilisticamente barrocas. A corte 
brigantina, onde Rodrigues Lobo sonhara ver

ombrear a aristocracia de sangue com uma burguesia letrada, no pode considerar-se um

foco brilhante de mecenato literrio, deixando nesse aspecto o campo livre a uma 
srie

de academias, como a Academia dos Generosos (quer dizer dos aristocratas), que teve a 
sua maior actividade de 1660 a 1665, restringida quase s  alta nobreza e consagrada 
 metrificao e discusso de temas formalistas, por exemplo: *Qual seja mais aceite 
a

juzo dos homens, a virtude ou a formosura+. Outras altas personalidades seculares ou

eclesisticas reuniram academias de carcter literrio ou genericamente cultural, 
desde esta poca at meados do sculo XVIII, no s em Lisboa, mas tambm noutras 
cidades e vilas de Portugal e do Brasil; alm da dos Generosos, distinguiu-se a dos 
Singulares (1663-65), mas podem mencionar-se ainda a dos Annimos, a dos Ocultos, 
entre dezenas de outras mais ou menos efmeras.


Perseguida e dizimada no seu conjunto, a pretexto de judasmo, pela Inquisio e

pelas leis de *limpeza de sangue+, em grande parte forada  emigrao e  liquidao 
dos seus bens confiscveis (terras e indstria), assim como  transferncia para o 
estrangeiro de parte dos seus capitais, a burguesia portuguesa tende a ser 
exclusivamente mercantil. Com a ajuda dos Jesutas, consegue interessar a Coroa na 
formao de grandes companhias semelhantes s holandesas que haviam expulsado misses 
e fazendeiros portugueses do Maranho e do Oriente. Ensaios de economia, tais os de 
Lus Mendes de Vasconcelos (1608), Severim de Faria (1655) e Ribeiro de Macedo 
(1675), que defendiam uma poltica de fomento em moldes industriais burgueses e 
mercantilistas, s se traduzem em diplomas legais quando a concorrncia crescente das 
Antilhas afecta seria-

4. a POCA - POCA BARROCA                                                           
   463

mente o comrcio aucareiro do Brasil, cerca de 1670. Ento  que a burguesia, pelos 
representantes do Porto s ltimas cortes, as de 1697-98, faz ouvir o seu pensamento, 
condenando as extorses e arbitrariedades do funcionalismo e da justia, a 
concentrao dos bens imveis nas ordens religiosas, o luxo da aristocracia, o 
escoamento de moeda para o estrangeiro. 0 marqus de Fronteira e o terceiro conde de 
Ericeira, ministro de Pedro II, publicam ento pragmticas a favor das indstrias 
nacionais em 1677, 1688, e 1698; o 4. > conde de Ericeira, sugestionado pelo francs 
Bluteau, promove as Conferncias discretas e eruditas (1696) e remodela a Academia 
dos Generosos, em 1718, num sentido de interesse pedaggico e cientfico, que se 
prende com a necessidade de uma melhor preparao da nobreza e com os problemas 
tcnicos da tecelagem, da minerao e da agricultura moderna. Era talvez o esboo da 
dupla revoluo inglesa da enclosure e da industrializao, que mais tarde originar 
em Frana as doutrinas paralelas dos fisiocratas, ou agrrios, e dos plutocratas, ou 
industrial istas.

Mas a descoberta do ouro e dos diamantes do Brasil, o incremento das exportaes de 
vinhos (estabilizadas pelo tratado de Methuen em 1703) adiam de novo o problema 
econmico e social, propiciam o prolongamento e reajuste das formas barrocas em 
Portugal. No tempo de D. Joo V, com efeito, o ouro brasileiro repete os efeitos das 
especiarias de Quinhentos: a indstria, ainda mesteiral, definha (excepto em certos 
ramos sumpturios), no movimento comercial externo destaca-se a exportao visvel do 
ouro, como moeda cunhada ou por interpole (contrabando); emigram massas enormes de 
artfices e camponeses, sobretudo nortenhos; a burguesia prefere dedicar-se ao 
contrabando, aos contratos fiscais, ao comrcio externo, ao funcionalismo e s 
profisses liberais; o

orgulho de classe da aristocracia exacerba-se, enchendo os conventos de mulheres sem

casamento condigno, o que relaxa e mundaniza a disciplina monstica; enchem-se as 
rodas

de *expostos+ (enjeitados), e as portarias conventuais ou senhoriais nos dias de 
esmola

ou do caldo; a escolstica jesuta repele transigncias que ainda tinha em 1630 com a

mecnica, e torna-se sebenteira.


H a orgia do espectaculoso, dos efeitos artsticos redundantes e cumulativos; a 
pera de Metastsio, profusa de coros, bastidores e *tramias+ ; a arquitectura 
imponente e recheada inteiramente de talha ou mrmores variegados; procisses 
espaventosas, principalmente as de Corpus Christi, em que figuram inclusivamente 
alegorias mitolgicas; recepes solenes, faustosssimas, de embaixadores ou de 
prelados; autos-de-f copiosos, corri a pompa tradicional; touradas intrminas; 
coches monumentais.

Publica-se ento o mais extenso cancioneiro do barroquismo versejante, a Fnix

Renascida, que depois ser antologizada e actualizada sob o ttulo de Postilho de 
Apolo. Os ttulos dos livros so muito longos e pomposos. Em 1720 cria-se a Academia 
Real das Cincias, que, pelo culto da documentao, progride a historiografia 
seiscentista, mas reproduz na erudio a mesma ansiedade do monumental que D. Joo V 
herdou de Lus XIV.

No entanto, o quadro s ficar completo se tomarmos em conta um processo latente que 
vai gerar as caractersticas da poca seguinte. Na medicina, na balstica, na 
engenha-

464                                                 HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

ria, na cartografia, na astronomia, na minerao, na pedagogia, como na arquitectura, 
na pintura, na msica orquestral ou vocal, na cenografia, D. Joo V precisa de mandar 
vir estrangeiros, de consultar portugueses estrangeirados (incluindo cristos-novos), 
precisa mesmo de enviar portugueses a industriar-se no estrangeiro. Oratorianos e 
Teatinos, mais condescendentes com o esprito cientfico das sociedades ento 
aburguesadas, quebram o monoplio do ensino jesuta. Pelas fendas que se abrem nas 
necessidades mais clamorosas, penetra o ar de uma mentalidade antiescolstica e 
antibarroca. Pe-se agudamente o problema de como educar de modo mais til a classe 
dirigente. A baixa na extraco do ouro e noutros produtos coloniais, que se 
acentuar na 1. a metade do sculo XVIII, torna urgente um programa de fomento 
mercantilista.

Alguns homens mais actualizados, como Martinho de Mendona Pina e Proena, D. Lus da 
Cunha, Diogo de Mendona Corte Real, Alexandre de Gusmo, Ribeiro Sanches, Verney e 
outros, esboam j no reinado de D. Joo V o programa que o marqus de Pombal tentar 
levar a efeito.

BIBLIOGRAFIA

PARTE GERAL EUROPEIA

Braudel, F.: La Mediterrane et te Monde Mditerranen  1'poque de Philippe 11, 2 
vols., A. Colin, Paris, 3. > ed. 1976, trad. port. em 2 vols., Dorn Quixote, 1983-84; 
Civilizao Material e Capitalismo, trad. port., Cosmos, Lisboa, 1967.

Lebrun, Franois: Le XVII Sicle, 4. > ed., A. Colin, Paris, 1977. Hauser, Henri: La 
Prepondrance Espagnole (1559-1660), col. *Peuples et Civilisations+, Presses 
Universitaires, Paris.

Davies, R. Trevor: Spain in Decline (1621-1700), Nova lorque, 1957. Mousnier, Roland: 
Les XVI et XVII sicles, col. *Histoire Gnrale des Civilisations+, Paris, 1956.

Delumeau, Jean: Le Catholicisme entre Luther et Voltaire, P.U.F., Paris, 197 1.

Kriedke, P.: Feudalismo tardio y capitalismo mercantil, Barcelona, 1982. Tenenti, A.: 
La formacin del mondo moderno - Siglos XIV-XVII, Barcelona, 1985. Hespanha, A. M.: 
Histria das Instituies (pocas medieval e moderna), Almedina, Coimbra, 1982; As 
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Bennassar, Bartolom: La Espaa del siglo de Oro, Ed. Crtica, Barcelona, 1983.


PARTE CULTURAL EUROPEIA

Vejam-se os manuais de literaturas estrangeiras indicados no fim deste livro.

Hazard, Paul: A Crise da Conscincia Europeia, trad. portuguesa por scar Lopes, col. 
*Cosmos+.

4, POCA - POCA BARROCA                                                            
      465

Dilthey, Wilheim: Leibniz e a sua poca, trad, port. por A. E. Beau, Coimbra, 1947. 
Golcimann, Lucien:   Le Dieu Cach, ed. *N. R. F. +, 1955, e Racine, ed. *L'Arche+,
1956, Paris.

Hauser, A.: Histria Social da Arte e da Cultura, trad. port. por A. Candeias, 2. 0 
vol., Lisboa, 1955.

Chaunu, Pierre: La Civilisation de I'Europe Ciassique, Artchaud, Paris, 1964. 
Tournand, J.~C.: Introduction  Ia vie littraire ou XVII sicle, Bordas, Paris, 1970 
(com larga bibliografia classificada).  muito numerosa e controversa a bibliografia 
existente sobre o conceito de Barroco. J demos algumas indicaes a propsito do 
maneirismo.

Obras de informao sinttica:

Coutinho, A.: Bibliografia para o estudo da literatura barroca, Rio de Janeiro, 1951. 
Tapi, Victor-L.: Le Baroque, col. *Que sais-je?+.

Obras clssicas:

WIffiin, H.: Principes Fondamentaux de Uhistoire de Part, trad. francesa, Paris, 
1952. Sypher, Wylie: Four Stages of Renaissance Style, Nova lorque, 1955. Rousset, 
Jean: La Lttrature de 1'ge baroque en France: Circ et le Paon, Paris, 1954. 
Aiewyn, Richard: L'Univers du Baroque, col. *Mdiations+, Paris, 1959. Maravali, J. 
Antonio, La Cultura del Barroco, 1975, reed. Ariei, Barcelona, 1983. Sarduy, S.: 
Barroco, Seuil, 1975, trad. port., Vega, 1989. Deleuze, G.: Le Pli. Leibniz et le 
Baroque, Minuit, 1988.

Antologias francesas:

Dubois, Claude Gilbert: La posie Baroque, 2 vols., Larousse. Aliem, M.: Anthologie 
Potique Franaise, XVII sicle, 2 vols., Garnier-Fiammarion. Em perspectiva mais 
larga, Hatzfeid, H.: Estudios sobre el Barroco, trad. esp., 3. > ed. aum., Gredos, 
Madrid. Daz, Emilio Orozco: Manierismo y Barroco, Ctedra, Madrid. Carilia, E.: 
Manierismo y Barroco en Ias literaturas hispnicas, Gredos, Madrid.

PARTE GERAL PORTUGUESA

Corteso, Jaime: A Economia e a Geografia da Restaurao, comunicao feita ao 
Congresso do Mundo Portugus, e editada em Lisboa, 1940; Alexandre de Gusmo e

o Tratado de Madrid, Parte 1, Tomo 1, Rio de Janeiro, 1952.


Veioso, J. M. Queirs: A Dominao Filipina, in *Bibios+, v. VI (1930), pp. 385-410. 
So ainda de grande importncia os livros de Joo Lcio de Azevedo, sobretudo pocas 
de Portugal Econmico, Lisboa, 1928, 4. > ed. 1978, Histria dos Cristos-Novos 
Portugueses nos sculos XVII e XVIII, 1860-71, de Rebelo da Silva, 2. ed., 1971, IN-
CM, com introd. de J. Borges de Macedo. Todavia convm actualiz-los, no apenas com 
os

livros de Jaime Corteso, mas com outros trabalhos de investigadores mais recentes, 
de que se pode ler uma boa sntese nos artigos de Vitorino Magalhes Godinho sobre

HLP - 30

466                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

a Craco e dinamismo do mundo atlntico e sobre Portugal, as frotas do acar e do 
ouro, publicados em *Vrtice+, n.11 92 a 94 (Abril a Junho de 195 1), e includos em 
Ensaios, 2, 1968, juntamente com 1580 e a Restaurao, excelente sntese, com 
bibliograf ia. Do mesmo autor: Portugal ano his Empire, 1648-1720, in New Cambridge 
Modem History, vol. V, 1961, pp. 384-397, e VI, pp. 509-540; Os Descobrimentos e a 
Economia Mundial, 2 vols., Lisboa, 1963- 7 1; e A Estrutura da Antiga Sociedade 
Portuguesa,
4. > ed., Arcdia, Lisboa, 1980 (contm antologia de testemunhos econmico-sociais). 
Ver ainda:

Frana, Eduardo de Oliveira: Portugal na poca da Restaurao, So Paulo, 195 1. 
Serro, Joel: Em tomo das Condies Econmicas de 1640, in *Vrtice+, n.@ 90 e 91, 
Fev. e Maro 1951, e pref. da ed. de Alteraes de vora, Lisboa, 1967.

Mauro, Frdric: Le Portugal et PA tlan tique au X V11 sicle, 1570-1670, Paris, 
1960; tudes conorniques sur l'Expansion Portugaise, F. C. Gulbenkian, Paris, 1970; 
e Le Portugal, le Brsil et l'Atlantique au XVII scle, Centro Cultural Portugus, 
Paris, 1983.

Torgal, Lus Reis: Acerca do significado sociopoltico da *Revoluo de 1640+, in 
*Revista de Histria das Ideias+, 6, Coimbra, 1984, pp. 301-344.

Coelho, Antnio Borges: A Inquisio de vora, 2 vols., Caminho, 1987.
0 pensamento economista portugus da poca pode ser conhecido atravs da Antologia 
dos economistas portugueses, sculo XVII, sel., pref. e notas de Antnio Srgio, 
Lisboa, 1924, reed. 1975, e por Da indstria portuguesa do Antigo Regime ao 
Capitalismo, antologia org. por Joel Serro e Gabriela Martins, com pref. do 
primeiro, Horizonte Universitrio, Lisboa, 1978.

PARTE CULTURAL PORTUGUESA

Saraiva, Antnio Jos: Histria da Cultura em Portugal, vols. 11 e 111; Sobre o 
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Cidade, Hernni: Lies de Cultura e Literatura Portuguesa, 1. > vol., Lisboa, 1981 
(10. > ed., corr. e aum.); e Lies de Cultura Luso-Brasileira -  poca e Estilos, 
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Santos, Reynaldo dos/Macedo, Diogo de: Histria da Arte em Portugal, vol. 111, Porto,
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4. - POCA - POCA BARROCA

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Para o estudo da mentalidade geral portuguesa no sculo barroco e do seu aparelho 
repressivo: Feiticeiros, profetas e visionrios, coleco de documentao 
inquisitorial sobre crendices nos sculos XVI a XVIII, selec. por Yvonne Cunha Rego, 
IN-CM, 1981; Histri.a dos Principais Actos e Procedimentos da Inquisio em 
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Cuesta, Pilar Vsquez: A Lngua e a Cultura Portuguesa no tempo dos Filipes, Europa-
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Revista de estudos sobre o Barroco portugus: *Claro-Escuro+, dirigida por Ana 
Hatherly, ed. Quimera, Lisboa, n. > 1 1988, n. > 2/3 1989 (sobre a cultura no reinado 
de D . Joo V), n. 0 4/5, 1990, sobre Barroco e Neo-Barroco, com um inqurito sobre a 
conceptualizao actual do Maneirismo e Barroco; na Universidade Nova de Lisboa foram 
feitas em 1990 cinco dissertaes de mestrado sobre temas do Barroco portugus, e 
esto em curso de preparao outras dissertaes de mestrado ou de doutoramento sobre 
temas afins.

Captulo II

D. FRANCISCO MANUEL DE MELO

Nascido em Lisboa no mesmo ano que Antnio Vieira, D. Francisco Manuel de Melo (n. 
1608-11-23 - t 1666-08-24)  em Portugal a personificao mais acabada da cultura 
aristocrtica peninsular na poca da Restaurao.

FRANCISCO MANUEL DE MELO: Vida e obras

Ligado pelo sangue s casas reais das Espanhas, e ainda mais de perto  casa de 
Bragana, seguiu a carreira reservada  primeira ordem da nobreza do tempo. Aprende 
na Corte, at aos dez anos, as prendas da sua condio de moo fidalgo destinado a 
subir aos sucessivos graus de escudeiro, fidalgo e cavaleiro-fidalgo: hipismo, 
esgrima, dana, primeiras letras; estuda depois no colgio jesuita de Santo Anto, 
onde se distingue particularmente nos estudos matemticos, isto , mais exactamente, 
nas disciplinas afectas s artes da chefia militar e nutica, e onde adquire uma 
vasta erudio classicista, a que no faltam uma luzes de lngua hebraica; presta nas 
armadas espanholas o servio de cinco anos que ento normalmente precedia o acesso ao 
grau de cavaleiro e a obteno da tena e privilgios inerentes a uma comenda das 
ordens militares. 0 mais importante episdio desta fase da sua carreira  o naufrgio 
da armada comandada por D. Manuel de Meneses em S. Jean-de-Luz (1627), de que redigiu 
mais tarde o vvido relato testemunhal na Epanfora Trgica.

Depois, e at 1638, o servio nas armadas ou no recrutamento militar alterna com a 
vida de corte madrilena, ento a mais luzida da Europa. 0 teatro espanhol atingia o 
seu apogeu, apoiado na proteco de Filipe IV: a Lope de Vega, no final da sua 
carreira, sucedia a consagrao de Tirso de Molina, Ruiz de Alarcn, Zorrilla e 
sobretudo Caldern, as companhias de actores multiplicavam-se, erguia~se o primeiro 
edifcio teatral de

470                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

novo estilo italiano em concorrncia com os antigos corrales;  influncia dominante 
de Gngora, recm-falecido, acrescia a de Francisco de Quevedo e, entre as intrigas 
do Mentidero, provavelmente as rixas, duelos, aventuras galantes, a vida flainante de 
sesses teatrais, touradas, jogos de canas, autos-de-f, procisses, etc., publica os 
seus primeiros versos lricos  moda gongrica e, como muitos outros, escreve 
comdias, novelas, e provavelmente stiras, de que se perderam os textos.

Os motins de vora de 1637 enredam-no na complicada intriga que, a propsito dos 
novos tributos exigidos pelo conde-duque de Olivares, valido de Filipe IV, e das 
consequentes insurreies populares no Alentejo e no Algarve, se travava entre os 
magistrados, prximos da massa rural; a nobreza e o clero, hesitantes entre apoiar 
reivindicaes do seu interesse ou obter as vantagens duma mediao; certos 
ambiciosos da pequena nobreza empenhados, como o conde-duque, em comprometer a alta 
fidalguia; e esta ltima, sobretudo o duque de Bragana, procurando defender as suas 
posies sem se arriscar, pelo menos de momento. D. Francisco, que ento representava 
o duque na corte espanhola,  enviado a secundar uma tentativa conciliadora do conde 
de Linhares, votada propositadamente ao fracasso pelo conde-duque, e consegue salvar 
da desconfiana e provavelmente da represso o grupo a que est ligado. De tudo isso 
nos dar testemunho na Epanlbra Poltica.

Abortada facilmente a sublevao popular, merc da absteno da nobreza, D. Francisco 
dirige uma das operaes de alistamento de tropas portuguesas que ento se fizeram 
para a guerra dos Trinta Anos. Participa com o seu regimento numa srie de combates 
contra os Holandeses, desde o embarque na Corunha at ao desembarque na Flandres. Na 
Epanfora Blica deixou-nos uma descrio minuciosa de todas essas operaes (Agosto 
e Setembro de 1639), bem como da derrota naval que a armada espanhola sofreu 
entretanto na costa inglesa das Dunas.

A revolta da Catalunha em Maio de 1640, cujo desenvolvimento lembra muito a do 
Alentejo de 1637, embora complicada pela interveno francesa, parecia abrir uma nova 
e prometedora fase  carreira de D. Francisco Manuel, pois que foi nomeado primeiro-
ajudante do marqus de los Veles e encarregado de assim dirigir efectivamente a 
represso. Os sucessos em que toma parte so descritos na sua Ilistoria de Ios 
Movimientos y Separacin de Catalufia (obra considerada clssica na historiografia 
castelhana do tempo), at ao momento em que a Restaurao portuguesa lhe faz perder a 
confiana do conde-duque. Acusado de, pelo menos, ter encoberto os desgnios da alta 
nobreza portuguesa quando dos acontecimentos de trs anos antes, vive quatro meses na 
priso. 0 seu comportamento nestes meses e nos dois seguintes parece indicar um firme 
propsito de continuar a fazer carreira sob a coroa espanhola, mas, chegado a Londres 
em Julho de 164 1, adere a D. Joo IV e  encarregado de, como general da armada, 
trazer da Holanda ao Tejo uma frota de 44 navios com auxiliares holandeses e 
munies.


Presta depois diversos servios cuja subalternidade contrasta singularmente com os

seus mritos provados, e em Novembro de 1644  preso como conivente num assassnio.

4. - POCA - POCA BARROCA                                                           
   471

Viveu pelo menos quatro anos sob priso, na Torre de Belm, na Torre Velha da Outra 
Banda ou no Castelo de Lisboa, com alternativas de recluso severa e de simples 
residncia fixa sob menagem, como competia alis  sua categoria de comendador da 
Ordem de Cristo, ora preparando uma grande parte do esplio literrio que deixou, ora 
lutando quer pela reabilitao e liberdade, atravs das sucessivas instncias do 
julgamento, quer pelo indulto ou comutao da pena em degredo para o Ultramar. De 
estranhar  que, apesar de numerosas diligncias, incluindo dois memorais ao rei, 
todos repassados de eloquncia, e de uma intercesso pessoal de Lus XIV, o mais que 
conseguiu foi partir degredado para o Brasil (1655).  falta do processo, tem-se 
recorrido, para explicar o

caso, s tradies linhagistas, que ora aludem a um romance amoroso complicado pela 
rivalidade de D. Joo IV, ora possveis desconfianas deste relativamente  lealdade 
do fidalgo.

A sua estadia de quase trs anos na Baa - *paraso de mulatos, purgatrio de brancos 
e inferno de negros+ -  aproveitada para restaurar a sua abalada situao financeira

com o negcio do acar e para continuar a escrever. Os Holandeses haviam sido 
definitivamente batidos pouco antes. 0 conhecimento local das condies da luta 
permitiu a

D. Francisco escrever sobre tal assunto a Epanfora Triunfante.

Em 1658, infringindo a condenao ao degredo, certamente com o apoio de amigos 
influentes que tinha na Corte, embarca para a Metrpole, onde o golpe de Estado de 
Castelo Melhor em 62 lhe abrir as portas a uma nova carreira, a diplomacia. 
Entretanto toma parte nas sesses da Academia dos Generosos, com discursos e poesias 
adequadas ao gosto arrebicado deste rgo da aristocracia aliteratada. As suas 
diligncias diplomticas, relacionadas com os problemas do casamento do novo rei, do 
apoio pontifcio e

talvez do auxilio financeiro dos cristos-novos exilados, em troca da tolerncia 
religiosa, levam-no entre 63 e 66 a Londres, Paris, Roma e outras cidades. A estadia 
na corte inglesa, no squito portugus da rainha D. Catarina de Bragana, casada com 
Carlos II, deu-lhe o ensejo de escrever textos versificados para canto e dana, ao 
gosto do bucolismo barroco. Quando em 1666 regressa definitivamente, v-se elevado ao 
cargo de deputado da Junta dos Trs Estados, mas morre ainda nesse ano.

FRANCISCO MANUEL DE MELO: Esplio literrio

No  apenas pela sua larga experincia que D. Francisco Manuel se


pode considerar tpico representante da sua classe na poca, pois o seu legado 
literrio permite classific-lo como um dos polgrafos peninsulares que mais variadas 
facetas apresentam a exame. Alis, pelo bilinguismo como pela sua biografia, D. 
Francisco pertence a ambos os principais patrimnios da Pennsula.

As suas produes lricas, editadas integralmente em 1665 (Obras Mtri~

472                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

cas) e classificadas,  maneira das de Francisco de Quevedo, em nove

partes, cada qual sob a invocao de urna das nove musas, abrangem quase todos os 
gneros ento cultivados na Pennsula e acolhem as principais escolas poticas 
dominantes na literatura espanhola, pretendendo mesmo realizar uma

sntese delas. Desse conjunto, onde se agrupam poesias que o autor vinha publicando 
desde 1628, s As Segundas Trs Musas so escritas em portugus.

Mencionmos j alguns dos seus trabalhos de historiografia: as Epanforas e os 
Movimientos de Catalufia. As Epanforas, ou relaes histricas, so na realidade 
cinco, mas pode ser considerada  parte a Epanlbra Amorosa, documentvel mas de 
estilo mais novelesco, narrativa do descobrimento da Madeira por um par amoroso 
ingls (Roberto Machin e Ana de Arfet), com uma tica pedante do amor, e curiosas 
reflexes acerca da saudade portuguesa. Conhecem-se ttulos de vrias novelas suas. 
H ainda a considerar

Teodsio, uma biografia de Teodsio 11, duque de Bragana, incompleta e

s publicada em 1944, e Tcito Portugus, biografia incompleta de D. Joo IV, alm de 
outras obras congneres perdidas ou de menor importncia.

Publicou em castelhano um tomo de Obras Morales, que inclui, alm de temas de, 
meditao asctica, uma vida de S., Agostinho e outra de S. Francisco de Assis. Em 
Portugus redigiu os Aplogos Dialogais, que, entre trs textos de crtica de 
costumes (Relgios Falantes, Escritrio Avarento, Visita das Fontes), contm o 
Hospital das Letras, a primeira reviso crtica geral de autores literrios antigos e 
modernos que se conhece na nossa lngua. Quando preso, D. Francisco Manuel chegou a 
dirigir uma circular Aos vares doutos de Portugal a fim de que colaborassem num seu 
projecto de Biblioteca Lusitana de Autores Modernos, isto , numa bibliografia geral 
como a que Diogo Barbosa Machado realizar um sculo depois; e projectou tambm um 
Parnaso Potico Portugus, que deve ter inspirado a edio da Fnix Renascida, 
coligida pelo editor das suas obras pstumas e sob um

ttulo que o texto de D. Francisco sugere. Entre os seus escritos moralistas, muitos 
dos quais se perderam,  sem dvida o mais conhecido a Carta de Guia de Casados (14 
edies at ao sculo XX).

Alm de diversos memoriais relativos  sua priso ou a vrias pretenses, dirigidas 
sobretudo a Filipe IV e D. Joo IV, notveis (os que chegaram at ns) pela sua 
apaixonada eloquncia, escreveu numerosas outras

4. - POCA - POCA BARROCA                                                  473

obras apologticas, quer a favor dos privilgios da nobreza contra a tributao 
filipina, quer a favor da Restaurao. As matrias polticas foram sempre, como as 
militares, da sua muito especial predileco (Poltica Militar, edio 1638, Aula 
Poltica, Cria Militar, edio 1720; e outras obras que se perderam).

Para o teatro, entre diversas comdias, quase todas perdidas, escreveu o Auto do 
Fidalgo Aprendiz (1665), que estudaremos no captulo referente ao teatro.

Publicou ainda cinco centrias de Cartas familiares (1664), seleccionadas e apuradas 
entre muitos milhares, omitindo, infelizmente, aquelas que trassem sigilo pessoal ou 
poltico. Acrescente-se a esta bibliografia sum ria um Tratado da Cincia Cabala 
(edio 1724) e a Feira de Anexins (edio 1875), e entender-se- a razo por que, 
numa autocrtica no Hospital das Letras, ele diz: *quantas horas vivo como escrevo+.

fflIderio de D. Francisco Manuel

Com a sua educao jesuita e corts, a sua carreira e os seus dotes naturais, D. 
Francisco Manuel realizou o tipo humano do aristocrata de sangue e de esprito, agudo 
e pronto de engenho, um tanto aventureiro e superficial, conversador, galante, 
curioso mas temeroso de inovaes fundamentais, tipo que as cortes latinas na poca 
designam de discreto e a inglesa de Wit. As viagens, a vida madrilena, as imensas 
leituras, a ansiedade pelas novidades literrias que as cartas revelam fizeram dele 
um aristocrata cosmopolita (*entre os sbios no h naes+, repete vrias vezes), 
exmio em

todas as prendas da fidalguia. D. Lus de Meneses, como ele o descreve na Epanfora 
Trgica, a ler-lhe um soneto de Lope num navio em pleno temporal desfeito, parece 
constituir o paradigma da sntese ideal, tentada por D. Francisco, entre a coragem 
militar e o academismo literrio. Detestava a vida do campo, que s aconselha em 
determinadas fases da vida, para reconstituir as finanas familiares e criar os 
filhos na primeira infncia, ou ento

para morrer, aprovando o dito de um corteso de que *todo o homem que estava vinte e 
quatro horas fora de Lisboa se convertia em alimria@>.

Este cosmopolitismo e aristocratismo fundamentais tm os seus temperos, no entanto. 
D. Francisco viveu a Restaurao, e por isso vemo-lo escrever apologias do regime 
brigantino e pginas de exaltao das glrias literrias

474                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

nacionais, de que - j vimos - fez um balano crtico e tentou fazer a antologia e a 
bibliografia. Por outro lado, acompanhando a esttica peninsular, no seu sentimento 
de desequilbrio e frustrao, no seu rebusque de contrastes, que se d ares de 
regressar s tradies populares nacionais (por exemplo, como o primeiro estilo de 
Gngora, os esfarrapados de Velsquez ou

Murillo), D. Francisco Manuel procura manter na sua prosa um sabor arcaico e 
popularizante, este ltimo sobretudo e confessamente a partir da Carta de Guia de 
Casados.

No se trata, alis, de simples questo de gosto. D. Francisco , em muitos

aspectos, um conservador que no fundo sente a nostalgia de um passado j anterior ao 
absolutismo rgio. Da a sua simpatia por S de Miranda, esse

velho dissidente da mercantilizao, de cujas quintilhas sentenciosas, j muito 
conceptistas pelo subentendimento subtil dos nexos lgicos mais evidentes,  o 
principal imitador antes de Tolentino. 0 levantamento de vora de 1637 foi, segundo 
ele, uma reaco contra o incompetente funcionalismo de legistas e filhos da 
burguesia que, desde D. Joo 11, afastara a nobreza do seu natural papel de 
medianeira entre o rei e os povos.

No entanto,  falta de melhor, D. Francisco acomoda-se bem s circunstncias do seu 
tempo. D uma grande importncia  teoria poltica, como

o revela, no s o ter-lhe dedicado vrios livros mas tambm a farta bibliografia de 
tal matria mencionada e apreciada no Hospital das Letras; *se o

homem  a mais nobre cousa do mundo,  tambm mais nobre aquela faculdade que  sua 
conservao se dirige+, diz da poltica.  em grande parte sob o ponto de vista 
poltico que aprecia no Hospital numerosssimos preceptistas de reis, os 
historiadores, os gazetistas e at os pregadores *quando arrastam pelos cabelos os 
lugares santos e interpretaes piedosas da Escritura Sagrada, por os fazer cmplices 
de seu capricho+. Critica o maquiavelisnio, o puro arbtrio rgio e a excessiva 
ateno que os reis ou os seus ministros (exemplificadamente, Filipe IV e o Conde-
Duque, e talvez, de modo velado, D. Joo IV) concedem s artes,  poesia, s intrigas 
de ulicos e

at s devoes. Este moralismo restringe-se  esfera individual e poltica, porque, 
socialmente, D. Francisco considera males necessrios a prostituio, a bastardia, a 
roda de enjeitados, a desigualdade de classes.

No Escritrio Avarento, depois de denunciar numerosas podrides sociais atravs da 
autobiografia picaresca de duas moedas (uma de alto curso e outra

4. - POCA - POCA BARROCA                                                 475

de troco mido), depois de mostrar a omnipresena do dinheiro, com que se *compra o 
sol antes que amanhea+ e se *consertam as coroas+, depois de apresentar as moedas 
(cada uma das quais * um deus+) como smbolos mitolgicos e ilusionistas de um mundo 
em que *peixe grande papa peixe pequeno+ e em que h guerras s para os grandes se 
governarem melhor depois de tudo isto, tira uma concluso conformista. 0 dinheiro 
nada teria de mau em si mesmo, seria simples conveno instituda por *universal 
beneplcito+ desde o momento em que o crescimento da populao e dos seus apetites 
teria, por si s, impossibilitado a primitiva comunidade de bens. Uma vez criadas as 
desigualdades sociais (que D. Francisco no pe em

causa), o dinheiro, *em vez de fomentar, modera+ os apetites, e rege assim o concerto 
social como o compasso rege a sinfonia, porque *dispondo como os poderosos soem mais 
e mais depressa, e sejam melhor ouvidos, e sumindo

as vozes do povo pequeno, guarda o mundo aquela ordem de que resulta a suprema 
harmonia+. 0 que era necessrio era que as diversas classes sociais

funcionassem como os alcatruzes de uma nora, fazendo cair a gua (o dinheiro) do 
cheio ao vazio, at vir fecundar a terra (o trabalho). A seu ver, os bens

cairiam do alto da escala social, em vez de subirem at l do trabalho da massa 
humana. Mas a teoria feudal das benfetorias, que o infante D. Pedro

expusera no sculo XV, aburguesa-se: a cascata das benfeitorias transforma-se

na cascata do dinheiro fecundante. J no se fala (como D. Pedro o fazia

na Virtuosa Benfetoria) na origem divina das riquezas. Para D. Francisco Manuel de 
Melo, o nico mal consistiria na avareza, que interrompe essa

queda fecundante, transformando o dinheiro de meio legtimo em fim vicioso:

* ... se os ricos gastassem e os pobres merecessem, brevemente viriam todos a 
conseguir, sobre o cmodo, a igualdade+. Repare-se que o dinheiro est

aqui justificado, no apenas como meio de troca e padro de valor, mas tambm na sua 
funo de capital, isto , naquela sua acumulao que permite comprar tambm o 
trabalho alheio; e D. Francisco mostra-se optimista quanto ao equilbrio necessrio 
entre a oferta e a procura, extensivo a esta mercadoria especial que  a fora de 
trabalho, - desde que a circulao monetria no pare. Esta simbiose da exalta o 
aristocrtica do gasto, ou liberalidade, com a apologia do capital mostra como D. 
Francisco Manuel, fidalgo e negociante de acar ao escrever disto, se adaptava bem 
s novas condies sociais. Compare-se esta posio com a do contemporneo Francisco 
de

476                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Quevedo, que, em plena decadncia da Espanha cavaleiresca, excomungava o dinheiro 
como se ele fosse o maior inimigo teolgico dos homens.

Em relao  mulher casada, D. Francisco preconiza uma tal preponderncia do marido 
que j no tempo parece ter escandalizado as leitoras, embora fosse ento proverbial a 
recluso e dependncia impostas s senhoras e filhas

pelos maridos portugueses: *0 marido tenha as vezes de sol em casa, a mulher as da 
lua. Alumie com a luz que ele der+. Todas as aventuras amorosas dos jovens fidalgos 
solteiros so para ele naturais, como que fazem parte do seu

decoro. Mas a mulher passa da tutela dos pais para a tutela ainda mais cauta e 
suspicaz do marido, que pode ser bastante mais velho, para a educar como segundo pai; 
deve viver em recluso completa, inclusivamente com a capela em casa, se possvel, 
sem confidentes, sem criadagem da sua confiana pessoal, vigiada estreitamente nas 
suas relaes e despesas, sem cultura literria ou artstica, embora D. Francisco a 
no julgue muito menos dotada de

esprito que o homem (ou at por isso mesmo). 0 problema das relaes matrimoniais 
parece ter sido obsessivo no nosso autor (que alis no chegou a casar-se, embora 
deixasse um filho e uma filha), porque, alm da Carta de Guia, lhe dedicou uma cloga 
moral e vrias cartas.

Os problemas das relaes entre os dois sexos e em particular os do casamento so, 
como se sabe, largamente debatidos na Idade Mdia e do lugar a uma literatura 
polmica que se intensifica no sculo XVI. Humanistas como Luis Vives e Erasmo 
reagiram contra antigos preconceitos judaico-cristos sobre a inferioridade e malcia 
das mulheres. A obra mais clebre sobre o assunto  a Perfeita Casada (1583), de Frei 
Lus de Leo. Quanto a Portugal, mencionmos j as duas verses do Livro das Trs 
Virtudes, ou Espelho de Crstina, impressa a segunda em 1518, obra de orientao 
feminista. Em
1540 o juiz de Entre Douro e Minho, Joo de Barros, homnimo e contemporneo do 
historiador, publicou o Espelho de Casados, que foi por sinal a primeira obra 
impressa no Porto, que se saiba. Segundo o modelo escolstico, argumenta contra e 
depois a favor do matrimnio, rematando por definir em que condies o casamento  
desejvel. Decalca diversos tratados em latim, principalmente uma Silva Nuptialis 
(1516) do francs Nevizan, do qual s se afasta para seguir outras fontes, e ento 
atenua-lhe o antifeminismo (Barros  notavelmente tolerante quanto a pecados das 
mulheres); com o seu picante goliardesco, narra~nos um ou outro caso de seu 
conhecimento pessoal. Em 1557, como hornenagem  rainha D. Catarina, foi publicado um 
livro de apologia das mulheres, que tambm no prima pela originalidade: Dos 
Privilgios e Prerrogativas que o gnero feminino tem, pelo licenciado Rui Gonalves.

Em 1630, mais de vinte anos antes da Carta de Guia de Casados, e por sinal com


um soneto elogiativo de D. Francisco Manuel entre outros, Diogo de Paiva de Andrade,

4.2 POCA - POCA BARROCA                                                            
 477

sobrinho do telogo seu homnimo que se distinguiu no concilio de Trento e filho do 
cronista e poeta Francisco de Andrada, publicou o seu Casamento Perfeito. Este  um 
tratado moralista que versa o assunto por forma sistemtica, dedutivamente abstracta, 
enquadrando um anedotrio de casos de citao livresca numa tica de sabor 
aristotlico-tomista, segundo a qual a virtude est na proporo e no meio-termo: nem 
muito amor nem pouco, nem confiana nem desconfiana, etc. D. Francisco Manuel trata 
o assunto

de um modo mais livre, emprico e corrente que os seus dois precursores portugueses, 
embora exprima um grande conservadorismo domstico, que alis durante sculos 
caracterizou o nosso pas.

Sob o ponto de vista filosfico-religioso, D. Francisco apresenta os estigmas da 
poca barroca peninsular. Formado dentro da escolstica jesuta, conserva dela 
vestgios at na subtileza abstracta com que pratica certas classificaes, 
distines e articulaes dos assuntos. Pela boca de Lipsio no

Hospital das Letras, fala de Aristteles como o *morgado da sabedoria+ que *assenta+ 
as questes, e pela de Quevedo aceita ali o argumento da autoridade e proclama-se *de 
candeas s avessas+ com Descartes. Enganar-se-ia, contudo, quem o supusesse de uma 
ortodoxia monoltca. Em D. Francisco Manuel espelha-se tambm a inquietao do 
Barroco contra-reformista, que se manifesta sobretudo pela distoro e dinamismo das 
formas estticas e literrias, mas tambm por uma atitude inquisitiva de curto 
flego, receosa, multiformemente desassossegada. D. Francisco menciona, sem um sinal 
de reprovao, alm das concepes astronmicas de Ticho Brahe, as de Coprnico, 
sendo certo que o heliocentrismo s um sculo depois deixou de ser condenado 
oficialmente pela Igreja.  curiosidade, em vrias cartas manifestada, a respeito do 
que se publica e discute em Itlia, Frana ou Pases Baixos, e  sua inclinao para 
as matemticas no podia passar despercebido o mecanicismo cientfico do seu tempo, 
como no passaram despercebidos Jean Bodin e outros polticos heterodoxos. Ele 
prprio faz um enigmtico acto de contrio sobre *maus pensamentos que [diz ele] 
algum dia tive de poltica+. Em diversos passos e a vrios propsitos pe reservas 
aos

antigos, exalta a maior experincia dos modemos, atitude frequente nos contemporneos 
espanhis mas nem por isso menos significativa, e, como alguns franceses do fim do 
sculo, proclama o progresso contnuo, em nome do princpio de conservao das 
energias criadoras da natureza e de Deus. Nota, antecipando-se aos romnticos, que 
*os gostos variam com os tempos+ C que *Impossvel  lograr uma estimao eterna+.

478                                         HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

H pequenos esboos de atitude ensastica em certas obras, sobretudo desde que se 
decide pelo estilo corrente na Carta de Guia, onde principia tambm a criticar a 
erudio e a dizer-se enfastiado da *mquina de Gregos e Romanos+ dos que *charnamos 
doutos+. Tal crtica da imitao servil dos antigos clssicos pode, alis, incluir-se 
entre os aspectos dinmicos do Barroco peninsular e ligar-se ao gosto picaresco e 
terrants que nele por vezes

se descobre. E, apesar do seu aristotelismo, do seu culto escolstico da autoridade, 
foi um dos primeiros, se no o primeiro escritor portugus, que saibamos, a usar o 
pejorativo *amenista+ para designar os que dizem *amen+

 opinio corrente.

0 seu Tratado da Cncia Cabala, alis *corrigido+ pela censura do Ordinrio, mostra-
o interessado, embora superficialmente informado, nas cincias ocultas, que alis, 
como j vimos, interessam outros espritos cultos do tempo. A priso prolongada, por 
outro lado, produziu-lhe um abalo psicolgico, um sentimento de falncia que se 
traduziu, no apenas pelo claro-escuro melanclico, quantas vezes ironicamente 
melanclico, de certas cartas e poesias, mas ainda por um desassossego de matriz 
religiosa. Como a

Cames, choca-o o desconcerto do mundo, que exprime pelas imagens da cabra-cega ou de 
um jogo de meninos, em duas impressionantes cartas em verso (a VI e a IX da Sanfonha 
de Euterpe, nas Segundas Trs Musas). A soluo platnca-mstica a que chega (Canto 
da Babilnia, carta V, ibidem) tem em D. Francisco um aspecto curioso, que  o de 
conduzir a um fortssimo sentimento de culpa apenas remvel pela Graa divina, o que 
problematiza o papel do livre arbtrio, e dir-se-ia aproxim-lo do jansenismo. Embora 
contraditadas por outros passos, certo jansenismo paira nas poesias citadas, e ainda 
na Carta 111 em verso, no soneto Antes da Confsso (idem, ibidem; e soneto LIX da 
Tuba de Calope, ibidem), nos tercetos que parafraseiam uma orao de S.10 Agostinho 
(Vola de Tlia, ibidem), etc. 0 tema central pode reduzir-se a estes versos da 
ltima poesia mencionada:

Concede-nos,  Pai Omnipotente, sem mrito, o perdo que Te pedimos.

A comparao entre o Canto da Babilna e Sobre osrios de Cames, ambos baseados no 
salmo 136, assume a esta luz grande interesse, pois D. Francisco Manuel sujeita a uma 
anlise atormentada a transio psicolgica

4. @ POCA - POCA BARROCA                                                    479

da saudade desde a memria carnal e individual at  reminisCnCia pr-natal, 
transio de que Cames, ainda muito menos atingido na sua integridade ideolgica 
profunda, no sentiu os graves problemas de sinceridade ou insinceridade: a Graa 
seria condio suficiente, no apenas da resistncia ao pecado, mas at da prpria 
sinceridade do sentir remorsos, saudades, reminiscncias. Alis D. Francisco mostra-
se frequentemente convicto de uma predestinao, como dos assertos de um *corao 
pressago+, dando assim mais nfase a uma ideia j camoniana e em sintonia com o 
interesse (seu e epocal) pela Cabala.

FRANCISCO MANUEL DE MELO: Concepo de arte literria. Poesias

Em D. Francisco Manuel no encontramos uma doutrina coerente de potica, mas assertos 
incompletos e contraditrios, que variam com a diversidade dos gneros literrios, as 
fases da sua carreira e os estmulos sociais a agir sobre o autor. Em geral, e dentro 
dos antagonismos literrios do tempo, tende para o eclectismo de gosto e critrio. No 
Hospital das Letras esse eclectismo esboa-se perante os pontos de vista antagnicos 
que atribui ao humanista fiamengo Justo Lpsio, ao crtico cultista italiano Trajano 
Boccalini e ao conceptista espanhol Quevedo. Lpsio e Boccalini comungam num conceito 
formalista de arte literria: *as palavras boas e em boa ordem  a mesma poesia+; a 
poesia * arte florida, que pede sujeitos floridos em anos florescentes+, fundada 
portanto em *amor e ociosidade+, pelo que os versos no so *lio prpria de 
sesudos, mas de mancebos, damas e ociosos+, e portanto imprpria para clrigos e 
estadistas. No  certo que a palavra ocioso encerre aqui o contedo nobilitante que 
os clssicos atribuam a cio, no sentido de desenfados literrios; e, por outro 
lado, dama  pejorativo na poca.
0 progresso nas letras verificar-se-ia justamente porque, com a experincia 
histrica, crescem os recursos formais, a *argentaria+, a *lantejoula+, pois os 
temas seriam eternos. Eis a razo por que no Hospital se confere a Gngora o 
principado entre os poetas. No entanto, noutro passo o mesmo Upsio, aproximando-se 
mais do conceptismo quevediano, inclui entre as *pIumas mais lous de que poesia se 
reveste+ as *subtis ideias+, os *agudos conceitos+, considerando a poesia como *um 
estudo de muitos estudos+, uma vocao e uma profisso absorventes para aqueles que 
se lhe entregam.

0 gongorismo domina a fase inicial da carreira de D. Francisco Manuel como poeta (o 
poeta Melodino, segundo o seu pseudnimo acadmico),

480                                          HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

atingindo o apogeu no poema necrolgico Pantheon, imitado das Soledades de Gngora, e 
cuja obscuridade o autor justifica, dizendo: *no fiz livro em muitas horas para se 
ler em a hora+. As sesses acadmicas, sobretudo, na ltima fase, as da Academia dos 
Generosos, proporcionaram-lhe ensejo para praticar o gongorismo j banalizado pela 
moda. No entanto, os anos de infortnio estimularam nele uma poesia mais directa, 
cujos melhores espcimes se encontram nas j referidas quintilhas mirandinas da 
Sanfonha de Euterpe.

Para correctamente interpretarmos o formalismo e o conceptismo em D. Francisco, alis 
como simples caso exemplificativo do tempo, no esqueamos a sua convico de origem 
cabalista de que existiria uma *virtude intrnseca+ nas palavras de qualquer idioma 
(eminentemente na lngua sagrada, o Hebraico), quer dizer, uma correspondncia entre, 
por um lado, a sintaxe

e a grafia verbal quando inspirados sob forma proftica ou potica, e, por outro 
lado, os mistrios indevassveis da religio e da metafisica platnico-aristotlica. 
Pode ver-se nisto uma persistncia da superstio da magia verbal, mas tambm uma 
antecipao da concepo de certa poesia nossa contempornea lanada pelos 
simbolistas. E, de resto, no poderemos, at certo ponto, considerar o gongorismo e o 
conceptismo peninsulares como tentativa de recriar o senso do mistrio que um mundo 
novo de relaes humanas fazia perder s tradies religiosas, apesar de defendidas 
pela neo-escolstica, pelas censuras, pelos autos-de-f?

Ao editar em 1649 as primeiras Tres Musas de] Melodino, D. Francisco Manuel afirma a 
pretenso de conciliar a espontaneidade de Lope de Vega, a serenidade clssica que os 
poetas irmos Leonardo de Argensola (Luprcio e Bartolomeu) pretendiam restituir  
poesia seiscentista, e o estilo culto de Gtigora e do seu imitador Hortnsio 
Paravicino. Na realidade, estas e outras tendncias no se fundem na poesia de D. 
Francisco Manuel, mas antes se justapem em poemas diferentes. Podemos acrescentar 
influncias de Cames, *o maior poeta de Espanha+, *aquele que despojou da sua 
primazia a lngua castelhana+; de S de Miranda, que tanto admira e imita, apesar do 
seu vernaculismo *cerrado+ e de o ter considerado *poeta at ao umbigo, os baixos 
prosa+; de Rodrigues Lobo, que elogia como prosador e buclico; e do espanhol 
Quevedo, se bem que lhe censure certo indecoro e ainda o *luxo, superfluidade e 
frequncia de conceitos+.

4. a POCA - POCA BARROCA                                               481

De qualquer modo, a forma estilstica e a mtrica tm para o nosso autor uma 
importncia fundamental. Num dos prefcios das suas obras lricas gaba-se de que a 
contextura dos versos  rigorosa, sem tomar licenas; numerosos outros passos, alm 
dos juzos proferidos em certames acadmicos, revelam o seu rigorismo formal, que 
precisamente o leva a censurar a facilidade de Lope de Vega e que talvez contribua 
para o pouco relevo que d a Cervantes no Hospital das Letras. 0 virtuosismo e o 
gosto da inovao formal manifestam-se no tratamento das variadssimas formas 
versificatrias a que se atreveu, incluindo encavalgamentos ousados (por exemplo, o 
que, o seno, o quem surgem em rimas das glosas a um mote nas Segundas Trs Musas) e 
at o poema em verso livre, sem rima nem ritmo regular, escandido de acordo com as 
pausas da pontuao, que por isso mesmo dispensa, como muitos poetas actuais (nsias 
de Daliso, tambm nas Segundas Trs Musas).

FRANCISCO MANUEL DE MELO: Obras em prosa

*Eu me acho agora com estilo corriqueiro, que protesto de no tornar ao majestoso+, 
declara D. Francisco a propsito da Carta de Guia, a qual,  parte um ou outro 
trocadilho ou dito agudo com ar de rifo,  na verdade um modelo de exposio clara, 
desenfadada e ao sabor das associaes de ideias. Os Aplogos Dialogais, redigidos 
nesse estilo dito corriqueiro, certamente pelo seu tom popular, coloquial, 
sentencioso, exigiram na realidade grande preparao. Desta podemos fazer uma ideia 
pela Feira de Anexins, publicada j no sculo XIX, alis incompleta: uma coleco de 
frases com

trocadilhos e rifes, dispostas em dilogos convencionais por uma ordem sistemtica 
de assuntos. Os aplogos supem uma enorme reserva de topos e analogias metafricas 
em torno de relgios, moedas e fontes. E assim, por exemplo, na Visita das Fontes 
veste de alegoria barroca o velho dilogo de Luciano de Samsata, para visar 
sobretudo a engrenagem administrativa e

judicial do tempo.

De outro dilogo, o Hospital das Letras, j falmos; pouco tem de apologal. Num 
aplogo so animais ou seres inanimados que falam. Ora  certo que este dilogo se 
trava, imaginariamente, entre os livros de quatro autores, mas depressa a gente se 
esquece disso e imagina estar em presena de quatro personalidades, representantes de 
outros tantos pontos de vista doutrinrios.  um dilogo didctico de gnero corrente 
desde a Antiguidade,

482                                          HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

se no atendermos  novidade do assunto. Assemelha-se muito  Repblica Literria do 
contemporneo espanhol Saavedra Fajardo, obra que no menciona, embora se refira ao 
autor. Quanto aos dois restantes aplogos (Escritrio A varento e Relgios Falantes), 
trata-se de uma evoluo da novela picaresca segundo o modelo a que tambm pertence o 
Coloquio de ]os Perros de Cervantes: os relgios ou as moedas contam as suas 
acidentadas autobiografias, de dono em dono, atravs das mais diversas classes 
sociais e ocupaes humanas, dando-nos uma vivisseco da sociedade contempornea. 
So duas obras-primas da observao avulsa de costumes. De resto, D. Francisco Manuel 
no conheceu outro pitoresco seno o de costumes. Na prosa, como na poesia, a sua 
paisagem fica-se no clich literrio ou no smbolo abstracto.

FRANCISCO MANUEL DE MELO: O historiador

No Hospital das Letras discutem-se dois tipos de historiografia: a narrativa simples 
e a relao entremeada de fiaes psicolgicas e morais, concluindo-se pela boca de 
Lipsio que as crnicas, biografias, os trabalhos de mbito cronolgico restrito 
deveriam enriquecer-se de comentrios, ao passo que as obras de sntese deveriam vir 
despidas de reflexes. 0 problema levantara-se com a descoberta e valorizao 
relativamente recente de Tcito, o modelo da historiografia sentenciosa e moralista, 
de que Justo Lpsio fora precisamente um dos maiores apologistas. As predileces de 
D. Francisco Manuel vo,  claro, para a escola de Tcito, alis um dos patronos do 
conceptismo.

0 gnero mais cultivado por D. Francisco foi a epanfora. Uma epanfora seria, 
segundo a definio do Hospital, uma histria que *sem advertncia chegava ao fim de 
sua aco, havendo de caminho informado os leitores de tudo o que lhe pertencia+. As 
epanforas de D. Francisco Manuel so quase todas, como j vimos atrs, relaes de 
testemunho pessoal mais ou menos

directo, o que lhes proporciona muita animao dramtica e observao concreta. 0 
leitor sente-se bem compensado - apesar de certas concesses aos

longos discursos da historiografia clssica e ainda do frequente recurso, sobretudo 
nas consideraes preambulares, a considerandos sentenciosos, cuja pertinncia  
muito irregular, pois vo desde a caracterizao flagrante at ao

lugar-comum clssico. Pelo resumo biogrfico do incio deste captulo pode j fazer-
se uma ideia do extraordinrio interesse testemunhal e literrio das epanforas 
testemunhais. Elas contm numerosas informaes curiosssimas;

4. J POCA - POCA BARROCA                                                  483

retratos excelentemente dramatizados, como o de D. Manuel de Meneses, na Epanlbra 
Trgica, e sobretudo o do temerrio e arrogante Don Antnio Oquendo, na Epanfora 
Blica; momentos excepcionalmente caractersticos e dramticos, como aquele em que os 
nufragos nobres de uni galeo desmantelado se vestem das melhores roupas para que os 
seus cadveres venham a ser distinguidos e honrados com uma sepultura conveniente. 
Merece, contudo, muito especial destaque a Epanfora Poltica sobre as Alteraes de 
vora de 1637, o mais notvel documento e interpretao de histria social desde 
Ferno Lopes. A extrema delicadeza das situaes em que o autor se viu envolvido, 
entre a reivindicao popular antitributria, a rivalidade que opunha a alta nobreza 
(a que pertencia) aos secretrios de Estado e outros burocratas inteiramente 
dependentes do Conde-Duque, e ainda as hesitaes, flutuaes, ambiguidades de 
diversas camadas, instituies, personalidades abriram os olhos de D. Francisco  
complexa e instvel clivagem social dos acontecimentos: os nobres locais, a quem de 
todo *no desprazia aquela demonstrao+, organizados em Junta; os Jesutas, 
tacitamente comprometidos sob estribilhos sebastianistas; o opulento Cabido e o 
Bispo, com cises

internas e por isso conciliatrios; os vereadores burgueses, interessados no

movimento, mas s pela fora obedientes  autoridade revolucionria secreta.
0 narrador mostra o jogo complexo destas foras, os seus mbeis, a iminente adeso 
das camadas burguesas de Setbal, Lisboa e terras nortenhas, que se verificaria, 
pensa ele, se o movimento se tivesse mantido at  cobrana dos impostos de incios 
de 1638; e, embora manifestamente o desgostasse a perspectiva de uma revoluo assim 
partindo de uma *baixa exalao da terra+, pois *Deus queria que por mais justificado 
modo, e decente, a coroa deste Reino se passasse a cujo era+, no deixa de revelar 
admirao pela falta de gan ncia dos populares nas cenas de assalto e violncia, 
pela sua

capacidade de organizao, ou *indstria de oprimidos+, pelo seu *regimento comum, 
por modo demoertico+ e ainda pela engenhosa orientao clandestina de todo o 
movimento, de incio apenas antitributrio, e depois cada vez

mais conscientemente poltico, patritico.

Tcito Portugus (em castelhano) e Teodsio, incompletos ambos, e editados apenas 
neste sculo, so biografias de D. Joo IV e seu pai, apenas notveis pelo 
desassombro de certas criticas pessoais, sobretudo ao modo como o rei sacrificou o 
seu facttum Francisco de Lucena s invejas da

484                                                 HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

nobreza. D. Francisco Manuel no tinha, provavelmente, nem temperamento nem condies 
para uma historiografia de flego. Nas Epanforas, a preciso dos dados geogrficos, 
e onomsticos deixa a desejar, e a histria do suposto primeiro descobrimento da 
Madeira, embora baseada num relato autntico de Francisco Aleoforado, escudeiro do 
infante D. Henrique, interessa principalmente como um romance sentimental de escola 
benardiniana. Essa histria do descobrimento da Madeira pelo infeliz casal ingls 
Roberto Machin e Ana d'Arfet, que Manuel de Melo aproveita, fora j tratada em

termos sentimentais por dois historiadores, Antnio Galvo, no Tratado dos diversos e 
desvairados caminhos, 1563, e Gaspar Fructuoso, nas Saudades da Terra, obra ainda 
ento indita. Esta epanfora, muito prolixa, d-se ares

de condenar moralmente os infelizes e ilegtimos amores do casal lendrio, mas a sua 
melhor passagem  uma *terica das saudades+, segundo a qual esse *mal de que se 
gosta+, a saudade, to portuguesa, seria um convincente *argumento da imortalidade do 
nosso esprito, por aquela ilao, que sempre nos est fazendo interiormente, de que 
fora de ns h outra cousa melhor que ns, com que nos desejamos unir+.

Aproveitamos o ensejo para registar a continuidade, na poca barroca, da fico 
sentimental iniciada pela Menina e Moa, por vezes com esboos de caracterizao 
psicolgica interna, mas muito prejudicados, como vimos em Manuel de Melo, por um 
preciosismo descritivo, sentencioso e moralizante que permeia a narrativa e as falas 
ou missivas modelares, at ao quase inevitvel happy end nupcial. 0 xito editorial 
do gnero foi extraordinrio. Verifiquerno-lo: Iniortnios trgicos da constante 
Florinda (1. > parte 1625, reedio 1655, 1672, 1707; 2.1 1633, reedio 1671; 
reedies globais 1684, 1761) constitui excepo  regra optimista, pois  uma das 
verses romanescas da lenda de Alatabada, Alacaba ou Cava, nome depois alterado para 
Florinda, filha do rei Rodrigo violada pelo conde Julio de Ceuta (lenda j 
pateticamente contada na Crnica Geral de 1344), e as

Novelas Exemplares, 1650, reedio 1670, 1684, 1700, 1712, 1761, do P. Gaspar Pires 
Rebelo, que contm urna novela de picaresco amoroso, 0 Desgraciado Amante Peralvilho; 
as Doze Novelas, 1674, de Gerardo Escobar, pseudnimo de Frei Antnio de Escobar; e 
ainda duas novelas includas no Sero Poltico, 1704, de Frei Lucas de Santa 
Catariria, autor, tambm, da Novela Despropositada (edio com prefcio e notas de 
Nuno Jdice, 1975). Est a ser preparada a edio das *novelas+ de Torn Pinheiro da 
Veiga. Assinalemos a pequena repercusso do D. Quixote e da novela picaresca, antes 
das *peras de bonecos+ de Antnio Jos da Silva. Muito maior fortuna conheceu at ao 
Romantismo a insulsa novela de moralidade alegrica: P. Mateus Ribeiro, Alvio dos 
Tristes e Consolao das Queixosas (4 partes, 1672-74, reedio 1681, 1737, 1764), 
Retiro de Cuidados

4. - POCA - POCA BARROCA                                                           
     485

e Vida de Carlos e Rosaura (4 partes, 1681-85-89, reedio 1750), Roda da Fortuna e

Vida de Alexandre e J3cinta (3 partes, 1692-93-94); P. Alexandre de GusMo, Histria 
do Predestinado Peregrino e seu Irmo Precito, 1682, reedio 1685; Nuno Marques 
Pereira, Compndio Narrativo do Peregrino da Amrica, 1728; Teresa Margarida da Silva 
e Orta, ou, em anagrama, Doroteia Engrcia Tavareda Dalmira, autora de um romance com 
reivindicaes feministas, sucessivamente publicado com os ttulos que principiam por 
Mximas da Virtude e Formosura, 1752, Histria de Diffines     >Climeia e Hemirema, 
1765, e Aventuras de Dilanes, 1777, 5. edio truncada 1818, 6. a edio, lZio de 
Janeiro, 1945; P. Teodoro de Almeida, Feliz Independente do Mundo e da Fortuna, 
1779, muito reeditado e traduzido, e construdo, como Aventuras de Diffines, pelo 
modelo de Les Aventures de Tlmaque, 1699, de Fnelon. Referir-nos-emos noutro 
captulo a Obras do Diabinho da Mo Furada, novela simultaneamente exemplar e 
picaresca de muito maior interesse.

FRANCISCO MANUEL DE MELO: As Cartas Familiares

Ao fim e ao cabo, o que mais importa em D. Francisco Manuel , por um lado, a sua 
prpria personalidade (em parte representativa de uma das classes cultas e dominantes 
da Restaurao) e, por outro lado, a sua observao de costumes, aguada pelos 
desaires prprios e pela tradio da novela picaresca espanhola, que com o Guzmn de 
Alfarache de Mateo Alemn e com o Buscn de Quevedo, a cujos protagonistas um 
dosrelgos falantes se compara, atingiram uma extrema acuidade de caricatura 
pessimista. A sua obra permite-nos v-lo, a ele, preso na Torre de Belm, permite ver 
tipos de pcaros e personalidades histricas, mas no nos d a ver, por exemplo, a 
paisageni da Baa, que to bem conheceu.

As Cat---tas Familiares, com o seu misto de sofrimento vivido e de amaneiramento 
acadmico, espelham-se logo na maneira como o autor se lhes refere, ao dizer que *as 
mais foram escritas com sangue, enxutas com lgrimas, dobradas com singeleza, seladas 
pela desgraa, levadas pela mofina+. Uma confisso de dor transforma-se numa cadeia 
de alegorias, de subtilezas conceptistas ou de sentenas com sabor proverbial, 
algumas de urna profunda sabedoria vivida (*Medido pelo sofrimento, a mim mesmo me 
pareo maior+) ou tingidas de amargo sorriso (*Eu costumava dizer, quando andava pelo 
mundo ... +). A luta contra o isolamento, a diversidade de tons com que reage aos que 
o esquecem e lhe no respondem, tocam qualquer leitor sensvel. Mas raramente h a 
revolta; queixa-se *de mansinho+; e s por excepo  que se eleva ao tom em que diz: 
*Caibam em si os censurados, que o entendimento  livre, e o bom entendimento  a 
mesma liberdade, que assim

486                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

o disse o nosso S: - 0 entendimento, que  nosso, no no-lo querem deiXar+. Tal 
compostura , no esqueamos, a de um auto-retrato feito para a posteridade por um 
*discreto+ e perfeito corteso barroco: as cartas foram, em grande parte, retocadas e 
j concebidas para publicao, auto-apologia e exemplaridade.

111111918-U0MF1A

1. Textos

Uma enumerao to completa quanto possvel das obras publicadas e inditas de D. 
Francisco Manuel de Meio encontra-se na obra capital que E. Prestage lhe dedicou, 
adiante referida, para a qual remetemos o estudioso. Embora j desactualizada, essa 
enumerao compreende 85 edies, nmero que se prolonga at 188 ao abranger todas as 
obras de que h qualquer referncia no Autor ou outra parte. Alm disso, Prestage 
menciona diversos cdices, alguns dos quais contm obras ainda inditas de D. 
Francisco Manuel. Entre estas foram j referidas vrias poesias (in *Revista de 
Histria+, vol. XIV); uma comdia, De Burlas Hace Amor Veras, in *Ocidente+, n.01 10 
e 12, 1939, por Antnio Corra de Almeida e Oliveira, que posteriormente anunciou a 
reconstituio integral do manuscrito; Tcito Portugus, publicado em 1940; e 
Teodsio, biografia incompleta de Teodsio li, duque de Bragana, traduzida do 
castelhano por Augusto Casimiro e editada em 1944, no Porto, Segue uma lista das 
principais edies de conjunto das obras deste autor:

. Aula Poltica, Cria Militar; Epstola Deciamatria; Poltica Militar (1. > ed. 
1638) ed. conjunta em Lisboa, 1720; a Poltica Militar foi reeditada com pref. de 
Arturo Cancela, Biblioteca Enec, Buenos Aires, 1946.

Historia de los movimientos y separacin de Catalui5a, 1. > ed. 1645; ed. modernas, 
Madrid, 1912 (a 17. % 1914, 1928; foi reeditada em Madrid, 1946, a srie de 
Historiadores de sucessos particulares, cujo tomo 1 inclui esta obra.

Obras Morales, 1. e 2. a partes, Roma, 1664 (incluindo El Mayor Peque15o, ed. 1647,
1650, 1681, 1688; e El Fenis de Africa, ed. 1648-49, 1688).

Obras Mtricas, Lio, 1665 (incluindo Doze Sonetos, 1628; Las tres Musas del 
Melodino, 1649; e Pantheon, 1650). Doze Sonetos por varias acciones, fac-smile da 
ed. original com introd. de Raul Rego, *0 Mundo do Livro+, Lisboa, 1960.

Carta de Guia de Casados, 1. > ed., Lisboa, 165 1; ed. mais acessveis: 1889, com 
pref. de Camilo Castelo Branco; a de 1916 (15. a) @ com estudo, notas e glossrio de 
E. Prestage; Porto, 1963; Lisboa, 1968.


Epanforas, 1. > ed., Lisboa, 1660; 2. > ed., Lisboa, 1676; 3. > com pref. e notas de 
E. Prestage, Coimbra, 193 1; ed. crtica da Epanfora Poltica por Joei Serro, sob o 
ttulo de Alteraes de vora 1637, Lisboa, 1967; reed. fac-similacia da 1. a ed., 
com introd. e apndice documental de Joei Serro, Lisboa, 1978; ed. crtica de 
Descobrimento da Ilha da Madeira, Ano 1420 - Epanfora Amorosa, por Jos Manuel de 
Castro, Lisboa, 1975 (inclui a Relaco de Francisco Alcoforado, na verso de J. 
Fortvieille).

4, >POCA - POCA BARROCA                                                            
    487

Cartas Familiares, 1. > ed., Roma, 1664 (que pretendia ser apenas a *Primeira Parte 
das ... +); 2. > ed. 1752. H ainda um ed. de Cartas inditas escritas a Antnio Lus 
Azevedo, editor do poeta, com introd. e notas de Prestage, Lisboa, 19 11 . Cartas de 
0. Francisco M. de Meio a Duarte Ribeiro de Macedo, reprod. fotogrfica e transcrio 
diplomtica de Virgnia Rau, ed. *Revista da Faculdade de Letras de Lisboa+, 1968 (14 
cartas com pormenores sobra a situao do preso no Castelo de Lisboa). Todas estas 
cartas e ainda outras anteriormente publicadas se encontram reunidas, com inditos, 
na ed. das Cartas Familiares, prefaciada e anotada por Maria da Conceio Morais 
Sarmento, IN- _cm, 1980, que contm 581 cartas.

Fidalgo Aprendiz, 1. a ed. nas Obras Mtricas de 1665; 2. 1, separada, 1676; ed. 
modernas: 1915, de Mendes dos Remdios; Porto, 192 1; Porto, 1940; e Lisboa, 1943 (8. 
a); ed. na col. *Clssicos Portugueses+ com pref. de A. Corra de Almeida e Oliveira,
1963; reprod. fac-similada da ed. de 1676, introd. por Jos V. de Pina Martins, *0 
Mundo do Livro+, 1966.

Aplogos Dialogais, 1. a ed. 172 1; 2. ed. 1900, com um estudo de Alexandre 
Herculano; 1920, ed. diplomtica, Rio de Janeiro; col. *Clssicos S da Costa+, 2 
vols. H ed. separadas dos Relgios Falantes nas col. *Textos Literrios+ e 
*Clssicos Portugueses+. Ed. crtica com fac-smiles e extensas notas de A Visita das 
Fontes por Giacinto Manuppella, Coimbra, 1962. Ed. crtica e anotada de Hospital das 
Letras, por Jean Colom s, Centro Cultural Portugus, Paris, 1970. Ver recenso desta 
ltima ed. por EIza Paxeco, in *Ocidente+, 8 1, n. > 400, Agosto 197 1.

Tratado da Cincia Cabala, ed. 1724; reed. Estampa, Lisboa, 1972.

Feira de Anexins, ed. Lisboa, 1875, por Inocncio F. da Silva; reed. 1916. Tcito 
Portugus, ed. com notas de Pedro Calmn e estudo de Rodolfo Garcia, Rio de Janeiro, 
1940. (Teensma revela Um manuscrito desconhecido do * Tcito Portugus+, in *Revista 
de Portugal+, n. 202, Fev. 1962.)

D. Teodsio 11, trad. do castelhano com pref. de Augusto Casimiro, Porto, 1944.

2. Antologias

Cartas Familiares, sei., pref. e notas de Rodrigues Lapa, col. *Clssicos S da 
Costa+,
2. ed. 1942.

0 Poeta Melodino, D. Francisco Manuel de Meio; Rimas Portuguesas, ed. org. por Jos 
Pereira Tavares, Companhia Portuguesa Editora, Porto, 192 1.


As Segundas Trs Musas, com um ensaio, sei. e notas por A. Corra de Almeida e 
Oliveira, col. *Clssicos Portugueses+, Lisboa, 1945, reed. 1966.

Trechos Escolhidos - 0. Francisco Manuel de Meio -, sei. e estudo de Mrio Gonalves 
Viana, col. *Autores Clssicos+, Porto, 1940.

Poesias Escolhidas - 0. Francisco Manuel de Meio, estudo, sei. e notas de Jos 
Vitorino de Pina Martins, *Textos Clssicos Verbo+, 1969.

Novelistas e Contistas Portugueses dos sculos XVII e XVIII, sei. de Joo Palma-
Ferreira, IN-CM, 1981.

Rocha, Andre Crabb: A Epistolografia em Portugal, 2. ed., IN-CM, 1985,

488                                                 HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

3. Estudos

Teensma, B. N.: Dom Francisco Manuel de Mello (1608-1666) - Vria Bio-Bibliogrfica, 
in *Ocidente+, vol. LX1, n.@ 282-4 (Out. a Dez. de 1961), e Materiais novos para a 
bibliografia de Dom Francisco M. deMello, ibidem, vol. LXIV, n. 298, Fev.
1963, includos in Dom Francisco M. de Mello (1608-1666). Inventrio General de sus 
ideas, S'Gravenhage, Holanda, 1966.

Prestage, Edgar: D. Francisco M. de Meio - Esboo biogrfico - Coimbra, 1914: vasto 
estudo bibliogrfico que integra numerosos documentos at ento inditos. Um bom 
resumo desta obra clssica de consulta  D. Francisco M. de Meio, do mesmo autor, ed. 
em ingls pela Oxford University Press, 1922, trad. portuguesa de A. A. Dria, 
Coimbra,
1933.

Colorns, Jean: La Critique et Ia Satire de D. Francisco M. de Meio, Paris, 1969, ed. 
Fund. Gulbenkian (no passa, essencialmente, de uma parfrase comentada das 
principais obras em prosa de Francisco M. de Meio).

Biografia e estudos por scar Lopes, includos em Os Grandes Portugueses, 2. o vol., 
Lisboa, 196 1, no Dicionrio de Histria de Portugal e em Ler e Depois, Porto, 2. 
aed., 1969.

Manuppelia, Giacinto: Acerca do Cosmopolitismo Intelectual de 0. Francisco M. de 
Meio, sep. de *Braslia+, X1, Coimbra, 1961; e Uma Sinfonia Crtica Incompleta: o 
*Hospital das Letras+ de D. Francisco Manuel de Meio, in As Grandes Polmicas 
Portuguesas, pp. 229-277, Lisboa.

Oliveira, Antnio Corra de Almeida e: 0 *Fidalgo Aprendiz+, *Le Bourgeois 
Gentilhomme+ e *La Cortegiana+, in *Ocidente+, vol. 1; 0 Tema do *Bourgeois 
Gentilhomme+ no teatro antigo e no teatro moderno, ibidem, vol. 111; Uma comdia 
indita de D. Francisco Manuel de Meio, ibidem, vol. IV.

Martins, Jos V. de Pina: A Poesia de 0. Francisco Manuel de Meio, in *Brotria+,
84, n. > 4, e 85, n.O 6, 7 e 8/9, 1967; e Cultura Portuguesa, Verbo, 1974, pp. 95-
180.

Carvalho, Jos Adriano de: Aspectos do desengano e da aceitao da vida em D. 
Francisco M. de Meio, in *Brotria+, 38, 1964 (pp. 277-291 e 423-438); A Poesia Sacra 
de D. Francisco M. de Meio, in *Arquivos do Centro Cultural Portugus+, Paris, VIII, 
1974, pp. 295-404.


Carvalho, J. G. Herculano de: Um Tipo Literrio e Humano do Barroco: o *Corteso 
discreto+, in *Boletim da Biblioteca da Univ. de Coimbra+, 26 (1964), pp. 208-227, e 
Trs Notas Filolgicas a D. Francisco M. de Meio, sep. da *Rev. Portuguesa de 
Filologia+, XIX, Coimbra, 1988.

Maffre, Claude: *La Guerre de Catalui5a+: Don Francisco M. de Meio, crivain 
etphilosophe de I'Histoire, in *Arquivos do Centro Cultural Portugus+, vol. 3, 197 
1, Paris.

Bismut, Roger: Molire et 0. Francisco M. de Meio, ibidem, vol. 7, 1973, pp. 203-224. 
Picchio, L. Stegagno: Un esempio di incoerenza stilistica: il Fidalgo Aprendiz di F. 
M. de Meto, in Ricerche sul Teatro Portoghese, Ateneo, Roma, pp. 229-254; Histria do 
Teatro Portugus, Lisboa, 1969.

Amado, M. Teresa/Lisboa, Joo Lus: A Teoria da Histria em D. Francisco M. de Meio, 
Lisboa, 1986.

4. @ POCA - POCA BARROCA                                                           
 489

Sobre as Cartas ver bibliografia completa, uma excelente anlise e um texto indito 
em Rocha, Andre Crabb: A Epistolografia em Portugal, pp. 159 e seguintes, Coimbra,
1965, 2. a ed., IN-CM, 1985.

Podem consultar-se com bom aproveitamento muitas das introdues s antologias e 
edies modernas. Vejam-se ainda trabalhos de escopo geral, como:

Braga, Tefilo: Os Seiscentistas e a Histria do Teatro Portugus. Figueiredo, 
Fidelino: Histria da Literatura Clssica, 2. > poca, 192 1. Cidade, Hemni: Lies 
de Cultura e Literatura Portuguesa, 6. > ed., Coimbra, 1981,
1. vol.; 0 Conceito de Poesia como Expresso de Cultura, Coimbra, 1945; e A 
Literatura Portuguesa e a Expanso Ultramarina, vol. li.

Serro, Joaquim Verssimo: A Historiografia Portuguesa, 11 vol. (sc. XVII), Lisboa,
1973.

Sobre Teresa Margarida da Silva e Orta e o problema da autoria das Aventuras de 
Difones [ ... 1 ver Santa Cruz, Maria de: Huma Senhora do Sculo XVIII, in 
*Colquio/Letras+, 110- 111, Julho-Outubro 1989, pp. 38-47.

Quanto aos precursores da Carta de Guia de Casados:

Barros, Joo de: Espelho de Casados, 1. > ed. 1540, 2. > 1874 (ambas no Porto). 
Principal estudo: Asensio, Eugenio, Les Sources de 1'*Espelho de Casados+ ou Dr. Joo 
de Barros, Coimbra, 1941, separata do *Builetin des tudes Portugaises+, includa em

Estudios Portugueses, Fund. C. Gulbenkian, Paris, 1974.

Andrade, Diogo de Paiva de: Casamento Perfeito, 1. > ed. 1630, 2. > 1726, 3. > e 
ltima na col. *Clssicos S da Costa+, com pref. e notas de Fidelino de Figueiredo.

Jos Cardoso Pires, em Cartilha de Marialva, 1960, 6. > ed. rev. 1982, caracteriza a 
tradio machista que tem uma das suas expresses mais influentes na Carta de Guia de 
Casados.

Acerca das origens da lenda do descobrimento da Madeira narrada em termos 
bernardinianos, quer por Saudades da Terra quer pela Epanfora Amorosa, ver 
Rodrigues, A. A. Gonalves: D. Francisco Manuel de Meto e o Descobrimento da Madeira 
(A lenda da Machin), ed. Biblion.


Acerca das novelas sentimentais e alegricas dos scs. XVII e XVIII, ver Simes, J. 
Gaspar: Histria do Romance Portugus, 1, 1969, pp. 193-219 (tem antologia e 
bibliografia), e o pref. e notas da antologia mencionada de Joo Palma-Ferreira.

Acerca da novela picaresca ibrica, ver Rico, Francisco: La Novela Picaresca y el 
Punto de Vista, ed. Seix-Barral, Barcelona. Ver ainda Palma-Ferreira: Joo, Do Pcaro 
na Literatura Portuguesa, *Biblioteca Breve+, ICALP, 1981.

Captulo 111

BARROCO: POESIA CULTISTA E CONCEPTISTA

A Corte na Aldeia (1619) foi, como vimos, o primeiro livro portugus em que se 
discutiram e teorizaram duas caractersticas, alis muito afins, do barroco: o 
cultismo, ou seja, o gosto da superlativao que utiliza sobretudo metforas e 
recursos de expressividade meramente verbal; e o conceptismo, isto , o exerccio da 
agudeza de engenho, o virtuosismo de um pensamento que procede por meio de subtilezas 
analgicas. 0 pendor teortico de Rodrigues Lobo vai at ao ponto de tentar uma 
classificao de metforas encarecedoras (que ele nota irem buscar-se principalmente 
aos objectos e matrias de joalharia, aos corpos celestes, s flores e frutos, aos 
seres de eminncia social ou teolgica) e uma anlise exemplificativa de ditos e 
histrias engenhosas. No admira, portanto, que o poeta Lereno esteja, no Parnaso 
portugus, logo abaixo de Cames e S de Miranda segundo a estimao quase unnime 
dos nossos lricos e crticos barrocos.

A Corte na Aldeia podia servir de vade-mcum s numerosas academias que, a partir da 
dos Singulares (1628), foram surgindo na Metrpole e no

Brasil,  sombra de certas casas senhoriais ou ento de certos altos dignitrios 
eclesisticos. Como Rodrigues Lobo sonhara, nestas academias os filhos letrados da 
burguesia, que ascendiam pela Universidade s altas magistraturas, ombreavam com a 
aristocracia de sangue. Mas o esprito corts, o amaneiramento de relaes tornou-se 
nelas a nota dominante, o que no permitiria intruses plebeias como as de Solino na 
Corte na Aldeia; e acontece mesmo que na Academia dos Generosos, a mais importante e 
duradoura, se observa, a por 1665, quando D. Francisco Manuel de Melo a frequenta,

492                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

um acentuado exclusivismo da aristocracia militar e linhagista, que, de resto, 
coincide com um endurecimento desta, apontado na Introduo, pelos fins do Sculo 
XVII e incios do sculo XVIII.

Nos anos que de perto precedem e seguem a Restaurao,  bem sens~ vel o facto de os 
poetas mais cotados constiturem um grupo fechado estretamente dependente da alta 
aristocracia. 0 academismo faz-se sentir nas composies de elogio mtuo, que nesse 
perodo os livros dos talentos mais afamados trazem invariavelmente no prtico. 
Manuel de Galhegos, Antnio de Sousa de Macedo, Gabriel Pereira de Castro, Bernarda 
Ferreira de Lacerda, Francisco Manuel de Melo, etc., erguem-se reciprocamente aos 
pncaros da Lua. A Ulisseia, como vimos, foi avantajada a Os Lusadas. H, por outro 
lado, entre estes poetas um parentesco ideolgico e estilstico evidente, o que se 
prolonga nas geraes seguintes, at ao ponto de a autoria das composies aparecer, 
j ao editor da Fnix Renascida, como aflitivamente baralhada.

Urna das consequncias deste academismo  a falta de cunho nacional.

A Restaurao no se reflecte imediata e visivelmente no plano literrio, porque, 
como grupo social, que eram, destacado da massa, os literatos portugueses da segunda 
metade do sculo XVII, segundo a tradio, continuavam a procurar os seus modelos na 
poesia da corte filipina, no conceptismo de Quevedo e Gracin, nos temas lricos de 
Lope, na nfase de Herrera ou do conde de Salinas, e sobretudo no gongorismo. Mantm-
se inclusivamente em moda o uso da lngua castelhana, principalmente nos gneros mais 
nobres ou ento mais retintamente espanhis, como os romances de rima nica e 
assonante. Pode dizer-se que s uma forte influncia compete com o gongorismo entre 
os poetas portugueses do sculo XVII: a influncia camoniana, alis assimilada de um 
modo muito formal, que se exaure at  ltima gota de inspirao nos poetas da Fnx 
Renascida, atravs das oitavas~rimas com

que se celebram os grandes acontecimentos da vida dos magnates da Guerra da 
Restaurao - corno as que Antno da Fonseca Soares, que depois ser Frei Antnio 
das Chagas, dedica s vitrias de Mouro e de Elvas -; e atravs de parfrases e 
glosas de vrios versejadores, sobretudo do Dr. Antnio Barbosa Bacelar, a certos 
sonetos camonianos e a certos passos de Os Lusadas, principalmente ao episdio de 
Ins de Castro, que facilmente interessa a esta

poca em que nasceu o melodrama, ou pera pr-sentimental.

4. @ POCA - POCA BARROCA                                                           
 493

A melhor obra portuguesa de teoria literria barroca, alis j tardia, como veremos

ser a publicao da principal recolha potica, e j tambm algo tocada pelo 
Classicismo francs teorizado por Boileau e pelo arcadismo italiano seu afim de 
Muratori,  constituda pelas trinta lies da Nova Arte de Conceitos, 2 vols., 1718-
2 1, de Francisco Leito Ferreira, anteriormente lidas na Academia dos Annimos. 0 
autor foi em 1719 eleito scio da Arcdia Romana, e, depois, nomeado membro da 
Academia Real de Histria, foi historiador da Universidade, como veremos; os seus 
principais inspiradores doutrinrios so italianos, nomeadamente Manuel Tesauro, que 
interpretou a Potica de Aristteles em consonncia com os gostos seiscentistas (I] 
Cannochiale Aristotelico, 1655). Esta Nova Arte  fundamentalmente uma teoria-
preceiturio da metfora, encarada como sendo

um conceito engenhoso. A exposio segue uma ordem dedutivamente escolstica, mas com 
a utilizao geralmente original de numerosos exemplos, salientando-se a sua 
exaltao (tipicamente seiscentista portuguesa) de Cames e uma grande admirao, mas 
no

entanto crtica e por isso reservada, de Gngora e de Gracin, o principal 
doutrinrio do barroco literrio peninsular. Leito Ferreira insiste de modo 
aparentemente mais personalizado na necessidade de exerccio intelectual mas tambm 
verbalizador por parte do poeta (para alm do engenho inato), na procura da *palavra 
peregrina+, ou inesperada e requintada, mas que seja flagrante e, se convier, 
emotivamente intensa; insiste na largueza de conhecimentos e de leituras que 
propiciem a variedade metafrica, e numa imitao que procure rivalizar com os bons 
modelos; justifica o paradoxo, a hiprbole e um

certo descomedimento pattico, no mbito de um certo equilbrio geral, que evite a 
monstruosidade, ou desproporo, a afectao, a falta de decorum, ou propriedade, o 
ridculo, o *remoto das metforas+, isto , a sua inadequao. Preconiza que a 
fantasia e

o entendimento se conjuguem. Em prosa narrativa, o seu paradigma  a Vida de D. Joo

de Castro por J. Freire de Andrade, como em geral acontece com a nossa crtica 
barroca,

e mesmo posteriormente. Embora mais informado do que original, Leito Ferreira , 
sobretudo na apreciao dos exemplos, bastante mais interessante do que os 
doutrinrios

arcdicos, que alis se manifestam no muito depois, e a que ele por vezes se 
antecipa.

Cancioneiros barrocos: a Fnx Renascda e o Pstlho de Apolo

A mania das grandezas no reinado de D. Joo V, sustentada em ltima anlise pela nau 
dos quintos da minerao brasileira, produziu entre outras manifestaes culturais, 
como a Academia Real de Histria, a glorificao insistente do patrimnio literrio 
nacional, dentro,  claro, do crit rio valorizador do absolutismo. 0 padre Antnio 
dos Reis editou, em oito volumes (1745), o Corpus Mustrium lusitanorum qui ]atine 
scripserunt, que se no

limita a coligir os poemas latinos de autoria portuguesa, pois inclui, no ltimo

494                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

volume, urna Epstola, tambm em latim - o Enthousasmus Poeticus -, que se refere em 
termos mais ou menos hiperblicos a numerosos vates lusos desde a Idade Mdia at ao 
seu tempo. Desta Epstola j anteriormente (1731-33) havia sido editada urna traduo 
em verso por Joo de Sousa Caria. Por outro lado, e como veremos noutro captulo, 
deve-se a um erudito da

Academia de Histria, Diogo Barbosa Machado, a primeira bibliografia geral portuguesa 
(Biblioteca Lusitana, 1741-59), de que houve, alis, precursores seiscentistas, entre 
os quais, na parte restritamente respeitante  poesia, se

contam Jacinto Cordeiro (Elogio dos Poetas Lusitanos, 1630), Antnio Figueiroa Duro 
(Laur Pamasseac, 1635) e Francisco Manuel de Melo, que, vimo-lo atrs, tentou uma 
primeira recenso crtica geral em o Hospital das Letras, planeou unia bibliografia 
literria portuguesa e uma colectnea de poesias de autores vrios.

Ora foi o editor das obras pstumas de D. Francisco Manuel que tentou executar este 
ltimo projecto, publicando em 1715 o 1. 0 volume da Fnix Renascida, ou obras 
poticas dos melhores engenhos portugueses, de que at 1728 saram espaadamente mais 
quatro volumes, dedicado cada qual

a uma figura da alta nobreza. Verifica-se pelos prefcios que a colectnea encontrou 
mais dificuldades do que as, j no poucas, de procura, identificao, escolha de 
original e publicao, ficando os cinco volumes muito aqum dos objectivos do editor. 
Em 1746 saa uma reedio com acrescentos. Mais tarde, em 1761-62, D. Jos ngelo de 
Morais, sob o anagrama de Joseph Maregelo de Osan, publicou uma coleco que se pode 
considerar decalcada na Fnix, pois dela repete as poesias mais celebradas e muitas 
outras, a comear pela prpria Introduo Potica. Eis o pomposo ttulo desta segunda 
coleco, que s por si  um exemplar de certo barroco literrio: Ecos que
* clarim da Fama d - Postilho de Apolo, montado no Pgaso, girando
* Universo, para divulgar ao orbe literrio as peregrinas flores da Poesia 
Portuguesa, com que vistosamente se esmaltam osiardins das Musas do Parnaso - 
Academia Universal em que se recolhem os cristais mais puros que os famigerados 
engenhos lusitanos beberam nas fontes de Hipocrene, Helicona e Aganipe, em 2 volumes, 
ou Ecos. A maioria das poesias no comuns

 Fnix Renascida  de autores mais recentes, o que d a esta segunda colec~ tnea o 
cunho de seleco actualizadora da primeira.

0 critrio de seleco e distribuio das poesias  muito sumrio: elminaram-se ou 
truncaram-se obras *profanas ou impudicas+, que de

4. - POCA - POCA BARROCA                                                   495

resto se produziram na poca com abundncia, e, como no Cancioneiro Geral de Garcia 
de Resende, de que repete certos lugares-comuns prologais, no se respeita 
coerentemente qualquer ordem de cronologia, de autoria ou de

gneros. Esto comprovadas numerosas atribuies inexactas de autores, como

alis j acontece nas coleces manuscritas do tempo.

Mesmo juntando a estas duas coleces mais importantes os dois volumes, de 1692 e 
1696, em que a Academia dos Singulares reuniu as produes concorrentes aos seus 
certames poticos e ainda outras n-fiscelneas menos

encorpadas, deve reconhecer-se que no estamos em condies de proceder a um balano 
seguro acerca da poesia barroca portuguesa, nem do processo atravs do qual, nesse 
domnio restrito, se poder considerar como constituda uma esttica globalmente 
distinta da esttica maneirista. 0 que por enquanto se tem tentado  fazer uma ideia 
de conjunto sujeita a ulterior correco,  medida que sejam publicadas edies 
crticas, quer das colect neas manuscritas, quer de autores de maior importncia, 
cujas composies, nalguns casos da ordem de uma centena ou mais, se encontram 
inditas e

dispersas.  esta praticamente a situao de D. Toms de Noronha, cognominado *o 
Marcial de Alenquer+, que morreu posteriormente a 1664; de Antnio Barbosa Bacelar 
(1610-1663), que apenas editou duas Rela es em prosa acerca de vitrias militares 
portuguesas e uma glosa em oitavas  estrofe

camoniana *Deu sinal a trombeta castelhana+, adaptando-a a uma vitria 
restauracionista; de Frei Jernimo Baa, ou Vaa (1620/30-1688), copioso 
versificador, que s publicou obras religiosas em prosa; e de Antnio da Fonseca 
Soares, do qual adiante trataremos como doutrinrio religioso sob o

nome de Frei Antnio das Chagas, com que professou na Ordem de S. Francisco - entre 
outros poetas da 2. metade do sculo XVII que os estudiosos por vezes tm 
assinalado, como Francisco de Vasconcelos Coutinho (1665-1723), Cristvo Alo de 
Morais, Manuel Pinheiro Arnaut, Manuel Gomes da Palma e Antnio Lopes da Veiga.

ffiTendncia de conjunto

0 que mais depressa fere a ateno na poesia barroca portuguesa  o

contraste entre a sua nfase ou tortura de estilo e as ninharias que servem

de pretexto  maior parte dela. Muitas dessas composies nasceram em con-

496                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

cursos e outros passatempos das academias, em outeiros ou torneios poticos 
realizados junto de conventos femininos, e consequentes amores *freirtcos+, que 
alis constituem um dos predilectos objectos de stira desbocada. H numerosa 
versejao em tomo de simples incidentes, como o desmaio

de uma senhora provocado por uma sangria, o caso de um pintassilgo comido por um 
gato, e o da disenteria originada por um bolo podre. Metrificaram-se tambm muitos 
temas especiosos, de lisonja s damas ou s personagens gradas da Corte.

E no entanto deve notar-se que a tendncia barroca para a alegoria, a ambiguidade e, 
em certa menor medida, para o trocadilho - algo tem que ver com a tradio 
patrstica-escolstica na sua busca de mltipla interpretao para os textos sacros, 
tradio que serve tambm de base, como veremos,  oratria do tipo do P. Antnio 
Veira; j no

sculo IV os exegetas bblicos distinguiam entre o sentido literal (o da factualidade 
histrica da Bblia), o sentido alegrico (feies que no Velho Testamento 
encobertamente profetizariam o Novo), o sentido tropolgico, ou moral, e o sentido 
anaggico, alusivo s verdades religiosas mais veladas.

Entre manifestaes tpicas do gosto barroco, todas elas com tradies mais ou menos 
antigas, mesmo na literatura portuguesa, mas agora reunidas e intensificadas, contam-
se: o interesse por enigmas, sentenciosos ou narrativos (*engma+, como *labirinto+, 
so de resto palavras-chave da poca); por emblemas ou empresas, representaes 
figuradas e/ou textuais; por centes, textos montados por numerosas citaes ou 
sentenas, s vezes poliglticas, que lembram a actual tendncia ps-modernista para 
a proliferao das aluses literrias intertextuais (os Aplogos Dialogas assentam, 
como

sabemos, em numerosos anexins); pela escrita roplica, ou visualmente figurativa de 
uma cruz, um altar, um clice, uma figura geomtrica, etc.; por estrofes com versos 
de caboroto, que, mesmo quando truncados de dadas maneiras, fazem sempre sentido; por 
estrofes em eco, isto , cujas slabas terminais dos versos ou estrofes fazem 
sentido, e at por vezes respondem a uma pergunta precedente; pela parfrase e 
sobretudo pela pardia de textos conhecidos, e at de outras lnguas, como as 
macarrneas, num latim por vezes sintacticamente correcto mas lexicalmente 
aportuguesado (inicialmente italianizado, corno sugere o prprio nome do latim 
macarrnco, e cujo espcime mais conhecido  o Palito Mtrico, sobre um episdio da 
praxe

4. @ POCA - POCA BARROCA                                                           
  497

acadmca coimbr, editado em 1746), havendo numerosos textos, sobretudo teatrais, 
que parodiam lnguas estrangeiras e, mais frequentemente, a

linguagem de negros escravos ou serventes (portugus de preto).

Ana Hatherly, de quem estamos a aproveitar alguns dados, sublinha certas conexes ou 
analogias importantes com a poesia barroca, nomeadamente quando procura produzir 
efeitos visuais por vezes precursores dos caligrarnas de Apollinaire ou da poesia 
chamada concreta ou letrista do nosso tempo. Assim, os labirintos, que no sentido 
versificatrio do termo j mencionmos em Frei lvares do Oriente (so poemas 
legveis segundo mltiplas ordens lineares dos versos), inserem-se numa tradio 
religiosa que procura visualizar a errncia de uma peregrinao a Jerusalm (ou, 
alegoricamente,  Jerusalm Celeste) e que alis se inspiram em smbolos pr-
cristos, como os das mandalas indianas; os acrsticos so, pelo menos, afins de uma 
das normas cabalsticas, que atribui (s) letra(s) do incio (ou do final) de cada 
palavra, frase ou versculos do Pentateuco (ou Tora hebraica) uma aluso a outra 
frase ou palavra oculta, sobretudo um norne (pode ser um dos inmeros nomes do Deus 
bblico); os jogos anagramticos barrocos talvez se inspirem noutra norma 
cabalstica, que encara os mais antigos textos bblicos como

encerrando mistrios decifrveis mediante exerccios combinatrios das suas letras, o 
que lembra, curiosamente, um mtodo que o linguista F. Saussure julgou ser aplicvel 
 interpretao de muito diversas tradies poticas; os cronogramas, variante dos 
acrsticos, em que as iniciais dos versos representam datas comemorativas em notao 
romana tm afinidades com outro mtodo cabalstico, a numerologia, exerccio 
exegtico que se

baseia no facto de a numerao bebraica e a helnica se representarem pelo seu 
respectivo alfabeto.

0 aspecto global mais evidente  o da complicada disciplina ldica a que se submete 
esta poesia, bem como a efabulao narrativa ou teatral correspondente (e que 
frequentemente a contm). 0 poeta tanto se sujeita a versificar por *consoantes 
forados+, isto , segundo rimas prefixadas, ou de acordo com motes, engmas ou 
fragmentos impostos, como (v-lo-emos) se confina a determinado tipo estrito de 
metfora ou a um dado enquadramento mtico ou arrevesadamente conceptual. So tpicos 
deste difcil jogo os concursos organizados por academias e sobretudo a profuso de 
panegricos a

figuras rgias ou socialmente proeminentes, como nas dedicatrias das obras. Cria-se, 
deste modo, todo um formulrio de encarecimento, quer de descabelada superlativao 
encomstica, quer de hiperbolizao quanto a finezas

ou extremos sentimentais; pululam as antteses foradas; e so bem sensveis a 
pedantaria e a monotonia de estilo resultantes do uso estafado dos mesHLP - 32

498                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

mos hiprbatos, dos mesmos ritmos sintcticos de aposio e predicao, do mesmo 
metaforismo, do mesmo processo de disseminar simetricamente dois, trs ou quatro 
temas ou palavras-chave ao longo do soneto, para depois os alinhar todos juntos no 
desfecho, etc.

 ainda tpico um sentimentalismo amaneirado e verboso, um enlanguescimento entre 
barroco e rococ, que ora alastra em longos poemas narrativos (Saudades de Lidia e 
Armindo, Sentimentos de D. Pedro e D. Ins de Castro, por exemplo), ora se entretm 
com as bagatelas das Filis, Clris, Amris, Lsis, Nises, Tisbes, Belises; que se 
derrete em desmaios, em suspiros, gemidos, lgrimas, mgoas, rigores; e a que os 
mitos sensuais de Jpiter, Narciso e Adnis do pretexto para as expanses mais 
inconfessveis, e assunto de hiperboliza es ou, pelo contrrio, de pardias. At o 
sentimento religioso se alambica em muitas poesias desta poca que, noutros campos, 
nos deu uma orgia de talha dourada, de anjinhos rechonchudos, de sopranos masculinos 
de pera e capela. 0 acar brasileiro, combinando-se com a segregao conventual de 
muitas filhas das boas famlias, originou e diversificou por todo o Pas a arte da 
pastelaria conventual, estreitamente associada ao namoro freirtico e ao lirismo 
correspondente. 0 famoso pregador beneditino, Frei Jernimo Baa, falecido com idade 
avanada em 1688, que  um dos mais copiosos autores da Fnix, conta entre as suas 
especialidades poticas osromances sacros ao Menino Jesus, em metfora de doaria 
conventual, assim como em nomenclatura de gramtica. Nas colectneas abundam 
composies aparentemente jocosas, construdas  base de trocadilhos, que traduzem 
uma degradao profunda do sentimento religioso nesta poca inquisitorial. Tratando 
de milagres, lances hagiogrficos, ou at mesmo de contedo necrolgico, so a 
condigna rplica de outras manifestaes religiosas, corno a carreira militar de 
Santo Antnio, desde soldado raso, no

exrcito da Restaurao, e de certas procisses que estadeavam alegorias mitolgicas. 
Mesmo as frequentes poesias de psames ou de meditao explicitamente melanclica ou 
potica sobre os desenganos e a transitoriedade do mundo assumem um ar ldico de 
proeza verbal ou conceptual, como simples amostra de agudeza de engenho, de erudio 
lexical, histrica ou mitica, de decorativismo perifrstico ou de metaforismo 
faustoso e deslumbrante: tudo so luzes, sis, estrelas, cristais, pedrarias, metais 
nobres, tecidos sumptuosos, prpuras, mrmores, prfiros, jaspes e alabastros.

4. - POCA - POCA BARROCA                                                           
 499

 de notar que a marcha para a emancipao intelectual e social das mulheres conheceu 
na fase final do Barroco um dos seus momentos mais dramticos, na aristocracia e alta 
burguesia. Durante os reinados de D. Pedro Il e D. Joo V, cheios de famosos 
escndalos conventuais, como os das prprias aventuras deste ltimo rei em Odivelas, 
travou-se uma luta difcil entre as freiras, que procuravam por todas as formas 
iludir a elausura, ao menos pelo namoro versejante e confeiteiro, e as autoridades 
morigeradoras. 0 smbolo desse drama do amor feminino enclausurado, que ainda faz 
vibrar a

pena de Camilo Castelo Branco, encontra-se nas clebres Lettres Portugaises, 
publicadas em francs e em Frana, e atribudas  paixo infeliz de Sror Mariana 
Alcoforado por um oficial do exrcito de Schoenberg. A crtica da recluso monstica 
das mulheres ser iniciada no reinado de D. Jos, por Matias Aires, nas Reflexes 
sobre a vaidade

(1752), e pela irm, Teresa Margarida da Silva e Orta, mulher de temperamento 
irrequieto, que casou contra a vontade dos pais, foi deserdada, odiada pelo irmo, 
aprisionada pelo marqus de Pombal e que escreveu Aventuras de Difanes (4 edies: 
1752,
1777, 1790; Rio de Janeiro, 1945), romance, como vimos, inspirado pelas Aventuras de 
Telmaco de Fnelon e de contedo mais ou menos discretamente feminista e liberal. 
At l, a reivindicao das freiras afirmou-se no apenas pelo escndalo, pela 
sublevao aberta e militarmente reprimida, por via indirecta e dissimulada, mas 
tambm por certas manifestaes lricas, algumas claramente erticas, que as 
colectneas tiveram de publicar anonimamente.

Entre essas freiras destaca-se Sror Violante do Cu (1601-1693), cujo estilo, muito 
mais intelectualizado do que o admitiria o preconceito do sentimentalismo feminino, 
ora se exibe em panegricos conceptistas, ora intelectualiza escolasticamente 
determinados temas lricos, mas por vezes traindo

inconfundveis acentos de sinceridade, quando se trata de ausncia e ngratido de um 
incgnito Silvano (leia-se o soneto Vida que no acaba de acabar-se, e o madrigal 
Enfim fenece o dia). Sror Violante do Cu  o nosso mais interessante poeta 
conceptista.

Outra freira com aprecivel talento foi Sror Maria do Cu (1658-1753), que, alm de 
autos e comdias alegrico-morais e bagiogrficas para uso

didctico conventual, escreveu poesias, em castelhano e portugus, algumas das quais 
revelam um notvel senso do ritmo lrico, quer os versos se matizem de erotismo 
(vejam-se as composies Desmaios e Gemidos da srie Enganos do Bosque), quer 
exprimam o terror do Juzo Final e o sentimento do pecado (vejam-se as glosas ao tema 
de Antnio Vieira: Nada passa para


a conta ... ).

500                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

A par da degenerescncia do sentimento amoroso e religioso, com que contrasta 
favoravelmente esse drama vivo das enclausuradas, o lirismo barroco apresenta uma 
segunda caracterstica, que o aproxima bastante da poesia simbolista, *fin-de-
sicle+, posterior a 1880, especialmente entre ns,

com a feio de que se reveste em Eugnio de Castro e D. Joo de Castro:

a nsia de evaso para os parasos artificiais de fantasia. No  por acaso

que o ttulo do principal cancioneiro barroco se refere a uma ave mitolgica; a 
poesia seiscentista tem de facto, entre outros rebusques do maravilhoso, a obsesso 
da zoologia impossvel: a fnix que renasce das prprias cinzas, o marincdio que 
nunca cessa o voo, o basilisco que pulveriza as

vtimas com o simples olhar, a salamandra que se no queima nas chamas, etc. J 
sugerimos, a propsito das preocupaes cabalsticas de D. Francisco Manuel e seus 
contemporneos, que o cultismo e o conceptismo talvez representem, em grande parte, o 
sucedneo para o sentimento de frustrao nesta vida, sentimento ao qual, pela 
instabilidade dos quadros sociais e pela bancarrota da Escolstica, no corresponde, 
com o mesmo enraizamento que tivera na Idade Mdia, a crena em uma compensao 
celeste. Pela subtili~ zao conceptista, o esprito dos poetas gratifica-se com a 
iluso de dominar

a estrutura do mundo saltando sobre analogias, fazendo possveis de impossveis, vida 
da morte, alegria do sofrimento, negando aparentemente a

incredibilidade das coisas incrveis, por uma dialctica idealista que o leitor

poder verificar nas poesias de Sror Violante do Cu. Lembremos que o

claro-escuro, a transformao de uma qualidade por gradao intensiva imperceptvel, 
 uma das caractersticas do Barroco no seu significado mais amplo, manifestando-se 
de algum modo na matemtica atravs do clculo

dito infinitesimal, tal como ele  filosofado por Leibniz, um dos seus criadores.

Por outro lado, mediante o virtuosismo cultista, o poeta baralha as

imagens vindas da experincia sensorial, e recria, ou, antes, transfigura o
mundo da percepo. Nenhum gongrico portugus atinge neste ponto a

mestria de Lus de Grigora, mas h dispersamente na Fnix Renascida

muitos achados estilsticos que, reunidos, do a sensao de um perder o


p neste mundo. Repare-se, por exemplo, na concentrao caleidoscpica de efeitos 
obtida nesta quadra referente a uma borboleta, pela confuso de

4. - POCA - POCA BARROCA                                                   501

imagens, pelo jogo de paralelismos, pela sintaxe predicativa e apositiva e

pela aliterao:

Borboletas das luzes deste prado, que no sentes cruis, no vs benignas, tu que, 
temido amor, e amor tornado, feres violetas, beijas clavelinas...

Hernni Cidadej chamou a ateno para uma poesia, alis a outros ttulos

desinteressante, de Jernimo Baa, sobre o Lampadrio de cristal que mandou a Duquesa 
de Sabia  Real Majestade da Poderosssima Rainha de Portugal` Sua Irm, em que 
estes mesmos recursos estilsticos, acrescidos de certas gradaes de intensidade 
superlativante, se destinam a criar um ambiente de luminosidade difusa em torno dos 
fulgores cristalinos, da beleza no porte feminino das princesas, da majestade rgia e 
das coisas astrais e divinas. A mesma nsia de irrealizar ou imaterializar as coisas 
se nota em numerosssimas imagens, umas originais, outras de modelo espanhol: um 
soneto, em castelhano, a um p minsculo, chama-lhe * instante de jasmim+, *susto de 
neve+, *torno de aucena presumido+ (presumido quer dizer: que se presume, mais do 
que se v), *suspeita de cristal+ e *conceito breve+; outro poeta julga nuns olhos 
negros *em duas noites ver o Sol partido+; um papagaio transfortria-se em *Abril 
organizado+, *rarnalhete de plumas com sentido+, *jardim alado+; um cisne em 
*arminho canoro+; umas rosas em *mariposas do sol+, *lnguas da Aurora+; e uma 
cabeleira em *fiamante inundao+.

Mas a prpria inconsistncia desta fantasia como sucedneo de uma plenitude social da 
vida convivente, de uma realizao efectiva do ser humano contra as resistncias 
materiais, traduz-se ainda por um sentimento, oposto, de vacuidade e transitoriedade. 
A rosa, como na decadncia do Imprio Romano, como em poesias clebres de Ronsard e 
de Grigora e num epitfio ainda mais clebre de Malherbe,  na Fnix o smbolo por 
excelncia da beleza caduca. 0 encarecimento das coisas real ou imaginariamente belas 
vem normalmente acompanhado pelo contraponto fnebre da considerao de como so 
mortais e efmeras; a morte est sempre a completar o claro-escuro com a beleza; a 
contrio teolgica segue implacavelmente os prazeres mais sinceros. 0 sentimento do 
pecado, quase jansenista, apenas res~

gatvel pela Graa, que surpreendemos em D. Francisco Manuel de Meio,

502                                           HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

inspira tambm, entre outras poesias do tempo, o Solilquio de um pecador a Cristo 
Crucificado, no Postilho de Apolo. 0 Dr. Antnio Barbosa Bacelar (c. 1610-1663), um 
dos mais famosos e menos originais poetas da Fnx, resume em vrios fechos de 
sonetos este sentimento to geral de desencanto:

- *Ando perdido em mim como em deserto+ (verso que j fora escrito ou parafraseado 
vrias vezes desde Frei Agostinho da Cruz e Martim Castro do Rio);

- *Ah!, quem estivera assim sempre sonhando+ (verso tambm atribudo a Gregrio de 
Matos);

- *Flores pela manh, cinzas da tarde+; -* mundo!  sombra!  zombaria!  nada!+

BARROCO: A stira

A insatisfao do sonho cultista e conceptista faz-se sentir ainda sob outro aspecto: 
a sua pardia e stira, a prpria autocritica de certos gongricos alis 
impenitentes. Jacinto Freire de Andrade, a quem aludiremos como prosador, parodiou em 
oitavas heri-cmicas, provavelmente com segundas intenes em relao a determinadas 
personagens reais, alguns dos temas mais batidos pelos gongricos, como a fbula de 
Narciso e a de Poliferno e Galateia. A pardia de autores consagrados, sobretudo 
Cames,  muito frequente na poca. Diogo de Sousa Camacho, Joo Sucarelo (ou 
Assucarelo) Claramonte e outros satirizam o gongorismo, e o mesmo faz o cnego 
regrante D. Prspero dos Mrtires (f. 1672), que em Pegurcro do Parnaso, de 164 1, e 
naturalmente sob influncia de um forte sentimento anticastelhano, ataca os 
*gongorantes+, exalta a limpidez natural do idioma portugus, que ope ao castelhano, 
segundo ele, *muito amouriscado+, exigindo:

Seja o conceito fundo

mas que possa entend-lo todo o mundo; que no perca a beldade o Sol, por ter mais 
luz e claridade, Por escrnio somente ou zombaria se pode escurecer qualquer poeta,

Entre os que criticam o gongorismo sem deixar de o praticar contam-se Frei Lucas de 
Santa Catarina, nos di logos do seu j mencionado Sero Poltico

4.2 POCA - POCA BARROCA                                                   503

(1704), e, como veremos a propsito do teatro, Antnio Jos da Silva. Fora do grmio 
potico, o paradoxo do formalismo versejante no escapa, por exemplo, a Bernardes, 
que no prefcio da Nova Floresta alude a *alguns poetas modernos, que, no lhes 
acudindo a musa com conceitos para determinados assuntos, fingem o assunto para os 
seus determinados conceitos+.

A stira em verso, prenunciando j no sculo XVII a longa carreira que ir percorrer 
no Sculo das Luzes, ora alterna com o rapto mstico, ora traduz um inconformismo 
mais terreno e material. 0 primeiro caso verifica-se sobretudo no poeta baiano Greg 
rio de Matos (1633-1695), o Boca do Inferno, que, pela vida libertina, pelo 
desbragamento de grande parte do seu

estro,  um precursor de Bocage, mas ainda mais verrinoso e extravasante de dio, e 
com alternativas de remorso, de jogo formal de religiosidade; o prprio tom 
declamatrio, hiperblico e improvisado das suas composies lricas lembra, embora 
com muito menos interesse, as do futuro Elmano Sadino.

Grosseira e tambm frequentemente pornogrfica  a musa de Toms de Noronha, que 
morreu em 165 1, depois de uma vida de bomia e misria. Os versos so para Toms de 
Noronha, ora um meio de pedinchar favores (o que  vulgar at ao Romantismo), ora uma 
forma de descarregar os

seus ressentimentos de fidalgo de alta estirpe sem rendimentos condignos. A sua 
misria f-lo perder todo o respeito, no s  sua condio, mas s outras condies 
sociais, sem excluir as que a religio prestigia ou que o sofrimento espontaneamente 
rodeia de compaixo. D-nos, por dentro e por fora, e cerca de um sculo mais tarde, 
o pungente e at feroz auto-retrato

actualizado do escudeiro vicentino, entre outros flagrantes, por vezes cruis, de 
tipos e costumes. Tambm pelo seu interesse de autobiografia burlesca, mesmo quando 
amargurada por prises e outros desgostos, salienta-se a musa

de Toms Pinto Brando (1664-03-05 - 1743-10-3 1), autor de Pinto Renascdo, 1732; 
Vida e Morte de Toms Pinto Brando escrita por ele semivivo, in Miscelnea curiosa e 
proveitosa, Rollandiana, Lisboa, 178 1, alm de outras poesias de circunstncia 
festiva, e a quem foi j tambm atribuda a stira Este  o Bom Governo de Portugal, 
editada por Joo Palma-Ferreira, 1976.

Oromance de rima nica e assonante, a cuja voga j assistiinos na gerao de 
Rodrigues Lobo,  o principal veculo da stira, da narrativa corriqueira, da aluso 
escarninha ou at obscena. Cultivam-no muitos dos poetas

504                                          HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

que tambm se distinguiram nas subtilezas do estilo culto, como Antnio da Fonseca 
Soares, o mais celebrado discpulo portugus de Gngora. A Fnix e o Postilho contm 
numerosos espcimes, dos menos *impudicos+, deste gnero; mas chegaram at ns em 
coleces manuscritas muitos romances, capazes de preencher um extenso cancioneiro 
seiscentista de escrnio e maldizer, contundente e indecoroso, acerca de amores 
freirticos, de vergonhas, vcios, apertos e ridculos sociais. Alm dos 
desqualificados por razes pecunirias como Gregrio de Matos e Toms de Noronha, os 
perseguidos e vexados pela Inquisio a pretexto de sangue cristo-novo eram 
naturalmente propensos  stira.  o que acontece com Joo Sucarelo Claramonte e com 
Antnio Serro de Castro (ou Crasto: 16 10 - c. 1685). Camilo Castelo Branco editou, 
deste ltimo, uma obra escrita nas masmorras inquisitoriais, Os Ratos da Inquisio.

0 j mencionado Frei Jernimo Baa (1623-1688), pelo prosasmo da sua sensibilidade, 
pela facilidade do seu estro, foi talvez um temperamento satrico nato que o gosto do 
trocadilho deitou a perder. As suas Jornadas at Coimbra e Alentejo, ou  Beira, 
redigidas sob a forma de romance assonante, comportam um certo realismo descritivo 
dos costumes que nos permite reconstituir a maneira como se viajava na poca em 
Portugal, se tivermos a pacincia beneditina de aturar a enxurrada de jogos de 
palavras; servem, alm disso, como mostra da caudalosa correspondncia versejada 
sobre assuntos banais que esta poca nos legou em manuscrito; mas as qualidades do 
autor revelam-se plenamente no Romance satrico burlesco - A umas beatas, que  uma 
das mais certeiras stiras do tempo. Esta sua veia realista alterna com poemas de 
virtuosismo na hiprbole ou na arte de distribuir paralela e antiteticamente duas ou 
mais palavras-chave ou isotopias (linhas de continuidade semntica).

0 Postilho de Apolo contm um curioso quadro de costumes nas oitavas annimas e 
autobiogrficas  Vida de um estudante pobre (1, pp. 298-305), em que o autor ope a 
sua prospia e carreira militar de nobre, juntamente

com o seu passadio de *pura fome+, a *o vilo, que com torpeza, com o suor do seu 
sangue se faz nobre+ . Talvez em lngua portuguesa no haja uma

to eloquente expresso lrica e satrica da fome, da misria goliardesca coimbr 
(com precursores em Ferreira de Vasconcelos e Rodrigues Lobo, como

vimos): sente-se o nobre desqualificado pela penria, com *um grande ven-

4. a POCA - POCA BARROCA                                                 505

tre de gua fria cheio+, acusado caluniosamente, ou no, de roubos, desacatos, e com 
os nervos j muito desgovernados. Remata com este desabafo: *E no pode a morte dar-
me mor tormento/que tomar a fome s por instrumento+.

0 panorama de afundamento da pequena nobreza perante a burguesia, que algumas destas 
poesias nos do; o ataque  clausura,  hipocrisia beata, ao frmalismo gongrico que 
outras ressumam; a incrvel libertinagem mental e fsica revelada, por exemplo, na 
correspondncia de Frei Lucas de Santa Catarina com outros frades e freiras; este 
surto ocasional de prosasmo em

tantos autores - so indcios das contradies que espreitam atrs da fachada 
barroca. 0 artificialismo, a pompa, o exagero, a aparente gratuitidade constituem uma 
tal mscara, mas o prprio frmito que percorre este estilo atormentado resulta das 
tenses ocultas.

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1. Textos

Entre os cancioneiros publicados no ltimo decnio e que em bibliografia de captulo 
anterior se indicaram a propsito da poesia maneirista, interessam tambm  formao 
do Barroco os de Fernandes Toms e de Manuel Faria. No entanto ainda se encontra 
indita a maioria dos manuscritos que melhor documentam a produo em verso do tempo 
da Monarquia Dual, da Restaurao e de D. Joo V.

As mais antigas colectneas editadas so as seguintes: Academias dos Singulares de 
Lisboa, oficina de Henrique Valente de Oliveira, Lisboa, Primeira Parte, 1665, 2. > 
ed., oficina de Manuel Lopes Ferreira, 1692, Tomo Segundo, Craesbeeck, 1668, 2. > 
ed., oficina de Manuel Lopes Ferreira, 1698. (Contm produes destinadas a concursos 
e certames organizados pela Academia.)

Fnix Renascida, 1. > ed., Lisboa, 1715-28, 5 vols.; 2. > ed., ampliada, 1746. 
Postilho de Apoio, Lisboa, 1761-62, 2 vols. Poucos so os autores includos nestas 
coleces que tm a sua obra publicada em vol.  parte. Consulte-se o Dicionrio de 
Inocncio da Silva quanto s publicaes dispersas com que se pode completar o estudo 
das duas colectneas.

Alguns poetas barrocos com obra-editada: Oliveira, Antnio Gomes de: Idlios 
martimos y romances, Lisboa, Craesbeeck, 1617. Brito, Frei Bernardo de: Slvia de 
Lisardo, Lisboa, 1597, reed. fac-similada Vinne Press, Nova lorque, 1903, reed. dos 
sonetos por Fiama Hasse Pais Brand o, col. *Amadis+, 1987.

506                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Soares, Antnio lvares: Rimas Vrias, 1628, reed. fac-similada col. *Duque y 
Marqus+, Valncia, 1923.

Cordeiro, Jacinto: Elogio de Poetas Lusitanos, 163 1, ed. fac-similada col. *Duque y 
Marqus+, Valncia, 1959.

Cu, Sror Violante do: Rimas Vrias, Ruo, 1646 (ver Morujo, Isabel/Martelo, Rosa 
Maria: Subsdiospara uma reedio de *Rimas Vrias+ de Sror Violante do Cu, in 
*Revista da Faculdade de Letras+ do Porto, *Lnguas e Literaturas+, vol. IV, 1987, 
pp. 351-366); Parnaso Lusitano de Divinos e Humanos Versos (1733).

Andrada, Paulo Gonalves de: Vrias Poesias, Coimbra, of ic. Manoel Dias, 1658. 
Soares, Antnio da Fonseca (Frei Antnio das Chagas): Contrio de um Pecador 
Arrependido a Cristo Crucificado, 1685; Fugida para o Deserto.--- 1756.

Silva, Andr Nunes da: Poesias Vrias, Sacras e Profanas, Lisboa, 167 1; Hecatombe 
Sacra, 1686.

Oliveira, Manuel Botelho de: Msica do Parnaso, Lisboa, ofic. Miguei Manescal, 1705. 
Cu, Sror Maria do: A Preciosa, 1731, ed. actualizada do cdice 3773 da Biblioteca 
Nacional, precedida de estudo histrico de Ana Hatherly, INIC, com larga informao 
bibliogrfica e outra, 1990; Enganos do Bosque, Desenganos do Rio, 1736, 1741; Obras 
Vrias e Admirveis, 1735.

Macedo, Duarte Ribeiro de: Discursos Polticos e obras mtricas, 172 1, reed. 1730; 
Obras, Lisboa, 1743 e 1767 (2 vols.), 1817 (com novos inditos).

Coutinho, Francisco de Vasconcelos: Fenda do Pamaso, e Hecatombe Mtrica, ambos em 
Lisboa, 1929.

Andrade, Antnio Pinto Correia de: Elogios Hericos, Porto, oficina de Antnio 
lvares Ribeiro, 1799, espcime acabado dos hiperblicos enc mios barrocos, na 
pessoa de um bispo do Porto.

Textos barrocos tpicos publicados por Hatheriy, Ana: Defesa e Condenao de Manice, 
1989; Poemas em Lngua de Preto dos sculos XVII e XVIII, ed. Quimera, Lisboa, 1990.

Bacelar, Antnio Barbosa: Desafio Venturoso, novela, org. e pref. de Ana Hatheriy, 
Assrio e Alvim, 199 1.

Matos, Gregrio de: Obras, ed. por Afrnio Peixoto, 6 vols. Academia Brasileira de 
Letras, 1923-29-30-33; Obras Completas, 2 vols., Editora Cultura, So Paulo, 1943; 
Obras Completas, ed. org. por James Amado Salvador, Editora Janana, 7 vols., Bahia, 
1968.

Castro, Antnio Serro de: Os Ratos da 1nquiso, ed. prefaciada por Camilo Castelo 
Branco, Porto, 1883. No vol. adiante referido de Heitor Gomes Teixeira h uma 
bibliografia de textos editados ou manuscritos de A. Serro de Castro (ou Crasto), 
alm de vrios extractos e a reprod. fac-smile de um romance.

2. Antologias

A Poesia lrica cultista e conceptista, pref. e notas de Hernni Cidade, na col. 
*Textos Literrios+, 3. 1 ed. 1963.

Escritores doutros tempos, extractos das obras de Violante do Cu, Maria do Cu e 
Madalena da Glria, com reviso e pref . de Mendes dos Remdios, Coimbra, 19 14.

4. - POCA - POCA BARROCA                                                           
      507

Poesias Inditas de Toms de Noronha, ed. rev. e anot. por Mendes dos Remdios, 
Coimbra, 1899.

Vlancicos Seiscentistas, selec. de Darcy Damasceno, Biblioteca Nacional, Rio de 
Janeiro, 1970 (sobretudo textos em castelhano, mas tambm em portugus, galego, 
saiagus e *lnqua de preto+).

Spina, Segismundo/Santilli, Maria Aparecida: Apresentaco da Poesia Barroca 
Portuguesa, Assis, 1967.

Fiza, Mrio: Clssicos Portugueses - Sc. XVII, Porto Editora, 1977 (minuciosa, 
actualizada e rigorosamente anotada).

Ferreira, M. Ema Tarracha: Antologia Literria Comentada. poca Clssica, Sculo 
XVII, Aster, Lisboa, 1977.

Ramos, Pricies E. da Silva: Poesia Barroca, 2. > ed. rev., So Paulo, 1977.

Correia, Natlia: Antologia de Poesia Barroca, Moraes, Lisboa, 1982. Poetas do 
Perodo Barroco, sei. e notas de M. Luclia Gonalves Pires, * Textos Literrios+, 
1985.

Literatura Barroca, selec. e apres. de F. Maciei Silveira, Global, So Paulo, 1987.

Vida e Morte de Toms Pinto Brando - Este  o Bom Governo de Portugal - , antologia 
do poeta satrico Toms Pinto Brando, incluindo uma autobiografia, silvas sobre 
touradas, e outras produes, como a que serve de subttulo e tem sido atribuda a 
Gregrio de Matos, leit., pref. e notas de Joo Palma-Ferreira, Europa-Amrica, 1976.

Ivo Jos de Castro apresentou em dissertao de licenciatura, Fac. de Letras de 
Lisboa, 1969, Frei Jernimo Baa, ed. crtica de 6 poemas, com estudo do vocabulrio.

Matos, Gregrio de: Se Souberas Falar Tambm Falaras - Antologia Potica, selec. e 
notas de Gilberto Mendona Teles, IN-CM, 1989.

3. Estudos


0 estudo de conjunto mais actualizado, quer quanto aos labirnticos problemas de 
atribuio de autoria, quer quanto  periodizao, caracterizao temtica e 
estilstica da poesia barroca,  o de Silva, Vtor Manuel Pires de Aguiar e: 
Maneirismo e Barroco na Poesia Lrica Portuguesa, Centro de Estudos Romnicos, 
Coimbra, 197 1, com larga bibliografia de textos e monografia. Nos volumes que Jorge 
de Sena consagra a Cames, e que oportunamente referimos, e sobretudo nos seus 
Estudos de Histria e de Cultura, vol. li, incompletamente publicados em *Ocidente+, 
desde 1967, encontram-se numerosos dados e observaes crticas acerca dos 
cancioneiros publicados, problemas de autoria e de identificao genealgica ou 
biogrfica, relaes literrias hispano-portuguesas, etc,, que interessam  poesia 
barroca.

Alm dos estudos includos nos livros atrs mencionados, do ensaio crtico de Antnio 
Corra de Almeida e Oliveira na antologia de As Segundas Trs Musas de Francisco M. 
de Meio, col. *Clssicos Portugueses+, e principalmente do de S. Spina em 
Apresentao da Poesia Barroca Portuguesa (que contm bibliografia), leiam-se:

Cidade, Hemni: Lies de Cultura e Literatura Portuguesa, 1. 1 vol., 7. > ed., 1984, 
e 0 Conceito de Poesia como Expresso da Cultura, 2. > ed. cor. e aum., Coimbra, 
1958.

508                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Figueiredo, Fidelino de: Histria da Literatura Clssica - 2. > poca, 3. > ed. rev., 
So Paulo, 1946; A Crtica Literria em Portugal, Lisboa, 1910.

Pontes, M. de Lourdes Belchior: Frei Antnio das Chagas - Um Homem e um Estilo do 
Sc. XVII, Lisboa, 1953; Os homens e os livros, Lisboa, 1971, onde rene estudos 
sobre a teoria e a arte conceptista, sobre o Barroco peninsular em geral, a forma 
estrfica denominada *lira+, tendo especialmente em vista A. Fonseca Soares, ou 
Antnio das Chagas, e o preceptista Francisco Leito Ferreira.

0 melhor estudo deste preceptista encontra-se em Castro, Anbal Pinto de: Retrica e 
Teorizao Literria em Portugal do Humanismo ao Neoclassicismo, Centro de Est. 
Romnicos, Coimbra, 1973, pp. 143-227.

Martins, Heitor: Manuel de Galhegos, Anadia, 1964 (dep. Liv. Portugal, Lisboa). 
Mouro-Ferreira, David: Nota sobre Francisco de Vasconcelos, in Hospital das Letras, 
Lisboa, 1966, reed. IN-CM, s/d.

Mendes, Joo: Poesia e Gongorismo, in *Brotria+, vol, 29, 1930, e 30, 1940.  
necessrio o confronto com a poesia seiscentista espanhola, para o que se podero 
utilizar os manuais da Literatura Espanhola indicados no fim deste vol., e diversos 
estudos monogrficos de Drnaso Aionso, Antnio Machado, Antnio Marichalar, Fernando 
e Guilhermo Diaz-Piaja, Edward Glaser, Alfonso Reys, Arturo Marasso, etc., alguns dos 
quais o leitor encontrar referidos nos estudos mencionados de A. Corra de Almeida e 
Oliveira, de Heitor Martins e de S. Spina. Ver, em especial, Montes, Jos Ares: 
Gngora y Ia poesia portuguesa del siglo XVII, Gredos, 1956, e sua recenso por L. 
Stegagno Picchio, in Filologia Romanza, Turim, ano lii, 1956. Ver ainda: Cerdan, 
Francis: Un Imitateur portugais de Gngora: Frei Jernimo Bahia, in Sillages, 1973, 
2, Univ. de Poitiers.

Teixeira, Heitor Gomes: As Tbuas do Painel de um Auto (Antnio Serro de Castro), 
Univ. Nova de Lisboa, 1977 (estudo biobibliogrfico minucioso).

Os estudos de E. Giaser (sobre Gabriel Pereira de Castro, Miguei da Silveira, 
Francisco Manuel de Meio, e outros) esto includos em Portuguese Studies, Centro 
Cultural Portugus, Paris, 1976.

Rodrigues, Graa Almeida: Literatura e sociedade na obra de Frei Lus de Santa 
Catarina (1660-1740), IN-CM.

Quanto a Gregrio de Matos, ver as introdues s ed. de Obras, 1923-33, e Obras 
Completas, 1943 e 1968.

Peres, Fernando da Rocha: Gregro de Matos e Guerra: os apgrafos em Portugal, in 
*Ocidente+, 77, n. 377, Set. 1969, com recenso e bibliografia.


Hatherly, Ana: A Experincia do Prodgio - Bases Tericas e Antologia Textos- Visuais 
Portugueses dos sculos XV/1 e XVIII, IN-CM, 1983 (estudo dos fundamentos hermtico-
cabalsticos, das formas visuais de textos impressos ou manuscritos, com numerosas 
reprodues antolgicas); da mesma autora ver um estudo sobre anagramas barrocos no 
n. > de Maro de 1979 de *Colquio/Letras+, e outro sobre labirintos, ibidem, n. 0 de 
Maro de 1980, e ainda apresentaes das eds. de Defesa e Condenao de Manice, 
Quimera, Lisboa, 1989, e A Preciosa, de Sror Maria do Cu, atrs referida.

4. - POCA - POCA BARROCA                                                           
   509

A atribuio da autoria das Lettres Portugaises foi refutada com segurana por Green, 
F. G.: Who was the author of the *Lettres Portugaises+ , in *Modern Language 
Review+, Abril, 1926. Leia-se, a propsito, Rodrigues, Antnio A. Gonalves: Mariana 
Alcoforado Histria e Crtica de uma fraude literria, in * Biblos+, vol. X1, 1935, 
pp. 85-136, reed. Coimbra, 1943, A apocrif ia das cartas no implica a falsidade dos 
alis obscuros amores

de uma freira portuguesa com um oficial francs da Restaurao. Sror Mariana 
Alcoforado existiu. A contrafaco demonstrada refere-se apenas s cartas tais como 
esto redigidas, que, desde a 1. > publicao em 1669 at ao sc, XIX, tiveram cerca 
de noventa edies em vrias lnguas, concorrendo para a literatura sentimentalista 
pr-romntica e para a voga do romance encadeado sob a forma de cartas.

Guimares, Horcio de Castro: 0 Mito das Cartas de Sror Mariana, in *Gil Vicente+,
2. srie, XIII, n.os 7-8, Jul.-Ag. 1962.

Guilleragues: Lettres Portugaises, com est. de F. Deloffre e J. Rougeot, *Classiques 
Garnier+, 1962 (a autoria das Cartas  atribuda a Gabriel de Lavergne, Senhor de 
Guilleragues).

Deloffre, F.: L'nigme des lettres portugaises, in *Builetin des tudes Portugaises+,
27, 1966; ainda de Deloffre/Rougeot: Etat prsent des tudes sur Guilleragues et les 
*Lettres Portugaises+, in *L'Information Littraire+, 19, Set.-Out. 1967.

Fonseca, Antnio Belard da: Mariana Alcoforado, Lisboa, 1966. Krll, Heinz: Zur Frage 
der Echtheit der *Lettres Portugaises+, in Aufgestze zur Portugiesischen 
Kulturgeschichte, vol. 10, 1970, Mnster, pp. 70-88 (corrobora a autoria do Senhor de 
Guilleragues).

Acerca dos amores freirticos leia-se Dantas, Jlio: 0 Amor em Portugal no sc. 
XVIII,
1916, com ilustraes de Alberto de Sousa; e diversos livros de Manuel Bernardes 
Branco, como Histria das Ordens Monsticas em Portugal, 1883, 3 vols.

A Autobiografia (1652-1717), de Antnia Margarida de Castelo Branco, pref. de Joo 
Palma-Ferreira, IN-CM, 1983, interessa como depoimento minucioso de vida conjugal e, 
depois, conventual de uma mulher aristocrata, escrito entre 1681 e 1703.

Matias, Elze M. H. Vonk: A Academia dos Generosos: uma academia ou sequncia de 
academias?, in *Revista da Biblioteca Nacional+, 1982, 4, pp. 223-241; e Seis 
Certames Generosos, ibidem, 1/2, pp. 47-73.

Captulo IV

BARROCO: TENTATIVAS TEATRAIS

Como vimos, no sculo XVII assiste-se a um extraordinrio progresso do teatro 
europeu. A commedia dell'Arte populariza desde 1570 a comdia clssica, 
esquematizando os seus tipos humanos, mas vitalizando os efeitos cnicos graas  
primazia dada ao actor, j profissionalizado, sobre o autor literrio. Este teatro 
popular italiano conquista o pblico dos grandes centros espanhis, ingleses, 
franceses, alcana a corte destes pases, vai caldear-se em propores diversas com 
as tradies medievais dos milagres, moraldades e farsas, com elementos do teatro 
erudito e retrico que as universidades impregnadas de classicismo tinham feito 
surgir no sculo XVI, e acaba por contribuir fortemente para a formao das trs 
grandes escolas nacionais cujos expoentes mximos so Lope de Vega, Shakespeare e 
Molire. Estas escolas nacionais diferem profundamente entre si, apesar de muito 
ligadas pela origem e pelas suas inter- influncias, sobretudo as influncias 
espanholas no teatro francs.

BARROCO: O teatro espanhol em Portugal

Com o fim da dinastia de Avis, o pblico da nossa principal cidade ficou sob a 
hegemonia da dramaturgia espanhola, que entretanto progredira em condies muito 
favorveis, como apontmos.

A acesso de Filipe Il ao trono portugus  seguida por tentativas para organizar em 
Lisboa a explorao de ptios da comdia em benefcio do Hospital de Todos-os-Santos 
(alvar de 1588), o que no pode deixar de corresponder a um hbito criado por 
representaes de grupos portugueses de amadores ou de semiprofissionais, pela 
estadia de companhias de cmicos sevilhanos ou madrilenos e at de comdia dell'Arte 
italiana.
0 caso  que em 1591 existe j uma empresa fixa para explorao teatral, e em 1594 j 
se realizam espectculos no primeiro edifcio construido expressamente para esse fim: 
o

512                                                  HISTRIA DA LITERATURA 
PORTUGUESA

Ptio das Arcas, que funcionou com poucas intermitncias durante cerca de sculo e 
meio, levando a melhor na concorrncia que outros similares lhe foram por vezes 
fazendo. Tal

como um corra] madrileno, um *ptio+ consiste, arquitectonicamente, numa cerca 
rodeada

por uma construo de janelas de grades ou gelosias (em dois andares), que so os 
lugares de aluguer mais caro; dividindo em duas partes a parede onde assomam as 
janelas, h unia espcie de balco. Os espectadores que estavam no ptio propriamente 
dito assis~ tiam de p. Os espectculos realizavam-se quase sempre  luz solar, em 
dias de descanso ou festa, cobrindo-se o recinto com um toldo, se o tempo o exigisse.

Nestes e noutros ptios mais efmeros passaram muitas das principais companhias 
espanholas e representaram-se as mais famosas comdias de capa e espada (a nova 
comdia lopesca, a que mais tarde se seguiu a comdia de teatro de escola 
calderoniana, gongorizante, mais espectacular, exigindo novos meios cnicos e 
arquitecturais, e que est na origem da zarzuela, nome proveniente do Palcio Real da 
Zarzuela, onde se consagrou). De facto, as principais cidades da Pennsula eram 
percorridas por companhias de lgua, com repertrio, elenco e acessrios j 
consolidados. A nacionalidade dos comediantes, a influncia dos modelos e a fcil 
inteligibilidade da fala castelhana para o pblico portugus levaram diversos 
comedigrafos nossos, que tambm alimentaram ou tentaram alimentar ptios lisboetas e 
at corrales espanhis, a escrever nessa lngua: Jacinto Cordeiro, Joo de Matos 
Fragoso, Henrique Gomes e D. Francisco Manuel de Melo.

No coni .unto de um espectculo destas comdias e de outras peas tambm 
estruturadas, integravam-se alocues prologais em verso (loas), para atrair e 
sossegar a assistncia, e ainda passos ou entremezes, para manter a ateno nos 
intervalos das jornadas ou


partes, elementos que se autonomizam e aproximam das caractersticas do teatro 
daquela tradio que percorrera Gil Vicente e Baltasar Dias, sob nomes flutuantes 
como autos, prespios, vilancicos, sainetes, xcaras e mogigangas. A configurao 
dramtica geral  rudimentar, no passando por vezes de um quadro ou simples 
flagrante de costumes e tipos. Se alguns dos espcimes apresentam versificao 
regular, outros oscilam entre a prosa e o verso aproximadamente heptassilbico, de 
rima tambm irregular e fcil (infinitivos de verbos, nomes em -o ... ). Ao lado de 
cenas religiosas, tratadas do modo mais ingnuo e/ou burlesco, figuram tipos sociais 
da tradio, entre outros mais actualizados (mulheres infiis, outras mulheres 
simplesmente gulosas e ladinas, clrigos femeeiros, moas levianas, peixeiras, 
barqueiros e outros martimos, moleiros, serventes, peraltas dados a amores 
freirticos, um cego com o seu moo, cenas de rua ou mercado, de vida martima, de 
espectculo de touros, etc.).  frequente um latim muito atrapalhadamente 
macarrnico, e o portugus (ou castelhano) de preto. Muito tpico, tambm, o remate 
por uma cena de pancadaria ou de perseguio.

O Fidalgo Aprendiz e a tradio vicentina

D. Francisco Manuel tambm, como vimos, se animou a tentar a comdia espanhola. Das 
suas diversas tentativas no gnero s se conhece hoje

4. a POCA - POCA BARROCA                                                   513

a pea De Burlas hace amor veras sobre o tema do sedutor que acaba por ser seduzido, 
tema que (nesta como noutras comdias espanholas anlogas) se presta a uma complicada 
e intrigante aco.

0 Fdalgo Aprendiz, acabado de escrever em 1646, numa altura em que o autor, j 
preso, procurava testemunhar perante o rei a sua lealdade  Restaurao, obedece 
claramente ao intuito de remar contra a corrente teatral castelhana, pois, embora 
dela aproveite a experincia formal, dividindo a

aco em trs jornadas (a que apresenta as intenes das personagens; a que d os ns 
da intriga; a que aperta esses ns... at os desfazer), procura articular com tal 
experincia certos tipos e ambientes de farsa vicentina. Gil Vicente ser mais tarde 
brindado no Hospital das Letras como *o primeiro corteso e o mais engraado cmico 
que nasceu dos Pirentis para c+, e

aos seus continuadores directos no regateia D. Francisco Manuel os elogios.

0 enredo do Fidalgo Aprendiz desenvolve-se a partir de dois comeos de jornada ao 
gosto vicentino, dir-se-ia mesmo que a partir das duas situaes complementares de 
Quem Tem Farelos?: um lacaio (Afonso Mendes) descobre-nos a insnia do seu patro, D. 
Gil Cogominho, escudeiro provinciano sem grandes meios, que se pretende afazer  vida 
galanteadora e prendada dos fidalgos lisboetas; uma velha (Isabel) aconselha a moa 
sua filha (Brites) a deixar-se de enleios sentimentais e a tirar partido das suas 
graas fsicas. 0 cunho arcaizante da linguagem, o ritmo da redondilha, certas 
analogias de pormenor, a deformao caricatural prpria da farsa - intensificam a 
atmosfera vicentina. Mas a pea desdobra-se depois dentro das linhas do enredo de 
enganos que vm da comdia clssica renascentista: o lacaio logra o ridculo patro a 
favor de outro competidor mais jovem, Beltro, pretenso amigo de Gil, junto da viosa 
e esperta Brites, cuja me , analogamente, uma proxeneta sem escrpulos.

0 enredo  simples, mais simples que o da comdia renascentista ou lopesca, e o autor 
explora tambm sob este aspecto as virtualidades da farsa vicentina, tendendo 
intencionalmente para uma pea de caracteres e de ambientes, como o seu contemporneo 
Molire. 0 primeiro acto descreve caricaturalmente a rusticidade, o anacronismo e a 
megalomania de Gil Cogominho, atravs das sucessivas lies de prendas de corte que 
recebe de um mestre de esgrima, de outro de dana e de um terceiro de poesia. No 
segundo acto, o dilogo inicial, os galanteios de D. Gil a Brites, a maquinao que 
est

HLP - 33

514                                          HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

j a tramar-se interessam principalmente como contrastaria psicolgica de caracteres. 
Finalmente, D. Gil arrisca-se, no terceiro acto, a realizar de noite o rapto da sua 
bela, e, quando j vai a abalar da casa de Brites com a trouxa

s costas, as mulheres, usando um estratagema vulgar na novela picaresca, gritam por 
socorro contra o ladro, e fazem acudir Afonso Mendes e D. Beltro, disfarados de 
alcaide e beleguim, ficando o *fidalgo aprendiz+ roubado de tudo quanto logradamente 
trouxera. Este ltimo acto  um excelente quadro de costumes, pois que nos d o 
ambiente de uma noite lisboeta

da Restaurao: D. Gil, de rodela e estoque em punho, ora monologa bravatas, ora se 
enche de suores frios, ao tomar por almas penadas e lobisomens um moo de estrebaria 
a arrastar a arreata, uma parteira embuada, um penitente que encomenda  gente j 
recolhida as almas do Purgatrio.

Este tipo do fidalgo provinciano em Lisboa vamos encontr-lo dois sculos

mais tarde n'A Queda dum Anjo de Camilo. Isto parece atestar duas fases no 
agravamento do contraste campo-cidade e a impossibilidade, j na poca de D. 
Francisco Manuel, de uma aristocracia rural como aquela que S de Miranda ainda 
exaltava. D. Francisco Manuel, modelo de homem palaciano, est  vontade para 
satirizar esse degenerado representante do extinto tipo mirandino, esse fantasma 
histrico. Mas ele prprio, na sua predileco pelo estilo arcaizante, pela famlia  
antiga portuguesa, e at na tentativa para ressuscitar as formas do teatro vicentino, 
parece sentir a nostalgia daquele tipo de nobreza e do contexto social a que est 
ligado. Uma parte de D. Francisco troa de Gil Cogominho, outra parte acompanha-o.

Talvez isto seja sintomtico das dificuldades que obstavam ao surto de

um teatro nacional. Um passadismo que se quebra contra uma realidade contempornea 
muito superficialmente representada no chega a constituir matria

propcia. Havia que seguir, no as formas da herana vicentina, mas o exemplo dela. 
Era preciso surpreender o dinamismo das paixes, dos interesses e dos

ideais em circunstncias caractersticas nacionais, como o principiara a fazer

Gil Vicente. Mas a crtica da vida portuguesa, isto , de um modo senhorial

retardatrio e dbil, reestruturado como monarquia monopolizante sob uma


ideologia contra-reformista, defendendo-se contra o avano inelutvel da burguesia 
mercantil, pode apenas aparecer como possvel  luz de problemtica nova, numa 
intuio diferente dos destinos nacionais e gerais.

4. - POCA - POCA BARROCA                                                           
      515

 de notar todavia que a pobreza do teatro portugus nesta poca contrasta com o 
esplendor do teatro castelhano, apesar de o contexto social e cultural dos dois 
pases ser semelhante.

A pera italiana em Portugal (primeira fase: at meados do sculo XVIII)

Ao mesmo tempo que, em Itlia, Espanha, Inglaterra e Frana, as escolas nacionais de 
teatro se formam, atravs de uma sntese entre as exigncias de aco viva por parte 
do grande pblico e as de coerncia lgica, psicolgica e esttica por parte da 
minoria intelectual e corts - est em formao lenta um outro gnero, o melodrama. 0 
melo~ drama resulta, em parte, da preocupao de restaurar a tragdia clssica na sua 
integridade, como sntese que era de representao cnica, da versificao e do 
canto. Mas o

estilo dominante na msica da segunda metade do sculo XVI (o canto polifnico a 
capella, em que as vozes se fundem num feixe de melodias percebidas em conjunto e no 
separadamente) atrasa a evoluo deste gnero. De resto, o predomnio da polifonia 
relativamente a uma melodia vocal que se destacasse do respectivo acompanhamento  um 
reflexo

de certa tendncia mais geral, o intelectualismo refinado, para poucos apenas, dos 
crculos corteses, que promove tambm o desenvolvimento da novela pastoril, 
preferindo aos

enredos hericos de cavaleiros os de zagais apaixonados, versificadores, musicantes e

filosofantes. A tragdia, o gnero clssico nobre por excelncia, resvala no ltimo 
quartel do sculo XVI para o drama pastoril (Aminta de Tasso, 1573).

Como vimos noutros captulos, um dos ingredientes do Barroco  precisamente o gosto 
da alegoria buelica em estilo mais ou menos difcil (Jorge de Monternor, Tasso, 
Guarim, John Lyly, Honor d'Urf). 0 desejo de integrar a msica no teatro,  maneira 
grega, e a tendncia, que se verifica nesta poca, para fundir diversas artes e 
produzir deste modo impressionantes efeitos de conjunto consagraram desde incios do 
sculo XVII o melodrama italiano. Este procura a princpio manter-se em ambiente 
trgico e mitolgico, com muitos


ressaibos pastoris, conservando quanto possvel a msica polifnica e todas as 
caractersticas de um espectculo de corte (Monteverdi); mas seguidamente desenvolve 
a importncia das rias, ou melodias cantadas ao acompanhamento de orquestra, torna-
se um espectculo de explora o comercial, desfrutado pela nobreza e alta burguesia 
(primeira casa de espectculos, Veneza, 1637), originando em Npoles, pelos fins do 
sculo XVII, a pera cmica ou pera bufa. (Agentes desta evoluo geral, do sculo 
XV11 ao sculo XVIII: Apstolo Zeno, Metastsio, Lulli, Paisiniello, Cimarosa, 
Pergolesi). Nesta evoluo integram-se ainda outras artes, alm da representao, do 
verso e da msica lrica e orquestral, pois os Italianos criam um novo tipo de 
arquitectura teatral, em que o anfiteatro semicircular  substitudo pelo edifcio 
fechado por cima, de planta elptica, com o proscnio inteiramente destacado dos 
espectadores, e uma cenografia que, no se contentando com o pano de fundo pintado, 
cria a perspectiva em profundidade mediante sucessivos bastidores sabiamente 
iluminados e removveis, graas a complicados processos mecnicos. A  pera tomava-se 
uma

516                                              HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

sntese de todas as artes - uma arte cara, para cortes e, depois, tambm para a 
burguesia rica e ilustrada. Metastsio distraiu as cortes absolutistas europeias da 
primeira metade do sculo XVIII com as suas rias (neste caso, poesias lricas no seu 
sentido prprio, isto , musicadas para cantores solistas), que, entremeadas 
regularmente com recitativos, permitiam exibir todas as possibilidades de cada 
solista vocal; de resto, no eram

menos atractivos os seus entrechos sentimentais muito enredados, que chegam sempre a 
desfecho feliz, num coro final dos cantores.

Na corte portuguesa ouviu-se pera pela primeira vez em 1682, aos cantores vindos na 
comitiva do duque de Sabia, e no primeiro quartel do sculo XVIII realizam-se j 
serenatas e outros espectculos musicados, em

italiano, na cmara da rainha ou em restritas reunies de cortesos ou embaixadores, 
com preferncia da pera bufa. Conhecem-se desde 1720 numerosos ttulos de melodramas 
italianizantes entre ns cantados, quer no original, quer (a partir de certa altura, 
e durante o sculo XVIII) em traduo e sobretudo refundio portuguesa. Em 1735 
existia j uma casa de espectculos especializada na pera, por contrato com a 
companhia das Paquetas (designao corrente das Paghetti), o Teatro da Trindade, ou 
Academia de Msica. A primeira adaptao de Metastsio para portugus parece ser de
1741; anteriormente, editam-se libretos em italiano ou bilingues, entre 1736-38 para 
a Academia de Msica, e entre 1738-41 para o Teatro da Rua dos Condes.

No entanto a poltica de D. Joo V, que, como o fundador da dinastia brigantina, 
preferia a msica sacra, no  favorvel  expanso do teatro pblico de qualidade. 
Os espectculos chegaram a ser proibidos em 1742, em ateno a uma enfermidade rgia. 
Foi no reinado de D. Jos, em 1755, que se construiu o primeiro teatro anexo ao Pao 
mas aberto ao convite de altas personagens, incluindo negociantes, a pera do Tejo, 
que poucos meses durou devido ao terramoto, alm de outros, em lugares onde a corte 
estanciava (Ajuda, Salvaterra; mais tarde, Queluz). Em 1764-65 so j encomendados a 
Goldom libretos para pera bufa, mas as cantoras-actrizes so obrigatoriamente 
supridas por castratti. S depois de construido o Teatro de S. Carlos (1793), por 
diligncia de Pina Manique e empenho da alta burguesia (que j em 1772 organizara uma 
empresa teatral),  que as mulheres passam a frequentar livremente os espectculos 
lricos ou declamados e so, desde 1800, admitidas actrizes.

Quanto ao teatro clssico francs (nomeadamente representado por Molire, Voltaire, 
mais tardiamente, em 1794, por Corneille)  apenas exibido a partir de 1755; uma


pea de Molire fora j *adaptada+ para um grupo de amadores em 1737, mas a traduo 
do Tartufo em 1768 foi com xito reajustada para ilustrar a posio antijesuta de 
Pombal e teve vrias imitaes.

4. - POCA - POCA BARROCA                                                           
     517

Por efeito convergente da moda do melodrama italiano, que assim lentamente se

difunde a partir de estreitos crculos aristocrticos, e da evoluo da comdia 
lopesca de capa e espada para a zarzuela de escola calderoniana, que exigia novas 
condies cnicas, musicais e textuais, e que as companhias espanholas traziam j no 
seu repertrio, vo surgir novas condies para o teatro. A aristocracia e a alta 
burguesia frequentam, no

segundo quartel do sculo XVIII, espectculos de pera sria da escola de Metastsio, 
*acomodadas ao gosto portugus+ (melhor se diria ibrico) com a introduo de pares 
de criados e criadas (os graciosos) para divertimento cmico, entre outros reajustes 
ao

libreto, cada vez mais frequentemente em portugus; a baixa burguesia, certas camadas 
populares, inclusivamente rurais, entretm-se com aquele cruzamento que j apontmos 
entre a comdia espanhola lopesca e uma tradio antiga e realimentada pelos 
entremezes e outros elementos de agrado fcil desenvolvidos pelas companhias de 
lgua; era preciso criar um tipo intermdio de espectculo que no deixasse de 
interessar camadas sociais com algumas luzes letradas, mas que fizesse tambm apelo a 
um mais largo pblico pagante, e que acabou por passar por uma escola de perajocosa 
portuguesa, publicada no apenas em folhetos de cordel mas tambm reunida por um 
editor, Francisco Lus Ameno, que tambm se interessava por autores e doutrinrios do 
gosto arcdico, e que traduzia Metastsio.

ANTNIO JOS DA SILVA e as *peras de bonecos+

A decadncia do teatro espanhol e o custo proibitivo da pera italiana para uma parte 
do pblico dos antigos ptios fomentaram de facto outro tipo novo de espectculo: o 
teatro de bonecos articulados, ou bonifrates, cujas cenas principais rematavam por 
rias ou minuetes cantados a solo, a duo, a trio, ou, ainda, excepcionalmente, por 
uma ou duas vozes mais. Este gnero de espectculo deve ter nascido em Itlia como 
pardia da  pera. Entre ns tais peas foram muito apreciadas: eram classificadas 
como *peras+ e uma

personagem de Correia Garo designa-as como *portuguesas peras+. No se sabe por 
que vias o gnero se vem a constituir em Lisboa na dcada de
30 do sculo XVIII, como  que se lhe veio a adaptar um salo do conde de Soure,  
Rua da Rosa, sob o nome de Teatro do Bairro Alto. J Rodrigues Lobo, numa carta, 
comparava as celas dos Capuchinhos a *uma casinha de bonifrates+. Por aluses das 
peas, fica-se sabendo que os fantoches

eram de cortia pintada e ataviada, e articulados com arame. As representaes 
exigiam um nmero considervel de panos de fundo, sempre mais de uma dezena, e o 
manejo complicado de objectos: uma escada, uma caixa de abrir e fechar, um barco, uma 
mesa posta, um moinho, etc. H tambm

518                                                HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

razes para crer que algumas peas chegaram a ser representadas por autnticos 
actores, provavelmente mediante adaptao. 0 grande animador lite~ rrio deste gnero 
de espectculo parece ter sido Antnio Jos da Silva.

Antnio Jos da Silva, o *Judeu+, nasceu no Rio de Janeiro em 1705, de uma das 
famlias crists-novas que se tinham acolhido  relativa tolerncia religiosa que as 
condies da colonizao brasileira e o tratado de paz com os Holandeses impuseram 
at fins do sculo XVII. Em 1711, vem com o pai, que era advogado e poetava, para 
Lisboa, seguindo a me, trazida sob priso como judaizante. Em 1726, quando j 
estudava Direito Cannico em Coimbra,  preso, juntamente com a me, que 
anteriormente se *reconciliara+ num auto-de-f. Sujeito a tormentos que o 
incapacitaram de assinar o auto durante

vrias semanas, *reconcilia-se+ num auto-de-f (o que volta a acontecer  me aps 
trs anos de priso e tortura). No se sabe se concluiu o curso nem de que viveria, 
salvo, talvez, entre 1733 e 1737, da produo e provvel direco das suas peas 
teatrais, a

que alis se no refere um seu segundo processo inquisitorial. Com efeito, casa-se,  
em 1737 novamente preso (alis sem denncia). 0 processo inquisitorial parece ter 
sido conduzido com especial malevolncia. Foi condenado  morte e executado no auto-
de-f de 18 de Outubro de 1739 em Lisboa. Como sucedia a todos os condenados que 
declaravam querer morrer na religio catlica, foi garrotado antes de acesa a 
fogueira.

Em 1744 editavam-se dois volumes de Teatro Cmico Portugus, com urna Dedica~ t,ria 
 Mui Nobre Senhora PecLna Argentina, que contm pormenores pitorescos sobre as 
condies de representao: a barafunda na ocupao dos lugares, o consumo de 
chocolate e bolos, o sabo usado para os cortinados girarem nas corredias, *a alma 
de arame no corpo de cortia+ dos bonifrates. A sua atribuio ao *Judeu+ num 
acrstico prefacial com o nome de Antnio Joseph da Silva e uma breve aluso no 
processo inquisitorial s composies deste ltimo so as nicas garantias de uma 
atribuio tradicional de autoria, que todavia alguns eruditos pem em dvida. Um 
manuscrito da Biblioteca da Academia das Cincias de Lisboa atribui a Antnio Jos da 
Silva as Obras do Diabinho da Mo Furada. Outro manuscrito, na Biblioteca Nacional de 
Lisboa, atribui a mesma obra a Pedro Jos da Fonseca. Comentaremos essa novela 
exemplar e picaresca num captulo posterior, excluindo a verosimilhana da autoria de 
Antnio Jos da Silva. Tambm no nos parecem aceitveis as razes de atribuio a A. 
Jos da Silva de uma pea hagiogrfica em castelhano, E] Prodigio de Amarante, que 
destoa das peas mais autenticadas.


A efmera carreira dramtica de Antnio Jos da Silva, que parece ter principiado em 
1733 com a Vida do Grande D. Quixote de 1,9 Mancha e do Gordo Sancho Pana, abrange, 
alm desta, as seguintes peas: Esopada (1734), Encantos de Medeia (1735), Anfitrio 
e Alcmena, Labirinto de Creta (ambas representadas em 1736), Guerras do Alecrim e 
Manjerona, As Varieddes de Proteu (ambas de 1737), Precipcio de Factonte (173 8). 
Na segunda

4. @ POCA - POCA BARROCA                                                 519

edio de 1747, o coleccionador anuncia que publicar outras oito peas, que afinal 
no vieram a lume. Edies posteriores do Teatro Cmico Portugus incluem peas da 
autoria de Rocha Seabra e de Alexandre Antnio de Lima, onde encontramos as primeiras 
adaptaes portuguesas de Metastsio, tratando-se j, por isso, de peras 
propriamente ditas, que foram representadas nos teatros e dentro das condies 
normais. Cronologicamente, a primeira adaptao de Metastsio includa nos volumes do 
Teatro Cmico Portugus parece ser de 1741. Isto significa provavelmente que a 
traduo e adaptao do melodrama italiano ao gosto portugus (em vez da sua 
representao segundo o original, ou at em vez da pera de autoria portuguesa com 
letra em italiano) foi em Lisboa precedida e sugerida pela adaptao desse gnero a 
peas para bonecos articulados, que de resto teve grande e

duradoura voga europeia.

Como representantes, que devem ter sido, da transio da comdia espanhola para o 
melodrama italiano adaptado, e da do pblico relativamente heterogneo da primeira 
para os pblicos bem discriminados da pera e do entremez popular, as nove peas 
subsistentes do *Judeu+ interessam antes de mais nada pelo talento com que nelas se 
realiza a sntese de orientaes to diversas: nelas, a subtileza conceptual ou 
analgica, a argcia escolstica, variadas proezas j nossas conhecidas de engenho 
versficatrio barroco conseguem alternar com a vivacidade da inveno enredadora, a 
maravilha dos imaginrios poderes mgicos, a graa hilariante e uma margem de pardia 
farsesca que pe em causa a ideologia todavia enfatizada e que parece mesmo piscar o 
olho trocista ao desenlace convencionalmente feliz apelando para sectores diversos do 
pblico.

Da comdia lopesca (que a terminologia popular apresenta como tecida entre os tipos 
bsicos do Gal, a Dama, o Barbas, personagem respeitvel de pai, rei, senhor ou 
deus, o Gracioso servil e o *Vejete+, ou Velhote) essas peas assimilam urna intriga 
rpida, que em Guerras do Alecrim e Manjerona, a que melhor continua tal comdia, se 
emaranha e desemaranha com admirvel destreza. No centro dessa intriga e de todo o 
ambiente cmico, encontra-se sempre o tipo do gracioso - o criado ou subalterno que 
tece todos os logros ou alomba com as consequncias de todos os fracassos, herdeiro 
do servus da comdia latina, cuja inteligncia e concreta responsabilidade permite 
aos amantes e s personagens dignificadas o exibirem, sem quebra de convencional 
superioridade, o seu idealismo mais ou menos oco.

520                                       HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

A simples enumerao dos ttulos mostra que os temas de Antnio Jos

da Silva foram extrados da mitologia ou da tradio clssica, com excepo do D. 
Quixote, que  urna selectiva e livre adaptao da Parte 11 do romance de Cervantes, 
e do Alecrim e Manjerona, comdia de intriga e de costumes, claramente alusiva  
rivalidade de dois ranchos carnavalescos. Pelo assunto dominante e pela frequente 
mutao de cenrios, dir-se-ia que o teatro de

bonifrates  um sucedneo acessvel da espaventosa cenografia que caracteriza os 
espectculos barrocos. Deuses e heris galantes falam, nestas peas,

com um preciosismo recheado de finezas ou de extremos de hiperblicos e nobilssimos 
amores, traduzidos por conceitos subtis, trocadilhos, metforas encarecedoras, 
paradoxos e enigmas. 0 termo *labirnto+, que figura num dos ttulos para 
expressamente insinuar que *o amor  o maior labirinto+, funciona (isso alis no 
Maneirismo e no Barroco em geral) como uma

palavra-chave destas peas e a sua imagem preside a um grande intrincamento de 
aspiraes, predominantemente amorosas. A maior mestria verifica-se na construo de 
Jtpiter e Alemena, em cujo esquema clssico e j muito versado (inclusivamente, j o 
sabemos, por Cames) se acrescentam novas personagens e situaes de uma esfuziante 
fantasia: quiproqus por metamorfose e contra-metamorfose, por invisibilidade, por 
equvoco ou por engano intencional, por entrecruzamento de amores e cimes, por 
confuso visual que vai at  dvida de identidade pessoal, num enredo de deuses e 
heris e num sub-enredo parodstico de graciosos. As comdias sobre Proteu e

Medeia focalizam outro tema tambm difuso em todo este teatro: o da transformao 
mgica e do enigma (que j sabemos ser outra palavra-chave deste gosto); as tramias, 
ou mecanismos de mutao de cena ou figura, provocam o auge na nsia de maravilhoso 
que  tambm inerente a todas estas peas: h transformaes sbitas (e em geral 
miraculosas) de interiores em

exteriores, e vice-versa (cmaras, templos, colunatas - em bosques ou selvas, montes, 
jardins, o mar); voam carros, barcos, pgasos, drages, nuvens

com personagens escondidas. A Esopeida  uma constante proposta e decifrao de 
enigmas efabulados ou em emblemas, e o emblema central (que tanto representar Esopo 
corno o prprio autor)  o da cigarra, um ser ntil, um *ningum+, um marginal, que 
s dispe da sua voz e da *indstria+

com que se defende o melhor que pode. A comdia de Factonte, a mais (talvez 
parodistcamente) italianizante destas peas, at pela sua localizao

4. >POCA - POCA BARROCA                                                     521

geogrfica, e representada na altura em que o autor (se  aquele que julgamos) se 
encontrava preso na Inquisio,  talvez de todas a mais estranha: percorre-a toda 
uma viva (e todavia contra-argumentada) preocupao pela fatalidade trgica.

Nesta ambiguidade entre a fantasia barroca e um possvel cepticismo mecanicista j 
rococ insinua-se certo realismo.  que as figuras nobres so efectivamente 
caricaturadas nas suas aces, na sua linguagem e, principalmente, pelo contraste com 
o bom senso ou com o acento de sinceridade humana que muitas vezes caracteriza os 
tipos graciosos, como o Saramago de Anfitrio, o Semicpio de Alecrim e Manjerona, ou 
Sancho Pana. Para o pblico popular dos bonifrates, o linguajar difcil e precioso 
dos protagonistas devia aparecer humoristicamente como sinal distintivo da alta-roda, 
sublinhado pelo amaneiramento da voz e dos movimentos articulares, entre o chorrilho 
das graas mais ou menos pesadas dos graciosos, as aluses satricas muito claras, o 
cmico hilare das situaes brejeiras e dos ditos transparentemente obscenos. A 
qualidade teatral do dilogo  evidente. A fantasia do autor tem como objectivo 
maravilhar com passes de magia ou finezas de altos amores, contrapondo logo a essas 
maravilhas um reflexo ridculo, e os temas so extraorbitados nesse sentido, os nomes 
mticos e histricos clssicos so redistribudos de um modo muito livre, e os 
graciosos exibem os nomes mais

caricatos: o Ssia e a Brmia de Plauto esto chalaceadoramente crismados de Saramago 
e Cornucpia, a ilha da Barataria de Sancho passa a ser dos Lagartos. Outros 
graciosos chamam-se Sacatrapo, Geringona, Esfuziote, Semicpio, Chichisbu, etc. Aos 
episdios cervantinos do Quixote acrescenta-se um em que o Cavaleiro da Triste Figura 
julga reconhecer a sua D. Dulcineia nas formas rolias de Sancho Pana; etc.

Este cmico apalhaado, com a sua improvisao bem sensvel nas flutuaes de 
linguagem e de carcter das personagens, encerra um testemunho verdico, se o 
colocarmos nas circunstncias do tempo e do pblico. Mesmo as peas mitolgicas 
contm numerosas referncias a coisas de Lisboa (como os diversos chafarizes) e aos 
prprios ingredientes de um teatro de bonecos. Certas falas de criadagem so 
saborosas de lxico, fraseologia, anexins, provrbios e de malcia brejeira. Na 
Esopaida, no D. Quixote, no Alecrim e Manjerona em especial, os mdicos e juzes, 
como j sucedia em Gil Vicente (Auto dos Fsicos, Barca do Inferno), usam um 
latinrio pedante para encobrir

522                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

a ignorncia. Todo o Anfitrio constitui, afinal, uma stira  facilidade com que 
ento se aceitava o desfrute da mulher do prximo quando o desfrutador

era um todo-poderoso. Por outro lado, apesar de uma ideologia sublinhadamente 
conservadora, em que a alta dignidade rgia e os elevados sentimentos dos grandes so 
idealizados e o livre arbtrio humano  exaltado, h rasgos que provocam estranheza. 
Assim, em As Variedades de Proteu uma

graciosa surpreende-se a verificar que o sangue dos reis  vermelho corno

o dos outros; a sua contrapartida masculina declara que nunca teve gnio para 
inquiridor; e uma personagem declara que no pode haver castigo onde no h culpa. 
Tudo isto se dilui certamente em prodgios, gargalhadas e explicaes. Mas a aco 
esvai-se, rpida - e aonde conduz to grande obsesso do labirinto, do enigma e de 
poderes que s se desfrutam por fantasia mgica? Saramago, na priso, queixa-se num 
tom inquestionavelmente srio:

Mas se acaso, tirana estrela impia,  culpa o no ter culpa - eu culpa tenho.

Este passo ganhar um pattico sentido se o aproximarmos do facto de que no Tribunal 
do Santo Ofcio eram, segundo o prprio Regimento, condenados  morte todos os que 
no confessassem as culpas de que tinham sido denunciados por testemunhas cuja 
identidade se ocultava ao acusado, de modo que o no ter culpas era o caminho certo 
para a morte. Num episdio da ilha dos Lagartos de D. Quxote, perguntando-lhe o 
Meirinho o que  a Justia, Sancho transfigura-se, perde toda a aparncia lorpa que 
at ento o caracterizava, e d uma larga explicao que, ao gosto gongrico, se 
desenvolve

sob a forma de uma interpretao alegrico-burlesca do clssico emblema vendado, com 
espada numa das m os e balana na outra:

*Sabei, primeiramente, que isto de Justia  cousa pintada e que tal mulher no h no 
mundo, nem tem carne, nem sangue, como verbigratia a senhora Dulcineia del Toboso, 
nem mais nem menos; porm como era necessrio haver essa figura no mundo para meter 
medo  gente grande, como o papo s crianas, pintaram uma mulher vestida  trgica, 
porque toda a justia acaba em tragdia; taparam-lhe os olhos, porque dizem que era

vesga e que metia um olho por outro, e, como a Justia havia de sair recta, para no 
se lhe enxergar esta falta, lhe cobriram depressa os olhos; a espada na mo significa 
que tudo h-de levar  espada, que  o mesmo que a torto e a direito+; etc.

4. a POCA - POCA BARROCA                                                           
   523

Esta cena tornou-se to popular que chegou a correr, separada da pea, em folheto de 
cordel. Recordemos que o tema do juiz aparentemente grotesco  to universal que, 
sendo comum ao Juz da Beira vicentino e a um passo do D. Quixote, chega ainda por 
vias diferentes ao Crculo de Giz Caucasiano de Bertolt Brecht.

llllllfll,Ulfloc,AFIA

Quanto ao Fidalgo Aprendiz, remetemos para o final do captulo referente a D. 
Francisco Manuel de Meio.

1. Textos

Catlogos de folhetos de cordel

Catalogue de Ia Bibliothque de M. Fernando Palha. Deuxirne Partie, Lisboa, 1896, 
pp. 100-106.

Boletim Internacional de Bibliografia Luso -Brasileira, IX, 1970, n. > 3, pp. 343-
514.

Sampaio, Aibino Forjaz de: Subsdios para a Literatura do Teatro Portugus. 0 Teatro 
de Cordel, Lisboa, 1920.

Catlogo da Coleco de Miscelneas. Teatro, Biblioteca-Geral da Univ. de Coimbra, 
1974.

H indicao de coleces de fontes manuscritas do teatro popular em obras adiante 
nomeadas de J. Oliveira Barata, que tambm contm edies de manuscritos do teatro 
popular, e de Joo da Costa Miranda, que se refere  influncia do teatro italiano (e 
do francs). Acrescentemos a col. *Literatura de Cordel da Sala Jorge de Faria, 
Faculdade de Letras de Coimbra+, com 3 reed. fac-similadas, em 1988: Novo Entremez 
intitulado A Aldeia dos Loucos, 1784; Arrenegas que fez Gregrio Afonso, 1766; e 
Entremez intitulado 0 Moo Esperto Logrado, 1777.

De um autor tardio, Jos Daniel Rodrigues da Costa, que mencionaremos a propsito da 
novela picaresca e que inclui num vol. seu de Teatro Cmico, 1797, 15 farsas, h uma 
ed. de 6 Entremezes de Cordel, texto fixado e anotado por Lus Miguei Cintra e Jorge 
Silva Meio, Lisboa, 1973.

No vol. Drama dos Santos Reis Magos, com introd. e notas de Maria Clara de Almeida 
Lucas, IN-CM, 1985, edita-se, alm do texto manuscrito dos fins do sc, XVII, incios 
do sc. XVIII a que se refere o ttulo, um conjunto de 15 autos, dilogos, entremezes 
e loas do ciclo do Natal e Reis, quase todos da 2. > metade do sc. XVIII, com 
caractersticas que se mantm em representaes rurais de certas zonas nortenhas.

Textos de-Antnio Jos da Silva Conhecem-se ed. de cordel de Labirinto de Creta, 
1736, 1740, As Variedades de Proteu, 1737, Guerras do Alecrim e Manjerona, 1737 (em 
dois editores), que no deviam

524                                                  HISTRIA DA LITERATURA 
PORTUGUESA

ser isoladas. Quanto ao Teatro Cmico Portugus, colectnea que abrange as peas do 
nosso autor, h as seguintes ed. conhecidas: 1744 (2 vols.); 1747 (2 vols.); 1746-61;
1751; 1753; 1759-60-61; e 1788-90-92 (4 vols.); e ainda uma ed. moderna, Paris-Rio de 
Janeiro, 1910 (Teatro de Antnio Jos). A mais recente ed.  a de Jos Pereira 
Tavares nos *Clssicos S da Costa+, em 4 vols., 1957-58, incluindo no IV Obras do 
Diabinho da Mo Furada.

-Edies parcelares:

Mendes dos Remdios editou o D. Quixote e Guerras do Alecrim e Manjerona em
1905, e a *Biblioteca Lusitana+ do Porto publicou Anfitrio em 1916; h uma ed. das 
Guerras do Alecrim eManjerona pelo *Crculo de Cultura Teatral+ do Porto, 1956, e uma 
com apres. e notas de Maria de Lourdes A. Ferraz, col. *Textos Literrios+, 1980; das 
Guerras e da Esopaida na col. *Clssicos Brasileiros+, com apresentao de R. 
Magalhes Jnior; e urna ed. conjunta de A Vida de Esopo e Guerras do Alecrim e 
Manjerona, introd. de R. Magalhes Jnior e Machado de Assis, Rio, 1966.

El Prodigio de Amarante, representado entre 1737-43, tem ed. crtica baseada em dois 
manuscritos, com introd. e notas por Claude-Henri Frches, Bertrand, Lisboa, 1967, 
sendo a atribudo  autoria de Antnio Jos da Silva, mas h contra-indicaes a 
esta atribuio de autoria, que J. Oliveira Barata desenvolve a pp. 230-235 do estudo 
fundamental adiante referido.

Vida de D. Quixote, Esopaida, Guerras do Alecrim, selec., introd. e notas de liberto 
Cruz, IN-CM, 1975.

Esopaida, Guerras do Alecrim, selec., introd. e notas de Jos Oliveira Barata, *Acta 
Universitats Conimbrigensis+, 1979. (Tem em conta manuscritos inditos e determina 
as fontes espanholas e portuguesas da comdia, indicando outros manuscritos e edies 
de cordel em que o organizador se apoia na sua dissertaco sobre Antnio Jos da 
Silva e o teatro portugus seu contemporneo.)

Anfitrio, leit., introd., gloss. e notas de Victor Jabouille e Ana de Seabra, col. 
*Clssicos lnqurito+, 1986. Na dissertao de J. Oliveira Barata adiante mencionada, 
vol. li, est includa a ed. face a face do texto do Anfitrio.... segundo a ed. do 
Teatro Cmico Portugus de 1744 e de um seu manuscrito aparentemente um pouco menos 
elaborado.

2. Estudos de conjunto


Alm da Histria do Teatro Portugus de Tefilo Braga, h os estudos includos em A 
Evoluo e o Esprito do Teatro em Portugal, cicio de conferncias promovidas por *0 
Sculo+ e editadas em 2 vols., 1947-49, dos quais destacamos: Oliveira, Antnio 
Corra de Almeida: D. Francisco Manuel de Melo e o Teatro Espanhol, Sequeira, Gustavo 
de Matos: Ptios de comdia e o teatro de cordel; Faria, Jorge de: 0 teatro escolar 
dos sculos XVI, XVII e XVIII.

Sequeira, Gustavo de Matos: Teatro de Outros Tempos, Lisboa, 1933. Frches, Claude-
Henri: Le Thtre Neo-Latin au Portugal (1550-1745), Paris-Lisboa,
1964, obra erudita de conjunto, que teve recenso de Pierre Le Gentil no *Bulietin 
des tudes Portugaises+, 26, 1965; e Le Thtre Neo-Latin au Portugal. La 
Tragdicomdie de

4. a POCA - POCA BARROCA                                                           
    525

Dom Manuel, in *Aufgestze zur Portugiesischen Kulturgeschichte+, vol. 5, Mnster,
1965.

Picchio, Luciana Stegagno: Histria do Teatro Portugus, Lisboa, 1969 (contm ampla 
bibliografia).

Castro, Anbal Pinto de: Breves Reflexes sobre o Teatro em Portugal nos sculos XVII 
e XVIII, sep. do vol. 7. >, referente a Teatro, da col. * Miscelnea+, Biblioteca 
Geral da Universidade de Coimbra, vol. Vil, 1974.

Barata, Jos Oliveira: Entremez sobre o Entremez, sep. *Biblos+, vol, 53, 1977 
(teatro de cordel dos scs. XVII e XV111; contm o texto de trs entremezes).

Brito, Manuel Carios de: Opera in Portugal in the Eighteenth Century, Cambridge Univ. 
Press, 1989.

Ana Hatherly no n. > 2/3, 1989, da revista *Claro-Escuro+, pp. 119-134, tem um estudo 
sobre Triunfo do Rosrio, um conjunto de 5 autos de Sror Maria do Cu.

Monfort, Jacqueline: Quelques notes sur I'Histoire du Thtre Portugais (1729-50), in 
*Arquivos do Centro Cultural Portugus+, 4, Paris, 1972, pp. 566-600.

Rodrigues, M. ldalina Resina: Fortuna e Infortnios de Lope de Vega em Portugal 
(1580-1870), in Estudos Ibricos.... ICALP, 1987, pp. 239-285.

3. Sobre Antnio Jos da Silva

Alm dos pref. das ed. modernas, sobretudo os de Mendes dos Remdios e Jos Tavares, 
do Dicionrio Bibliogrfico de Inocncio e dos vols. de Tefiio Braga referentes  
histria do teatro portugus e ao sc. XVIII, h os trabalhos parcelares de Claude-
Henri Frches, de cunho sobretudo bibliogrfico, no *Bulletin d'Histoire du Thtre 
Portugais+, (tomo 1, n. 1, 1950; tomo li, n. 1, 1951; tomo IV, n. 1, 1953; tomoV, 
n. 2, 1954); no *Builetin des tudes Portugaises+, t. XV, 1951, um estudo ed. em 
separata sob o ttulo de LAmphitryon dAntnio Jos da Silva - o Judeu -, que contm 
uma traduco para francs; e ainda no *Builetin des tudes Portugaises et le 
I'Institut Franais+, Xii, 1959-60, outro estudo, sobre uma fonte francesa da Vida do 
Grande D. Quixote e do Gordo Sancho Pana; e A, Jos da Silva et I'Inquisiton, 
Centro Cultural Portugus, Fund. C. Gulbenkian, Paris, 1982.

Furter, Pierre: La Structure de Punivers dramatique dAntnio Jos da Silva, *o 
Judeu+, *Builetin des tudes Portugases et I'Institut Franais+, XXV, 1964, pp. 51-
75.

Cirurgio, Antnio Amaro: Ter Antnio Jos da Silva imitado Pichou?, in *Ocidente+,
79, n. 357, Jan. 1968.

McPheeters, D. W.: *El Quixote+ deijudio portugues Antnio Jos da Silva, in *Revista 
Hispnica Moderna+, 34, 1968.

A-cercados graciosos. Dias, Paulo Roberto: 0 Gracioso no Teatro de A. Jos da Silva, 
dissertaco de Mestrado, Univ. Fed. do Rio de Janeiro, 1982.

Pereira, Paulo: 0 Gracioso e a sua funo nas peras do Judeu, *Colquio/Letras+,
84, Maro de 1985, pp. 28-35.

526                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Frches, C.-H.: A. Jos da Silva et I'Inquisition, Centro Cultural Portugus, Fund. 
C. Gulbenkian, Paris, 1983 (recenso de M. de Lourdes Ferraz in *Colquio/Letras+, 
77,
1984, pp. 98-99).

Obra agora fundamental: Barata, Jos Oliveira: Antnio Jos da Silva - Criao e 
Realidade, 2 vols., dissertao de doutoramento, Univ. de Coimbra, 1985. (Alm da ed. 
sinptica de Anfitrio..., publica no seu 2. > vol. 8 passos, 2 loas, 9 entrernezes, 
todos annimos e inditos, entre outros importantes documentos.)

Lus de Freitas Branco anunciou ter identificado um dos autores que musicaram as 
peas de Antnio Jos da Silva, no seu trabalho sobre a Msica de pera em Portugal 
contido no cicio de conferncias de *0 Sculo+; posteriormente, Joo de Figueiredo 
descobriu partes de canto e orquestra das Guerras do Alecrim e Manjerona e de As 
Variedades de Proteu, da autoria de Antnio Teixeira e datadas de 1737, permitindo a 
reconstituio opertica desta ltima em 1969. Vide Branco, Joo de Freitas: Histria 
da Msica em Portugal, *Coleco Saber+, pp. 112-113, 1959. Mais tarde, Filipe de 
Sousa descobriu no pao ducal de Vila Viosa as restantes partes musicadas de As 
Variedades de Proteu e outras partes de As Guerras... Estas ltimas so sem dvida de 
Antnio Teixeira, e as das Variedades atribui-as o mesmo investigador a esse msico, 
o qual, segundo Barbosa Machado, teria morrido no terramoto de 1755. As Guerras assim 
reconstitudas foram levadas  cena como pera no Teatro de S. Carios em 1972-01-28. 
No supi. Cultura do *Dirio de Notcias+ de 1986-01-12, Filipe de Sousa d conta de 
importantes dados referentes a partituras de pera de Antnio Teixeira que utilizam 
os textos de A. Jos da Silva como libreto (Guerras do Alecrim e Manjerona, As 
Variedades de Proteu,
0 Labirinto de Creta e Encantos de Medeia).

Como biografia leia-se 0 Poeta Antnio Jos da Silva e a Inquisio, nas Novas 
Epanforas, Lisboa, 1932, de Joo Lcio de Azevedo.

Camilo Castelo Branco romanceou a vida do desditoso dramaturgo em 0 Judeu, ttulo 
tambm de uma notvel pea, 1966, que Bernardo Santareno lhe dedica.

Sobre o crdito que merece o processo inquisitorial que o condenou como judaizante, 
ver Saraiva, Antnio Jos: Inquisico e Crstos-Novos, 3. a ed. em 1969, pp. 124-
129.

Captulo V

BARROCO: PROSA DOUTRINAL RELIGIOSA

A produo literria mais abundante em Portugal neste perodo  certamente a de 
propaganda e edificao religiosa: sermes, hagiografias, tratados moralistas, etc. 
Prolonga-se a corrente que apontmos j no sculo XVI, porque permanecem as 
circunstncias que lhe do origem: importncia numrica da populao eclesistica, 
controlo dos meios de difuso da cultura pelas ordens religiosas, orientao neo-
escolstica das universidades, rigidez hierrquica e ideolgica ligada  represso 
inquisitorial e a uma formalstica devoo popular.

Mas a esta hegemonia quantitativa no corresponde o aparecimento de obras de 
qualidade excepcional dentro deste gnero. Nenhum autor asctico atinge o nvel de 
Frei Heitor Pinto nos Dilogos da Vida Crist, que no parecem ter feito escola ou 
suscitado imitadores na literatura portuguesa. De qualquer modo foi o trabalho dos 
frades, doutrinadores, pregadores, etc. que nesta fase mais contribuiu para a fixao 
e padronizao da lngua literria portuguesa.

Com efeito, esta literatura religiosa  em grande parte inspirada pelo propsito de 
edificar, persuadir, condicionar o pblico letrado, ou de municiar ideologicamente os 
pregadores e catequistas para obterem um efeito concertado junto do pblico iletrado. 
Tem por isso um carcter funcional, que j era sentido por Frei Amador Arrais ao 
dizer que *quis usar do estilo comum e vulgar que serve para todo o gnero de gente+, 
servindo-se dos meios *que fizessem atento ao leitor+. Este carcter concorre decerto 
para dar a grande parte da prosa clerical um acerto, uma dosagem de efeitos, uma 
afinao de

528                                             HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

tom, um equilbrio entre a retrica e a simplicidade que nos seus melhores modelos 
constituem padres da prosa clssica portuguesa. E pelo veculo dos pregadores, 
confessores e conselheiros espirituais que cobriam todo o

Pas nas suas diversas zonas sociais, estes padres puderam tornar-se durante muito 
tempo os da prpria lngua escrita nacional.

No entanto, corno  bvio, nem sempre este tom se atinge ou mantm. A oratria sacra 
no ficou imune dos exageros e desequilbrios do estilo eu]tista, sobretudo quando se 
dirigia ao pblico escolhido da corte. Exemplo disto  o P.e Frei Domingos de S. 
Toms, pregador rgio, autor de Prdica Sac,ramental e Hymno Eucarstico (2 volumes, 
Lisboa, 1675), pretenso rival do p.e Antnio Vieira; a ele pertence o seguinte passo:

*Que entendimento haver, logo (seja humano ou anglico), que ouse a discorrer

onde no corre, que ouse a entender onde no entende? Por mais que se esforce, que se 
alente, que se abalance, que se arrebate, ser sempre nos avanos curto, nos 
discursos

fraco, nos elogios covarde, nos conceitos pedante, A p e mui ante p caminha quem 
assim discursa: e ainda  dita grande que possa tomar p em um mar de amor to alto,

to imenso e to profundo que no s o no vadeiam, nem ainda o nadam nem o navegam 
os querubins mais cientes nem os mais flamantes serafins [   ... ]. Que tal seria a 
minha

[ousadia] se, como sumilher de cortina, pretendesse correr a daquelas espcies 
nevadas, a daquelas neves divinas?+

Mas alm desta atraco do estilo cultista dominante, que j de si revela, como 
vimos, nos autores menores, um descolamento ntimo em relao aos valores e crenas 
oficiais, encontramos em alguns autores de sermes uma

busca de efeitos teatrais, uma nfase e demagogia de tom alis denunciados por D. 
Francisco Manuel de Melo ou por Antnio Vieira. Certos sermes eram seguidos como 
espectculos ou comdias; e um autor da classe de Frei Antnio das Chagas no escapa 
a tal inclinao. Esta tendncia ser tanto mais visvel quanto menos entranhada for 
a f religiosa do pblico. Se na

verdade o pblico popular seguia a f tradicional, por outro lado a mentalidade da 
burguesia e mesmo de alguns membros das classes aristocrticas era pouco a pouco 
locada por uma incredulidade palpvel, que no se


manifesta negativa ou afirmativamente, mas sim atravs de um formalismo crescente nas 
expresses religiosas. A perseguio aos cristos-novos, a entronizao da Inquisio 
como principal poder dentro o Pas, contribuam para apressar esta degenerescncia.

4. POCA - POCA BARROCA                                                            
529

No nos deteremos no estudo de obras de simples catequese ou doutrinao geral, a que 
serviu de prottipo o Catecismo de Frei Bartolomeu dos

a Mrtires, 1. a edio Braga, 1564 (15. edio idem, 1962).

FREI ANTNIO DAS CHAGAS (1631-1682)

Entre as mais significativas personalidades da poca barroca encontra-se Frei Antnio 
das Chagas, que no sculo se chamava Antnio da Fonseca Soares e cuja vida foi muito 
acidentada.

Filho de um juiz, que morreu quando ele estudava no colgio dos Jesutas em vora, 
deixou incompletos os estudos e assentou praa para se bater na Guerra da 
Restaurao, escapando assim pelo foro militar ao castigo de um homicdio que 
praticara em duelo. A sua galharda carreira nas armas  acompanhada de uma florao 
copiosa de poesias, quer romances burlescos e corriqueiros, quer lricas composies 
de gosto gongrico, quer poemas hiperblicos ou de recorte camoniano sobre as 
vitrias da Restaurao. Esta associao das armas e das letras valeu-lhe o cognome 
de Capito Bonina. Vive depois alguns anos no Brasil, donde regressa em 1656, para 
continuar a carreira militar. Em
1663, com o posto de capito, diz ele, *troquei o servio de EI-Rei pelo de Deus+, 
professando na ordem de S. Francisco. Comea ento a fase asctica da sua vida. No 
entanto, o seu temperamento pessoal e literrio no se modifica profundamente; as 
suas poesias penitenciais ou de exerccio espiritual, no menos comoventes que as de 
Frei Agostinho da Cruz, recorrem ainda por vezes a metforas militares. Exerce uma 
actividade febril, de pregao e de direco de conscincias por correspondncia. 0 
padre Antnio Vieira, que o suspeitava de incitar demagogicamente o povo contra os 
cristos-novos, testemunha em carta datada de 1672 que Frei Antnio das Chagas 
chegou, quando pregava, a

mostrar uma caveira, a tocar uma campainha alertadora, a exibir imagens de Cristo, a

esbofetear-se, e que uma vez arremessou mesmo, entre clamores, um crucifixo aos 
ouvintes. A sugesto que assim exercia era considervel, e alargava-se por intermdio 
do seu

intenso carteamento com centenas de pessoas, do qual nos restam 368 cartas 
espirituais. Desaprovou ostensivamente o casamento de D. Pedro 11 com a cunhada, 
rejeitou prelazias e outras honras, dedicando-se a uma intensa missionao, que 
completou fundando o seminrio do Varatojo. Ganhou fama de santidade milagreira, ao 
ponto de ter devotos que lhe arrancavam pedaos do hbito como relquias.


As caractersticas de retrica floreada das suas poesias mundanas mantm-se em quatro 
elegias religiosas e nos tratados espirituais. Os ttulos SO j suficientemente 
expressivos: Tratado dos Gemidos Espirituais, vertidos de um pedernal humano a golpes 
de Amot--- Divino, dividido em 36 golpes, ou

530                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

comentrios ampolosos de frases tiradas da Vulgata; outro, Tratado dos Clamores da 
Trombeta do Cu, inspirados ao toque das divinas Escrituras, dividido analogamente em 
20 toques; outro, Despertador Clestial da alma adormecida na culpa; etc.  ainda 
este o estilo que domina os seus sermes, a julgar pelos apontamentos e 
reconstituies que chegaram at ns. As Cartas Espirituais pendem mais para a 
conciso conceptista, embora continuem a

traduzir um esprito exaltado e intransigente, inteiramente possudo pela sua

obsesso e para quem a curiosidade intelectual  ainda, como para os cristos 
primitivos, uma forma de concupiscncia.

Pela busca do impressionante, pela truculncia dos efeitos, pela insistncia nas 
notas dolorosas e at sangrentas, a arte de Frei Antnio das Chagas representa em 
Portugal um certo pattico caracterstico do Barroco espanhol.

No pode dizer-se que esteja na linha da filosofia da dor que encontramos em Frei 
Torn de Jesus, nem to-pouco na do ascetismo contemplativo ou da identificao 
mstica, quer  maneira da Imitao de Cristo, quer  maneira de Santa Teresa de 
vila. A evocao dos sofrimentos carnais de Cristo  em Frei Antnio das Chagas uma 
forma violenta do auto-suplcio, do castigo da carne, de luta militar contra o 
pecado, alternando com o

pavor do Juzo Final, dos Infernos. 0 prmio desta supliciao ser o Paraso na 
Outra Vida. Trata-se portanto de uma conquista do Cu por meio da violncia (sobre 
ns prprios) e no de uma identificao ou participao antecipada e gozada no Ser 
divino, como sucede com os verdadeiros msticos.

Sob o ponto de vista estilstico, a repartio do perodo e do discurso em diversos 
membros com artificiosas correspondncias temticas e rtmicas, as longas sries de 
comparaes, a sensorialidade das imagens estereotipadas denunciam a persistncia do 
poeta gongrico sob o burel do missionrio; assim como muitos vestgios da 
terminologia militar e plebeia denunciam o ex-capito. Estas cartas e tratados 
espirituais destinam-se a obter resultados prticos e tangveis de converso; 
procuram ganhar a imaginao e empenhar imediatamente os destinatrios, para o que 
inserem numerosas jaculatrias ou frmulas de actos de aspirao, de suspiro, de 
amor, de f, ete., com indicao do nmero de vezes que devem ser repetidas.

4. @ POCA - POCA B~CA                                                      531

MANUEL BERNARDES (1644-1710): vida e obra

No se pode imaginar maior contraste de temperamento pessoal com Frei Antnio das 
Chagas do que o do padre Manuel Bernardes.

Nascido de uma ligao irregular, talvez de pai judeu, recebeu ordens

sacras e professou em 1674 na Congregao do Oratrio de S. Filipe Nri, que o padre 
Bartolomeu do Quental trouxera para Portugal seis anos antes e que to grande papel 
desempenhar nas reformas pedaggicas do sculo XVIII entre ns. As suas obras de 
edificao moral e asctica confirmam os crditos que ganhou de uma imensa erudio 
teolgica, e o prefcio de Luz e

Calor mostra-nos que os superiores, como ele prprio, se davam perfeita conta do seu 
talento literrio. Escreveu numerosos tratados ascticos e guias morais, corno Luz e 
Calor (1696), Exerccios Espirituais (1686), Estmulo Pratico (1730), Po Partido em 
Pequeninos (1696), etc., alm dos dois volumes de Sermes e Prticas (1711). De entre 
toda a sua obra sobressai, contudo, pelo seu interesse literrio, a Nova Floresta ou 
Silva de Vrios Apotegmas (5 vols., 1706-08-11-26-28), que  uma vasta coleco de 
*ditos bons e sentenciosos de vares ilustres@>, principalmente da tradio crist, 
dispostos por ordem alfabtica do nome da virtude ou pecado respectivos, comentados e 
intercalados de narrativas mais longas. Ficou incompleta, na letra

J, termo *Justia+.

Ideologicamente, e apesar da sua vasta informao literria e teolgica, a obra de 
Bernardes  a de um cristo simples, sem problemas filosficos, a quem a vergonha 
materna, as leituras ascticas e o confessionrio inculcaram a ideia de que o mundo 
secular est profundamente corrompido. Na sua prosa macia, com uma delicadeza 
eufmistica e dir-se-ia que voluptuosa, perpassam abundantes casos que do da mulher, 
mesmo da me, irm ou

freira, o juzo mais pessimista. Mas ao lado dessa podrido, de cujo contacto 
Bernardes afasta habilmente a fmbria da sua prosa imaculada, o inundo foi e  
sempre, para ele, um teatro de constantes e ininterruptos prodgios miraculosos. A 
Graa de Deus, a intercesso dos Santos e da Virgem, a quem o autor dedica quase 
todos os seus livros, esto incessantemente a intervir no mundo. Da que o Cu e o 
Inferno j no paream constituir grandes incgnitas: Bernardes descreve-os, compraz-
se detidamente nas suas provveis delcias ou torturas, fiado em vises de vrios 
privilegiados, em textos sacros

ou na sua prpria imaginao. Mostra-se de resto persuadido de que a grande

532                                              HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

maioria das pessoas est condenada s penas eternas, e da o seu fervor em salvar as 
que pode. Estas concepes no deviam condizer com as da Congregao do Oratrio, o 
que talvez explique uma notcia segundo a qual Bernardes professou na Ordem dos 
Carmelitas dois anos antes de morrer. Alis, consta ter enlouquecido no final da 
vida.

No se lhe pode, no entanto, contestar certa perspiccia psicolgica em

todas as fases dos exerccios de ascese ou de expanso mstica. So sensveis as suas 
afinidades com a mstica quietista, pela importncia que atribui  contemplao 
exttica, embora evite as teses, entretanto condenadas, de Molinos, assim como as dos 
Alumbrados.

Contudo o grande mrito de Bernardes  o de artista da narrativa breve. As 
explicaes didcticas, as anlises doutrinais que, sobretudo nos tratados ascticos, 
se carregam do lastro, para ns incmodo, das citaes escriturrias, patrsticas, 
escolsticas ou literrias, revelam j o estilista; mas  quando procura atingir o 
grande pblico atravs de narrativas muito chs e lapidares, seguidas de comentrios 
moralistas, que Bernardes revela os seus melhores dons artsticos. Podemos, portanto, 
considerar a Nova Floresta (e ocasionalmente outras das suas obras, na medida em que 
intercalam narrativas) corno o remate ou apuramento final de um gnero que vem da 
Idade Mdia: o exemplo, ou conto exemplar, gnero em que a cultura do clero se 
vivifica ao contacto da tradio folclrica.  certo que a atmosfera escolstica 
retoma os seus direitos no comentrio moralista que se segue a cada narrativa, com 
citaes, distnguos, antteses especiosas, etc., mas o gnero  to avesso  
erudio, que o sbio Bernardes esqueceu, ao coligir os seus apotegmas (ditos 
notveis) e histrias, qual era a respectiva provenincia literria, e os 
considerandos que eles trazem consigo tomam os aspectos mais variados, que vo desde 
a anotao histrica ao brinquedo de trocadilhos, enigmas, paradoxos, adivinhas. 
Estas brincadeiras bebeu-as Bernardes nos ares do tempo, visto que  contemporneo da 
Fnix Renascida, mas entregando-se-lhes com uma ingenuidade, um -vontade dignos de 
inveja para quem faa literatura infantil.

Este g-nero - coleces de apotegmas e pequenos contos exemplares - tinha j 
diversos modelos clssicos e cristos, apontados por Bernardes. Quanto  literatura 
portuguesa, o seu mais importante autor, no contando com os exemplos de traduo 
alcobacense e os insertos no quatrocentista Orto do Esposo,  Gonalo Fernandes 
Trancoso,

4. a POCA - POCA BARROCA                                                           
   533

autor de Contos e Histrias de Proveito e Exemplo (1. a? edio 1575-76?, 2 partes, 
1585 em 2 partes, 1589, 1596 j com 3 partes, segundo Sousa Viterbo; sete edies 
conhecidas durante o sculo XVII). Em prlogo, o autor diz ter escrito os contos para 
se consolar da perda de dois filhos, um neto e a mulher, na peste de Lisboa em 1569. 
Menndez y Pelayo mostra que Trancoso adaptou contos das colectneas italianas de 
Boccaccio, Saccheti, Bandello, Straparoli e Geraldo Cntio, mas pensa que se deve ter 
inspirado sobretudo no folclore nacional. A simplicidade da sua redaco, em que se 
nota uma grande insistncia na coordenao sindtica, muitos discursos directos com 
fraseologia corrente, provrbios, o ingnuo realismo de certos pormenores, denotam 
uma cultura popular que, a nosso ver, enfraquece a hiptese de estudos humansticos 
por parte do autor e, portanto, a hiptese de certas influncias directas de Plutarco 
e Avieno, apontadas por aquele erudito, J no excluiramos a influncia de Timoneda, 
cujas Patrafias (1566) constituem a primeira coleco peninsular congnere da de 
Trancoso. Muitos dos contos esto localizados em lares burgueses de terras 
portuguesas, com tal particularizao que a histria social do sculo XVI deve 
necessariamente recorrer ao seu depoimento. 0 primeiro conto da 2.1 parte, por 
exemplo,  um interessante documento do contrabando portugus nas

ndias Ocidentais espanholas; e muitos outros testemunham aquela morosidade, 
complicao, formalismo da justia portuguesa que tanto se denunciam noutras obras 
realistas, desde as farsas do Cancioneiro Geral  Eufrosina. Esta obra caracteriza-se 
por um zeloso

moralismo burgus, a exigir, por exemplo, que as donzelas tenham os olhos 
constantemente pregados no cho, e por uma devota, seno at supersticiosa, 
religiosidade. (0 primeiro conto da 1. > parte foi, at, ouvido a uni pregador 
jesuita.) Graas a tudo isto teve a aceitao dos meios eclesisticos, e chegou a ser 
editada como aditamento do catecismo e de um cdigo de urbanidade crist (1710).

Sror Maria do Cu, que j referimos como poetisa,  tambm autora de uma coleco de 
contos exemplares, Aves Ilustradas (1734), para edificao da vida conventual, cuja 
elegante singeleza merece ser aproximada da do quase contemporneo Manuel Bernardes. 
No entanto, pelo gosto do miraculoso e pelo prprio ttulo, a Nova Floresta ou

Silva deve antes de ser aproximada de uma anterior Silva Moral e Histria, 1696, do 
p.e Joo da Fonseca, e de uma posterior Novissima Floresta, 1742, do P.e Manuel 
Conscincia.

As fontes, especialmente as de lngua latina, ajudam a explicar um certo nmero de 
caractersticas da prosa bernardesiana. Com efeito, embora o seu

estilo seja lmpido, a no ser quando muito de propsito decide fazer um


ou outro trocadilho ou jogo verbalista, h uma faceta do barroco literrio, o 
conceptismo, que se insinua na prosa de Bernardes por intermdio da conciso lapidar, 
da parcimnia de vocbulos, rflanera estilstica prpria do latim.  do latim que 
recolhe tambm o uso do hiprbato, isto , o jeito de inverter

534                                        HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

a ordem vocabular no discurso, de variar o comeo dos perodos, por forma a fazer 
depender dessa ordem vocabular o grau de nfase que atribui aos

diversos membros da frase. Corno o perodo latino longo, o perodo longo 
bernardesiano atira para o princpio a circunstncia da narrao ou a explicao a 
que pretende dar realce. 0 hiprbato j era conhecido de alguns Quinhentistas, mas 
tinha neles um carcter erudito e de violncia feita  lngua. Com Manuel Bernardes 
dir-se-ia que  assimilado e se toma uma forma natural

de expresso. A perfeita naturalidade que aparentam todos os artifcios , de resto, 
um dos segredos da prosa de Bernardes. A larga margem de subentendmento, a no 
repetio prxima das palavras, o uso to escasso quanto possvel de artigos, o senso 
muito agudo dos contrastes ou gradaes sinonmicas tambm se devem ao magistrio do 
Latim, aproveitado agora a um

nvel superior relativamente aos latinizantes de Quinhentos.  preciso reconhecer 
entretanto que esta nova fase de latinizao estilstica tem em Bernardes alguns, 
raros, aspectos que se devem considerar deformantes para a ndole do portugus.

Mas nem a lio do Latim, nem a do Castelhano literrio, que tambm se faz sentir s 
vezes, explicam suficientemente o cunho to especial e to

inimitvel dessa prosa que desliza sem um tropeo, to eurtmica que pode considerar-
se precursora do verso livre moderno. Sob o ponto de vista semntico, Bernardes pode 
competir com Vieira, o seu melhor mestre neste ponto, quanto ao senso dos cambiantes 
que h numa srie de sinnimos e antnimos: encontra sempre o termo exacto para o que 
pretende dizer e sugerir.
0 vocabulrio tanto pode ser culto como popular, mas nunca  pedante nem

grosseiro. Evita meticulosamente as repeties, e f-lo por numerosos processos: os 
auxiliares ter e haver alternam; as conjunes do mesmo tipo revezam-se como quartos 
de sentinelas; dentro do mesmo pargrafo, as palavras, para se no repetirem, 
substituem-se por vicrios, como os pronomes pessoais ou o verbo fazer (*chorou como 
fazem as crianas+), e tais pronomes antepostos normalmente aos verbos (*e lhe 
disse+, em vez de *e disse-lhe+), contribuem para aquele seu caracterstico ritmo 
predominantemente ascendente, jmbico ou anapstico (tona-tnica; tona-tona-
tnica). Acrescente-se um grande cuidado fontico em evitar repeties de silabas, 
hiatos, monotonia de timbres voclicos ou de acumulaes consonnticas, que o leva, 
por exemplo, a subentender quanto possvel a conjuno inte-

4. a POCA - POCA BARROCA                                                   535

grante, e ter-se- dito o bastante para se poder sugerir que, com Bernardes, a prosa 
acadmica, a prosa como obra de arte para uma dada ideologia feita, atinge o apogeu.

Era o canto do cisne. 0 sculo XVIII estava a entrar, e o sentido da evoluo viria a 
ser outro, longe das celas monacais. Mais tarde, Castilho, Latino Coelho voltaro a 
fazer lavor estilstico  Bernardes, mas aquilo que no sculo XVII era um esforo de 
comunicao humana entre a cela e o leitor letrado, aquilo que era um processo 
adequado aos problemas com os quais o clrigo escritor se tinha de haver, ser no 
sculo XIX aum anacronismo bafiento, s explicado pelo provincianismo esttico em que 
certos escritores ainda ento se formaram.

111111,61,61106,AF,f,4

1. Textos

Chagas, Frei Antnio das: Obras Espirituais (1684); Sermes Genunos (1690); Cartas 
Espirituais, 1. a Parte 1684, 2. 1687; Fascas de Amor Divino (1683), Espelho do 
Esprito (1683), Escola de Penitncia (1687), Semana Santa Espiritual, Ramalhete 
Espiritual (1722). Em verso: Contrico de um Pecador Arrependido..., ed. J. GaIro, 
Lisboa,
1685; Fugida para o Deserto.--- ed. P. Ferreira, Lisboa, 1756. H uma Carta escrita a

um amigo depois de ser religioso, ed. Teotnio Nunes, Lisboa, 1738, que contm 
poesias. Veja-se Pontes, Maria de Lourdes Belchior: Bibliografia de Antno da 
Fonseca Soares (Frei Antnio das Chagas), Lisboa, 1950, com as rectificaes e 
acrescentos includos no livro que adiante indicamos da mesma autora. Esses 
acrescentos so, quanto  obra em verso, completados por um Apndice de 363 espcimes 
in Silva, Vtor Manuel P. de Aguiar e: Maneirismo e Barroco na Poesia Lrica 
Portuguesa, Coimbra, 1971.

Bernardes, Manuel (ver em Silva, Inocncio da: Dicionrio Bibliogrfico, a 
bibliografia extensa deste autor, de que nos limitaremos a dar aqui as primeiras ed. 
e as mais acessveis): Po Partido em Pequeninos, 1696, ed. modernas na col. * 
Portugal+, com pref . e

notas de A. C. Pires de Lima, Porto, 1923 e 1940; Luz e Calor, 1. > ed. 1696; ltima, 
Porto, 1953; Armas de Castidade, Lisboa, 1699; Meditaes sobre os principais 
mistrios da Virgem, 1706; Nova Floresta, 5 tomos, 1706-08-11-26-28; ltimas ed.

1909-1911, 1949, Porto, 5 vols., e 1959, So Paulo, 8 vols., com notas de F. Ozanam 
Pessoa de Barros; Exerccios Espirituais, 1686, ltimas 1932, Porto, 2 vols., e 1944, 
So Paulo, 2 vols. Obras pstumas: Sermes e Prticas, 2 vols., 1711-33; ltimos Fins 
do Homem, 1728, reed. fac-similada pela *Revista de Portugal+, Lisboa, 1946; Estmulo 
Prtico, 1730; Paraso dos Contemplativos, 1739. Obras Completos, reprod. fac-
similada das 1.as ed., 15 vols., So Paulo, 1945. Obra Completa, em papel bblia, 5 
vols., Lello, Porto, 1974.

536                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Dos Contos e Histrias de proveito e exemplo de Gonalo Fernandes Trancoso h uma ed. 
moderna fac-similada da ed. 1975-76(?), 2 partes, com pref. de Joo Palma-Ferreira, 
Biblioteca Nacional, Lisboa, 1982, e uma ed. conforme a ed. de 1624, com pref., 
glossrio e notas do mesmo, IN-CM, Lisboa, 1974.

2. Antologias

De Antnio das Chagas: Cartas Espirituais, sel., pref. e notas de Rodrigues Lapa, na 
col. *Clssicos S da Costa+.

De Manuel Bernardes: na *Antologia Portuguesa+ dirigida por Agostinho de Campos, sob 
o ttulo de Bernardes (dois vols.); Manuel Bemardes, 2 vols., com introd, e notas de 
A. do Prado Coelho, col. *Clssicos Portugueses+; Nova Floresta, excertos anotados 
por Mrio Gonalves Viana, Porto, 1942; Pginas Escolhidas de M. Bemardes, Porto, 
1940 e 1941; Leituras Piedosas e Prodigiosas, col. *Obras-Primas da Lngua 
Portuguesa+, selec., introd. e notas de Antnio Coimbra Martins, Lisboa, s/d; Nova 
Floresta, selec., introd. e notas de Isidro Ribeiro da Silva, *Textos Clssicos 
Verbo+, 1965; As mais Belas Pginas de Bemardes, selec. Mrio Ritter Nunes, So 
Paulo, 1966; Imagens da Obra do Padre Manuel Bemardes, selec., notas e sugestes 
crticas de Luclia Gonalves Pires, col. *Textos Literrios+, Seara Nova, 1978.

De Trancoso h uma antologia assim designada na srie *Antofogia Portuguesa+, 
Bertrand, Lisboa, reed. 1923, dirigida por Agostinho de Campos.

3. Estudos

Obra bsica sobre a teoria e a preceptstica da oratria barroca: Castro, Anbal 
Pinto de: Retrica e Teorizao Literria em Portugal do Humanismo ao Neoclassicismo, 
Centro de Estudos Romnicos, Univ. de Coimbra, 1973, pp. 13-340 (abrange a oratria 
de A. Vieira e o seu exemplo).

As edies modernas e antologias indicadas trazem estudos mais ou menos originais, de 
que merecem salientar-se o de Rodrigues Lapa sobre Antnio das Chagas, os de 
Agostinho de Campos, de A. do Prado Coelho, Sampaio Bruno e Antnio Coimbra Martins 
acerca de Bernardes.

Sobre Antnio das Chagas ver ainda Vida Mundana de um Frade Virtuoso, biografia por 
Alberto Pimentel, Lisboa, 1890, e sobretudo Frei Antnio das Chagas, um homem e um 
estilo do sc. XVII, por Maria de Lourdes Belchior Pontes, Lisboa, 1953, e o j 
vrias vezes citado Os Homens e os Livros, 197 1, da mesma autora. 0 estilo das 
Cartas Espirituais e a sua evoluo esto bem caracterizadas em Rocha, Andre Crabb: 
A Epistolografia em Portugal, 2. > ed., IN-CM, 1985, pp. 162-166, que alis interessa 
para o conjunto desta poca em que se desenvolveu a epistolografia literria. Ver 
ainda Ricard, Robert: tudes sur I'Histoire Morale et Religieuse du Portugal, ed. F. 
C. Gulbenkian, Paris, 1970.

As condies infelizes do nascimento e criao de Manuel Bernardes foram reveladas 
por Gustavo de Matos Sequeira, no captulo Os Bernardes do seu livro Tempo Passado, 
Lisboa, 1923; os melhores estudos sobre a doutrina mstica de Bernardes e sobre a 
histria do exemplum, narrativa miraculosa exemplar, devem-se a Robert Ricard, em

4. a POCA - POCA BARROCA                                                           
     537

artigos publicados in tudes sur Phistoire morale et relgieuse du Portugal, Fund. C. 
Guibenkian, Centro Cultural Portugus, Paris, 1970. Ver tambm Martins, A. Coimbra: 
Introduo  sua antologia, e artigo sobre Manuel Bernardes e o Quietismo, in 
*Colquio+, n.. 13, Maio de 1961.

0 mais recente e amplo estudo biobibliogrfico e ideolgico acerca deste autor  0 
Padre Manuel Bernardes, sua vida, obra e doutrina espiritual, por Ebion de Lima, Rio 
de Janeiro, 1969. (Contm um documento biogrfico indito, sumaria todas as obras de 
Bernardes, indica todas as suas ed. integrais ou antolgicas, estuda as suas fontes 
doutrinais e pensamento religioso, e regista numerosa bibliografia geral e 
monogrfica.)

Estudo desenvolvido das fontes doutrinais e exemplaristas, da sua traduo ou 
tratamento estilstico por M. Bernardes: Pires, Maria Luclia Gonalves, Para uma 
leitura intertextual de *Exerccios Espirituais+ do Padre Manuel Bernardes, Instituto 
Nacional de Investigao Cientfica, Lisboa, 1980 (com ampla bibliografia).

Correia, Joo David Pinto: *Luz e Calor+ do Padre Manuel Bernardes: Estrutura e 
Discurso, Livraria Almedina, Coimbra, 1978.

Como ponto de partida bibliogrfico para um estudo mais desenvolvido da leitura 
religiosa de Seiscentos, ver, alm do livro anterior, Beli, Aubrey F. G.: A 
Literatura Portuguesa (Histria e Crtica), trad. de Agostinho Campos e de Barros e 
Cunha, Coimbra, 1931, pp. 311 e segs.; Almeida, Fortunato de: Histria da Igreja em 
Portugal (em curso de reedio), Coimbra, 1917, tomo fli, cap. XII, pp. 316 e 
seguintes; e, mais actua lizadamente, Dias, Jos Sebastio da Silva: Correntes de 
Sentimento Religioso em Portugal, t. 1, 2 vols., Coimbra, 1960.

Para a histria do conto exemplar na Pennsula ver Pelayo, Mennelez y: Origenes de 
Ia Novela, tomo III, Edicin Nacional, 1943; pref. de Agostinho de Campos, no vol. 
Trancoso da *Antologia Portuguesa+, e de Mendes dos Remdios em Escritores doutros 
Tempos, que contm Aves Ilustradas de Sror Maria do Cu; e Simes, Joo Gaspar: 
Histria do Romance Portugus, 1, 1969, pp. 143-160.

Ver, com reserva, estudo desenvolvido de Joo Palma-Ferreira em pref.  ed. anotada 
dos Contos e Histrias de Proveito e Exemplo de Gonalo Fernandes Trancoso, IN-CM, 
Lisboa, 1974.

Finazzi-Agr, Ettore: A novelstica portuguesa do sculo XVI, *Biblioteca Breve+, 
Instituto da Cultura e Lngua Portuguesa, 1978.

Captulo VI

PADRE ANTNIO VIEIRA

Se procurarmos nas Letras uma figura representativa de certas formas superiores da 
nossa mentalidade seiscentista, se quisermos personificar a situao de um homem de 
formao religiosa ainda medieval mas com a conscincia emprica das novas condies 
sociais e europeias da realidade social e econmica portuguesa e procurando 
dramaticamente solues para as contradies entre esta conscincia e a mentalidade 
tradicional - o nome que ocorre naturalmente  o do padre jesuta, pregador, 
missionrio, diplomata, poltico e proftico utopista, Antnio Vieira (n. 1608-02-06 
- t 1697-07-18).

PADRE ANTNIO VIEIRA: A vida

Nascido em Lisboa,  levado aos sete anos para a Bahia, onde o pai vai exercer a

funo de secretrio da Governao. Estuda no colgio jesuta desta cidade; com 
quinze anos foge aos pais para ingressar na Companhia de Jesus, e revela to 
apropriados dotes, que trs anos depois, findo o noviciado, era ele o encarregado de 
redigir o relatrio anual dos trabalhos provinciais da Companhia (carta nua) e j 
regia uma cadeira de Retrica. Em 1635 recebe ordens e inicia a sua carreira de 
pregador. Os Holandeses, que em 1624 se tinham apoderado durante alguns meses da 
Bahia, ento capital brasileira, tentam novo golpe em 1638. Uma das mais famosas 
peas oratrias de Vieira foi o sermo Pela vitria das nossas armas, proferido no 
momento em que a situao parecia desesperada para os Portugueses.

Em 1641, juntamente com o filho do governador, vem trazer a Lisboa a adeso da 
colnia a D. Joo IV. Depressa sugestiona o nimo do monarca e se torna o mais famoso 
pregador da corte. Utiliza estas duas posies como poderosas baterias polticas, 
apon-

540                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

tando-as a favor de uma orientao que, embora difcil de vingar, era imposta pelas 
circunstncias.

Com efeito, o P.e Antnio Vieira recomendou uma poltica fundada no poder econmico 
da burguesia mercantil, constituda pelos Cristos-Novos. Com os capitais mveis

e a organizao comercial deste grupo, que abrangia uma rede internacional, intentou 
Vieira financiar a guerra da Independncia. Mas para isso era necessrio moderar a 
poltica inquisitorial de represso e discriminao. E, evidentemente, esta poltica 
tinha contra si o Santo Ofcio, que no representava apenas uma tradio j secular 
de intolerncia religiosa, mas tambm uma rede extensa de gente a viver de confiscos 
e sinecuras, um escudo do grupo dominante tradicional contra a burguesia mercantil, e 
uma sentinela da

ideologia tradicional amoldada na massa popular. Ainda assim Vieira obteve de D. Joo 
IV a criao da Companhia Geral do Comrcio do Brasil (1649), que,  semelhana das 
congneres rivais holandesas, gozava de monoplio comercial e cujo capital se 
manteve, durante vrios anos, fora dos confiscos inquisitoriais. Vieira foi, deste 
modo, um precursor da poltica econmica pombalina, antes de Colbert. Esta poltica 
tinha um reverso

religioso: Vieira discutiu com os rabinos portugueses de Amesterdo, secretamente, a

possibilidade de um acordo teolgico prevendo um *Terceiro Estado da Igreja+, aps um

segundo Advento do Cristo e o regresso dos Judeus dispersos  Palestina.

Entretanto, encarregou-se de vrias e delicadas misses relacionadas com o 
financiamento, o armamento e a diplomacia da guerra da Restaurao, junto de 
Mazarino, do governo holands e dos judeus emigrados, na Holanda e ainda em Roma. 
Nestas misses, conheceu alguns fracassos, resultan >tes no apenas das tremendas 
dificuldades e oposies a vencer, mas tambm talvez da desproporo entre os meios e 
a grandiosidade dos planos.

A sua fidelidade a D. Joo IV vai at ao ponto de tomar o partido dele contra a pr~ 
pria Companhia de Jesus. Na iminncia de ser expulso da Companhia, aceitou uma mis~ 
so no Maranho, exlio que soube transformar em novo posto de combate. A partir de

1653, a sua actividade como superior dos missionrios da Companhia tornou-se famosa, 
chegando a usar sete idiomas nativos na sua catequese, quer falando, quer escrevendo 
catecismos. A luta mais rija, porm, era a que opunha os Jesutas aos colonos quanto 
ao problema da mo-de-obra. Aspirando a integrar os Amerndios dentro do seu prprio 
sistema de influncia, os Jesutas tomaram a posio de defensores da liberdade dos 
nativos, acabando Vieira por sugerir aos colonos que substitussern a mo-de-obra 
escrava ndia pela africana, importada de Angola,  semelhana do que sucedia no 
resto do Brasil, de forma que os ndios na sua maioria ou totalidade ficassem 
reservados  Companhia. Mas a oposio dos colonos, apoiados pelas outras ordens 
religiosas do Maranho, conduz finalmente  expulso de Vieira e dos outros jesutas 
em 1661.

Ora em 1656 morrera D. Joo IV, seu principal arrimo poltico; o conde de Castelo 
Melhor imprimia ao governo uma orientao desfavorvel aos Jesutas (1662-67). Esta 
situao permitiu ao Santo Ofcio processar Vieira (1665-67), conden-lo por opinies

4. - POCA - POCA BARROCA                                                           
    541

herticas expostas, segundo os Inquisidores, no seu livro Esperanas de Portugal, 
quinto imprio do mundo, primeira e segunda vidas de E]-Rei D. Joo IV, no qual o 
acusado interpretava as Trovas do Bandarra e textos bblicos como profecias da 
ressurreio de D. Joo IV, futuro imperador do Quinto Imprio, o Judeu-Cristo. 
Amnistiado depois da deposio de D. Afonso VI, parte em 1669 para Roma, onde novos 
xitos como pregador (agora em lngua italiana, junto do pontfice e da exilada 
rainha Cristina da Sucia, a protectora de Descartes) lhe servem para acreditar os 
seus esforos no sentido de levar a Santa S a tomar partido contra a Inquisio. Ao 
mesmo tempo tenta fazer vingar a

constituio de uma Companhia portuguesa de comrcio com a ndia, mais uma vez com 
capitais *cristos-novos+ e destinada a apoiar, mediante influncia portuguesa, a 
missionao jesuta no Oriente. Destas diligncias resultou pelo menos uma eficaz 
campanha de desmascaramento do Tribunal do Santo Ofcio, que chegou a ser suspenso 
pelo Papa, embora conseguisse depois restabelecer-se, j com o seu prestgio muito 
abalado. Em
1681 Vieira regressa definitivamente  Bahia. Aqui exerceu as funes de superior das 
misses em todo o Brasil e Maranho, e nos ltimos anos ocupou-se da edio dos 
sermes e cartas, e de dar a ltima demo a um livro de escatologia, Clavis 
Prophetarum, que era o desenvolvimento e a justificao teolgica da ideia do Quinto 
Imprio, Terceiro Estado da Igreja ou Reino de Cristo consumado na Terra. Morreu com 
quase 90 anos, no Colgio da Bahia, onde fizera os seus estudos.

Caractersticas gerais da obra de Vieira

0 legado literrio de Vieira  enorme, pois compreende cerca de duzentos sermes, 
mais de meio milhar de cartas, numerosos relatrios, representaes, pareceres e 
outros documentos de natureza poltica ou diplomtica, alm de opsculos religiosos 
ou de exegese proftica, e de defesa perante a Inquisio.

A primeira feio caracterstica desta obra reside na sua entranhada ligao com a 
vida pblica: o escritor e o homem de aco so indissociveis em Vieira, e o mais 
profundo interesse dos seus escritos deriva justamente disso . Mesmo as peas de 
oratria sacra intervm, com frequncia, de modo aberto nas questes mais candentes 
da poltica brasileira ou metropolitana.  por isso que a eloquncia mais persuasiva 
e o recheio mais denso da sua obra se vo encontrar nos passos mais directos dos seus 
sermes, nas cartas mais longas e empenhadas em polmica, ou oferecendo documentos 
admirveis, como aqueles que se relacionam com as suas grandes campanhas contra o

estilo brutal da Inquisio portuguesa e contra a escravizao ou arbitrrio 
tratamento dos Amerndios.

542                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Por exemplo, a Proposta feita a E]-Rei D. Joo IV, em que se lhe representava o 
miservel estado do reino e a necessidade que tinha de admitir os judeus mercadores 
que andavam por diversos pontos da Europa (1643)  quase toda ela uma obra-prima de 
clarividncia e de solidez expostiva. Vieira assenta o seu raciocnio sobre 
premissas de um realismo digno de Maquiavel: *nenhum segue mais leis que as da 
convenincia prpria+; *tudo isto [Vieira refere-se aos instrumentos e elementos da 
guerra] se reduz a dinheiros+; *a conservao que se funde no poder, no parecer e na 
vontade alheia, bem se v quo arriscada , e quo mal fundada+; *os homens de 
negcio [... 1 nunca foram to ricos nem to poderosos como hoje est o no mundo+.

Destas constataes de facto, que denotam uma vista singularmente limpa de 
preconceitos,  que o jesuta deduz a necessidade de tolerncia religiosa para com os 
Judeus, de garantias e liberdade para os capitais mveis. 0 pincipal modelo apontado 
para tal poltica, a Holanda, cuja prosperidade, como

a de Portugal, s se poderia fundar na *mercancia+, deve ter dado a Vieira esta lio 
de capitalismo, com os xitos que obteve durante muitos anos no

Pernambuco e na luta defensiva e ofensiva contra o imprio espanhol.

No entanto, o esprito do nosso jesuta movia-se dentro de perspectivas que nem 
sempre tinham em conta um tal realismo ou actualidade de meios. Aquela mesma Proposta 
a D. Joo IV remata em tom religioso e proftico, vaticinando para breve a converso 
geral da gente hebraica em nome das

Trovas do Bandarra sobre o *Rei Encoberto+, e explicando o desastre de

Alccer Quibir pelas perseguies infligidas pouco antes dele  *gente de nao+. 
(Noutro escrito, Vieira explica, diversamente, o desastre como um castigo das 
responsabilidades portuguesas quanto  escravatura moderna.) , sob este aspecto, 
impressionante a firmeza, mais ofensiva do que defensiva, o poder de construo 
apologtica, a larga mobilizao de autores e

textos que usa na defesa do seu profetismo perante os inquisidores do Santo Ofcio, 
defesa s em 1957 publicada na Bahia.

Contradies anlogas vamos topar nos documentos e cartas que se relacionam com os 
problemas regionais brasileiros. Viera d, em geral, um quadro cheio de realismo, de 
bom senso prtico e humanitrio acerca da vida

dos indgenas. Impe-se-nos a realidade das suas descries da geografia fsica, da 
fauna, modo de vida, relaes entre indgenas e civilizados (por exemplo, a descrio 
da Bahia na verso portuguesa da carta nua de 1626; os

4. - POCA - POCA BARROCA                                                     543

numerosos textos, principalmente cartas, que se referem a Misses ou entradas para 
fazer descer os indgenas da Amaznia s aldeias dirigidas por missionrios, por 
exemplo, a carta ao provincial do Brasil de 1654); tambm no pode deixar de 
interessar a discusso das condies de resgate ou aldeamento dos indgenas, com o 
objectivo de garantir o predomnio do missionrio sobre o colono, da servido sobre a 
escravido, e evitar, inclusivamente, a extino da mo-de-obra que a brutalidade 
escravista causava noutras regies brasileiras.

Mas este realismo e humanismo no chegam at uma condenao do prprio princpio de 
escravatura; e so, por outro lado, compatveis com as propostas de importao de 
escravos negros africanos para o Maranho, sem embargo de o prprio Vieira ter 
escrito pginas vibrantssimas sobre os sofrimentos desses mesmos negros.

Iderio e estilo de Vieira

Estas e outras contradies do iderio de Vieira resolvem-se formalmente, por via de 
uma dialctica e de uma retrica que contrastam singularmente com a tendncia de 
pensar e de expor do racionalismo burgus, ent o em

fase brilhante de desenvolvimento na Holanda, Inglaterra e Frana. 0 estilo de 
pensamento e expresso de Vieira diverge muito, inclusivamente, da oratria sagrada 
dos prprios luminares do catolicismo francs, como Bossuet, Fnelon, BourdaIoue, 
etc., j profundamente influenciados pela filosofia racionalista dos Cartesianos e 
dos Jansenistas, que tinham de combater.

Na Europa Ocidental transpirenaica a oratria sacra e a apologtica religiosa estavam 
a acomodar-se ao recuo que as cincias mecnicas, apoiadas na experimentao e na 
lgebra, iam impondo  zona obscura do miraculoso, do providencial, do apocalptico 
ou proftico, apesar da simultnea voga da Cabala e das *cincias ocultas+. Bossuet, 
principal figura intelectual da Igreja francesa - o *ltimo doutor da Igreja+ - 
substituiu, quanto possvel, a alegoria bblica ou a subtileza escolstica por uma 
oratria que se dirige ao senso comum do pblico geral contemporneo e  sua 
imaginao, e que est muito mais prxima da eloquncia ciceroniana do que da 
pregao medieva.

Em contraste, a oratria de Vieira segue os moldes e os processos tradicionais da 
predicao, tal como os forjou a Idade Mdia, a partir da herana

544                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

dos primeiros Padres da Igreja, que por sua vez estavam na tradio do comentrio 
judaico  palavra bblica. Sob o ponto de vista da estrutura geral no h diferena, 
por exemplo, entre um sermo de Vieira e um sermo de Santo Antnio de Lisboa. Mas 
Vieira enfrentava uma realidade que no era j a

medieval; os processos demonstrativos do passado continuavam em vigor, mas as 
motivaes dos homens eram outras. Vieira teve de utilizar todas as possibilidades do 
sermo tradicional para convencer os homens do seu

tempo. Esta conjugao de uma arte de discorrer j inadequada ao senso

comum dominante com uma orientao que era afinal to prtica faz da oratria de 
Vieira uma das expresses mais consumadas, mais tensas, mais desenvolvidas e 
explcitas das formas culturais que esto na base da tradio sermonria, e ao mesmo 
tempo uma das manifestaes mais tpicas da arte barroca, consoante veremos.

0 sermo desenvolve-se, como hoje, a partir de um texto bblico que se comenta de 
acordo com o tema e as teses que o orador se prope desenvolver. 0 texto, palavra de 
Deus, contm mltiplos mistrios a decifrar, ou, como se diz na terminologia do 
tempo, a *desempenhar+. As cnco pedras de David desempenhadas: eis o ttulo de uma 
srie de sermes. Ora este *desempenho+ no consistia num comentrio moral e 
doutrinal apoiado no

bom senso, tomando em conta o conjunto do episdio a que pertence o texto, o seu 
contedo preceptivo, etc., mas sim em considerar isoladamente um termo, em forjar 
urna pretensa etimologia das palavras, em atender  sua posio, s repeties, ao 
nmero de slabas e letras de que se compem, aos seus vrios significados, ao jogo 
dos sinnimos e antnimos,  interpretao alegrica ou anaggica, etc. 0 primeiro 
trabalho do orador era levantar os *mistrios+ contidos nestas particularidades, e a 
isto chamava Gracin, na sua Agudeza y Arte de Ingenio, fazer *ponderaes 
misteriosas+. Quanto mais difcil era o mistrio, tanto maior o mrito do 
*desempenho+. Esta forma de discurso, muito afim da Cabala, pressupe que h uma 
relao essencial, no convencional, entre a palavra e a coisa significada.

Fazendo seu um dito de S. Joo Crisstomo, Vieira pondera que os nomes

constantes do Libergenerationis Jesu Christi no foram ali postos por acaso, antes 
com grande causa e mistrio, que s Deus conhece, e aqueles a quem Ele mandou 
escrev-los. Esta observao aplicar-se-ia a todo o gnero de palavras. Um exemplo j 
usado de desenvolvimento etimolgico: o nome

4. a POCA - POCA BARROCA                                                    545

de Maria, Me de Deus, onde residem todas as graas,  homgrafo do de maria 
(nominativo plural de mare), vem a ser, o ajuntamento das guas. Por outro lado, no 
Velho Testamento a maternidade de Maria  prefigurada na

Nau, e o Lenho onde morreu Cristo  prefigurado na Arca de No. Nada mais evidente 
que esta outra semelhana entre *Nau+ e *No+. Explicao (apoiada em textos 
bblicos): em Maria, como numa nau, foi transportado o Po divino que nos salvou (o 
Deus filho); e na Cruz, como na Arca de No, o gnero humano foi salvo do dilvio do 
pecado. Assim, as graas de Maria so o mar, em que navega a nau da sua maternidade; 
e so o dilvio, em que navega a cruz, que foi a causa da sua dor. Naturalmente 
Vieira, embora diga algures que a lngua hebraica, a lngua de Ado, *exprime mais 
naturalmente a essncia das coisas+, no se deteve a indagar se no texto bblico 
original h alguma coincidncia entre maria e Maria, ou entre nau e No. Ficamos sem 
saber qual  a parte do fingimento (no sentido que deu Fernando Pessoa a esta 
palavra) e a parte da crena ingnua, nesta utilizao das palavras. Notemos que tal 
aproximao entre Maria e man         .a vem j de Santo Alberto Magno, e isto mostra 
at que ponto Vieira continua uma tradio medieval. Outro exemplo bem conhecido  a 
famosa apstrofe sobre a palavra Non em que se pondera que, lida de trs para diante 
ou de diante para trs, esta *terrvel palavra+ soa da mesma maneira, como uma 
serpente que mordesse com ambas as extremidades.

Outro pressuposto desta forma de discurso  que a essncia de todas as

coisas deriva de definies reais. A reflexo consiste, pois, em tornar explcitos os 
atributos nessa definio contidos. Assim, a natureza no  uma realidade a conhecer 
progressivamente atravs da experincia, mas sim um conjunto de essncias inerentes 
aos conceitos, consistindo o conhecimento na anlise e explicao desses conceitos. 
Por outras palavras, um pregador como

Vieira procede por juzos pretensamente analticos e no por juzos sintticos, se 
usarmos a classificao de Katit.

Para exemplificar: todo o sermo sobre as lgrimas de S. Pedro que tem por texto 
predicvel - Cantavt gallus, et conversus Dominus respexit Petrum, et egressus foras 
flevit amare (*Cantou o galo, o Senhor voltou-se e olhou para Pedro; este veio para 
fora e chorou amargamente+) - assenta

numa anlise do conceito de olhos, atravs da qual se explica o texto bblico. Os 
olhos tm dois ofcios: ver e chorar. Ponderao misteriosa: porque  que a Natureza 
juntou no mesmo instrumento este ver e este chorar? Porque

HLP - 35

546                                             HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

o pecado entra pelos olhos, e portanto a penitncia deve sair pelos mesmos

olhos. Sobre este ver e chorar, sobre este entrar e sair, e sobre este dentro e fora 
constri Vieira todo o seu sermo e inclusivamente a contextura da frase. 0 conceito 
de olhos, definidos como rgo do ver e chorar,  analisado, no passo seguinte, 
segundo as quatro categorias da Natureza, da Justia, da Razo e da Graa:

*Vede quo misteriosamente puseram as lgrimas nos olhos a Natureza, a Justia, a 
Razo e a Graa: a Natureza para remdio, a Justia para castigo, a Razo para 
arrependimento, a Graa para triunfo. Corno pelos olhos se conhece a mcula do 
pecado, ps a Natureza nos olhos as lgrimas para que com aquela gua se lavassem as 
manchas.

Como pelos olhos se admite a culpa, ps a Justia nos olhos as lgrimas para que 
estivesse o suplcio no mesmo lugar do delito. Como pelos olhos se concebe a ofensa, 
ps a Razo nos olhos as lgrimas para que por onde se fundiu a ingratido se 
desfizesse o arrependimento. E corno pelos olhos entram os inimigos  alma, ps a 
Graa nos olhos as lgrimas para que pela mesma brecha por onde entravam vencedores 
os fizesse sair correndo. +

Assim, a anlise do conceito consiste em procurar a sua essncia ltima dentro de um 
sistema de noes tidas como dados imutveis e universais, que eram, alm das 
categorias aristotlicas de causa, modo, tempo, lugar, etc., as noes crists de 
Natureza, Graa e outras. Essa anlise descobria a essncia mesma das coisas no 
pensamento divino (ao alcance dele, pregador), sendo a descrio fsica do Universo - 
quer a exposta por Plnio ou

Ptolomeu, quer a descoberta por Coprnico - mera aparncia, que no fundo pouco 
adiantava ao conhecimento. Pouco importava a Vieira - ele mesmo o diz - que fosse 
verdadeira a teoria geocntrica. 0 importante era que, fosse o Sol que girasse ou ns 
com a Terra, fosse o Sol que se pusesse ou ns que nos pusssemos para o Sol, tudo 
vinha a dar no mesmo - e isto  o smbolo de outra verdade: que a nossa morte 
individual e o fim do mundo so uma e a mesma coisa, porque tanto faz que o mundo 
acabe para mim como que eu acabe para o mundo.

Se, pois, a frase e as palavras devem ser interpretadas como invlucros de essncias 
misteriosas, tambm os seres e movimentos no passam de aparencias atrs das quais se 
escondem essncias. A Natureza  um grande livro escrito por Deus em que cada forma 
serve de sinal: eis o pensamento pressuposto por todo o discurso alegrico, que tanto 
se encontra nos sermes de Vieira como em toda a prosa e poesia *engenhosa+, 
utilizando o termo

predilecto de Gracin.

4. a POCA - POCA BARROCA                                                           
 547

Para exprimir estas essncias, Vieira recorre a processos que se pretendem 
rigorosamente lgicos e que na realidade so etimolgicos, gramaticais, analgicos, 
embora utilizando por vezes a forma do silogismo. Claro que no dispensa a ajuda da 
Cabala para a interpretao de palavras bblicas (Sen-no de Santo Incio). 0 
discurso tem s vezes a aparncia da mais rigorosa deduo, mas na realidade segue os 
caminhos arbitrrios e mltiplos de uma fantasia prodigiosa, que em certos casos 
sugere uma densidade potica. Cada texto, cada palavra pode dar lugar a mltiplas 
associaes - to inesperadas como as de um texto surrealista. S que essas 
associaes se ligam por pontes que aparentam toda a solidez de uma engenharia 
infalvel. 0 que no  arbitrrio nem fantasista  o objectivo prtico que o orador 
tem em vista: para convencer o ouvinte, recorre a todos os meios de presso e de 
enredo, dando-lhes a aparncia dos caminhos certos de uma verdade demonstrada.

No obedecendo a urna concatenao lgica, nem a uma ordem descritiva ou narrativa 
demarcada no espao ou no tempo, nem to-pouco a uma

sequncia emocional, os sermes de Vieira, como os de toda a prosa barroca, ordenam-
se segundo uma disposio a que poderamos chamar de geometria decorativa. Podem 
talvez distinguir-se dois movimentos nesta prosa: o movimento do *mistrio-e-
desempenho+, da pergunta e resposta por um lado, e um movimento de analogias e 
oposies mais ou menos simtricas por outro. 0 texto citado do sermo de S. Pedro  
um bom exemplo desta geometria, ao nvel da frase. 0 prprio Vieira descreve o 
processo, na parte que respeita s oposies, embora criticando-o:

*No fez Deus o cu em xadrez de estrelas como os pregadores fazem o sermo em

xadrez de palavras. Se de uma parte est branco, da outra h-de estar negro; se de 
uma

parte est dia, da outra h-de estar noite; se de uma parte dizem luz, da outra ho-
de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra ho-de dizer subiu. Basta que 
no havemos de ver num sermo duas palavras em paz? Todas ho-de estar sempre em 
fronteira com o seu contrrio?+

Alm deste abuso das oposies, criticou Vieira o excesso do estilo cultista nos 
oradores seus contemporneos. Os pregadores, *com voz muito afectada e muito polida+, 
comeam:

*a motivar desvelos, a acreditar empenhos, a requintar finezas, a lisonjear 
precipcios, a brilhar auroras, a derreter cristais, a desmaiar jasmins, a toucar 
primaveras, e outras mil indignidades destas+.

548                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Como se explica esta crtica, no escapando o prprio Vieira ao defeito?

0 que parece suceder  que os oradores por ele censurados buscam efeitos puramente 
estticos, e no funcionais. Esquecidos da funo prtica do sermo, movem-se no 
mundo do espectculo gratuito. Ora esta funo nunca

Vieira a esqueceu, e da resulta que todas as suas subtilezas pseudolgicas, bem como 
a construo fantasista dos seus sermes, nunca nos parecem de todo gratuitas. Pelo 
contrrio, sentimo-las cheias de inteno, de fora aplicada, que nos comunicam e que 
arrancam a nossa adeso ou a nossa reprovao, apesar da sua evidente falta de 
racionalidade. Este efeito, que era certamente muito maior junto dos contemporneos, 
resulta porventura da convico que Vieira pe nas suas palavras, da solicitude 
sedutora com que persegue o leitor para lhe impor a verdade da ocasio.

Talvez coubesse aqui ponderar que o incutir de motivaes raro se identifica com a 
demonstrao lgica, embora tenha de recorrer  linguagem, que, na crena comum, 
obedece a regras tidas como lgicas. Talvez que o

discurso de Vieira seja uma linguagem como outra qualquer cujo sentido no deva ser 
aferido apenas pela validade lgica dos nexos que ligam as ideias

e os sentimentos que o orador pretende inculcar-nos. E sendo assim, uma

anlise dos sermes de Vieira como ser a de Verney, mostrando os seus

ilogismos, seria to pouco aplicvel a este caso como o  a um texto potico. E, com 
efeito, para l do seu encadeamento falacioso, encontramos nestes sermes verdades 
que de algum modo nos tocam, como o que diz sobre a

alienao humana atravs da miragem do ouro no sermo sobre as Verdadeiras e as 
Falsas Riquezas, ou sobre a condio dos escravos em vrios sermes. E  facto tambm 
que, em certos sermes onde a sua imaginao paira mais livre de propsitos prticos 
imediatos, encontramos pginas de autntica poesia, corno no famoso texto sobre Roma 
cidade antiga e moderna, p cado e p levantado.

Subsiste no entanto o problema de saber em que medida este mtodo de encadear razes, 
ou pseudo-razes, assim como os pressupostos subjacentes, no viciaram 
substancialmente o pensamento de Vieira e no possibiltaram certas construes 
totalmente irrealistas. Tal problema pe-se sobretudo em relao s suas 
congeminaes messinicas.

0 mito de um Quinto Imprio portugus, em que se realizaria proximamente a converso 
universal ao catolicismo romano e o advento final do Reino

4. POCA - POCA BARROCA                                                 549

de Cristo na terra (o *Imprio Consumado de Cristo+), tem uma origem antiga e fora j 
desenvolvido por Joaquim da Fiore e pelos *Espirituais+, suspeitos de heresia.  uma 
paradoxal combinao do messianismo nacional popularizado sob a forma de 
sebastianismo e de bandarrismo -, do missionarismo sem fronteiras, to caracterstico 
da Companhia, e ainda do messianismo judaico transmitido atravs dos cristos-novos. 
Mas foi possvel graas  aplicao do mtodo alegrico e escolstico da 
interpretao das Escrituras, levado at um ponto e com uma liberdade tais que punham 
em

risco a ortodoxia. Manifesta-se aqui uma das feies que mais nos impressionam em 
Vieira: a coragem do paradoxo - paradoxo que  uma espada de dois gumes, porque tanto 
fere o senso comum mecanicista burgus, como leva at  autodestruio as convenes 
da ideologia peninsular dominante na poca do autor. Com tal coragem, Antnio Vieira 
deu o flanco  perseguio dos Inquisidores, que a consideraram, e com razo, 
perigosa para a ortodoxia, e puderam, a pretexto disso, vingar-se dos desaires 
sofridos em consequncia da campanha anti-inquisitorial de que Vieira fora o 
principal animador.

0 tratamento a que Vieira sujeita as Trovas do Bandarra para apontar em D. Joo IV o 
*Rei Encoberto+; para demonstrar a sua futura ressurreio, um vez que morreu sem se 
cumprir o Quinto Imprio; para transferir depois o Quinto Imprio para D. Afonso VI, 
para D. Pedro 11, para o seu

gorado primognito e finalmente para seu filho segundo, - pem,  certo, o problema 
da sua sinceridade. Mas devemos talvez relacion-lo com a crena cabalstica na 
reencarnao, ou metempsicose, muito difundida entre os judeus da poca, e que j 
fora expressa pelo cristo-novo Manuel Bocarro Francs. Alm disso, bem sabemos como 
o princpio lgico da no-contradio, o

senso do absurdo pouco afecta as ideologias enraizadas. Ao fazer os prognsticos dos 
cometas de 1618 e 1695, Vieira parece que simplesmente acredita no em que tambm 
acreditava ento todo um sector de espritos cultos em Portugal. Bandarra, S. Frei 
Gil, o Beato Amador, o Cartuxo, S. Metdo gozavam do mesmo crdito que os profetas 
bebreus ou o Apocalipse.

Mas talvez que a interpretao se deva complicar. Tambm em Fernando Pessoa vamos 
encontrar o mito do Quinto Imprio, em condies culturais inteiramente diferentes 
daquelas em que viveu Vieira, e neste caso ergue-se o conceito de *fingimento+, que 
problematiza o da sinceridade. E h talvez um problema mais ffindo que  o da 
dialctica da crena e descrena na poca

550                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

barroca. Em que medida o objecto da crena se convertia em matria de puro jogo, sem 
que isso equivalesse uma descrena bem consciente e categrica? A este propsito  
talvez significativo o gosto do paradoxo j apontado e

que no se manifesta unicamente a propsito do sebastianismo. H um sermo em que 
Vieira se prope demonstrar que os mritos de Maria so superiores aos mritos de 
Cristo; e outro em que pretende provar a existncia de uma 4.1 pessoa da Santssima 
Trindade, que  a Virgem Maria. Mais ainda: o texto do Cntico dos Cnticos, 
tradicionalmente interpretado como

prefigurativo da Virgem Maria,  aplicado por Vieira ao casamento escandaloso - que 
comeou por ser uma unio ilegtima - do rei D . Pedro com a cunhada, rainha 
Francisca de Sabia. Se essas *demonstraes+ fossem tomadas a srio pelos 
contemporneos, os autores seriam considerados como heresiarcas; mas no deixa de ser 
estranho que se possa pregar deste modo numa poca em que o povo assistia 
jubilosamente aos autos-de-f onde se queimavam rus que, segundo o mesmo Vieira e 
vrias personalidades a par dos segredos de Estado, estavam provavelmente inocentes. 
Tudo se liga, e

tanto os autos-de-f como os paradoxos dos pregadores exprimem, porventura, a mesma 
decomposio ideolgica que caracteriza o final da poca barroca e que a torna to 
fugidiamente complexa.

A obra de Vieira ficou durante muito tempo como um dos paradigmas da prosa 
portuguesa, e ainda modernamente h quem a tenha como bom modelo. A propriedade 
vocabular, a economia dos adjectivos, a preciso, a clareza, o ritmo nervoso e 
contido, uma certa fora mscula de seduo, uma constante elegncia e simplicidade 
de perfil tornam esta prosa inconfundvel. Nela se aliam a educao escolstica e 
retrica das escolas jesutas; uma longa experincia da arte de convencer; uma grande 
intuio psicolgica que essa experincia apurou; o gosto do jogo a que j aludimos; 
uma certa grandeza de viso que impede o orador de cair no nvel do corriqueiro; e 
uma premente urgncia prtica nos efeitos a conseguir. Daqui resulta uma prosa 
eminentemente (e ento) funcional, sem deixar de se manter ao nvel de universalidade 
necessria a toda a obra de arte perdurvel.

No  apenas nos sermes que encontramos tais qualidades, mas tambm nas cartas e 
relatrios sobre matrias to variadas como narrativas de viagens, temas polticos, 
alegaes jurdicas. Alguns destes textos, como

vimos, exprimem com relevo admirvel o extraordinrio realismo que coabita em Vieira 
com as quimeras ou fingimentos sebastianistas e outros.

4. - POCA - POCA BARROCA                                                           
     551

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1. Textos

Os Sermes comearam a ser editados ainda em vida do Autor (falecido em 1697), por 
ele compilados e revistos, saindo 13 tomos ou Partes deles entre 1679 e 1699. 
Posteriormente saram outros tomos de sermes, na continuidade da mesma coleco 
(XIV,
1710; XV, 1748).

Durante o sc. XVIII publicaram-se sob o nome de Vieira diversas obras, umas 
apcrifas, ou de autoria discutvel, outras autnticas. Estas ltimas so Histria do 
Futuro. Livro ante-primeiro, Lisboa, 1718; 2. > ed. 1755.

Cartas, 3 tomos, de 1735 (1. > e 2. >) a 1746 (3. Atribudas a Antnio Vieira so, 
alm de outras, a Arte de Furtar (1744), mas sem razo (veja-se adiante), e as 
Notcias Recnditas do modo de Proceder da Inquisio Portuguesa, cuja autoria parece 
ser de Pedro de Lupina Freire, mas com colaborao provvel de Vieira. Esta ltima 
obra foi pela 1. > vez editada em Londres, 1654, e vrias durante o sc. XVIII.

Baseada nestas ed. e em numerosos manuscritos inditos fez-se em Lisboa, de 1854 a 
1858, uma ed. das obras completas, em 27 vols.: 15 de Sermes, 4 de Cartas, 3 de 
Obras Inditas, 2 de Vrias, o da Histria do Futuro e o da Arte de Furtar, atribuda 
a Vieira. Esta  ainda a ed. mais completa da obra vieiriana, embora deixe inditos 
importantes textos e contenha numerosas incorreces. Veja-se no Dicionrio 
Bibliogrfico de Inocncio da Silva notcia de outras ed. parcelares antigas.

Eis as edies modernas mais importantes: Sermes, em 15 vols., Porto, 1908-1909. 
Outra ed. Porto, 1959. Em papel bblia,
5 vols- Lello, Porto, s/d.

Cartas, revistas por Tto de Noronha, Porto-Braga, 1871, 1 vol. Cartas, ed. Rio de 
Janeiro, 2 vols., 1885. Cartas, coordenadas e anotadas por J. Lcio de Azevedo, 3 
vols., Coimbra, 1925,
1926, 1928, 2. ed. 1970.

Onze Cartas Inditas, 1 vol., Coimbra, 1927. Histria do Futuro, 1718, Lisboa, pouco 
fidedigna, em que se baseiam as de 1755, Lisboa, 1838, Bahia, ed. de J. Lcio de 
Azevedo, Coimbra, 1918, 1855, Lisboa, 1937, So Paulo, 1953, Lisboa (*Cls. S da 
Costa+, org. por Hemni Cidade). Da mesma obra, ed. crtica prefaciada e anotada por 
Jos van den Besselaar, 2 vols. (sendo o segundo de comentrio), Mnster, Westfalen, 
1976, reed. minor, Biblioteca Nacional de Lisboa,

1983. Ed. com introd., actualizao e notas de M. Leonor Carvalho Buescu, IN-CM, 
1982, baseada na ed. crtica do Livro Anteprimeiro de Besselaar e na de Lcio de 
Azevedo quanto ao Livro Primeiro e Segundo.

Defesa perante o Tribunal do Santo Ofcio, 2 tomos, *Publicaes da Universidade da 
Bahia+, introd. e notas de Hernni Cidade, 1957.

Para melhor conhecimento da bibliografia de Vieira consultar Leite, Serafim: Histria 
da Companhia de Jesus no Brasil, tomos IV e IX, Rio, 1943, 1949, e, mais crtica e 
actualizadamente, Bauer, Helga: Die Editionen der Werke Antnio Vieiras, n Spanien, 
Mnster, 1 1976-77, 11 1978 (sep. de *Aufsaetze zur Portugiesischen 
Kulturgeschichte+, 15).

552                                                 HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

2. Antologias

Salientam-se as Obras Escolhidas, publicadas em 12 vols. na col. *Clssicos S da 
Costa+ (1951-54), que corrigem numerosos erros da ed. de 1854-58, acrescentando-lhes 
textos raros e dispersos. Abrangem Cartas (vols. 1 e 11); Obras Vrias (vols. 111 a 
Vil); Histria do Futuro (ed. completa, vols. VIII e IX); Sermes (vols. X a XII).

Padre Antnio Vieira, sei., ordenao, pref. e notas de Hemni Cidade, Agncia-Geral 
das Colnias, 4 vols., 1940, sendo o 1. > vol. um Estudo biogrfico e crtico; ainda 
organizado e prefaciado por Hemni Cidade, o vol. dedicado a A. Vieira na coleco *A 
Obra

e o Homern+.

Cartas Selectas, Paris, 1838. Sermes Selectos do Padre Antnio Vieira, Lisboa, 1852.

Vieira Brasileiro, 2 vols. da Antologia Brasileira organizada por Afrnio Peixoto e 
Constncio Alves. Abrangem os principais textos vieirianos que se referem ao Brasil.

Entre as numerosas ed. parcelares de sermes e cartas destinadas a uso escolar, 
destacam-se:

Trs vols. da col. *Textos Literrios+, cada qual consagrado a um sermo; dois vols. 
de Sermes e Cartas anotadas por Jlio de Morais, Braga, 1937-38; o vol. da col. *As 
Melhores Pginas da Literatura Portuguesa+ dedicado a Vieira, com um estudo de A. do 
Prado Coelho, Lisboa, 1944; Sermes e Lugares Selectos (3. > ed. 1954) e Cartas, 
anotadas por Mrio Gonalves Viana, col. *Autores Nacionais+ e *Portugal+, 
respectivamente; Sermo da Sexagsima, introd., com. e notas de Manuel dos Santos 
Alves, Lisboa, 1976; em Clssicos Portugueses - Sc. XVII, Porto, 1977, Mrio Fiza 
transcreve integralmente e comenta global e minuciosamente os sermes de Santo 
Antnio aos Peixes e da Sexagsima (1655); Sermo de S. 10 Antnio aos Peixes e Carta 
a D. Afonso VI (201411657), pref. e notas de Rodrigues Lapa, col. *Clssicos do 
Estudante+, 1978; Sermes do p.e A. Vieira (de S. to Antnio aos Peixes e da 
Sexagsima), col. *Textos Literrios+, notas e sugestes crticas de Margarida Vieira 
Mendes, 2. > ed. 1982.

3. Estudos

a) Biografia e generalidades

Azevedo, J. Lcio de: Histria de Antnio Vieira, 2 vols., Lisboa, 19 18-20, 2. > ed.
1931.

Cidade, Hemni: Estudo biogrfico e crtico na antologia atrs citada; P.e Antnio 
Vieira, da col. *A Obra e o Homem+. Introdues aos vols. da ed. cit. da col. 
*Clssicos S da Costa+.

Besselaar, Jos van den: A. Vieira: o Homem, a Obra, as Ideias, *Biblioteca Breve+, 
lCLP, Lisboa.

Srgio, Antnio: estudo em Ensaios, t. > III, e introduo  ed. cit. da col. 
*Clssicos S da Costa+.

Em obras de conjunto, ver os captulos sobre Vieira em Figueiredo, Fidelino de: 
Hstria da Literatura Clssica, Lisboa, 1921; Leite, Serafim: Histria da Companhia 
de

4. a POCA - POCA BARROCA                                                           
     553

Jesus no Brasil, 1938-50, vol. 9; Cidade, Hernni: Lies de Cultura e Literatura 
Portuguesa, 1959, 4. a ed., 1. > vol.; Sampaio, Aibino Forjaz de: Histria da 
Literatura Portuguesa Ilustrada, III, captulo sobre oratria sagrada, de J. Lcio de 
Azevedo; Ricard, R.: tudes sur l'histoire morale et religieuse ou Portugal, 1970.

b) Aspectos literrios

Cantei, Raymond: Les Sermons de Vieira, tude ou Style, Ediciones Hispano-Americanas, 
Paris, 1959; e Les Wes Linguistiques de Veira, in * Actas do IX Congresso de 
Lingustica Romnica+, Lisboa, 1961.

Saraiva, A. Jos: Les quatres sources ou discours ingnieux dans les sermons ou pre 
Antnio Vieira, in *Builetin des tudes Portugaises+, Paris, 1970; Le Prdicateur, 
Dieu et son Peuple, in Travaux de Vinstitut d'tudes Latino-amricanes de 
l'Universit de Strasbourg, 1970; e Le discours ingnieux, Lisboa, 197 1. Textos 
traduzidos e reunidos no vol. 0 discurso engenhoso, ed. *Perspectiva+, S. Paulo, 
1980.

Barrento, Joo de Sousa: Forma e Funo da interrogao nos Sermes de Vieira, in 
*Aufsaetze zur Portugiesischen Kulturgeschichte+, Vil, 1967.

Mendes, Joo: srie de 3 artigos sobre Vieira, in *Brotria+, vols. 91 e 92 (1970-
71). Mendes, Margarida Vieira: A Oratria Barroca de Viera, Caminho, 1989 (fina 
anlise retrica, larga bibliografia actualizada).

c) Messianismo

Cantei, R.: Prophtisme et messianisme dans Poeuvre ou pre Antnio Vieira, Paris,
1960.

Ricard, R.: Prophecy ano Messianism in the Works of Antnio Vieira, in tudes sur

Phistoire morale et religieuse ou Portugal, 1970.

Bataillon, M.: Le Brsil dans une vision d'Isa@ selon te P.e Antnio Vieira, in 
*Builetin des tudes Portugaises+, 1964.

Saraiva, A. Jos: est. cit. sobre Le Prdicateur e Vieira Menasseh ben Israel et le 
Cnquirne Empire, in Studia Rosenthaliana, Amesterdo, 1972.

d) Outros aspectos


Saraiva, A. Jos: Le p.e Antnio Vieira et Ia libert des Indiens, in *Builetin de Ia 
Facult des Lettres de Strasbourg+, 1963; e Le pe Antnio Vieira et Ia question de 
l'esclavage des Noirs au Xville sicie, in Annales, Economies, Socits, 
Civilisations, 1967.

Besselaar, J. van den: As variantes da editio princeps da *Histria do Futuro+ de 
Antnio Vieira, in *Ocidente+, 8 1, n. > 400, Ag. 197 1; Em torno da editio princeps 
da *Histria do Futuro+, in *Aufsaetze zur Portugiesischen Kulturgeschichte+, 1969; 
0 Sebastiansmo - Histria Sum ria, *Biblioteca Breve+, ICALP, 1987.

Rvah, 1. S.: Petite contribution  Ia future dition des lettres ou P.2 Antnio 
Vieira, in *Builetin des tudes Portugaises+, 1947.

554                                                 HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

RhI, Maus: Biblischer original text und Bibelversion in den Predigten Vieiras, in 
*Aufsaetze zur Portugiesischen Kulturgeschichte+, 1965; e Zur Chronologie des 
Predigten Vieiras, in *Flornanistisches Jahrbuch+, v. 21, Berlim-Nova lorque, 1970, 
pp. 328-358 (data
22 sermes de 1633-52).

Frota, Guilherme Andrea: Pe Antnio Vieira, Ensaio Bibliogrfico relativo ao Brasil, 
in *Ocidente+, 1966.

Castro, Anbal Pinto de: Retrica e Teorizao Literria em Portugal do Humanismo ao 
Neoclassicismo, Centro de Estudos Romnicos, Coimbra, 1973. (Estudo dos preceptistas 
da oratria, sobretudo sacra, desde, nomeadamente, Cipriano Soares, 1562, e Frei Lus 
de Granada, 1576, at ao cdigo barroco de Francisco Leito Ferreira, 1718,  arte 
dos *conceitos predicveis+, e, finalmente,  reaco neocissica iniciada por 
Verney.)

Marques, Joo Francisco: A Parentica Portuguesa e a Restauraco (1640-1668),
2 vols., INIC. (Permite enquadrar A. Vieira nas correntes ideolgicas     religiosas 
da Restaurao.)

Os volumes de *Aufsaetze zur Portugiesischen Kulturgeschichte+ 7 Band 1967, 8 Band 
1968, publicados pelas Portugiesische Forschungen der Goerresgeselschaft, por 
intermdio da Aschendorfsche Veriagsbuchhandiung, Mnster,Vestefia, Alemanha, 
contm ainda outros estudos acerca de Antnio Vieira.

Captulo V11

BARROCO: PROSA DOUTRINAL, PANFLET RIA E HISTORIAL

Uma das caractersticas novas do perodo que estamos estudando, e que s por si 
constitui um novo factor a contar no estudo da difuso das ideias e suas condies 
sociais,  o desenvolvimento da literatura panfletria. Deve notar-se que tal 
literatura se difundiu ainda, em grande parte, por meio de cpias manuscritas, a 
julgar pelo nmero considervel de textos, com variantes, que assim chegaram at ns.

Por ordem cronolgica, o primeiro contingente de tais escritos refere-se  ocupao 
filipina e sobretudo aos seus vexames fiscais. As Trovas do Bandarra, sapateiro de 
Trancoso, compostas na 1. a metade do sculo XVI, ganharam uma tal popularidade, que 
mereceram o cuidado de um reajustamento por parte da propaganda favorvel a D. Joo 
IV.

J vimos os dois Rodrigues Lobos dedicarem-se  stira antifilipina. 0 leitor 
encontrar nos estudos de Gasto de Melo e Matos e de Eduardo de Almeida, citados, em 
Bibliografia, indicao de toda uma srie de textos antifilipinos. Apresentam-se, em 
geral, sob as formas facilmente popularizveis de coplas, romances em verso 
assonante, colquios, entremezes, cartas humorsticas, assentos camarrios atribudos 
a concelhos rurais muito sertanejos; no seu contedo avultam a resistncia contra as 
novas imposies fiscais e

o protesto contra a falta de defesa dos portos e frotas comerciais relativamente ao 
corso

holands, ou contra a interdio de comerciar com inimigos de Castela, no faltando 
mesmo a expresso de certa animosidade contra a nobreza. 0 gosto do trocadilho e da 
alegoria barroca assinala por vezes a autoria letrada de um provvel universitrio.

Depois de 1640 a fermentao panfletria no abranda; pelo contrrio, ganha mais 
flego e sobe de nvel, diversificando-se tambm. Os grandes problemas debatidos no

reinado de D. Joo IV so as conspiraes pr-castelhanas da alta aristocracia 
nobiliria e clerical, e o debate em torno do Santo Ofcio e dos Cristos-Novos. A 
desconfiana,

556                                                 HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

alis certeira, em relao  aristocracia espelha-se, por exemplo, numa srie de 
cartas

imaginariamente ditadas por Miguel de Vasconcelos ou a ele dirigidas para o Inferno, 
muito semelhantes ao gnero dos testamentos de Judas que ainda hoje correm em certas

povoaes portuguesas no Sbado de Alcluia. 0 marqus de Vila Real e o arcebispo de 
Braga, D. Sebastio de Matos Noronha, por exemplo, foram publicamente acusados por 
esta forma, antes de se dar oficialmente conta da sua conspirao, o que coincide com

o ambiente de receio, em relao  suspiccia popular, com que os dirigentes se nos 
deparam no PortugW Restaurado do conde de Ericeira.

Quanto  questo que ope o Santo Ofcio s prestaes de amnistia e tolerncia por 
parte dos Cristos-Novos, so numerosos os folhetos que correm e at os pasquins que 
se afixam no Pao a favor da pureza da F. Os inquisidores tinham consigo a maioria, 
mas a existncia em contrrio de uma forte minoria na burguesia e na aristocracia 
esclarecida  atestada por vrios documentos, devida ou indevidamente atribudos a 
Antnio

Vieira, contra os mtodos inquisitoriais, de que ficaram cpias diferentes e 
disseminadas

pelo Pas. Este debate prolonga-se por todo o restante sculo XV11; vai alternar, 
como estmulo de literatura panfletria, com as intrigas entre as diversas faces 
ulicas e militares da Guerra da Restaurao, e especialmente com as que participam 
no golpe de Estado de Castelo Melhor (1662) e na deposio de Afonso VI (1668).

BARROCO: Memorialistas

A principal fonte de informao sobre este perodo  um dirio particular referente 
aos acontecimentos decorridos entre 1662 e 1680, intitulado Monstruosidades do Tempo 
e da Fortuna, de que ficaram vrios manuscritos, um deles editado em 1888, e que tem 
sido atribudo com verosimilhana ao benedtino de Entre Douro e Minho, Frei 
Alexandre da Paixo. 0 ponto de vista deste dirio  o de um moralista muito 
conservador, antijudaico, favorvel a D. Pedro 11 e  alta aristocracia. Mas a obra 
contm informaes valiosas, graas a certo e novo gosto de registar efemrides, 
muito carac~


terstico da poca barroca e ao qual se devem obras to notveis como as Mem,rias de 
Saint-Simon ou o Dirio de Samuel Pepys. A ttulo de exemplo, e pelo seu 
extraordinrio interesse para a histria do teatro em Portugal, citemos as 
referncias contidas em Monstruosidades s *cartas por tftulos e comdias+ e uma 
lista, elaborada por acinte nitidamente antinobilirquico, em que figuram 117 nomes 
da aristocracia, ou designaes colectivas de grupos dirigentes do Pas, seguidos 
cada qual de um ttulo de comdia espanhola que lhe faz a cari     catura; assim, D. 
Francisco Manuel de Melo  caracterizado pelo ttulo da comdia Lances de Amor y 
Fortuna, o que parece

4. @ POCA - POCA BARROCA

557

confirmar a tradio linhagista segundo a qual a sua priso tem qualquer relao com 
aventuras amorosas.

Entre as obras de memrias da poca filipina salienta-se a Fastigimia ou Fastignia 
do jurisconsulto Torn Pinheiro da Veiga (c. 1570-1656), dirio de uma estadia do 
autor em Valhadolid em 1605, mas com insero de comentrios e acrescentos 
indubitavelmente posteriores, obra que correu em numerosas cpias manuscritas. 0 
autor dedica a maior parte do texto  descrio minuciosa de cerimnias e festejos 
ulicos e  transcrio da picante esgrima de galanteios que travou com damas 
espanholas, cuja desenvoltura e liberdade o surpreenderam e deleitaram, em contraste 
com a *tirania que em Portugal se usa com as filhas e as mulheres+. Bom observador 
humorstico, Pinheiro da Veiga sabe insinuar, com humor, uma viso crtica da 
espaventosa corte de Filipe 11 (111 de Espanha), do rei, do duque de Lerma e outras

personagens, de certos costumes castelhanos e portugueses, das exibies teatrais do 
culto religioso, como procisses de tocheiros e milhares de disciplinantes, sermes 
*em que sucedem farsas solenes+, etc.

Em certos pontos, como no gosto da reportagem concreta, da mincia significativa, no 
interesse com que em dado passo refere progressos tcnicos recentes, o autor ganha um 
ar moderno, apesar do seu lastro de citaes clssicas e de conceitos espirituosos. 
Um dos maiores interesses do livro reside no contraste que estabelece entre a 
*melancolia e nublado portugus+ e *a boa sombra e alegria castelhana+: *uns, 
noitibs tristes, e outros, pintassilgos alegres, [... 1 andam os Portugueses  caa 
de uma melancolia, e sonham os Castelhanos de noite como podero levar um bom dia+. 
Toin Pinheiro da Veiga, cujo esprito autonomista se revelou no prprio exerccio da 
magistratura, resistindo  aplicao de leis castelhanas, e que aderiu mais tarde  
Restaurao, reage de modo por vezes sarcstico contra a constante caricatura com que 
em Valhadolid  alvejado o seu Portugalete, quer em piropos de castelhanas ou em 
aluses orais diversas, quer at em entremezes, denominados portuguesadas, acerca de 
fanfarronices e sentimentalismos ridculos de tipos fidalgos portugueses. No entanto, 
no se cansa de tambm criticar os preconceitos e pechas da aristocracia nacional,  
luz do que v em Castela: a brutal sujeio feminina (que vimos preconizada pela 
Carta de Guia de Casados); a tola presuno provinciana de estirpe e o feitio brigo; 
a exibio sentimentalona, a alternar com o gosto de falar de um

558                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

modo obsceno; a falta de limpeza; o baixo nvel de convivncia. 0 mais curioso  que 
o prprio autor se recorta, no livro, como um obsessionado sentimental pelo belo 
sexo, rematando mesmo a Segunda Parte por um longo encarecimento das sublimidades do 
amor freirtico que  difcil de tomar apenas como uma ironia, a no ser que seja uma 
auto-ironia.

Sob o ponto de vista literrio, trata-se de uma das obras mais notveis do nosso 
sculo XVH, graas a uma prosa cheia de vivacidade, a um extraordinrio sentido de 
humor, ao seu equilbrio entre a coloquialidade e a erudio no sentido em que se 
orientavam j as obras de Jorge Ferreira de Vasconcelos.

Outras obras seiscentistas de Memrias: o Dirio (1731-33) do 4. conde de Ericeira, 
e o livro que Eduardo Braso publicou no Porto, 1940, sob o titulo de D. Afonso VI, 
atribuindo-o a Antnio de Sousa de Macedo; o investigador brasileiro Afonso de Pena 
Jnior reivindica a autoria desta ltima obra para Pedro Severim de Noronha.

 ainda como memorialistas que aqui se devem registar dois homens que, alm de 
Rodrigues Lobo, preceptista e antologista epistologrfico, D. Francisco Manuel de 
Melo, Padre Antnio Vieira e Frei Antnio das Chagas, deixaram uma significativa 
correspondncia: D. Vicente Nogueira (1585-1654), clrigo muito culto, que, exilado 
em Roma. d em numerosas cartas ao marqus de Nisa informaes bibliogrficas, 
pareceres e observaes dos costumes da grande cidade; e D. Jos da Cunha Brochado 
(1652-1735), a

quem uma longa misso diplomtica em Paris proporcionou curiosas reflexes e 
comparaes em numerosas cartas, alm de dois tomos de Memrias e anedotas da Corte 
de Frana.

A Arte de Furtar

Entre as obras de contedo panfletrio merece ateno especial a Arte de Furtar, 
escrita no tempo da Restaurao, que excede em interesse informativo e graa 
literria as obras atrs mencionadas (exceptuando a Fastigmia) e que ainda hoje se 
l com agrado, como se verifica alis pelo nmero considervel e ainda no 
devidamente controlado de edies que tem tido.

A primeira edio desta obra, fradulentamente datada de *Amesterdam na oficina 
Elzeviriana, 1652+, sob o nome do padre Antonio Vieira, parece ter sido composta em

Lisboa, bem como a segunda, datada de Amesterdo, 1744. Pelo assunto, pela falsa 
atribuio de autoria e oficina de impresso, verifica-se que tais edies obedeceram 
a um


propsito de especulao livreira e, tambm, de sondar as reaces oficiais. Como 
vereinos adiante,  legtimo supor que a redaco original do livro, que parece datar 
da poca

4. a POCA - POCA BARROCA                                                           
     559

de D. Joo IV, tenha sido reajustada aqui e alm aos propsitos do editor, que ainda 
no ano de 1744 se afoitou a tirar uma terceira edio, j declaradamente de Lisboa. 
No entanto, grande parte do texto foi manifestamente escrita por pessoa muito ao par 
da vida burocrtica, dos segredos de Estado, e, alm disso, conhecedora de vrios 
recantos do Pas, especialmente o Alentejo, Lisboa, a ilha da Madeira e o Minho, a 
no ser que depoimentos e fontes diversas tenham sido aproveitados na redaco final. 
A discusso da autoria vem sendo feita desde o sculo XVIII, e entre os diversos 
autores indigitados contam-se Antnio Vieira, Joo Pinto Ribeiro, Torn Pinheiro da 
Veiga, Duarte Ribeiro de Macedo, Antnio da Silva e Sousa, D. Francisco Manuel de 
Melo, Antnio de Sousa de Macedo. A penltima destas atribuies de autoria foi 
sustentada entre 1940 e 1945 por vrios folhetos polmicos de Joaquim Ferreira; e 
ainda em 1946 o brasileiro Afonso da Pena Jnior retomava a tese do seu patrco 
Solidnio Leite (1917), favorvel  autoria de Antnio de Sousa de Macedo. No 
entanto, qualquer destas duas ltimas atribuies se funda em meras coincidncias de 
estilo ou de ideologia que se no podem considerar probantes, tanto mais que se 
enquadram mais ou menos nas caractersticas gerais do Barroco literrio em Portugal; 
e as outras foram postas de parte pela erudio. 0 padre Francisco Rodrigues 
transcreveu em 1940, e depois mais completamente em 1944, de uma coleco de 
documentos do arquivo romano da Companhia de Jesus, o testemunho de um contemporneo 
annimo que d como autor da obra o P.e Manuel da Costa, da Companhia de Jesus.

A Arte de Furtar  um depoimento literrio muito completo e variado acerca da 
realidade social do tempo de D. Joo IV; nela se espelham ao vivo todos os principais 
problemas em que se debatia a administrao interna e todo o jogo das foras sociais. 
Trata-se, em grande parte, de um panfleto desmascarador dos vrios tipos de logro e 
irregularidade, ao longo dos diversos escales da sociedade, desde os mendigos 
artificialmente chagados e das pequenas trapaas de artfice *mecnico+ ou de 
regateira, at s grandes roubalheiras e compadrios do alto funcionalismo. To 
concretas e precisas so as informaes que, alm de uma incontestvel familiaridade 
com as secretarias de Estado, no pode deixar de pensar-se que este livro aproveita 
experincia de confessionrio, tanto mais que o autor alude vrias vezes  confisso 
e ao receio do Inferno como nica escpula que h para a dissimulao de toda a 
gente. Por outro lado, se o livro tem interessado sobretudo pelo escndalo e 
desmascaramento, h tambm a apontar um seu outro importante aspecto: o aspecto 
apologtico de claro apoio ao rei, decerto D. Joo IV, a quem foi dedicado, a quem 
foi mesmo dado provavelmente muito antes da sua impresso, a julgar pelo que se diz 
na aluso que  feita a Manuel da Costa no Arquivo da Companhia de Jesus em Roma,

560                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Com efeito, o livro contm captulos que so autnticas stimulas para uso rgio, como 
o captulo XVI, que discute os direitos dinsticos dos Filipes e da Casa de Bragana 
 Coroa portuguesa; o captulo XX1, que  um resumo das normas de direito natural e 
internacional referentes  guerra; o captulo L, que sumariamente define um conceito 
de soberania e discute a jurisdio rgia a respeito do clero; e o captulo final, 
que recapitula a

srie de medidas anteriormente sugeridas ao rei para se pr cobro aos desmandos 
indicados.

Sob o aspecto jurdico, as teses da Arte de Furtar so fundamentalmente as mesmas

que vamos encontrar nos doutrinrios seus contemporneos. Sublinhemos a tese, 
caracterstica, como veremos, dos jesutas da Restaurao, segundo a qual a soberania 
vem de Deus para os reis, no imediatamente, mas atravs de um pacto de sujeio dos 
respectivos povos, que estes no tm a faculdade de revogar ou limitar (captulo L). 
0 autor aspira, pois, a um reformistuo regalista, ainda fora dos moldes pombalinos da 
Deduo Cronolgica (dentro dos quais o rei governa por delegao divina imediata e, 
portanto. *de cincia certa e poder absoluto+), e estabelece uma fundamentao 
acentuadamente teolgica da poltica e da moral, tal como na poca se encontra mesmo 
em doutrinrios

laicos como Antnio de Sousa de Macedo. Mas no  menos sensvel a preocupao de 
definir as prerrogativas rgias perante Roma: *0 Papa no  senhor temporal de tudo, 
porque Cristo s o poder espiritual lhe deu, e o temporal s os povos lho podiam dar, 
e consta que no lho deram+. Arrostando com o risco de que *lhe levantem que sente 
mal do eclesistico+, o autor condena a excessiva soma, *perto de um milho+, que 
trienalmente em Portugal se gasta em *demandas de lana-caprina+ junto da Cria 
Romana, pois *h neste Reino dez mil frades, e mais de quinze mil freiras, e mais de 
trinta mil clrigos, e mais de cinquenta mil embaraos de conscincia em leigos+. Se 
ligarmos estas frases com a frouxa apologia de *certos servos de Deus a quem 
murmuraes chamam por desdm da Apanhia, levantando-lhe que mandam olhar a gente 
para o cu enquanto lhe apanham a terra+ e com uma exaltao da intolerncia 
inquisitorial completamente oposta  tese que a Companhia de Jesus sustentou sob D. 
Joo IV (captulo LX), torna-se problemtica a autoria do i .esuta Manuel da Costa. 
Deve notar-se no entanto que este no era bem visto pelo confrade que o identifica 
como autor, e que foi castigado pelos seus superiores com o afastamento para o 
Algarve.  de admitir que o texto inicial tivesse sofrido interpolaes e 
modificaes por parte do livreiro que parece ter especulado com


as primeiras edies do livro em 1744 ou pouco antes. Isso explicaria, entre outras 
coisas contraditrias, a insero de dois captulos (XLV e XLVI) inconfundivelmente 
decalcados de Antnio Vieira, quanto ao estilo e quanto s teses: @@O dinheiro  o 
nervo da

guerra, e onde falta, arrisca-se a vitria+; a condenao formal da escravatura; o 
elogio da missionao e, indirectamente, da Companhia de Jesus.

Todavia, insistimos, quaisquer que sejam as interpolaes tardias, no h dvida de 
que o essencial do livro exprime as preocupaes do tempo de D. Joo IV, encaradas 
sob o ponto de vista dominante do clero.  frequente a observao de que tais ou tais

desmandos se evitariam, caso a incumbncia em questo fosse desempenhada por @<rcIi-

4. - POCA - POCA BARROCA                                                           
561

gioso+. H todo um captulo (VII) a enumerar os prejuzos que o regime filipino 
acarretara ao clero. Pelo contrrio, a alta burguesia e a nobreza, ainda que sem 
individualizao de pessoas, saem a escorrer sangue deste cadastro de extorses e 
violncias, que  impossvel resumir.

Considerando o contedo do livro ao nvel da simples descrio de factos isolados e 
tpicos dos mais variados comportamentos sociais, o seu realsmo supera de muito o 
melhor dos Aplogos Dialogais, e possivelmente nenhum panfleto da nossa literatura o 
iguala. L surgem, entre outros, casos

de *estanco+ (aambarcamento e monoplio) de gneros de venda, importao ou 
exportao, na mais diversa escala; casos de especulao com as *rendas+ ou ttulos 
de dvida pblica, como baixas de cotao artificialmente provocadas e seguidas da 
sua arrematao pelos prprios intermedirios oficiais; casos de aquisio pela 
Coroa, mediante suborno, de cavalos inutilizados, de bacalhau estragado e de outras 
mercadorias desvalorizadas, para fornecimento ao exrcito; casos de alistamento para 
a tropa ou para a marinha em

que se registam contingentes imaginrios, depois imaginariamente dispersos, para 
justificar escuros manejos de fundos, e em que, alm disso, a incorporao ou no 
incorporao forada de mancebos depende s do preo do suborno, reduzindo numerosas 
famlias  misria ou  hipoteca; malversaes fiscais; acumulaes ou excessivas 
ramificaes burocrticas; sonegao, por parte da nobreza, de bens da Coroa, que as 
dificuldades polticas da Restaurao no permitem recuperar; cursos universitrios 
completados, s dezenas, por interposta pessoa; simples desfalques ou vigarices, em 
todos os andares do funcionalismo e da vida comercial; viciao ou atraso propositado 
dos despachos oficiais ou dos processos judiciais; etc., etc.

0 envoltrio teolgico do livro no impede certas concluses que hoje pareceriam mais 
ou menos cnicas. Incitam-se os armadores porturios  formao de *bolsas+ ou 
companhias para a guerra de corso; como D. Francisco Manuel, o autor afirma que 
*males h necessrios, como diz o provrbio, e que se toleram nas repblicas para 
evitar maiores males+ (tal  o das

mulheras pblicas, comediantes e volatins, *que se sofrem para divertir as

ms inclinaes e evitar outros vcios maiores+); entende-se que os prncipes devem 
evitar o reconhecimento pblico de certos erros; a pena de morte s  recomendada 
para os delinquentes que furtam com *unhas tmidas+, pois os audaciosos so 
necessrios  *milcia+ (vida militar) no Ultramar ou na Metrpole; o Estado, como os 
particulares, s evitaro o roubo se pagarem

562                                        HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

aos seus servidores como devem, *porque  certo que no h quem se no

pague, se achar por onde+; *vernos perdas to grandes e intolerveis, que pelo serem 
muito, as atribumos aos pecados, que no vemos, e se podero muitas vezes queixar de 
se levantarem tantos falsos testernunhos+.

Quanto  composio literria, a Arte de Furtar  bem uma obra barroca. Em vez de 
dispor os assuntos segundo uma ordem lgica, de acordo com o desenvolvimento do 
interesse intrnseco, arruma-os em obedincia a um critrio formal conceptista. 
Comea por uma srie de captulos aliciantes pelo seu paradoxo moral: Como para 
furtar h arte, que  cincia verdadeira; Como a arte de furtar  muito nobre; Da 
antiguidade e professores desta arte; Como os maiores ladres so os que tm por 
ofcio livrar-nos dos outros ladres; etc. 0 conjunto do livro subordina-se a uma 
classificao dos estilos de roubo, segunda analogias e oposies verbais e 
engenhosas como unhas pacficas, unhas militares, unhas temidas, unhas tmidas, 
disfaradas, maliciosas, descuidadas, sbias, ignorantes, singelas, dobradas, etc. 
Tal classificao tem um mero interesse de chamadoiro, e deve emparelhar-se com o 
processo de trabalho literrio de um D. Francisco Manuel de Melo, tal como se 
denuncia pelo confronto entre a Feira de Anexins e os Aplogos Dalogais. 
Consequncia inevitvel de tal formalismo  o terem

os leitores de reconstruir por si um panorama social que lhes  dado s tiras, com 
repeties e insistncias escusadas, ou com aproximaes meramente verbais. Para 
dissimular a arbitrariedade da classificao, cada captulo vem

normalmente iniciado por uma historieta destinada a justificar o paradoxo sempre 
renovado, por contrastes imprevistos, da titulao; ou se estadeia o virtuosismo 
conceptista do autor, digno de um D. Francisco Manuel ou de um Antnio Vieira. 0 jogo 
de correspondncias alegricas, de distines verbalistas, de trocadilhos, a 
frequncia do hiprbato datam, sem confuso possvel, esta obra; o seu interesse, 
porm, mantm-se no s graas ao seu

valor como depoimento, mas tambm pelo brilho e pela vivacidade que o

salvam da poeira do tempo e que so admiravelmente servidos pela assimilao dos 
recursos expressivos da linguagem oral.

Obras do Diabinho da Mo Furada

Pelos curiosos ingredientes picarescos de costumes, referiremos aqui uma

novela com intuitos moralistas e de origem certamente clerical, provavelmente 
franciscana, mas que apresenta muito mais interesse do que as ridas

4, - POCA - POCA BARROCA                                                        563

novelas exemplares j focadas noutro captulo. Trata-se de Obras do Diabinho da Mo 
Furada, novela por mais de uma vez, mas indevidamente, atribuda a Antnio Jos da 
Silva e que chegou at ao sculo XIX em dois manuscritos. Conta a histria de um 
soldado, Peralta, que, em jornada de vora at Lisboa, se encontra com o Diabo, com 
quem completa em vrios dias a viagem, resistindo s tentaes mais ladinas e 
presenciando o efeito delas nos semelhantes, at que chega e ingressa na Ordem 
Franciscana, levando uma fortuna que o companheiro lhe dera com intenes bem 
diferentes. Pelo caminho, o heri tem vises alegricas, em sonho, dos tormentos 
infernais e dos pecados e virtudes. Assim se actualiza a tipologia moral-social dos 
autos vicentinos: um frade viciado no rap; bruxas com pacto demonaco; almas 
anglicas de crianas mortas; avarentos; gente desonesta dos tribunais; poetas 
mundanos; mdicos, boticrios e sangradores assassinos ou desinteressados da salvao 
eterna dos doentes; taberneiros que baptizam o vinho; *estudantes bragantes+; 
namorados freirticos; mulheres vaidosas, de monho e guarda-infante (topete e saia de 
balo); *pules+ Oanotas); *terceiras+ (alcovetas); almocreves e barqueiros 
praguejantes; malcasados; clrigos indignos; freiras politicando sobre eleies de 
abadessado; uma *fregona+ (criada) venal, etc. 0 iderio do livro no podia ser mais 
conservador, e o soldadinho  a figura exemplar da moral preconizada, por vezes com 
lances cuja moral hoje nos parece mais do que discutvel. Sublinha-se a cada passo a

importncia de no faltar  missa, de no praguejar, de denunciar os incrus e bruxas 
ao Santo Ofcio, de evitar o contacto dos Judeus; elogia-se a nobreza

de velha estirpe, a Companhia de Jesus e, sobretudo, a Ordem Serfica. Milagres e 
pactos demonacos so moeda corrente. Mas, no meio de tudo isto, do-se imagens 
flagrantes de incidentes de jornada e estalagem, de actividades profissionais 
diversas, de costumes do tempo; abundam as situaes burlescas, as falas vivas e 
saborosas, um bom humor frequente em entremezes

da poca, e sentimo-nos em ambiente espontneo de mitologia popular por- tuguesa, 
onde de resto se inspiram vrios episdios.

BARROCO: Doutrinrios e polgrafos

Muitas so as obras que, como a Arte de Furtar, se relacionam com a apologia da 
revoluo brigantina. Para maior difuso curopeia, as lnguas que geralmente usam so

o latim e o castelhano; e quase todas fundamentam a Restaurao na teoria de origem 
tomista segundo a qual o poder vem, sim, de Deus, mas por intermdio do consentimento

564                                                 HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

popular e no por delegao directa conferida aos reis. Salientemos apenas entre os 
autores Antnio de Sousa de Macedo, jurista e diplomata. Alm do poema Ulissipo, de 
vrias obras doutrinrias como Harmonia Poltica, 165 1, dedicada ao sucessor de D. 
Joo IV, e tambm de Eva e Ave, 1676, de inspirao cabalista, publicou ainda sob o 
regime filipino Flores de Espafia, Excelncias de Portugal, 163 1, vasta enciclopdia 
de glrias portuguesas. Harmonia Poltica  apenas um entre os muitos regimentos de 
prncipes com

que se manteve durante sculos a idealizao do poder monrquico centralizado. A este 
gnero pertence tambm o dilogo final de Tempo de Agora, 1622-24, reedio 1785, 
obra moralista de Martim Afonso de Miranda, que patenteia dados importantes sobre os 
costumes do tempo e se caracteriza por um profundo pessimismo conservador.

As ideias polticas e econmicas tm em Portugal, no sculo XVII, certos autores que, 
embora no vissem os seus programas realizados, construram teses extraordinariamente 
interessantes, e que se podem considerar precursores de todos os esforos posteriores 
no sentido de se conquistar uma completa independncia na vida nacional.

0 primeiro a apontar, por ordem cronolgica,  Lus Mendes de Vasconcelos, que, em 
1608, publicou dois elegantes e claros dilogos do Stio de Lisboa, notveis pela sua

adequada apropriao da dialctica platnica de assunto poltico, tal como ocorre na 
Rpublica e nas Leis, aos interesses polticos e econmicos da burguesia lisboeta. 0 
facto de o autor ser um nobre, que entretanto fazia a sua carreira militar e 
administrativa no Ultramar e que tambm escrever uma Arte Militar (1612), permitiu-
lhe verificar in loco o malogro da poltica asitica, e faz com que convirjam nos 
seus pontos de vista os interesses de parte da aristocracia nacional. Mendes de 
Vasconcelos, na verdade, pretende convencer Filipe 11 (de Portugal) a transferir a 
sua capital para Lisboa; pretende que se reduza o esforo de ocupao militar no 
Oriente ao mnimo indispensvel para salvaguardar a

mercancia, criticando a mentalidade de conquista, tributao, saqueio e monoplio que

os seus antepassados nobres haviam imposto  expanso; advoga a colonizao pacfica 
das Ilhas e do Brasil, e todo um programa de incentivo s artes mecnicas e sobretudo 
 agricultura das provncias confinantes com a capital, abrangendo especialmente a 
colonizao interna e a construo de um sistema de canais e outros meios de rega, 
tudo isto como meio de garantir ao privilegiado stio geogrfico de Lisboa (cais de 
comrcio e cabea administrativa do Atlntico Sul) todas as possveis vantagens 
econmicas.


Manuel Severim de Faria (1583-1655), sobrinho de Lcio Andr de Resende, herdou do 
tio, no apenas os lugares de cnego e chantre de vora, mas tambm o gosto da 
erudio arqueolgica, que o levou a coligir as Notcias de Portugal (1655), 
acrescentadas em segunda edio pelo Dr. Jos Barbosa, da Academia Real de Histria, 
e em

terceira por Joaquim Francisco M. de Campos Coelho e Sousa. Pelos seus cuidados de 
investigao monogrfica,  Severim de Faria um precursor da Academia Real de 
Histria de 1720 e da das Cincias de 1779. As Notcias incluem estudos de 
numismtica portuguesa, de gencalogia nobiliria, de histria das universidades 
peninsulares, de histria da organizao militar portuguesa e um memorial dos 
cardeais portugueses; podem considerar-se uma continuao de outra obra do mesmo 
autor, os Discursos Vrios Pol-

4. a POCA - POCA BARROCA                                                           
 565

tcos (1624), que historiam as vestes eclesisticas no nosso pas e encerram 
biografias de Joo de Barros, Cames e Diogo do Couto.

Alm deste aspecto erudito, h em Severim um aspecto de mais directa apologia 
nacional, que deve ter contribudo para o rol das Excelncias de Portugal do seu 
amigo Antmo de Sousa de Macedo.  o que particularmente se nota no artigo que 
escreveu sobre os *inconvenientes da peregrinao+, ou seja, da viagem ao 
estrangeiro, e no Discurso poltico das artes que deve haver na linguagem para ser 
perfeita, e como a Portuguesa as tem todas e algumas com eminncia de outras lnguas.

A propenso noticiarista e articulista faz ainda de Severim de Faria um dos 
precursores da imprensa noticiosa em Portugal, com a publicao da sua Relao 
universal do que sucedeu em Portugal e nas mais provncias do Ocidente e Oriente, 
dois nmeros, que referem acontecimentos de 1625 a 1627. De 1641 at 1647 a 
iniciativa de Severim, entretanto imitada por dezenas de outras relaes esparsas de 
assuntos mais ou menos

amplos, veio a ser continuada com a edio mensal da Gazeta em que se relatam as 
novas

todas que houve neste Reino e que vieram de vrios pases, de que o poeta Manuel de 
Galhegos foi, de incio, concessionrio. De 1663 a 1667 Antnio de Sousa de Macedo, 
ento secretrio de Estado, fez publicar mensalmente o Mercrio Portugus, que alia a

funo noticiosa  de rgo oficial. Ser continuado pela Gazeta de Lisboa (1715-60), 
tambm vinculada ao poder central. No tempo de D. Joo V criaram-se seis publicaes 
peridicas, to efmeras como as anteriores; o reinado de D. Jos viu quinze gazetas, 
ainda pouco duradouras.

A crise econmica de 1670, a que aludimos na Introduo a esta poca, motivou o 
Discurso sobre a introduo das artes no Reino, que Duarte Ribeiro de Macedo (1618-
1680), confidente do P.e Antnio Vieira, e ento agente diplomtico em Paris, 
escreveu em 1675 e que s em 1817, e depois em 1924, veio a ser editado, embora 
corresse em cpias manuscritas e estivesse ligado  poltica de fomento esboada na 
altura

em que foi redigido. Ribeiro de Macedo, que escreveu ainda, entre outras obras, os 
Discursos Polticos e Obras Mtricas (edio pstuma em 172 1), e trabalhos 
compilados nas


Obras do Doutor Duarte Ribeiro de Macedo, (edio pstuma, 1743), de assunto 
sobretudo poltico mais ou menos circunstancial,  o nosso mais consequente 
doutrinrio do mercantilismo, cujo aparecimento tardio entre ns se explica pelo 
adiamento dos problemas sociais e econmicos causados pelos ciclos de monoplio 
nacional das especiarias e do acar nos sculos XVI e XVII, bem como pela 
perseguio inquisitorial movida aos chamados *cristos-novos+.

A historiograFia sob a Restaurao e D. Joo V

Alguns dos autores atrs mencionados, como Severim de Faria, manifestam grande 
predileco pela historiografia. Outros, como o autor das Monst,ruosidades do Tempo e 
da Fortuna, revelam o gosto de registar efemri-

566                                              HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

des. Os polticos e juristas da Restaurao reportam-se frequentemente  histria 
para comprovar as suas teses.

Conquanto se mantenha nesta poca a historiografia monstica, j com

esprito diferente daquele que vimos representado por Frei Bemardo de Brito, torna-se 
patente que a historiografia tende a emancipar-se da sujeio eclesistica, como da 
sujeio rgia, e a deixar de ser ramo da retrica.

No entanto  ainda tipicamente retrica uma das biografias mais conhecidas desta 
poca, a Vida de D. Joo de Castro, de Jacinto Freire de Andrade (165 1). Procurando 
modelar o seu heri segundo um modelo convencional greco-latino, o autor apresenta-
nos uma forma tipicamente barroca da biografia de encmio, atendendo ao seu 
formalismo conceptista e cultista. Pelo estilo solene, marmreo, discretamente 
conceituoso, pelos discursos e cartas modelares que insere, pela compostura de 
ademanes que atribui ao heri, a seu filho, s figuras rgias e aos dirigentes em 
geral, Andrade  um epgono portugus de historiadores clssicos como Plutarco e Tito 
Lvio. Sem originalidade de dados histricos, s se distingue pelo esmero do estilo.

Uma boa amostra desse estilo  o desfecho sentencioso, referido ao filho do 
protagonista: * ... e entre cargos to grandes, acabando valido, morreu pobre+. Eis 
outro espcime, j mais barroco do que plutarquiano: *Tornando D. Joo ao Reino, como 
querendo deixar crescer as palmas do Oriente que haviam de coroar suas vitrias, no 
desembarcou outras riquezas mais que a fama das suas obras; e, estando com os 
vestidos do mar ainda mal enxutos, o nomeou EI-Rei por general das armadas da costa 
... +.

J falmos de D. Francisco Manuel de Melo. Como exemplo da evolu~ o da 
historiografia  interessante notar o contraste entre os dois irmos, condes de 
Ericeira. 0 segundo conde de Ericeira, D. Fernando Xavier de Meneses, tratando de um 
passado j distante e prestigioso, escreveu uma Histria de Tnger (edio 1732), e 
uma Vida e Aces de D. Joo 1 (1677), tambm segundo modelos moralistas e 
panegricos da Antiguidade.

J um esprito diferente anima o terceiro conde de Ericeira, D. Lus Xavier de 
Meneses, figura proeminente, como vimos, durante a crise econmica de 1670, que 
decorre entre o ciclo do acar e o da minerao do ouro no

Brasil. A sua extensa Histria de Portugal Restaurado, em duas partes, edi tadas em 
1679 e 1698, testemunha um compromisso instvel entre a apologia e a documentao. A 
obra difere em geral de uma crnica, constituindo como que anais minuciosos dos 
sucessos polticos, diplomticos e sobretudo

4. - POCA - POCA BARROCA                                                           
   567

militares dos 28 anos da Restaurao, na Metrpole, no Ultramar, e nas intrigas de 
chancelaria. 0 estilo descolorido, mas construdo segundo oposies e analogias 
verbais, ao modo *engenhoso+, cobre um considervel esforo de dez anos de 
carreamento de materiais, que no entanto, ao contrrio do que sucede na Monarquia 
Lusitana, no so patenteados em apndice nem

em notas, embora a investigao moderna tenha demonstrado a sua utilizao, mais ou 
menos criteriosa. 0 ponto de vista  ostensivamente o da nobreza, e sobretudo da 
faco que elevou ao trono D. Pedro Il. 0 autor no esconde

os seus propsitos apologticos, de resto previsveis num homem que foi parte 
interessada e importante nos factos que relata. Da o carcter, que a

obra assume, de simples relato linear de efemrides do comando militar ou

de funcionalismo rgio, onde a populao annima surge apenas em manifestaes 
aparentemente intempestivas contra a fidalguia quando se descobre uma conspirao. 
Nada disto obsta, contudo, a uma vontade de acertar em questes morais individuais, 
como quando denuncia a ingratido de D. Joo IV para com Francisco de Lucena, 
sacrificado  inveja de vrios influentes.

 significativa das novas exigncias documentrias e at crticas que se sobrepunham 
ao retoricismo historiogrfico seiscentista a fundao da Academia Real de Histria 
por D. Joo V, graas  diligncia de D. Manuel Caetano de Sousa, em 1720.

0 rei dotou-a com importantes privilgios, como um considervel apoio financeiro, 
dispensa da Censura do Pao para as suas publicaes, facilidades quanto a utilizar o 
funcionalismo civil e eclesistico, prelo privativo; e honrou com a sua assistncia 
pessoal algumas sesses, realizadas em salas do Pao para esse efeito cedidas. Havia 
nesta iniciativa uma certa originalidade, visto que o fim exclusivamente 
historiogrfico da institui o contrasta com o objectivo predominante lexicogrfico, 
gramatical e literrio das academias que a munificncia rgia ou outra criara noutros 
pases, a principiar por Itlia e Frana. 0 ouro brasileiro, dando novo alento ao 
centralismo monrquico, vinha possibilitar um plano largo, monumental, de 
historiografia, claramente destinado a integrar as exigncias documentais na apologia 
monrquica que havia ditado a Crnica Geral do Reino, e alm disto a unificar a 
histria dinstica com a das instituies religiosas.

Com efeito, a Academia visava fazer *uma e outra histria+, isto , a eclesistica e 
a secular, principiando por aquela, com a Lusitnia Sacra. Para isso foram preparados 
os estatutos por uma comisso; foi criada uma jerarquia dirigente, com secretrio 
perptuo, director e censores, 50 acadmicos de nmero, alm dos correspondentes; 
definiram-se normas de trabalho, e este foi, superiormente, dividido pelos 
investigadores. 0 texto teria

568                                                  HISTRIA DA LITERATURA 
PORTUGUESA

redaco duplicada, em portugus e latim, e basear-se-ia em inquritos minuciosos e 
transcries de cartrios, distribudos e obrigatoriamente preenchidos pelas 
instituies religiosas, municpios e comarcas judiciais. Prescrevia-se uma rigorosa 
ordenao cronolgica e geogrfica.

Este projecto pecava por demasiada ambio, porque nem o funcionalismo civil e o 
religioso estava  altura de prestar informaes exactas, nem os acadmicos tinham, 
na sua maioria, preparao para um trabalho investigador to disciplinado. Uma grande 
parte da curta vida da Academia passou-se em cerimnias comemorativas de 
acontecimentos referentes s pessoas reais, ou  prpria representao social da 
Academia. Do trabalho srio produzido, uma fraco importante ou se reduziu  
catalogao de prelados por dioceses e outros registos feitos por ordem cronolgica, 
ou se enquadrou dentro dos esquemas lendrios, inverificveis, apologticos ou 
milagreiros da historiografia conventual seiscentista.

Embora nada produzisse de novo como sntese, porque o impedia a prpria ideologia 
tardia em que se enquadrou, a Academia Real de Histria deu um notvel estmulo  
recolha e publicao de dados documentais. Isto se

verifica pelos numerosos catlogos e seriaes de prelados, rainhas, ou de elementos 
bibliogrficos, documentais ou cronolgicos reunidos na Coleco de Documentos e 
Memrias que publicou, at se extinguir em 1736. Mas os seus melhores resultados 
ressaltam indirectamente das produes individuais de alguns dos seus associados, 
entre os quais se distinguem:

Antnio Caetano de Sonsa - autor da Histria Genealgica da Casa Real Portuguesa 
(1735-48), cujos 13 tomos de texto so uma refundio da Crnica Geral do Reino e da 
Monarquia Lusitana, apoiada em 6 tomos de Provas, que hoje constituem a sua parte 
mais valiosa, e de um ndice Geral (1739-48);

Diogo Barbosa Machado - que, alm de uma Memria em 4 volumes sobre D. Sebastio 
(1736-51), deixou com a Biblioteca Lusitana (1741-47-52-59), em 4 volumes, a primeira 
grande bibliografia portuguesa;

Rafael Bluteau - autor de 10 volumes do Vocabulrio Portugus (1712-28), ponto de 
partida dos dicionrios de portugus, cujo precursor mais directo fora o Tesouro da 
Lngua Portuguesa (1645) de Bento Pereira;

Francisco Leito Ferreira - que coligiu as Notcias Cronolgicas da Universidade de 
Coimbra, at  reforma de D. Joo 111 (1729).

Acerca do papel individual desempenhado por alguns dos scios desta academia, como 
Manuel de Azevedo Fortes, Alexandre de Gusmo e o conde de Ericeira, na formao de 
uma nova mentalidade, falaremos num dos captulos dedicados  poca literria 
seguinte.

4. a POCA - POCA BARROCA                                                           
   569

111111,618-f.106,0?AFI,4

1 . Textos e antologias

Panfletos e memrias

Ver a resenha bibliogrfica includa no primeiro estudo adiante indicado; ver ainda 
Almeida, Eduardo de: Stiras Polticas de Seiscentos, *Revista de Guimares+, vols. 
LIX (1949, fasc. 3-4) e XI- (1950, fasc. 1-2), de que se publicaram separatas. Uma 
verso de Monstruosidades do Tempo e da Fortuna foi editada em Lisboa, 1888-89; nova 
ed,, dirigida por Damio Peres, 4 vols., Porto, 1938-39.

Veiga (Turpin), Torn Pinheiro da: Fastigmia, dividida em trs partes, ed. do texto 
de um dos manuscritos existentes na Biblioteca Pblica do Porto, com variantes de 
dois outros manuscritos tambm a existentes, Porto, 1911; reprod. fac-smile com 
introd. de M. de Lourdes Belchior, IN-CM, 1988. No ms. do Museu Britnico o ttulo da 
obra (provavelmente o verdadeiro)  Fastiginia.

Nogueira, D. Vicente: Cartas, Coimbra, 1929. Brochado, Jos da Cunha: Cartas e 
Memrias Anedotas reunidas em 5 tomos da *Coleco de Documentos e Memrias da 
Academia de Histria+; Anedotas e Memrias da Corte de Frana, segundo cpias da 
Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, in *Vrtice+, desde n. > 107, vol. Xil, 
Julho de 1952; Cartas, *Clssicos S da Costa+, 1944, com pref. de A. A. Dria. In 
ditos e estudo por Rocha, Andre Crabb: A Epistolografia em Portugal, Coimbra, 1965, 
reed. IN-CM, 1985.

Arte de Furtar: alm das ed. fraudulentamente datadas de Amesterdo, 1652 (1. e 1744 
(2. >, 3. > e 4. >), e da de Lisboa, 1744, podem mencionar-se as de Londres, 1820,
1821, as de Lisboa, 1820 (ed. Rollandiana), 1829, 1937, 1969 e 1970, as de Paris, 
1907,
1928, e as de S. Paulo, 1926, 1951. (Bismut, Roger: Sur un projet d'dition critique 
de *Arte de Furtar+, in Critique Textuelle Portugaise, Fund. C. Gulbenkian, Centre 
Culturei Portugais, Paris, 1986, pp. 259-267; ver adiante ref. a artigos de M. L. 
Cusati-Covuccia.)

Obras do Diabinho da Mo Furada: ed. na *Revista Brasileira+, vol. 3. >, 1860, e 4. 
>,
186 1; nova ed. no *Arquivo Pitoresco+, vol. S., 1862; reed. parcial por Joo 
Ribeiro,

1911; reed. segundo outro manuscrito na *Revista de Lngua Portuguesa+, n. > 35, 
1925, Rio de Janeiro, com pref. e estudo de Fidelino de Figueiredo, Gustavo de 
Freitas e Manuel de Castro Cabral; ed. com verses de ambos os manuscritos na col. 
*Clssicos S da Costa+ por Jos Pereira Tavares. H uma ed. mais recente por Joo 
Palma-Ferreira, Lisboa, 1974, que tambm org. e seleccionou Novelistas e Contistas 
Portugueses dos sculos XVII e XVIII, IN-CM, 1981. Ed. crtica por Bernard Emery, 
Aix-Marseille, 1975, autor do estudo Les *Obras do Diabinho da Mo Furada+, d'un 
problme d'attribution a celui de Ia conservation des textes, in Critique Textuelle 
Portugaise, Fund. C. Gulbenkian, Centre Culturei Portugais, Paris, 1986, pp. 311-318.

Apesar da antiguidade e persistncia de motivos pcaros desde as Cantigas de Escrnio 
ao teatro vicentino e de em Lisboa se ter editado, em 1604, a 2. a parte de Guzmn de 
Alfarache de Mateo Alemn, a novela picaresca  pouco representada em portugus. 
Registmos j a Arte de Furtar, o Diabinho da Mo Furada, e uma novela de Gaspar 
Rebelo. Dois seiscentistas portugueses, o 1. > marqus de Montebelo e Antnio 
Henriques Gomes,

570                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

versaram este gnero mas em castelhano. H um florescimento tardio muito popular da 
picaresca no sc. XIX, com 0 piolho viajante, ed. em fascculos desde 1802 e em vol.
1821, 1837, 1846, 1857, de Jos Sanches de Brito, e numerosas publicaes peridicas 
de Jos Daniei Rodrigues da Costa (1755-1832), em que se salienta 0 Almocreve das 
Petas, 1799, adaptao das clebres aventuras do Baro de Mnchhausen.

Em Coutinho, Bernardo Xavier: Bibliographie Franco-Portugaise, Porto, 1939, 
encontram-se dispostas por ordem cronolgica numerosas publicaes polmicas sobre a 
causa do Prior do Crato, o regime filipino, o sebastianismo e a Restaurao, entre 
1578 e o fim do sc. XVII.

Obras polticas o jurdicas

Vm mencionadas no texto as datas da edio, geralmente nica.

Poligrafia

Dos principais trabalhos de economia poltica de Mendes de Vasconcelos, Severim de 
Faria e Ribeiro de Macedo, h uma ed. moderna em Antologia dos Economistas 
Portugueses, sei., pref. e notas de Antnio Srgio, Lisboa, 1924, reed. 1975. Ver 
ainda Da indstria portuguesa do antigo regime ao capitalismo, antologia por Joei 
Serro e Gabriel Martins, Horizonte Universitrio, 1978.

Aos apologistas de Lisboa, ento a primeira cidade ibrica, como capital filipina (L. 
Mendes de Vasconcelos, M. Severim de Faria), acrescente-se Oliveira, Frei Nicolau de: 
Livro das Grandezas de Lisboa, 1620. Aproximemos ainda dos seus intuitos os poemas 
picos Ulisseia e Ulissipo, a que j nos referimos.

Historiografia

Ficaram atrs indcadas as primeiras ed., que so as nicas em grande parte dos 
casos. Para no nos alongarmos demasiadamente, remetemos o leitor que pretender 
esclarecimentos mais minuciosos para o Dicionrio de Inocncio. Ver ainda Serro, 
Joaquim Verssimo: A historiografia portuguesa 11, Sculo XVII, ed, Verbo, Lisboa, 
1972.

Conde de Ericeira: Histria de Portugal Restaurado, 1. > p. 1679-1710, 2. > p. 1698; 
reed. em 4 vols. 1751-59; reed. moderna na *Biblioteca Histrica - Srie Rgia+, 4 
vols.,
1945, com pref. e notas de A. A. Dria.


H ed. modernas da Biblioteca Lusitana (1930-35; e 3. > ed., expurgada das gralhas da 
anterior, por Lopes de Almeida, 4 vols., Coimbra, 1965-67), da Histria Genealgica, 
incluindo as Provas, por Lopes de Almeida e Csar Pegado, 26 vols., 1946-54, e das 
Notcias Cronolgicas da Universidade de Coimbra (3 vols., 1937-56).

2. Estudos

Alm dos que vm insertos nas ed. modernas atrs mencionadas, podem ler-se: Matos, 
Gasto de Meio de: Panfletos do Sculo XVII, in *Acadernia de Histria Portuguesa - 
Anais+ -, vol. X, Lisboa, 1946 (os +Boletins+ da Academia de Histria Portuguesa 
referem-se, subsequentemente, a discusses sobre a autoria das Monstruosidades, 
problema versado nesta obra).

4. a POCA - POCA BARROCA                                                           
     571

Cidade, Hemni: A Literatura autonomista sob os Filipes, Lisboa, S da Costa, s/d 
(veja-se a crtica a este livro em Espai@a en Ia poca portuguesa del Tiempo de ]os 
Filipes, in Asensio, Eugenio: Estudios Portugueses, Paris, 1974), e Lices de Cultura 
e Literatura Portuguesa, 7. a ed., Coimbra, 1984.

Mera, Paulo: Lies de Histria do Direito Portugus (h vrias ed. para uso 
universitrio).

Elordy, Eleutrio: Os Princpios cristos do direito internacional em Vitria e 
Surez, in *Revista Portuguesa de Filosofia+, vol. lii, 1947, pp. 37-52.

Pereira, Augusto Xavier da Silva: Jornalismo Portugus, Lisboa, 1896. Cunha, Alfredo 
da: Elementos para a Histria da Imprensa Peridica, in Memrias da Academia das 
Cincias, 1946, pp. 27-324.

Tengarrinha, Jos: Histria da Imprensa Peridica Portuguesa, Lisboa, 1965, reed. 
rev. e aum., Caminho, 1989, com ampla bibliografia.

Ver ainda, sobre a interpretao de doutrinrios na histria social e ideolgica da 
Restaurao, uma excelente sntese, com ampla e actualizada bibliografia, nos dois 
ltimos estudos de Ensaios, li, de Vitorino Magalhes Godinho, ed. S da Costa, 
Lisboa, 1968.

Sntese actualizada da ideologia dos historiadores e apologetas da Restaurao em A 
Restaurao, Reflexes sobre a sua Historiografia, de Lus Manuel Reis Torgal, sep. 
da *Revista de Histria das Ideias+, vol. 1, Universidade de Coimbra, 1976.

Serro, Joaquim Verssimo: A Historiografia Portuguesa, 11 vol. (sc. XVII), Lisboa,
1973, e Viagens em Portugal de Manuel Severim de Faria (1604-09-25), Lisboa, 1974.

Rau, Virgnia: Um *Trabalho Divertido+ do Conde de Ericeira: a Histria de Portugal 
Restaurado, in *Aufgestze zur Portugiesischen Kulturgeschichte+, vo!. 1. >, Mnster,
1970, pp. 304-310.

Delgado, lva: Escritores Polticos de Seiscentos, *Biblioteca Breve+, ICALP, 1986.

H uma ordenao cronolgica das notcias da *Gazeta de Lisboa+, desde o seu 1. > 
nmero, em 1715-09-10, at 1820-12-31, data em que se transformou no *Dirio da 
Regncia+, de que j se publicou o 1. > vol. (notcias de 1715 a 1750), sob o ttulo 
de Notcias Histricas de Portugal e Brasil (1715-1750), Coimbra, 1961.


 ainda til a consulta de obras de assunto histrico-literrio mais geral, como 
Figueiredo, Fidelino de: Histria da Literatura Clssica, 2. > poca, 192 1; Braga, 
Tefilo: Os Seiscentistas, Porto, 1916, reed. IN-CM, 1984; e de Gettel, Raymond: 
Histria das ideias polticas, trad. portuguesa, Lisboa, 1936.

Quanto ao problema da autoria da Arte de Furtar, o leitor pode encontrar uma 
introduo segundo pontos de vista opostos, em Rodrigues, Francisco: 0 Autor da *Arte 
de Furtar+ - Resoluo de um antigo problema, Porto, 1941; em Pena Jnior, Afonso: A 
*Arte de Furtar+ e o seu autor, 2 vols., S. Paulo, 1946; e recenso feita in 
*Brotria+, vol. Xi-l, fasc. 4, 1944, pp. 344 e seguintes, ao livro de Ferreira, 
Joaquim: Manuel da Costa e C. > e a *Arte de Furtar+.

Ver ainda na mesma revista, LXXV, n. 0 4, Out. 1962, Gomes, Joo Pereira: 0 Autor da 
*Arte de Furtar+, onde se transcreve outro texto bem redigido de Manuel da Costa.

572                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Este articulista volta  carga em Manuel da Costa autor da *Arte de Furtar+, in 
*Colquio+, n. > 34, Junho 1965, com dados mais precisos e novo texto do autor 
indigitado. Bismut, Roger: Sur l'Auteur de *Arte de Furtar+, in *Builetin des tudes 
Portugaises et

Brsiliennes+, Inst. Francs de Lisboa, nova srie, t. 39-40, 1978-79, pp. 19-24.

Preliminar para o esclarecimento da autoria e data da redaco da Arte de Furtar  o 
estudo filolgico, sobretudo bibliogrfico-material, apenas recentemente encetada em

bases seguras por Cusati-Covuccia, Maria Lusa: Introduzione bibliografica all *Arte 
de Furtar+, n *Aion-SFI+, 1983-1, pp. 215-251, e Un problema di Bibliografia 
Testuale: L'Arte de Furtar+ e L'Ultima Volont DellAutore, in *Studi in Memoria di 
Erilde Meiffia Reali+, Istituto Universitario Orientale, Npoles, 1989, pp. 63-75.

Alves, M. Theresa Abelha: A Dialctica da Camuflagem nas *Obras do Diabinho da Mo 
Furada+, IN-CM, 1983.

Sobre literatura picaresca: Palma-Ferreira, Joo: Do pcaro na literatura portuguesa, 
* Bibliotec, Bre, e+, Instituto de Cultura e Lngua Portuguesa, 198 1. Joo Palma-
Ferreira preparou urna ed. modernizada de 0 Piolho Viajante, Estdios Cor, Lisboa, 
1973, atribuindo-o ento a Antnio Manuel Policarpo da Silva, que apresentara em 1802 
 Censura esta obra, a seguir editada em fascculos e reeditada em 1821, 1837, 1846 e 
1857; nela se satirizam numerosos tipos populares e marginais do tempo, como viciados 
no jogo, ladres, vagabundos, taberneiros, caixeiros, saloios, galegos, ciganas, 
negros, etc... Ver, a propsito desta ed. e da repercurso do gnero em Portugal, 
Carvalho, Jos Adriano de: A Picaresca Tardia em Portugal: 0 Piolho Viajante, 
*Colquio-Letras+, n. > 19, Maio
1974, pp. 265-266.

Informao geral actualizada sobre as caractersticas do gnero: Carrillo, Francisco: 
Serniolingistica de Ia novela picaresca, Ctedra, Madrid, 1982.

o EPOCA

O SCULO DAS LUZES

Captulo 1 INTRODUO

As ltimas guerras de Lus XIV, nomeadamente a da sucesso ao trono de Espanha, so 
como a charneira que liga a poca Barroca ao Sculo das Luzes. Elas desacreditam

no Continente o absolutismo j anteriormente batido na Inglaterra (revoluo de 
1688). Transferem dos Halisburgos para os Bourbons a coroa espanhola, liquidando o 
sonho

imperial de Carlos V; arrunam tambm a expanso holandesa. Em Frana sobrecarregam 
tributariamente os camponeses, acordam o descontentamento de uma nobreza antes

submissa, enriquecendo, em compensao, a alta burguesia.

As circunstncias tinham sido favorveis, durante a maior parte do sculo, a uma

profunda transformao social na Inglaterra, a qual, combinando-se com tradies 
locais prprias, deu lugar  abolio do absolutismo monrquico e  criao de um 
sistema parlamentar e de gabinete ministerial, rgo de uma oligarquia a que 
presidem, em geral, os Whigs, partido da aristocracia terratenente que, pelas suas 
estreitas ligaes de interesses com a burguesia de Londres e at por certa 
permeabilidade entre as duas camadas, adquire uma mentalidade nova. Sob o seu governo 
de tendncia reformista e favorvel

ao desenvolvimento do capitalismo, so arrebatados aos Espanhis e Franceses extensos

territrios ultramarinos, inaugurando-se duradoira estratgia de domnio dos 
estreitos e

das mais importantes rotas do comrcio martimo.  caracterstico dos Whigs e da 
aristocracia em geral dominante o minimizarem as questes religiosas e consagrarem a 
tolerncia. Ao passo que os idelogos mais avanados desta aristocracia so destas, 
isto , crentes numa religio natural sem dogmas, o movimento ideolgico mais 
popular, o metodismo de Wesley, assume um cunho acentuadamente religioso e constitui-
se em igreja  parte da anglicana. S na Amrica do Norte, em cuja colonizao se 
afrouxaram as

relaes feudais,  que a classe mdia se liberta da tutela whig, transformando em 
nacio~

nal, com a declarao da Independncia, uma questo de origem inicialmente fiscal e, 
mais no fundo, social (1776).

576                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Dentro da Inglaterra, a burguesia e a gentry mantm-se fundamentalmente associadas na 
execuo de dois programas complementares: o parlamento leva compulsoriamente a cabo 
o movimento, at ento entregue  iniciativa dos senhores, de enclosure, quer dizer, 
de vedao e apropriao capitalista dos campos, com a expulso daqueles que, ao 
abrigo de velhas relaes feudais, os cultivavam; e a disponibilidade de mo-de-obra 
assim criada possibilita o desenvolvimento, em moldes capitalistas, da indstria 
txtil do Lancashire,  base do algodo arnericano e da l, cuja produo vai 
intensificar-se, graas  transformao dos campos vedados em pastos. No reinado de 
Jorge IH (1760-1820) culmina esta transformao, que traz como resultados tcnicos, 
por um lado, a modernizao da pecuria e da agricultura (seleco de castas, novas 
forragens, sobretudo invernosas, drenagem de pntanos, rotao cientfica de 
culturas, silos, difuso de culturas baratas que acompanham a proletarizao, como a 
batata, etc.); por outro lado, a acelerao ou barateamento do transporte, tambm por 
iniciativa particular capitalista (extensa rede de canais e de novas estradas 
macadamizadas, que pagam portagens aos construtores; servios de mala-posta, carris 
de ferro nas minas, seguidos, no segundo quartel do sculo XIX, pela locomotiva e 
pelo barco a vapor); finalmente a mecanizao dos vrios processos de tecelagem e de 
outras indstrias  base de mquina trmica aquecida a carvo, o que por seu turno 
implica o desenvolvimento da extraco hulheira, da metalurgia, etc.

Entretanto, em Frana, urna burguesia que pela sua importncia mundial vem logo a 
seguir  inglesa, e cuja influncia ideolgica, de resto, se entrecruza com a de 
anlogas camadas sociais na Itlia, Alemanha e outros pases continentais, procura j 
no incio

do sculo organizar grandes especulaes bancrias (craque de Law em 1720), domina 
financeiramente o Estado, dispe de amplo comrcio ultramarino, controlando, por 
exemplo, em S. Domingos, metade do antigo monoplio portugus do acar, 
multiplicando os estabelecimentos bancrios e as sociedades accionistas industriais e 
assenhoreando-se mesmo de uma parte da agricultura. As funes administrativas e 
judiciais caram nas

mos de uma noblesse de robe de extraco roturire, quer dizer, burguesa. Por seu 
turno, a aristocracia de linhagem arruna-se, o seu comportamento e cultura 
apresentam sinais de dissoluo interna. So os nobres que primeiro criticam o 
absolutismo do Rei-Sol, mas sem descortinar uma alternativa vivel; com a regncia de 
Filipe de Orlees (1715-23) comea a dar nas vistas a sua dissoluo escandalosa de 
costumes.


Desde a segunda metade do sculo XVII, as polmicas entre Jesutas e Jansenistas 
tinham lanado o descrdito sobre os problemas teolgicos. Tanto uns corno outros se 
relacionam com o progresso da burguesia: os Jansenistas na medida em que apelam para 
a responsabilidade individual; os Jesutas na medida em que procuram, atravs dos 
seus *casustas+, conciliar a prtica social e econmica (como, por exemplo o juro) 
com a doutrina tradicional da Igreja. 0 movimento jansenista, depois de condenado 
pelo papa, foi aniquilado pelo rei em 1710; a Companhia de Jesus, expulsa de Frana 
em 1762,  abolida pelo papa em 1772. Entre as camadas aristocrticas difunde-se a 
indiferena religiosa

5. POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                                       
  577

e o materialismo mecanicista, cujos expoentes so por vezes aristocratas e at mesmo 
clrigos. 0 laicismo, quer dizer, a concepo segundo a qual a esfera do negcio e da 
cincia so independentes da esfera religiosa, generaliza-se entre as camadas 
burguesas.

Finalmente, a sociedade francesa  agitada por uma srie de convulses que se 
repercutem, graas  analogia das circunstncias, por toda a Europa Ocidental. A 
resultante histrica das vrias foras que participaram na Revoluo Francesa  o 
primeiro triunfo decisivo da alta burguesia no terreno poltico, ao cabo de uma 
sucesso de fases, em que o dinamismo revolucionrio pertenceu, sucessivamente, a uma 
fraco de alta nobreza,  noblesse de robe, aos camponeses,  burguesia provinciana 
(Girondinos), aos pequenos burgueses (Terror de Robespierre) e a outras camadas mais 
populares (Babeuf).

0 desenvolvimento da burguesia em toda a Europa, no sculo XVIII, tem ainda outra 
expresso poltica diferente das que assume, primeiro com a aristocracia Whig, e 
depois com o liberalismo mais radicalmente burgus dos Estados Unidos e da Frana 
revolucionria. Em determinados pases, a classe mdia, dbil ainda para realizar uma 
poltica ou sequer uma cultura definidamente prpria, voltou as suas aspiraes para 
as tradies progressivas da centralizao rgia no fim da Idade Mdia; e at os mais 
prestigiados filsofos da burguesia francesa, como Voltaire e Diderot, contriburam 
para o surto do

ideal do dspota esclarecido, personificado em monarcas como Frederico 11 e Catarina
11, que foram, respectivamente, patronos daqueles escritores. 0 despotismo 
esclarecido destes soberanos, como o de Jos 11 da ustria, de Carlos 111 de Espanha, 
dos ministros Choiseu], Aranda e Pombal, so formas mais ou menos precrias de 
compromisso entre a aristocracia feudal em decadncia e o capitalismo em expanso.

SCULO DAS LUZES: A herana do classicismo francs

Como vimos a seu tempo, o classicismo literrio francs do tempo de Richefleu e

de Lus XIV corresponde a um estado social que no deve confundir-se com aquele que o 
absolutismo filipino recobria nos respectivos domnios: sob a autoridade dos Bourbons

prospera a camada de negociantes e outros capitalistas, ao passo que o regime dos 
Habsburgos se identifica com uma estrutura mais arcaica, uma sobrevivncia do 
feudalismo apoiada na explorao colonial. Estas circunstncias complicam no sculo 
XVIII as linhas


de evoluo cultural e literria dos pases europeus que anteriormente haviam estado 
dentro da rbita da Casa da ustria. Nesses pases, como em Portugal, o classicismo 
francs vai constituir ainda uma inovao quando j em Frana est adiantado o Sculo 
das Luzes, articulando-se do modo mais variado com velhas tradies e aspiraes 
nacionais que a Contra-Reforma estiolara e, por outro lado, assimilando j, e cada 
vez mais intensamente, influncias de uma cultura ainda mais aburguesada do que a 
francesa e que influiu na prpria revoluo cultural da Frana: a influncia inglesa.

Assim, na Itlia, a Academia da Arcdia, fundada em Roma no ano de 1690, reage contra 
o marinismo, e os seus teorizadores e preceptistas, como Gravina e o erudito

HLP - 37

578                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Muratori, adaptam ao gosto italiano a Arte Potica de Boleau; Goldoni (1707-93) 
eleva a commedia dell'Arte  comdia de costumes venezianos, graas ao que assimila 
de Molire; o tragedigrafo Alfieri (1749-1803), apesar da sua aristocrtica repulsa 
pessoal pela Frana revolucionria,  afinal o cultor de um gnero de tradio 
francesa: a tragdia clssica regular de assunto patritico.

Em Espanha, o tratado de Utreque (1713), remate da Guerra da Sucesso, consolidando 
no poder o primeiro Bourbon, Filipe V, determina, no s uma viragem poltica 
favorvel  burguesia, por intermdio de um despotismo esclarecido cujo principal 
representante  Carlos 111 (1759-88), mas tambm um correspondente afrancesamento 
literrio. Neste afrancesamento podem j distinguir-se, desde cedo, influncias de 
diversos iluministas europeus, e at o ricochete da voga europeia de criaes 
nacionais espanholas, como o D. Quixote e a novela picaresca. 0 beneditino Benito 
Feijo, no seu peridico, Teatro crtico universal (1726-60), difunde o racionalismo 
empirista de Bacon e

Locke, prega a tolerncia e critica o envoltrio miraculoso e supersticioso da 
ideologia prevalecente no pas; Luzn, na sua Potica (1737), adapta Boileau e 
sobretudo Muratori

s condies do gosto e das tradies espanholas; o ex-jesufta Jos Francisco de 
Isla, no Fray Gerundio (1758-70, duas partes), ridiculariza em moldes picarescos os 
pregadores barrocos; Leandro Moratin d uma rplica setecentista de Molire em prosa 
castelhana, j com prenncios romnticos.

Tambm nas cortes dos prncipes alemes o barroquisino, asctico ou frvolo, 
estreitamente unido  fragmentao retardatariamente feudal da unidade germnica, 
cede lugar, no incio do sculo XVIII, a uma imitao do gosto francs, cujo 
principal doutrinrio  Gottsched. Leibniz, o maior filsofo seiscentista alemo, 
alterna o uso do Latim com o do Francs. A corte prussiana de Frederico II, protector 
de Voltaire e de outros filsofos franceses, est impregnada de cultura francesa. 
Mas, como veremos, uma rpida evoluo cultural e social, que se processa na segunda 
metade do sculo, permitir  burguesia alem ultrapassar as conquistas estticas e 
ideolgicas que entretanto a Frana revolucionria elaborava.

O estilo *rococ+


0 gosto clssico francs, tal como Boileau o define literariamente e como 
plasticamente se traduz pela pintura de Poussin ou Claude, corresponde ao sentimento 
de equilbrio de uma sociedade cujos dirigentes crem ter realizado a sntese da 
autoridade com a espontaneidade, da razo com a f, do engenho natural com os 
preceitos artsticos.  por isso que se v o classicismo esttico nortear ainda a 
literatura e a arte inglesas do sculo XVIII, embora as tradies bblicas, os gostos 
mais sentimentalistas e realistas da burguesia vo lentamente ganhando conscincia de 
si e impondo-se aos padres culturais da gentry, politicamente dominante. Pope e 
Jolinson, os dois principais orientadores das letras inglesas de Setecentos, 
apresentam ainda muita coisa em comum com Boileau,

5. @ POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                                      
    579

na medida em que isso  possvel num pas que acabara de repudiar o absolutismo, que 
se reformara sob o ponto de vista religioso com os Tudors e cuja burguesia tem ainda 
ento mais que ensinar  Frana do que aprender com ela.

Entretanto, neste ltimo pas, que fora a sua terra de eleio, as formas clssicas, 
ou se tornam cada vez mais estreis, se no inadequadas a uma ideologia que se renova

(como as tragdias de Crbillon e Voltaire), ou ento evoluem para o rococ 
(*rocaille+). Este estilo corresponde  ltima e decisiva fase de decadncia feudal 
nas cortes bourbnicas e outras, especialmente a dos Habsburgos de Viena, prolonga o 
barroco peninsular na sua exuberncia decorativa, no seu predomnio dos valores 
afectivos e sensuais sobre as tendncias racionalistas, mas despojando-o do fundo 
religioso e pattico, aligeirando-o, de acordo com o novo esprito cptico e cnico 
da aristocracia francesa. Os livros do marqus de Sade assinalam o ponto mais critico 
desta evoluo ideolgica, pela sua

completa subverso dos valores morais geralmente reconhecidos.

No entanto,  de notar que o papel da aristocracia continental se limita ao de um 
pblico orientador do gosto. Nas cortes absolutistas de Paris e Viena, e noutras suas 
satlites, os escritores, os artistas plsticos, os msicos da moda so de extraco 
burguesa ou popular, e, ainda que profissionalmente dependentes do mecenato feudal, 
as suas criaes estticas exprimem, de modo mais ou menos velado, o progressismo 
burgus do tempo e uma sensibilidade cada vez mais livre e original, sob a aparente 
frivolidade das formas.  o que acontece com a evoluo da pera de Metastsio at 
Gluck e Mozart, com a msica de cmara deste ltimo e de Haydn, com a poesia arcdica 
italiana, com

o poeta alemo Wieland, com as comdias e novelas de Marivaux, a pintura de Watteau e 
Fragonard.

 interessante notar, finalmente, que a Revoluo Francesa deteve esta revoluo 
geral, acarretando uma revalorizao temporria do classicismo greco-romano: desde os

smbolos polticos e da oratria tribuncia at  arquitectura, verifica-se ento o 
surto

de um neoclassicismo retardatrio, superficial, em personalidades marcantes como o 
poeta Clinier e o pintor David. Os modelos de cidadania, de conscincia cvica 
oferecidos pelas repblicas romana e ateniense apareciam idealmente  burguesia 
triunfante como alternativa para as relaes feudais de vassalagem, corporativismo ou 
sujeio ao monarca absoluto.


Origens holandesas do iluminismo

As diversas formas de prolongamento do classicismo francs no constituem o trao 
mais caracterstico do Sculo das Luzes ou da Iluminao. 0 que mais importa  a 
grande viragem ideolgica e cultural cujo momento decisivo se pode colocar por altura 
da revoluo inglesa de 1688 e das ltimas guerras de Lus XIV.

Foi ainda na Holanda mercantil, seiscentista, refgio de judeus peninsulares (entre 
os quais o cristo-novo portugus Uriel da Costa, que negou a imortalidade da alma,

580                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

nos primeiros anos do sculo XVII), huguenotes franceses, dissidentes ingleses, que 
se

caldearam muitas das inovaes: a influncia de Espinosa, cuja tica se publicou 
postumamente em 1677, continua a fazer-se sentir, na sua crtica implacvel de toda a 
autoridade religiosa e monrquica; Pierre Bayle, corri o seu Dicionrio Histrico e 
Crtico

(1695-97), passa em revista as doutrinas teolgicas, filosficas e historiogrficas e 
disso

desprende concluses muito cpticas; Locke, regressando do seu exlio holands graas 
 revoluo de Guilherme de Orange, escreve, no em latim, mas em ingls corrente, o 
Ensaio sobre o entendimento humano (1690) e outras obras que, traduzidas por 
refugiados huguenotes, serviro de evangelho principal do *derramamento das luzes+ do 
sculo XVIII. Locke ressalva a crena nos dogmas cristos, mas limita a validade do 
conhecimento humano, e portanto da filosofia, ao terreno em que a aco humana  
possvel; procura fundamentar todo o saber, toda a moral e toda a pedagogia a partir 
da experincia sensorial e da reflexo, negando a existncia de ideias inatas. Por 
este culto da razo

prtica, pela apologia do Estado parlamentar, pela teoria de uma educao 
individualista especialmente adequada  aristocracia Whig, Locke pode considerar-se o 
filsofo por excelncia da revoluo de 1688, o redactor da mensagem que ela dirige  
luta contra o absolutismo no Continente.

 tambm na sequncia de Espinosa e ainda de Grcio que diversos doutrinrios deste 
perodo inicial de transio elaboram uma srie de teorias ento revolucionrias e 
estreitamente afins: - a do direito natural, no de revelao divina, mas imanente  
natureza comum de todos os homens, que deveria reger as relaes civis, polticas e 
internacionais (Puffendorf, Thomasius, Gravina); a da religio natural, sem dogmas, 
dos destas e livres-pensadores ingleses (Shaftesbury, Bolingbrocke, Collins, 
Toland); a teoria de um Progresso que, ao fim e ao cabo, traria a felicidade sobre a 
terra ao maior nmero de pessoas, pelo desenvolvimento das cincias e pelo acatamento 
das leis naturais e das luzes da razo (Fontenelle, Boerhaave, Vico, etc.).


A hegemonia poltica da gentry terratenente, nesta fase em que a fora e a cultura da 
burguesia inglesa se concentravam ainda numa s, embora enorme, cidade, Londres, faz-
se poderosamente sentir, no apenas no recorte clssico e escolar do estilo literrio 
predominante, mas at no  mbito das polmicas ideolgicas. Assim, enquanto o bispo 
anglicano Berkeley procura extrair uma nova filosofia idealista do sensorialismo de 
Locke, explicando pela aco divina a origem e a regularidade dos conhecimentos que 
vm pelos sentidos, por outro lado Shaftesbury, Bolingbrocke, Toland e outros alargam 
o tolerantismo oficial at ao ponto de elaborarem uma religio de simples razo ou 
sentimento. Pope, o patriarca das letras londrinas,  o poeta desta ideologia, 
sobretudo com o famoso Ensaio sobre o homem (1733-34). Entretanto, o centro da vida 
literria desloca-se da corte para os cafs, clubes e redaces de imprensa poltica. 
Sojornalistas ou polticos os quatro escritores de maior projeco: Steele e 
Addison. que atravs dos seus peridicos (The Tatler, 1709-11, The Spectator, 1711-
12) criam um tipo novo de literatura, o artigo de fundo para consumo da classe mdia 
em que oportunamente se tratam todos

5. - POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                                      
      581

os assuntos culturais, morais, polticos, por forma amena e superficial, numa 
idealizao do status quo social britnico que teve imensas repercusses e imitaes 
no Continente; Defoc, o primeiro gnio da literatura jornalstica, reprter exacto e 
auscultador astuto da opinio pblica, que com o seu Robnson Crusoe (1719) criou o 
mais clebre smbolo do individualismo burgus; Swift, cujas fices satricas, 
incluindo as Viagens de Culliver (1726), traem um profundo cepticismo quanto s 
prprias instituies que o autor

pessoalmente serviu com zelo conservador.

Iluminismo francs

0 ataque decisivo ao regime monarco-feudal foi desencadeado em Frana, mal findava o 
perodo do Rei-Sol, com todas as armas europeias da crtica. Lesage, por exemplo, 
aproveitou para esse efeito o gnero picaresco espanhol (Gil Blas, 1716), que depois 
Beaumarchais ir transferir para o teatro (Barbeiro de Sevilha, 1775; Casarnento de 
Fgaro,
1784); Montesquieti deu a ltima demo a uma forma de fico originada pelas 
descries exticas, que consistia em imaginar os costumes nacionais tais como 
apareceriam  observao crtica e satrica de espritos asiticos (Cartas Persas, 
172 1); Voltaire utiliza a tragdia clssica (Zaira, 1732), o poema e o conto irnico 
 Swit`t (Micrincgas,
1752; Cndido, 1759).

A influncia inglesa  claramente reconhecvel nos dois grandes doutrinrios que 
exerceram maior influncia no Sculo das Luzes francs: Montesquieti, j aludido, e 
Voltaire. Ambos relacionados com a alta burguesia ou aristocracia, fizeram estadias 
em Inglaterra, e tornaram-se adeptos do sistema poltico brit nico. 0 Esprito das 
Leis (1748) de Montesquieti  a primeira tentativa notvel de explicao racional das 
instituies sociais pela relao com o meio fsico, e contm a apologia da diviso 
dos poderes (executivo, legislativo, judicial), segundo uma imagem idealizada da 
poltica inglesa. As Cartas Filosficas (1734) de Voltaire representam uma adeso 
definitiva ao desmo de Bolingbrocke, ao empirismo e liberalismo de Locke, um 
inglesaniento ideolgico, favorvel a uma monarquia esclarecida, tolerante e 
eclctica, apenas com um anticlericismo mais vincado, que na Inglaterra protestante 
no faria sentido. Posio afim, com menos insistncia no liberalismo poltico e mais 
nfase no ataque s relaes feudais na agricultura,  a dos fisioeratas (Quesnay, 
Turgot), que representam a aspirao dos grandes proprietrios da antiga ou nova 
nobreza a realizar em Frana uma enclosure de tipo britnico.


0 perodo de meados do sculo  o de mais intensa actividade dos filsofos franceses 
na difuso das *luzes+, na elaborao de uma doutrina do progresso. Acreditam na 
consecuo da felicidade geral sobre a terra, quanto forem plenamente acatadas a 
tolerncia, a liberdade de opinio, a concorrncia e a igualdade civil (que para eles 
no implica igualdade econmica). A filosofia em que tais doutrinas se apoiam , 
predominantemente, a de Locke, que procura conciliar a origem sensorial e material de 
todos os conhecimentos com a existncia absolutamente autnoma da alma. Contudo, 
alguns pensadores, como

582                                                 HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

La Mettrie, o baro d'Holbach, Helvetius, desenvolvem at s ltimas consequncias o

mecanicismo de Descartes e tentam descrever todos os fenmenos biolgicos, 
psicolgicos e sociais exclusivamente dentro de um materialismo inspirado pela 
mecnica. Quanto  ideia do Progresso, encontra o seu expositor mais brilhante em 
Condorcet.

Por outro lado, o cientista Buffon, sistematizando todo o esforo feito at ento por 
Jussieu, Lineu e outros na classificao dos seres vivos, e ainda certas observaes 
feitas sobre fsseis e a geologia, abeira-se j de uma nova concepo, segundo a qual 
o mundo

 fundamentalmente homogneo, visto que a heterogeneidade aparente dos fenmenos 
fsicos, biolgicos, psicolgicos, etc., apenas representa as fases diferentes e 
reajustadas de uma mesma evoluo material. Outro precursor de tal concepo  
Diderot, figura central do Iluminismo francs e director da Enciclopdia que, entre 
1751 e 1772, atravs de todas as vicissitudes e dificuldades, realizou e difundiu uma 
plataforma de todas as

doutrinas opostas ao regime social e poltico vigente. A ideologia revolucionria, 
apesar das represses e da barragem defensiva de quase toda a imprensa peridica e de 
numerosos folhetos, espalha-se, no s por meios literrios, mas atravs das reunies 
de caf, de clube, de associaes secretas e at de reunies de sal o.

SCULO DAS LUZES:  A literatura sentimental e o realismo burgus


 medida que o escritor deixa de ser condicionado pela corte, pelo mecenato 
aristocrtico ou poltico, para depender de um editor, e de um pblico cada vez mais 
amplamente recrutado na pequena burguesia, o carcter das suas obras tende a 
transformar-se, aproximando-se do gosto romntico e realista. Nas letras inglesas, o 
duelo entre a litera~ tura aristocrtica de tradio greco-latina universitria e a 
literatura burguesa de tradio bblica vinha-se j acentuando desde o tempo da 
revoluo puritana fracassada de meados do sculo XVII. 0 sculo XVIII assiste ao 
surto de vrias heresias, diversificadas segundo as condies nacionais, mas com 
visveis afinidades entre si, que constituem outras tantas formas de reaco ainda 
mal definida contra a degradao ideolgica evidente da aristocracia: o metodismo de 
Wesley na Inglaterra, o pietismo e o quietismo alemo, a jacobea portuguesa, o 
prpria ritualismo laico da franco~maonaria, etc. No estilo literrio, a retrica 
baseada na mitologia e nas convenes clssicas vai ceder terreno  expresso mais 
directa dos sentimentos, do mundo natural e social, o que alis no deixa de conduzir 
a novas formas de retrica formalista: a do sentimentalismo empolado ou a do 
descritivismo enumerador e exaustivo. Estas tendncias aparecem frequentemente 
tingidas de influncias da Bblia, e ligadas a formas muito individualistas do 
sentimento religioso. A personalidade europeia mais relevante dentro destas 
tendncias  Jean-Jacques Rousseau, cuja descrena no progresso tcnico e cujo anti-
racionalismo o

fizeram romper com os enciclopedistas, mas que se pode considerar uma expresso 
refundida das tradies jansenistas da pequena burguesia francesa. Religioso, 
defensor de uma

democracia directa, republicana, de cidados medianos (transposio idealista de 
Gene-

5. a pOCA - 0 SCULO DAS LUZES                                                      
 583

bra, a cidade calvinista onde nasceu), o seu Contrato Social (1762) contm o programa 
que Robespierre tentar realizar, sob o signo do Entre Supremo, na fase mais radical 
que atingiu a Revoluo Francesa; o seu Emilio (1762) teoriza uma educao 
correspondente  concepo da *bondade natural+ de cada homem que a sociedade no 
*corrompeu+; legou  posteridade umas Confisses (1765-70) que desvendam reais ou at 
pretensos escaninhos mrbidos de sua personalidade. , por excelncia, a 
personificao do Pr-Romantismo.

Com Cibler e Steele nasce na Inglaterra a comdia sentimental, a que corresponde a 
comdia lacrimejante francesa de La Chausse e outros. As Estaes (1726-30) de 
Thomson preludiaram a poesia de descritivo campestre cujos principais continuadores 
foram o suo Gessner, o alemo Haller, os franceses Delille, Florian, etc.; este 
descritivismo tem frequentemente contextos sentimentais, como a solido saudosa, o 
luar nocturno, a melancolia das runas ou dos cemitrios, a evocao das pocas 
antigas, etc. (Young, Gray, Collins, Volney, etc.). Da, em parte, o apelo ao passado 
biblico, cltico, germnico, cavaleiresco - o apego, enfim, a tudo o que pudesse ser 
evocado desde que no fosse o detestado classicismo absolutista: aceitava-se uma 
reabilitao do Renascimento inicial e de Shakespeare, mas repelia-se o passado 
recente dos Stuarts e de Lus XIV.

Parece haver uma contradio entre o pblico burgus e os temas brbaros e *gticos+, 
as tradies cavaleirescas do feudalismo, que a burguesia estava, afinal, combatendo. 
Mas o feudalismo real no se confundia, na imaginao desse pblico e seus autores 
preferidos, com a imagem idealizada das pocas brbaras e medievais; e por outro lado 
tais tradies, em grande parte conservadas no romanceiro popular rural, assumiam um 
carcter nacional e pitoresco que se opunha ao cosmopolitismo clssico e 
pretensamente universal da literatura anteriormente em moda. Ora certas 
nacionalidades como a Esccia e a Alemanha, que no haviam conquistado a autonomia ou 
sequer a unificao poltica, estavam descobrindo no fundo medievo do seu folclore 
uma forma de conscincia.  o que acontece, por um lado, com o poeta Burris, mais 
tarde com Walter Scott e com Macplierson, que em 1760 atribui a um pretenso bardo 
galico, Ossian, uma srie de poemas de ambiente cltico, logo traduzidos e imitados 
em todas as lnguas cultas europeias (Walter Scott ser ainda um representante deste 
movimento); e, por outro lado, com o poeta mstico e patritico alemo Klopstock e 
seus discpulos.


 tambm ao gosto do novo pblico que se deve atribuir o desenvolvimento, a partir de 
meados do sculo, do gnero literrio mais caracterstico da Idade Contempornea: o 
romance de ambiente burgus ou plebeu, em que se condensa, sob forma de fico, uma 
anlise de caracteres, ambientes e problemas. A sua tendncia inicial  
acentuadamente sentimental e moralista (Richardson, Pamela, 1740; Marivaux, Marana, 
1731-41; Goldsmith, Vigrio de Wakefield, 1776). Os elementos sentimentais e/ou 
pitorescos avultam com Rousseau, Nova Eloisa, 1761, Sterne, Viagem Sentimental, 1768, 
Goethe, Werther, 1774, e Bernardin de Saint-Pierre, Paulo e Vrgnia, 1788; ao passo 
que a observao realista de tipos e ambientes se acentua com Fielding, Tom Jones, 
1749, Jane Austen,

584                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Oi-gulho e Preconceito, edio 1814. No teatro, estas tendncias sentimentalistas 
traduzem-se pela criao do drama burgus, que pretende apagar a distino entre a 
comdia e

a tragdia, dignificando os conflitos domsticos da classe mdia. Alm de Diderot,  
seu proeminente teorizador Lessing, a principal personalidade do Iluminismo alemo 
(*Aufklaerung+), cuja Minna de Barnhelin (1767) marca uma data no teatro germnico. 
Nas artes plsticas correspondem, por exemplo, a estas tendncias os quadros de 
Hogarth e de Chardin, os melhores continuadores da pintura holandesa seiscentista, 
respectivamente na Inglaterra e na Frana.

Remate do Iluminismo: Sturm und Drang

0 Sculo das Luzes caracteriza-se por intenso intercmbio de ideias e de criaes 
literrias entre as principais culturas europeias, com predom nio da inglesa e da 
fran~

cesa. Mas outras do tambm a sua contribuio: o romance satrico inspira-se no 
picaresco espanhol. Da Esccia vem, no apenas o celtismo, mas a teoria econmica de 
Adam

Smith. De Itlia, a renovao da histria cultural, com Vico, e a definio jurdica 
de progressismo humanitrio, com Beccaria e Filangeri (condenao da pena de morte, 
da tortura, dos castigos corporais).

 na Alemanha que culmina o movimento do Ilumismo, com a gerao do ltimo quartel do 
sculo XVIII, conhecida pelo nome de Sturm und Drang (Tempestade e mpeto, ttulo de 
uma pea teatral da poca), de cuja inspirao se podem considerar principais 
precursores o italiano Vico e os franceses Rousseau e Diderot. Deve-se, 
essencialmente, isto ao facto de a burguesia alem, evoluindo rapidamente sob os 
pontos de vista material e cultural, esbarrar com dificuldades mais srias do que a 
francesa, e, por outro lado, se aperceber, com o desenvolvimento da Revoluo 
Francesa, de contradies para esta insuperveis (por exemplo, a contradio entre os 
interesses da burguesia alem e os da

francesa, posta a claro pelo militarismo napolenico).

Assim, Herder pe em foco a ideia da evoluo da natureza e da humanidade, concebida 
esta como um organismo colectivo, e, deste modo, prepara uma pea essencial do 
pensamento de Schelling, Hegel e dos filsofos, historiadores e cientistas 
romnticos, em geral; Goethe e Schiller, que depois sero os principais vultos do 
Romantismo alemo, salientam, entre outras, as contradies entre o indivduo e a 
sociedade (Wcrther,

1774; Os Bandidos, 1781); o folclore, as criaes estticas colectivas, a principiar 
pela prpria linguagem, ascendem ao primeiro plano da aten o dos escritores; o 
progresso deixa de ser entendido corno simples conquista de uma Razo abstracta e 
discursiva, sublinhando-se agora, por vezes exageradamente, os aspectos afectivos e 
intuitivos da personalidade humana; Karit, em continuao de Rousseau, e sobretudo do 
filsofo ingls David Hume, critica a filosofia mecanicista e toda a fundamentao 
metafsica e reli~ giosa da moral, denunciando todas as respectivas hipteses e 
antinomias (ou contradies) fundamentais, de que se no tinha conscincia, o que 
permitir a transio do empi-

5. - POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                                      
    585

rismo ingls para a dialctica de Hegel. Beethoven prepara-se j ento para exprimir, 
em msica, um sentimento mais profundo da dignidade do homem e da cultura que j no 
tolera o mecenato nem coaces dogmticas.

O Sculo das Luzes portuguesas: de D. Joo V s lutas liberais

0 tempo de D. Joo V, ou seja, a primeira metade do sculo XVIII, caracteriza-se por 
esta contradio fundamental: por um lado, a minerao brasileira permite a 
sobrevivncia, com novo flego, das aristocracias tradicionais (nobreza e clero) e do 
alto funcionalismo, correspondendo isso a uma nova fase da cultura barroca; por outro 
lado, Portugal no pode isolar-se do ambiente europeu nem prescindir inteiramente das 
inovaes tcnicas, cientficas e artsticas surgidas no estrangeiro, o que o obriga 
a acertar o passo

com a Europa moderna. Nas secretarias do Estado, na Academia Real, no pao do rei, e 
nos dos infantes, na prpria jerarquia eclesistica, os estrangeirados, que tm em 
vista o aburguesamento do Pas, acham-se em luta surda com o tradicional estado de 
coisas.

Como  natural, a ofensiva est sobretudo orientada por tcnicos, altos funcionrios, 
por emigrados, por uma nobreza de cargo em muitos casos recrutada na burguesia 
(Bluteau, Azevedo Fortes, conde da Ericeira, Diogo de Mendona Corte Real, Alexandre 
de Gusmo, Jos da Cunha Brochado, D. Lus da Cunha, etc.). Os problemas postos so, 
em

geral, de natureza restritartiente tcnica, econmica e pedaggica. H no entanto um 
problema social importante debatido, j desde a poca anterior, com insistncia 
crescente: o dos Cristos-Novos, perseguidos pela Inquisio, baluarte da sociedade 
tradicional.  certo que o alto funcionalismo de formao universitria e os 
arrematantes dos contratos

fiscais da Coroa vo ascendendo  aristocracia; poucas famlias nobres se podem ainda 
orgulhar de uma contnua limpeza de sangue, desde a segunda dinastia, e algumas 
decaram socialmente, mas as comendas e os rendimentos da Coroa mantm, 
espectacularmente, o edifcio absolutista- feudal.

A prosperidade da exportao colonial e vinhateira, a hemiplegia final de D. Joo V 
(1742-50) favorecem a manuteno deste estado de coisas. Mas a segunda metade do 
sculo vai abrir com a ditadura de Sebastio de Carvalho e Melo, um estrangeirado 
particularmente drstico, e conduzido alis a solues drsticas por uma crise 
crescente


do comrcio externo. Sob o ponto de vista poltico, o regime pombalino representa 
entre ns o apogeu do absolutismo, cuja doutrina o prprio estadista definiu na 
Deduo Cronolgica (1767). 0 poder rgio fora *ernanado do mesmo Deus directamente+, 
e qualquer tentativa de o limitar, quer pelas Cortes, quer pelo direito cannico ou 
pela autoridade do papa, seria *sediciosa+ ou *absurda+, segundo tal doutrina. Os 
principais instrumentos da represso ideolgica, a Inquisio e a Censura, so 
remodelados e postos sob directa dependncia do Trono, que governa * de cincia certa 
e vontade absoluta+.

Mas a reforma da Inquisio suprime a velha discriminao contra os Cristos-Novos, 
que se identificam com a burguesia mercantil, transformando-a em instrumento da nova

586                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

ideologia reformista. Restaura-se a exigencia do beneplcito rgio para os decretos 
pontifcios; os Jesutas so expulsos em 1759, e, no ano seguinte, a poltica 
regalista, tendente a instaurar unia Igreja Lusitana muito autnoma em relao ao 
papa, conduz ao

corte de relaes com a Cria Romana; o processo dos Tvoras (1759) esmaga a 
resistncia da velha nobreza, e o do bispo de Coimbra (1768) subjuga o clero secular. 
Afinam-se

as peas das mquinas administrativa, policial e fiscal do Estado, que se identifica 
sobretudo com a alta burguesia.

Na verdade, a poltica econmica pombalina caracteriza-se pela proteco de 
companhias monopolistas, que controlam todos os ramos mais rendosos do comrcio 
ultramarino, a preparao e exportao do vinho do Porto e a pesca do atum, deixando 
 concorrncia da pequena burguesia os sectores comerciais secundrios. 0 agravamento 
da crise econmica desde 1760, devido sobretudo  redistribuio das vias comerciais 
como

resultado da Guerra dos Sete Anos e ao declnio de produtividade das minas 
brasileiras, provoca a deslocao de parte do grande capital dessas companhias para 
monoplios industriais, corri sano e comparticipao do Estado (sedas e outras 
indstrias de consumo

sumpturio, sabes, txteis, vidro, loua, etc.).

No estava, porm, nos objectivos do marqus de Pombal a extino da aristocracia 
como grupo social dirigente. Pode mesmo dizer~se que o que ele pretendeu foi adapt-
la s suas novas condies de sobrevivncia, por meio de uma poltica que j 
inspirara aos

condes de Ericeira vrias medidas e iniciativas de fomento industrial e de reforma 
cultural durante os reinados de D. Pedro II e D. Joo V. 0 clero tem de reajustar-se 
ao reforo do poder estatal - a sua condio de sobrevivncia era a eliminao da 
Escolstica e do ultramontanismo jesuta. A nobreza laica, para subsistir, v-se 
obrigada a perder as

suas veleidades linhagistas: as famlias chamadas *puritanas+ so foradas ao 
cruzamento


matrimonial com as menos *limpas de sangue+; a burguesia monopolista nobilita-se 
mediante a fundao de *vnculos+ ou morgadios territoriais, e em contrapartida 
restringe-se e concentra-se a transmisso dos morgadios. Cria-se, em 1761, o Colgio 
dos Nobres, para actualizar a cultura daqueles que o nascimento predestinara para os 
quadros diplomticos e militares, instruindo-os em lnguas vivas, cincias 
experimentais, matemticas e ginstica. Sob o aspecto econmico-social, como sob o 
aspecto cultural, a poltica pombalina , essencialmente, a realizao do programa 
mercantilista, defendido j desde fins do sculo XVII por Ribeiro de Macedo e os 
Ericeiras, e depois pelos estrangeirados que, directa ou indirectamente, vinham 
procurando actuar no destino do Pas, desde o tempo de D. Joo V. V-lo-emos quando 
estudarmos a literatura doutrinria desta poca.

D. Maria 1 sobe ao trono, em 1777, na fase de recuo da crise econmica portuguesa: a 
baixa de rendimento do ouro brasileiro  compensada pelo acrscimo em volume e valor 
de outros produtos do Brasil, nomeadamente do algodo, que em parte se reexporta, em 
parte alimenta um progresso da indstria txtil. A poltica pombalina de fomento 
prossegue, embora os monoplios sejam em geral substitudos por um regime de 
concorrncia. Formula-se mesmo, em dada altura, o problema de extinguir as restries 
feudais  aqui-

5. - POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                                      
     587

sio e explorao da terra, de que cerca de um tero se acumulara na posse das 
instituies religiosas. Por incios do sculo XIX, o Pas equilibrava a sua balana 
de importaes e exportaes; o capitalismo dava os primeiros passos para a 
eliminao do artesanato em certas indstrias, nomeadamente na txtil; Correia da 
Serra e outros fisiocratas, nas Memrias econmicas da Academia (1. 0 volume, 1789), 
preconizavam a transformao do regime agrrio feudal. Tal evoluo geral  atalhada 
pelas Invases Francesas, que pem fim a um sculo de neutralidade portuguesa a todo 
o custo; em face do Blo~ queio Continental imposto, as dependncias do comrcio 
atlntico foram  opo a favor

da Inglaterra. Entre os mais graves estragos das Invases conta-se o desmantelarnento

das unidades industriais mais adiantadas, e cuja reconstruo  depois impedida pela 
concorrncia inglesa, beneficiada com a *revoluo industrial+ da mquina a vapor.  
ocupao francesa sucedeu, alis, a inglesa; os nossos aliados ditaram as condies 
de comrcio que abriram os portos do Brasil aos seus produtos (tratados de 1810).

A Revoluo de 1820, pronunciamento militar portuense e nortenho orientado por 
juristas e proprietrios, e mais tarde influenciado por comiss es do comrcio, 
obedece  inteno, no apenas de expulsar Beresford e impor  monarquia uma 
constituio, mas tambm de dar um golpe fundo na estrutura ainda feudal da economia, 
da organizao administrativa, judicial e fiscal. Ao mesmo tempo, porm, os chefes da 
Revoluo propunhani-se fazer regressar ao seu antigo estatuto colonial o Brasil, 
que, em consequncia de para ali se ter transferido a corte de D. Joo VI, se 
convertera em reino sob a coroa deste rei. Esta atitude e ainda o amadurecimento 
poltico da burguesia sul-americana, directamente apoiada nos concorrentes do nosso 
comrcio transatlntico, determinam a revoluo tambm liberal e, alm disso, 
autonomista do Brasil (1822). Com as lutas liberais abre-se um novo captulo da nossa 
histria, tanto social como cultural

e literria.

A difuso das Luzes; os Estrangeirados

A contradio existente entre, por um lado, a estrutura da sociedade portuguesa e


a cultura barroca peninsular, e, por outro lado, as exigncias impostas pela 
concorrncia internacional no campo econmico e poltico, j, consoante vimos, havia 
sido sentida por homens como Mendes de Vasconcelos, Severim de Faria, na primeira 
metade do sculo XVII. Os prprios Jesutas, como verificmos a propsito do padre 
Antnio Vieira, no eram indiferentes  lio do seu grande adversrio no Ultramar, a 
burguesia holandesa. E j relacionmos a doutrinao do mercantilismo feita por 
Duarte Ribeiro de Macedo com as medidas de fomento industrial que o 3. 0 conde de 
Ericeira, D. Lus Xavier de Meneses (1632-90), ao servio de D. Pedro 11, se viu 
forado a tomar, para ocorrer  crise do rendimento nacional de fins do sculo XVII 
que medeia entre o ciclo do acar e o ciclo da minerao no Brasil.

588                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

0 4. conde de Ericeira, D. Francisco Xavier de Meneses (1674-1743),  a primeira 
figura de relevo social em quem se torna patente o abrir de novos horizontes. 
Herdando um vivo interesse pelos problemas do fomento industrial, que transmitiu ao 
filho (5. conde, D. Lus lnco Xavier de Meneses), sofreu alm disso a influncia 
do frade teatino francs Rafael Bluteau, que foi o principal conselheiro tcnico do 
pai, e que pode considerar-se um percursor de Verney. No seu palcio e sob o seu 
patrocnio organizam-se, cerca de 1696, as Conferncias Discretas e Eruditas. Entre 
os participantes nestas contarri-se membros da roda da Academia dos Generosos. Mais 
tarde, em 1717, aps a extino das Conferncias, devida  sua carreira militar, 
funda nova instituio, a Academa Portuguesa, por seu turno precursora da Academia 
Real de Histria de 1720. Nas sesses destas sociedades as prendas literrias 
cultistas cedem, pouco a pouco, espao a curiosidades mais srias. Chegam a ser 
criticados os torneios de engenho oratrio e

versificatrio das academias barrocas e versam-se temas como o das matemticas 
pertencentes a cavalheiros; Rafael Bluteau, Manuel de Azevedo Fortes, o prprio D. 
Francisco de Meneses distinguiram~se particularmente na divulgao de noes de 
mecnica celeste e terrestre, das classificaes naturalistas e na formao de um 
novo conceito mais utilitrio de cultura, com os seus corolrios pedaggicos.

Um papel importante no incremento deste novo esprito  desempenhado pelas boas 
relaes que a ltima fase da Restaurao estabeleceu entre as cortes de Lisboa e 
Paris, as quais perduraram at  Guerra da Sucesso. Os trajos e at as noivas 
francesas esto em moda na aristocracia portuguesa, e j se erguem protestos contra 
isso e contra a francesa da fala. 0 padre Rafael Bluteau, graas ao ascendente que 
os servios tcnicos lhe deram sobre os Ericeiras, pde formular contra a Escolstica 
urna primeira crtica cerrada, em que o racionalismo cartesano e o experimentalismo 
ingls se ligam j, como

em Fontenelle,  apologia dos *Modernos+ e, como em Bayle, ao descrdito da teologia 
especulativa. No terreno literrio, devem-se talvez a este frade teatino certos 
empreendimentos ainda isolados mas signficativos: o 4. 0 conde de Ericeira faz, em 
1697, uma

traduo da Arte Potica de Boileau, que ficou indita at 1793, e escreve uma 
epopeia sobre o conde D. Henrique, a Henriqueida, inspirada na Henriade de Voltaire.


0 reinado de D. Joo V correspondeu  fase crtica na luta entre a Escolstica e as 
Luzes, que vo conquistando sempre novas posies ao abrigo das necessidades 
tcncas. As fortunas despendidas pelo rei Magnnimo com o envio de bolseiros 
portugueses e o contrato de pessoal estrangeiro no se destinaram exclusivamente a 
elevar a arquitectura, as artes plsticas e decorativas, a msica, os espectculos 
cnicos  altura da sua majestade *Cristianssima+, com Patriarcal cardinalcia. Era 
indispensvel ao decoro e segurana do Reino desenvolver certos ramos das indstrias 
de luxo e de guerra;  sua

potncia militar faltavam tcnicos especializados na engenharia, na qumica e na 
balstica; o problema da delimitao definitiva das fronteiras brasileiras exigia um 
grande rigor cartogrfico, acontecendo que a determinao tradicional das longitudes 
fora posta seria~ mente em causa pelos cartgrafos europeus mais competentes; as 
deficincias na preparao escolar dos mdicos portugueses tinham-se tornado 
clamorosas.

5.3 POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                                       
  589

Deve ter-se como significativa a curiosidade que rodeou a passarola de Bartolomeu de 
Cusnio; significativo que este homem, que o Santo Ofcio acusou de judaizar s 
escondidas, tenha sido secretrio particular de D. Joo V; significativo tambm que 
na confiana do monarca lhe sucedesse o irmo, Alexandre de Gusirio, que alm de 
hbil poltico e diplomata, de economista competente, nos interessa como terico do 
mercantilismo e apologista do classicismo literrio francs, e cujas crticas  
aristocracia de sangue, ao clero regular, e at ao absolutismo, saram a pouco e 
pouco, ao longo do sculo XVIII, do segredo de uma roda de amigos para atingir a 
publicidade com a propaganda liberal. Preocupaes e crticas anlogas se encontram 
em dois dos principais diplomatas do Magnnmo: Jos da Cunha Brochado e D. Lus da 
Cunha.  o que se verifica nas Memrias do primeiro e sobretudo nas Instrues 
Inditas e no Testamento Poltico do segundo. Inspirando-se na crtica do historiador 
galicano abade Fleury ao ultramontanismo e  ociosidade do clero regular, no 
mercantilismo colbertiano e, em geral, nas *luzes+ da burguesia europia mais 
adiantada, D. Lus da Cunha critica o absolutismo do prprio amo, o preconceito do 
sangue, a intolerncia inquisitorial, a casustica jesuta, o tratado de Methwcn. Em 
suma, as responsabilidades diplomticas e polticas de Alexandre de Gusmo, Brochado 
e D. Lus da Cunha, a conscincia que elas lhes deram da fragilidade militar e 
econmica do Reino, levaram-nos a criticar profundamente os prprios alicerces da 
cultura barroca joanina.

0 fomento das Artes. Problemas pedaggicos

0 Barroco, como expresso cultural do absolutismo, exigiu da parte de D. Joo V 
grandes cuidados na renovao das artes plsticas, rtmicas e cnicas - cuidados que, 
adequando-se  evoluo dos estilos e das condies gerais, se prolongam nos reinados 
de D. Jos e D. Maria I. Quanto  msica de capela, de cmara, e sobretudo de pera, 
deve destacar-se o envio ao estrangeiro dos bolseiros Antnio Teixera e Francisco 
Antnio

de Almeida e o contrato do msico Dornenico Scarlatti. D. Jos distinguir-se- 
sobretudo na edificao de teatros de peras. 0 de S, Carlos, feito por iniciativa de 
comerciantes de Lisboa, data de D. Maria 1. A frutificao de tais esforos revela-
se, pelo fim do sculo, na consagrao europia dos compositores Marcos Portugal e 
Domingos Bontempo, e da cantora Lusa Todi.

No domnio das artes plsticas, D. Joo V fez vir notveis artistas, como Ludovice, 
Nazzoni, Azzolini, etc.; com os pensionistas que o monarca e outros mecenas sustenta~


vam, criou-se uma Academia Portuguesa de Artes em Roma, que subsistiu, corri largas 
intermitncias, at ao fim do sculo. Assim se fez o pintor Vieira Lusitano; se 
puderam construir o Convento de Mafra, o aqueduto das guas Livres, o edifcio dos 
Clrigos no Porto, e outras obras que exigiam, alm de enormes despesas, uma 
cuidadosa preparao de artistas especializados. As artes grficas, a talha, a 
miniatura, a cermica, a pintura de azulejos, etc., foram analogamente estimuladas. A 
estas condies se deve

590                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

a formao de homens como Machado de Castro, que executou a esttua de D. Jos e

criou uma notvel escola de ceramistas, e Eugnio dos Santos, o principal 
reconstrutor pombalino de Lisboa. No tempo de D. Maria, distingue-se Mateus Vicente, 
arquitecto da Baslica da Estrela. Domingos Sequeira e Vieira Portuense so bolseiros 
de Pina Manique, sob cuja intendncia se cria a Academia do Nu e a Aula Rgia de 
Desenho e Figura.

A reforma do ensino estava a tornar-se indispensvel em vrios planos sociais e graus 
de cultura; entre as prprias condies de subsistncia da estrutura essencial da 
sociedade portuguesa do tempo, que era em geral o grande objectivo em vista, 
contavam-se a qualificao de certa mo-de-obra especializada, a adaptao dos 
Estudos Menores s necessidades da classe mdia, desenvolvendo o estudo da lngua 
materna em detrimento

das Humanidades clssicas, e o reajustamento escolar da aristocracia s novas 
exigncias da sua funo militar ou diplomtica. Esta ltima condio viria a falhar, 
pois, em toda a Europa, s as circunstncias especiais da Inglaterra permitiriam  
sua aristocracia que se aburguesasse o suficiente para atalhar uma queda 
catastrfica.

0 Curso dos professores jesutas conmbricenses de incios do sculo XVIII, 
preocupado fundamentalmente com a incorporao do Humanismo letrado na Escolstica, 
pouco atentara nas cincias experimentais. Na verdade, como vimos, a especulao 
jesuta peninsular s se mostrara original no que respeita  filosofia do Direito. Os 
padres Francisco Soares (Lusitano) e Antnio Cordeiro, respectivamente por meados e 
pelos fins do sculo XVII, redigiram cursos de filosofia que procuraram tomar em 
linha de conta as contribuies dos criadores da mecnica geral e celeste, mas 
utilizando-as apenas atravs de divulgadores e sobretudo de refutadores, e fora de 
qualquer esprito experimental e matemtico. Mesmo assim, tais modernos foram 
abrangidos pelas condenaes eclesisticas que atingiram Galileu e Descartes, A 
resistncia contra as inovaes acentua-se desde meados do sculo XVIL atravs de 
sucessivas provises rgias, de edictos dos reitores, de proibies expressas e 
directrizes coercivas vindas da parte de provinciais e gerais na Companhia de Jesus. 
Soares Lusitano foi demitido, e Antnio Cordeiro viu-se obrigado a retractar-se na 
edio de 1713 do seu Curso.


Mas novas condies de vida, quer dizer, sob o ponto de vista social, o 
desenvolvimento da classe mdia, impunham uma reviso dos Estudos Menores, no 
sentido, sobretudo, de se dar a primazia  expresso em vernculo sobre a expresso 
em lngua latina, como tinham tentado os Jansenistas em Frana, os Oratorianos em 
toda a parte, para no falar na revoluo pedaggica ainda mais profunda de que um 
checo notvel, Comenius, se fizera apstolo. A Congregao de S. Filipe Nri, quase 
to antiga como a Companhia de Jesus, mas introduzida em Portugal s no tempo de D. 
Joo IV por Bartolomeu do Quental, tornara-se em toda a parte mais permevel s 
tendncias modernas, em virtude de uma maior flexibilidade de organizao e doutrina.

 de notar, no entanto, que tal concorrncia no punha profundamente em causa o

esprito que animava a pedagogia jesuta. Quando Verney desencadear, em 1746, no 
ensino a polmica decisiva do Iluminismo contra a Escolstica, Oratorianos e outros 
sentir-se-o

5.1 POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                                       
   591

tambm atingidos, vindo a tomar posio contra o inovador. A Phlosophia Aristotelica 
Restituta do padre oratoriano Joo Baptista, que foi desde cerca de 1737 o primeiro e

mais influente professor experimentalista dessa instituio na corte de D. Joo V, 
representa um esforo para harmonizar a fsica newtoniana com a metafsica 
aristotlica, embora contenha a descrio e at a ilustrao de experincias 
cientficas. Tal eclectismo entre a Escolstica e a Mecnica, e tambm entre o 
ultramontanismo e o regalismo em matria de religio, valeu mais tarde aos principais 
oratorianos a animosidade de Pombal, embora um deles, o padre Antnio Pereira de 
Figueiredo, tradutor da Bblia, fosse o principal telogo ao servio do Marqus na 
sua poltica religiosa, com a Tentativa Teolgica (1760) e a Demonstrao Teolgica 
(1769). 0 oratoriano Francisco Jos Freire foi, como veremos, o principal teorizador 
da Arcdia Lusitana, alis estreitamente ligada ao Instituto das Necessidades. Entre 
os continuadores do P.e Joo Baptista distinguiu-se, j na

segunda metade do sculo, o P.e Teodoro de Almeida, que entre outras obras escreveu

uma Recreao Filosfica de esprito newtoniano.

Em 1746 publica-se em Npoles uma obra que, apreendida pelo Santo Ofcio ao 
desembarcar em Lisboa, reeditada nessa mesma cidade em 1747-49 (com a falsa indicao 
de impressa em Valeria, 1746), e, ainda clandestinamente, em Lisboa, 1751 (com 
indicao do mesmo editor e lugar e o ano de 1747), inicia uma das polmicas mais 
extensas e prolongadas da nossa histria cultural. Trata-se de uma srie de 16 
cartas, sob o ttulo Verdadeiro Mtodo de Estudar para ser ttil  Rpublica e  
Igreja, proporcionado ao

estilo e necessidade de Portugal, exposto em vrias cartas, escritas pelo R. P. 
Barbadinho da Congregao de Itlia, e que,  volta de problemas pedaggicos, fazem 
uma crtica radical da mentalidade escolstica ento dominante na Pennsula. A 
autoria, que procurou manter-se muito tempo encoberta,  de Lus Antnio Verney 
(1713-90). A polmica  volta deste livro, que provocou escndalo, durou com 
intensidade at ao terramoto, prolongou-se at 1764 e passou a fronteira com a sua 
traduo castelhana em 1757-60. Adiante resumiremos o contedo desta obra, que teve 
uma projeco incomparvel no

nosso sculo XVIII, no s quanto  orientao pedaggica, mas tambm quanto  
ideologia filosfica e at  teoria literria.

Pombal e a execuo da reforma pedaggica


A expulso dos Jesutas em 1759 imps a Pombal a imediata reorganizao dos Estudos 
Menores. Mediante um alvar datado de 1759-06-28, completado por urna carta rgia de 
1772-11-06, foram criadas pelas diversas comarcas do Pas 1758 cadeiras autnomas de 
Latim, Grego, Retrica e Filosofia num primeiro esboo, ainda fragmentrio e 
insuficiente, do ensino laico e oficial. No mesmo ano surge a Aula do Comrcio, 
embrio do ensino comercial; em 1761, o Colgio dos Nobres, segundo recomendaes de 
M. Pina e Proena, de Verney e sobretudo de Ribeiro Sanches, sendo esta a primeira 
criao pedaggica pombalina que pe em prtica recomendaes como a primazia no 
estudo do

592                                                 HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Portugus sobre o Latim, a necessidade de lnguas vivas, das cincias algbricas e 
experimentais, exerccios fsicos, noes prticas, etc. Em 1770 criou-se a Junta de 
Providnca Literria, para preparar a mais notvel das reformas universitrias 
portuguesas; entre os seus membros, alm de Pombal, contam-se alguns dos mais 
brilhantes espritos do tempo, como D. Francisco de Lemos (reitor), Seabra da Silva e 
Frei Manuel do Cenculo de Vilas Boas. A Junta principiou por redigir um requisitrio 
contra o ensino jesuta, o Compndio I-Iistrico, acompanhado de um Apndice que o 
completa sob os aspectos no pedaggicos. Em 1772, finalmente, saram  luz os novos 
Estatutos da Universidade

de Coimbra.

0 mtodo de comentrios e de disputas formalistas, o uso de postilas (sebentas) so 
formalmente banidos. 0 essencial dos cursos  resumido em compndios, para evitar a 
disperso, e o mestre expe por deduo matemtica ou por induo experimental. A 
histria das cincias dever acompanhar o seu aprendizado. A tendncia 
experimentalista concretiza-se num Horto Botnico, num Museu de Histria Natural, num 
Teatro de Filosofia Experimental (isto , um Laboratrio de Fsica), num Laboratrio 
Qumico, num Observatrio, num Teatro Anatmico, num Hospital Escolar. A 
interpretao do Direito obedece a dados histricos e filosficos, distinguindo-se 
agora o Direito Portugus do Direito Romano, que s indirectamente interessa. Reage-
se em Medicina contra

o vitalismo galnico, s se admitindo explicaes mecnicas. A Faculdade das Artes, 
aquela que anteriormente iniciava os estudantes no esprito das disputas praticamente 
inverificveis,  substituda pela de *Filosofia+, de cunho naturalista. Cria-se, 
enfim, a Faculdade de Matemtica, cuja frequncia se torna obrigatria, durante mais 
ou menos tempo, para os candidatos aos cursos finais.

Embora as inovaes no pudessem passar logo todas dos Estatutos para os factos, esta 
reforma foi, talvez, o que de melhor criou a administrao pombalina. Certos excessos 
na redaco do Compndio Histrico e na reaco contra o aristotelismo escolstico, 
como, por exemplo, a eliminao de uma breve referncia elogiosa a Aristteles num

dos compndios adoptados, tornam-se mais compreensveis, se nos lembrarmos da dureza 
com que se travou a polmica do Verdadeiro Mtodo.  claro tambm que esta, como

as outras refortrias pombalinas, no podia superar os limites do despotismo 
esclarecido. A Mesa Censra, embora incomparavelmente mais latitudinria que a 
censura inquisitorial, inclui nos seus ndices certas obras de Bayle, Hobbes, 
Espinosa, Voltaire, La Mettrie, J. J. Rousseau e outros, consideradas particularmente 
subversivas.


Da morte de D. Jos at s invases napolenicas, as reformas relativas  instruo 
pblica quase no passam de consolidaes, retoques e prolongamentos da obra 
pombalina, sobretudo no campo tcnico. Salientemos a Academia Real da Marinha (1779) 
e a Casa Pia (1780). Assinalemos tambm a criao da Biblioteca Nacional, em 1796

(D. Joo V j valorizara a biblioteca do Pao, criara a de Mafra e dotara 
magnanimamente a de Coimbra, dando-lhe um novo edifcio).

5. - POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                                      
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A Academia das Cincias

A mais importante instituio cultural criada na sequncia da reforma pombalina da 
universidade foi a Academia das Cincias. A sua fundao, em 1779, pelo duque de 
Lates e pelo abade Correia da Serra, obedece ao propsito de coordenar e estimular 
os trabalhos de investigao e de manter a Universidade e a administrao em dia com 
os progressos cientficos e literrios do mundo culto. Tal propsito deve ter-se 
definido graas  longa estadia dos seus fundadores nalguns dos centros culturais 
mais adiantados na Europa, e  presso das necessidades tcnicas, econmicas e 
culturais sobre os governantes e sobre o ensino superior. A Academia recebeu os 
privilgios de usar o ttulo de Real, de ter imprensa privativa, de ficar isenta de 
censura, e pde reunir    uma biblioteca que ainda hoje  das mais importantes do 
Pas. Dividia-se em trs seces, correspondentes s cincias experimentais, s 
cincias matemticas e s Belas-Letras.

0 perodo verdadeiramente fecundo desta instituio estende-se at ao tempo de 
Herculano, que foi seu secretrio. Entre as suas publicaes de tomo sobressaem as 
Memrias Econmicas (1789-1815) e as Memrias de Agricultura (1787-1791), ligadas 
especialmente ao movimento fisiocrtico do tempo de D. Maria I a que j fizemos 
referncia, as Memrias de Literatura (1792-1839), os Livros Inditos de Histria 
Portuguesa (1790-1824), o Corpo Diplomtico Portugus, Portugaliae Monumenta 
Historica, etc.

Eis alguns dos acadmicos mais notveis do perodo que estamos estudando: Frei Manuel 
do Cenculo (1724-1814), que fora dos principais colaboradores de Pombal; Antnio 
Ribeiro dos Santos (1745-1818), que estudou a cultura liebraica e as origens da 
imprensa em Portugal; Francisco Alexandre Lobo, autor de diversas monografias 
histricas; Antnio Caetano do Amaral (1747-1819), investigador das antiguidades 
lusitanas; Joo Pedro Ribeiro (1759-1839), a quem se deve a especializao dos 
estudos diplomticos, paleogrficos e esfragsticos no campo da histria de Portugal, 
mestre de Herculano; Frei Francisco de S. Lus (Cardeal Saraiva - 1766-1845), 
fillogo e erudito; Frei Fortunado de S. Boaventura (1778-1844), que coligiu 
importantes fontes histricas e documentos literrios arcaicos, e reviu os trabalhos 
da historiografia alcobacense, de que  o ltimo representante notvel; Frei Joaquim 
Santa Rosa Viterbo (1744-1822), autor do conhecido Elucidrio de arcasmos (1798); 
Pascoal Jos de Melo Freire (1738-1798), criador da histria do direito ptrio, que 
correspondeu s necessidades da ctedra fundada por Pombal. Podemos ainda nomear o 
clebre botnico Flix de Avelar Brotero (1744-1829), cuja obra contudo foi produzida 
em grande parte no exlio, em virtude de se ter tornado suspeito a Pina Manique.

HLP - 38

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1111111u181106k4FIA

HISTRIA GERAL

Mousnier, R./Labrousse, E./Bouloiseau, M.: Le xville Sicle, I'poque des Lumres 
(1715-1815), t. V de Histoire Gnrale des Civilisations, P. U. F., 1959. Durand, 
Georges: tats et Institutions (XVI-XVIII sicles), A. Colin, Paris, 1669. Bluche, 
Franois: Le Despotisme cIair, Fayard, Paris, 1968. (Insere o reformismo pombalino 
em perspectiva geral europeia.)

Stephen, Leslie: English Literature and Society in the Eighteenth Century, Londres,
1949 (1.a ed. 1904).

Trevelyan, G. M.: lllustrated English Social History, vols. 2 e 3, Pelican Books.

Chaunu, Pierre: A Europa das Luzes, 1 e li, Col. *Imprensa Universitria+, Estampa,
1985.

Erhard, J. B./Geich, J. B. et alii: Que es Ia Ilustracin?, Madrid, 1988.

HISTRIA CULTURAL E LITERRIA

Vejam-se os manuais de literaturas estrangeiras indicados no final deste livro. 
Hazard, Paul: Crise da Conscincia Europeia, trad. e notas de scar Lopes, Lisboa,
1948, col. *Marcha da Humanidade+; e La Pense Europenne au XVIII Sicle de 
Montesquieu  Lessing, 3 vols., Paris, 1946, reed. 1963.

Hffding, H: Histoire de Ia Philosophie Moderne, Paris, Alcan. Gettel, Raymond: 
Histria das Ideias Polticas, trad. portuguesa, Inqurito, Lisboa. Fabre, Jean: 
Stanislas-Auguste Poniatowski et I'Europe des Lumires, ed. Belles Lettres, Paris, 
1952, e Lumires et Romantisme: nergie et nostalgie de Rousseau  Mickiewicz, ed. 
Klincksiek, Paris, 1964. (Um dos principais especialistas do Iluminismo europeu.)

Porneau, Ren: L'Europe des Lumires, ed. Stock, Paris, 1966. Launay, M3Mailhos, G.: 
Introduction  Ia vie littraire ou XVIlle sicle, Bordas, Paris,
1968.

Medina, Joo: Ensaios sobre o Iluminismo, in *Vrtice+, 26, desde n. 0 274-5, Jul, -
Ag. 1966.


Antologia escolar acessvel de textos das Luzes: Biedermann, A.: La Philosophie des 
Lumires, Nouveaux Ciassiques Larousse, 2 vols.,
1969.

CONDICOES HISTORICAS PORTUGUESAS

Histria de Portugal, ed. de Barcelos, vol. Vi. Marques, A. H. de Oliveira: Histria 
de Portugal, 2. a ed., 1975. Azevedo, Joo Lcio de: 0 Marqus de Pombal e a sua 
poca, 2. ed., com emendas, 1922, Rio de Janeiro; e pocas de Portugal Econmico, 2. 
> ed., 1942, caps. Vi e Vil.

5. @ POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                                      
     595

Azevedo, Julio Soares de: Condices Econmicas da Revoluo Portuguesa de 1820, 
Lisboa, 1944 (que, a despeito do ttulo,  sobretudo uma sntese de histria 
econmica portuguesa) .

Godinho, Vitorino Magalhes: Prix et Monnaies au Portugal, 1750-1850, Paris, 1955; e 
alguns dos estudos includos em Ensaios, li, 1968, e em A Estrutura na Antiga 
Sociedade Portuguesa, 4. a ed., Arcdia, Lisboa, 1980, com snteses que abrangem a 
poca aquifocada.

Santos, Fernando Piteira: Geografia e Economia da Revoluo de 1820, Lisboa, 1962.

Macedo, Jorge de: A Situao Econmica no Tempo de Pombal - Alguns Aspectos, Porto, 
1951, 3 . aed. aum- Gradiva, 1989; Problemas de Histria da indstria portuguesa no 
sc. XVIII, Lisboa, 1963; 0 Bloqueio Continental. Economia e Guerra Peninsular, 
Lisboa, 1962; 0 Mercantilismo em Portugal. 0 Tratado de Methwen, Lisboa, 1966.

Silbert, Albert: Le Portugal Mditerranen  Ia fin de Pancien rgime (XVIlle sicle 
dbut du XIXe sicle), Contribution  Phistoire agraire compare, vols. 1 e li, 
Paris, 1966.

Sideri, Sandro: Comrcio e Poder - Colonialismo Informal nas Relaes Anglo-
Portuguesas, trad. port., Cosmos, Lisboa, 1977.

Frana, Jos-Augusto: Lisboa Pombalina e o Iluminismo, 2. a ed. rev. e aum., 
Bertrand, 1977; A Reconstruo de Lisboa e a Arquitectura Pombalina, *Biblioteca 
Breve+, Instituto de Cultura Portuguesa, 1978.

Alcochete, Nuno Daupias d: Bourgeoisie Pombaline et Noblesse Liberate au Portugal - 
Iconographie d'une tamille franco-portugaise, ed. Fund. C. Gulbenkian, Paris, 1969.

Chaves, Castelo Branco: Os Livros de Viagens em Portugal no sc. XVIII e a sua 
projeco europeia, *Biblioteca Breve+, Instituto de Cultura Portuguesa, 1977. Para 
incios do sc. XIX h os minuciosos apontamentos de viagem de Tollenare, L. F. de: 
Notes dominicales prises pendant un voyage en Portugal et au Brsil en 18 16, 1817, 
1818, 2 vols., P. U. F., Paris, 1971-72 (o 1. > vol.  o que directamente interessa a 
Portugal; com desenvolvida e rigorosa anotao de Lon Bourdon).

Outros testemunhos de viajantes estrangeiros: Gorani G.: Portugal, a Corte e o Pas, 
nos anos de 1765 a 1767; Costigan, A. W.: Cartas sobre a Sociedade e os Costumes de 
Portugal, 1778-1779, Portugal nos sculos XVII e XVIII. Quatro testemunhos, ed. 
Lisptima, 1990. Santos, Piedade Braga: Rodrigues, Teresa S./Nogueira Margarida S: 
Lisboa Setecentista vista por estrangeiros, Livros Horizonte, 1987.

Krauss, Werner: Die Aufkrung in Spanien, Portugal und Latein-amerika, W. Finik 
Veriag, Munique.

Pombal Revisitado, 2 vols., Estampa, Lisboa, 1984; e Marqus de Pombal - bibliografia 
e iconografia, Bibi. Nacional, 1982 (publicaes comemorativas do 2. centenrio).

Ver ainda, para inserco do sc. XVIII numa perspectiva geral da histria de 
Portugal, as snteses de vrios'autores includas em Ferreira, M. Emlia Cordeiro 
(coordenadora): Reflexes sobre Histria e Cultura Portuguesa, Instituto Portugus do 
Ensino a Distncia, Lisboa, 1985.

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INSTITUIOES E RENOVADORES DE CULTURA EM PORTUGAL

Cidade, Hernni: Lices de Cultura e Literatura Portuguesa, 2. > vol., 7. > ed., 
Coimbra, 1985; Lies de Cultura Luso-Brasileira - pocas e Estilos, Rio, 1960.

Braga, Tefilo: Histria da Universidade de Coimbra, tomo Iii, Lisboa, 1898.

Corteso, Jaime: Alexandre de Gusmo e o Tratado de Madrid, Parte 1, tomo 1, Rio de 
Janeiro, 1951. (H um extracto do captulo que mais nos importa no vol. da col. *A 
Obra e o Hornern+ dedicado a Jaime Corteso, organizado por scar Lopes.) H uma

ed. recente das Cartas de Alexandre de Gusmo que importa para o conhecimento das 
ideias e aco administrativa deste iluminista, com introd, de Andre Crabb Rocha, 
IN- _CM, 1981.

Dias, Jos Sebastio da Silva: Portugal e a Cultura Europeia (scs. XVI a XVIII), 
Coimbra, 1953; Pombalismo e Projecto Poltico, in Cultura - Histria e Filosofia, 
vol. 1, 1982, pp. 45-114, e li, 1983, pp. 185-318.

Carvalho, Rmulo de: Histria da Fundao do Colgio Real dos Nobres de Lisboa (1761-
1772), Coimbra, 1959; Apontamentos sobre Martinho de Mendona de Pina e Proena 
(1693-1743,l, sep. de *Ocidente+, vol. 65, 1963.

Monteiro, Oflia Milheiro Caldas Paiva: No alvorecer do *lluminismo+ em Portugal: D. 
Francisco Xavierde Meneses, 4. > Conde de Ericeira, sep. da *Revista de Histria 
Literria de Portugal+, ano 1, vol. 1, Coimbra, 1962, completada em vol. com data de 
1965.
0 Dirio de 1). Francisco Xavier de Meneses, 4. > Conde de Ericeira, 1731-33, 
publicado em *Bibios+, vol. 18, tomo li, 1943, pp. 1-215, contm dados importantes 
sobre os movimentos culturais da aristocracia numa fase importante.

Martins, Antnio Coimbra: artigos Estrangeirados, Iluminismo e Luzes no Dicionrio de 
Histria de Portugal. (0 ltimo, mais desenvolvido,  um minucioso sumrio de tpicos 
reformistas extrados de obras portuguesas iluministas de variados domnios, algumas 
praticamente esquecidas; ampla bibliografia nacional e estrangeira.)

Andrade, Antnio Alberto de: Vernei e a Cultura do seu Tempo, in *Acta Universtatis 
Conimbrigensis+, 1966. (Obra bsica; tem ampla bibliografia.)

Ferreira, Jos Esteves: 0 pensamento poltico em Portugal no sculo XVIII - Antnio 
Ribeiro dos Santos, ed. da IN-CM, 1983.


Hespanha, Antnio Manuel: Prtica Social, Ideologia e Direito nos scs. XVII a XIX, 
in *Vrtice+, 340-1-2, 1972; Histria das Instituies (pocas medieval e moderna), 
Almedina, Coimbra, 1982.

Ramos, Lus A. de Oliveira: Sob o Signo das *Luzes+, IN-CM, 1988. E, de um modo 
geral, os estudos mencionados na bibliografia do captulo seguinte.

Captulo 11

DOUTRINRIOS DAS *LUZES+ EM PORTUGAL

LUS ANTNIO VERNEY

0 mais notvel e influente dos doutrinrios portugueses do sculo XVIII  o P.e Lus 
Antnio Verney (n. Lisboa, 1713-07-23 - t 1792-03-20), no s pelo Verdadeiro Mtodo 
de Estudar a que j aludimos, mas tambm por outras obras.

Portugus, mas com ascendentes franceses, Verney foi discpulo quer dos Jesutas quer 
dos Oratorianos nos Estudos Menores, formou-se em Artes pela Universidade de vora, 
donde partiu para Roma a completar os estudos e tentar a sorte. A sua costela 
francesa (de uma famlia burguesa de Lio) e a sua longa permanncia em Itlia, 
juntamente com uma extraordinria capacidade de assimilao cultural, contriburam 
decerto para que viesse a conceber a aspirao de se tornar mentor de uma ampla 
reforma da mentalidade em Portugal, onde tentou (com muito menor originalidade) 
desempenhar um papel comparvel ao que Muratori e Genovesi exerciam nas cortes 
italianas de Mdena e Npoles.

Feito arcediago de vora ainda com Ordens Menores, membro da Arcdia de Roma, o seu 
programa no transcendia as possibilidades de um * dspota, esclarecido+, como

D. Joo V e depois D. Jos lhe devem ter parecido: a reforma necessria reduzr-se-
ia, primariamente, a um problema legislativo. No restam grandes dvidas de que 
recebeu do primeiro desses reis uma *particular ordem de iluminar a Nao em tudo o 
que pudesse+, o que deve relacionar-se, no apenas com a publicao do Verdadeiro 
Mtodo de Estudar, mas ainda com a preparao de uma longa srie de manuais 
didcticos para o ensino

mdio e superior. No entanto, neste como noutros casos semelhantes (j vimos, por 
exemplo, o de Castro Sarmento), o apoio dos governantes mostrou-se muito inconstante, 
sujeito a intrigas e incompreenses mesquinhas. Foi feito cavaleiro da Ordem de 
Cristo e secretrio do embaixador em Roma, mas este mandou-o prender, esbulhar dos 
bens e obrigou-o

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a exilar-se perto de Pisa. Endividou-se para publicar os folhetos de resposta aos 
impugnadores do Verdadeiro Mtodo e alguns dos seus manuais didcticos, ao sabor do 
acolhimento ocasional que eles iam recebendo na universidade pombalina e nas de 
Itlia. Em
1765-66 vemo-lo sustentando uma interessante correspondncia em italiano (oito 
cartas, ao todo), parece que com um funcionrio da Secretaria dos Negcios 
Estrangeiros, para, entre outras recomendaes, sugerir dois extensos programas 
legislativos.

Nessas oito cartas notveis insinua-se amide que os reis no so donos, mas simples 
administradores que s se justificam pelo progresso material e espiritual que trazem 
aos povos; que o trabalho governativo deve executar-se com o assentimento da opinio 
pblica e com o esprito de colaborao e de crtica recproca entre os seus 
responsveis, devido  *ineficcia da mente humana para ver tudo por si+. Preconiza a 
regulamentao laica da Inquisio, com extino dos autos-de-f, dos processos 
secretos, tormentos, delaes por judasmo e condenaes irrisrias por pacto com o 
Diabo; a simplificao da Censura; o barateamento do crdito  pequena agricultura e 
 indstria; a laicizao do professorado; medidas para restringir o clero regular e 
as suas propriedades; a simplificao, barateamento e racionalizao da justia; o 
ensino primrio obrigatrio, at nas

pequenas povoaes; incentivos legais a favor do esprito associativo; o 
desencorajamento legal dos preconceitos linhagistas e rcicos; etc. Neste campo 
genrico, tal como no da pedagogia, pode dizer-se que o marqus de Pombal foi o 
executor do programa de Verney e, em geral, dos * estrangeirados+, na medida em que 
tal programa no excedia as condies sociais e ideolgicas do absolutismo pombalino, 
com o seu conceito novo de aristocracia dirigente. No entanto, quando da morte de D. 
Jos, Verney, j envelhecido e gasto, sente-se com o direito de apresentar uma 
Relao das perseguies e ingratides que sofreu por parte dos ex-dirigentes. Antes 
de morrer, recebe uma penso anual,  elevado a scio correspondente da nova Academia 
Real das Cincias e a deputado honorrio da Mesa de Conscincia e Ordens, 
compensaes tardias dos seus esforos de *iluminao+ do Pas.

Alm do Verdadeiro Mtodo de Estudar, de um seu resumo, ou Sinopse, publicado em 
francs e latim, de quatro folhetos polmicos em sua defesa, de numerosa 
correspondncia para D. Jos, personalidades influentes e intelectuais como Muratori, 
parece ter produzido, e em grande parte publicado, uma srie de manuais escolares que 
abrangem todos os estudos mdios e superiores, com excepo de Medicina. A edio, em 
1751, da sua Lgica provocou tambm polmica por parte dos Jesutas.

As ideias pedaggicas de Verney


Como j ficou apontado, o propsito essencial do Verdadeiro Mtodo de Estudar  a 
critica das instituies pedaggicas tradicionais, ento dominadas pelos Jesutas e 
impregnadas de esprito escolstico. Verney percorre os diversos graus do ensino, que 
eram ento: a) a aprendizagem prtica da lngua materna; h) a Gramtica, isto , o 
estudo

5. a POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                                      
    599

da Lngua Latina (trs anos em teoria); c) Humanidades (dois anos, segundo a Ratio 
Studorum jesuta), Grego e Hebraico, o que na prtica se reduzia, em geral, a dois 
anos de Latinidade; d) Retrica, isto , composio literria e anlise de textos 
literrios em latim (dois anos normalmente); e) Filosofia, ou seja, estudo dos 
tratados filosficos e

cientficos de Aristteles (trs ou quatro anos); f) as quatro faculdades superiores: 
Teologia, Direito Cannico, Direito Civil, Medicina. A alnea a) constitua o ensino 
elementar; as alneas b), c) e d) constituam os Estudos Menores; as alneas e) e f) 
constituam o ensino superior, devendo a e) considerar-se como preparatria.

Segundo esta ordem, a Carta I de Verney estabelece a norma de que se principie a 
exercer anlise gramatical na lngua materna, e no na latina, como geralmente se 
fazia; preconiza uma ortografia radicalmente snica,  maneira do italiano ( a 
ortografia usada no Verdadeiro Mtodo); requer o banimento dos vocbulos obsoletos, 
e, por outro lado, a introduo de vocbulos necessrios  expresso abstracta, como 
*pensar+, * juzo+, *entendimento+, *talento+, nos significados com que de facto 
acabariam por consagrar-se. As Cartas Il-III versam o ensino do Latim, criticando o 
mtodo predominante gramatical, e especialmente a Gramtica do padre Manuel lvares 
(redigida em latim e to

complexa, que o seu uso exigia a preparao de numerosos cartapcios e explicaes 
complementares), e a preocupao de usar exclusivamente o Latim como instrumento 
escrito e oral de cultura.

Quanto ao ensino das Humanidades, as Cartas IV-V, alm dos estudos hebraicos para os 
telogos, e de estudos helenistas para telogos, mdicos e juristas (estudos que 
tinham decado muito em Portugal), apontam a necessidade de aprender nas escolas as 
lnguas modernas de cultura adiantada, que se generalizavam cada vez mais, 
recomendando em especial o Francs e o Italiano.

No domnio do Direito Civil e Cannico, Muratori inspira a Verney o desejo de 
profunda racionalizao e simplificao dos cdigos e dos processos jurdicos, no 
sentido

de os aproximar do Direito Natural. Da a sua critica ao preconceito quase feiticista 
a

favor do Cdigo Justiniano ou do Decreto de Graciano, cujas ambiguidades, omisses e 
limitaes de condicionalismo histrico denuncia.

Quanto  Medicina (Carta XII), Verney parte da crtica ao verbalismo da filosofia 
escolstica, e principalmente  teoria dos espritos que, segundo Galeno, animavam as


funes biolgicas. 0 atraso da medicina protuguesa era grave: reiterara-se por 
incio do sculo XVIII a velha proibio de praticar a observa o anatmica em 
cadveres humanos, retrocedendo-se assim relativamente ao Estatuto Conimbricense de 
1597, e por isso (diz Verney) todo o aprendizado se fazia sobre dois carneiros que 
anualmente se abriam

para o efeito; quase no havia prtica hospitalar ou outra para os futuros mdicos e 
cirurgies; certas operaes eram confiadas a barbeiros-sangradores.

Como remate, na Carta XVI, alm de fornecer informaes mais precisas sobre todo o 
currculo escolar geral, Verney aponta diversas necessidades em matria de ins-

600                                              HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

truo: deveriam existir escolas elementares *em cada rua grande ou ao menos bairro+; 
deveriam proibir-se praxes goliardescas e medievais, como a perseguio aos caloiros

e o espavento conferido aos actos de graduao universitria; a universidade e 
qualquer estudo pblico teriam a porta aberta a quem quer que quisesse assistir s 
aulas; a preparao do baixo clero mereceria mais cuidados; era preciso criar um 
colgio para nobres.

Particularmente notvel  o que diz acerca das vantagens de se instrurem as 
mulheres: *Pelo que toca  capacidade,  loucura persuadir-se que as mulheres tenham 
menos

que os homens+. A instruo feminina seria preciosa para poderem ser boas educadoras, 
governar bem a casa, elevar-se mentalmente, e ainda por mais esta razo: *Persuado-me 
que a maior parte dos homens casados que no fazem gosto de conversar com as 
mulheres, e vo a outras partes procurar divertimentos pouco inocentes,  porque as 
acham

tolas no trato; e este  o motivo que aumenta aquele desgosto que naturalmente se 
acha

no contnuo trato do marido e mulher+. Em Portugal, diz Verney, *os homens quase as

consideram como animais de outra espcie+.

As ideias de esttica literria de Verney

Vamos agora extrair do Verdadeiro Mtodo de Estudar a doutrina que mais directamente 
interessa  arte literria. Encontramo-la especialmente tratada nas cartas V, VI, 
referentes ao ensino da Retrica, e na VII, que tem como assunto a pedagogia da 
Potica.

Quanto ao ensino da Retrica (cartas V e VI), Verney critica a concepo barroca 
segundo a qual a Retrica consistiria no rebusque de afectao e singularidade; a 
Retrica era, sim, indispensvel, mas como *perspectiva da razo+ baseada em *exaco 
e propriedade+, isto , como arte de nos exprimirmos ordenada e convincentemente. 
Passa em revista numerosos exemplos tirados da eloquncia acadmica e, 
principalmente, da eloquncia sagrada portuguesa, sobretudo do padre Antnio Vieira, 
para denunciar o raciocnio superficialmente alegrico e analgico, as subtilezas 
sofsticas na interpretao de passos bblicos isolados do texto, o abuso das 
*prefiguraes+. Depois de expor uma classificao fundamental das figuras, dos 
estilos e dos ornamentos do discurso, o autor remata este assunto com uma apreciao 
de conjunto, desfavorvel, sobre a obra e personalidade do padre Antnio Vieira.

Mais importante, para o nosso ponto de vista,  a carta VII. Verney toma, perante a 
poesia, uma posio que , fundamentalmente, a do horacianismo

5. a POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                               601

clssico e francs e do Iluminismo, mas deixando-se conduzir a contradi- es que 
Boileau, Muratori ou Luz n haviam procurado ladear. Segue-os tomando como ponto de 
partida a teoria aristotlica da mimese, e sustenta que a poesia, como qualquer forma 
de arte, no passa de uma reproduo da natureza dentro das condies de um material 
artstico determinado, nomeadamente o material lingustico: *a poesia  uma viva 
descrio das coisas que nela se tratam+. Est ainda dentro da teoria clssica quando 
identifica os *ditames da natureza+ com os da *boa razo+, afirmando: *um conceito+ 
que no  justo nem fundado sobre a natureza das coisas no pode ser belo+. No 
entanto, Verney pe reservas  imitao dos Antigos, que para Boileau resulta como 
corolrio da imitao da natureza, da qual eles haveriam sido os imitadores por 
excelncia: *ainda que fossem os nossos mestres, no os devemos seguir com os olhos 
fechados, mas abraar neles o que n o repugna  boa razo+.

Seriam duas as faculdades caractersticas do poeta: *engenho e juzo+, quer dizer, 
inspirao e senso crtico. 0 racionalismo rgido, mecanicista, de Verney no se 
limita a repreender as *parvoces+ ou *rapaziadas+ barrocas, como os acrsticos, os 
consoantes forados, os cronogramas, os ecos, labirintos, etc.; no se contenta com 
proscrever tudo o que seja obscuro, inverosmil ou *arrastado+, mas, em nome da 
coerncia da crena crist, condena mesmo o uso da mitologia, salvo em poemas 
burlescos, e sustenta

que *o que nada significa em prosa, muito menos significa em verso+. Sente-se que 
Verney no sabe como arrumar a poesia no seu mundo s mobilado de utilidades e de 
evidncias geomtricas, em que  intuio e  afectividade mal se reconhece um papel 
contguo ao da razo. Tal perplexidade revela-se bem ao dizer que a poesia *nada mais 
 que uma eloquncia mais ordenada+, o que afinal a no distingue da *falsa 
Retrica+, a Retrica redundante, que anteriormente opusera  <@verdadeira Retrica+ 
(*arte de persuadir+). E volta a revelar-se no facto de sustentar a tese de 
inutilidade da poesia: *no  coisa necessria na Repblica;  faculdade arbitrria e 
de divertimento+ - o que se ope ao ponto de vista clssico de Aristteles, Horcio, 
Boileau, Muratori, Rollin, Luzri, etc., que Cndido Lusitano, na Arte Potica, 
retoma, polemizando ostensivamente com Verney.

0 radicalismo do Barbadinho, neste ponto, corresponde, melhor do que a tese 
tradicionalmente clssica, ao fundo da ideologia iluminista; o sculo

602                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

XVIII  reconhecidamente pobre de poesia, pouco propenso a emocionar-se

em literatura fora da comdia ou da novela moralista de costumes - um sculo

de versos directa e indirectamente doutrinrios ou ento de ma-rivaudage, anlise dos 
meandros do amor, at  altura em que surgem Rousseau, o sentimentalismo, o Sturm und 
Drang. De resto, em Verney no se trata apenas de uma perplexidade doutrinria; h 
nele tambm, ou uma excessiva presuno didctica, ou uma notria incapacidade de 
adequar a sua anlise crtica ao nvel das obras que critica.

Assim acontece quando aplica aos mais clebres sonetos de Cames, Sete anos de pastor 
Jacob servia e Alma minha gentil, a mesma bitola de exigncias que impe s poesias 
de Jernimo Baa e Antnio das Chagas, como

se a ambiguidade do adjectivo *longo+ no desfecho do primeiro soneto e a

do advrbio *cedo+ no desfecho do segundo se pudessem pr no plano dos trocadilhos 
formalistas. A mesma presuno, a mesma rigidez mecanicista de anlise se verifica 
nas consideraes que exprime a propsito de Os Lusadas. As suas observaes seriam 
sem dvida pertinentes, se viessem enquadradas num juzo de valor que tivesse em 
conta as intenes mais subtis do poeta e as suas condies histricas. Verney pensa, 
por exemplo, que Cames *errou [... 1 em no sustentar sempre o carcter e grandeza 
do seu heri, que baixa sensivelmente no canto VIII, do meio para diante+; critica o 
carcter colectivo e complexo daquilo que o poeta se prope cantar; etc. Tais juzos 
so aceitveis apenas na medida em que o poema camoniano seja aferido pelos moldes 
homricos da epopeia e, como vimos, tal equvoco existe no

prprio esprito de Cames; mas Verney (como antes dele Galhegos, o espanhol Nicolau 
Antnio, os franceses Moreri, Rapin e Voltaire) no v o que Cames insuflou de novo 
num gnero j academizado. Encara a epopeia como uma categoria natural e fixa da arte 
literria. A mesma incompreenso manifesta a propsito da comdia espanhola, 
aferindo-a,  claro, por uma concepo francesa da comdia clssica.

Verney contribuiu fortemente para o descrdito que atingiu duramente mais de um 
sculo a poesia barroca. Esta, e especialmente a de Gngora, veio a ser reabilitada 
no sculo XX e reconhecida como precursora dos simbolistas e correntes que se lhes 
seguiram. De qualquer modo, como notmos, a teoria verneyana da palavra e do discurso 
 inadequada  poesia, tal como hoje a conhecemos.

5 - POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                                       
     603

Iderio filosfico de Verney (cartas V111-XI)

0 esprito de Verney est formado dentro do agnosticismo de Locke, e por isso elimina 
dos quadros do conhecimento vlido e do currculo escolar tudo aquilo que designa 
como *Metafsica+. Deve notar-se que tal repdio da Metafisica no exclui uma sumria 
fundamentao da Lgica e do Direito Natural, alm de uma tambm sumria demonstrao 
da existncia de Deus e da Alma, em moldes que no sculo XIX se considerariam 
manifestamente *metafsicos+, embora, dentro da sua difcil posio de iluminista 
catlico, Verney tenda a aceitar os dogmas religiosos por um simples acto de f que 
nada tem que ver com o conhecimento cientfico, negando validade a qualquer esforo 
escolstico de os racionalizar. 0 seu conceito iluminista da Filosofia define-se em 
frases como: *Filosofia  conhecer as coisas pelas suas causas, ou conhecer a 
verdadeira causa das

coisas+. Noutra definio dada por Verney est ainda mais claro o agnosticismo 
lockiano, embora s preocupaes cientficas se acrescentem preocupaes ticas: *A 
Filosofia  o conhecimento das coisas que h neste mundo [repare-se bem: neste mundo] 
e das nossas mesmas aces e modo de as regular para conseguir o seu fim+. H que ter 
em conta

que, segundo a sistematizao pedaggica medieval, ainda vigente na poca de Verney, 
se entendia por *filosofia+ o estudo da parte cientfica da obra de Aristteles.

Verney repele quaisquer *hipteses+ na cincia, e afirma: *Este  o sistema moderno: 
- no ter sistema+. Deve tambm considerar-se como caracteristicamente iluminista a 
concepo cartesiana de que os fenmenos biolgicos se reduzem inteiramente aos 
mecnicos. 0 nosso autor, por influncia da descoberta da circulao do sangue por 
Harvey, exprime tal concepo nos seguintes termos: *o corpo do animal  uma mquina 
hidrulica maravilhosa, a qual pode viver muito bem sem alma inteligente+. A verdade 
 que tal mecanicismo representa urna fase cientfica superior  do animismo de 
Galeno, contra o qual reage, e a sua estreiteza s viria a ser ultrapassada com a 
qumica orgnica, o transformismo e outros progressos cientficos do sculo XIX.

Na condenao da Escolstica atinge Verney muitas das suas expresses mais 
eloquentes. Repare-se, por exemplo, neste juzo global:

*Este  o comum vcio dos Aristotlicos: toda a sua Fsica  mistrio; so 
altssinias contemplaes, cobertas com o vu de palavras pouco comuns e fora do 
significado usual. Se V. P. traduz em portugus uma opinio peripattica, perde 
metade da sua fora; se a chega a explicar e lhe pede a razo de cada parte, perde-a 
toda.+

Iderio social de Verney

As cartas X1, XIII, XIV, XV ocupam-se da tica, Direito Civil e Cannico e Teologia: 
trata-se de assuntos contguos, embora Verney se cinja sempre  ordem ento 
convencional. 0 alicerce em que toda a sua exposio assenta  a teoria da existncia 
de

604                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

um Direito Natural e das Gentes, compreensvel pela razo independentemente da 
Revelao divina, segundo o pensamento de Grcio e Puffendorf.

0 cunho burgus da sua tica manifesta-se numa acerada critica da nobreza de sangue: 
*Os homens nascem todos livres e todos so igualmente nobres [        ... 1. Os 
homens insignes  que so os verdadeiros nobres+. Frisa que o prestgio da fidalguia 
titular mal ultrapassava fronteiras, *no assim os cargos e o dinheiro, que sempre 
conseguem a mesma estima+,

Signiricado do Verdadero Mtodo

No seu conjunto, o Verdadeiro Mtodo de Estudar apresenta um certo nmero de

caractersticas notveis. Em primeiro lugar, a linguagem  franca, objectiva, sem 
rodeios

nem incidncias de humor: chama *parvoce+, *rapaziada+, *ignorncia+, *idiota+ ao 
que lhe parece. Depois, mede todas as questes pedaggicas segundo o critrio da 
utilidade prtica, o rendimento social efectivo dos estudos. No tem qualquer 
preconceito exclusivista de superioridade, nem do trabalho intelectual relativamente 
ao manual, nem da inte~ ligncia masculina relativamente  feminina, e por vrias 
vezes exprime a convico de que, nas mesmas condies de vida e de escolaridade, 
negros ou amerndios valeriam como brancos.

A sua preocupao de formular os problemas de um modo impessoal, sem ferir 
susceptibilidades particulares, de expor com clareza, de ministrar indicaes teis 
(por exemplo, a bibliografia crtica como remate de cada assunto), autenticam uma 
profunda convico de propsitos. A sua condio de sacerdote no o impede de 
denominar como

*sculo da ignorncia+ o perodo de apogeu da Contra-Reforma na Pennsula, e de 
rejeitar a veracidade do milagre de Ourique com um sculo de antecipao sobre 
Herculano. Luta esforadamente contra toda a espcie de argumentao sofstica: 
contra os apodos de heresia e de estrangeirizao com que se procurava entre ns 
correr tudo o que ento fosse progressivo; contra o argumento que visa a pessoa, em 
vez de visar a doutrina@ contra o argumento da autoridade, o pensar por ouvir dizer, 
e contra o querer-crer.

Muitas exigncias de Verney conservam plena actualidade normativa, como as que se 
referem  necessidade de determinar o alcance exacto de uma lei, de um facto 
religioso ou outro, de uma posio doutrinria qualquer pelas suas condies 
concretas de ordem geogrfica, cronolgica ou institucional. Para combater o 
dogmatismo dentro da esfera cientfica, impe que ao estudo de cada disciplina se 
associem umas noes sobre a respectiva histria - sendo o Verdadeiro Mtodo de 
Estudar o primeiro livro portugus em que se fazem muitos desses esboos histricos.

No entanto, o livro, se por um lado revela uma intensa e larga curiosidade 
intelectual, por outro lado pouca originalidade apresenta dentro de uma perspectiva 
curopeia do Iluminismo. As fontes de grande parte do seu encadeamento ideolgico 
esto determinadas por Antonio Salgado Jnior e outros investigadores, tendo alis 
sido reconhecido

5. @ POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                                      
   605

esse grande dbito por parte no autor, em resposta polmica aos seus detractores que 
o acusaram de plgio: Rollin para o ensino da lngua moderna, Bernard Larny para a

Retrica, Rapin para a Potica, Locke e Genovesi para a Lgica, Boerhave para a 
Medicina, Muratori para a Jurisprudncia, Fnelon para a educao das mulheres, etc. 
0 seu grande mrito consiste em sumariar e reunir o que ent o havia de mais 
renovador em

muitos sectores da cultura europeia.

Ampliao e modulao da crtica iluminista

Depois de entrada a segunda metade do sculo XVIII, em pleno governo pombalino, os 
problemas culturais e literrios passam a formular-se num

mbito diferente. A Arcdia Lusitana, como veremos, aponta novos rumos  poesia e ao 
teatro, iniciando uma srie de tenteios que acabaro por preparar o Romantismo. So 
ainda certos *estrangeirados+ quem dirige o avano, e estes, apesar da rdea dura do 
Marqus, tm maneira de extravasar dos assuntos econmicos e pedaggicos para 
abranger as crenas e instituies.

0 regalismo, que veio combater violentamente e vitoriosamente o ultramontanismo, 
continua a aco deste no sentido de manter o sentimento religioso dentro de frmulas 
superficiais e passivas, embora com outro sentido, porque para Pombal, corno para 
muitos iluministas, a religio era uma forma de manter e consolidar a ordem civil. 
Esta atitude oficial corresponde, de resto, a um apagamento da conscincia religiosa. 
Os novos

movimentos ideolgicos principiavam a ser canalizados para fora da religio. Datam de 
ento as primeiras stiras anticlericais modernas, como veremos. J no tempo de D. 
Joo V a Inquisio julgara os primeiros membros de lojas da franco-maonaria, que 
principiam a surgir dentro da colnia estrangeira de Lisboa.

Entre os iluministas que com o regime pombalino exultam e concebem novas aspiraes 
conta-se Ribeiro Sanches. As Cartas sobre a Educa o da Mocidade, de que j falmos 
como fonte mais directa de inspirao do Colgio dos Nobres, foram redigidas em meio 
do entusiasmo suscitado no autor pelo alvar que criou um esquema laico de ensino, em 
substituio dos Estudos Menores dos Jesutas expulsos. 0 seu alcance ultrapassa, 
como dissemos, o problema da educao da nobreza, apenas tratado no final

do livro.

Ribeiro Sanches j fundamenta a soberania rgia e a organizao da sociedade na

teoria do pacto entre o soberano e os sbditos, cabendo ao *jus de Majestade+, entre 
outras coisas, a funo do *Primeiro Sacerdote da Religio Natural+, e restando aos 
sbditos a propriedade dos seus bens, que seria intangvel, e a Aiberdade interior+ 
de opinio. pois conta com uma monarquia fortemente centralizada e at militarizada 
para a realizao das drsticas reformas necessrias. Da deduz a igualdade poltica 
e civil (no a

606                                                    HISTRIA DA LITERATURA 
PORTUGUESA

econmica) entre todos os cidados e, portanto, a ilegitimidade dos privilgios da 
nobreza hereditria. Os morgados seriam um *destrutivo invento+.

0 mais vivo gume da sua crtica est, porm, virado contra o clero. Baseando-se

sobretudo na Histria Eclesistica do galicano abade Fleury, censura que, a partir de 
Constantino, a Igreja tenha constitudo, como diz, *a sua monarquia dentro do Estado 
Civil+, e exige a subordinao do Direito Cannico ao Direito Civil e a completa 
laicizao de todo o ensino e das funes pblicas. Condena toda a interferncia 
eclesistica do Estado, e especialmente a intolerncia inquisitorial em coisas de 
religio, com execues capitais e penas de confisco, atribuindo a decadncia 
portuguesa  emigrao dos capitais cristos-novos para a Holanda, Alemanha e 
Inglaterra. Preconiza uma reforma da Universidade

no sentido de se distinguirem as Faculdades civis das eclesisticas (Cnones e 
Teologia), devendo estas ser sustentadas, no pelo Estado, mas pela Igreja. Banir-se-
ia toda a Escolstica, *produto dos sculos da ignorncia, do cio dos frades, depois 
que deixaram o

trabalho das mos que ordenava a sua regra+.

Ope ao tipo da *monarquia gtica+ (feudal), de que ainda permaneciam vestgios em 
Portugal, o tipo da *nionarquia moderna+ (mercantil), assente *no trabalho e na 
indstria+. Para o advento completo deste ltimo tipo mais progressivo de organizao 
entre ns, considera necessrio tornar alienveis as terras vinculadas s famlias 
nobres e instituies eclesisticas, suprimir os servios e *banalidades+ feudais, 
instaurar o livre-cmbio econmico interno, extinguir a escravatura, as 
discriminaes religiosas e rcicas, e fornentar o progresso  base da concorrncia e 
do interesse individual: *o comrcio traz consigo a justia, a ordem, a liberdade+. A 
condenao dos privilgios feudais abrange, alis, todas as formas antigas e modernas 
de monoplio ou contrato exclusivo. E a decadncia de *este cadaveroso reino+  
insistentemente atribuda  orientao cruzadstica e proseltica da monarquia 
tradicional.


Todo este progressivismo, que em parte ultrapassa as realizaes pombalinas e 
prenuncia as reformas de Mouzinho da Silveira e Joaquim Antnio de Aguiar (1832-34), 
tem no entanto algumas limitaes hoje impressionantes. Assim, no sistema escolar que 
Ribeiro Sanches preconiza, elimina-se, expressamente, a existncia de escolas 
primrias nas pequenas terras rurais, *para que se evitasse a desero de profisses 
como jornaleiro, pescador, tambores, pastores+. Por outro lado, Ribeiro Sanches 
censura o sistema portugus de colonizao que faz de cada territrio *um pequenino 
Portugal+; nas colnias s deveriam tolerar-se a agricultura e o comrcio 
insusceptveis de concorrer com a Metrpole - e para todos os efeitos, inclusivamente 
o escolar, *uma colnia deve-se considerar no Estado poltico como uma aldeia a 
respeito da capital [        ... 1 para evitar [ ...1 que os sbditos nativos possam 
adquirir honras e tal estado que saiam da classe de lavradores, mercadores e 
oficiais@>.  tambm de notar que o nosso autor, livre-cambista quanto ao mercado 
interno, se ope a facilidades de importao concorrente.

Sob o ponto de vista escolar, alm de certas sugestes que j conhecemos, e de outras 
em que no nos deteremos, contra-indica o Latim nos cursos inferiores, pois o *Latim

5. - POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                                      
    607

 o passaporte para entrarem no Paraso terrestre, onde se come sem trabalhar+, isto 
, na linguagem de Sanches, para ingressar no clero regular ou para viver * 
cavalheira+.
0 seu esquema de ensino universitrio  mais revolucionrio que o de Verney ou o de 
Pombal e pode considerar-se, em certos pontos, precursor da reforma que s a 
Repblica viria a decretar em 1911.

O CAVALEIRO DE OLIVEIRA

 tambm no estrangeiro, pelos fins do reinado de D. Joo V e incios do regime 
pombalino, que um nobre portugus, Francisco Xavier de Oliveira (1702-1783), como 
quase todos os nobres educado pelos Jesutas e depois elevado a cavaleiro da Ordem de 
Cristo, renega a sua formao social e redige vrios depoimentos, sem originalidade 
nem

penetrao analtica, mas cheios de pitoresco e de ironia, acerca da vida portuguesa.

Acontecera ao *Cavaleiro de Oliveira+ ir ocupar na embaixada portuguesa em Viena o 
lugar de secretrio, vago por morte do pai. Viena era ento capital da frivolidade, 
da galantaria e do cepticismo *rococ+, e o nosso homem dissipou-se numa vida de 
aventuras e de intrigas burocr ticas, de que lhe adveio a demisso do cargo. 
Lentamente, com

a convivncia e com as leituras francesas e inglesas, penetra-se de dvidas e 
crticas sobre

os casos milagrosos, os frades mundanizados, as supersties portuguesas.  o que se 
verifica atravs das suas Cartas Familiares, escritas originariamente em italiano e 
francs, traduzidas e editadas com outras obras, em 1741-42, na Holanda, como ganha-
po de uma vida difcil. As suas observaes e memrias de assunto portugus esto 
rodeadas, por isso, de temas muito diversos, sobretudo ironias insinuantes, s vezes 
brejeiras, motivadas por episdios mundanos e pela sua psicologia da mulher, do amor 
e do casamento. Dispe dum inesgotvel anedotrio. Por vezes uma carta toda feita de 
anexins portugueses ou um assomo de bizarria cavalheiresca traem o elo entre o 
barroco peninsular e o rococ vienense ou francs; mas o seu esprito, a sua 
galantaria so to franceses como boa parte das construes sintcticas: *Que saiba 
Portugus, sempre o neguei, e

agora mais do que nunca+. Pensa, alis, que *0 Mundo  a ptria universal de todos os

homens. 0 desterro no  mais do que uma passagem feita de uma provncia para outra+.


Em 1751 Xavier de Oliveira converte-se  religio anglicana e procura viver da 
publicao mensal do seu Amusement Priodique em Londres. Renega a Ordem de Cristo. 
*0 povo ingls tem amor ao dinheiro e prefere uma burguesia rica a uma nobreza 
indigente.+ Embora em francs (hoje traduzida por Aquilino Ribeiro),  esta a mais 
interessante obra do autor, pelo que nos revela da mentalidade portuguesa em 
princpios do sculo XVIII. Excepto em querer manter a subordinao completa da 
mulher ao marido, como preceitua Manuel de Melo, que tanto admira e continua em 
certos aspectos, tomou-se um burgus europeu. Considera agora grotesco um fidalgo sem 
profisso; e compara Portugal a um relgio atrasado pela Inquisio, preconizando uma 
reforma da Igreja Lusitana. Escreve as Reflexes de Flix Vieira Corvina dos Arcos, e 
um Discours Pathtique a pro-

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psito do terramoto, obra de apologtica protestante, animado pela Tentativa 
Teolgica do padre Pereira de Figueiredo.

No Discours Pathtique (1756) pretende que o terramoto fora um castigo de Deus, 
irritado pelas supersties e idolatrias em que degenerara em Portugal o 
Cristianismo, e especialmente pela proibio da Bblia e pelo Tribunal da Inquisio. 
Foi por isso condenado  queima em efgie. Pombal - querendo impor a opinio 
iluminista de que o

terramoto fora um fenmeno puramente natural - sancionou a condenao, mas fez por 
outro lado condenar e queimar no mesmo auto-de-f (176 1) o padre jesuta Gabriel 
Malagrida, que, no seu Juzo Verdadeiro (1756), atribua tambm o terramoto ao 
castigo divino, mas por pecados diferentes, segundo o ponto de vista jesuta.

0 que o Cavaleiro de Oliveira tem de mais vibrante, alm das diatribes contra a 
transubstanciao eucarstica e o culto das imagens, e das aproximaes que procura 
fazer entre o paganismo e o catolicismo, so as memrias e reflexes autobiogrficas 
dispersas pelas Cartas e pelo Amusement, em especial as referentes ao seu meio de 
fidalgote lisboeta: a caa aos lobisomens, os tratos infligidos pela me s imagens 
milagreiras, o mundanismo dos enterros, os possessos, os sebastianistas, inquisidores 
recorrendo  benzedura contra o quebranto e o mau-olhado, e outros episdios 
grotescos do Santo Ofcio, ete. Graas a esses quadros, que Camilo e Oliveira Martins 
aproveitariam depois abundantemente, pode reconstituir-se muito da vida social 
portuguesa entre a poca da Restaurao, revelada pela Arte de Furtar, e o final do 
sculo XVIII, descrito pelos viajantes Hervey, Baretti, DaIrymple, Costigan, Murphy, 
e, sobretudo, Beckford.

MMATIAS AIRES e o sentimento de crise

 do estrangeiro que Verney, Ribeiro Sanches e o Cavaleiro de Oliveira vem as coisas 
ptrias e nelas procuram intervir. Temperamentos combati~ vos e colocados ao abrigo 
de represlias, dizem claramente o que entendem e sentem; no h grandes dificuldades 
em determinar o alcance fundamental das suas crticas e alvitres. 0 mesmo no 
acontece com alguns que viveram, escreveram e publicaram os seus livros sob o frreo 
absolutismo reinante em Portugal.  o que se verifica com Matias Aires Ramos da Silva 
de Ea (1705-1763).

0 pai de Matias Aires, embora talvez descendente de famlia nobre por bastardia, teve 
comeos humildes e viveu por duas vezes no Brasil, onde enriqueceu no comrcio, vindo 
a casar com mulher de ascendncia nobre e tornar-se figura proeminente. Enquanto o 
pai, fixando residncia em Lisboa (1717), ingressa na nobreza, atravs da Ordem de 
Cristo, e sobe de arrendatrio da alfndega do Rio de Janeiro at ao alto cargo de 
Provedor da Casa da Moeda (1722), o jovem Matias faz os *estudos menores+ no Colgio 
de

5. - POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                                      
  609

Santo Anto, e ingressa na Faculdade de Direito de Coimbra. Interrompendo o curso, 
vemo-lo, em 1728, a frequentar a corte madrilena, a encontrar-se em Baiona com o 
aventureiro infante D. Manuel, a aprender hebraico nessa cidade to cheia de judeus 
portugueses. Passando a Paris, demora-se o tempo suficiente para se graduar em ambos 
os direitos e aprender Matemtica, Fsica e Qumica experimentais com cientistas 
ilustres. Em 1733 regressa a Lisboa, e em 1744 ocupa o cargo do pai, falecido no ano 
anterior, depois de adquirir direito a braso de famlia.

De feitio *taciturno, sombrio, discursivo sempre e operativo nunca+ - como se 
caracteriza a si prprio -, de uma misantropia e de um egosmo que se devem ter 
agravado com a idade, Matias Aires  ao mesmo tempo um esprito analtico, educado 
por viagens, estudos actualizados e pela convivncia de uma roda de 
*estrangeirados@>, onde se

salienta Alexandre de Gustrio, cuja influncia, alis, se fez sentir tambm na sua 
irm, Teresa Margarida da Silva e Orta (a cujo romance didctico, de inteno 
feminista e liberal, Aventuras de Diffines, j fizemos referncia). 0 seu testamento 
menciona *vidros e instrumentos qumicos+, e o seu Problema da Arquitectura Civil, 
edio pstuma 1770, revela certa curiosidade pelas cincias naturais, embora ainda 
dentro de uma viso geocntrica e alheia  mecnica newtoniana. Pombal suspendeu-o do 
cargo em 1761, talvez devido s boas relaes que tinha com adversrios seus.

A impresso essencial de conjunto que se desprende da leitura das suas

Reflexes sobre a Vaidade pode resumir-se nisto:  uma obra que, mantendo certas 
feies do barroco peninsular, exprime contudo uma crise ideolgica de sensibilidade 
com profundas razes, ao ponto de, por vezes, atingir certas caractersticas do 
Romantismo, para alm e atravs da crtica iluminista. De barroco tem o seu tema 
aparentemente religioso, a sua composio sob a forma de sentencirio, o qual se 
dispe em torno do tema do Eclesiastes: *Vaidade das vaidades, tudo so vaidades+. 
Esta constru o a partir de um

tema central, sem verdadeiro desenvolvimento ensastico, acrescida ao evidente receio 
de tirar certas consequncias lgicas de um cepticismo alis radical, com ressalvas 
aparentemente respeitosas como a de que *s a vaidade dos Reis  vaidade justa+, e a 
um profundo cepticismo quanto ao mundo e quanto  natureza humana, marca a obra com 
um selo barroco. Na dedicatria e no texto deste, como doutros livros da poca, 
verifica-se mesmo uma

idolatria sem precedentes em torno da misso pretensamente providencial dos reis. 
Aspecto que se diria tambm denotar o apogeu da literatura barroca: um estilo 
extremamente puro, elaborado e exacto, verdadeira contrapartida, na reflexo 
filosfica, daquilo que Bernardes realizou no apotegma e no conto exemplar, mas em 
Matias Aires mais autenticamente clssico,


HLP - 39    .

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no sentido de que, pela perspiccia das suas anlises, esse estilo soa ainda hoje 
extraordinariamente actual e vivo. 0 estudo metdico desse estilo, feito por Jacinto 
do Prado Coelho, veio de facto confirmar o seu sentido ideolgico atrs apontado: os 
valores semnticos do seu vocabulrio mais significativo, as suas construes 
antitticas de frase podem ser considerados como recursos tipicamente seiscentistas 
usados no seu mximo requinte de gosto; mas alguns estratos lexicais e a naturalidade 
de certos anacolutos, a intensidade a que leva certos paradoxos permitem lig-lo, 
quer  sua informao cientfica iluminista, quer a uma esttica pr-romntica que 
adiante o veremos teorizar.

De qualquer modo, no h lugar para dvidas: Matias Aires recebeu as Luzes do sculo 
e, l onde podemos reconstituir o seu mais ntimo pensamento, encontramos minadas as 
bases ideolgicas do absolutismo e de todas as relaes feudais. Na parte final do 
livro, aquela em que pe mais ardor pessoal e mais flego de exposio, ataca a 
clausura forada das mulheres nos conventos e o preconceito do sangue, dois temas que 
naturalmente interessam de um modo muito particular ao irmo de Teresa Margarida da 
Silva e Orta, autora das Aventuras de Diffines, ao filho de um homem que, antes de se 
enriquecer e brasonar, foi criado de servir e comerciante de balco.

Eis algumas das reflexes que dedica ao primeiro destes temas: *Nas mulheres a 
injustia dos homens lhes tira a liberdade assim que nascem, e pouco depois lhes tira 
a formosura o tempo [... 1. Assim como no h ferros no entendimento tambm os no h 
para o corao; este, ainda no meio da violncia e da tirania, sempre se conserva 
isento e livre [... 1. As palavras sem teno no formam sacramento, o que se fez por 
temor no obriga; um sacrifcio involuntrio  sacrifcio de sangue, e Deus no se 
agrada j de holocaustos+ (repare-se na ironia deste *j+). Quanto aos privilgios de 
linhagem, basta mencionar um perodo: *a nobreza foi a maior mquina que a vaidade 
dos homens inventou+. No final da vida d no entanto sinais de aceitar os 
preconceitos do sangue a que tanto opusera o simples mrito pessoal.

Se no conhecssemos as condies em que se formou a cultura do autor, bastava notar 
o relativismo, o cepticismo que se desprendem constantemente das suas anlises 
psicolgicas, morais e sociolgicas, para se poder diagnosticar uma vivncia de crise 
quanto ao munto circundante. A atitude de Matias Aires sob o regime pombalino 
assemelha-se muito  de Montaigne na Frana quinhentista, com a sua reivindicao de 
liberdade interior,

5. - POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                             611

escudada atrs de um cauteloso cepticismo: *o pensamento, enquanto no sai da sua 
esfera, tem uma liberdade inteira, impenetrvel e muitas vezes invencvel. Creia, 
pois, a Grandeza o que quiser de si, porque tambm ns havemos de crer dela o que 
quisermos+.

A maior parte das Reflexes exprime uma profunda convico, que  a da relatividade 
de tudo o que se passa na vida psicolgica e moral: tudo se pratica (mesmo as boas, 
as hericas aces) para lograr a estimao dos homens, para adquirir uma boa 
reputao qualquer; os afectos, as dores, a vida ntima, enfim, tm uma quota-parte 
da vaidade, isto , de fingimento ou autofingimento destinado a obter, ou a imaginar 
que se obtm, determinados efeitos sociais; de resto, tal vaidade  uma conveno 
social indispensvel, *h vcios necessrios a certos homens, assim como h virtudes 
imprprias em outros+; a caridade e sobretudo a gratido so quase meramente 
exteriores, pois que *aborrecemos a quem remiu a nossa vexao, s porque ficou 
conhecendo+; o gosto e o pensar, a vaidade e a humildade so estados de alma 
complexos, que em si contm sempre os seus contrrios, visto que as reaces 
psicolgicas mais espontneas se complicam com a conscincia, que se no pode deixar 
de ter, dos seus efeitos nos outros. Eis algumas amostras desta anlise to 
penetrante: *a virtude maltratada encontra alvio na mesma persecuo [perseguio], 
porque a vaidade lhe sugere em si a imagem de um martrio [  ... 1. 0 merecimento 
desprezado entra na vanglria de crer que todos reparam no descuido do prmio [.. .1 
. Vaidade  um vcio que serve a moderar ou impedir os outros+. De tais premissas 
psicolgicas, Matias Aires deduz logicamente a concluso tica de que algo de vicioso 
 sempre inerente  virtude, algo de injusto  justia, e vice-versa.

 claro que um senso to agudo das contradies psicolgicas e morais pode, at certo 
ponto, considerar-se um mero aspecto da teologia barroca, pois o autor,  primeira 
vista, parece ficar ao simples nvel em que se constatam as contradies e 
contingncias do humano, para se lhes opor o absoluto de Deus. Mas devemos notar que 
outros aspectos do alcance concreto de tal anlise se descobrem, como vimos, na parte 
final do livro.

A verdade  que Matias Aires no faz da vaidade um simples equivalente de vandade ou 
de presuno, pois no se cansa de a definir em funo da vida em sociedade, em 
funo do quadro de valores morais que  indispensvel  mantena de tal ou tal 
estrutura de relaes entre os homens.

612                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Por isso, denunciando tudo quanto h de vo e mudvel em todo o mundo psicolgico e 
moral, Matias Aires denuncia, implicitamente, o carcter no-natural, contraditrio e 
instvel de uma dada sociedade - em especial, da sociedade semifeudal a cuja 
desagregao assiste no campo religioso e nobilirquico. Pessoalmente, a reaco 
caracterstica era de retraimento, isolamento, recolhido na quinta de Agualvo, perto 
de Belas, e de exame especulativo: *no sei se seria mais til ao homem o ser 
incomunicvel+. 0 seu conceito de *vaidade+, ou seja, da qualidade do que  vo, 
condu~lo implicitamente a uma doutrina psicolgica segundo a qual tudo pensamos e 
fazemos em funo do amor-prprio, do impulso de dominarmos ou nos sentirmos 
dominantes, o que prenuncia a teoria psicanaltica de AdIer.

Eis porque se encontram em Matias Aires estigmas de Romantismo, de pessoalismo 
doentio, de gosto pelo que na natureza h de assimtrico, de belamente disforme, de 
belo fora dos padres artsticos convencionais: * A mesma desordem e confuso das 
coisas nos recreia; o furor dos elementos forma um espectculo perfeito [    ... ] a 
formosura at se sabe introduzir na fealdade, no espanto+. Isto parece teorizar um 
gosto pr-romntico que surpreenderemos em Joo Xavier de Matos. E  curioso como 
este filsofo relativista atribui, excepcionalmente, um valor absoluto ao amor: *amor 
vem por natureza, a vaidade por contgio+; as suas Reflex es sobre o amor pare~ cem 
embevecidas;  precisamente em nome da liberdade de amar que ataca a elausura 
compulsria das raparigas em conventos: o amor (ou antes, Amor, personificado, sem 
artigo e ainda mitificado) teria, ao invs de todos os outros sentimentos, um 
fundamento inteiramente objectivo, a *formosura+ . Matias Aires sentiu pelos trinta 
anos um amor tolhido por preconceitos nobres, e

parece nunca depois ter ligado muito a afectividade e a paternidade aos laos de um 
casamento.

Notemos, finalmente, o que talvez seja a prova mais evidente de que Matias Aires 
sentia, no apenas as contradies, mas tambm o seu movimento interno. Com efeito, 
as Reflexes apresentam-nos frmulas lapidares da lei do dinamismo essencial do 
mundo: *a natureza no se conserva e dura seno porque se muda e move [    ... 1. No 
h nada isento de revolues e alteraes no Mundo [   ... 1. 0 movimento, a mudana 
de que depende o ser das cousas, tambm  princpio do fim delas+.

Passando do problema do ser ao problema do conhecer, deparamos com uma atitude 
semelhante.  certo que o que salta  primeira vista  um cepti-

5 >POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                                        
   613

cismo radical, quanto s cincias e especialmente quanto  histria; mas, vendo mais 
atentamente, verifica-se que o cepticismo S  radical quanto s pseudocincias que 
se reduzem a disputas estreis, quanto  *certeza da cincia+ que se funda na 
*certeza da cadeira+ magistral, quanto ao magister dixt escolstico. E isso dedu-lo 
Matias Aires da derrota infligida ao silogismo pelas matemticas e pela 
experimentao. *0 que a cincia nos traz  sabermos errar com mtodo+, diz; mas a 
*vaidade que resulta da cincia  vaidade de homens livres+. Porque h erros 
fecundos: *ainda nas verdades

h algumas que o homem no pode alcanar seno pelo caminho do erro...

1. E para acertar tambm  necessrio primeiro o desacerto+.

Embora se no alargue muito mais, no h dvida de que Matias Aires sentia o carcter 
dinmico, dialctico das relaes entre a verdade e o erro,

como o das relaes entre o ser e o no-ser, entre os diversos fenmenos psicolgicos 
e as contradies dos juzos morais.

1111116116-f106,AFI-4

1. Textos

Cunha, D. Lus da: Testamento poltico, 1820; ed. moderna, com pref. e notas de 
ManueUM-endes, *C_adernos da Seara Nova+, Lisboa, 1943. Memrias e outros escritos de 
D. Lus da Cunha, por Lus Ferrand de Almeida, *Arquivo de Bibliografia Portuguesa+, 
Vil, n.os 25-26, 1961.

Brochado, Jos da Cunha: Memrias, antologia por Mendes dos Remdios na col. 
*Subsdios para a Histria da Literatura Portuguesa+; a ed. do texto integral das 
Anedotas e Memrias da Corte de Frana esteve, como j vimos, em curso de publicao 
na revista *Vrtice+, com notas de J. Sousa Mendes (Lus de Albuquerque), desde o

n. 107 (Julho de 1952).

Gusmo, Alexandre de: Coleco de vrios escritos inditos, Porto, 1841, seguida de 
um Complemento dos inditos, Porto, 1844; anteriormente os ensaios mais interessantes 
haviam sido publicados no *Investigador Portugus em Inglaterra+, no *Panorama+ e 
outras revistas; ed. moderna e crtica, Corteso, Jaime: Obras Vrias de Alexandre de 
Gusmo, Rio de Janeiro, 1950; Cartas, com intr. de Andre Crabb Rocha, lN-CM, 
1981Verney, Lus Antnio   Verdadeiro Mtodo de Estudar, 1. > ed. Npoles, 1746, 
apreendida pelo Santo Ofcio; 2.  Npoles, 1747 ou 1748, mas datada de Valena, 1746; 
3. > ed., impressa clandestinamente em Lisboa, cerca de 17 5 1, mas datada de 
Valena, 1747;

4. > ed. crtica, por Antnio Salgado Jnior, para a col. *Clssicos S da Costa+, 5 
vols.,
1949-52, incluindo o texto francs da Sinopse; vrias cartas e documentos encontram-
se publicados nos Apndices dos livros Um *fluminista+ portugus do sculo XVIII: 
Lus Antnio Verney e Estudos da Histria do Direito, vol. lii, por Cabra] de 
Moncada, adiante

614                                                     HISTRIA DA LITERATURA 
PORTUGUESA

referidos. A bibliografia dos manuais escolares de Verney pode ser lida na referida 
ed. crtica do Verdadeiro Mtodo. A bibliografia dos folhetos polmicos pode ser 
vista no Dicionrio de Inocncio e na Histria da Literatura Portuguesa Ilustrada, 
vol. lii, pp. 275 e 276. Mas a todos estes respeitos ver informaes mais completas e 
actualizadas, alm de epistologia e numerosos documentos, na obra bsica de Andrade, 
Antnio Alberto de: Vernei e a Cultura do seu Tempo, ed. *Acta Universitatis 
Conimbrigensis+, 1966.

Sanches, Ribeiro: Cartas sobre a educao da mocidade,          1 . aed. Colnia, 
1760; reed. incompleta na *Revista da Sociedade de Instruo do Porto+, 1882-83; 
reed. rev. e pref. por Maximiano Lemos, Coimbra, 1922. Obras, ed. por Joaquim de 
Carvalho, Imprensa da Universidade, Coimbra, 2 vols., 1959 e 1966. Rocha, Andre 
Crabb: in A Epistolografia em Portugal, 2   . aed., IN-CM, pp. 186-190, caracteriza 
e refere a sua curiosa correspondncia particular editada e indita, de que 
transcreve um espcime. Origem da denominao de cristo-velho e cristo-novo em 
Portugal, 2 ed., ambas de 1956, uma de Raul Rego, Lisboa, a outra de lvaro Leon 
Cassuto, in *Arquivo de Bibliografia Portuguesa+, ano 2, n. 8, Coimbra. 
*Dificuldades que tem um reino velho para emendar-se+ e outros textos, selec., apres. 
e notas de Vitor de S, 1980. Encontra-se indito um Dirio de Ribeiro Sanches, de 
1768-11 -11 a Dezembro de 1782, em ms. na Biblioteca da Escola de Medicina de Paris.

Oliveira, Francisco Xavier de: Cartas familiares, histricas, polticas e crticas. 
Discursos srios ejocosos, 3 vols., Amesterdo, 1741, Haia, 1742 (2. > e 3. >); 2    
       . aed. Lisboa, 1885, tambm em 3 vols. Cartas inditas, editadas por A. 
Gonalves Rodrigues, em *Bibios+, 1935-6-7, e depois em vol., Coimbra, 1942. Memrias 
das Viagens, Amesterdo, 1741. Viagens  Ilha do Amor, Haia, 1744, Lisboa, 1794. 
Opsculos contra o Santo Ofcio, ed. por A. Gonalves Rodrigues, Coimbra, 1942. H 
ainda um vol. das Cartas familiares etc., datadas de 1738 e eliminadas pelo Santo 
Ofcio, editado pelo mesmo

professor, Coimbra, 1963. Ver bibliografia completa na Recreao peridica, trad. de 
Aquilino Ribeiro, que referiremos adiante, no Dicionrio de Inocncio ou na Histria 
da Literatura Portuguesa Ilustrada, 3. 0 vol., p. 282.

Aires, Matias: Reflexes sobre a vaidade, 1752, 1761, 1778 (ed. que inclui uma


Carta sobre a Fortuna), 1786, e ed. fac-similada por Solidnio Leite, Rio, 1924; 6. > 
ed. na *Biblioteca de Literatura Brasileira+, S. Paulo, 1942, com pref. de Alceu 
Amoroso Lima. Ver bibliografia completa na biografia de E. Ennes, adiante referida. 
Ed. mais recentes na *Biblioteca Bsica Verbo+, e pela editorial Estampa, ambas de 
Lisboa, 197 1. Ed. junto com a Carta sobre a Fortuna, pref., fixao do texto, notas, 
esquema e ndice temticos de Jacinto do Prado Coelho e Violeta Crespo Figueiredo, 
IN-CM, 1980.

2. Antologias e adaptaes

Brochado, Jos da Cunha: Cartas, seleco, *Clssicos S da Costa+. Verdadeiro Mtodo 
de Estudar, sei., pref. e notas por Joaquim Ferreira, Porto, s/ci; e vol. antolgico 
na col. *Textos Clssicos Verbo+, sei. e pref. de Antnio Alberto de Andrade, Lisboa, 
1965; Verdadeiro Mtodo de Estudar, ed. das Cartas sobre Retrica e Potica, 
Clssicos Presena, 1991.

Oliveira, Cavaleiro de: Cartas, sei., arranjo, pref. e notas por Aquilino Ribeiro, 
*Clssicos S da Costa+.

5. @ POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                                      
     615

Recreao Peridica, traduo do Amusement Priodique, com um estudo prefacial por 
Aquilino Ribeiro, Lisboa, 1922.

Sanches, Ribeiro: Dificuldades que tem um reino velho para emendar-se e outros 
textos, sei., apresentao e notas por Vtor de S, ed. Inova, Porto, 197 1, reed. 
1980. (Antologia de manuscritos existentes na Biblioteca Pblica de Braga; alm de 
extensa bibliografia de e sobre Ribeiro Sanches, indica outras coleces de inditos, 
contm uma

biografia baseada em todos os dados disponveis, uma tbua cronolgica e uma sntese 
do pensamento reformador desse doutrinrio.) H uma antologia das Cartas sobre a 
Educao da Mocidade, pref. e notas de Joaquim Ferreira, ed. Domingos Barreira, 
Porto, s/d.

3. Estudos

Obras de conjunto: Dias, Jos Sebastio da Silva: Portugal e a Cultura Europeia 
(Scs. XVI a XVII), Coimbra, 1953, separata do vol. XXVIII de *Bibios+.

Cidade, Hemni: Lies de Cultura e Literatura Portuguesa, Coimbra, 1959 (4. a ed. do 
Ensino sobre a Crise Mental do sc. XVIII, refundida e ampliada); artigos deste autor 
e ainda de Newton de Macedo e Lus Cardim na Histria de Portugal, de Barcelos, vol. 
IV.

Praa, Lopes: Histria da Filosofia em Portugal, Coimbra, 1868. Histria da 
Literatura Portuguesa Ilustrada, artigos de Lus Xavier da Costa e de Jos de 
Magalhes, 3. vol., pp. 259-280.

Azevedo, Joo Lcio de: 0 Marqus de Pombal e a sua poca, Rio de Janeiro, 1922. 
Brando, Caetano: D. Maria 1, Lisboa, 1934. Jnior, Antnio Salgado: Dos Estudos 
Menores ao Ensino Secundrio, na revista *Labor+, Outubro, 1936.

Acerca da filosofia e da pedagogia jesuta e ainda de outras ordens religiosas no 
sc. XVII, publicaram-se numerosos artigos na *Brotria+ e na *Revista Portuguesa de 
Filosofia+, sobretudo entre 1944-47, sendo os principais autores Antnio Alberto 
Andrade, J. Pereira Gomes e Domingos Maurcio, 0 primeiro destes investigadores 
compendiou os seus trabalhos em Vernei e a Cultura do seu Tempo, Coimbra, 1966, obra 
bibliogrfica hoje fundamental.

Em relao  inflexo da teoria barroca da retrica e da potica para a do 
iluminismo,  fundamental o estudo de Castro, Anbal Pinto de: Retrica e Teorizao 
Literria em Portugal do Humanismo ao Neoclassicismo, Centro de Estudos Romnicos, 
Univ. de Coimbra, 1973, sobretudo cap. Vil, VIII e lX, pp. 383-670.


Ramos, Lus A. Oliveira: Sob o Signo das Luzes, Porto, 1988. -Estudos parcelares: 
Alm dos pref, e notas de ed. modernas, sobretudo das ed. crticas, em que se destaca 
a do Verdadeiro Mtodo de Estudar, de Salgado Jnior, pela abundncia de informaes 
que contm, podem ler-se:

Corteso, Jaime: Alexandre de Gusmo e o tratado de Madrid, 1. Parte, tomo 1, Rio de 
Janeiro, 1952, que se refere, com muitos dados novos, aos Estrangeirados, 
especialmente aos luso-brasileiros.

Santos, Mariana: Amlia Machado dos: Verney contra Genovese, Coimbra, 1939, e Os 
filsofos *Recentiores+ do sculo XVIII em Portugal, in *Bibios+, vol. XX1, 1945.

616                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Moncada, Cabral de: Um Iluminista Portugus do Sculo XVIII: Lus Antnio Verney, 
Coimbra, 1941; Estudos de Histria do Direito, vol. 111, 1950.

Martins, Jos Vitorino de Pina: Novos documentos para o estudo da personalidade de 
Verney, in *Aufgestze zur Portugiesischen Kulturgeschichte+, vol. 4, 1964, Mnster.

Girodon Jean: Verney. Docurnents, in *Builetin des tudes Portugaises+, XVIII, 1961. 
Nmero de *Seara Nova+ dedicado ao bicentenrio do Verdadeiro Mtodo, Janeiro de 
1957.

Andrade, A. A. Banha de: Verney e a projeco da sua obra, *Biblioteca Breve+, 
Lisboa, Instituto de Cultura e Lngua Portuguesa.

Rodrigues, A. Gonalves: 0 Protestante Portugus - Ensaio biogrfico e crtico sobre 
o Cavaleiro de Oliveira, in *Biblos+, vol. XVII, 1941, e ed. Coimbra, 1950.

Ribeiro, Aquilino: Abboras no Telhado e De Meca a Freixo de Espada  Cinta (estes 
vols. contm polmica e biografia sobre o Cavaleiro de Oliveira).

Ramos, Vtor: Deux Lettres ou Chevalier d'Oliveyra emprunts  Cyrano de Bergerac, in 
*Revue de Littrature Compare+, 41, n. 4, de 1967.

Portela, Artur: Cavaleiro de Oliveira, Aventureiro do Sculo XVIII, IN-CM, 1982.

Ennes, Ernesto J. B.: Um paulista ilustre - Dr. Matas Aires Ramos da Silva de Ea 
(Contribuio para o estudo crtico da sua vida e obra), *Anais da Academia 
Portuguesa de Histria+, vol. V, Lisboa, 1941.

Coelho, Jacinto do Prado:  Margem das *Reflexes+ de Matias Aires, in *Braslia+, 
Coimbra, 1952, 0 Vocabulrio e a frase de Matias Aires, in *Braslia+, Coimbra, 1952, 
e ainda in *Boletim de Filologia+, tomo XV (1954-55), Lisboa, e 0 Humanismo de Matias 
Aires, in *Colquio+, n. > 17, 1962. Importam ainda os pref. de J. Prado Coelho e de 
Violeta Crespo Figueiredo na ed. das Reflexes pela IN-CM, que contm biografia e 
bibliografia actualizadas.

Sobre todos os epistolgrafos referidos, ver Rocha, Andre Crabb: A Epistolografia 
em Portugal, 2. > ed., IN-CM, 1984, que contm indicaes bibliogrficas e 
arquivsticas, estudos e antologia.

Acerca de Ribeiro Sanches, ver o estudo e antologia atrs mencionada de Vtor de S, 
que contm uma completa e actualizada bibliografia, e ainda Dria, A. lvaro: Um 
*Estrangeirado+, sep. *Bracara Augusta+, vol. 20 fascs. 45-46, 1967.

Pereira, Jos Esteves: 0 Pensamento Poltico em Portugal no sculo XVIII - Antnio 
Ribeiro dos Santos, IN-CM, 1983.

Captulo 111

A ARCDIA LUSITANA

ARCDIA LUSITANA: Formao do novo gosto

Entre os germes que anunciam a dissoluo da literatura barroca podemos contar a 
irrupo de realismo plebeu quando virado contra o culto do estilo afectado, as 
pardias do gongorismo e sobretudo a crtica, mesmo inconsequente, mesmo trada, que 
um D. Francisco Manuel de Melo, um Antmo Jos da Silva, um Frei Lucas de Santa 
Catarina, um Bluteau e outros fazem aos exageros formalistas, aos encarecimentos 
vazios e semelhantes.

Assistimos tambm desde incios do sculo XVII a uma notvel florao de obras sobre 
matria lingustica e estilstica, ou discutindo normas e padres literrios, 
nomeadamente as de comentrio, crtica ou apologia de Os Lusadas. De um excesso de 
fantasia descabelada vai cair-se num excesso de regulamentao racional, que em parte 
denuncia o domnio da expresso literria por juristas, por filhos da burguesia 
feitos desembargadores, ou funcionrios do *despotismo esclarecido+, a legislar 
sistematicamente para o Parnaso. Certas manifestaes deste racionalismo geomtrico e 
mecanicista em relao ao gosto literrio fazem-se sentir no Antdoto da lngua 
portuguesa (1710) por Antnio de Melo da Fonseca, na Ortografia (1734) de Madureira 
Feij e nas Enfermidades da lngua portuguesa (1759) por Manuel Jos de Paiva . Tais 
obras vazaram-se no mesmo molde que produziu as cartas iniciais do Verdadeiro Mtodo 
de Estudar, como se verifica pela extrema rigidez com

que decretam reformas radicais de ordem fontica (por exemplo, a eliminao do 
ditongo -o, proposta por Melo da Fonseca) e ainda de ordem

618                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

morfolgica, sintctica e lexical. 0 prprio Vocabulrio de Rafael Bluteau est 
percorrido pela convico, que tambm norteia Verney, de que o lxico

de um idioma se pode fixar e seleccionar por decreto. De resto, o ideal de

espartilhar qualquer idioma dentro de uma gramtica perfeitamente lgica  tpico do 
racionalismo mecanicista, e o seu modelo encontra-se j na Gramtica Francesa dos 
Jansenistas de Port-Royal, cuja melhor adaptao ao portugus ser a Gramtica 
filosfica da lngua portuguesa, de Jernimo Soares Barbosa (1737-1816), 1. a edio 
pstuma pela Academia Real das Cincias, em 1822.

Por outro lado,  digna de nota esta circunstncia em que se desenvolveu o barroco 
portugus: a corte portuguesa da Restaurao, diferentemente do que sucedera com as 
cortes afonsinas e de Avis, no chegou a constituir, s por si, um foco polarizador 
da literatura profana. Esse papel incumbia s academias. E j vimos que estas apenas 
se mostraram fecundas na medida em que assimilaram as preocupaes impostas pela 
expanso da burguesia europeia, em contacto com diplomatas, polticos ou tcnicos de 
formao nova, quer cultural quer social. Na Academia dos Generosos, nas Conferncias 
discretas e eruditas de 1696, na Academia Portuguesa de 1717, e

ainda noutras agremiaes semelhantes, sobretudo na Academia dos Ocultos de 1745, 
assinala-se o progressivo reforo do esprito de crtica racionalista em relao  
arte literria. 0 j nosso conhecido grupo dos Estrangerados est estreitamente 
ligado a tais organismos, em que a influncia do barroco espanhol principia a recuar 
perante influncias vindas do classicismo francs e do arcadismo italiano, as quais 
depois, atravs da Arcdia Lusitana, abriro sinuosos caminhos para o realismo ou o 
sentimentalismo. Lembremos que, em 1697, D. Francisco Xavier de Meneses traduzia a 
Arte Potica de Boileau, com quem, a esse propsito, se carteou. Mesmo a Nova Arte de 
Conceitos, 172 1, de Francisco Leito de Andrade, se por um lado segue em grande 
parte a teorizao barroca de Tesauro, por outro lado acolhe influncias de Muratori 
e de neoclssicos franceses.

Em 1749, sob o pseudnimo de Diogo Novais Pacheco, o futuro rcade Jos Xavier 
Valadares e Sousa editava o Exame crtico de uma silva potca, que visava uni dos 
ltimos abencerragens do gongorismo, Caetano Jos da Silva Souto-Maior, mais 
conhecido pela alcunha de Cames do Rossio.
0 que h de importante neste livro  a influncia dominante dos preceptistas do 
classicismo francs, sobretudo Boileau, e a fundamentao da beleza lite-

5, @ POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                                619

rria nos princpios da verosimilhana, da naturalidade, da racionalidade. Deve ainda 
notar-se um pormenor significativo, que mostra como esta primeira expresso 
doutrinria do classicismo francs entre ns, apesar do seu simplismo, vem j imbuda 
de uma concepo tipicamente iluminista: Valadares e Sousa censura no seu criticado 
certos deslizes de rigor cientfico naturalista e condena em Os Lusadas a falta de 
correspondncia entre realidades perfeitamente definidas e os smbolos mitolgicos.

Em 1746, como vimos, o Verdadeiro Mtodo passava  fieira crtica, no j um simples 
epgono do gongorismo, mas o que havia de mais prestigioso no barroco literrio 
portugus, incluindo as suas reais ou supostas origens camonianas, integrando um 
plano de reforma literria dentro do seu projecto de completa reforma cultural e 
pedaggica. Ora da polmica desencadeada por esta obra participou um padre 
oratoriano, Francisco Jos Freire, sob o pseudnimo, que se tornaria dentro de poucos 
anos o seu criptnimo arcdico, de Cndido Lusitano.  ainda sob a influncia de 
Verney, e no

desejo tipicamente oratoriano de conter o Iluminismo dentro de certos limites 
conservadores, que Cndido Lusitano publica, em 1748, a sua Arte potca, ou regras 
da verdadeira poesia, muito decalcada em Muratori, que pode considerar-se o manifesto 
do arcadismo portugus, embora com antecedncia de oito anos sobre a fundao, aps 
tentativas diversas, da Arcdia Lusitana. As relaes entre a Arcdia e a Congregao 
de S. Filipe Nri eram

to estreitas que a livraria oratoriana das Necessidades serviu quela de sede social 
durante certo tempo e vrios padres foram seus scios.

Outro sintoma dos novos tempos  constitudo pela polmica travada entre o marqus de 
Valena e Alexandre de Gusmo. 0 seu ponto de partida foi uma Crtica que o primeiro 
editou, em 1747, para depreciar o Cid de Corneille e exaltar, em contraposio, o 
teatro espanhol. Alexandre de Gusrno publicou anonimamente, em 1747 ou 48, umas 
Notas em que defende, no apenas o teatro de Corneille, mas todo o classicismo 
francs, censurando o *gosto gtico+ do marqus de Valena e sustentando, em nome dos 
preceitos clssicos, *que o teatro espanhol  hoje o mais defeituoso+. Em 1748, o 
marqus editava uma Resposta. Tem interesse notar que o Cid provocou muitas 
discusses desde a sua primeira representao por ser considerada uma trag dia 
*irregular+. 0 prprio Alexandre de Gtisnio o coloca abaixo de vrias tragdias 
francesas *regulares+, e o principal terico teatral da Arc-

620                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

dia, Manuel de Figueiredo, desaconselhar a imitao de uma tragdia com estrutura, a 
seu ver, to pouco normal.

Nestes primeiros passos da literatura arcdica entre ns no deve minimizar-se a 
influncia, j sensvel, de Benito Feijo, sobretudo de Luzn, e at de Pope e 
Addison. 0 modelo prximo da Arcdia Lusitana foi a Academia de Roma, fundada em 1690 
para reagir criticamente contra o marinismo e restaurar o gosto da nobre 
simplicidade, e da qual foram eleitos membros D. Joo V, o conde de Ericeira, 
Francisco Leito Ferreira, Verney,

entre outros.

Organizao e vida da Arcdia Lusitana

Em Maro de 1756, quatro meses depois do terramoto, trs bacharis em Direito,, 
recentemente formados, Antnio Dinis da Cruz e Silva, Teotnio Gomes de Carvalho e 
Manuel Nicolau Esteves Negro 1, fundavam a Arcadia Lusitana ou Ulissponense, em que 
iriam culminar as tendncias neoclssicas e preparar-se a evoluo literria no 
sentido do realismo burgus setecentista.  significativa a circunstncia de tal 
iniciativa partir, no da corte nem da nobreza de sangue, mas de filhos da burguesia 
em fase de se candidatarem ao alto funcionalismo judicial. Nos dois sculos seguintes 
pode dizer-se que as sucessivas geraes literrias se constelaram sempre em torno

de personalidades que se destacavam,  sada da Universidade, por uma receptividade 
mais viva aos novos problemas e correntes doutrinrias. Tal depen~ dncia das letras 
ao ambiente estudantil universitrio pode relacionar-se com

o atraso do capitalismo industrial no nosso pas, e consequente falta de meios 
culturais extra-universitrios.

De facto, os rcades lusitanos vieram a recrutar-se predominantemente entre 
magistrados e outros funcionrios, com um complemento de Oratorianos e outros 
clrigos, e um ou outro nobre de sangue.  at de notar que tanto Cruz e Silva como 
Garo encontraram dificuldades quando, como era

de regra no alto funcionalismo, quiseram nobilitar-se, pois as indispensveis 
provanas genealgicas esbarraram com a mancha mecnica de mesteirais e vendedeiras 
nos seus antepassados prximos; e que um dos mais admirados rcades, Reis Quita, 
exerceu o ofcio de cabeleireiro. 0 captulo XV dos Estatutos arcdicos diz: *Poder-
se-o eleger para membros desta socie-

5. a POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                              621

dade todos os sujeitos que parecerem capazes de a ilustrar, sem que obste o no 
assistirem nesta Corte  sua eleio, na qual s se olhar para o mrito pessoal, sem 
atender a outras circunstncias, que costumam servir de reparo a alguns 
contemplativos que ignoram o preo e estimao que se deve  virtude+. Compreende-se, 
nestas condies, que o ideal da nobre simplicidade, de regresso  razo e  
natureza, servisse de estandarte a uma instituio cujos membros, no entanto, 
substituam os nomes prprios por criptnimos eruditos ao gosto dos que figuram nas 
elogas clssicas, e cuja sede foi designada de Monte Mnalo.  que, rebaptizando-se 
de Elpino Nonacriense (Cruz e Silva), de Cridon Erimanteu (Correia Garo), de 
Alcino Micnio, (Reis Quita), de Cndido Lusitano (Francisco Jos Freire), de Lcidos 
Cintio (Manuel de Figueiredo), etc., os  rcades, ao subirem ao Mnalo, esqueciam as 
diferenas de categoria social e renasciam todos para uma forma puramente literria 
de aristocracia.

0 drama mais profundo da Arcdia consistir no conflito interno que rasga as suas 
principais personagens, sob aco de duas foras opostas: a

fora que leva ao apagamento das origens e relaes burguesas, atrs da imitao dos 
Antigos, atrs do convencionalismo pastoril da decadncia greco-romana; e a fora que 
conduz  afirmao dos gostos e ideias quotidianos, ao realismo burgus,  imitao 
da realidade imediata. A Arcdia no se

liberta inteiramente do formalismo barroco, como se verifica nas suas convenes 
buclicas e mitolgicas, nem da estreita dependncia em que j a poesia barroca 
vivera relativamente ao regime absolutista. Os mais importantes acontecimentos, 
faustos ou infaustos, da famlia rgia e da vida poltica so obrigatoriamente 
comemorados em sesses solenes e torneios literrios, tal como acontecia com as 
academias do tempo de D. Joo V. Na primeira sesso a que assistissem, os scios 
deveriam jurar a Imaculada Conceio de Maria, a cujo culto se obrigara a Casa de 
Bragana e que era simbolizada pela prpria divisa da Arcdia - um lrio branco.

No entanto, estas concesses s respeitabilidades formais envolviam muitas reservas, 
pelo menos no esprito de alguns rcades, como Garo. A escolha da Imaculada 
Conceio era uma forma de iludir o patronato oficial e

directo do rei, e vrias oraes do mesmo Garo preveniram os conscios contra os 
perigos do mecenato rgio. Os Estatutos proibiam expressamente quaisquer precedncias 
dentro da Arcdia. Os cargos (exceptuando os buro-

622                                          HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

crticos) eram sorteados de forma a todos os scios os desempenharem por seu turno. A 
admisso de novos scios fazia-se por votao secreta e requeria unanimidade. 
Impunha-se rigoroso sigilo sobre as discusses, as obras dos scios e problemas de 
doutrina. Estes eram expostos por um relator.
0 presidente tinha a assisti-lo dois censores que julgavam as obras apresentadas, e 
dois rbitros que emitiam o julgamento aps a discusso. 0 autor da composio 
apresentada e discutida podia defend-la, mas era rigorosamente obrigado a aceitar a 
sentena final dos rbitros e a introduzir as modificaes por estes indicadas. Os 
Estatutos, institucionalizando um ideal horaciano j expresso por Antnio Ferreira, 
consideram a crtica e a autocrtica como indispensveis  reforma literria. 0 
propsito de luta contra as excrescncias estilsticas do Barroco simbolizava-se na 
empresa da Arcdia Lusitana: uma faca podadora com a frase *Inutilia truncat+ (*Corta 
as inutilidades+).

A vida social da Arcdia foi intensa e prestigiosa desde o juramento dos Estatutos, 
em Julho de 1757, at cerca de 1760. Entre os seus alunos, ou

scios, destacam-se particularmente Cruz e Silva, seu principal organizador, p.e 
Francisco Jos Freire, Valadares e Sousa, que se distinguiram sobretudo pelo trabalho 
terico e crtico; Manuel de Figueiredo, seu principal teorizador e autor teatral; 
Correia Garo, animador e figura mais prestigiosa; o lrico e dramaturgo Reis Quita. 
A partir de 1760 as sesses vo-se espaando e Garo luta impotentemente contra a 
negligncia que paralisa a consecuo dos objectivos e o exerccio dos mtodos 
previstos nos Estatutos. Um esforo de restaurao, que certos scios muito 
enalteceram em 1764, no conseguiu reactivar duradoiramente a sua vitalidade.

Tal definhamento lento, interrompido por um leve fogacho de entusiasmo e actividade, 
pode compreender-se por circunstncias conjunturais e estruturais. 0 marqus de 
Pombal, apesar de pessoalmente se ter interessado pela Arcdia, chegando a assistir a 
algumas sesses, envolvia provavelmente alguns scios na mesma desconfiana com que 
encarava os Oratorianos, a ela to ligados; por outro lado, a carreira da 
magistratura obrigou certos membros, como Cruz e Silva, a afastarem-se para longe; 
outros, ainda, no conseguiram submeter-se  rigorosa disciplina imposta pelos 
Estatutos, porque naturalmente (como se depreende de uma orao quase desesperada de 
Correia Garo) tinham entrado na Arcdia, no para se sujeitarem  crtica prvia, 
minuciosa e secreta das suas obras, mas para encontrarem facilidades de publi-

5. a POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                              623

cao, para participar no aparato de sesses pblicas e, enfim, para desfrutar de um 
certo conjunto de regalias que o pretendido patrocnio pela Coroa acarretaria, como 
acontecera com a Academia Real de Histria. De resto, entre tais literatos, os 
outeiros freirticos, a stira pessoal, a invectivao recproca de indivduos ou 
grupos tendiam a prevalecer sobre a expresso mais ordenada e superior de um conceito 
ou sentimento de vida, e a dificultar o trabalho colectivo.  disto exemplo a *guerra 
dos poetas+ que cerca

de 1767, e por motivos fteis, ops a Garo e  Arcdia um grupo de poetas 
dissidentes de que faziam parte Filinto Elsio, Jos Baslio da Gama e

Silva Alvarenga. A cantora italiana Anna Zamperini, cuja fascinao se exerceu no 
prprio filho de Pombal (que por isso a expulsou), deu assunto a uma

brava peleja versificatria de admiradores, entre 1771 e 1774.

Outras instituies se organizaram na segunda metade do sculo XVIII, mesmo fora de 
Lisboa, segundo o modelo da Arcdia Lusitana, sobressaindo entre elas a efrnera Nova 
Arcdica de 1790, que pereceu nas discrdias dos seus confrades, principalmente entre 
Bocage e Agostinho de Macedo.

Com o rodar dos anos, os centros de polarizao literria tendem a ser os botequins e 
os sales. Entre o crepsculo do mecenato monrquico ou

senhorial e o dealbar da profissionalizao jornalstica e editorial, alguns dos 
escritores mais representativos, sobretudo poetas, vegetam na situao de bomia, de 
vida aventurosa ou miservel que lhes inspira um sentimento

de revolta, de iconoclastia, de crise ideolgica e moral. Mas a influncia

da Arcdia permaneceu e revelou-se muito mais profunda do que o faria crer a breve 
existncia da instituio. Filinto Elsio, Bocage, Agostinho de Macedo, a marquesa de 
Alorna no conseguem romper com o invlucro de convenes arcdicas. Pato Moniz 
(1781-1827) e Curvo Semedo (1766-1838), entre outros, morreram arcdicos quando j o 
Romantismo se impusera na Europa e dava os primeiros passos em Portugal. Veremos 
oportunamente o muito que em Garrett e em Castilho se mantm desta formao esttica. 
Podem considerar-se ainda filhos da Arcdia certos autores to tardios e ainda to 
altamente citados e influentes no seu tempo, como Francisco Jos Bingre (1763-1856) e 
Joo Penha (1839-1919), poetas cujo realismo burgus ainda pretende valorizar-se 
pelos moldes de Horcio e do bucolismo clssico.

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Doutrina esttica geral da Arcdia Lusitana

A teorizao do arcadismo em Portugal deriva de uma longa linhagem de poticas 
clssicas que entronca em Aristteles e abrange os preceptistas antigos (Longino, 
Horcio, Quintiliano, etc.), os do Humanismo quinhentista (Castelvetro, Robortello, 
Vssio, Escalgero) e sobretudo os modernos

franceses e italianos (Boileau, Dacieux, Le Bossu, Rapin, Fontenelle, Marmontel, 
Voltaire; Muratori, Gravina, Nisiely, etc.), incluindo ainda Pope e sobretudo Luzri.

Tirante divergncias de pormenor, que exemplificaremos, pode dizer-se que a doutrina 
esttica da Arcdia se acha j definida na Arte Potica (1748) de Cndido Lusitano, 
ou seja, do padre Francisco Jos Freire (1719-1773), que mais tarde exemplificou uma 
parte dos seus critrios na Dissertao arcadica anteposta  sua traduo da Atlia 
de Racine. Alm destes trabalhos, da traduo de vrias outras tragdias e da Arte 
Potica de Horcio (1758), Cndido Lusitano distinguiu~se como preceptista gramatical 
e estilstico, um dos que primeiro verberaram inutilmente o uso do vocabulrio 
estrangeirado, sobretudo o galicismo, nas Reflexes sobre a lngua portuguesa (3 
volumes, edio 1842) e no Dicionrio Potico (1765).

A Arte Potica de Cndido Lusitano, obra influente (foi reeditada em 1759), segue, 
sobretudo e servilmente, L. A. Muratori, um dos principais doutrinrios que em Itlia

reagiram contra a pera de Metastsio e contriburam para a fixao do gosto arcdico 
neocissico. Est dividida em trs livros, sucessivamente dedicados a questes gerais 
de esttica literria, questes respeitantes aos gneros teatrais clssicos, e 
questes referentes aos gneros picos e lricos. Toda a exposio se apoia na 
anlise de numerosos exemplos das literaturas antigas e das romnicas modernas. Parte 
da definio de poesia por Luzn, alis de fundo aristotlico~horacano: *Poesia  
imitao da natureza no universal

e no particular, feita em versos, para utilidade e para deleite dos homens+. Cndido 
Lusitano admite que a poesia possa consistir numa reprodu o meramente cstica, 
isto , descritiva e particularizante de uma coisa verdadeira, embora julgue ser mais 
potica a

imitao fantstica, isto , a captao imaginativa daquilo que  mais verosmil do 
que verdadeiro, e mais universal do que particular. Por outro lado, assevera, em 
oposio explcita a Verney, que o fim da poesia no consiste apenas no deleite, mas 
tambm, e conexamente, na utilidade moral.

Uma vez que se classificou a imitao em icstica e fantstica, admite-se a 
existncia


de assuntos poticos em si mesmos, mas frisa a importncia do artifcio, quer dizer, 
do estilo, na revalorizao de matrias j gastas pela banalidade, ou ainda pouco 
evidencia-

5 - POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                                       
   625

das. As imagens poticas por excelncia no seriam as puramente racionais, nem, pelo 
contrrio, as irracionais, mas aquelas que a imaginao aceitasse naturalmente como 
verdadeiras ou verosmeis, e que  razo custassem um simples reajustamento 
aceitvel, corno quando se diz que *o mar irado faz guerra s praias+ em vez de dizer 
que @o mar est em tempestade+. A imitao potica da natureza tenderia, pois, a 
descobrir nas coisas e na matria tudo o que  mais raro e maravilhoso, representando 
os objectos *mais do que eles ordinariamente no so+; neste sentido, *o poeta deve 
completar a natureza+.

Os preceitos do equilbrio e meio-termo, da verosimilhana, da racionalidade dominam 
todo o primeiro livro desta Potica, cujo contedo de crtica negativa abrange em 
especial os exageros barrocos.

Entrando a seguir na teorizao dos gneros poticos, reduz-se a poesia dramtica ao 
contraste entre a tragdia e a comdia, eliminando esteticamente a tragicomdia, quer 
dizer, qualquer tentativa de fuso ou sntese entre elas. Recolhe a definio da 
tragdia por Luzri que, alis, segue Aristteles de perto:

*Tragdia  uma representao dramtica de uma grande mudana de fortuna, sucedida a 
reis, prncipes e personagens de grande qualidade e dignidade, cujas decadncias, 
mortes, desgraas e perigos excitem terror e compaixo nos nimos do auditrio, e os

curem e purguem destas e outras paixes, servindo de exemplo a todos, especialmente 
aos reis e pessoas da maior autoridade e poder.+

Desta definio decorre todo um cdigo esttico que nada encerra de original. Fixemos 
apenas a necessidade de que a Ibula (enredo) seja implexa (acidentada), contendo a 
peripcia (mudana brusca de situao dramtica entre as personagens), a agnio 
(reconhecimento ou identificao surpreendente de uma personagem) e o pathos, ou 
paixo (acontecimento torturante para o protagonista).  de notar, no entanto, a 
falta de referncia  unidade de lugar, e a pouca insistncia na unidade de tempo; e 
sobretudo a cerrada

crtica que o teorizador faz ao melodrama, ou pera, pois no tolera que seja *a 
Poesia

escrava da Msica+.

Quanto  comdia, seguindo sempre a tradio aristotlica atravs, sobretudo, de 
Luzri, define-a como

*uma imitao dum facto particular e de pouca importncia, formada de modo que mova o 
riso, a qual acabe com fim alegre e se encaminhe a ser til, divertindo o auditrio e 
inspirando o amor  virtude e a averso ao vcio+.

Salientemos a intensa preocupao moralista com que se trata este, Como alis os

outros gneros; a exigncia de versificao, e a crtica da comdia espanhola, de que 
ainda, adverte ele, *entre ns  grande o nmero de defensores+.

HLP - 40

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No 3. > livro, o nosso autor passa em revista as regras da poesia pica e lrica. No 
tratamento do poema pico,  sensvel, como alis em toda a obra, o esforo de 
reabilitao de Cames contra Verney; no entanto, a influncia dos preceptistas 
neoclssicos, sobretudo italianos, traduz-se pela aceitao de um certo nmero de 
crticas, em que so postos em relevo o uso no-alegrico da mitologia n'Os Lusadas, 
as quebras de dignidade do heri, as expanses pessoais do poeta, certo excesso de 
sentenas e certas inverosimilhanas. Os defeitos desta Arte Potica (a falta de 
originalidade, a subordinao servil  tradio aristotlica, e, portanto, um 
incontestvel formalismo mascarado por certa racionalidade superficial) fazem-se 
sobretudo sentir na discusso dos gneros menores.

Veja-se, por exemplo, o que ainda h de barroco neste preceito (tanto na forma como

na inteno): *Enquanto ao estilo de um verso lrico, recomendamos muito que seja 
florido, culto, suave, sonoro, alegre, e to engenhoso como doce e ameno+.

A Arcdia Lusitana e, em geral, a poca arcdica da nossa literatura assinalaram-se

por uma intensa e mesmo desproporcionada ateno s questes de teorizao esttica 
literria. A Arte Potica de Horcio, em vrias tradues portuguesas, foi ento 
editada umas dez vezes (a verso de Cndido Lusitano foi-o, s por si, trs vezes 
desde 1758). Certas polmicas, como a que  constituda pela Censura de Valadares e 
Sousa  tragdia dipo (a primeira que a Arcdia produziu), e pela Resposta do autor, 
Manuel de Figueiredo, parecem extensos memoriais jurdicos, recheados de referncias 
aos cdigos e autoridades do classicismo. Este ltimo rcade, Manuel de Figueiredo, 
produziu um Discurso

por cada uma das suas numerosas peas teatrais originais ou traduzidas, fora outros 
textos tericos, alm de que vrias das suas peas, como alis a comdia Teatro Novo 
de

Garo, contm discusses de esttica teatral. Cruz e Silva, Correia Garo 
escreveram Dissertaes doutrinrias para serem lidas em sesses arcdicas, e o 
ltimo ainda exprime a sua esttica em certas obras mtricas, como epstolas e 
stiras. Manuel Tibrio Pedegache Brando Ivo faz tambm preceder a edio da sua 
Mgara, 1767, por uma dissertao sobre a tragdia e a esttica dramtica em geral. 
Mais tarde, Filinto Elsio e Jos

Agostinho de Macedo tambm se distinguiro como tericos e crticos do gosto 
arcdico.

Tpicos mais insistentes desta teorizao:

1)  Teoria aristotlica da arte como imitao da natureza; no entanto, imitao no

se reduziria a uma reproduo, pois a natureza deve, segundo Cruz e Silva, ser vista 
com todas as graas e perfeies possveis (e no apenas reais);

2)  Necessidade de imitao dos melhores imitadores da natureza, que seriam os

clssicos antigos ( insistente em Garo o preceito de que tal imitao no deve 
reduzir-se a servilismo);

3) Elevada finalidade moral e social da literatura;

5.  POCA - 0 SCULO DAS LUZES                                                       
 627

4)  Condenao do cultismo e do conceptismo;

5)  Apologia do equilbrio razovel, da seleco ponderada, o que implica a 
condenao, tanto do plebesmo, como da subtileza conceptual do bucolismo 
seiscentista, particularmente em Rodrigues Lobo e D. Francisco Manuel (tpico 
especialmente versado em duas Dissertaes polmicas de Cruz e Silva contra o poeta 
buclico Pina e Melo, o *Corvo do Mondego+, 1695-1765, que outros rcades 
ridicularizam tambm, e que todavia  na sua Arte Potica em verso, 1756, um

doutrinrio do classicismo, embora a sua obra lrica tenha ainda traos barrocos, com 
um sensvel gosto pelo tenebroso que se antecipa ao pr-romantismo);

6)  Condenao da rima (especialmente por Garo e, depois, por Filinto Elsio);

7)  Culto da razo, num sentido em que se cruzam as influncias de Locke e Descartes, 
frequentemente citados ou parafraseados:

8)  Uso da mitologia, como necessria forma de ornamentar a poesia, mas de um

modo claramente inteligvel, alegrico;

9)  No teatro, separao ntida dos gneros (tragdia e comdia); primazia do 
contedo literrio e moralizante sobre o espectacular; respeito da verosimilhana; 
acatamento das trs unidades (aco, tempo e lugar); tratamento perfeitamente 
unitrio e consequente do carcter psicolgico, ou, como os clssicos dizem, do 
decorum de cada personagem; encadeamento l gico da fbula, ou enredo; sobriedade de 
efeitos, evitando o deus ex machina, o excesso de tramias mecnicas e a 
representao visvel (coram populo) de cenas truculentas, bem como a msica vocal ou 
instrumental (critica da pera).

Estudaremos no captulo dedicado ao teatro a teorizao, por vezes muito peculiar, de 
Manuel de Figueiredo.

ARCDIA LUSITANA: Convenes da poesia arcdica

A teoria aristotlica de que a arte  uma imitao seleccionada segundo critrios 
estticos e morais cobre, na poesia arcdica, uma ambiguidade profunda. Por um lado, 
como veremos, a necessidade tica e esttica de seleco corresponde 
fundamentalmente, nessa poesia, s limitaes impostas pelo *despotismo esclarecido+ 
que a condiciona; por outro lado, a imitao, tal como a concebem os rcades, 
relaciona-se com uma certa ateno realista  vida circundante e com a expresso de 
certas peculiaridades da burguesia letrada.


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Com efeito, h que registar no passivo da poesia arcdica uma grande dose de 
convencionalismo, de eufemismo, de mascarada. Disto faz parte o uso generalizado da 
mitologia pag, que Cruz e Silva imps, apesar das reservas de Verney e de Cndido 
Lusitano. O facto de os rcades se servirem

dos mitos greco-latinos de um modo sempre transparentemente alegrico,

sem o comprazimento puramente imaginativo de certos poetas barrocos, no se pode 
considerar uma conquista esttica, antes pelo contrrio, pois o que h de fantasia 
livre no Barroco exprime um sentimento algo inquieto, ao passo que o eufemismo 
arcdico corresponde apenas a um compromisso da sensibilidade burguesa com os quadros 
rgidos do despotismo esclarecido, e a

arquitectura das regras clssicas , afinal, mais atrofiadora da criatividade do que 
o neo-escolasticismo pretensamente aristotlico do Barroco literrio. Os seres e 
casos da mitologia e do pastoralismo clssico eram chamados a

neutralizar e intemporalizar a vida do magistrado, do funcionrio, do ambiente da 
classe mdia, como primeiro passo incerto de uma dignificao da burguesia.

O domnio prprio da alegoria mitolgica ou da evocao antiga , entre os rcades, o 
dos gneros solenes: as odes comemorativas das altas personagens e dos acontecimentos 
polticos, a tragdia, tudo o que respira dependncia mecentica, praxe corts ou 
acadmica. Mas o *despotismo esclarecido+, no seu duplo aspecto de pompa absolutista 
e de racionalismo iluminista, sente-se ainda, indirectamente, na majestade calculada 
da composio, na

disciplina das regras, na modelao do gosto segundo padres literrios e

at lingusticos que vm do Imprio Romano ou Alexandrino; no predomnio do verso 
branco, mais adequado a receber a herana da mtrica greco-latina, baseada na 
quantidade silbica; na laboriosa procura de equivalncias portuguesas para as 
estrofes de Alceu e Safo; na forada adaptao de idiotismos latinos, e at gregos, 
com carcter sintctico e vocabular, como hiprbatos complicados, eptetos 
alatinados, compostos aglutinantes do tipo de auricrinito (com cabelo dourado), etc.; 
no restauro artificioso de gneros tipicamente pagos, como as odes anacrenticas, os 
ditirambos, o *drama satrico+; na parfrase constante dos lugares selectos de 
Pndaro, Anacreonte, Virglio, Ovdio e outros, sobretudo de Horcio.

Apesar disso, o arcadismo portugus acompanha a evoluo europeia geral, como vamos 
ver, prestando ateno s suas figuras mais representativas no lirismo, na stira e 
na comdia.

5. - POCA - O SCULO DAS LUZES                                                      
 629

CORREIA GARO: o horacianismo burgus

O membro mais prestigioso e influente da Arcdia Lusitana foi Pedro Antnio Correia 
Garo (1724-1772), que adoptou o nome arcdico de Cridon Erimanteu.

Filho de um alto funcionrio, alis descendente de *mecnicos+, e com ascendncia 
francesa por parte da me, franzino e educado no culto das letras clssicas, Correia 
Garo frequentou o curso de Direito sem chegar a formar-se. O casamento trouxe-lhe 
bens de fortuna, relaes na nobreza e um razovel emprego na Casa da ndia. No auge 
da sua carreira, era, alm de mentor da Arcdia, director da *Gazeta de Lisboa+. O 
seu gosto da convivncia caseira com ch e torradas, passatempos literrios e 
partidas de whist, parece acusar muito cedo uma influncia da colnia britnica em 
Lisboa, que de resto se generalizava rapidamente; tinha, alis, relaes com pessoas 
de vrias nacionalidades. servindo-se correntemente do Ingls, Francs e Italiano. 
Arruinado por uma demanda, passa a viver retirado na sua quinta arrabaldina da Fonte 
Santa. Por motivos mal esclarecidos ainda hoje, foi em 1771 encarcerado no Limoeiro. 
As splicas da esposa s muitos meses mais tarde conseguiram obter uma ordem de 
libertao, que no chegou a encontrar o poeta com vida.

Garo , ao mesmo tempo, um dos principais doutrinadores e um dos mais influentes 
poetas da Arcdia, e contribuiu ainda com duas comdias (e talvez com duas tragdias 
em prosa, perdidas) para a tentativa arcdica de criao de um teatro nacional. A sua 
doutrinao literria, realizada atravs das Dissertaes produzidas nas sesses da 
Arcdia, nada acrescenta ao que j ficou dito sobre a teoria esttica dos rcades, a 
no ser porventura uma particular insistncia na funo pblica e social da 
literatura, e advertncias (justas, mas incumpridas) sobre o comedimento na imitao 
dos antigos. Quanto  sua obra potica,  de notar que encontramos nela vestgios de 
gneros seiscentistas, tais como redondilhas com mote, endechas pastoris e um 
<@romance@>. Superabundam tambm as poesias de circunstncia, especialmente sonetos.

O esforo maior do poeta orientou-se, todavia, no sentido de cultivar os gneros 
greco-latinos, inclusive alguns que no existiam na lngua portuguesa, como os 
ditirambos, composies pretensamente bquicas, mas muito

cheias de interjeies gregas e eptetos mitolgicos, hoje s decifrveis com

o dicionrio  mo; e, assim, escreveu numerosas odes pindricas, sficas e alcaicas, 
numa exaltao empolada de altas personagens e efemrides, ou ento da Virtude 
estica ou da Arcdia. Merece, no entanto, destaque, pela

630                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

alta dignidade com que reveste uma atitude exemplarmente virtuosa, a Fala

do infante D. Pedro, duque de Coimbra, aos Portugueses, querendo-lhe levantar uma 
esttua pelo seu bom governo, o que ele no consentiu, em que j se viu uma crtica 
ao marqus de Pombal e a causa da sua priso. E  de notar que este culto estico da 
virtude se orienta num sentido por vezes muito

renovador, que  o que acontece quando, extraindo alis as ltimas consequncias 
lgicas da poltica de neutralidade e paz que os dirigentes portugueses praticaram ao 
longo de quase todo o sculo XVIII, procura, numa orao arcdica, apoucar o herosmo 
militar aristocrtico, glorificando os antepassados na qualidade, apenas, de 
*descobridores das riquezas de todo o mundo+ e declarando que *os interesses dos 
comerciantes eram os interesses da Nao+. Em coerncia com os gostos neoclssicos, 
pugnou pelo verso

branco, que largamente praticou nas odes e epstolas.

Sob o aspecto da imitao dos antigos, a obra mais celebrada de Garo  a Cantata de 
Dido, moldada sobre um passo do Livro IV da Encida. O gnero das cantatas pertence  
poesia musicada, que Garo, como em geral os rcades, condenavam. Tratava-se de 
narrativas recitadas ao acompanhamento de cravo e rematadas por rias cantadas. A 
Cantata de Dido figura numa comdia (a Assembleia) em que se ironizam certos gostos e 
costumes

burgueses; apesar disso,  evidente a sua cuidada factura, que adoa e simplifica a 
aco do tema original virgiliano e isola a figura da protagonista num fundo 
hiertico e marmreo, sem confidentes, sem as profecias picas nem a cremao final 
do cadver da Encida. Garrett ainda exalta hiperbolicamente esta cantata, mas no 
deixa de ser significativo que uma crtica do

nosso tempo j se tenha perguntado se a sua inteno no seria heri-cmica.

Essa parte da obra de Garo  a mais intencionalmente renovadora, mas, afinal, a 
menos vivedoira. O que h de mais interessante neste poeta consiste na combinao do 
horacianismo com a poesia do quotidiano, que encontramos em alguns sonetos e 
principalmente nas epstolas.

Na stira dedicada ao conde de S. Loureno, o Cridon Erimanteu da

Arcdia exprime uma tendncia profunda da sua obra, quando subordina a

imitao dos Antigos s exigncias da Razo e da Verdade, especialmente pelo que 
respeita ao vocabulrio e s circunstncias modernas e correntias da vida. Com 
efeito, aquilo que Garo mais gostava de imitar em Horcio

era o quase miraculoso equilbrio que o poeta romano atinge sempre entre

5. @ POCA - O SCULO DAS LUZES                                            631

a naturalidade coloquial e a vibrao lrica. Garo procura conseguir esse 
equilbrio, atingindo raros momentos que antecipam Cesrio Verde ou Fernando Pessoa, 
entre muitas provas de um mau gosto precursor do que h de pior em Filinto Elsio ou 
Joo Penha. No seio da urea mediania horaciana da Fonte Santa vemos, deste modo, 
perpassar uma srie de convivas, em que se destaca o padre Antnio Delfim, *um 
clrigo alvo/Olhos azuis, as faces mui rosadas,/ Castanhas as melenas estiradas+, 
calvo e amador da rabeca; sentimos o eco de longos seres caseiros *com o leite na 
caneca branquejando+, ch, torradas, ponche e partidas de whist sobre uma mesa 
coberta de pano verde, num *long-room+.

O editor pstumo de Garo omitiu diversas composies mais livres, se no 
pornogrficas, mas no ps de parte numerosos exerccios mtricos de ironia ou 
cumprimento familiar, como saudaes de aniversrios, pedidos de tabaco ou at de 
dinheiro emprestado, convites ou respostas a convites, a chamada de um mdico, etc. 
Ainda bem, porque esta herana temtica do romance barroco permite-nos seguir o 
movimento lento de dignificao potica do ambiente burgus. Efectivamente,  j num 
tom de ironia amarga, ou de breve mas denso lirismo realista, que a gente v o nosso 
poeta entretido com passatempos caseiros, ou na rua, entre as cotoveladas de 
aguadeiros, saloios e outros vendedores, aturdido por coches  desfilada ou pela 
estridncia dos preges, ignorando quanto se passa na Corte, observando

Que entram naus pela barra, e saem navios Com velas inchadas

ou a contemplar, atrs de vidros, uma tempestade que amaina:

Parou a chuva; correm sussurrando Os torcidos regatos vagarosos. No me atrevo a 
sair, fico jogando.

E o verso acolhe ainda desabafos de mal-estar pelintra, com credores, criados 
desrespeitadores, filhos de roupa rota, candeias de pechisbeque, ou

ento o desengano e a auto-ironia de um encarcerado j meio apatetado e exangue.

Este realismo incipiente e at, provavelmente, a ironizao da sua prpria 
pelintrice, que Tolentino, Paulino Antnio Cabral e outros levaro ainda mais fundo, 
projectam-se tambm na comdia Assembleia ou Partida, como veremos.

632                                       HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

REIS QUITA: um elegaco

Filho de um comerciante que se arruinou e morreu no Brasil, Domingos dos Reis Quita 
(1728-1770) teve de procurar o ganha-po num ofcio, embora ento relativamente bem 
cotado: o de cabeleireiro. O Contacto com personagens de categoria deve ter ajudado 
as suas inclinaes poticas e autodidcticas. Mais tarde, promovido a bibliotecrio 
do conde de S. Loureno e a

rcade, nunca deixou de ser chasqueado por vates de superior condio social.
O seu protector vai parar s masmorras pombalinas; o terramoto priva-o de todos os 
bens;  minado pela tuberculose. Estas circunstncias penosas so coroadas por um 
amor infeliz. Dedica-o a uma senhora de outra esfera, a Tirceia das suas poesias, que 
de resto protegeu o poeta at  morte.

Quita tentou sem xito a tragdia (Hrmone, Astarto, Mgara, Castro), dentro de uma 
estrita obedincia s regras arcdicas do gnero, e o drama

pastoril (Licore), onde, apesar das dificuldades inerentes ao restauro de um molde 
helnico arcaizante, se percebe o eco vivo de uma luta desesperada pelo amor, 
transferida  faanha mtica de um heri pastoril. O seu gnero  por excelncia o 
bucolismo saudoso e inconsolvel. Mais do que Garo ou Cruz e Silva, sujeita-se 
inteiramente ao convencionalismo arcdico, aos

smbolos, metforas, situaes e eptetos clssicos. Pelos seus poemas perpassa, no 
entanto, uma doura cantante precursora de certo gosto romntico.

CRUZ E SILVA: tentativa de um realismo mitificador

Antnio Dinis da Cruz e Silva (1731-1799), o Elpino Nonacriense da Arcdia, deixou 
uma obra extensa, postumamente publicada, como de resto acontece com os principais 
confrades. Os aspectos salientes dessa obra so a sua identificao ideolgica com o 
regime pombalino, como alis tambm se verifica em Garo e Reis Quita, o apagamento 
do lirismo pessoal, que bem sentia no condizer com a sua condio de magistrado, e 
um esboo de realismo social que, debatendo-se com convenes mitolgicas, tem a

sua melhor expresso num poema heri-cmico de stira iluminista.

rfo muito cedo, por falecimento do pai no Brasil, e nascido de gente do povo de 
Lisboa, os sacrifcios da famlia permitiram-lhe estudar nos Oratorianos e formar-se 
depois em Direito. J sabemos do papel que desempenhou na Arcdia. Em 1759 era juiz-
de-fora em Castelo de Vide, e em 1764 juiz auditor militar em Elvas.

5. POCA -0 SCULO DAS LUZES                                                        
     633

Ao fixar-se nesta cidade, onde esteve cerca de dez anos, falhara a tentativa de 
restaurar a Arcdia Lusitana; mas foi encontrar ali um seu reflexo provinciano na 
Academia dos Aplicados Eborenses, fina flor de bacharis e oficiais, frequentadora do 
Sto do Falcato, que era a casa de um ouvidor. O Hissope cristaliza a crtica 
iluminista deste meio ao alto clero da terra. Finda a comisso da auditoria, e 
enquanto aguarda em Lisboa promoo na carreira e os difceis trmites da 
nobilitao, Cruz e Silva figura na roda literria que exalta o marqus de Pombal, e 
escreve a comdia O Falso Herosmo, a ridicularizar a vaidade genealgica.

Entre 1776 e 1789, exerce as funes de desembargador no Rio de Janeiro; da viagem 
por mar e da paisagem brasileira h, como veremos, curiosas reminiscncias nos seus 
versos. Transferido depois para o Porto, pouco tempo fica na Metrpole, porque em 
1790 regressa ao Brasil, constituindo com mais doze juzes a alada destinada a 
julgar a pretensa rebelio oficialmente designada de Inconfidncia Mineira, que 
parece no ter passado de um descontentamento geral de origem tributria, com 
expresso letrada numas Cartas Chilenas, stira annima contra os responsveis da 
administrao colonial. As revolues americana e francesa aterravam os governantes, 
e  dramtico ver a dureza

de Cruz e Silva para com os poetas e funcionrios Cludio Manuel da Costa, Toms da 
Costa, Toms Antnio Gonzaga e Jos Alvarenga Peixoto, alegadamente conjurados com

o clebre Tiradentes, e aos quais se podia atribuir, quando muito, uma stira 
antiaristocrtica visando o governador de Minas Gerais. Falaremos adiante destes 
poetas mineiros. Cruz e Silva morreu no Rio, onde ficou retido pela sua elevao a 
chanceler da Relao.

Quase toda esta vasta produo literria de Cruz e Silva se deve hoje relegar ao 
museu histrico-literrio do gosto potico. Os idlios buclicos ou piscatrios, 
embora temperem com notas esparsas de realismo descritivo e at *cientfico+ os 
lugares-comuns da escola de Tecrito, Mosco e Bon, no abonam favoravelmente a sua 
teorizao do estilo simples mas nobre, em oposio ao estilo artstico de Rodrigues 
Lobo. Com efeito, o regresso  simplicidade pastoril ou piscatria, como imagem da 
perdida Idade de Ouro, no passava ento de um ideal empalhado por reminiscncias 
literrias. Analogamente, os ditirambos de Cruz e Silva so, como os de Garo, 
composies que pretendem suprir com a erudio o autntico entusiasmo dionisaco, As 
elegias, odes sficas, alcaicas, e sobretudo as odes pindricas glorificadoras de 
heris quinhentistas nacionais, que conservam a tripartio helnica em estrofes, 
antstrofes e epodos, sem que isso corresponda j s suas necessidades originrias de 
contraste coral, representam outra rotunda falncia, embora tenham merecido certo 
favor dos letrados do tempo, como eco literrio que so da ideologia oficial 
contempornea.

634                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Mais leves, os epigramas e os aplogos ainda podero ser lidos, mas sem que despertem 
grande interesse. No entanto, as odes anacrenticas prendem mais a ateno; no 
desmerecem em comparao com muitas composies anlogas que figuram nas antologias 
seiscentistas de outras literaturas: so fluentes, mordidas de uma sensualidade 
discreta, e nelas o ritmo do verso breve elimina as construes sintcticas mais 
repisadas pelos rcades.  a que se exprime um pouco da verdadeira intimidade do 
magistrado pombalino.

Entre as trs centrias de sonetos que deixou, s merecem assinalar-se

os que se referem  viagem martima e subsequente estadia no Brasil.  curioso

sentir neles o balbuciar do senso do pitoresco, como resultado da presso da 
experincia tropical sobre uma cultura literria ainda inadequada para a

exprimir. Com efeito, o Brasil j no est inteiramente ausente dos versos

de Cruz e Silva, ao contrrio do que acontece com os de D. Francisco Manuel.

O nosso rcade tinha curiosidades de naturalista, e isso levou-o a esboar os 
contornos de uma ou outra paisagem dos trpicos, embora procurasse logo dignific-los 
ao modo arcdico, diluindo-os numa reflexo moralista sobre os males que o ouro 
brasileiro traz aos homens.

Mas a realidade visual que se lhe impe aos sentidos  mais forte do que as 
convenes moralistas. E ento Cruz e Silva, para no se perder numa

floresta virgem de impresses caticas, resolve mitificar a paisagem, urdir variados 
enredos amorosos de ninfas e pastores para uma srie de elementos da flora, da fauna, 
da orografia braslicas,  imitao de Ovdio. E eis a origem das suas doze 
Metamorfoses, que transpem para enredos mitolgicos a cascata da Tijuca, a rvore 
caui, a flor do manac, a ave beija-flor, o monte Macu e o passarito bem-te-vi, etc.

H, contudo, um poema onde Cruz e Silva atribui  imaginao mitificadora uma funo 
esteticamente significativa, criando uma mitologia prpria para efeitos de stira 
social: o Hissope. Principiou a escrev-lo por volta de 1768, em Elvas; o manuscrito 
divulgou-se rapidamente atravs de numerosas cpias manuscritas; da e das 
refundies do prprio autor resultaram verses diferentes, editadas a partir de 
1802. Fruto, originariamente, de uma

crtica anticlerical localizada, embora sob a influncia do iluminismo pombalino e de 
um modelo literrio (o poema heri-cmico tal como fora consagrado por Le Lutrin de 
Boileau), pouco pode por enquanto adiantar-se acerca

das suas intenes, pois o texto autntico ainda no est determinado com

5. - POCA - O SCULO DAS LUZES                                                      
   635

rigor. Deve considerar-se provisria toda a anlise e juzo que se faa desta obra, 
porque, tal como acontece com outros textos mais audaciosos do Iluminismo (alguns dos 
textos atribudos a Alexandre de Gustrio, por exemplo),  de admitir a possibilidade 
de remodelaes tardias, ligadas com a

propaganda liberal.

O que deu assunto ao Hissope foi unia questo de *precedncia+ que se levantou na S 
de Elvas entre o deo Lara e o bispo. O prelado acostumara-se a que, antes das 
cerimnias do culto, o deo lhe apresentasse servilmente o hissope,  porta da casa 
do cabido. Como um dia o deo faltasse ao cumprimento da praxe, o bispo obteve dos 
cnegos um

acrdo que obrigava a mant-la. O Lara apelou para as instncias eclesisticas 
superiores, mas o acrdo foi confirmado. Pouco depois morre, e sucede-lhe no deado 
um sobrinho que, recorrendo  Coroa, semeia o pnico na S elvense, ao ponto de o 
cabido e o bispo negarem a existncia do acrdo e da praxe.

Trata-se, pois, de uma das numerosas questinculas que a histria eclesistica 
regista nas relaes entre os altos j erarcas das dioceses. Mas intervm um elemento 
novo e importante: a arbitragem da Coroa. A irreverncia do poema s poderia 
compreender-se em

pleno apogeu do absolutismo.

Quanto  estrutura literria, devem-se  imitao de Boileau o uso de uma aparelhagem 
mitolgica ideada ad hoc, e os efeitos cmicos obtidos pelo contraste entre as 
bagatelas referidas e a grandiloquncia herica (aqui de imitao camoniana) da 
linguagem. Deve reconhecer-se, por outro lado, que o poema  desproporcionado, pelo 
menos nas verses mais conhecidas: duas visitas do deo, a primeira a um 
jurisconsulto, e a outra ao convento dos Capuchos, contm extensos dilogos que no 
interessam  aco principal. Ou o plano no foi suficientemente amadurecido, ou, o 
que  mais verosmil, deve tratar-se de interpolaes.  de facto provvel que tenham 
sido inseridos certos passos em que a stira anticlerical ganha um tom mais 
combativo, comparvel  crtica liberalista, como aqueles em que o alto clero, quer 
regular quer secular, nos aparece estigmatizado de ignorncia, superstio, 
indolncia, gula, vaidade, com os vcios do jogo e da embriaguez; ou em que aos seus 
festins planturosos se faz seguir um caldo de portaria para os pobres, como arremedo 
farisaico da caridade.

Tais despropores e possveis interpolaes no impedem que o Hissope, tal como 
chegou at ns, seja um aprecivel poema heri-cmico, que nos seus melhores momentos 
se aproxima das stiras de Tolentino, por certa

636                                          HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

qualidade da ironia. Alguns aspectos mais ridculos do feudalismo agonizante so nele 
promovidos a entidades mitolgicas maiusculadas, sob a chefia suprema do Grmio das 
Bagatelas. O conflito central  traduzido mitologicamente pela rivalidade entre duas 
formas de tratamento, ento em vias

de se generalizarem: a Senhoria do deo, e a Excelncia do bispo. Quer no

reino olmpico das Quimeras, quer na sua contrapartida infernal, o reino da

Discrdia, quer ainda no reino do Sono, que tambm se descreve, os deuses, com seus 
acessrios, so dados de um modo que no pode deixar de lembrar um processo da ironia 
tolentiniana ou queirosiana: a animizao cmica das coisas ou das circunstncias 
inertes. A crtica prende-se frequentemente com aparentes ninharias, como a moda, as 
frmulas de tratamento, os jogos de azar, o galicismo; no falta a autocrtica 
irnica ao coleccionismo de naturalista amador, s odes arcdicas dedicadas a mecenas 
ignorantes, etc.; perpassam vrias figuras e casos do mundo provinciano de Elvas, num 
misto, s vezes, de simpatia e de troa. Mas no h dvida de que o

escopo bsico do poema  o ataque ao mundo senhorial decadente: o seu

alto clero, a filosofia escolstica, o direito cannico (em oposio ao direito 
civil, que , afinal, exaltado por contraste), o barroco literrio, o eruditismo 
gramatical, as supersties, as manias genealgicas, as questes de precedncia 
honorfica.

O teatro em Portugal na poca arcdica

Na segunda metade do sculo XVIII, o teatro em Portugal est sujeito  influncia 
dominante da pera italiana, o que alis s constitui o desenvolvimento de uma 
situao j definida no tempo de D. Joo V. Subsistem formas diversas de teatro 
popular, mas muito inorgnico e abaixo do nvel que atingira Antnio Jos da Silva. 
Entre os dois extremos, os rcades vo tentar a tragdia cvica e a comdia de 
moralidade burguesa.

Na introduo a este perodo que estamos estudando, j apontmos a

relao existente entre o absolutismo, a pera e o desenvolvimento de certos aspectos 
das artes rtmicas e plsticas em Portugal na segunda metade do sculo XVIII. 
Registemos aqui apenas que Marcos Portugal tentou a pera com libreto original em 
portugus.  parte esse intento gorado, do ponto de vista literrio o reinado da 
pera  representado directamente por numerosas tradues e adaptaes, sobretudo dos 
libretos de Metas-

5, a pOCA - O SCULO DAS LUZES                                               637

tsio, algumas das quais se devem a Francisco Lus Ameno (o editor de Antnio Jos da 
Silva, e alis conhecido por vrios pseudnimos), sendo a maior parte delas correcta 
ou incorrectamente atribudas a Nicolau Lus, que foi ensaiador e director do Teatro 
do Bairro Alto. As tendncias mais caractersticas de tais adaptaes, principalmente 
das que podem com mais probabilidades atribuir-se a Nicolau Lus, representam uma 
certa sobrevivncia do gosto formado pela comdia espanhola. O adaptador, com efeito, 
tem sempre o cuidado de sublinhar as intenes morais do enredo, ou de faz-las 
surgir quando originalmente no existem, e sobrecarrega a histria amorosa principal 
com um subenredo caricato que decorre entre personagens servis, os graciosos.

A influncia da comdia espanhola  ainda suficientemente forte para que os 
dramaturgos de formao arcdica sintam a necessidade de a hostilizar durante toda a 
segunda metade do sculo XVIII. Essa influncia persiste tambm no teatro popular, o 
qual  constitudo por diversos gneros em que, ora se notam reflexos da pera ou at 
da comdia burguesa traduzida, ora

se verificam sobrevivncias da comdia lopesca, do auto sacramental e at de velha 
farsa vicentina. Tais so as peas para bonifrates, em cujo repertrio brilham ainda 
as mgicas de Antnio Jos da Silva e dos seus continuadores, Alexandre Antnio de 
Lima, e Rocha Saldanha; tais as mogigangas ou entremezes, que ridicularizam sobretudo 
vrios tipos sociais de miserveis e dependentes: o criado, o galego, o peralta, o 
sacristo, a beata, etc.; tais so os sainetes, comparveis aos intermdios musicais 
com intrito cmico dos palhaos de hoje: os prespios e vilancetes, que se ligam 
principalmente com as festividades do Natal e com certas lendas dos santos populares.

O desenvolvimento material e cultural da burguesia em fins do sculo XVIII, 
produzindo novos hbitos de sociabilidade (piqueniques, seres com

modinhas brasileiras, recitativos ou cantatas, assembleias ou funes), favorece um 
tipo especial de entremez, o provrbio, isto , uma pequena representao, hoje 
diramos um sketch, que no passa de simples ilustrao dramtica de certo adgio 
moralista. Neste gnero distinguiu-se Manuel Jos de Paiva, mais conhecido pelo 
pseudnimo de Silvestre Silvrio da Silveira e

Silva, que imitou sobretudo, para o efeito, o manancial da comediografia espanhola. 
Todos estes gneros populares foram amplamente divulgados pela literatura de cordel, 
constituda por folhetos baratos que, como diz Tolen-

638                                           HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

tino, se vendiam *a cavalo num barbante+ em certas ruas lisboetas de maior 
concorrncia.

A penria do teatro portugus original desta poca em obras de categoria, ligada a um 
to ntido contraste entre gneros pomposos e gneros populares quase inorgnicos, 
est provavelmente em relao com o atraso da conscincia doutrinria e esttica da 
burguesia portuguesa relativamente  francesa, por exemplo. Mas h certamente outras 
razes, entre as quais a proibio das actrizes, que Pombal fez vigorar desde 1768, e 
as restries impostas por D. Maria 1 e mal contrabalanadas por um maior interesse 
de Pina Manique quanto ao teatro. Acrescente-se que o terramoto emudeceu os 
principais palcos lisboetas durante cerca de 12 anos.

Os rcAdes e as tentativas de restaurao da tragdia

Pelo carcter dos seus protagonistas e conflitos (escolhidos por via de regra entre 
altas personalidades e casos da mitologia, da histria sacra e profana), a tragdia 
foi durante os sculos do classicismo o gnero mais adequado  expresso das 
preocupaes polticas. Os problemas que debatia prendiam-se por vezes com a tica do 
monarca absoluto, como  o caso de Corneille. J, porm, com Racine, a tragdia se 
fixa de preferncia em conflitos de ordem familiar e sentimental. Com os 
tragedigrafos ps-shakespearianos em Inglaterra e com Crbillon em Frana, a 
tragdia oferece o espectculo de sdicas truculncias ou de anormalidades e crimes 
que seriam repulsivos para vrias camadas de pblico. O Cato de Addison e a Zara de 
Voltaire iniciam nova fase na evoluo do gnero, como forma de dignificao dos 
ideais lun-iinistas da tolerncia e da liberdade poltica. A influncia crescente da 
burguesia, por meados do sculo XVIII, manifesta-se de preferncia no desenvolvimento 
da comdia e do drama realista, mas a Revoluo Francesa trouxe um novo surto de 
tragdias cvicas de tema libertrio, que corresponde ao gosto neoclssico ento 
dominante. Neste surto salienta-se, como referimos, a obra de Alfieri.

Este esquema de evoluo ajuda-nos a compreender a importncia que os rcades 
atribuem  tragdia, quando discutem incansavelmente as suas

regras. Trata-se, no fundo, de definir os ideais polticos da nossa burguesia 
letrada. No apareceu todavia qualquer grande personalidade que fizesse vingar este 
projecto numa obra perdurvel. Na produo teatral dos rca-

5.1 POCA - O SCULO DAS LUZES                                             639

des h a mesma carncia de autenticidade que condenou as odes arcdicas ao 
esquecimento. No  menos significativo que muitas energias se perdessem em 
discusses meramente formais, e que quase toda a tragediografia levada  cena seja 
constituda por tradues. Como contrapeso, notemos que as tradues e imitaes 
revelam uma ntida evoluo ideolgica, que se processa desde o terramoto at cerca 
de 1820.

Ao fundar-se a Arcdia Lusitana, um dos objectivos era o de lanar as bases de uma 
tragediografia portuguesa inteiramente moldada pela francesa do tempo de Lus XIV. A 
polmica de Alexandre de Gusmo com o marqus de Valena, a Arte Potica do padre 
Francisco Jos Freire apontam nesse

sentido. Duas Dissertaes acadmicas de Correia Garo, lidas em Agosto e Setembro 
de 1757, obedecem ao intuito de exaltar as regras da tragdia clssica francesa, em 
oposio  inglesa, nomeadamente ao Cato de Addison, que, significativamente, 
considera dominado pelo republicanismo revolucionrio de Cromwell. Na Gazeta 
Literria do Porto de 1761, o padre Francisco Bernardo de Lima exprime opinies 
semelhantes.

Garo tentou, provavelmente, cultivar o gnero nobre do teatro clssico, com duas 
tragdias de que s restam os nomes (Sofonsba e Rgulo).
O mesmo acontece com vrios outros rcades. A falta de originalidade nas

discusses acadmicas travadas sobre este ponto faz-nos crer que tais tentativas no 
excederiam a bitola de Mgara, Hermone, Astarto e Castro, versificadas por Reis 
Quita, segundo esquemas dramticos, delineados, sobre modelos conhecidos, pelo seu 
confrade e amigo Manuel Tibrio Pedegache, Brando Ivo, tragdias que s a um ttulo 
so notveis: a sua regularidade em relao aos cnones seiscentistas franceses. A 
Castro de Quita foi no

incio do sculo XIX refundida por Joo Baptista Gomes, numa verso que, embora 
inferior, teve o favor do pblico.  de notar que Cndido Lusitano revela maior 
flexibilidade crtica do que Garo, Quita e outros contemporneos, concedendo aos 
tragedigrafos certa margem de liberdade quanto  apresentao em pblico de cenas 
sangrentas e quanto  variedade de lugar e de tempo, o que contradiz os preceptistas 
franceses mais exigentes.

MMANUEL DE FIGUEIREDO e a tragdia *filosfica+

Ainda mais flexvel veio a ser, com o tempo, o gosto de Manuel de Figueiredo, o 
rcade que mais trabalhou pela reabilitao do teatro em Portugal.

640                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Manuel de Figueiredo (1725-1801) estudou com os Oratorianos de Lisboa e parece ter 
frequentado a Universidade. Entre 1745 e 1753 viveu em Espanha, como funcionrio, 
ligado s complicadas negociaes sobre os limites das colnias sul-americanas. 
Tirante

os seus primeiros versos dos quinze anos e uma tentativa de comdia em castelhano, s 
depois da fundao da Arcdia, a partir da apresentao ali da tragdia dipo, em 
1757, resolve dedicar-se inteiramente ao teatro, nos cios das suas funes de 
oficial de uma

secretaria de Estado. O seu excepcional carcter pode ser assinalado pelo facto de 
rejeitar na aposentao, em 1797, as gratificaes que excediam um ordenado por ele 
considerado como suficiente para o resto da vida. Da sua extensa obra apenas uma pea 
foi levada  cena e sem xito. Preservou-a toda, porm, um seu irmo, que a editou em 
13 volumes, numa tiragem de 300 exemplares. A Garrett se deve muito o no ter sido 
esquecido.

Na apresentao do dipo, com a capacidade de autocrtica que sempre o distinguiu, 
Figueiredo reconhece que todo o seu mrito reside em eliminar determinadas 
contradies dos seus predecessores nesse tema, em salientar os problemas de tica e 
em banir certos elementos que, como Muratori, considera prejudiciais  verosimilhana 
ou  moralidade teatral: solilquios, apartes, personagens confidentes, episdios 
amorosos. Pondera, no entanto, que *a observncia austera destes preceitos  mais uma 
prova de falta de ideia do que da observao da arte+. Outra autocrtica frequente e 
perfeitamente justa de Manuel de Figueiredo consiste em considerar-se mais 
*filsofo+, isto , moralista e registador de costumes, do que *poeta+. Desde a 
fundao da Arcdia at  morte, o nosso autor prepara os 13 volumes de peas 
originais e adaptadas, consciente dos seus defeitos e considerando-se simples 
precursor num pas desprovido, a seu ver, de qualquer tradio teatral de bom nvel: 
*Triunfem outros, basta-me a glria de ser o primeiro que morreu na brecha+.

J vimos que a primeira tragdia arcdica foi, de acordo com os Estatutos, sujeita a 
uma Censura, de que se incumbiu Sincero Jerabricense (Valadares e Sousa). Da Resposta 
do Autor retenhamos apenas a apologia dos coros, que o censor prope eliminar, de 
acordo com os autores franceses. Ainda em 1757, Figueiredo escreveu mais duas 
tragdias, Artaxerxes II e Viriato, esta ltima assinalvel pela escolha de um 
assunto nacional. A preocupao de enraizar no ambiente portugus, que domina todo o 
conjunto do seu teatro, faz-se sentir nas tragdias posteriores, em que deu quanto 
estava na sua capacidade: smia, a Lusitana (1773), que, inspirando-se num epi-

5. a POCA - O SCULO DAS LUZES                                                      
 641

sdio conhecido da Monarquia Lusitana, versa um conflito de tipo corneilliano entre o 
amor e o dever ptrio e conjugal, com a vitria pattica do ltimo; Ins (1774), 
tragdia bem arquitectada quanto  motivao das trs personagens centrais, com um 
excelente contraste de caracteres entre um Afonso IV *republicano+ (isto  , atento 
ao interesse pblico) e um D. Pedro *justiceiro@>, postos frente a frente numa cena 
intensamente dramtica, aps a execuo de Ins; As Irms (1775), que se baseia no 
comportamento maquia~ vlico de D. Leonor Teles para com D. Maria Teles. As duas 
ltimas tragdias, tal como algumas das suas comdias, talvez pudessem vingar no 
palco, mas com outro tratamento dialogal e versificatrio. Entre 1775 e 1776, Manuel 
de Figueiredo resolve rematar a sua carreira de tragedigrafo falhado pela traduo 
livre das trs tragdias suas predilectas: o Cid e o Cinna de Corneille, e o Cato de 
Addison. Sob o ponto de vista formal, tal escolha representa o reconhecimento do 
direito do gnio criador a uma certa liberdade relativamente aos cdigos clssicos; 
isto exprime Figueiredo ao dizer que * mais fcil chegar a ser Sfocles que a 
Corneille+, embora, por isso mesmo, desaconselhe a imitao de Corneille, *gnio 
monstruoso+ que situa acima das regras. Do ponto de vista ideolgico, tal escolha 
revela a importncia que Manuel de Figueiredo atribui  tolerncia e  liberdade 
cvica, de acordo com as suas constantes mostras de admirao e aprovao do *grande+ 
e

*sbio+ Voltaire. Racine, para ele, *no era to Filsofo como Poeta+, e o

nosso rcade tem o culto iluminista do Fiffisofo. Por isso procura reduzir o amor no 
seu teatro ao papel de sentimento controlvel, ou ento vicioso, tal como os 
dramaturgos gregos, a quem *o entusiasmo da sua liberdade lhes no permite 
deleitar~se com coisa to ftil e ridcula@>.

O gosto de Manuel de Figueiredo no coincide afinal com o do pblico do teatro 
declamado. O Cid e o Cinna tiveram tradues portuguesas, mas Racine foi muito mais 
copiosamente traduzido e adaptado at ao Romantismo. As tragdias de Voltaire foram 
apreciadssimas em numerosas verses, sobretudo no ltimo quartel do sculo XVIII e

incios do sculo XIX, o que alis coincide com o desenvolvimento da ideologia 
liberal. As Invases Francesas e a Revoluo de 1820 deram novas oportunidades  
tragediografia de exaltao das liberdades cvicas. De 1822 data, por exemplo, a 
vinda aos palcos lisboetas da primeira companhia francesa, para representar sobretudo 
Voltaire e Molire.

Como  natural, tal clima ideolgico favorecia a apreciao das tragdias de Addison 
e Alfieri, e por isso as vamos encontrar traduzidas e imitadas por vrios 
portugueses, entre eles o jovem Almeida Garrett. Os rcades Cndido Lusitano e Gomes 
de Carvalho

642                                           HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

tambm tentaram a tragdia: Ulisses em Lisboa, 1761, alis classificada como *pera 
portuguesa+, e Csar, 1775, respectivamente.

Os rcades e a comdia burguesa

Mais ainda do que  tragdia, Manuel de Figueiredo dedicou os seus

melhores esforos crticos, doutrinrios e dramticos  criao de uma comdia que se 
adequasse aos costumes e problemas da burguesia lisboeta.

Tambm Correia Garo manifestou o mesmo interesse, escrevendo duas comdias em um 
acto, que foram mal recebidas pelo pblico. Uma delas, Teatro Novo, tem mero 
interesse teortico, pois que o seu contedo se reduz essencialmente ao debate sobre 
os diversos gostos teatrais ento prevalecentes, sustentados por outras tantas 
personagens que o protagonista, Aprgio Fafes, convoca em casa para,  custa do 
dinheiro de um *mineiro+ (ou brasileiro) rico, apaixonado por uma das suas filhas, 
tratarem de reformar o

teatro em Portugal: o gosto clssico e arcdico, o gosto da pera italiana e dos 
efeitos coreogrficos ligados   pera nacional, o do teatro de bonecos, o das 
tramias cenogrficas, e finalmente o da comdia espanhola. Embora seja manifesta a 
predileco de Garo pelo teatro clssico versificado, a

pea deixa a impresso de um propsito mal definido de reforma teatral, que 
inclusivamente nos surpreende com uma vaga apologia da tradio vicentina. A segunda 
comdia, Assembleia ou Partida, satiriza as famlias remediadas que se vem em apuros 
para realizar reunies, ou partidas, ento em

moda,  custa de emprstimos e fiados, mas a stira recai principalmente sobre as 
pretenses fidalgas de alguns membros dessas famlias.

Cruz e Silva, como vimos, escreveu uma comdia, O Falso Herosmo, para satirizar *a 
falsa ideia/da nobreza bebida desde o bero+. O protagonista, D. Tadeu de Montalto,  
caracterizado, no apenas pela sua mania linhagista, mas tambm pelos gostos 
gongricos, fala estrangeirada, preferncia pelos artigos importados, e por uma vida 
irresponsvel; acaba por se servir cobardemente de um brigo profissional para se 
desembaraar de um rival amoroso. A pea  frouxa, e o seu interesse consiste apenas 
na crtica ao *Fidalgo+, feita do ponto de vista do *Filsofo+, isto , da 
moralidade e do interesse burgueses. Tal crtica cristalizava entretanto no tipo 
cmico do Peralta, que nos entremezes e stiras populares do fim do sculo XVIII 
chama a si alguns dos traos do velho Escudeiro vicentino, sobrecarregando-o

5. - POCA - O SCULO DAS LUZES                                               643

com todos os estigmas da leviandade, da estroinice, da irresponsabilidade que a 
burguesia descobre na pequena nobreza empobrecida. Nicolau Lus visou o mesmo tipo na 
sua pea mais original, a nica subscrita pelo seu nome: Maridos Peraltas.

Manuel de Figueiredo, cuja comdia pretendia, alis, corrigir os defeitos do teatro 
de Nicolau Lus, procura tambm, fundamentalmente, criticar no palco os preconceitos 
da aristocracia de sangue e fazer prevalecer, apurando-os, os padres morais e 
intelectuais prevalecentes na burguesia. Alm da doutrinao em numerosos Discursos 
prefaciais, escreveu peas com o fim exclusivo de criticar os gostos teatrais 
dominantes, de refutar os

seus censores ou de autocriticar-se. (0 Dramtico Afinado, Poeta em Anos de Prosa, 
Ensaio Cmico, Os Censores do Teatro.) Fundamentado no princpio da verosimilhana ou 
no da dignificao esttica e moral do assunto, condena os apartes, os monlogos, as 
figuras protticas (confidentes passivos) e outros elementos *contrrios  iluso+; 
preceitua o emprego do verso

branco, o banimento dos graciosos, de tudo quanto provoque a hilaridade, e dos 
enredos que sobrestimam o amor relativamente ao sentimento moral. Com o decorrer da 
experincia e dos prprios desenganos, Manuel de Figueiredo aprende a transigir em 
quase todos estes preceitos arcdicos e a capacitar-se das suas deficincias reais. 
Tem-se, com razo, na conta de bom *arquitecto+ de casos e situaes cnicas, mas de 
mau versificador, mau redactor, mesmo em prosa, sensaboro, com dilogos mortios.

No seu parecer, que traduz o sentimento dos rcades, o teatro constitui uma 
necessidade imperiosa, por ser uma espcie de plpito eficaz donde prega o Filsofo. 
Mas cada nao precisaria de um estilo especial de comdia, pois, com os costumes (a 
moral), variam de pas para pas a validez das normas de juzo e os problemas da 
tica social a representar; pelo que, diz, *tento dar um teatro  minha Nao, filho 
dos seus costumes, prprio do melindre dos olhos, da delicadeza dos ouvidos do 
sculo+. Limita muito, por isso, a importncia da imitao dos modelos antigos ou 
estrangeiros modernos.
O manancial dos assuntos, ambientes e tipos inspira-se essencialmente na

observao atenta dos costumes nacionais.

Pela nfase que d  finalidade moral e  criao de heris moralmente positivos, 
Figueiredo aproxima-se bastante da teoria do drama burgus de Diderot, chegando mesmo 
a aceitar expressamente tal classificao para uma

644                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

da suas peas mais vivas, A Mulher que o no parece. Admira profundamente 
Aristfanes, Goldoni, sobretudo Molire, e ainda comedigrafos menores, como Quinault 
e Regnard, mas censura-lhes fundamentalmente o apagarem os contornos morais das suas 
peas por causa da preocupao de fazer rir. No entanto, s a pea atrs mencionada e 
O Homem que no quis ser se aproximam bastante do drama burgus ou da comdia 
lacrimejante, em

geral, de acordo com a comdia clssica, a moralidade  posta em relevo nas suas 
comdias pelo ridculo do heri moralmente negativo, e no pelo carcter do heri 
positivo.

A ligao entre a comediografia dos rcades e a reforma pombalina do conceito de 
nobreza  evidente. Das trs primeiras peas do gnero que Figueiredo produziu, em 
1756, e que reflectem claramente o ambiente dos abarracamentos provisrios de Lisboa 
a seguir ao terramoto, Joo Fernandes feito homem, O Farsola, O Pssaro Bisnau, as 
duas primeiras opem as virtudes burguesas e at artesanais  mania nobilirquica.  
este ainda o alcance de Fatuinho, a sua mais caracterstica comdia de caracteres. 
Trs outras comdias, sem data e escritas por encomenda do marqus de Pombal (0 Avaro 
Dissipador, O Indolente Miservel, O Fidalgo da Sua Prpria Casa), contrastam o tipo 
do Fidalgo, quixotescamente anacrnico, ignorante e intil, com a pequena burguesia 
rural, que exaltam, numa linguagem por vezes afim da dos fisiocratas, sustentando a 
seguinte moralidade: fidalgos autnticos, *de homens-bons / o Rei  que os faz@>. J 
vimos o mesmo tema da crtica do Fidalgo n'O Falso Herosmo de Cruz e Silva.

Tirante essa insistente crtica filosfica da fidalguia de estirpe, os temas

da comdia de Manuel de Figueiredo dizem geralmente respeito a problemas da moral 
burguesa caseira: intrujices de pais casamenteiros, peraltices, imoralidades e 
ridculos do amor sentimental (Escola da Mocidade, Fastos do Amor e da Amizade, A 
Mocidade de Scrates); o mau sestro de enviar os filhos a educar, livremente, no 
estrangeiro, tema alis tambm tratado em entremezes (Perigos da Educao); o vcio 
do jogo (0 Mapa da Serra Morena); os excessos do cime, ou, inversamente, da 
tolerncia conjugal (A Grifaria). J vimos que alguns destes temas so tratados nas 
comdias de Garo. Como prottipo do que entendia ser a boa comdia, traduziu 
Figueiredo as comdias Mre Coquette de Quinault, Femmes Savantes de Molire, e O 
Jogador de Regnard; tambm adaptou o Cioso de Antnio Ferreira.

5. POCA - O SCULO DAS LUZES                                                       
      645

Os palcos de comdia, sobretudo o do Salitre, foram alimentados quase exclusivamente 
por tradues ou adaptaes annimas, em grande parte devidas, ao que parece, a 
Nicolau Lus. Entre os autores predilectos distinguem-se Molire e Goldoni. Lembremos 
um episdio curioso na histria das adaptaes: o Tartufo de Molire foi adaptado por 
ordem do marqus de Pombal, no sentido de se acentuar a hipocrisia do protagonista, 
que passava a vestir a roupeta jesuta, e o xito foi de tal ordem que Leonardo 
Pimenta se atreveu a continuar essa adaptao corri unia Segunda Parte do Tartufo: o

Tartufo Lusitano e ainda com A Ambio dos Tartufos Invadida.

H tambm no Teatro do Salitre e no da Rua dos Condes entremezes, breves farsas, como 
as do muito popular autor satrico Jos Daniel Rodrigues da Costa (1757-1832, o 
Josino Leiriense da Nova Arcdia), publicadas em Teatro Cmico de Pequenas Peas, 
Lisboa, 1797, que inclui 15 farsas e entremezes; personagens significativos: o falso 
fidalgo, o toureiro decadente, a menina sabichona, o taful, em contraste com tipos 
populares.

No primeiro quartel do sculo XIX o pblico acolheu favoravelmente algumas tentativas 
de farsa ou de baixa comdia de caracteres, em que a

crtica  sociedade absolutista decadente transparece frequentemente atravs dos 
motivos de hilaridade. Nomeemos apenas como principais autores: Manuel Rodrigues 
Maia, autor do Dr. Sovina; Fernando Antnio Vermuel (1787-1843), que escreveu O 
Enredador; Antnio Xavier, que se celebrizou com Manuel Enxtndia; e Ricardo Fortuna 
(1774-1860), o ltimo continuador do teatro de Antnio Jos da Silva.

BIBLIOGRAFIA

1. Textos

Francisco Xavier de Meneses, trad. da Arte Potica de Boileau, *Coleco Bilingue+, 
Lisboa, 1953 (ed. anteriores: 1793, 1818).

Freire, Francisco Jos: Arte potica ou regras da verdadeira poesia, Lisboa, 1748,
1759. Dicionrio Potico, 1765, 1794, 1820. Ver no texto a data de ed. de outras 
obras. So numerosas as suas obras publicadas ou ainda em manuscrito. Distingamos 
entre as

primeiras O Secretrio Portugus, compendiosamente instrudo no modo de escrever 
cartas, 1745-1759, 1786, 1807, etc., guia epistolar muito usado e literariamente 
mencionado ainda no sc. XIX; Mtodo breve e fcilpara estudar a Histria Portuguesa, 
1748, destinado a suprir uma falta criticada por Verney.


Garo, Correia: Obras poticas, 1 vol., Lisboa, 1778; reproduzida no Rio, 1812, e em 
Lisboa, 1825, 2 tomos; nova ed, por Azevedo e Castro, com alguns inditos, Roma,
1888. ltima ed. por Antnio Jos Saraiva, na col. *Clssicos S da Costa+, com novos 
inditos, Lisboa, 1957-58.

646                                               HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Quita, Reis: Obras poticas, 1. > ed., Lisboa, 1766; 2. > 178 1; 3. > 183 1. Silva, 
Antnio Dinis da Cruz e: Poesias, 6 vols., Lisboa, 1807-11-12-14-15-17; Odes 
Pindricas pstumas, Coimbra, 1801, 2. > ed. Londres, 1820. Hissope, principais ed. 
existentes: 1 . 8 1801, Paris (embora datada de Londres), reed. parisienses de 1817, 
1821,
1826, 1834; 1. > ed. portuguesa, possvel graas s Invases Francesas, 1808; outras

ed. portuguesas, Lisboa, 1834, Barcelos, 1876, Lisboa, 1879, Porto, 1886, Coimbra,
1911. Falta ainda uma ed. crtica com base no confronto dos diversos manuscritos. 
Jos Pereira Tavares editou uma verso que se afasta da mais vulgarmente conhecida e 
reproduzida, que  a da ed. pretensamente crtica de 1879. Como reflexo da grande 
popularidade do Hissope entre os emigrados, h, no apenas a multiplicidade das suas 
ed. (e variantes), mas at a publicao de duas tradues francesas em Paris, 1828, 
uma de Boissonade, outra de Lcussan-Verdier.

Figueiredo, Manuel de: Teatro, Lisboa, 1804-15, 13 tomos, seguidos de um

14. > vol., em grande parte redigido pelo irmo mas que contm alguns seus dispersos.

Galvo, Jos: rcades Portugueses num Cdice Manuscrito, texto policopiado, Nantes, 
1968-69, Poitiers, 1971-72. (Provavelmente recolhido em 1830 por um liberal exilado 
em Rennes, contm, entre muitos outros textos, uma variante do Hissope.)

Delille, Maria Manuela Gouveia: Uma tragdia portuguesa do sc. XVIII: *Morte de 
Cezar+, *sep. da Bibios+, vol. 48, 1973 (com reproduo offset de uma tragdia 
annima, adaptada de Voltare e algo de Shakespeare e Comeille, com apologia do 
dspota esclarecido).

Como 1 .a vimos a propsito da poca Barroca, parte do teatro setecentista (e 
seiscentista) ficou recolhido em folhetos de cordel. Veja-se: Publicaes da 
Biblioteca da Universidade de Coimbra, Catlogo da coleco de miscelneas, tomo 7., 
precedido de breves reflexes sobre o Teatro em Portugal nos scs. XVII e XVIII por 
Anbal Pinto de Castro,
1974; Sampaio, Aibino Forjaz de: Subsdios para a histria do Teatro portugus - e 
teatro de cordel, Lisboa, 1920; Catlogo da Literatura de Cordel da Fund. Calouste 
Gulbenkian, Lisboa, 1970. H uma recolha de peas de cordel de Jos Daniei Rodrigues 
da Costa,
6 entremezes de cordel, texto fixado por L. M. Cintra e J. S. Meio, Lisboa, 1973.


Costa, Jos Daniel Rodrigues da: O Balo aos Habitantes da Lua, poema heri-cmico, 
ed. anotada por Alberto Pimenta, Edies 70, 1978; O Almocreve das Petas (seguido de 
antologia), leit., pref, e notas de Joo Palma-Ferreira, Estdios Cor, 1974.

2. Antologias

Poesia do Sculo XVIII, sei., pref. e notas de scar Lopes e Jlio Martins, na 
*Colecco Avelar+, Lisboa.

Poetas do Sculo XVIII, sei., pref. e notas de Rodrigues Lapa, na col. *Textos 
Literrios+,

Cantata de Dido e outros poemas, sei., pref. e notas de Antnio Corra de A. 
Oliveira, col. *Clssicos Portugueses+.

Poesia Arcdica, sei. de Lnia Mrcia de Medeiros Mongeli, col. *Literatura em 
Perspectiva+, So Paulo, 1986.

5. @ POCA - O SCULO DAS LUZES                                                      
      647

3. Estudos

Ver notas de Antnio Salgado Jnior ao 1. > vol., intitulado Estudos Literrios, da 
ed. crtica do Verdadeiro Mtodo de Estudar, col. *Clssicos S da Costa+, e pref. 
das ed. indicadas.

Braga, Tefilo: Histria da Literatura Portuguesa - A Arcdia Lusitana, Porto, 1899; 
Recapitulao da Histria da Literatura Portuguesa - Os  rcades, Porto, 1918, reed. 
IN-CM, 1984; Histria do Teatro Portugus - A Baixa Comdia e a pera, Porto, 1871.

Moreirinhas, Jos Cerqueira: Notas ao *Hissope+, in *Ocidente+, t. 62, n. 287, 
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Pimpo, Costa: Um plgio de Francisco Joseph Freire (Cndido Lusitano), in *Biblos+, 
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Silva, Jos Maria da Costa e: Ensaio biogrfico-crtico sobre os melhores poetas 
portugueses, 1850-59.

Figueiredo, Fidelino de: Histria da Literatura Clssica, 3. 1 poca, Lisboa, 1924, 
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Cidade, Hernni: Lies de Cultura e Literatura Portuguesa, 2. > vol., 4. > ed., 
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Faria, Jorge de: Um sculo de teatro francs em Portugal (1737-1837), in *Builetin 
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Coelho, Jacinto do Prado: A musa negra de Pina, e Meio e as origens do pr-romantismo 
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Vil, 1959; Ao Contrrio de Penlope, Bertrand, 1976 (contm estudo sobre Toms 
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Silva, Vtor Manuel Pires de Aguiar e: Para uma interpretao do Classicismo, sep. da 
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*Annali Sezione Romanza+, 9, n. > 2, Julho, 1967; Per una storia dei teatro italiano 
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bibliografia discriminada); e Rcerche sul Teatro Portoghese, Edizioni dell'Ateneo, 
Roma,
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Frches, Claude-Henri: Le Thtre aristocratque et Pvolution ou got au Portugal 
d'aprs Ia *Gazeta de Lisboa+ de 1715  1739, in *Bulletin des tudes Portugaises+,
26, 1965.

Antnio Coimbra Martins tem em *Arquivos do Centro Cultural Portugus+, 1, Paris,
1969, uma monografia que muito interessa ao estudo da influncia francesa no teatro 
portugus do tempo de D. Joo V: A propsito de uma traduo de George Dandn 
atribuda a Alexandre de Gusmo. Subsdios para o estudo da projeco de Molire em 
portugus.

Delille, Maria Manuela: Uma Tragdia Portuguesa do Sculo XVIII: *Morte de Cezar+, 
sep. *Biblos+, n, > 48, 1973 (contm o estudo de uma imitaco annima de La Mort de 
Csar de Voltaire, ed. em portugus em 1783).

Carreira, Laureano: O Teatro e a Censura em Portugal na Segunda Metade do Sculo 
XVIII, IN-CM, 1988.

Carvalho, Mrio Vieira de: Trevas e Luzes na pera de Portugal Setecentista, in 
*Vrtice+, 11 srie, 27, Junho 1990, pp. 87-96 (uma sntese sobre a clivagem social 
entre a pera bufa de corte, a pera sria para a nobreza e a pera de bonecos, 
popular, bem como a evoluo dessa clivagem at  iniciativa da alta burguesia 
lisboeta na organizao de temporadas de pera no teatro da Rua dos Condes, em 1772, 
e na construo do Teatro de S. Carlos).

Pereira, Maria Helena Rocha: Aspectos novos do horacianismo em Correia Garo, in 
*Humanitas+, nova srie, n.os 6-7, 1957-58, e Reflexos horacianos nas Odes de Correia 
Garo e Fernando Pessoa (Ricardo Reis), 2. > ed., Porto, 19 58.

Gonalves, Antnio da Silva: Os metros alcaicos e sficos em P. A. Correia Garco e 
em A. D. da Cruz e Silva, 1970.

Heimut Hatzfeld tem no vol. 8 de *Aufsaetze zur Portugiesischen Kulturgeschichte+, 
Mnster, Vesteflia, 1968, um ensaio sobre Aspectos do Rococ Literrio em Portugal 
que se refere a vrios rcades, entre outros autores setecentistas; e ainda ibidem, 
vol.
12, 1972-73, Humor des Getarnten Aufklrung in *0 Hissope+ und *Fray Gerundio+.

Na ed. de O Piolho Viajante, Lisboa, 1973, por Joo Palma-Ferreira, contm-se 
importantes dados bibliogrficos ou directamente informativos sobre o teatro de 
cordel e outro da 2. ametade do sc. XVIII, incios do sc, XIX.

Captulo IV

IRRADIAO E EVOLUO DA POESIA ARCDICA

Generalidades

Ao passarmos em revista a carreira dos principais rcades, j surpreendemos as 
grandes linhas de irradiao e evoluo do arcadismo. Surgindo

como um compromisso entre, por um lado, as tendncias racionalistas, progressistas e 
realistas de uma camada intelectual de extraco burguesa, e, por outro lado, o 
classicismo do modelo greco-latino, que era a nica tradio suficientemente 
prestigiada de cultura laica -, a poesia arcdica correspondia a um determinado 
processo de evoluo social e tendia, por isso, a irradiar pelo Pas, num mbito que 
se estendia desde o funcionalismo letrado lisboeta e a juventude estudantil coimbr 
at onde quer que se pudesse constituir uma academia letrada provinciana, O 
desenvolvimento da vida de relao, da sociabilidade superior, do amaneiramento nos 
costumes da burguesia, a que j fizemos referncia quando falmos em assembleias, 
funes, representaes teatrais privadas, em reunies de botequins, etc., contribuiu 
para tal irradiao, que  acompanhada por um revigoramento constante das tendncias 
realistas e sentimentalistas, a exclurem progressivamente o suporte, a mediao 
prestigiadora do classicismo antigo.

Alm de Lisboa e Coimbra, e sem falar em certas academias provincianas que pouco ou 
nenhum rasto deixaram, notam-se depois do terramoto alguns sinais de polarizao de 
vida literria na cidade do Porto, que, estimulada pela presena de uma numerosa 
colnia comercial inglesa, preludia a diferenciao cultural bem patente desta cidade 
em pleno Romantismo. O cnego

650                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Francisco Bernardo de Lima publica a, em 1761 e 1762, a Gazeta Literria, que  o 
decano dos peridicos portugueses de crtica literria e de informao cultural. 
Paulino Cabral de Vasconcelos (abade de Jazente) e Joo Xavier

de Matos so, em grande parte, o fruto de assembleias portuenses, e sobretudo de uma 
Academia Portuense que reuniria no pao episcopal do Porto.

Maior importncia ainda se deve atribuir ao conjunto de altos funcionrios literatos 
que viveram ou nasceram em Minas Gerais, visto que, com

maior ou menor conscincia disso, preparam no plano das Letras a emancipao nacional 
da burguesia brasileira, embora esta at muito tarde, por fins do sculo seguinte, 
ainda mostrasse muitos sinais de dependncia cultural relativamente  universidade 
coimbr e s tradies literrias especificamente portuguesas.

Recordemos, por fim, que em Lisboa, depois de extinta a Arcdia Lusitana, se procurou 
fundar em 1790 uma Nova Arcdia ou Academia das Belas-Letras. Tratava-se, na verdade, 
de uma tertlia com caractersticas mundanas, recitativos, ch e torradas, que reunia 
s quartas-feiras no palacete do ronde de Pombeiro, sob a orientao de Domingos 
Caldas Barbosa. Dessas reunies participavam, alm de Bocage e Jos Agostinho de 
Macedo, que estudaremos, outros poetas, como Belchior Curvo Semedo (1766-1838), Joo 
Vicente Pimentel Maldonado (1773-1838), dois autores que frequentemente figuraram nas 
selectas escolares em virtude dos numerosos aplogos que, por sinal sem qualquer 
brilho, adaptaram ao verso portugus. J ento as

condies sociais da poesia portuguesa se alteravam profundamente, por forma que 
atingia o arcadismo. Enquanto, com as reformas pombalinas e ps-pombalinas da 
instruo, com a Academia Real das Cincias, o Estado chama a si um controlo 
crescente sobre o ensino, a erudio ou investigao mais sistematizada, os poetas 
sentem a decadncia do mecenato por parte da Coroa ou da alta aristocracia, e, por 
outro lado, a presena e o estmulo de um novo pblico atento s manifestaes de 
inconformismo e de polmica. Uma grande parte da obra em verso de Nicolau Tolentino e 
de Joo Xavier de Matos, por exemplo,  constituda por longos memoriais 
autobiogrficos a

requerer favores e proteces sempre difceis; mas, opostamente, foi dos aplausos dos 
seus admiradores de botequim, do pblico do Nicola e seu anexo

reservado, o Agulheiro dos Sbios, que Bocage tirou o calor das suas invectivas 
contra o mundanismo da Nova Arcdia. As guerras dos poetas, que

5. POCA - O SCULO DAS LUZES                                                 651

j tinham abalado a Arcdia Lusitana, revelam a desagregao dos compromissos 
formalistas do arcadismo; s dissertaes acadmicas sobre os preceitos da esttica 
literria sucedem as stiras e os panfletos verrinosos e demaggicos: Jos Agostinho 
de Macedo, bem escudado na sua fcil posio de crtico e at de censor antiliberal, 
no procura apenas a demolio literria de Bocage, Pato Moniz ou Garrett, mas produz 
toda uma infindvel literatura panfletria que  uma tarefa de caceteiro ideolgico 
contra os pedreiros-livres.

A esta transformao da base institucional de apoio, do pblico, no podia deixar de 
corresponder uma evoluo no gosto potico, dentro do sentido geral em que ela se 
processa por toda a Europa. Filinto Elsio, o mais directo

continuador do horacianismo  Correia Garo, traz para o verso (e para a prosa) o 
seu rude plebesmo de garoto nado e criado ao ar livre da Ribeira

das Naus. O abade de Jazente, tambm padre e anti-ultramontano, incluiu na urea 
mediania e no epicurismo horacianos a amizade pelos seus ces

de caa e as efemrides das suas aventuras erticas. Da camaradagem de

armas com oficiais ingleses e da sua formao racionalista, Anastcio da Cunha 
ganhara entretanto foras para ir mais longe, at  expresso directa do amor como 
unio carnal e  das dvidas religiosas. O apogeu desta tendncia realista  
representado, finalmente, por Nicolau Tolentino, cujas stiras ironizam as 
frustraes pecunirias, sociais e at fisiolgicas daquela pequena burguesia 
pelintra a que no conseguiu arrancar-se.

 de notar o contraste existente entre a rpida maturao do pitoresco de costumes, 
da caricatura satrica, que se observa j em O Hissope e nas

quintilhas tolentinianas - e o lento avano do pitoresco paisagstico, que ainda em 
Garrett nos apresentar muito de conveno arcdica. O ineditismo literrio dos 
panoramas brasileiros, que em Cruz e Silva se transpe para alegoria mitolgica, s 
consegue aparecer muito diluidamente nos poemas de Baslio da Gama, Santa-Rita Duro 
e Toms Gonzaga, numa ligao estreita com uma certa idealizao das relaes entre 
civilizados e o selvagem amerndio ou ento com a crtica, no menos idealista, da 
minerao aurfera. Joo Xavier de Matos e Bocage tm poemas cujo assunto,  primeira 
vista, se diria exclusivamente paisagista, mas que, na realidade, s acrescentam aos 
clichs camonianos ou arcdicos um arroubo sentimentalista ou uma tirada pattica com 
certa insinuao rtmica. As prprias tradues que se fizeram

652                                          HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

dos iniciadores europeus do estilo pitoresco (Paulo e Virgnia foi traduzido por 
Bocage; Os Mrtires do Cristianismo por Filinto Elsio; etc.) revelam, por parte dos 
tradutores, a tendncia para eliminar as notaes individualizantes de forma e cor, 
como foi apontado por Hernni Cidade. Este atraso de pitoresco paisagstico na 
literatura portuguesa relativamente s literaturas francesa e inglesa tem que ver 
decerto com o atraso da burguesia portuguesa em relao  dos pases mais adiantados 
da Europa, pois, como adiante

veremos, a presena de um mais largo pblico, em Frana e principalmente em 
Inglaterra, possibilita a animao estilstica pelo colorido, pelo extico, pelo 
inslito e por outros recursos.

A natureza espelhada nos nossos poetas que precedem de perto o Romantismo no se 
distingue pela intuio pitoresca, mas  em regra um pretexto de conveno clssica, 
de cientismo literatizado ou de encarecimento sentimental. O cientismo literatizado, 
que  um subproduto ideolgico dos hbitos mentais do experimental ismo e da 
taxinomia naturalista, teve os seus cultores portugueses, como o Dr. Antnio Ribeiro 
dos Santos, D. Leonor de Almeida, e sobretudo Jos Agostinho de Macedo.  esquina do 
sculo XVIII para o XIX, abundam as tradues parcelares ou totais de certos poetas 
cujo paisagismo um tanto analtico e rebuscado se pode considerar como contguo a 
esse naturalismo cientista: Gessner, Wicland (traduzidos por Leonor de Almeida, 
Filinto), Delille, Castel (traduzidos por Bocage). O Investigador Portugus, 
peridico que os liberais expatriados publicaram em Londres, entre 1811 e 1819, 
revela, como  natural, uma permeabilidade maior ao estilo pitoresco, bem como a 
todas as tendncias pr-romnticas em geral.

O Romantismo, com efeito, abre entre ns caminho atravs de numerosas tradues e 
adaptaes das obras que na Europa reabilitaram o conceito, anteriormente pejorativo, 
de gtico, e consagraram o gosto da fantasia cavaleiresca ou sobrenatural, da 
melancolia funrea ou contemplativa, das narrativas biffilicas, orientais ou 
clticas. O salo da marquesa de Alorna, D. Leonor de Almeida, e os artigos de 
Vicente Nolasco da Cunha, que foi um dos directores do Investigador Portugus, 
salientam-se entre essas influncias estilsticas de transio. Bocage, no entanto,  
a personalidade mais representativa de uma crise que, mais do que o gosto e o estilo, 
atinge o prprio teor de vida literria e os preconceitos arcdicos e iluministas. A 
literatura, que s conseguira celebrar o terramoto e o reformismo pombalino em

5, a POCA - O SCULO DAS LUZES                                             653

termos convencionais e abstractos, testemunha j de um modo mais comunicativo certos 
fenmenos polticos posteriores (como a Viradeira, a poltica de paz de D. Maria 1, 
os ecos da Revoluo Francesa), e sobretudo o afrancesamento dos costumes, dos gostos 
sociais e da linguagem, na burguesia, ao lado de uma corte decadente mas de 
predileces ainda barrocas: poetava-se mais para a funo ou botequim do que para o 
outeiro ou academia, a velha recluso das mulheres cedia s facilidades do namoro, e 
o cavaleiro de melindroso pundonor fazia-se chichisbu peralta; as velhas frmulas de 
tratamento, a Senhoria e a Excelncia, democratizavam-se, ou mais exactamente, 
aburguesavam-se, a despeito dos zelos de puritanismo tradicional e de stiras 
inumerveis.

A arcdia portuense: o ABADE DE JAZENTE

e JOO XAVIER DE MATOS

Da vida literria no Porto na segunda metade do sculo XVIII poucas notcias nos 
chegaram; mas a prpria obra do mundano proco de Jazente, Paulino Antnio Cabral 
(1719-05-06 - 1789-11-20), e a de Joo Xavier de Matos (n. por incios do decndio de 
1730, falecido em 1789 e cuja obra espelha uma vida goliardesca e dependente do 
mecenato aristocrtico) do-nos testemunho de uma Arcdia que reuniria por finais do 
decndio de 1760 sob os auspcios do bispo do Porto, e de uma intensa versificao 
destinada a

outeiros conventuais e sobretudo a assembleias burguesas. Ambos os poetas estudaram 
em Coimbra; Xavier de Matos, natural do Sul, s entre 1762 e

1770 viveu no Porto, onde se apaixonou por uma freira; Paulino Cabral d-nos da vida 
social do Porto um quadro que no difere muito daquele que Tolentino, por exemplo, 
surpreendeu em Lisboa.

Como poeta, sobretudo sonetista, Paulino Antnio Cabral, abade de Jazente, actualiza 
mais que Garo os temas horacianos do amor epicurista e da dourada mediania rural. A 
vida simples da sua parquia sertaneja, em

frente s penhas do Maro e ao Tmega, os sonetos sinceros  morte ou velhice dos 
seus ces,  caa,  pesca,  solido tempestuosa, contrastam com os

costumes afrancesados, as assembleias, os jogos, o teatro, bailes, passeios e 
aventuras galantes no Porto. A naturalidade do seu estro deixa-nos precisos e 
prosaicos testemunhos epocais e biogrficos: um dos sonetos  todo feito de preos de 
mercado, para poder rematar que *graas ao Cu, temos

654                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

em bom preo / os tremoos, o arroz e as Senhorias+; e outro soneto d-nos

toda a sua ascendncia burguesa at aos bisavs, para ridicularizar as manias

genealgicas. Mas o que h de mais vivo na sua obra  o dirio da sua prpria vida 
ntima, que no se limita a donjuanescas evocaes de *ninfas+ durienses, depois 
saudosamente evocadas quando j *matronas+, seno que se enche de episdios 
concretos, especialmente no que se refere a uma Nise

(anagrama de Ins da Cunha, como revela mais tarde): o ranger de portas, assobios e 
latidos da aventura nocturna; acessos incontveis de cime ou de remorso; adeuses 
desesperados; excessos; momentos de aborrecimento e saturao; rumores de escndalo e 
de intriga familiar; o gosto do segredo e os

rompantes de desfaatez; surpresas; uma visita de Nise, fugida  trovoada; a 
vergonha, a contrio provocadas por um pregador; a luta do instinto com

os canones (*se fao mal, no sei; s sei que  bela+); a morte de Nise; um misto de 
saudade e desencanto; e a morte que nunca mais chega, o martrio

de sobreviver  velhice caquctica e  penria. Talvez porque o autor no

pensasse em public-los, estes sonetos do abade de Jazente contam-nos dum modo 
directo o mais animado drama de amor que o verso portugus regista no sculo XVIII. 
De notar, ainda, referncias  fsica de Descartes, o antijesuitismo e a admirao 
pelo marqus de Pombal.

Joo Xavier de Matos, com a sua versificao cantante, pode em grande parte 
considerar-se como um tardio e consciente epgono dos quinhentistas, especialmente de 
Cames. As suas poesias buclicas, que tanta admirao granjearam no tempo, hoje 
quase s interessam pela sua doura romntica, porque o gosto insistente da paisagem 
no sai nele dos moldes clssicos convencionais. A expresso das situaes e atitudes 
criadas pelo amor pouco adianta a um abstracto camonianismo. Apenas sobressai uma 
toada persistente de tristeza e pessimismo, que se torna mais comunicativa numa carta 
autobiogrfica e em certos remates de soneto com sabor quase romntico, como aquele 
em que quer *ver esta noite durar tanto / que nunca mais amanhecesse o dia+, 
aqueloutro em que deseja *fartar o pensamento de saudade+, ou ainda essoutro em que 
enumera uma srie de ambientes sombrios, concluindo que, a realizarem-se todos, *nem 
ento me fartara de tristeza+.

Sob o ponto de vista ideolgico, quer o abade de Jazente, quer Xavier de Matos so 
espritos do Sculo das Luzes, apesar da condio sacerdotal daquele e da dependncia 
ulica do ltimo, que no o impediu de participar

5. POCA - O SCULO DAS LUZES                                              655

na crtica  nobreza de sangue e de ser denunciado como desrespeitador da religio. 
Convm notar que, por ordem cronolgica, as tendncias realistas de Paulino Antnio 
Cabral devem preceder as de Garo e de Cruz e Silva, ambos mais novos e, nesse 
particular, mais hesitantes; e que Xavier de Matos, mais ou menos contemporneo dos 
trs principais poetas da Arcdia, e um

tanto afim de Reis Quita em certos tons de morbidez melanclica, se destaca hoje por 
ter feito ressaltar os topos sentimentais e tenebrosos, e, neste sentido, o pr-
romantismo j inerente ao lirismo e ao bucolismo de Quinhentos e Seiscentos.

O arcadismo no Brasil

Tirante Gregrio de Matos Guerra, o Brasil no encontra antes da Arcdia qualquer 
poeta de mrito. No sculo XVI, as poesias e dramatizaes contidas nos cadernos de 
Jos de Anchieta e a Prosopopeia de Bento Teixeira nada tm de especificamente 
brasileiro. A primeira metade do sculo XVIII assistiu  publicao das primeiras 
obras de inspirao local, alis pouco notveis, em que se descortinava a admirao 
por certos recantos brasticos. Entretanto, e isto  talvez mais significativo e 
frtil de consequncias, o movimento das academias literrias propaga-se ali. No 
ltimo quartel do sculo existe j, sobretudo na regio de Minas Gerais, que  ento 
a mais importante economicamente, um conjunto de poetas que trazem coisas novas

ao arcadismo luso. Quatro deles, magistrados ou advogados de Minas ou

l vivendo, so atingidos pela represso do primeiro movimento ainda vagamente 
autonomista e liberal da colnia: Cludio Manuel da Costa (1729-1789). Toms Antnio 
Gonzaga (1744-1819), Alvarenga Peixoto (1744-93), Silva Alvarenga (1749-1814); dois 
outros, naturais de Minas, escreveram os primeiros poemas hericos em que se exalta a 
populao amerndia segundo uma concepo estreitamente afim  do bom selvagem e, 
portanto, da bondade natural do homem, que o pr-romantismo francs ps em voga; 
Baslio da Gama (1741-95) e Santa-Rita Duro (falecido em 1789). Convm notar, a 
propsito, que Caldas Barbosa (1740-1800), o Lereno da Nova Arcdia, amolece e 
populariza certos temas arcdicos para os adaptar s modinhas brasileiras que o 
celebrizam. Certa cor local e certo dengue brasileiro constituem, no conjunto destes 
poetas, uma contribuio importante para a formao do gosto romntico entre ns.

656                                             HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Cludio Manuel da Costa, o decano dos poetas mineiros e o mais atingido pela 
represso da Inconfidncia Mineira, pois se suicidou na priso,  um precursor pouco 
feliz do poema herico brasileiro (Vila Rica, onde se nota a influncia de Henriade 
de Voltaire), mas, paralela e independentemente da Arcdia Lusitana, disciplina em 
terra

brasileira a poesia gongrica num sentido da naturalidade e do enraizamento local que 
fez escola.

Toms Antnio Gonzaga, nascido no Porto, quase s viveu na Metrpole os primeiros 
anos da infncia e depois os da formatura em Direito. As suas liras da Marlia de 
Dirceu, com a sua variedade estrfica, o ritmo nitidamente marcado por versos curtos, 
rimas e estribilhos, com a grande simplificao do aparato mitolgico, tornaram-no, 
em vsperas do Romantismo, o mais popular e reeditado dos nossos poetas de amor. 
Essas liras, inspiradas pela ternura pr~nupcial do Dirceu, ou Gonzaga, j ento 
magistrado de meia-idade, para com uma adolescente e prendada Marlia, distinguem-se 
por um certo dom de concretizao, que leva a definirem-se no verso traos 
fisionmicos da amada, pela manifestao de aspiraes comezinhas a um lar burgus 
confortvel, por um certo gosto da expresso directa. Em algumas destas composies 
projecta-se o espectculo, familiar ao autor, do trabalho dos negros na minerao e 
culturas. Tudo isto se exprime atravs de uma arte estilstica mais insinuante e 
segura, um artifcio que ainda o no parecia, em comparao com os gostos mais 
ostensivamente eruditos da Arcdia. Toms Antnio Gonzaga, preso e degredado como 
resultado da Inconfidncia, surge depois aureolado pela lenda romntica que a 
especulao editorial alimenta; Dirceu, como antes Bernardim, passa a ser admirado 
sob o signo do amor juvenil e impossvel, da perseguio, do desterro cruciante, da 
loucura e de uma morte miservel. Tal lenda, que s h decnios se desfez, ao saber-
se que Gonzaga morreu casado e rico em Moambique, corresponde ao sentimento pr-
romntico do pblico apreciador da Marlia de Dirceu.

Certos investigadores (Alberto Faria, Afonso Arinos de Melo Franco, Lus Camilo de 
Oliveira Neto, Rodrigues Lapa, etc.) tornaram mais plausvel a convico antiga de 
que as Cartas Chilenas, violenta stira contra a

administrao colonial do Brasil, a que j nos referimos, se devem a Toms Gonzaga, o 
que, alm de mostrar mais uma faceta do seu talento, no-lo apresenta perfeitamente 
identificado com o ambiente mineiro.

5. a POCA - O SCULO DAS LUZES                                                      
    657

Muito pouco se conhece da obra de Alvarenga Peixoto, e esse pouco apenas o diferencia 
da literatura arcdica pelos sentimentos comuns a quase todos os escritores do Brasil 
colonial: a admirao por Pombal; o orgulho por quanto a civilizao curopeia deve  
desumana minerao brasileira.

Silva Alvarenga, cuja priso foi motivada, no directamente pela Inconfidncia 
Mineira, irias por ter em 1794 organizado determinadas reunies literrias de 
tendncia liberal no Rio de Janeiro, exaltara anteriormente, como Baslio da Gama, 
que influenciou, a poltica pombalina, escrevendo o poema satrico O Desertor (1774) 
a apoiar a

reforma universitria. O seu mais conhecido livro, Glaura, poemas erticos de um 
americano,  constitudo por uma srie de ronds e madrigais fluentes mas montonos, 
inspirados na poesia para canto de Metastsio, que traam os contornos gerais de todo 
o seu

romance de amor; e a principal particularidade do livro consiste em entrelaar 
elementos da fauna e da flora brasileira (a mangueira, o cajueiro, o beija-flor, 
etc.) com as entidades mitolgicas do bucolismo clssico: ninfas, drades, faunos, 
cupidos, etc.

Mestio como Silva Alvarenga, fazendo em Lisboa uma vida de padre mundano que 
Tolentino satiriza, Domingos Caldas Barbosa, presidente da Nova Arcdia, foi o grande 
animador de muitas assembleias burguesas, sales fidalgos e at de seres do pao 
real, com a sua viola e o seu sotaque brasileiro nas modinhas ou no lundum chorado, 
predecessor do fado lisboeta. Publicou diversas poesias de comemorao circunstancial 
e dramas jocosos, mas o que dele nos interessa mais  a Viola de Lereno, coleco dos 
versos que cantava e que se popularizaram extraordinariamente em Portugal como

no Brasil. Pelo vocabulrio e sintaxe, pelo orgulho que tem de ser como

, pela *preguiosa doura+ que atribui ao seu prprio temperamento (*pois eu sou 
calda de acar+, diz, num trocadilho ao seu nome), Caldas Barbosa pode considerar-se 
um poeta retintamente brasileiro.

Sob o aspecto temtico, muitas das suas lricas pouco mais fazem do que reduzir e 
facilitar as convenes erticas do arcadismo, de modo que possam apreender-se sem 
esforo atravs do canto. Mas o canto ajuda-o a desarticular a fraseologia erudita, a 
introduzir interjeies, bordes ou frases feitas da sua fala oral nativa. Da um -
vontade, um atrevimento como que infantil de dizer coisas ingnuas, quase sem 
sentido, que hoje se acentuou na cano ligeira do Brasil. Nos estribilhos, 
sobretudo, lampeja uma ironia directa e popular que no deixa de lembrar Joo de 
Deus. Com toda a sua superficialidade, em suma, Caldas Barbosa  dos raros 
setecentistas cujo texto mantm uma certa viveza oral ainda hoje.

658                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

O primeiro poema herico em que se encarecem as populaes nativas do Brasil e em que 
a sua paisagem perpassa, embora muito palidamente,  o Uruguai (1769) de Baslio da 
Gama, nascido em Minas Gerais, educado pelos Jesutas, homem culto e viajado, que, 
apesar das suspeitas resultantes do seu noviciado na Companhia de Jesus, soube 
conciliar o favor do marques de Pombal e nobilitar-se. O poema tem como assunto 
principal a

campanha do governador Gomes Freire de Andrade contra certas tribos amerndias que o 
Tratado de Madrid de 1750 incluiu dentro do territrio colonial portugus, mas nas 
quais os missionrios jesutas haviam fortificado as

aspiraes autonomistas. Baslio da Gama preenche cinco pequenos cantos de verso 
decassilbico branco sem recorrer aos artifcios da mitologia clssica, utilizando o 
rido desenrolar histrico da campanha militar como enquadramento de um romance 
amerndio, em que se salienta o pundonor dos chefes guerreiros, a tragdia de amor da 
jovem Lindia, a caricatura de um facttum dos Jesutas e, finalmente, uma viso 
dantesca das maquinaes em prol do imprio universal que atribui  Companhia de 
Jesus.  significativo o

contraste entre o convencionalismo com que Baslio da Gama retrata os militares 
portugueses, e a desenvoltura do romance amerndio, e deve notar-se a justeza, 
conquanto plida, da cor local. O Uruguai no    fica mal ao lado

do Cames de Garrett, o primeiro poema geralmente tido como romntico na nossa 
literatura, e que visivelmente influenciou; contribuiu, mais do que qualquer outra 
obra setecentista, para uma autonomia temtica da literatura brasileira.

Santa-Rita Duro, que ingressou na Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, nasceu 
tambm em Minas e, como Baslio da Gama, colaborou na poltica antijesuta de Pombal. 
Incompatibilizado com o provincial da Ordem, expatriou-se em 1761 e, depois de muitas 
e incertas mudanas de terra, fugindo, ora  perseguio jesuta, ora  pombalina, 
regressou a Portugal com a Viradeira de 1777. O seu poema Cal-amuru (178 1) inspira-
se nas aventuras semilendrias de Diogo lvares Correia, pioneiro da colonizao 
brasileira, no sculo XVI, que naufragou na Baa e conseguiu, graas a uma

arma de fogo, conquistar o domnio de uma tribo local e casar com uma amerndia. Se 
pelo arranjo estrfico e pelo estilo o livro se pode considerar como o ltimo 
decalque notvel de Os Lusadas, tambm  verdade que excede o Uruguai no didactismo 
etnogrfico e histrico-geogrfico, na exaltao das

5. 2 POCA - O SCULO DAS LUZES                                                      
   659

tradies, das excelncias e das promessas da terra brasileira, de que alis o autor 
viveu afastado desde os nove anos e que por isso descreve sempre de memria. Mas a 
apologia do bom selvagem  neste poema temperada por uma apologia catlica e 
colonialista que se conforma com a ideologia oficial de D . Maria 1, o que 
representa, em parte, uma reaco contra o poema de Baslio da Gama, tambm 
literariamente muito mais interessante.

O tema da bondade ingnita do homem, a idealizao do estado natural selvagem 
constituem a nica nota caracteristicamente brasileira do carioca Antnio Pereira de 
Sousa Caldas (1762-1814), que fez quase toda a sua vida na Europa, foi condenado como 
*herege, naturalista, desta, e blasfemo+ e mais tarde se ordenou sacerdote, 
regressando s em

1808 ao Brasil, donde sara com oito anos. Celebrizou-se como orador sacro, mas ainda 
nos ltimos anos de vida publicou duas cartas em defesa da liberdade de opinio.

O ltimo mestre do arcadismo: FILINTO ELSIO

Francisco Manuel do Nascimento (1734-1819), mais conhecido pelo pseudnimo arcdico 
de Filinto Elsio, foi, apesar de dissidente da Arcdia Lusitana durante o tempo em 
que ela existiu, o seu mais combativo continuador em plena alvorada romntica.

Nascido de gente simples do mar e da praia, Francisco Manuel do Nascimento pde fazer 
estudos e receber ordens sacras graas  ajuda de um embarcadio mais categorizado. 
Entra depois num crculo de comerciantes ilustrados, alguns dos quais franceses, que 
muito devem ter contribudo para a sua formao enciclopedista e liberal.  deste 
tempo a guerra dos poetas que, por simples despeitos pessoais, ops  Arcdia o 
chamado Grupo da Ribeira das Naus, a que pertencia; e foi ento professor de D. 
Leonor de Almeida, futura marquesa de Alorna, a quem deve o pseudnimo arcdico, e da 
irm, D. Maria de Almeida, que muito cortejou em verso. Depois da Viradeira, 
surpreendido por uma denncia  Inquisio em que a prpria me participou por 
presso do confessionrio, consegue iludir os esbirros com extraordinrio sangue-frio 
e, graas ao auxilio de amigos franceses, embarcar para Frana, juntamente com Avelar 
Brotero. Tirante um intervalo de quatro anos na Haia, viveu o resto da vida em Paris, 
na convivncia de poucos amigos cultos, um dos quais foi o poeta Lamartine, que lhe 
dedicou um poema.  medida que os anos passam, as relaes de amizade vo 
escasseando, o desconforto e o desespero crescem em torno da sua velhice. Vive de 
algumas lies, no parando nunca

de escrever, para fazer dinheiro, para consolar-se, para combater em prol da esttica 
horaciana, do casticismo de um idioma que ento j mal ouve falar, dos problemas da 
Ptria distante perante os rumos abertos pelas revolues americana e francesa.

660                                          HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

O classicismo arcdico que Filinto Elsio serviu como ltimo paladino harmonizava-se 
com a simbologia e os gostos neoclssicos da Revoluo.
O fundo ideolgico de tal esttica  visvel em muitos passos. Exemplifiquemos com o 
verso em que exalta os Franceses que *escravos ontem, so hoje romanos+. Como 
diversos viajantes que no seu tempo conheceram Portugal, incluindo Beckford (cujo 
temperamento mrbido se comprazia precisamente com as sobrevivncias barrocas da vida 
portuguesa), Filinto Elsio considera a sua Ptria (*Elsia+) um atoleiro de 
superstio de carcter oriental; atribui toda a decadncia aos *naires+ da 
aristocracia, aos *bonzos+ do clero regular, aos *talapes+ e *dervizes+ da alta 
jerarquia eclesistica, aos *Buslis de loba+, ou seja, os inquisidores, assim 
comparados a um facinoroso fara - gente, toda essa, que mantinha a populao e o 
*parvo rei+ numa brbara intolerncia, numa crassa ignorncia.

O estilo de Filinto Elsio  duro, trabalhado a golpes de cinzel e arcaizante. Os 
discursos doutrinrios e as numerosssimas notas que ape como

comentrio s suas poesias consagram nele um dos prosadores clssicos mais enrgicos 
e cheios de recursos, embora demasiadamente apegado a certos

processos que ele considera *quinhentistas+, mas que so, em parte, seiscentistas, 
por exemplo, aos efeitos do hiprbato e  expressividade do vernaculismo vocabular. 
Nas numerosas odes que escreveu e ainda noutros gneros mais coloquiais, como a 
epstola e a stira, h muita vida directa e generosamente expressa e o amor fremente 
ao progresso ptrio. Mostra ao

leitor, sem qualquer cerimnia, as suas angstias comezinhas, os dramas realmente 
vividos no quotidiano, os seus gostos francamente plebeus. A gente assiste, quase ano 
a ano,  festa do seu aniversrio em 23 de Dezembro e  comemorao daquela data de 4 
de Julho em que escapou aos esbirros, e sente-se a desolao que avana, dos seus 
sessenta anos para os setenta, destes para os oitenta, numa mansarda parisiense cada 
vez mais deserta, mais povoada de mortos, entre o crepitar mais escasso do lume e uma 
feijoada cada vez mais frugal.

A Ptria, a *Elsia+ de Filinto  muito feita de Quinhentistas, de Cames, de heris 
abstractamente cantados,  maneira arcdica, de um idioma amado com excessivo zelo 
purista, mas  tambm o seu grande tema de luta e ganha uma curiosa expresso 
material no apego gastronmico aos ovos-moles, s trouxas de ovos, ao arroz-doce, ao 
Colares, s morcelas, aos meles;

5. - POCA - O SCULO DAS LUZES                                             661

concretiza-se tambm na rememorao de festanas populares ao ar livre e de uma 
hilariedade pag. Apesar do formalismo arcdico, sabe tornar flagrantes, como nenhum 
outro poeta do tempo, os dios justos que o agitam, as aflies e tragdias de 
dinheiro, as quatro vezes que lhe roubaram uma

biblioteca. Sentimos a generosidade com que, velho, atribuiu a primazia potica ao 
mulo Bocage; com que, batido, canta o Homem que refez a terra a partir da 
animalidade, dominou os raios de Jpiter e abrange o passado e o futuro pela Razo. 
Consola um amigo preterido pela mulher amada (por sinal, D. Leonor de Almeida), 
mostrando como  movedia a estrutura do

corpo humano e como, correspondentemente,  plstica, resistente a todos

os reveses a psicologia mais sincera do ser humano.

E, contudo, este homem to chmente burgus que, *corno tendeiro honrado+, deitou 
contas ao que ganhou com os versos, achando *cada verso a meio real+, conserva um 
certo culto aristocrtico pela literatura em moldes

horacianos, pretendendo preservar de bastardias afrancesadas a linguagem alatinada de 
Quinhentos; e detesta o vulgo que no preza a difcil arte da expresso empolgante e 
exacta.  um poeta aristocraticamente letrado no

seu discurso, embora estudadamente burgus e plebeu quanto aos temas e

por vezes no lxico. A sua longa e prolixa epstola Da arte potica portuguesa, 
dirigida a Jos Maria de Brito, escrita aos 82 anos, tem frmulas brilhantes, mas, 
pelo insistente decalque de Horcio e Garo, revela que o

culto da forma segundo padres especificamente literrios que se transmitem da 
Antiguidade at ao neoclassicismo, culto que voluntariamente deprecia a lngua vulgar 
e coloquial, no fora ultrapassado pelo mestre final da poesia arcdica.

JOS AGOSTINHO DE MACEDO e a poesia cientista
*/*
 curioso, no final do Sculo das Luzes, ver o panfletrio que mais se distingue no 
combate aos ideais enciclopedistas e liberalistas apresentar-se como paladino da 
Razo cientfica em poesia, da modernidade no estilo e

nos temas, em oposio ao *quinhentismo+ de Filinto; e, na sua apologia, alis 
inconsequente, da realeza absoluta e da represso inquisitorial e censria, sacudir a 
compostura arcdica ou burguesa dos seus antagonistas com uma linguagem demaggica 
at  obscenidade.

662                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Jos Agostinho de Macedo (1761-1831), de uma famlia da pequena burguesia de Beja, 
estudou em Lisboa com os Oratorianos e ingressou na Ordem dos Eremitas de Santo 
Agostinho, onde teve Santa-Rita Duro como professor. No concluiu qualquer curso, 
mas a sua viveza intelectual, uma extraordinria memria e uma grande arte de 
governar os prprios interesses permitiram-lhe fazer carreira numa poca cheia de 
agitao e de incertezas. Turbulento e aventureiro, vrias vezes foi julgado ou 
castigado pelos superiores religiosos por desmandos ou roubos. Sofreu tambm 
condenaes e prises por parte das autoridades civis. Foi protagonista de fugas. Por 
fim obteve dispensa dos votos monsticos, mas destacou-se entre os mais famosos 
pregadores do tempo, inclusivamente no Pao.

Na Nova Arcdia, abriu hostilidades com Bocage, com quem se reconciliou quando ele 
estava no leito de morte, para voltar a atac-lo mais tarde. Toda a srie agitada de 
acontecimentos que medeiam entre a primeira invaso francesa e a ltima revoluo 
lberal anterior ao desembarque de 1832 vai fazer-se doravante sentir na sua febril 
actividade de satrico e panfletrio. Verbera a ida de D. Joo VI para o Brasil; sob 
o consulado de Beresford, ataca, furibundo, a Revoluo Francesa, o *mentecapto+ 
Napoleo, os *pedreiros-livres+ e todas as formas de propaganda liberal, sobretudo as 
mais populares, como uma nova corrente de sebastianismo que transferia as velhas 
profecias libertadoras para os Franceses.  de ento que data o seu maior esforo 
para cantar a Cincia, envolvendo-a num manto teolgico e absolutista e numa 
anglofilia que encontra em Newton o seu smbolo mais adequado. Isso leva-o a tropear 
em grandes contradies ideolgicas e polticas, que lhe facilitam a adeso  
Revoluo de 1820. Participa ento ruidosamente nas polmicas pblicas acerca do 
projecto de Constituio, e, embora processado por abuso da liberdade de imprensa, 
defende em geral o vintismo; at que, com as reaces miguelistas, reinicia com 
virulncia redobrada o ataque aos Liberais, em publicaes soltas ou peridicas, como 
A Besta Esfolada, A Tripa Virada, Tripa por uma vez,
O Desaprovador, O Desengano, etc.

Durante vrios anos exerce as funes de censor oficial dos livros. No desempenho 
desse papel, no se limita a eliminar as obras ou passagens contrrias ao 
absolutismo, ou a apor um ou outro comentrio laudatrio, corno haviam feito os seus 
predecessores desde o sculo XVI, pois obriga os livros a trazerem estampada a sua 
prpria crtica pessoal, s vezes deniolidora sob um ponto de vista meramente 
esttico. Jos Agostinho de Macedo foi quantitativamente o mais prolfico dos 
escritores portugueses do tempo: a sua bibliografia  interminvel.

Deixando  margem o panfletrio, cujo interesse histrico-literrio reside apenas em 
que, sempre mais ou menos ao abrigo das instituies vigentes, Jos Agostinho de 
Macedo pde arraigar no pblico o gosto da polmica demaggica e nsultuosa, 
posteriormente cultivado por homens da qualidade de Camilo Castelo Branco e por uma 
certa sequela ainda no nosso

5. - POCA - O SCULO DAS LUZES                                             663

tempo no extinta - o nosso autor deve ser abordado, em especial, quer como 
doutrinrio e crtico das Letras, quer como poeta das Luzes cientficas.

A sua doutrina esttica  simples, mas distingue-se pelo facto de ultrapassar certos 
compromissos arcdicos. Assim, proscreve de todo o uso da mitologia pag, por 
irracional e no crist. Investe contra o culto dos rcades e filintistas pelos 
poetas de Quinhentos, contra a busca dos efeitos vocabulares, a preocupao do 
estilo; e, com efeito, o seu prprio estilo  correntio, com um ar de improvisao, 
excepto quando, na Meditao ou no Oriente, por exemplo, quer atingir a sublimidade 
potica da mecnica newtoniana ou afoga a cor histrica em erudio.  certo que 
Verney e Cndido Lusitano haviam censurado Os Lusadas sob estes e outros ttulos, em 
nome da razo e da natureza, mas J. Agostinho de Macedo leva a sua iconoclastia

at ao ponto de publicar uma Censura dos Lusadas e dois poemas em oitava

rima que, pretensamente, desbancam o de Cames: Gama (1811) e a sua

refundio, o Oriente (1814). A presuno no lhe deixou ver que estes poemas de 
urdidura teologicamente crist e descritivamente histrica so os prprios Lus-adas 
anacrnica e inadequadamente traduzidos para a esttica iluminista, no faltando, por 
exemplo, no Oriente uma espcie de Velho do Restelo, um sonho de D. Manuel, uma 
glorificao alegrica dos nautas, etc.

Esta carncia de autocrtica no obsta a que muitas das observaes que publicou no 
seu Motim Literrio (1811), nos panfletos e stiras, e at nas censuras 
inquisitoriais, contenham vrios juzos acertados e penetrantes .  atravs de Macedo 
que melhor descobrimos as fraquezas e imitaes da literatura sua contempornea de 
inspirao burguesa mais culta, como a de Filinto e Bocage.

Vrias foram as tentativas e refundies da sua musa didctica. Em 1793 principiou 
uma Meditao de tema cientista, que de 1801 a 1806 vai contaminando as verses 
sucessivas de Contemplao da Natureza, para afinal publicar-se em 1813 com o ttulo 
inicial de Meditao; o seu mais importante e preferido poema didctico, Newton 
(1813), origina mais tarde uma

Viagem Exttica ao Templo da Sabedoria (1830), cujo ttulo resume bem o essencial da 
sua estrutura alegrica.

No Discurso Preliminar de Newton, subordinado  questo de saber se

*a fsica ou alguma das suas partes , ou pode ser, digna de poesia sublime+,

664                                              HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Macedo sustenta, em oposio ao *palavrismo+, ou formalismo, de Filinto Elsio, que 
*todos os sculos podem ser de Quinhentos, se quem escreve escutar a razo e a 
natureza, e amar a majestosa simplicidade que a natureza deixa ver em suas obras+, 
acrescentando: *Eu no conheo sculo mais que o da razo+. Em consequncia, exalta a 
poesia descritiva e cientista, como mais interessante que os velhos poemas de Homero, 
Virglio, Cames, Tasso ou do suposto bardo escocs Ossian, forjado, como vimos, por 
Macpherson. Cita um considervel nmero de poemas *didasclicos+, desde as Estaes 
de Thomson e dos Jardins de Rapin e de Delille, at queles que, sobretudo, vrios 
jesutas italianos recentes haviam consagrado a temas como a cultura das abelhas, o 
enxofre, os teares da seda, a fsica, o arco-ris, a aurora boreal, os banhos quentes 
de squia, os cometas, o chocolate, as prolas, os morangos, o barmetro, etc. Tal 
conceito de poesia reduz a um simples problema tcnico ou cientfico tudo quanto h 
no destino humano de simultaneamente pessoal e universal, moderno e duradoiro, 
imediato e genrico. No entanto, com todo o seu didactismo e alegorismo superficial, 
os poemas de Jos Agostinho de Macedo, sobretudo Newton, tm hoje mais interesse do 
que a maior parte dos poemas narrativos de escola camoniana ou tassista; pouco, em 
todo o caso.

A cultura cientfica de Jos Agostinho provm dos divulgadores eclcticos, como se 
verifica pela reabilitao de Aristteles e pelo envoltrio testa das snteses mais 
genricas que faz. No entanto, o autor no exclui da sua admirao um materialista 
como Hobbes, um enciclopedista como D'Alembert, um mao como Franklin, e orgulha-se 
dos laos de origem portuguesa e, mais localmente, bejense, que descobriu entre si 
prprio e Espinosa, esse *frugal+ e *profundo+ hebreu. A tal ponto eram 
contraditrios os gostos e ideias deste fundibulrio miguelista.

Alm de Macedo, outros versificaram no sculo XVIII e incios do XIX ao conhecimento 
cientfico da natureza. Hernni Cidade estudou vrios predecessores desta tendncia 
desde incios do sculo XVIII. A marquesa de Alorna em Recreaes Botnicas, o

catedrtico e acadmico Antnio Ribeiro dos Santos, e o padre Sousa Caldas contam-se 
entre os cultores de poesia filosfica, ou pretensamente cientfica, neste final de 
uma poca. Tal tipo de literatura pode aproximar-se das obras de amena divulgao 
cientfica, entre as quais se salienta A Recreao Filosfica (10 tomos, 1715-99) e 
as Cartas Fsico-Matemticas do padre Teodoro de Almeida, oratoriano, e ainda de 
numerosas revistas, como a Gazeta Literria (1761-62) portuense do padre Francisco 
Bernardo de Lima, onde

5. a POCA - O SCULO DAS LUZES                                                      
       665

se resumem e comentam,      entre outras, vrias obras cientficas, incluindo 
publicaes das principais academias europeias das cincias. Por finais do sculo, 
estas revistas multiplicam-se: Jornal Enciclopdico (1779), Biblioteca das Cincias e 
Artes (1793), Palcio Portugus (1796-97), etc. O citado Teodoro de Almeida foi autor 
de um romance de alegoria filosfica, O Feliz Independente do Mundo e da Fortuna, 
1779-1786-1835, que os gostos actuais no toleram mas que at ao fim do sculo XIX 
teve mais quatro edies portugue~ sas, tradues em castelhano e francs, e uma 
repercusso que chegou at s repblicas hispano-americanas.

NICOLAU TOLENTINO

O poema heri-cmico e a stira estiveram em moda neste perodo, mas

no se pode considerar muito perdurvel o seu recheio entre o Hissope e

a obra de Tolentino. Mencionemos dois poemas heri-cmicos acerca do ensino 
universitrio, o Desertor das Letras (1774), de Silva Alvarenga, e

o Reino da Estupidez (1818), de Francisco de Melo Franco, este ltimo vrias vezes 
editado por liberais emigrados ou recentemente vitoriosos e extraordinariamente 
custico em relao ao perodo ps-pombalino. As stiras de Bocage ou Jos Agostinho 
(Pena de Talio do primeiro, Os Burros do segundo, por exemplo) no saem do mbito 
pessoal ou da invectiva.

No entanto, do nosso sculo XVIII a melhor produo em verso  a obra satrica de 
Nicolau. Tolentino de Almeida, no gnero a mais notvel da literatura portuguesa.

Tolentino (1740-1811), filho de gente remediada, fez em Coimbra os estudos 
necessrios para ocupar uma cadeira de Retrica nas escolas pombalinas. Ao fim de 
quinze anos de splicas, conseguiu ser colocado numa secretaria oficial, amparado por 
altas personagens. No o encontramos nas

academias nem to-pouco nas polmicas do tempo, a que assistiu certamente como 
espectador tranquilo e irnico.

Uma parte importante da obra de Tolentino  constituda por memoriais e requerimentos 
em verso, assim como por poesias de humilde homenagem aos grandes de quem dependia. 
Relativamente a estes, a sua musa  mesureira e discreta. Nisto se parece ainda com o 
poeta domstico seiscentista que, para merecer o jantar em casa do senhor, recitava 
um soneto - e contrasta com os seus confrades que compravam uma independncia mais ou

menos aparente com uma misria disfarada de bomia. Dir-se-ia no entanto que 
Tolentino se vinga do vexame a que o sujeitava esta condio, atravs

666                                        HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

de uma ironia que, no podendo visar outro objecto, recai sobre a classe

a que ele mesmo pertence. A pelintrice disfarada dos pequenos burgueses na suas 
reunies com o ch sete vezes refervido; a comdia mesquinha do amor, feita de 
sexualidade banal, de clculo, de enganos e de insensatez a

um tempo, mas sobretudo de um horizonte muito estreito; o ambiente dos botequins, 
onde se juntam vadios que no querem parec-lo, e onde se exibe

um poeta que depois de tentar ler o seu manuscrito implora uma esmola tudo isto surge 
com uma preciso que acerta arrepiantemente no alvo, arrancando todas as mscaras. 
Mais que satrica, a obra de Tolentino  de uma ironia impassvel, envolvendo o 
prprio autor, que se compraz em apoucar-se e desculpar-se. Predomina um sentimento 
do mesquinho, do *reles+ e

do postio que tambm se encontram no Ea do Padre Amaro e do Primo Basilio.  uma 
sociedade sem grandeza e sem fibra, onde tudo amolece e

fica srdido, onde as manifestaes de carcter, de virilidade, de brilho mal tentam 
afirmar-se por uma aparncia sem convico. Mas ao passo que a

stira de Ea se pretende justiceira, a de Tolentino parece denotar uma conscincia 
de cumplicidade ou de comprazimento no abandalhamento colectivo.  como se Ea 
dissesse: *Eles so assim+; e Tolentino: *Ns somos assm+. Por isso ele vai talvez 
mais longe do que ningum, no s na descrio satrica das camadas que desde o 
sculo XVIII tm dado o tom a Portugal, mas ainda na expresso de um sentimento que 
(entre outros) se tornou frequentemente portugus: um certo encolher de ombros 
resignado e *lcido+ (para utilizar a expresso de consciente abulia to cara a 
Fernando Pessoa) ante certa mediocridade social e moral do meio, quando contra ela 
apenas se reage com essa mesma *lucidez+ irnica.

Desta forma, em Tolentino, o antigo Portugal, feudal, camoniano e

herico, aparece j enterrado e esquecido. A grandiloquncia das odes arcdicas  a 
sua ltima manifestao, de resto completamente oca. Tolentino encontrou a forma mais 
perfeita de uma stira do quotidiano (que nos primeiros rcades, como vimos, aponta 
ainda de um modo marginal e quase envergonhado);  j um autor perfeitamente actual, 
voz de um Portugal ainda muito parecido, em certos aspectos, com o que hoje 
conhecemos.

Pelas razes apontadas, as instituies e os poderes que efectivamente condicionam a 
vida portuguesa, tais como o poder da nobreza, o clero e o da grande burguesia 
mercantil, no so alvejados por Tolentino, pelo menos

5. - POCA - O SCULO DAS LUZES                                                667

de forma directa. Mas a stira A Guerra mostra de forma iniludvel o pensamento ilun-
iinista do autor. A antipatia pela mentalidade guerreira manifesta-se, no sculo 
XVIII, em outros autores, como, por exemplo, Gar o, a coberto da poltica 
ostensivamente pacifista do marqus de Pombal, quase sempre mantida no reinado 
seguinte. Tolentino acentua ironicamente o contraste entre a brutalidade que destri 
vidas humanas, produz mutilados e estropiados, e, por outro lado, as palavras 
gloriosas que a mascaram. O processo seguido na stira A Guerra, o falar como se 
tomasse a srio a ideologia guerreira e o ir contando impassivelmente as calamidades 
da guerra, lembra de perto a ironia voltairiana, nomeadamente em obras como o 
Dicionrio Filosfico.

H, por outro lado, em Tolentino uma stira de tipos e vcios humanos

que excede o mbito nacional: a velha disforme e gaiteira, arrebicada e desdentada; o 
namorado caquctico; o jogador, etc. Trata-se de uma caricatura da vacuidade humana 
sublinhada pela deformidade fsica, que, com o trgico a menos, fez pensar nos 
Disparates caricaturados pelo seu contemporneo, o pintor Goya.

Uma extraordinria simplicidade de estilo, a abolio da retrica tradicional e do 
ornato dito potico, o uso da lngua corrente, quase coloquial, em tom de conversa 
amena sem enfatuao, ajustam-se admiravelmente a

esta temtica. Cruz e Silva, como vimos, ainda recorria ao verso herico para 
satirizar a sociedade contempornea. Tolentino sabe j atinar com o

instrumento certo. A mitologia deixa de desempenhar um papel estrutural ou 
ornamental; j no existe diferena entre a prosa e a poesia alm do ritmo, da 
intensidade de concentrao e de contrastes. Descontando alguns sonetos e a oitava 
rima heri-comica de O Bilhar, o metro mais frequentemente adoptado  o da quintilha 
de redondilhas, que, sem ser urna forma propriamente popular, permite no entanto uma 
expresso correntia. O mesmo molde tinha sido adoptado por S de Mranda, mas 
utilizado para efeitos conceptistas que em Tolentino se no encontram, excepto sob a 
forma de contrastes entre objectos e atitudes que o poeta pretende descrever como se 
fosse espectador impassvel.

O segredo de Tolentino  ter sabido ser poeta utilizando uma linguagem prosaica. Esse 
segredo consiste em parte num superior manejo da ironia. Tolentino tem a 
impassibilidade, a conteno afectiva suficiente para desdobrar-se perante as 
descries n-sturando de um modo imprevisto o fsico

668                                       HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

e o moral, as coisas tais como objectivamente so e tais como a ingenuidade ou a 
conveno alheia as julga, e denunciando vivamente a incoerncia que sempre existe 
entre as aces e os pretextos, entre a realidade e a sua sofisticao ideolgica. 
Mas estas qualidades, que encontramos tambm em Ea de Queirs, no bastariam para 
fazer um poeta. H que ter ainda em conta

os efeitos que resultam do verso e da rima. Atravs do agenciamento das palavras e do 
ritmo pe-nos em presena de uma personagem, e compe uma mscara que resulta irnica 
pela sua prpria conteno impassvel. Presena que  sublinhada por um certo cunho 
disfaradamente sentencioso. H, por outro lado, uma concentrao astuciosa de meios 
que leva o leitor a surpreender-se diante de situaes corriqueiras e quotidianas. Os 
paralelismos e contrastes prprios da expresso potica fazem ressaltar o inesperado 
das situaes. As rimas servem por vezes de ponto de apoio ou de viragem que 
conduzem, com segurana, ao desconcertante. Haveria que considerar ainda, nesta obra 
mal estudada, o cunho lapidar e quase proverbial de muitos versos.

Com Nicolau Tolentino, que  o principal vulto literrio do nosso Sculo das Luzes e 
o seu autor mais vivo, a stira de costumes atinge em Portugal um nvel que nunca 
mais foi preterido. A sua influncia, embora no tenha sido espectacular,  no 
entanto pondervel, pois podemos detectar ainda um certo sabor tolentiniano num autor 
contemporneo como Alexandre O'Neill.

O pr-romantismo de JOS ANASTCIO DA CUNHA

Se Tolentino, como ningum, desmascarou o que h de convencionalmente mentido no 
chamado amor burgus - ao qual, como j vimos, Toms Antnio Gonzaga procurava dar 
uma nova e elevada expresso -, outro poeta encontramos que, libertando-se tambm das 
convenes, tenta transpor para a literatura a plenitude da vivncia amorosa liberta 
da convencionalidade tica, na medida em que ela  um empenhamento de toda a 
personalidade, mental e fsica: Jos Anastcio da Cunha.

Jos Anastcio da Cunha (1744-1787), vindo de gente pobre de Lisboa, pde estudar com 
os Oratorianos e fazer carreira de oficial artilheiro, o que lhe permitiu contactar 
com estrangeiros cultos, especialmente ingleses, que Pombal contratara para reformar

S. - POCA - O SCULO DAS LUZES                                                      
   669

o exrcito. O conhecimento, que adquiriu, da lngua e depois da literatura inglesa, 
sobretudo a leitura entusistica de Shakespeare e dos sentimental i stas pr-
romnticos, devem ter-lhe educado o gosto literrio. Pombal eleva-o a catedrtico de 
Geometria; mas tornam~se

conhecidas as suas dvidas em coisas de religio, o seu racionalismo tolerante, do 
que lhe adveio a priso O sob o reinado de D. Maria), e a reconciliao num auto~de-
f, descalo e em hbito de penitncia. Viveu trs anos recluso, e s mais tarde 
voltou ao magistrio, desta vez na Casa Pia de Lisboa.

Anastcio da Cunha praticou ainda os moldes arcdicos, tentando mesmo aportuguesar a 
mtrica quantitativa do Latim, no que pode ter convergido uma influncia da 
versificao inglesa, mas o seu discurso, com interrogaes e exclamaes, no cabe 
sempre na retrica arcdica e prenuncia por

vezes um pattico romntico. Contudo, o que o distingue  ter assumido a

poesia da relao carnal entre o homem e a mulher, o ter procurado e encontrado a 
expresso inquieta do desejo, atravs de exclamaes, interrogaes, insistncias, 
gradaes intensivas. No tempo, isto significava a dissipao de todas as convenes 
do amor corts - ao que no pode ser alheio o facto

de a amada ser camponesa, e em cenrio rstico. Os momentos mais belos desta lrica 
nova so a redescoberta estonteante de como o princpio de indivdualizao se 
eclipsa no abrao amoroso, a pergunta de se *Meu bem, eu no sou tu? tu no s eu?+; 
e, antes de Stendlial, a descri o do fenmeno psicolgico que este designaria de 
*imagination renverse+: o gosto de imaginar todo o mal possvel (a morte da amada, a 
tortura da doena, a decomposio do corpo), como forma negativa e final de um 
devaneio que se cansa.

Hernni Cidade sugere que se acomodaria ao estilo directo deste escritor A Voz da 
Razo, poema amplamente divulgado na crise final do nosso

absolutismo, que traduz as dvidas sinceras de um esprito ainda crente perante 
antinomias do dogma cristo, de resto j enunciadas por Voltaire e por Pope, autores 
que ele admirava.

 MARQUESA DE ALORNA

A influncia pessoal de D. Leonor de Almeida (n. 1750-10-31
1839-10-11)  o que mais direito lhe d ao ttulo de *M.nle Sta1 portuguesa+, quer 
dizer, de iniciadora do Romantismo literrio em Portugal.


Encerrada com a irm no Convento de Chelas aos 8 anos, enquanto o pai,  ordem de 
Pombal, cumpria pena de priso no forte da Junqueira, fez das visitas e conversas

670                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

que mantinha atrs das grades como que uma sucursal arcdica. Entre os seus amigos 
cultos e pretendentes contavam-se homens iluminados, dos quais se salienta o padre 
Francisco Manuel do Nascimento. Isto concorda com as suas precoces tendncias 
filosficas, tolerantistas, cientistas, progressistas. O casamento com um nobre 
germnico, o conde

de Oeynhausen, e largas estadias, primeiro em Viena, depois em Londres, reforaram

o seu progressismo, alis relativamente moderado, e o gosto pela poesia 
sentirnentalista ou descritiva. Corri efeito, traduz ou imita Delille, Wieland, 
Buerger, Gothe, Young, o pseudo-Ossian, Gray e Thomson. Falecido o irmo 
primognito, que se batera ao lado

de Napoleo, herdou o ttulo por que  mais conhecida.

Os seus sales de S. Domingos de Benfica foram frequentados durante toda a poca das 
lutas civis e ainda depois da vitria liberal por literatos de geraes diferentes, 
desde os ltimos rcades at aos primeiros romnticos, como Herculano, que declara 
dever-lhe o gosto pelo romantismo alemo.

A extensa obra, bem como a rasgada cultura desta mulher,  um misto

de tendncias diversas. Quantitativamente, predomina ainda em Alcipe (seu pseudnimo 
arcdico) o arcadismo; ao lado das tradues modernizantes que apontmos, podiam 
apontar-se outras tantas de autores greco-latinos. No entanto, alm daquilo que 
provavelmente tem mais importncia histrico-literria - a sua aco directa e 
pessoal -, e das verses pr-romnticas, convm lembrar a tentativa de poesia 
cientista (Recrea es Botnicas), e um

certo nmero de composies funebremente sentimentais ou insinuantemente 
melanclicas. A publicao por Herrini Cidade duma sua autobiografia e

de cartas inditas, escritas numa prosa verdadeiramente familiar, deu mais relevo 
ainda aos aspectos mais elevados e comunicativos do seu esprito.

BOCAGE

A personalidade de Manuel Maria Barbosa du Bocage (n. 1765-09-15 1805-12-21) parece 
simbolizar a fase final e insanvel do conflito entre o arcadismo e o romantismo, 
entre a dependncia relativamente s instituies feudais-absolutistas e 
relativamente ao pblico editorial, entre o enquadramento absolutista-senhorial e o 
enquadramento mercantil do escritor.

Nascido em Setbal, filho de um advogado e de uma senhora francesa que, com o


apelido, lhe deixou a vaidade do parentesco com uma poetisa francesa que tambm o

usava, o jovem Manuel Maria parece desde muito cedo dominado pela ideia da sua 
inisso de poeta e de uma predestnao sentimental e trgica segundo o modelo 
camoniano.

5.2 POCA - O SCULO DAS LUZES                                                       
 671

Assenta praa aos 14 ano  s e matricula-se depois na Academia Real da Marinha. 
Dissipa os 5 anos seguintes, que devia dedicar ao curso, consagrando-se como uma das 
principais figuras de botequim, outeiros e bomia.

Embarca em 1786 para a ndia, com passagem pelo Rio de Janeiro. Vive dois anos em 
Goa, expandindo as suas saudades da Ptria e os seus ci mes por uma Gertrudes (em 
verso arcdico, Gertrria), sempre perseguido pela obsesso do paralelismo da sua 
vida com a de Cames. E, efectivamente, como o seu avatar, conheceu a devassido 
colonial goesa e estadias aventurosas em diversas paragens orientais, incluindo 
Macau. Regressa com 25 anos a Lisboa, onde encontra Gertrudes casada com o prprio 
irmo.

Figura na Arcdia dos sales do conde de Pombeiro, mas em breve satiriza essas 
*quartas-feiras de Lereno+, o presidente delas, e depois os outros confrades mais 
notveis. Mais tarde, atacar em especial Jos Agostinho de Macedo, que com certa 
razo lhe censura o tom egoltrico do prlogo  traduo do poema de Delille com um 
ttulo significativo: Os Jardins, ou Arte de aformoscar as paisagens. Em 1797  preso 
e processado, pelas irreverncias antimonrquicas e anticatlicas da sua musa 
improvisadora e

popular, sobretudo na libertina Carta a Marilia, mais conhecida pelo contundente 
verso

inicial, A Pavorosa Iluso da Eternidade. Depois de vrios meses de clausura no 
Limoeiro e nas masmorras inquisitoriais, obtm, ao cabo de splicas e retractaes, 
uma transferncia para o mosteiro de S. Bento e deste para o convento dos 
Oratorianos, donde sai, conformista, regrado e precocemente gasto, a ganhar com 
tradues o sustento prprio e de uma sua irm.

O Elmano Sadino da Nova Arcdia  j romntico por temperamento, apesar de muito 
vocabulrio e muito alegorismo arcdicos e dos seus laivos de iluminismo.

A sua arte versificatria, sobretudo no soneto, tem tido muitos admiradores, entre os 
quais, significativamente, o parnasiano brasileiro Olavo Bilac. Todavia, esse encanto 
 um tanto montono e fcil, e a sua orquestrao verbal das grandes expanses 
tumultuosas soa muitas vezes a falso. O que o distingue melhor  a agitao 
psicolgica que traz pela primeira vez  poesia portuguesa: o sentimento agudo da 
personalidade, o horror do aniquilamento na morte. Tal egotismo percebe-se ainda na 
maneira abstracta e retrica com que, em nome da Razo, se revolta contra a 
humilhao da dependncia e contra o despotismo; no gosto do fnebre e do nocturno, e 
nos clamores no menos retricos de cime, de blasf mia ou contrio.


Esse gosto j to romntico do funreo e tenebroso percorre grande parte da poesia de 
Bocage. Quero fartar o meu corao de horrores, desfecho de um dos sonetos mais 
caractersticos, compendia a sua imaginao sedenta

672                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

do hrrido ou horrendo, de horrssonos furores: tempestades reais ou mticas, crimes 
lendrios, histricos ou noticiados nas gazetas, pesadelos, agcinias frenticas, 
vises de antros ou abismos, minuciosas descries de beberagens, esconjuros e outros 
bruxedos. No se sabe em que medida isto  o simples saborear de uma esttica 
(dantesca, shakespeariana e, ento, romntica) do locus horrendus, que vira do avesso 
o locus amoenus do pastora~ lismo clssico; em que medida o poeta  efectivamente 
presa de uma obsesso irracional incontrolvel, uma espcie de pavor sagrado  
procura de imagens; ou em que medida isso traduz uma nsia, ao mesmo tempo 
inextinguvel e medrosa, de abarcar numa conscincia humana todos os medos e dores 
que ela, espontaneamente, evita, que ela mal enfrenta sem se desagregar. Em qualquer 
caso, a expresso mais vivida, original e comunicativa

dos seus horrores encontra-se nos sonetos, epstolas e no poema narrativo Trabalhos 
da Vida Humana, onde refere as suas provaes e aflies do crcere.

As tradues de Delille, Castel, Rosset, Lacroix que, na ltima fase da vida, fez, ao 
par das de Virglio e Ovdio, contriburam para a insinuao de um certo gosto 
descritivo entre ns, mas j vimos que o tradutor estava longe de dar a notao 
sensorial precisa de um pr-romntico como Bernar~ din de Saint-Pierre.  que o seu 
egocentrismo, manifestado em constantes vocativos a Elmano, ao Desgraado, em 
constantes pronomes da primeira pessoa, na sua confiana em renome pstumo, no 
prprio auto-retrato do famoso soneto *magro, de olhos azuis, caro moreno+ e de 
outras poesias;  que o tema insistente do cime, o niilismo impressionante de cerca 
de uma dezena dos seus sonetos, que reaparecer em Antero de Quental, tudo tropea 
numa expresso literria que, ao contrrio do que sucede com Tolentino, e por vezes 
ainda com Anastcio da Cunha, no consegue desfazer-se da fraseologia arcdica e da 
imitao camoniana.

 ver como a tcnica literria de Bocage se embaraa em personificaes por vezes 
ainda sobrecarregadas de eptetos inteis: Fado, Desventura, Virtude, Inveja, Razo, 
Traio, Liberdade, Formosura, Cime, Desengano, Discrdia, Sofrimento, Morte, etc. 
Isto mostra bem, afinal, como as personificaes mitolgicas na Arcdia correspondiam 
a uma sensibilidade imprecisa, que ainda agora por falta de contorno se detinha em 
alegorias abstrac~ tas maiusculadas.

5. - POCA - O SCULO DAS LUZES                                               673

Com esta expresso ainda abstractamente alegrica da sensibilidade e

do conceito de vida devemos relacionar toda uma estilstica de encarecimento, cuja 
monotonia Jos Agostinho denunciou: perfrases arrastadas (*bebendo em nveas mos, 
por taa escura/de zelos infernais letais venenos+); viso hiperblica do prprio 
transe potico, das paixes, do cime, dos lances trgicos e das paisagens 
tempestuosas, pelo recurso  interjeio,  reticncia,  anfora,  apstrofe,  
onomatopeia, ao estilo imitativo,  anttese amplificante, a um vocabulrio 
pretensamente estarrecedor: bratro, hrrido monstro, tartreo abismo, sulfreo lume, 
umbrosos mistrios, horrssonos furores, etc.). Este hiperbolismo espraia-se mais na 
narrativa dos casos patticos que escolhe para as cantatas (Medeia; Castro; Hero e 
Leandro); e nem mesmo

est ausente dos panfletos libertinos, isto  (de acordo com o significado 
setecentista da palavra), aqueles onde todavia palpita a convicta reivindicao de 
uma liberdade de pensar, gozar e amar sem outros limites que no sejam o da prpria 
conscincia e moral, alis desta.

O mais interessante  verificar a coexistncia de tudo isto com imensos idlios, 
epstolas do mais soporfero convencionalismo arcdico; ou, por outro lado, com 
expresses de um erotismo rococ enlanguescente, como:

*Mais doce  ver-te de meus ais vencida, dar-me em teus brandos olhos desmaiados 
morte, morte de amor, melhor que a vida+.

Egotismo, marulho do verso, tilintar da rima, estilo hiperblico, erotismo lnguido - 
isto  j expresso romntica. E na prpria fraseologia se nota que a forma arcdica 
estala por todos os lados. H um mpeto que ainda no v como realizar-se. Ou, pelo 
contrrio, a linguagem desce de s bito ao nvel coloquial: adjectivao como a de 
*cadver mirrado+, *alma, aflta+; versos como *era fiel, amava-me - e deixei-o+, 
do-nos tambm, mas pela sua naturalidade, a sobreposio da voz  leitura silenciosa 
e erudita. Como j notava Herculano, referindo-se a Bocage, a poesia descia do salo 
 praa.

HLP - 43

674                                              HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

11111M181U06,14FIA

1. Textos

A bibliografia de vrios dos autores deste captulo  extraordinariamente complexa, 
pelo que o estudioso dever recorrer ao dicionrio de Inocncio e seus contnuadores, 
e ao Dicionrio Bibliogrfico Brasileiro de Augusto Vitorino Sacramento Blake, Rio,
1883-1902 (ndices alfabticos de Jango Fisher, Rio, 1937, e Jos Soares de Sousa, 
So Paulo, 1908); ou, um pouco mais resumidamente, s bibliografias insertas na 
Histria da Literatura Portuguesa Ilustrada, 3. > vol., pp. 294 a 296, no Manual 
Bibliogrfico de Estudos Brasileiros, Rio, 1949, pp, 715-726, e na Pequena 
Bibliografia Crtica da Literatura Brasileira, Otto Maria Carpeaux, 1964, reed. aum. 
Rio de Janeiro, 1979.

Cabral, Paulino Antnio, abade de Jazente: Poesias, 2 vols., Porto, 1786-87;
2. > ed. 1837, 2 vols.; 1909, 2 vols., com estudo de Jlio Castilho; texto integral 
da 1. ed. com ensaio e notas de Miguei Tamen, IN-CM, 1985.

Matos, Joo Xavier de: Rimas, Lisboa, 3 tomos, 1770-75-83; Lisboa, 1782; 1800-01. 
Costa, Cludio Manuel da: Obras, Coimbra, 1768; Obras Poticas, 2 tomos, incluindo 
inditos, Rio, 1903; Vila Rica, Ouro Preto, 1839 e 1897; Obras, Lisboa, 1961.

Gonzaga, Toms Antnio: Marflia de Dirceu, Lisboa, 1. parte, 1792, 2. > parte, 1799;
2. > ed., Lisboa, 1799; 3. > 1800 (incluindo uma 3. > parte, que  apcrifa). Seguem-
se cerca de trinta eds. durante o sc. XIX. A ed. moderna e cr tica das Obras 
Completas  a de Rodrigues Lapa, 2 tomos, incluindo Poesias, Cartas Chilenas, Tratado 
do Direito Natural, Carta sobre a Usura, minutas, correspondncia e documentos, Rio 
de Janeiro,
1957. Cartas Baianas (1821-24), estudo, org. e notas de Antnio de Oliveira Pinto da 
Frana, IN-CM.

Alvarenga, Manuel Incio da Silva: Glaura, 1. ed. 1799; 2. 1801; 3. 1889; Obras 
Poticas, Paris, 1864; ed. moderna na *Biblioteca Popular Brasileira+ Rio, 1943; 
Desertor das Letras, 1. > ed. 1774, Coimbra; Rio, 1816.

Peixoto, Incio Jos de Alvarenga: Obras Poticas, Paris, 1865; Vida e Obras de.... 
ed. crtica e estudo de Rodrigues Lapa, Rio de Janeiro, 1960.

Barbosa, Domingos Caldas: Viola de Lereno, 1. > ed., Lisboa, 1798 (1 tomo), e 1826 
(11 tomo); 2. a ed., Lisboa, 1806 (s 1 tomo). Ed. moderna na *Biblioteca Popular 
Brasileira+, que contm bibliografia actualizada, como os outros vols. da coleco.


Gama, Jos Baslio da: Uruguai, Lisboa, 1769; Rio, 1811. Nove eds. ao todo no sc. 
XIX. Ed. moderna das Obras Completas, Rio, 1920. H uma reed. fac-similada da 
prnceps, Rio, 1941Duro, Jos de Santa-Rita: Caramuru, Lisboa, 178 1; 1836; 3. >, 
Bahia, 1837. Edies modernas (6. >), Rio, Garnier, s/d, e So Paulo, 1945.

Caldas, Antnio Pereira de Sousa: Poesias Sacras e Profanas, Paris, 1820-2 1.

Nascimento, Francisco Manuel do: Versos de Filnto Elisio, Paris, 1798; Obras 
Completas, 2. > ed. emendada e acrescentada, Paris, 1817-19, 11 tomos; reed. de 
Lisboa,
1836-40.

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   675

Macedo, Jos Agostinho de: O Oriente, Lisboa, 1814, 2 vols.; reed., Lisboa, 1827, e 
Porto, 1854. Gama, Lisboa, 1811. Criao, 1865. Meditao, 1813, reed. de 1818,
1837, 1854. Newton, Lisboa, 1813, reed, de 1815, 1854. Viagem Exttica ao Templo da 
Sabedoria, Lisboa, 1808, reed. de 1836, 1841, 1854. A Natureza, Lisboa, 1846, reed.
1854. Contemplao da Natureza, Lisboa, 1801. Os Burros, Paris, 1827, reed. 1835,
1847, 1892. A Besta Esfolada, 1828-29 (26 nmeros). O Desengano, 1830-31. Motim 
Literrio (4 vols.), 1811, reed. de 1811, 1841, 1845. O Desaprovador, 1817-19. Os 
Sebastianistas, 1810 (Lisboa e Rio). Censura dos Lusadas, 1820. Obras Inditas de 
Jos Agostinho de Macedo, subttulo: Censuras a diversas obras (1824-29), ed. por 
Tefilo Braga.

Cunha, Jos Anastcio da: Composies Poticas, Lisboa, ed. por Inocncio da Silva, 
1836; A Obra Potica do Dr. Anastcio da Cunha, Coimbra, 1930, com estudo de Hemni 
Cidade. A Voz da Razo fora editada em Paris, 182 1; a sua atribuio a Anastcio da 
Cunha foi contestada por A. A. Gonalves Rodrigues em As Epstolas de HIo;@e e 
Abelardo na obra de J. Anastcio da Cunha, in *Revista da Biblioteca Nacional+, 198 
1, pp. 273-276. Joei Serro traduziu, editou e anotou umas Notcias Literrias de 
Portugal
1780, originariamente redigidas em francs, referindo ainda outros inditos e 
dispersos, Lisboa, 1966, reed. 1971.

Almeira, D. Leonor de, marquesa de Alorna: Obras Poticas, Lisboa, 1844, 6 vols. 
Inditos, Cartas e outros escritos, in col. *Clssicos S da Costa+.

Almeida, Nicolau Tolentino de: Obras Poticas, Lisboa, 1801 (1. e 2. > vols.), 1886 
(3. > vol.); reed. de 1828 acrescentada de um 4. > vol. de Obras Pstumas; novas 
reeds. com incluso de inditos entretanto publicados em 1858 e em 1861. Stiras e 
Epstolas, Lisboa, 1888. Publicada em fascculos uma reed. ilustrada (1969).

Franco, Meio: O Reino da Estupidez, Paris, 1818, 1819, 1821; Hamburgo, 1820; Lisboa, 
1822, 1833; Barcelos, 1869. Ed. recente com estudo de Lus de Albuquerque, Coimbra, 
1975, *Textos Vrtice+. Ver Monteiro, Oflia Paiva: Sobre uma verso desconhecida de 
*0 Reino da Estupidez+, in O Marqus de Pombal e o seu Tempo, n. esp. da *Revista de 
Histria das Ideias+, Coimbra, 1982.

Bocage, Manuel Maria Barbosa du: Rimas, tomo 1, Lisboa, 179 1, reed. de 1800, 1806,
1834; tomo li, Lisboa, 1799, reed. de 1802, 1813, 1843; tomo lii, Lisboa, 1804, reed. 
de 1806, 1842. Obras Completas, Rio, 1811. Obras Poticas, tomo IV, Lisboa, 1812, 
reed. de 1820; tomo V, 1813, reed. 1822. A Pavorosa Iluso da Eternidade, Londres,

1840-50. Poesias, 6 vols., ed. de Inocncio da Silva, Lisboa, 1853. Obras Poticas, 
Porto,
1875, 8 vols.; Lisboa, 1910, 3 vols. Sonetos, Lisboa, 1915 e 1960 (ed. preparada por 
Hernni Cidade). Sonetos e Poesias Vrias, Lisboa, 4. > ed., com pref. de Vitorino 
Nemsio. Poesias Erticas, Burlescas e Satricas, ed. Bruxelas, 18 54, Baa, 1860 e 6 
1, Londres, s/d. Opera Omnia, em 6 vols., ed. por Hemni Cidade, Bertrand, 1969-73. 
Obras Completas, em papel bblia, 1. vol., Lello, Porto, 1968.

Quanto  *Gazeta Literria+ do padre Francisco Bernardo de Lima h um sumrio ou 
resumo em castelhano de todos os artigos, editado por Giuseppe Cario Rossi, atravs 
do Istituto Universitario Orientale, Studi, vol. 1, Npoles, 1962.

676                                                 HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

2. Antologias

Alm das antologias gerais do sc. XVIII mencionadas na Bibliografia do ltimo 
captulo, ver:

Gonzaga, Toms Antnio: Marlia de Dirceu e mais poesia, ed. preparada por Rodrigues 
Lapa para a col. *Clssicos S da Costa+.

Jazente, Abade de (Cabral, A. Paulino): Poesias seleccionadas, prefaciadas e anotadas 
por Mrio Gonalves Viana, Porto, 1944; Poesias do Abade de Jazente, org. e anotao 
de Miguei Tamen, col. *Textos Literrios+, Comunicao, 1983.

Elsio, Filinto: Poesias, seleco, pref. e notas de Jos Pereira Tavares, col. 
*Clssicos S da Costa+; Lricas e Stiras, col. *Portugal+, Porto.

Alorna, Marquesa de: Poesias e Inditos, cartas e outros escritos, sei., pref. e 
notas de Hernni Cidade, col. *Clssicos S da Costa+.

Bocage: Sonetos Escolhidos, Lisboa, 1921 e 1960 (esc. por Hernni Cidade); Poesias, 
sei., pref. e notas de Guerreiro Murta, *Clssicos S da Costa+. Obras Escolhidas, 
por Hemni Cidade com desenhos de Lima de Freitas, Lisboa, 1967; Antologia 
comemorativa do Centenrio, ed. Junta Distrital de Setbal, 1965; Poesia, selec., 
notas e sugestes crticas por Margarida Barahona, *Textos Literrios+, 1978; 
Sonetos, introd., sei. e notas de Vitorino Nemsio, col. *Clssicos Portugueses+, 
1978; Antologia Potica, selec. e introd. por M. Antnia Carmona Mouro e M. Fernanda 
Pereira Nunes, col. *Biblioteca Lilisseia+.

Tolentino, Nicolau: Stiras, sei., pref. e notas de Rodrigues Lapa, col. *Textos 
Literrios+; Stiras, apres., sei. e notas com sugestes crticas de Maria da Graa 
Videira Lopes, col. *Textos Literrios+, 1978.

Poetas Pr-Romnticos, sei., pref. e notas de Jacinto do Prado Coelho, col. 
*Atlntida+, 2.1 ed., 1970.

Apresentao da poesia brasileira, antologia organizada e prefaciada por Manuel 
Bandeira, Rio, 1946.

Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Colonial, organizada por Srgio Buarque de 
Holanda, Instituto Nacional do Livro, Rio, 1953.

3. Estudos

Generalidades:


Braga, Tef ilo: Filinto Elisio e os Dissidentes da Arcdia, Porto, 190 1; Bocage, 
vida e poca literria, Porto, 2. ed., 1902, vols. da Histria da Literatura 
Portuguesa.

Figueiredo, Ficielino de: Histria da Literatura Clssica, 3. O vol., Lisboa, 1822, e 
A Crtica Literria em Portugal, Lisboa, 1910.

Cidade, Hemni: Lies de Cultura e Literatura Portuguesa, 2. > vol., 3. > ed., 
Coimbra, 1948, e O Conceito de Poesia como expresso da cultura, Coimbra, 1959.

5. - POCA - O SCULO DAS LUZES                                                      
   677

Vejam-se ainda os artigos da Histria da Literatura Portuguesa Ilustrada, 3.O vol., 
respeitantes aos assuntos aqui versados.

Pelo que toca aos poetas *mineiros+, ver Cndido, Antnio: Formaco da Literatura 
Brasileira, 1. o vol. (sobre o perodo de 1750-1836), So Paulo, 1959, 2. > ed. 1963,
4. > ed., 2 vols- So Paulo, s/d; Presena da Literatura Brasileira, Histria e 
Antologia, S. Paulo, 1964, do mesmo autor; A Literatura no Brasil, obra dirigida por 
Afrnio Coutinho, Rio (publicada desde 1955, 1 vol., abrangendo o Barroco e o 
Arcadismo, 1968),
3. > ed. 1986); alm das j clssicas Histrias da Literatura Brasileira, de Slvio 
Romero,
5. > ed., Rio, 1953, e de Jos Verssimo, reed., Rio, 1954.

Estudos parciais:

Ver, antes do mais, os pref. e notas das eds. e antologias modernas. Rossi, G. Cario: 
LArcadia e il Romantismo in Portogallo, in *Bibios+, 1945. Soares, Fernando: O Abade 
de Jazente, Vila do Conde, 1952.

Pereira, Firmino: O Porto de outros tempos, Porto, 1914. Basto, A. de Magalhes: 
Falam Velhos Manuscritos.... 1943 (contm estudos sobre o Abade de Jazente).

Coelho, Jacinto do Prado: Subsdio para o estudo de Joo Xavier de Matos, in 
Miscelnea de estudos em honra do Prof. Hemni Cidade, Lisboa, 1957; A Musa negra de 
Pina e Meio e as origens do pr-romantismo portugus, in *Memrias da Academia das 
Cincias de Lisboa+, Classe de Letras, t. Vil, 1959; eAs Confidncias do Abade de 
Jazente, in Problemtica de Histria Literria, 196 1.

Lapa, Rodrigues: As *Cartas Chilenas+: um problema histrico e filosfico, com pref. 
de Afonso Pena Jnior, Rio, 1958.

Cristvo, Fernando: Marlia de Dirceu de Toms Antnio Gonzaga ou a Poesia como 
Imitao e Pintura, IN-CM, Lisboa, 1981.

Osrio, Jorge Alves: Sentido e Forma em Toms Antnio Gonzaga a propsito do seu  
Horacianismo, sep. da *Revista de Histria+, vol. li, Porto, 1979.

Silva, J. M. Pereira da: Filinto Elisio e a sua poca, Rio, 1891. Silva, Inocncio 
Francisco da: Memrias para a vida ntima e literria de Jos Agostinho  de Macedo, 
editadas por Tefilo Braga.

Cidade, Hemni: A Marquesa de Alorna, Lisboa, 1929; Bocage, Porto, 1936, reed.
1965; Bocage, col. *A Obra e o Hornem+, 3. ed., Arcdia, 1978.

Nmero especial do suplemento de *0 Comrcio do Porto+ dedicado ao segundo centenrio 
de Bocage, 1965-08-24.

Maia, Joo: Bocage, o Pr-Romntico, in *Brotria+, vol. 81, pp. 500-508. Coelho, 
Jacinto do Prado: Bocage pintor do invisvel, in *Memrias da Academia de Cincias de 
Lisboa+, Classe de Letras, 9, 1966.

H ensaios sobre Bocage insertos em Ler e Depois, scar Lopes, 2. > ed., Porto, 1969, 
e A Letra e o Leitor, Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, 1969, Literatura Portuguesa 
li,

678                                              HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Joo Mendes, 2. a ed., Verbo, 1982, e sobre esse autor e Xavier de Matos em Hospital 
das Letras, David Mouro-Ferreira, Lisboa, 1966. Ver ainda o vol. de Homenagem 
Nacional a Bocage, Setbal, 1965, com conferncias de Vitorino Nemsio, Hernni 
Cidade e

outros autores.

Ribeiro, Aquilino: Anastcio da Cunha, o Lente Pentenciado (Vida e Obra), com 
bibliografia, Lisboa, s/d.

Pref. e bibliografia na ed. das Notcias Literrias de Portugal, por Joel Serro. 
Elogio histrico de Anastcio da Cunha por Gomes Teixeira, transcrito no Suplemento 
Cultural do *Dirio+, 1987-11-14.

Coelho, Jacinto do Prado: O Amor em J. Anastcio da Cunha, in *Problerntica da 
Histria Literria+, 2. a ed. rev., 1961, pp. 127-131.

Vol. Em Homenagem a J. Anastcio da Cunha, Univ. de Coimbra, 1988, espec. Castro, 
Anbal Pinto de: J. Anastcio da Cunha. Heterodoxia e poesia, pp. 33-54.

Ferro, Joo Pedro: O Processo de Anastcio da Cunha, Palas Editores, 1987. Baena, 
Visconde Sanches de: Memrias de Tolentino, Lisboa, 1886. Srgio, Antnio: Ntula 
sobre Nicolau Tolentino, in Ensaios V. Curt, Nely Pereira Pinto: A realidade scio-
poltica nas Minas em fins do sc, XVIII (Anlise ideolgica da produo literria do 
grupo mineiro), in *Revista de Histria+, 33, n. > 67, Jul.-Set. 1966.

Palma-Ferreira, Joo: Academias Literrias dos Sculos XVII e XVIII, Biblioteca 
Nacional, 1982.

Machado, A. Manuel: As Origens do Pr-Romantsmo em Portugal, *Biblioteca Breve+, 
ICALP, 1979.

r\ EPOLA

O ROMANTISMO

Captulo 1

INTRODUO

Conceito de Romantismo

O adjectivo *romntico+  de origem inglesa seiscentista (romantic) e deriva do 
substantivo romaunt, de origem francesa (roman ou rommant), que designa os romances 
medievais de aventuras. O emprego da palavra generalizou-se a tudo aquilo que evoca a 
atmosfera desses romances - a cavalaria e em geral a Idade Mdia - at que, no ltimo 
quartel do sculo XVIII, Letourneur e, depois, J. J. Rousseau a adoptam em francs, 
distinguindo romantique e romanesque. Do Ingls e do Francs a palavra passou a todas 
as lnguas curopeias, e j nos primeiros anos dos sculo XIX Frederico Sclilegel e 
Madame de Sta1 opunham *romntico+ a *clssico+.

De ento para c as palavras *romntico+ e *romantismo@> tm sido usadas com 
variadssimos e por vezes incompatveis significados, de acordo com critrios de 
classificao de ordem psicolgica, esttica, ou at restritamente formal, temtica, 
se no mesmo de ordem poltica ou moral. Mas noes como a de Romantismo (e, j 
vimos, a de Renascimento, de Barroco ou de fluminismo) pem a um estudo de histria 
literria ou cultural, no tanto o problema de definir formalmente um conceito, como 
o de delimitar e caracterizar dada poca, a partir do seu conhecimento multiforme e 
concreto. No entanto, s como amostra da natureza complexa e contraditria das 
realidades em que se inspiram as prprias definies abstractas de Romantismo, 
lembremos as principais caractersticas que lhe tm sido atribudas.

J a etimologia do termo indigita algumas das feies mais frequentemente tidas como

definitrias do Romantismo: o gosto das tradies medievais, muitas delas conservadas 
no romanceiro e, em geral, na cultura folclrica, que a literatura clssica francesa 
tinha desdenhado, e por sua influncia outras literaturas da Europa ocidental na fase 
chamada neoclssica (sculo XVIII). Em certos pases durante sculos integrados em 
monarquias estrangeiras ( o caso das naes eslavas) ou temporariamente dominados 
pelos exrcitos

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napolenicos (como a Alemanha e a Espanha), as tradies folclricas constituiro uma

tendncia fundamental do romantismo, que a burguesia letrada revaloriza em oposio  
cultura sem razes nacionais.

Por outra banda, esta tendncia liga-se mais ou menos a certas caractersticas 
formais: o banimento da mitologia e dos processos eruditos da retrica greco-romana; 
a

mistura dos gneros definidos e contrastados pelas numerosas artes poticas clssicas 
(tipicamente: a fuso da tragdia e da comdia no drama burgus ou histrico); uma 
versificao mais plstica, variada e popularizante, fora do colete-de-foras de 
formas decassilbicas como o soneto; um estilo em que o sublime e o grotesco se 
justapem, e sem

aquelas perfrases e aquela seleco vocabular que antes se julgava manterem a 
fronteira

entre o potico e prosaico. Mas tal libertao estlstica, ou, como disse Vitor 
Hugo, tal imposio do barrete frgio ao velho dicionrio, no pode, por seu turno, 
separar-se de um conjunto de inovaes temticas: s amenidades do bucolismo clssico 
ope-se o belo

horrvel, disforme, tenebroso, cemiterial ou fantstico (o que se liga com o 
magistrio de Dante e Shakespeare);  ordem e medida, o desordenado e o desmesurado 
paisagstico e psquico; aos contornos ntidos e diurnos, o enevoado, o nocturno, o 
sonho irreal;  racionalizao e pondera o de toda a estrutura de uma obra, a 
factura improvisada, os

versos lanados ao sabor das rimas muito audveis, a digresso a propsito ou 
despropsito, a interrupo da narrativa para um comentrio ou confidncia ao leitor, 
o exagero sentimental e melodramtico; em vez do epteto que apenas classifica ou 
encarece genericamente um dado ser, cultiva-se uma adjectivao, uma pormenorizao 
descritiva orientadas a dar a cor local ou histrica, o pitoresco e o extico (no 
apenas o medievo, ou em geral, passadista, mas tambm o espanhol, argelino, oriental, 
o dos ambientes miserveis, o das lendas e mitologias germnicas, clticas e outras).


H dois aspectos a que se costuma dar um relevo especial, pela importncia que 
assumem nos gneros literrios mais tpicos da poca romntica (historiografia, 
fico histrica, fico e investigao de objecto sociolgico, romance ou poema de 
fundo autobiogrfico, memoralismo, lirismo egocntrico): o historicismo e o 
individualismo. Os decnios mais frequentemente cobertos pela designao de 
Romantismo foram aqueles em que o ponto de vista gentico, histrico, se comeou a 
impor nos mais variados domnios cientficos (teoria das nebulosas como origem dos 
mundos, geologia, transformismo biolgico) e sobretudo nos domnios sociolgicos e 
filosficos (filosofia da histria; teoria sobre a gnese da civilizao e da 
literatura; teoria histrica do direito; lingustica histrica; concepo de um 
progresso social indefinido, e no apenas poltico ou moral e com um objectivo final 
 vista, como era para os Iluministas). Quanto ao individualismo, alis extremamente 
contraditrio nas suas manifestaes, costuma apontar-se, quer a sua consonncia com 
o derrubamento final das instituies e ideologias feudais~absolutistas, e

com o individualismo poltico e econmico de ideologia e mbito burgueses; quer a sua

reaco a formas novas de degradao humana, e at ecolgica, acarretadas pela 
omnipotncia do dinheiro, agora com menos entraves s suas funes mercantis, e pela 
revo-

6. - POCA - O ROMANTISMO                                                            
     683

luo industrial da mquina a vapor alimentada a carvo. Como principais facetas 
literrias deste individualismo mencionam-se o culto da originalidade pessoal, em 
oposio  teoria clssica da imitao emuladora; o tema da insaciedade humana, da 
aspirao indefinida, a dor *csmica+ de simplesmente existir, a obsesso da morte, o 
autobiografismo directo ou velado, a apologia do heri insocivel e amoral ou fora da 
lei (o pirata, o bandido, o proscrito, etc.). Este individualismo pode ir at ao 
extremo da autonegao, que se manifesta no gosto do sonho ou devaneio passivos, ou 
de qualquer evaso imaginativa para alhures no tempo e no espao (historicismo, 
exotismo); no sentimentalismo amoroso indizvel e irrealizvel; em manifestaes de 
anrquico irracionalismo ou misticismo; e at, dentro de certos ambientes e fases 
anti-iluministas ou anti-revolucionrias, no encarecimento de valores poticos 
inerentes s lendas crists, ao culto catlico e ao mais antigo viver aristocrtico 
feudal.  tpico sobretudo do romantismo alemo o senso de incomensurabilidade do 
indivduo: a dor csmica (Weltschmerz) e uma ironia de algo que, em ns, se sente 
transcendente ao mundo e, at, a qualquer expresso potica possvel.

Esta simples indicao e relacionao superficial das notaes mais frequentemente 
atribudas ao Romantismo vale s pelos problemas que suscitam as suas prprias 
incoerncias. O que mais importa  ver estas caractersticas nas suas relaes 
concretas inesgotveis e no seu movimento cronolgico, tendo sobretudo em vista as 
obras literrias e aquilo que no drama da poca melhor nos ajude a compreender a vida 
mais autntica e ainda palpitante dessas obras. Sigamos, nas suas linhas ainda 
necessariamente gerais, mas quanto possvel decisivas, o curso europeu das tendncias 
consideradas romnticas, a fim de as podermos relacionar e contrastar com as que se 
verificam na literatura portuguesa.

Condies gerais do Romantismo

Nas origens remotas do Romantismo est o progresso econmico, poltico e social da 
burguesia; no seu fecho esto as consequencias da grande revoluo industrial que a 
partir de 1850 transforma completamente a vida na Europa em menos de meio sculo.


A literatura clssica francesa  uma sntese entre os padres de corte e padres 
burgueses (caso tpico: Voltaire). Nas literaturas barrocas, que so sobretudo as de 
pases de burguesia atrasada, os padres cortesanescos combinam-se com formas 
populares (caso de Lope de Vega). A literatura inglesa  um caso  parte, em que a 
corte desempenha um papel mais apagado na integrao da literatura. Por isso neste 
pas se desenvolvem, mais cedo, com autonomia, gneros como o romance. J desde o 
sculo XVII comea a manifestar-se a existncia de um pblico de tipo inteiramente 
diverso do pblico de salo. Aumenta a importncia e a procura do livro impresso, 
apesar das censuras: falmos das edies clandestinas que saem da Holanda e iludem a 
vigilncia nas fronteiras. Multiplicam-se os projectos e tentativas de 
aperfeioamento do maquinismo tipogrfico: estereotipia (1739); embranquecimento pelo 
cloro (1774); impresso da folha inteira por uma s vez (1781). As invenes 
aceleram-se a partir de 1798, ano em que se inaugura a imprensa Stanhope, que 
multiplica a rapidez das tiragens. Em 1812, o *Times+ 

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impresso numa imprensa cilndrica com motor a vapor (mquina Koenig). Aparecem tambm 
nos sculos XVIII e XIX, em Inglaterra e no Continente, as bibliotecas ambulantes e 
os gabinetes de leitura.

Esta massa de leitores impulsiona o rpido desenvolvimento do jornalismo a partir do 
sculo XVII. Em 1660 aparece o primeiro jornal dirio, em Leipzig; em 18 15 h em

Londres, cidade com um milho de habitantes, 8 dirios da manh e 8 da tarde, alm de 
vrios semanrios. Os jornais so, como os livros, relativamente caros, o que em 
parte explica a multiplicao dos gabinetes de leitura e dos livros de aluguer, 
principalmente na Inglaterra. A partir de 1836 multiplica-se o jornal barato, tambm 
em Inglaterra.

Este pblico, possibilitado pela inveno da imprensa e pelo crescimento das camadas 
mdias, est, alis, a formar-se um pouco por toda a parte. O pblico popular, no 
alfabetizado, tambm beneficia da imprensa, visto que certas obras, como  o caso do

Quixote de Cervantes, se liam oralmente em crculos de ouvintes. A um pblico burgus 
e tambm popular se destinam por exemplo, na Pennsula Ibrica, os folhetos de 
cordel; e por ele se popularizam gneros literrios  margem da tradio clssica, 
como o romance picaresco espanhol.  pincipalmente na Inglaterra que um grande 
pblico ganha consistncia e assiduidade de interesses.  l, com efeito, que 
primeiro se consolida a nova literatura de forma e inteno burguesas, o que se 
conjuga perfeitamente com o avano da sociedade mercantil neste pas, com o precoce 
aburguesamento da parte da sua aristocracia e com a revoluo industrial iniciada no 
sculo XVIII. O desenvolvimento do

romance, o gnero mais adequado ao novo pblico, porque alcana uma populao vasta e 
dispersa, constitui um dos principais sintomas desta transformao.

A Inglaterra oferece assim, desde muito cedo, uma literatura com caractersticas 
anuncadoras do Romantismo. O teatro de Shakespeare, as obras inspiradas na leitura 
quotidiana da Bblia e, j no sculo XVIII, o romance ingls (Swift, Defe, 
Richardson, Fielding, Sterne, etc.) contam-se entre as principais fontes e afluentes 
do movimento romntico do sculo XIX. Por isso, este movimento no representa na 
Inglaterra uma rotura de equilbrio, mas mais uma fase de uma evoluo literria 
relativamente contnua.


Noutros pases, todavia, diversas estruturas sociais-culturais constituram um dique 
ao desenvolvimento e generalizao do novo gosto literrio. O caso mais tpico  o da 
Frana. O extraordinrio desenvolvimento da vida de corte neste pas deu lugar ao 
surto brilhante de uma cultura aristocrtica e imps um padro de gosto que tem a sua 
principal expresso no teatro clssico, em que alis entra certo racionalismo 
burgus, como j vimos.  margem das regras e modelos clssicos desenvolveram- se 
manifestaes com elas incongruentes, como o romance sentimental (de Mme. Lafayette a 
Prvost), o romance picaresco (Marivaux e Lesage), um teatro de novo gnero 
(Beaumarchais), o conto voltairiano, a literatura confitente de Rousseau. Mas estas 
novas formas no eliminam o domnio dos gneros clssicos e cruzam-se, por fim, com 
eles na sua fase final: o rococ.
O movimento romntico francs oferece, por isso. ao cabo de uma evoluo sinuosa que 
esquematizaremos, o aspecto de uma transformao revolucionria, de rotura deliberada

com o passado, que no encontramos na literatura inglesa.

6 a pOCA - O ROMANTISMO                                                             
    685

O caso da Alemanha  muito especial. A Guerra dos Trinta Anos, e outros factores,

como o parcelamento do territrio em pequenos estados dominados por aristocracias 
retardatrias, impediram a criao de uma verdadeira literatura nacional com 
continuidade. Esta s se iniciou, pode dizer-se, no sculo XVIII, com o movimento da 
Aufflaerung, j atrs mencionado. No princpio do sculo XIX a burguesia alem est 
atrasada na sua

conscincia literria, os escritores continuam dependentes da proteco mecentica 
dos diversos dspotas, mais ou menos esclarecidos, de uns duzentos principados em 
regime ainda feudal. Mas este mesmo atraso impediu que se constitusse na Alemanha 
uma verdadeira tradio clssica  maneira da Frana e de outros pases, tais como a 
Itlia e a Pennsula Ibrica; e a literatura alem  marcada desde o sculo XVIII 
pela influncia dos pr-romnticos, especialmente franceses.

De qualquer forma, com rotura ou sem ela, a presena do novo pblico e as novas

relaes entre o escritor e o pblico acabam por criar o estilo, os gneros e o 
sentido esttico que caracterizam o Romantismo em oposio ao Classicismo.

As grandes camadas burguesas crentes na capacidade de criar riqueza e de providenciar 
o destino individual encontram-se ento numa fase de combatividade ideolgica, 
animadas de uma confiana na natureza e no futuro da Humanidade que se manifesta na 
teoria da harmonia universal, justificativa da livre concorrncia individual no jogo 
econmico. Acreditam na eficcia da razo, e procuram fora da Igreja uma direco 
espiritual.  uma grande massa que pede ao escritor, acima de tudo, ideias e 
sentimentos orientadores e que animem certos novos valores. O escritor encontra 
assim, em certas fases e pases, na 1. metade do sculo XIX, oportunidades sem 
precedentes para se fazer ouvir, para espalhar sementeiras doutrinrias ou para 
provocar correntes emocionais de simpatia at ento s acessveis aos pregadores 
religiosos.


Por outro lado, o pblico do Romantismo no tem uma grande preparao especificamente 
literria. Ignora as convenes e os padres da literatura clssica (mitologia, 
histria antiga, tpicos e figuras de tradio retrica, regras dos gneros, etc.). 
No compreende os valores literrios clssicos. Aprecia mais a emoo que a 
subtileza; gosta da expresso concreta imediatamente acessvel, da imagens e smbolos 
que do corpo bem sensvel ao pensamento. Est enraizado em vivncias locais e 
regionais: a terra, a rua, a paisagem local, o lar burgus, os objectos familiares, 
que j se revelam na pintura holandesa do sculo XVII. Tem uma noo mais sensorial 
que os literatos de salo do mundo ambiente, o que o leva a apreciar o realismo 
descritivo. A sua prpria impreparao esttica torna-o sugestionvel pela peripcia 
romanesca, pela simples intensidade e

diversidade das impresses. Daqui resultam algumas das caractersticas mais 
geralmente apontadas no Romantismo: estilo declamatrio, por vezes redundante e um 
tanto vago, em que a abundncia prejudica a conciso e o rigor; o gosto das 
hiprboles e das exclamaes que do forma tribuncia ao pensamento; o gosto das 
imagens, que o concretizam e popularizam; o uso de um vocabulrio mais rico em 
aluses concretas, menos selecto, mais correntio, mais familiar e mais sensorial, a 
introduo de dados captados

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no ambiente; a presena fsica das personagens humanas, dos interiores e das 
paisagens (realismo descritivo, cor local, etc.); o recurso ao romanesco,  peripcia 
que prende a imaginao, e a certos ingredientes fceis e de quilate duvidoso, mas de 
resultados garantidos (exotismo, fantasmagoria do romance negro, tambm chamado 
romance gtico); o tom de mensagem ao prximo que assume a obra literria, convertida 
em meio de comunicao e no j expresso de um mundo fechado de valores. Tais so as 
caractersticas formais que encontramos nas figuras mais representativas do 
Romantismo, como Vitor

Hugo, Dickens, BaIzac ou Michelet, caractersticas que o tornam inconfundvel, tanto 
com o Classicismo como com o Barroco, embora certos estudiosos o aproximem deste 
ltimo.

J nos autores chamados pr-romnticos, como vimos, encontrmos algumas destas 
caractersticas gerais. Mas o pr-romantsmo no passava de um conjunto de tendncias 
coexistentes com o neoclssico e o rococ e mal dispondo de uma teoria esttica 
prpria.
O Romantismo declara-se no momento em que estas tendncias se generalizam a tal ponto 
que pem em causa os prprios alicerces do Classicismo, concebendo-se as novas formas 
como um todo coerente e procurando-se fundament-las com uma teoria esttica.

Esse momento varia de pas para pas de acordo com as condies nacionais especficas 
acima referidas. Em Inglaterra, onde, como vimos, n o h uma quebra de tradio 
literria, data-se o movimento romntico das Lyrical Ballads de Wordsworth e 
Coleridge,
1. > volume 1798, 2.1 1800, 3.1 1802, contendo o 2. ` volume um manifesto de 
Wordsworth. Em 1798 tambm, funda-se a revista Athenacum, rgo do Romantismo alemo, 
dirigida pelos irmos Augusto Guilherme e Frederico Sclilegel. Mas certas concepes 
romnticas j se manifestavam na Alemanha, desde 1790, nas obras de Tieck, Fichte e 
Frederico Sclilegel. O primeiro manifesto romntico francs - alis ainda muito 
tmido -  bastante posterior: o Racine et Shakespeare de Stendlial (1822); e s em 
1827, no prefcio do Cromwc11 de Vtor Hugo, aparece inteiramente desenvolvida uma 
doutrina romntica. Ainda em 1830 a representao do Ernani de Vtor Hugo provoca 
escndalo e cenas de pugilato.


Com estes manifestos e produes literrias fundam-se as diversas escolas romnticas. 
As teorias romnticas da arte diversamente expressas pelos seus expositores no tm 
efectiva conscincia de toda a amplitude da transformao literria que, acumulando-
se paulatinamente, d lugar a uma viragem no dobrar do sculo XVIII para o XIX. 
Expri~ mem antes a reaco emotiva a certos momentos e condies histricas dessa 
grande transformao, e procuram para ela uma fundamentao filosfica, de acordo com 
certas condies locais e epocais. Tal corno a encontramos em Frederico Schlegel, a 
teoria do Romantismo  inaplicvel, por exemplo, s obras de um Vtor Hugo, de um 
BaIzac, de um Dickens, de um Michelet, ou mesmo de um Goethe na sua fase romntica 
(ele seria depois a figura central de um classicismo germanico oitocentista). Essas 
teorias correspondem a circunstncias que condicionam diversos grupos, tertlias e 
personalidades adiante aludidas, e de que resultaram, em cada caso, sentidos 
ideolgicos especiais.

6. >POCA - O ROMANTISMO                                                             
    687

Cronologicamente, as diferentes escolas romnticas reduzem-se ao perodo de uma

ou duas geraes: na Inglaterra de 1798 e 1832; na Alemanha de 1790 a 1830; e em 
Frana de cerca de 1825 a cerca de 1850 (a gerao de Lamartine e a de Musset). Esta 
cronologia tradicional  um tanto arbitrria. Baseia-se sobretudo na existncia de 
agrupamentos e personalidades afins, como na Inglaterra a 1. 1 gerao romntica 
(Wordsworth e Coleridge) e a 2. a gerao (Byron, Shelley, Keats); na Alemanha o 
grupo dos Sclilegel e de Novalis, a escola de Heidelbergue (Brentano, Goerres, os 
irmos Grirrun e outros), a escola de Berlim (Kleist, Zacarias Werner, Hoffmann, 
etc.), a escola da Subia; em Frana o grupo do Cenculo, etc. No cabem dentro dela 
personalidades como Heine, que combateu a orientao dos romnticos alemes na sua 
poca e cuja obra se situa prncipalmente entre 1830 e 1850; como Vtor Hugo, que 
atravessou todo o perodo de 1822 a 1885 sempre activo, reajustado e muito influente; 
como Dickens, classificado dentro do perodo chamado vitoriano, e que apesar disso 
nos deixou um paradigma acabado do romance romntico.

Na verdade, as escolas *realistas+ e *naturalistas+ sucedem s escolas *romnticas+ 
no sentido restrito, mas pode dizer-se que o Romantismo, em sentido lato, as abrange 
a todas e s chega ao seu ao seu termo no final do sculo XIX, quando surge o 
simbolismo. Os escritores realistas e naturalistas no trazem alteraes fundamentais 
quanto ao estilo; e as suas relaes com o pblico, a natureza mesma deste pblico, 
so as j caractersticas dos escritores que os precedem. Zola, George Eliot, tal 
como Hugo e Michelet, consideram-se antes de tudo semeadores de ideias, aferem o 
valor das palavras pelo poder comunicativo, apreciam os grandes efeitos, tm a 
conscincia de desempenhar uma autoridade espiritual, esto animados de confiana no 
Progresso.

Esta confiana encontrava, alis, novo encorajamento da rpida transformao que se 
estava dando nas condies tcnicas da vida: a partir de meados do sculo recebe 
grande impulso no Continente a construo dos caminhos-de-ferro; abrem-se os grandes 
tneis e canais, generaliza-se a navegao a vapor e o telgrafo.  roda de 80 
acumulam-se vrios grandes acontecimentos: descoberta do telefone, iluminao 
elctrica da Exposio Internacional de Paris (1878), primeiros veculos automveis, 
perfurao do S. Gotardo. A produo do carvo, do ferro, do ao, do petrleo, est a 
aumentar vertiginosamente.

O desenvolvimento do maquinismo tende a destruir a produo artesanal e a dominar a 
pequena empresa; por algum tempo a sociedade parece polarizar-se de forma a ter


de um lado um proletariado cada vez mais numeroso, e do outro uma nova burguesia 
industrial e financeira, reduzida em nmero, mas mais poderosa que qualquer outro 
grupo dirigente antes conhecido; enquanto, por outra banda, se sedimenta uma neo-
aristocracia burguesa, mais interessada na fruio dos privilgios adquiridos do que 
na conquista de novas posies econmicas. A *classe mda+  o modelo social dos 
romnticos e o seu pblico, mas tendo a decompor-se em camadas instveis e dispersas. 
Assistimos  formao de novas lite intelectuais que tendem a viver sobre si mesmas, 
desligando~se dos

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gostos e dos interesses da massa que alimentara a literatura romntica. A palavra 
*burgus+ vulgariza-se em dois sentidos ambos pejorativos, embora no coincidentes: 
para os crticos da sociedade,  uma nova aristocracia que se ope aos interesses dos 
trabalhadores; para os artistas e escritores de escol, identifica-se com vulgaridade 
de gosto, a

ignorncia e a insensibilidade aos valores *espirituais+. Num escritor como Zola, que 
alia momentos de grande requinte esttico a urna idealizao pica do povo e a uma 
condenao geral da sociedade ento estabelecida, encontramos justamente uma 
expresso desta desintegrao cultural do pblico, que equivale a uma crise de 
conscincia.

Para o fim do sculo, ressurge o tipo de escritor que se dirige a crculos reduzidos

de confrades e de apreciadores. Novamente, como nas pocas clssica e barroca, a 
literatura exige a iniciao numa problemtica difcil, num certo sistema de 
referncias, de valores, de tcnicas. A *grande literatura+ reservada aos iniciados 
dissocia-se da literatura para O *vulgo+, que continua a ler romances de aventuras, 
onde se gera o enredo

policial. Como na pocas clssica ou na barroca, o escritor de lite pratica *le 
culte de
1'encre et des plurnes+ (H. de Rgnier).

A palavra torna-se um material de arte; o escritor, pesquisador de ritmos, 
equilbrios formais, regressa  concepo seiscentista da obra literria como sistema 
de valores que vive sobre si mesmo. No  por acaso que na primeira metade do sculo 
XX se reabilita um escritor como Grigora, que  sem dvida precursor do Simbolismo. 
Esta transformao  j muito visvel no ano de 1885, embora os seus prenncios se 
manifestassem antes, em poetas como Keats, Gautier e Baudelaire, em prosadores como 
Flaubert. Mas a literatura romntica no morre de golpe: Romain Rolland, em pleno 
sculo XX, ser ainda um escritor to tipicamente romntico como Vitor Hugo, e pelas 
mesmas razes.

As escolas roMnticas

Consideremos agora as caractersticas variveis e as condies particulares das 
escolas romnticas. Todas elas se podem considerar em rela o a alguns 
acontecimentos importantes, que so principalmente: a Revoluo Francesa, as guerras 
napolenicas, a Restaurao bourbnica francesa de 1815, as revolues de 1830 e 1848 
e movimentos correlativos.


O Romantismo alemo  precedido pelo Sturm und Drang, cujo principal paradigma  
Rousseau. Alguns dos escritores do Sturin und Drang, como Goethe e Schiller, 
transitam para o Romantismo e oferecem-lhe modelos. O movimento surge, pode dizer-se, 
pouco depois da Revoluo Francesa. A estrutura social alem caracterizava-se pela 
existncia de pequenas cortes, de base e costumes ainda feudais, que dificultavam a 
unificao nacional, pelo fraco nvel de dinamismo poltico da burguesia, e pelo 
nmero desproporcionado de intelectuais sem clientela que, para sobreviver, tinham de 
curvar-se perante uma nobreza que detestavam. Esta lite intelectual emparedada e sem 
futuro sada na

6. a POCA - O ROMANTISMO                                                            
   689

Revoluo o milagre que poderia abrir~lhe horizontes e transformar a situao na 
Alemanha. O primeiro Romantismo alemo, preparado no s pelo Sturm und Drang mas 
iambm pelas escolas msticas germnicas, entre as quais a de Bolierne, e pela 
filosofia de Fichte e de Schelling, caracteriza-se pelo grande rasgo de especulao 
filosfica, pela exaltao anrquica das virtualidades do indivduo, e pela 
contrapartida esttica e especulativa de um sentimento revolucionrio que se revelara 
impraticvel no campo objectivo das instituies. E entretanto a Alemanha  derrotada 
por Napoleo (1806) e a maioria dos intelectuais vira a combatividade contra os 
agressores. O *inimigo+ no  apenas Napoleo, mas todo o sistema que ele simboliza. 
Os escritores atacam a Revoluo, assim identificada com o expansionismo napolenico 
da burguesia francesa, opondo-lhe as tradies nacionais *germnicas+, valorizando 
abstractamente a tradio, reconstruindo uma Idade Mdia idealizada e por vezes 
fictcia; atacam o prprio racionalismo revolucionrio, opondo-lhe o elogio do 
*esprito nacional+, com que idealizavam a emancipao nacional assim prometida e 
frustrada por uma revoluo burguesa estrangeira; muitos aderem ao catolicismo, 
alguns acolhem-se a uma mstica ocultista. Entretanto criam alguns dos smbolos mais 
tpicos das diversas escolas romnticas, tal como o da *flor azul+ do sonho, do lado 
nocturno da vida, da imaginao fantstica e livre, do mito popular, promovidos a 
revelao suprema. A queda de Napoleo em 1815 no altera este curso.

O Romantismo ingls nasce sob o signo da luta antinapolenica. Wordsworth e Coleridge 
exaltam  sua maneira urna tradio nacional, em que entram como modelos literrios 
Chaucer e Shakespeare e como inspradora directa a poesia popular. H evocaes 
medievais em Coleridge, que  tambm influenciado pela filosofia romntica alem, 
sobretudo por Schelling. Walter Scott, que inicia a sua carreira nesta poca, 
sobredoira o feudalismo e evoca o passado cltico com uma imaginao exuberante, que 
alis recorta as figuras sobre o seu fundo histrico-social com unia preciso antes 
desconhecida. Mas a partir de 1815, cado Napoleo, a poesia inglesa adere em geral 
aos ideais de 1789; Byron, cuja influncia no Romantismo s se pode comparar  de 
Scott, escandaliza as

convenes da sociedade tory em que nasceu, e consagra o tipo de heri demonaco; 
Shelley canta uma idealstica emancipao revolucionria da humanidade.


O paralelo francs das primeiras fases contra-revolucionrias do romantismo alemo e 
ingls encontra-se em autores romnticos como Chateaubriand, membro da velha 
aristocracia desapossada e proscrita pela Revoluo, e que regressa sob a Restaurao 
bourbnica. Ao modo dos romnticos alemes, Chateaubriand exprime um sentimento de 
insatisfao e de frustrao que se compensa no domnio da arte, concebida como uma 
nostalgia do infinito. No Gnc du Christianisme defende contra o Sculo das Luzes o 
Catolicismo, argumentando com as suas virtualidades estticas e com a sua adequao 
s necessidades afectivas do indivduo. No so outros, no fundo, os argumentos dos 
romnticos alemes que se convertem ao catolicismo. Alguns dos principais temas do 
Romantismo alemo so divulgados em De l'Allemagne (1800) por Mme. de Stal. Estes 
temas, assim como

Schiller, Shakespeare (em moda na Inglaterra e na Alemanha), a rebeldia 
individualista

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de Byron, o romance histrico de Walter Scott vo influir no Romantismo francs, que 
 o mais tardio entre os das grandes literaturas curopeias. Por curiosa contradio, 
que assinalmos a propsito do fluminismo, a literatura e a arte do perodo da Grande 
Revoluo dir-se-iam uma cunha neoclssica a separar os pr-romnticos dos primeiros 
romnticos franceses. Mas estes, apesar de inicialmente integrados na corrente 
contra-revolucionria

da restaurao bourbnica, adaptam-se, pelos temas e pelo estilo romnticos, s 
transformaes sociais j irreversveis, e nas vsperas da Revoluo de 1830, muitos, 
e em geral os mais novos, reassumem as tradies progressistas do Sculo das Luzes.

Os intelectuais franceses no se encontram isolados como os alemes, e intervm nos 
acontecimentos de forma mais directa e contnua que os ingleses. As intensas 
transformaes que a Frana atravessa de novo a partir de 1830 oferecem-lhes grandes 
possibilidades de aco. O livro e o jornal tm um papel por vezes imediato no 
desencadeamento dos acontecimentos. Por isso, de forma geral, o Romantismo francs 
no se

exila da realidade, no procura os caminhos do fantstico, da renncia religiosa, da 
sabedoria puramente metafsica ou da revolta anrquica. Por outro lado, a grande 
tradio francesa, a tradio clssico-burguesa, tal como se fixara no sculo XVIII, 
estava to profundamente enraizada e correspondia de tal forma  mentalidade 
nacional, que os elementos medievais e folcloristas nunca foram convictamente 
assimilados pelos romnticos franceses.

Assim, o historicismo romntico ganha em Frana um sentido completamente diverso do 
que tivera por razes diferentes em Inglaterra e na Alemanha, no obstante o 
principal teorizador da tradio como critrio social ser o francs De Bonald, 
exilado pela Revoluo e um dos mentores ideolgicos contra~revolucionrios. Para os 
historiadores franceses do Romantismo, Guizot e Thierry, a Idade Mdia  o bero das 
liberdades burguesas, abafadas pelo absolutismo monrquico, a prpria origem, 
portanto, da revoluo de 89.
O historicismo volve-se, assim, de aliado em inimigo da Santa Aliana. Michelet, 
assimilando neste sentido Herder, ser o grande cantor da marcha da Humanidade para a


liberdade. Os ficcionistas, por seu lado, com Vitor Hugo  cabea, defendendo a 
liberdade de inveno, proscrevendo os cnones clssicos, valorizando o particular, o 
local, o individual, sentem que introduzem na arte um princpio revolucionrio: 
*Romantismo  a liberdade na arte+, resume Hugo. A melancolia e o aristocratismo de 
Vigny, o apego do germanizado Nerval ao fantstico, o sentimento da frustrao em 
Musset so notas que no destroem a harmonia de conjunto do Romantismo francs: o 
escritor tem confiana no futuro e sente que desempenha um apostolado,  entre 1830 
e, aproximadamente, 1850 que produzem as suas principais obras as trs grandes 
figuras do Romantismo francs: BaIzac, Michelet e Hugo.

A Revoluo de 1830, que teve reflexos em toda a Europa, abriu passageiras e 
ilusrias perspectivas revolucionrias  intelectualidade alem, e estimula aqui uma 
literatura de crtica dos mitos romnticos alemes que tem o seu principal expoente 
em Heine e o seu filsofo em Feuerbach.  o chamado Realismo alemo, que se prolonga 
at ao fim do sculo.

6. - POCA - O ROMANTISMO                                                            
    691

Pela mesma poca intensificam-se na Inglaterra as lutas sociais emergentes do 
crescimento de um enorme proletariado, que reclama direitos polticos com o apoio da 
burguesia radical. O romance de Dickens, a poesia de Elisabeth Barret exprimem essas 
preocupaes, ao mesmo tempo que o filsofo John Stuart Mill prolonga o utilitarismo 
burgus, e Carly1e a metafisica do romantismo alemo, antecipando as tendncias anti-
racionalistas do fim do sculo, que vo abrindo caminho atravs do culto medievista, 
*pr-rafaelita+ curiosamente unido por Ruskin e William Morris  crtica do 
capitalismo.

A partir de 1850, um complexo ideolgico, cuja expresso dominante  ento o 
positivismo de Cornte, afirma a sua presena na literatura francesa. O positivismo  
uma tentativa de reajustamento do mecanismo iluminista s novas conquistas 
cientficas que permitiam uma viso panormica e evolutiva de toda a natureza, desde 
o mineral at ao homem; o que o caracteriza melhor  o agnosticismo, a pretenso de 
neutralidade relativamente aos problemas capitais da teoria do conhecimento; e a sua 
voga  continuada pela teorizao do mtodo experimental por Claude Bernard, fruto do 
amadurecimento das cincias biolgicas, e pelo determinismo sociolgico e psicolgico 
de Taine, que pretendia reduzir as criaes artsticas e culturais s influncias de 
*o momento, o meio e a raa+. O grande surto doutrinal , por ento, obra de Karl 
Marx (0 Capital, 1867) e de Friedrich Engels, mas a cultura burguesa dominante 
ignora-o.

Ento, o gosto do facto preciso e limitado, da notao rigorosa da percepo 
sensorial, a preocupao de eliminar a participao subjectiva do observador 
transbordam para a arte e a literatura. Ao impulso herico retrico, que Delacroix 
exprimiu em Barricada, sucede a viso implacvel de Courbet, na pintura. O 
qualificativo de *realista+ foi aplicado primeiro  pintura de Courbet e generalizado 
seguidamente, pelo crtico Champfleury, ao romance de Flaubert. J o ex-romntico 
Goethe no WilheIm Meister, Stendlial e sobretudo BaIzac na srie de romances da 
Comdia Humana haviam reagido, com vigor inexcedvel, contra os sonhos evasivos do 
romantismo alemo e seus reflexos em Frana, apreendendo as linhas mestras da 
evoluo do seu tempo. Na Madame Bovary (1857)

e na ducation Sentimentale (1866), Flaubert empreende a crtica da educao 
romntica, de modo distanciado, em contraste com a intromiss o permanente do 
narrador que se verifica nos romnticos, e procurando dar, pela estilstica da 
circunstancializao, uma

notao impressiva dos ambientes. Mas, apesar de um objectivismo e de um escrpulo 
esttico mais exigentes que os de BaIzac, o romance flaubertiano traduz um desengano 
cptico e pessimista, e a sua prosa, que, sobretudo nas evocaes histricas 
(Salammb, a Tentao de Santo Anto), cinge com rigor insatisfeito um sonho em que 
as formas ganham nitidez e relevo de corpo palpvel, prenuncia a prosa *artstica+ 
dos decadentistas e simbolistas.


A publicao de Les Fleurs du Mal de Baudelaire (em volume, 1857) revela ainda com 
maior acuidade at que ponto um poeta extremamente sensvel podia j aperceber-se de 
novas formas de frustrao relacionadas com uma vida citadina intensificada. Mas 
Baudelaire  ento um simples precursor. A contrapartida potica do Realismo, quer 
pela

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reabilitao do cuidado formal, quer pela objectividade pitoresca e pretensamente 
impassvel, quer at por um certo esprito de resistncia contra o Segundo Imprio,  
o Parnasianismo, nome que se generalizou a partir da colectnea Parnasse 
Contemporain, cujos trs volumes foram editados em 1866-69-76. O gosto quase 
turstico da variedade e objectividade dos assuntos, colhidos no novo conhecimento 
arqueolgico e etnogrfico de diver~ sas civilizaes, que caracteriza o 
Parnasianismo, tem a sua realizao mais tpica em

Leconte de Lisle (Pomes Antiques, 1852; Pornes Barbares, 1862). O culto parnasiano 
da forma tivera, de resto, alguns precursores romnticos, especialmente Thophile 
Gautier, que fizera do verso uma traduo das artes plsticas, julgando-se por isso 
*um homem para quem o mundo exterior existe+, e Teodoro Bainville, que se batera pela 
rima rica e contra as *licenas poticas+.

No entanto, facto caracterstico, a personalidade literria que pela sua influncia e 
pela sua projeco domina todo este perodo  Vitor Hugo, que fora j o chefe de fila 
do primeiro Romantismo em Frana. A sua lira adapta-se a novos temas: a luta contra o 
absolutismo poltico (Chtiments, 1853); a evoluo e o progresso da Humanidade 
(Lgende des Sicles, 1859-77-83); reivindicaes humanitrias (Les Misrables, 
1862). Esta modulao da temtica potica de Hugo deve-se principalmente aos 
acontecimentos de 1848-50 em toda a Europa, s lutas populares e burguesas travadas 
em Frana, na

Itlia, nos Balcs e na Polnia contra o Imprio francs, contra o feudalismo do 
Centro e Oriente da Europa, lutas que vinham na sequncia das de 1830, com o sensvel 
aparecimento de um factor novo, a camada operria engrossada pela industrializao.

Aps a guerra franco-prussiana e a Comuna, o Romantismo francs entra na sua ltima 
fase, cujo grande representante  Zola, *esse romntico atrasado entre ns+, segundo 
a

expresso de Bourget. Zola tenta representar em grandes quadros a vida colectiva da 
sua poca, insistindo principalmente nos problemas de degenerescncia social. 
Influenciado pela Introduo  Medicina Experimental de Claude Bernard (1865) e pela 
Filosofia da Arte de Taine (1865-69), pretende evidenciar  luz do determinismo do 
meio e da hereditariedade a histria de uma famlia. no Segundo Imprio, numa srie 
de 20 volumes baseados em extensos dossiers e num estudo pretensamente cientfico das 
taras de 32 pessoas aparentadas entre si (Les Rougon-Macquart, 1869-93). Juntamente 
com um grupo de discpulos, entre os quais Maupassant e Huysmans, constituiu o grupo 
de Mdan, ao qual se aplicou o nome de escola *naturalista+.


O naturalismo aproveita a experincia estilstica da notao sensorial precisa de 
Flau~ bert. Mas a continuao deste caminho leva ao impressionismo, quer na 
literatura quer na arte literria: assim como, em pintura, se vinha transitando do 
realismo de Datunier ou Courbet ao impressionismo e ao punctilismo, aceitando como 
protagonista do quadro a simples ptica, mais ou menos cientfica, da cor, assim 
tambm, na literatura, o rigor da notao passa a dirigir-se para aspectos cada vez 
mais fugazes e psquicos da realidade.  este um dos fios que ligam o Romantismo da 
fase naturalista s novas tendncias literrias que lhe pem termo. Edmundo e Jlio 
Goncourt, naturalistas dissidentes, tm

6. - POCA - O ROMANTISMO                                                            
    693

j ntimas afinidades com o decadentismo. E Huysmans, passando do estudo 
pretensamente objectivo da degenerescncia *hereditria+ para apologia franca do 
estado de decadncia individual e civilizacional ( Rebours, 1884), assinala com 
clareza o momento de viragem do naturalismo, exprimindo alis um dos seus mbeis mais 
secretos.  iambm por ento que se difunde a tese de que o gnio no passa de uma 
tara degenerescente.

O gosto naturalista descobre os seus ltimos cultores no romance russo de ToIsti e 
Dostoivsqui, cujas peculiaridades nacionais e sociais, muito diferentes das da 
Europa ocidental, vieram a servir, no Ocidente, a uma evoluo psicologista, 
religiosa, anti-racionalista; e no teatro de Ibsen, Strindberg, Shaw e Hauptmann, 
que, ao vencer as

dificuldades inerentes  transposio para o palco da esttica naturalista, valorizam 
ternas novos, incluindo os da emancipao feminina ou operria.

Em Inglaterra, os anos de 1875-80 marcam o advento de uma gerao caracterizada pela 
revolta contra a cincia e contra a razo discursiva, de certo modo um *novo, Roman- 
tismo+ reabilitador da imaginao e do instinto, por tendncias estetizantes e 
decadentistas (Swinburne, Francis Thompson, scar Wilde, G. Moore, Meredith, Sarimel 
Butler).

Os anos de 1870-80 so assinalados por algumas obras muito significativas de uma

crise mental que se projecta na literatura - Bergson: Ensaio sobre os dados imediatos 
da conscincia, 1888; Nietzsche: Origem da tragdia, 1871, Assim falava Zaratustra,
1883; Boutroux: Contingncia das leis da natureza, 1874. Estes doutrinrios e outros 
criticam, essencialmente, as deficincias do mecanicismo e do positivismo, opondo-
lhes, quer a intuio, quer novas formas de cepticismo, com a descrena no progresso 
cientfico, a apologia do lan vital, da vontade, do pensamento metafrico ou 
analgico, e de

*Valores+ independentes do conhecimento cientfico.

Em Frana   roda de 1886 que a poesia acaba de tornar-se esotrica, privilgio de 
iniciados: data desse ano o manifesto simbolista, embora as suas manifestaes 
paradigmticas sejam anteriores (Mallarm: Aprs-midi dun fatine, 1875; Verlaine: 
Pomcs Saturniens, 1866; Rimbaud: Saison cri Enfer, 1873).

O estilo simbolista na poesia, que lembra o estilo gongrico pela sua preciso em


notar pequenas impresses, pelo seu carcter alusivo, pelo seu metaforismo difcil, 
pela sua concentrao cerrada, fechada em si mesma, constituindo em cada poema um 
mundo com o seu sistema de valores, de correspondncias, a sua aura de mistrio; e, 
na prosa,
* estilo impressionista, corri a sua pesquisa da sensao virginal - indicam de facto 
que
* Romantismo acabou, isto , que acabou aquele circuito entre o escritor e o seu 
pblico que  o segredo do estilo romntico, o estilo amplo, falado, que vive do 
entusiasmo recproco do autor e do seu auditrio, animado de uma corrente de 
simpatia, mas que, examinado  lupa, pode parecer redundante, impreciso, fcil e cru. 
Os novos ensaios estilsticos do fim do sculo, inacessveis aos no-iniciados, 
aguardam a poca em que podero ser integrados numa literatura para o grande pblico. 
Chegava ento o tempo em que um fino letrado como Gide podia, com larga aquiescncia, 
exclamar a respeito do maior poeta romntico francs: *Hugo, hlas!+.

694                                                 HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

O Romantismo em Portugal

A fase moderna da vida econmica e social portuguesa inicia-se com a ndependncia 
econmica do Brasil, que pode dizer-se uni facto em 1807, depois da chegada ali da 
corte de D. Joo VI. A burguesia portuguesa, que vivia principalmente da exportao 
para o mercado brasileiro,  sombra da proteco alfandegria, e do negcio de 
produtos brasileiros, entra em crise aguda.

J no sculo XVII tinha sido proposta a mobilizao dos bens feudais da Igreja e

da nobreza. Uns e outros estavam praticamente fora de mercado, quer em virtude dos 
pesados direitos senhoriais, quer por serem, em direito cannico, inalienveis. Ora 
os

rendimentos do clero eram muito quantiosos. Certa classe endinheirada precisava de 
suprimir esta barreira para poder investir capital na terra, e esta necessidade 
torna-se mais urgente depois da perda do mercado brasileiro.

A partir de 1820 acentua-se a luta entre a burguesia e as camadas detentoras dos bens 
feudais. Em 1832-34, as leis de Mouzinho abolindo os direitos senhoriais e as de

Joaquim Antnio de Aguiar confiscando totalmente os bens da Igreja e extinguindo as

ordens religiosas decidem esta luta, instaurando novas relaes sociais no campo. A 
nova

burguesia de proprietrios rurais crige-se em grupo governante, apoia um novo 
capitalismo bancrio, drenando mesmo em seu proveito alguns direitos feudais 
remanescentes.

Entretanto no ficaram resolvidos os problemas da pequena burguesia e do artesanato. 
O poder de compra da grande massa de camponeses, que constituam nesta poca a 
esmagadora maioria da populao portuguesa,  muito exguo. A pequena burguesia e o 
artesanato, que mal beneficiam da venda dos bens expropriados  nobreza e  Igreja 
(*bens nacionais+), procuram soluo para as suas dificuldades, propondo pautas 
proteccionistas e outras medidas, como as que visam ao barateamento do crdito. Esta 
oposio d origem aos dois partidos que se organizam aps a implantao do novo 
regime; o partido cartista, o dos proprietrios rurais aliados aos financistas, que 
contam com a


influncia do pao, as prerrogativas rgias, a limitao censitria do voto; e o 
partido setembrista, o da pequena burguesia industrial, que conta com o apoio das 
maiorias eleitorais urbanas e cria, com a sua breve ditadura de 1836, as condies de 
um pequeno surto fabril, imediato. No existia ainda entre ns um significativo 
proletariado industrial.

A introduo da nova literatura  uma revoluo comparvel, pelas suas consequncias 
radicais e pela sua quebra de continuidade com o passado,  revoluo poltica de
1832-34.

Data-se habitualmente de 1825, ano da publicao em Paris do Cames de Garrett, o 
incio do nosso romantismo. Mas esta obra no teve sequncia imediata na nossa 
literatura. S depois do regresso dos emigrados se verifica o fluxo contnuo de uma 
corrente literria diferente.  prefervel marcar o incio do Romantismo em Portugal 
no ano de

1836, em que se publica A Voz do Profeta, de Herculano, segundo o modelo das Paroles 
d'un Croyant de Lamennais; em que os Cimes do Bardo e a Noite do Castelo de Cas-

6. O POCA - O ROMANTISMO                                                            
      695

tilho, que no passam de pastichos romnticos, denunciam o triunfo entre ns do novo 
gosto literrio.  no mesmo ano que Passos Manuel, chefe do governo setembrista 
triunfante, abre caminho  reforma do teatro portugus por Garrett, e ao aparecimento 
de um repertrio dramtico nacional, inspirado na teoria do drama romntico. Pela 
mesma poca, tambm, inicia-se a publicao da primeira revista romntica portuguesa, 
o Panorama (1837). Os gneros caractersticos da nova literatura portuguesa so o 
romance e

o drama histricos, cultivados por Herculano e Garrett, segundo a inspirao de W. 
Scott e Vitor Hugo. As tradues de W. Scott intensificam-se desde 1837-38.   roda 
de 1840 que se situa o apogeu do primeiro Romantismo portugus: pouco antes ou pouco 
depois publicam-se o Alfageme de Santarm; Um Auto de Gil Vicente, Eurco; a maior 
parte das Lendas e Narrativas; o Monge de Cister; o Frei Lus de Sousa, etc.

A expresso terica do Romantismo esboa-se em alguns dos artigos de Herculano 
publicados no Repositrio Literrio do Porto (1834-35), onde se divulgam algumas 
ideias do Romantismo alemo, sobretudo de Frederico Schlegel, e continuados corri 
artigos do mesmo Herculano sobre teatro medieval e folclore no Panorama de 1837 a 
1840. Do ponto de vista doutrinrio, Garrett nunca se declarou inequivocamente 
romntico.

O xito fulminante de Herculano e de Garrett, o esquecimento rpido e geral em

que caram os gneros clssicos, mostram como esta mudana literria correspondia a

uma mudana no pblico. Existia j na realidade um pblico letrado cujas 
caractersticas e predileces se podem avaliar pelo xito de revistas corno o 
Panorama (5000 exemplares vendidos por nmero em 1837). O jornalismo conhece nesta 
poca uma fase brilhante, dando aos grandes escritores (Garrett e Herculano 
includos) ocasio de comunicar com muitos leitores. Homens como Rodrigues Sampaio, 
redactor de A Revoluo de Setembro e de O Espectro (1846), viveram profissionalmente 
como jornalistas de opinio e

encontraram larga receptividade no pblico geral. Porventura o melhor representante 
em

Portugal do tipo de escritor sintonizado com a grande massa do pblico, dando 
expresso a aspiraes colectivas, sentindo-se condutor da opinio pblica e 
evidenciando essa posio no seu estilo, altissonante e proftico,  Herculano no 
conjunto da sua obra. As polmicas em que se envolveu ao longo de mais de trs 
decnios tm geralmente significado nacional (polmica da batalha de Ourique, 
polmica do casaniento civil, nomeadamente). Na oratria e no jornalismo, e em 
posio mais radical, os homens representativos seriam Jos Estvo e Rodrigues 
Sampaio.

Ideologicamente, o primeiro Roniantismo portugus exprime nas suas origens um 
compromisso. Herculano dz-se liberal, mas antidemocrtico. Isto significa que, em 
geral, se ope ao sufrgio universal e favorece o predomnio de uma aristocracia 
recrutada na nova burguesia rural.  maneira de Chateaubriand, faz-se defensor dos 
monumentos nacionais e do catolicismo pr-tridentino, embora ao mesmo tempo critique 
a base senhorial do antigo regime. Contra os iluministas franceses, perfilha, as 
teses historicistas de Savigny e at, em parte, o organicsmo de De Bonald. Tanto ele 
como Garrett idealizam urna

camada mdia proprietria que seria a base das instituies. Garrett serve um governo

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de esquerda (Setembristas), mas representa dentro dessa breve ascenso poltica da 
pequena burguesia a tendncia, que por fim prevalece, de recuo at s posies 
liberais conservadoras, e exprime a sua posio exaltando, no Alfageme de Santarm, 
um representante da *moderao+, entre os partidrios da nobreza e os da arraia-
mida.

A reaco que se desencadeia sob Costa Cabral - defesa dos interesses da banca, 
centralizao administrativa, limitaes  liberdade de imprensa, medidas repressivas 
diversas, apoio no clero - altera um pouco o xadrez ideolgico em que jogavam 
Herculano e Garrett. Sob este regime surge um primeiro esboo de literatura 
protestativa, lado a

lado alis com uma literatura sentimental caracterizada por um lirismo contemplativo 
e

convencionalmente idealizado. Os dois corifeus do primeiro Romantismo continuam nesta 
poca a ser os representantes de uma literatura actualizada e de responsabilidade 
nacional.

O movimento popular da Maria da Fonte, a crise econmica de 46, que  uma 
consequncia directa das primeiras especulaes monopolsticas em desenvolvimento sob 
o regime cabralista, o levantamento das Juntas, abafado com o apoio da esquadra 
inglesa e do exrcito espanhol, coincidem com o complexo donde sair o movimento 
europeu de 1848, que apanhou o nosso Pas em plena luta poltica entre a oligarquia 
financeira que apoiava o cabralismo e uma coligao de camponeses, clrigos 
miguelistas, artesos e pequenos burgueses, secundados por uma lite intelectual que 
namorava as ideias do socialismo utpico francs. Entre 48 e 50 assinalam-se jornais 
e panfletos socializantes e republicanos, entre os quais o Eco dos Operrios, onde se 
distingue Antnio Lopes de Mendona, leitor de Fourier, Saint~Simon e Proudhon. 
Escritores progressistas como

George Sand e Eugne Sue encontram popularidade no nosso Pas.


A fermentao ideolgica correspondente a esta fase de instabilidade vem a estagnar 
com o movimento da Regenerao inaugurado pelo golpe de Estado de 1851, no qual 
participam alguns cartistas moderados, setembristas e at socialistas *utpicos+. 
Garrett, Rodrigues Sampaio e Antnio Pedro Lopes de Mendona contam-se entre os seus 
aderentes da primeira ou da segunda hora. Uma nova camada dirigente, que tem o seu 
representante no engenheiro Fontes Pereira de Melo, pretende encaminhar o Pas para o 
progresso material. A sua obra consistiu fundamentalmente na criao de infra-
estruturas de comunicao, especialmente pela construo de caminhos-de-ferro, que 
facilita a circulao da produo agrcola. Da resultou a consolidao e ampliao 
da burguesia rural e do comrcio com ela relacionado; mas tambm a abertura de novos 
campos de especulao ao capital financeiro, estreitamente associado ao Estado. Um 
princpio de governo parlamentar, embora muito falseado pela subordinao das massas 
rurais aos grandes proprietrios agrcolas, entrou a funcionar, com a correspondente 
liberdade de imprensa e

de associao poltica. Parece haver um real progresso do fomento agrcola, no 
acompanhado de um proporcionado desenvolvimento industrial. No entanto, no faltam 
manifestaes de descontentamento por parte das camadas sociais que no beneficiam do 
sistema, sobretudo o artesanato e os pequenos industriais, condenados a prazo pela 
concorrncia estrangeira e pela evoluo tecnolgica que se processava fora de 
Portugal:

6. a POCA - O ROMANTISMO                                                            
  697

tumultos de Lisboa em 1856, que impem o tabelamento do po; revoluo da Janeirinha 
em 1868 contra o imposto do consumo. Em 1876 assinala-se uma nova crise financeira, 
que leva  falncia numerosos bancos.  nesta camada de oposio ao regime que o 
partido republicano vai recrutar a sua massa eleitoral, sobretudo a partir de 1880.

No panorama literrio do incio da Regenerao sobressai, como veremos, um certo 
contraste entre os trs centros citadinos e culturais mais importantes: enquanto os 
escritores do centro comercial portuense e os novos escritores do meio universitrio 
coimbro testemunham uma insatisfao, embora pouco profunda, contra a plutocracia 
crescente do *fontismo+ (governo de Fontes Pereira de Melo) e uma certa persistncia 
do idealismo *vintista+ e *patuleia+ (Arnaldo Gama, Camilo, Xavier de Novais, Jlio 
Dinis, Soares de Passos, Toms Ribeiro, etc.), em Lisboa verifica-se um contraste 
mais ntido entre a tendncia formalista de que Castilho se torna um smbolo e  qual 
mais ou menos

aderem os intelectuais burocratizados, e uma bruxuleante tendncia realista que vinga 
atravs da novela ou do drama *da actualidade+ e da poesia protestativa, tendncia 
ainda incerta, de que Mendes Leal foi, em dada fase, o mais conhecido representante. 
At que, em coincidncia com a ligao ferroviria das trs cidades entre si e com 
Paris, e depois com os primeiros sintomas de uma nova crise poltica e social, surge 
entre 1864 e 1871 uma nova gerao que, por um lado, corporiza mais a fundo algumas 
das tendncias do Romantismo europeu, e, por outro, procura reajustar quanto possvel 
a cultura portuguesa s novidades de que a Frana era o centro de irradiao desde 
meados do sculo.

Esta gerao traz  cultura portuguesa, como trouxera a primeira gerao romntica, 
um novo caudal de influncias e de motivos. Assimila parte dela o positivismo de 
Conite, e, em segunda mo, alguma coisa de hegelianismo. Inicia-se no evolucionismo 
darwiniano, na crtica bblica de Renan. Literariamente, enriquece-se com o 
conhecimento de autores romnticos que o primeiro romantismo no assimilou: Heine, G. 
de Nerval, Michelet, Musset, e o Vtor Hugo humanitarista. Os seus principais 
mentores so porventura Proudhon e Michelet. Recrutado em parte entre os estudantes 
de Coimbra (Antero de Quental, Tefilo Braga, Ea de Queirs), em parte fora de 
Coimbra (Oliveira Martins, Batalha Reis, Adolfo Coelho), este grupo vibra com os 
grandes acontecimentos europeus da poca: as insurreies na Polnia, a crise da 
Irlanda, a oposi o ao

Segundo Imprio em Frana; e choca-se com os horizontes estreitamente provincianos da 
literatura vigente. O embate deu-se em 1865 entre Antero de Quental, que aparece como 
mentor da nova gerao que ento se formara em Coimbra, e Antnio Feliciano de 
Castilho, padrinho de uma capela de literatos lisboetas.


 certo que a conjuno entre a luta anticabralista e a revoluo francesa de 1848 
permitira a certos espritos combativos, como Antnio Pedro Lopes de Mendona, Jos 
Flix Henriques Nogueira, Francisco Maria de Sousa Brando e Custdio Jos Vieira, 
estreitamente ligados aos incios da imprensa e do associativismo operrios em 
Portugal, apropriarem-se de algumas concepes de Hegel e dos socialistas pr-
marxistas, nomeadamente Proudhon; e que h importantes linhas de continuidade at  
gerao de 70, quer

698                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

desde estes primeiros socialistas, quer mesmo desde o pensamento liberal mais rasgado 
(Francisco Solano Constncio, Mouzinho da Silveira, Herculano, Oliveira Marreca) - 
mas

nem por isso pode negar-se a Antero de Quental, Oliveira Martins e Ea de Queirs a 
primeira grande expresso literria e a repercusso pblica de uma viso nova das 
realidades humanas e portuguesas, que alis s nas condies do seu tempo se tornou 
entre

ns possvel.

A revoluo de 1868, que expulsa de Espanha Isabel II, a unificao da Itlia por 
Garibaldi e Cavour, as lutas *cartistas+ em Inglaterra, a guerra franco-prussiana e, 
finalmente, a Comuna de Paris so os grandes acontecimentos que congregam este grupo 
numa

posio definida dentro da vida portuguesa. A *Janeirinha+ revela a existncia de 
foras populares fora do jogo da poltica bipartidria; e em 1872 deflagra a primeira 
greve moderna portuguesa, que ficou conhecida pelo nome de *Pavorosa+.

A actividade do grupo desenrolou-se em vrios campos. Com Ramalho Ortigo, um

recm-convertido jornalista do Porto, Ea de Queirs inicia uma crtica persistente 
da vida portuguesa nas Farpas. Antero organiza as Confer ncias Democrticas em 1871, 
no intuito de divulgar algumas correntes mais actuais do pensamento europeu; a 
suspenso, pela autoridade, dessas conferncias provocou protestos a que se associou 
Herculano. Por outro lado, Antero, com Jos Fontana, tenta a fundao de um partido 
socialista portugus, do qual foi candidato a deputado, enquanto Tefilo colabora na 
constituio do partido republicano, cuja primeira grande manifestao pblica  o 
Centenrio de

Cames, em 1880. Oliveira Martins acompanha de perto Antero de Quental nesta clivagem 
poltica.

Sob o ponto de vista da teoria literria, como vamos ver, o positivismo e o 
proudhonismo dominam a primeira fase da obra de Ea de Queirs, que pretende ser uma 
crtica geral da sociedade portuguesa contempornea. As influncias hegelianas so 
mais patentes em Antero de Quental e em Oliveira Martins. Aquele inaugura uma poesia 
de ideias e de crtica social; este divulga as aquisies mais recentes de histria e 
da sociologia numa *Biblioteca das Cincias Sociais+. Tefilo, por seu lado, faz da 
doutrina positivista de Littr, discpulo de Corate, um instrumento activo de luta 
poltica.


No sendo, intelectualmente, dos mais brilhantes do grupo, foi Tefilo Braga quem se 
conservou mais em diapaso com o meio pequeno-burgu s e quem at ao fim se manteve 
impermevel s decepes e s oscilaes de conjuntura. O radicalismo pequeno-burgus 
encontra uma adeso popular que faltava ao socialismo utpico. A partir de 1874, 
Antero confina-se em solilquios que inspiraram parte dos Sonetos, que alis j 
iniciara antes; dois anos depois, Oliveira Martins adere aos partidos constitucionais 
e ingressa mais tarde no parlamento, pensando trocar a aco doutrinria junto das 
classes operrias por uma interveno reformadora a partir do poder constitudo. A 
revolta de 31 de Janeiro, subsequente ao Ultimato,  uma afirmao da vitalidade das 
foras polticas exteriores aos grupos governantes, momentaneamente galvanizadas pela 
humilhao nacional imposta pela concorrncia colonial inglesa. Oliveira Martins e 
Antero ficaram alheios

6. a POCA - O ROMANTISMO                                                            
   699

quele movimento militar; e em 1894, j morto o seu grande amigo, Oliveira Martins  
varrido da poltica.

Guerra Junqueiro e Gomes Leal tomaram  sua conta o programa da poesia de combate e 
doutrinao que Antero iniciara, mas num sentido jacobino mais prximo do ensinamento 
de Tefilo. O modelo de ambos era Vitor Hugo. Junqueiro, sobretudo, conseguiu uma 
audincia e um prestgio junto de grandes massas de pblico que fazem dele, 
sociologicamente, o mais tpico representante entre ns da poesia romntica de 
combate ao trono, ao altar e, vagamente,  misria.

 roda de 1890 h uma ntida alterao na paisagem da literatura portuguesa. 
Schopenhauer, Carlyle, os Simbolistas sobrepem-se a Hugo, Cointe, Michelet ou 
Proudhon

como influncias dominantes. Os membros sobreviventes do antigo grupo do Cenculo, 
agora chamados *os Vencidos da Vida+, afastam-se da antiga problemtica de crtica e

combate. Oliveira Martins faz-se apologista do heri carlyliano nas suas biografias. 
Ea de Queirs sugere uma regenerao da antiga aristocracia de sangue, preocupa-se 
com

novos ideais de santidade e ope  poluio mecnica das grandes metrpoles uma 
verso mais ou menos idlica da ruralidade portuguesa. Rarnalho Ortigo apologiza as 
belezas tursticas e o folclore, acabando por dobrar-se ante o trono e o altar. 
Junqueiro entra numa nova fase, em que tambm valoriza as raizes rurais, restituindo 
 religio os smbolos que se empenhara em laicizar sob um pantesmo progressista. 
Entretanto irrompe outra gerao, que abaixa ainda mais a curva descendente do 
empenhamento reformista de 1870. Antnio Nobre, de incio tocado por Junqueiro, , 
logo a seguir a Cesrio Verde, um dos renovadores da linguagem potica, mas com base 
na saudade de uma infncia provinciana perdida, que redescobre no Bairro Latino de 
Paris; mais inovadora ainda  a escrita em verso de Gomes Leal, mulo de Junqueiro na 
poesia panfletria e

personalidade-encruzilhada deste fim-de-sculo. A lio do decadentismo-simbolismo 
francs, acarretando ousadias estilsticas e versificatrias mais antigas mas ainda 
no aclimatadas,  ostensivamente dada por Eugnio de Castro, e instaura um novo 
reinado do potico hermtico, *para os raros apenas+. Vindo do naturalismo,  todavia 
Fialho de Almeida quem, pela rebusca de efeitos estilsticos e do inslito como tema 
de fico ou ensaio, assinala na prosa esta viragem para a arte pela arte, embora 
parta, precisa e paradoxalmente, do ponto em que o naturalismo se debrua sobre a 
misria social mais extrema

das cidades.

700                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

11111MIMf 106,A1P1A

Alm das diversas histrias gerais que so indicadas no fim do volume:

Moraz, Charies: Os Burgueses  Conquista do Mundo, trad. port. na col. *Rumos do 
Mundo+, 1965 (com cronologia e bibliografia desenvolvidas e actualizadas).

Fiamant, M.: Histoire conomique et Sociale Contemporaine, Montechrestien, Paris,
1976.

Palmada, Guy: La poca de Ia burguesia, Sigio XX1, Madrid, 1980. Druyfus, F.: O Tempo 
das Revolues, 1787-1870, trad. portuguesa Dom Quixote, Lisboa, 1981,

Hauser, Amold: Histria Social da Arte e da Cultura, trad. portuguesa, vol. li, 
Lisboa, 1955.

Thieghem, Paul van: Le Romantisme dons Ia littrature europenne, col. *Bibliothque 
de Synthse historique+. Viso de conjunto descritiva dos diversos movimentos 
romnticos europeus, segundo um ponto de vista unilateralmente literrio.

Peyre, Henri: Quest-ce que le Romantisme?@ col. SUP, ed. PLIF, 1971. Salienta o

desenvolvimento cclico das principais tendncias romnticas, sobretudo em Frana, 
desde
1760-80 at certas emergncias neo-romnticas do sc. XX; tem ampla bibliografia 
arrumada por temas; trad. portuguesa, Lisboa, 1975. A hist ria interlingustica do 
termo *romntco+ foi actualizada por Jost, Franois: Essais de littrature compare, 
ed, da Univ. de Friburgo, 1968.

Entre os numerosos estudos que reexaminam o conceito de romantismo, salientemos: 
Fabre, Jean: Lumires et romantisme. Energie et nostalgie de Rousseau  Mickiewicz, 
ed. Klincksieck, 1963, com excepcional largueza de informao internacional; 
Romantism reconsidered, breves e autorizadas snteses, org. por um especialista 
Northrop Frye, Columbia Univ. Press, 1963, reed. 1968; Kermode, F.: Romantic image, 
Nova lorque, 1964. Sobre a concepo de romantismo pelos prprios romnticos: 
Wellel<, R.: Historia de Ia crtica moderna (1750-1950). El romanticismo, trad. esp., 
Gredos, 1962. Publicam-se, em francs e ingls, vrias revistas de literatura 
comparativa, e especialmente romntica, que contm contribuies importantes.

Viso literria de conjunto: Histoire des Littratures, dirigida por Raymond Queneau, 
na *Encyclopdie de Ia P1      +, 1956 (contm larga bibliografia).

Problemas e dados quanto  perodizaco e caracterizaco geral do Romantismo em 
Silva, Vtor M. de Aguiar e: Teoria da Literatura, 8. a ed., Almedina, Coimbra, pp.
533-560 (larga informao bibliogrfica e outra).

Breves snteses de iniciao para a literatura francesa: Sauinier, Veriun-L.: La 
Littrature franaise du sicle romantique. Laiou: Le XIX sicle, Les Oeuvres 
Reprsentatives, Paris. Boa exposio e exemplificaco didctica em Michaud 
G./Thieghem, P. van, col, Documents *France+, * Classiques Hachette+.

Le Romantisme Allemand, antologia de estudos dirigida por Albert Bguin, 
*Bibliothque 10/18+, 1966; Bguin  alis autor de um estudo fundamental, LAme 
Romantique et le Rve, 1939, reed. 1967, Paris.

6. - POCA - O ROMANTISMO                                                            
  701

Mrio Dionsio, em A Paleta e o Mundo, relaciona amplamente a evoluo da pintura com 
as condies gerais, desde o sc. XVIII ao Impressionismo (1. O vol., 1956) e desde 
este ltimo  actualidade (2. > vol ., 1962).

Para o estudo das condices gerais portuguesas:

Martins, Oliveira: Portugal Contemporneo. (sntese muito crtica e impressionista do 
Constitue ional ismo) .

Vol. Vil da Histria de Portugal, de Barcelos.

Godinho, Vitorino Magalhes: Prix et monnaies au Portugal (1750-1850), Paris, 1955. 
Castro, Armando: Introduo ao Estudo da Economia Portuguesa (Fim do sc. XVIII a 
princpios do sc. XX), *Biblioteca Cosmos+, 130-13 1, que contm ampla bibliografia, 
reed. rev., Dom Quixote, Lisboa, 1971, sob o ttulo A Revoluo Industrial em 
Portugal no sc. XIX,- e Traos Gerais da Evoluo Econmico-Social Portuguesa no 
Sculo XIX, in *Seara Nova+, n.os 1433-34, Maro e Abril de 1965.

Serro, Joel: Temas Oitocentistas, 2 vols., Lisboa, 1959 e 1962; e Portugueses Somos, 
Lisboa, 1976.

Silbert, Albert: Do Portugal do Antigo Regime ao Portugal Oitocentista, Lisboa, 1972,
2. 1 ed. 1977, recolha de estudos, em que salientaremos O feudalismo portugus e a 
sua abolio, Cartismo e Setembrismo e Colectivismo agrrio em Portugal, interessando 
neste ltimo uma sntese da historiografia, etnologia e geografia humana dos scs. 
XIX e XX em Portugal.

S, Vtor de: Perspectivas do Sculo XIX, Lisboa, 1964, reed. rev., Porto, 1976; e, 
principalmente, A Crise do Liberalismo e as primeiras manifestaces das ideias 
socialistas em Portugal (1820-1852), Lisboa, 1969.

*0 Tempo e o Mocio+, n.o 36, Maro de 1966, com srie de estudos sobre o sc. XIX 
portugus.

Cabral, M. Viliaverde: O Desenvolvimento do Capitalismo em Portugal no Sculo XIX, 
Porto, 1976.

Sideri, Sandro: Comrcio e Poder - Colonialismo informal nas relaes anglo-
portuguesas, Cosmos, Lisboa, 1978, trad. do original ingls de 1970, Roterdo, cap. 
Vi e seguintes.


Pereira, Miriam HaIpern/Ferreira, M. F. Meio/Sena, Joo B.: coordenadores de O 
Liberalismo na Pennsula Ibrica na 1. > metade do sc. XIX (comunicaes ao colquio 
dedicado a este tema), ed. S da Costa, 2 vols., 198 1. Miriam Halpern Pereira  
autora de importantes estudos sobre a histria econmica do liberalismo portugus.

Vasco Pulido Valente tem estudos com interesse sobre a dinmica social sob as 
Invases Francesas em Tentar Perceber, IN-CM, 1983.

Para a cultura portuguesa o principal estudo de conjunto  O Romantismo em Portugal, 
6 vols., Lisboa, s/d (1974-76), de Jos Augusto Frana, tambm autor de um muito 
informado estudo sobre A Arte em Portugal no sc. XIX, 2 vols., 1967.

702                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Para a literatura portuguesa o nico estudo de conjunto, segundo o ngulo de viso do 
prprio Romantismo,  o de Braga, Tefilo: Histria do Romantismo em Portugal, 
Lisboa, 1880, reed. Ulmeiro, 1984, continuada por As Modernas Ideias na Literatura 
Portuguesa, 2 vols., Porto, 1892.

Cidade, Hernni: em Sculo XIX, A revoluo cultural em Portugal e alguns dos seus 
mestres, col. *Ensaio+, Lisboa, 1961, foca seis dos principais mentores oitocentistas 
portugueses.

Ferreira, Alberto: Perspectiva do Romantismo Portugus (1834-65), Lisboa, 3. > ed., 
Litexa, Lisboa-Porto, 1984. (Ensaio de perspectivao das continuidades e 
descontinuidades entre a gerao romntica liberal e a Questo Coimbr.)

O papel da emigrao e de outras influncias gerais  estudado por Nemsio, Vitorino: 
A Mocidade de Herculano, 2 vols., 1,034, Relaes Francesas do Romantismo 
Portugus,'Coimbra, 1936, e Exilados (1828-32), Lisboa, 1945.

Moser, G., Les romantiques portugais et l'Allemagne, Paris, 1939. A importncia das 
tradues e a lenta infiltrao da temtica pr-romntica t m sido objecto de vrias 
monografias, entre as quais: Calixto, Maria Leonor: A literatura *negra+ ou *de 
terror+ em Portugal nos sculos XVIII e XIX, ed. da Faculdade de Letras de Lisboa, 
1956; Sousa, Maria Leonor Machado de: A literatura *negra+ ou de Terror em Portugal 
(sculos XVIII e XIX), ed. Novaera, Lisboa, 1978; Esteves, Maria Helena Seirs da 
Cunha de A.: Poesia da noite no lirismo portugus: A noite na poesia pr-romntica, 
in *Boletim de Filologia+, 15, 1954-55; Rodrigues, Antnio Gonalves: A novelstca 
estrangeira em verso portuguesa no perodo pr-romntico, Coimbra, 1951 
(essencialmente, um inventrio bibliogrfico).

Pires, M. Laura Bettencourt: Walter Scott e o Romantismo Portugus, Univ. Nova de 
Lisboa, 1979. (Extensa referncia a textos.)

Moser, F. de Mello/Pao d'Arcos, J./Flor, J. Almeida/Matos, Santos/Estorninho, C.: 
Byron-Portugal, The Byron Society, Lisboa, 1977.

Antologias de textos doutrinrios: Antologia do Pensamento Poltico Portugus: 
Liberalismo, Socialismo, Republcanismo, por Joel Serro, Porto, 1970; Pereira, 
Antnio J. da Silva: O *Tradicionalismo+ vntista e o Astro da Lusitnia, sep. da 
*Revista de Histria das Ideias+, 1 (1976), Coimbra; Materiais para a Histria da 
Questo Agrria em Portugal, Scs. XIX e XX, selec. anotada e pref . por Manuel 
Villaverde Cabral, Porto, 1974.


Esto em curso de publicao pelas Edies Afrontamento, Porto, as Obras Comple- tas 
de Jos Acrsio das Neves, 1766-1834, tendo j sado em 1988 6 vols.; os dois 
primeiros vols., que compreendem os tomos 1-11 e 111-IV-V, respectivamente, da 
Histria das Invases Francesas.--- com pref. de A. Almodvar e Armando Castro, sobre 
este iluminista algo liberalizante em economia mas que morreu miguelista ferrenho.

A. J. da Silva Pereira e Zlia M. Osrio de Castro publicaram na *Revista de Histria 
das Ideias+ estudos sobre a ideologia vintista, de que se extractaram separatas, pelo 
Instituto de Histria e Teoria das Ideias, Faculdade de Letras de Coimbra.

Esttica do Romantismo em Portugal, textos de vrios autores, ed. Centro de Estudos 
do Sculo XIX do Grmio Literrio, Lisboa, 1974.

6. a POCA - O ROMANTISMO                                                            
    703

O Sculo XIX em Portugal, comunicaes ao colquio org. pelo Gabinete de 
Investigaes Sociais, 1979, ed. Presena, Lisboa.

Bernardino, Teresa: Sociedade e Atitudes Mentais em Portugal (1777-1810), IN-CM,
1985.

Santos, Maria de Lourdes C. L. dos: Intelectuais Portugueses da Primeira Metade de 
Oitocentos, Presena, 1988.

Entre os livros de memrias referentes ao perodo pr-liberal e liberal, vejam-se 
informaes sucintas em Chaves, Castelo Branco: Memoralistas Portugueses, 
*Biblioteca Breve+, ICP, 1978. Salientemos as Memrias do Marqus de Fronteira e 
dAloma, D. Jos Trazimundo Mascarenhas Barreto, 5 vols., incluindo o Apndice, 
Imprensa da Universidade, Coimbra, 1928-32, reprod. fac-similada pela IN-CM, 1986.

Captulo 11

ALMEIDA GARRETT

Garrett era j escritor conhecido quando, ao emigrar com 23 anos, veio a adquirir no 
estrangeiro o essencial das suas feies romnticas. Durante os anos de 40 do sculo, 
e da sua vida, consagra o drama histrico de assunto nacional e publica obras que 
vivificam a prosa literria portuguesa. E por volta dos cinquenta anos, na fase final 
de uma vida intensa, revelou aos compatriotas uma nova fase lrica de vivncia 
passional, que est, mesmo cronologicamente, no limiar da novela camiliana. Pela sua 
origem,  filho da burguesia que o imprio brasileiro fizera prosperar e que aderira 
s reformas pombalinas; e pela sua obra, onde a formao arcdica nunca deixou de se 
fazer sentir,  um homem situado entre dois mundos.

ALMEIDA GARRETT: Vida e obras

Joo Baptista da Silva Leito era seu nome de baptismo (n. Porto, 1799-02-04 - t
1854-12-09). O pai, proprietrio na ilha Terceira, irmo de trs eclesisticos, 
tornou-se funcionrio superior da Alfndega. A me pertencia a uma famlia de 
comerciantes minhotos que, a partir de comeos humildes, tinham feito fortuna no 
Brasil. A burguesia letrada

e a burguesia *brasileira+, dois tipos sociais muito caractersticos do Portugal 
setecentista, esto na cepa do nosso escritor. O apelido Garrett foi por ele 
respigado do nome

de uma aristocrtica ascendente paterna, de origem irlandesa, que viera para Portugal 
no squito de uma princesa.

As Invases Francesas obrigaram a famlia a retirar-se para as suas terras da 
Terceira, em 1811. Aqui, um tio, Frei Alexandre da Sagrada Famlia, bispo de Angra, 
erudito de formao flexivelmente conservadora, iniciou Joo Baptista na literatura, 
e destinava-o  carreira eclesistica, mas em 1816 ele preferiu o curso de Direito e

HIP - 45

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matriculou-se na Universidade de Coimbra. Desde cedo manifestou grandes ambies 
literrias, iniciando-se na oratria, no teatro e na poesia. Disso do testemunho 
vrias tentativas do gnero clssico mais nobre, como a tragdia Xerxcs, alm de 
odes, sonetos, fbulas e composies lricas diversas. O seu principal modelo 
literrio  Filinto Elsio: celebrou-lhe em verso um aniversrio e a morte em 1819.

A academia conimbricense, em que predominam os filhos da burguesia, como o prprio 
Garrett - j ento adoptara o sobrenome -,  atingida pela onda do liberalismo 
europeu. O enforcamento de Gomes Freire de Andrade e companheiros em 1817 por ordem 
das autoridades inglesas inspirou a Garrett o soneto O Campo de Santana. Em
1820 a academia aplaude a Revoluo; Garrett participa provavelmente na organizao 
secreta dos acontecimentos, e alm da ode cvica e do hino musicado destinados a 
sesses pblicas, serve-se de outro meio de doutrinao muito em voga, a tragdia 
filosfica, que expe os malefcios e impudncias dos tiranos (Lucrcia, Mrope). 
Data tambm desta poca a sua primeira obra de certo flego, uma histria em verso da 
pintura, intitulada O Retrato de Vnus (182 1), denunciada por Jos Agostinho de 
Macedo como mpia e escandalosa e julgada em tribunal. O autor foi absolvido depois 
de uma autodefesa espectacular.

Findo o curso em 1820, ingressa na burocracia:  nomeado oficial da Secretaria dos 
Negcios do Reino, e seguidamente chefe da repartio de Instruo Pblica.

Em Lisboa, ainda na corrente do entusiasmo da revoluo vintista, compe para um

grupo de amadores a tragdia Cato, onde glosa o tema *Liberdade ou morte+. A sua 
representao foi um xito, que se repetiu noutras cidades e ainda em 1828 entre os 
emigrados em Plymouth. Dentro do mesmo esprito, pronuncia a orao fnebre do 
principal heri da revoluo, Manuel Fernandes Toms.

Em 9 de Junho de 1823, um golpe de estado conhecido pelo nome de *Vila-Francada+ 
aboliu a constituio de 1822. Garrett empenhara-se ento numa campanha jornalstica 
de compromisso e moderao, j muito afastada do seu anterior *vintismo+, mas a 
perseguio foi-se agravando em fase de refluxo absolutista, e teve de fugir para 
Inglaterra, pouco depois de casar com Lusa Midosi, de 15 anos, irm de um seu 
colaborador numa farsa anti-reaccionria, O Corcunda por Amor. Recebido na intimidade 
de uma famlia inglesa, encontra ento a primeira oportunidade de se iniciar na 
civilizao deste pas e na literatura romntica.


 do desencanto dos seus ideais de Coimbra, perante a reaco nacional e o 
espectculo do capitalismo fabril britnico, que nasce a concepo de um longo poema 
O Magrio, que Garrett deu como perdido no Douro, mas de que restam fragmentos. O 
aperto da necessidade, a ameaa positiva da fome foraram-no a empregar-se como 
correspondente comercial numa filial da Casa Lafitte, no Havre. Mas parece ter-se 
sentido muito menos atrado pela Frana do que pela Inglaterra, onde ficara um pouco 
da sua vida sentimental. No Havre encontra tempo para escrever o Cames (1. a edio 
1825) e a D. Branca (1. a edio 1826), que apresenta corno obra pstuma de F. E. 
(Filinto Elsio) e onde pela

6. a POCA - O ROMANTISMO                                                            
  707

primeira vez declara no olhar a regras nem a princpios, no ser clssico nem 
romntico.

De regresso a Portugal, merc da morte de D. Joo VI e da outorga da Carta 
Constitucional por D. Pedro IV, em 1826, participa na efervescente vida poltica do 
momento, compondo para as eleies deste ano uma Carta de guia para eleitores, em que 
se trata da opinio publica, das qualidades para deputado e do modo de as conhecer, e 
redigindo, de colaborao, o jornal O Portugus, e, sozinho, O Cronista (1826). 
Estava em marcha

a contra-revoluo absolutista; atacado pelo padre Jos Agostinho de Macedo e outros,
O Portugus foi suspenso, e os seus redactores, acusados de incitamento  rebelio e 
de crime de lesa-majestade, punvel com a forca, estiveram encarcerados durante trs 
meses. Pouco depois entrava D. Miguel em Portugal e restaurava-se o antigo regime 
(Maio de
1828). Em Junho, Garrett saa de novo para a Inglaterra.

Os emigrados portugueses encontravam-se divididos: um grupo, chefiado pelo futuro 
duque de Palmela, inclinava-se para um compromisso com o miguelismo, e por isso mesmo 
sabotara a revolta armada iniciada no Porto em 1828 (*Belfastada+); outro grupo, em

que se destacavam Manuel e Jos Passos, preconizava a intransigncia e a restaurao 
da Constituio de 22, mais democrtica que a Carta de 26, Garrett participou nesta 
polmica, que deu origem a toda uma literatura de jornais e folhetos. Em 1827 redigiu 
com Jos Ferreira Borges o jornal O Chaveco Liberal, da ala esquerda. Mas a Revoluo 
francesa de 1830, que abriu perspectivas aos emigrados, e a necessidade inelutvel de 
derrubar o miguelismo pela fora aproximaram os elementos moderados dos grupos 
antagonistas. Sobre os acontecimentos em Frana escreveu Garrett Portugal na balana 
da Europa (1830); e no ano seguinte vemo-lo redigir, sob a orientao de Palmela, o 
jornal O Precursor. A chegada  Inglaterra da jovem rainha D. Maria leva-o a escrever 
em sua inteno um tratado pedaggico: Da educao (1. 1 volume, 1829). Ao mesmo 
tempo interessava-se pelo ronianceiro popular e publicava a Adozinda (1828), nele 
inspirado.

Incorporou-se na expedio de D. Pedro, intervalando o servio militar com o de 
gabinete, e isso deu-lhe ocasio para trabalhar sob as ordens de Mouzinho da Silveira 
na redaco dos decretos revolucionrios, que este ltimo subscreveu e cujo 
radicalismo procurou atenuar, pois desde 1822, e sobretudo depois do 2. O exlio, 
convencera-se de que os males da futura hegemonia de *Sancho Pana+, isto , da 
burguesia, s poderiam ser contrabalanados por uma aristocracia de novo tipo. No 
cerco do Porto iniciou O Arco de SantAna. Quando o exrcito liberal, vencedor, entrou 
em Lisboa, encontrava-se em Paris, em misso diplomtica.


No regresso a Lisboa foi nomeado secretrio de uma comisso encarregada de propor um 
plano geral de educao e ensino pblico, e elaborou um projecto que no chegou a ser 
promulgado. Pouco depois voltava  diplomacia como Encarregado de Negcios e Cnsul-
Geral em Bruxelas. Esta quarta sada da Ptria deu-lhe oportunidade para se

iniciar na lngua e principalmente na literatura alem.

Regressou acabrunhado pela pobreza da legao, pelas dvidas contradas e por um 
irremedivel desaire conjugal, incompatibilizado com o governo cartista, contra o 
qual

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fundou O Portugus Constitucional (Junho de 36). A sua campanha jornalstica ajudou a 
preparar a atmosfera donde saiu a Revoluo de Setembro.

Passos Manuel, o chefe deste movimento contra a oligarquia poltica instalada desde
1838, delineou largas reformas culturais e chamou Garrett  colaborao. Incunibiu-
lhe a nisso de *propor um plano para fundao e organizao de um teatro nacional+, 
segundo reza o decreto respectivo. Garrett redigiu o seu plano como projecto de 
decreto-lei, que foi promulgado; e, nomeado *inspector-geral dos teatros+, 
encarregou-se de o levar  prtica em todos os pormenores. Deu ento provas de grande 
capacidade de iniciativa na consecuo dos trs pontos que lhe pareceram essenciais; 
um edifcio para o teatro

nacional (o actual teatro de D. Maria 11, em Lisboa); uma escola para formar artistas 
(o Conservatrio, que ainda existe, alis muito minguado relativamente  larga 
concepo de Garrett); e a criao de um repertrio dramtico portugus. Este ltimo 
objectivo leva-o a reatar, mas em moldes romnticos, a produo teatral, interrompida 
desde o

Cato: escreve Um Auto de Gil Vicente em 1838, D. Filipa de Vilhena em 40, O Alfageme 
de Santarm em 42, quando j a reaco cabralista triunfava.

Deputado  Assembleia Constituinte de 1838, foi membro de Comisso de reforma do 
Cdigo Administrativo; apresentou em 39 um projecto de lei de propriedade literria. 
A sua posio poltica  flutuante, pois no parlamento de 39, de maioria 
conservadora, entrou em polmica com Jos Estvo, um dos principais chefes 
setembristas (questo do *Porto Pireu+).

O triunfo da contra-revoluo lanou-o de novo na oposio em 1841; mas numa oposio 
moderada, no contra a restaurao da Carta, que aprovou, e sim contra a ditadura de 
Costa Cabral, que o demitiu do cargo de inspector-geral dos teatros.

 esta a poca mais fecunda e original da sua carreira literria, e tambm a de mais 
intensa vida passional. O seu casamento fora um malogro, Em 1837 entrou na sua vida

Adelaide Pastor, que morreu com 20 anos, deixando-lhe uma filha. Em 1844 travou 
coahecimento com a inspiradora das Folhas Cadas, a ento viscondessa da Luz. 
Sucedem-se rapidamente o Frei Lus de Sousa (1844), as Viagens na Minha Terra (1846), 
as Flores


sem Fruto (1845), e as Folhas Cadas, publicadas em 53, embora produzidas antes. Dir-
se-ia que surge um novo Garrett, com uma liquidez de sensibilidade at ento 
irrevelada. Mas a sua obra no deixa de ter implicaes polticas, mesmo nesta fase: 
a censura de Costa Cabral impediu durante alguns anos a representao do Frei Lus de 
Sousa, onde as autoridades viram indcios de inimizade contra a Espanha e de 
desrespeito pelo Nncio; a Sobrinha do Marqus tem um sabor anticlerical (1848), e 
mais ainda O Arco de SantAna (1. volume 1845, 2.1 1850). Em 1843 sai o 1. volume do 
Romanceiro.

O movimento da Regenerao (1851), resultante de uma coligao de setembristas e 
cartistas moderados, trouxe novamente Garrett para a ribalta da vida pblica. Funda

um novo jornal, intitulado A Regenerao;  nomeado visconde, par do Reino (185 1); 
aceita em 1852 o cargo de ministro dos Negcios Estrangeiros num governo que 
conseguira a adeso de alguns setembristas e arvorava o programa dos *melhoramentos 
mate-

6. a POCA - O ROMANTISMO                                                            
   709

riais+. A ostentao do ttulo de visconde por parte de um burgus que combatera os

*bares+ novos-ricos do liberalismo suscitou reparos entre os contemporneos. Garrett 
procurou defender-se no prefcio do 2. volume dos Versos, alegando que nunca 
professara *as hipcritas doutrinas do nivelamento social+.

Em 1853, incompatibilizado com o governo regenerador, Garrett voltou ao seu refgio 
literrio, embrenhando-se num romance, Helena, que deixou incompleto e onde o 
exotismo brasileiro, que vrias vezes o tentara, se une ao dos caprichos de 
bricabraque de coleccionador europeu. Estava nisto quando morreu, solitrio, numa 
casa que mobilara com mil cuidados de artista.

A personalidade de Almeida Garrett, com todo o seu exibicionismo e versatilidade, tem 
uma riqueza que no cabe inteiramente nas suas produes literrias, mesmo incluindo 
nelas o orador parlamentar, o teorizador de uma democratizao cultural, o ensasta 
da histria da arte e da literatura nacional (que inventou, por exemplo, o estilo 
*manuelino+ e pressentiu a existncia de uma provvel pica afonsina).  preciso no 
esquecer a sua

aco como pedagogo, poltico, jornalista e tribuno, legislador, jurista e fundador 
de instituies culturais.

A formao arcdica de Garrett

Ao contrrio do que acontece com Herculano, mais novo, que se for~ mou directamente 
numa esttica romntica de origem alem, da qual foi em

Portugal alis o primeiro doutrinrio, o jovem Garrett apenas parece ter assimilado o 
cristianismo sentimental de Chateaubriand e o relativismo histrico e nacional 
teorizado por Mme        Stal, integrando-os numa concepo de vida e arte 
basicamente arcdica e iluminista; a sua evoluo em sentido romntico faz-se de um 
modo gradual e contrapesado por eclectismos tericos ou estilsticos. Farifiliarizou-
se com os poetas latinos, principalmente com

Horcio; leu, atravs de tradues, clssicos gregos, e directamente a tragdia 
clssica francesa (Racine, Corneille, Voltaire) e, mais do que esta, a italiana 
(Alfieri, Maffei); educou tambm o gosto com os clssicos quinhentistas portugueses, 
sobretudo Cames e Ferreira. De entre os contemporneos foi, de incio, sobretudo, 
discpulo de Filinto Elsio. Nas composies juvenis reunidas, em parte ( porque o 
autor s deixou escapar algumas que lhe pareceram mais capazes de afrontar a 
publicidade), sob o ttulo modesto de Lrca de Joo Mnmo (1. 1 edio 1829), e nas 
Fbulas (editadas em 1835 no Livro II dos Versos), constitudas por odes e outras 
composies em gnero clssico, Filinto no s  imitado mas apontado como modelo.

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Esta formao arcdica e iluminsta, j, como vimos, algo matizada, constitui um 
sedimento profundo na personalidade literria de Garrett, a tal ponto que se torna 
difcil indicar na sua carreira uma linha definitiva de corte, quer de estrutura, 
quer de conscincia teortica, embora a transformao a que serviu de guia nem por 
isso seja menos evidente. Assim, e com excepo das Folhas Cadas, todas as suas 
obras se mantm mais ou menos fiis a uma responsabilidade de interveno cvica ou 
de derramamento de luzes.

Todavia, logo desde 1823 as ponderaes de oportunidade e de exequibilidade poltica 
vieram atenuar um idealismo extremo que, contra o prprio Vintismo, tomara imediato 
partido pela independncia do Brasil e, em vrios

textos (como a incompleta tragdia Afonso de Albuquerque, 1819), condenara 
indignadamente as pretenses civilizadoras e cristianizadoras da Europa  custa da 
liberdade dos outros continentes. A sua ltima ode cvica foi aquela que em 1829 
dedicou a A Vitria da Praia, porque, declaradamente, deixou logo a seguir de crer em 
toda a pureza dos seus ideais juvenis.

Mantm-se em toda a sua obra um conflito, aberto ou latente, entre a ideia crist de 
pecado original e um erotismo que atravs da sua carreira

assumir os estilos, ou mscaras, mais diversos, sem nunca deixar de ser a seu modo 
sagrado, no mais fundo e ambivalente (anglico ou demonaco) significado desta 
palavra. De incio, assistimos  simbiose iluminista e libertina

entre Prazer, Virtude, Razo e Liberdade, por vezes mitificadamente maiusculados e 
sem artigo: *Virtude sem prazer no  Virtude+. Esta matria vaza-se, ora em amplas 
odes doutrinrias, ora em pequenos moldes de tradio hedonstica anacrentica, com 
ambientes de galante buclica ou anedota

rococ; e ter o seu natural prolongamento em prosas de jornalismo amavelmente 
didctico para as damas com que, sobretudo em O Toucador, 1822, e O Cronsta, 1827, 
procura reagir contra a falta de ar livre, de larga convivncia cultural da mulher 
portuguesa. O Retrato de Vnus representa o cume

deste hino  *alegre natureza+ (personificada num perfeito e desinibdo corpo de 
mulher), fonte de todo o prazer e prottipo de toda a beleza da arte, em progresso 
indefinido de uma *grande cadeia de seres+, resultantes das foras (como que 
newtonianas) de universal atraco, de afinidade qumica, instintiva, ertica e 
social. Mas paralelamente, e por forma cada vez mais acentuada, so os tiranos das 
tragdias filosficas (Lucrcia, Mrope) e depois os celerados de Adozinda, Berna] 
Francs e Arco de SantAna que motivam

6. a POCA - O ROMANTISMO                                                   711

imagens de sensualidade, intensas embora cada vez mais cobertas de velaturas 
moralizantes e cristniente contritas. O tema do rapto e (ou) da seduo anima um 
poema juvenil, O Roubo das Sabinas, transparece em D. Branca, em termos exaltatrios 
de uma religio natural onde o Prazer se liga  Virtude viril sem dogmas. Em certos 
textos grotescos, entre os quais se destaca uma novela picaresca incompleta, Memrias 
de Joo Coradinho, Garrett atreve-se com uma bastante maior crueza  denncia dos 
instintos pervertidos por uma sociedade injusta e repressiva. Mas entretanto, desde 
Cames e D. Branca at Frei Lus de Sousa e  lrica final, ganha terreno um 
contratema caracteristicamente romntico, e que o prprio Garrett chasqueara em

Os Namorados Extravagantes, pardia juvenil de Os Bandidos de Schiller e suas 
numerosas imitaes: o amor aparece progressivamente incompatvel, ou incomensurvel, 
com a ordem natural, devido a um qualquer pecado primevo. Evidentemente,  to 
difcil discernir o ingrediente de autntica liberdade hedonstica nos eufemismos da 
ertica anacrentica ou rococ, como

reconhecer at que ponto as moralizaes e os remorsos no figuram, mais tarde, como 
simples condimento do sabor ertico. O problema vir a repor-se a propsito da novela 
de Camilo.

Ainda mais romntico e mais fundamente garrettiano  o sentimento de instabilidade 
passional, de tdio no conseguimento, de universal desapontamento quase  Byron, que 
alis se liga, desde cedo, com vacilaes dos ideais adolescentes, com dvidas acerca 
do mrito, da exequibilidade, da seriedade das aspiraes iluministas e liberais, 
atravs da sua trajectria poltica extremamente sinuosa, cada vez mais cptica e 
conformada. A angstia de um corao que se no fixa e em breve se sacia percorre 
muitas das suas

obras e esboos literrios, encontrando, como veremos, a sua expresso mais acabada 
em Viagens na Minha Terra.

A gradatividade da evoluo garrettiana  ainda mais inquestionvel no

plano das concepes tericas, onde ele procura ressalvar uma certa continuidade de 
ideias acima da prpria prtica literria, e um eclectismo que s  possvel manter  
custa de certas deslocaes de acento tnico entre as vrias tendncias concorrentes. 
A prpria importncia dada por Chateaubriand, M-e Sta1 e Hugo, por exemplo, ao cunho 
moderno, e implicitamente cristo, da potica romntica, a relativizao, no menos 
romntica, das *ndoles+ nacionais, permitem a Garrett uma fidelidade permanente ao

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postulado clssico da arte como imitao da natureza (ou, mais aristotelicamente, dos 
costumes). Quando muito, assiste-se, em teoria, a uma nfase crescente do sentimento, 
da intuio subjectiva (num sentido mais nacional ou moderno do que pessoal), neste 
extrovertido apaixonado pela pintura e

pelo espectculo, que faz teatro ou oratria da prpria lrica, e que nunca renega 
das leis da natureza, reconhecidas pela razo, e at pelo simples bom senso, a partir 
dos cinco sentidos. Herculano  que se opor a este credo da imitao, ou mimese, do 
sensvel, em nome de uma esttica romntica germnica do smbolo visionrio 
sobrenatural, ao passo que Garrett tende, embora oscilantemente, para a naturalidade, 
a verdade comum de todos os dias.

No prefcio da Lrica de Joo Mnimo, Horcio e seus imitadores, que *fazem odes com 
senso comum+, so cotados a par dos *proslitos da escola de Gessner, em que tudo  
natureza e verdadeira imitao dela+; e ambos se oporiam frontalmente  *antiga 
escola Marino-gongorstico-talo-castelhana que resistira aos esforos de Garo e 
Dinis+, que *lutou com Filinto e filintistas+, e com os *restauradores das 
simplicidades camesinas e mirandinas+. De um lado esto, pois, os gongricos, que 
revivem nos *elmanistas+; do outro lado, os discpulos de Horcio, Garo, Dinis e 
Filinto, juntamente com os autores *a que chamam romnticos+. Aqueles censuram nos 
seus contrrios o *chamarem  noite noite, ao sol sol, e a todas as coisas pelo seu

nome+. Dir-se-ia, portanto, que Garrett no encontra uma diferena radical entre 
Romnticos e rcades. Para ele a questo  entre rcades e Gongricos; entre o bom 
senso, o equilbrio, a verdade - e o barroco, que Bocage, segundo Garrett, tentara 
ressuscitar. Ainda no mesmo prefcio, Garrett resume

o que chama o seu *credo potico nacional+. O primeiro ponto dele, tipicamente 
arcdico,  o estudo e a imitao criteriosa dos poetas quinhentistas e 
setecentistas, rejeitando portanto os seiscentistas e os *ultra-elmanistas+ e 
*ultrafilintistas+ da escola arcdica decadente. O segundo ponto diz respeito  
imitao dos poetas estrangeiros, que deve ser feita comedidamente e naconalizando-
os. Quanto s * escolas diversas+, o porta-voz de Garrett (Joo Mnimo) pergunta: 
*que quer dizer horacianos, filintistas, elmanistas, e ultimamente clssicos e 
romnticos? Quer dizer tolice e asneira sistemtica debaixo de diversos nornes+. E, 
assim, no haveria razo para excluir da imitao nenhum estilo: Horcio  modelo que 
se impe para as odes

6. - POCA - O ROMANTISMO                                                            
  713

de certo tipo, Bocage para sonetos ou epigramas, Filinto para *sublimes raptos 
lricos+. Se o assunto for clssico,  pelos modelos clssicos que o poeta deve 
afinar a lira, mas, se for moderno e nacional, no pode deixar de ser tratado segundo 
o *gnero romntico+. No prefcio do Cato, 1. edio, o *romntico+  concebido 
como um *gnero+ ao lado do clssico, e de um terceiro gnero formado pela combinao 
destes, concepo que se encontra tambm em M- de Stal. Estas ideias so de 1822, 
mas o autor afirma-se-lhes fiel num *post-scriptum+ de 1839. Encontramo-las ainda, de 
maneira implcita, na Memria lida ao Conservatrio em 1843 corno introduo ao Frei 
Lus de Sousa.

A obra produzida por Garrett anteriormente  sua primeira emigrao rotrintica no 
oferece extraordinrio interesse ao leitor actual. Dificilmente se lem hoje as odes 
da Lrica de Joo Mnimo, que no excedem o n vel

das produes arcdicas (Cruz e Silva, Garo, Filinto, Bocage, etc.). Quanto  
produo teatral, o prprio Garrett salvou o Cato do geral esquecimento a que votou 
as suas tragdias clssicas, escritas, em parte, para os teatros acadmicos de 
Coimbra.

O Cato, tem pouca originalidade:  decalcado no Bruto Secondo, de Alficri, de que 
aproveitou situaes, ideias e o tom geral, e contm, por outro lado, alguns trechos 
traduzidos livremente do Cato de Addison. A celebridade desta obra na poca explica-
se pela sua sincronia com o estado de esprito da jovem burguesia liberal portuguesa 
de 1820, e, posteriorniente, dos emigrados em Inglaterra. O escol revolucionrio era 
em grande parte constitudo por juristas formados no Direito Romano, que viam nos 
magistrados da Repblica Romana os prottipos das virtudes cvicas. As Cortes 
Constituintes reviam-se na majestade do Senado que Garrett punha a deliberar no 
palco,  imitao de Alfieri; Cato representava a primazia da lei (forma jurdica da 
*Razo+) sobre o poder pessoal, representado por Csar. Mas no se formulava a 
concepo de soberania popular: Cato  moralmente superior a Csar, mas tambm 
superior s turbas, que reduz  obedincia. A razo no se identifica, segundo 
Garrett, com a vontade das maiorias; e o Cato contm uma crtica implcita  
ideologia de Rousseau (critica desenvolvida, alis, numa nota

 pea). As personagens so inteirias, excepto Bruto, minado por uma espcie de 
complexo de dipo (a fatalidade f-lo filho adoptivo de Csar e obriga-o a lavar essa 
mancha

com o sangue do prprio pai); a aco encontra-se fora dos protagonistas, e falta um

conflito central. Mais do que isso: o entrecho aparece ilgico, pois Cato antes de 
se


suicidar con\,ciicc os companheiros a salvarem a vida para poderem continuar a luta. 
Na

reedio londrina de 1830, Garrett retoma esta tragdia, acentuando os seus traos 
sentiInentais e o seu pessimismo.

714                                                  HISTRIA DA LITERATURA 
PORTUGUESA

Maturao literria de Garrett

Quando em 1823 chegou a Inglaterra e entrou a conviver com uma fanulia inglesa, 
Garrett foi fascinado por este mundo novo. Estava em moda a evocao da Idade Mdia, 
das runas gticas, do folclore. Walter Scott, ainda vivo, publicara j os seus 
poemas narrativos de assunto medieval, os seus

romances histricos e os seus Cantos da fronteira escocesa (1802-1803). Continuavam a 
ler-se os famosos cantos de Ossian, o suposto bardo celta engendrado pela fantasia de 
Macpherson.  curioso como no prefcio de Adozinda (1828) Garrett alegoriza a musa 
romntica (curiosamente, a alegoria integra-se na retrica arcdica), emoldurada em 
motivos tpicos da nova escola:

*a mesma selvtica, ingnua e caprichosa virgem das montanhas que se apraz nas 
solides incultas, que vai pelos campos alumiados do plido reflexo da lua, envolta 
em

vus de transparente alvura, folga no espao e na incerteza das cores indistintas, 
que nem

oculta nem patenteia o astro da noite; a mesma beldade misteriosa que frequenta as 
runas do castelo abandonado, da torre deserta, no claustro coberto de hera e musgo, 
e folga de cantar suas endechas desgarradas  boca de cavernas fadadas, por noite 
morta e horas aziagas+.

Torna-se tambm grande admirador de Byron, o cantor da rebeldia contra as convenes 
sociais, que eleva a grandiosas propores satnicas o seu inconformismo, em longos 
poemas narrativos a extravasar de tdio ou insaciedade, de confisses pessoais e de 
gosto pelo exotismo. Imitou o gesto teatral, mas manteve-se imune ao vrus mais 
iconoclasta deste autor.

Data da estadia em Inglaterra o projecto de levar  prtica uma *literatura 
nacional+, entendendo por isso uma literatura inspirada em tradies locais 
respigadas no folclore e nos textos anteriores  introduo do Classicismo, - 
projecto que passou a ser um norte constante da actividade literria de Garrett:

*0 que  preciso  estudar as nossas primitivas fontes poticas, os romances em verso

e as legendas em prosa, as fbulas e crenas velhas, as costumeiras e as supersties 
antigas [... ]. O tom e o esprito verdadeiro portugus, esse  foroso estud-lo no 
grande livro nacional que  o povo, e as suas tradies e as suas virtudes, e os seus 
vcios e

os seus erros.+

O primeiro volume do Romanceiro, onde se lem as palavras transcritas e onde se citam 
a cada passo os Contos da fronteira escocesa de Scott, data

6. @ POCA - O ROMANTISMO                                                  715

de 1843; mas j em 1825 Garrett anda em busca de rimances populares; e

em 1827, um ano depois do regresso de Inglaterra,  publicada a Adoznda, inspirada, 
como os poemas de Scott, em um destes rimances. A sua actividade como compilador e 
estudioso da literatura folclrica  tambm posterior  dos irmos Grinun (Lendas 
alems, 1816-18), mas contempornea da do duque de Rivas, cuja carreira tem muitas 
analogias com a de Garrett, e da de Agustn Durn, cujo Romancero General foi editado 
onze anos antes

do portugus.

As primeiras obras publicadas por Garrett depois da sua iniciao inglesa so Cames 
(1825) e D. Branca (1826).

Em Cames, com um assunto que inspirara j tambm um quadro de Sequeira e uma 
composio musical de Domingos Bontempo, viu Garrett a histria de um desterrado, 
como ele prprio e como tantos liberais seus

companheiros, que no regresso assiste s desgraas da ptria e morre com

ela, incompreendido e perseguido pela sociedade. Os passos mais vibrantes so a 
invocao da Saudade, alis ainda tratada como alegoria mitolgica no comeo do 
poema; a parfrase de um salmo de Job, que a liturgia faz cantar no Ofcio dos 
mortos; e o lamento fnebre entoado por Cames sobre a sepultura de Natrcia. Em todo 
o poema domina um tom de elegia lutuosa, e so reconhecveis temas do romantismo 
europeu, de Rousseau, Byron e

outros (bondade natural humana recalcada pela civilizao; individualismo insocivel; 
etc.), e outros temas de uma espcie de pr-romantismo nacional latente (saudosismo; 
sodo bernardiniana e camoniana; etc.). Mal se pode dizer que no poema decorra uma 
aco, pois os seus protagonistas, como espectros, quase s monologam. O desfecho d 
o diapaso da desesperana do emigrado que no entrev horizontes:

E j no arranco extremo. * - Ptria, ao menos, juntos morremos ... + E expirou coa 
Ptria.

Costuma datar-se desta obra a ntroduo do Romantismo em Portugal. Trata-se, com 
efeito, de um poema narrativo em torno de um heri com algo de byroniano; as 
descries conformam-se com o cenrio romntico vago e nocturno; as entidades 
mitolgicas so, de maneira geral, abolidas ou nacionalizadas. Mas o verso branco em 
que est vazado tem sabor arcdico, e multiplicam-se as imitaes e decalques d'Os 
Lusadas, especialmente nos

716                                          HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

cantos V11 e VIII. No prefcio, o autor afirma o seu portuguesismo e declara no ser 
clssico, nem romntico, repudiando, tanto as regras de Aristteles e Horcio, como a 
imitao de Byron, pretendendo apenas e eclecticamente seguir *o corao e os 
sentimentos da natureza+. O Cames vive de luz emprestada e de algumas expanses 
elegacas, e revela em Garrett sobretudo um aprecivel talento de imitador.

O mesmo se patenteia na D. Branca, redigida contemporaneamente, histria em verso de 
uma infanta portuguesa raptada pelo ltimo rei mouro de Silves. O autor introduziu-
lhe vrios ingredientes tpicos: o extico oriental; o maravilhoso folclrico 
portugus de fadas, mouras encantadas, magia da noite de S. Joo, etc.; a tradio da 
feitiaria rinedieval, representada por S. Frei Gil, espcie de Fausto portugus; a 
interveno de cadveres e esqueletos, segundo o gosto de Buerger, Schiller e outros. 
Procurou, em suma, uma acumulao dos elementos exteriores do Romantismo. Por outro 
lado, o poema  um flagrante aportuguesamento do Oberon do pr-romntico alemo 
Wieland, atravs provavelmente da traduo que dele dera Filinto Elsio e que Garrett 
conhecia j anos atrs. Consciente de todo este esforo de arranjo *romntico+, 
Garrett abre o poema pela clebre abjurao,  Chateaubriand, dos *ureos numes de 
Ascreu+ (Hesodo de Ascra, cuja Teogona  o principal repositrio literrio da 
mitologia grega):

Tuas aras profanas renuncio: professei outra f, sigo outro rito e para novo altar 
meus hinos canto.

No entanto, marcas estilsticas arcdicas abundam nestes versos, embora por vezes 
parodiadas, como no processo da formao de adjectivos justapostos (*gordo-cachaci-
panudo bernardo+). O leitor  impressionado pela artificialidade deste embrechado de 
mosaicos, rebuscados no capricho de obter um efeito. Sobressai certo tom anticlerical 
e faceto, uma das veias de Garrett, tambm de tradio arcdica (sobretudo 
filintista).

No entanto Garrett conservou da sua iniciao na nova literatura inglesa uma ideia 
produtiva, que ser o seu principal contributo para o Romantismo portugus: a 
literatura culta no deve perder o contacto com a poesia popular e com as formas 
populares de expresso. *A literatura, dir ele mais tarde numa nota ao Fre Lus de 
Sousa,  filha da terra como os Tits da fbula,

6 a pOCA - O ROMANTISMO                                                             
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e  terra se deve deitar para ganhar foras novas quando se sente exausta+. Alguns 
anos passaro ainda, antes que Garrett realize uma parte deste programa, cuja trave 
mestra fica  vista com a publicao do Romanceiro Portugus.

Produto tambm da cultura romntica na emigrao  o romance O Arco de SantAna, 
comeado a redigir no Porto em 1832, durante o cerco, sob a inspirao de Walter 
Scott, conquanto, terminada muitos anos depois, esta obra se relacione antes, pelos 
seus temas e pela sua atmosfera ideolgica, com uma parte do teatro garrettiano.

O teatro de Garrett

Garrett voltou ao teatro muitos anos aps a estreia do Cato, quando o

projecto oficial, por ele proposto, de criar um teatro nacional o obrigou a produzir 
um repertrio apropriado, a partir, pode dizer-se, do nada. J vimos que isto era um 
projecto dos rcades. Garrett, adaptando-o  nova teoria

literria, esforou-se por nacionalizar a teoria do drama romntico.

A teoria do *drama+ (o novo gnero teatral *romntico+ que bania a distino entre a 
tragdia e comdia), prenunciada no sculo XVIII, nomeadamente por Diderot, fora 
exuberantemente defendida por Vtor Hugo no prefcio do Crom well (1827). Algumas 
caractersticas: multiplicidade da localizao e alongamento do tempo, para permitir 
uma

aco mais livre; recurso ao caracterstico, local, histrica e psicologicamente; 
efeitos de contraste entre o grotesco e o sublime; diversidade dos tipos humanos, at 
nas suas

formas patolgicas e vulgares.

A tradio vicentina  invocada em Um Auto de Gil Vcente, cuja intriga se tece em 
torno da representao das Cortes de Apiter comemorativa do casamento da infanta D. 
Beatriz, que urna lenda apresentava como amada de Bernardim Ribeiro. Este e Garcia de 
Resende e Gil Vicente e o rei D. Manuel vm  ribalta, a evocar um passado de 
grandezas. Conquanto o autor tenha intencionalmente visado um contraste de caracteres 
- Gil Vicente-Bernardim -, as personagens e seus problemas no passam de motivos 
decorativos deste espectculo todo exterior. O dbil conflito, o amor

choroso e sentimental de um poeta por uma princesa, no ganha relevo, e os 
protagonistas oferecem urna psicologia elementar e monocrdica. A pea, pouco 
movimentada, tem como epiderme uma historicismo pretensamente

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espectacular, fora de toda a tradio viva, apesar de querer inspirar-se nas

razes tradicionais do teatro portugus. Aplica o receiturio romntico (cor 
histrica, mistura de riso e lgrimas), mas de maneira moderada, esboando um tnue 
contraste entre o grotesco Pro Safio e o sublime Bernardim. Escrito

em 1838, o drama foi editado em 1841 com uma introduo notvel, onde o autor, que 
via j ento afundar-se o seu setembrismo moderado numa reaco de alta finana 
cartista, resume de um modo gil e comunicativo os problemas permanentes do teatro 
portugus, apontando a necessidade de

ele se ligar organicamente com uma autntica dignificao cultural e poltica do 
povo.

Um pouco mais bem sucedido afigura-se o drama O Alfageme de Santa- ,rm (1842), 
baseado na Crnica de D. Joo I de Ferno Lopes, e cuj a inteno se define no 
prefcio da primeira edio: *Qus representar neste quadro a face da sociedade em um 
dos grandes cataclismos por que ela tem passado em Portugal+. Trs classes em luta se 
nos antolham no drama: a burguesia afazendada, representada pelo Alfagerne, cujo 
candidato ao trono

, segundo Garrett, o infante D. Joo, filho de Ins de Castro; o povo mido que 
segue o mestre de Avis; e a nobreza, que em parte segue o rei de Castela, em parte 
aguarda os acontecimentos para aclamar o vencedor. A sequncia dos acontecimentos 
leva o Alfageme a aderir tambm ao mestre de Avis, intervindo decisivamente na 
batalha de Aljubarrota. As simpatias de Garrett (semelhantemente  posio que j 
vimos assumida no Cato) vo para o Alfageme, e iguais censuras lhe mereceram por um 
lado a nobreza, por outro o povo mido, que apresenta como volvel e facilmente 
sensvel s manobras demaggicas de pescadores das guas turvas. Os contemporneos 
tiveram perfeita noo do significado poltico e social do Alfageme de Santa- ,rm, 
que atacava simultaneamente a direita cartista e a esquerda setembrista; e por isso 
mesmo as autoridades intervieram para impedir a representao. A intriga sentimental 
- uma moa, Alda, pretendida por cada um dos representantes dos partidos em luta - 
Mendo Pais, Nuno lvares e o Alfagerne e colocada perante a alternativa de um 
casamento desigual mas de amor, e um casamento sensato com um homem que apenas 
estima, ocupa um lugar secundrio, de pano de fundo, na pea, e  tratada com frieza 
e superficialidade. Uma das personagens personifica o clero ideal como o concebia o 
liberalismo: o padre Froil o  congnere do Proco da Aldeia de Herculano e do

6. @ POCA - O ROMANTISMO                                                            
  719

d'As Pupilas do Snr. Reitor. A pea est entressachada de canto, incluindo um rimance 
tradicional, e nisso, como na ampla movimentao de grupos sociais, acusa uma 
familiaridade maior, talvez adquirida em Bruxelas, com dramas de Schiller e Goethe. 
Falta-lhe, como a Um Auto de Gil Vicente, a dimenso psicolgica: as personagens 
carecem de qualquer mola interna.

Consideraes anlogas se poderiam aplicar a outras peas de Garrett, incluindo a D. 
Filipa de Vilhena e A Sobrinha do Marqus. Esta ltima,

como o Alfageme, pretende dar o quadro de uma sociedade: Pombal aparece a como 
protector da burguesia, personificada num comerciante; e contra ele se ergue a 
reaco jesuta, personificada no padre Incio; o Povo, representado por dois 
maranos, hesita entre os dois partidos, e a pea termina pelo casamento de um Tvora 
com a sobrinha do Marqus e por dois vaticnios contrrios: o de Pombal, j decado, 
e o do padre Incio, acerca

do regresso da Companhia de Jesus a Portugal. Notemos que o Alfageme, foi criado com 
fidalgos e que o caudilho popular do Arco de Sant'Ana, Vasco,  fidalgo de sangue.

A este conjunto de peas preside, pois, uma inteno didctica, de acordo com 
preceitos de Horcio e das Luzes:

*Coligir os factos do homem - escreve Garrett na Memria ao Conservatrio que precede 
o Frei Lus de Sousa -, emprego para o sbio; compar-los, achar a lei de suas 
sries, ocupao para o filsofo, o poltico; revesti-los das formas mais populares e 
derramar assim pelas naes um ensino fcil, uma instruo intelectual e moral que, 
sem

aparato de sermo ou preleco, surpreenda os nimos e os coraes da multido do 
meio dos seus prprios passatempos, misso do literato, do poeta.+.

Garrett ps ao servio deste teatro um incontestvel talento, uma arte notvel do 
dilogo e do efeito cnico, uma inteligncia lcida apoiada numa

informao histrica que, ento, se pode julgar considervel; mas no conseguiu 
inspirar sopro de vida a este conjunto de peas ditadas por um objectivo didctico. 
Por isso nenhuma delas sobreviveu.

Noutro plano muito superior se recorta o Frei Lus de Sousa (1844), obra solitria 
no apenas na literatura portuguesa, e no teatro romntico em geral, mas at no 
prprio teatro garrettiano.

Como nas peas anteriores, o autor pretendeu remontar  tradio literria, 
recorrendo a textos histricos e evocando uma poca. Trata-se de uma


tradio relativa ao conhecido prosador do sculo XVII, que j um contem-

720                                               HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

porneo de Garrett teatralizara, situada no ambiente sebastianista dos primeiros anos 
da dominao filipina. Pretendeu tambm incluir uma lio cvica: o sentimento da 
independncia, que a interveno antidemocrtica de Ingleses e Espanhis na vida 
poltica portuguesa fazia vibrar agudamente na poca de Garrett. Mas estas intenes 
no impedem que a pea esteja centrada num

drama familiar, ntimo, e actual no tempo em que foi escrito. O espectador no tem o 
sentimento de que se trata de teatro histrico, como com o Alfagerne ou Um Auto de 
Gil Vicente, Dir-se-ia que se regressa  tragdia intemporal do teatro clssico, 
indiferente  cor local. Por outro aspecto, ainda, se afasta o Frei Lus de Sousa do 
drama romntico: no apresenta cenas cmicas nem tipos grotescos ou simplesmente 
extravagantes. O tempo (cerca de uma semana, medeando algumas horas entre a aco do 
primeiro e do segundo acto) e o lugar (dois solares e uma igreja contgua a um deles, 
tudo em Almada) aproximam-se da concentrao exigida pelo teatro clssico. A cena 
nuclear , como recomendava Aristteles, uma anagnrise (reconhecimento); e o

pathos (aflio do protagonista) adensa-se num clmax (crescente precipitao fatal 
dos factos), at  catstrofe.

Garrett parece regressar  sua primeira formao,  sedimentao arcdica atrs 
estudada, mas consideravelmente enriquecido pela experincia do drama romntico e, 
como veremos, pela sua vida pessoal. E teve bem conscincia terica deste facto, ao 
afirmar na Memria ao Conservatrio anteposta ao Fre Lus de Sousa que este *pela 
ndole h-de ficar pertencendo sempre ao antigo gnero trgico+. Na mesma Memria a 
inteno da pea est bem definida:

*Nem amores, nem aventuras, nem paixes, nem caracteres violentos de nenhum gnero. 
Com uma aco que se passa entre pai, me e filha, um frade, um escudeiro velho e um 
peregrino que apenas entra em duas ou trs cenas - tudo gente honesta e temente a 
Deus, sem um mau para contraste, sem um tirano que se mate ou mate algum, pelo menos 
no ltimo acto, como eram as tragdias dantes -, sem uma dana macabra de 
assassnios, de adultrios e de incestos, tripudiada ao som das blasfmias e das 
maldies, como hoje se quer fazer o drama - eu quis ver se era possvel excitar 
fortemente o terror e a piedade ao cadver das nossas plateias, gastas e caqucticas 
pelo uso contnuo de estimulantes violentos, galvaniz-los com ss estes dois metais 
de lei.+

A aluso ao *terror+ e  *piedade+, purificantes, dois ingredientes fundamentais da 
teoria aristotlica da tragdia,  significativa; como  significa-

6. - POCA - O ROMANTISMO                                                            
 721

tiva a crtica do melodrama (nome que se dava a uma forma degenerescente e pseudo-
shakespeariana da tragdia ento muito em voga).

Quer pelas formas, quer pela sua concepo, o Frei Lus de Sousa remonta, para alm 
dos clssicos franceses e italianos (Racine, Corneille, Voltaire, Alfieri, Maffei), 
s fontes gregas da tragdia. Enquanto naqueles se evidenciava o conflito das 
personalidades e dos sentimentos, particularmente da ambio e do amor, nestas 
sobressaa quase sempre a interveno de uma fatalidade transcendente aos homens 
indefesos.  uma fatalidade deste tipo que no Frei Lus de Sousa parece cair sobre os 
protagonistas. O Romeiro serve-lhe de portador: o aparecimento dele vem anular toda a 
vida que se

erguera sobre o pressuposto da morte de D. Joo de Portugal; anular o segundo 
casamento da sua suposta viva, e riscar do rol dos legitimamente nascidos e vivos a 
filha que desse casamento nascera. O passado, que se julgava morto, como um vulco 
extinto, vem tragar os vivos que se tinham instalado na sua cratera. E ningum parece 
culpado, porque D. Madalena foi sempre fiel (salvo num sentimento intimamente 
reprimido e inconsequente: o de se ter

apaixonado por Manuel de Sousa, e sem que ele prprio o soubesse, quando ainda casada 
com D. Joo), e seu marido  um portugus exemplar, admirador do suposto morto.  
fatalidade nada resiste, nem mesmo os direitos da vida, que Maria nas cenas finais 
proclama:

*Que Deus  este que est nesse altar e quer roubar o pai e a me a sua filha? (Para 
os circunstantes) Vs quem sois, espectros fatais?... Quereis-mos tirar dos meus bra~ 
os?... Esta  a minha me, este  o meu pai... Que me importa a mim com o outro, que 
morresse ou no, que esteja com os mortos ou com os vivos, que se fique na cova ou 
que ressuscite agora para me matar?+

Mas, no obstante o seu protesto, Maria morre (algo melodramaticamente) *de vergonha+ 
como ela diz, consumando a aco da fatalidade. A verdadeira aco da pea  a 
aproximao desta fatalidade, a presena cada vez

mais palpvel de um espectro, atravs dos terrores de Madalena, das insinuaes de 
Telmo Pais, dos sonhos de Maria. E at o acto viril e exemplar de Manuel, incendiando 
patrioticamente a prpria casa, serve para o atrair a uma cilada do destino, 
obrigando a famlia a transferir-se para o solar do suposto morto. A crise dramtica 
resulta assim da contradio entre a situao criada - a vida actual - e um passado 
incompatvel com ela, que faz valer seus direitos - um passado que tambni  vida. A 
contradio resolve-se

722                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

pelo aniquilamento recproco das posies contraditrias. Mas no fundo so

os espectros que triunfam. Assim o devia sentir o autor, na medida em que a tragdia 
condiz com o seu problema de legitimar a filha que tivera de Adelaide Pastor, pouco 
antes morta, ainda em vida da primeira esposa, Lusa Midosi, de quem no podia 
divorciar-se.

Transcendente s personagens, o conflito aparece, no entanto, interiorizado em um 
deles, como num microcosmo: Telmo Pais, que se julgava inteiramente fiel ao seu 
senhor, em cuja morte se recusara a acreditar, descobre, quando este regressa, que 
ele prprio tambm mudara e se adaptara s novas

circunstncias. De tal modo se afeioara  criana cujo nascimento fora possvel no 
pressuposto da morte de D. Joo de Portugal, que, ao reencontr-lo

vivo, descobre, aterrado, que tambm desejava a sua morte. Sente-se indeciso e 
torturado quando o amo o encarrega de anunciar que ele, o Romeiro, no passa de um 
impostor, dando-lhe a possibilidade de salvar a sua nova

pupila  custa do desaparecimento definitivo do antigo pupilo e senhor:

*Senhor, senhor, no tenteis a fidelidade do vosso servo.+

Assim a fatalidade exterior, ao mesmo tempo que, objectivamente, esmaga uma situao 
estabelecida entre os protagonistas, serve para despertar subjectivamente um processo 
psicolgico de auto-revelao dentro de Telmo Pais. A desarticulao psquica  a 
caracterstica desta personagem, que Garrett em pessoa desempenhou na primeira 
representao da pea.

Ao lado de Telmo Pais, que alis lhe serve por vezes de voz  sua prpria conscincia 
moral, ressuma de verdade a figura de D. Madalena, no

seu esforo para recalcar um remorso e esconder de si mesma a dvida que a inibe de 
gozar calmamente uma feliz vida conjugal. Mas que remorso e

que dvida? Como nas tragdias gregas, o destino pattico  desencadeado por uma 
nica infraco dos costumes consagrados: aquela inclinao afectiva sem 
consequncias que D. Madalena, ainda em vida do primeiro marido, teve por Manuel de 
Sousa e que, subjectivamente, nunca lhe permite a certeza de tudo ter feito para 
verificar a morte de D. Joo de Portugal. Uma interpretao psicolgica talvez 
pudesse interpretar pelo duplo complexo de culpa, inconsciente, de Telmo e D. 
Madalena, quer a ansiedade vaga, a perspiccia morbidamente divinatria por eles 
contagiadas  filha do segundo casamento, quer o agudo senso do destino das trs 
personagens (de que

6. a POCA - O ROMANTISMO                                                     723

Garrett compartilha, como compartilha do complexo de culpa). O senso de destino 
exprimiria uma nsia de expiar a culpa. Alis, corno veremos, o sentimento de culpa 
surge insistentemente na obra garrettiana, quanto a autoridades patriarcais ou 
religiosas (pais e clrigos), sobretudo na fase em que assiste  degradao do seu 
liberalismo ideal, convertido em diiadura cabralista do capitalismo latifundirio e 
financeiro.

H nesta obra uma tenso entre os seguintes plos: por um lado uma reivindicao da 
liberdade de amar, de corrigir pelo divrcio os erros conjugais evidentes, ao que 
associaramos, pela boca da figura mais pattica e idealista, Maria, a exigncia de 
*emendar o mundo@> e as reivindicaes mais romanticamente democrticas 
(anacronicamente situadas no sculo XV11); por outro lado, acompanhado de remorsos, o 
sentimento religioso de um

fatalismo transcendente (com o Destino incgnito a falar, em numerosas coincidncias, 
pela prpria voz das personagens), que no encontra mais soluo para a morte injusta 
de Maria do que a de postular a sua compensao post-mortem.

Esta tenso, como vimos, no tem sada no Frei Lus de Sousa, mas  interessante 
verificar como a pea supera um dos cnones da tragdia clssica (o seu 
aristocratismo social), conferindo nobreza tica a Telmo, um criado, que as 
personagens femininas veneram afectuosamente e por isso nunca sabem ao certo como 
tratar. Ela constitu, por outro lado, a expresso teatral portuguesa mais perfeita 
do drama real do individualismo burgus, intensamente vivido quer no plano familiar, 
quer no plano poltico, pois, tanto na sua vida, corno na estrutura desta pea, 
Garrett jamais chega a decidir-se entre uma entrega  f religiosa, ou seja, a tudo 
quanto nos possa realizar sobrenaturalmente - e uma realizao autnoma que passe 
atravs do alargamento e do avano da solidariedade social humana. De qualquer modo, 
a pea  ainda hoje uma obra-prima do teatro portugus e europeu. Para ao seu leitor 
ou espectador moderno e culto, o prprio Garrett  o seu protagonista, invisvel mas 
representado pela tcnica expressionista involuntria dos ingredientes fatalistas ou 
romnticos, de tradio europeia ou particularmente nacional (sebastianismo, 
rimances, rasto de Bernardim e Cames). Hoje o drama intencional da pea no drama 
inintencional dos seus motivos psquicos e histricos, incluindo um pessimismo 
nacional que retoma o do poema Cames, e o seu interesse torna-se-nos mais profundo, 
ou intricado, do que para os seus contemporneos romnticos - mas exige uma encenao 
inteligente.

724                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

A arte do dilogo, um dos maiores dons de Garrett, do dilogo aparentemente volvel, 
caprichoso, entrecortado de jogo das escondidas, feito s vezes de palavras soltas, 
monosslabos, exclamaes, silncios, mas todo carregado de sentido, de 
subentendidos, de reservas, gravao fiel de um

pensar ondeante, deu nesta pea todo o rendimento. Um exemplo justamente conhecido  
o *Ningum+ respondido pelo Romeiro  pergunta de Frei Jorge, rplica com tradies 
desde a Odisseia ao Anfitrio... do Judeu, mas que, pelo seu contexto, ganha um denso 
sentido psicolgico e trgico. Admirvel ainda a conduo das cenas ao longo dos trs 
actos: os dilogos, intrigantes, carregados de ameaas suspensas, preparam o 
fulminante desenrolar da aco, que de um momento para o outro vira a roda da 
fortuna: o primeiro acto culmina com o incndio do palcio de Manuel de Sousa; mas

este lance espectacular  eclipsado quando, no fim do segundo acto, assistimos ao 
cataclismo da chegada do Romeiro; e a ressaca desta onda, no terceiro acto, tem ainda 
momentos de grande tenso: o dilogo de Telmo e do Romeiro, a separao dos esposos, 
a apario de Maria alucinada e moribunda no final. A cena XIV do 2. acto condensa 
toda a dramaticidade modelar da pea: o espectador, j ciente da relao ignorada 
entre o Romeiro e D. Madalena, v toda a desgraa precipitar-se, por um efeito 
inconsciente, que desaba sobre D. Joo, das prprias reaces de defesa de D. 
Madalena e Frei Jorge; e

revela-se em D. Joo um conflito ntimo no menos vivo que os de Telmo e D. Madalena, 
e que at os esclarece. D. Joo de Portugal est dividido entre uma caridade crist, 
fruto dos supremos desenganos, que o impele  maior abnegao,- e a incapacidade 
(subsistente at  cena VI do 3. acto) de admitir que a esposa o no ame e prefira, 
pois (ele o sabe) no se pode amar inteiriamente sem crer na existncia ou 
exequibilidade do que se ama.

Se D. Madalena admitiu a sua morte,  porque o no amava.

De sublinhar, o efeito que Garrett extrai da recitao litrgica do ofcio dos mortos 
que introduz na cena algo comparvel aos coros da tragdia grega. A funo 
premonitria desempenhada por esses coros  por outro lado suprida com as falas 
agourentas de Telmo.

A novela de Garrett

No falando em Helena, obra incompleta e publicada postumamente, onde, num cenrio de 
pitoresco romntico da selva brasileira, j incuba, em moldes byronianos, o dandismo 
queirosiano de Fradique Mendes, Garrett deixou-

6. @ POCA - O ROMANTISMO                                                   725

-nos duas novelas, uma delas histrica, O Arco de SantAna, outra contempornea, a 
novela inserta nas Viagens na Minha Terra, ambas precedidas de vrias tentativas 
congneres que revelam uma predileco j antiga, em Garrett, quer pelo romanesco 
histrico inspirado por Ferno Lopes, quer pela novela testemunhal do seu ntimo 
desgarre de sentimentos. Muito diferentes quanto  forma e inteno, oferecem, no 
entanto, uma arquitectura romanesca comparvel: no Arco de SantAna, o heri, Vasco, 
, sem o saber, filho ilegtimo de um bispo que lhe desgraara a me, e os 
acontecimentos decorrem de maneira que o pai, senhor feudal do Porto, e o filho, 
chefe de uma revolta popular, vm a encontrar-se frente a frente, a combater em 
partidos opostos; s no momento em que est prestes a mat-lo, o filho reconhece o 
pai. Nas Viagens, o heri, Carlos,  tambm, sem o saber, filho de um frade que fez a 
desgraa de sua me e de sua famlia; o mesmo antagonismo poltico e social separa o 
filho, combatente liberal, e o pai, monge, dando-se em circunstncias semelhantes o 
final reconhecimento. Esta situao dramtica, que tambm se nos depara no Cato 
entre Bruto e Csar, parece ser imagem obsessiva de uma situao histrica, e talvez 
tambm biogrfica. O liberalismo triunfou em Portugal atravs de uma guerra civil que 
dividiu muitas famlias, inclusive a de Garrett.

Em ambos os romances, mas principalmente nas Viagens, a camada verbal do estilo  
notvel por um aproximao da lngua falada que, no entanto, no deixa de ser 
literria, isto , conscientemente artstica. J no prefcio da Lrica de Joo Mnimo 
(1828) Garrett nos dera uma amostra deste esforo para libertar a lngua literria 
dos padres da prosa clerical e corts. Procurou o vocbulo mais corrente e familiar, 
actualizando-o com estrangeirismos (coquete do francs, desapontado, sofisticado, do 
ingls) e procurando reavivar certos arcasmos (soido). Deu novas funes literrias 
s reticncias, aos anacolutos e a outras propositadas negligncias gramaticais, s 
aliteraes e rimas na prosa, ao perodo curto e eliptico, e, em geral, a um

aparentemente espontneo, caprichoso ritmo frsico:

*Os olhos, os olhos... - disse eu, pensando j alto e todo em xtase - os olhos... 
pretos- Pois eram verdes!+

Por vezes, a frase digressiva envereda por uma ramificao secundria e perde de 
vista o pensamento inicial. Este sacrifcio do encadeamento lgico, mais formular,  
associao viva das ideias, juntamente com certo tom fami-

726                                        HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

liar, explica talvez a admirao de Garrett por Bernardim. Escrevendo como

se falasse alto, Garrett suspende-se por vezes e pergunta *Onde ia eu?+, para voltar 
ao fio quebrado das suas consideraes. Isto no o impede, todavia, de recorrer 
tambm, embora afinadamente, ao estilo declamatrio prprio dos Romnticos.

 possvel rastrear em Garrett certos vaivns de um estilo que, por um

lado, se apoia no vernculo latinizante dos rcades e de Filinto Elsio, e por outro 
lado, atravessando o lugar-comum romntico, preludia a mais organizada, concentrada 
mas tambm mais formular ironia queirosiana; o significado ntimo da ironia de Ea , 
o seu cepticismo dandy, j de resto se acusa

nas fracturas e no cepticismo ntimos de certas personagens e de certas confisses 
garrettianas. O prosador das Viagens, do Arco de SantAna, como

o poeta de Folhas Ca-das, neste ponto sentimentalmente romntico, abandona a 
racionalidade fixista do iluminismo arcdico e redescobre as contradies 
petrarquistas do sentimento, mas desta vez a um nvel de confidncia pessoal, ou 
mesmo da vibrao sexual. Isso pode exemplificar-se na invocao  Saudade do Cam es 
e noutras poesias posteriores, como Gozo e Dor, que no  difcil aproximar, 
respectivamente, da bernardiniana terica das saudades de F. Manuel de Melo e dos 
enlanguescimentos erticos de Bocage ou Anast cio da Cunha. Mas, por outro lado, e 
naquilo em que j preparara Ea de Queirs, o estilo garrettiano reencontra os 
melhores achados do humor quase britnico de Tolentino, como quando, por exemplo, 
emparelha no

mesmo grupo de adjectivos ou de outras expresses determinativas o aspecto fsico e o 
aspecto moral, ou dois quaisquer aspectos aparentemente dspares de uma mesma coisa 
ou pessoa (baro verdadeiro epuro-sangue; desapontamento chapado e solene; o branco 
importuno das louras e o branco terso, duro, marmreo das ruivas; um barco srio e 
sisudo; substancial e bentazeja traquitana). Este tipo de qualificao ou 
determinao tem o seu precursor remoto no paradoxo petrarquista, de Cames por 
exemplo, mas presta ateno a uma variedade de planos de percepo e de experincia 
em geral que, anteriormente, s Tolentino entre n s soubera conjugar. Ea de Queirs 
vir a amadurecer o processo com uma mais metdica assimilao da ironia de toda a 
tradio literria europeia, eliminando todo o peso morto setecentista e toda a 
cenografia romntica de que Garrett tanto sorri, mas

sem deixar de a tropear a cada passo. Outros aspectos curiosos deste vaivm

6. a POCA - O ROMANTISMO                                                    727

no estilo de Garrett podem surpreender-se, por exemplo, na hiplage, ora

de tradio clssica (plidos dedos), ora j ps-tolentiniana e pr-queirosiana 
(profundo e cavo filsofo); e em efeitos de rima, aliterao ou repetio que j 
pouco tm que ver com a anfora e o paralelismo da oratria vieiriana, porque esboam 
as recorrncias, os ritmos sabiamente leves de Ea (boquinhas gravezinhas e 
espremidinhas; dor to resignada, mas to desconsolada; nua e nula; e, tendo feito o 
seu feito, fugiram; o corao humano  como o estmago humano). Especialmente de 
notar o efeito conseguido pela adjectivao que combina a expressividade fontica com 
a sinestesia: estridor bao e breve dos gatilhos.

O Arco de SantAna, onde se evoca o Porto feudal e se narra uma revolta popular 
germinada nos mesteirais da cidade contra o senhorio feudal do bispo, tem por ponto 
de partida, como o Alfageme, um relato de Ferno Lopes. Dentro das concepes 
romnticas, Garrett procurou tambm aqui evocar

costumes e tradies desaparecidas. Mas no  esta a nica semelhana com o Alfageme: 
a pretexto da histria, ambas as obras esto endereadas  actualidade. No prefcio 
do Arco de SantAna afirma-se de modo claro o propsito de combater a reaco 
cabralista, particularmente sob o aspecto clerical. Nesse prefcio, notvel de 
lucidez, apontam-se as implicaes polticas e sociais de certo historicismo 
romntico: *Com romances e com versos fez Chateaubriand, fez Walter Scott, fez 
Lamartine, fez Schiller, e fizeram os nossos tambm, esse movimento reaccionrio, que 
hoje querem sofismar e

granjear para si os prosistas e calculistas da oligarquia+. O *feudalismo, que no 
inspirava seno horror ao homem do sculo XIX, comeou a excitar-lhes a admirao; o 
monaquismo, que era aborrecido e desprezado, obteve d e compaixo+. O romance 
contrape  evocao *passadista+ do passado uma inteno polmica democrtica. O 
que, porm, Garrett faz, sobretudo,  uma crtica aos diversos grupos e instituies 
polticas do seu tempo. A oligarquia poltica ento dominante est representada no 
bispo e seus aclitos, particularmente em Pro Co, cobrador dos impostos senhoriais; 
o Parlamento, acobardado, que atraioa os seus mandatrios, vem personificado nos 
atarantados juzes da cidade; o povo, justamente revoltado, mas disperso e manobrvel 
pelos oportunistas, como j aparecera no Alfageme, encarna nos mesteirais do Porto. 
J notmos que a cabecilha da insurreio  afinal um nobre que se ignora como tal.

728                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

A obra vive tambm do estilo vivo e plstico do autor, do seu humour original, a 
pairar em algumas cenas e em constantes digresses. Como no

teatro, as personagens agem segundo uma psicologia elementar, os sentimentos so 
leves e superficiais, sem dar lugar (a no ser no Bispo) a intensos conflitos; e o 
amor aparece sob a forma optimista de alegre preparao para o matrimnio, como no 
Alfageme aparecera sob a forma de plcida vida matrimonial. E em ambas as obras tudo 
acaba burguesmente bem.

Com esta rudimentariedade de dimenso psicolgica contrasta a novela das Viagens: 
dir-se-ia que entre as duas obras se abre a mesma distncia que separa o Frei Lus de 
Sousa do Alfageme ou de Um Auto de Gil Vicente.

A efabulao aparece por entre a ramagem das impresses de viagem e digresses de 
toda a ordem de que so feitas as Viagens na Minha Trra, segundo o modelo da Viagem 
Sentimental de Sterne (1787) e da Viagem  roda do meu quarto de Xavier de Maistre 
(1795). Pode reduzir-se  histria sentimental de um rapaz que se apaixona de um modo 
sucessivo ou simultneo, mas intenso, por vrias mulheres, e se sente incapaz de 
estancar este constante fluir do seu desejo, de fixar e estabilizar a sua 
personalidade afectiva. O heri quer sinceramente continuar fiel pelo corao ao seu 
amor precedente, quer, sentindo-se  deriva num fluir sentimental incessante, deitar 
a mo a uma corda de salvao. Mesmo nos momentos de delrio febril causados por uma 
grave ferida em combate, esse querer sentimental se manifesta subconsciente ao 
apertar com for a uma recordao oferecida pela mulher que, dizia ele, *ainda 
amava+. O dilogo de Carlos e Georgina, quando ele recuperava a conscincia,  
notvel como revelao deste conflito ntimo. Carlos pretende convenc-la da sua 
fidelidade, e quando Georgina, compreendendo a situao, lhe diz que j no o ama, 
ele reage como se se sentisse perdido, mas v-se que esta reaco desesperada  um 
tributo pstumo, um

inconsciente castigar-se a si prprio, como o culto contrito que Telmo Pais prestava 
 memria de D. Joo de Portugal. A mentira mistura-se  verdade de maneira 
inextricvel.

Ningum, antes de Garrett, na fico portuguesa, entrara to subtilmente na anlise 
do que h de convencional, fictcio ou autntico na vida sentimental, na confuso de 
verdade e de mentira, de vida actual e de sobrevivncia que  o todo afectivo de cada 
indivduo; e ningum ps em termos

6. a POCA - O ROMANTISMO                                                       729

to agudos o problerria do desgarrar da personalidade na mudana de tudo, ligando-o, 
ao mesmo tenipo, ao cepticismo superveniente a uma causa generosa que degenera: 
Carlos descr de um seu amor verdadeiro, ao mesmo tempo que descr da revoluo que 
substitui o domnio do frade pelo do baro capitalista do Constitucionalismo, 
preparando-se ele prprio para a comdia da vida social com o futuro triunfo poltico 
desse liberalismo mistificado.

A novela remata, com efeito, por uma carta em que o protagonista desfibra, em tom 
vrio, a situao sentimental. A se confessa moralmente desqualificado: *Eu, sim, 
tinha nascido para gozar as douras da paz e da felicidade domstica... mas no o 
quis a minha estrela. Embriagou-se da poesia a minha imaginao e perdeu-se+. Na 
guerra fugira a oportunidade desejada de morrer com uma bala; mas escolheria outro 
modo de morte: o cepticismo: *Creio que me vou fazer homem poltico, falar muito na 
Ptria com quem no me importa, ralhar dos ministros que no sei quem so, palrar dos 
meus

servios que nunca fiz por vontade; e - quem sabe - talvez darei por fim em agiota, 
que  a nica vida de emoes para quem j no pode ter outra+.

Esta corajosa apreenso da realidade psicolgica comunica-se-nos em Viagens por meio 
de situaes e dilogos;  flagrante a sua estrutura teatral, e nunca porventura o 
instrumento do dilogo garrettiano, onde se exterioriza o que se diz e o que se no 
diz, onde se captam as reservas mentais, onde as palavras deixam ver a sinceridade e 
fingimento combinados ou sucessivos, revelou como aqui os seus mltiplos recursos.

A lrica de Garrett

A autntica poesia vai nascer em Garrett desta veia romntica da confisso. Vimos que 
os primeiros versos reunidos na Lrica de Joo Mnimo mal saem da mediocridade 
arcdica. A nfase, a declamao, os recursos retricos arcdicos suprem a falta de 
vibrao lrica. O amor  um simples tema de exerccios literrios, alis destitudos 
de qualquer originalidade. H uma

ou outra nota de chalaa filintista ( o caso da fbula de O Galego e o Diabo).

O prprio Garrett d-se conta deste formalismo, e escreve no prefcio do 2. volume 
dos seus versos, referindo-se  Lrica de Joo Mnimo:

*Fala de amor o poeta... Sim, fala; e h Dlias e h Lilias, e h flores e h 
estrelas, e h beijos e h suspiros, e h todo esse estado maior e menor de um 
exrcito de paixes que sai a conquistar o mundo no princpio da vida de um rapaz de 
alma, de fogo, de

730                                            HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

exuberante energia e veemncia de sangue. Mas esse exrcito  todo de parada, forma 
bem na revista - em travando peleja sria h-de fugir, porque  boal e no o anima 
nenhum sentimento verdadeiro e tenaz. V-se o poeta atravs do amante: falso amor e

falsa poesia!+

Garrett falava assim porque j ento entrara na sua segunda fase potica, muito mais 
intensa, cristalizao de uma dramtica experincia amorosa. As Flores sem Fruto e, 
mais ainda, as Folhas Cadas cristalizam esta experincia. As Flores sem Fruto 
representam uma transio; h a muita poesia arcdica em metros variados, mas tambm 
alguns temas comuns s Folhas Cadas, tratados num novo estilo, em que o eruditismo 
arcdico cede o lugar a uma coloquialidade valorizada, e em que as formas de modelo 
clssico so substitudas por estrofes e rimas mais prximas da simplicidade popular, 
como a quadra e a redondilha. E h tambm os primeiros rebates do amor-paixo, que 
ser o tema absorvente das Folhas Cadas.

Este ltimo livro representa uma novidade na poesia portuguesa (se descontarmos 
alguns poemas atrs aludidos de Jos Anastcio da Cunha, um

ou outro fragmento de Bocage) pelo individualismo exacerbado e at exibicionista, 
juntamente com um ar de confidncia que na poca desafiou o escndalo; pela 
intensidade e veemncia da emoo amorosa, to bem imediatizada; e enfim pela 
apropriao  poesia da fala ntima, levando a termo a evoluo j visvel nas Flores 
sem Fruto.

Muitos dos poemas includos nas Folhas Cadas inserem-se em situaes (no sentido 
dramtico), so fragmentos de dilogo em que percebemos nitidamente a presena do 
interlocutor, embora no ouamos a sua fala:  o caso do famoso Adeus! Esto, por 
outro lado, cheios de referncias a circunstncias biogrficas: as menes frequentes 
da *luz+ e da *rosa+ roam pelo ttulo e pelo nome da viscondessa da Luz, D. Rosa de 
Montofar; a *cruz+ tambm frequentemente mencionada tem origem no nome de Maria Kruz 
Azevedo.

Esta circunstancialidade, por vezes carecida de um comentrio biogrfico, compromete, 
por isso, o essencial da obra, embora constitusse na poca um motivo de xito. O 
interesse biogrfico nem sempre coincide nas Folhas Cadas com o interesse esttico. 
O dramatismo das poesias *de situao+ mostra, por outro lado, a fora do pendor 
dramtico de Garrett, nele muito mais considervel e interessante que o pendor 
lrico. Alguns poemas lricos, no

entanto, se salvam neste curioso subjectivismo de quem se v sempre em cena.

6. POCA - O ROMANTISMO                                                   731

Trata-se de uma poesia suspirada ou gritada, em que se traduzem geralmente com 
simplicidade inteiria e por vezes frentica o desejo, a volpia, o remorso, o cime, 
a dor da separao. A reflexo raramente e pouco distancia o autor dos seus 
sentimentos. Sem dvida Garrett tem o gosto das oposies: a oposio entre o amor 
que eleva e o amor que rebaixa (Eu tinha umas asas brancas; Anjo s); a oposio 
entre o Amar e o bruto Querer, que no fundo se encarece  luz do *demonaco+ 
byroniano (No te amo); mas trata-se de temas muito estereotipados de um nvel de 
reflexo muito

elementar (se a compararmos por exemplo com a dos melhores poemas quinhentistas). No 
 a que deve buscar-se o interesse perdurvel da lrica de Garrett, antes, de 
preferncia, na expresso audvel, admiravelmente rtmica e de sabor popular de temas 
muito correntes (Suspiro que nasce d'alma), ou na tenso dramtica de certos poemas 
de *situao+ (Adeus!).

Mas h, alm disto, certos achados em algumas composies que ganham maior relevo  
luz da evoluo posterior da poesia. Assim, no poema Os Cinco Sentidos, em que o 
autor procura transpor o clmax da volpia sensual, encontramos um processo de 
imaginao sinesttica que preludia o simbolismo. Outros aspectos precursores do 
simbolismo so o uso da aliterao, da assonncia (em vez da rima consoante) e da 
rima interna, e ainda a polivalncia de significados da Barca Bela.

H, em suma, no poeta Garrett da fase final um misto de confisso e

de teatralidade. O poeta, como Carlos das Viagens, gosta de se apresentar sob a forma 
de um homem fatal perseguido por remorsos, e alternativamente como vtima sem remdio 
da mulher fatal, com ela despenhado no abismo

da perdio (Anjo s). Exibicionismo alis caracterstico dos poetas erticos 
romnticos da linhagem de Byron e Musset.

Sob o aspecto mtrico, Garrett abandona definitivamente nas Folhas Cadas o verso 
branco arcdico e as formas clssicas; manifesta preferncia pela redondilha em 
estrofes regulares, de rima emparelhada, alternada ou cruzada (quadras, sextilhas, 
estrofes de sete e oito versos). Estas formas eram correntes entre os romnticos 
espanhis, e no representavam tambm novidade em Portugal: o Trovador  sete anos 
anterior  primeira edi o das Folhas Cadas; mas a poesia ultra-romntica no 
passava, como veremos, de uma desmaiada retrica j feita de clichs. As Folhas 
Cadas so-lhe imensamente superiores em originalidade, em vibrao de vida vivida, 
na cris-

732                                       HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

pao comunicvel de um gozo que  tambm uma dor - e, resumindo, em inveno 
literria.

111111,6161106,AF(,4

1. Textos

H uma ed. popular das Obras Completas, prefaciada e dirigida por Tefilo Braga,
1904, de que se fez uma impresso ilustrada em 2 grandes vols., e outra em 28 vols. 
Existem, alm destas, numerosas ed. das principais obras de Garrett. Damos a seguir a 
lista das primeiras ed. e reed. alteradas por Garrett:

Retrato de Vnus, Coimbra, 1821.

Cato, Lisboa, 1822, Londres, 1830 (refundida); Lisboa, 1840 (outra ed. 1845).

D. Branca, Paris, 1826 (reed. 1854).

Cames, Paris, 1825 (outras ed. em vida de Garrett: 1839, 1844, 1854).

Adozinda, Londres, 1828 (reed. com o vol. 1. do Romanceiro).

Lrica de Joo Mnimo, Londres, 1829; Lisboa, 1853.

Da Educao, Londres, 1829. Um Auto de Gil Vicente (com a Mrope), Lisboa, 1841.
O Alfageme de Santarm, Lisboa, 1842. Romanceiro, 1, Lisboa, 1843 (reed. 1853); li, 
1851; 111, 1851. Frei Lus de Sousa, Lisboa, 1844. Ed. crtica baseada em manuscritos 
por Rodrigues Lapa, Seara Nova, 1943, reed. 1964.

Flores sem Fruto, Lisboa, 1845.

O Arco de SantAna, 1, Lisboa, 1845; li, 1850 (reed. em 1851 e 1852). D. Filipa de 
Vilhena, Lisboa, 1846. Viagens na Minha Terra, Lisboa, 1846; h uma reed. de 1964, 
Lisboa, com introd. e notas de Augusto da Costa Dias, que reproduz o texto da 1. > 
ed., acrescida de emendas inditas do autor em exemplar seu.

A Sobrinha do Marqus, Lisboa, 1848 (juntamente com As Profecias do Bandarra e Um 
Noivado no Dafundo).

Memria Histrica de Jos Xavier Mouzinho da Slveira, Lisboa, 1849. Folhas Cadas, 
1853; reed. Flores sem FrutolFolhas Cadas, com texto fixado, variantes, notas e 
introd. de R. A. Lawton, PLF, Paris, 1975.

Fbulas e Folhas Cadas, 1853.

Discursos Parlamentares e Memrias Biogrficas, Imp. Nacional, 1871.

6. - POCA - O ROMANTISMO                                                            
     733

Poltica, Reflexes e Opsculos, Correspondncia Diplomtica, Lisboa, 1904.
O Roubo das Sabinas, ed. crtica, com fac-smile, introd. e notas de Augusto da Costa 
Dias, 1968, de um poema indito da juventude.

Cartas de amor  viscondessa da Luz, coord. e notas de J. Bruno Carreiro, Lisboa, 
s/d. Para pormenores bibliogrficos, ver as obras de Ferreira de Lima, Tefilo Braga 
e Oflia M. C. Paiva Monteiro, a seguir indicadas.

Portugal na Balana da Europa, ed. moderna, Livros Horizonte, Lisboa. H uma ed. 
recente da Lrica Completa na col. *Bab+, Lisboa, e outra de Obras que inclui 
inditos, 2 vols., Porto, 1963.

Magrico ou os Doze de Inglaterra, ed. de acordo com o manuscrito encontrado na 
Biblioteca Nacional de Lisboa (col. Carnotense, n. > 5 1), org. e apresentada por 
Alberto Pimenta, Edies 70, Lisboa, 1978. (Fragmentos de 6 cantos deste poema 
satrico que tem o cunho acentuadamente antimonstico e libertino de O Roubo das 
Sabinas.)

A Polmica sobre *0 Retrato de Vnus+, introd. de Maria Antonieta Salgado, IN-CM,
1983. (Alm da polmica, sobretudo com J. Agostinho de Macedo, de textos do processo 
judicial movido, da pastoral que excomunga os leitores, contm o poema, notas e um 
ensaio anexo de Garrett sobre a histria da pintura; recenso de Oflia Paiva 
Monteiro em *Colquio/Letras+, 84, Maro 11985.)

Poesias Dispersas, org., fixao do texto, pref. e notas de Augusto, M. Helena e Lus 
Augusto Costa Dias, in Obras Completas de Almeida Garrett, 1984.

Alm da ed. global de Obras, 1839-1877, h ainda a de Obras Completas, dir. e pref. 
por Tefilo Braga, 2 vols., Lisboa, 1904, os 2 vols. de Obras de Lello e Irmo, 1963, 
e ainda Obras Completas, dir. por J. do Prado Coelho, Parceria A. M. Pereira, 1972.

2. Antologias

Doutrinas de Esttica Literria, pref. e notas de Agostinho da Silva, col. *Textos 
Literrios+, 1938.

Cames e O. Branca e Folhas Cadas e outros poemas, ambos com introd., selec. e notas 
de Antnio Jos Saraiva, col. *Clssicos Portugueses+ .

Discursos Parlamentares, introd. de Manuel Mendes, col. *Saber+.

Romanceiro, introd., selec. e notas de A. do Prado Coelho, Lisboa, 1962.


Viagens na Minha Terra, col. *Textos Literrios+, apres. e crtica de Alberto 
Carvalho, e Folhas Cadas, ibidem, apres. e crtica de Paula Mor o, 1979.

3. Estudos

Amorim, Gomes de: Garrett. Memrias Biogrficas, 3 vols., Lisboa, 1881-83. Principal 
fonte para a biografia de Garrett.

Braga, Tef ilo: Garrett e o Romantismo, Lisboa, 1903; Garrett e os Dramas 
Romnticos, Lisboa, 1905, com bibliografia. Estes dois estudos constituem, no 
conjunto, o mais

734                                                 HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

completo estudo literrio sobre Garrett. Tefilo deu deles uma smula no pequeno vol. 
Garrett e a sua Obra, que serve de introd.  ed. popular de 1904.

Lima, Henrique Campos Ferreira de: cap. sobre Garrett na Histria Ilustrada da 
Literatura Portuguesa. Do mesmo autor h diversos estudos biogrficos e 
bibliogrficos corn interesse sobre Garrett, de que apontamos os Estudos 
garrettianos, Porto, 1923.

Rocha, Andre Crabb: O Teatro de Garrett, Lisboa, 1940; 2. > ed., Coimbra, 1954.

Picchio, Luciana Stegagno: Histria do Teatro Portugus, Lisboa, 1969, e Ricerche sul 
Teatro Portoghese, Roma, 1969.

Cidade, Hernni: Sculo XIX, col. *Ensaio+, 1961. Saraiva, Antnio Jos: A Evoluo 
do Teatro de Garrett, e O Conflito Dramtico na Obra de Garrett, nos vols. 1. e 2. 
de Para a Histria da Cultura em Portugal, Lisboa, 1961.

Salgado, Jnior Antnio: *Romeiro, Romeiro! Quem s Tu?+, sep. da *Lusada+, Porto,
1956.

Gentil, Georges Le: Almeida Garrett, un grand romantique portugais, 1927. Antscherl, 
Otto: J. B. de Almeida Garrett und seine Beziehungen zur Romantik, Heidelbergue, 
1927.

Simes, Joo Gaspar: Garrett: Quatro Aspectos da sua Personalidade, Porto, 1954. 
Sfady, Naief: *Folhas Caidas+, A Crtica e a Poesia, Assis, So Paulo, 196 1. Lamon, 
R. A.: Almeida Garrett, PIntime Contrainte, Paris, 1966.

Monteiro, Oflia Milheiro Caldas Paiva: A Formao de Almeida Garrett, 2 vols., 936 
pp., Coimbra, 197 1. (Estudo fundamental acerca da formao adolescente e juvenil, 
emigraes, evoluo ideolgica e literria de Garrett at  sua maturidade dos anos 
de 1840, tendo em conta, entre outros dados inditos ou dispersos, os manuscritos do 
esplio inventariado e legado  Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra por H. C. 
Ferreira de Lima.) Algumas reflexes sobre a novelstica de Garrett, *Colquio / 
Letras+, 30, Maro 1976, pp. 23-29.

Mouro-Ferreira, David: trs ensaios sobre Garrett reunidos em Hospital das Letras, 
Lisboa, 1966.

Oliveira, Lus Amaro: Realizao Didctica do *Fre Lus de Sousa+, Porto, 1967. 
Mendes, Joo: trs artigos em *Brotria+, 87, fasc. 10, 11 e 12 (Out., Nov., Dez.,
1968), e Literatura Portuguesa 111, Verbo, 1979, pp. 29-110.

Frana, Jos Augusto: O Romantismo em Portugal, Livros Horizonte, 1 e 11 vols., s/d. 
Coelho, Jacinto do Prado: vrios ensaios sobre Garrett reunidos em Problemtica de 
histria literria, Lisboa, 196 1, A Letra e o Leitor, Lisboa, 1969, e Ao Contrrio 
de Penlope, Bertrand, Lisboa, 1976. Em Afecto s Letras (Homenagem a J. do Prado 
Coelho) h estudos sobre as Viagens na Minha Terra, de lvaro Fina, Anabela Rita, 
Oflia Paiva Monteiro e Paula Moro, e um estudo sobre Frei Lus de Sousa de M. 
Leonor Machado de Sousa.

Martins, Jos V. de Pina: Almeida Garrett (1799-1854): O Homem e a Obra, in Cultura 
Portuguesa, Verbo, Lisboa, 1974, pp. 197-216.

6. >POCA - O ROMANTISMO                                                             
    735

Entre as apreciaes crticas  importante considerar as de Herculano, em artigo 
datado de 1839 e publicado por Tefilo Braga no vol. cit. Garrett e a sua Obra; de 
Ramalho Ortigo no vol. Quatro Grandes Figuras Literrias; e de Joo Gaspar Simes em 
Garrett, quatro aspectos da sua personalidade, ed. do Ateneu Comercial do Porto, 
1954.

H uma biografia romanceada por Oliveira, Jos Osrio de: O Romance de Garrett, 
Porto, 1935.

Entre a bibliografia relacionada com o centenrio da morte de Garrett, destaquemos o 
n. O especial de *Vrtice+ (n. > 135, Dezembro de 1954) e o da pgina cultural d'*O 
Comrcio do Porto+, reproduzido no vol. Estrada Larga - 1, Porto Editora, e o vol. 
Comemorao do 1. > Centenrio do Visconde de A. Garrett, ed. Ministrio da Educao 
Nacional,
1959.

Na colectnea Esttica do Romantismo em Portugal, ed. do Centro de Estudos do Sculo 
XIX do Grmio Literrio, Lisboa, 1974, h trs importantes artigos, de R. A. Lawton, 
Eduardo Loureno e Maria Alzira Seixo, sobre aspectos da obra de Garrett.

Lopes, scar: De *0 Arco de SantAna+ a *Uma Famlia Inglesa+, in lbum de Famlia, 
ed. Caminho, Lisboa, 1984, pp. 11-26.

Ferraz: M. de Lourdes: A Ironia Romntica, IN-CM, 1987, que foca Viagens na Minha 
Terra.

Reis, Carlos: Introduo  Leitura de * Viagens da Minha Terra+, Almedina, Coimbra,
1987.

Captulo 111

ALEXANDRE HERCULANO

Nado e criado em plena derrocada do velho Portugal, Herculano, diferentemente de 
Garrett, formou-se todo dentro do Romantismo.  de entre as personalidades do 
primeiro Romantismo portugus aquela que, pela formao e pela audincia que alcanou 
junto do pblico, representa o movimento romntico de um modo mais espectacular e 
persistente.

ALEXANDRE HERCULANO: Vida e obras

Alexandre Herculano de Carvalho Arajo (n. Lisboa, 1810-03-28 - t Vale de Lobos,
1877-09-13) era filho de um modesto funcionrio administrativo, descendente de 
comerciantes e de pedreiros, depois mestres-de-obras. Preparou-se no colgio dos 
Oratorianos para matricular-se na Universidade, mas a morte do pai obrigou-o a 
desviar-se para um

curso mais utilitrio e rpido com vista a um emprego no funcionalismo: a Aula de 
Comrcio e o curso de Diplomtica. A sua formao cultural realizou-se na poca 
incerta que sucede s Invases: tinha 10 anos quando se deu a Revoluo de 1820. As 
fronteiras portuguesas estavam ento abertas s influncias exteriores, e Herculano 
pde na adolescncia iniciar-se em escritores como Schiller, Klopstock, 
Chateaubriand. As suas tendncias literrias precocemente manifestadas pem-no em 
contacto com Castilho, dez anos mais velho, com representantes da gerao de Bocage, 
abrem-lhe entrada nos sales da marquesa de Alorna, figura saliente, como vimos, no 
movimento pr-romntico em Portugal.

Em 1831 compromete-se na revolta do 4 de Infantaria, escapando  matana dos 
insurrectos que lhe ps fim, e v-se obrigado a fugir para Inglaterra. A sua situao 
como emigrado  a de um soldado desconhecido, quando Garrett j se tornara uma 
personalidade; e, contrariamente a Garrett, parece ter trazido de Inglaterra 
recordaes amargas,

HLP - 47

738                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

sendo, ao invs, a Frana o pas que lhe abriu horizontes: frequentou estudiosamente 
a

biblioteca de Rennes, e talvez date desta poca a sua iniciao em Thierry, Guizot, 
Vitor Hugo e Lamennais, cujas influncias lhe viriam depois a marcar profundamente a 
obra.

Regressou a Portugal como soldado da expedio de D. Pedro, e tomou parte em combates 
e aces militares. Mas j ento colabora em trabalhos de reforma cultural 
relacionados com a revoluo. Organizou a biblioteca pblica do Porto com fundos 
retirados

das bibliotecas monsticas ou miguelistas, incluindo a de um irmo de Carrett. Em 
1835, no Repositrio Literrio, do Porto, tenta a primeira teorizao portuguesa do 
Romantismo, alis inserida em preocupaes dominantes de reforma pedaggica.

A Revoluo de Setembro de 1836 trouxe o moo escritor para a notoriedade: demitiu-
se, como protesto, do seu lugar de bibliotecrio, e em Lisboa, para onde veio, 
publicou contra os novos governantes um folheto a Voz do Profeta, no estilo 
grandiloquente das Paroles d'un croyant de Lamennais, pouco antes traduzidas por A. 
Feliciano de Castilho. Este comeo de nomeada literria  logo continuado com o seu 
trabalho n'O Panorama, jornal de que assumiu a direco em 1837. Neste semanrio 
enciclopdico ilustrado, editado pela Sociedade Promotora de Conhecimentos teis, 
dirigido a um largo pblico, fez Herculano aparecer narrativas histricas e alguns 
estudos eruditos. Do mesmo

ano data a primeira edio das Poesias, sob o ttulo A Harpa do Crente. O seu modo

de vida  nesta poca o jornalismo: acumula a direco de O Panorama com a redaco 
de O Dirio do Governo; mas consegue libertar-se desta situao em 1839, obtendo o 
lugar de director das bibliotecas reais das Necessidades e da Ajuda, cargo 
directamente dependente de D. Fernando, rei-consorte.

Politicamente, Herculano alinhava no partido cartista ou conservador, embora na sua 
ala esquerda; nessa qualidade foi deputado  legislatura de 1840, onde apresentou um

plano de ensino popular. Mas logo se desinteressou da vida parlamentar. Aderiu  
moderada Constituio de 1838, desaprovou o golpe de estado de Costa Cabral que 
restaurava a Carta, e remeteu-se  actividade literria e cientfica.


 durante o perodo do cabralismo que Herculano realiza a parte mais considervel da 
sua obra literria. Faz sair, n'O Panorama, O Bobo (1843), o Eurico e o Proco da 
Aldeia (1844); as Cartas sobre a Histria de Portugal (1842); os Apontamentos para a

Histria dos Bens da Coroa e Forais (1843-44) e alguns outros escritos que em parte 
reunir nas Lendas e Narrativas (185 1) e nos Optsculos (1. 1 volume 1872). O 1. > 
volume da Histria de Portugal aparece em 1846, no ano da Maria da Fonte, de que 
Herculano, ento identificado com o Pao, parece bem alheado. O 2. volume da 
Histria sai em
1847, e o terceiro em 1850, quando j o 1. > despertava violenta reaco nos meios 
clericais. Da mesma poca so os 2 volumes de O Monge de Cister (1848).

O ano de 1850  marcado pela polmica da batalha de Ourique. Atacado na imprensa e 
inclusive por pregadores no plpito, Herculano riposta em Eu e o Clero, carta 
dirigida ao Patriarca de Lisboa, em cartas ao redactor de A Nao e no opsculo 
Solemnia Verba. Interrompe a Histria de Portugal para se ocupar de uma obra mais 
directamente rela-

6. @ POCA - O ROMANTISMO

739

cionada com a poltica de intolerncia religiosa, a Histria da Origem e 
Estabelecimento da Inquisio em Portugal, 1. a edio 1854-55-59 (2. a edio 
revista, com este ttulo definitivo, 1864-67-72).

Dera-se entretanto o golpe de estado da Regenerao, cujo carcter apontmos no

captulo anterior. Herculano, acompanhando alis a prpria corte e o rei-consorte D. 
Fernando, abandona ento a neutralidade poltica, colabora na formao do novo 
governo e prepara para ele projectos de reforma social (lei sobre os vnculos). Mas 
os amigos de Herculano so forados a abandonar o governo, e ele entra em oposio ao 
ministrio, cuja principal figura era Rodrigo da Fonseca Magalhes, secundado por 
Fontes Pereira de Melo. Funda sucessivamente os jornais O Pas (185 1) e O Portugus 
(1853), onde desenvolve uma intensa actividade polmica contra o referido ministrio, 
e concorre em
1853 como membro da oposio s eleies municipais de Belm, de que vem a ser eleito

presidente da Cmara. No exerccio deste cargo, entra em 1855 em conflito com o 
ministro

do Reino.

Tudo isto e a elaborao da Histria da Origem e Estabelecimento da Inqusio 
prejudicam o andamento da Histria de Portugal, cujo 4. > e ltimo volume sai com 
atraso

em 1853. Neste ano e no seguinte, encarregado de recolher elementos para a coleco 
Portugaliae Monumenta Historica, realizou uma viagem na Provncia, onde recebeu 
provas lisonjeiras do seu prestgio nacional e onde se viu obrigado a entrar de novo 
em conflito com o clero, que se opunha  transferncia para a Torre do Tombo de 
documentos em vias de extravio ou destruio.  durante a mesma viagem que o 
espectculo da misria das freiras de Lorvo lhe inspira uma carta humanitria; j 
antes pugnara a favor de

velhos monges egressos. Novo conflito com o ministro do Reino (o mesmo Rodrigo da 
Fonseca), provocado pela nomeao para a direco da Torre do Tombo de um funcionrio 
acusado do desvio de livros, justifica a sua ostensiva interrupo do trabalho da 
Histria, em 1856. A actividade do polemista e do homem pblico prevalece ento sobre 
a do historiador.  um dos fundadores do Partido Progressista Histrico, que concorre 
s eleies pela primeira vez em 1856. Ataca vigorosamente a Concordata de 1857 com


a Santa S, que restringia os direitos do padroado portugus na ndia; no ano 
seguinte combate pela pena e pela palavra, em comcios de que  animador, as 
tentativas para a introduo em Portugal das Irms de Caridade, em contraveno da 
legislao antimonstica ento vigente; participa na redaco do 1. O Cdigo Civil 
portugus (1860-65), tendo proposto a introduo do casamento civil ao lado do 
religioso, o que deu origem

a uma polmica em que Herculano tomou parte com os artigos depois reunidos no volume 
Estudos sobre o Casamento Civil (1865), logo posto no ndex romano.

Em 1859, com o produto dos seus trabalhos literrios, adquire uma quinta em Vale

de Lobos, onde passa algumas temporadas, sem largar a posio de bibliotecrio real. 
Em 1866 casa com uma senhora de quem se enamorara na juventude e com quem 
interrompera o noivado alegando que o matrimnio era incompatvel com a vida 
literria.

A histria de Eurico, que trocara Hermergarda pelo celibato monacal, parece ser a 
idealiza-

740                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

o desse amor juvenil. Instala-se na quinta, e sem abandonar os trabalhos em curso,

como a publicao dos Portugaliae Monumenta Historica, dedica-se intensamente  
agricultura, actividade que fora sempre da sua predileco. Declara-se retirado da 
literatura; sem embargo disso, edita os Opsculos (1. 1 volume 1872); mantm uma 
activa correspondncia literria; intervm em polmicas, como a travada  volta das 
Conferncias

Democrticas (1871) e a respeitante  emigrao (1874). Em cartas ao padre lazarista 
Barros Gomes (1876) ataca novamente o *Ultramontanismo+, isto , a orientao 
antiliberal do Vaticano consagrada no concilio de 1870, que estabelece a 
infalibilidade do Papa. Pensava mesmo prosseguir a Histria de Portugal, tendo, 
segundo parece, reunido os

materiais para o 5. volume.

No seu retiro dos ltimos anos, Herculano encontrou-se rodeado de extraordinrio 
prestgio, detentor, segundo a expresso de Tefilo Braga, de um verdadeiro poder 
espiritual nacional, para o que contribua a sua atitude coerente e combativa a 
partir de 1850 e o ter-se posto inteiramente  margem dos cambalachos polticos e 
financeiros da Regenerao. Contrariamente a numerosos outros intelectuais seus 
contemporneos (Garrett, Castilho, Camilo, etc.), recusou todas as distines 
honorfficas que lhe foram oferecidas. O seu falecimento, em 1877, deu lugar a uma 
grande manifestao nacional de luto.

Herculano e a poesia romntica

Herculano dizia, na sua fase de maturidade, que fora poeta at aos vinte e cinco 
anos. Na realidade data de 1849 o seu ltimo poema, A Cruz Mutilada, mas a parte mais 
importante das suas poesias foi publicada em 1838 sob o ttulo A Harpa do Crente.

Desde as primeiras produes conhecidas, a poesia de Herculano insere-se em pleno 
ambiente romntico. A mais antiga composio, Semana Santa, procura erguer-se a uma 
solenidade de profeta bblico visionando a catstrofe para os tiranos e as turbas 
envilecidas, e exaltando a identificao dos ideais cristos e dos liberais (*Creio 
que Deus  Deus e os homens livres+).
O gosto da balada romntica de terrvel punio fantasmagrica est representado por 
duas verses de Buerger (Lenore, O Caador Feroz) e por uma imitao congnere de 
inspirao inglesa (A Noiva do Sepulcro).


Herculano nunca se afastou do tipo de poesia definido na sua mais antiga composio 
conhecida: uma meditao a propsito de uma paisagem, de um facto, de um monumento ou 
de runas como a da Cruz Mutilada; reflexes muito explcitas sobre a morte, sobre 
Deus, sobre a liberdade, sobre o contraste entre a transitoriedade humana e o 
infinito que a transcende. Estas meditaes tm por testemunha uma paisagem, que 
infunde o sentimento

6.1 POCA - O ROMANTISMO                                                    741

da infinidade e da solido: a imensido ocenica e celeste e o mosteiro abandonado da 
Arrbida, uma tempestade, o sol-poente, a noite; uma cruz, smbolo da divindade 
esquecido pelos servos que resgatara. H tamb m vises sobrenaturais, como quando na 
Semana Santa o poeta v, para l da cpula do templo, tornada transparente, abrir-se 
a majestade terrvel dos cus, donde Deus desce por entre os coros celestiais, a 
julgar os mortos que se levantam erguendo as lajes. Todas as poesias de Herculano, 
como veremos, tendem para problemas genricos ou sentimentais: a paisagem, como as 
prprias atitudes emotivas, servem de veculo a meditaes filosficas, morais, 
religiosas ou outras. Falta a esta poesia o lirismo confessional. Em troca abundam a 
reflexo e o testemunho.

Salientemos de entre o conjunto os poemas que se referem  guerra civil e ao exlio. 
 um dos raros testemunhos poticos da grande crise social da instaurao do 
liberalismo no nosso Pas; ecoam a actualidade histrica de um modo directo. A 
saudade do Poeta no desterro  carnal e tocante, com

a evocao directa da terra natal, das suas rvores e do seu rio, do pai, do 
cemitrio:

*Meu pobre Portugal, hei~de chorar-te!+

O poeta detm-se por um momento a objectar que tal saudade  absurda sob o ponto de 
vista religioso e moral, porque o templo de Deus  o mundo e porque o homem livre em 
todo o lugar tem uma ptria. Mas o corao do desterrado no   se dobra  reflexo 
porque mesmo o amor por Deus:

nasce, cresce, vigora-se enredado

com os beijos de me, com sorrir meigo de nossos pais e irmos; ensina-o a tarde, o 
pr do sol da nossa terra, o choupo da nossa fonte, o mar que manso geme, nosso amigo 
de infncia em praia amiga.  com este mesmo concretismo, alis mais intencional do 
que efectivo, que o poeta procura evocar a guerra civil nos seus horrores e idealizar 
a famlia burguesa mediana.

Neste conjunto de poemas (0 Soldado, A Vtra e a Piedade, Tristezas do Desterro, O 
Mostcro Deserto, A Volta do Proscrito) Herculano atinge

742                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

a sua melhor poesia distinguindo-se pela mensagem testemunhal de todos os poetas 
romnticos portugueses.

Semelhantemente a Vitor Hugo, Herculano atribui  poesia uma funo pblica, 
doutrinria e intervencionista, e tenta tambm dar atravs dela expresso  
contemporaneidade, versando temas de interesse poltico, social e religioso. 
Interessam-lhe predominantemente questes como a apologia do Cristianismo contra a 
irreligio iluminista (A Semana Santa, A Cruz Mutilada); a responsabilidade do clero 
monstico na guerra civil; o apoio  legislao antimonstica (0 Mosteiro Deserto); o 
perdo para os vencidos da guerra (A Vitria e a Piedade). O amor quase no tem lugar 
na poesia de Herculano.

Formalmente, ela justape o discurso solene e retrico insistindo num vocabulrio 
evocativo do belo horrvel, apocalptico ou sepulcral, usando circunlquios 
eufemsticos e at certos recursos clssicos como o hiprbato,  expresso directa de 
ideias e factos. A fantasia manifesta-se num paisagismo visionrio de tempestades ou 
runas ou na sugesto dos mistrios da religio e da morte.  certo que, entre a 
grandiloquncia proftica (ou  Klopstock) e a factualidade, faltam ao estilo potico 
de Herculano as imagens transfiguradoras do esquema conceptual. Isto no anula, 
todavia, o poder comunicativo desta obra, que teve grande influncia na gerao de 70 
e que despertou, em especial, a vocao potica de Antero de Quental.

Quanto  versificao, predominam em Herculano a estrofe livre em verso branco, 
segundo a tradio arcdica, e a quadra, sobretudo em redondilha. Pode considerar-se 
romntica a diversidade mtrica dos seus poemas longos.

Herculano romancista

Herculano introduziu em Portugal o novo gnero do romance consagrado por Walter 
Scott, o romance hist rico. Garrett veio em segundo lugar porque o Arco de SantAna, 
embora comeado, como vimos, no Porto, durante o cerco, s foi publicado depois das 
tentativas de Herculano n'O Panorama, onde se iniciou a publicao de O Bobo (1843), 
do Eurico (1844), de O Monge de Cister (1848), e onde saram primeiramente alguns dos 
contos e novelas depois compilados em Lendas e Narrativas (A Abbada, 1839, O Bispo 
Negro,
1839). Por isso, ao publicar a compilao de Lendas e Narrativas, Herculano podia 
justamente reivindicar o seu papel de iniciador da abundante

6. @ POCA - O ROMANTISMO                                                        743

literatura histrica, que j ento inundara a literatura portuguesa: estas pginas, 
escreve ele, *foram a sementinha donde proveio a floresta+. Podia inclusivamente 
afirmar-se como iniciador do moderno romance portugus, na 2. a

edio da mesma obra (1858).

Foi, de facto, com o romance histrico que se iniciou, pode dizer-se que do nada, a 
novelstica portuguesa moderna, visto que se perdera inteiramente a tradio do 
romance de cavalaria, do romance buclico e da novela sentimental e se afundara o 
valor da fico alegrica didctica, apesar da fama do Feliz Independente. Embora 
afirmando-se patritico e restaurador do passado, o Romantismo portugus vai 
entroncar, na novela como noutros domnios, em modelos estrangeiros, particularmente 
em Walter Scott e em Vitor Hugo (Notre Dame de Paris), que so os mestres principais 
do romance histrico.

Nos seus romances e narrativas histricas, Herculano deu expresso a

mltiplas tendncias e interesses que as Poesias, as obras polmicas e as obras

histricas apenas parcialmente revelam. O romance histrico, sobretudo como o 
concebeu Vitor Hugo, era alis um gnero de limites indefinidos, em que se misturavam 
a prosa potica, a erudio, o comentrio filosfico, social e poltico, a descrio 
pitoresca, a pretexto de narrao.

J na Semana Santa encontramos um sentimento muito caracterstico de algumas das 
narrativas histricas de Herculano: o sentimento da eternidade

em contraste com o efmero das vidas humanas. No Alcaide de Santarm, no Alcade do 
Castelo de Faria, no Eurico, noutras obras ainda, o autor percute insistentemente 
esta nota. As runas assinalam a passagem do homem rolando no despenhadeiro dos 
tempos. Onde outrora ferveu o bulcio da vida, h hoje desertos e runas. Nas eras em 
que se desenrolam infindavelmente, Herculano quer evocar lutas ou intrigas de um 
momento que o tempo calou, deixando-nos ver a sua vaidade, e o dedo da Providncia 
divina a conduzir o desfile processional das civilizaes.

So igualmente de origem religiosa certos temas caractersticos dos romances de 
Herculano. Em quase todos eles ocupa posio central o tema do sacrilgio, isto , a 
violao de mandados divinos, que precipita os protagonistas na expiao cruciante. 
Eurico no consegue resignar-se espiritualmente ao

celibato sacerdotal. Vasco, no Monge de Cister, violando um juramento e

utilizando a prpria condio sacerdotal para realizar a vingana  qual votou

744                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

a vida, sente escrita a letras de fogo na prpria testa a palavra *precito+. E D. 
Fernando vende a alma a um demnio em corpo de mulher, que desempenha um papel 
comparvel ao do marinheiro-dabo na cena da tentao da Nau Catrineta. As principais 
personagens dos romances de Herculano so como que encarnaes, dotadas de foras 
sobre-humanas, anjos ou diabos, consagrados a uma obra de maldio ou de 
santificao: caso do alcaide de Santarm, instrumento da vingana divina, ou o de 
Eurico, anjo negro no

meio dos combates, de Vasco, o precito, ou de Dulce, no Bobo, que consegue ser duas 
vezes santa, uma pelo amor irrealizado (que  uma forma romntica de santificao) 
que dedica a um cavaleiro, outra pela perfeita fidelidade, em vida e na morte, a 
outro cavaleiro, a quem a ligam os laos tambm santos do matrimnio. A Dama P de 
Cabra, inspirada nos Nobilirios, tem como personagem central o prprio Diabo sob 
forma de mulher.

Esta polarizao bem romntica entre os dois extremos do sagrado (o divino e o 
demonaco) transparece tambm na adjectivao (solene, santo, maldito, precito) e em 
imagens tiradas do culto (lmpada do santurio, anjo do Senhor, etc.).  uma 
estrutura comum  poesia de Herculano, segundo o que j vimos.

Outra caracterstica geral do seu romance  o gosto da reconstituio minuciosa de 
trajos, interiores, arquitecturas, cerimnias e festividades. Revela-se aqui um 
intenso sentimento do concreto exterior, como se verifica pela narrativa A Abbada, 
em que a personagem principal  a personificao do esprito que atribui  
arquitectura da Batalha. Mas este gosto do concreto alterna com o dos cenrios vagos 
e puramente imaginrios, dominantes nas

narrativas lendrias como a Dama P de Cabra e o Alcaide de Santarm, ou o romance 
Eurico, situado numa  poca sobre a qual Herculano dispunha de poucas informaes.

H ainda a considerar como caracterstica geral do romance histrico de Herculano o 
culto do cavaleiresco, aparentemente incoerente num homem que se dizia *burgus dos 
quatro costados+, e concebia a histria de Portugal como a ascenso da *classe 
rndia+. Os belos lances de armas que o burgus de 1840 ligava  recordao dos 
brases extintos, a defesa da honra

 ponta de espada ou de punhal, etc., enchem muitas pginas do autor da Voz do 
Profeta, onde o conde de Avranches vem apontado como exemplo de carcter inteiro. 
Este valor cavaleiresco  ainda revelado pelo contraste

6. - POCA - O ROMANTISMO                                                   745

com os vilos, geralmente grotescos e tartamudos, que nos romances de Herculano ficam 
abaixo da *classe mdia+, tambm exaltada por paradigmas de herosmo ou tino poltico 
(Ferno Vasques, o Alfageme).

Finalmente, passando por alto vrios aspectos, Herculano deixou assinalado na 
novelstica o seu interesse pelos estudos histricos e toda uma concepo da 
histria. Os seus diversos romances abarcam o conjunto da Idade Mdia portuguesa, a 
cuja investigao se consagrou especialmente: no Eurico, no Alcade de Santarm, o 
domnio rabe; na Dama P de Cabra, a poca da Reconquista; no Bobo, a formao da 
nacionalidade; em Arras por Foro de Espanha, n'O Monge de Cister, na Abbada, a crise 
que marca o advento

da centralizao rgia. Note-se de passagem que este ltimo perodo (reinados de D. 
Fernando e de D. Joo 1)  o mais pormenorizadamente e at o

mais bem tratado, porque, como vimos, Herculano dispunha da extraordinria narrativa 
que so as crnicas de Ferno Lopes, onde tambm Garrett foi colher elementos para o 
Alfageme e o Arco de SantAna. A evocao medieval dos romances de Herculano, como dos 
de Garrett, insere-se na campanha literria romntica do regresso s @<razes 
nacionais+, fazendo tbua rasa da poca clssica que era tambm, para os Romnticos, 
a do absolutismo monrquico e da decadncia nacional.

O Bobo d-nos sobretudo as intrigas dentro da aristocracia portucalense, evocando, 
com largo recurso  documentao, o mundo dos guerreiros e

dos trovadores, to predilecto do Romantismo; mas a Abbada, Arras e O Monge abrem 
uma perspectiva mais ampla e mais palpitante da vida social. Herculano procurou a 
cingir diversos e antagnicos grupos sociais, representar-nos a ideologia prpria de 
cada um e a dinmica das suas relaes mtuas. Isto  visvel sobretudo n'O Monge de 
Cister, que,  falta de um estudo histrico, constitui uma exposio relativamente 
completa das ideias de Herculano sobre esta poca - a poca em que, a seu ver, melhor 
se exprimira a ndole nacional, graas ao carcter democrtico da acesso ao trono do 
mestre de Avis e  influncia poltica conquistada pelos burgueses e mesteirais.

O autor procura mostrar-nos as posies relativas da nobreza, do terceiro estado 
(alis dividido em grandes e pequenos pelas diferenas de for~ tuna), do clero e da 
coroa; o papel decisivo desempenhado pelo direito romano na centralizao monrquica. 
A reconstituio da poca fundamenta-se numa

746                                          HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

informao minuciosa: a procisso de CorpuS, o sarau da corte, o mobilirio, o 
vesturio, as etiquetas, os nomes das personagens, a reunio das Cortes, etc., tm 
por base um ou vrios documentos comprovativos.

A esttica romntica, ao mesmo tempo que suscita esta espcie de realismo social, 
precursor do romance realista da actualidade, provoca uma tendncia para a 
caracterizao deformadora das personagens, polarizadas, como

j notmos, entre o sublime e o grotesco (exemplo o procurador Mem Bugalho TO Monge 
de Cister), o ang lico e o demonaco. Cada personagem assume uma espcie de 
monstruosidade,  dominada por uma nica paixo. Joo das Regras, consagrado 
exclusivamente ao fortalecimento do poder real,  um monstro da hipocrisia, como o 
so, por outras razes, D. Joo de OrneIas ou Leonor Teles. Em muitos casos a paixo 
absorvente  uma vingana que tem origem numa humilhao: tanto no Bobo como n'O 
Monge de Cister desempenha um papel central a vingana do bufo espezinhado por 
nobres.
O bufo est no ponto extremo da escala do grotesco, e por isso mesmo confina com o 
sublime. Nesse esquematismo e truculncia h o bvio rasto do gosto dito 
melodramtico, a que Garrett se no exime tambm, embora o combata, e que deixou a 
sua dedada at no melhor teatro romntico.

Na composio das novelas sucedem-se as cenas dramticas de interior, dominadas pelo 
dilogo e pela descrio minuciosa do ambiente (arquitectura, mobilirio, etc.), as 
cenas de ar livre (procisses, tumultos e comcios populares, etc.); as reflexes 
morais-religiosas, a explicao histrico-social. Normalmente cada um destes gneros 
literrios - dramtico, narrativo-descritivo, expositivo e didctico - ocupa o seu 
captulo prprio. N o h uma integrao perfeita entre estes elementos, ligados por 
contiguidade: a

fico portuguesa em prosa encontra-se ainda em fase incipiente, com

Herculano, trs sculos depois de Bernardim. A paisagem, sem articulao com as 
personagens, a mesma paisagem das Poesias, grandiosa, atirando o espectador para a 
contemplao do infindvel, aparece a enquadrar alguns captulos.

Segundo o padro romntico, o autor comparece no primeiro plano com

os apartes que bordam constantemente a narrativa ou a descrio. Os de Herculano 
oscilam entre a ironia - ironia que  geralmente um sarcasmo, agressivo ou 
desdenhoso, to diverso da ironia garrettiana, mais prxima do humour - e a efuso 
lrico-religiosa, que tem por vezes como fundo as

6. a POCA - O ROMANTISMO                                                  747

evocaes de infncia, onde se sente vibrar uma autntica saudade de horizontes 
perdidos, a mesma que inspira os poemas do desterrado.

Ocupa um lugar  parte na novelstica de Herculano O Proco da Aldeia, que pertence a 
um gnero hbrido entre o ensaio, a novela e o memorialismo.

A personagem central  um sacerdote bondoso, protector dos desvalidos, amado das 
crianas; o ambiente  a aldeia, congregada  volta da igreja, com a vida ritmada 
pelo toque do sino, o pr do Sol que estira a sombra da cruz; o povo que se alegra 
nas manhs de missa e se delicia com os sermes dos dias de festa cheios de 
maravilhas. E esta evocao da aldeia da infncia de Herculano motiva consideraes 
sobre a necessidade afectiva da religio e sobre a superioridade do Catolicismo 
relativamente ao Protestantismo, graas ao seu ritual, imagens, smbolos visveis. A 
parte propriamente narrativa de O Proco oferece-nos quadros de costumes idealizados 
no sentido da utopia, mas sem as violentas deformaes polarizantes que atrs 
referimos. Jlio Dinis inspirar-se-, confessadamente, nele para As Pupilas do Senhor 
Reitor.

Notmos j (repetindo Tefilo Braga) a inteno potica da prosa de Herculano. 
Sobretudo no Eurico, deliberadamente concebido como um poema em prosa, isso  bem 
evidente; mas ainda nos outros romances podemos reconhec-lo, quer pelo vocabulrio 
afinado segundo o tom visionrio j referido, quer pelo flego versicular do ritmo, 
quer pelo sentido epopeico da prpria imaginao plstica. Sob este aspecto a Dama P 
de Cabra  uma obra-prima no s pela euritmia da frase, mas pela da narrativa. Seria 
fcil reduzir a verso muitos pargrafos dos romances, e at da prosa histrica e 
sobretudo polmica de Herculano.  neste ritmo, combinado com o vocabulrio nobre, 
com o vigor sugerido pela j mencionada tendncia amplificadora e pela din mica dos 
contrastes que reside ainda hoje um dos atractivos da sua leitura.

ALEXANDRE HERCULANO: O historiador

No poderemos compreender a obra historiogrfica de Herculano se a

no ligarmos s condies do ambiente, mais especificadamente, aos problemas sociais 
e polticos levantados pela instaurao do Liberalismo em Portugal.

748                                              HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

O primeiro estudo histrico de certo flego empreendido por Herculano so os 
Apontamentos para a Histria dos Bens da Coroa e Forais, reproduzido no volume VI dos 
Opsculos e cuja publicao se iniciou n'O Panorama em 1843. No prefcio explica o

autor a sua inteno de contribuir para o esclarecimento da questo, ento muito 
debatida, da abolio dos direitos senhoriais pela chamada Lei dos Forais de 
Mouzinho, que representa de facto a abolio da velha sociedade portuguesa. 
Herculano, analisando a

sociedade portuguesa medieval, denunciava a injusta origem do sistema fiscal pelo 
qual a nobreza e o clero exploravam a burguesia e o trabalhador, inferindo 
implicitamente a justia da lei de Mouzinho que eliminara essa situao. O processo 
do passado aparece, portanto, a justificar a legislao liberal.

Neste estudo, Herculano anunciava a prxima publicao de uma obra intitulada Estudos 
sobre a Idade Mdia Portuguesa. Esta obra veio efectivamente a lume, mas com outro 
ttulo e outra concepo:  a Histria de Portugal, cujo primeiro volume saiu em 
1846. A ideia inicial de Herculano parece ter sido a de uma histria da classe mdia 
portuguesa,  maneira da Histoire du Ders tat de Thierry; mas, obrigado a rever a 
histria poltica geral, inada de erros, decidiu-se a acrescentar ao primitivo plano 
a narrativa dos acontecimentos polticos e a anlise das institui es.

A historiografia portuguesa, segundo Herculano, reduzira-se a uma *biografia dos 
indivduos eminentes+. O projecto revolucionrio de Herculano  anunciado, desde 
1842, nas Cartas sobre a Histria de Portugal, escritas sob a influncia de Thierry 
(Lettres sur l'histoire de France):

*A histria pode comparar-se a uma coluna polgona de mrmore. Quem quiser examin-la 
deve andar ao redor dela, contempl-la em todas as suas faces. O que entre ns se tem 
feito, com honrosas excepes,  olhar para um dos lados, contar-lhe os veios de 
pedra, medir-lhe a altura por palmos, polegadas e linhas+. E um pouco adiante: *As 
opinies, os costumes, os usos, todos os modos, enfim, do existir da poca em que 
viveu, toda essa existncia complexa de muitos milhares de homens, a que se chama 
nao, devia ter uma influncia imensa, absoluta, naquela existncia individual do 
homem ilustre, que o historiador acreditou poder fazer-se conhecer com os simples 
extractos de quatro crnicas, cosidos com bom ou mau estilo s respectivas certides 
de baptismo, de casamento e de bito+ (Carta IV).

Com efeito, em lugar das histrias dos indivduos e peripcias, Herculano procurou 
dar-nos a da colectividade atravs das instituies, direito, sentimentos colectivos, 
relaes polticas entre as diversas foras e classes sociais. J n'O Monge de Cister 
vimos em jogo esta dinmica social. Aliando a esta perspectiva uma notvel tcnica da 
documentao, um senso crtico

6. - POCA - O ROMANTISMO                                                   749

muito agudo, e uma grande coragem em face dos mitos histricos tradicionais, 
multisseculares e intocveis, Herculano deixou na Histria de Portugal uma obra que 
tem resistido ao tempo, embora com retoques e complementos.

A Histria de Portugal , em resumo, uma histria das instituies, completada com a 
dos factos polticos. Neste ponto convergem, no s a influncia j referida da 
historiografia francesa, mas tambm a da escola histrica de Savigny, que concebe as 
instituies sociais como algo de orgnico e com

existncia prpria, independente da dos indivduos. Esta tese temperava o

individualismo liberal de Herculano, e fazia-o atribuir, como veremos, um

papel relevante na sociedade  tradio histrica. Eis um dos impulsos que o levam a 
procurar no municpio do passado o embrio da estrutura social do futuro. Os 
municpios eram para Herculano (que neste ponto tambm segue Thierry) as clulas 
vivas da nova classe mdia que, aps lutas seculares com

a nobreza e o clero, subira ao poder graas  revoluo liberal. Os forais 
constituiriam o grande livro burgu s de linhagens. Tal valorizao dos municpios 
relaciona-se intimamente com o programa municipalista que Herculano preconizou, 
segundo veremos, como soluo para o problema poltico e social portugus na sua  
poca.

Os limites que hoje sentimos na Histria de Portugal so de duas ordens. Por um lado, 
a insuficiente informao relativa s estruturas econmicas e

laborais, da resultando que as lutas sociais nos aparecem sob um aspecto 
abstractamente poltico e jurdico. Esta limitao encontra-se alis em toda a 
historiografia romntica. Por outro lado, a quase ausncia da problemtica 
etnolgica, lingustica e cultural. Assim se explica que Herculano tenha descartado 
as origens pr-romanas (e portanto as pr-histricas) do povo portugus, eliminando o 
problema das suas relaes com os Lusitanos, e datando a existncia de Portugal da 
fundao do Condado Portucalense (poca em

que os falares romnicos j estavam, h um ou dois sculos, diferenciados). Alm 
disso, David Lopes revelou o desconhecimento de importantes fontes histricas rabes, 
e a sua prpria informao jurdica apresentava deficincias de que, alis, estava 
consciente.

Seria fcil tambm apontar nas obras histricas de Herculano certo providencialismo 
histrico e certo moralismo sumrio, que encontrmos j na

concepo dos seus romances. A personalidade de Herculano lateja, natu-

750                                          HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

ralmente, de conflitos ntimos; embora as suas crenas poticas nem sempre interfiram 
com o senso de certas realidades, que vimos ser nele muito vivo.

No entanto o que mais escandalizou os contemporneos de Herculano foi a denncia de 
certas fraudes hist ricas, especialmente quanto  batalha de Ourique, em que D. 
Afonso Henriques teria sido sagrado rei pelo prprio Cristo. Cames cantara esse 
acontecimento n'Os Lusadas, os polemistas da Restaurao utilizaram-no contra a 
dinastia filipina, e tornara-se o atestado da origem divina da monarquia portuguesa. 
J no sculo XVIII Verney descr do *milagre+. Mas foi a pretexto da sua demolio 
crtica por Herculano que se desencadeou a luta ideolgica entre tradicionalistas e 
renovadores, numa violenta polmica, em que o clero desempenhou um papel muito 
importante, no s na imprensa, mas no prprio plpito de algumas igrejas. Herculano 
aceitou o desafio e assumiu o papel de lder progressista que lhe atribuam os 
adversrios. Em vrios folhetos de polmica denunciou a campanha que lhe era movida 
como um ataque clerical *ultramontano+ contra

o seu liberalismo, romanticamente catlico. Nesta perspectiva escreveu a

Histria da Origem e Estabelecimento da Inqusio em Portugal, 1854-59, que pode 
considerar-se como prolongamento daquela polmica.

Esta obra tem o propsito de mostrar o papel *do fanatismo e da hipocrisia+ na 
introduo do tribunal do Santo Ofcio, acompanhando pormenorizadamente a 
correspondncia entre o rei de Portugal, os seus embaixadores e a corte pontifcia 
acerca do assunto. No se pode contestar a veracidade dos factos, por vezes 
surpreendentes, relatados neste livro; documentalmente a obra deve considerar-se 
intacta, e a sua leitura ainda hoje  indispensvel. Mas no h dvida de que fica 
muito abaixo do nvel da Histria de Portugal: no  j, com efeito, uma histria da 
sociedade, mas sim o relato de uma intriga de alguns indivduos sem escrpulos, em 
que a apreciao moral dos caracteres predomina sobre uma objectiva sociologia. 
Segundo uma tese tipicamente iluminista, o fanatismo de D. Joo III, a hipocrisia de 
alguns prelados e prncipes da Igreja, que ocupam o primeiro plano, aparecem como

foras originrias dos factos; e s secundariamente, como em pano de fundo, se 
desenha o seu contexto social.

Para completa apreciao da obra de Herculano como historiador, convm tomar em 
considerao alguns outros estudos seus, como as Cartas sobre a Histria de Portugal, 
os Apontamentos para a Histria dos Bens da Coroa e Forais, ambos j citados, os

6. a POCA - O ROMANTISMO                                                            
 751

Estudos sobre o Casamento Civil, que contm matria histrica, o estudo sobre o 
Estado das Classes Servas na Pennsula e o estudo sobre o Feudalismo, ambos 
publicados tambm nos Optsculos, onde saram ainda ensaios histricos menores, como 
os referentes  batalha de Ourique. Foi ainda Herculano quem iniciou a publicao 
sistemtica dos mais antigos documentos histricos portugueses na coleco 
Portugaliae Monumenta Hstorca, dividida em 4 seces: Diplomata et Chartac, Leges 
et Consuctudines, Inquirtiones, Scriptores.

Herculano como doutrinrio e polemista

A actividade de Herculano como historiador , j o vimos, um aspecto da sua 
participao no debate dos problemas primaciais do seu tempo. Tanto a Histria de 
Portugal como a da Origem e Estabelecimento da Inquisio so peas de uma ardente 
polmica que acompanhou a reforma mental correspondente  implantao do Liberalismo 
no nosso pas. Ao lado destas duas obras de propores monumentais, ocupam um lugar 
muito importante os

artigos de polmica circunstancial, muitos deles reunidos nos Optsculos. Uma parte 
deste material nasceu de uma intensa actividade i ornalstica: Herculano dirigiu ou 
foi colaborador de vrios peridicos, como O Panorama, a Revista Universal 
Lisbonense, O Pas e O Portugus (estes criados por sua inspirao para combater o 
governo regencrador), A Ptria, etc. Nem todos os seus artigos jornalsticos eram 
assinados, e muitos por isso esto ainda por identificar.

Devem distinguir-se duas pocas na actividade de Herculano como jornalista e 
polemista: na primeira, anterior  polmica com o clero a propsito da batalha de 
Ourique (1850), predominam os assuntos polticos, pedaggicos e literrios 
relacionados com a adaptao ao nosso pas das novas instituies; na segunda, que 
vai at  morte, predominam os temas relacionados com a crise social europeia 
subsequente  revoluo de 1848, com

as novas condies sociais portuguesas que se desenvolvem a partir da Regenerao 
(1851) e com a adaptao da hierarquia religiosa  nova estabilidade hegemonizada 
pela alta burguesia, em grande parte nobilitada.

Antes de 1850, Herculano defendeu contra o radicalismo *setembrista+ uma posio 
conservadora, expressa com solenidade quase bblica na Voz do Profeta; combateu 
manifestaes de descrena religiosa, o utilitarismo benthamsta da ideologia 
burguesa britnica, defendeu humanitariamente os

752                                              HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

egressos dos conventos extintos e os monumentos nacionalizados, no obstante apoiar 
incondicionalmente a legislao que aboliu os direitos senhoriais e as ordens 
religiosas, os dois pilares do Antigo Regime.

Entre os problemas de momento que mais o interessaram nesta poca, conta-se o do 
ensino popular e geral que, a seu ver, devia substituir o ensino privilegiado 
caracterstico da monarquia absoluta e a que desejava dar um

cunho acentuadamente agrcola e tcnico. Na criao de urna cultura popular com 
orientao prtica via Herculano a condio indispensvel para poder organizar-se o 
verdadeiro regime liberal.

A esta mesma poca pertence ainda a campanha pela criao de uma nova

literatura. Herculano defendeu as teorias platonizantes de origem alem divulgadas 
por Madame de Stal, segundo as quais a arte era a expresso de arqutipos ideais e 
no imitao da natureza como sustentavam, quer os clssicos, quer os empiristas das 
Luzes; mas, em contraste com o estilo aristocrtico e o individualista do Romantismo 
alemo, preconizou uma arte para o grande pblico, cujo principal gnero deveria ser 
o drama romntico, vendo em Bocage o precursor da nova literatura feita para a praa 
pblica e no para os sales. Por outro lado, ainda, assimilou os ensinamentos dos 
irmos SchIegel sobre a importncia das literaturas medievais e das tradies 
populares como herana a recolher pela nova escola literria. Algumas das suas ideias

ficaram expressas em relatrios sobre peas apresentadas ao Conservatrio, 
integrando-se assim na reforma do teatro empreendida por Garrett.

A partir de 1850, verifica-se uma mudana nos temas mais insistentemente tratados por 
Herculano, e at mesmo uma mudana geral de atitude perante os problemas nacionais e 
europeus. As suas teses polticas, sociais e religiosas tornam-se mais precisas e 
mais combativas; o contexto doutrinrio em que se inserem alterou-se profundamente e 
deu um sentido novo a ideias j antigas.

Como vimos na introduo, o meio do sculo marca, tanto em Portugal como noutros 
pases da Europa ocidental, o fim provisrio das insurreies e movimentos populares 
e nacionais, a restaurao do autoritarismo em Frana, o avano do capitalismo 
industrial e consequente proletarizao, o reajustamento da Igreja Catlica e a 
difuso do movimento socialista.  nesse contexto que em Portugal se inscreve a 
Regenerao.

Herculano foi sensvel a alguns problemas caractersticos desta viragem. Para o 
problema social criado pela industrializao e a correspondente proletarizao props 
o

6. a POCA - O ROMANTISMO                                                            
     753

fomento agrcola (sobreposto, no fundo, ao industrial) e a diviso cautelosa e lenta 
da propriedade rural. O seu ideal de sociedade, exposto principalmente no projecto de 
lei sobre os vnculos, no projecto de bancos municipais e na polmica sobre a 
emigrao (1874), era o de uma federa o de pequenos e mdios proprietrios 
agrcolas, com um

mnimo de proletariado rural ou fabril por eles tutelado. Como consolidao da mdia 
propriedade chegou mesmo a preconizar a adaptao da instituio feudal da enfiteuse, 
de modo a proporcionar a efectiva deteno da terra a camponeses desprovidos de 
capital. Para obstar ao desenvolvimento da banca capitalista, preconizou a 
instituio de pequenas cooperativas bancrias municipais.

Contra a centralizao poltica e a viciao do regime parlamentar por um sistema de 
partidos alternando-se no poder, que no fundo s representavam faces diversas da 
oligarquia poltico-financeira, defendeu Herculano uma larga descentralizao atravs 
de um sistema de municpios dotados de grande autonomia e que, federando-se, 
interviessem efectivamente na orientao poltica nacional. Este programa foi 
principalmente debatido em uma srie de artigos publicados n'O Portugus (1853).

Quanto ao ultramontanismo, Herculano tomou uma posio muito enrgica, quer na

polmica sobre o milagre de Ourique, quer nas que se travaram em torno da Concordata 
de 1857, do casamento civil, da introduo das Irms de Caridade, quer ainda em 
cartas

escritas ao padre Barros Gomes. Herculano declarava-se crente e catlico, como na 
poca em que escreveu O Proco da Aldeia, mas defendia um catolicismo que considerava 
tradicional e o nico legtimo, em profundo acordo com o Liberalismo. Esta doutrina 
religiosa, que se aproximava do galicanismo, tinha entre outras caractersticas: a 
no interferncia eclesistica na vida civil, uma grande autonomia dos prelados 
seculares, nas

dioceses, mantendo a eliminao das ordens monsticas, e sobretudo da crescente 
influncia da Companhia de Jesus; a subordinao do Papa  autoridade do grmio dos 
fiis representado pelos conclios, isto , o regresso  democracia conciliar que 
vigorara at ao

sculo XVI, resultante da electividade dos prelados pelos fiis, que existira na 
Cristandade da Alta Idade Mdia; a defesa da tradio contra as inovaes 
doutrinrias e disciplinares trazidas pelo conclio de Trento. Tal doutrina, que 
contava muitos adeptos em


Portugal, at mesmo entre o clero, e que tinha atrs de si a tradio da poltica 
religiosa pombalina, estava, no entanto, em profundo desacordo com a orientao 
oficial da Igreja, que em 1869 consagrou finalmente a infalibilidade do Papa em 
matria dogrutica, e que atravs da encclica Quanta Cura, 1864, e do consecutivo 
Syllabus, ou compndio de doutrinas condenadas, marcou de maneira mais ntida a sua 
oposio ao liberalismo progressivo e  actualizao doutrinria.

Herculano nunca repudiou o Catolicismo, mas achou-se automaticamente fora do seio da 
Igreja. E pela sua luta contra a interferncia dos neg cios eclesisticos na esfera 
civil, contra a reintroduo das ordens religiosas, contra os Lazaristas e Jesutas, 
e pela defesa do casamento civil, veio a tornar-se na sua poca o mais influente 
crtico do clero reaccionrio de Portugal.

754                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Ao mesmo tempo que isto se dava, penetravam em Portugal correntes doutrinrias mais 
radicais, positivistas ou hegelianas, incluindo a crtica antropocntrica da religio 
por Feuerbach e as dos textos bblicos por Renan. Herculano nunca aderiu a estas 
novas

correntes, e mesmo quando foi consultado a propsito da arbitrria proibio das 
Conferncias do Casino no deixou de se situar na posio de um catlico *legftimo+ e 
anti-ultramontano. Praticamente, encontrou-se no campo da defesa da liberdade de 
pensamento ao lado da gerao que se lhe seguiu, mas fundamentando-se em pressupostos 
completamente diversos dos que norteavam aquela.

O mesmo sucedeu com respeito s suas ideias polticas e sociais: a gerao de 70 
coincidiu com Herculano na sua crtica ao funcionamento das instituies 
representativas em Portugal, e na tese de que elas estavam servindo uma degradao da 
realidade nacional em proveito de oligarquias. Mas, sendo ambos, em relao a este 
estado de coisas, crticos declarados, Herculano era-o em nome de um liberalismo 
fundamentado na autonomia individual, e os representantes da gerao mais jovem (em 
grande parte, seus discpulos) em nome de um socialismo utpico. Havia, no entanto, 
entre eles certas outras afinidades: assim, o regime de grande autonomia municipal, 
sonhado por Herculano, tendia tanto para o anarquismo como a federao de produtores 
que Antero preconizava, por inspirao de Proudhon. O documento mais expressivo da 
utpica ideologia liberal de Herculano  o seu estudo sobre a propriedade literria, 
onde, com incontestvel coerncia, nega, em nome do direito de propriedade (que supe 
fundado no trabalho), o direito do autor ao exclusivo editorial das suas obras, visto 
que a impresso destas, segundo ele,  produto do trabalho, no apenas do autor, mas 
de todos os trabalhadores do livro que concorrem para a edio, e visto que a 
propriedade se exerceria apenas sobre objectos materiais e nunca sobre os 
espirituais; alm de que esse direito favorecia sobretudo os autores franceses 
traduzidos.

Em resumo, pode afirmar-se que Herculano foi, na sua obra polmica e doutrinal, o 
mais legtimo representante da teoria jurdica, econmica e

social do Liberalismo, embora, apesar disso, ou at talvez por isso mesmo, se 
encontrasse em luta com as instituies que no nosso pas vieram a resultar da 
instaurao do novo regime.

Algumas das melhores qualidades literrias de Herculano ressaltam nos seus artigos e 
obras polmicas, que o consagram como o nosso maior polemista romntico: a sua 
intensa emotividade parece realizar-se no ardor da luta; o gosto do sarcasmo d 
contundncia  sua prosa; a nfase amplificadora confere dignidade aos problemas 
debatidos, elevando-os sempre  categoria de grandes causas, mesmo quando se trata de 
questes de origem pessoal, como foi a intriga tecida  volta da nomeao de um 
funcionrio incompatibilizado com Herculano para a direco da Torre do Tombo, que 
originou

6. 8 POCA - O ROMANTISMO

755

as pginas solenes da Carta  Academia. Com esta emotividade sobreaquecida e 
engrandecedora, que se manifesta tambm no ritmo versicular e no vocabulrio solene, 
conjuga-se uma ordenao clara dos argumentos, a preciso (em geral idealizante) dos 
conceitos e das teses que defendia ou atacava.

111111,6181I06k4FZA

1. Textos

A VozdoProfeta, 1. srie, Ferrol (indicao provavelmente fictcia), 1836; 2.a 
srie, Lisboa, 1837 (reed. nos Opsculos).

A Harpa do Crente, 1. a, 2. > e 3. a sries, Lisboa, 1838. As composies desta 
coleco foram depois novamente publicadas com algumas alteraes no vol. Poesias 
(ver adiante), que inclui mais algumas composies poticas do autor.

Da Escola Politcnica e do Colgio dos Nobres, Lisboa, 1841 (reed. nos Opsculos). 
Eurico, Lisboa, 1844 (reed. em 1847, 1854).

Histria de Portugal, tomo 1, Lisboa, 1846 (2. > ed. 1853; 3. > ed. 1863), tomo li, 
ibid. 1847 (2. > ed. 1854); t. O lii, id. 1850 (2. > ed. 1858); t. O IV, 1853. Est 
ainda por editar o t. > V, que parece ocupar-se do aspecto financeiro da poca 
estudada. Reed. em

1980-81, Bertrand, Lisboa, de 4 vols.; reed. Ulmeiro, Lisboa, at ao livro Vil, 1984.

O Monge de Cster, 1848. Poesias, Lisboa, 1850; 2. > ed. 1860; 3. > 1872 (as 
variantes desta ed. entre si relativamente  Harpa do Crente foram minuciosamente 
estudadas por Brito Aranha no vol. XX1 do Dicionrio Bibliogrfico). Ed. aum. em 
Obras Completas comemorativas do centenrio, 2 vols., 1978.

Lendas e Narrativas, Lisboa, 185 1; 2. a ed. 1858; 3. > 1865 (inicialmente publicadas 
n'*O Panorama+ entre 1839 e 1844).

Eu e o Clero, Lisboa, 1850 (reed. nos Opsculos). Consideraes pacficas sobre o 
opsculo *Eu e o Clero+ , Lisboa, 1850 (reed. nos Opsculos).

Solemnia Verba, 1 e li, Lisboa, 1850 (reed. nos Opsculos). A Cincia arbico-
acadrnica, Lisboa, 1851 (reed. nos Opsculos). Da Origem e Estabelecimento da 
Inquisio em Portugal - Tentativa Histrica, t. 1, Lisboa, 1854; li, 1855; lii, 
1859; 2. > ed. 1864-67-72, com o ttulo mais ambicioso de Histria da Origem e 
Estabelecimento da lnquiso em Portugal.


A Reaco Ultramontana em Portugal, Lisboa, 1857 (reimpresso nos Opsculos). Ao 
Partido Liberal Portugus, a Associao Promotora da Educao do Sexo Feminino, 
Lisboa, 1858 (reed. nos Opsculos).

756                                                   HISTRIA DA LITERATURA 
PORTUGUESA

Estudos sobre o Casamento Civil, Lisboa, 1866.

Opsculos: torno 1 e ll, Lisboa, 1873; 111, 1876. Os restantes vols. foram 
organizados e editados postumamente: IV, 1879; V, 1881; VI, 1886; VII, 1898; VIII, 
1901; lX,
1907; X, 1908. Reed. em curso com inditos e dispersos ern Obras Completas de 
Alexandre Herculano, org. por Joei Serro, textos verificados por Ayala Monteiro, 
Bertrand (1 . > vol., 1983); ed. com introd. e notas de Jorge Custdio e Jos Manuel 
Garcia, Presena, 6 vols., 1983-88.

O Bobo, 1878 (ed. pstuma, aproveitando os captulos publicados n'*O Panorama+ em 
1843 e a reviso e acrscimos feitos pelo autor em vista da ed. que preparava). 
Existe uma contrafaco brasileira, ed. sem autorizao do A. dos captulos d'*O 
Panorama+, datada de 1866.

Cartas, 1. > vol. 1911, 2. > 1914, Lisboa.

Cartas Inditas de Alexandre Herculano, editadas por Lus Silveira, Lisboa, 1944. 
Cartas de Alexandre Herculano ao Duque de Palmela, ed. e pref. de Vitorino Nemsio, 
Lisboa, 1952.

Cartas de Vale de Lobos (3. >, 4. > e S. > vols. das Cartas), com pref. e notas de 
Vtorino Nemsio, Lisboa, 1951-53.

Composies vrias, Rio de Janeiro, s/d (1910?). Alm dos Opsculos, h outras 
colectneas de artigos dispersos de Herculano nas seguintes obras:

Cenas de um Ano da Minha Vida, coord. e pref. de Vitorino Nemsio, Lisboa, 1934 
(contm um manuscrito j parcialmente publicado, uma descrio de viagem das Lendas e 
Narrativas, trs fragmentos publicados n'*O Panorama+, e Apontamentos de Viagem publ. 
no Arquivo Histrico Portugus).

A ed. crtica, em curso, das Obras Completas adiciona sete dispersos ao vol. 11 de 
Lendas e Narrativas, donde extrai a mencionada descrio, e ainda O Proco da Aldeia, 
que passa a agrupar-se em vol. com o texto burlesco incompleto O Galego, que alis 
mais uma vez exprime a distanciaco herculaniana em relaco s camadas mais modestas.

Herculano Desconhecido, coord., pref. e notas de Antnio Jos Saraiva, Lisboa, 1953 
(contm 24 artigos de Herculano publicados n'*O Portugus+, em 1853, sem assinatura),
2. ed. 1972.


Vrias cartas de Herculano esto publicadas por Antnio Baio, no vol, Herculano 
Indito, Lisboa, 1953, e no opsculo com o mesmo ttulo, sep. das *Memrias da 
Academia+, Lisboa, 1955. Ver indicaes bibliogrficas completas e estudo em Rocha, 
Andre Crabb: A Epistolografia em Portugal, 2. ed., IN-CM, 1984, pp. 245-254.

2. Antologias

Srgio, Antnio: Sobre Histria e Historiografia, col. *Textos Literrios+, Lisboa, 
1937. Saraiva, Antnio Jos: Seleco de Lendas e Narrativas, Lisboa, 1949. Coelho 
Antnio Borges: Alexandre Herculano, *col. *Biografia de Bolso+, Lisboa,
1965.

6. >POCA - O ROMANTISMO                                                             
      757

Poesia de Alexandre Herculano, apres. crtica, selec. e notas de M, da Graca Videira 
Lopes, *Textos Literrios+, Seara Nova/Comunicao, Lisboa, 1981, com bbliografia 
especfica.

3. Estudos

Para o conjunto da bi@ografia ver Ribeiro, Carios Portugal: Alexandre Herculano, a 
sua vida e a sua obra, 2 vols., 1933-34; e Saraiva, Antnio Jos: Herculano e o 
Liberalismo em Portugal, Lisboa, 1977.

Para a parte anterior a 1834, Nernso, Vitorino: A Mocidade de Herculano, 2 vols.,
1934, reed. 1978.

Encontra-se muito material biogrfico e bibliogrfico importante no vol. 21 do 
Dicionrio Bibliogrfico, de Brito Aranha, obra fundamental.

O memorialista mais informativo  Pato, Bulho: Os ltimos Dias de Alexandre 
Herculano, 1880, alm de Memrias, 3 vols- 1894 e 1907, e Sob os Ciprestes, 1877.

Ver ainda pref. e anotaes de Vitorino Nemsio s Cartas de Vale de Lobos e Cenas de 
um Ano da Minha Vida.

Sobre a obra:

Braga, Tefilo: Histria do Romantismo em Portugal, 1880. Martins, Oliveira: Portugal 
Contemporneo, 1883. Lopes, David: Os rabes na obra de Alexandre Herculano, 19 11.

Srgio, Antnio: introd. ao vol. Sobre Histria e Historiografia, col. *Textos 
Literrios+, Lisboa, 1937.

Ribeiro, Carios Portugal: Alexandre Herculano, a sua vida e a sua obra, 2 vols.,
1933-34.

Carvalho, J. Barradas de: As ideias polticas e sociais de Alexandre Herculano, 1949, 
reed. corr. e aum. pela *Seara Nova+, 197 1, corn extensa bibliografia crtica; e Da 
Histria-Crnica  Histria- Cincia, col. *Horizonte+, Lisboa, 1972.

Saraiva, Antnio Jos: as duas obras acima mencionadas,

Beau, Aibin: O Conceito de Histria de Alexandre Herculano, Coimbra, 1931.

Cidade, Hernni: Sculo XIX, col. *Ensaio+, Lisboa, 1961.

Mendes, Joo: Literatura Portuguesa 111, Verbo, 1979, pp, 111- 183. Teixeira, Maria 
Teresa Camanho: O romance histrico em Sir Walter Scott e A. Herculano, dissertao 
de licenciatura, Fac. Letras de Coimbra, 197 1.

Ferreira, Alberto: Perspectiva do Romantismo Portugus, Lisboa, 197 1, reed. 1978 
(ope um Herculano fundamentalmente romntico, medievista e lamartiniano a um Garrett 
que, no essencial, representaria a continuidade das Luzes).

Ferreira, A. M. Gomes: O estilo de *Eurico o Presbtero+, Coimbra, 1945 (aponta 
caractersticas quase versificatrias de certos passos).

Frana, Jos Augusto: O Romantismo em Portugal, 2. vol.

758                                               HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Serro, Joel: Portugueses Somos, Lisboa, 1976. Entre os trabalhos ligados s 
comemoraes do centenrio da morte de Herculano, contam-se:

O vol. colectivo Alexandre Herculano  Luz do Nosso Tempo, ed. da Academia Portuguesa 
de Histria, 1977.

Medina, Joo: Herculano e a Gerao de 70, Terra Livre, Lisboa, 1977. Serro, Joaquim 
Verssimo: Herculano e a Conscincia do Liberalismo em Portugal, Bertrand, 1977.

Baptista, Jacinto: Alexandre Herculano Jornalista (com antologia de textos no 
reunidos em vol.), Bertrand, 1977.

Beirante, Cndido: A Ideologia de Herculano, e Herculano em Vale de Lobos, ambas ed. 
Junta Distrital de Santarm, 1977; Alexandre Herculano - as faces do poliedro, ed. 
Vega, 1991.

Ed. do texto de Oliveira Martins sobre Alexandre Herculano, Livros Horizonte, Lisboa.

Coelho, Jacinto do Prado: Herculano Poeta - Cambiantes e Tenses, in 
*Colquio/Letras+, 41, Janeiro de 1978, pp. 5- 18, e Herculano poeta, sep. *Memrias 
da Academia das Cincias+, Seco Letras, 1978.

Lopes, scar: Como Herculano se via e como ns o vemos, in Modo de Ler, 1969, pp. 211 
e segs.; Reflexes sobre Herculano como polemista, in lbum de Famlia, Caminho, 
Lisboa, 1984, pp. 27-52.

Coelho, Antnio Borges: Questionar a Histria, Caminho, Lisboa, 1983, pp. 227-266. 
Macedo, Jorge Borges de: Alexandre Herculano: Polmica e Mensagem, 1977-78, sep. 
*Memrias da Academia das Cncias+, Seco Letras.

Mattoso, Jos: A Escrita da Histria, Estampa, 1988, pp. 65-114, resume a evoluo 
dos arquivos portugueses e da histria documental, antes e depois de Herculano.

Captulo IV

AS PRIMEIRAS CORRENTES ROMNTICAS

ROMANTISMO: Condies gerais

Entre a Conveno de vora Monte (1834) e o incio da Regenerao (185 1) decorre a 
primeira fase do regime constitucionalista. A transformao podia considerar-se 
irreversvel e por isso a causa de D. Miguel converte-se numa forma de sebastianismo 
para certas populaes rurais, especialmente no Minho, ou incorpora-se no saudosismo 
romntico de certos escritores. Nesta fase, a grande luta indecisa est a travar-se 
entre duas

foras sociais e polticas: a pequena burguesia radical, ligada aos primeiros 
tentames de industrializao, sobretudo no Porto, e chefiada pelos irmos Passos 
(Manuel e Jos), que se assenhoreia do poder pela Revoluo de Setembro (1836) e mais 
tarde (1845) dele se abeira com o levantamento das Juntas patuleias; e o capitalismo 
latifundirio e financeiro, constitudo pelos prestamistas de D. Pedro IV, grandes 
arrematantes dos bens feudais expropriados, e accionistas das primeiras companhias 
bancrias e monopolistas, cujos representantes polticos foram Silva Carvalho e 
sobretudo os dois irmos Costa Cabral.

A influncia da Corte, dos diplomatas, dos marechais e de alguns polticos e 
capitalistas mais hbeis conjugaram~se com a indiferena da grande massa rural do 
Pas no sentido

de eclipsar cada vez mais o radicalismo vintista, setembrista e patulcia, que s mais 
tarde reaparecer transformado em propaganda republicana. Se nos primeiros anos do 
constitucionalismo triunfante era possvel sonhar o futuro portugus como o de um 
pas de pequenos lavradores, industriais e comerciantes, desenvolvendo-se ao abrigo 
de pautas alfandegrias e do crdito barato, solidamente organizados em associaes 
progressivas e

instituies administrativas de eleio directa, com a conscincia cvica formada por 
um sistema completo e moderado de instruo pblica, detendo a soberania poltica sem 
quaisquer interferncias do monarca ou de uma cmara de sua nomeao, etc. - dobrado 
o

meio sculo, aps o movimento da *Regenerao+ de 1851 todas as esperanas esto numa 
Regenerao, num Progresso, fomentados por uma administrao fortemente centra-

760                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

lizada, burocratizada, empenhada nas obras pblicas, sobretudo vias-frreas, 
absorvendo para esse efeito a maior parte do crdito financeiro disponvel, nacional 
ou estrangeiro, e reconciliando-se ideolgica e pedagogicamente com o que achava de 
assimilvel nos

valores clssicos e religiosos do Antigo Regime.

J vimos como esta evoluo se traduz nas duas principais personalidades da nossa

primeira gerao romntica. Ligadas desde o incio aos ideais da pequena burguesia, 
apesar de um ser vintista e o outro cartsta, Garrett e Herculano encarnam bem uma 
atitude de cepticismo amargo ou de protesto ineficaz perante as consequncias 
imprevistas da revoluo liberal. Mas os sinais dos tempos tornam-se ainda mais 
visveis quando se examinam as figuras menores do primeiro Romantismo Portugus.

ffiCASTILHO e o academismo romntico

Nada melhor do que a obra de Antnio Feliciano de Castilho (ri. Lisboa,
1800-01-21 - t 1875-06-18) representa as fraquezas do primeiro Romantismo literrio 
em Portugal: as sobrevivncias arcdicas nela contidas, o receiturio a que obedecem 
as aparencias, a superficialidade, at, das suas utopias. A sua biografia literria 
ajusta-se bem  evoluo do gosto e das ideias em voga, a que soube sempre amoldar-
se.

Filho de um lente coimbro, A. Feliciano de Castilho cegou quase completamente com 
uni sarampo aos seis anos de idade. Faculdades excepcionais, como a memria verbal 
auditiva, permitiram-lhe, contudo, fazer os seus estudos de latinidade e, graas  
ajuda do irmo Augusto, pde mesmo licenciar-se em Cnones. Tais proezas, acrescidas 
de uma notvel facilidade versificatria e estilstica, criaram no meio da famlia e 
suas relaes como que a expectativa de uma espcie de Homero ou Milton. Admiradores 
prestigiosos, como Ribeiro dos Santos e Jos Agostinho de Macedo, suscitam uma corte 
em

torno do prodgio, que entretanto se inicia na estlstica empolada de Bocage e no 
descritivismo convencionalmente campestre e sentimental de Gessner. A publicao de 
Cartas de Eco a Narciso, em 182 1, e a fundao de uma espcie de arcdia estudantil, 
a Sociedade dos Poetas Amigos da Primavera, que chegou a realizar uma sesso ao ar 
livre na

Lapa dos Esteios segundo um ritual pretensamente pago, revelam a influncia do 
neoclassicismo que dominava entre ns ao tempo da primeira vitria liberal. 
Doravante, a


grande importncia de Castilho consistir em exercer um vasto magistrio literrio, 
assimilando e exprimindo as modas e as correntes oportunamente mais viveis. Verscj  
       .ou 

morte de D. Maria 1,  acesso de D. Joo VI,  *Liberdade+ em 1820,  Vila-Francada 
em 1823, ao exlio do <@Usurpador+ D. Miguel,  morte de D, Pedro IV, etc.

Os anos temerosos da contra-revoluo miguelista e das lutas liberais, passou-os 
junto do irmo Augusto, ento proco de uma freguesia da Beira. De um longo namoro, 
que

6, a POCA - O ROMANTISMO                                                            
     761

em 1834 se consumou pelo casamento, extraiu o melhor de um livro de pequenas peas 
lricas sentimentais pr-romnticas: Amor e Melancolia (1828). Entretanto, capta no 
ar

os novos gostos literrios; assimila a mtrica, o estilo de Cames e D. Branca, os 
ambientes de fantasmagoria e truculncia cavaleiresca da novela inglesa ou do 
melodrama e escreve Os CiLimes do Bardo e a Noite do Castelo, que, juntamente com o 
projectado Ermito da Arrbida, constituiriam a *trilogia da paixo+, da paixo 
amorosa ultra-romntica, rematando no crime, no suicdio ou na loucura.

A publicao dos dois poemas em 1836 parece ter contribudo, juntamente com numerosas 
tradues de Walter Scott, dos pr-romnticos franceses, ingleses, alemes e com

as novelas de Herculano, para a difuso entre ns do ultra-romantismo medievista.

Neste mesmo ano e sob o novo clima da revoluo setembrista, traduz e prefacia com 
acentos de republicanismo Palavras de um Crente de Lamennais, obra cujo estilo 
Herculano imitou na Voz do Profeta e que tanto contribuiu para ligar ao cristianismo

as tendncias humanitrias do romantismo liberal. Esta fase em que Castilho, 
literariamente sob a influncia de Herculano, assimila a corrente romntica, numa 
verso sentimentalmente formalista, remata com os Quadros Histricos de Portugal 
(1839). Ele, que sempre ridicularizara Filinto Elsio, vai iludir a distncia que 
separa do pitoresco histrico os seus gostos arcdicos e provincianos, descrevendo em 
estilo pretensamente rico, vernculo, filintista, grandes figuras medievais 
portuguesas, os seus actos mais ou menos

lendrios de alta bizarria herica e moral.

A morte da primeira esposa e do desvelado irmo Augusto marca uma pausa na carreira, 
que mudar de rumo. A partir de 1842, a direco da Revista Universal Lisbonense, uma 
das mais importantes da nossa poca romntica, permite-lhe exercer uma

influncia considervel, que transborda dos meios restritamente literrios. Essa 
influncia vai inteiramente ao encontro da reaco tradicionalista que ento se fazia 
sentir sob


os Cabrais; a revista arvora-se em guardi dos bons costumes, da s nioralidade e de 
um temperado eclectismo literrio que se arrima aos clssicos eternos.  talvez ao 
prestgio assim alcanado e ao cunho andino da sua obra que se deve a homenagem 
prestada em 1844 pelo grupo de jovens lricos de Coimbra que colaboravam em O 
Trovador, sob orientao de Joo de Lemos. Castilho refora esta reaco 
classicizante com a edio das suas Escavaes Poticas (1844), que do Romantismo 
retm apenas o gosto dos temas folclricos e de uma certa expresso directa, e com a 
colaborao que presta ao irmo Jos numa antologia que este dirige no Brasil, a 
Livraria Clssica Portuguesa. Em 1846 ridiculariza os movimentos populares com uma 
Crnica certa e muito verdadeira da Maria da Fonte.

A crise do cabralismo e a revoluo europeia de 1848 vo encontr-lo em S. Miguel. 
Surge-nos ento outro Castilho: o Castilho utopicamente progressista, membro 
influente da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, redactor de O Agricultor 
Micaclense, cujos artigos, editados depois em volume sob o ttulo de Felicidade pela 
Agricultura (1849), pregam as excelncias do trabalho agrcola, a *fraternidade 
agrria+ entre

762                                                  HISTORIA DA LITERATURA 
PORTUGUESA

as classes sociais, a fundao de sociedades de agricultores que tivessem como 
primeiro objectivo a instruo e a organizao do crdito mutualista - assentando 
sobre tais bases uma reforma do Pas, que abrangeria o exrcito, o prprio regime 
representativo partidrio, a jerarquia religiosa, eliminaria a inferioridade poltica 
e civil das mulheres, etc. Tudo isto sem detrimento das instituies polticas e 
religiosas vigentes, antes delas obtendo a devida vnia e apoio.

A partir de ento,  incansvel a aco de Castilho em torno de certos objectivos 
pedaggicos, cuja impraticabilidade est em grande parte ligada ao pessoalismo,  
profunda carncia de autocrtica que o caracterizavam. Assim, o seu esforo em prol 
do associativismo agrrio e da instru o bsica prende-se excessivamente com o 
ensino da versificao, com o uso ninemnico dessa mesma versificao, com a 
organizao de certos saraus de recitativo e canto em que os seus prprios poemas e 
hinos figuravam. O conhecido Tratado de versficaoportuguesa para em pouco tempo e 
at sem mestre se aprender a fazer versos de todas as medidas e composies (185 1) 
teve a o seu ponto de partida. Foi tambm a que se iniciou a campanha a favor do 
Mtodo Castilho ou Mtodo Portu,gus Castilho de aprendizagem da leitura, simples 
adaptao, alis, de um mtodo francs, que o nosso poeta propagandeou pessoalmente, 
sem xito, nos Aores, no Continente e no Brasil, sustentando urna spera polmica, 
atravs de folhetos agressivos, como Tosquia de um Camelo (1853) e Ajuste de Contas 
(1854).

Na ltima fase da vida, Castilho dedica-se em especial a tradues em verso. J 
anteriormente levara a cabo a verso que Bocage iniciara nas Metamorfoses de Ovidio, 
e traduzira, com grandes liberdades, diversas peas francesas em voga, incluindo um 
Cames de dois autores franceses, Perrot e Dumesnil, que (fenmeno ento frequente) 
fez passar por seu. Traduzir ou adaptar eram tipos de actividade que quadravam bem 
com o formalismo de Castilho, convencido como estava de que toda a originalidade se 
reduzia a pormenores de composio e estilo. A sua actividade de tradutor, nesta 
ltima fase, principia por dedicar-se, em especial, a dois poetas clssicos 
caracterizados pela nota ertica sensual: Ovidio, e Anacreonte. Seguem-se as 
Gergicas de Virglio, que muito citara quando das suas utopias potico-agrrias. 
Nestas verses latinas, Castilho faz gala do seu virtuosismo em obter correspondncia 
formal para cada verso e frase num mnimo de palavras portuguesas. Pelo contrrio, as 
liberdades da traduo tornam-se ilimitadas quando, depois, se dedica a autores mais 
modernos (Molire, Goethe e Shakespeare), pois se arroga o direito de aportuguesar, 
no apenas certos nomes prprios, mas at os locais e as circunstncias da aco. 
Disso resultou uma pol mica acerca da verso do Fausto (1872).


Entretanto, o clima das Letras em Portugal modificara-se muito. Pelos ltimos anos da 
dcada de 50 as obras de sentido humanitrio progressivo que, sob a gide de Vtor 
Hugo, atacavam a reaco francesa do Segundo Imprio vinham ao encontro das decepes 
trazidas pela Regenerao. O momento  favorvel ao romance, ao poema romanceado, ao 
drama de *tese+ social. Castilho consegue chamar  sua corte muitos dos jovens 
representantes de tais correntes, prefaciando-lhes as obras, apadrinhando-os, 
doutrinando-os com os seus preceitos de moderao e, sobretudo, de clareza e 
vernaculidade.  o que

6. a POCA - O ROMANTISMO                                                            
  763

acontece com Mendes Leal, vindo j da primeira camada romntica e, em certos meios, 
mais influente que Castilho; com o historiador Rebelo da Silva, discpulo de 
Herculano; com Camilo, que recebeu de Castilho a lio do estilo rico arcaizante; com 
o jovem crtico e dramaturgo Ernesto Biester; com o poeta de formao vitor-huguesca 
Toms Ribeiro; com o futuro historiador e romancista histrico anticlerical Pinheiro 
Chagas, etc. Por outro lado, as ltimas poesias (Outono, 1863) ganham o cunho de 
peazinhas de circunstncia e convivncia mundana, ou de bagatelas acadmicas. S a 
intriga literata e uma

certa superficialidade de viso mantinham tal equvoco. No admira ter sido na 
Provncia, longe da corte castilhiana, que o equvoco ressaltou primeiro. Do-se 
vrias escaramuas polmicas da parte de novos poetas do Porto e de Coimbra; em 1863, 
Joo de Deus, em O Bejense, critica j com acrimnia a Conversa o Preambular aposta 
ao

D. Jaime de Toms Ribeiro, onde Castilho se atreve a antepor esse poema a Os Lusadas 
sob certos aspectos. Finalmente, em 1864, a Carta-posfcio de Castilho que acompanha 
o Poema da Mocidade de Pinheiro Chagas, dando vazo a um jogo de intrigas at ento 
recalcado, origina a Questo Coimbr, que permitiu a Antero de Quental e Tefilo 
Braga traar um rumo mais combativo e inconformista para a arte literria, rumo que 
de resto j estava na lgica da evoluo antes esboada.

Pelo seu prprio oportunismo, a obra de Castilho tem hoje sobretudo o interesse de 
documentrio dos passados gostos literrios. Ressalvem-se, no entanto, certos 
graciosos poemetos mais ou menos anacrenticos, que esto principalmente insertos nas 
Escavaes Poticas; e a perspiccia que sempre revelou em matria de musicalidade 
versificatria e de dico, ainda hoje patente em certas anlises do Tratado de 
Metrificao sobre os valores expressivos dos diversos timbres voclicos, a 
importncia do exerccio automatizante da mtrica. Mais do que qualquer outro 
romntico, bateu-se pela liberdade estrfica e pelo extenso flego do alexandrino, 
que to longa carreira faria no terceiro quartel do sculo XIX. Fez o primeiro estudo 
estatstico da mtrica portuguesa espontnea; e parece, alis, que a sua ac o 
pessoal foi notvel na declamao teatral do tempo. No esqueamos, tambm, o esforo 
que despendeu para ultrapassar o seu prprio acadernismo, tentando, em dada fase, 
viver e organizar uma utopia associativa e pedaggica em que se descortinam certos 
aspectos precursores.

Poesia da primeira gerao romntica

A publicao de A Noite do Castelo e Cimes do Bardo, em 1836, reforada nos anos 
imediatos por vrias tradues das novelas de Walter Scott e pela insero de 
narrativas histricas n'O Panorama, trouxe para a nossa

764                                        HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

poesia o gosto do assunto medieval. Concomitantemente adoptaram-se ou ressuscitaram-
se formas versificatrias variadas, preferentemente de metro curto, com rima mais 
audvel, e, em especial, o velho rimance hispnico de uma s rima assonante, que 
Garrett coleccionara e imitara.

Ao tema do cavaleiro dado como morto nas Cruzadas e que vem encon- trar a noiva 
enamorada doutro, ou at casada (tema a que no deve ter sido alheio o Frei Lus de 
Sousa), e a outros ternas anlogos que tm como protagonistas cavaleiros, castels, 
trovadores ou peregrinos, acrescentam os nossos poetas o tratamento, tambm 
pseudopopular, de episdios da lenda do Cid ou extrados das lendas e da ffistria 
nacionais.

Esta orientao medievalista, que em Garrett, Herculano, Rebelo da Silva ou Mendes 
Leal serve de base a um programa de modernizao cultural (escola de teatro, 
Sociedade Promotora dos Conhecimentos teis e Sociedade

Escolstica-Filomtica, que atravs dos seus rgos literrios, respectivamente O 
Panorama e o Cosmorama Literrio, procuravam elevar o nvel

de cultura das classes mdias e populares) - banalizou-se e tornou-se mais 
forrualista no meio dos jovens intelectuais de Coimbra, formados j fora do idealismo 
revolucionrio liberal. Jos Freire de Serpa Pimentel (1814-1870), principal 
organizador do Teatro Acadmico, da Academia Dramtica, e tambm autor de dramas 
histricos, foi quem, influenciado por Castilho, lanou a moda dos novos poemetos 
medievistas, os solaus, de que publicou um primeiro volume em 1839. Ocupou lugar de 
relevo nos peridicos literrios do tempo, com a sua Crnica Literria da Nova 
Academia Dramtica (1840-4 1), o Mosaico (184 1), O Trovador, etc., e fez escola, 
apesar de no saber dar pitoresco, dramatismo nem frmito lrico ao gnero que 
lanou. Entre os seus discpulos, salienta-se Inco Pizarro de Morais Sarmento 
(1807-1870), que publicou, em 184 1, um Romanceiro Portugus da sua autoria, tratando 
em verso incolor, de recorte popular, cenas hericas inspiradas pela histria 
nacional.

Anos volvidos, ao tempo da ditadura dos Cabrais, das lutas patuleias e

dos princpios da Regenerao, os novos poetas que surgem, sobretudo entre os 
estudantes universitrios, acusam tendncias sensivelmente mais diferenciadas. A 
imitao do cancioneiro popular torna-se menos exclusivamente medievista, sem por 
isso deixar de ser muito convencional. Lamartine e certos sentimentalistas latinos 
menores, como Millevoye, erguem-se a mestres por

6. a pOCA - O ROMANTISMO                                                   765

excelncia de um lirismo melanclico, desalentado, pessimista, que se dilui em 
pseudo-religiosidade vaga e trivial numa paisagem sempre amaneiradamente revolta, ou 
ento sentida como se fosse mulher, e que superlativa o desejo amoroso num culto, ora 
da mulher-anjo, ora da mulher fatal, mal encobrindo s vezes uma sensualidade 
inibida.  evidente nesta poesia a censura

moralista de uma burguesia que, depois de feita a sua revoluo, se coloca em atitude 
conservadora, dando o brao aos ltimos abencerragens do Antigo Regime, numa 
glorificao sentimentalona, sem flego de inteligncia ou

sinceridade, das velhas convenes domsticas, ptrias e religiosas. Desde a sintaxe 
exclamativa, repetitiva, com apstrofes  lua, a uma rosa, etc., desde a metrificao 
de rimas tilintantes, at  maneira eufemstica, receosa, convencional, de encarar os 
fins e problemas do amor e da vida humana em

geral,  bem uma poesia de reaco aquela que predomina na dcada de 40 e cujo 
principal foco veio a ser a revista coimbr O Trovador.

Descortinam-se importantes relaes entre o grupo de O Trovador e Castilho, que 
ento, na Revista Universal Lsbonense, reagindo contra o seu

prprio medievismo de 36, se batia por uma poesia eclctica, clara, respeitadora da 
f e da boa moral e formalmente maviosa. Logo aos primeiros nmeros da revista 
coimbr, os seus redactores principais celebravam, no

S. Joo de 1844, um passeio fluvial acompanhado de recitativos e cuja fase culminante 
constitui uma homenagem aos vates que, vinte e dois anos antes, haviam festejado o 
*deusinho Maio+ na Lapa dos Esteios. Apesar do aparente contraste de ritual, arcdico 
em 1822 e romntico-sentimental em 1844, a banalidade formalista e piegas que 
aproxima os dois grupos de poetas  evidente quando se lem as descries dos dois 
acontecimentos, uma da pena de Castilho, outra estampada por Joo de Lemos, vulto 
principal de O Trovador, no ltimo fascculo da revista e nos seus Seres dAldeia. 
No admira que, em 1848, a Revista Universal Lisbonense, dirigida por Castilho, 
apontasse a revista coimbr como um paradigma a seguir pelos jovens.

Entre os colaboradores de O Trovador convm salientar:
- Joo de Lemos (1819-1890), que dirigiu A Nao, rgo da causa

absolutista, e que, depois de vencidas as insurreies patuleias, desempenhou vrias 
misses diplomticas ao servio de D. Miguel. (0 seu esplio potico est reunido em 
Cancioneiro, constitudo por Flores e Amores, 1858, Religio e Ptria, 1859, 
Impresses e Recordaes, 1867, e nas Canes

766                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

da Tarde, 1875. A sua poesia  a mais aferrada a uma viso sentimental-romntica das 
tradies; dela emerge uma ou outra nota de delicadeza, e sobretudo a mgoa de 
exilado que ficou gravada num dos mais famosos poemetos romnticos, a Lua de 
Londres);

- Antnio Xavier Rodrigues Cordeiro (1819-1896), que, sem mritos poticos notveis, 
exerceu, contudo, larga influncia divulgadora atravs do Almanaque de Lembranas, 
que dirigiu. (Coligiu as suas poesias no

volume Esparsas, 1889);

- Augusto de Lima (1825 -1867), cuj a poesia, reunida em Murnurios,
185 1, se distingue por certa expresso enrgica de pessimismo e de veemncia 
amorosa;

- Lus Augusto Palmeirim (1825-1893), que, embora pouco representado em O Trovador, 
veio a ser o mais popular do grupo (as suas Poesias

tiveram quatro edies entre 1851 e 1854), graas s suas xcaras de recorte 
folclrico, e sobretudo s poesias inspiradas  pelos levantamentos populares de 1846-
47 e sua violenta represso.

Alis, todos os poetas aqui mencionados, alm de outros do mesmo grupo, se bateram ao 
lado dos sublevados, chegando a compor hinos revolucionrios e poemas de exaltao 
das nacionalidades oprimidas, que lutavam pela emancipao por altura das revolues 
europeias de 1848; o que os no impediu, como diz Tefilo Braga, de ingressar pouco 
depois na *pedantocracia de ministros, parlamentares e altos funcionrios+ da 
Regenerao. Foi o que tambm aconteceu com Palmeirim, que em Outubro de 1847 
levantara em frenticos aplausos toda a plateia do teatro S. Joo do Porto, ao 
declamar

uma poesia sua de ataque  prpria rainha, por ter sancionado o degredo dos chefes 
patuleias, vencidos pela interveno estrangeira. Enganava-se Pedro Lopes de 
Mendona, o crtico da progressiva Revoluo de Setembro, quando ento julgou que o 
clima da combatividade em que se dispersava a camada coimbr de O Trovador poria 
termo  evoluo academizante que a poesia vinha sofrendo desde a vitria liberal.

Embora a maior parte da produo de Palmeirim, que teve como modelo

combativo Branger, o ento popularssimo poeta francs da Revoluo de
1830, se no diferencie das banalidades da escola, conseguiu em algumas xcaras 
apreender urna certa gra a do folclore portugus. Por outro lado,  em Palmeirim que 
mais se assinala entre ns uma predileco muito

6. @ POCA - O ROMANTISMO                                                            
      767

caracterstica dos romnticos mais progressivos ou mais cpticos, como Schiller, 
Hugo, Byron, Espronceda, incluindo Branger: a predileco pelos tipos anrquicos, 
anti-sociais, como o Bandido, o Guerrilheiro, a Vivandeira, etc., irmanados com tipos 
populares ou oprimidos, como o Soldado, o Marinheiro, o Desterrado, o Escravo, os 
pedintes, os vencidos, etc.

Como veremos, esta combatividade fugaz, que sobrevm no momento

em que vo dispersar-se os colegas universitrios de Joo de Lemos, reaparecer mais 
tarde no Porto, em Coimbra e Lisboa, e acentuar-se- quando se revelarem as 
contradies disfaradas pela aparente prosperidade da Regenerao. No entanto, tal 
evoluo no se produzir sem resistncias e sobrevivncias, que Castilho e, em certa 
medida, Herculano animam, pela sua suspiccia em relao s influncias francesas 
mais recentes.

O mais tpico mantenedor do lirismo lamartiniano, enlaado com uma

certa inspirao folclrica,  Bulho Pato (1829-1912), autor de Poesias,
1850, Versos, 1862, Canes da Tarde, 1866, Flores Agrestes, 1870. Mas mesmo nele se 
verifica a lenta decomposio interna da poesia tpica de O Trovador. A nota sensual 
torna-se mais perceptvel; por outro lado, o poema lrico tende a ganhar enredo, a 
tornar-se romanesco, contando tristes amores campestres, casos de caridade esmoler ou 
de paixes violentas. O poema narrativo Paquita, de Bulho Pato, ampliado em 
sucessivas edies (1856-66-94),  tpico de um gnero ao qual pertencem muitos 
outros da Regenerao, entre eles o j referido Poema da Mocidade, de Pinheiro 
Chagas, e que tem evidentes analogias com a novela camiliana do tempo, vindo a 
culminar nos poemas-romances de Toms Ribeiro. Bulho Pato, que se

sentiu caricaturado em Alencar, o tipo de poeta ultra-romntico criado por Ea em Os 
Maias, aderiu por fim  poesia de sentido *social+ em Cantos e Stiras (1873) e nas 
ltimas partes de Paquita.

Na camada estudantil que se seguiu  da Questo Coimbr de 65 verificar-se-, como 
rescaldo de novas esperanas revolucionrias frustradas, uma revivescncia do lirismo 
contemplativo, ainda sob a influncia de Castilho. A Folha (1868-74), dirigida por 
Joo Penha (1838-1919), que -  de notar - albergou as primcias de Gonalves Crespo, 
futuro parnasiano, e de Guerra Junqueiro, principal continuador de Antero de Quental 
na stira poltico-social, faz sentir as tendncias eclcticas e formalistas do seu 
director, ento a figura mais prestigiosa nos meios literrios universitrios. Nas 
Rimas e outros livros posteriores de Penha, como em As Peninsulares do seu 
colaborador Jos Simes

768                                              HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Dias (1844-1899) e outros, subsistem ainda um pseudofolclorismo ibrico e certas 
notas

do pseudo-realismo grosseiro que se entrecruzam e transmitem de Filinto Elsio a 
Castilho, deste at aos lricos de O Trovador e a Bulho Pato, destes  Folha, numa 
reaco estreitamente provinciana contra a imitao dos modelos franceses. Ao longo 
deste legado de temas e gostos, encontram-se certas realizaes felizes, num ou 
noutro poeta. Mas s Joo de Deus, estudante em Coimbra desde incios da Regenerao 
at l se encontrar

com o grupo de Antero de Quental, viria a realizar plenamente, em superior nvel 
artstico, a poesia de depurado sabor popular, no lirismo e na stira.

Pode dizer-se que O Trovador fixou, a traos largos, certos gostos em

poesia que se identificam com certos estratos da burguesia portuguesa do sculo XIX, 
sobretudo at  altura em que muitos desses estratos se animam

ao ouvir o tambor pretensamente revolucionrio de Junqueiro. Alm de numerosas 
revistas literrias e de toda uma imprensa peridica muito mais extensamente 
literria que a de hoje, o contemplativismo romntico, vagamente medievalista ou 
folclrico, sentimental-amoroso ou funreo, difundiu-se atravs de almanaques, 
plaquettes comemorativas ou caritativas, rcitas, seres caseiros e lbuns de 
senhoras.

Sem embargo desta relativamente vasta difuso, os *bardos+ e *trovadores+ romnticos 
no deixam de se aparentar, por certo preciosismo erudito que disfara a trivialidade 
repetida dos temas, por certo convenconalismo, com os *vates+ das academias 
gongricas e arcdicas. Isto mostra, entre outras coisas, que as velhas condies 
sociolgicas no tinham sido inteiramente abolidas pela revoluo romntica. Subsiste 
uma certa compartimentao social que se ope a uma comunicao realmente ampla da 
obra literria, numa

escala que ultrapasse a *classe mdia+ j aquietada. S algumas grandes 
personalidades, como Garrett, Herculano e Camilo, conseguiram, antes de 1870, ser de 
facto inovadores.

Eis, em resumo, algumas caractersticas desse amaneiramento, que, alm do verso, 
atinge uma boa parte do teatro, e da prosa romntica e destinge na novela camliana 
das dcadas de 50 e 60, prolongando a sua influncia at certos provincianos 
posteriores:

1) Um vocabulrio aliteratado, fora dos hbitos da linguagem comum, com uma tendncia 
adocicadamente vaga, carregado de sugesto contemplatva: semblante, estncia, mente, 
olvido, porvir, solido ou soido, infante, fragrncia, paramos sidrcos, vergel, 
espargir, dita, ditoso, desditoso, blsamo, adejo, pomo, fanal, empreo, etc.

6. @ POCA - O ROMANTISMO                                                  769

2) Uma adjectivao preciosa (muitas vezes constituda por eptetos formularmente 
antepostos aos substantivos) desvanecendo o desejo ou a sensao na aurola de um 
verbalismo pretensioso, que  na realidade a expresso de uma sentimentalidade 
convencional: jbilo infindo, abrao derradeiro, face demudada, mstico enlevo, 
meigas pombas, doces extremos, etrca manso, mavioso canto, amor acrisolado, virao 
fagueira, vaporoso manto, divina] eflvio, lnguido anelo, nvea mo, etc.

3) Pinceladas de viso *dantesca+, impresses de abismo, de vertigem, ou de 
transcendncia post-mortem: a valsa das declaraes amorosas  sempre inebrante, 
louca, delirante; a cada passo surgem vises fatais, fulgores sinistros, lances (ou 
transes) horrveis, sombrios umbrais, funrcas campas, remorsos lancnantes, vagas 
indmitas, procelas,, pegos, baxis, plagas longnquas, etc.

4) Frases boleadas em inverses de ordem directa comandadas pela rima, repeties, 
exclamaes, apstrofes, reticncias, anacolutos e outros expedientes de uma 
versificao improvisada e desleixada, ao par de giros literatos e arcaizantes de 
frase (auxiliar haver em vez de ter, uso do mais-que-perfeito no sentido condicional; 
etc.).

ROMANTISMO: O dramalho histrico

Durante o primeiro tero do sculo XIX, que precede a vitria definitiva do 
Constitucionalismo, a esttica romntica fora preparada pela representao, nos 
teatros do Salitre e da Rua dos Condes, de tradues ou adaptaes da comdia 
lacrimejante e do melodrama. O alemo Kotzebue, autor, entre muitas outras peas, da 
celebrada Msantropa e Arrependimento, parece entre ns ter merecido as 
predileces, no gnero lacrimejante; Antnio Xavier (Sensibilidade no Crime, etc.), 
Jos Agostinho de Macedo (Clotilde, etc.) e, mais tarde, Soares de Azevedo e Fernando 
Jos Queirs, imitando vrios modelos franceses, exploraram essa mina dramtica dos 
bons sentimentos em luta com os vcios, ou ento subjugados pelos preconceitos ou 
pela violncia. O melodrama do tempo, assim chamado por causa do fundo musical que 
assinalava os momentos culminantes da aco (no confundir com a pera, tambm 
inicialmente designada de melodrama, como vimos),  um gnero esteticamente 
grosseiro, inspirado em parte pelo romance gtico de H. Walpole e A. Radeliffe, 
explorando ambientes de terror: perseguies sdicas, caracHLP - 49

770                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

teres violentos, subterrneos, catstrofes medonhas, aparies sobrenaturais, etc. 
Entre outros autores de melodramas, Pixrcourt, que passa por criador do gnero, foi 
representado nos palcos lisboetas por incios do sculo.

Para a formao do teatro romntico portugus muito contriburam as representaes 
feitas em Lisboa, desde incios de 1835 at meados de 1837, por uma companhia de 
actores franceses que, a par de melodramas e algumas peas do repertrio clssico, 
trouxe ao pblico lisboeta a revelao de vrios dramas histricos de Vitor Hugo e 
Dumas (Pai). mile Doux, actor dessa companhia, que ficou mais alguns anos no nosso 
pas, foi quem preparou a escola cnica do teatro romntico portugus, constituda 
pelo encenador Epifnio, que lhe sucedeu, pelas actrizes Talassi e Emlia das Neves, 
e pelos actores Rosa, Teodorico, Tasso, Sargedas e outros.

A situao setembrista, criando, por diligncia de Garrett, a Inspeco-Geral dos 
Teatros, a Escola da Arte Dramtica, e iniciando a construo do edifcio do Teatro 
Nacional, inaugurado em 1846, tinha dado  dramaturgia uma oportunidade como ela no 
encontrara desde a corte de D. Manuel. Alm dos teatros do Salitre e da Rua dos 
Condes e, mais tarde, do de D. Maria II, em Lisboa, os nossos dramaturgos receberam o 
estmulo do Teatro de S. Joo, no Porto, que tambm promovia concursos com o apoio 
oficial, e da Academia Dramtica de Coimbra, a que j nos referimos, que ensaiava um 
grupo cnico e publicava um rgo literrio.

Mas o esperado renascimento teatral deu-se sob o signo do melodrama, do drama 
histrico por ele contaminado e da comdia superficial de Scribe
- tudo, ou quase tudo, mal traduzido ou adaptado do francs.

 certo que a obra vicentina tivera pouco antes, em 1834, em Hamburgo, a sua primeira 
reedio sem desfigurao inquisitorial; que, ao lanar em
1838, com Um Auto de G] Vcente, o teatro romntico portugus, Garrett procurava 
justamente reagir contra o inverosmil melodramtico, em nome de uma tradio 
nacional reatada; que, alm de Garrett durante toda a sua

carreira, tambm Herculano e Castilho intervieram constantemente na dramaturgia, quer 
por meio de artigos de crtica ou doutrina, quer julgando os

candidatos aos concursos dramticos oficiais, redigindo relatrios, discutindo 
regulamentos e actividades do teatro assim oficialmente institucionalizado, e agindo 
sempre, at por simples motivos moralistas e formais, no sentido da reaco contra a 
influncia do melodrama francs - cuja representao chegou a estar proibida nos 
teatros de primeira categoria. Apesar de tais esfor-

6. - POCA - O ROMANTISMO                                                            
771

os, a dramaturgia romntica portuguesa no conseguiu vingar como escola 
independente, nem enfrentar a concorrncia das tradues francesas, da pera italiana 
e dos espectculos ligeiros (opereta, zarzuela, mgicas de tteres, revistas, circo, 
touradas e festas ao ar livre).

Neste fracasso h que ter em conta um factor genrico do Romantismo. Como vimos na 
Introduo a esta poca, o grande pblico de incios do sculo XIX caracterizava-se 
pela sua imaturidade esttica. Acrescentemos a isso a vaga idealizao de que a vida 
se reveste para esse pblico, e em primeiro lugar para os seus escritores 
predilectos, sem

que uma crise radical das novas instituies lhes desperte (como acontecer pelo 
final do sculo com Ibsen, Shaw, Hauptrnann, etc.) o senso dos conflitos e alienaes 
que elas encerram. Religiosidade crist, reverncias pstumas ao mundo feudal-
absolutista, ideais de progresso liberal e tcnico, ganas de individualismo anrquico 
ou de cinismo desfrutador - tudo se mistura incoerentemente no esprito e na 
literatura da poca, sobrenadando a uma realidade social quotidiana infinitamente 
mais rica, mas ainda muito impenetrvel  nossa peculiarmente fechada mentalidade 
romntica.

De um modo geral, a dramaturgia ps-garrettiana romntica portuguesa segue, com o 
chamado dramalho, na esteira das obras de Dumas (Pai), Hugo e Delavigne, acentuando 
consideravelmente os seus elementos melodramticos, e, como alternativa para isso, ou 
recorre ao processo garrettiano de dramatizar um pequeno episdio da lenda e histria 
nacional, sem que do tema consiga extrair um conflito significativo; ou, sobretudo na 
dcada de
40, refugia-se na comdia sentimental e de equvocos, decalcando modelos estrangeiros 
e regressando s pieguices da lacrmejante, que os crticos nessa altura baptizam de 
drama ntimo.

Cronologicamente, o primeiro dramalho portugus  Dois Renegados, de Mendes Leal, 
estreado em 1839, pea medocre, sem atmosfera histrica, que assenta no conflito 
entre o amor e as diferenas de religio, utilizando a perseguio inquisitorial aos 
cristos-novos no sculo XVI como pretexto para produzir lances melodramticos: 
sofrimentos numa masmorra, assassinatos num subterrneo, uma maldio paterna, um 
julgamento tene~ broso, jogo de paixes violentas, tiradas patticas, caracteres 
morais absolutamente anglicos ou demonacos, etc. O xito extraordinrio deste drama 
ultra-romntico, que obteve o prmio do Conservatrio, no apenas estimulou a 
carreira teatral de Mendes Leal, como fixou os principais caracteres do dramalho, 
com a diferena de que, da por diante, se deu preferncia

772                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

aos assuntos da Idade Mdia portuguesa, com uma cor histrica ou local obtida 
mediante uma cenografia, um guarda-roupa convencionais, alguns arcasmos extrados 
das crnicas ou do Elucidrio de Santa-Rosa Viterbo, e o descante obrigatrio de uma 
xcara, que j nos Dois Renegados, despropositadamente, surgira.

No contando com simples tradues ou adaptaes, podemos nomear

entre os principais cultores do gnero: Mendes Leal (1818-1886), com O Homem da 
Mscara Negra, 1839, D. Maria de Lencastre, 1843, A Pobre das Runas, 1845, Pajem de 
Aljubarrota, 1846, etc.; Andrade Corvo (1823-90), com D. Maria Teles, O Astrlogo e O 
Aliciador, 1859; Incio Maria Feij, cujo O Cames do Rossio, 1839, foi refundido por 
Garrett; e ainda Antnio da Silva Abranches, Joaquim da Costa Cascais, Pedro de Sousa 
Macedo, Joo de Lemos, Pereira da Cunha, Incio Pizarro de Morais Sarmento, Jos 
Freire de Serpa Pimentel, etc. At Herculano, com Fronteiro de frica, e Camilo, com 
Agostinho de Ceuta, pagaram o seu tributo ao drama histrico.

O dramalho pode considerar-se literariamente exausto antes de 1850.
O drama da actualidade, a comdia ligeira ou moralista vo passar ao prirneiro plano. 
No entanto, o drama histrico sobrevive, transformado, fundindo-se com o drama de 
costumes ou de caracteres, e pelo final do sculo renasce, como a novela histrica, 
muitas vezes em verso e mais carregado de passadismo potico.

ROMANTISMO: O romance histrico

O romance histrico teve em Portugal uma prspera fortuna, a que no  decerto 
estranho o xito de Herculano, mas que no se lhe deve inteiramente. Basta lembrar 
que se traduzem numerosos romances de Walter Scott para portugus a partir de 1837, e 
que grande parte destas tradues  anterior a 1840.

O mais imediato e mais bem sucedido continuador de Herculano como romancista 
histrico foi Lus Augusto Rebelo da Silva (1822-1871), cuja Mocidade de D. Joo V se 
conta entre os grandes xitos pblicos do sculo XIX portugus.

Embora de alguns anos posterior  gerao de Herculano, Rebelo da Silva apareceu 
literariamente em pleno apogeu romntico. O seu primeiro romance

6 a pOCA - O ROMANTISMO                                                  773

histrico, Rausso por Homizio, publicado em 1842-43, , com efeito, contemporneo dos 
de Herculano e Garrett, do Frei Lus de Sousa, etc. Fez-se escritor  sombra de 
Herculano, que hiperbolicamente anunciou no discpulo um mulo de Walter Scott. O 
Rausso por Homizio (1842-43) e o dio Velho no Cansa (1848), sobre temas medievais, 
revelam, com efeito, uma atenta leitura das Lendas e Narrativas, do Bobo e do Monge 
de Cister. , na realidade, a continuao da mesma veia corri as mesmas personagens 
baptizadas com outros nomes - o mesmo frade, o mesmo judeu, os mesmos cavaleiros, o 
mesmo homem do povo -;  o mesmo tema do ponto de honra lavado com o sangue - tudo 
isto, no entanto, com uma pena mais leve, um aligeiramento do descritivo e da cor 
local, um empobrecimento de realismo, um ganho da elegncia fcil  custa da fora, 
da transparncia  custa da densidade.  o ideal de um Herculano em srie para os 
consumidores do romance histrico. A pena gil de Rebelo da Silva espraia-se em 
largos perodos; pintando com colorido vivo e convencional, e dando os lugares-comuns 
da paisagem e do retrato como numa moeda

bem cunhada. O seu estilo, como as suas personagens, produtos de srie

e sem personalidade, tomaram-se assim uma expresso acadrnica do Romantismo 
portugus.

Posteriormente, Rebelo da Silva interessou-se sobretudo pelos sculos XVII e XVIII: a 
Mocidade de D. Joo V, em 2 volumes (1852), j mencionado, Lgrimas e Tesouros 
(1863), sobre a estadia de W. Beckford em Portugal. Nesta segunda srie, o autor, 
apoiado numa slida preparao histrica, apresenta-nos talvez uma sociedade menos 
convencional, procurando recriar uma mecnica de foras sociais atravs de tipos que 
correspondem a ideias. Mas ao convencionalismo, ao fcil brilhantismo,  elegncia de 
rotina acrescenta agora o gosto pelo fausto palaciano galante, em punhos de renda, do 
Portugal setecentista, iniciando assim uma tendncia que no fim do sculo vir 
culminar em Jlio Dantas e Malheiro Dias. Desta maneira, o romance histrico 
aristocratizava-se, acompanhando o gosto padronizado do seu pblico. Idealizam-se as 
pocas finais do Antigo Regime, e, sob o ponto de vista da arte literria, prossegue-
se no caminho da academizao. Os melhores recursos de Rebelo da Silva so postos  
prova na narrativa A ltima Corrida de Touros em Salvaterra, densa e dramtica, texto 
antolgico do nosso Romantismo.

774                                               IlISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Rebelo da Silva foi tambm um historiador de merecimento, aliando a bons dotes

de investigador um poder notvel de exposio. Ainda hoje  til a sua Histria de 
Portugal nos sculos XVII e XVIII, em 5 volumes (1860-7 1), que no passou alis do 
sculo XVI. A sua Memra sobre a Populao e a Agricultura em Portugal (1865) j se 
desactualizou, mas constitui em Portugal uma obra precursora. Em compensao, os

Fastos da Igreja (1854-56) valem s como amostra de eloquncia histrica, inspirada 
por Chateaubriand. Coligiu o Corpo Diplomtico Portugus referente s relaes com a 
Santa

S no sculo XVI e completou o Quadro Elementar das Relaes Polticas e Diplomticas 
de Portugal, iniciado pelo visconde de Santarm, miguelista exilado em Paris que, em 
polmica contra Humboldt e alguns historiadores franceses, iniciou a moderna 
historiografia dos Descobrimentos, reivindicando a prioridade portuguesa do 
reconhecimento costeiro de frica e provando a sua independncia relativamente  
cosmografia alem.

Polgrafo infatigvel, Rebelo da Silva foi tambm jornalista operoso, brilhante 
orador parlamentar, professor de economia politica, e achou ainda tempo para produzir 
peas de teatro.

Outro discpulo de Herculano  Joo de Andrade Corvo (1823-1890), autor de Um Ano na 
Corte, quatro volumes publicados em 1850-5 1. Ocupa-se da poca de D. Afonso VI, com 
abundncia de pormenores sobre a vida corrente: etiquetas, mobilirio, vesturio, 
alimentao, etc.

H a salientar tambm Arnaldo Gama (1828-1869), portuense. O seu

primeiro volume, O Gno do Mal, 1856-57,  uma histria flhetinesca  Eugne Sue. 
Depois de uma colectnea de novelas - Verdades e Fces -,

onde aponta a preocupao da crtica social, inicia a sua srie de romances 
histricos com Um Motm h Cem Anos, 1861, sobre a revolta popular do Porto contra 
Pombal em resultado da criao da Companhia dos Vinhos do Alto Douro. Segue-se O 
Sargento-Mor de Vilar, 1863, que tem por fundo da aco a tomada do Porto pelas 
tropas de Soult e o desastre da Ponte das Barcas.  Invaso Francesa refere-se tambm 
O Segredo do Abade, 1864. J a ltima Dona de S. Nicolau, publicada no mesmo ano, e O 
Balio de Lea, edio pstuma, se deslocam para o sculo XIV. Com um estilo montono, 
uma psicologia inverosmil e outros defeitos, Arnaldo Gama destaca-se, no entanto, 
como escrupuloso descritor do meio histrico onde situa os seus enredos; mas a sua 
maior qualidade, ligada ao democratismo da sua formao, consiste em saber movimentar 
nas suas pginas os grandes momentos sociais que constituem geralmente o fulcro das 
suas obras.

6. a POCA - O ROMANTISMO                                                            
   775

Outro romancista histrico do Porto, por nascimento e por assunto,  Antnio Coelho 
Lousada (1828-1859), um dos jornalistas mais em evidncia no tempo de Camilo. Os seus 
romances, Rua Escura, Os Tripeiros, Na Conscincia, editados em 1857, ressentem~se da 
influncia conjunta de Garrett (0 Arco de SantAna), de Camilo e de Arnaldo Gama, 
faltando-lhe contudo a graa do primeiro modelo, a energia do segundo e a erudio 
histrica do terceiro. A tradio do romance histrico portuense foi posteriormente 
mantida pelo produtivo polgrafo Alberto Pimentel (1849-1925), tambm bigrafo de 
Chiado e de Camilo.

Poderia prolongar-se esta lista de romancistas histricos: citemos apenas, entre os

que hoje esto de todo esquecidos, Guilherme de Barros, autor de O Castelo de 
Monsanto (1879), e, entre os seus ento mais apreciados e operosos cultores tardios 
de recorte romntico, Manuel Joaquim Pinheiro Chagas, 1842-1895 (Duas Flores de 
Sangue, 1875; A Mantilha de Beatriz, 1878, etc.).

O romance histrico aproxima-se do ento chamado *romance contemporneo+  medida que 
se situa numa poca menos distanciada da actualidade. Antnio da Silva Gao (1830-
1870) romanceou a poca das lutas liberais e o cerco do Porto, ainda vivos na memria 
de muitos dos seus contemporneos, num livro que se tornou muito popular, Mro 
(1868); Teixeira de Vasconcelos romanceou por sua vez a guerra civil de 1846-47, em 
que tomou parte, no Prato de Arroz-Doce, 1862, tendo alis tratado uma poca mais 
remota em A Ermda de Castromiro, 1870.

OLIVEIRA MARRECA

Antnio de Oliveira Marreca (1815-1889)  um dos mentores da primeira gerao 
romntica, como testemunham estas palavras de A. Lopes de Mendona: *Um pas que se 
glorifica de possuir um historiador como o Sr. Alexandre Herculano e um economista 
como o Sr. Antnio de Oliveira Marreca, e que h pouco viii descer ao sepulcro um 
poeta como o Sr. Visconde de Almeida Garrett, no pode seguramente amesquinhar-se 
diante da importncia intelectual das naes europeias+. Parlamentar, membro activo 
da oposio a Costa Cabral, por cuja polcia foi preso, colaborador assduo de O 
Panorama, A Revoluo de Setembro e outros jornais, acadmico, a sua evoluo 
ideolgica condu-lo de uma posio moderada semelhante  de Herculano, em 1838, at  
adeso ao Partido Republicano Portugus, de cujo primeiro directrio fez parte. 
Cultivou o romance histrico: Manuel de Sousa Seplveda, publicado n'O Panorama, 
1843; O Conde Soberano de Castela, publicado na mesma revista em 1844 e 1853. Nenhuma 
destas obras obteve publicao em volume, muito embora Herculano, que manifestava por 
Marreca uma grande admirao, tenha elogiado a ltima no prefcio das Lendas e 
Narrativas (1. a edio 1850).

776                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

No , efectivamente, como escritor de fico que Marreca mais influi na sua gerao 
e nas imediatas, mas como economista:  autor de Noes Elementares de Economia 
Poltica (1838), um dos primeiros tratados dessa cincia que apareceram em Portugal, 
de uma srie de artigos sobre Mquinas sados n'O Panorama em 1842, de um Relatrio 
sobre a Exposio Industrial Portuguesa de 1849, de um Parecer e Memria sobre a 
proposta que apresentou o Sr. Alexandre Herculano para que a seco de cincias 
econmicas e administrativas redigisse um projecto de estatstica, 1854, e ainda de 
vrios artigos sobre matrias econmicas, publicadas sobretudo n'A Revoluo de 
Setembro.

Jornalistas e oradores

A vitria do liberalismo trouxe um grande impulso  imprensa e  tribuna parlamentar. 
Estas duas actividades exercem na literatura uma funo importante;  atravs delas 
que se estabelece o nexo entre a literatura e o dia-a-dia. O estilo imposto pelo 
jornalismo e pela tribuna poltica a escritores que tm de se fazer entender por um 
pblico quantitativamente vasto projecta-se inevitavelmente noutros gneros 
literrios e forja grandes correntes de gosto.

Garrett e Herculano surgem um pouco menos solitrios se tivermos presente o segundo 
plano da literatura jornalstica e oratria abundantemente produzida no seu tempo.

Nos dez anos que precederam a Revoluo de 1820, a mdia de jornais aparecidos 
anualmente no chegava a quatro, incluindo neste nmero alguns edita os em on res

e no Brasil. Nos anos de 1820-23, na vigncia da primeira Constituio, essa mdia 
eleva-se

a cerca de 30, para baixar aps a abolio da Constituio, subir novamente com a 
proclarnao da Carta, de novo baixar com o miguelismo, e outra vez subir, e fixar-se 
definitivamente num nvel muito mais alto a partir da vitria liberal de 1834. As 
pocas de maior vitalidade cvica so tambm as de maior produo jornalstica: 
iniciam-se 66 jornais em 1836, 57 em 1846, e o nmero mantm-se elevado nos dois anos 
seguintes de guerra civil endmica. As leis cabralinas repressivas da liberdade de 
imprensa reflectiram-se - como era alis seu objectivo - na actividade jornalstica: 
o ano de 1850 v nascer

apenas 15 jornais. A partir da Regenerao nota-se um desenvolvimento progressivo da 
imprensa provinciana, que at essa data pouco ia alm do Porto, Coimbra e as Ilhas.


Na sua grande maioria, os jornais so, nos primeiros dois teros do sculo, panfletos 
polticos em sries editadas periodicamente. A Voz do Profeta, de Herculano, 
publicada em sries, representa ainda este tipo de panfleto jornalstico. Alguns 
ttulos significativos: O Campeo Portugus,  rgo dos emigrados portugueses em 
Inglaterra, 1821; O Portugus Constitucional, 1820; O Diabo Coxo, 1822, titulo tirado 
do conto de Lesage;
O Nacional, 1834; O Peridico dos Pobres, 1834; O Povo Soberano, rgo setembrista,
1835; Vedeta da Liberdade, 1835; A Revoluo de Setembro, 1840, fundado por Jos 
Estvo e dirigido por Rodrigues Sampaio; O Espectro, rgo do governo da Junta,
1838-47, redigido pelo mesmo Rodrigues Sampaio. No ano de 1848 apareceram vrios

6. - POCA - O ROMANTISMO                                                            
   777

jornais republicanos, como O Republicano, A Repblica, O Regenerador, Jornal do Povo, 
A Fraterndade. Em vrios destes jornais e noutros exercitaram a pena os melhores 
escritores da poca. Garrett  um assduo colaborador e organizador de jornais 
polticos, como
O Portugus Constitucional (1822), O Portugus e o Cronista (1826); Herculano anima 
dois jornais polticos importantes, O Pas (185 1) e O Portugus (1853). Por meados 
do sculo tomou grande desenvolvimento o *folhetim+, crnica de actualidades, 
especialmente literrias, publicada no rodap do jornal. Exigia esta seco 
qualidades estilsticas e certa cultura prprias de escritores. Os maiores 
folhetinistas portugueses foram Antnio Pedro Lopes de Mendona e Jlio Csar 
Machado, n'A Revoluo de Setembro; e

Ramalho Ortigo, no Jornal do Porto. Teve tambm grande notoriedade Jos de Sousa 
Bandeira, redactor de O Artilheiro (1834) e director do Braz Tisana (185 1), jornais 
ambos do Porto. O escritor do Constitucionalismo consagra-se em regra pelo folhetim e 
outra colaborao em jornais ou folhetos peridicos; a prpria publicao de volumes 
individuais foi frequentemente assegurada por assinaturas, e certas livrarias 
funcionavam como bibliotecas de emprstimo por avena.

Mas j desde a primeira revoluo liberal aparecem, ao lado dos jornais polticos, 
peridicos mais especializadamente literrios e de divulgao cultural, procurados 
por um pblico que evidentemente sentia necessidades que o velho sermo ou o velho 
outeiro potico j no satisfaziam. H muita colaborao literria nos jornais para 
as senhoras: o Peridico das Damas, o Toucador, ambos  roda de 1822, tendo o jovem 
Garrett publicado no ltimo (de que se fez uma reedio em 1958) algumas das suas 
primcias poticas, entre textos galantes e didcticos de que foi co-autor; o Correio 
das Damas, 1836. Destacam-se neste campo de divulgao cultural O Panorama, rgo da 
Sociedade Promotora dos Conhecimentos teis, cujo xito notvel se deve em parte  
direco e colaborao de Herculano, e a Revista Universal Lisbonense (184 1). Um e 
outro deram guarida e apoio aos mais conhecidos escritores da poca, como Herculano, 
Castilho, Garrett, Oliveira Marreca, Rebelo da Silva, etc. H ainda os jornais 
especializadamente teatrais, como o Teatro Universal e o Teatro Dramtico, ambos de 
1839.

Entre os profissionais de jornalismo celebrizou-se Antnio Rodrigues Sampaio (1806-
1882). Colaborador desde 1826 da imprensa liberal, mais tarde, a quando do cerco


do Porto, alistado no exrcito liberal, aderiu  situao setembrista e em 1840 
entrou para a redaco d'A Revoluo de Setembro, jornal fundado por Jos Estvo 
para combater o domnio poltico crescente da alta finana, que arvorava o ideal de 
restauro da Carta e tinha o apoio da rainha. Quando a restaurao cartista se 
verifica, em 1842, Jos Estvo entra directamente nas lides parlamentares e 
conspirativas, deixando a Rodrigues Sampaio a misso de dirigir na imprensa a rdua 
luta contra a ditadura cabralista. Aps vrias intermitncias, A Revoluo de 
Setembro passa a imprimir-se clandestinamente desde Maio desse ano, assim se mantendo 
tenazmente durante quase um ano, apesar de todas as buscas de que foi alvo, at que a 
revolta da Maria da Fonte a trouxe de novo  publicidade legal. Poucos meses depois, 
em Outubro de 1846, d-se novo golpe cabralista, e Rodrigues Sampaio passa a dirigir 
nova folha clandestina, O Espectro, o

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principal animador da resistncia at  conveno de Gramido; desde ento volta, e 
desta vez at  morte, para a direco d'A Revoluo de Setembro. A vibrao 
indignada dos seus artigos nesta poca inquieta , com a oratria de Jos Estvo, o 
melhor testemunho de toda essa grande luta; e, pela crtica desassombrada da rainha e 
das intrigas palacianas, abriu o caminho  posterior propaganda republicana. A massa 
enorme do seu articulismo de quase meio sculo e ainda as suas intervenes 
parlamentares e prembulos s leis de reforma precisariam de uma antologia que 
permitisse ajuizar melhor da admirao de que foi alvo. Em 1851, como Jos Estvo e 
a maioria dos setembristas, adere  Regenerao. A sua primeira participao num 
ministrio, em 1870, foi duramente atacada como uma traio, no parlamento, na 
imprensa e at em folhetos. Em 1878, como ministro do Reino, redigiu e fez votar uma 
importante reforma do ensino primrio e outra

da administrao pblica, que, embora fossem atalhadas na sua execuo pelas 
vicissitudes subsequentes, serviriam ainda de base a algumas das medidas mais 
progressivas da Repblica.

Como notmos, a importncia literria do jornalismo est sobretudo no impulso que 
imprimiu a outros gneros literrios atravs do prprio pblico. Isto vale tambm 
para a eloquncia. Alguns dos grandes escritores romnticos foram simultaneamente 
grandes oradores parlamentares, devendo salientar-se Garrett e Rebelo da Silva; mas 
doutros grandes oradores como Femandes Toms (1771-1822), Borges Carneiro (1774-
1833), Rodrigo da Fonseca Magalhes (1789-1858), Manuel da Silva Passos (1801-1862), 
pouco se conhece literariamente alm do nome, pois os seus discursos, muitas vezes j 
empobrecidos do calor original pelas notas estenogrficas que os transmitiram aos 
dirios das sesses ou aos resumos noticiosos, nem mesmo assim se encontram 
facilmente  mo do leitor moderno. Todavia, do mais clebre de todos, Jos Estvo 
Coelho de Magalhes (1809-1862), foi j editada um recolha to completa quanto 
possvel das intervenes parlamentares, e ainda dos escritos polticos; e foi em 
1966 publicada uma recolha dos discursos sobre a liberdade de imprensa nas Cortes 
Constituintes de 1821.


A soluo de continuidade desta oratria poltica relativamente  anterior eloquncia 
sacra  particularmente ntida nas Cortes de 1821-22, onde os instantes problemas de 
reorganizao poltica, administrativa e econmica impuseram uma discusso muito 
presa a dados concretos e, embora de improviso, moldada numa linguagem que revela a 
formao predominantemente jurdica dos interventores. Aquilo que hoje talvez mais 
surpreenda um leitor desprevenido, ao percorrer os mais afamados discursos 
parlamentares do primeiro romantismo,  o facto de, embora improvisados, e por isso 
mais desproporcionados, irregulares e redundantes do que os da velha oratria sacra 
ou ciceroniana (a tradio desta ltima conserva-se, como vimos, nas obras picas e 
historiogrficas clssicas), manterem uma parte considervel dos recursos retricos 
tradicionais, incluindo frequentes aluses histricas e mitolgicas greco-romanas e 
ainda o cunho latinizante de parte do vocabulrio. Notemos que a transmisso se fez, 
tanto atravs da educao ainda latinista e clerical desses oradores, como atravs 
dos modelos da oratria revolucionria francesa. O contraste da eloquncia desses 
tribunos romnticos com a de finais do sculo

6. - POCA - O ROMANTISMO                                                            
       779

revela claramente o carcter ainda selecto, socialmente muito restrito, dos debates 
de ento, que a maior parte do pblico politicamente curioso apenas seguia atravs 
dos relatos e dos artigos da imprensa partidria predilecta.

O mais clebre duelo da oratria romntica parlamentar travou-se em Fevereiro de
1840 entre Garrett, ento defensor da maioria centrista e ordeira dos setembristas em 
recuo para as posies cartistas conservadoras, e Jos Estvo, que propugnava mais 
coerente e corajosamente os direitos j muito ameaados da democracia pequeno-
burguesa contra os sofismas antiliberais de uma lei censitria na forja. Uma aluso 
deste ltimo a um lendrio doido ateniense que se julgara senhor de todos os barcos 
surtos no Pireu, servindo de principal estribilho aos dois contendores, tornou essas 
peas de oratria conhe- cidas como sendo *do porto Pireu+. A revela Garrett uma 
extraordinria argcia e versatilidade humoral, que ora sada lisonjeiramente as boas 
intenes de todos os adversrios, ora identifica os ex-correligionrios da Revoluo 
de Setembro com um arrepiante plano anarquista. Jos Estvo, conquanto tolhido pelo 
acatamento forado de uma Constituio detestada, consegue denunciar as sub-repes 
dos ordeiros, feitos aristocratas do oramento, filhos ingratos da revoluo pequeno-
burguesa de 36, e mostrar a relao existente entre a sua falta de popularidade e a 
sua dependncia perante interesses estrangeiros impositivos. Mas a coroa de glria de 
Jos Estvo est no discurso com que em

Agosto de 1840, quase sozinho na Cmara, fez frente a um projecto de suspenso das 
garantias constitucionais redigido por Garrett, e principalmente em dois discursos 
sobre o caso da barca Charles et George (Dezembro de 1858), muito incisivos, no 
ataque  ditadura de Napoleo 111.  de resto a que atinge alguns dos seus momentos 
de maior

perspiccia poltico- social. O radicalismo deste tribuno (heri do cerco do Porto, 
chefe da esquerda setembrista, principal organizador dos movimentos anticabralistas 
de 1844, cuja represso lhe ps a cabea a prmio, obrigando-o a emigrar, dirigente 
do movimento das Juntas de 46 e novamente atirado para a clandestinidade em 1848) 
nunca excedeu as balizas ideolgicas da classe mdia. Todas as suas baterias esto 
voltadas contra as viciaes legais do sistema representativo, a carncia de ensino 
pblico, a utilizao poltica da religio, a plutocracia, os restos do feudalismo 
como os ltimos morgadios, os monoplios industriais ainda legados pelo absolutismo, 
propagao da usura e do capitalismo financeiro, a distribuio injusta dos impostos. 
Alguns dos veteranos do liberalismo eram

neste ponto mais clarividentes, e veremos como os acontecimentos europeus de 1848 e

os seus reflexos doutrinrios estavam j tomando mais sagaz toda uma gerao mais 
nova.

Entre esses veteranos dever salientar-se Francisco Solano Constncio (1777-1846), 
que passou grande parte da sua vida na Gr-Bretanha e em Frana, onde editou 
peridicos de crtica e observao cultural, social e poltica, ora em ingls, ora em 
portugus, ora

em francs. Traduziu para francs e criticou algumas das mais importantes obras da 
economia poltica clssica britnica, advertindo os seus compatriotas contra os 
logros do livre-cambismo, do liberalismo econmico e at contra as motivaes j 
potencialmente imperialistas de certos traos da filantropia liberal, como o 
antiesclavagismo e certas liberdades

afinal propcias  grande acumulao capitalista.

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11111116[fl-floc,AFIA

1. Textos

Para no nos alongarmos excessivamente, omitiremos as obras secundrias, cujas 
primeiras ed. vm indicadas no texto. O leitor poder obter notcias mais 
pormenorizadas no Dicionrio Bibliogrfico Portugus, na Histria da Literatura 
Portuguesa Ilustrada ou nas antologias e estudos adiante referidos.

Castilho, A. Feliciano de: Cartas de Eco a Narciso, Combra, 182 1, ed. aumentada, 
ibidem, 1825; ed. correcta e aumentada, 1836. Primavera, Lisboa, 1822; reed. no 
Brasil muito refundida em 1837. Amor e Melancolia, Coimbra, 1828; reed. no Brasil. A 
Noite do Castelo e Cimes do Bardo, Lisboa, 1836; reed. no Brasil. Escavaes 
Poticas, Lisboa, 1844; reed. no Brasil. Quadros Histricos de Portugal, Lisboa, 
1839; reed., Rio, 1847. Felicidade pela Agricultura, Ponta Delgada, 1849. Obras 
Completas, 80 vols., Lisboa,
1903-1910.

Pimentel, Jos Freire de Serpa: D. Sisnando, drama, Coimbra, 1838; Almansor Ben-Afan, 
drama, Coimbra, 1840; Solaus, Coimbra, 1839; Cancioneiro (Solaus), Coimbra,
1840.

Sarmento, Incio Pizarro de Morais: Lopo de Figueiredo, Diogo Tinoco, Henriqueta, 
dramas, Porto, 1839; Romanceiro Portugus (Romances de Histria Portuguesa), Lisboa,
1841; 2. parte, Porto, 1845.

Lemos, Joo de: Cancioneiro, Lisboa, 1. > vol. 1858, 2. > 1859, 3. > 1866; Poesias, 
Rio, 1847; Canes da Tarde, Lisboa, 1875; Seres d'Aldeia, Porto, 1876; Tio Damio, 
poemeto, Coimbra, 1887.

Chagas, Manuel, Pinheiro: Poema da Mocidade, 1. ed. 1864; 2. 1901. Penha, Joo: 
Rimas, Lisboa, 1882 (2 ed.); Braga, 1906; Novas Rimas, Coimbra, 1905; ltimas Rimas, 
Porto, 1919; Canto do Cisne, Lisboa, 1923.

Dos romances histricos de Rebelo da Silva, Arnaldo Gama, Coelho Lousada e Alberto 
Pimentei h vrias ed. populares modernas. De Arnaldo Gama, fez-se uma ed. moderna 
das Obras, em papel bblia, 2 vols., Lello e Irmo, Porto, 1973, com ntrod. de 
Ferno Dantas da Gama. Maria Leonor Machado de Sousa deu a lume, em 1979, uma verso 
juvenil de Paulo, o Montanhs, que reeditou, com um estudo, em 198 1, pela IN-CM.

Ver bibliografia de Mendes Leal no captulo seguinte. Estvo, Jos: Obra Poltica, 2 
vols., com pref., recolha e notas de Jos Tengarrinha, Lisboa, 1962-63.

Discursos sobre a Liberdade de Imprensa no primeiro parlamento portugus (182 1)
- textos integrais, com introd. e notas de Augusto da Costa Dias, Lisboa, 1966.

Toms, Manuel Fernandes: A Revoluo de 1820, recolha, pref. e notas de manifestos e 
discursos por Jos Tengarrinha, Lisboa, 1974.

2. Antologias

Antnio Felciano de Castilho: Poesias, sei., pref. e notas de Almeida Lucas, 
*Clssicos Portugueses+, Lisboa.

6. @ POCA - O ROMANTISMO                                                            
   781

Grupo de O Trovador: representado em Poetas Ultra-Romnticos, sei., pref. e notas de 
Jacinto do Prado Coelho, *Clssicos Portugueses+, Lisboa, reed. sob o ttulo Poetas 
do Romantismo, 2 vols- 1965.

Poesia Romntica Portuguesa, antologia org. e pref. por lvaro Manuel Machado, IN-CM, 
1982. (Abrange pr-romnticos, romnticos, ultra-romnticos e ps-romnticos, at 
Florbela Espanca.)

Almeida Garrett: Discursos Parlamentares, sei. e introd. de Manuel Mendes, *Colecco 
Saber+, Lisboa.

Antologia do Pensamento Poltico Portugus - 1, sei., introd. e notas de Joei Serro, 
Porto, 1970.

Solano Constncio: Portugal e o mundo nos primeiros decnios do sc. XIX, antologia 
org, e pref. por Maria Leonor Machado de Sousa, Arcdia, 1979.

3. Estudos

Ver prefcios e notas das ed. e antologias anteriormente indicadas.

Estudos de conjunto:

Braga, Tefilo: Histria do Romantismo em Portugal, Lisboa, 1880; e As Modernas 
Ideias na Literatura Portuguesa, Porto, 1892.

Fidelino de Figueiredo: Histria da Literatura Romntica Portuguesa, Lisboa, 1913. 
Nemsio, Vitorino: Relaes Francesas do Romantismo Portugus, Coimbra, 1936; e A 
Segunda Gerao Romntica, em Histria da Literatura Portuguesa Ilustrada, vol. IV.

O Liberalismo na Pennsula Ibrica na 1. >metade do sculo XIX, 2 vols., org, de 
Miriam Halpern Pereira/M. de Ftima S e Meio Ferreira/Joo B. Serra, ed. S da 
Costa, 1982.

Crticas e estudos coevos que ainda interessam.,

Mendona, A. P. Lopes de: Ensaios de Crtica e Literatura, Lisboa, 1849 (artigos 
publicados n'*A Revoluo de Setembro+), e Memrias de Literatura Contempornea, 
1855.

Branco, Camilo Castelo: Esboos de Apreciaes Literrias, 1865; e Cancioneiro 
Alegre, 1879.


Chagas, Pinheiro: Ensaios Crticos e Novos Ensaios Crticos. Ferreira, J. M. Andrade: 
Bosquejo da Literatura Dramtica Portuguesa e Achaques da Nossa Literatura Dramtica, 
em *Revista Contempornea+, pp. 255 e segs., e 456 e segs., respectivamente.

Bruno, Sampaio: A Gerao Nova, 1886, reed. Lello e Irmo, Porto, 1984; Os Modernos 
Publicistas Portugueses, 1906, reed. Lello 1987.

Monografias:

As que esto contidas na Perspectiva da Literatura Portuguesa do Sculo XIX, dirigida 
por Gaspar Simes, especialmente as de Antnio Salgado Jnior sobre Castilho, de 
scar Lopes sobre Bulho Pato, de Fernando Namora sobre Arnaldo Gama, de Castelo 
Branco Chaves sobre Castilho, Lisboa, 1936.

782                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Albuquerque, Lus: Castilho e o Ensino Popular, in *Vrtice+, n.l>s 93, 94 e 95 
(Maio, Junho e Julho de 195 1), sob o pseudnimo de Sousa Mendes, depois includo no 
livro Notas para a Histria do Ensino em Portugal, Coimbra, 1960.

Pimpo, lvaro J. da Costa: Algumas notas sobre a Esttica de Joo Penha, em 
*Biblos+, vol. XV, 1939.

Fonseca, Maria Amlia Ortiz da: Introduo ao Estudo de Joo Penha, Lisboa, 1963. 
Valdemar, Antnio: Bulho Pato: a Nau Catrineta do Liberalismo  Repblica, apres. e 
selec. de textos no suplemento Cultura, do *Dirio de Notcias+, 1987-12-27.

Sobre a histria ideolgica do liberalismo, na oratria, no jornalismo e nos 
opsculos doutrinrios, ver diversas publicaes ou separatas do vol. 1 da *Revista 
de Histria das Udeias+, 1977, do Instituto de Histria e Teoria das Ideias, Coimbra, 
nomeadamente: Costa, Jaime Raposo, A Teoria da Liberdade (1820-23), 1976, com extensa 
bibliografia; Castro, Zlia Maria Osrio de: Manuel Borges Coelho e a Teoria do 
Estado Liberal, 1976; Torgal, Lus Reis: Tradicionalismo e Contra-Revoluo, 1973; 
Ribeiro, Maria Manuela Tavares: Conflitos Ideolgicos do sc. XIX. O Problema Pautal 
(polmica entre A. de Serpa Pimentel, A. P. Lopes de Mendona e S. J. Ribeiro de S), 
1976.

Serro, Joel: Portugueses Somos, 1976, Temas Oitocentstas, 2 vols., Lisboa,
1959-62, reed. 1978.

S, Vtor de: A Crise do Liberalismo e as primeiras manifestaes das ideias 
socialistas de Portugal (1820-52), 3. ed. 1978, e A revoluo de 1836, 3. ed. aum., 
1978, Livros Horizonte, Lisboa.

Consultar os memoralistas romnticos, que mencionaremos no captulo seguinte. Rebelo, 
Lus Francisco: Teatro Portugus do Romantismo aos nossos dias, vol. 1, s/d;
O Melodrama Ultra-Romntico, e O Teatro Romntico (1838-69), * Biblioteca Breve+, 
lCLP,
1985.

Picchio, Luciana Stegagno: Histria do Teatro Portugus, 1969, Lisboa, e Ricerche sul 
Teatro Portoghese, Roma, 1969.

Frana, Jos Augusto: O Romantismo em Portugal, especialmente vols. 11 e IV. Simes, 
Joo Gaspar: Histria do Romance Portugus, 2. > vol., 1969. Chaves, Castelo Branco: 
O Romance Histrico no Romantismo Portugus, *Biblioteca Breve+, lCLP, 1979.


Pires, Maria Laura Bettencourt: Walter Scott e o Romantismo Portugus, 1979. 
Tengarrinha, Jos: pref.  Obra Poltica de Jos Estvo: Antnio Rodrigues Sampaio 
desconhecido, in *Gazeta Literria+, n-os 5, 6/7 e 8, 1963, Porto; Histria da 
Imprensa Peridica Portuguesa, *Colec o Portuglia+, 1965, reed. rev. e aum., 
Caminho, 1989 (estudo de conjunto rnuito informativo e metdico, com larga 
bibliografia geral e especial); A Oratria e o Jornalismo, entre outros estudos 
includos em Esttica do Romantismo em Portugal, Lisboa, 1974; A Oratria Poltica de 
1820 a 19 10, ir, Estudos de Histria Contempornea de Portugal, Caminho, Lisboa, 
1983, pp. 129-180.

Do peridico *0 Toucador+, 1822, redigido por Garrett e dedicado s mulheres, fez-se 
em 1957 uma reed., em Lisboa.

6. a pOCA - O ROMANTISMO                                                            
 783

Alm da antologia de artigos de Solano Constncio, por Maria Leonor Machado de Sousa, 
deve-se  mesma investigadora uma ed. crtica, em 1976, do peridico *The Ghost+, 
dirigido por esse doutrinrio em Edimburgo, 1796, e ainda o estudo The Ghost e 
Francisco Solano Constncio, Universidade Nova de Lisboa, 1978, que completa 
anteriores estudos inclusos em Do Portugal do Antigo Regime ao Portugal Oitocentista, 
de Albert Silbert, 2. > ed., 1977, Horizonte Universitrio, Lisboa. Ver resumo 
biogrfico da mesma autora, Actividade Poltica de Solano Constncio, in *Histria+, 
n. 3, Janeiro de 1979, pp. 50-59.

O estudo de Lukacs G: Le Roman Historique, trad. franc. 1965,  muito estimulante 
para a compreenso das metamorfoses de um historicismo romntico, como o portugus, 
sobretudo na fico. Introduo til e acessvel: Thomasseau, Jean-Marie: Le 
Mlodrame, *Que sais-je?+, n. 2151, PUF, Paris, 1984.

Captulo V

O ROMANTISMO SOB A REGENERAO

ROMANTISMO SOB A REGENERAO: Condies gerais

A Regenerao abrange aproximadamente o terceiro quartel do sculo. O levantamento 
militar de Saldanha, em 1851, impe o Acto Adicional  Carta dando fim  discusso 
constitucional entre *Cartistas+ e *Setembristas+. Em 1876, verifica-se uma grave 
crise econmica e celebra-se o Pacto da Granja, que cria o Partido Progressista:  o 
incio do *Rotativismo+, a fase final do regime monrquico constitucional. Dentro 
deste intervalo decorre o perodo decisivo da construo de caminhos-de- ferro e 
outros meios

de transporte e comunicaes, que produzem, como consequncia imediata mais 
importante, a unificao do mercado interno portugus e a integrao da agricultura 
no capitalismo, para o que contribui a eliminao dos ltimos morgadios em 63. 
Portugal continua sendo essencialmente *uma granja e um banco+, mas, sob os pontos de 
vista da organizao financeira e da estrutura jurdica, aproveita a experincia dos 
pases mais adiantados e prepara-se para uma fase de industrializao capitalista, 
que se esboar no

ltimo quartel do sculo: o nmero de estabelecimentos bancrios sobe de 3 para 51 
entre
1858 e 1875, e a formao das sociedades capitalistas annimas, condicionada  
autorizao governamental pelo cdigo de 1833, torna-se livre desde 1867, existindo 
j 136 sociedades dessas em 1875. Mantm-se o mesmo desequilbrio entre o 
desenvolvimento

do crdito bancrio e o fomento agrcola e industrial, e portanto a tendncia para a 
especulao desenfreada que, precisamente, conduz  crise de 1876 e ao descrdito do 
regime, tal como j levara a uma primeira crise em 46 e  queda subsequente da 
ditadura cabralista.

Mas, enquanto a crise no estala, a poca parece ser de regenerao, de progresso, de 
melhoramentos materiais. Aos conflitos de 1834-5 1, entre a grande e a pequena 
burguesia, segue-se uma acalmia e uma apatia poltica geral. O atraso da 
industrializao, e portanto da proletariza o fabril, toma quase insensvel a 
presena de novas foras sociais, at  *Pavorosa+, greve de 1872. A toda esta 
acalmia corresponde o formalismo literHLP - 50

786                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

rio de que Castilho  corifeu; uma certa regresso ao ensino clssico; um refluxo 
ideolgico no sentido conservador, de que o regresso de certas ordens religiosas, sob 
a forma

de Irms de Caridade (1857),  um sinal caracterstico. D. Fernando de Coburgo, rei 
consorte, que constri o palcio de Sintra segundo o modelo do Romantismo alemo, 
preside aos primeiros anos deste romantismo sentimental e conservador.

No entanto, certas camadas da pequena burguesia, os jovens universitrios, certas 
profisses mais novas e orientadas para coisas novas, como a dos engenheiros, no 
deixam nunca de fazer sentir literria e at doutrinariamente um descontentamento que 
cresce

e se define ao longo do perodo. Nestes meios actuam como fermento os escritores e

idelogos que deram voz  revoluo curopeia de 1848 e alimentaram os protestos 
contra Napoleo 111, contra a ocupao estrangeira da Itlia e outros pases. A 
partir de 1850 aparece a imprensa peridica especialmente destinada ao operariado e 
at j colaborada por operrios: Eco dos Operrios, 1850-51, Lisboa, orientado por 
Sousa Brando e A.

Pedro Lopes de Mendona; Esmeralda, 1850-5 1, Porto, fundado por Marcelino de Matos e 
colaborado por Arnaldo Gama, Coelho Lousada e Custdio Jos Vieira; A Pennsula,
1852-53, Porto, fundada pelos principais colaboradores de Esmeralda e que publicou 
artigos de Amorim Viana, entre outros. O associativismo operrio teve tambm por 
ento o seu

primeiro impulso, criando-se em 1852 a Sociedade Promotora do Melhoramento das 
Classes Laboriosas, que doravante lhe servir de eixo principal, at nos anos de 70, 
adquirir um novo mbito. Surge assim o primeiro grupo dito de *socialistas@>, 
geralmente engenheiros (Latino Coelho, Rolla, Casal Ribeiro, etc.), cujos 
precursores, como A. P. Lopes de Mendona, vinham j do tempo da Patuleia; e entre 
eles destaca-se Henriques Nogueira (1825-58), cujas obras, sobretudo os Estudos sobre 
a Reforma em Portugal (185 1), so precursores dos doutrinrios de 1870, Antero de 
Quental e Tefilo Braga. Alguns destes idelogos (Latino, Casal, Nogueira) chegaram a 
formar planos utpicos de reorganizao poltica de toda a Pennsula Ibrica em 
vrios estados federados, considerando que isso permitiria uma base slida de 
independncia econmica e diplomtica sem perigo de hegemonia castelhana. Na 
literatura, aparecem os poetas de tema libertrio e humanitrio; os dramaturgos de 
tese social; os romancistas da actualidade; os crticos que advogam o realismo na 
literatura.


 de notar que boa parte destes doutrinrios e escritores veio a ingressar mais tarde 
nas fileiras conservadoras da Regenerao ou, pelo menos, do funcionalismo pblico, o 
que revela a estabilidade do regime. A *Questo Ibrica+ recrudesceu com a revoluo 
republicana espanhola de 1868, mas passou a ser utilizada negativamente, como 
espantalho, na demagogia dos partidos conservadores dominantes. Oliveira Martins 
observa judiciosamente que, na prtica, s se faz sentir neste perodo um programa de 
desenvolvimento nacional: o do *regenerador+ Fontes Pereira de Melo, que se 
considerava a si prprio um *fantico pelas vias de comunicao+; a certa altura, j 
*no h que regenerar, ou

todos regeneram de modo igual+, e o partido que pretende fazer sombra ao Regenerador 
e lisonjear a pequena burguesia tinha o *nome incontestavelmente eloquente de 
Histrico+.

6. a POCA - O ROMANTISMO                                                            
     787

Contudo, as correntes literrias que apontmos, e vamos agora estudar, desempenharam 
um papel reconhecvel. A agitao dos doutrinrios, poetas, dramaturgos e romancistas 
no deixou de ter influncia em factos como a expulso das Irms da Caridade (1863), 
a extino dos morgadios (1863), do monoplio do tabaco (1864), da pena de morte 
(1867), da escravatura (1869), a organizao de associaes pedaggicas filantrpicas 
e sindicais para as camadas populares e fabris, etc. Por outro lado, a poltica 
fontista do transporte no produziu apenas resultados econmicos e sociais, mas 
tambm culturais. Entre estes ltimos podemos contar dois que vieram a afectar a 
prpria Regenerao: a tendncia para a eliminao de certos atrasos culturais 
provincianos, para aproximar, nomeadamente, o ambiente literrio das trs principais 
cidades do Pas, unidas desde 1864 pela linha do Norte; e um contacto mais frequente 
e fcil com os movimentos culturais europeus, atravs da linha de Leste, desde 1863. 
Na chamada Gerao de 70 intervieram sensivelmente estes factores, bem como a 
evoluo literria geral que se processou entre 1850 e 1870.  com o advento desta 
gerao, como veremos, que as condies e influncias que acabmos de apontar viro a 
manifestar-se de maneira espectacular e literariamente inovadora.

ROMANTISMO SOB A REGENERAO: Doutrinrios

Entre os doutrinrios desta fase que nos ocupa, distinguem-se, pelo seu

interesse literrio, A. P. Lopes de Mendona e Latino Coelho.

Antnio Pedro Lopes de Mendona (1826-1865) foi primeiramente oficial de Marinha, 
participou no movimento setembrista das Juntas e, demitido, ingressou no jornalismo. 
Colaborou n'A Revoluo de Setembro; em 1850 fundou com Vieira da Silva e

Sousa Brando o Eco dos Operrios, rgo de um grupo socialista, ligado  Sociedade 
Promotora do Melhoramento das Classes Laboriosas. Com o corpo redactorial d'A 
Revoluo de Setembro, aderiu  Regenerao de 1851. Faz neste ano uma viagem a 
Itlia.

Em 1860 foi nomeado professor de Literatura Moderna no Curso Superior de Letras, e 
pouco depois enlouqueceu.

Lopes de Mendona, que falhou como autor de fico, foi no tempo um influente 
jornalista de ideias e crtica literria. A sua personalidade literria  muito 
significativa de unia poca. As suas Memrias de um Doido, Romance Contemporneo, 
1849 (reedio

1859 e 1982), revelam a influncia considervel, em Portugal, de BaIzac, George Sand 
e Eugne Sue, que os primeiros romnticos ou ignoram ou desdenham. Corno BaIzac, 
Lopes de Mendona atribui ao romance tinia funo de anlise sociolgica e 
psicolgica (dita ento *fisiologia+) de tipos sociais burgueses; de acordo com Sue, 
inculca o interesse pelos bas-londs, Isto no impede estas Memrias de abundarem em 
lugares-coniuns romnticos, confirmando, aparentemente, a teoria (exposta pelo autor) 
de que nos limites estreitos da sociedade portuguesa - *quase imvel no meio das suas 
revolues>@ - no

788                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

era ainda vivel o *romance de actualidade, baIzaquiano, denso de tipos e conflitos 
sociais, que Lopes de Mendona preconizava.

Lopes de Mendona , acima de tudo, um crtico literrio bastante lcido, que vai 
muito mais longe na problemtica sociolgica da literatura do que qualquer outro 
crtico encartado do Romantismo (Costa e Silva, Castilho, Andrade Ferreira, Ernesto 
Biester, Pinheiro Chagas ou Luciano Cordeiro), Como nota Antero de Quental: *0 seu 
ideal poltico e social eleva o crtico muito acima do ponto de vista convencional e 
puramente literrio, faz-lhe compreender o valor, alcance social da poesia e da arte, 
e a real e efectiva importncia histrica+. Na verdade, o seu juzo sobre a escola de 
O Trovador antecipa-se de 20 anos  crtica das Farpas sobre a poesia ultra-romntica 
portuguesa: *0 principal defeito de O Trovador, a meu ver,  estar encerrado numa 
escala muito limitada de sentimentos individuais+; *Quanto mais poderosa seria a 
influncia do Trovador se porventura se estreitasse mais  vida social - e no 
derramasse os seus cantos na vida ntima, no ciclo das iluses juvenis em que o 
cepticismo apenas desfere as frvidas notas do entusiasmo como um tema convencional e 
obrigado+.

A esta problematizao sociolgica da literatura no  alheia a preocupao 
sociopoltica que se documenta em Lopes de Mendona. A sua participao nas lutas 
contra o cabralismo alimenta-se de leituras do socialismo utpico francs.  dentro 
de tal orientao que em 1850 publica numerosos artigos de divulgao, sobretudo do 
proudhonismo, no Eco dos Operrios, e que em 185 1, aps a Regenerao, redige um 
manifesto de apoio  candidatura do operrio serralheiro Jos Maria Chaves. Tpicos 
deste documento e dos artigos no Eco e na Revoluo nos anos vizinhos: as questes 
constitucionais so secundrias; importa proteger a *indstria+ (isto , as pequenas 
fbricas, oficinas e artesos), oferecendo-lhes crdito fcil. Com o advento da 
Regenerao e da poltica de *melhoramentos materiais+, Lopes de Mendona (e com ele 
numerosos setembristas) considera satisfeitas em grande parte as suas aspiraes.

Desta nova posio de Lopes de Mendona adveio uma polmica entre ele e Alexandre 
Herculano, nas colunas d'A Revoluo de Setembro e d'O Portugus, Lopes de Mendona 
soube alvejar algumas das inconsequncias fundamentais de Herculano (a contradio, 
por exemplo, entre o historicismo e a crena em determinados arqutipos absolutos), e 
soube ainda ver os limites do municipalismo (proposto por Herculano) como soluo 
global dos problemas nacionais. No entanto. Mendona  muito mais seguro na crtica 
do que no seu prprio programa positivo, amalgama indeciso de progressismo liberal, 
de proudhonismo e de um vago saint-simonismo.

6, a POCA - O ROMANTISMO

789

Sente-se hoje na prosa de Lopes de Mendona um brilho fanado, que lembra ainda o 
perdido frescor das frases de efeito, das trouvailles, das evocaes sugestivas, das 
antteses, etc, Lopes de Mendona foi o principal criador do estilo do folhetim 
literrio portugus, depois continuado com maior

ou menor originalidade por numerosos autores, como Jlio Csar Machado, Pinheiro 
Chagas e Ramalho Ortigo.

Latino Coelho (1825-1891), contemporneo de Camilo, formou-se na

Escola Politcnica, onde ensinou acumulando estas funes com intensa actividade 
jornalstica, parlamentar e acadrnica. Depois de ter sido deputado e ministro 
regenerador, acabou por aderir ao federalismo ibrico e por filiar-se no Partido 
Republicano.

Latino Coelho revela uma leitura enciclopdica e actualizada, que vai desde as 
cincias da natureza (cedo perfilhou o transformisnio), at  erudo histrica, 
leitura que inclui fontes germnicas, e que o leva a considerar

que a histria da natureza e a histria do homem constituem a sucesso de

fases de uma mesma dialctica ou lgica, segundo a qual quer o Universo

quer as sociedades se orientam *de um estado menos complexo a um estado

mais perfeito+. J em 1851 se revela conhecedor directo dos autores socialistas 
franceses.

Literariamente, a sua prosa oscila entre certa vervejornalstica, por vezes

brilhante, sobretudo exemplificvel nos artigos de 1851 coligidos no volume

Tipos Nacionais (1919) e certo academismo erudito, sem originalidade, patente no 
estudo sobre a civilizao grega que precede a sua traduo da Orao da Coroa por 
Demstenes (1880), estudo alis interessante sob alguns aspectos. A sua Histria 
Poltica e Militar de Portugal desde os fins do sculo XVIII at 1841, 3 volumes 
(1874-91), deixa ver no prprio ttulo a conscincia que tinha o autor das limitaes 
da historiografia tradicional a que pertence o seu livro.  uma exposio dos factos 
polticos e militares j conhecidos do reinado de D. Maria 1. Outras obras: Galerias 
de Vares Ilustres de Portugal, vol. I. - Lus de Cames, 1880; O Marqus de Pombal, 
1883; Garrett e Castilho, 1917: Cervantes, seguido de um estudo sobre Don Manuel Jos 
Quintana, 1920; Ferno de Magalhes, 192 1; Literatura e Histria, 1925.

790                                              HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

O humanitarismo na poesia

Passou-se com o revolucionarismo final do grupo de O Trovador o que voltar a passar-
se COM Outros grupos de jovens iconoclastas surgidos ao

longo da Regenerao e mesmo depois. Camlo, em 1879, observar com sarcasmo: *Uns 
literatos que j foram de mao e mona esto nas secretarias, esto nas suas casas a 
comer o Pas, a descascar joanetes e a envelhecer num egosmo srdido+ (Cancioneiro 
Alegre). Este processo parece repetir-se ciclicamente com as sucessivas geraes, 
embora o contexto de cada uma se altere.

SOARES DE PASSOS

Assim, o esprito que anima O Novo Trovador (1851-56) acusa j diferenas em relao 
a O Trovador. Entre os seus colaboradores contam-se,  certo, alguns lricos 
lamartinianos, como Alexandre Braga e Antnio Aires de Gouveia, vindos da colectnea 
portuense de versos Lira da Mocidade (1849). No entanto, a figura mais importante de 
O Novo Trovador, Soares de Passos, traz consigo, ao lado da nota de pessimismo 
cemiterial, agora mais frequente, uma nota vigorosa de protesto libertrio.

Antnio Augusto Soares de Passos (n. rio Porto, 1826-11-21 - t 1860~ 11 -08), nascido 
na pequena burguesia liberal, criou-se num ambiente de tremenda represso absolutista 
que atingiu a prpria famlia e fez-se homem no ambiente de derrota da Junta de
1846, to identificada com o seu meio. Fisicamente dbil e doente, vivendo meses 
seguidos, dizem que anos, sem sair do quarto, a obsesso da morte e da decadncia 
universal alterna na sua poesia com as exortaes de luta pelo progresso e pela 
liberdade.

A poesia filosfica e cvica de Herculano, amplificada de ressonncias bblicas e 
largas vises de derrocadas e expiaes histricas, teve imitadores como Joo de 
Lemos e outros, mas Soares de Passos foi o nico poeta capaz de sustentar a 
comparao com a majestade e a fora do modelo. O Firmamento, inspirado pela 
cosmologia cientista de Laplace, parece parafrasear um pensamento de Pascal; os 
movimentos de largo e allegro alternam como numa partitura sinfnica, a corresponder 
 alternncia de dois temas: o da mesquinhez do homem na infinidade csmica, e o da 
dignidade racional e progressiva do mesmo homem. Estes dois temas, verdadeiramente 
antinmicos no esprito humano, presidem a uma srie de poemas de flego

6. - POCA - O ROMANTISMO                                                    791

notvel, embora de realizao estilstica e de construo lgica irregular, como O 
Firmamento, nos quais tem a ltima palavra, quer a esperana da vitria final na luta 
pelo progresso e pela libertao contra as tiranias, quer um pressentimento de 
aniquilao prpria decisiva - ficando, em qualquer caso, a imagem de Jeov 
justiceiro a dominar o fundo do quadro (Vida, Viso do Resgate, Liberdade, O Anjo da 
Humandade, O Escravo, O Canto Livre). Este sentimento de tragdia exprime-se tambm 
em numerosos poemas de assunto histrico determinado, ou sobre casos colhidos na vida 
corrente, entre os quais se tornaram especialmente famosos Cames e Infncia e Morte.

O Noivado do Sepulcro, a mais clebre das poesias do nosso ultra-romantismo 
cemiterial, imensas vezes recitado nos saraus burgueses ao acompanhamento de piano e 
at popularizado pelo canto, salienta-se num conjunto de composies funreas de 
Passos, que inclui trs tradues de Heine, e de outros poetas contemporneos, 
influenciados por Buerger e Baour-Lormian; mas s o compreenderemos bem se o 
integrarmos numa obra consideravelmente mais ampla, em que o pressentimento de uma 
morte precoce se liga ao desgosto patritico, sem que no entanto esses dois elementos 
destruam as fibras da combatividade, articulando-se o conjunto com uma viso larga, 
embora cheia de incoerncias e desfalecimentos, de todo o drama humano na vastido 
indefinida do espao e do tempo. O movimento rtmico dos poemas de Passos, sem deixar 
de cair por vezes na banalidade de escola,  frequentemente majestoso, cheio de uma 
enrgica gravidade, ou de uma doura isenta de pieguice. Em certas poesias, corno a 
pequena composio amorosa dedicada a uma annima A.--- a elegncia da curva rtmica 
geral consegue reagatar uma srie de versos todos feitos de lugares-comuns 
vocabulares e metafricos.

A poesia romntica no Porto regenerador

O desenvolvimento do meio literrio portuense fez-se muito rapidamente entre a poca 
do abade de Jazente e a que estamos estudando, adquirindo certos traos distintivos, 
que depois se atenuaro com o progresso da integrao social do Pas. Se j em 1761-
62 a se publicava, como vimos, a primeira revista literria portuguesa, a Gazeta 
Literria do padre Francisco de Lima, foi, tambm j vimos, no Repositrio Literrio, 
rgo da Sociedade Literria Portuense, que Herculano, ento a organizar a Biblioteca 
Pblica

792                                         HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

do Porto, publicou o primeiro manifesto do Romantismo portugus. A revoluo liberal 
representou para o Porto a emancipao de uma ciosa burguesia, que desde o motim 
antipombalino de 1757 perdera inclusivamente os

privilgios tradicionais do burgo. Baluarte por excelncia do liberalismo e, depois, 
da poltica setembrista de Passos Manuel, o Porto chega contudo  Regenerao com 
certos grupos da alta burguesia (a colnia inglesa, os

brasileiros, ex-negreiros, grandes exportadores e importadores, etc., alguns deles 
agraciados com os novos ttulos nobilirquicos do Constitucionalismo: comendas, 
baronias, etc.) - nitidamente diferenciados da grande massa de lojistas, pequenos 
funcionrios, empregados, etc. A colnia estrangeira local, sobretudo inglesa, 
constitui um foco da cultura curopeia burguesa mais adiantada, com um aprecivel 
nvel de sociabilidade intelectual.

Da pequena burguesia da cidade e das provncias nortenhas provm, em

regra, os jovens escritores, os fundibulrios jornalsticos das faces literrias, 
polticas, das intrigas de camarim, etc. Vivendo instavelmente da crnica mundana e 
das prodigalidades dos amigos ricos, essa *corja+ do caf Guichard de que Camilo  o 
tipo superior, esses *lees+, emproados, com

ares fatais e sobranceiros decalcados nos heris do drama, do romance, do poema 
narrativo (Antony de Dumas, Oberman de Senancour, D. Juan de Byron), conseguem, por 
vezes, acesso a certos sales mundanos, como o da poetisa Maria Felicidade Browne, e 
os seus dios vo sobretudo para os

novos-ricos, os *brasileiros+ e *bares+, esposos inevitveis das mais interessantes 
meninas casadoiras, que eles amam perdidamente. Esses * bares+ e *brasileiros+ so, 
tambm, slidos pilares, pela compra de papis de Estado, da paz podre social em que 
aqueles jovens escritores vegetam; e, contra o

individualismo romntico destes, so eles os novos guardies, pelas irmandades e 
confrarias, pela autoridade familiar e prticas devotas, daqueles velhos princpios 
conservadores e religiosos to abalados uma gerao atrs e agora reconstitudos. No 
admira, pois, que se tornem o alvo predilecto da stira social de vrios talentos 
economicamente pelintras. Outro alvo foi a situao cabralista, alis coincidente com 
a poca urea do folhetim semanal de crtica no jornalismo tripeiro, em que se 
salientaram Evaristo Basto, Amaldo Gama, Coelho Lousada, Ricardo Guimares (visconde 
de Benalcanfor), o

prprio Camilo Castelo Branco, e mais tarde Ramalho Ortgo.

Alm da imprensa poltica ou, de qualquer modo, polmica, e dos editores para o 
grande pblico, interessados em tradues, folhetos de cordel,

6. a pOCA - O ROMANTISMO                                                    793

novelas sentimentais, morais ou histrico-bairristas, os escritores portuenses 
encontraram nesta poca um ou outro lojista literato e iconoclasta disposto a custear 
as edies de cadernos peridicos das poesias, no gnero de O Trovador. Foi esta a 
origem de O Bardo (1852-54) e A Grinalda (1855-69). Estas colectneas permitem hoje 
reconhecer uma evoluo significativa quanto  inteno e  estrutura formal da 
poesia em moda. O contemplativismo lamartiniano, o pessimismo funreo, o folclorismo 
convencional no deixam de manter-se atravs de todo o perodo considerado, mas

cedem espao a ternas humanitaristas e progressistas cada vez mais sensivelmente 
influenciados pela indignao de Vitor Hugo contra as condies sociais e polticas 
ento imperantes.

As primeiras notas de protesto e stira so dadas pelo director de O Bardo, Faustino 
Xavier de Novais (1820-1860), cuja musa de *cabo-de-esquadra s ordens de Tolentino+ 
utiliza, com xito desigual, as formas versificatrias

e o tom humorstico do modelo, num ataque cerrado  grosseria e ao reaccionarsmo dos 
*brasileiros+ e *bares+, aos manejos especuladores da alta burguesia, ao dramalho 
medievista, ao lirismo piegas e cerniterial, etc. Xavier de Novais pertence  gerao 
romntica de escritores portuenses de incios da dcada de 50, a mais 
caracteristicamente marcada pelas condies de ambiente que resumimos. Dela fazem 
parte Soares de Passos, os irmos Aires

de Gouveia, Joaquim Pinto Ribeiro, Alexandre Braga, Camilo, Maria Browne, Arnaldo 
Gama, Coelho Lousada, o jornalista Ricardo Guimares, etc.

Cerca de 1860, quase pode dizer-se que em torno de A Grinalda, surge uma nova camada 
de escritores portuenses, sob certos aspectos precursora da *Questo Coimbr+. Dela 
fazem parte Rodrigo Paganino, Ramalho Ortigo e Jlio Dinis, o qual, alm de 
flhetinista como os outros dois, foi autor de poesias de um lirismo ntimo recatado 
que, em A Grinalda, ao lado de outras tendncias do ultra-romantismo contemplativo, 
ombreia com a influncia crescente da fase combativa de Hugo. Esta ltima influncia, 
bem como

a forma versificatria em que preferentemente se vaza, o verso alexandrino, parece 
ter-se difundido atravs do poeta Custdio Jos Duarte (1841-06-16 t 1893-09-19), que 
iria para Cabo Verde, onde mandou destruir a sua obra, que vrios testemunhos 
coincidem em considerar como inspiradora de uma

corrente huguesca  qual aderem Alexandre e depois Guilherme Braga, e outros.

794                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

 de notar que, nos tempos que precedem de perto a Questo Coimbr, esta pequena 
burguesia culta e jovem do Porto apoiou vibrantemente certas atitudes protestativas 
da camada universitria contempornea de Antero de Quental, como uma rcita memorvel 
realizada em 1863 no S. Joo a favor da emancipao dos povos oprimidos e a Rolnada 
de 1864, uma greve seguida de debandada geral dos estudantes para o Porto. No 
esqueamos, de resto, que a imprensa operria surgiu no Porto (A Esmeralda, 1850-51) 
ao mesmo tempo que em Lisboa, embora mais diluda em temas literrios pequeno-
burgueses, e que o ideal da federao ib rica republicana, que tanto entusiasmar 
Antero e Oliveira Martins, teve o seu primeiro rgo em A Pennsula (1852-53), 
portuense, onde colaborou Pedro de Amorim Viana (1822-1910), que a publicou crticas 
e artigos de divulgao cientfica. Embora ignorado pela Gerao de 70 e formado por 
um desmo racionalista influenciado por Leibniz, Amorim Viana foi um precursor dessa 
gerao e um esprito digno daquele estudo que s recentemente lhe tem sido dedicado.

TOMS RIBEIRO

J, a propsito da evoluo do lirismo contemplativo, vimos que as dcadas de 50 e 60 
assistem ao desenvolvimento do poema narrativo sentmentalista, em perfeito 
sincronismo com a novela tipicamente camiliana. As revistas literrias do tempo 
abundam em espcimes anlogos  Paquta ou ao Poema da Mocidade; e um crtico viu at 
em tal gnero uma influncia dos libretos de pera. Ora entre os autores desses 
poemas-romances deve distinguir-se Toms Antnio Ribeiro Ferreira (1831-1901), cuja 
obra acompanha uma vistosa carreira de poltico e diplomata.

O seu primeiro livro, D. Jaime (1862), teve extraordinrio xito. Este xito, que 
entre as suas manifestaes conta uma reedio ao cabo de um

ano e a polmica desencadeada pelo prefcio excessivamente elogioso de Castilho, 
deve-se  oportunidade das preocupaes que exprime. Por um lado, tendo como assunto 
a resistncia de um jovem fidalgo beiro contra o domnio filipino, vai ao encontro 
dos sentimentos patriticos ento exacerbados pela especulao poltica em torno da 
Questo Ibrica. Por outro lado, a sua

estrutura novelesca aproveita os ingredientes da novela flhetinesca em moda: a 
mulher desonrada e abandonada, a enjeitada, o heri perseguido a monte, o assassinato 
cobarde, o encarceramento injusto, etc. Finalmente, dentro da

6.2 POCA - O ROMANTISMO                                                      795

explorao intencionalmente conservadora dos sentimentos anti-iberistas, Toms 
Ribeiro consegue enquadrar e neutralizar os principais temas progressivos e 
humanitrios de Hugo, autor permanentemente decalcado: a bondade natural do homem, os 
factores sociais do crime, o direito de rebelio em nome de uma moral  ntima que se 
ope ao direito vigente, a crena no progresso indefinido a obter atravs do ensino e 
do apostolado dos poetas, a fuso da caridade com o humanitarismo progressivo, etc. O 
realismo to apregoado de Toms Ribeiro, que pde ento ser considerado *o mais 
revolucionrio dos nossos poetas+, tanto consiste nesta ideologia como no ar prosaico 
de muitos dos seus versos (*e morreu dependurado num pinheiro+; *Eu nunca vi Lisboa e 
tenho pena+). A metrificao varia muito, desde o monossilabo at ao alexandrino, por 
se ajustar, imitativamente, por vezes onomatopeicamente, s descries; e a cor local 
 evocada por provincianismos beires e at por apontamentos etnogrficos.

Todo este prosasmo corresponde, alis, a uma tese que ao tempo certos doutrinrios 
do progresso, nomeadamente E. Pelletan, defendem, e que Quental aceitar em dada 
poca: a tese segundo a qual a poesia corresponderia apenas a uma certa fase da 
evoluo espiritual da humanidade, estando por isso condenada a fundir-se com a 
prosa. A estreiteza desta concepo de progresso, o mecanismo com que assim encara a 
psicologia humana, contribuir para provocar, como reaco, tendncias anti-
racionalistas e antiprogressistas nos decadentistas-simbolistas. Apesar deste 
defeito, e do defeito oposto (a pieguice de certas passagens), o D. Jaime, pela 
energia nova que o anima, pode comparar-se favoravelmente ao conjunto da nossa poesia 
ultra-romntica, exceptuando Soares de Passos.

A Delfina do Mal (1868) obedece, como o D. Jaime, ao programa de *esboroar os 
artecidos estuques do Romantismo+ e de pr *bem nu+ nas *runas+ *o musgo da rocha e 
as cicatrizes da face+, mas frisando mais directamente a nota humanitria e 
progressista. O prefcio-dedicatria do autor insiste na *aco prtica e social da 
poesia+; e outro prefcio, de Camilo, considera que o livro inaugura em Portugal a 
*escola realista+ .  certo que, como veremos, o realismo no teatro e na novela 
aparece j teorizado por fins da dcada de 50 e que a Questo Coimbr j ento se 
verificara, mas nenhum escritor portugus, exceptuando Camilo na novela e Jlio Dinis 
no romance, se abeirou tanto, ento, do realismo de costumes. A energia protestativa 
do livro

796                                             HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

teve a sua mola propulsora no contraste entre os xitos do progresso (Exposio de 
Paris de 1867, o canal de Suez a concluir-se ... ) e a abjurao de um padre, o 
prprio irmo do autor, provocada pela encclica antimodernista (Quanta Cura e o seu 
Syllabus, 1864). Toda esta energia protestativa se concentra, porm, na denncia das 
misrias sociais, inspirando-se nomeadamente na histria verdica de uma leprosa. O 
que h de dramaticamente ou pitorescamente realista no livro relaciona-se com a 
gafada Sagucha ou com certas observaes regionalistas. No entanto, tudo isso se 
mistura com enredos de novela passional camiliana, com trechos do mais estafado 
sentimentalismo amoroso ou caritativo.

Sons que Passam, livro de poesias que Toms Ribeiro publicou no mesmo

ano que Delfina do Mal, alterna o prosasmo huguesco com tiradas sentimentais. Foi 
muito clebre a composio A Judia, em que o autor tira um

melopeico partido da rima encadeada.

GOMES DE AMORIM

J em 1858, antes portanto de Toms Ribeiro, sobressaa, pelo pitoresco e pela 
energia de certas poesias, Francisco Gomes de Amorim, cujos Cantos Matutinos, 
seguidos de Efmeros (1866), conheceram trs edies at
1874, as duas primeiras num total de 4 mil exemplares. Foi este poeta quem, antes dos 
Parnasianos, conseguiu dar a nota do pitoresco extico que quase todos os romnticos 
europeus procuraram ferir, mas que entre ns s encontra plidos reflexos em certas 
composies de Soares de Passos, Alexandre Braga, Joo de Lemos e outros.

A vida acidentada de Francisco Gomes de Amorim (1827-189 1) -nos resumida na

interessante autobiografia do prefcio dos Cantos Mtutinos e porinenorizada noutros 
passos da sua obra. Feitio aventureiro e rebelde, aos dez anos, com o irmo mais 
velho, na sua terriola minhota, deixou-se aliciar por engajadores de emigrantes para 
o Brasil. Entre outras obras, o seu drama Aleijes Sociais d-nos um depoimento 
impressionante das condies em que se fazia esse trfico de carne branca, digno 
sucedneo do trfico de escravos que S da Bandeira proibira pouco antes. Depois de 
um duro aprendizado de caixeiro no Par, em que, como em vrios outros casos anlogos 
se verificou tantas vezes, arranjou maneira de aprender a ler e instruir-se, fugiu 
para o serto amaznico, onde viveu perto de um ano. Mais tarde, depois de voltar aos 
centros de populao mais civilizada, deparou um dia com o Cames de Garrett, que o 
entusiasmou, levando-o a escre-

6. a pOCA - O ROMANTISMO                                                            
  797

ver ao autor. Passados anos, recebe uma carta encorajante do poeta, que determina o

seu regresso a Portugal, aps dez anos de ausncia. Acompanha fielmente os ltimos 
anos de seu protector literrio, de quem redigiu as Memrias Biogrficas. Operrio de 
profisso, celebra em verso a sublevao patulea, em que participa, e as revoltas 
curopeias de 1848. Depois este entusiasmo poltico arrefece, mas a experincia da 
emigrao permite-lhe acompanhar as tendncias humanitaristas da literatura, que se 
acentuam sobretudo desde 1855. Poeta, dramaturgo, contista, articulista consagrado, 
entrou por fim na

Academia e no funcionalismo pblico.

Entre as poesias de Gomes de Amorim, salientam-se, pela novidade, as

que se referem ao seu exlio brasileiro. Algumas pelo contraste entre a pujana de 
cor e da vida no Amazonas e a brandura de tons da paisagem portuguesa constituem uma 
flagrante contrapartida das saudades brasileiras que Gonalves Dias cantou quando 
estudava em Coimbra com o grupo de O Trovador. Outras, mais vigorosas, cantam a 
aventura, quer na luxuriante selva equatorial, quer na vida do mar; os poemas enchem-
se de pitoresco, sublinhado, num caso, pelos nomes exticos da flora e da fauna, e 
noutro pela terminologia nutica. O tema ultra-romntico do insocivel (0 Corsrio, O 
Marinheiro) chega a ganhar uma certa vida, lido nesse contexto.  de notar ainda que 
certas lricas amorosas, corno Se eu amei!, encerram uma fora emocional muito 
superior ao geral na ertica contempornea, embora nelas a influncia garrettiana 
seja visvel.

Gomes de Amorim tambm cultivou o teatrosocial. Depois de duas tentativas falhadas de 
drama histrico, e de se ter afinal consagrado nesse gnero com Ghg (185 1), que  
um dramalho de crimes do Renascimento italiano, escreveu comdias de imitao 
francesa, uma comdia-provrbio, uma imaginativa pardia do melodrama e da pera, 
Fgados de Tgre (1857), mas

distinguu-se sobretudo por vrios extensos dramas editados com numerosas anotaes 
testemunhais e glossrios, em que aproveita a sua experincia pessoal do trfico de 
emigrantes, (incluindo camponesas destinadas  pros~ tituio), da escravatura no 
Brasil e dos costumes dos Amerndios (dio de Raa, representado em 1854; O Cedro 
Vermelho, representado e, 1856). Aleijes Sociais, editado em 1870). Estas peas 
esto deficientemente construdas quanto ao desenrolar da aco, aos caracteres e ao 
dilogo; todo o seu grande interesse  de ordem documental. No que tem de melhor, 
Gomes de Amorim pode considerar-se um precursor dos Emigrantes e da Selva de Ferreira 
de Castro.

798                                                HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Poesia panfletria

Como temos visto, o panfleto em verso teve numerosos cultores por ocasio das lutas 
contra os Cabrais e dos movimentos emancipadores de vrios pases, a que 
posteriormente podemos acrescentar os temas humanitrios (escravatura, pena de morte, 
analfabetismo, regime prisional, etc.) e a stira social. So de salientar dois 
poetas cuja nomeada se deve em grande parte  voga desse gnero: Mendes Leal e 
Guilherme Braga.

Jos da Silva Mendes Leal (1818-1896), que j vimos consagrado pelo dramalho 
histrico e de cujo teatro de tese falaremos adiante, faz uma fulgurante carreira de 
escritor e de homem poltico desde que aos 19 anos fugiu ao pai para no seguir a 
vida eclesistica. Impondo-se  considerao pblica pelo jornalismo e por uma srie 
de xitos teatrais, percorreu, a princpio pela mo dos Cabrais, as mais altas 
magistraturas do tempo, desde deputado a enviado plenipotencirio e ministro. Durante 
a Regenerao viu-se por vezes lanado na oposio poltica e demitido dos seus 
cargos, valendo-se, nessas ocasies, dos dons de improvisao jornalstica, 
dramtica, novelstica e versificatria para se sustentar. Datam de ento as suas 
obras de assunto humanitrio.

As suas produes em verso, coligidas nos volumes Cnticos (1858) e

Poesias (1859), nada acrescentam ao lirismo ultra-romntico, no passando, em grande 
parte, de imitaes ou verses. No entanto, algumas das suas composies, 
improvisadas na emoo circunstancial de certos acontecimentos, e que assimilam o 
estilo amplificante de Hugo, tiveram o condo de empolgar os contemporneos, 
consagrando o autor como corifeu da poesia. Tais so o Ave Csar!, dedicado  morte, 
no seu exlio no Porto, de Carlos Alberto, precursor da independncia italiana, 
Pavilho Negro, e Napoleo no Krem]in, inspirados pelo caso de esclavagismo ilegal da 
barca francesa Charles et George e pela animosidade contra o imperialismo francs, 
que impedira a deteno dessa barca.

Guilherme Braga (1845-1874), irmo de Alexandre Braga, fizera uma

carreira meterica de poeta popular, quando morreu com menos de trinta anos. Formado 
no ambiente de A Grinalda e sob a influncia do grupo coimbro de Antero, estreou-se 
como cantor do progresso mecnico por ocasio da Exposio do Porto de 1861 e 
distinguiu-se em vrias intervenes pblicas a favor dos povos oprimidos, dos ideais 
humanitrios e contra o regresso da Companhia de Jesus. Deram-lhe especial 
notoriedade, alm de uma pardia da Delfina do Mal, e de uma composio anti-ibrica, 
Ecos de Aljubarrota (1868), dois panfletos anticlericais que so precursores 
imediatos dos de

6. - POCA - O ROMANTISMO                                                   799

Gomes Leal e Junqueiro (Os Falsos Apstolos, 187 1; O Bispo, 1874). As duas coleces 
dos seus versos, Heras e Violetas, 1869, e Poesias, estas editadas postumamente em 
1898, contm algumas composies notveis, quer por certo orientalisnio parnasiano, 
quer por uma naturalidade familiar que anuncia Cesrio Verde, quer pelo vigor da 
stira social, quer pelo dramatismo que conseguiu imprimir ao tema das mes e ao da 
sua pr pria situao de condenado, como quase toda a famlia, por uma doena ento 
incurvel, a tsica.

O drama da tese

Por meados da dcada de 50, o *drama da actualidade+ ganha os favores dos mais 
cotados dramaturgos e do pblico mais ilustrado. Em Frana, o

Romantismo social, que j se fizera sentir na literatura de fico enquanto incubava 
a Revoluo de 48, toma como assuntos predilectos, sob o Segundo Imprio, a 
desagregao moral dos costumes familiares (que se atribua  febre capitalista da 
especulao e do gozo), a explorao dos humildes, os

conflitos sociais, tendo geralmente como nervo passional uma histria de amor. Os 
temas da mulher desonrada, do filho bastardo, das mulheres ou

homens *de mrmore+, isto , insensibilizados pela cupidez e pelos mtodos inumanos 
de luta social, passam de Hugo (Marion Delorme) para Augier, Dumas Filho e outros. A 
Dama das Camlias (1852), deste ltimo, pode considerar-se o triunfo decisivo da 
corrente, tanto em Paris como em Lisboa. Ao analisar em conjunto a produo literria 
do ano de 1858, j o principal crtico dramtico da poca, Andrade Ferreira, 
constatava na Revista Contempornea que *o drama histrico, como mania da poca, 
passou+; e

Ernesto Biester, prolfico autor e crtico de teatro, faz desde ento a apologia do 
drama *de costumes contemporneos+ e do *realismo+.

Mais uma vez, foi Mendes Leal quem deu o sinal da nova partida entre ns, com Os 
Homens de Mrmore, de 1854, seguido de O Homem de Ouro, em 1855, Pobreza 
Envergonhada, em 1857, culminando em Pedro, escrito em 1849 e representado em 1861, 
pea de fundo autobiogrfico, que foi discutdssima e at parodiada. De um modo 
geral, a originalidade no  o forte de Mendes Leal, que nestes dramas (excepto o 
ltimo), como em vrias comdias, no passa de um imitador consciente de modelos 
franceses e nacionais, como o fora j no dramalho e no romance histrico, e o era 
ainda na poesia panfletra. Mais tarde, Mendes Leal, que tambm foi historiador 
(Histria da Guerra no Oriente, 1853), procurou fundir o drama histrico e a comdia

800                                          HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

de caracteres e de costumes, embora em detrimento da sua viabilidade cnica, 
produzindo, alm de um Egas Moniz (186 1) sem interesse, Os Primeiros Amores de 
Bocage (1865), obra que tem, sem dvida, ambiente social, embora criado por forma 
prolixa, e urna certa fora dramtica de situaes e caracteres.

O mais ardente proslito entre ns do teatro de tese foi talvez Ernesto Biester 
(1829-1880), que, alm de numerosas tradues, comdias e dramas de moralizao 
social, como Caridade na Sombra (1858), Fortuna e Trabalho, 1863 (dedicado  classe 
dos operrios tipgrafos, que saudaram o autor

no palco), Pobreza Dourada (1864), Os Operrios, 1865, etc., procurou dar a 
respectiva teorizao (artigos coligidos em Uma viagem pela literatura contempornea, 
1856). Por ela, pelas recenses crticas, pela leitura das peas portuguesas de 
inteno social que estes e outros autores portugueses ento produziram, verifica-se 
que os conflitos decorriam, em geral, dentro de enredos sentimentas-amorosos, com 
tiradas patticas, grandes atitudes de remorso

e caridade exemplares, apelos retricos de justia e de conciliao interelasses, em 
que a crtica da velha nobreza dissipa    dora alterna com a do novo arrivismo 
poltico-plutocrtico, e com a exaltao da parcimnia, do recato, da pacincia 
ordeira por parte dos assalariados, e ainda com o sofrimento lrico das almas 
sentimentais e incompreendidas. O teatro francs congnere degrada-se ainda mais, 
quanto  qualidade, nos seus imitadores portugueses, confundindo-se com o drama 
ntimo, lacrimejante, com a comdia pitoresca de costumes, com a farsa e a comdia 
moralista, pretensamente de caracteres. As influncias francesas de Dumas Filho, 
Scribe, Augicr, Sandeau, Feuillet e outros baralham~se, adaptando-se tambm a baixo 
nvel concep~ cional determinado pelo nvel do nosso desenvolvimento social. Por 
isso, alm dos dramaturgos nomeados, muitos outros, de mritos no superiores, 
puderam ser equivocadamente includos dentro desse indeciso drama da actua- ]idade, 
desde os consagrados por outros gneros literrios (Camilo, Antnio de Serpa, 
Pimentel, Palmeirim, Andrade Corvo, Costa Cascais, Rodrigo Paganino, etc.), at aos 
que, como Csar de Lacerda, Alfredo Hogan, Azevedo e Silva, Joo de Almeida, Lus de 
Arajo, Sousa Bastos, tiveram os

seus dias de glria, fazendo representar no Nacional ou no Ginsio as suas peazinhas 
moralizantes, que pregavam, a um operariado provavelmente ausente, as virtudes da 
famlia, da religio e da harmonia social. Figura como

glria final da tendncia que nos ocupa Os Lazaristas (1875), pea antijesuta de 
Antnio Enes, que provocou polmica e extremas reaces, pblicas e oficiais.

6, a pOCA - O ROMANTISMO                                                801

ROMANTISMO: A *novela da actualidade+

Paralelamente ao drama da actualidade surge na dcada de 50 a novela ou romance da 
actualidade, ou realista, preparado alis, como vimos, pela evoluo do romance 
histrico no sentido de se aproximar da poca contempornea, e sobretudo pela 
influncia da fico moralista de GoIdsmith, Madame Genfis, Feuillet ou pelo realismo 
humanitrio de BaIzac, George Sand, Hugo, Eugne Sue, que principiou por estar mais 
ou menos ligado ao enredo folhetinesco. O Proco da Aldeia e a narrativa De Jersey a 
Granville de Herculano, as Viagens de Garrett assinalam a valorizao do quadro de 
costumes e de viagem. O pitoresco baIzaquiano das novas relaes sociais  pouco 
depois esboado por Teixeira de Vasconcelos (Roberto Valena, 1846), Mendes Leal 
(Esttua de Nabuco, 1846) e outros. Francisco Maria Bordalo (1821-186 1), oficial da 
Marinha, que tentara o romance

histrico, escreve desde 1846 os seus Romances Martimos, fracos quanto  estrutura 
de romance sentimental, mas curiosos e vivos na descrio de certas operaes e 
aventuras navais. Gomes de Amorim, em Os Selvagens e sua continuao, O Remorso Vivo, 
traz para a fico o pitoresco amerndio. Adiante veremos como o quadro de costumes 
com apologia das relaes burguesas no campo e na cidade cristaliza em Jlio Dinis; 
e, em captulo  parte, estudaremos a carreira excepcional de Camilo Castelo Branco.

Surge, entretanto, um gnero em que a observao de ambientes e as

preocupaes humanitrias caractersticas do tempo comeam a destacar-se

do enredo amoroso passional, e do culto egotista do heri romntico, desesperado, 
gasto pelos excessos do corao, que ora o amarra  mulher fatal

de mrmore, ora  mulher anglica de que se enfastia. Assim se pode, com

efeito, caracterizar o gnero que D. Joo de Azevedo (1815-1854) cultiva em O Cptico 
(1848) e O Misantropo (185 1). Mas a confisso sentimental e cptica domina ainda 
romances como Eva, 1870 (reedio 1987) de Jos Jlio dos Santos Nazar (1848-1879).

JLIO CSAR MACHADO

O continuador de A. P. Lopes de Mendona no folhetim d'A Revoluo de Setembro foi 
Jlio Csar Machado (1835-1890). O folhetim perde em

rigor de anlise e interpretao crtica o que ganha em anedtico e descri-

802                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

tivo, em renovao de personagens e ambientes literrios, de recantos pitorescos 
procurados atravs do Pas. Jlio Csar Machado, contemporneo de Ramalho, foi o seu 
mulo na literatura de impresses de viagem e de evocao. Ambos exprimem a sua 
especial admirao pelas Viagens na Minha

Terra, livro que iniciou em Portugal a literatura do pitoresco regional.

Jlio Csar foi tambm continuador e herdeiro de Lopes de Mendona no esforo que 
este fez para introduzir o *romance contemporneo+ em Portugal. As suas primeiras 
tentativas so experiencias dos 17 anos (Cludio,
1853) e convergem para uma obra ainda juvenil, embora um pouco mais amadurecida, que 
foi o ltimo ensaio do autor no gnero: A Vida em Lisboa, 2 tomos, 1858. A influncia 
de Balzac ressalta desde o prefcio, que promete um estudo objectivo da realidade, 
at  nota final, onde o autor mostra

ter o livro na conta de uma *filosofia+. A obra pretende ser uma stira dos

meios mundanos e literrios lisboetas - aspira a algo como quilo que Ea viria a 
realizar em Os Maias. Jornalistas vendidos, polticos sem escrpulos, agiotas, 
mulheres de sociedade que so modelos de hipocrisia, cinismo e sem-vergonha, actrizes 
alegremente inconscientes e cruis, por toda a parte o poder do dinheiro, comprando o 
amor, o talento e tudo o que aparece tal  o panorama que Jlio Csar nos d de uma 
pequena Lisboa convencional que se resume ao teatro aristocrtico de S. Carlos e ao 
teatro popular dos Condes, ao Caf Marrare, aos sales de duas ou trs titulares, ao 
restaurante do Mata, e  Sintra romntica dos amores clandestinos. H, sem dvida, 
tentativas para dar um ou outro tipo popular, e um relance dos divertimentos 
colectivos nas hortas para a Calada de Carriche. A intriga faz contrastar os manejos 
corruptos de um mdico e uma titular com o amor imaculado de dois seres de excepo, 
que, como em Camilo, resiste a todos os obstculos, incluindo o tempo. H nesta 
tentativa muito mais bons propsitos do que autenticidade artstica ou testemunhal: 
tirante uns dilogos travados com naturalidade e uma ou outra descrio, como a do 
teatro dos Condes, certas notaes psicolgicas justas, A Vida em Lisboa, apesar de 
certo xito durante algum tempo (teve segunda edio), l-se com esforo: faltam-lhe 
sobretudo as personagens suficientemente caracterizadas, os ambientes e aquele 
sentimento do tempo que corre, inaugurado no nosso pas, sob influncia da novela 
inglesa, por outro contemporneo de Jlio Csar Machado, Jlio Dinis.

6. - POCA - O ROMANTISMO                                                 803

Alm do folhetim, o teatro - para o qual realizou vrias tradues e

adaptaes, vrias comdias e um drama - foi a principal ocupao de Jlio Csar 
Machado. Como actividade complementar, derivou do romance para o conto. Tiveram 
grande voga os Contos ao Luar, obra na verdade significativa por um requinte esttico 
que s viria a ser ultrapassado com Ea de Queirs, por certos dilogos que eram os 
melhores da literatura portuguesa depois dos de Garrett, por personagens j 
perfeitamente desenhadas, por uma

espcie de fluir musical que transporta no s a frase mas as personagens e as cenas 
(fazendo pensar na pera, para a qual Jlio Csar Machado versejou), enfim por uma 
mistura de lugares-comuns ultra-romnticos e de um humorismo que parece por vezes 
reduzi-los a nada. Um dos contos mais curiosos da colectnea passa-se em dois planos: 
a histria do Roberto do Diabo, que se desenrola no palco, e uma outra histria 
disparatadamente melodra~ mtica, contada nos intervalos por um espectador louco.

ffiRODRIGO PAGANINO

A atestar a primazia, entre ns, do conto sobre o romance ficou a obra de um 
contemporneo de Jlio Csar Machado, o mdico, dramaturgo e

jornalista Rodrigo Paganno (1835-1863), Os Contos do Do Joaqum, livro que teve 
diversas edies at  actualidade.

Os diversos contos reunidos sob aquele ttulo esto ligados pela personalidade do seu 
suposto autor e narrador, campons de passado enigmtico, que, nas folgas do trabalho 
da lavoura, conta aos companheiros casos edificantes de sua experincia, peneirados 
pelo seu saber de antigo frade.

O autor colocou-se em consciente e declarada oposio  fico ultra- ~romntica, 
propondo-se doutrinar um pblico popular de maneira muito acessvel. Dispensa, pois, 
tanto quanto pode, o estilo literrio do ultra-romantismo, em busca de uma 
simplicidade que pretende reproduzir a da linguagem popular.  patente a inteno 
moralizadora e paternalista, segundo um

critrio doutrinrio claramente conservador. Alm de todo o ambiente campesino 
idealizado, prega em um conto a renncia do trabalhador rural a melhorar a sua 
condio; e inclui noutro as consequncias desastrosas quer moral, quer social, quer 
familiarmente - de se ser ateu. O sucesso do livro  o primeiro sintoma da larga e 
perdurvel fortuna que vai ter no nosso pas o conto rstico, e parece mostrar, por 
outro lado, a necessidade

804                                             HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

de formas e assuntos literrios diversos daquele que a literatura ultra-romntca. 
oferecia.

Entre os que saudaram o seu aparecimento e se declararam por ele influenciados conta-
se Jlio Dinis.

fflJLI0 DINIS

Em 1866 publicava-se no Jornal do Porto, em folhetins, o romance As Pupilas do Senhor 
Reitor, que, editado em volume no ano seguinte, conheceu logo xito fulminante. 
Herculano chamou-lhe o primeiro romance do sculo; e o autor, entrado na celebridade, 
sustentou essa nomeada com unia produo copiosa para os curtos anos que viveu: Uma 
Familia Inglesa (sada em 1868, mas de redaco iniciada dez anos antes), A 
Morgadinha dos Canaviais (1868), Os Fidalgos da Casa Mourisca, dois volumes editados 
postumamente no mesmo ano em que faleceu o, autor (1871), que no chegou a

rev-los; alm de diversos contos, menos personalizados, acusando por vezes

toques de Balzac e de Dickens, com que entretanto preencheu os seus folhetins do 
Jornal do Porto, depois reunidos sob o ttulo Seres na Provncia. Publicaram-se 
ulteriormente outros inditos ou dispersos, incluindo um volume de poesia e outros de 
teatro.

Jlio Dinis  o pseudnimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho (n. Porto
1838-11-14 - t 1871-09-12), que cursou Medicina e entrou ainda no corpo docente dessa 
Faculdade, mal chegando a exercer a sua profisso porque a doena o obrigou a trocar

o Porto, sua terra natal, por longas estadias de cura nas cercanias rurais de Ovar e 
na Madeira. Entre os seus avs maternos contavam-se um ingls e uma irlandesa. 
Formou-se na atmosfera de um home, e assimilou os costumes, educao e mentalidade da 
burguesia britnica.

A sua formao literria inglesada, os modos de sentir e observar aprendidos na 
riqussima experincia da novelstica inglesa (Richardson, Jane Austen e GoIdsmith 
principalmente); a sua aprendizagem do realismo burgus britnico j vindo desde o 
sculo XVIII e revigorado pela influncia de Balzac, formaram decisivamente o seu 
gosto, que aparece teorizado num apontamento, Ideias que me ocorrem, postumamente 
publicado no volume de Inditos e Esparsos. A afirma a sua predileco pelos 
*romances lentos, em que o autor nos identifica bem com as personagens entre quem se 
passa a

6. a POCA - O ROMANTISMO

805

aco, antes de a travar+, regra que segue escrupulosamente em Uma Fam~ lia Inglesa 
e em A Morgadinha dos Canaviais. Alm disso, concebe o romance

como *um gnero de literatura essencialmente popular+ e educativo. Condena o 
apagamento das personagens pela exibio opinante do autor, e as

*dernasias de bem escrever+, tendo certamente em vista a novela de Camilo. Da sua 
concepo do romance decorre tambm a ausncia ou a raridade nas suas obras de 
*indivduos caracterizadamente maus+: a natureza humana seria sempre boa e educvel, 
em potncia. Os leitores deveriam encontrar nos

romances *reflexos de si prprios+; segundo um dos seus primeiros e mais lcidos 
crticos, Sampaio Bruno, o *sucesso de Jlio Dinis proveio desta alegria do pblico 
em se sentir passar de espectador a actor+.

As suas faculdades de observador de ambientes, contornos e tipos humanos, fazem de 
Uma Familia Inglesa uma obra-prma. At ento, na literatura portuguesa, a presena 
do ambiente reduzira-se, quer  notao da cor

histrica pitoresca, quer ao tratamento *romntico+ da paisagem. Jlio Dinis, 
utilizando os processos do romance realista ingls e baIzaquiano,  quem, pela 
primeira vez, descrevendo interiores ou cenas ao ar livre, cria entre ns ambientes 
integrados com as personagens, verdadeiras atmosferas que fazem corpo com elas.

Pode dizer-se que Uina Familia Inglesa, o primeiro romance que escreveu, , no seu 
conjunto, uma larga pintura de ambientes (o que, alis, est sugerido no subttulo 
baIzaquiano de Cenas da Vida do Porto), em que o enredo sentimental serve em grande 
parte de pretexto: o ambiente da Bolsa portuense, o do guia d'Ouro, e do home 
ingls, o do lar do guarda-livros, o do quarto do jovem filho-famlia bomio. E se h 
urna incontestvel idealizao na imagem do lar familiar, temos em contrapartida um 
golpe de vista preciso e certeiramente tipificador nos outros casos. As personagens 
so igualmente tpicas de meios e ambientes sem a deformao demonaca (embora algum 
idealismo angelizante) dos nossos primeiros romnticos. Em certos casos Jlio Dinis 
segue-as na sua dinmica psicolgica subconsciente. So notveis algumas pginas em 
que descreve o processo da associao das ideias (o passeio de Manuel Quintino), o 
dos actos falhados e dos recalcamentos (sonhos, desenhos involuntrios de Carlos).

Se acrescentarmos a isto o sentido do tempo-atmosfera, ao longo do qual amadurecem os 
acontecimentos e os sentimentos (sentido que falta em todos

806                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

os romancistas portugueses anteriores, incluindo Camilo) e ainda um estilo sbrio 
onde quase foi abolida a declamao lrica, compreendemos por que razes Jlio Dinis 
pode justamente considerar-se o primeiro romancista moderno da literatura portuguesa.

Notmos ser principalmente em Uma Famlia Inglesa que se revelam estas 
caractersticas, mas j aqui apontam tendncias idealizantes e moralizadoras que 
encontramos em muito maior grau noutras obras suas.

Assim, em As Pupilas do Senhor Reitor, que  o seu primeiro romance publicado (e o 
segundo escrito), parece haver o propsito de pregar uma

moralizao de costumes pela vida rural e pela influncia de um clero convertido ao 
liberalismo, ideia sugerida pelo Vigrio de Wakefield de GoIdsmith e pelo Proco na 
Aldeia de Herculano. A objectividade e lenta preparao ambiental e psicolgica que 
caracterizam Uma Famlia Inglesa (onde alis se encontra o elogio implcito das 
virtudes do bom comerciante  inglesa) no impede uma intencional idealizao 
edificante da vida rstica, Tipos sorridentemente caricaturais giram na rbita de 
duas moas, Margarida e Clara, desajustadas Oo meio campesino. O protagonista, um 
jovem de mentalidade citadina, relaciona-se com elas num enredo amoroso triangular 
destoante da cor local. Alguns crticos contemporneos apontaram logo estes senes, 
sem embargo dos elogios, j mencionados, de Herculano.
O prodigioso sucesso do livro, bem como dos Contos do To Joaquim de Paganino, que 
muito o estimulou, e da fico buclica em geral,  curioso como sintoma dos ideais e 
das origens rurais prximas da burguesia ledora portuguesa.

A Morgadinha dos Canaviais (que no esboo incial se confundia com

As Pupilas) oferece uma maior diversificao de caracteres e de temas, e

alterna o lirismo rstico com uma crtica de costumes mais acentuada e

sombria. Saindo do horizonte da aldeia, o autor foca temas como o da corrupo dos 
costumes polticos, atravs de uma eleio de deputado; ou os reflexos sociais e 
mentais da modernizao tcnica, atravs da construo de um troo de estrada. A 
polmica em torno da reintroduo das ordens religiosas espelha-se tambm num dos 
episdios trgicos deste romance. Notemos o contraste entre a mentalidade da 
burguesia rural e a da burguesia citadina que inspira o episdio da crise de 
adaptao inicial do jovem protagonista ao cabo de uma jornada de mula (que parece 
continuar as Viagens na

6. - POCA - O ROMANTISMO                                                     807

Minha Terra) e de um processo exemplarmente focado em extrospeco e

introspeco. Os Fidalgos da Casa Mourisca, editados postumamente em volume (187 1), 
marcam uma nova fase: uma intensificao da aco novelesca e da presena de 
elementos intrigantes ou espectrais,  maneira de Dickens, como o velho solar quase 
desabitado; e por outro lado uma proposta idealista - a aliana da nova burguesia 
rural com a velha aristocracia decadente.

Convm saber que Jlio Dinis se estreou em letra de imprensa como poeta sentimental 
sem individualidade marcada e se exercitou, mais tarde, como dramaturgo e actor, numa 
roda de jovens amigos; as suas peas, alis sem

grande interesse literrio, foram publicadas em 1946-47. Esse treino dramtico 
contribui provavelmente para os bem conseguidos dilogos dos romances, e ainda para 
certas cenas decisivas de confrontao de personagens em

conflito, em que se desenlaam os ns da intriga lentamente preparada.

O fundo ideolgico dos romances de Jlio Dinis corresponde  poca de estabilizao 
que sucede ao perodo perturbado das guerras civis: o sistema de estabilidade 
partidria que ps fim s insurreies e aos golpes de Estado armados, o fomento do 
transporte. Toda a sua obra serve de apologia ao progresso concebido sob formas 
burguesas, concretizado na Bolsa do Porto, na actividade dos novos proprietrios 
agrcolas, sados da extino dos direitos senhoriais (Torn da Pvoa, Jos das 
Dornas), e materializado nas vias de comunicao, em cujo traado se nota j, 
todavia, segundo a Morgadinha, a influncia de uma oligarquia poltica corrupta. O 
professor primrio, o mdico e o padre liberal so heris tpicos desta sociedade 
visionada. No entanto - coincidindo com certas crticas ao regime que j ento se 
popularizavam -, Jlio Dinis encontra dois vcios importantes nele: a

mistificao do sufrgio a coberto da inconscincia poltica ou profunda ignorncia 
das maiorias rurais, e a contra-ofensiva do clero regular, ambas expostas 
polemicamente n'A Morgadinha dos Canaviais. Trata-se, no entanto, de pormenores de um 
sistema que, em conjunto, se considerava bom e coerente

com a prpria natureza humana. A harmonia universal, de que o liberalismo seria a 
expresso, resolvia todos os conflitos e anulava as desigualdades, ou compensava-as 
pela caridade esmoler; tal  o sentido dos enredos sentimentais de Jlio Dinis, que 
conduzem sempre ao nivelamento de dois enamorados econmica e socialmente desiguais; 
a filha do guarda-livros casa

808                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

com o filho do patro, o professor pobre com a rica morgada, a rf com

o herdeiro de terras, o fidalgo arruinado com a filha do campons a quem uma fortuna 
recente possibilitou a educao.

Assim se transpe ao plano domstico toda uma filosofia poltica. O conselheiro 
Manuel Bernardo sacode a poeira dos sapatos ao entrar na intimidade do lar, onde 
esquece a poltica, para viver s a vida de famlia. Nessa intimidade, a informao 
do vasto mundo  filtrada, a ponto de se tornar

imperceptvel. Jlio Dinis canta o lar domstico como ningum mais soube faz-lo em 
Portugal:  o romancista de uma certa ideia da Famlia e por isso mesmo foi lido como 
o romancista das famlias. Nas suas cenas de sero caseiro, de consoada de Natal, 
etc., revive a ingenuidade da infncia redourada pela nostalgia do adulto. Nelas 
reside uma parte da imensa fortuna do escritor. Mas, no fundo, Jlio Dinis, como o 
conselheiro Manuel Bernardo, seu hspede, e as restantes personagens, no deixam de 
ter uma ideologia pelo facto de limitarem os seus desejos ao horizonte familiar: a 
sua concepo de vida domstica no  a de Camilo, nem j a da maioria dos seus 
possveis leitores de hoje. Isto permite-nos palpar o que h de idealizado, embora 
convicto, neste aspecto da sua obra. A prpria experincia da vida em famlia aparece 
truncada: rfo desde cedo e falecido aos 33 anos sem ter casado, Jlio Dinis no 
apresenta nos seus romances um casal constitudo; o casamento aparece nele ou como 
meta do enamoramento e do noivado, ou como saudade santificada e acarinhada por 
vivos.

Tal exiguidade de horizontes e de experincias  talvez a grande limitao de Jlio 
Dinis. A uma notvel capacidade de construo romanesca, de observao, a um domnio 
no menos notvel da tcnica ronianceante, corresponde uma imitao de motivos, um 
convencionalismo de sentimentos e certa ingenuidade, que deram ensejo a Ea de 
Queirs para a sua conhecida sntese: *Jlo Dinis viveu de leve, escreveu de leve, 
morreu de leve+.
O seu prprio estilo apagado no deixa um travo reconhecvel na literatura.  um 
estilo intencionalmente neutro, embora elegante, que evita a exclamao e a retrica 
romntica, e em geral todo o excesso, onde se sente um certo pudor sentimental e onde 
o autor se esconde atrs de um humorismo tambm discreto e benevolente.

Esto publicados trs volumes de Teatro Indito, Livraria Civilizao, Porto,
1946-46-47, o ltimo com prefcio de Egas Moniz.

6. - POCA - O ROMANTISMO                                                            
          809

Literatura de memrias e viagens

A valorizao do pitoresco, da anedota vivida, do depoimento pessoal, da biografia, e 
autobiografia acompanha na Europa o desenvolvimento da observao cientfica, da 
taxinomia naturalista, do jornalismo e da dignificao da vida burguesa (ou, inversa 
mas

conexamente, a sua crtica pelo contraste entre o que h, nessa vida, de mesquinho e 
o desejo de aventura fsica, de comunho com a natureza). J vimos como s umas 
plidas tintas de pitoresco paisagstico se insinuam nos discpulos portugueses de 
Gessner, na imprensa liberal do exlio, em Garrett e Herculano. Assistimos ao surto 
das primeiras impresses de viagens nestes dois ltimos, em Gomes de Amorim e 
Francisco Maria Bordalo, a que poderamos acrescentar as Recordaes de Itlia (1852-
53), de A. P. Lopes de Mendona, e vrios volumes de observaes sobre a Frana, a 
Inglaterra e a Itlia, publicados por Jlio Csar Machado. No entanto, s com Ramalho 
Ortigo e, em conjunto, com a Gerao de 70 se pode considerar amadurecido entre ns 
o pitoresco das impresses de viagem e da vida regional.

O memorialismo desenvolve-se mais depressa. Garrett j redigiu um Dirio, que deixou 
informe, e muitos dos escritores romnticos, mormente os de segunda categoria, 
confiaram ao papel as suas recordaes e juzos acerca das personalidades e casos que 
conheceram. Ao lado dos vrios volumes memoriais de Camilo, dos de Joo de Lemos, 
Palmeirim, Csar Machado e outros, devem destacar-se, no tanto pela perspiccia 
judicativa como pelo escrpulo da mincia, s vezes cheia de significado, Garrett-
Memrias Biogrficas (1881-84), de Gomes de Amorim, e diversos volumes de memrias (e 
tambm de viagens) de Bulho Pato: Memrias (3 tomos, 1894-1907), Digresses e 
Novelas

(1864), Paisagens (187 1), Sob os Ciprestes (1877). Foram j publicados dois volumes 
do Dirio da Guerra Civil (1826-32), de S da Bandeira, 1975-76, Lisboa, com extensa

bibliografia que abrange numerosos espcimes de memorialismo da poca. Salientemos as 
Memrias do 7. > Marqus da Fronteira, em 4 volumes, que abrangem a transio para o 
Liberalismo e todo o 1. o Romantismo, publicados em Coimbra, 1928-32.

1111M1,67f106tiUFIA

1. Textos

Mendona, A. P. Lopes de: Cenas da Vida Contempornea, Lisboa, 1843; Memrias de um 
Dodo, Lisboa, 1849; Ensaios de Crtica de Literatura, 1849; Recordaes de Itlia, 
1852-53; Memrias de Literatura Contempornea, 1855.


Passos, Soares de: Poesias, 1. > ed. 1856; 2. > 1858; 9.          com um Escoro 
biogrfico de Tefilo Braga e alguns inditos, 1909 (reprod. em 11.         1967; 1 
S. >, Lello, Porto,
1984).

Novais, Faustino Xavier de: Poesia, 1. > e 2. > ed. 1855; Novas Poesias, 1858; Manta 
de Retalhos, Rio, 1865; Poesias pstumas, Rio, 1870.

810                                               HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Ribeiro, Joaquim Pinto: Lgrimas e Flores, 1854 ; Coroas Flutuantes, 1862. Braga, 
Guilherme: Herase Violetas, 1869; Os Falsos Apstolos, 1871; OBispo, 1874; Poesias 
(ed. pstuma), 1898.

Leal, Mendes: Os Dois Renegados, 1839; 2. > ed., Rio, 1847; O Homem da Mscara Negra, 
1843; reed. brasileiras de 1845 e 1857; A Pobre das Runas, 1846, e Rio, 1847;
O. Maria deAlencastro, 1846, O Pajem deAljubarrota, 1846; Teatro (comdias), 2 tomos,
1851-52. Ver outras ed. no texto e no Dicionrio de Inocncio. Cnticos, 1858; 
Pavilho Negro, 1859; Napoleo no Krem/in, 1865.

Ribeiro, Toms: O. Jaime, 1862 (tem, pelo menos, 13 ed.); Delfina do Mal, 1858; Sons 
que passam, 1858; Jornadas, 1873-74, 2 partes.

Amorim, Gomes de: Cantos Matutinos, 1858, reed. 1866; Efmeros, 1866; Teatro,
6 vols., 1869-70-74; Fgados de Tigre, 1857, reed. pela IN-CM, 1984, com pref. de 
Lus-Francisco Rebelo.

Machado, Jlio Csar: A Vida em Lisboa, 1858; Contos ao Luar, 1861; Recordaes de 
Paris e Londres, 1862; Em Espanha, 1865; Do Chiado a Veneza, 1867; Quadros do Campo e 
da Cidade, 1868;  Lareira, 1872; Lisboa na Rua, 1874; Apontamentos dum Folhetinista, 
1878; Vida Alegre, 1880.

Dinis, Jlio: (1.--- ed. em vol.) As Pupilas do Senhor Reitor, 1867; Uma Famlia 
Inglesa, 1868; Seres da Provncia, 1870 (3. ed., acrescentada, 1879); Os Fidalgos 
da Casa Moursca, 187 1; Poesias, 1873-74; Inditos e Esparsos, 2 vols., 1910; Teatro 
Indito, 3 vols., 1946-47. Os romances tm numerosas ed. (mais de trinta, As Pupilas 
do Senhor Reitor), quase todas com incorreces, eliminadas nas ed. da Liv. 
Civilizao, Porto.

Bordalo, Francisco Maria: Eugnio, romance martimo, 1. a ed., Rio, 1846; 2. ed., 
Lisboa, 1854; col. pstuma Romances martimos, 2 vols., Porto, s/d.

2. Antologias

Poesia ultra-romntca portuguesa, 2 vols., seL, pref. e notas de J. do Prado Coelho, 
col. *Clssicos Portugueses+, reed. em 1965 sob o ttulo de Poetas do Romantismo.

Cruz, Liberto: Jlio Dinis - Antologia, Europa-Amrica, Lisboa, 1974. Sfady, Naief: 
Jlio Dinis - Romance, col. *Agir+, 1961.

3. Estudos

Condices histricas:


Pereira, Miriam Halpem: Livre-cmbio e desenvolvimento econmico. Portugal na 2. 
metade do sc. XIX, Cosmos, Lisboa, 1971 (recenso e polmica em *Vrtice+, 31,
334-335, Nov.-Dez. 1971, e 32, 341-342, Junho-Julho, 1972).

Sideri, Sandro: Comrcio e Poder - Colonialismo Informal nas Relaes Anglo-
Portuguesas, trad. port., Cosmos, Lisboa, 1977.

Serro, Joel: A Emigrao Portuguesa, 2. ed. ref., Horizonte, Lisboa, 1974. Capela, 
Jos:A Burguesia Mercantil do Porto e as Colnias (1834-1900), Porto, 1975.

6. - POCA - O ROMANTISMO

811

Ferreira, M. Emlia Cordeiro (coordenadora): Reflexes sobre Histria e Cultura 
Portuguesa, Instituto Portugus do Ensino a Distncia, Lisboa, 1985. (Contm estudos 
de sntese sobre o sc. XIX, incluindo a Regenerao.)

Braga, Tefilo: As Modernas Ideias na Literatura Portuguesa, Porto, 1892, e Escoro 
biogrfico, na 9. > das Poesias de Soares de Passos.

Figueiredo, Fidelino de: Histria da literatura romntica portuguesa, Lisboa, 1913, 
reed. Liv. Clssica Editora, Lisboa, 1923, e A Crtica Literria em Portugal, Lisboa, 
1910.

Basto, Artur de Magalhes: O Porto do Romantismo, Coimbra, 1932. Bruno, Sampaio: A 
Gerao Nova, Porto, 1886, Modernos Publicistas Portugueses,
1906, reed. Lello 1987, e Portuenses Ilustres, 3 vols., Porto, 1907-1908.

Suplemento Cultural de *0 Comrcio do Porto+ de 1954-06-01, dedicado a *0 Porto e a 
sua vida literria e artstica entre 1854 e 1954+, includo no vol. Estrada Larga, 1, 
Porto.

S, Vtor de: Perspectivas do Sculo XIX, 1964, reed. rev., Porto, 1976; Amorim Viana 
e Proudhon, 19 59; A Crise do Liberalismo e as primeiras manifestaes das ideias 
socialistas em Portugal (1820-1852), 3. ed.

Ribeiro, Maria Manuela de Bastos Tavares: Lopes de Mendona - a Obra e o Pensamento, 
Coimbra, 1974 (contm um minucioso inventrio de textos e referncias)@ e Teorias e 
Teses Literrias de A. P. Lopes de Mendona, Coimbra, 1980 (com extensa referncia a 
textos que muito importam  histria das ideias e dos gostos romnticos). H uma ed. 
crtica de Memrias de um Doido, de A. P. Lopes de Mendona, com estudo e notas de 
Jos Augusto Frana, IN-CM, 1982. (Excelente condensao das linhas de fora na 
fico de A. P. Lopes de Mendona.)

Pereira, Jos Esteves: Henriques Nogueira e a Conjuntura Portuguesa (1846-1851), sep. 
da *Revista de Histria das Ideias+, vol. 1 (1976).

Rebelo, Lus-Francisco: O Teatro Portugus do Romantismo aos nossos dias, 1. 1 vol., 
Lisboa s/d, (em antologia contm, entre outras peas mais conhecidas, Fgados de 
Tigre, de Gomes de Amorim, de que s havia uma ed., rara, de 1869); O Melodrama 
Ultra-Romntico, in Esttica do Romantismo em Portugal, Centro de Estudos do Sculo 
XIX do Grmio Literrio, Lisboa, 1974.

Picchio, Luciana Stegagno: Histria do Teatro Portugus, Lisboa, 1969. Silva, Vtor 
Manuel de Aguiar e: O Teatro de actualidade no romantismo portugus (1849-75), sep. 
da *Revista da Histria de Portugal+, vol. 2, 1965, Coimbra, pp. 127-128 (contm 
larga bibliografia bem caracterizada de produo teatral e de teorizao sua 
contempornea).

Tengarrinha, Jos: A imprensa ilegal durante a guerra civil de 1846-47 in Estudos de 
Histria Contempornea de Portugal, Caminho, Lisboa, 1983, pp. 239-260, e Histria da 
Imprensa Peridica Portuguesa, 2. > ed. rev. e aum., Caminho, 1989Lopes, scar: 
Trinta Anos de Poesia Oitocentista (1860-ffl, in lbum de Famlia, Caminho, Lisboa, 
1984; estudo sobre Bulho Pato, includo na Perspectiva da Literatura Portuguesa no 
Sculo XIX, que abrange dados acerca da esttica ultra-romntica; Modo de Ler, 1969, 
reed. 1972; De *0 Arco de SantAna+ a *Uma Famlia Inglesa+, in lbum de Famlia, 
Caminho, 1984, pp. 10-26; A Crtica Inintencional em Jlio Dinis, sep de *Biblio-

812                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

theca Portucalensis+, 11 Srie, n. 1 4, 1990, pp. 47-59, includa em Cifras do Tempo, 
Caminho, 1990.

Monografias vrias contidas na Perspectiva da Literatura Portuguesa no sc. XIX, 
dirigida por Gaspar Simes, e na Histria da Literatura Portuguesa Ilustrada dos 
scs. XIX e XX, dirigida por Forjaz de Sampaio.

Cidade, Hernni: Conferncias - Cames, Garrett e Gomes de Amorm, Porto, 1929.

Moniz, Egas: Jlio Dinis e a sua obra, 2 vols., 1. > ed. Lisboa, 1924, 6. > ed. rev., 
Liv. Civilizao, Porto, 1946.

Nemsio, Vitorino: O Romance de Jlio Dinis, in *Rev. da Fac. de Letras de Lisboa+, 
tomo Vil, 1940-41, pp. 388-394.

Castro, AnIbal Pinto de: Baizac em Portugal, Coimbra, 1960. Saraiva, Antnio Jos: 
Jlio Dinis, in *Vrtice+, n. > 67, includo em Para a Histria da Cultura em 
Portugal, 2. O vol., Lisboa, 196 1.

Simes, Joo Gaspar: Jlio Dinis, na col. *A Obra e o Hornem+, Lisboa, artigo 
includo no 1. vol. da Perspectiva do Sculo XIX, atrs referido, e Histria do 
Romance Portugus, 2. e 3. vols., 1971-72.

Coelho, Jacinto do Prado: Introduo ao estudo da novela camiliana, Coimbra, 1946, 
reed. ref. e aum., 2 vols., IN-CM, 1983; pref. da antologia atrs mencionada; Ao 
Contrrio de Penlope, Bertrand, 1976 (sobre Maria Browne); e Um Crtico do 
Romantismo: Antnio Pedro Lopes de Mendona e O Monlogo interior em Jlio Dinis, in 
A Letra e o Leitor, Lisboa, 1969.

Santilii, Maria Aparecida de Campos: Jlio Dinis, Romancista Social, Universidade de 
So Paulo, 1967 (tese policopiada),

Cruz, Liberto: Jlio Dinis Cent Ans Aprs, in tudes Portugaises et Brsiliennes, 5, 
Rennes, 1969; Jlio Dinis e o sentido social da sua obra, in *Colquio/ Letras+, Maio 
1972.

Frana, Jos Augusto: O Romantismo em Portugal, vol. 5, Horizonte, Lisboa, s/d. 
Stern, lrwin: Jlio Dinis e o Romance Portugus (1860-70), Lello, Porto, 1972; Jane 
Austen e Jlio Dinis, in * Colquio/ Letras+, 30, Marco 1976.

Lepecki, Maria Lcia: Romantismo e Realismo na obra de Jlio Dinis, *Biblioteca 
Breve+, lCLP, 1979.

Marchon, Maria Lvia Diana de Arajo: A Arte de Contar em Jlio Dinis, Almedina, 
Coimbra, 1980 (anlise narratolgica baseada nos mtodos e conceitos de G. Genette).

Ver tambm o pref. de Vitorino Nemsio  ed. de As Pupilas do Senhor Reitor, 
Bertrand, com cron. e bibl. de Jorge Nemsio.

*Biblioteca Portucalensis+, 11 Srie, n. O 4, 1990, com 5 estudos-conferncias 
comemorativo do centenrio de Jlio Dinis.

Sousa, Maria Leonor Machado de: A Literatura *Negra+ ou de Terror em Portugal, 
Editorial Novaera, Lisboa, 1978 (diz respeito a tradues, adaptaes e imitaes, em 
prosa ou verso narrativos e em drama, de fontes indirectas ou directas, inglesas, 
alems e francesas principalmente, at 1865); O *Horror+ na Literatura Portuguesa, 
*Biblioteca Breve+, lCLP, 1979.

Captulo Vi

CAMILO CASTELO BRANCO

Uma personalidade domina a segunda gerao romntica e pode considerar-se como o seu 
representante tpico e superior, quer pelo temperamento, quer pelo caudal da sua obra 
e pelo extenso pblico a quem interessou: Camilo Castelo Branco (n. Lisboa, 1825-03-
16 - t 1890-06-01).

A persistncia dos morgadios e de velhos preconceitos de classe em Portugal, 
particularmente na regio de Entre Douro e Minho, at passante de meados do sculo 
XIX, relaciona-se com alguns dos seus aspectos mais tradicionais ou de crtica anti-
lineagista, mas o seu, inconformismo define-se tambm, biogrfica e literariamente, 
numa antipatia veementemente romntica em relao ao esprito * burgus+, ao 
brasileiro, ao titular do Constitucionalismo,  caa do lucro e do dote. Essa 
antipatia exprime-se pela carica~ tura, pelo trao grosso, pois Camilo, profissional 
das letras, move-se dentro

dos preconceitos morais e sociais conflitualmente alternativos do seu pblico. Da, 
como veremos, profundas contradies e oscilaes entre um idealismo e um 
materialismo, ambos sumrios; da um estilo frequentemente azedo, sarcstico, 
incluindo o auto-sarcasmo daqueles mesmos tipos morais e estticos que quer idealizar 
na sua obra. Tal sarcasmo dava-lhe a ele, e ao seu pblico, a convico de vencer os 
conflitos, sociais e intimamente seus, do real e do ideal; embora tambm possa, em 
dada medida, sentir-se como forma de resigna o e conformismo. No entanto, a sua 
obra traz at ns o palpitar humano das provncias nortenhas no seu tempo, com uma 
vida e

uma densidade que nenhum outro ficcionista voltou a captar.  o nosso

814                                                 HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

grande mestre da narrativa densa, rpida, de objectividade inteiramente persuasiva e 
pungente nas melhores pginas que escreveu.

CAMILO CASTELO BRANCO: Vida e carcter

A acidentada vida passional de Camilo Castelo Branco foi a mais importante fonte da 
prpria novela camiliana, a tal ponto que um dos seus bigrafos, Alberto Pimentel, 
pde imaginar O Romance do Romancista por uma simples montagem de textos da sua

autoria. Filho natural, rfo de trie quando tinha um ano e de pai desde os dez 
anos, recebe a partir da uma educao provinciana e irregular, entre parentes 
tansmontanos, primeiro junto de uma tia de Vila Real, depois na casa de uma irm mais 
velha, em Vilarinho da Samard, e na de outro parente em Fritime (Ribeira de Pena). 
Algumas das suas

obsesses mais sensveis sero as da orfandade, sobretudo materna, da infncia 
abandonada, da ternura (ou indiferena) me-filho ou pai-filho.  a dois padres de 
aldeia que deve os princpios da instruo literria, de modo que, tirante algum 
estudo de Francs, pode dizer-se que a sua adolescncia se formou culturalmente ao 
contacto dos clssicos portugueses e latinos, da literatura eclesistica, e da 
aventura ao ar livre serrano. Com efeito, a experincia duma fuga, de muitas jornadas 
pelas regies mais sertanejas de Trs-os-Montes, de vrias viagens (por vezes 
acidentadas) a Lisboa, de caa monts, de amores bravios, o conhecimento ntimo da 
gente serrana obtido na companhia de padres e de um cunhado m dico - tudo isse se 
filtra na sua obra, atravs de um estilo e de uma concepo de vida que, sobretudo 
at cerca de 1875, parecem prolongar muito do pr-romantismo setecentista. Em 1841 
celebra-se o seu casamento, que em breve esquecer, com Joaquina Pereira, de quem 
teve uma filha que morreu com cinco anos. Entre 1843-46 intenta, primeiro no Porto e 
depois em Coimbra, tirar um curso de Medicina, que no levar a cabo mas que lhe 
deixar uma erudio pitoresca em drogas e descries patolgicas. Sobreexcitado e 
aventureiro em matria de amores, conta-nos entre outras coisas estranhas, que foi 
buscar um esqueleto para estudos mdicos aos despojos mortais inumados de Maria do 
Adro, uma das suas amadas. Pouco antes de enviuvar, rapta de Vila Real para o Porto a 
jovem e rf Patrcia Emilia, de quem teve outra filha; mas tambm dela em breve se 
enfastiou. Esse rapto valeu-lhe alguns dias de priso. Sobrevm as lutas patuleias, 
em que, segundo pretende (mas  coisa duvidosa), teria episodicamente participado na 
guerrilha miguelista de Me Donnell.

A partir de 1848 desenrola-se a fase das primcias literrias, com a sua vida fixada, 
em geral, no Porto. Carnilo pertence ento  roda dos lees do Caf Guichard e ao 
ambiente que caracterizmos no captulo anterior. Escreve stiras anticabralstas e 
antieclesisticas, folhetos de cordel, publica as primeiras poesias, e as suas 
primeiras novelas surgem no folhetim do Eco Popular e de O Nacional. Estreara-se 
pouco antes como autor num

palco de Vila Real com o drama Agostinho de Ceuta. Alm das intrigas e aventuras de 
redaco jorralstica, de camarim de pera, de sociabilidade literria, continuam os 
enredos

6. a POCA - O ROMANTISMO                                                            
    815

amorosos; os outeiros poticos do-lhe acesso  intimidade de uma freira; vive algum 
tempo com uma costureira dos arrabaldes; bate-se em duelo (?) com um dos filhos de 
Maria Felicidade Browne, que dele se enamorara; finalmente, apaixona-se por Ana 
Augusta Plcido, que vem a casar-se com o brasileiro Pinheiro Alves. Desencadeia-se-
lhe uma crise religiosa que o leva a matricular-se no Seminrio do Porto (1850-52), 
para, como

vrios dos seus heris, buscar na ordenao sacerdotal o blsamo do inferno na alma. 
Em 1852-53 colabora em rgos da imprensa absolutista e clerical, com os quais logo 
rompe. Em 1859, finalmente, estando j bem lanado na carreira de novelista, com 
bastantes volumes publicados, a sano dos crticos literrios mais autorizados, e 
acompanhando a evoluo geral no sentido da actualidade e do realismo, do-se os 
acontecimentos que mais o celebrizam: Ana Plcido abandona o marido, vai viver com 
Camilo para Lisboa; o escndalo, as dificuldades monetrias, e, depois, a perseguio 
judiciria for~ am os dois apaixonados a fugir de terra em terra, a tomar as mais 
desencontradas decises, at que, primeiro ela, e depois ele, do entrada na cadeia 
da Relao do Porto. A priso e o julgamento, de que resulta uma memorvel absolvio 
(1861), encerram a fase de amadurecimento pessoal e literrio, e a publicao de O 
Amor de Perdio em

1862, como fruto principal da sua ltima aventura, que lhe inspira a biografia 
romanceada de um seu parente, assinala o apogeu da sua popularidade de novelista. As 
Memrias do Crcere, tambm de 1862, so um notvel testemunho sobre a vida prisional 
do tempo, com inforniaes sobre a criminalidade ento endmica ou organizada que 
retomar em novelas como O Cego de Landim.

A partir de 1864, com vrias intermitncias, a sua vida decorre na casa de S. Miguel 
de Ceide, que o filho de D. Ana Plcido e do seu primeiro marido recebeu em herana. 
Obrigado a viver do que escreve, Camilo passa a ltima fase da sua vida num crescendo 
de tragdias; afligem-no as dificuldades de dinheiro (em 1883 a sua biblioteca  
leiloada) e o avano implacvel da cegueira; dos dois filhos que tem de Ana Plcido, 
o mais velho, Jorge,  louco, e o segundo um intil cuja soluo de vida consistiu em 
casar rico, mediante

um namoro epistolar e um rapto que o prprio Camilo agenciou. Alguns dos seus amigos 
mais ntimos, como Viera de Castro, findam tragicamente. O escritor est na acm, na 
plenitude dos seus recursos literrios: as suas novelas, embora improvisadas sempre, 
colhem com flagrante realismo tipos populares, burgueses, restos da desagregao dos 
morgadios de Entre Douro e Minho, num estilo vivo que incorpora a linguagem oral 
mnhota e processos da nova narrativa realista, mas ele sente-se por vezes 
ultrapassado como romancista propriamente dito, quando surgem, primeiro Jlio Dinis, 
depois Ea de Queirs. Dependendo quase exclusivamente do seu trabalho literrio, no 
pde nunca

dar-se ao gosto de construir um romance de flego, torneado de caracteres e 
ambientes, que eliminasse os atractivos folhetinescos e a retrica sentimental. 
Tefilo Braga revela at que ponto chegava a proletarizao literria do gnio de 
Camilo, quando nos indica as exigncias de vrios editores que teve: um deles 
encomendava-lhe livros de moralismo convencionalmente religioso; outro queria enredos 
histricos; outro s aceitava obras de

816                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

escndalo, quer pela polmica, quer pelo contedo *apimentado+.  certo que no lhe 
faltaram homenagens honrosas: o rei D. Pedro visitara-o duas vezes na priso; 
Castilho e outros ergueram-no s nuvens; foi feito visconde, como Garrett e Castilho. 
Em 1888 legitima-se a sua ligao com Ana Plcido. Mas os sofrimentos fsicos, 
morais, pecunirios, o tdio de todas as aventuras, sobretudo da ltima, prepararam 
nele mais uma vtima

da psicose romntica do suicdio, acabando por se matar com um tiro de pistola, em 
1890, depois de perdida a esperana de recuperar a vista.

CAMILO CASTELO BRANCO: obra: generalidades

A bibliografia camiliana  muito extensa: as suas produes contam-se por centenas. 
Publicou volumes de poesia lrica nos moldes da poca (Inspiraes, 1852; Um livro, 
1866; Ao Anoitecer da Vida, 1876; ete.); poemetos satricos mais ou menos pessoais 
(Pundonores Desagravados, 1845, que foi a sua primeira obra impressa, e em 1847 
inclui, com outras primcias, em Delitos da Mocidade; Murraa, 1849, etc.); folhetos 
e amplos volumes de contundentes polmicas, de um teor pessoalista e geralmente 
demaggico, como os que visaram Silva Pinto, 1874, a escritora Ratazzi, 1880, 
Alexandre da Conceio, 1881, alm de intervenes na questo do milagre de Ourique, 
na Questo Coimbr, etc. Dedicou-se tambm  crtica e  histria literria, com 
agudo senso do ridculo e de certos factores biogrficos, mas

sem solidez judicativa (Esboos de Apreciaes Literrias, 1866; Curso de Literatura 
Portuguesa, 1879, que continua o de Andrade Ferreira; Cancioneiro Alegre, 1879; 
Seres de S. Miguel de Ceide, 1886; etc.). Muito versado em problemas genealgicos, 
em certas miualhas eruditas, bibliogrficas e anedotas histricas, deixou tambm 
vrios volumes de investiga o e miscelnea (Duas Horas de Leitura, 186 1; Cavar em 
Runas, 1868; Mosaico e Silva, 1869; Noites de Insnia, 1875; Narcticos, 1884; Maria 
da Fonte,
1885; etc.). Para o teatro produziu dramas histricos e passionais, e comdias de 
caracteres (Agostinho de Ceuta, 1848; Abenoadas Lgrimas, 1862;
O Morgado de Fafe em Lisboa, 1862; etc.). No jornalismo, alm de folhetins, poesia e 
crtica literria, produziu ainda um trabalho vasto e indiferenciado de redao e 
direco, na *Gazeta Literria+ do Porto, 1868, e nou~

tros peridicos. Traduziu muito. Prefaciou e editou numerosas obras, incluindo as dos 
seiscentistas Soropita, Manuel de Melo, e Serro de Castro. Deixou epistolografia 
vastssima. No entanto, o gnero mais importante da sua obra

6. a POCA - O ROMANTISMO                                                   817

 a novela (narrao imlinear de 100 a 150 pginas) ou ento o conto, que 
distinguiremos pelo menor flego narrativo, gnero em que criou algumas obras-primas 
e corri que preencheu o melhor de vrios volumes (Doze Casamentos Felizes, 1861; 
Noites de Lamego, 1863; Noites de Insnia, 1874), incluindo Vinte Horas de Liteira, 
1864, e Corao, Cabea e Estmago, 1862, que tm cada um deles a unidade contstica 
de um decamerone camiliano.

A novela camiliana: sua evoluo

At meados da dcada de 50, a obra novelstica de Camilo no se individualiza 
notavelmente dentro das tendncias principais que entretanto se verificam na fico 
em prosa de autoria portuguesa ou traduzida. Tendo-se estreado em letra redonda com 
pardias de estudante, com stiras e crnicas anticabralistas, com poesias ultra-
romnticas, com dramas histricos e um folheto sensacionalista sobre um crime 
hediondo, publica por 1848, em O Eco Popular e O Nacional, uma srie de folhetins em 
que, no fundo, se debatem os conflitos sociais e morais da juventude romntica (A 
ltima vitria de um conquistador, O Esqueleto, etc.). Trata-se, em geral, de um gal 
esgrouviado e macilento, segundo a moda de Arlincourt e outros escritores romnticos, 
que, embora de boa ndole, se deixa corromper pela podrido social urbana (ideia de 
Rousseau), seduz uma mulher e a abandona, enfastiado ou que, ento, a ama 
desvairadamente, mas tem de ceder perante a imposio de um pai tirano que a pretende 
casar com um rival to lorpa como rico, de tudo isso resultando enlouquecimentos, 
mortes pela tsica, pelo suicdio ou assassinato. Camilo no mais abandonar de todo 
este esquema, que se

relaciona com a idealizao de uma como que *religio do amor+, na qual as aspiraes 
ideais (o *prelibar de bem-aventuranas+) s podem recortar-se contra um fundo 
trgico de impossibilidades sociais, ou de crimes e sacrilgios; e em que, por outro 
lado, a posse fsica nunca deixa de gerar o fastio quanto  mulher angelizada, o 
solilquio lrico de tdio, ou a responsabilizao vaga da sociedade ou do destino 
por tudo isso.

Nesta fase inicial nota-se tambm, em certos folhetins, como no drama Agostinho de 
Ceuta, a influncia do historicismo e do moralismo grandloquo de Herculano, que se 
cruzam em Antema (185 1), a sua primeira novela editada em volume, com a influncia 
de Nossa Senhora de Paris de Hugo (o tema da vingana sacrlega e rancorosa de um 
sacerdote). Antema conHLP - 52

818                                       HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

tm j saborosos ntermezzos de dilogos, comentrios e supersties rurais, e uma 
curiosa Simpatia pelo artesanato seiscentista ainda no proletarizado ou aburguesado, 
mas constitui tambm a transio numa tendncia que conduz  srie novelesca 
constituda pelos Mistrios de Lisboa (1854) e O Livro Negro do Padre Dinis (1855): a 
tendncia melodramtica para o enredo de perseguio, expiao e terror macabro 
atravs de vrias geraes de uma

mesma famlia, com enjeitados, raptos, prises, crimes, remorsos, reaparies e 
reconhecimentos inverosimeis - temperado por incidncias de pardia sorridente que 
alis no destoa do folhetim romntico, como j conhecemos das Viagens de Garrett. 
Camilo procura satisfazer assim o gosto do romance negro de aventuras, lanado pelo 
pr-romantismo ingls (H. Walpole, Ana Radcliff) e afim do melodrama de Pixrcourt, 
e de que Souli, Nodier, Fval, Sue e o prprio Vitor Hugo foram os principais 
transmissores. , no entanto, significativo o facto de o nosso novelista esbater, e 
at menosprezar, a crtica da misria e das degradaes morais, das perverses que a 
misria provoca, tal como a encontramos nos livros de Eugne Sue e Vitor Hugo que 
imita. Camilo manifestou mesmo, e mais que uma vez, a sua antipatia em relao  
literatura de crtica social, nomeadamente em relao a

Hugo, Balzac e George Sand. Nestes romances folhetinescos daquilo que poderemos 
considerar ainda a sua fase inicial, o que sobressai  o intricado quadro genealgico 
das grandes expiaes criminais, e a personificao sumria dos grandes e abstractos 
mbeis que atribui ao comportamento humano: o dio, o sentimento amoroso, o remorso, 
a caridade, e sobretudo, como em Herculano, a vingana.

Atendendo  voga de que a novela de Carnilo j ento gozava, podemos concluir que o 
tipo de romance que os feuilletons da imprensa francesa consagraram poucos anos 
depois da Revoluo de 1830 e que, na sua melhor poca (aquela que medeia entre essa 
revoluo e a de 1848), teve a seu servio alguns dos melhores e mais progressivos 
romancistas, adquiriu, ao lanar em Portugal por incios da Regenerao, um carcter 
acentuadamente sonhador, evasivo, de certo modo anlogo ao da fico historicista. 
Mas, como

j vimos (e vamos verificar na novela camiliana), pelo meio do decnio de
50 esboa-se uma viragem no sentido do realismo, da novela da actualidade, em que a 
lio baIzaquiana, embora enfraquecida e at mesmo teoricamente criticada, j faz 
sentir os seus efeitos.

6. >POCA - O ROMANTISMO                                                     819

Por meados da dcada de 50, com efeito, pode considerar-se definitivo o carcter 
literrio de Camilo, com a srie constituda por Cenas Contemporneas (1855-56), 
ttulo que, pelo seu sabor baIzaquiano,  s por si ndcio de uma evoluo realista 
(alis por enquanto s parcial), e por Onde est a felicidade? (1856), com um 
excelente incio multitudinrio (o Porto em demagogia antiliberal sob a ameaa de 
Soult), bons relances de costumes populares, com uma stira  alta burguesia 
*brasileira+ e uma figurao do romntico *homem fatal+ que se continuam e 
intensificam em Um Homem de Brios (1856), numa subtilizada dialctica de paixo e 
orgulho, mais tarde rematada por esse cmulo de narcisismo masculino que so as 
Memrias de Guilherme do Amara] (1865). Desde ento, at cerca de 1875, Camilo depura 
o esquema da novela passional, dando-lhe o mximo da intensidade dramtica, avivando-
lhe o ritmo narrativo, circunstanciando-a, em geral, com

notas sbrias, mas precisas, das condies histricas que decorrem entre finais do 
sculo XVI e a extino final dos morgadios, e do meio social da burguesia portuense 
ou das mais diversas camadas rurais minhotas. Paralelamente, e numa constante 
oscilao pendular, que chega a abranger o todo de uma srie de novelas (A Filha do 
Arcediago, 1856, e A Neta do Arcediago, 1857; Cenas da Foz, 1861) ou a estrutura 
global de uma histria (como Corao, Cabea e Estmago, 1862), Camilo desenrola o 
gnero da novela satrica de costumes, voltando do avesso o idealismo passional e 
dando-nos o quadro de uma vida inteiramente dirigida pela sordidez argentria, pelos 
prazeres da digesto planturosa, pela nsia hipcrita, refalsada e brutal da 
supremacia social, e por outros gozos vulgares. Essa oscilao pendular nota-se em 
Amor de Salvao, 1864, embora esta novela, contraposta no ttulo a Amor de Perdio, 
se destine antes a contrastar a mulher-anjo com a mulher fatal e a esboar o quadro 
algo irnico de uma vida conjugal feliz e buelica de proprietrio rural.

Estas duas tendncias alternativas, que o novelista raro conseguiu resolver numa 
sntese, ficando assim ao n vel da oposio idealismo-materialismo (no sentido moral 
mais vulgar), culminam, respectivamente, em Amor de Perdio, 1863, e Queda dum Anjo, 
1866, podendo na primeira incluir-se novelas como Onde est a felicidade? (1856), 
Carlota ngela (1858), Romance dum Homem Rico (186 1), A Bruxa do Monte Crdova 
(1867), A Doida do Candal (186 1), Retrato de Ricardina (1868), A Mulher Fatal 
(1870); e na

segunda, vrias das Cenas Contemporneas (1856), parte inicial de Que fazem

820                                       HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

as mulheres (1858), e uma pitoresca e flagrante farsa de costumes burgueses 
tripeiros, que  uma das suas melhores obras: A venturas de Basilio Fernandes 
Enxertado (1863). Nem mesmo depois de 1875, na fase final da sua carreira, quando, 
sem nunca deixar de ver teoricamente o realismo como simples pintura de quadros da 
degradao humana, principia, no entanto, a assimilar alguns dos seus melhores 
processos -, nem mesmo ento Camilo fixou numa viso integrada ou consistente a sua 
maneira de sentir a vida. E ainda de notar que muitos dos elementos inferiores da sua 
iniciao novelstica se mantm, mesmo esbatidos, e sobretudo nesta ou naquela srie 
que a especulao editorial do livro e do folhetim exigem. Eis o que acontece com o 
moralismo extremo de O Bem e o Mal (1863), a exaltao do artfice honesto na 
dissoluo burguesa e clerical de Os Mistrios de Fafe (1868), alis consonante com a 
do drama portugus de tese seu contemporneo, o

enredamento melodramtico de Coisas Espantosas (1862) e da srie seise setecentista O 
Regicida (1874), A Filha do Regicda (1875), A Ca vcra da Mrtir (1876). Camilo 
tentou tambm, de'facto, o romance histrico, como em O Santo da Montanha (1866), 
onde organiza a seu modo, num enredo de crimes e expiaes de amor, algumas 
informaes heterogneas sobre o sculo XVII, e nas biografias romanceadas de um 
mdico judeu, O Olho de Vidro (1866), e de Antnio Jos da Silva, O Judeu (1867), que 
focam perseguies inquisitoriais no incio do sculo XVIII, mas sem conseguir dar-
lhes ambiente, motivaes verosmeis, embora a primeira destas novelas revele bom 
conhecimento do criptojudasmo e da medicina setecentistas (e ambas um certo 
sincretismo religioso); O Senhor do Pao de Nnes (1867), com um desfecho pattico e 
banhado no maniqueismo moral tipicamente carniliano, d melhores flagrantes dos 
finais do sculo XVI: um solar rural, uma intriga ulica, a farsa trgica do Prior do 
Crato, extorses e violncia no vice-reino do Oriente.

A novela passional da maturidade literria de Camilo mantm, em dose varivel de 
livro para livro, muitos destes ingredientes e o esquema de incio.  parte as 
diferenas profundas quanto ao estilo, ao ritmo,  atitude de introverso e  
subtileza psicolgica, h uma *religio do amor+ comum

a Camilo e a Bernardim, com a diferena, no entanto, de que em Bernardim a mulher  
sujeito e no s objecto do amor, e, por outro lado, este no passa da fase do 
enamoramento (e por isso da transfigurao lrica do real). Em Camilo, o homem tem 
uma atitude combativa perante os obstculos sociais

6. a POCA - O ROMANTISMO                                                  821

que o separam do objecto do desejo, e  evoluo do enamoramento,  aspirao de 
*recnditas alegrias+, de *dulcssimos jbilos+, descritas segundo a retrica 
sentimentalista do romantismo, segue-se, no sujeito masculino do amor, a dialctica 
sentimental do tdio e do remorso, ou do equvoco e do reconhecimento tardio, ou a da 
eternidade do amor perante a morte. E tambm em contraste com Bernardim, o sentimento 
moral do crime, o sentimento religioso do pecado andam inseparavelmente ligados a 
toda a tentativa de consumao do amor, como se as mais profundas relaes afectivas 
entre o homem e a mulher nunca devessem sair do plano super-real do sagrado, do 
intangvel, e a mulher amorosa tivesse necessariamente de ser uma vtima anglica, ou 
uma aniquiladora *mulher fatal+. A novela camiliana tpica , por isso, a novela de 
grandes penitentes do amor.  mulher confere-se sempre um papel da mais nobre 
dignidade (geralmente anglica, por vezes demonaca) -, mas tal supremacia esvazia-
se, na realidade, de sentido psicolgico, reduzindo-se a um smbolo potico do 
misterioso eterno feminino, e

s vezes a uma personificao icnica do esprito de sacrifcio. Simples emanao 
celeste ou infernal do homem, como Margarida e Mefistfeles o so

para o Fausto de Goethe, os defeitos da mulher amada (que no seja uma

mulher popular) so satnicos ou nenhuns - falta-lhe humanidade, e at a eloquncia 
da sua paixo, quando se faz ouvir,  inconfundivelmente masculina.

A frmula *mrtires do amor@>, que figura j nos *infernos dos namorados+ 
quatrocentistas e que Camilo redescobre, tem nesta novela passional um alcance mais 
do que metafrico. Trata-se, afinal, de promover o amor  categoria do sagrado, do 
incomensurvel com a razo e com as normas

morais correntes (tendncia cujas razes se documentam j na simbologia sexual dos 
ritos primitivos e que certas novelas arturianas, nomeadamente a de Tristo e Isolda, 
elevaram mais tarde ao plano das relaes psquicas).
O desenvolvimento do enredo atravs dos *elos de uma cadeia fatal+ segue um trilho 
profetizado por pressgios terrficos e confirmado por coincidncias estranhas, no 
raro tingidas de sobrenaturalidade;  consumao do *sacrifcio+ assiste (como 
assistiu ao do Calvrio) a prpria natureza emocionada, com o frequente *sibilar do 
nordeste+; dir-se-ia mesmo, nalguns casos, que cada amante no passa de mera causa 
ocasional (menos que eficiente) da tragdia: *No o amava; via nele a minha desgraa; 
obedecia-lhe

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 fascinao; sentia de antemo o prazer de me sentir despedaada na queda ao seu 
abismo+. O sofrimento, o remorso, a expiao cruciante do pecado de fruir na Terra a 
glria de um amor ultraterreno  que resgata (mais do que isso:  que assinala) as 
almas deveras eleitas - e no o pacato cumprimento das normas do Declogo ou do 
cdigo civil. Camilo esmera-se em

recortar, sobre o fundo da sua prpria impossibilidade necessria, ou at

mesmo essencial, o trgico frmito de um amor em regra ilegal, por vezes

sacrlego, mas *santificado e abenoado pelo anjo de Deus e de ambos+; e abundam os 
lances em que, ao modo da Vera Efgie na toalha de Vernica, Camilo pe sob os nossos 
olhos a mscara dolorosa e precocemente envelhecida de um(a) jovem que o incndio do 
amor consumiu. *A salvao est em chorar e padecer+; h, sim, uma esfera de 
eternidade, mas nela projecta-se, no o herosmo das opes responsveis, mas sim uma 
fatal * bem-aventurana do sofrimento+.

Sob outra perspectiva, salientemos sobretudo as qualidades positivas dos melhores 
espcimes desta novela, sobretudo o Amor de Perdio: uma tenso trgica de paixes e 
situaes; uma narrao precisa e rpida das aces decisivas; caracteres 
psicolgicos secundrios inteiramente subordinados s necessidades de dignificao do 
conflito central, mas por vezes realistas e

enrgicos, sobretudo quando extrados do meio popular (Joo da Cruz, Mariana, por 
exemplo); dilogo geralmente eivado de retrica sentimental, mas por vezes de grande 
nobreza trgica nas personagens principais, e extraordinariamente vivo, colorido, 
incisivo nos tipos populares.

Na novela satrica de costumes, ou nas contracenaes satricas do enredo passional, 
o tipo do filho-famlia boal e sobretudo o do brasileiro so de um grotesco de farsa 
(Joo Jos Dias de Que fiizem as Mulheres, por exemplo); o adultrio e a seduo 
apresentam-se a uma luz irnica, que os reduz por vezes a casos de anedotrio 
picante, apesar de o autor erguer de quando em quando um vu de consideraes 
moralistas; Camilo compraz-se em caricaturar a motivao digestiva, sexual ou 
argentria, em nobilitar ironicamente as motivaes psicolgicas inferiores. Nada 
impede, no entanto, que Corao, Cabea e Estmago contenha uma vigorosa apologia do 
tipo da camponesa sadia, e que a Queda dum Anjo, verdadeira rplica 
constitucionalista do Fidalgo Aprendiz, em que at certo ponto Camilo se rev, como 
D. Francisco Manuel, no seu protagonista, trace uma percuciente stira da oratria 
parlamentar regeneradora e da indiferana governativa aos grandes

6. @ POCA - O ROMANTISMO                                                   823

problemas da maioria, sobretudo provinciana, Curiosamente, Camilo duas farsas 
vivazes, O Morgado de Fafe Amoroso e O Morgado de Fafe em Lisboa, que satirizam o 
idealismo amoroso da sua novela passional tpica, como alis de vrios seus dramas 
morais-sentimentais.

As Novelas do Minho, srie de pequenas novelas ou contos publicada em 1875-77, 
posteriormente, portanto, aos romances de Jlio Dinis e ao mesmo tempo que O Crime do 
Padre Amaro de Ea, assinalam uma acentuada transformao na maneira camiliana de 
construir a fico novelesca. A observao dos tipos e da linguagem da populao 
rural minhota torna-se mais consciente, reagindo contra a sua idealizao por autores 
que tinham focado esse meio, como Paganino, Jlio Dinis, D. Antnio da Costa. No 
pode encarar-se isto como urna inovao radical, porque j em vrios livros 
anteriores Camilo revelava uma intuio penetrante do dilogo popular nortenho. Mas 
agora trata-se de um propsito de escola. Permanecem,  certo, os ingredientes de 
sempre: enredamentos genealgicos de vrias geraes; casos de enjeitadas e de 
mulheres desonradas, mais tarde reabilitadas por reconhecimentos miraculosos; pais 
tiranos, casamentos forados com ricaos panudos, violncias passionais; alternativa 
de idealismo sentimental e

de grotesco materialo; etc. Nenhuma das narrativas se pode considerar imune destes e 
outros lugares-comuns, nenhuma  perfeitamente homognea, salvo talvez O Degredado, 
histria linear, mas picarescamente viva e tensa de um irrequieto almocreve (um 
precursor do Malhadinhas aquiliniano), depois *carvoeiro+ alentejano, homicida 
degredado, *heri+ africanista e comendador da Ordem de Cristo. Nas outras novelas 
engastam-se famosas cenas de antologia realista. Tais so as introdues magistrais 
de O Comendador e sobretudo de Maria Moiss, muito superiores  segunda parte de cada 
uma das novelas, e que hoje podem ser lidas independentemente como short stories: 
trata-se, num caso, do despertar e erguer estremunhado de um padre para baptizar 
certo recm-nascido em perigo de morte; e no outro, da fuga e morte

de uma pobre desonrada que acabara de dar  luz - uma tragdia reconstituda a partir 
de mltiplos indcios, testemunhos e movimentaes em exterior nocturno. No menos 
palpitante  a cena do assalto e morte do avaro Bento de Arajo s mos da *Companhia 
do Olho Vivo>@, em A Morgada de Romariz.

O xito de Ea de Queirs, a evoluo do realismo para o naturalismo com Zola 
espicaam ainda mais o consagrado escritor romntico e foram-no a um reajustamento 
que procura disfarar-se sob a forma de pretensa

824                                        HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

pardia aportuguesada  srie Rougon-Macquart do romancista francs e ao

estilo afrancesado de Ea.  o que faz, incluindo em Sentimentalismo e Histria, 
Histria e Sentimentalismo, 1879-80, os romances depois reeditados sob as epgrafes 
de Eusbio Macrio e Corja. Trata-se, na verdade, de um arranjo da novela satrica de 
costumes da fase anterior: tudo se reduz, como enredo, a um jogo grotesco de 
adultrios e outras formas de infidelidade amorosa que envolvem vrios tipos da 
pequena burguesia minhota, enriquecidos com o casamento de brasileiros de retorno e 
espanejando-se depois nas relaxaes morais ainda mais desbragadas do meio citadino. 
Os apetites digestivos, sexuais e pecunirios dominam todas as principais 
personagens. Os interiores burgueses, a vida alde e depois a agitao nas ruas do 
Porto, o comportamento e fisionomia das figuras - tudo  dado com uma exuberncia 
caricatural de pormenores, que vai de uma enumerao pitoresca de espcies de caa, 
at  descrio meticulosa do mobilirio e trajo, e  movimentao de massas 
populacionais em dia de festa rural ou em horas de trabalho na cidade. A narrao  
lenta, envolta em contiguidade descritiva, com

rebusques estilsticos, no de vernaculidade, de riqueza lexical ou de variedade 
rtmica e sintctica, mas de notaes sensoriais (com interpenetrao sinestsica dos 
sentidos e fuso propositada do psquico com o fsico), numa

evidente imitao de Ea, que abrange o seu dilogo de caracterizao psicolgica e o 
discurso indirecto livre. Tudo isto revela, apesar da inteno parodstica, uma 
extraordinria plasticidade literria, e uma capacidade, j tardiamente exercitada, 
de construir o romance realista. Pela primeira e nica vez, Camilo excede o mbito de 
uma novela ou conto.

O Eusbio Macrio e a Corja determinaram uma polmica do autor com Alexandre da 
Conceio, em que se manifesta a sua preocupao de se mostrar muito independente da 
escola naturalista. Contudo, o seu estilo de narrao ficou inconfundivelmente 
marcado pelas novas influncias.

 o que se observa em particular na ltima das novelas de grande interesse, a 
Brasileira de Prazins, 1883. A sua estrutura geral apresenta-se pouco orgnica, 
porque, sobre o esquema j nosso conhecido de um casamento forado, de convenincia, 
entre a jovem Marta e o brasileiro Feliciano, com morte do seu primeiro amante, 
tuberculoso, e enlouquecimento da protagonista, entalham-se a longa digresso 
picaresca, e alis saborosa, de um pseudo-D. Miguel a explorar a credulidade alde, e 
ainda episdios das

6. a pOCA - O ROMANTISMO                                                   825

lutas civis. Contudo, s analisarmos as partes heterogneas e deficientemente 
cerzidas entre si, cada uma delas constitui uma pequena obra-prima. A tragdia de 
Marta, epilptica, com intermitncias de loucura e de lucidez, e contudo ligada 
prolificamente pelo matrimnio a um homem bastante mais velho e insensvel,  das 
mais pungentes de Camilo; a clebre cena em que o abrutalhado Melro, a soldo do 
Brasileiro, se prepara, apesar dos rogos da mulher, para o assassinato do Zeferino -
vale uma short story da melhor tcnica ps-naturalista; toda a sub-histria 
ziguezagueante onde est em foco o impostor que se faz passar por D. Miguel constitui 
um admirvel conto de gosto picaresco.

Em 1886 a carreira novelstica de Camilo encerrava-se com Vulces de Lama, ttulo que 
bem corresponde a um quadro pejorativo, bem conotado em discurso indirecto livre 
regional, dos concelhos rurais limtrofes do Porto em meados do sculo XIX, com 
pungentes cenas e aluses sobre o vulgar desencaminhamento de moas da lavoura, 
crianas abandonadas a morrer

de varola, supersties, vilezas e extorses impunes, na caa  fortuna, tudo isto 
apenas adoado por um ocasional luzeiro religioso de remorso. Apesar do seu gnio 
narrativo e dialogal, Camilo no vencera o conflito bsico da sua concepo e 
condensao ficcionista da vida: toda a sua aco romanesca se trava entre o pecado e 
a penitncia do amor, entre as prepotncias de linhagem e o quadro caricatural da 
sordidez burguesa.

Estrutura e intenes fundamentais da fico camiliana

Alm das caractersticas j apontadas a propsito da sua evoluo, outros assuntos 
convm discutir na vasta obra de Camilo. E uma anlise desta obra que a encare no 
conjunto das suas principais intenes pode adequadamente basear-se no reconhecimento 
de dois elementos mais ou menos claramente distinguveis: a evocao dos tipos, casos 
ou circunstncias; e o enredamento de determinadas situaes relativamente 
padronizadas e expressivas de uma filosofia dominante.

Pelo flego narrativo relativamente curto e pela densidade do seu mais bvio 
realismo, o primeiro destes elementos fez de Camilo um extraordinrio contista tal 
como hoje o concebemos. Os contos ora se nos deparam isolados, ora (como vimos) se 
associam em sries homogneas a pretexto de um enredo de fundo,  maneira das bem 
conhecidas coleces medievais

826                                         HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

de Chaucer ou Boccaccio, ora aparentemente se integram na discutvel unidade de uma 
novela. O episdio do falso D. Miguel em A Brasileira de Prazins, a reconstituio de 
uma procisso bracarense seiscentista em O Santo

da Montanha esto no ltimo caso; as vicissitudes grotescas dos primeiros amores de 
Silvestre da Silva em Corao, Cabea e Es~ esto no segundo caso - o interesse das 
narrativas mencionadas  to autnomo como o de cada um dos Dez Casamentos Felizes ou 
as histrias de Vinte Horas de Liteira. Obras-primas contsticas: o 6. dos Doze 
casamentos Felizes e Como ela o amava! (Noites de Lamego). Raras novelas apresentam 
um desenvolvimento to sbrio e unitrio como Amor de Perdio, obra excepcional, 
redigida em 15 dias, quando Camilo se encontrava preso na cadeia da Relao do Porto, 
pela fora de uma emoo empolgante e seguida.

A arte camiliana do conto foi-se lentamente apurando atravs de uma experincia em 
que, a partir de 1855, cada vez se sente mais uma ateno baIzaquiana s 
circunstncias e caracteres e, por vezes at, uma declarada emulao com o romancista 
francs no sentido de serem mais vincadas as necessidades materiais do dinheiro, da 
intriga social (num processo judicial, por exemplo), da comida e do sono. De resto, a 
inteno de sublinhar a veracidade dos enredos manifesta-se ao longo de toda a 
carreira camiliana sob a forma de uma grande preciso cronolgica e genealgica, do 
pretenso apoio em manuscritos, cartas testemunhais, dirios e do frequente recurso a 
uma

pluralidade de relatos complementares. H pormenores desta inteno e por vezes a 
involuntria caricatura de um realismo pretensamente ultrabaIzaquiano mesmo em 
novelas sentimentais como o Amor de Perdio. O melhor efeito disto  o poder 
detectar-se, na obra camiliana da maturidade, sob a intriga de amor contrariado e 
geralmente infeliz, um mundo de violncia e arbitrariedade prepotente, que tanto 
apresenta os traos dos ltimos tempos da sociedade aristocrtico-absolutista, como 
os da burguesia constitucional: o direito administrativo, civil ou criminal no 
passa, nesse mundo camiliano, de fico institucional ao servio, em ltima 
instncia, da brutalidade ou maranha dos interesses que dirigem as diversas camadas 
sociais e os diversos crculos familiares.

O difcil equilbrio esttico e tipificador deste realismo facilmente se

deforma em caricatura. Essa caricatura est representada por um fio de continuidade 
de novela picaresca que, entre outras coisas bem logradas, se detecta

6. @ POCA - O ROMANTISMO                                                     827

desde certas pginas de Corao, Cabea e Estmago, 1862, ou Queda dum An  .o, 1866, 
at  Corja, 1880, embora, na aparncia, os primeiros sejam

y de escola um pouco baIzaquiana, e o ltimo acuse toques do naturalismo  Zola.  
geralmente quando Camilo se esquece dos seus propsitos de carregar os traos 
ridculos e se compraz no desenho objectiva e judicativamente contraditrio de um 
tipo social, de uma situao ou at de um simples lavor ou actividade profissional, 
que nele podemos descobrir o nosso grande precursor da melhor tcnica contstica: as 
vicissitudes de O Cego de Landim, a morte do avarento e o achado do tesouro em A 
Morgada de Romariz, o ambiente ao mesmo tempo enigmtico e preciso do incio de Maria 
Moiss ou a rapsdia de costumes burgueses do Porto de cerca de 1850 em A venturas de 
Basilio Fernandes Enxertado.

Acima desta mestria contstica, muitas vezes a bordejar a caricatura, mas tambm 
excedendo-a, h o xadrez novelesco sentinientalista, a preto e branco, destinado a 
lisonjear os valores convencionais da pequena burguesia do tempo: dedicaes 
ilimitadas e patticas entre namorados, entre irmos, amigos, pai (ou me) e filho 
(ou filha), ou, alternativamente, os comportamentos criminosos que constituem o seu 
avesso, afinal tambm indirectamente exaltatrio: pais tiranos, enjeitamentos, 
matricdios, mulheres que se prostituem pelos filhos, ou que, pelo contrrio, 
prostituem as filhas, infanticdios, ou, pelo contrrio, a regenerao de um 
criminoso ante o espectculo anglico de urna criana dormindo, etc. Todo este jogo 
sentimental est inscrito numa

religiosidade romntica que se resume na sacralizao do amor-paixo, da caridade 
esmoler e da solidariedade familiar, com explcita postergao de formas subsistentes 
da religiosidade ligada aos votos e aos sacramentos rituais.

O destinatrio pressuposto ou at explcito das novelas camilianas  urna

*Sensvel+ ou *benigna+ leitora de recorte romntico-moralista-sentimental.

Por cima, ainda, desta supra-estrutura romanesca e valorativa cujas feies nos 
aparecem hoje claramente datadas, h um terceiro plano que tanto se distingue dela 
como da arte de sucinta tipificao com flego do conto;  o bem conhecido plano 
camiliano da tragdia do amor. Insere-se na continuidade dos Infernos dos Namorados 
quatrocentistas e da novela de Bernardim, como a seu tempo lembrmos. E no deixa de 
apresentar zonas de um retrico sentimentalismo ultra-romntico, em que o sacrifcio 
pelo amor tambm

828                                         HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

se reveste de todos os traos e at de todo o vocabulrio da sagrao religiosa: os 
amantes patticos so mrtires se no mesmo cristos rituais expiatrios de um pecado 
original, que se diria ter provocado a absoluta incomensurabilidade entre o anior 
(prottipo das aspiraes humanas insaciveis, do prprio infinito intimo do homem) e 
as circunstncias de realizao da vida individual. A novela passional camiliana d 
sempre uma dada imagem de um martrio fatal: por vrias vezes se diz do modo mais 
explcito ser *necessrio que o sacrifcio se consuma+, como testemunho daquilo que, 
tambm por vezes muito explicitamente, se designa como *religio do amor+.

Esta figurao romanesca de uma dada concepo de vida fez correr imensas lgrimas s 
nossas avs ou trisavs. O leitor mais sofisticado de hoje sente-se, pelo contrrio, 
inibido porque se apercebe muito melhor de certos cordelinhos de organizao 
romanesca ou de linguagem enraizados na sensibilidade de outra poca. Mas, como 
acontece no plano do realismo contstico da observao de costumes e caracteres, 
tambm se impe, atravs de toda essa utensilagem datada e caduca, qualquer coisa de 
muito importante que em dados momentos a transcende e ainda hoje comove. O amor  a 
face que assume, perante Camilo, como perante muitas pessoas actuais, uma ansiedade 
de comunho humana total da qual apenas nos apercebemos na circunstancialidade 
trgica dos seus impossveis. Os heris camlianos do amor dizem-nos porventura mais 
do que o prprio autor julgava dizer por meio deles; dizem-nos que, quando se no 
cabe no que  possvel viver, ou fazer, se pode caber ao menos naquilo que se sente. 
O sentir aparece, deste modo, como a mais irredutvel, quando no a nica, das 
liberdades perante o destino.

CAMILO CASTELO BRANCO: Estilo

No estilo camiliano revem-se as distines estticas de que j nos apercebemos na 
composio narrativa. Os lugares-comuns novelescos exprimem-se por um pensar 
fraseolgico de ritmos previsveis, cuja agulhagem obedece a associaes inertes de 
ordem verbal predeterminada ou de simples flexo lingustica. Assim, os perodos 
sentenciosos mantm ainda o recorte simtrico, os paralelismos ou oposies 
plurimembres da prosa moralista de Seiscentos; a frase rompe caminho atravs do 
lxico literato mais ajeito, s vezes

usando um afixo expeditivo (ingeneroso, despersuadir, o puncear de umas

faces femininas), outras vezes recorrendo a um fundo frsico ou vocabular

6. a POCA - O ROMANTISMO                                                     829

em que as reminiscncias latinistas clssicas ou eclesisticas vm dar as mos ao 
arcasmo ou ao ultra-romantismo no menos aliteratados (sevcias, blandcias, 
latrocnio, vilipndio, arcanos, rprobo, irrogar, repulsar, fonte perena], blsamo, 
clix de amarguras, beta de luz, suplcio excruciante, edulcorar, encendrar, esvurmar 
sangue ou pus, o crisol depurador das culpas, o

cairel das voragens, exaurir as lgrimas de compuno, engolfar-se no lodo em que se 
atasca o corao, etc.). O contraste entre esta estilstica *ramalhuda+ e a das cenas 
de costumes rurais era bem sensvel para o prprio autor, como se verifica por esta 
confisso de Vinte Horas de Liteira: *Quando quero retemperar a imaginao gasta, vou 
calde-la  incude do viver campesino. Avoco lembranas da minha infncia, passadas 
na aldeia, e at a linguagem me sai de outro feitio, singela sem afectao casquilha, 
sem os requebrados volteios que lhe do os invezados estilistas buclicos. Assim que 
me descaio a dispor as cenas da vida culta, a vem a verbosidade estrondosa, o tom 
declamatrio, as infladas objurgatrias ao vcio, ou panegricos tirados  fora 
violenta da conscincia e umas inocncias ou virtudes que me tm granjeado 
descrditos de romancista da Lua+. Por outro lado, ele tambm reconhecia as vantagens 
de uma enxuta prosa como aquela com que, no Amor de Perdio, se coloca para alm do 
sentimentalismo vulgar: *a rapidez das peripcias, a derivao concisa do dilogo 
para as partes essenciais do enredo, a

ausncia de divagaes filosficas, a lhaneza da linguagem e o desartifcio das 
locues+.  frequente os episdios mais intensos rematarem por um

perodo brusco e breve, um enrgico sofrear de rdeas  fraseologia emotiva que deixa 
o leitor suspenso e crispado.

A edio crtica, em 1961, das Novelas do Minho revelou que, pelo menos

durante a fase de adestramento na sua redaco sobriamente realista, Camilo est 
muito longe da sua to apregoada espontaneidade: as emendas frequentes substituem a 
indigitao vaga ou a efuso sentimental por um vocabulrio especificador das coisas, 
carregado de notas individualizantes dos interlocutores ou do seu ambiente social e 
regional; a notao dos sentimentos tende a ser feita pelo simples comportamento 
gesticular e falante; o empenhamento directo do autor cede espao a uma distanciao 
irnica; eliminam-se os encarecimentos sentimentais ou fatalistas; o autor reconhece 
a maioridade judicativa do leitor, e, em vez de interpretaes, quantas vezes 
redundantes, oferece-lhe uma simples organizao narrativa descritiva com dados

concretos  vista.


830                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

BIBLIOGRAFIA

1. Textos

Para uma bibliografia completa da obra camiliana devem consultar-se Catlogo das 
obras de Camilo Castelo Branco, coordenado por L. P. L, Calheiros, 1. > oficial da 
Biblioteca Pblica Municipaldo Porto, Porto, 1889, com Aditamento, 1889-90; Mota, J. 
Xavier da: Camiliana, Rio, 1891; Marques, Henrique: Bibliografia Camiliana, Lisboa, 
1894; Santos, Manuel: Revista Bibliogrfica Camiliana, 3 vols., Lisboa, 1917-23.

Camiliana 1, obras originais (1845-1971), por A. Feigueiras, Porto, 1972. Ver 
indicaes resumidas de conjunto do In Memoriam de Camilo e na Histria da Literatura 
Portuguesa Ilustrada nos sculos XIX e XX.

Indicmos no texto as datas da 1. > ed. em vol. das principais obras, e 
acrescentaremos apenas aqui a indicao dos importantes Dispersos compilados e 
anotados por Jlio Dias da Costa, em 5 vols. (3 de crnicas, um IV de artigos e um V 
de romance), Coimbra,
1924-29.

A Parceria Antnio Maria Pereira, principal editor de Camilo, fez desde 1965 a 1979 
uma reed. de 62 da sua srie de 69 vols., sob direco de Jacinto do Prado Coelho, 
com estudos prefaciais e a indicao de todas as ed. anteriores, incluindo a 
Correspondncia Epistolar,

Maxmiano de Carvalho e Silva editou, no Rio de Janeiro, 1982, o Amor de Perdico com 
fac-smile do original manuscrito, pref. de Anbal Pinto de Castro.

Lello e Irmo publicou j 11 vols. (1990) de Obras Completas de Camilo Castelo 
Branco, em papel bblia, num plano que prev reunir toda a novelstica, com fixao 
(no integralmente crtica) do texto e registo de muitas variantes por J. Mendes de 
Almeida.

H uma ed. crtica das Novelas do Minho, baseada em manuscritos, por Maria Helena 
Mira Mateus, *Biblioteca de Clssicos Portugueses+, Lisboa, 196 1; e uma ed. de 
Correspondnca de Camilo Castelo Branco, coligida e anotada por Alexandre Cabral, 
ed. Livros Horizonte, que em 1987 atingiu o S. vol.

Na Biblioteca Camiliana da Inova, Porto, foram publicados 2 vols. de Pginas quase 
esquecidas, recolha, pref. e notas de Alexandre Cabral, que em *Livros Horizonte+ 
publicou, As Polmicas de Camilo, 9 vols., 1981-82, A Via Dolorosa (1859-60), 
telegramas trocados entre Camilo e Ana Plcido, ibidem, 1979, Escritos Diversos de 
Camilo Castelo Branco, 2. ed., 1979, e Correspondncia de Camilo C. Branco com 
diversos autores,

7 vols. (col. Obras de A. Cabral, j com 27 vols.; ver a longa e importante 
Bibliografia Camiliana deste autor, ed. Centro de Estudos Camilianos, V. N. de 
Famalico, 1987, que tambm produziu um fundamental Dicionrio de Camilo, Caminho, 
1989).

2. Antologias

Na col. de *As Melhores Pginas da Literatura Portuguesa+, Lisboa, introd. e sei. de 
A. do Prado Coelho; As Novelas de Camilo, 1 e li, 2. > ed., Horizonte, 1979, e ainda 
Obras Escolhidas de Camilo Castelo Branco, ibidem, 1981, selec., pref. e notas de 
Alexandre Cabral; Obra Selecta, selec., introd. e notas de Jacinto do Prado Coelho, 2 
vols.,

5.2 POCA - 0 ROMANTISMO                                                             
    831

*Biblioteca Luso-Brasileira+, Rio, 1960; Contos, selec., pref. e notas pelo mesmo, na 
*Coleco Textos Clssicos+, Lisboa.

3. Estudos

Ver os do In Memoriam de Camilo, Lisboa, 1925.

Biografias e estudos biogrficos principais:

Pimentel, Alberto: 0 Romance do romancista, 1890; Os Amores de Camilo, 1899; etc.

Osrio, Paulo: Camilo, a sua Vida, o seu gnio, a sua obra, 1. ec. 1908; 2. >, 
aumentada, 1920.

Cabral, Antnio: Camilo de Perfil, 1914; Camilo e Eca de Queirs, 1924; etc. Ribeiro, 
Aquilino: 0 Romance de Camilo, 1957.

Para actualizao acerca da vasta literatura camiliana, consulte-se a revista 
*Camiliana e vria+, 1951-54.

Outros estudos:

Jorge, Ricardo: Camilo e Antnio Ayres, 1925.

Lacape, Henri: Camilo Castelo Branco e Contribution  une bibliographie de Camilo C. 
Branco, Paris, 1941.

Coelho, Jacinto do Prado: Introduo  Novela Camiliana, Coimbra, 1946 (o estudo de 
maor flego, 2. a ed. ref, e aum., 2 vols., IN-CM, 1983), Introduo  Obra Seleta 
j mencionada, 3 estudos em A Letra e o Leitor, 1969, e outro em Ao Contrrio de 
Penlope, Lisboa, 1976.

Sobre a tipologia moral da novela camiliana, h dois sugestivos estudos de Faria, 
Jorge de: Criminosos e Degenerados em Camilo, Coimbra, 1910, e Ligeiros apontamentos 
para os *Avarentos de Camilo+, inserto em Camiliana, pp. 49-54; e um polmico ensaio 
de Antnio Srgio (Ensaios, vol. VII).

Lawton, R. A.: Technique et Signification dans I'*Amor de Perdio+, no *Builetin des 
tudes Portugaises+, t. XXV, 1964.

Lepecki, M. > Lcia Torres: Sentimentalismo - Contribuio para o estudo da tcnica 
romanesca de Camilo, tese de doutoramento multicopiada, Belo Horizonte, 1967, e Sobre 
o arqutipo do mal na fico camiliana, in *Colquio / Letras+, 30, Marco, 1976, pp. 
30-40.


Maia, Jlio Rodrigues Donato: Traos Impressionistas de Camilo, dissertao de 
licenciatura, multicopiada, Lisboa, 1970.

Cabral, Alexandre: Estudos Camifianos, 1, Inova, Porto, 1978 (alrn dos vols. j 
referidos).

Branco, Fernando Castelo: A Conjuntura Pessoal, Poltica e Sociolgica do Romance 
Histrico de Camilo, in Esttica do Romantismo em Portugal, Lisboa, 1974.

Frana, Jos Augusto: 0 Romantismo em Portugal, 3. > vol., Livros Horizonte, Lisboa, 
s/d.

832                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Castro, Anbal Pinto de: Narrador, Tempo e Leitor na Novela Camiliana, ed. da Casa de 
Camilo, Famalico, 1976; e Baizac em Portugal, suplemento de *Braslia+, 1960.

Choro, Joo Bigotte: Camilo, col. *A Obra e o Homern+, Arcdia, Lisboa, 1979; 
Camilo, col. *Perfis+, 2. ed. rev., Vega, 1989.

Lopes, scar: De *0 Arco de SantAna+ a *Uma Famlia Inglesa+ e Concepo de Vida na 
Fico de Camilo, in lbum de Famlia, ed, Caminho, Lisboa, 1984, pp. 11 -26 e 53-68.

Ferraz, M. de Lourdes: A Ironia Romntica, IN-CM, 1987 (foca, em especial, Corao, 
Cabea e Estmago, A Queda dum Anjo e A Mulher Fatal).

Baptista, Abel Barros: Camilo e a Revoluo Camiliana, Quetzal ed., Lisboa, 1988. 
Alves, Jos dil de Lima: A pardia em no velas- folhetins camilianos, Biblioteca 
Breve, ICALP, 1989 (procura revalorizar os romances folhetinescos, predominantemente 
iniciais, de Camilo, sublinhando os seus ingredientes parodsticos).

Ver ainda os esquemas e notas estruturais, entre outros,  ed. do Amor de Perdio 
por Lus Amaro de Oliveira, Porto Editora, 198 1.

Entre as publicaes ligadas ao centenrio da morte de Camilo Castelo Branco contam-
se: *Colquio/Letras+, 119, Jan.-Maro, 1990, e *Prelo+, 18, Jan.-Maro 1990; a 
revista *Teilus+, Cmara Municipal de Vila Real, tem publicado estudos camilianos, 
nomeadamente o n. > 19, Junho 1990, com comunicaes s 5.a e 6.as Jornadas 
Camilianas (1988 e 1989). A Comisso Nacional das Comemoraes Camilianas publicou: 
Camilo: Evocaes e Juizos - Antologia de Ensaios, Porto, 1991, e prepara a 
publicao, quer das Actas do Congresso Camiliano realizado em Coimbra-Famalico, 199 
1, quer uma Antologia de estudos camilianos recentes.

Ver prefcios das reed. mais recentes da Parceria Antnio Maria Pereira, da autoria 
de Joel Serro, A. Coimbra Martins, Fernando Mendona, Ruy Belo, H. Cidade, Cabral do 
Nascimento, J. Prado Coelho, J. Rgio, Castelo Branco Chaves, Tlio Ramires Ferro, M. 
Alzira Seixo, M. L cia Lepecki, Maria Helena Mira Mateus, Helena Cidade Moura, 
Vitorino Nemsio, Lus de Sousa Rebelo, entre outros. Ver ainda o *Boletim da Casa de 
Camilo+, Cmara Municipal de Vila Nova de Famalico, cuja 111 Srie, 1983-88, atingiu 
o

vol. n. 11/12.


0 leitor encontra o desenvolvimento de certos pontos de vista aqui expostos em Os 
Valores de Camilo, in Ler e Depois, Porto, 1969, e sobretudo em Claro-escuro 
Camiliano, in *Colquio/Letras+, 119, Jan.-Maro 1990, pp. 5-24, e uma boa 
perspectiva histrica da metafsica inerente  novela passional camiliana (e outra) 
em Rougemont, Denis: L'Amour et POccident, 1939, reed. popular e actualizada na col. 
*Le monde en 10/18+, Paris. Ver outra perspectivao crtica da mesma metafsica em 
Girard, Ren: Mensonge romantique et vrit romanesque, Grasset, Paris, 1961, j 
muito afim de uma teoria psicanaltica de triangulao, ou medeao especular, do 
desejo humano, tal como a formular Lacan, J.: crits, 1966.

Captulo VII

INCIOS DA GERAO DE 70

Os homens da chamada Gerao de 70, cujas primeiras manifestaes literrias datam de 
meados do decnio anterior, acabaram de se formar j depois de institucionalizado e 
consolidado o liberalismo em Portugal. Encontraram instituies parlamentares 
funcionando com regularidade, uma ideologia oficial que acentuava a noo do 
*progresso+ (identificado com os melhoramentos materiais), e uma comunicao com o 
exterior cada

vez mais intensa, quer tcnica, quer econmica, quer cultural. Como vimos, Coimbra 
fica ligada, em 1864,  rede europeia de caminho-de-ferro. Por outro lado, as 
geraes que ascendiam no tinham j que preocupar-se com o problema fundamental que 
mobili-

zara a energia dos primeiros Romnticos, que era a substituio de uma cultura 
clrico-aristocrtica por uma cultura laica, burguesa e dirigida a um mais numeroso 
pblico alfabetizado.

Mas outros problemas se erguiam, como j temos visto. As novas instituies inseriam-
se numa sociedade que sob o ponto de vista tecnolgico, econmico e mesmo social

estagnava, comparativamente. H uma certa prosperidade passageira da grande burguesia 
rural, mas as condies de vida, de cultura e o nvel de conscincia da massa 
campesina no se alteram muito. A enorme emigrao para o Brasil  um sintoma das 
dificulda-

des no campo. Quanto  chamada populao industrial, a situao no cessa de se 
agravar, porque o modo de produo artesanal no pode deixar de deperecer em face da 
produo mecnica que dominava cada vez mais o mercado mundial, mas que em Portugal 
s conhecia pequenos surtos sem continuidade.

Por mais liberais que se mostrassem, as novas instituies no podiam deixar de 
atestar tal estagnao. A sua tendncia oligrquica torna-se patente, bem como a sua 
evoluo no sentido de consolidar uma nova hierarquia conservadora,  medida que se 
esgotava o efeito dos melhoramentos materiais fontistas em curso. E por falta de 
dinamismo eco-

nmico interno, por falta de uma expanso da produo nacional, o grupo poltico 
diri-

834                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

gente dependia cada vez mais do capital bancrio interno ou externo. Durante algum 
tempo, o partido denominado Progressista, herdeiro da tradio patuleia, pareceu 
congregar as

foras descontentes; mas esse mesmo partido entrou no jogo oligrquico, como j nele 
entrara o partido oposto denominado Regenerador, que iniciou o fomento das comunica-

es. A massa dos descontentes, isto , a pequena burguesia industrial e o resduo do 
artes'anato, assim corno urna parte da burguesia comercial, tende a ficar fora do 
sistema, enquanto no se organiza no partido republicano. Na base, os camponeses, 
mudos, constituam a massa de manobra dos partidos governantes, na dependncia 
imediata dos caci-

ques locais. Note-se, ainda, que os descontentes, a oposio virtual ao regime, nem 
sem-

pre representavam foras renovadoras, mas sobrevivncias declinantes, formas de 
produo condenadas pela nova tecnologia, entre ns quase desconhecida. A estas 
condies corresponde, na literatura, a academizao e o formalismo de que j 
falmos.

A intensificao da comunicao com o exterior tornava cada vez mais patente, por 
contraste, esta situao. Disto se dava conta certa nova intelligentia, e em 
particular a

que estava mais ao corrente das novidades exteriores, especialmente a juventude 
acadmica de Coimbra, a qual, por outro lado, tomando  letra o iderio liberal e 
*progressista+ em que fora abstractamente educada, no podia deixar de se chocar com 
a realidade das instituies, hostis, na prtica, ao liberalismo e ao progressismo 
que lhes servia de tabuleta.

A conscincia da Gerao de 70 desperta dentro destas condies, e no seu despertar 
tem papel decisivo certa viso imaginria da Europa em conjuntura de crise, sobre a 
qual os moos de Coimbra fixam avidamente os olhos. Antero, Ea, Tefilo e outros 
deixaram-nos largos depoimentos sobre as suas leituras, sobre os acontecimentos 
europeus, a que assistiram de longe mas apaixonadamente. Toda a sua ateno parece 
atrada por urna cultura antes mal conhecida que lhes chegava agora, como diz Ea, 
aos pacotes de livros, pelo caminho-de-ferro.

Importa por isso atentar um pouco nos acontecimentos europeus e nas leituras 
estrangeiras que parecem ter dado a esta gerao o sentimento de se chocar 
frontalmente com a sociedade dentro da qual vivia.


Em 187 1, com a Comuna de Paris, culmina uma vasta cadeia de movimentos da qual 
durante alguns anos parece depender o destino da Europa. Os ltimos anos da dcada de 
60 so os da crise do Segundo Imprio em Frana,  qual Vitor Hugo deu uma imensa 
ressonncia literria com os seus Chtiments. So tambm os da campanha pela 
unificao da Itlia, que coincide com o fim do Papado como potncia secular. So os 
de sangrentos levantamentos na Irlanda contra os ocupantes ingleses, e os da Polnia 
contra o csarismo. Alguns heris mais ou menos literrios e simblicos sobressaem 
destes acontecimentos: alm de Vitor Hugo, de quem j falmos, Michelet, que se 
salienta pela sua

vasta obra em prosa como o profeta de um progresso pantesta, Gambetta, o chefe do 
radicalismo, poltico francs, e acima de todos Garibaldi, o caudilho romntico por 
excelncia. Como veremos, a derrota da Comuna marcou profundamente esta gera-

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
        835

o, justamente na medida em que a sorte de Portugal lhe parecia depender da sorte da 
Europa.

Embora alguns dos membros desta gerao - especialmente na sua fase polmica -

fossem porventura um tanto exibicionistas quanto s suas leituras francesas, inglesas 
e

sobretudo alems (veiculadas em francs),  facto que no conjunto essas leituras lhes 
proporcionaram uma mundividncia sensivelmente diferente da que lhes ofereciam os 
romnticos portugueses da primeira gerao.

0 ponto essencial desta mundividncia era a ideia de evoluo, no apenas j 
espiritualmente histrica, como a que inspira a historiografia de Herculano, mas 
antropolgica, biolgica e at geolgica: uma evoluo do inferior para o superior, 
do inerte para o activo, e da matria para o esprito. Darwin publicara, em 1859, a 
Origem das Espcies. Michelet, nas obras histricas e em outras, especialmente em La 
Bble de I'Humanit, fazia-se arauto de uma viso optimista da marcha da humanidade, 
concebida como

*a luta da liberdade contra a fatalidade+, e conferia forte ressonncia a filsofos 
como Vico e Herder. Vitor Hugo dava larga difuso em verso a uma viso optimista da 
Histria, na Lgende des Sicles (1859). A sntese filosfica do novo conhecimento 
fora tentada por Hegel (1770-1831) que, apesar de pertencer  poca romntica, s 
ganhou o

seu pleno significado em mbito europeu durante a segunda metade do sc. XIX.

Outro ponto em que a nova gerao se distingue da do primeiro Romantismo  a

sua atitude negativa ou cptica em relao ao cristianismo tradicional. Nisto foi ela 
influenciada por uma literatura relativa s origens histricas, psicolgicas e 
sociais do cristianismo, como a Vida de Jesus (1835, traduo francesa 1839-40), de 
David Strauss, a Essncia do Cristianismo de Feuerbach, discpulo de Hegel. Mas  
sobretudo a obra de Renan Origens do Cristianismo (1863-83: duas tradues 
portuguesas em 1864) que contribui para uma nova religio imanentista: Jesus no fora 
pessoa divina, mas um simples homem modelar.


Deve notar-se, finalmente, a audincia que durante alguns anos tero, cada vez mais, 
autores como Augusto Cointe, cuja influncia sobre Tefilo Braga s ser decisiva 
depois de 1872; e sobretudo Proudhon, que ser em matria social o principal mentor 
de Antero, Ea e Oliveira Martins. A influncia de Proudlion combina-se alis com a 
de Hegel, de que ele  um dos principais veculos em Portugal. Segundo Hegel, quer o 
pensamento, quer a realidade tendem a cada momento a negar-se, a converter o seu 
estado presente em algo de oposto, que por seu turno se converter no seu prprio 
oposto; mas esta negao da negao (sntese) nunca repete o estado inicial do 
processo (tese) - isso apenas acontece nos aspectos ainda temporariamente estticos 
do pensamento ou da realidade, aqueles em que prevalece a validade da lgica formal e 
matemtica; a sntese abrange, compreende tanto o estado inicial de um processo como 
a sua negao ulterior (anttese) numa unidade que os supera, isto , que os suprime 
e ao mesmo tempo os conserva. Por outras palavras: a realidade no seu todo constitui 
um processo e, mais do que isso, um progresso, atravs de fases que sucessivamente se 
digerem; e a Ideia manifesta-se primeiramente como esquema e conjunto de leis a que 
tem obedecido o progresso geral

836                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

da natureza, at que, com a humanidade, ela passa a actuar de um modo consciente, 
passa a autodeterminar-se. 0 surto das cincias genticas (astronomia das nebulosas, 
geologia, paleontologia, embriologia, teoria da transformao das espcies 
biolgicas, lingustica histrica, direito histrico, sociologia, etc.), as primeiras 
snteses dos compostos orgnicos, as primeiras descobertas da bioqumica, a 
identificao da energia mecnica, do calor, da luz e do electromagnetismo pelos 
princpios comuns de termodinmica - tudo isto sugeria com efeito a unidade material 
de todos os fenmenos, cujos domnios relativamente diferenciados corresponderiam a 
frases acumuladas de uma mesma histria universal. E a estas concepes do progresso 
e a outras mais ou menos conexas deu-se ento, entre ns, o nome de germanismo, 
devido ao facto de terem sido em grande parte elaboradas, no plano filosfico, por 
pensadores alemes, como Herder, Schelling e o prprio Hegel, entre outros.

A importncia deste reatamento dos contactos com as literaturas de alm-Pirenus

no nos deve fazer esquecer a influncia considervel exercida sobre este grupo por 
algumas das personalidades da primeira gerao romntica. Nem Garrett, nem Herculano 
(que alis j era germanista) perderam junto dela o prestgio que tinham alcanado em 
geraes anteriores. Herculano, sobretudo, pela Histria de Portugal, por algumas das 
suas

publicaes sobre questes pblicas e pela atitude de inconformismo que adoptara 
relativamente ao estado de coisas instaurado pela Regenerao, no apenas conservou a 
sua

irradiao, como viria a ser um dos mestres mais importantes de uma parte da Gerao 
de 70. No devemos tambm omitir certas linhas de continuidade que, sobretudo atravs 
do associativismo operrio, vm desde os primeiros *socialistas+ de incios da 
Regenerao, e ainda das obras de Oliveira Marreca e Jos Flix Henriques Nogueira.

A Questo Coimbr

0 primeiro sinal da renovao literria e ideolgica que acabmos de indicar foi dado 
na Questo Coimbr, onde se defrontaram os defensores do statu quo literrio e um 
grupo de jovens escritores estudantes em Coimbra, mais ou menos entusiasmados pelas 
leituras e correntes indicadas.

Castilho - alis um pouco incongruentemente - tornara-se como um

padrinho oficial de escritores mais novos, tais como Ernesto Biester, Toms Ribeiro 
ou Pinheiro Chagas. Como j vimos, constelou-se  sua volta um grupo de admiradores e 
protegidos (*escola do elogio mtuo+, dir Antero), em que o academismo e o 
formalismo andino das produes literrias cor-

respondiam coerentemente  hipocrisia das relaes humanas, e em que toda a audcia 
tendia a neutralizar-se. Este grupo trava diversas escaramuas defensivas desde 1862, 
e sobretudo em 1864-65.

Em 1865, solicitado a apadrinhar com um posfcio o Poema da Mocidade de Pinheiro 
Chagas, Castilho aproveitou a ocasio para, sob a forma

6. a pOCA - 0 ROMANTISMO .                                                    837

de uma Carta ao editor Antnio Maria Pereira, inculcar o poeta apadrinhado como 
candidato mais idneo  cadeira de Literaturas Modernas no Curso Superior de Letras, 
e censurar um grupo de jovens de Coimbra, acusando-os de exibicionismo livresco, de 
obscuridade propositada e de tratarem temas

que nada tinham que ver com a poesia. Os escritores mencionados eram Te-

filo Braga, autor dos poemas Viso dos Tempos e Tempestades Sonoras (futuro candidato 
a essa cadeira de Literatura); Antero de Quental, que ento publicara as Odes 
Modernas; e um jovem e verboso deputado, Vieira de Castro, o nico alis que Castilho 
exceptuava da sua ridicularizao, um tanto eufemstica, da *escola coimbr+. 0 
desencadeamento da Questo s se compreende se o relacionarmos com uma srie de 
antecedentes que vm desde a crtica  Conversao Preambular elogiativa do D. Jaime 
por Castilho, feita em artigos de Ramalho Ortigo, Pereira de Castro e Joo de Deus, 
at uma leitura dos poemas, ainda ento inditos, de Antero e Tefilo a Castilho,

que os acolheu com hiperblica ironia, e, finalmente, at escaramuas jornalsticas 
entre Pinheiro Chagas, cr tico dos *coimbres+, e Germano Mei-

reles, seu apologeta.

Antero de Quental respondeu numa carta aberta a Castilho, que saiu em

folheto: Bom Senso e Bom Gosto. Nela defendia a independncia dos jovens escritores; 
apontava a gravidade da misso dos poetas na poca de grandes transformaes em 
curso, a necessidade de eles serem os arautos do pensamento revolucionrio e os 
representantes do *Ideal+: metia a ridculo a futilidade, a insignificncia e o 
provincianismo da poesia de Castilho. 0 que sobressai destes textos de Antero  a 
constante invocao da integridade moral-social. Pouco depois Tefilo Braga 
solidarizava-se com Antero no folheto Teocracias LiterHas, 1866. Entretanto, Antero 
desenvolvia as ideias j expostas na Carta a Castilho com o folheto A Dignidade das 
Letras e as Literaturas Oficiais, 1865; a, em termos alis muito idealistas, 
reivindicava uma

literatura n-litante dirigida  *Nao verdadeira [... 1 trs milhes de homens que 
trabalham, suam, produzern+, terminando, em apndice, por uma extensa

apreciao da obra de Castilho, redigida em termos que ostentam, e em geral atingem, 
uma sria ponderao.

Castilho no reagiu publicamente; mas conseguiu a interveno de amigos seus. Nas 
intervenes de uma parte e de outra, o problema central levantado por Antero ficou 
obnubilado por consideraes pessoalistas, mostrando-se alguns dos polemistas 
impressionados com a irreverncia dos jovens em rela-

838                                         HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

o aos mestres, sobretudo com a brutalidade das aluses de Antero e de Tefilo  
idade e  cegueira fsica de Castilho. Foi o caso de um flhetinista eclctico, 
Ramalho Ortigo, num opsculo intitulado A Literatura de Hoje,
1866, que deu lugar a um duelo do autor com Antero. Camilo Castelo Branco interveio 
de forma ambgua, a pedido de Castilho, com o opsculo Vadades Irritadas e 
Irritantes, 1866. Na realidade, pouco se acrescentou aos dois folhetos de Antero 
durante os meses que a polmica durou ainda. No entanto um ou dois textos so 
interessantes pelas suas consideraes de ordem esttica. Nela intervieram, alm de 
muitos outros (alguns solicitados por Castilho), M. Pinheiro Chagas, Jlio de 
Castilho, Teixeira de Vasconcelos, Jos Feliciano de Castilho e Brito Aranha.

O Cenculo e as Conferncias Democrticas

0 pequeno grupo coimbro, de que faziam parte, alm de Antero e Tefilo, Joo Augusto 
Machado de Faria e Maia, Manuel de Arriaga, futuro presidente da Repblica, Ea de 
Queirs e outros ainda, veio a encontrar-se de novo em Lisboa, restaurando a antiga 
fraternidade acadmica num Cen-

culo com sede em casa de um deles. A estes agregaram-se novos elementos. A partir de 
187 1, Antero de Quental, regressando de viagens a Frana, Amrica e  ilha de S. 
Miguel, tornara-se o mentor do grupo, a que se foram juntando, entre outros, Jaime 
Batalha Reis, futuro professor de Agronomia; Oliveira Martins, um autodidacta, ento 
empregado comercial; Rainalho Ortigo, influenciado pela convivncia com o seu ex-
aluno Ea de Queirs; Adolfo Coelho, iniciador dos estudos de lingustica em 
Portugal; Augusto Soromenho (ou Seromenho), professor no Curso Superior de Letras; 
Guilherme de Azevedo; Guerra Junqueiro.

Das discusses no Cenculo, em que se aliavam a literatura e a bomia, tinham sado 
de comeo obras de pura fico, como as ltimas Prosas Brbaras de Ea de Queirs e 
os *satnicos+ Poemas de Macadam atribudos

a um imaginrio Carlos Fradique Mendes; a chegada de Antero vem disciplinar as 
leituras e os interesses e dar um objectivo mais preciso ao grupo.
0 autor  volta do qual cristaliza a doutrina at ento flutuante dos seus 
componentes  P. J. Proudhon (1809-t 1865) cuja influncia na chamada Gerao de 70 
se intensifica nesta poca. Foi neste crculo que nasceu a iniciativa das 
Conferncas Democrticas no Casino Lisbonense.

6, @ POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
839

0 projecto das Conferncias integra-se num largo, embora vago, plano de reforma da 
sociedade portuguesa. 0 programa impresso para anunciar e evidenciar a sua 
realizao, sublinhando que *no pode viver e desenvolver-

-se um povo isolado das grandes preocupaes intelectuais do seu tempo+, resume as 
intenes capitais das conferncias nestes ambiciosos termos:

*Abrir uma tribuna onde tenham voz as ideias e os trabalhos que caracterizam esse

movimento do sculo, preocupando-nos sobretudo com a transformao social, moral e 
poltica dos povos;

Ligar Portugal com o movimento moderno, fazendo-o assim nutrir-se dos elementos 
vitais de que vive a humanidade civilizada;

Procurar adquirir a conscincia dos factos que nos rodeiam na Europa; Agitar na 
opinio pblica as grandes questes da Filosofia e da Cincia moderna; Estudar as 
condies da transformao poltica, econmica e religiosa da sociedade portuguesa.+

Para compreender todo o alcance das Conferncias, convm notar que se estava ento

num ano de grandes acontecimentos - 1871, remate da unificao de Itlia, queda do H 
Imprio francs, guerra franco-prussiana, Comuna de Paris, que dois membros do 
Cenculo (Antero e Guilherme de Azevedo) aplaudiram publicamente. No plano interno  
o

ano em que a Associao Internacional dos Trabalhadores, fundada em 1864, se estende 
a Portugal, com a cooperao de Antero. 0 principal promotor em Portugal desta 
organizao, um empregado da livraria Bertrand, Jos Fontana, tem contactos com o 
Cen-

culo, e participa, como organizador administrativo, nas Conferncias.

 fcil, desta maneira, compreender a importncia que lhe dedicaram as autorida-

des, at ao seu encerramento compulsivo por ordem do ministro do Reino, Antnio Jos 
de vila, aps os ataques de jornais conservadores, que acusavam os conferencistas de

intenes subversivas e de serem adeptos da Comuna. A motivao prxima da ordem de 
encerramento parece ter sido a de impedir a realizao de uma conferncia que ia pr 
em causa a religio catlica, constitucionalmente ligada ao Estado.

Das conferncias produzidas, salientaram-se as de Antero, Ea de Queirs e Adolfo 
Coelho.

Antero, alm da conferncia inaugural, desenvolveu o tema das Causas da Decadncia 
dos Povos Peninsulares, que eram, segundo ele, trs: a reaco religiosa consumada 
pelo conclio de Tremo; a centralizao poltica realizada pela monarquia absoluta, 
com

a consequente perda das liberdades medievais; um sistema econmico de rapina 
guerreira que, atalhando o desenvolvimento da pequena burguesia, detivera, na 
Pennsula, a evoluo econmica do resto da Europa. Antero limitava-se a sistematizar 
pontos de vista que tinham j sido sustentados em diversas ocasies por Alexandre 
Herculano; a

840                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

sua conferncia causou profunda impresso, foi editada em folheto e suscitaria ainda 
em

1879 uma reflexo correctiva de Oliveira Martins na Histria da Civilizao Ibrica.

Sob o ttulo A Nova Literatura, Ea de Queirs versou o tema 0 Realismo como nova 
expresso da Arte: combinando sugestes de Taine e de Proudhon, defendeu uma teoria 
da arte que a considera condicionada por factores diversos, uns permanentes (o meio, 
o momento e a raa), outros acidentais ou histricos (ideais directores de cada 
sociedade); apontou-lhe uma misso social e moralizadora; criticou a literatura 
romntica por fugir  sua poca; e indicou como misso histrica da nova literatura 
criticar a velha socie-

dade, abrindo caminho  Revoluo, - misso proposta  nova escola *realista+, que 
Ea exemplificou na pintura com Courbet (que alis no conhecia de modo directo) e

na literatura com a Madame Bovary, de Flaubert.

Adolfo Coelho, que viria a ser mais tarde o fundador da lingustica em Portugal 
(Noes Elementares de Lngua Portuguesa, 1880), segue na esteira hegeliana-
proudhoniana, ao afirmar que na histria *v-se o esprito apropriar-se 
incessantemente da conscincia de si, isto , da sua natureza, da sua independncia, 
do seu destino+. Prope a organizao de um ensino totalmente cientfico, baseado na 
separao da Igreja e do Estado, e defende o desenvolvimento pedaggico das cincias 
sociais, histricas e

filosficas. Fez tambm uma cerrada crtica s instituies pedaggicas portuguesas, 
o

que provocou violenta reaco, sobretudo universitria.

Houve ainda uma conferncia de Augusto Soromenho, professor do Curso Superior de 
Letras, sobre A Moderna Literatura, que alis saa fora do pensamento do Cenculo, 
pois se empenhava em exaltar o Romantismo  Chateaubriand, e estavam outras 
preparadas: sobre Os Historiadores crticos de Jesus (Salomo Sragga); 0 Socialismo 
(Batalha Reis); A Repblica (Antero de Quental); A Instruo Primria (Adolfo 
Coelho); Deduo positiva da Ideia Democrtica (Augusto Fuschini). Entre outros 
conferencistas con-

vidados, contavam-se Tefilo Braga e Oliveira Martins. 0 encerramento deu-se no dia


em que ia realizar~se a conferncia sobre os Historiadores crticos de Jesus, onde o 
autor se propunha tratar dos trabalhos de Renan, com quem colaborara como perito, que 
era, de estudos hebraicos. Salomo Sragga dirigir a importante revista Os Dois 
Mundos, em portugus (Paris, 1877-81).

0 encerramento provocou protestos de alguns jornais e de dois deputados no Parla-

mento. Herculano associou-se nos termos que j indicmos.

As Farpas e RAMALHO ORTIGO

No mesmo ano em que decorrem as Conferncias do Casino, e orientada no mesmo sentido 
de crtica geral da sociedade portuguesa, aparece uma

publicao mensal redigida por Ea de Queirs e por Ramalho Ortigo -

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                     841

As Faipas. Cada nmero constitua um comentrio crtico e satrico aos acontecimentos 
e instituies, orientado segundo um iderio cuja principal fonte era, nos primeiros 
tempos, a obra de Proudhon.

0 artigo inicial, redigido por Ea de Queirs, sobre o Estado Social de Portugal em 
1871, faz um juzo muito demolidor da vida social, econmica e poltica, da religio, 
da opinio pblica, do jornalismo e da literatura. Este

artigo importa muito, porque nos d, como veremos, o travejamento doutrinrio da obra 
de Ea de Queirs desde 0 Crime do Padre Amaro at a Os Maias. Sob o aspect 
literrio, criticava Ea o lirismo tradicional de *pequeninas sensibilidades 
pequeninamente contadas por pequeninas vozes+, onde, de todo o vasto universo, apenas 
se ouve *o rumor das saias de Elvira+; lirismo convencional e hipcrita, que nem 
exprime o temperamento do poeta nem

a tendncia colectiva da sociedade - e, por cima disso, imoral. Criticava

o romance passional, apoteose do adultrio, com nefastas consequencias na

educao feminina, a qual ainda o preocupar em duas Farpas de 1872; o

teatro, que se limitava a decalcar declamaes de obras conhecidas; etc.

Desde a sada de Ea de Queirs para Cuba, em fins de 1872, no incio da sua carreira 
diplomtica, Ramalho manteve sozinho as Farpas, que con-

tinuaram a sair, alis irregularmente, at 1882, alterando profundamente o seu 
esprito.

Com efeito, Jos Duarte Rarnalho Ortigo (ri. no Porto, 1836-11-24 -

t 1915-09-27) vinha da escola romntica do folhetim, como Jlio Csar

Machado, a que por tantos lados se assemelha. Mais velho que Antero e

os seus companheiros de Coimbra, fizera-se no Porto crtico literrio e flhetinista 
do Jornal do Porto, numa  poca em que as personalidades literrias dominantes eram 
Camilo, Soares de Passos, Arnaldo Gama e outros j estudados em captulo anterior. 
Quando surgiu a Questo Coimbr, ainda a sua

formao cultural ficava ao nvel do primeiro Romantismo portugus, ocu-

pando nela lugar primacial Chateaubriand e Lamartine; reagiu, por isso, contra os 
jovens escritores como reagira contra Renan na polmica (precursora da Questo 
Coimbr) que a traduo das suas obras para portugus suscitara em 1863.

Foi pela mo de Ea de Queirs, com quem confeccionou 0 Mistrio da Estrada de Sintra 
(187 1) em folhetins no Dirio de Notcias, que se rela-

cionou com a nova gerao literria. A sua experincia e notveis qualidades de 
flhetinista, apuradas com os Contos Cor-de-Rosa (1870), onde

842                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

encontramos lado a lado um certo romantismo sentimental e um certo realismo 
camiliano, ora pitorescamente rural, ora de stira  burguesia logista portuense, mas 
tambm um certo dandismo de ares cosmopolitas e irnicos

que se acentuar na sua colaborao das Farpas.

Mas sem Ea perderam as Farpas o seu mentor. Faltava a Ramalho um iderio definido e 
o dom da ironia,  direco de Ea sucede em Ramalho a influncia de Tefilo Braga, 
que o leva a transitar do proudhonismo para o positivismo. As Farpas tornam-se mais 
descritivas, enchem-se de pitoresco regional, e ao mesmo tempo adquirem um tom 
didctico: segundo um jeito professoral, que lhe ficara da poca em que leccionara 
num colgio do Porto, e que, depois de uma viagem a Paris, em 1867, ganhara tambm um 
certo ar de dandsmo voluvelmente enciclopdico, Ramalho multiplica as lies de 
pedagogia, de higiene, de conduta social, sempre segundo um critrio

positivista. Colaborou com Tefilo na organizao do Centenrio de Cames, devendo-
se-lhe em grande parte o grande xito no cortejo em que enfileiraram mltiplos 
aspectos do conjunto das actividades nacionais. Nesse trabalho seguiu o pendor do seu 
esprito de artista, deliciado com o colorido das feiras, dos arraiais, do trajo 
regional, dos lugares pitorescos, das paisagens novas, que enchem tantas pginas, no 
s das Farpas, como dos seus livros de viagens: Em Paris (1867), a Holanda (1883), 
John Bull (1887); e de 0 Culto da Arte em Portugal (1896); etc.

A influncia de Ea e a de Tefilo Braga no alteram estrutural inente a formao 
tradicionalista de Ramalho, a qual, combinada com o senso vivo do valor esttico do 
folclore, o leva a interessar-se pela arte popular e a evo-

car o pitoresco desaparecido dos lugares e horas de infncia, a solidez exemplar dos 
costumes *antigos+. Aps os acontecimentos de 1908, o seu esprito volta ao 
equilbrio inicial, acompanhando de pleno direito e com plena convico os 
representantes da chamada gerao de 90, tradicionalistas e *neogarrettistas+, 
embora, corno atltico caminheiro do ar livre, tivesse anteriormente criticado esse 
novo nacionalismo por o considerar livresco e desenraizado.

Se doutrinariamente Ramalho tem interesse reduzido e a sua obra constitui mais uma 
reportagem jornalstica do Portugal da sua poca do que uma

verdadeira reflexo interpretativa e crtica da mesma (que se arrogam os romances de 
Ea de Queirs), o seu estilo ressuma pitoresco e aparenta sade.  sua prosa falta, 
sem dvida, a originalidade imaginativa da de Ea ou da

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
    843

de Garrett, o carcter da de Herculano e a vibrao pattica da de Oliveira Martins. 
Exprime um bom senso burgus saudvel. 0 seu poder descritivo daquilo que a gente 
comum v, dentro dos padres estabelecidos e das ideias feitas,  incontestavelmente 
enrgico; faz lembrar certos pintores do grupo *Silva Porto+, sobretudo Malhoa, que 
como ele valorizaram o colorido dos grupos populares ao ar livre.

Convm salientar na sua obra de viagens o volume A Holanda, que, alm de notveis 
pginas descritivas, encerra um entusistico panegrico das virtudes tipicamente 
burguesas do povo holands; nele se exprimem os mais

ntimos ideais do autor.

Um doutrinrio: TEFILO BRAGA

Ao lado de Antero de Quental, quase da mesma idade e nascido na mesma terra, Ponta 
Delgada, Tefilo Braga (ri. 1843-02-24 - t 1924-01-28) foi um dos primeiros con-

dutores da Gerao de 70, e assim aparece desde 1865 na Questo Coirribr. Pela sua

formao mental,  uma das personalidades mais tpicas do grupo: nos seus tempos de 
Coimbra, lendo Michelet, Vico e Vitor Hugo, *a alma repassava-se neste oceano de 
poesia+, segundo a sua prpria expresso. A Lgende des Sicles inspira-lhe uma 
epopeia da Humanidade em verso - Viso dos Tempos e Tempestades Sonoras, 1864; e a 
reve-

lao, em Mchelet sobretudo, da poesia tradicional encarninha-o no mesmo sentido e 
ainda na explorao erudita do romanceiro e narrativas populares. Aps uma tentativa 
falhada de ingresso no magistrio do Direito, a leccionao na cadeira de Literaturas 
Modernas do Curso Superior de Letras estabiliza-o definitivamente na histria 
literria.

At cerca de 1872, a actividade intelectual e prtica de Tefilo alinha pela do grupo 
do Cenculo, A partir desse ano, desenha-se uma ciso dentro do vago e sincrtico 
movi-

mento republicano-socialista. Antero, proudhoniano, prega a absteno poltica da 
classe operria. Tefilo Braga fica com aqueles que defendem a primazia dos problemas 
polticos sobre os sociais e a necessidade da liquidao prvia do regime monrquico. 
Enquanto o primeiro grupo adopta como seu mentor Proudhon, Tefilo entusiasma-se por 
Conite, e apresenta o Positivismo, na verso de Littr, corno base doutrinal do 
movimento republicano.


Esta oposio tornou-se patente numa polmica entre Antero e Tefilo a propsito da 
Teoria da I-Iistria da Literatura Portuguesa por este publicada em 1872. Nurn artigo 
intitulado Consideraes sobre a Filosofia da Histria Literra Portuguesa, Antero 
criticava com razo o ponto de vista exclusivamente etnolgico em que Tefilo se 
colocava, e sobretudo a sua hiptese que explicava a evoluo da literatura 
portuguesa como resul-

tado da luta entre uma raa morabe, nacional e oprimida, e urna aristocracia goda

844                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

opressora. Antero apontava assim o ponto frgil da teoria literria de Tefillo 
Braga, toda inspirada na teoria romntica do gnio nacional e popular. Tefilo Braga 
viria a esquecer aquela e outras hipteses suas, mas manteve sempre o critrio geral 
segundo o qual, por palavras suas, *cada escritor seria julgado segundo a intuio 
que teve das fontes tradicionais de que mais ou menos conscientemente se aproximou+. 
 conscincia nacional expressa naquelas fontes tradicionais ope-se constantemente, 
segundo o seu esquema interpretativo, a represso exercida por parte de foras 
estranhas  nacionalidade, especialmente a Igreja e a monarquia centralizada.

Apesar de frequentemente lhe fazer errar o alvo das hipteses explicativas que 
ensaiou para numerosos factos da histria literria portuguesa, o ponto de vista 
etnolgico aceite por Tefilo Braga permitiu-lhe abordar problemas que antes dele no 
tinham sido postos, a no ser um pouco por Garrett, especialmente os problemas das 
fontes folclricas da literatura portuguesa, versados em obras como Contos 
tradicionais do povo portugus (1883); 0 Povo portugus nos seus costumes, crenas e 
tradies (1885); Histria da poesia popular portuguesa (1902-05); Romanceiro geral 
portugus (1906) -, e, por outro lado, perspectivar com certa largueza problemas como 
o das origens do teatro vicentino, em Gil Vicente e as origens do teatro portugus 
(1898), e A Escola de Gil Vcente e

o desenvolvimento do teatro nacional (1898).

Por outro lado, um intenso labor de investigao erudita, que abrangia, no apenas os 
textos literrios, mas ainda certos nexos que os ligavam, e os seus autores, e 
algumas condies histricas e culturais ambientes, permitiu-lhe elaborar estudos 
importantes, que conservam ainda hoje grande parte do interesse, como o Bocage, sua 
vida e poca literria, Os rcades, os dois volumes Garrett, e outros. Deve 
salientar-se o seu volume Histria do Romantismo em Portugal, at hoje a melhor vista 
de conjunto da primeira gerao romntica portuguesa, e igualmente a sua vasta 
Histria da Universidade de Coimbra, em quatro volumes, que , na realidade, uma 
sntese da histria da cultura em Portugal, tendo como tema central o das 
instituies pedaggicas.

A campanha teortica e poltica a que todo este labor est ligado levou-o tambm a 
trabalhos de divulgao filosfica como os Traos gerais da Filosofia positiva 
(1877), e de doutrinao poltica, como a Histria das ideias republicanas em 
Portugal (1880) e as Solues positivas da poltica portuguesa (1912). A aliana dos 
dois aspectos da sua actividade - o de historiador literrio e o de doutrinador 
poltico - revela-se principalmente em As Modernas Ideias na Literatura Portuguesa 
(1892).

Atravs das suas obras literrias e da aco pblica que as acompanhou - tra-


balhos de organizao do Partido Republicano Portugus, preparao do Centenrio de 
Cames, etc. -, Tefilo Braga conseguiu tornar-se o principal representante e orien-

tador ideolgico da corrente republicana e do pensamento laico pequeno-burgus que 
norteava o movimento republicano, o qual, finalmente, o levou  presidncia do 
primeiro Governo da Repblica.

6. POCA - 0 ROMANTISMO                                                             
     845

GERAO DE SETENTA: A crtica literria

0 sulco deixado pela Gerao de 70 na cultura portuguesa foi profundo e duradouro. 
Alm das Farpas, um dos seus ecos colectivos mais prximos  a Revista Ocidental 
(dois tomos, 1875), dirigida por Antero e Batalha Reis, com colaborao portuguesa e 
espanhola. Limitamo-nos aqui a indicar, entre tantos, os crticos que lhe esto muito 
prximos pela poca e pelo meio.

A consagrao da escola realista e naturalista (nomes que ento geralmente se con-

fundem entre ns) est ligada a uma srie de campanhas e de obras doutrinrias, em 
que se distinguem Alexandre da Conceio (1842-89) e Antnio Jos da Silva Pinto 
(1848-1911), ambos os quais sustentaram polmicas bem pouco modelares com Camilo (o 
que no impediu o ltimo de vir a ser um dos seus melhores amigos), e sobretudo Jlio 
Loureno Pinto e Guilherme Moniz Barreto,

Loureno Pinto (1842-1907) publicou uma srie de artigos na revista Estudos Livres, 
rgo do positivismo em Portugal, dirigido por Tefilo Braga e Teixeira Bastos, os 
quais depois reuniu num volume intitulado Esttica Naturalista (1885). Loureno Pinto 
recusa-

-se a distinguir entre realismo e naturalismo (ver Introduo a este perodo), 
considerando o ltimo como *o termo natural para que evolui a expresso esttica+. 0 
naturalismo ser a arte do futuro, porque a literatura ser necessariamente a 
expresso dos progressos da cincia. Dentro deste esquema  posto o problema da 
poesia, que, contemporancamente, Antero chegou, tambm, a julgar condenada pelo 
prprio predomnio da mentalidade cientfica. Segundo Loureno Pinto, *o grande 
movimento da cincia moderna, essencialmente evolucionrio, d-nos uma concepo nova 
da vida, e a arte, que  a expresso mais viva e completa da existncia, h-de 
necessariamente inspirar-se tambm em

manifestaes novas do pensamento humano, no niodo de ser com que a humanidade e o 
universo se revelem  observao sob aspectos muito vastos+. Dentro desta perspectiva 
geral, aborda Loureno Pinto certos aspectos mais particulares da esttica 
naturalista. Considera como fonte de inspirao do romancista a *vida comum+, isto , 
corrente ou quotidiana; distingue entre *imaginao+ e *fantasia+, sendo a primeira 
a arte


de encontrar imagens caractersticas e estruturar a efabulao, e a segunda uma 
simples e inaceitvel intromisso do arbitrrio e do caprichoso; estuda as vantagens 
e inconvenientes do mtodo *psicolgico+ ou introspectivo e do mtodo *fisiolgico+ 
(entenda-se: a descrio das emoes atravs das suas manifestaes fsicas, tomando 
por base os estudos dos fisiologistas), recomendando o predomnio equilibrado deste 
ltimo. Sobre o estilo, nota que *a beleza, o vigor, a originalidade do estilo 
resultam desta perfeita identificao do autor com o seu assunto+; adverte o escritor 
contra o abuso do descritivo, aconselhando-o a <@precisar o trao caracterstico, s 
a nota que interessa e tem de servir a imaginao e exprimir a imagem que se pretende 
evocar+. Sobre o problema das relaes da arte com a moral (Ea, de acordo com 
Proudhon, proclamara convictamente a finalidade moral da arte), Loureno Pinto 
distingue entre a moral convencional, a que o artista no pode

846                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

sujeitar-se, e a verdadeira moral, *um anseio para um estado melhor, um impulso da 
prpria arte+. Como vemos, a teorizao do realismo literrio elimina j, com 
Loureno Pinto, certos simplisinos pelos quais Antero de Quental e o prprio Ea de 
Queirs (este na sua conferncia de 1871) tinham passado.

Guilhernie Moniz Barreto (1863-99), nascido em Goa e falecido em Paris, onde viveu 
alguns anos, colaborador d'A Provncia e d'O Reprter, jornais de Oliveira Martins, 
da Revista de Portugal, dirigida por Ea de Queirs, teve a ambio de criar uma 
crtica literria objectiva e cientfica, liberta do amadorismo e do impressionismo 
da tradio flhetinista. Serviu-o nesse esforo, alm de uma iseno notvel que o 
levou a criticar Oliveira Martins no prprio jornal por este dirigido, uma preparao 
filosfica definida. Aceitando as teses de Taine, seu principal mestre (que, no 
entanto, criticou com penetrao), sobre a influncia do meio, momento e raa nas 
obras literrias, as suas anlises literr as orientam-se no sent do de caracterizar 
a ps cologia dos autores; so, na realidade, ensaios psicolgicos a partir dos dados 
oferecidos pelos textos literrios.
0 seu alvo  descobrir a *faculdade mestra+ do autor e definir o tipo psicolgico a 
que pertence. Assim, num estudo tpico sobre Oliveira Martins, que subtitula de 
*estudo de psicologia+, afirma que *a pea mestra da inteligncia do Sr. Oliveira 
Martins  a imaginao psicolgica+, inferindo daqui a capacidade para a aco 
poltica, em que Oliveira Martins recentemente se lanara. Algumas das suas 
observaes penetrantes vieram a

ser retomadas por crticos posteriores, como a que se refere a Guerra Junqueiro: 
*Quando se procura a frmula do esprito de Guerra Junqueiro, acha-se que ele  muito 
mais ora-

dor que poeta e que tem muito mais eloquncia que imaginao+.

SAMPAIO BRUNO

Em informao terica, vastido de leituras portuguesas e estrangeiras, perspiccia, 
Sampaio Bruno (que adiante focaremos como doutrinrio, eni geral) nada fica, 
geralmente, a dever aos crticos mais notveis do tempo: Luciano Cordeiro, Silva 
Pinto, Alexandre da Conceio, Moniz Barreto, Loureno Pinto.  pena que os seus 
ensaios crti-

cos sobre A Gerao Nova (1886) apenas focassem a fico em prosa, embora em muitos 
pontos os possamos completar com digresses contidas noutros volumes e com estudos

isolados. No apenas as referncias contidas neste livro nos do muitos elos hoje 
esquecidos na evoluo do romance portugus oitocentista, como certas anlises se 
antecipam s da crtica nossa contempornea. Dir-se-ia, muitas vezes, que a 
sensibilidade literria

de Bruno se adiantou, nalguns casos, aos seus esquemas doutrinrios posteriores, 
naquilo que tero de vlido, isto , naquilo em que eles reagem a uma anterior 
insuficincia doutrinria. Assim, no se pode ler a anlise que em 1885 fez aos 
contos de Edgar Poe, em oposio ao fantstico, que julga menos perturbante, de 
Hoffmann, sem pensar que Bruno mais tarde associar o rigor cientfico ao esoterismo. 
E h um enorme desnvel

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
      847

entre a explicao biogrfica, toda em moldes teofilescos, que d para a gnese do 
romance queirosiano, e a sua precussora anlise estilstica, e por vezes tcnica e 
ideolgica, desse

mesmo romance.

A teoria de Bruno quanto ao realismo-naturalista vem exposta de um modo sistem-

tico na sua concluso ao estudo de toda a histria geral e portuguesa da fico em 
prosa, em A Gerao Nova. Essa teoria fundamenta-se filosoficamente na rejeio da 
tese de Katit segundo a qual a anlise cientfica do belo seria impossvel e o juzo 
esttico irredutvel a conceitos. Bruno aceita, com Hegel, a possibilidade de uma 
cincia do belo, embora uma cincia meramente histrica e emprica, em constante 
formao. 0 esprito cientfico adequado aos problemas artsticos no consistiria em 
fazer *arte cientfica+. A des-

peito das pretenses naturalistas, *o romance tem, portanto, de continuar a ser 
romance; e a sua crtica final deve ultimar-se, como em todas as obras de arte, numa 
questo de gosto+. A esfera do gosto estaria sempre em relativa independncia da 
esfera das cincias, no podendo tolerar-se hibridismos como a poesia cientfica e o 
romance-monografia: *0 devaneio potico repousa sobre elementos cognitivos, mas no 
so eles, por si, que o classificam+. 0 belo no se define, experimenta-se: *o 
problema do belo na arte  um

problema concreto+ e a *marcha histrica no nos autoriza ainda a constituir a 
esttica, fechando-a num corpo doutrinal+. Donde se conclui que a construo da 
esttica normativa deve acompanhar o prprio desenvolvimento histrico e humano da 
arte, constituindo, contudo, no o exerccio de um dom psicolgico absolutamente 
isolvel (o senso kantiano do gosto e da finalidade), mas um momento, o momento 
esttico de cada passo do progresso humano. Por seu turno, esse momento no se 
confundiria com o momento de reflexo moral e poltica, embora com ele se 
relacionasse intimamente: *A justia (objecta Bruno ao normativismo obsessivo de 
Tefilo) tem de ser a atmosfera do livro, no a sua trama; , ali, um corolrio, 
nunca um teorema+.

Alicerado nestes princpios tericos e metodolgicos, Bruno estuda o surto e desen-

volvimento do romance realista. No o seguiremos de perto. A sua explicao detm-se, 
sociologicamente, na altura da vitria da burguesia liberal, e a gnese imediata do 
naturalismo reduzir-se-ia a uma abstracta reaco contra os exageros romnticos e a 
uma


influncia dos progressos cientficos, nomeadamente do determinismo fsico-qumico 
generalizado  biologia e, da,  hereditariedade e  psicologia humanas. No entanto, 
a an-

lise da prpria esttica naturalista conduzir o pensador a um enraizamento histrico 
bem

mais interessante dessa escola literria.

Bruno ope-se  crtica superficial da poca (como a de Pinheiro Chagas): o natura-

lismo no  pornogrfico; a sua tendncia pormenorizante no infringe as necessidades

de perspectivao e composio ficcionista; o estilo naturalista no  mais propenso 
que o clssico ou o romntico para o clich, a banalidade. Mas j critica a 
estreiteza do deter-

minismo fsico-qumico e ecolgico dos naturalistas: *quando a psicologia morosamente 
se constitui, a pretenso de Zola [a uma qumica psicolgica] tem muito de 
prematuro+.

848                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Mais notvel  ainda o exame que dedica  pretenso de impersonalidade realista, que 
decorre desse detem-nismo mecnico. Tal pretenso representaria um progresso em 
relao ao romantismo, na medida em que eliminava a constante e ostensiva interveno 
opinante dos autores na obra; mas a afectividade e, no fim de contas, a doutrinao 
seriam inevitveis; a objectividade , em rigor, impossvel: *materialmente, os 
nossos idiomas

recusam-se+; impossvel narrar sem valorizar. 0 que era necessrio era que a valori-

zao, a irredutvel interveno do autor se tornasse inerente  sua tcnica 
literria,  sua composio e estilo (como Bruno noutro passo mostra acontecer com 
Ea de Queirs).

Bruno aprova a preferncia do naturalismo pela contemporaneidade: *o carcter con-

temporneo da aco da novela compreende-se que seja fatal, desde que se trate de 
desfi-

brar a alma nos seus tecidos profundos+. As reconstituies histrico-psicolgicas 
merecem-

-lhe ironias. Mas contesta que a mediocridade das personagens seja *requisito 
indispensvel+. 0 romance *no dispensa a vida+, e a vida , pensa ele, normalmente 
acidentada e apaixonada, mesmo que se no d por isso. A anlise penetrante dos 
costumes, da prpria trivialidade, exigia caracteres - nada mais representativo de um 
momento

histrico ou de um meio social do que uma autntica personalidade. *A literatura vive 
da excepo+, da excepo que  a experincia crucial. * A figura tem de se destacar, 
para que se veja+. Da falta de caracteres *provm essa grande imperfeio lgica+, 
quer dizer, planeada segundo uma lgica formal e no dialctica: *o homem-homem no 
mar-

cha direito; conforme registou, na sua frmula eterna, Montaigne, ele  ondulante e 
diverso+.

E deste modo, Bruno, que to superficialmente apresentara a formao histrica do 
romance naturalista, acaba por v-Ia mais a srio. 0 naturalismo corresponderia a uma

anlise ainda insatisfatria da realidade humana, porque incapaz de profunda sntese 
valorativa. Se os valores estticos e morais do classicismo eram abstractos, o 
naturalismo


carecia de uma vivncia de valores subsistentes, por corresponder a uma poca de 
crise. Vitor Hugo e BaIzac haviam dado uma sntese valorativa da vida burguesa, mas o 
operariado no podia ser caracterizado,  Zola, pelo simples facto de que *quatro mil 
Coupeaus acabam pelo delirium tremens+. E Bruno encontra ainda outra frmula feliz 
para rematar o seu juzo sobre o naturalismo. A natureza objectiva, diz ele,  para a

arte *o seu ponto de partida, no o da chegada. Doutro modo, como explicar a msica?
0 que seria a aplicao da frmula naturalista a esta arte? Equivaleria, 
evidentemente, a, na estereotipao da natureza, retrogradar para as rtmicas 
onomatopeias+. Firmemente assente na realidade humana, a arte figuraria, contudo, 
como um dos momentos da sua transformao. E o naturalismo no passaria de um momento 
na profunda revalorizao ou transfigurao futura que Bruno, em 1885, no julga 
possvel adivinhar. H ainda comentrios e juzos sobre diversos autores 
estrangeiros, quer doutrinrios, quer ficcionistas como Galds e Dostoievski, nas 
suas Notas do Exilio - 1891-93, 1893 (reedio 1986).

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
   849

11111MIMU06,AF1,4

Sobre o conjunto do grupo

A bibliografia da Questo Coimbr est registada no Dicionrio Bibliogrfico de 
Inocncio, vol. Vili.

Bom Senso e Bom Gosto (Questo Coimbr), 4 vols., *Portuglia+, Lisboa,
1966-68-69-70, recolha das 44 peas integrais da polmica e ainda de numerosos textos 
adicionais, notas, bibliografia e extenso ndice por Maria Jos Marinho, com introd. 
de Alberto Ferreira; reed. 4 vols., IN-CM, 1985-87, reed. 1989. (Obra fundamental de 
consulta; a introduo de Alberto Ferreira  retomada e actualizada no seu posterior 
vol. Perspectiva do Romantismo Portugus, Edies 70, Lisboa, 197 l.) Dos mesmos 
organizadores: Antologia de Textos da Questo Coimbr, Moraes, 1980.

Ver os testemunhos insertos em Antero de Quental - In Memoram, Porto, 1896.

Reis, Batalha: Introduo s Prosas Brbaras de Ea de Queirs, 1903, corrigida na

ed. de 1922 e assim includa em E. de Queris e J. Batalha Reis. Cartas e Recordaces 
do seu Convvio, apres. por Beatriz C. Batalha Reis, Leilo, 1966.

Braga, Tefilo: As Modernas Ideias na Literatura Portuguesa, 2 vols., 1892. Fuschini, 
Augusto: Liquidaes Polticas, 1896 e 0 Presente e o Futuro de Portugal,
1899 (livros de memrias e anlise).

Paxeco, Fra: A Escola de Coimbra e a dissoluo do Romantismo, Lisboa, 1917 (numa 
perspectiva teofiliana).

Figueiredo, Fidelino de: Histria da Literatura Realista, 2. > ed., Lisboa, 1924. 
Salgado Jnior, Antnio: As Conferncias do Casino, Lisboa, 1930. Monteiro, Gomes: 
Vencidos da Vida, 1944.

Torres, Flausino: Notas acerca da Gerao de 70; col. *Portuglia+, Lisboa, 1967. 
Nogueira, Csar: Notaspara a Histria do Socialismo em Portugal (1871-1910), 1. 
vol., col. *Portuglia+, 1964 (memrias de velho militante).

Lopes, scar: Antero de Quental - Vida e Legado de uma Utopia, Caminho, Lisboa,
1983; Oliveira Martins e as contradies da Gerao de 70, in lbum de FarnXa - 
Ensaios sobre Autores Portugueses do Sculo XIX, Caminho, Lisboa, 1984.

Nmero especial de 0 Tempo e o Modo sobre temas do sc. XIX, 36, Maro 1966.

0 estudo de Joei Serro, a includo, de Sondagem cultural  sociedade portuguesa de 
cerca de 1870, encontra-se tambm no seu vol. Temas de Cultura Portuguesa, li, 
Lisboa, 1965.

Carvalho, Joaquim de: captulo da Histria do Regime Republicano em Portugal sobre a 
formao da doutrina do Partido Republicano.

0 vol. Vencidos da Vida, cicio de conferncias promovidas por *0 Sculo+, Lisboa,
1941, contm conferncias, de valor muito desigual, sobre vrias personalidades desta 
gerao, da autoria de Vieira de Almeida, Costa Pimpo, Paiva Bolo, Manuel Mrias, 
Feliciano Ramos, Reinaldo dos Santos, Joo de Barros, Damio Peres e Matos Sequeira.

850                                                HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Nemsio, Vitorino/Lourenco, Eduardo/Girodon, J./Gilbert, A.IMartins, Coimbra: Regards 
surla Gnration de 1870, ed. Fundao C. Gulbenkian, Paris, 1971; ver ainda o guia 
da exposio bibliogrfica ligada a esta srie de conferncias: La Gnration de
70. poque Chefs de File, Centro Cultural Portugus, Paris, 197 1.

Oliveira, Csar: 0 Socialismo em Portugal (1850-1900), Afrontamento, Porto, 1973; A 
Comuna de Paris e os Socialistas Portugueses (selec. de textos, com introd. e notas), 
Braslia Editora, Porto, 1971.

Alves, Ana Maria: Portugal e a Comuna de Paris, Estampa, Lisboa, 1971. S, Vtor de: 
A Crise do Liberalismo e as primeiras manifestaces das ideias socialistas em 
Portugal, 2. ed., Lisboa, 1974; Formao do Movimento Operrio Portugus, Coimbra, 
1978.

Martins, Antnio Coimbra: De Castilho a Pessoa. Achegas para uma potica histrica 
portuguesa, in *Builetin des tudes Portugaises+, nouvelle srie, 30, 1969.

Pacheco, Manuel Antnio de Moura: Influncias de Hippolyte Taine no Pensamento 
Esttico Portugus, Porto, 1969.

Frana, Jos Augusto: 0 Romantismo em Portugal, vols. 4, 5, 6, Livros Horizonte, s/d; 
As *Conferncias do Casino+ no Parlamento, Horizonte, Lisboa.

Rodrigues, Jacinto: Perspectivas sobre a Comuna e a 1. 1 Internacional em Portugal 
(com antologia de textos e testemunhos). Aspectos da reaco catlica conservadora s 
correntes socialistas so historicamente enquadrados por Policarpo, Joo Francisco de 
Almeida: 0 Pensamento Social do Grupo Catlico de *A Palavra+ (1872-1913), 1, Centro 
de Histria da Sociedade e da Cultura da Univ. de Coimbra, 1977.

Machado, Alvaro Manuel: A Gerao de 70 - uma revoluo cultural e literria, 
Biblioteca Livre, Instituto de Cultura Portuguesa, 1977.

Medina, Joo: As Conferncias do Casino e o Socialismo em Portugal, Dom Quixote, 
Lisboa, 1984 (fundamentalmente, uma antologia de textos doutrinrios e documentais, 
com bibliografia crtica e apresentao histrica).

Silva, Augusto Santos: Oliveira Martins e o Socialismo - ensaio de leitura crtica, 
1979.

Utopie et Socialisme au Portugal au XIXe sicle, Exposition Biblographique et 
Iconographique - Colloque, Fund. C. Guibenkian, Centro Cultural Portugus, Paris,
1979.


Pires, A. Machado: A Ideia de Decadncia na Gerao de 70, Univ. dos Aores, Ponta 
Delgada, 1980.

Simes, Joo Gaspar: A Gerao de 70 - alguns tpicos para a sua histria, col. 
*Cadernos Culturais+, 1983.

Delille, M. Manuela Gouveia: A Recepo Literria de H. Heine no Romantismo Portugus 
(de 1844 a 1871), lN-CM, 1984.

Serro, Joel: 0 Primeiro Fradique Mendes, Livros Horizonte, 1985 (convergncias e 
divergncias entre os autores do heternimo colectivo Fradique: Antero, Ea, Bata-

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
          851

lha Reis; contm e comenta poesias atribudas, ou atribuveis, a Fradique e extensa 
bibliografia).

Saraiva, Antnio Jos: A Tertlia Ocidental, Gradiva, Lisboa, 1990.

Est publicada a Obra Completa de Jos Flix Henriques Nogueira, com marginlia, 
bibliografia, apndice documental e notas de Antnio Carios Leal da Silva, IN-CM,
3 tomos, 1976.

SOBRE RAMALHO ORTIGO

1. Obras

As Farpas saram em 4 sries, de 1871 a 1888; entretanto (na parte de Ramalho), foram 
reeditadas de 1887 a 1891 em tomos subordinados aos ttulos: 1, A vida provincial; 
li, As epstolas; 111, Os indivduos; IV, 0 Parlamento; V, A religio e a arte; VI, A 
sociedade; Vil, A Capital; VIII e lX, 0 movimento literrio e artstico; X e X1, 
Aspectos vrios. Em 1917 publicou-se postumamente um vol. de ltimas Farpas, sadas 
entre 1911-14. (A parte de Ea de Queirs est reunida em Uma Campanha Alegre, 2 
vols.) . Terc. ed.
1926. Em 1944-49, ed. integral, incluindo texto da 1. > ed. em cadernos mas excludos 
da ed. de 1887-9 1, e completada por 2 vols. de Farpas Esquecidas, 1946-47. 0 texto 
original dos folhetos foi sensivelmente alterado nas edies em volumes.

Literatura de Hoje, Porto, 1866. Em Paris, Porto, 1868. Contos cor-de-rosa, Lisboa, 
1870. Banhos de Caldas e guas Minerais, Porto, 1875. As Praias de Portugal, Porto, 
1876. Notas de Viagem, Rio de Janeiro, 1878. Pela terra alheia. Notas de Viagem, 
1878-80. Tefilo Braga, esboo biogrfico, Lisboa, 1879.
* lei da Instruo secundria da Cmara dos Deputados de Portugal, Rio, 1883.
* Holanda, Porto, 1885. John Bull, Porto, 1887. EI-Rei 0. Carlos, o Martirizado, 
Lisboa, 1896.
0 Culto da Arte em Portugal, Lisboa, 1908. Quatro grandes figuras literrias 
(pstumo), Lisboa, 1924.

H uma ed. lisboeta recente das Obras Completas, que abrange alguns vols. de inditos 
e dispersos.

2. Estudos e antologias

Joo de Barros, na Histria da Literatura Portuguesa Ilustrada, vol. 4. >; Lus da 
Cmara Reys, na Perspectiva da Literatura Portuguesa do sculo XIX. Antologia 
organizada e apresentada por este autor na srie As Questes morais e sociais na 
literatura, Lisboa, cadernos da *Seara Nova+.

852                                                 HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Coelho, NeIly Novaes: Ramalho Ortigo: o Homem e o Escritor, in *Revista do Livro+, 
vol. 5, 1964.

Carvalho, Fausto Lopo de: A actualidade do pensamento de Ramalho Ortigo, ed. Cor, 
Lisboa, 1971.

Oliveira, M. J. L. Ortigo de: 0 Essencial sobre Ramalho Ortigo, IN-CM, 1938. Ver 
tambm o pref. de Augusto de Castro  edio de 1944-49 das Farpas.

SOBRE OUTROS DOUTRINRIOS

As principais obras de Tefilo Braga vo indicadas no texto. Ver Quarenta anos de 
vida literria. Autobiografia mental de um pensador isolado, Lisboa, 1902, que contm 
documentos e epistolografia. H sobre este autor um In Memoriam, Lisboa, 1943, com 
vrios estudos e documenta o; e dois estudos importantes, um de A. do Prado Coelho, 
Lisboa, 192 1, outro de Joaquim de Carvalho na Perspectiva da Literatura Portuguesa 
do sculo XIX, Lisboa, 1950. Antologia seleccionada e prefaciada por A. do Prado 
Coelho, na col. As melhores pginas da literatura portuguesa, Lisboa, 1943.

Catroga, Fernando de Almeida: Os Incios do Positivsmo em Portugal - o seu 
significado poltico-social, sep. *Revista da Histria das Ideias+, vol. 1, Coimbra, 
1977, e Problema Poltico em Antero de Quental - Um confronto com Oliveira Martins, 
sep. da *Rev. de Hist. das Ideias+, 111, 1981, 341-521.

Moniz Barreto publicou em vida um nico vol. - Oliveira Martins, estudo de 
psicologia, Lisboa, 1887 -, encontrando-se o resto da sua obra dispersa em jornais 
portugueses e brasileiros. Alguma desta colaborao foi reunida no vol. Ensaios de 
Crtica, 1944, com pref. de Vitorino Nemsio. 0 ensaio sobre a Literatura Portuguesa 
no sculo XIX, vindo a lume na Revista de Portugal, encontra-se editado nos cadernos 
Inqurito, 2. a

ed., 1962; na mesma editorial, o estudo sobre Oliveira Martins, 1962. Ver ainda Novos 
Ensaios, edies *Tempo+, Lisboa, 1962, e Estudos Dispersos, reunidos e anotados por 
Castelo Branco Chaves, col. *Portuglia+, 1963. H sobre este autor um estudo de 
Mrio Sacramento na Perspectiva da Literatura Portuguesa do sculo XIX.


Acerca de Sampaio Bruno, ver, alm da bibliografia que se indicar no captulo 
seguinte, Lopes, Oscar: Bruno e o Naturalismo, e outros artigos insertos em *0 
Comrcio do Porto+, 1957-01 -15, no suplemento de homenagem ao escritor portuense, 
includo na colectnea Estrada Larga, 3. > vol., Porto, s/d, e em Modo de Ler, Porto, 
1969; Marinho, Jos: Sampaio Bruno in *Perspectivas da Literatura Portuguesa do 
Sculo XIV, dir. por J. Gaspar Simes, vol. 1, Lisboa, s/d; Soveral, Eduardo 
Abranches de: Introduo ao Pensamento de Sampaio Bruno, in *Rev. Port. de 
Filosofia+, 3/4, 1986; Morujo, A.: 0 Itinerrio de Sampaio Bruno, in *Rev. Port. de 
Filosofia+, Julho/Dezembro, 1987; Vareia, Maria Helena: *Sofia+ a *Profecia+ na 
Filosofia de Sampaio Bruno, Biblioteca Pb. Mun. do Porto, 1990 (com extensa 
bibliografia),

Pires, Antnio Machado: Teoria do Romance Naturalista Portugus, *Colquio/Letras+,
3 1, Maio 1976, pp. 59-70.

Captulo VIII

ANTERO DE QUENTAL

Antero de Quental aparece-nos como o principal mentor da Gerao de
70 nas suas origens, e simultaneamente como poeta, polemista, doutrinrio e 
testemunha epistologrfica. Mas, ao longo da sua evoluo, a sua poesia e o seu 
pensamento traduzem de forma paradigmtica um drama pessoal (e geracional) que 
resulta, entre outras coisas, de um desajustamento entre certa filosofia progressista 
e humanitarista europeia dos anos 50 e 60 e a situao histrica, sobretudo nas 
condies sociais portuguesas. Daqui resultou a bio-

grafia espiritual talvez mais dramtica da literatura portuguesa, de que os

textos doutrinais, numerosas cartas e os poemas assinalam a evoluo.

BiograFia e drama espiritual de Antero (Antero Tarqunio de

Quental, n. Ponta Delgada, 1842-04-18 - t 1891-09-11)

Apoiado, talvez, pela educao materna, que se manteve prevalecente at finais da 
adolescncia e ainda em seguida iria perdurar de um modo menos visvel, houve sempre 
nele um fundo de religiosidade tradicional, condizente com o velho morgadio aoriano 
que herdou e constituiu a estvel, embora modesta, base material da sua vida; entre 
os seus antepassados conta-se pelo menos um asceta, o padre Bartolomeu do Quental, 
organizador, como vimos, da Congregao do Oratrio no nosso pas. Um dos mais 
veemen-

tes apelos do seu temperamento, quer na fase inicial, quer na fase final da sua vida 
liter-

ria, foi o da santidade mstica, que se transmudou, durante a fase mais intensa e 
combativa, numa devoo dramtica, pela voluntariedade externa e interna, a um 
sentido democrtico-

-social de vida, sentido todo imanente a uma concepo evolucionista do mundo fsico 
e da sociedade humana. Tal combatividade progressista existia tambm na tradio

854                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

familiar, pois um dos avs, companheiro de Bocage, sofrera perseguies e prises 
abso- lutistas e fora mais tarde deputado s Constituintes; e, alm de um primo, o 
prprio pai vivera no exlio, donde regressara com os 7500 Bravos de Mindelo.

Em 1858, com 16 anos, inscreve-se na Universidade, depois de trs anos de estudos 
preparatrios em Coimbra; data do ano seguinte a sua primeira poesia mencionada, 
feita sob inspirao de um poema religioso de Herculano que j o impressionara desde 
os dez

anos. Herculano ser um dos mais importantes mentores da sua carreira; nas cartas que 
durante anos escrever a Oliveira Martins, as express es sinnimas *o Herculano+, *o 
Velho,+, *o Mestre+ soam com insistncia e num tom de simpatia e intimidade filial. 
Mas nos primeiros tempos universitrios no  ainda a filosofia da histria 
portuguesa que o interessa;  o sentido (herculaniano) de urna grandeza imensurvel 
para alm da vida comum, a transfigurao da paisagem a um sopro tempestuoso do 
Eterno que bafeja no

homem urna correspondente grandeza de atitudes morais. Este senso da grandeza csmica 
e moral vazar-se-, v-lo-emos, em moldes hegelianos e humanitaristas. Mas, para j, 
e no prolongamento da sua educao tradicionalista, abrem-lhe caminho  admirao e 
imitao em verso de Lamartine, e de certos poemas do romantismo portugus nos anos

50, como 0 Firmamento, de Soares de Passos.

Entretanto, ao longo de um aproveitamento escolar sem nada digno de nota at  
formatura, evolui desde contestaes meramente praxistas de um temperamento 
irrequieto, pelas quais chegou a ser castigado, a atitudes cada vez mais 
significativamente combativs. Dentro de um numeroso grupo estudantil a que pertence, 
a Traa, organizou urna espcie de directrio, a Sociedade do Raio, para orientar um 
movimento contra o foro

acadmico e um reitor que o personificava; num sesso destinada a homenagear o 
prncipe herdeiro da Itlia, sada-o, em nome da Academia, no como representante da 
Casa de Sabia, mas como filho de um dos libertadores da sua ptria, amigo de 
Garibaldi; e para reagir contra certas medidas de represso aos movimentos 
acadmicos, promove em 1864 a famosa *Rolinada+, protesto de grande parte da Briosa 
sob a forma de um


xodo para o Porto, *bero da liberdade portuguesa+. No campo ideolgico e 
especialmente literrio, esta evoluo coincide com manifestaes de entusiasmo em 
torno das lutas progressistas europeas: movimentos de emancipao e unificao 
nacional como os da Polnia e da Itlia, a resistncia crescente a Napoleo III, cujo 
mais clebre arauto, Vtor Hugo, j encontrara ecos portugueses, especialmente em 
Mendes Leal, nos poemas motivados pelo caso da barca *Charles et George+, que Antero 
declamou numa reu-

nio, e em certos esquecidos poetas portuenses, que parecem t-lo influenciado quando 
da *Rolinada+. Sob o ponto de vista formal, foi ento decisiva a convivncia com Joo

de Deus, que, segundo afirma, lhe teria revelado *o soneto corno ele , como deve 
ser+.

*Varrida num nstante+ a sua educao tradicionalista, como dir mais tarde numa 
carta autobiogrfica ao seu tradutor alemo W. Storck, passou, como outros 
conipanheiros, por um iderio irreligioso, liberal-tolerantista, do Progresso, 
provavelmente inspirado por Vitor Hugo e Pelletan, panfletrio e inimigo ideolgico 
do Segundo Imprio,

6. 2 POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
    855

cujas concepes esquematicamente racionalistas acerca da morte da msica e da poesia 
ainda conservar mais tarde, mas que entretanto aborrecer tanto como ao positivismo 
seu afim; e quanto aos problemas portugueses, parece ter ento feito caminho do 
municipalismo e antiultramontanismo de Herculano at s doutrinas de Henriques 
Nogueira, que o abeiram de Proudhon. Mas as poesias que escreve at 1864 e hoje 
figuram, quer na primeira edio dos Sonetos, 1861, e na Beatrice, 1863, quer nas 
Primaveras Romnticas, s editadas em 1875, e nas trs edies sucessivamente 
aumentadas e pstumas de Raios de Extinta Luz, documentam, v-lo-emos adiante, uma 
grande multiplicidade de ideias e preocupaes desde cerca dos seus vinte anos.

Quando, por fins de 1863, conclui as Odes Modernas, que apenas sero publicadas em 
1865, depois da sua formatura em Direito, Antero assimilara aquele conjunto de 
influncias atrs apontadas na sua gerao. A atitude doutrinria deste livro 
contrasta com a

da anterior poesia portuguesa, incluindo a do Romantismo humanitarista e protestativo 
at ento conhecido, apresentando-se como bem explicitamente revolucionria. Com 
efeito, das Odes est banido o sentimentalismo ertico, a religiosidade lrica 
lamartiniana pretextada na paisagem - a favor, no de uma vaga compaixo social, mas 
de um corpo de doutrina; ao cristianismo dos primeiros romnticos ope-se um 
pantesmo em que, sob a inspirao de Michelet (ecoando Vico e Herder, e completado 
por Proudhon e pela Vida de Jesus de Renan, 1863, traduo portuguesa 1864), os mitos 
e religies, incluindo a de Cristo, aparecem como fases poticas ultrapassadas na 
vasta epopeia da Humanidade, fases em que ela ainda no dominava a fatalidade das 
leis naturais para, controlando-as, instaurar a lei da sua prpria liberdade. Esta 
lei da liberdade era a da Justia demandada pela Revoluo proudhoniana, e era a 
Ideia hegeliana, que, no deixando de ser

transcendente e eterna, se fizera, contudo, tambm imanente  evoluo natural, 
depois  histria inconsciente e, por fim, imanente  prpria conscincia dos homens. 
Deve frisar-se que exposies francesas do hegelianismo lanam ento razes 
inextirpveis em Antero.

Ele nunca deixar de ver a realidade como o desenvolvimento da Ideia, ou plano 
imanente, atravs da autonegao evolutiva por tese, anttese e sntese, que, segundo 
Protidhon, corresponderiam a sries qualitativamente diferentes. Segundo este 
idealismo objectivo que ele abraa, a histria realiza a Ideia, e um papel decisivo 
cabe aos mentores intelectuais, *reveladores santos da Ideia+, os seus semeadores no 
*campo+ ou * cho+ fecundo da Humanidade.


Mas durante todo o perodo mais combativo de Antero, o de 1863-75, aquele em que 
domina a tendncia designada por Antnio Srgio como apolnca ou diurna (em oposio 
 tendncia romntica ou nocturna, sempre alis coexistente com essoutra), o seu 
hegelianismo apresenta j ambiguidades prenunciadoras de atitudes posteriores. De 
facto, o hegelianismo anteriano foi bebido, no directamente, mas em expositores ou 
intrpretes como Vera, Rmusat e o prprio Proudhon.  provavelmente de Vera que 
Antero deriva a acentuao daquilo que na Ideia de Hegel ainda h de virtualmente 
teolgico: o seu carcter, no fundo desta, de *universal esprito+, imanente  
natureza e  histria, e cuja realizao seria, portanto, no (como em Hegel) a das 
leis objectivas, naturais

856                                                 HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

(depois concebidas pelo esprito humano e estatizadas), e sim este mesmo esprito 
humano, verdadeiro templo da Justia proudhoniana, coeterna, por assim dizer,  
Ideia; mas, em

muitos seus textos, ocorrem, quer a concepo tradicional de um Deus transcendente, 
quer a da sua pura imanncia ao homem como impulso para um Absoluto ou um Bem moral 
(pensamento tpico de E. Vacherot). Por outro lado, ao longo da sua evoluo de
1865 a 1890, Antero, ora, na sequncia de uma esquemtica concepo iluminista (que, 
por Vico, chega a Hegel e Pelletan), profetiza o fim prximo da poesia, pretenso 
resduo da mentalidade primitiva, e da msica, pretensamente solidria do 
individualismo romntico; ora faz a contraditria e bem pouco hegeliana reivindicao 
de um papel independente para o sentimento subjectivo, como absolutamente irredutvel 
a conceito; ora exalta o extremismo irreconcilivel da tese e da anttese, de cuja 
luta sem quartel, unicamente, viria o progresso Gustificando a esse ttulo a 
encclica antiliberal Quanta Cura); ora, proudhonianamente, parece conceber a sntese 
como sendo a conciliao das contradies fundamentais, em vez de ver nela a negao 
directa da ltima negao consumada numa sequncia de negaes sucessivas. Veremos 
adiante, a propsito da poesia, as implicaes literariamente mais concretizadas dos 
conflitos ideolgicos de Antero.

J no captulo anterior nos referimos  Questo Coimbr e s Conferncias Demo-

crticas, em que Antero desempenhou o papel de protagonista. Registemos aqui apenas, 
para evidenciar os conflitos atravs dos quais se vai processando o seu drama 
espiritual, que, depois de concludo o curso e travada a batalha de seis meses do Bom 
Senso e Bom

Gosto, cujo melhor e ainda hoje mais vivo documento foi o seu folheto sobre A 
Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais, depois de disperso o seu curso 
coimbro, o jovem poeta e polemista regressa por uni tempo ao solar aoriano e 
estremece com este

sentimento, esta *coisa nova: a conscincia de proprietrio+; e que, pouco depois, em 
seguida a um breve tirocnio numa tipografia lisboeta, vai a Paris, para passar pela 
experincia dura de operrio tipgrafo (1866-68). Cedo, porm, se malogra, o esforo 
herico da adaptao do filho-familia micaelense a um trabalho e a um ambiente para 
que no

estava intimamente preparado. H ento um regresso desalentado e secreto  quinta 
minhota do amigo Alberto Sampaio, depois a Ponta Delgada, uma viagem  Amrica. At 
que, instalando-se em Lisboa, no ambiente exaltado de uma crise dinstica espanhola, 
da queda de Napoleo 111, da Comuna de Paris, rodeado por velhos companheiros 
coimbros e


outros moos abertos s novas luzes, surge aquilo a que, por analogia com um grupo do 
romantismo progressista francs, se chamou, depois, o Cenculo, organizador das 
Conferncias Democrtcas.

Visto terem sido atrs versados, em captulo  parte, as origens, as intenes, o 
desenrolar e a suspenso das Conferncias, limitemo-nos a salientar aqui a filiao 
herculaniana da tese de Antero sobre quais teriani sido as Causas da decadncia dos 
povos peninsulares: a Contra-Reforma, o absolutismo rgio e a expanso ultramarina, 
que  como quem fala numa s causa complexiva, a estrutura antidemocrtica das naes 
ibricas desde meados do sculo XV com vista  conquista e explorao de terras no 
alm-

6 a pOCA - 0 ROMANTISMO                                                             
   857

-mar. Esta filosofia da histria peninsular j, porm, aponta, como remdio, no a 
proposta municipalista pequeno-burguesa e basicamente agrria de Herculano, mas a 
utopia proudhoniana de um princpio federalista, que se estenderia desde um largo 
campo poltico (federao livre de repblicas peninsulares) at  organizao 
econmica (federaes de associaes dos produtores). Contudo, Antero sentia-se 
discpulo do grande historiador, inclusivamente da sua lberalizao romntica do 
cristianismo, ao reivindicar, por seu turno, nas Odes, que *a Revoluo no  mais do 
que o Cristianismo do mundo

moderno+. E do mesmo modo que o Mestre participara sempre nas lutas decisivas da sua 
gerao, Antero, no apenas colabora na imprensa republicana sindicalista e publica 
opsculos de propaganda para as organizaes operrias, como, ligado a Jos Fontana, 
empregado livreiro, organiza a seco portuguesa da Associao Internacional dos 
Trabalhadores (1872) e concorre mais tarde s urnas como candidato do Partido 
Socialista, fundado em 1876.  de notar que Antero e Fontana no aderem no fundo  
linha

marxista, prevalecente na 1 Internacional entre 1872 e a sua extino em 1876, mas a

uma sua latente divergncia anarquista, de tradio proudhoniana e representada por 
Bakounine (t 1876); e ainda que, no mbito nacional, Antero se ope desde cedo, e com

veemncia, aos republicanos, que se constituem em partido em 1876.

No entanto, toda esta actividade constitua uma como violncia moral, com laivos de 
heroismo, exercida sobre um outro sentimento mais antigo e radicado de vida, ou, para 
usar terminologia sua, outro ideal de santidade. E, na verdade, quer certas 
confidncias em cartas, quer certas poesias *nocturnas+ desta mesma poca (tal o 
soneto  Virgem Santissima), quer a interpretao que de tudo far mais tarde em 
carta autobiogrfica ao seu tradutor alemo, revelam os antagonismos ntimos em que 
se debate. Acresce que a estabilizao poltica da monarquia espanhola, da 111 
Repblica francesa, da Itlia e Alemanha unificadas, as represses  Internacional, a 
instaurao em Portugal de um estril rotativismo bipartidrio aps a crise final da 
Regenerao e o malogro das primeiras greves extensas do Pas - tinham fechado 
perspectivas  linha rectilnca de aco que seguia, deixando apenas esperanas ao 
republicanismo pequeno-burgus de Tefilo, ou ao *socialismo de ctedra+ que, com o 
seu apoio, Oliveira Martins ir tentar dentro do statu quo poltico. De modo que um 
regresso, em 1873, a S. Miguel, quando, por morte do pai, lhe cabe o patrimnio dos 
Quentais, assinala o fim da face solar, entusistica, em que, sob o signo da Razo, 
se dizia:

Escuta!  a grande voz das multides!


Ergue-te, pois, soldado do futuro, E dos raios da luz do sonho puro, Sonhador faze 
espada de combate!

0 seu combate concentrar-se- na redaco de um Programa dos trabalhos para a gerao 
nova, j comeado em 187 1, que ser destrudo antes de terminado. Surge-lhe ento,

858                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

pelos comeos de 1874, uma doena minaz com cujo diagnstico e teraputica nenhum 
mdico parece ter atinado, nem mesmo Charcot, que foi consultar a Paris, doena ainda 
postumarriente discutida por uma sumidade nacional como Sousa Martins, pela 
dissertao em Medicina de Jaime Corteso, por Miller Guerra e por psicanalistas. 
Obrigado a manter-se o mais possvel deitado de costas, enfraquecido por incapacidade 
de alimentao substancial, muito irritvel, moralmente abalado pela ineficcia dos 
tratamentos a que se sujeita em Portugal e em Frana, e ainda por complicaes 
sentimentais intensas, que, alis, mal afloram  obra potica, a sua filosofia evolu 
a partir de ento num

sentido pessimista. Isso coincide alis com a ideologia europeia em voga, pondo, por 
isso mesmo, o delicado problema de determinar qual a importncia relativa na 
interaco dos factores psquicos, filosficos e histricos desta fase anteriana.

J desde 1872 se reconhecia dividido entre duas alternativas, dois factores: *Penso 
como Proudhon, Michelet, como os activos: sinto, imagino e sou como o autor da 
Imitatio Christi+. Mas a *nusea da realidade+, o *desejo do Nirvana+ bdico, ou 
seja, da autonegao pessoal, antes oculto, vai agora tornar-se predominante. Para 
dar forma filosfica a tal pessimismo, concorre a leitura de divulgadores ou exegetas 
da mstica budista, por ento em moda na cultura ocidental, e dos expositores 
franceses de Schopenhauer e, sobretudo, de E. von Hartinann. De acordo com este 
ltimo, a Ideia hegeliana (j, como atrs dissemos, interpretada atravs de Vera num 
sentido acentuadamente teolgico) transforma-se no Inconsciente, mundo de foras 
psquicas tenebrosas, indevassveis, que animaria quer a evoluo do mundo material 
quer os movimentos de cada conscincia inividual. 0 pantesmo mantm-se, mas mudando 
o sinal positivo para negativo: em vez de ser um momento dinmico da ac o vital, a 
Dor (maiusculada, como a Morte, o Tdio, a Noite, e outras entidades negras da nova 
mitologia) converte-se em nico ente supremamente real, ente que a prpria morte 
individual, a prpria extino da espcie humana no aniquilaria, a menos que, por um 
prodgio, a Natureza Inconsciente assumisse conscincia do seu mesmo mal, e se 
aniquilasse corno vontade de ser; ao ideal

do Progresso sucede, portanto, a nsia do Nirvana bdico, interpretado por Antero 
como

negao da realidade fsica; ao culto da Razo diurna e activa, o da Noite 
pacificante do No-Ser, que se identifica com o Ser absoluto; a Luz do *claro Sol, 
amigo dos heris+, transmuda-se em *smbolo da mentira universal+ ou da *universal 
traio+.

A partir de 1880, a onda pessimista est a findar, depois de tanta nfase posta numa


filosofia to dbil, quase mitolgica. A funo efectivamente exercida por essa onda 
consistiu em dar evidncia a uma realidade isolada entre to grandes destroos, a 
realidade do sentimento, que Antero desde cedo antepunha  Ideia de Hegel e  Justia 
de Proudhon, como base de uma tica de contornos sociais muito vagos. Essa realidade, 
uma vez

bem isolada, servir de ponto de partida para um novo idealismo, j no 
pronunciadamente objectivo como o de Hegel, mas de tonalidade subjectiva, como o da 
dialctica de Fichte, de resto j presente na interpretao que Vera lhe dera do 
hegelianismo. Aps duas candidaturas meramente simblicas a deputado socialista, em 
1876 e 1880, Antero, retirado em Vila do Conde numa vida de recolhimento, leitura e 
meditao, convive

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
   859

apenas, e de longe a longe, com raros amigos, sobretudo Oliveira Martins, ento 
residente no Porto. Anima este ltimo como se ele fosse um seu alter ego ainda 
empenhado na vida pblica, uma espcie de condiscpulo na actualizao de Herculano, 
mas atravs

de compromissos, pactos, transigncias que veremos e a que *o Velho+ j no poderia 
servir de paradigma.

As cartas que desde h alguns anos vinha escrevendo a Oliveira Martins constituem, de 
facto, uma documentao quase to preciosa como seria um seu dirio ntimo, acerca da 
sua trajectria espiritual: vrias vezes polemiza com o amigo para o persuadir da 
neces-

sidade histrica, pelo menos *ideal+, de uma fase de Transcendentalismo, entre 
Scrates e o Cristianismo medieval.  tambm significativo que a sua discusso se 
encaminhe sempre, quanto a isso, no sentido de valorizar essa fase transcendentalista 
desde o politesmo at ao imanentismo, entendendo este, no como subordinao 
progressiva do mundo  aco social humana, mas como afirmao da superioridade do eu 
moral sobre os deuses e a natureza. Alm da mitologia, tambm o <@naturalismo+ seria, 
como forma histrica de mentalidade, anterior, inferior, portanto, ao idealismo 
subjectivo. Deste modo, atravs da sua fase pessimista, cujo carcter transitrio e 
instrumental sempre vincou mais tarde,  efectivamente o materialismo, quer dizer, a 
tese do primado da realidade objectivvel sobre a conscincia humana (ou outra), 
aquilo que, sob a designao de *naturalismo+, constitui o verdadeiro alvo da sua 
ofensiva principal. Na arena ideolgica mais prxima, a dos modestos doutrinrios 
portugueses, o adversrio imediato era, porm, o positivismo, que, apesar da sua 
neutralidade quanto  questo de saber se o espiritual resulta da transformao do 
material ou vice-versa, se aparentava com o *naturalismo+ em valorizar as conquistas 
materiais do progresso, em encarecer o ponto de vista sociolgico, e, no nosso pas, 
em se ligar corri um amplo movimento pequeno-burgus: a propaganda republicana.

De facto, nas cartas a Oliveira Martins, e noutras, a admirao por Herculano  to 
insistente como o desprezo por Tefilo Braga (personagem alis de muito menor 
finura), desprezo que abrange a movimentao do Partido Republicano, nomeadamente, em 
1880, pelas Comemoraes Camonianas, expresso eficaz da autoconflana e capacidade 
organizadora dos republicanos. Nestas condies, Antero arrirna-se  combatividade de 
Oliveira Martins para no deixar soobrar aquele mnimo de interesse pela coisa 
pblica que era necessrio  estrutura do seu car cter; e a extraordinria lucidez 
com que v os

perigos  espreita desse carcter revela que a luta entre os dois Anteros continua, 
embora travando-se num terreno da retaguarda, o da sua simples auto-sinceridade.


Mesmo em Maio de 1874, pela altura erri que, com a doena, se iniciava a fase do

pessimismo filosfico, j Antero reconhecia a sua prpria diviso interna, a 
*barreira

intransponvel entre a inteno e a deliberao+, e se confessava devedor ao amigo 
pelo senso que mantinha dos problemas humanos: *Chamou-me  realidade viva, 
humanamente natural, de que por um insensvel e contnuo desvio o meu temperamento 
mstico tende sempre a afastar-se, em no havendo influncias externas que me chamem 
 razo - e V.

860                                                 HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

e para mim essa razo... como direi, a boa razo, numa palavra, positiva, real, 
justa+; de outro modo a solido lev-lo-ia para *uma vida ensimesmada, toda interior 
e subjectiva, e por a exclusiva e viciosa, levando ao esquecimento da razo positiva 
e do prprio bom senso, apagado num nevoeiro de abstraco e sonho, onde h perigo de 
naufragar, juntamente com a vontade e amor das coisas naturais, a prpria dignidade 
do homern+. E quando j namorava o budismo e tendia para o *misticismo+ (Julho de 
1873), ainda reconhecia: *0 absoluto, para estar racionalmente na vida humana, deve 
ser praticado e no contemplado: quero dizer que, em vez de nos imobilizarmos no 
esforo contraditrio de realizarmos em ns o absoluto (que no tem realidade), o que 
devemos  praticar a vida como quem sabe que cada acto e momento dela  um acto e 
momento do absoluto>@.

Esta lucidez em pouco mais se traduz, efectivamente, do que em exortaes ao amigo, 
de quem se contentar com ser a *testemunha consolada+, quando muito o filsofo 
tutelar. No captulo seguinte veremos em que consistiu a carrreira pblica de 
Oliveira Martins. Basta, por agora, notar que essa carreira evolui no sentido de uma 
cada vez menor confiana em camadas populares, abandonando primeiro o apoio das 
organizaes operrias pela manobra poltica junto dos dois partidos monrquicos 
*rotativistas+, e aban-

donando mais tarde o jogo parlamentar e partidrio por uma manobra de influncia 
pessoal junto do futuro rei D. Carlos, atravs do grupo meio literrio meio ulico e 
dandy dos Vencidos da Vida, em que Antero participou, ao lado de Ea, Ramalho e 
Junqueiro.
0 Ultimato de 1890, precedido de pouco pelo incio do novo reinado e logo seguido de 
uma grave crise econmica e financeira com que Oliveira Martins contava, de longe, 
como ensejo para fazer vingar no poder o seu programa de reformas, traz o desengano a 
tais esperanas, aparentemente to realistas nas suas transigncias tcticas: 
Oliveira Martins previa agora uma ditadura de apoio rgio (cesarismo) e uma 
desapiedada colonizao angolana justficada em termos de uma espcie de darwinismo 
racial ariano. Mas Antero no chegou a conhecer em toda a extenso o desengano do 
amigo.

No seu retiro, onde se entregava  educao de duas rfs de um antigo companheiro de 
Coimbra, Germano Meireles,  leitura e a um esforo meditativo destinado a equilibrar 
num sistema filosfico as solicitaes ainda em luta no seu esprito - nesse retiro

acede ainda a presidir  Liga Patritica do Norte, resultante da vasta comoo 
patritica desencadeada pelo Ultimato e empenhada em refazer toda a vida portuguesa 
na base de

um concerto de boas vontades progressivas. No entanto, talvez desgostado com o maior


dinamismo revelado no movimento pelos republicanos, demite-se, apressando a dissolu-

o da Liga, e cai no seu mais desesperado pessimismo nacional.

Decide em seguida regressar a S. Miguel, para que as suas educandas, terminados os 
estudos escolares, possam conviver em famlia com outras pessoas, alm de um 
inexperiente tutor celibatrio. Mas desencadeiani-se incompatibilidades caseiras e, 
corri elas, com toda uma srie de factores imponderveis, agrava-se de sbito o mal-
estar fsico e psquico. Mata-se em 11 de Setenibro de 189 1. Era a falncia, como 
armadura moral, da to apregoada doutrina *mstica+, exposta pouco antes para a 
Revista de Portugal dir-

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
    861

gida por Ea de Queirs, naquilo que passaria a ser o seu testamento filosfico: o 
ensaio

de interpretao e crtica s Tendncias gerais da filosofia na segunda metade do 
sc. XIX. A estrutura ideolgica deste ensaio tem uma grande importncia para a 
histria da

cultura portuguesa, porque, apesar de combinar, sem extraordinria originalidade, 
inspiraes bem reconhecveis da filosofia europeia desde Leibniz aos neokantianos, 
constitui a mais reflectida expresso de uma crise que se abria, e que no pde ser 
vencida

ao nvel daquela experincia que se encetou na fase ascendente da Gerao de 70. No 
terreno especificamente literrio, poderiam apontar-se em toda a fico contempornea 
e posterior a esse ensaio as mesmas contradies irresolvidas que nele se acusam.

A maneira como Antero formula os problemas centrais que considera como seus e

da sua poca  ainda, em certo sentido, hegeliana. -o, em primeiro lugar, porque 
(pelo menos no incio do ensaio) no pretende que a sua formulao seja definitiva e 
intemporalmente vlida; em segundo lugar, porque procura sobretudo determinar as 
contradi-

es doutrinrias bsicas da sua poca (as teses e as antteses), a fim de as superar 
numa sntese que servisse para o seu governo.

Segundo Antero, a tese ideolgica, o ponto de partida reflexivo da sua poca, seria 
aquilo que designa, no correr da sua larga epistolografia, como naturalismo 
cientfico

(incluindo, como caso especial, e no de todo consequente, o positivismo). As 
caractersticas desse naturalismo, desse pensar cientista, seriam o mecanismo 
(explicao do superior, nomeadamente o fenmeno psquico, pelo inferior, 
nomeadamente as foras e massas mecnicas), o determinismo (causalidade necessria e 
exterior a cada fenmeno) e o evolucionsmo (no sentido spenceriano do termo: a 
passagem do simples ao complexo, a constante complicao dos fenmenos por acumulao 
diversificante). Este, em

resumo, o *glido fatalismo soprado pela cincia sobre o corao do hornem+, esta a 
viso puramente cientfica do universo, *que nada nos diz ao corao+. Como pode ver-
se, Antero responsabiliza a cincia sua contempornea por um materialismo que poderia 
ser sugerido pela fsica newtoniana mas que j ento se superara, quer reconhecendo, 
no apenas graus de complicaes quantitativas, mas tambm umacada vez maior e mais 
cambiante


diversidade de fenmenos com leis prprias e s integrveis dentro de uma gnese 
geral (fenmenos fsicos, qumicos, biolgicos, psquicos, sociais, como 
classificao sumria); quer, por isso mesmo, plasticizando o conceito-limite e 
filosfico de matria (que j tanto abrangia massa mecnica, como molcula qumica, 
campo electromagntico, organizao fisiolgica, por exemplo).

A tal naturalismo, ou materialismo metafsico, ope Antero, como anttese, o *facto 
ntimo+, experimental e irredutvel da conscincia espiritual, cuja caracterstica 
seria a

espontaneidade ou fora autnoma (causalidade intrnseca, e no externa, a 
autodeterminao, o causar-se a si mesma, o existir em si e por si). Uma vez 
postulado o carcter

inerte da matria, isto , a sua condio de submetida a uma e a mesma lei para todo 
o sempre, e, opostamente, postulada a espontaneidade ou autogerao absoluta da fora 
espiritual, a contradio parece irredutvel; mas  ento que Antero faz intervir, 
como

862                                                 HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

sntese, um novo postulado, o de que a conscincia, o esprito, constituiria a fora-
tipo, o modelo mais definido desde o qual poderia explicar-se a prpria natureza 
material. A natureza seria, afinal, no inerte, mas autodeterminadora, causa sui, no 
todo, e, por grau nfimo que fosse, nas suas partes supostamente mecnicas: o sujeito 
seria o paradigma explcativo do objecto, o inferior no passaria de o superior sob 
forma incipiente. Antero conhecia j crticas, de A. A. Cournot e E. Boutroux, ao 
determinismo da previsibilidade absoluta de Laplace; mas no encara agora as leis 
cientficas (mesmo contingentes) como meios de disponibilidade, ou liberdade humana, 
 maneira da tradio progressista dialctica da sua juventude - e sim como iluses a 
que sobrepe a evidncia psquica de outra lei: a lei moral.

0 ncleo desta filosofia *dinamista+ remonta, na verdade, a Leilmiz, que a opusera ao 
mecanismo cartesiano do seu tempo. Fichte enxertara-a no hegelianismo, e Antero

j a bebera tendencialmente em Vera e em Rniusat, durante a fase combativa. Mas 
vinha agora acomodar-se melhor  sua integrao afectiva no mundo contemporneo 
portugus, e reforar-se pela leitura de expositores como Dsir Nolen, e Friedrich 
Lange, o primeiro empenhado em reduzir Karit ao espiritualismo leibnizano, e o 
segundo em contestar todas as formas historicamente conhecidas de materialismo,  
base das crticas de Karit. Com efeito, Antero associa o espiritualismo s correntes 
neokantistas da sua poca, porque assim encontra vazo para uma das suas mais 
constantes tendncias, a de salvaguardar a eternidade e santidade herculaniana, 
proudhoniana, da lei moral. 0 determinismo, a passividade da natureza seria uma 
iluso fenomnica, atravs da qual irrompia o imperativo categrico do Dever, como 
testemunho, nico, mas irrefutvel, de um livre arbtrio, uma espontaneidade, uma 
autocriao - a autocriao de um eu absoluto (em linguagem de Fichte-Vera), eu 
ltimo de todos os cus, eu simultaneamente causa e fim ltimos, que cada um de ns 
poderia atingir pela prtica do dever e pela comunho mstica afectiva do Amor ou Bem 
Supremo, absoluto da santidade, centro unitivo, plenitude do Ser e dos seres, que no 
conhece morte e que, portanto, s por ingenuidade egosta ou santidade imperfeita se 
adiaria post mortem, corno faz o cristianismo vulgar.

No cumpre discutir aqui tal filosofia, que este resumo empobrece, mas salientar 
apenas o que mais importa  ideologia literariamente dominante de ento para c.

Antero e a prosa doutrinal do seu tempo


Alm de poeta, Antero foi o nosso pensador especulativo do sc. XIX mais dotado de 
qualidades expositivas; ele prprio se reconhecia com o dom da prosa, o dom de 
subsumir num movimento de largo flego e de sbria mas persuasiva dignidade todo o 
conjunto de razes e contra-raz es enoveladas num problema geral. Pelo tom austero 
de moralista, pela seriedade que no quebra nunca, o seu estilo  ainda, mesmo na 
epistolografia conhecida, o de um orador romntico, mas com a plasticidade capaz de, 
sobre-

6. @ POCA - 0 ROMANTISMO                                                         863

tudo nas cartas, transformarem inovao rtmica, em incidente vivificador do 
discurso, uma hesitao no termo prprio, uma oportuna citao latina ou de lngua 
estrangeira, um tropeo emotivo, uma busca de soluo ao discorrer encetado. Esta 
qualidade oratria, com os seus perodos amplos sem

prolixidade, deriva talvez um pouco de Herculano, mas elimina a afectao visionria 
e proftica do precursor; a prosa anteriana pode, neste particular, apontar-se como 
um modelo, entre ns excepcional, de indiferena pela sugesto iniaginfica ou 
humoral, de ateno, e mais que ateno, de amor pelos problemas como problemas. 
Quaisquer que sejam os seus erros ou ambiguidades, aprende-se, efectivamente, com a 
sua prosa a dignificar..o exerccio superior da razo.

Em contraste com Garrett, Ea ou Ramalho, o discurso de Antero ignora as subtilezas 
alusivas da ironia, recurso de imaginativos que no quadrava aos seus ideais, 
insatisfeitos, de personalidade que se quer racional e praticamente inteiria; em 
contraste com Oliveira Martins, falta-lhe o poder de improvisao esquematizadora, a 
asshiijlao imediata de uma nova concepo histrica ou sociolgica aos casos 
nacionais concretos, mas sobra-lhe preciso, busca de coerncia e uma disciplina que 
(em prosa) no confunde ideias com alegorias ou personificaes. Os testemunhos do In 
Memoriam que coincidem em apontar o seu escrpulo autocrtico, o impulso imperioso de 
proclamar um erro prprio, verificam-se, por exemplo, considerando o rpido progresso 
que vai da iconoclastia ainda irreflectida, por vezes, do folheto Bom Senso e Bom 
Gosto, com as suas oposies simplificadoras, o seu exibicionismo de nomes, at ao 
folheto sobre A Dignidade das Letras, posterior de poucos meses, manifesto sbrio e 
amadurecido de uma literatura portuguesa que se quer realista e se responsabiliza 
pelos destinos de um povo.

Sob o ponto de vista doutrinrio, alm de conceber uma nova responsabilizao social 
do escritor e de repensar a histria dando-lhe um novo sentido programtico  luz das 
melhores esperanas europeias de 1865-74, Antero assimilou a dialctica hegeliana, o 
humanitarismo francs e outras correntes do seu tempo, e, quaisquer que sejam as suas 
inconsistncias, fez a melhor crtica nacional ao positivismo que, por volta de 1880, 
e at bem entrado o sculo XX, se tornou a corrente dominante da nossa opinio 
filosfica.

Com efeito, o positivismo, mais ou menos ligado a tendncias materialistas 
mecanistas, evolucionistas (ou, mais vagamente, monistas), vindas, quer de Cornte e 
seus discpulos Littr, Herbert Spencer, quer do empirista Stuart MilI, quer dos 
monistas Hace-

864                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

kel e Buecliner, inspirou homens de prestgio, como Tefilo Braga, j o vimos, Emdio 
Garcia (1838-1904), Jlio de Matos (1856-1922), Teixeira Bastos (1857-1902); forneceu 
critrios de aco poltica republicana, transvazou para o verso, tendia quase a 
constituir-se numa espcie de religio laica em Portugal e no Brasil. Claro que a 
crtica anteriana apresenta algumas feies histricas discutveis. Sob esse aspecto, 
pode, dentro de um mbito nacional, situar-se na linha de uma reaco anti-iluminista 
de que se

descortinaram antecedentes em Herculano e, sob aspectos mais restritamente 
doutrinrios, em Silvestre Pinheiro Ferreira (1769-1846). Este  ltimo prolonga por 
incios do sc. XIX o eclectismo dos Oratorianos entre Aristteles e Locke, e da 
chega ao espiritualismo, tambm no fundo eclctico, de Leibniz, depois redescoberto 
por Antero.

 de notar a coincidente inspirao tambm leibniziana de Pedro de Amorim Viana 
(1823-1910), lente da Escola Politcnica do Porto, que se debruou igualmente sobre 
Proudhon e sobre a crtica bblica, de modo mais percuciente embora menos elegante do 
que Antero, e cuja Defesa da f ou anlise do racionalismo (1866) desenvolve as 
premissas inetafisicas do seu mestre seiscentista em sentidos vrias vezes 
convergentes com

os de Antero: conciliao do determinismo com o finalismo moral, repdio do 
sobrenaturalismo (embora declarando-se catlico). 0 seu esforo de racionalizar a 
religio e de a adequar ao progresso cientfico e social conduziu-o, em 1852, a uma 
curiosa polmica com Camilo Castelo Branco, cujas posteriores tendncias destas j, 
alis, conhecemos.

Contra o positivismo e tambm contra o racionalismo leibniziano, nomeadamente na 
exposio de Amorim Viana, reage mais tarde o polgrafo portuense Jos Pereira 
Sampaio (1857-1915), mais conhecido por Sampaio Bruno, republicano conspirador do 31 
de Janeiro, cujos mritos principais so os de uma curiosidade infatigvel, uma vasta 
informao (conquanto de um autodidactismo prolixo), uma grande finura na dilucida 
o de certos pontos concretos, incluindo, como j vimos, de teoria e crtica 
literria. Uma corrente posterior, tendente a propugnar a especificidade de uma 
*filosofia portuguesa+, faz de Sampaio Bruno um dos seus luminares; mas, sob o ponto 
de vista filosfico, o que o caracteriza, depois de em 0 Brasil Mental (1898) ter 
voltado as suas baterias contra o positivismo, tambm muito radicado em terra 
brasileira e com que ele prprio tivera afinidades,  uma espcie de metafsica-mito 
de um Progresso inspirado por ema-

naes da Divindade, tida como imperfeita (depois da Criao), mas emanaes 
exercidas sob a forma de concepes cientificamente racionais, avessa aos 
sebastianismos tradicionais portugueses e a outros messianismos (A Ideia de Deus, 
1902; 0 Encoberto,
1904). Esta metafisica, que tem aspectos heterogneos (incluindo positivistas 
cointianos,

como a rejeio do clculo das probabilidades), atribui uma funo  dor e ao mal 
(concebido alis dialecticamente, como motor do progresso), ideia tambm insistente 
nas elucubraes literrias de Junqueiro, Pascoais, Raul Brando, Pessoa e de muitos 
outros escritores de incio do sc. XX. 0 seu principal ponto de partida  o da f 
cientfico-racional de Amorim Viria, a quem essencialmente critica o no-
reconhecimento da realidade do mal, que  para Bruno a evidncia da imperfeio de 
Deus, de uma sua incompletude que o progresso humano estava destinado a suprir.

6. - POCA - 0 ROMANTISMO                                                          
865

Na crtica do positivismo, cujos principais representantes nomemos, devem ainda 
mencionar-se, embora j no importem  fico literria, Jos Maria da Cunha Seixas 
(1836-1895): A Fnix, 1870), Sena Freitas (1840-1913: A Doutrina Positivista, 1875), 
Domingos Tarroso (n. 1860: Filosofia da Existncia, 1881), Manuel de Ferreira 
Deusdado (1860-1918: Ensaios de Filosofia Actual, 1888) e o franciscanista Jaime de 
Magalhes Lima (1859-1936).

Obra potica de Antero. A juvenflia

Para bom estudo temtico e estilstico da poesia anteriana, convir, pondo de parte a 
complicada histria da sua arrumao em volumes (que pode ver-

-se adiante resumida em bibliografia), fazer-se a seguinte tripartio: 1) aquilo que 
designaremos como a sua juvenflia (fundamentalmente: Primaveras Romnticas e Raios de 
Extinta Luz); 2) as Odes Modernas (quer na edio de 1865, quer na j refundida de 
1875); 3) os Sonetos, considerados  parte.

As poesias escritas at 1864 (com excluso das Odes) e que figuram, entre outras 
posteriores mas afins, quer na primeira edio dos Sonetos, 1861, quer nas Primaveras 
Romnticas, 1875, quer na terceira edio, a mais

ampliada, de Raios de Extinta Luz, 1948, revelam, ao longo do tempo, um rpido 
processo evolutivo, de que j vimos os lineamentos gerais, e, a um

corte transversal ou sincrnico situado  volta de 1864, uma grande multiplicidade de 
tendncias e gostos, alis concordante com a diversidade dos

depoimentos sobre o Antero coimbro, prestados no In Memoriam pelos ex-

-companheiros de Coimbra, mesmo que nesses se desconte uma dose maior

ou menor de romanceao pessoal.

Uma das caractersticas distintivas do conjunto desta juvenilia  a rela-

tiva importncia dos temas amorosos, que nas fases adultas da sua obra se

tornam secundrios ou, antes, se perdem no meio de outros, reduzindo-se a anseios ou 
desiluses em torno das alegorias maiusculadas do Amor e da

Mulher. 0 amor da poesia anteriana jovem evolui de um anelo espiritualizado  
Lamartine ou Joo de Deus (mestre que neste ponto alcana, por vezes, em simplicidade 
e pureza) para uma harmonia afectiva mais rica, onde cer-

tos discretos apelos carnais, a meditao filosfica da prpria ansiedade amo-

rosa, e (em Peppa, sobretudo) um misto de pompa salomnica e de ironia

lrica, at de sarcasmo,  Heine, emergem  tona de resduos garrettianos, 
herculanianos e ultra-romnticos.

866                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Este enriquecimento de planos ou modulaes afectivas no chega a arran-

car a ertica anteriana ao Romantismo sentimental, embora lhe confira incontestvel 
originalidade. Intensa e  s vezes dramaticamente apaixonvel, ao

que nos revelam os amigos, Antero no sente ainda, como lrico, uma plena humanidade 
feminina: angeliza, infantiliza ou maternaliza sempre a mulher.

V-a frequentemente, mesmo mais tarde, e logo nos primeiros poemas publicados, como a 
Beatrice dantesca, Eterno Feminino espiritualizador das inapaziguveis, fusticas 
ansiedades do homem que ; e o soneto  Virgem Santssima, que neste sentido lembra 
muito o papel da Virgem no desfecho do Fausto de Goethe, d forma acabada ao 
neoplatonismo ertico de Cames, postulando uma como que essncia feminil a servir de 
medianeira entre o humano e o divino. Em mais que uma poesia chegam a fundir-se a 
imagem maternal, acalentadora, e a imagem pueril, *pequenina+, da feminilidade em

boto, numa sntese original e estranha, no porque se afaste muito da concepo 
idealizada do amor entre os nossos romnticos, mas porque lhe falta a hipocrisia de 
uma sensualidade disfarada, e o que nela se sente , ou certa iconoclastia ertico-
religiosa, ou o toque sincero de um objecto amoroso inatingvel pelo desejo corrente:

S, flor, meu universo, Criana, a minha me.

Comparada  poesia da maturidade, a da juventude de Antero deixa-nos a impresso de 
uma encruzilhada de muitos caminhos, todos aparentemente praticveis pelos seus dons, 
e entre os quais se veio a fazer uma opo, mais

do que sntese. Com efeito, Raios de Extinta Luz e Primaveras Romnticas contm, alm 
da ertica j referida, composies de um nlismo blasfemo; uma cosmogonia de 
inspirao bblica (Fiat Lux); uma imitao em que se

detecta o baudelairismo do *aroma irritante e acre do vcio+, precursor da 
contrafaco, em 1869, de um poeta *satnico+, Carlos Fradique Mendes, na qual 
participou com Ea e Batalha Reis; quadras para baladas coimbrs; poesias sobre o 
tema da transmigrao, ligada  matria, da alma ou sensibilidade dos mortos, que 
dominar as Prosas Brbaras de Ea e muito da obra de Gomes Leal; umas Saudades 
Pags, longo poema sobre o tema pantesta, originariamente romntico alemo, do 
exilio dos deuses, depois inesistente na sua obra e sobretudo na de Ea; a fantasia 
algo pr-simbolista de Limoeiro Verde; e o soneto de impressionante desalento 
Despondency, datado, alis, de um dos anos de maior combatividade (1864).

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                    867

ANTERO: As Odes Modernas

Se excluirmos uma ou outra composio inserta nas coleces atrs ver-

sadas e alguns sonetos, podemos considerar as Odes Modernas como de um gnero ou de 
uma inspirao completamente  parte. J, a propsito da Questo Coimb,r e da 
biografia espiritual de Antero, apontmos o que h de inovador na sua informao 
doutrinria. De resto, em Nota  primeira edio, o autor indica o seu alvo, numa 
linguagem que ecoa, sem dvida, Proudhon. A seu ver, *a Poesia  a confisso sincera 
do pensamento mais ntimo de uma idade+, e, portanto, dadas as condies vigentes, *a 
Poesia moderna

 a voz da Revoluo+. E uma vez que o Progresso atingia todas as manifes-

taes humanas, Antero afirma, intemerato: *Esta voz, se  a mais alta, deve ser 
tambm a mais potica+. Lido  distncia de trs ou quatro geraes, e sobretudo em 
ambiente que no esteja em sintonia como os seus ideais, o livro correspondente a 
este ambicioso proudhonismo choca pela temeridade de ignorar que os ritmos do 
progresso nas mltiplas linhas da histria humana raro sincronizam; de resto, noutros 
textos, tanto de 1865 como dos anos 80, Antero liga o progresso da cincia e da 
Justia a uma pretensa e iminente superao da msica e da poesia. A sua 
personalidade constitui j um exemplo vivo das desconexes verificveis entre o 
pensar e o sentir, ou

melhor, entre o pensar potico, o pensar prtico e o pensar doutrinrio.

A impresso de envelhecimento que as Odes hoje nos causam resulta, em parte, de as 
apreciarmos sob um critrio de leitura muda e individual, que no corresponde  sua 
inspirao e destino. Deveramos imagin-las declamadas a um pblico receptivo e 
largo, capaz de vibrao imediata ao ouvir exaltar Garibaldi e estigmatizar o 
farisasmo burgus, a chacina dos polacos pelas foras do Tsar, dos irlandeses pelos 
latifundirios britnicos, dos *Communards+ pelas tropas de Versalhes que haviam 
trado a Frana, etc.. Fora de um tal ambiente dramtico de declamao, o que melhor 
se nos comu-

nica  o ntimo drama representado pelo poeta e que encontra na srie de sonetos A 
Ideia e ainda no soneto isolado Mais Luz! alguns dos tons mais justos. 0 conflito 
desenrola-se entre dois apelos diferentes daquela mesma

devoo inteira, superadora da individualidade imediata e aburguesada, que Antero 
sentiu sempre como apelos de santidade: a santidade tradicional, voltada para a 
transcendncia ao humano, e uma santidade nova, revolucionria, constantemente unida 
no poeta aos smbolos ou emblemas da Razo, da Luz,

868                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

do Sol.  sobretudo no soneto IV de A Ideia que Antero faz crepitar mais alto a chama 
herica de uma Ideia imanente aos homens, vibrando ainda de ter rompido com o 
transcendentalismo donde partira, e antes de percorrer, na mesma srie, a estirada 
alegoria em que faz noivar o esprito humano com a Ideia, num *l+ no se sabe onde, 
um *l+, que depois se converte

em *c+, o *cu incorruptvel da conscincia+.

Sob inspirao das cincias genticas, das snteses histricas de Michelet, das 
utopias de Proudhon e do modelo potico da Lgende des SiMes de Hugo, cuja. presena 
 bem palpvel, as Odes traam os tpicos de uma

epopeia do cosmos e da humanidade. Outros moos coimbros do tempo tentaram 
empreendimento semelhante, entre eles Tefilo Braga com a Viso

dos Tempos, que se no cansou de ampliar pela vida fora, e o prprio Ea de Queirs, 
de cujas projectadas Memrias de um tomo ainda ficou um

largo rasto nas Prosas Brbaras. A tentativa ressente-se de um iderio que no pde 
ser vivido at quelas mincias quotidianas, at queles recessos

despercebidos que, num simples trao inintencional, na mais simples evoca-

o de certo uso vocabular, criam a prpria carne de um poema. Alm disso, mesmo na 
segunda edio refundida, certas repeties negligentes de metforas e giros 
frsicos, certa monotonia mecnica das mesmas sries semnticas de palavras, certa 
frouxido mental deixam-nos um gosto de improviso e de imaturidade.

Por outro lado, fica-se judicativamente perplexo perante uma caracte-

rstica, alis no puramente anteriana, pois vem de Michelet, de Hugo, de Proudhon, 
do utopismo romntico: o uso metafrico de smbolos religiosos consagrados, que tanto 
sugere a polmica, a tenso de um rasgar de horizontes, como o meio-termo, o pouco 
imaginativo ou tmido recurso a odres

velhos para o vinho novo. Disso resulta um sabor a mistura discorde, um senso de 
hibridao infecunda.

Esta tenso e este meio-termo assumem um significado mais denso, se

relacionarmos as Odes, e a sua informao cultural estrangeira, com a herana de 
Herculano. Com efeito, n o se podem ler as Odes sem se sentir o jeito de visionar a 
histria como uma procisso de grandes catstrofes civilizacionais, um desabar 
sucessivo de *tronos, religies, imprios, usos+; simplesmente, o Eterno deixou de 
ser o Deus bblico, para se converter em Ideia, ante a qual, sem excepo, todos os 
*deuses cambaleiam+. As Odes soam,

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                      869

em grande parte, como despedida ao romantismo herculaniano do Passado, *larva 
macilenta+,  *poesia de runas+, *s saudades, que vm, como soluos/Do fundo da 
Histria!+. Mas a grandiloquncia mantm-se e com ela um moralismo, afinal j em 
Herculano contraditoriamente anistrico, e agora transferido  Justiarevolucionria 
de Proudhon; a palavra-chave desta transferncia  o epteto de santo, atribudo aos 
smbolos do novo iderio; e a santificao opera-se estilisticamente por alegorias 
formulares ou oposies do gnero missa nova da Liberdade, Evangelho Novo da 
Igualdade, rgo colossal da Revoluo, plpito imanente do peito humano, a cpula da 
igreja oposta  do cu infinito, o crio do altar oposto ao sol; isto sem falar nos 
ttulos latinos e nas insinuaes de religiosidade naturalista e anticierical que 
ressumam de determinaes, alis to vagas e at contraditrias, como as de *estola+, 
*estrada+, *estrada+ e at *orla+ (sic) do Infinito espacial.

ANTERO: OS Sonetos

 nos Sonetos que encontramos o melhor conjunto da obra potica ama-

durecida de Antero. Deve-se, como sabemos, a Joo de Deus a reabilitao dessa forma 
clssica, *a forma l rica por excelncia+ no juzo anteriano, molde disciplinador 
que o primeiro Romantismo desprezara e que se tornaria predilecta de Antero de 
Quental. H nisto uma espcie de novo classicismo, de uma nova discursividade 
relacionante, demasiado abstracta mas ritmicamente sugestiva, a que no faltam, como 
sinais de uma tradio rediviva, certos traos camonianos, por exemplo, a concepo 
dialctica da realidade e at parfrases de versos (*Que sempre o mal pior  ter 
nascido+; *Mas passar entre turbas solitrio+), e bocagianos, como certas alegorias, 
frequentemente maiusculadas, e a obsesso da morte.

0 poeta via na srie completa dos Sonetos, muitos deles desentranhados de outras 
coleces j publicadas, um conjunto de marcos da sua prpria autobiografia 
espiritual. Oliveira Martins, no prefcio para a edio dos Sonetos Completos, 
dividiu-os em cinco fases. A primeira fase, de 1860-62, que vai portanto at aos 
vinte anos do autor, representa o drama do romper com

a sua f infantil e de uma insatisfao que transborda por sobre os limites das 
crenas, do amor e da vida vivida. A segunda fase, 1862-66, constituda sobretudo 
pelos sonetos extrados das Primaveras Romnticas, regista a primeira das suas 
grandes crises sentimentais e o abatimento da frustrao; sem

870                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

o testemunho das outras poesias deste perodo, ficaramos desconhecendo o largo 
sincretismo das suas tendncias juvenis. A terceira fase (melhor se

diria o terceiro ciclo, visto que intersecta o perodo anteriormente indicado) est 
compreendida entre 1866-74, correspondendo ao decnio de empenhamento combativo:  a 
fase solar, de hino  razo, onde se incluem produes extractadas das Odes, algumas 
das quais referimos. A quarta fase,
1874-80, documenta o reinado do pessimismo informado pela metafisica de K. R. E. von 
Hartmann. Por fim, a quinta e derradeira fase seria a da recon~ ciliao mstica.

No devemos tomar inteiramente  letra a arrumao cronolgica feita por Oliveira 
Martins, apesar de sancionada pelo autor, pois as investigaes pacientes de Bruno 
Carreiro, corroborando anlises de Joaquim de Carvalho, revelam que os sonetos  
Virgem Santssima e Na Mo de Deus esto deslocados: o primeiro  de 1872 e o segundo 
de 1882, o que muito importa para a compreenso da trajectria mental de Antero, 
visto que a sua ordem exacta confirma a interpretao, proposta por Antnio Srgio, 
de uma permanente coexistncia de dois Anteros.

0 gosto literrio prevalecente nos ltimos decnios tornou-se mais severo em relao 
ao soneto anteriano, anteriormente mais reverenciado do que efectivamente 
compreendido. E, na verdade, comparando Antero a Gomes Leal, que, de resto, o 
continua quanto  veia revolucionria, e mesmo ao Ea de Queirs de certas evocaes, 
onde se pode ver autntica poesia nalguns ritmos livres de prosa aparente, sente-se-
lhe o vazio de imagens, flagrantes da experincia mais imediata, e faltam-lhe 
cambiantes humorais - qualidades tolhidas por uma ateno mais firme ao travejamento 
conceptual, e sobretudo por um fundo, algo inflexvel, de exemplaridade moral, que 
tambm lhe no permitiu aceitar o realismo de 0 Crime do Padre Amaro (na primeira 
verso), nem assimilar seno uma caricatura de Baudelaire.

0 alegorismo ainda bocagiano (e, para alm disso, renascentista), que j mencionmos 
a propsito das personificaes maiusculadas, alarga-se a

toda a estrutura de um soneto como Tormento do Ideal, 0 Palcio da Ventura, Hino  
Razo, Mors-Amor e muitos outros, acentuando-se frequentemente o artifcio do 
processo com o dilogo e a apstrofe. 0 cunho classicizante da adjectivao ressalta 
do que tem de insensorial, de alatinado ou

quinhentista (mesto, glido, rudo) e da melopeia dos seus emparelhamentos (largo e 
fundo, plido e triste).

6. - POCA - 0 ROMANTISMO                                                          
871

Mas se  verdade que Antero no soube transmutar-se todo em expresso literria, se  
verdade que as suas obras poticas mais no exprimem que um nvel de conscincia 
filosfica sobre uma tonalidade emotiva expressa em termos muito vagos e genricos, 
ele no deixa de elevar-nos a um dos

cumes da nossa poesia, se inscrevermos os poemas no largo contexto que sobretudo se 
evidencia pela sua extensa e mpar epistolografia. Os Sonetos merecem a melhor 
ateno. Apesar da rima pobre, a partitura dos timbres, das articulaes e dos ritmos 
frsicos compensa sobejamente uma visuali-

dade ausente, ou, por melhor dizer, pardacenta e nebulosa, cingindo, ora

o entusiasmo libertador do homem sobre a terra

Ergue-te, ento, na majestade estica De uma vontade solitria e altiva, Num esforo 
supremo de alma herica; Faze um templo dos muros da cadeia, Prendendo a imensidade 
eterna e viva

No crculo da luz da tua Ideia!

ora a ansiedade incontvel em quaisquer limites e cuja respirao se sente

em versos como

 lei de Deus este aspirar imenso (A Santos Valente) Amar! mas de um amor que tenha 
vida... (Amor Vivo) Nuvem, sonho impalpvel do desejo... (Ideal) E deixa-me sonhar a 
vida inteira... ( Virgem Santssima)

 preciso atentar na larga construo rtmica de alguns dos sonetos, para compreender 
o que neles h de perturbantemente comunicativo, apesar da falta de originalidade sob 
o ponto de vista vocabular, estilstico ou das ima-

gens. Mesmo o que possa parecer j murcho nos Sonetos no impede, nos

melhores, uma fluidez capaz de colar-se a certos estados de alma nevoen-

tos, fugazes ou desenganados. Repara-se, quanto a isso, na expressividade dos artigos 
indefinidos em  Virgem Santissima, no soluante abandono de Despondency, que acaba 
rasgado em reticncias, e at no partido rtmico admirvel que o poeta extrai desse 
recurso to clssico que  o hiprbato a alterar com a ordem frsica directa, em, por 
exemplo, A Santos Valente.

A influncia dos Sonetos  muito sensvel em muitos poetas do primeiro quartel do 
sc. XX, que preferem essa forma mtrica prestigiada por Antero.

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1. Textos

Sonetos de Antero, Coimbra, 1861. Colecco de 21 sonetos e um prlogo A Joo de Deus. 
16 destes sonetos foram depois incorporados nos Sonetos Completos indicados adiante, 
e os restantes nos Raios de Extinta Luz. H outra ed. de 188 1, Porto.

Beatrice, Coimbra, 1863. Poemeto em dois cantos, tendo o primeiro sido incorporado 
nas Primaveras Romnticas e o segundo nos Raios de Extinta Luz.

Odes Modernas, Coimbra, 1865, 2. ed. *definitiva+, Porto, 1875. A 2. ed. apresenta 
composies inditas e omisses relativamente  1., sendo um dos textos omitidos a 
Nota sobre a misso revolucionria da poesia. A 4. ed., Coimbra, Imprensa da 
Universidade, 1926, reproduz a 2. >, mas inclui os textos da 1. > naquela eliminadas, 
e

ainda as variantes dos versos alteradas pelo autor. Ed. com pref. de Antnio Srgio, 
Lisboa, 1952; Ed. Ulmeiro, pref. de Nuno Jdice, 1984.

Primaveras Romnticas. Versos dos vinte anos (1861- 1864), Porto, 187 5; 2. > ed., 
Coimbra, 1922; Lisboa, 1943, com pref. e notas de A. Srgio; reed. Ulmeiro, 1983; 
Lello,
1984.

Sonetos, Porto, 1881. Contm 28 sonetos, todos includos nos Sonetos Completos. Os 
Sonetos Completos de Antero de Quental, publicados por J. P. Oliveira Martins, Porto, 
1886. Inclui uma introduo de Oliveira Martins e cinco poemas em quartetos. Em 
parte, estes sonetos haviam sido publicados no volume Sonetos de Antero, nas Odes 
Modernas, nas Primaveras Romnticas e no volume Sonetos antes indicado. 2. ed. 
preparada pelo autor, com tradues em alemo, francs, italiano e castelhano, Porto, 
1890. Sonetos, ed. organizada, prefaciada e anotada por Antnio Srgio, col. 
*Clssicos S da Costa+, 7. a ed. 1984.

Raios de Extinta Luz - Poesias inditas (1859-1863) com outras pela primeira vez 
coligidas, publicadas e precedidas de um escoro biogrfico por Tefilo Braga, 
Lisboa,
1892. H 2.1 ed. com as poesias dispostas por ordem cronolgica e pref. de Joaquim de 
Carvalho, Lisboa, 1946; e 3. 1, que inclui, alm das compiladas por Tefilo Braga, 
todas as poesias dispersas de Antero de Quental, sob o ttulo de Raios de Extinta Luz 
e outras poesias, com pref. de Antnio Salgado Jnior e notas de Jos Bruno Carreiro, 
Lisboa, 1948.

Zara, Lisboa, 1884 (tiragem limitada; poema  morte de uma irm de Joaquim de 
Arajo), teve numerosas tradues.

Tesouro Potico da Infncia, antologia org. por Antero de Quental, Chardron, Porto,
1883.

Versos. Carios Fradque Mendes, pref. e notas de Pedro da Silveira, Lisboa, Edies 
70. As obras em prosa encontram-se reunidas nos trs volumes das Prosas publicadas 
pela Imprensa da Universidade de Coimbra nos anos, respectivamente, de 1923, 1926 e 
1931, e h uma ed. crt. das Prosas da poca de Coimbra, org. por Ant. Salgado 
Jnior, Liv. S da Costa, 1973. Em vida de Antero foram publicadas as seguintes 
obras:

Defesa da Carta encclica de Sua Santidade, contra a opinio chamada liberal, 
Coimbra, 1865.

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
    873

Bom Senso e Bom Gosto ao Excelentissimo Senhor Antnio Feliciano de Castilho, 
Coimbra, 1865 (mais 2 ed. no mesmo ano).

A dignidade das Letras e as literaturas oficiais, Lisboa, 1865. Portugal perante a 
revoluo de Espanha. Consideraes sobre o futuro da poltica portuguesa sob o ponto 
de vista da democracia ibrica, Lisboa, 1868.

Conferncias Democrticas - Causas da Decadncia dos Povos Peninsulares -

Discurso pronunciado na noite de 27 de Maio na sala do Casino Lisbonense, Porto, 
1871; reed. col. *Ensaio+, 1971.

Carta ao Exmo. SenhorAntnio Jos de vila, Marqus de vila, Presidente do Conselho 
de Ministros, Lisboa, s/d (187 1).

0 que  a Internacional, Lisboa, 1871. Consideraes sobre a filosofia da histria 
literria Portuguesa (a propsito de alguns livros recentes), Porto-Braga, 1872.

A Poesia na actualidade, a propsito da *Lira ntima+ do Sr. Joaquim de Arajo, 
Porto,
1882.

H ainda uma ed. de Prosas Dispersas, org. de Ruy Belo, Lisboa, 1966. Volume de 
textos polmicos reunidos: A Idade Mdia na histria da civilizao. Polmica entre 
A. de Quental, J. P. Oliveira Martins e Dr. Jlio de Vilhena, pref. e notas da F. A. 
Oliveira Martins, Parceria A. M. Pereira, Lisboa, 1925.

Iniciou-se em 1989 com os dois vols. Cartas, org. por Ana Maria A. Martins, a ed. das 
Obras Completas, que compreender dois vols. de Poesia, org. por Nuno Jdice, um de 
Filosofia, ed. em 1991, org. por Joel Serro, um de Poltica tambm a org. por Joel 
Serro, e outro sobre Cultura e Sociedade, org. por Antnio Machado Pires, Editorial 
Comunicao e Univ. dos Aores.

Cartas

Cartas de Antero de Quental, Coimbra, 1915. A 2. > ed., 1921, inclui mais 23 cartas. 
Cartas Inditas de Antero de Quental e Oliveira Martins, pref. de Joaquim de 
Carvalho, Coimbra, 1931.

Cartas Inditas de Antero de Quental a WilheIm Storck, pref, de Harri Maier, Coimbra, 
1935.

Cartas a Antnio de Azevedo Castelo Branco, pref. e notas de Adolfo Casais Monteiro, 
Lisboa, 1942.


Cartas de Antero de Quental, in Arquivo de Bibliografia Portuguesa, ano V, 1959, 
Coimbra.

Cartas de Antero de Quental a Francisco Machado de Faria e Maia, pref. e notas de Ruy 
Galvo de Carvalho, Lisboa, 196 1.

Cartas de Vila do Conde de A. Quental, introd., org. e notas de Ana Maria de Almeida 
Martins, Lello & Irmo, Porto, 198 1.

Correspondncia entre A. de Quental e Jaime Batalha Reis, intr., org. e notas de 
Maria Staack, Assrio e Alvim, Lisboa, 1982.

Cartas Inditas a Alberto Sampaio, org., pref. e notas de Ana Maria de Almeida 
Martins, Lisboa, 1985.

874                                              HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Ver outras edies e coleces inditas de cartas em A Epistolografia em Portugal, 
Andre Crabb Rocha, 2. ed., IN-CM, 1984, pp. 281-287; Manuel Simes em Antero 
Indito, sep. da *Brotria+, vol. 128, pp. 483-493, e vol. 129, pp. 43 a 51, refere-
se a 29 cartas inditas de Antero para 01. Martins, entre outras inditas; ver ainda 
de M. Simes artigo em *Revista da Filosofia Portuguesa+, Jan.-Fev. 1989, fasc. 1, e 
artigo de Joei Serro em J. L., n. > 466, Junho de 199 1. Ver outros dados em 
Bibliografia e noitas apensas a Cartas 1 (1852- 188 1), e 11 in Obras Completas, ed. 
Univ. dos Aores e Editorial Comunicao, com estudo de Ana M. Almeida Martins, 1989.

2. Antologias H nas coleces *A Obra e o Homem+ (com estudo de Hemni Cidade), 2. a 
ed., col. *Textos de Apoio+, 1988; *Biograf ia de Bolso+ (com estudo de Joo Gaspar 
Simes) e *Agir+ (apresentao de A. Casais Monteiro); Antero de Quental, pref. e 
selec. por A. M. B. Machado Pires, Signo, Lisboa, 1988. Existe uma breve seleco de 
Sonetos ano-

tados por E. Paulo Ramos, Porto. Testamento Filosfico, pref. e notas de Sant'Ana 
Dionsio, 1946. Prosas Scio-Polticas, apres. por Joei Serr o, IN-CM, 1982; Antero 
de Quental, apres. e selec. de M. Madalena Gonalves *Textos Literrios+, n. > 2 1. 
Antero de Quental, Poesias y Prosas Selectas, Alf aguara, Madrid, 1986, ed. bilngue 
com estudos e notas de . Lopes, J. E. Zfiiga e J. A. Liardent. A. de Quental. 
Poesia e Prosa, selec. e pref. de Carios Felipe Moiss, Cultrix, So Paulo, s/d. 
*Hino da Manh+ e outras poesias do mesmo ciclo, estudo e notas de Joei Serro, 
Horizonte, 1989. H uma ed. das Tendncias Gerais... com antologia de comentrios a 
seu respeito, pref. e notas de Leonel Ribeiro dos Santos. Lisboa, 1982, reed. 1989. 
A. de Quental antologia de textos filosficos, org. e apres. de Ana M. Moog 
Rodrigues, Verbo, 1990.

3. Estudos

Queirs, Ea de: Um gnio que era um santo, in Notas Contemporneas (publicado pela 
1. vez no In Memoriam de Antero de Quental).

Braga, Tefilo: cap. > sobre Antero, in As Modernas Ideias na Literatura Portuguesa. 
Estudos de diversos em Antero de Quental - In Memoriam, Porto, 1896. Coimbra, 
Leonardo: 0 Pensamento Filosfico de A. de Q- Porto, 1921, 3. > ed. Guimares 
Editores, 1991.

Nemsio, Vitorino: tudes Portugaises, Inst. por Alta Cultura, 1938. Fiqueiredo, 
Fidelino de: Antero, S. Paulo, 1941, e o estudo sobre Antero na Perspectiva da 
Literatura Portuguesa do sculo XIX.

Pimpo, A. J. da Costa: Antero de Quental e Baudeiare e 0 Livro dos Sonetos, in 
*Bibios+, XVIII, t. 1 (1942), pp. 65-74 e 209-224, respectivamente.


Srgio, Antnio: diversos estudos publicados nos vols. IV, V, Vi e Vil dos Ensaios, 
alm das introdues e notas aos vols. de Obras Completas que organizou limportantes 
observaes temticas e estilsticas).

Carvalho, Joaquim de: Estudos sobre a Cultura Portuguesa do sc. XIX, vol. 1 
(Antheriana), Coimbra, 1955, conjunto de trabalhos fundamentais acerca da formao e 
evoluo de Antero, includos em Obra Completa de J. de Carvalho, 1, F. C. 
Gulbenkian, 1978.

Beau, Aibin: Os Sonetos de Antero de Quental, in Estudos, vol. li, Coimbra, 1964. 
Salgado Jnior, A.: introd. aos Raios de Extinta Luz e outras poesias.

6. - POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
   875

Craveiro, Lcio Silva: Evoluo do Pensamento Filosfico de Antero de Quental, in 
Brotria, 24, 1937, e Braga, 1959.

Lopes, scar: Antero de Quental - Vida e Legado de uma Utopia, Caminho, Lisboa,
1983 (desenvolve o texto do presente volume, nomeadamente a anlise temtica e 
textual dos Sonetos); lbum de Famlia - Ensaios sobre Autores Portugueses do Sculo 
XIX, Caminho, Lisboa, 1984; intr. do mesmo e notas de J. E. Ziga  ed. bilngue 
Poesias y Prosas Selectas, Alf aguara, Madrid, 1986: Meditao desgarrada sobre uma 
releitura de Antero, em J. C., 466, Junho de 1991, a incluir no vol. de Leituras 
Anterianas. Coimbra, 1992; Amorim Viana, Antero e Bruno: Algumas conexes a sair no 
*Boletim da Universidade do Porto+, 1992; Alguns Conflitos Internos Anterianos, a 
sair no nmero especial do centenrio anteriano de *Colquio/Letras+ (n. > 12 1); 0 
Antinaturalismo de Antero, in Universidade do Porto - Boletim n. 12, Fev. 1992, pp. 
30-35.

Carreiro, J. Bruno: Antero de Quental, subsdios para a sua biografia, 2 vols., 
Lisboa, 1948; 2. > ed., 2 vols., Instituto Cultural de Ponta Delgada, 198 1. Contm 
documentao exaustiva e bibliografia completa.

Boisvert, G.: Antero de Quental, in Bulletin des tudes Portugaises, t. XXV, 1964. 
S, Vtor de: Antero de Quental, Braga, 1963, 2. ed. rev. Limiar, Porto, 1977. 
(Sobretudo importante quanto ao estudo do pensamento e actuao poltica de Antero.)

Mendes, Joo: Os *Sonetos+ de Antero, Os Dois Anteros, tica e Esttica de Antero, o 
Gnio Potico de Antero e o complexo de Caronte, in Brotria, vols. 75, n. o de 
Novembro, 1962, 76, 1963, pp. 5-23 e 257-281, 81, pp. 173-180, 93, n. 11, Novembro 
1971, respectivamente.

Kaiser, Wofgang: Anlise e Interpretao da Obra Literria, vol. li, pp. 208 e 
seguintes; Jos Alves, Mtasmmes et mtalogismes dans un sonnet de Antero de 
Quental, in Sillages, 1972, Poitiers.

Cidade, Hemni: A. de 0.: a obra e o homem, 2. ed., Lisboa, 1978. Carvalho, Ruy 
Galvo de: Bocage e Antero, in Brotria, 82, n. > 4, Abril de 1967. A Presena da 
morte nos sonetos de Antero, in Ocidente, vol. 16 e Antero de Quental nos *Sonetos 
Completos+, ibidem, vol. 17. Separata de outros estudos in Ocidente. Ordenao 
Cronolgica dos *Sonetos Completos+ de A. de Quental, Angra do Heroismo, 1962. A. de 
Quental - Novos Ensaios, S. Miguel, Aores, 1985.

Atkinson, Dorothy M.: As Imagens de Antero, in Ocidente, 77, n. 354, Outubro 1967. 
Martinez, Maria Teresa Leal de: A *Filosofia Idealista da Morte+ em Antero de 
Quental, in Ocidente, n. 400, 1971 (Agosto).


Alves, Jos: Essai de caracterologie dAntero de Quental, in Sillages, 1973/4, 
Universidade de Poitiers.

Catroga, Fernando: A Ideia de Evoluo em A. de Quental, in * Bibios+, Coimbra, LVI,
1980, pp. 358-388; 0 Problema Poltico em A. de Quental. Um Confronto com Oliveira 
Martins, Centro de Histria da Sociedade e da Cultura, Fac. de Letras de Coimbra, 
1981; Filosofia e Sociologia: A Ideia Anteriana de Socialismo, sep. da Vrtice, 42, 
n. 448, 1982; A Metafisica Indutiva de Antero de Quental, in *Biblos+ vol. 61, 1985, 
pp. 472-507, e textos a sair no vol. de Leituras Anterianas, Coimbra, 199 1.

Acerca dos doutrinrios especulativos contemporneos de Antero, ver os artigos de 
Delfim Santos, Sant'Ana Dionsio e Jos Marinho sobre, respectivamente, Silvestre 
Pinheiro Ferreira, Amorim Viana e Sampaio Bruno em *Panorama da Literatura Portuguesa 
do sc.

876                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

XIX+, dirigida por Gaspar Simes; Hernni Cidade, Sculo XIX. A revoluo em Portugal 
e alguns dos seus mestres, col. *Ensaios+, 1961; pref. de A. Brs Teixeira  ed. de 
Pedro Amorim Viana, Defesa do Racionalismo ou Anlise da F, IN-CM, 1982; e ainda:

Silva, Maria Beatriz Nizza da: Silvestre Pinheiro Ferreira: Ideologia e Teoria, ed. 
S da Costa, 1975. Jos Esteves Pereira, Silvestre Pinheiro Ferreira. 0 seu 
pensamento poltico, Fac. de Letras de Coimbra, 1974.

S, Vtor de: Amorim Viana, Ensaio biobibliogr fico, Figueira da Foz, 1960; Amorim 
Viana e Proudhon, Lisboa, 1960, reprod. em Sociologia em Amorim Viana, Lisboa, 1982; 
Perspectivas do Sculo XIX, col. *Portuglia+, 1964, reed. rev. col. *Limiar+ 
(Ensaio), Porto.

Serro, Joel: Caracterizao da Mundvidncia de Sampaio Bruno, in Temas de Cultura 
Portuguesa, li, col. *Problemas+, Lisboa, 1965, reed. Horizonte, 1989, e, 
anteriormente, Sampaio Bruno - o Homem e o Pensamento, Lisboa, 1959, reed. rev. e 
aum., Livros Horizonte, 1986. Sobre Antero: 0 Primeiro Fradique Mendes, Lisboa, 1985 
(contm textos de Antero, Ea e Batalha Reis, incluindo inditos); Antero e a Runa 
do seu Programa (1871-1875), Horizonte, 1988; *Hino da manh+ e outras poesias do 
mesmo ciclo, com estudo e notas, Horizonte, 1989.

As Polmicas de Camilo, vol. 1, col. *Portuglia+, contm os textos da polmica entre 
Amorim Viana e Camilo Castelo Branco.

Martins, Jos V. de Fina: Antero de Quental e Michelet, in Arquivos do Centro 
Cultural Portugus, vol. 8, 1974, Paris.

Loureno, Eduardo: Diatctica Mtica da Poesia Moderna Portuguesa - 1. De Antero a 
Antnio Nobre, in rev. Nova, 2, 1976, pp. 44-51; Poesia e Metafisica, S da Costa,
1983, pp. 119-153.

Figueira, Maria Fernanda Reis: A Faculdade de Teologia perante o Materialismo (1861-
1905), sep. da *Revista de Histria das ldeias+, 1, 1976, Coimbra. Moiss, Carlos 
Filipe: Antero de Quental: o poeta e o mito, in *Colquio/Letras+, 4 1, Janeiro 1978, 
pp. 36-44.

Pais, Romaris Andrs: Les sonnets de *Elogio da Morte+ de A. de Quental, 
*Colquio/Letras+, 64, Setembro 1982, pp. 11-19.

Martins, Ana Maria Almeida: 0 Essencial sobre A. de Quental, IN-CM, 1985.

Berardinelli, Clarice: Os Sonetos de Antero: Tentativa de anlise estrutural, in 
Estudos de Literatura Portuguesa, IN-CM, 1985, pp. 133-158.


Antero de Quental: Fotobiografia, IN-CM, 1986.

Livraria deAntero - Catlogo, Ponta Delgada, 1991, ed. pela Bibi. Pblica e Arquivo 
dessa cidade, que publicou simultaneamente uma extensa bibliografia: Antero - Ele 
Prprio na vida e na Obra (catlogo de uma exposio).

So de aguardar as Actas dos Congressos comemorativos do centenrio anteriano que em 
1991 se realizaram em Ponta Delgada (Univ. dos Aores) e no Porto (Fac. de Letras), 
Lisboa (Fac. de Letras), e das Leituras Anterianas, org. pela Univ. de Coimbra, alm 
de nmeros especiais de peridicos, como o do JL, n. > 466, de 11 a 17 de Junho de 
199 1, e o de ColquiolLetras, n. > 121, 199 1.

Captulo IX

OLIVEIRA MARTINS

A partir de 1870 a carreira literria e pblica de Oliveira Martins decorre 
paralelamente  de Antero de Quental, com quem manteve um constante dilogo, hoje 
representado por uma importante correspondncia. Com caractersticas psicolgicas e 
uma formao social e profissional muito diversas das do seu principal amigo e 
confidente, Oliveira Martins realizou uma experincia complementar da daquele e que 
parece encerrar os mesmos conflitos insolveis com que Antero se debateu. Tambm s 
compreenderemos a car-

reira literria de Joaquim Pedro de Oliveira Martins (n. Lisboa,
1845-04-30 - t 1894-08-24) se a articularmos com a sua aco pblica.

OLIVEIRA MARTINS: Vida e obras

Nascido em Lisboa de famlia burguesa, Oliveira Martins no teve formao 
universitria. 0 falecimento do pai, funcionrio pblico, obrigou-o a empregar-se aos 
quinze anos e a abandonar o liceu. Fez carreira de empregado comercial, e 
paralelamente cultivou-se como autodidacta. Precoces ambies literrias levam~no a 
tentar o drama histrico

(Afonso VI  o ttulo de uma pea que no chegou a ser representada nem publicada) e 
o romance histrico (Phoebus Moniz), revelando neste ltimo a influncia dominante de 
Herculano e de Garrett. Relacionou-se com o grupo do Cenculo em 1870. Com Antero

e Jos Fontana participou na organizao do movimento socialista em Portugal, 
colaborando na redaco de 0 Pensamento Soca] e A RepbIica (1870-1873). Em 1870 
encontrou colocao em Espanha como encarregado do pessoal mineiro de Santa Eufmia, 
na

serra Morena, Andaluzia. Com o trabalho profissional, a convivncia dos mineiros, de 
quem se fez estimado, a aprendizagem de certos ramos prticos de engenharia, acumulou

878                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Oliveira Martins nesta poca (1870-1874) uma importante actividade de publicista, 
dentro da campanha iniciada em Lisboa com Antero e Jos Fontana. Alm de uma 
tentativa de anlise literria, *Os Lusadas+, ensaio sobre Cames e a sua obra em 
relao  sociedade portuguesa e ao movimento da Renascena, 1872, redigiu dois 
livros, que tanto o autor como Antero, que lhe acompanhou de perto a elaborao, 
consideravam de grande importncia para o movimento em que estavam empenhados: Teoria 
do Socialismo -

evoluo poltica e econmica das sociedades na Europa, e Portugal e o Socialismo, 
ambos de 1873.

Fixou-se no Porto em 1874 como funcionrio administrativo e tcnico da Companhia de 
Caminho-de-Ferro do Porto  Pvoa de Varzim, de que veio depois a ser administrador e 
director tcnico, quando Antero de Quental se achava j afastado da aco poltica e 
operria. Sem abandonar os ideais da juventude, votou-se a um trabalho de divulgao 
e esclarecimento pelo livro. Dirigiu a notvel Revista Ocidental (1875) com

Antero e Batalha Reis.

A doutrinao iniciada com Teoria do Socialismo e Portugal e o Socialismo prolonga-se 
com um estudo sobre A Reorganizao do Banco de Portugal, 1877, motivado pela grave 
crise bancria nacional do ano anterior, e com outro sobre As Eleies, em que, 
criticando as mistificaes a que se prestava o regime parlamentar ento vigente, 
preconi-

zava um tipo corporativo de representao nacional, num estado alis muito 
centralista em matrias sociais e econmicas. Tendo a Academia das Cincias aberto um 
concurso sobre a circulao fiduciria, obteve Oliveira Martins a medalha de ouro com 
uma Memria sobre aquele tema, onde aplicava a teoria geral ao caso portugus, 
relatando desenvolvi~ damente as crises monetrias portuguesas de 1846 e de 1876. Na 
sequncia de uma antiga discusso com Antero, publicou um volume sobre 0 Helenismo e 
a Civilizao Crist, 1878.

A partir deste ano, lanou-se Oliveira Martins numa vasta empresa de divulgao de 
cultura sociolgica, a Biblioteca das Cincias Sociais, que, comeando pela 
antropologia, abrangia a evoluo das instituies e das sociedades desde as suas 
formas primitivas at ao Estado moderno. Dentro de tal programa, fez sair os 
Elementos de Antropologia, 1880, As Raas Humanas e a Civilizao Primitiva, 1881, o 
Sistema dos Mitos Religiosos, 1882, o Quadro das Instituies Primitivas, 1883, as 
Tbuas de Cronologia,

1884, e finalmente a Histria da Reptiblica Romana, que, a seu ver, resumia a 
evoluo tpica de um estado poltico (1885). Dentro da Biblioteca inclui-se tambm a 
histria especial de Portugal e da Pennsula Ibrica: Histria da Civilizao Ibrica 
(1879) e Histria de Portugal (mesmo ano), continuada esta ltima com o Portugal 
Contemporneo (188 1), e 0 Brasil e as Colnias Portuguesas (188 1), onde preconiza 
uma impiedosa colonizao concentrada em Angola.

Outros volumes estavam previstos, um deles sobre lingustica, de colaborao com

Adolfo Coelho, mas Oliveira Martins em 1885 interrompia a Biblioteca para intervir na

vida poltica. As condies da sua interveno foram muito discutidas na poca, 
acusando-o uns de trnsfuga do movimento republicano e socialista em que inicialmente 
militara, enquanto outros, como Antero de Quental, o apoiavam.

6. - POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
   879

Na realidade, ele tira as suas concluses do fracasso dos projectos do grupo do 
Cenculo e das Conferncias Democrticas subsequente  derrota da Comuna e  reaco 
que se lhe seguira. Enquanto Antero se isola e Tefilo se desvia para um 
republicanismo jacobino, Oliveira Martins v j na dcada de 70 uma soluo no 
chamado *socialismo de Estado+ ou *socialismo, catedrtico+, segundo o qual seria 
possvel uma reforma social apoiada num governo esclarecido. Bismarck aparecia como 
um exemplo. No existindo em Portugal uma organizao poltica slida fora dos 
partidos monrquicos, sustentava Oliveira Martins que num de estes devia apoiar-se 
qualquer aco transformadora da poltica e economia portuguesas. Com este propsito 
aderiu ao Partido Progressista, que herdara a tradio do Setembrismo e se encontrava 
ento na oposi o. Como base de apoio -

alm de relaes com o influente chefe daquele partido, Anselmo Jos Braarucampi -

contava interessar os industriais do Porto num programa de fomento da indstria 
nacional que inclua o estabelecimento de pautas proteccionistas. Fez-se eleger 
deputado por Viana do Castelo, em 1885, fundou um jornal, A Provncia, donde assestou 
as baterias

contra a situao regeneradora, e publicou naquele ano o volume Poltica e Economia 
Nacional. Nele resumia as suas principais teses: moralizao da vida poltica; 
proteco da indstria nacional; fomento da agricultura e outras actividades. 
Iniciava um movimento

que designava por *Vida Nova+, com um programa que era em parte continuao do antigo 
Setembrismo e que tivera um precursor terico em Oliveira Marreca.

Ao contrrio do que esperava, a subida do Partido Progressista ao poder no lhe 
trouxe uma posio no ministrio, e a sua aco ficou limitada ao Parlamento, onde 
apresentou, como deputado pelo Porto (eleito em 1887), um Projecto de Lei de Fomento 
Rural, que alis no chegou a entrar em discusso. Em Lisboa, para onde se transferiu 
em 1888, fundou 0 Reprter, jornal de bom nvel literrio e doutrinrio, com a 
colaborao de alguns dos melhores escritores portugueses da poca; e, dando flanco 
aos ataques dos antigos correligionrios, aceitou um lugar de favor ministerial, a 
administrao da Rgie dos Tabacos.

Oliveira Martins entrara de facto na rotina da oligarquia poltica nacional, mas no


desistira de exercer um papel decisivo e renovador. Ligou-se ao grupo dos Vencidos da 
Vida em que, alm de Ramalho, Ea e Junqueiro, participavam personalidades salientes 
da aristocracia, como o conde de Sabugosa, o marqus de Soveral, o conde de Arnoso, 
que lhe abriram rela es dentro do Pao, e com o prprio rei. Persuadido de que o 
pas caminhava para um desastre financeiro, aguardava o momento em que a sua 
capacidade de economista e o seu prestgio junto de algumas individualidades dele 
fizessem o homem indispensvel.

Esta ocasio chegou poucos meses depois do Ultimato, por ocasio do qual mano-

brara de maneira a dificultar a aco do Partido Republicano, que entretanto se 
tornara

uma fora considervel. Em 1892 o Tesouro portugus achou-se impossibilitado de man-

ter os seus compromissos relativamente aos credores entrangeiros da dvida pblica, 
apoiados pelos respectivos governos (Inglaterra, Frana, Blgica e outros). Estava-se 
 beira

880                                              HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

de uma bancarrota, de uma possvel interveno diplomtica apoiada na fora e de uma 
crise de desemprego em massa, motivada por uma crise fiduciria. Oliveira Martins 
entra num ministrio de salvao nacional como ministro da Fazenda. Mas quatro meses 
depois, passado o momento mais crtico, depois de ter promulgado as medidas mais 
impopulares,  obrigado a demitir-se, por manobra poltica dos seus adversrios 
dentro do regime.

As circunstncias em que este facto ocorreu liquidavam de tal maneira os seus 
projectos que ele saiu precipitadamente para Inglaterra a recompor-se. Desta viagem 
proveio A Inglaterra de Hoje (1893).

Desde 1892, a actividade literria torna-se para Oliveira Martins um refgio e uma 
compensao. Encerrada desde 1885 a publicao da Biblioteca das Cincias Sociais, 
empreende uma srie de biografias, onde  admirao pelas grandes personalidades se

junta o comprazimento no passadismo pitoresco: Os Filhos de D. Joo 1 (189 1); A Vida 
de Nun'lvares (1893). Preparava uma srie que devia concluir com a vida de D. 
Sebastio, desenvolvendo a parte que na Histria de Portugal  consagrada  dinastia 
de Avis. Para escrever o volume sobre D. Joo II, empreende uma viagem a Espanha, 
estmulo para as Cartas Peninsulares, suas ltimas pginas. 0 Prncipe Perfeito ficou 
inacabado.
0 autor morreu tuberculoso no meio desse trabalho, aos quarenta e nove anos.

OLIVEIRA MARTINS: O historiador

Sob a influncia da Proudhon, escreve Oliveira Martins que *a teoria do Socialismo  
a evoluo+, querendo com isto significar que a *evolu o+ conduziria a uma 
sociedade sem classes, que seria uma livre associao de indivduos em moldes 
federais e na qual competiria ao Estado a propriedade de todos os valores que no 
procedem do trabalho individual.

 sob a influncia desta teoria da evoluo que Oliveira Martins empreende a 
Biblioteca das Cincias Sociais, com o fim de abarcar o conjunto da histria social 
do homem. Mas outras influncias vm interferir na elaborao deste programa, 
principalmente a dos socilogos alemes que redescobriram a velha concepao 
organicista da sociedade. Desta maneira, a Bblioteca das Cincias Sociais no se 
apresenta j apenas como a histria das fases da evoluo da Humanidade para a 
plenitude da conscincia e da liberdade, mas tambm como a biografia dos organismos 
vivos, que eram, segundo esta escola, as naes. Como resume o prprio Oliveira 
Martins:

*Os rgos do corpo social apresentam-se primeiro como esboos rudimentares; e o 
conjunto possui apenas o carcter de agregao.  medida que a aco e a reaco dos 
diversos elementos obriga cada um deles a definir-se e especializar-se, vai apare-

6. - POCA - 0 ROMANTISMO                                                          
881

cendo o princpio de coordenao comum, espcie de princpio vital social: assim 
tambm da primitiva agregao celular sai o organismo. Logo, porm, e  maneira que 
se

desenvolve e tende a atingir a perfeio tpica, a sociedade gera em si um pensamento 
que  ao mesmo tempo o norte que dirige, a mola interior que move o ser orgnico no

seu desenvolvimento e afirmao: assim tambm o corpo, uma vez constitudo, , num

sentido, a origem do pensamento, e, em outro, o seu produto.+

Uma outra teoria exerceu papel importante na obra histrica de Oliveira

Martins: a teoria do acaso tal como a exps Cournot. Os factos constituem diversas 
sries ou processos, cada um dos quais se desenvolve segundo a

sua continuidade prpria. 0 encontro fortuito de sries diferentes  imprevisvel e 
constitui propriamente o acaso. Assim, ao contrrio de Antero, Oliveira Martins, em 0 
Helenismo e a Civilizao Crist, atribua a causas em

grande parte acidentais o advento da Idade Mdia; atribua tambm a factores 
contingentes a formao de nacionalidades como a portuguesa. Esta teoria do acaso 
permitia, entre outras coisas, conceder um importante papel histrico s grandes 
individualidades. Na histria de Portugal o exemplo mais flagrante teria sido o do 
Terramoto de 1755.

 na Histria da Repblca Romana que se torna mais visvel a conver-

gncia destas directrizes norteadoras da Biblioteca. Esta obra foi publicada no ano 
decisivo de 1885, ano em que Oliveira Martins entra na ac o poltica. Pretende 
narrar o *exemplo tpico+ de um Estado, *corno o naturalista que descreve uma espcie 
por um indivduo+. Oliveira Martins v na forma-

o de Roma a constituio de um organismo no sentido indicado; mas a marcha 
progressiva para a liberdade realiza-se em prejuzo da igualdade eco-

nmica e da coeso do todo social. Roma chega  beira da anarquia: a anti-

nomia liberdade-autoridade  insolvel. No entanto, um homem, Csar, consegue pela 
sua aco pessoal salvar Roma, praticando ao mesmo tempo uma ditadura igualitria. 
Assim, o cesarismo, isto , a ditadura esclarecida, apareceria como nica soluo 
para o problema de Roma, que Oliveira Martins considerava comparvel ao da Europa do 
seu tempo.


Tal  a concluso lgica dos pressupostos da histria de Oliveira Martins - 
conjugao do organicismo social com uma teoria do acaso -, concluso que corresponde 
no plano das ideias polffico-sociais  sua adeso ao

*socialismo de Estado+, que muitos supunham em vias de realizar-se, por intermdio de 
Bismarck, o Csar do sculo XIX.

882                                             HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

0 cesarismo corresponde tambm em Oliveira Martins a uma definida tendncia 
filosfica, o culto do *herosmo+, cujo melhor expositor em Inglaterra foi Carly1e. 
No s Oliveira Martins atribui um papel ainda mais relevante s grandes 
personalidades, nas biografias finais, como parece fazer delas a prpria florescncia 
a que tende, num trabalho obscuro de gestao, o agrupamento social. 0 fim das 
sociedades seria produzir os grandes homens. Este ponto de vista colide afinal com o 
primitivo pensamento da Biblioteca das Cincias Sociais, que fora tambm o da Teoria 
do Socialismo e o de Portugal e o Socialismo, embora um no elimine necessariamente o 
outro no pensamento do autor. Estes livros parecem ver como necessria certa evoluo 
da humanidade, ao passo que as biografias finais - Filhos de D. Joo I, Vida de 
Nun'lvares, 0 Prncipe Perfeito (s um fragmento) exprimem uma viso mais 
voluntarista da Histria. A ltima pgina literria que Oliveira Martins ditou, 
poucos dias antes do seu falecimento, o final das Cartas Peninsulares, exprime 
todavia um profundo desalento, talvez tambm devido  sua doena:

*Quem sabe se h progresso - pergunta a propsito da decadncia de Mediria del Campo 
-, no j em uma ou em outra civilizao, mas at na prpria existncia do mundo? 
[... ] Quem nos diz a ns que, apesar de toda a vaidade que pomos na descoberta de 
molas e mecanismos novos para agenciar a vida, no estejamos preparando o descalabro 
final de um mundo desquiciado e o prlogo da catstrofe inevitvel que para alm 
vemos lugubremente, quando o nosso planeta girar nu e frio na noite eterna do 
espao?+

Devemos reconhecer que o ponto de vista hegeliano que orienta a primeira fase da obra 
de Oliveira Martins  interferido, no final da sua carreira, pela tese da 
irracionalidade do mundo proposta por Schopenhauer e

E. Hartmann, e que to grande projeco vimos j ter tido em Antero. Talvez isto se 
relacione com o fim catastrfico da sua aco pblica.  todavia de notar que a morte 
lhe atalhou precocemente a actividade.

OLIVEIRA MARTINS: O artista

Sob a influncia de Michelet, Oliveira Martins quis fazer das suas obras histricas, 
alm de uma exposio concatenada de ideais ou de factos, uma

verdadeira ressurreio de mundos desaparecidos. Para isso, evitou em tais obras a 
exposio discursiva e adoptou o processo da sucesso de quadros,

6.3 POCA - 0 ROMANTISMO                                                   883

referentes cada qual a um acontecimento relatado de forma pitoresca, com

grande abundncia de cores e pormenores e com reconstituies psicolgicas de 
personagens. 0 mesmo objectivo o levou a usar largamente de smbolos: um homem 
simboliza toda uma srie complexa de factos, s vezes

de maneira bem artificiosa, e o terramoto serve de emblema das reformas de Pombal.

0 pitoresco de Oliveira Martins , todavia, por vezes convencional e forado, um 
pitoresco de segunda mo: tem por fontes imediatas textos literrios e no uma 
percepo directa da realidade.

A incontestvel sugesto imaginfica das obras de Oliveira Martins no provm da 
evocao plstica, mas da movimentao dos quadros. Quer mos-

trando Ambal despenhando-se pelos precipcios dos Alpes, quer Lisboa a

desabar com o terramoto, quer os vinhos de Gaia jorrando no Douro, quer simplesmente 
a linha movente do cume dos montes evocando uma impetuosa histria geolgica, 
Oliveira Martins sabe transmitir impressivamente a percepo do movimento. 0 seu 
talento  mais ritmico do que plstico. Os homens passam movendo-se no seu gesto 
caracterstico - *um homem  um momento+, escreveu; as batalhas, os terramotos, os 
naufrgios, os incndios sucedem-se num ritmo que no esmorece. Este ritmo cria uma 
atmosfera musical densa e muito particular, com um pthos prprio.

Oliveira Martins compraz-se,  bem sensvel, em lances epopeicos de intenso e 
pattico pitoresco. As personagens e os acontecimentos so notas ou motivos neste 
rtmico fluir, vogando na sua corrente, aglomerados no

movimento geral, e no ligados por nexos concretizadores da sua prpria realidade. De 
facto, essas personagens e esses acontecimentos so *smbolos+, *sombras levadas 
pelos ventos sbios do destino+, segundo uma sua

expresso. Mesmo nas biografias da ltima fase, no se vem os homens a actuar; so, 
de certa maneira, irresponsveis, impelidos a cumprir uma

misso por conta do Destino.

Este Destino, que encadeia previamente os factos, representa, na realidade, o esquema 
preconcebido que o autor lhes atribui, expresso de forma imaginosa. Oliveira Martins 
tende para a exposio alegrica ou simblica, porque procura correspondncias 
factuais para esquemas conceptuais pr-elaborados. A Inglaterra de Hoje est cheia 
destes smbolos, com que o autor recobre uma teoria acerca da Inglaterra, embora 
fundamentada em larga documentao social, econmica e financeira.

884                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

0 crtico Moniz Barreto, contemporneo de Oliveira Martins, atribui-lhe, como 
capacidade mais saliente, a imaginao psicolgica, isto , *o

dom de ver e descrever interiores de alma+. Na realidade, Oliveira Martins pe nas 
suas personagens histricas muito do conhecimento que tinha de si prprio e dos seus 
contemporneos - o que torna duvidosa a reconstituio psicolgica que nos d das 
figuras do passado. A amargura de D. Pedro regente reproduz, em grande parte, as 
decepes polticas do prprio Oliveira Martins, que se considerava incompreendido e 
caluniado como aquele. Outras personalidades so esquematicamente definidas por uma 
ideia: o infante D. Henrique  um *fencio+; Herculano  um *estico+. Tambm, pois, 
sob este aspecto, Oliveira Martins meteu dentro das suas obras histricas muitas das 
suas simpatias e repulsas, de um modo mais analgico do que conceptual.

OLIVEIRA MARTINS: A Hstra de Portugal e o Portugal Contemporneo

As duas obras em que Oliveira Martins se exprimiu mais completamente e tambm aquelas 
que maior influncia exercem so as que se referem  histria de Portugal, e destas, 
sobretudo, a Histria de Portugal e o Portugal Contemporneo.

A Histria de Portugal deve a sua imensa influncia sobretudo ao facto de se 
abalanar a uma sntese que integra mltiplos factores, desde o econmico ao 
cultural, e ainda ao de ser uma obra de arte extraordinariamente plstica. Nem todas 
as teses nela defendidas por Oliveira Martins so originais; algumas estavam 
dispersas em escritos de Herculano e sumariadas em parte nas Causas da Decadncia, de 
Antero, a que todavia opor uma apologia do heroismo ibrico. Mas estas fontes so 
muitssimo enriquecidas com

contribuies do prprio Oliveira Martins e integradas numa imaginativa e

curiosa sntese.

Pode dizer-se que Oliveira Martins quis fazer a Histria de Portugal por dentro, como 
se a alma da nao fosse a sua prpria. Neste sentido, a Histria de Portugal  a 
mais original (e discutvel) histria cultural do Pa s.

Portugal deveria a sua existncia, no a condies geogrficas, tnicas ou 
econmicas, mas a uma vontade colectiva. Aps a fase de elaborao, a Nacionalidade 
assume a plenitude sob a dinastia de Avis. Em 1580 chegou ao seu termo natural como 
ser orgnico, com a absoro na Espanha, que

6. @ POCA - 0 ROMANTISMO                                                     885

 a centralizao final da Ibria. D. Sebastio seria o smbolo da nacionali-

dade que se extingue e o Sebastianismo, que lhe sobrevive, a *prova pstuma da 
nacionalidade+. Aqui acabaria verdadeiramente a Histria de Portugal e a das 
nacionalidades ibricas. A Restaurao de 1640 seria o produto artificial da Guerra 
dos Trinta Anos, fomentado pela Companhia de Jesus e pelos estados inimigos da Casa 
de ustria. Mas no teria dado vida a um

organismo, de facto, extinto. Isso no impede Oliveira Martins de continuar a 
histria at  actualidade, embora falhe em explicar satisfatoriamente o

prolongamento secular de uma existncia que ele declarava inanimada desde
1580. Posto que tivesse criticado uma tese tnica (moarabismo) de Tefilo, as 
analogias arturianas do Sebastianismo inspiram-lhe outra teoria tnica: a de uma 
determinante cltica, que acaba por conceber como motivo de expresso lrica e de uma 
expanso ultramarina que, mais tarde, sonha retomar em Angola.

Para levantar esta construo, Oliveira Martins transforma em emblemas figuras como 
D. Sebastio, e valoriza certos fenmenos, como o Sebas-

tianismo. Apesar de ser um competente economista, Oliveira Martins enca-

receu sobretudo os aspectos psicolgicos da origem e desenvolvimento da

nacionalidade, como o Herosmo, o Sebastianismo e outros. So estes pressupostos que 
lhe permitem afirmar que na origem de Portugal est uma von-

tade gratuita de independncia, e que a Restaurao de 1640 se deve nica e 
exclusivamente s condies externas da poltica europeia.

 sobretudo na Lfistria de Portugal que Oliveira Martins melhor expande a sua 
vocao de visionrio ou poeta. Trata-se de um livro imaginativo, denso de smbolos e 
de quadros, com um ritmo ora herico ora fnebre. Mas 

talvez, por outro lado, aquele em que mais se patenteia o carcter espectral das 
personagens, sem nexo efectivo com os acontecimentos, e a interveno de uma 
fatalidade irracional.

Lembremo-nos todavia de que, com tudo o que tem de fantasista ou de


arbitrrio, a Histra de Portugal constitui o mais sinttico retrato colectivo e 
histrico do povo portugus, abrangendo desde o quadro geogrfico at o que 
poderamos chamar hoje a sua descrio fenomenolgica, passando pela psicologia. 
Ningum como Oliveira Martins arriscou uma *teoria+ de Portugal no espao e no tempo, 
teoria certamente discutvel, e mesmo provocante, mas sem dvida rica de sugestes 
que ainda hoje no esto esgotadas.

886                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

0 Portugal Contemporneo procura analisar pormenorizadamente os acontecimentos 
ocorridos entre 1826 e 1868.  o primeiro e mais penetrante estudo de conjunto sobre 
o sculo XIX portugus, e talvez aquele em que Oliveira Martins ps mais da sua 
sensibilidade e do seu conhecimento directo dos factos. 0 autor intentou a, em forma 
de relatos histricos, uma crtica geral do liberalismo portugus.

Segundo tal crtica, que em parte se inspira em Herculano, a revoluo liberal, 
*conquista  mo armada que substitui a classe governativa do Reino+, seria o 
resultado de uma influncia estrangeira, contrria s autnticas razes da vida 
nacional; teria, por outro lado, trazido como consequncia o dom-

nio poltico de uma oligarquia parasitria, em que predomina a agiotagem. Dentro 
desta perspectiva, tenta valorizar os lados castios da personalidade de D. Miguel, 
tomado como smbolo de Portugal *verdadeiro+, * autntico+, que morreu nas linhas do 
Porto, e de maneira geral todas aquelas personalidades que representam uma reaco 
autoritria contra o liberalismo, incluindo Costa Cabral, cuja poltica favorvel  
agiotagem todavia denunciara na

Memria sobre a Circulao Fiduciria. Em sua parte negativa, o Portugal 
Contemporneo constitui um libelo impressionante e convincente, j anun-

ciado alis em Portugal e o Socialismo; mas a soluo que implicitamente sustenta - o 
cesarismo - leva-o a contradies e a deformaes que se notam

facilmente no prprio corpo da obra.

Se a Histria de Portugal  a mais transfigurativa composio de Oliveira Martins, o 
Portugal Contemporneo  a que oferece quadros mais palpitantes e de maior relevo 
plstico. 0 autor conhecera pessoalmente, ou por via de contemporneos, muitas das 
personagens que retrata com vivacidade inesquecvel, e os acontecimentos capitais que 
refere estavam ainda muito frescos na memria colectiva. Daqui resulta um empenho 
pessoal na narra-

tiva e apreciao dos acontecimentos que nenhuma das outras obras tem.
0 Portugal Contemporneo pode, por isso, considerar-se, com todos os seus grandes 
defeitos, a obra capital de Oliveira Martins e tambm uma das obras capitais do nosso 
sculo XIX.

No seu conjunto, estes dois livros so a mais global e comunicativa sntese da 
realidade histrica portuguesa, notvel pela multiplicidade de elementos que integra, 
pela audcia das solues que aventa, pela riqueza de um conhecimento multifacetado 
dos factos, pelo repto aos preconceitos, e

6. @ POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
    887

pela coragem dos juzos sobre o comportamento dos homens e o da colecti-

vidade nacional, coragem patente, por exemplo, na sua apreciao das cavalarias 
ultramarinas. Trata-se, provavelmente, do mais estimulante e original esforo de 
pensamento de sntese de todo o nosso sculo XIX. E, sob o ponto de vista 
historiogrfico, Oliveira Martins, que suporta o confronto com o seu congnere 
Michelet, esboou caminhos precursores das tendncias da actual ambio da Histria 
Total. A sua filosofia pessimista da histria portuguesa  sensvel n'Os Maias, na 
poesia decadentista finissecular (incluindo Junqueiro e A. Nobre), nos saudosistas, 
na Mensagem de Pessoa e ainda

em J. Rgio em certo ps-saudosismo esparso.

Outros historiadores

Oliveira Martins teve larga projeco no pblico geral e em muitos escritores, como 
Guerra Junqueiro, cuja Ptria  em parte um resumo em verso da Histria de Portugal. 
No deixou, porm, uma escola histrica. 0 brilhante surto da historiografia na sua 
poca, de que ele prprio  um dos expoentes, traz o selo de origem de Herculano.

Deixando de lado especialistas, eruditos ou investigadores de cincias auxiliares, 
como

Braamearrip Freire, que fundou e dirigiu o Arquivo Histrico Portugus (11 vols.,
1903-17), o numismata Teixeira de Arago (Descrio geral das moedas portuguesas,
1874), o arquelogo Martins Sarmento, Sousa Viterbo, operoso investigador da histria 
das profisses em Portugal, Esteves Pereira, Pedro de Azevedo e outros, convm 
salientar os seguintes nomes:

Henrique da Gama Barros (1833-1925), que pode considerar-se o mais notvel con-

tinuador de Herculano, na minuciosa e segura histria das instituies polticas e 
jurdicas portuguesas medievais que  a Histria da Administrao Pblica em Portugal 
nos sculos XII a XV (4 vols., 1895-1922; reed. 11 vols., 1945-54), que  um tratado 
de

consulta fundamental.

Antnio da Costa Lobo (1840-9 1), que dentro da mesma orientao deu a Histria


da Sociedade em Portugal no sculo XV, 1903, revelando alis maior poder de sntese 
que Gama Barros.

Alberto Sampaio (1841-1908), que renovou o problema das origens da Nacionalidade, 
estudando alguns dos seus aspectos econmico-sociais num estudo precursor da moderna 
historiografia rural, As Vilas do Norte de Portugal, includo em um dos dois

volumes pstumos Estudos Histricos e Econrnicos (1923), que tm um importante 
prefcio de Lus de Magalhes sobre o autor e a obra (reedio Vega, Lisboa, 1979, 
coill um relevante prefcio de Maria Jos Trindade).

888                                              HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

11111161911061k4FIA

1. Textos de Oliveira Martins (indicam-se, como para Garrett e Herculano, as edies 
em vida do autor):

Phoebus Moniz, 1867 (retirado do mercado pelo autor, mas reeditado postumamente na 
*Coleco Selecta+).

Tefilo Braga e o Cancioneiro, 1869. *Os Lusadas+, ensaio sobre Cames e a sua obra 
em relao  sociedade portuguesa e o movimento da Renascena, Porto, 1872. (0 autor 
refez completamente esta obra no volume Cames, os Lusadas, etc., adiante indicado.)

Teoria do Socialismo, evoluo poltica e econmica das sociedades na Europa, Lisboa, 
1872.

Portugal e o Socialismo, exame constitucional da sociedade portuguesa e a sua reor-

ganizao pelo socialismo, Lisboa, 1873.

As Donatrias de Alenquer: Histria da Casa da Rainha, Lisboa, 1872. A Reorganizao 
do Banco de Portugal, Porto, 1877. As Eleies, Lisboa, 1878.
0 Helenismo e a Civilizao Crist, Lisboa, 1878. Memria sobre a Circulao 
Fiduciria, 1878. Histria da Civilizao Ibrica, Lisboa, 1879; 2. a ed. 1880; 3. 
ed. 1885. Histria de Portugal, 1879; 2.1 ed. 1880; 3. a ed. 1882; 4.1 ed. 1894; ed. 
crtica, 1988, IN-CM.

0 Brasil e as Colnias Portuguesas, 1880; 2. ed. aum. 1881; 3. ed. aum. 1887. 
Elementos de Antropologia, 1880; 2. a ed. 1881; 3, ed. 1885. Portugal Contemporneo, 
Lisboa, 1881; 2. ed. 1883. As Raas Humanas e a Civilizao Primitiva, Lisboa, 1881. 
Sistema dos Mitos Religiosos, Lisboa, 1882. Quadro das Instituies Primitivas, 
Lisboa, 1883; 2. > ed. 1894.
0 Regime das Riquezas, Lisboa, 1883; 2. ed, 1894. Tbuas de Cronologia, Lisboa, 
1884.
0 Emprstimo Real Portugus de 1832, Lisboa, 1884. Poltica e Economia Nacional, 
Porto, 1885. Histria da Repblica Romana, Lisboa, 1885. Elogio Histrico de Anselmo 
Braamcamp, 1887. Projecto de Lei de Fomento Rural, 1887. Artigo *Banco+ no Dicionrio 
Popular, 1887. Portugal nos Mares, ensaios de crtica, histria e geografia, Lisboa, 
1889. Portugal em frica (1. > volume de A Carteira de um Jornalista), Porto, 189 1.

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
    889

Os Filhos de D. Joo /, Lisboa, 1891.

Cames, os Lusadas e a Renascena em Portugal, Porto, 1891 (v. acima o ttulo Os 
Lusiadas).

A Vida de Nuno lvares, Lisboa, 1893.

A Inglaterra de Hoje, cartas de um viajante, Lisboa, 1893: 2. > ed. 1894. Cartas 
Peninsulares, ed. pstuma, Lisboa, 1895 (precedida de biografia pelo irmo Guilherme 
de Oliveira Martins).

0 Prncipe Perfeito, ed. pstuma (contm apenas o cap. 1 da obra inacabada, 1895). D. 
Afonso VI, pea teatral, fixao do texto e notas de G. de Oliveira Martins, 
Guimares Editores, 1989.

De todas estas obras est fazendo uma reedio completa a Livraria Guimares Com

prefcios e anotaes de diversos.

Publicaram-se algumas compilaes de dispersos e inditos de Oliveira Martins: 
Dispersos, compilao de artigos jornalsticos n'A Provncia e n'O Reprter, 
prefaciada por Antnio Srgio, 1923;

Correspondncia (selecta de cartas), Parceria Antnio Maria Pereira, 1926. Pginas 
Desconhecidas, ed. da Seara Nova, 1948, com pref. de Lopes de Oliveira. A Provncia, 
5 volumes, 1958-59; 0 Reprter, 3 volumes, 1958; Jornal, 1960 (compilao dos artigos 
publicados nos jornais com aqueles ttulos), e ainda Literatura e Filosofia, 1957, e 
Histria e Poltica, 2 vols., 1957, que renem dispersos, na citada coleco das 
obras completas da Livraria Guimares.

2. As edies dos outros autores vo indicadas no corpo do captulo.

3. Estudos sobre Oliveira Martins:

Esboo biogrfico, por seu irmo, Guilherme de Oliveira Martins, precedendo as Cartas 
Peninsulares: principal fonte para o estudo da biografia.

Barreto, Guilherme Moniz: Oliveira Martins, estudo de psicologia, 1887 (reed. no vol. 
Ensaios de Crtica, 1944).

Cordeiro, Silva: A Crise nos seus Aspectos Morais, 1898. Figueiredo, Fidelino de: 
Histria de um Vencido da Vida, 1930. Srgio, Antnio: pref. aos Dispersos, idem ao 
Portugal e o Socialismo. Outros estudos nos Ensaios, vols. V, VI e VIII.


Oliveira, Lopes de: pref. s Pginas Desconhecidas, cit. Martins, F. A. de Oliveira: 
D. Carlosleos Vencidosda Vida, 2. ed., 1942; OSocialismo na Monarquia. Oliveira 
Martins e a *Vida Nova+, Lisboa, 1944; Oliveira Martins e os seus Contemporneos, 
Lisboa, 1960. (Entre outros livros e artigos.)

Leal, Raul: Sociologia de Oliveira Martins, Porto, 1945. Saraiva, Antnio Jos: Trs 
Ensaios sobre Oliveira Martins, no vol. Para a Histria da Cultura em Portugal, e o 
estudo Oliveira Martins, na Perspectiva da Literatura Portuguesa no sculo XIX; A 
Tertlia Ocidental, Gradiva, 1990.

890                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Hallensleben, Ekkehard: Joaquim Pedro de Oliveira Martins und der Sozialismus in der 
*Generation von 1865+, tese de doutoramento, Colnia, 1959.

Barchiesi, Roberto: Aspetti dell Opera di Oliveira Martins, in Estudos Italianos em 
Portugal, n. 1 3 0, 19 6 7.

Torres, Flausino: Notas acerca da Gerao de 70, col. *Portuglia+, Lisboa, 1967. 
Lopes, scar: Oliveira Martins e as Contradies da Gerao de 70, *Biblioteca 
Fenianos+, Porto, texto rev. in lbum de Famlia, pp. 11-5-140.

Silbert, Albert: Oliveira et I'Histoire, Paris, 197 1.

A. H. de Oliveira Marques organizou uma Antologia da Historiografia Portuguesa, 
Europa-Amrica, cuja Introduo, reed. em Ensaios de Historiografia Portuguesa, Palas 
Ed., 1988, contm um Esboo Histrico da Historiografia Portuguesa, incluindo as 
correntes historiogrficas posteriores  *revoluo herculaniana+.

Serro, Joel: Portugueses Somos, Lisboa, 1976. Ribeiro, Orlando: Introdues 
Geogrficas  Histria de Portugal, IN-CM, 1977, cap. 1. Silva, Augusto Santos: 
Oliveira Martins o o Socialismo, Lisboa, 1979. Guerreiro, M. Viegas: Temas de 
Antropologia de Oliveira Martins, *Biblioteca Breve+, ICALP.

Martins, Guilherme de Oliveira: Uma Biografia, pref, de Eduardo Loureno IN-CM, 1987. 
Antologias: Joaquim Pedro Oliveira Martins - Temas e Questes, pref. selec. e notas 
de G. de Oliveira Martins, colab. de M. Manuela Oliveira Martins, IN-CM, 198 1; e 
Oliveira Martins, intr. e selec. de Pedro Calafate, Verbo, 1991.

Captulo X

EA DE QUEIRS E A FICO REALISTA

Concepes estticas do grupo a que, em 187 1, pertencem Antero, Tefilo, Oliveira 
Martins, etc., foram, quanto  literatura, apresentadas por Ea de Queirs na sua 
conferncia do Casino A Nova Literatura, subintitulada
0 Realismo como nova expresso da Arte. A sua posio doutrinria de ento, em 
consonncia com o vago radicalismo poltico-social do Cenculo, parecia cortar 
abruptamente com o romantismo fantstico, ousadamente metafrico, humoral e satnico 
das prprias primcias literrias queirosianas de
1866-67; mas, vindo a ser, em Portugal, o mais dotado expoente do rea-

lismo oitocentista, Ea de Queirs consegue associar a uma crtica social

prxima da de Oliveira Martins (ou, anteriormente, entre proudhoniana e positivista) 
uma indita fantasia, quer de humor concepcional, quer j sensvel ao nvel de uma 
frase: dela se desprendem, simultnea ou alternadamente, extraordinrios efeitos, por 
um lado, de apreenso objectiva flagrante, e, por outro lado, de prodigiosa 
transfigurao potica.

EA DE QUEIRS: Vida e obras

Jos Maria Ea de Queirs (ri. Pvoa de Varzim, 1845-11-25 - t 1900-08-16) era

originrio da burguesia culta, filho de um magistrado, mas anteriormente ao casamento

legal dos pais, - o que, devido a um preconceito hoje estranho e por parte da me, 
motivou o seu afastamento do lar paterno.

Estudante de Leis em Coimbra, representou no Teatro Acadmico e passou como

figurante de segundo plano nos movimentos estudantis e literrios chefiados por 
Antero

892                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

e por Tefilo, muito embora, como eles, tenha respirado o novo clima intelectual. S

quase no fim do curso se estreia como escritor, em folhetins iniciados por Notas 
Marginais, na Gazeta de Portugal, que pela sua novidade foram estranhados at ao 
riso, porque

o nosso pblico, mesmo o mais informado, no estava preparado para o novo estilo 
lite-

rrio que o autor, fantasista e familiarizado com a recente literatura em francs, 
pela primeira vez cultivava em Portugal. Estes folhetins vieram a ser escolhidos e 
publicados postumamente nas Prosas Brbaras. Depois de abrir banca de advogado em 
Lisboa, aceita a redaco de um jornal de vora, o bissemanrio Distrito de vora, 
mas regressa pouco depois e agrega-se ao Cenculo. Sob o impulso de Antero, dedica-se 
aqui ao estudo de

Proudhon. Uma viagem que faz ao Oriente para assistir  inaugurao do canal de Suez 
encontra-o j numa fase decisiva da sua evoluo mental - o que se detecta nas 
impresses de viagem, alis tambm sugestionadas por certos orientalistas, as quais 
deixam vrios rastos importantes nas obras posteriores, e que vieram a ser 
parcialmente inscridas no

livro pstumo 0 Egipto, retocado pelo filho mais velho.

 no ano seguinte que publica, em folhetins, no Dirio de Notcias, de colaborao 
com Ramalho, a sua primeira tentativa ficcionista - o Mistrio da Estrada de Sintra - 
, um imbrglio de pardia romntico-passional onde sobressaem pginas queirosianas 
sobre um cruzeiro mediterrnico ou sobre as motivaes do adultrio (edio revista 
1884); que lana, tambm com Rarnalho, As Farpas, e que profere a citada conferncia 
no Casino, onde se acusam leituras de Proudhon, de Taine, de Flaubert, de Renan. A 
carreira administrativa, que escolhera, levara-o a Leiria corno administrador do 
concelho, e no ambiente desta cidade situa o entrecho do primeiro romance que 
empreende dentro da orientao definida na conferncia, 0 Crime do Padre Amaro.

Concorrera, entretanto,  diplomacia, e com a sua colocao em Havana, em 1872, 
afasta-se do meio portugus, aonde s volta a viver curtos perodos; saliente-se, 
dessa altura, um notvel relatrio consular, que denuncia a explorao de emigrantes 
chineses atravs de Macau, e uma viagem aos Estados Unidos. Transferido em 74 para 
Inglaterra, escreve a 0 Primo Bas7io, romance editado em volume em 1878, enquanto 
apura o texto

do Padre Amaro, precipitadamente sado na Revista Ocidental (75), e depois, muito 
remo-


delado, em volume, no ano seguinte, e novamente refundido ainda em 1880. Planeou

entretanto um grande empreendimento, uma coleco de novelas com o titulo de Cenas 
Portuguesas, que refundiu por vrias vezes e sob diversos ttulos: da nasceu a 
panormica social de Os Maias, alm de um conjunto de obras postumamente publicadas, 
mas

ainda hoje carecentes de edio crtica. De caminho ia escrevendo obras em que a 
fantasia tem maior papel, como 0 Mandarim (1880) e A Relquia (1887), enviava para 
jornais portugueses e brasileiros comentrios sobre a vida poltica mundial, por 
vezes satricos

e extremamente sagazes (reunio pstuma em Cartas de Inglaterra, Cartas de Londres).

Com Os Maias (afinal s publicados em 88) pode considerar-se encerrada a fase da

obra de Ea de Queirs iniciada com 0 Crime do Padre Amaro. 0 autor ligara-se a uma

famlia aristocrtica, casando com a irm de um amigo seu, o conde de Resende. Fixa-
se

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
  893

em Paris, para onde  nomeado cnsul em 1889. E sente-se que este observador do 
mundo, que envia da capital da Civilizao, para os pases de lngua portuguesa 
(Portugal e Bra-

sil), os seus Bilhetes de Paris, Cartas Familiares e Ecos de Paris, se decepciona 
cada vez mais com a mais famosa capital europeia do tempo.

Ainda principia a publicar duas obras, a Correspondncia de Fradique Mendes, na

Revista de Portugal (1889-90), e A Ilustre Casa de Ramires, na Revista Moderna 
(1897), obras que s postumamente vieram a ser editadas em volume, apenas em parte 
revistas pelo autor. Mas a sua pena, cada vez mais atarefada, dispersa-se em 
empreendimentos vrios: alm da colaborao nos jornais portugueses e brasileiros, 
funda e dirige uma importante revista, a Revista de Portugal (1889-1892), onde 
colaboram alguns dos seus

companheiros de gerao e outros, como Antero, Oliveira Martins, Alberto Sampaio, 
Moniz Barreto, etc., co-organiza e prefacia o Almanaque Enciclopdico (1896, 1897).

 no meio desta azfama, alis destinada a prover a uma famlia cada vez mais nume-

rosa, que Ea morre na sua residncia de Neuilly, Paris. Deixava ainda indito um 
esplio considervel.

Desenvolvimento da carreira literria queirosiana

 possvel rastrear na obra de Ea de Queirs uma evoluo geral, embora acidentada 
de importantes meandros, que se evidenciam perante a cronologia geral das edies 
feitas em vida do autor, e que se tornam mais difceis

de caracterizar se se tiver em conta a ordenao, ainda hoje por vezes problemtica, 
dos originais sobreviventes. Esses originais s em 1980 se tornaram publicamente 
disponveis, com a entrega do esplio  Biblioteca Nacional. Tal facto permite o 
processo agora em curso de edies crticas, que devem incidir, quer sobre volumes 
publicados sem a decisiva reviso e organizao final do autor, quer sobre livros 
postumamente editados segundo reconstituies (nalguns casos j provadamente 
incorrectas) de manuscritos e at de simples rascunhos ou esboos. A sntese que se 
segue baseia-se no

actual conhecimento dos textos queirosianos, tais como eles se apresentam tendo em 
conta a bibliografia indicada no final deste captulo.


Os primeiros textos literrios queirosianos conhecidos so os folhetins publicados em 
1866-67 na Gazeta de Portugal, postumamente seleccionados ou reduzidos para o volume 
Prosas Brbaras, 1903, com reedies posteriores que integram textos ento excludos 
e depois dispersamente publicados. Consideremos o conjunto hoje acessvel desses 
folhetins, de estilo e temtica to originais e to estranhos na altura da sua 
publica o, mas que,

894                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

no obstante a sua heterogeneidade, se podem relacionar com certas feies da obra 
posterior. Importa notar que a sequncia da publicao original destes folhetins foi 
interrompida durante vrios meses (de Janeiro a Outubro

de 1867), durante os quais o escritor esteve absorvido pela redaco quase total de 
um jornal provinciano, Distrito de vora, ento em oposio poltica:  que, nesse 
intervalo, Ea deixa quase completamente estancar a sua

palpitante veia de imaginao lrica e humorstica, em benefcio de uma actividade 
crtica e doutrinria com referncias democrticas sobretudo proudhonianas, como a 
exaltao da trindade famlia-educao-trabalho, da misso social da cultura, a 
defesa dos assalariados, pequenos camponeses e contri-

buintes pobres, a crtica da demagogia eleitoralista, etc.. Este Ea didctico e 
polemista ter tambm continuidade, mas de um modo cada vez mais iro-

nicamente distanciado, atravs de uma obra de fico sempre criticamente atenta  
sociedade oitocentista portuguesa e de uma operosa produo cro-

nstica surpreendentemente informada e mordaz.

A atmosfera cultural e, em particular, esttica subjacente aos folhetins de 1866-67 
esto caracterizadas por uma excelente Introduo de Jaime Batalha Reis  edio de 
1903 (e alis revista para a edio de 1922) no volume Pro-

sas Brbaras; ajudam tambm a compreend-las alguns textos caricaturais e 
imaginativos do prprio Ea, em especial a Carta a Carlos Mayer sobre a juventude 
coimbr de cerca de 1862-65 (includa nesse volume), a sua con-

tribuio para o In Mernoriam a Antero de Quental, e os episdios de ambiente 
estudantil coimbro de A Capital!.

A caracterstica dominante destes folhetins  urna certa imaginao que, inspirando-
se principalmente em tra os da literatura romntica alem (por transmisso 
francesa), pouco se preocupa com a coerncia judicativa geral, e por vezes com a 
prpria proporo ou unidade de cada texto, mas atinge uma surpreendente novidade 
temtica e estilstica em relao s tmidas tradies romnticas nacionais. No 
conjunto, paira uma intensa fascinao por Heine e Goethe, atrs dos quais se 
perfilam outros vultos contrapostos ao

classcismo francs, como Shakespeare, Dante, os barrocos espanhis e, mais 
imediatamente, Hugo, Baudelaire e Nerval, alm de BaIzac, mas este (nesta primeira 
fase queirosiana) curiosamente inserido entre os grandes modelos romnticos *que 
criam almas, e no [   ... 1 reproduzem costumes+. *Alma+, ou, no plural, * Almas+, 
 mesmo uma palavra-chave deste Ea juvenil.

6. - POCA - 0 ROMANTISMO                                                    895

Uma das mais exaltadas expresses desta alma romntica  a msica alem

(nomeadamente Mozart e Beethoven), que o grupo do Cenculo descobriu, como voz da 
*dor csmica+ ou *mal do infinito+.

De resto, toda a realidade aparece como animizada; trata-se afinal daquele mesmo 
<@pampsiquismo+ de que Antero procurou, durante cerca de 25 anos, extrair uma 
metafisica *positiva+ (isto , compatvel com a ci ncia), e que em Ea de Queirs 
(como em Gomes Leal) subsistir sempre, mesmo em

textos *realistas+, a um nvel microtextual, e talvez mais comunicativo: o da 
metfora que animiza as coisas inertes. Para esse pampsiquismo contribuem duas 
tradies do imaginrio.

H, por um lado, o imaginrio popular (e romntico) de cunho fantasmagrico, macabro, 
miraculoso ou supersticioso, aquele que mais sensivelmente perdura ao longo de toda a 
obra queirosiana, como se fosse uma catarse de medos e supersties inconfessveis; o 
prprio Ea ironiza a obsesso

dos abutres nessas Prosas, e no so menos notrias as dos corvos, dos cemitrios, 
dos corpos humanos (ou troncos vegetais) em decomposio, disseminando-se pela 
*grande natureza+, pela *eterna matria forte+, sob a

forma de tomos soltos que parecem, simultaneamente, materiais e espirituais (e neste 
caso se assemelham s mnadas da metafisica leibniziano-anteriana). Seria inadequado 
procurar qualquer grande consistncia racional neste Ea romntico, que obviamente 
oscila entre o pantesmo, um desmo

filosfico, um tesmo afectivamente cristo (e democrtico), ou um vago monismo, que 
tanto parece materialista como espiritualista. 0 efeito mais procurado  o de 
descarregar (exprimindo-o) um grande pavor pela misria, pela agonia mortal, pela 
cadaverizao, inumao, desagregao do corpo prprio (ou da alma), - pavor a que o 
redactor ope a contrafeita consola-

o (pessimista e misantrpica) de que a vida humana , afinal, toda ela sofrimento, 
injustia, violncia, e de que os *tomos+ dispersos pela morte podero vicejar em 
troncos, flores, formas mais belas e indolores, numa *metempsicose do bem+; mas 
enquanto, paradoxalmente, este termo *metempsicose+ designa aqui a sobrevivncia 
indefinida e jubilosa de substractos corpreos, a alma , vrias vezes, encarada como 
simples dor da existncia individual humana, felizmente destinada a dissipar-se 
(embora, e como j notmos, a

palavra *alma+ corresponda afinal ao mais elevado ideal romntico). Da o

projecto de umas Memras dum tomo, a que por vrias vezes Ea se

896                                          HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

refere, e ainda dois textos de prosopopeia inseridos nestes folhetins: a 
autobiografia do Lume, ou Fogo, divindade tutelar dos homens e que eles reduziram a 
fora blica ou motriz, e a de uma rvore, tambm entidade benigna, antinaturalmente 
convertida em forca.

Esta tradio do imaginrio tradicional funreo apresenta ainda aspectos demonacos, 
mas nesta rea cruzar-se- com uma tradio diferente: a do paganismo, que em certo 
Romantismo alemo (e outro) rene as divindades, ou semidivindades, greco-romanas com 
as dos antigos Germanos (e tambm Celtas). Ea (como ocasionalmente Antero) faz-se em 
vrias obras eco de um importante tema romntico: o tema do *exlio dos deuses+ e da 
*morte de Pan+ (deus, por excelncia, da Natureza) aps a vitria do cristianismo. 
Esse tema surge ligado  ideia do sucessivo ocaso das diversas religies histricas 
(tal conexo , entre ns, tpica de Ea e Antero), e  identificao dos antigos 
deuses indo-europeus como as foras anmicas da Natureza, sobretudo florestal, e 
tende a fundir Pan com diversas figuraes diablicas: o

Diabo, Satans, Mefistfeles.

A grande importncia dada a estas figuraes diablicas ter uma clara continuidade 
na obra queirosiana. 0 Diabo  qualificado como *a figura mais dramtica da histria 
da alma+ e (na sua identificao com Pan) aparece como subjacente a toda uma 
sequncia histrica de deuses, o ltimo dos quais, Jesus, desperta (por sugesto de 
Renan) uma enternecida afeio, como que constituindo o contraplo desse obsessivo 
demonismo. Demonacas seriam todas as formas de progresso espiritual, heresia, 
revolta justa, mas tambm de violncia (inclusivamente inquisitorial), ou traio; e 
entre as Aores do mal+, ou agentes de tentao e traio, salientam-se, j nestas 
Prosas, mulheres (a shakespeariana Lady Macbeth, a flaubertiana Salammb) - obsesso 
que, caracteristicamente, percorrer toda a obra queirosiana, e que dos folhetins da 
Gazeta de Portugal extravasa para alguns esboos de narrativas, de cunho satnico ou 
miserabilista, entretanto insertos no Distrito de vora (0 Ru Tadeu, Farsas).

Nalguns destes textos figuram j certas figuras e mesmo esboos de poemas tingidos 
daquele *satanismo+ que, por comparsaria de Ea, Antero e Batalha Reis, ficou 
personificado num imaginrio poeta, Carlos Fradique Mendes, a quem se atriburam 
vrias poesias publicadas em 1869 na Revoluo de Setembro e em 0 Primeiro de 
Janeiro, poesias pretensamente filiadas numa

6. 0 POCA - 0 ROMANTISMO                                                     897

corrente europeia de *satanistas do Norte+; Ea far mesmo perpassar numa cena de 0 
Mistrio da Estrada de Sintra, 1870, esse Fradique, poeta dandy, prendado, viajado e 
perverso; mais tarde (1888, em volume 1900) atribui a Fradique Mendes uma 
Correspondncia a condizer com certa apresentao, feita por um suposto e 
incondicional admirador que, biogrfica e psicologicamente, o encara como tipo 
acabado do grande senhor cosmopolita, ironicamente arguto e excntrico, em que se 
acumulam todos os mais invejveis predicados da aristocracia de sangue, de fortuna, 
talento e cultura.

A fantasia pantesta, macabra ou satnica, um certo gosto visionrio de grandes 
snteses de histria humana pitorescamente condensada em personagens ou episdios 
simblicos, animadas por sbias e oportunas mincias (que sero sempre um dos seus 
segredos de cronista da vida nacional e internacional), e ainda essa notria 
oscilao entre opostas solicitaes metafsico-religiosas, - tudo isso  completado 
por uma corda de amargo e subtil lirismo amoroso, sobretudo inspirado pelo Intermezzo 
e outros poemas de Heine, a cujo estilo e ritmo, muito inspirado pelo romanceiro 
alemo, mas

transfigurado por um humor j ps-romntico, Grard de Nerval faz corres-

ponder, em verso francesa, um ritmo amplo que evoca o versculo bblico. (Heine era 
de origem judaica.) Ora, quer num dilogo amoroso do folhetim
0 Senhor Diabo, de ambiente lendrio germano-medieval, quer, sobretudo, no primeiro 
publicado dos folhetins, Notas Marginais (onde h parfrases no s, e 
dominantemente, de Heine, mas tambm das prprias poesias de Nerval e de Baudelaire), 
o futuro romancista atinge uma densidade e complexidade humoral totalmente inditas 
no nosso lirismo romntico: imagens do desgosto de um grande amor trado, mas que 
sabe sofrear-se graas a

um humor capaz de surpreendentes e certeiros contrastes, e graas a precisas 
evocaes ora pitorescas, ora devaneantes. De resto, sente-se j, embora por domar, 
uma inventividade que ir amadurecer em Ea: a acumulao imprevista de trs, quatro 
e at cinco adjectivos heterogneos; imagens inditas: *astros como confeitos de 
luz+, ou como *pontas das razes+ de uma

floresta csmica invisvel; *chuva esguedelhada+; *olhos hmidos como violetas 
debaixo de gua+; *a boca esverdeada das feiticeiras+; lances lricos como *tu s o 
pretexto da minha alma+; sonhos, ou vises, caracterizados como *atitudes fantsticas 
e desmanchadas que a sombra d s verdades+; alm de um fundo de qualificaes como 
que polifonicamente bem agen-

HLP - 57

898                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

ciadas que caracterizaremos no futuro romancista, mas que j produzem reconhecveis 
efeitos nestes folhetins, por vezes desequilibrados, mas muito imaginativos, da sua 
juventude.

A viagem que Ea de Queirs fez em 1869-70 ao Prximo Oriente para assistir  
inaugurao do canal de Suez deixa um longo rasto na sua obra. Efeito imediato foi a 
publicao no Dirio de Notcias de uma reportagem, De Porto Said a Suez, muito 
objectivamente precisa, pitoresca, um trabalho jornalstico exemplar, mas com poucos 
traos do j caracterizado estilo pessoal, mesmo que a completemos pelas Notas de 
Viagem do volume pstumo
0 Egipto, com textos ainda carecidos de fixao crtica, e por umas Folhas Soltas s 
editadas em 1966. No entanto, em 1870 a Revoluo de Setembro traz uma srie (que 
ficou incompleta e seria integrada no final das Prosas Brbaras) de nove captulos 
sobre A Morte de Jesus, um Jesus perplexamente recordado pelo testemunho de um guarda 
do Templo, uma emanao espiritual da buclica Galileia, figura de sonho 
transcendente (posto que claramente inspirado por Renan e pelo determinismo 
histrico-geogrfico de Taine), que tanto servir de partida para esboos e verses 
diversas de um cndido Suave Milagre, como, em A Relquia, para a evocao laicizada 
da Paixo crist, num enquadramento satrico anticlerical, que alis tanto abrange o 
catolicismo beato lisboeta como uma evocao fantica e orgistica de h dois 
milnios (inspirada pela Salammb flaubertiana), e onde ir figurar um Pan-Satans 
como entidade subjacente a toda a histria multissecular das religies.

0 Mistrio da Estrada de Sintra, pseudo-reportagem j ornalstica de 1870, alterna 
ingredientes romntico-folhetinescos de terror, paixo insana, sus-

pense, desenlaces inverosmeis, tiradas sentimentais, descries aplicadamente 
enumerativas (muito ao gosto dos anteriores folhetins portuenses de Ramalho), - com o 
tratamento obviamente parodstico de tipos estrangeiros estereotipados, num cruzeiro 
mediterrnico, ou em relaes de alcova ou salo, onde pontifica o satnico Fradique, 
e onde uma histria romntica de adultrio se interrompe do modo mais cptico, numa 
perspectiva e num

estilo de recorte claramente queirosianos.

A conferncia de Ea, em 1871, no Casino Lisbonense sobre 0 Realsmo como Expresso 
de Arte  um enftico e provocativo acto de polmica anti-romntica, uma declarao 
de tica social proudhoniana, *revolucion ria+ e cientfica, que o autor melhor 
concretizar na sua colaborao

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                    899

de 1871-72 em As Farpas e ainda noutros textos posteriores de doutrina esttica, 
embora, de um modo geral, eles constituam simples esquema para uma

obra que, entretanto, se ir realizando de um modo efectivamente muito mais complexo. 
0 primeiro texto queirosiano para As Farpas, de Junho de 187 1,  uma radical 
condenao de todos os aspectos da vida social portuguesa do tempo, em que apenas se 
verificaria *o progresso da decadncia+, -

desde o sistema parlamentar da Carta, aos partidos,  religio burocratizada pelo 
Estado,  Coroa, a um funcionalismo hipertrofiado (que seria o suce-

dneo do velho, *caldo de portaria+ para indigentes),  imprensa,  poesia (produto 
de *pequenas sensibilidades, pequeninamente contadas por pequeninas vozes+), ao 
romance sentimental (*apoteose do adultrio+), ao teatro

(traduzido ou plagiado do francs), aos agentes econmicos sem esprito de empresa 
nem sentido de responsabilidade, inteiramente dependentes de um

crdito que o Estado alis absorve. Nenhuma perspectiva de recuperao, -

alm de uma vaga e iminente *revoluo+ proudhoniana da *Justia+, que Ea apresenta 
como sendo a cordata e suasria aspirao correspondente s Conferncias Democrticas 
do Casino Lisbonense, entretanto em curso (e depois suspensas).

Entre outras ideias a que o prprio ficcionista dar posteriormente imagem, 
salientaremos duas preocupaes: a da deficiente educao das mulheres da burguesia 
lisboeta, apenas preparadas para o casamento rico, a ociosidade domstica (suprida 
por criadas ou amas), a beatice, as fantasias sentimentais, - e esse  um assunto, 
no apenas de parte do artigo inicial, como de outros de Maro e de Outubro de 1872, 
alm, como vimos, de um paradigmtico episdio de 0 Mistrio da Estrada de Sintra, 
pelo que no admira a importncia que o adultrio ou desatino feminino assume em 
grande parte da fico queirosiana; a outra preocupao que salientaremos  a do 
teatro (declamado, lrico ou de simples *mgica+ popular), a que tambm dedica vrios 
e judiciosos artigos.

Embora j sem a insistncia das campanhas do Distrito de vora de 1867, Ea no deixa 
de apoiar os mais desprotegidos (nomeadamente os pescadores, de vida ento muito 
arriscada, pauprrima e ainda onerada de impostos). De qualquer maneira, a violncia 
demolidora atenua-se com o decorrer dos meses; a crtica, sem deixar de ser incisiva 
(nomeadamente quanto ao clero e aos polticos carreiristas), torna-se cada vez mais 
ir nica e imagi-

900                                          HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

nativa, e transforma-se por vezes em simples fantasia hiperblica e burlesca, apoiada 
na percepo muito fina de circunstncias flagrantes, em comparaes imprevistas e 
justas, e na capciosa atribuio, s personagens visadas, de intenes ou atitudes 
por vezes condensadas numa indelvel qualificao psquica, ficticiamente lisonjeira 
(resplandecente, grave, srio, amargo, forte, fino, doce, etc.). A desprendida leveza 
de toque, a contenso judicativa e

at interpretativa, o aparente mimetismo da intencionalidade alheia (e at adversa), 
a justeza e, simultaneamente, o ineditismo de notao, que fazem com que o leitor se 
surpreenda com a informao aparentemente inesgotvel do escritor, manter~se-o ao 
longo de uma extensa actividade cronstica, a partir das Cartas de Londres, 1877-78, 
e das Cai-tas de Inglaterra, 1880-82, reunidas em volumes depois da sua morte.

0 primeiro romance publicado por Ea de Queirs, 0 Crime do Padre Amaro, tem uma 
interessante histria textual, bem patente na edio conjunta, em 1964, das suas trs 
verses (est ainda a ser preparada a respectiva edio crtica). Sado inicialmente 
na Revista Ocidental em 1875, na ausncia do autor, ento cnsul em Newcastle-on-
Tyne, sem que ele o pudesse rever em provas tipogrficas (fase a que sempre atribuiu 
grande importncia), este romance teve no ano seguinte uma edio bastante alterada 
em volume, e passou por uma reviso mais profunda numa reedio de 1880, j depois de 
editado, e com muito melhor xito, o seu segundo romance,
0 Primo Basilio, em 1878.

Entretanto, em 1879, redige de um flego 0 Conde dAbranhos, que apenas seria 
postumamente publicado e que constitui a sua mais contundente

crtica romanceada da intriga poltica constitucional. (0 editor chegou a propor que 
se publicasse sem indica o de autoria.)  o romance que mais directamente 
corresponde  crtica institucional das primeiras Farpas: concentra de um modo 
particularmente sarcstico um conjunto de traos satricos que, diversamente 
doseados, se distribuiro noutras obras por vrios figurantes do carreirismo poltico 
ou burocrtico (o conde de Ribamar, Gouvarinho, o conselheiro Accio, o Pacheco, 
etc.); interessa tambm como primeira rea-

lizao, particularmente agressiva, de um tipo de narrativa muito da predileco 
queirosiana - o retrato ou biografia de uma personagem por um seu incondicional ou 
embevecido admirador, o que corresponde  par dia de um

gnero tradicional, o panegrico, do qual mantm certos reconhecveis estigmas

6. - POCA - 0 ROMANTISMO                                                   901

estilsticos, como comentrios sentenciosos ao gosto ainda barroco, flagrantemente 
convertidos em paradoxos judicativos. Este processo de descrever ou biografar uma 
personagem deixando transparecer os limites, ou ridculos, do suposto narrador 
percorre uma variada gama de ironia, - a Santa

Ironia, que Ea tanto exalta nas Farpas e que posteriormente tanto subtiliza. Assim, 
as pretensas biografias ulteriores de Carlos Fradique Mendes e de

Jacinto (A Cidade e as Serras) evidenciam graus diversos de evidente eufemismo, e em 
A Relquia Ea consegue imaginar uma autobiografia de certa personagem que , ao 
cabo, muito reveladora para alm do nvel de cons-

cincia do prprio narrador; de facto, induz-nos a encar-lo, ora como um vulgar 
espertalho, afinal logrado, ora como testemunha fiel do nascimento

histrico, dezanove sculos atrs, da sua prpria religio, - que alis (e sem

xito) tentar instrumentalizar em seu proveito. Nesta arte de assumir ironicamente 
um ponto de vista e de o reduzir ao absurdo, Ea produzir, mesmo

em termos no-novelsticos, algumas das mais impiedosas demolies formalmente 
amigveis ou reverentes da nossa literatura, como as de certos artigos dirigidos a 
Pinheiro Chagas ou a Bulho Pato, e uma carta endereada, embora no enviada, a 
Camilo Castelo Branco. No admira, por isso, que os dois textos queirosianos de mais 
afectuoso (e at, no segundo caso, comovido) louvor sejam percorridos por um discreto 
fio de ironia: um artigo de 1878 sobre Ramalho Ortigo, em que a sua slida e cordial 
admirao no deixa, contudo, escapar um certo exibicionismo janota ou pedante do 
amigo, e sobretudo o testemunho de 1896 sobre Antero, onde uma sensvel emoo se 
entrelaa com um irreprimvel sorriso, quer quanto  inicial utopia revolucionria do 
amigo, quer quanto ao seu derradeiro ideal de uma

santidade inactiva. J veremos como, nas principais obras de fico queirosiana, este 
efeito irnico por simples focagem do assumido narrador ou protagonista acaba por 
impregnar toda a estrutura interactiva das personagens

no seu respectivo meio.

Na verso definitiva de 0 Crime do Padre Amaro, 1880, conjugam-se trs factores j 
previamente salientes na carreira de Ea mas cuja importncia relativa e cujo 
significado se iro modificando: um dado propsito de crtica social contempornea; 
uma dada percepo de como determinadas

personagens, enganando as outras, se enganam afinal a si prprias, fingindo acatar 
pautas morais de comportamento; e uma certa aurola de sonho

902                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

que elas exalam, ou a que do pretexto no prprio narrador. Assim, em qualquer das 
trs verses deste romance se evidencia uma violenta crtica ao clero catlico que j 
tem razes nos Iluministas (por exemplo, a sua gula e ignorncia em 0 Hissope) ou no 
romantismo liberal (o celibato, j visado em Eurico), e aos efeitos da sua 
burocratizao constitucionalista, da sua presena em lares burgueses (temas 
frequentes de As Farpas e de outros livros

queirosianos). Mas entre a primeira verso e a verso final h importantes 
modificaes: o infanticdio que d o ttulo ao romance deixa de ser perpetrado de um 
modo melodramtico, e passa a envolver coniventes *profissionalizados+ que suprem a 
velha *roda dos enjeitados+, especialmente uma ama

a funcionar como @<tecedeira de anjos+; e verifica-se um processo psquico 
ziguezagueante, pois o padre Amaro no  um sedutor a frio (como o cos-

mopolita Primo Basilio), e o seu cinismo final (*j as no confesso seno casadas+) 
culmina uma conflituosa evoluo moral de auto-intrujice; por outro lado, se 
exceptuarmos alguns juzos autorais directos sobre as personagens e, se, alm disso, 
exceptuarmos os inevitveis juzos dos leitores perante situaes morais, mesmo 
quando apresentadas em termos deterministas -

o texto definitivo do romance e o seu largo mbito social no se podem reduzir a uma 
tese unilateral. Nos captulos finais avultam de facto duas personagens que parecem 
credenciadas como porta-vozes, mas significativamente antitticas, do autor: o 
filantrpico Dr. Gouveia, positivista e darwinista, crtico pessimista mas 
objectivista de uma certa irracionalidade ou dogmatismo, a que atribui, entre outras 
coisas, a tragdia de Amlia, a protagonista, seduzida por Amaro; e o padre Ferro, 
que personifica aquele cristianismo pouco doutrinador mas humanitrio que Ea parece 
ter sempre visto com simpatia.

Por outro lado, deve notar-se que desde a sua correspondncia com Ramalho Ortigo 
ligada  primeira publicao, mal revista, de 0 Crime, Ea de Queirs insistir 
frequentemente, e at em cartas  noiva, no seu escrpulo de *artista+, na sua 
devoo  *Arte+; em 1886 provocar mesmo uma reac-

o crtica de Oliveira Martins,  sua proclamao, no prefcio a um livro do conde 
de Arnoso, de que, em termos de sobrevivncia histrica, *a Arte  tudo - tudo o 
resto  nada+. Observemos j, nos romances com que Ea se consagrou (e consagrou a 
fico realista portuguesa), as manifestaes mais notveis desta vocao artstica, 
que viro afinal a caracterizar o con-

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                    903

junto da sua obra: so coisas que tm que ver com a apreenso de marcas vocais 
audveis, intenes e gestos, represos mas reveladores na interaco das personagens, 
no seu ambiente, e com a permanente margem de auto-engano e de sonho inconsequente 
que as acompanha (ou d pretexto a uma

certa fantasia ldica do narrador). Mas isso no desmente a permanncia, em toda a 
carreira queirosiana, de um impulso tico ou humanista, cujo enquadramento 
doutrinrio se vai alterando mas cuja melhor expresso  inerente  sua fina ironia, 
pois esta  afinal inseparvel de uma certa dose de compreenso daquilo mesmo que 
caricaturalmente denuncia: at quando se trata

do conde d'Abranhos, to objectivamente cnico e torpe, a narrao irnica consegue 
mergulhar o leitor na ingnua infncia rural da personagem, e faz-lo

participar nos seus sustos de um duelo, nas vicissitudes da sua expectativa 
relativamente a uma promoo poltica.

0 propsito de produzir um painel crtico da sociedade portuguesa tal como ela se 
configurou ao longo do Constitucionalismo acompanha, embora com algumas sensveis 
modulaes, toda a obra queirosiana. A concepo germina desde o enftico manifesto 
realista da sua conferncia do Casino

e da demolidora panormica social das primeiras Farpas, at  proposta, feita ao 
editor em 1878, de um conjunto de contos ou romances, sob a designao genrica de 
Cenas da Vida Portuguesa (com a variante de Cenas Portuguesas, entre outras). Nos 
prefcios, artigos e correspondncia para os amigos doutrinariamente mais afins desta 
fase, como Ramalho, Tefilo, Rodrigues de Freitas, e na recepo crtica (bastante 
mais esquemtica) destes mesmos

amigos, Ea aparece como *realista+, ou, de preferncia, *naturalista+, embora 
rejeitando a ligao a qualquer escola e alargando a noo de naturalismo a autores 
como BaIzac, Stendhal, Molire, Shakespeare, e at Homero; pe nfase na relevncia 
moral e *revolucionria+ da arte, na experincia de observao directa, * na 
acumulao beneditina de notas e documentos+, num *processo experimental+ cientfico 
 Claude Bernard, lamentando por isso que a prolongada ausncia no estrangeiro o 
prive da assdua e sempre actualizada observao dos meios portugueses.  alis 
insistente na epistolografia de Ea a insatisfao quanto  justeza dos seus 
caracteres e ambientes portugueses, por motivo do seu afastamento na Inglaterra, mas 
pode tambm ponderar-se o efeito positivo do contraste de costumes que experimentou, 
e sobretudo da familiarizao com a literatura britnica; torna-se particular-

904                                          HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

mente plausvel uma dada influncia do seu to admirado Dickens na ateno aos 
estribilhos, aos tiques verbais e gesticulares dos seus tipos, em relances de 
manifesta simpatia por certas figuras humilhadas, particularmente crianas, embora, 
como veremos, j nos dois romances que lanam entre ns o

realismo professo a realizao esttica extravase da proclamada metodologia 
*experimental+ e, com 0 Mandarm, volte a palpitar aquela nsia fantasista to bvia 
nas suas primcias e doravante cada vez mais sensvel. Ea nunca perder o senso 
realista do pormenor tpico, mesmo de aparncia meramente ideal ou erudita, at 
quando se delicia com diversos exerccios de evocao extica, antiga, de lenda 
hagiogrfica, arturiana ou viking, alguns deles fragmentrios. E foi s num artigo de 
1893, Positvismo e Idealismo, que explicitamente registou o *descrdito do 
naturalismo+ e a sua dvida sobre

a existncia, salvo em teoria, do *romance experimental, de observao positiva, todo 
estabelecido sobre documentos+.

Como tem sido pertinentemente observado pela crtica, os romances queirosianos de 
maior afinidade naturalista no do relevo ao determinismo hereditrio (to 
importante para o seu admirado Zola) nem  dinmica capitalista to bvia em BaIzac, 
mas menos sensvel em Portugal, ainda ento assente na renda rural e na nova 
burocracia constitucional: o seu foco percorre principalmente a engrenagem poltico-
burocrtica instalada desde duas geraes atrs, a influncia de um clero j 
reintegrado no sistema, mas que cer-

tas tradies liberais (herculanianas ou jacobinas) denunciavam, uma educao 
retrgrada, sobretudo popular e feminina, e outros problemas de estagnao cultural e 
social, como a literatura romntica sentimental, a impreparao e alienao 
espiritual da mulher burguesa e um ensino fundamentalmente orientado para a carreira 
burocrtica.

0 Crme do Padre Amaro contm ingredientes de bvia stira anticlerical; 
mencionaremos os de maior extenso narrativa (omitindo pequenos efeitos calculados de 
grande escndalo): um lauto banquete de padres em que Amaro, a debater-se ainda com o 
seu conflito interno, conhece vrios espcimes de bruteza, cinismo, acomodao 
astuta, cupidez, insensibilidade desumana e

violncia inquisitorial reprimida, em colegas da sua diocese; as relaes e falas de 
beatice hipcrita, por vezes perversa, na roda e nos seres da casa de S. Joaneira, 
amante do cnego Dias, falas e devaneios em que a sexualidade represa de Amaro e 
Amlia se confundem com prticas e smbolos devo-

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                  905

tos, e que alis percorrem gradaes diversas de inconscincia ou perversidade; e 
longas retrospeces biogrficas: aquela que explica o destino de

Amlia, com a me viva sucessivamente sustentada por dois clrigos, uma

pujante juventude deformada por frustraes, pela tentao permanente do proco novo 
e pela difusa sensualidade do meio; e aquela em que assistimos a um incio de 
carreira seminarista e paroquial, tipicamente imposta pela proteco a um adolescente 
pobre por parte de uma senhora rica. 0 desfecho

da verso final do romance enfatiza e alarga o seu alcance polmico: poucos anos 
depois do *crime+ e da trgica morte de Amlia, - Amaro, j cnico perfeito, o cnego 
Dias, seu padre-mestre de moral (e depois de concubinato), e o conde de Ribamar, par 
do Reino, comentam reprovativamente as

ltimas notcias sobre o levantamento da Comuna parisiense, e, debaixo da esttua de 
Cames ao Loreto, o titular disserta sobre o sossego e o progresso do Pas, 
flagrantemente ridicularizados pela cena de degenerescncia, vadiagem, atraso social 
que o narrador descreve  sua volta, *sob um cu lustroso de clima rico+. Este 
contraste de definhamento humano geral numa Lisboa

solheira e de paradisaco azul celeste  um Leitmotiv persistentemente queirosiano, 
desde os folhetins de 1867 at aos seus ltimos grandes romances.

Tais elementos de claro objectivo satrico no devem ser isolados da mais

importante inovao deste romance, sobretudo na sua redaco definitiva:  que a 
narrativa queirosiana raramente decorre de modo mondico, na voz

nica de um narrador. Uma grande parte da histria acusa claramente foca-

gens emocionais ou imaginativas por parte de Amaro, de Amlia, muitas vezes o seu 
dueto no processo de enamoramento e de pecado, mas h outros

focos psiquicamente individualizados que nos levam at para fora do mbito central de 
padres e beatas; assim, Joo Eduardo, modesto empregado, cujo amor por Amlia  
preterido pelo do proco, conduz o leitor at  redaco de A Voz do Distrito, onde, 
por despeito, ele publicar o seu comunicado, expresso flagrante de um ingnuo 
jacobinismo, que denuncia os vcios dos


clrigos visitantes de S. Joaneira - e  por sua experincia que, nomeadamente, 
conhecemos o redactor Agostinho Pinheiro, *estilista de vilezas+;  ele que 
testemunha o traioeiro oportunismo do Dr. Godinho, dono do jornal;  ele que est no 
centro da impagvel cena de tasca popular onde avulta a fraseologia exaltadamente 
utpica e grotesca do tipgrafo socialista Gustavo; mas, graas aos traos de 
mediocridade do seu estilo oral, escrito,

906                                          HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

pessoal, a narrativa esbate o protagonismo desta figura, afinal to prxima do 
idealismo (proudhoniano) do autor, e vtima central, solitrio acompanhante romntico 
do funeral de Amlia.  burocracia civil (que Ea, ex-

-administrador de Leiria, conhecia por dentro) atribui a focagem de (entre outras) 
duas cenas de exmio tratamento cmico e pitoresco: numa delas, os mangas-de-alpaca 
assistem, surpresos, ao dilogo inaudvel mas expressivamente gesticulado do 
rancoroso padre Natrio e do obeso e simplrio padre Silvrio, h pouco 
reconciliados, e isto  ento o bastante para se reco-

nhecer uma hbil manobra, que visa a revelao de um segredo de confisso; na outra 
cena, a personagem efectivamente central, a mais empenhada,  o boticrio, 
empertigadamente disposto a testemunhar contra uma hiperbolizada agresso de Joo 
Eduardo ao padre Amaro, julgando brilhar como um paladino eloquente que aniquilasse o 
demnio do republicanismo ateu, mas o administrador apenas aproveita a sua 
pretensiosa presena para facilitar o aviamento de uma receita.

0 que mais contribui para acompanharmos a narrao como um entrecruzado de vozes, 
atitudes e intenes  a captao dos modismos peculiares de cada tipo psicossocial: 
fraseologia das beatas *velhas+ e particular~ mente caractersticas do efeminado 
Libaninho; marcas flagrantes do rancor

vingativo de Natrio, da cnica serenidade do cnego Dias, da lbia verstil do Dr. 
Godinho, do pitoresco alcoviteiro de Dionsia, etc.. H ainda o virtuosismo mimtico 
das cartas e outros escritos de Joo Eduardo, Amaro, Amlia; o dos discursos directos 
ou discursos indirectos livres; das citaes de frases individualizadas ou annimas, 
e das alcunhas; a apreenso de aspiraes ou devaneios. Conhecemos figuras 
profundamente humilhadas na sua

inferioridade fsica ou social mas cuja presena testemunhal afecta a interaco mais 
audvel de primeiro plano: Rua, criadita tsica quase reduzida a simples objecto; 
uma velhota entrevada que s ganha importncia na agonia; Tot, a filha paraltica e 
idiota do sineiro (outra sombra humilhada e

opaca), testemunha ciumenta dos amores sacrlegos de Amaro e Amlia. Os sonhos das 
duas figuras centrais culminam a permanente oscilao entre percepes reais e 
autologros, a sua confuso de sentimentos (devotos e erti-

cos) e, sobretudo em Amaro, o ntido conflito moral, com vicissitudes de remorso ou 
adorao casta, at  final emergncia do amoralismo. 0 tempo inerente  narrao, 
nas suas alternativas de clculo e imprevisto, nas suas fases

6. - POCA - 0 ROMANTISMO                                                  907

de acelerao intensiva e de retardamento, augrios e quiproqus, de aparente 
estabilidade ou descontinuidade radical, personifica-se dominantemente, quase 
binariamente, nestas duas figuras. No entanto, como acontecer depois n'O Primo 
Basilio, os sonhos no funcionam como simples revelao ou

catarse expressionista dos seus conflitos, esperanas, angstias: eles extravasam do 
horizonte de conscincia possvel (mesmo onrica) das personagens e constituem como 
que duplicados ludicamente fantasistas e irnicos do prprio narrador. Salin@e-se o 
sonho em que Amaro, com Amlia abrigada e abraada sob o capote, voa em direco ao 
Cu, perseguido por um

Diabo com a fisionomia de Joo Eduardo e onde surgem episdios como

o de um santo saturado da *monotonia do Cu+, saudoso das *torpezas diferentes da 
Terra+ e at das *variedades da dor+ no Purgatrio, preludiando o tema do conto 
Perfeio, que ser escrito em 1896. Facetas parodsticas como frases corriqueiras de 
Amaro e do Deus Padre (em contraste com a linguagem mais formal do Diabo),  mistura 
com sugestes de uma cosmo-

gonia hibridamente bblica e laplaciana, constituem a mera transposio do humor 
farsesco e imaginativo das Prosas Brbaras.

Embora nas suas primcias flhetinescas e panfletrias Ea de Queirs concedesse  
educao e ao comportamento femininos uma importncia com-

parvel quela que dedica  crtica de tema poltico e religioso, e o motivo

da infidelidade da amada seja mesmo obsessivo, quer nos primeiros textos, quer na 
posterior novelstica (a subalternidade intelectual da mulher e a sua

vocao primordialmente domstica  uma ideia proudhoniana que Ea e os

do seu grupo vrias vezes glosaram), - a verdade  que no encontramos n'O Primo 
Basilio uma to grande agressividade como n'O Crime ou n'O Conde dAbranhos. A crtica 
cedo notou, nomeadamente atravs de Machado de Assis, que Lusa, a protagonista,  
quase inertemente e sem remorsos

arrastada ao adultrio: com ela se romanceiam linearmente certos factores de 
determinismo moral que o autor vrias vezes expusera, como a ociosidade da 
burguesinha da *Baixa+, saturada de cultura sentimental romntica, com desleixada 
educao familiar e colegial, e ainda por cima sem filhos, inserida numa convivncia 
montona, com o exemplo libertino de uma amiga ntima (Leopoldina) e surpreendida por 
um dorn-joanesco primeiro namoro

(o Primo, agora rico, titular e viajado) numa ocasional ausncia do marido.
0 mbito social  restrito, o ncleo  uma roda familiar de convivncia com


quatro tipos particularmente caricatos, cujos tiques orais e gestuais, muito

908                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

especficos da Lisboa de 1875, so colhidos do modo mais flagrante, num

excelente apuramento da tcnica de caricatura social consagrada por Dickens e pelo 
melhor feuilleton francs: o conselheiro Accio, personificao do lugar-comum e da 
hipocrisia burocrtica, verso *alfacinha+ do clebre tipo de Joseph Prudhomme, 
popularizado j nos anos trinta por Henri Monnier; D. Felicidade, solteirona 
supersticiosa e embevecida pelo Conselheiro; o medocre dramaturgo Ernesto Ledesma; e 
um pelintra, azedo e invejoso, falhado Julio. Alm deste meio (que precisaremos), 
ficamos a conhecer pouco mais do que uma vizinhana popular miservel, a consabida 
pasmaceira do Jardim Pblico, o ridculo *tugrio+ do Conselheiro e certos trajectos 
urbanos, obliquamente assinalados pelo drama de Lusa e seus comparsas. 0 enredo que 
lincariza a aco fundamental  o astuto processo de seduo de Lusa, em que o 
primo, sem espessura psicolgica e figurando claramente como plo moral negativo, 
actua como um reagente que precipita recordaes, devaneios, conflitos ntimos, 
hesitaes, recuos imprevistos, mutaes valorativas e decises, numa rede de 
interaces ocasionais com outras personagens. Como n'O Crime, as imagens do sonho 
dormido (e mesmo acor-

dado) nem sempre correspondem  subjectividade verosmil da protagonista: pode,  
certo, aceitar-se como traduo expressionista das angstias de Lusa que a criada 
Juliana, chantagista, a persiga em sonho sob a forma de um enorme morcego ou pssaro 
negro, ou ainda o pesadelo em que Lusa corre atrs da criada com um miraculoso 
dinheiro de resgate, atravs de um enorme

corredor que se estreita at uma simples fenda; mas, quando, noutro passo, Lusa, 
ansiosa de se pentenciar como freira, se imagina na Esccia idlica das suas 
leituras adolescentes de W. Scott, a preciso de trao evocativo  inconfundivelmente 
queirosiana, vai alm daquilo que Lusa poderia autodescrever-se; ainda mais complexa 
 a hermenutica de outro sonho, em que Lusa se v em plena representao de um 
drama de Ernestinho, sentindo-se apunhalada pelo marido como adltera, no meio de 
lances de um grotesco pr~surrealista (uma ovao delirante do pblico, com o Rei a 
atirar ao palco, como bouquet, a sua prpria esfera armilar, e com o Conselheiro a 
desaparafusar a cabea calva para com ela imitar o gesto de Sua Majestade). Com 
excepo de certo pormenor que adiante examinaremos, trata-se de uma apoteose 
burlesca claramente alegrica e autoral (e no psicolgica) do prprio tema do 
romance: o adultrio como mito sentimental

6. - POCA - 0 ROMANTISMO                                                     909

romntico, - e culmina deste modo a ocorrncia de numerosas coincidncias 
chocarreiras, por vezes semelhantes a augrios trgicos, mas tambni frequentemente 
de aluso brejeira, que anunciam, acompanham e rematam a tragdia objectiva de Lusa 
nas circunstncias mais degradantes: a carta

inesperadamente comprovativa do adultrio; a demncia e degradao fsica da 
protagonista, com a cabeleira rapada e o corpo requeimado por custicos ineficazes; 
etc.. Toda a tragdia , com efeito, desde incio acompanhada por omina (pressgios) 
 maneira clssica, s que sempre de tom parodstico, como o dramalho sentimental de 
Ernestinho, e a discusso que ele provoca acerca do direito de uxoricdio por parte 
do marido * trado+; o paralelismo com a paixo serdia de D. Felicidade pelo 
Conselheiro e com as

sucessivas aventuras, sempre insatisfeitas, de Leopoldina; a execuo ou simples 
trauteio de rias inconscientemente alusivas; etc.. A partir deste romance, a reaco 
dramtica mais pungente em Ea  sempre a de um grande vexame:

Lusa  sobretudo vtima de uma escalada de situaes vexatrias, em geral 
conscientemente vividas, mas que o leitor tambm detecta  margem da sua

prpria conscincia e at para alm da sua morte, no ridculo texto de necrolgio do 
Conselheiro e nas prprias circunstncias em que ele  lido a Julio, num caf 
ordinrio. Outra conquista inovadora  propiciada por uma con-

centrao social das personagens, pelo acrescido uso e mestria do processo de 
conotao, ou caracterizao das personagens pela sua simples fala, que adiante 
analisaremos; os dilogos a duo, a trio ou a mais intervenientes constituem como que 
trechos de polifonia vocal em que se detectam conexes entre o dito e o no-dito, na 
interaco dramtica de personagens como, por exemplo, Lusa, Baslio e Julio.

Apesar de a tragdia de Lusa ser a mais desenvolvida e sublinhada, ela  
interdependente de outra tragdia: a da criada Juliana, cuja histria retrospectiva 
merece tambm desenvolvimento pelo narrador. Com uma infncia de humilhaes, mais de 
vinte anos *a servir+, a dormir em cacifos, a comer

os restos, precocemente envelhecida, doente e azeda, e por isso odiada e

alcunhada (*isca seca+, *fava torrada+, *saca-rolhas+), esquecida no testa-

mento pela me do actual patro, depois de a ter tratado com desvelo, -


Lusa dirige-se-lhe com a maior rispidez e o grupo de familiares  unnime em a 
destinar ao hospital logo que a sabe condenada por uma doena grave. A sua obsesso 
consiste em garantir o po da velhice, e  sob a orientao de uma inculcadeira-
usurria que utiliza uma carta comprometedora, gra-

910                                        HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

as  qual obtm da patroa sucessivas melhorias, para condies de vida e

de trabalho que, de facto, j no aguenta, at se lhe impor a chantagem final,

com a exigncia de uma quantia a que Lusa no tem acesso, mesmo passando pelas 
maiores vergonhas. Sebastio, o maior amigo do marido, proporciona ento um 
expediente (abusivamente policial) para reaver a carta

sonegada. Sebastio ama assolapadamente Lusa, que cedo sente que ele  o seu mais 
seguro amparo (no referido sonho pr-surrealista, ele aparece-lhe sob a forma de uma 
carvalheira que a envolve, protectoramente, nas suas ramagens e razes) - e  
impressionante o contraste entre a sua nor-

mal bonomia muito tmida e a impiedosa deciso com que neutraliza (extralegalmente) 
Juliana.

Este romance foi o primeiro grande xito editorial de Ea. 0 tema do adultrio 
feminino serviria de assunto a outra novela queirosiana, Alves & C_ redigida em 1883, 
apenas editada em 1925 (e reeditado em 1970 com correces de Helena Cidade Moura); 
trata-se da infidelidade da mulher de um comerciante com um seu scio, caso que, ao 
cabo de uma grotesca pendncia de duelo, remata pela conciliao, a bem do nome da 
firma, - havendo

apenas a salientar um percurso muito tipicamente queirosiano de imprevistos pequenos 
vexames e alguns sustos, e a explorao das circunstncias por um sogro sem 
escrpulos e por uma criada desleixada.

Entretanto, enquanto trabalha no projecto das Cenas Portuguesas, cujo principal 
resultado ser em 1888 o largo painel de Os Maias, deixando sem

redaco definitiva A Capital!, e meros textos esboados como A Tragdia da Rua das 
Flores, - o escritor, sem largar os apetrechos estilsticos que adquirira para a 
notao objectiva flagrante, faz as suas primeiras incurses de fantasia entre 
extica e fantstica. E assim, no mesmo ano de 80 em que sai a verso final de 0 
Crime e ainda o mais naturalista dos seus contos, No Moinho, preludia noutro conto, 
Um Poeta Lrico, a personificao de um amor idealizado at ao absurdo, que ter a 
sua consumao inexcedvel no Jos Matias de 1897, e publica tambm 0 Mandarim. Esta 
 uma aventurosa histria, inspirada por uma frase j proverbial em Frana (*tuer le 
man-

darin+: algo como adquirir por um assassinato magicamente impune a imensa fortuna de 
um chins). A se associam certas. predileces temticas queirosianas: ambientes 
pelintras de penso, repartio e logradoros lisboetas; a

interveno de um diabo bem apessoado e bem falante, cuja magia actua

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                     911

em termos de rotina bancria; uma pndega reles; um remorso inconsequente; uma 
sentena final de moralismo cptico - e uma orgia de esplendor, violncia e misria, 
numa China semicolonizada por vrios imperialismos ocidentais e onde os paradoxos 
morais e humanos se potenciam ao mximo.

Tudo isto sem perder de vista certas feies portuguesas oitocentistas do heri, 
Teodoro, tal como acontecer com Raposo, o protagonista de A Relquia.

Este ltimo romance, publicado em 1887, , como 0 Mandarim, uma narrativa que, sobre 
um fundo entre extico e mtico, pretende recortar uma

moralidade, afinal muito ironizada. Com efeito, se o desfecho da histria de ambiente 
chins atenua a sua consagrada frmula moral (*no mates o

mandarim+) com uma reflexo, que parafraseia Baudelaire, segundo a qual nenhum leitor 
resistiria  tentao de enriquecer com um crime perfeito, -

o heri de A Relquia acaba por extrair duas sucessivas e contraditrias lies do 
seu golpe falhado de tartufismo, que  o de herdar a fortuna de uma tia beata, 
trazendo-lhe da Palestina uma pretensa *coroa de espinhos+ de Jesus, cujo embrulho, 
desastradamente, se troca pelo de uma camisa de noite de certa cortes de Alexandria. 
De facto, primeiramente, Raposo conclui pela inutilidade da hipocrisia, de acordo com 
uma Conscincia moral imanen-

tista, expressa em termos kantianos, proudhonianos ou anterianos; mas depois descobre 
as vantagens do descarado heroismo de afirmar aquilo que nos con-

vm, mesmo contra toda a evidncia (Raposo poderia ter declarado que, afinal, a 
camisa era uma relquia de Santa Maria Madalena). A novela retoma vrios pequenos 
motivos queirosianos, e apesar da severa autocrtica do autor num artigo, alis 
satrico, motivado pela sua excluso de um prmio da Academia das Cincias, -  
importante compreender o excepcional significado, na carreira de Ea, deste livro, 
uma das suas obras de melhor recepo internacional.

Merece especial ateno o modo como, neste romance, funciona o narrador, 
autodiegtico (isto , nominalmente identificado com o protagonista), pois fica no 
extremo de certo processo tpico de Ea: o leitor  colocado

acima do nvel de conscincia inerente ao prprio discurso, falado ou ntimo, da 
personagem autobiogrfica. Noutros termos: atravs das circunstncias em que se situa 
e de certos traos lingusticos flagrantes, surgem bem cono-

tadas as contradies inconscientes entre os seus juzos explcitos e os seus

comportamentos ou intenes reais. Mas a narrao excede, ainda, a cons-

912                                        HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

cincia do prprio narrador por formas particularmente subtis, numa ironia que atinge 
a prpria fidedignidade naturalista (se se preferir, realista) do suposto relato. 
Assim, h uma conotao de evidente alcance anticlerical, semelhante ao de 0 Crime do 
Padre Amaro e que patenteia as razes erticas ou interesseiras de certa devoo de 
Raposo ou da tia Patrocnio (o embevecimento com coisas que *fazem virtude+; a 
obsesso do precioso *Cristo de ouro+ do oratrio; certas preces despercebidamente 
blasfemas; o uso quer lbrico, quer *beato+, ou misto, de certos diminutivos 
lamechas). Noutro plano mais complexo, embora aparentemente de simples humor 
caricatural, Raposo contracena com o Dr. Tpsius, eminente arquelogo alemo, que na 
lgica narrativa funciona como guia de informao turstica do Prximo Oriente e como 
fonte de erudi o histrica subjacente  reconstituio, num

*sonho+ de Raposo, da Paixo de Jesus (assuntos tratados com extraordinria, talvez 
excessiva, preciso flaubertiana); ora, alm de fsica e psiquicamente caricatural, 
Tpsius tem vergonhosos momentos de oportunismo, ser-

vilismo ou pedantice: presta-se, nomeadamente, a autenticar a pretensa *coroa de 
espinhos+, brindando depois com champanhe * Cincia (germnica)+, enquanto Raposo 
brinda  *Religio (catlica portuguesa de ento)+, no mais paradoxal daqueles seus 
actos hipcritas que depois viria a lamentar, como *humilhaes da razo liberal+. 
Esta contracenao entre Raposo e Tpsius (corno as vrias cenas de intolerante 
profiss o de f teolgica ou pretensamente cientfica a que a narrativa nos faz 
assistir, quer na Lisboa constitucionalista, quer na Palestina romana) aponta para a 
frmula de desfecho do livro, que alis corresponde ao cepticismo quase 
permanentemente expresso por Ea em matria de certezas reveladas ou cientficas (ou 
de progresso tcnico): *esse descarado heroismo de afirmar que, batendo na Terra com

p forte, ou palidamente elevando os olhos ao Cu, - cria, atravs da universal 
iluso, cincias e religies+.

A um nvel mais geral, a narrativa de Raposo excede ainda o narrador em dois pontos 
importantes. Um deles  o tratamento simultaneamente cmico, pitoresco e comovido da 
figura de Alpedrinha, *o derradeiro lusada+, personificao do pcaro portugus, que 
difere do castelhano porque o encon-

tramos aos baldes por toda a parte do mundo, em crnicas quatrocentistas da costa 
africana, em itinerrios dos sculos XVI e XVII, histrias de sertanejos do sculo 
XVH ou XIX, reportagens de emigrantes actuais. Outro ponto

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                       913

 a verso afectuosa, mas cptica e at quixotesca, de um Jesus *visionrio+ em dois 
sonhos de Raposo na Palestina, muito acima daquela sua *razo liberal+, alis 
incompatvel com a sua tambm proclamada ortodoxia, e que contm reflexos de Heine, 
da crtica bblica e traos j a anunciar o *socialismo cristo+ das futuras 
hagiografias queirosianas.  preciso tambm no esquecer que a minuciosa 
reconstituio histrica destes *sonhos+ aparece frequentemente desconstruda por 
toques de humor: Raposo v-se, por vezes, h dois mil anos a acender o seu cigarro, a 
criticar o seu Portugal da Regenerao, e

exprime-se espontaneamente em calo alfacinha. (Eis como comenta um panorama da 
Nazar bblica: *Vistazinha catita!+.)

Os Maias so a mais complexa e consumada realizao correspondente ao projecto de 
Cenas da Vida Portuguesa, que, alm desse romance panormico, apenas ficaria 
representado por obras pstumas, como j vimos, e ainda

inacabadas ou abandonadas, como veremos adiante.

A aco nuclear concentra-se em 1875-76 no crculo de relaes de uma

velha famlia aristocrtica que, em analepse (retrospeco) de dois captulos, nos 
aparece como representativa do sculo XIX, -o que se completa, num eplogo situado em 
1886, por um breve balano muito pessimista, onde Carlos Eduardo (representante da 
quarta gerao varonil dos Maias oitocentistas) condensa uma espcie de verso 
queirosiana do Portugal Contemporneo de Oliveira Martins (editado, relembremos, em 
1881). A arquitectura do romance conjuga expresses extremas de duas tendncias, cujo 
conflito  notrio ao longo da carreira de Ea: a tipificao flagrante de uma dada

interaco humana, que aqui se traduz por um largo cosmorama e por descries 
minuciosas de vrios ambientes sociais lisboetas colhidos num corte sincrnico entre 
o terceiro e o quarto quartel do sculo XIX, -e a alegoria (afinal romntica, embora 
intencionalmente ironizada) de um sonho divino que se degrada numa coisa imunda, ou, 
noutros termos, de um destino pattico sempre contguo a uma comdia grotesca, e com 
traos obviamente alheios ao cdigo da verosimilhana naturalista. Este romance, 
subintitulado Episdios da Vida Romntica, parece realizar um paradoxo: assinala, sob 
cer-

tos aspectos, o apogeu de tcnica deliberadamente naturalista de Ea, mas

trai uma irreprimvel idealidade, que se exaspera ao chocar contra um tabu

moral, mas que est desde incio condenada a um novo tipo de tragdia, com

um remate asqueroso, diludo em tdio diletante, sob um cu lisboeta de

914                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

azul e oiro, que no condiz com uma sublinhada e inexplicada mediocridade ptria.

A sequncia inicial de Os Maias  dominada pela comprazida descrio de um palacete 
lisboeta, o Ramalhete, cujo recheio Carlos Eduardo da Maia acabava em 1875 de 
remodelar sob indicaes de um arquitecto -decorador londrino, para, agora, j mdico 
formado e completado o seu longo (e to britnico) tour pela Europa, vir habitar com 
o av, Afonso da Maia. 0 leitor ficar familiarizado com o edifcio e o terrao, com 
uma idlica nesga paisagstica da Outra Banda (ainda ento rural) e do Tejo (onde 
frequentemente fundeiam couraados ingleses), cuja luminosidade fresca e fina 
contrasta com a fealdade da vida lisboeta. No Ramalhete localizam-se seres e certas 
intrigas-chaves de uma espcie de androceu de dandies, que nos

levam a numerosos outros ambientes e centros de convivncia, -mas ser durante algum 
tempo eclipsado pela Toca, um cottage cujo recheio e

bricabraque so tambm pormenorizadamente descritos e que Carlos Eduardo comprar 
para a sua Deusa, Maria Eduarda, a um britnico amigo, Craft, que  de resto 
testemunha divertida de algumas das cenas mais temperamentalmente meridionais do 
romance. H ainda outros centros ou simples pretextos de convivncia elitria, 
caricaturalmente mais marcados, como as recepes do conde e condessa de Gouvarinho, 
o jantar de homenagem ao banqueiro Cohen, que contribuem para o recorte de tipos e 
opinies em geral ridculos, mas por vezes incidentes sobre os temas bsicos do 
livro. E as relaes alargam-se, espacial e socialmente, at uma corrida em dia de 
sol e poeira no hipdromo de Belm, um passeio romanesco a Sintra, um relance do 
circo Price, e uma rcita de caridade no teatro da Trindade.

0 trao dominante de todo este mundo social lisboeta  a sua nsia de acesso  
civilizao, ou de a produzir como um luxo cultural: isso sente-se nas prprias 
figuras centrais do Ramalhete, e da Toca, que so particularmente anglmanas. Joo da 
Ega, *o grande fraseador+, amigo ntimo de Carlos Eduardo, que Os Maias tratam por 
*John+, e que s vezes parece uma autocaricatura de Ea, exprime tal mania de fiizer 
civilizao de um modo excntrico e volvel, hiperbolizando no fundo alguns dos 
ideais sucessivos ou alter~ nativos da gerao de 71; e as feies mais grosseiras 
dessa mania to tpica encarnam num dos mais prodigiosos tipos queirosianos, Dmaso 
Salcede,

soez e gabarola, imitador servil do protagonista, deslumbrado por tudo o

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                   915

que lhe parece *chique a valer+ ou *podre de chique+: por exemplo, as cor-

ridas de cavalos entusiasmam-no porque teriam decorrido *tal, qual como

l fora (... ); at na pesagem (... ) falmos sempre em ingls+.

Embora o romance seja contado na terceira pessoa e muito dialogal, o

predomnio de uma convivncia de pretenso *civilizada+ limita muito aquela 
espontaneidade que (por conotao de fala e gesto, sensvel ou imaginria, em 
discurso directo ou indirecto livre ou at por devaneio ou sonho) permite, noutros 
romances queirosianos, detectar o carcter ou pulses ntimas das personagens, de um 
modo que  logo notvel ao nvel da sintaxe discursiva. Mas certos dilogos de Os 
Maias, e, principalmente, certos monlogos mudos de Carlos e de Ega, evidenciam uma 
excelente retrica argumentativa e, em geral, auto-falaciosamente conflitual, muito 
rica de razes, aproximaes impressivas, imagens muito suas rias, e tm um perfeito 
aca-

bamento de alta comdia. Os efeitos mais convincentemente conotativos verificam-se na 
linguagem e nas atitudes de figuras ignbeis, sem senso moral e sem gosto, como o 
Dmaso, e o sectrio chefe de uma redaco poltica, ou, em tipos supinamente reles, 
como Palma Cavalo, no seu trato com espanholas e na traio, por dinheiro, de um 
segredo j em si muito sujo, e sobretudo no estilo do seu jornal de escndalos ou 
mexericos. Salientemos todavia, ainda, as tiradas teatrais-sentimentais de Alencar, o 
poeta romntico, de incio to ridculo, mas que, no eplogo, o protagonista v como 
sendo o nico smbolo *genuno+ de um romantismo, que ele, Carlos e Ega, afinal, 
prolongariam. Para alm destes tipos, to impressivos e como que audveis, apenas 
encontramos figuras pitorescamente reduzidas a uma monoma-

nia, um tique, uma frmula discursiva ou uma atitude: o evasivo e estereotipado 
*baritono diplomata+ (Steinbroken), um msico falhado grunhindo o seu spleen 
(Cruges), um degenerado que se afadista (Eusebiozinho), dois carreiristas polticos 
ou burocrticos de crassa estupidez e ignorncia (Gouvarinho, Sousa Neto), a fingida 
austeridade de duas inglesas (miss Sarah e a missionria anglicana que d guarida ao 
adultrio da Gouvarinho), um aristocrata useiro em ciganagem de equinos (marqus de 
Souzelas), um

decrpito *leo+ sentimental (D. Diogo); etc.... Registemos dois altos desempenhos de 
alta comdia: a vivacidade irreprimvel da principal adltera, a

inglesa condessa de Gouvarinho, que consegue prender Carlos Eduardo paralelamente ao 
intenso enamoramento deste por Maria Eduarda; e o dilogo

916                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

cavalheiresco, magistral no gnero, em que o brasileiro Castro Gomes informa Carlos 
Eduardo de que no  marido mas simples souteneur (e em segunda mo) dessa mesma 
Maria Eduarda que, segundo Carlos, pisa terra como uma

deusa dentro da sua nuvem de ouro.

Carlos serve de principal fio condutor ao essencial do romance; mas nos trs 
captulos iniciais, relativos aos Maias seus antecedentes do sculo XIX

e  sua prpria educao familiar e universitria, a principal personagem de 
referncia  o av, Afonso da Maia, que de resto continuar a desempenhar um 
significativo papel, at baquear como vtima de um trgico destino familiar. Atravs 
do seu testemunho directo ou indirecto, temos um vislumbre do antigo regime 
senhorial-absolutista na sua ltima degenerescncia beata, brutal e demaggica ao 
tempo de Carlota Joaquina e D. Miguel, poca que na estirpe dos Maias  representada 
pela figura de D. Caetano, pai de Afonso. Este ltimo passa por uma fase juvenil de 
rebeldia jacobina, e desgosta-se mais tarde do liberalismo instalado; uma estadia 
juvenil (espcie de exlio doirado) na Inglaterra converte-o em smbolo, ao longo de 
todo o romance, daquele aristocratizado liberalismo britnico que em Portugal no 
houve e que Ea ope, miticamente, ao constitucionalismo francs, cuja importao 
fora j criticada por Herculano e Oliveira Martins, sob pontos de vista basicamente 
diversos. No entanto, o casamento de Afonso com uma senhora castia e doentiamente 
beata parece associar-se a outras sugestes de uma explicao hereditria 
(naturalista) dos episdios da vida romntica nas duas geraes seguintes. Esses 
episdios dizem respeito a Pedro da Maia, filho de Afonso, e a Carlos Eduardo, seu 
neto. 0 romance insiste nas analogias fisionmicas, temperamentais e factuais entre 
os dois pares <@romnticos+: Pedro e a leviana Maria Monforte (filha de um negreiro), 
que lhe fugiu, levando-o ao suicdio; Carlos Eduardo, filho desse casal, e Maria 
Eduarda, sua amante, que se acaba por reconhecer como sendo sua irm. 0 romantismo de 
Pedro, quer Ea dizer, a sua sentimental idade, instabilidade e fraqueza de carcter, 
pode parecer fruto da poca e da educao fraldiqueira materna; mas Carlos  criado 
pelo av e pelo preceptor ingls; e essa educao britanicamente ginasticada e 
disciplinada  mesmo posta em contraste com a de Eusebiozinho, numa cena passada na 
quinta beiroa de Santa Olvia, cena algo isolada no romance, pois se distingue pela 
viveza dialogal conotativa de tipos locais. De qualquer modo, Carlos soobra noutra 
variante

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                   917

epocal de *romantismo+: o dandismo, a disperso diletante, o *deixar correr+ ou 
adiamento indefinido, que se verifica mesmo perante a atraco j nauseada de um 
incesto que se tornara consciente.

A narrao raro ironiza este Petrnio de alta burguesia *regeneradora+, comparado a 
um *prncipe artista da Renascena+, a que vrios homens servem de satlites e que 
vrias mulheres amam na sua juventude coimbr, no seu tour, na sua experincia de 
mdico de luxo, de intelectual de salo; apenas se detectam algumas expresses de 
ironia, como quando, em Coimbra, confraterniza com os seus colegas *revolucionrios+, 
num palacete, servido por escudeiros de libr, ou como quando, vrias vezes, 
desbarata fortunas remetendo as contas para o seu administrador, Vilaa. Por outro 
lado, Maria Eduarda  quase s, para o leitor, aquela imagem ideal de uma deusa 
(Vnus, Juno ou Diana) tal como ela aparece ao protagonista (e tal como j Maria 
Monforte aparecera a Pedro da Maia); Ea, em cenas de doura domstica ou de convvio 
dletante, faz-nos esquecer inteiramente que se trata de um anjo cado: parece gostar 
de a vestir com minuciosos requintes de costureiro, e certas cenas a trio (Carlos, 
Maria e sua filha Rosinha) roam mesmo pelo kitsch, apesar do encanto com que o autor 
apresenta a criana (como em

geral todas as crianas). Compreende-se que um heri assim to idealizado precise, 
como nas comdias clssicas, do contraste com um gracoso, que , de certo modo, o 
Joo da Ega. 0 Ega  como que o diabo custdio de Carlos: chama a si toda a sua 
recalcada negatividade. Carlos no se com-

promete com os exageros ou utopias da gerao de 1865 (ou 187 1), e, enquanto 
oportunamente diz coisas sensatas, criticando j, na fico, os excessos de 
cientificidade naturalista, exigindo caracteres apenas definidos pela aco, e, em 
poltica, recusando uma integrao na Espanha, - Ega exalta, alternativa e mesmo 
contraditoriamente, quer o romance de pura monografia experimental, quer um 
parnasanismo todo formalista, e ainda o terror *revolucionrio+, a anexao pela 
Espanha (aps a bancarrota nacional prevista pelo banqueiro Cohen), a manuteno 
pitoresca das sociedades tribais, a venda das colnias, a escravatura sem escrpulos 
- e (confisso suprema) reconhece, por si e por Carlos, no terem nascido para *fazer 
civilizao+, mas

para a colher depois de *regada pelo suor da rnultido+.  ao Ega que, por acaso, 
cabe reconhecer a primeira evidncia de existir um incesto entre Carlos e Maria 
Eduarda; e precede o amigo num discurso ntimo, cheio de auto-

918                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

-engano, de adiamentos, de resolues surgidas por mero acaso, em termos de certo 
ironizados e menos pungentes, mas tambm menos evidentemente retricos do que 
acontecer com Carlos. A tragdia central fora, alis, antecedida por uma espcie de 
verso parodstica, que assinala a fase mais bur-

lesca do livro: Ega alberga tambm numa casa de campo os seus amores

(duvidosamente) secretos com a mulher do banqueiro Cohen, e o desfecho

destes amores  contado pelo prprio *grande fraseador+, ridiculamente corrido de um 
baile de mscaras em trajos e adereos de Mefistfles. Mas  tambm o Ega quem, 
depois de uma *sernana terrvel+, se despede comovidamente, no Entroncamento, de 
Maria Eduarda, -que mais tarde casar com

um aristocrata francs.

Uma leitura naturalista do romance poderia ver nas debilidades morais de Carlos a 
repercusso daquela degenerescncia da sua *raa+ que j angustiara Afonso quando do 
suicdio do filho, -e isso teria como pano de fundo uma degradao mais genrica da 
*raa+ portuguesa de que, desde um folhetim de 1867 dedicado a *Lisboa+, Ea 
insistentemente faz estendal, em quadros depreciativos da vida colectiva lisboeta. 
Mas, ento, para qu tanta nfase na cena de educao de Carlos Eduardo  inglesa, em 
Santa Olvia? Ea, que doravante romanceia, preferentemente, o pas do ponto de vista 
de uma

linhagem nobre (Fradique Mendes, Ramires, Jacinto), no atribui a Afonso os traos 
efectivamente tpicos da nobreza britnica: capacidade de administrao agrria, de 
profissionalidade diplomtica e poltica (local e nacio-

nal); so os fiis Vilaas (pai e filho) quem lhe administra as propriedades, tal 
como ser Vilaa (filho) o administrador de Carlos. A educao saudvel e, em certos 
sentidos, desempoeirada de Carlos nada pde contra uma

dfletante irresponsabilidade dourada que o prprio av perdulariamente fomentou. 
Quando aparece, como uni espectro mudo, de madrugada, a Carlos Eduardo, acabado de 
chegar de casa da irm, ambos cnscios de um incesto j reconhecido e irreprimido, -o 
~os atinge toda uma hereditariedade familiar nefasta, como a dos trdas ou a dos 
Haralet. 0 narrador, que sempre ressalvou tanto quanto pde a idealidade das trs 
figuras centrais, deixa a

lio tica por conta do leitor e (tal como numa cena anterior de anagnrise, ou 
reconhecimento, do parentesco entre Carios e Maria Eduarda) tem o cuidado de se 
descomprometer daquele efeito de terror e compaixo que  preconizado pela teoria 
aristotlica da tragdia: a simpatia espontnea

6 a pOCA - 0 ROMANTISMO                                                      919

do leitor  atalhada por acidentes ridculos,, enganos, coincidncias alegricas ou 
chocantemente brejeiras (como n'O Primo). Para o protagonista, a

catstrofe nada tem de mortal (terminar por fazer no estrangeiro *vida de um homem 
rico que vive bem+):  da ordem do vexame, como acontece com outros heris 
queirosianos, incluindo o prpria Ega, autocaricatura do Autor, o que afinal 
corresponde a uma esttica no menos idealizadora que a do pthos, e que lhe serve de 
contraplo: a esttica da farsa quase mitificadora dos Dmasos e Palmas Cavales, com 
as suas prprias *atitudes, fantsticas e desmanchadas, que o sonho d  verdade+. 
Por isso, n'Os Maas, a comdia de costumes no serve apenas para ritmar uma tragdia 
central nas suas vicissitudes, retardamentos, surpresas: ela  o prprio avesso da 
tragdia, a

que se chega por transies insensveis, como acontece numa fita de Moebius.

J em 1877-78 Ea tinha em projecto um romance (ou conto) de incesto mortal, neste 
caso entre me e filho9 que ele apenas rascunhou e que s em
1980-82 apareceu editado em vrias reconstitues, logo a seguir muito criticadas, 
sob o ttulo de A Tragdia da Rua das Flores. No h dvida de que o original 
respectivo foi deixado de lado, com algumas das suas situa-

es e tipos reelaborados para A Capital! e, sobretudo, para Os Maias. Tanto quanto 
pode ajuizar-se pelas verses publicadas, o texto ficou longe da maturidade 
queirosiana, excepto quanto a alguns tipos ou cenas motivos de misria ou pelintrice. 
No conjunto das Cenas Portuguesas integra-se o referido romance A Capital!, cujo 
primeiro esboo data de 1876 e que comeou mesmo a ser impresso em 1878, mas que 
apenas seria postumamente editado em

1926, numa verso que desde uma edio de 1970 se sabe ter sido reajustada a partir 
de textos ainda no finais e at incoerentes, por aquilo que ficamos a conhecer a 
partir da edio diplomtica, por Fagundes Duarte, dos originais, acompanhada pela 
proposta de um texto tanto quanto possvel crtico (1989). 0 tema  de inspirao 
bazaquiana (Illusions Perdues): Artur Corvelo, jovem provinciano, malbarata quase 
toda uma herana teritando realizar uma carreira literria, um sonho de civilizao e 
um amor romntico, numa Lisboa que ele idealiza segundo os romances parisienses de 
BaIzac.

Alm de reelaborar parte de A Tragdia, completa relances de outros romances 
lisboetas quanto a certos meios de salo, redaco jornalstica ou

intriga social, com uma tipificao por vezes excelente de outros ambientes, como um 
clube republicano jacobino, com uma dissidncia socialista, ambien-

920                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

tes de espanholas, seus mantenedores e *queridos+, folias pelintras de Entrudo

e uma procisso de Cinzas. A narrativa segue linearmente o protagonista, moral e 
intelectualmente medocre, seus solilquios mudos de devaneio, autojustificao, suas 
inconsequncias perante opes incompatveis, e com ele evocamos, por alto, o 
ambiente conimbricense de cerca de 1865, a vida pequeno-burguesa de uma vila 
nortenha, sobretudo domstica (com laivos  Jlio Dinis). Sobressaem certos tipos: 
uma espanhola muito temperamental, certos parasitas lisboetas, uns pandilhas ou 
burlescos, outros mesmo sobranceiros, que depenam o heri; jacobinos facciosos; um 
velhote baboso, actualizao pungente do vicentino Velho da Orta. Importa salientar: 
o maior vexame de Artur, -um jantar de lanamento literrio que o afunda em irriso; 
a visita final de Artur  campa da amorvel tia Sabina (uma das mais comoventes 
figuras queirosianas), onde o narrador prope novas imagens, mais prosaicas, daquela 
concepo serenamente pantestica j proclamada nos folhetins de 1867.

No mesmo ano de 1888 em que publica Os Maias, faz o autor sair n'O Reprter os 
primeiros dos textos que, aps reviso de Jlio Brando, viriam a ser reunidos em A 
Correspondncia de Fradique Mendes (1900, completada por Cartas Inditas de Fradique 
Mendes, 1929). Nalguns casos, as car-

tas atribudas a Fradique servem de pretexto para apresentar tipos ou temas 
enquadrveis como Cenas Portuguesas: a caricatura do poltico influente mas

acfalo (Pacheco); do brasileiro prestamista do Estado, numa tpica penso familiar 
lisboeta (comendador Pinho); um sacerdote inteiramente burocratizado (padre 
Salgueiro); uma acidentada chegada de comboio a Lisboa; -entre outras impresses de 
mido pitoresco informativo ou excntrico (incluindo cartas de um diletante amor 
fradiquista). A Correspondncia condiz com o

extremo aristocratismo e fruidor encielopedismo atribudo a este reelaborado Fradique 
por um seu bigrafo admirador, ironicamente embevecido, numas Memrias prefaciais, em 
que se detecta a metamorfose que vai do cepticismo juvenil dos anos 60, at ao 
dandismo  Carlos Eduardo Maia, mas j a apontar para um certo encanto com as 
tradies e os restos rurais do *genuno Portugal+. Pode mesmo dizer-se que uma das 
cartas de Fradique dirigida a uma imaginria M. me Jouarre preludia claramente A 
Cidade e as Serras.

Em 1900, mas j depois de Ea falecido, foi publicado em volume A Ilustre Casa de 
Ramires, com uma verso anterior incompleta sada na

6.3 POCA - 0 ROMANTISMO                                                      921

Revista Moderna, de 1897 a 1899. Se n'Os Maias a parte ento decorrida do sculo XIX 
portugus  encarada a partir de quatro geraes de uma famlia nobre, este posterior 
romance personifica, num Gonalo Ramires de fins do terceiro quartel do sculo, um 
impreciso sonho que pretende continuar certa tradio herica nacional, representada 
pela genealogia milenar dos Ramires. 0 protagonista surge logo de incio no acto de 
romancear uma gesta ferina de antepassados seus do sculo XIII, e essa novela 
histrica prolongar-se-, intermitentemente, at coincidir com uma reviravolta 
radical do prprio comportarnente tmido de Gonalo; mas logo a seguir a esse breve 
incio, a narrativa primria, em cerca de seis pginas, atribui um acto notrio dos 
Ramires a cada fase da histria ptria, incluindo uma decadncia que (diversamente de 
Herculano ou Oliveira Martins) parece posterior  guerra da Restaurao. Assistimos, 
de facto, em narrativa primria, ao processo que conduz a uma rfietamorfose moral de 
Gonalo, isto a contracenar constanternente com a novela histrica e com alguns seus 
afluentes: o Fado de Ramires, na voz e no violo do Videirinha, certo poema histrico 
de um

tio, e vrias informaes lineagistas ou lendrias. So por vezes pouco sensveis as 
transies entre a narrativa primria e a narrativa nela inclusa, porque o 
distanciamento dialogal e cultural medievista se encontra, em geral, atenuado pela 
sua narrativizao em discurso indirecto, e porque o prprio acto de narrao por 
Gonalo se exibe a si mesmo a cada passo, com referncias s respectivas fontes 
literrias ou histricas e ao modo como as altera, com interrupes extrnsecas, 
incluindo certas condies materiais bem  vista da prpria redaco, Gonalo serve 
de fio fundamental de continuidade  narrativa primria, que alis insere fragmentos 
do seu discurso ntimo, devancante e enganosamente autovalorativo ou 
autojustificativo; mas, at  referida metamorfose moral, no reside nele o foco 
judicativo da narrao, muito claramente irnica na maior parte do romance.  tratado 
com

humor o prprio mote que incentivou a novela histrica: a *necessidade, caramba, de 
reatar a tradio+, atribudo a um Castanheiro *Patriotinheiro+, colega coimbro de 
Gonalo; mas este humor de descomprornisso em relao  fico histrica integra-se, 
afinal, numa evidente ironia quanto  duplicidade do protagonista que a narra: os 
seus monlogos ntimos destinados a iludir, e at mesmo a virar moralmente do avesso, 
actos como a falta ao compromisso de arrendamento de uma terra, as fanfarronadas (de 
desabafo

922

HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

externo e interno) perante uma ameaa do rendeiro prejudicado, a reconciliao 
interesseira e vergonhosa com Andr Cavaleiro, que lhe pretende seduzir a irm, o 
projecto de um casamento indecoroso, o recurso a um artigo de denncia annima, 
fraquezas vrias perante ameaas, discordncias ou dependncias,

Esta ironia cessa a partir do antepenltimo captulo, onde se prepara um desfecho que 
contm uma tese bvia: a de um resgate nacional pelo colonialismo africano (ideia j 
anterior em Gonalo, e por vezes, como em Oliveira Martins, ligada a um projecto de 
industrializao), e por um novo e utpico ascendente da nobreza tradicional,  
margem do regime representativo ento vigente. Notemos que o autor deixou os trs 
ltimos captulos quase inteiramente em fase de manuscrito, e que  em geral muito 
importante o trabalho queirosiano feito sobre'provas tipogrficas. A metamorfose 
final do heri vem a seguir a uma meditao compungida sobre as suas prprias 
fraquezas e a um sonho seu de evidente construo expressionista autoral (como outros 
que j exemplficmos em Ea), mas que aqui faz as vezes de uma determinao psquica 
de Gonalo: deita-se, envergonhado, mas      junto  cama surgem os rostos, depois os 
corpos e as armas dos antepassados, * como a assembleia majestosa da sua raa 
ressurgida+, a exort-lo  luta. Ele acorda e principia por reagir (com algum 
exagero, de que se arrepende) contra os conselhos do criado; castiga depois, a 
cavalo-marinho, um pimpo que mais uma vez o desconsderava; persuade a irm, 
Gracinda, a afastar-se do dom-joanesco Andr Cavaleiro; remata a sua novela medieva 
com um imaginoso, intenso episdio de guerra e de sdica vingana; arreda o projecto 
do tal casamento; orgulhoso da sua estirpe milenria, recusa um ttulo nobilirquico, 
merc que a monarquia liberal prodigalizava a ricos burgueses; obtm facilmente uma 
vitria eleitoral, que atribui  sua *suprernacia paternal+ sobre as aldeias 
estendidas  sombra da sua Torre de Santa Ireneia. Mas despreza a carreira poltica 
em troca de uma concesso na Zambza, donde regressa quatro anos depois * com um 
entusiasmo de fundador de Imprio+, esperado por *toda a flor da nobreza de Portugal, 
de velha, da boa+, como relata uma parenta. No desfecho, um compatrcio v Gonalo 
Ramires como imagem de Portugal, pelo misto de qualidades e defeitos que o romance 
largamente evidencia: a bondade, muitos fogachos efmeros a alternar com o aferro a 
certas ideias, generosidade, desleixo, imaginao, exageros que vo at  mentira, 
viveza, e esperana constante em algum milagre.

6. - POCA - 0 ROMANTISMO                                                    923

No ltimo decnio de vida, Ea publicou em revistas vrios contos de que em 1902 Lus 
de Magalhes fez sair um volume selectivo com retoques. Entre esses contos 
salientemos j Civilizao, 1892, que corresponde a um

dos temas mais insistentes na obra queirosiana e serviu de ponto de partida para o 
romance A Cidade e as Serras, editado em 1901, num texto revisto por Ramalho Ortigo 
e Lus Magalhes, mais tarde rectificado em edies de Helena Cidade Moura e de que 
ainda se aguarda uma edio crtica. Ea d aos seus contos um acabamento 
particularmente cuidado, que geralmente insinua uma moral. Civilizao ridiculariza 
aquilo que hoje designaramos como obsesso sumpturia do consumo, representada por 
um palcio lisboeta cujo dono, Jacinto, disporia, na sua biblioteca, de um 
*monumental. armazm do saber+ com *sagazes e subtis instrumentos+ auxiliares ou 
*facilitadores do pensamento+ e ento ainda modernos: mquinas de escrever, 
telgrafo, fongrafo, telefone, *autocopistas+, -alm de requintes gastronmicos e 
outros e de uma aparelhagem correspondente aos actuais termstatos e instalaes de 
ar-condicionado, tudo combinado com as formas tra-

dcionais de luxo e ostentao social (criadagem, bricabraque). Mas assistimos ao 
constante *bocejo cavo e lento+ de Jacinto (*sofre de fartura+, diz o escu-

deiro). A necessidade de uma ida ao seu abandonado e escalavrado solar nortenho, com 
percalos imprevistos nas comunicaes, preparativos, transporte da complicada 
bagagem atulhada de *civilizao+, conduz a uma expe~ rincia inicialmente 
desagradvel de incomodidade serrana, mas depois a

um processo de integrao rural, de que o narrador, um amigo de Jacinto, faz a mais 
insinuante cloga da literatura portuguesa. A lio bsica  a da reintegrao mais 
imediata possvel dos seres humanos no Todo de que as

mediaes tcnicas e culturais os exilaram, e tal filosofia retoma certo paritesmo 
das Prosas Brbaras: *Na Terra tudo  vivo-e s o homem sente a dor e a desiluso da 
vda.+

A Cidade e as Serras , na parte de critica  *civilizao+ urbana, o desenvolvimento 
parisiense, redundante e dispersivo deste conto, com uma multiplicao satrica dos 
tipos e episdios da alta burguesia cosmopolita e das

sucessivas ou cumulativas actividades sociais, do dandismo cultural *fradiquista+ de 
Jacinto (ou do seu narrador Z Fernandes); por outro lado, a buc-

lica portuguesa, agora situada em Tormes, apura os seus ingredientes cmicos e 
pitorescos, com um ou outro aspecto interessante (e at surpreendente),

924                                           HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

mas por entre uma notria heterogeneidade, se no incoerncia: o burlesco macabro de 
uma atarantada arrumao de ilustres ossadas genealgicas; utopias agronmicas de 
Jacinto; a sua surpresa perante casos de misria rural, logo seguida por uma utopia 
filantrpica (dotao de moradias salubres, escolas, creches, bibliotecas, projeces 
de lanterna mgica ... ), na continuidade de uma certa caridade esmoler dos Maias e 
de Fradique; sobrevivncias rurais nortenhas do mito sebastianista; etc.. Este 
romance  a mais clara expresso do permanente cepticismo tecnolgico, cientfico, 
filosfico e teolgico de Ea. Notemos que tal cepticismo se compagina com unia 
grande curiosidade fradiquista, atenta ao pitoresco ou ao ineditismo erudito, 
sobretudo to sensvel nos contos, nas crnicas, nos textos mais fantasistas, - a 
verdade  que ele fez o elogio da cincia de almanaque, no primeiro dos dois 
Almanaques Encclopdcos que organizou para 1896-97. A sua tambm permanente 
desconfiana quanto a mecanismos tem aspectos evidentemente ultrapassados (stira s 
mquinas de escrever e calcular,  bicicleta, ao ar-condicionado), mas ressalvemos 
uma certa previdncia quanto  mania consumista e  degradao ecolgica.

J de caminho ficaram referncias essenciais aos contos queirosianos que condensam 
vrias das suas predileces temticas: o realismo-naturalismo social de 
Sngularidades de uma Rapariga Loira e de No Moinho; o idealismo levado at ao 
absurdo, mas bem figurado por uma precisa circunstancializao narrativa (Um Poeta 
Lffico, Jos Matias), Lembramos ainda a insistncia lrica do maravilhoso cristo em 
Suave Milagre (com trs verses alm de variantes inseridas noutros livros); a serena 
cadncia homrca que em

A Perfeio reveste a to reiterada ideia queirosiana de que o homem, como tal, s se 
reconhece no seu esforo situado entre coisas imperfeitas (parado~ xalmente, notemos 
que Fradique no escreve livros por no dispor ainda de uma *prosa perfeta+, pois 
sofre, como Carlos Eduardo e Jacinto, de um

perfeccionismo expectante). Ado e Eva no Paraso no passa de um divertimento de 
almanaque:  um arnlgama da Gnesis bblica, com certa antropologia gentica, hoje 
envelhecida. Mencionemos ainda quatro fantasias exem-

plaristas, de atmosfera histrica mais ou menos densa: A Aa; 0 Tesouro;
0 Defunto; Frei Genebro. 0 ambiente franciscano deste ltimo conto leinbra as suas 
trs tentativas hagiogrficas: Santo Onofre, rematado por uma

espcie de suave milagre de um anacoreta torturado quanto  sua prpria

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
   925

sinceridade na f, que se salva no momento em que oferece a sua prpria alma pela 
sade de uma criana; S. Cristvo, tambm rematado por um suave milagre do Deus-
Menno, com uma evocao histrica medieval inspirada por Michelet e com uma fase em 
que o santo gigante se alia a um levantamento dos Jacques, ou camponeses pobres, 
encarado como sendo apenas um episdio da secular revolta dos oprimidos sociais 
contra os opressores (tema que n'A Relquia se liga  Paixo de Cristo); e um S. Frei 
Gil, lendrio santo (e espcie de Fausto) portugus, cuja ambiciosa biografia ficou 
incompleta na fase da adolescncia.

A importncia de Ea de Queirs na fico em prosa portuguesa no nos deve fazer 
esquecer a notvel e irnica finura dos seus comentrios aos acontecimentos nacionais 
e internacionais. J nos referimos  sua colaborao nas Farpas, depois publicada  
parte sob o ttulo de Uma Campanha Alegre. Contemporneo das primeiras grandes 
expanses do imperialismo capitalista, Ea de Queirs soube interpretar lucidamente, 
quer as efemrides anedticas mas significativas, quer os factos decisivos, como, por 
exemplo, a

Comuna de Paris, a questo irlandesa, a colonizao do Egipto pela Gr-Bretanha e da 
Indochina pela Frana, a evoluo imperial alem, furtando-se com ironia aos 
preconceitos dominantes, apoiando as causas humanitrias sem nfase nem 
sentimentalismo, e prevendo at consequncias sem se dar um ar de profeta (Cartas de 
Inglaterra, Ecos de Paris, Notas Contemporneas, Crnicas de Londres). Registemos 
ainda a importncia da sua epistolografia, que, para alm dos dados referentes  
histria externa da sua

obra e  sua convivncia, se caracteriza por um excepcional dom de naturalidade 
conse-

guida  margem do seu j to plstico estilo do escritor. Chegam a ser comoventes as

cartas que, com cerca de 40 anos de idade, ele dirige  mulher com que vir pouco 
depois a casar, e onde, em frases eufmisticamente brincadas, recorrendo mesmo  
expresso indirecta em ingls ou francs, ou a recursos ldicos, para iludir a tpica 
barreira tradicional portuguesa entre a 3. a pessoa gramatical cerimoniosa e o tu de 
intimidade; se sente palpitar a insegurana de quem sabe no ter sido o noivo 
preferido e insinua a splica envergonhada de a single lttle loving word.

Ea de Queirs como artista ao nvel da lngua

Ea de Queirs pertence ao nmero de grandes artistas que mais modelaram a lngua 
literria portuguesa, e pode dizer-se que das suas mos saram uma tcnica e 
paradgmas estilsticos ainda hoje muito correntes na nossa

prosa literria. De resto, o apuro que imprimiu  arte da expresso verbal, 
permitindo ao Portugus literrio uma recuperao de vrios decnios

926                                          HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

de atraso em relao ao Francs e Ingls, surpreendeu os contemporaneos e foi 
repreendido como galicismo; e a sua influncia foi mesmo relevante para o Castelhano 
literrio, que, desde a renovadora gerao de 1898, lhe no deve menos que s 
ousadias estilsticas do seu contemporneo modernismo hispano-americano.

Ele soube, com efeito, continuando e metodizando o impulso de Garrett, reaproveitar a 
linguagem corrente, captar-lhe recursos rtmicos e sin-

tcticos, tirar partido do seu vocabulrio habitual, torn-la apta a exprimir uma 
intencionalidade bastante mais densa do que anteriormente.

As caractersticas queirosianas da arte da prosa compreendem-se melhor  luz de uma 
espcie de agnosticismo que, a propsito de diversas personagens, cria a iluso de 
sucessivas subjectividades levadas ao absurdo sem que se afirme uma objectividade 
definida. Assim, o discurso semidirecto, ou estilo indirecto livre, que incorpora na 
transcrio indirecta de uma fala individual os modismos da sua oraldade, instaura 
uma ambiguidade entre o objectivo e o subjectivo, acostuma-nos a sentir como as 
realidades esto sempre afectadas por uma voz, por um pessoalismo limitado; o 
trnsito de coisas a qualidade, e vice-versa, suposto na sua adjectivao (exemplo: 
*dignidade desabotoada+; o *lindo espanto+ de uma mulher), o trnsito de aces a 
propriedades ou estados, ou vice-versa, suposto na sua estilstca do verbo (exemplo: 
*teve um brado de terror+), insinuam uma incerteza, por assim dizer, ontolgica, uma 
incerteza acerca da prpria estrutura material da realidade; e at a anmizao das 
coisas inertes, e, inversamente, a materializao dos estados psquicos, a 
justaposio do animado e o inanimado, que o seu estilo exprime por tantos modos 
(exemplo: *a tarde descia pensativa e triste+), parece pr no mesmo plano de 
verosimilhana irnica o senso prtico ou cientfico -e a viso infantil, 
supersticiosa ou inconscientemente mitolgica, das coisas,

J vimos como a nova estilstica queirosiana da adjectivao, dos nexos

contraditrios e inesperados entre o anmico e o inerte, a aco e o estado, o fsico 
e o moral, a qualidade e a coisa, corresponde a um sentido agudamente potico da 
realidade. 0 que mais impressiona, talvez,  primeira leitura de Ea de Queirs,  a 
claridade intelectual que transparece da sua expresso. Uma anlise mais atenta do 
seu estilo confirma, efectivamente, que a

inteligncia desempenha um papel primacial na construo da sua prosa e

6. >POCA - 0 ROMANTISMO                                                             
     927

que Ea passou todas as suas frases ao crivo da reflexo, eliminando a obscuridade 
resultante de sincretismos afectivos ou de noes trivializadas. Por isto mesmo, a 
anlise do estilo de Ea serve como excelente exerccio pedaggico.

Em qualquer das suas descries ou cenas, toda a adjectivao e todas as imagens 
concorrem para cingir uma impresso central bem precisa, evitando a desfocagem que 
poderia resultar da tentao dos efeitos de pormenor dispersivos. A anlise de 
pequenos contos como o Suave Milagre ou A Aia poria este processo a claro. 0 Suave 
Milagre oferece em conjunto uma construo simtrica que se condensa em frases-
resumos, como: *Obed  rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus por areias e 
colinas, desde Corazim at ao pas de Moab. Septimus  forte e tem soldados, e 
debalde correram para Jesus, desde o Hbron at ao mar+. Todo o pensamento do conto 
est calculadamente concen-

trado nestas e anlogas frases paralelsticas. Neste e noutros textos seria fcil, 
por outro lado, mostrar como as imagens se concentram para um efeito convergente, 
numa premeditada economia. No  por acaso que se diz que Obed *tinha o corao cheio 
de orgulho como o seu celeiro de trigo+. E no h comparao aqui que no evoque uma 
viso rural da Palestina: a esperana  *deliciosa como o orvalho nos meses em que 
canta a cigarra+, e a triste viva, engelhada pela doena, estava *mais escura e 
torcida que uma cepa arrancada+.

Em resultado desta elaborao elarificadora, Ea chega a uma adjectivao ou 
adverbiao que, no fundo, pressupe uma anlise sagaz. Eis um caso

tpico, nesta frase colhida no conto A Aia: *A'Rainha chorou magnificamente o Rei. 
Chorou ainda desoladamente o esposo, que era formoso e alegre. Mas sobretudo chorou 
ansiosamente o pai que assim deixava o filhinho desamparado+, etc.. Os trs advrbios 
exprimem trs registos que o autor

habilmente distingue, preparando com insistncia no ltimo a sequencia da narrativa. 
Assim, o adjectivo ou o advrbio (como *o adjectivo da aco+ ou do processo) tendem 
a exprimir disposies subjectivas, mais do que atributos reais arrastados pelos 
objectos ou pelos factos. 0 Raposo de A Relquia usa na lapela um *fLtil raminho de 
violetas+ - ftil, porque (por uma

transposio de qualidades muito tipicamente queirosiana, a hiplage das retricas 
antigas) exprime a futilidade do portador. No raro, mesmo nas pginas realistas de 
Ea, o adjectivo funciona como forma indirecta e irnica de ridicularizar o juzo de 
algum (ou a vox populi) relativamente aos factos relatados. Falando do pequeno 
Carlos *- Mas  muito esperto, minha senhora - acudiu Vilaa. -  possvel - 
respondeu secamente a inteligente

928                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Silveira+. *Inteligente+ ironiza aqui uma suposta reputao da personagem Silveira. 0 
mesmo processo  usado na referncia ao *silncio repleto e

fecundo+ de Pacheco, silncio que a incrtica opinio dominante reveren-

ciava como a ruminao de *um grande talento+.

Deste tratamento do adjectivo, dando-lhe um carcter conotativo mais do que 
descritivo, soube Ea tirar mltiplos efeitos. 0 adjectivo serve para insinuar um 
antropomorfismo mitolgico da natureza, como quando o autor

se refere  *palidez dos cus espantados+ e ao *claro enfiado do sol+, espectadores 
dos movimentos e combates dos monstros pr-histricos, ou para exprimir aquele 
trnsito ou ambiguidade atrs notados, entre a intimidade

e a exterioridade, como quando nota uma *campainhada humilde+ ou o *ln-

guido toque+ da sineta do comboio. 0 mesmo acontece com o advrbio, quando diz que 
*alvejavarecolhidamente o fino e claro prtico de um tem-

plo+. Ea maneja o advrbio portugus com uma percia que, em regra, s Flaubert e os 
pr-simbolistas franceses conheciam, obtendo com eles efeitos de sugesto rtmica e 
de superlativao at ento desconhecidos * <cabe~ ]os magnificamente negros+).

Aspectos muito importantes a considerar no tratamento do adjectivo so as 
transposies no tipo de *largas pernadas esguias+ (em vez de *largas pernadas de 
pernas esguias+) ou de *o carro, lento, passou+ (em vez de *o carro passou 
lentamente+), que restauram a riqueza analtica da frase, condenada a perder-se em 
associaes mais formulares ou dormentes.

De notar  que tal efeito se realiza atravs de maior justeza na apreenso de traos 
objectivos ou intenes e no por uma acumulao de palavras ou

pela tortura da sintaxe. Pelo contrrio, Ea deixou de lado os termos de uso menos 
correntes, as variedades sintcticas da lngua escrita tradicional, tendendo antes a 
reduzir a um tipo nico tipos vrios possveis de ordem frsica. Assim, no tirou 
normalmente partido de certa flutuao caracterstica da sintaxe portuguesa na 
ordenao das partes da frase, preferindo, em regra, a ordem idiomtica no-marcada: 
sujeito-predicado-complementos.

0 interesse estilstico de Ea no vem, todavia, apenas deste esforo ana-

ltico no sentido da preciso e da clarificao; h na sua prosa tambm um

alvo mais restritamente esttico, que se revela no emprego frequente de cer-


tas palavras, como fino, claro, vago, mole, macio, largo, fresco, luminoso.

6. a pOCA - 0 ROMANTISMO                                                            
  929

Nas suas criaes fantasistas abundam as vises de UM mundo de formas que  fcil 
aproximar das evocaes parnasianas, como se verifica pelo seguinte exemplo:

*Uma tarde avistaram, sobre o poente, vermelho como uma rom muito madura, as neves 
finas do monte H rmon. Depois, na frescura de uma manh macia, o lago de Tiberade 
resplandeceu diante deles, transparente, coberto de silncio, mais azul que o

cu, todo orlado de prados floridos, de densos vergis, de rochas de prfiro e de 
alvos terraos por entre os pomares, sob o voo das rolas.+

Este ideal de serena beleza plstica est muito presente na obra de Ea, que atribui 
a Fraclque a ambio de criar uma forma que, *s por si prpria e separada do valor 
do pensamento, exercesse sobre as almas a ac o inefvel do absolutamente belo+ - 
*algurna coisa de cristalino, de aveludado, de ondeante, marmreo, que s por si 
plasticamente realizasse uma absoluta beleza+. A tendncia plasticizante a que se 
refere este passo revela-se em muitas pginas de Ea, corno quando evoca a recitao 
de Eusebiozinho:

*Abria a boca; e, como de uma torneira lassa, veio de l escorrendo, num fio de voz, 
um recitativo lento e babujado.+

Mas no seu conjunto a viso de Ea  radiante e luminosa, como quando descreve o 
Carlitos balouando-se no trapzio:

<@Descia sobre o terrao, cavando o espao largamente com os cabelos ao vento; depois 
elevava-se, serenamente, crescendo, em pleno sol; todo ele sorria; a sua blusa, os 
cales enfunavam-se  aragem, e via-se passar, fulgir o brilho dos seus olhos muito 
negros e muito abertos.+

Este mesmo processo parnasiano, que o leva a modelar, a produzir efeitos de 
imaginao realista,  o caminho por onde se escapa para um mundo em que as formas e 
as cores comeam a despegar-se da sua viso figurativa comum. Em A Cidade e as Serras 
a poesia da paisagem palpita na descrio objectiva da paisagem nortenha viridente: 
socalcos *subiam at outras penedias que se embebiam todas brancas e assoalhadas na 
fina abundncia do azul+. E n'A Ilustre Casa de Ramres, nos Contos, n'As ltimas 
Pginas abundam os cabelos de oiro novo, os tesoiros resplandecentes, as faces 
chamejantes, e outros elementos estilsticos de uma transfigurao da realidade.

Outros aspectos estilsticos haveria a considerar na prosa de Ea de Queirs, como a 
extraordinria naturalidade do dilogo, que trouxe  literatura

930                                          HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

efeitos impressivos da fala corrente: a polimrfica viveza de operadores de agulhagem 
dialogal, como *pois+, *ora+, *ento+, *olhe que+, etc.; os matizes de uma espcie 
de territorialidade afectiva ligados a partculas como *c+, *l+, *a+ (*eu c+, 
*dize l+, *a est+); diversssimos processos de marcar o tpico ou o foco da 
frase, com as mltiplas formas de clivagem, tais as

do tipo *foi ele que+ ou *ele  que+, etc.; diminutivos de efeito enftico, 
afectuoso, insinuante ou outro (*o latim  a basezinha+, *adeusinho+, *a sopinha 
est na mesa+). No plano lexical, a prosa queirosiana mobiliza recursos pitorescos, 
judicativa ou humoralmente muito marcados, de registo familiar e

espontneo, que nos limitaremos a exemplificar: arregalar, alapar-se, asso-

mado, bgodera, calaceiro, cocar, esbaforido, escanifrado, escapulir-se, 
esgrouvado, estarrecdo, gordalhufo, menineira, morco, pileca, etc.. Facto muito 
importante, tambm a relacionar com a tcnica realista do romance, so os diferentes 
planos em que se situa o assunto quanto ao seu grau de realidade: assim, Ea sabe dar 
o plano do sonho num tom que no  real, ou o da novela medieval d'A Ilustre Casa num 
estilo diverso do da narrativa bsica, mas sem grande pretenso arcaizante. 0 estudo 
desta diversificao no cabe nestas pginas; basta notar que, na transio das 
atmosferas de rea-

lidade e sonho, ou de uma a outra subjectividade, desempenham papel decisivo as 
combinaes entre o uso do perfeito narrativo, do imperfeito descritivo e do presente 
histrico, e ainda as do discurso directo, indirecto e do chamado indirecto livre, 
sntese polifnica da voz da personagem com a voz

do narrador, que apresenta alis variadas gradaes, entre a quase reproduo directa 
e verses mais ou menos distanciadas ou narrativizadas. 0 tempo predilecto de Ea, 
como dos realistas e impressionistas,  o pret rito imperfeito, que ele usa, bem 
como o gerndio, para embeber a aco em sugestes sensoriais, atmosferas objectivas 
e psquicas. Uma forma tpica de enca~

dear a narrativa  a de apresentar-se uma dada situao, fase ou estado da aco como 
despercebidamente (ou no referidamente) constitudo, o que se assinala, mesmo em 
incio de novo pargrafo, por nexos discursivos do tipo de *j+, *ej+, ou por um 
simples *mas+ ou *e+ ligados a um imperfeito ou mais-que-perfeito.  tambm tpica a 
sugesto de contiguidade temporal imediata registada por *e logo+, ou simplesmente 
*logo+, ou uma contiguidade semntica (mas no necessariamente temporal) que se liga 
a certos frequentes usos do advrbio *justamente+.

6. a pOCA - 0 ROMANTISMO                                                    931

E com isto no esgotaramos o nosso tema: est ainda apenas esboado o estudo rtmico 
da prosa de Ea, cuja importncia ressalta de alguns dos exemplos atrs citados. A 
arte ciceroniana das clusulas finais metrificadas da oratria latina tem uma 
correspondncia no seu sentido inovador mas elegante do ritmo, na maneira como sabe 
cortar, com uma simples inverso ou repartio, um excessivo boleio da frase, como 
alterna a propor o silbica entre os membros do discurso, ora praticando o 
tradicional prolongamento do ramo final e descendente do perodo, ora descendo 
abruptamente do mais elevado cume prosdico a um breve, tenso, surpreso desfecho, que 
um travesso tende a isolar. At mesmo recursos tradicionais do verso, como

paralelismos, repeties, estribilhos, assonncias e aliteraes, intervm nesta 
riqussima partitura, sem que deixemos de sentir que no  da arte versificatria que 
se trata, mas de outra, a arte da prosa, no menos rica e complexa, e em que o gnio 
produtor se apoia em muito menos convenes formulares.

Se quisermos resumir o conjunto de inovaes da prosa queirosiana e o 
equilibradssimo bom gosto que a caracteriza, poderamos falar de um novo

e autntico classicismo, no mais elevado sentido do termo, pois a sua arte reassume, 
a outro nvel, aquela cerrada intencionalidade sbria e comunicativa, atingida e 
preconizada por clssicos como Ccero ou Horcio nos seus gneros caractersticos e 
com os recursos idiomticos disponveis.

0 romance naturalista em Portugal

0 xito excepcional de Ea de Queirs no ensombrou apenas os ltimos anos de Camilo, 
levando-o ao dramtico esforo de se adaptar  nova

escola naturalista; obscureceu tambm os ficcionistas seus contemporneos ou 
imediatos sucessores.

Todos estes, ou os mais notveis deles, procuraram integrar-se na orientao ento 
dominante da arte literria, isto , no positivismo e no naturalismo. Mais 
intencional e sistemtico expositor da teoria literria do naturalismo do que Ea de 
Queirs na sua conferncia ou nos seus prefcios foi um outro ficcionista, alis 
medocre como tal, na revista positivista Estudos Livres, dirigida por Tefilo Braga 
e por Teixeira Bastos - Jlio Loureno Pinto, a cuja doutrina esttica j atrs nos 
referimos.

Tal como Loureno Pinto, e a exemplo do prprio Zola, que teorizara no Roman 
Exprmental (1885), outros ficcionistas naturalistas insistiram

932                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

na exposio da sua teoria literria, alis com cambiantes. Assim, Teixeira de 
Queirs, que tem como modelo principal, no Zola, mas BaIzac, afirma, parafraseando 
alis o seu mestre, que procede no seu mtodo como os zologos ou arquelogos, quando 
*definem espcies desconhecidas, ou

descrevem objectos raros que nas suas escavaes surpreendem+ (prefcio a Os Meus 
Primeiros Contos), afastando-se do positivismo, quando afirma que a sua poca  de 
*dvida filosfica, de certeza cientfica+, e quando considera como propulsores da 
imaginao cientfica ou artstica o imprevisto e o acaso. Por seu lado, Abel Botelho 
insiste especialmente sobre casos

de psicologia patolgica e sobre a base psicofisiolgica em que deveria apoiar-se o 
artista.

A mesma preocupao teorizante se revela em certa norma de sistemati-

zao a que este grupo de ficcionistas, bem ou mal, adaptou as respectivas produes: 
Loureno Pinto adoptou a rubrica geral Cenas de Vida Contempornea; Teixeira de 
Queirs, numa imitao evidente de BaIzac, distribui os seus contos e romances em 
duas sries - Comdias do Campo, Comdia da Cidade; Abel Botelho lanou-se  
elaborao de um ciclo de romances, Patologia Social.

 muito desigual, alis, o valor dos trs. Loureno Pinto, um pouco mais velho que 
Ea de Queirs, mas s depois dele reconhecido como escritor -

Margarida, 1879, reedio 1880; Senhor Deputado, 1882; 0 Homem Indispensvel, 1883; 
Vida Atribulada, 1885; 0 Bastardo, 1889, alm de um volume de contos, Esboos do 
Natural, 1885 -,  o menos dotado de faculdades de efabulao e de escrita.

Nos romances pretende produzir o estudo cientfico de um caso patolgico, incluindo

o seu enquadramento sociolgico. Exemplo disso  o Senhor Deputado, onde se assiste  
lenta degradao da personalidade de um influente poltico local, sob o aguilho de 
uma paixo sexual frustrada e acirrada pela ociosidade a que a ambio o levara 
encontrando-se as causas desta degradao - tal como acontece em Zola - numa 
predisposio hereditria, e na mesquinhez da vida poltica local. Os caracteres so 
esbatidos e incertos. A narrativa, conduzida no pretrito imperfeito, lembra a 
sequncia camiliana (por exemplo, A Brasileira de Prazins) com pequenos quadros 
ilustrados, e talvez exista tambm certa influncia de Ea de Queirs. No entanto, o 
autor, principalmente quanto  sua preocupao dos factores hereditrios, est sob o 
signo naturalista. Margarida, sobre um caso de adultrio, onde, romanticamente, se 
contrasta a protagonista, que

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                          
933

 um anjo do lar, com uma *mulher fatal+, s pode interessar por certas descries da 
vida burguesa portuense.

Abel Botelho (Abel Accio de Almeida Botelho, ti. Tabuao,
1856-09-23 - t1917-04-24) representa o ponto extremo at onde chegou entre ns a 
fico naturalista da escola de Zola. Pondo de parte as primeiras poesias e as peas 
teatrais, que produziram escndalo, notemos que a primeira obra deste autor com algum 
interesse duradoiro  constituda pelos contos reunidos em Mulheres da Beira, 1898, 
cujo recorte predominantemente passional e cujas tiradas moralistas sentimentais tm 
muito de Camilo, mas que, diferentemente deste seu mestre, pretende explicar a 
fatalidade romntica da paixo em termos de hereditariedade mrbida, nem por isso 
deixando de reconhecer-se a atitude ambgua de atraco e repulsa por parte do 
narrador; e o cenrio regional desloca-se do Minho para a Beira contgua ao Douro. 
Salientemos como dignos de antologia Uma Corrida de Toiros no Sabugal, de uma 
flagrante visualidade e impressionante encadeamento trgico, e A Fritada, que, entre 
vrias cenas desconexamente sentimentais ou pitorescas, contm o vvido quadro de um 
rebanho em transumncia.

0 mais conhecido conjunto de obras de Abel Botelho  o ciclo de romances designado 
pelo ttulo de Patologia Social (0 Baro de La vos, 189 1; 0 Livro de Alda, 1898; 
Amanh, 1902; Fatal Dilema, 1907; e Prspero Fortuna,
19 10). Nada, porm, existe que nos permita separar este ciclo de Sem Remdio, 1900, 
Os Lzaros, 1904, e Amor Crioulo, este postumamente editado em 1919. 0 ponto de vista 
de todos os romances  fcil de reconhecer  simples leitura: a sua principal ateno 
incide sobre as grandes famlias titulares que apresenta corrodas pelas *diteses 
mrbidas+ de devassides e alianas consanguneas ancestrais; sobre os plutocratas 
monopolistas; sobre as

congregaes religiosas, que se reconstituam a despeito das leis 
constitucionalistas, em ntima ligao com a classe dominante; e sobre os polticos 
que se alcandoravam  chefia dos partidos monrquicos atravs dos mais desonestos 
conluios. Em Amanh, o grupo social orientado pela plutocracia  posto em contraste 
com o operariado, em fase difcil e oscilante de organizao sindical e de luta 
predominantemente anarquista; Abel Botelho traz pela primeira vez ao romance uma tal 
camada e tem pginas interessantes sobre os seus costumes de ento: os passeios 
domingueiros s hortas, as con-

dies de vida nos seus bairros sem higiene, as supersties denunciadoras

934                                         HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

de uma prxima origem rural, as correntes doutrinrias que os seus orientadores 
debatem, as formas e incidentes de luta mais tpicos de 1895-96. No entanto, o 
romancista no adere de nenhum modo a este *lixo social+, em que tambm procura 
descobrir os estigmas de uma degenerescncia. Toda

a sua simpatia est com aqueles que tentam uma soluo de compromisso, em 
coincidncia com o positivismo republicano que professa. 0 tipo do poltico 
arrivista, do doutor provinciano que acaba por fazer carreira na capital  custa de 
uma total carncia de escrpulos (tipo j preludiado no Calisto Eli camiliano, 
visado em vrias personagens queirosianas, nomeadamente o conde de Abranhos, e para 
os quais os naturalistas encontraram numerosas verses), serve de eixo a Prspero 
Frtuna. Abel Botelho reconstitui  sua volta, por vezes com uma preciso de 
reportagem, alguns ambientes e sucessos

caractersticos da poltica nionrquica constitucional sob D. Lus, e d-lhe como 
esposa uma das mais curiosas e vivazes personagens femininas do naturalismo.

Para alm deste ponto de vista tipificador e judicativo, h interesse em notar certas 
atraces estticas que a composio e sobretudo o estilo de Abel Botelho revelam, em 
relao aos meios sociais tocados. Assim, a atraco inconsciente do decadentismo 
trai-se em certas descries de tipos e ambientes: o Baro de Lavos e Alda, cujas 
perversidades, caracterizadas numa lingua~ gem clnica pretensiosa, se destinam 
expressamente a causar a nossa repulsa perante a degencrescncia, so em certas 
pginas aureolados com requintes de sensibilidade, e o romancista compraz-se no 
descritivismo de mveis, ves-

turio elegante, bricabraque, interiores luxuosos e paisagens ao gosto 
impressionista, servindo-se ento de um vocabulrio e uma estilstica rebuscados a 
que Fialho deu entre ns o maior impulso. Por outro lado, Abel Botelho delicia-se 
visivelmente na pintura de cenas, ambientes, tipos e gozos acentuadamente plebeus, 
mobilizando ento a gria da intimidade burguesa ou, em geral, urbana com uma 
exuberncia que sugere o abrir de uma abundante represa. Essa gria  quase toda 
depreciativa, caricatural, e pela sua

expressividade mais afectiva do que denotativa dir-se-ia carrear toda uma mitologia 
das coisas srdidas, reles, animalescas, mas ao mesmo tempo carregadas de uma 
vitalidade irreprimvel (canalha, bandalho, deboche, bede- ]bar, mocanqueiro, 
peganho, amanttico, dulceroso, canada, etc.). A esttica naturalista extrema  uma 
esttica do no: Abel Botelho s sabe dizer o que

6. a pOCA - 0 ROMANTISMO                                                   935

no quer; os seus raros leitores de hoje  que talvez possam descobrir melhor aquilo 
com que, sem dar por isso, se ia contentando.

TEIXEIRA DE QUEIRS

Destas obsesses conseguiu, at certo ponto, libertar-se Teixeira de Queirs 
(Francisco Teixeira de Queir s, n. Arcos de Valdevez, 1849-05-03 -

t 1919-07-22), que usou o pseudnimo literrio de Bento Moreno, autor das duas 
sries, Comdia do Campo: Os Meus Primeiros Contos (1876); Amor Divino (1877); 
Antnio Fogueira (1882); Novos Contos (1887); Amores, Amores... (1897); A Nossa Gente 
(1899); A Cantadeira (1913); Ao Sol e

 Chuva (1915) - e Comdia Burguesa: Os Noivos (1879); Saltstio Nogueira (1883); D. 
Agostinho (1894); Morte de D. Agostinho (1895); 0 Famoso GaIro (1898); A Caridade em 
Lisboa (190 1); Cartas de Amor (1906); A Grande Quimera (1919); alm das peas e 
outras obras, entre as quais um

volume de contos escolhidos, Arvoredos (1895).

Teixeira de Queirs est muito menos condicionado pela teoria naturalista do que os 
dois antecedentes, porque o seu principal modelo no foi Zola, mas BaIzac. 0 seu 
romance mais conhecido, Saltstio Nogueira, tem como

personagem central um heri balzaquiano, embora sem a grandeza e a fora que BaIzac 
conseguiu comunicar s personagens da Comdio Humaine. Saffistio abre caminho para os 
altos postos da poltica nacional, indiferente aos

valores morais mais sagrados, e at ao suicdio, por sua causa, da companheira 
dedicada. Embora os tipos psicolgicos estejam bem destrinados, no  grande a sua 
perspiccia, a no ser nas personagens femininas. Mas o romance tem incontestvel 
dimenso sociolgica. 0 autor soube evocar uma sociedade no seu tipo de vida e nos 
seus apetites. A stira da alta sociedade lisboeta, caricaturalmente representada no 
episdio da festa de caridade, no vai menos fundo que a de Os Maias; e a stira da 
vida poltica nacional  talvez mais verosmil e corajosa que a de Ea. Teixeira de 
Queirs no quis mostrar apenas os efeitos de uma educao e de um estilo de vida, 
mas levantou uma ponta dos interesses econmicos que presidem s combinaes 
ministeriais dos ltimos anos da monarquia constitucional. Por outro lado, os tipos 
psicolgicos emergem naturalmente do seu meio: uma lgica orienta o seu 
comportamento, de tal modo que a aco parece ser o resultado normal do funcionamento 
de uma estrutura social. Sob este aspecto, Teixeira de Queirs  o mais consumado 
romancista portugus do sculo XIX,

936                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

depois de Ea. Por certas caractersticas da sua personalidade, Saistio lem- bra 
Accio; e o autor soube mostrar-nos que os Accios no so apenas imbecis e risveis, 
e que os lugares-comuns *acacianos+, ao par de todo o seu ridculo, correspondem a 
uma funo, que  a de hipocritamente justificar e eno-

brecer um determinado tipo de vida.

Uma novidade singulariza o romance de Teixeira de Queirs relativamente aos seus 
congneres: maior ateno  psicologia feminina. Mesmo em Ea, a ideia romntica da 
mulher que oscila entre o anjo e o demnio persiste sob a forma da degradao atravs 
da *queda+ sexual sem reabilitao, alm de que nos seus romances as mulheres parecem 
condenadas a uma

completa dependncia social e psquica. J vimos como Abel Botelho encara os 
problemas femininos. Pela primeira vez, em Teixeira de Queirs estes so vistos sob 
um mbito mais largo e despreconcebido, como alis j acon-

tecia em BaIzac. A personagem mais viva e humana de Saffistio Nogueira  talvez uma 
mulher, Anglica, esmagada entre o egosmo masculino e os

preconceitos do seu meio de origem. Certas dolorosas vivncias ento inerentes  vida 
da mulher so, de resto, afloradas a outros propsitos, sem

omitir o terror da noiva na noite de npcias. Nesta maneira de encarar a

experiencia feminina, Teixeira de Queirs marca uma data na histria do romance 
portugus: pe de lado a idealizao romntica da mulher, que enco-

bre no fundo uma sujeio.

Como artista, a maior qualidade de Teixeira de Queirs est talvez na

arte da efabulao, da construo de um enredo que abrange e coordena diversos meios 
e sries de acontecimentos e consegue manter suspenso o

interesse do leitor sem recorrer a expedientes flhetinescos. Um ou dois episdios 
centrais constituem pontos de convergncia de diversos trajectos sociais.

Teixeira de Queirs  um escritor de recursos variados, e deles encontramos outras 
facetas nos seus contos de ambiente rural. Alguns destes con-

tos integram-se noutra tendncia da literatura portuguesa, que consideramos a seguir.

TEIXEIRA DE QUEIRS: O conto rstico


Na introduo ao volume Arvoredos (1895), publicado fora da srie Comdia do Campo, 
diz Teixeira de Queirs que este livro foi escrito *com o cora-

6. 3 POCA - 0 ROMANTISMO                                                    937

o e a sensibilidade+, mais do que com a reflexo e o estudo, que em conjunto 
presidiriam  orientao da sua obra. Com efeito, o livro  a evocao do tempo da 
infncia na aldeia natal, das serras, dos vinhedos e dos milheirais do Minho, de 
certos tipos aldeos e das festividades populares, sem grandes preocupaes de 
anlise sociolgica, antes num abandono lrico e num comprazimento tingido de certo 
fantstico transfigurador.

A obra insere-se numa corrente literria dos sculos XIX e XX: o conto rstico. J o 
vimos praticado por Herculano em 0 Proco da Aldeia; continuado por Paganino nos 
Contos do Tio Joaquim. Jlio Dinis deve parte do seu sucesso  procura de certo tipo 
de leitor. A propriedade rural servia ento claramente de base s instituies, 
embora a maior parte dos leitores vivesse em meio urbano. Dela partiam para a 
Universidade, por vezes, via seminrio, adolescentes abastados ou protegidos - 
numerosos intelectuais portugueses pertenciam a famlias de proprietrios rurais, a 
ela estava ligada por laos mais ou menos directos quase toda a burguesia provinciana 
e grande parte da de Lisboa.

Estas circunstncias certamente contriburam para a voga das caractersticas do conto 
e do romance rstico entre ns. Por um lado, os tipos e

as pequenas intrigas da aldeia ou de vila eram mais acessveis ao horizonte de 
conscincia da maior parte do pblico portugus do que os problemas mais complexos da 
vida urbana; por outro lado, perante as condi es prprias da vida urbana em 
desenvolvimento, da burocratizao, da centralizao administrativa, etc., muitos 
escritores reagiam idealizando um sucedneo da velha tradio buclica onde as 
relaes humanas aparecessem menos

deformantes e mais espntaneas. J o vimos n'A Cidade e as Serras.

 certo que Camilo mostrara quanto havia de falso na idealizao da vida rstica, 
secundado, como vimos, por Abel Botelho, mas os leitores no procuram sempre o mais 
verosmil.

Por isso, as excepes no bastam para alterar a orientao tomada pelo conto rstico 
a partir de 0 Proco da Aldeia. Encontramo-la em alguns dos contos de Pedro Ivo 
(pseudnimo de Carlos Lopes, 1842-1906), autor de Contos (1874), 0 Selo da Roda 
(1876), romance que teve grande favor do pblico, e Seres de Inverno (1880), onde  
flagrante a influncia de Jlio Dinis. E Teixeira de Queirs, que militou durante 
anos nas hostes do positivismo republicano e exaltou a cincia, acabou, nos ltimos 
volumes da Com-

938                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

dia do Campo, por se entregar  apologia da ingenuidade campesina, com

hinos a uma espcie de santidade rural, feita do descrdito das cincias, que em 
parte pode ter sido sugerida pela influncia da ltima fase de ToIstoi e

de um certo franciscanismo laico ento em voga.

0 mais caracterstico representante do gnero  tambm o seu melhor cultor, Jos 
Francisco Trindade Coelho (n. Mogadouro, 1861-06-18 -

t 1908-06-09), que depois de cursar Direito em Coimbra, cujo ambiente evocou num 
livro de memrias, In Mo Tempore (1902; tem j sete edies), fez uma boa carreira de 
magistrado.

0 livro de contos Os Meus Amores (1891, 3. > edio reformulada 190 1), que em 1978 
contava j 16 edies,  bem uma obra de evocao saudosista do viver campesino 
confundido com as recordaes da infncia e que se tornou como que um paraso perdido 
para o citadino fatigado. 0 autor nota justamente que os seus contos so *talvez 
saudades; e tenho certeza de que, se vivesse na minha terra [     ... 1 no os teria 
feito... +. Na sua maioria, quase no tm enredo e a inteno moralizadora  muito 
menos patente que nos

contos de Herculano, Jlio Dinis, Pedro Ivo, ou Rodrigo Paganino. Trindade Coelho 
limita-se a evocar tipos e ambientes da aldeia com uma simpatia de raiz que vai at 
aos bichos. No entanto, todo o conjunto insinua um

tipo de vida utopicamente exemplar, mesmo nos seus conflitos. Num conto notvel, 
Terra Mater, os soldados, nostlgicos da aldeia de onde foram arran-

cados, consideram, por contraste com a vida actual, as vantagens da comu-

nidade rural:

*Como era diferente l na aldeia, cada um na sua terra. A, sentiam-se iguais uns

aos outros; e tirante o pai, a me, o cura, certas figuras de tios, e os padrinhos - 
todos esses que o prprio instinto colocava mais alto, mas, para compensar, parece 
que mais perto do corao - o resto no se diferenciava em alturas, e apenas a 
diferena das idades, mais que a dos teres, extremava, sem os separar, os grupos da 
freguesia. ... Cada qual, na sua aldeia e no seu ofcio - uns no amanho das terras, 
outros na profisso que tinham escolhido, eram teis: pouco ou muito, via-se o que 
faziam. E ali?! Tudo o que faziam era improdutivo, artificial, irreal, porque se no 
via ... +

Na comunidade rural, assim sonhada, todos se amparam nas aflies e compartilham as 
alegrias; o dio  direito e de homem para homem, e o

amor uma florescncia natural, por isso mesmo pura como a madrugada:

6. - POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
939

eis o sentido de contos como Idflio Rtstico, que surpreende o amor nascente de dois 
pastores, ou do caso de um campones cujo dom de simpatia o torna capaz de fraternizar 
franciscanamente com o prprio burro.

A anlise de Os Meus Amores levar-nos-ia, desta maneira, a explicitar a inteno 
essencial do conto rstico portugus e o significado social da sua

voga. A obra de Trindade Coelho pertence j cronologicamente  poca posterior ao 
Ultimato, facto com que dataremos o incio da literatura portuguesa contempornea. 
Ele subscreveu, alis, o primeiro manifesto de nacionalismo literrio, o artigo de 
apresentao da Revista Nova, 1893, que reage contra tudo quanto julgava existir de 
estrangeiro na Gerao de 70 e noutros grupos ulteriores, incluindo o dos 
simbolistas. No entanto, como vimos, Os Meus Amores continuam e apuram um tipo de 
fico j enraizado, embora os seus

temas idlicos estejam tingidos de uma exaltao bem naturalista de tudo o que resta 
de instintivo ou animal nos homens (ou de tudo o que nos animais serve de paradigma 
aos homens, por exemplo, a dedicao materna); h mesmo certos contos com um cunho 
passional camiliano (Antnio Fraldo, Manuel Maores); e, pelos estudos etnogrficos 
em que se baseiam, e foram reunidos no volume 0 Senhor Sete,  possvel at rastrear 
a continuidade directa do melhor garrettismo. 0 que Trindade Coelho traz de novo a 
estes

ingredientes  um acabamento sem precedentes da arte contstica que faz do seu nico 
volume de fico um grande e duradoiro xito; ele produzia pela primeira vez 
unirealismo sadio, no entender dos seus primeiros apreciadores.

Depois de dez anos de interrupo na obra literria, Trindade Coelho volta  
publicidade de um modo que lembra o entusiasmo reformador dos primeiros romnticos, 
ou, contemporaneamente (embora esse num plano mais poltico e sectrio), o dos 
propagandistas republicanos. Com efeito, data de 1901 o opsculo A Minha 
*Candidatura+ por Mogadouro e o incio da publicao de sete Folhetos para o Povo, em 
que se empenha numa campanha a favor do ensino e do mutualismo populares, denunciando 
de um modo corajoso, lmpido e muito preciso toda a engrenagem de explorao patronal 
transmontana, incluindo a usura e a viciao do sistema representativo. Essa campanha 
culmina

com a organizao e edio de um desassombrado Manual Poltico do Cidado Portugus, 
1906, pouco depois ampliado e reeditado. Esta obra de esclarecimento, claramente 
oposta a ditaduras plutocrticas como o franquismo, baseia-se numa ateno s 
relaes de produo que Os Meus Amores ignoram, mas a limpidez e franqueza de estilo 
permanecem. Partiu da adaptao de um modelo estrangeiro, e todavia o seu interesse 
nacional mantm-se.

940                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Evoluo do naturalismo. 0 estilo decadente na prosa: FIALHO

A formao do estilo decadente a partir das contradies internas do naturalismo tem 
como principal documento na nossa literatura a obra de Fialho de Almeida, que foi o 
mais importante prosador na transio dos dois sculos.

Jos Valentim Fialho de Almeida (n. Vilar de Frades, 1857- 05- 07 - t 1911- 03- 04), 
natural de um vale frtil, o *Pas das uvas+ encravado no Baixo Alentejo, viveu at 
ao

seu casamento rico, em 93, as agruras da vida pelintra, sustentada por uma mesada 
fami-

liar. Isso, junto a amargas experincias num colgio interno e num balco de baiuca 
de

drogas, deve ter contribudo para o azedume do seu temperamento e para a sua confessa

e evidente obsesso da riqueza, do domnio e prestgio social. Faz um medocre curso


de Medicina, ao mesmo tempo que se lana literariamente com os seus contos e 
crnicas, primeiro em jornais provincianos, depois nos de Lisboa. Sousa Martins, seu 
mestre e amigo, deve ter nele reforado as convices sobre o determinismo da 
hereditariedade, meio natural e social de vida, bem como a de que o gnio seja uma 
forma superior de degenerescncia - convices alis divulgadas por Taine, pelo 
naturalismo, por Lombroso e pelos decadentes. Este iderio, ligando-se com os seus 
recalcamentos de plebeu, explica certos aspectos realistas e *progressistas+ da sua 
obra: as suas vibrantes pginas de simpatia pelos ganhes, mendigos, pobres 
envergonhados, gente annima de hospital, bairro imundo, casa de malta, etc.; as suas 
campanhas pela construo da moradia popular airosa, pela democratizao do ensino, 
mesmo superior. Por outro lado, tais recalcamentos podem relacionar-se com as 
pretenses a mentor do bom gosto diletante e da bomia artstica, que se revelam j 
nos seus artigos de adolescente e que se observam na sua crtica de arte, de teatro, 
de literatura, nas suas notas impressionistas de msica, e viagem, de bomia 
nocturna, de cenas espectaculares, no seu trajo, e no seu pontificado de caf em 
emulao com Gualdino Gomes. Odeia, literariamente, a pequena burguesia e a grande 
burguesia financeira dirigente; no tanto a burguesia agrria, em que ingressou pelo 
casamento. Os desvios metafsicos do determinismo naturalista manifestam-se 
variamente na sua obra. A raa  uma das suas preocupaes; preconiza a adopo de 
medidas eugnicas; reduz o problema poltico-social  substituio da burguesia 
dirigente por uma nova aristocracia da capacidade, em que naturalmente se inclui; 
concebe o senso esttico como um produto de casta apurada pela experincia da 
riqueza, e pela seleco nupcial que ela permite; nas suas numerosas aluses 
autobiogrficas estilizadas, das quais a mais importante  o captulo Eu de  
Esquina, ora se revolta, por isso, contra

um seu plebesmo que julga irremedivel, ora se inculca um degenerado superior, uma

sensibilidade de escol, com privilegiados requintes estticos, o que deve relacionar-
se com um estilo que, mais discreta mas ainda mais profundamente que o das Prosas 
Brbaras ou o de Gomes Leal, sugere, como Cesrio ou Raul Brando, conforme os casos, 
um pulsar e sofrer colectivo da cidade, dos bairros lbregos, dos casares 
hospitalares,

6. a pOCA - 0 ROMANTISMO                                                            
   941

uma dor, um gozo ou uma febre pairando. A sua crtica no visa tanto instituies 
como personalidades e tipos psicolgicos; o sentimento de rivalidade literria leva-o 
ao menoscabo de Ea ou Guilherme de Azevedo depois de mortos, mas exalta o tambm 
pessoalista Camilo. Tem o culto do corpo belo, feminino ou masculino, mas compraz-se 
tambm, e antiteticamente, em descrever o aleijo, o enfezado ou esburgado pela 
doena, e sobretudo os tipos de hipersensibilidade decadente: as condessinhas 
frgeis, a tsica gentil que gosta s de ingerir ptalas de rosa. Sente-se, ele 
prprio, alis, um decadente num mundo decadente, tal como muitos outros autores da 
poca Fin-de-sicIe que ligavam a ideia de decad ncia  de requinte e superioridade 
esttica.

Fialho no deixou um romance: todos os seus esforos dirigidos neste sentido 
falharam. Brilhante cavaqueador, prosador exmio em fixar impresses, em engren-las 
numa narrativa, faltava-lhe o flego analtico de Ea de Queirs, o sentido de mbeis 
sociais de conjunto, das grandes integraes interactivas. De resto, a sua obra foi 
toda produzida, em primeira instncia, para jornais ou folhetos soltos e s depois 
agrupada em volumes, predominando nos iniciais o conto, e depois a crnica de 
impresses ou cr-

tica (Contos, 1881; Cidade do Vcio, 1882; Os Gatos, 1889-94, depois reu-

nidos em 6 volumes; a srie de volumes do Jornal de um Vagabundo, que se conclui 
postumamente, seguida de outras colectneas). Excludas certas campanhas que 
indicamos na biografia, a sua obra de comentarista  bem mais restrita em interesses 
que a de Ramalho Ortigo: limita-se a reaces muito humorais, geralmente azedas, de 
preferncia sobre assuntos de literatura, teatro, arte, ou ainda outros, mas 
geralmente encarados por um prisma esteticista e impressionista, s vezes a tender 
para a blague ou anedota.

Entre os seus contos, muitos h que pecam por esse anedtico ou pela explorao da 
surpresa chocante, se no mesmo melodramtica (A Camisa;
0 Cancro, por exemplo). Fialho anotava temas deste tipo para contar. No poucas 
vezes, trata-se de casos de intensa deformao psicolgica (A Ruiva;
0 Roubo), ou mero instinto animal, de quadros de extrema misria dados com uma 
complacncia entre sdica e masochista (Os Pobres; 0 Homem da Rabeca). Mas h contos 
de sbria angstia pattica: a velhota do Montepio que no  capaz de esmolar; a me 
que sabe da morte do filho quando esperava a sua chegada no comboio; dois garotos que 
brincam quando o pai de um vai a enterrar, morto pelo do outro; etc. - situaes 
colhidas com uma fiagrncia que sugere a palpitao humana e o ritmo ou sopro vital.

942                                          HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Outros contos so a transposio da sensibilidade decadente: neles a cons~

tante antropomorfizao das paisagens, das plantas, a constante mitificao 
inconsciente das foras instintivas consuma-se pela sugesto simbolista do mistrio 
metafsico, do requinte sobrenatural de beleza, da plenitude mrbida da sensao 
(Abandono do Pombal; Madona do Campo Santo).

Entre 1880 e 85, Fialho enfileira com os arautos do naturalismo, e para isso parece 
ter sido decisiva a leitura de 0 Crime do Padre Amaro. No entanto, desde cedo se 
observam tendncias diversas, nomeadamente decadentistas, nos textos que mais tarde, 
sem qualquer ordenao cronolgica, agrupar em volumes. No admira, portanto, que ao 
longo da publicao de Os Gatos se assista a uma viragem de posio contra *o 
naturalismo cientfico+, ao qual apenas reconhece agora os mritos de ter 
proporcionado um grande progresso estilstico, destinado a compensar a prpria 
insignificncia dos temas. Doravante o papel que atribui  fico liter ria  o de 
*despolarizar+ a noo de realidade, minar-lhe a coerncia, transfigurando-a em 
*mundos do trgico e do grotesco que parecem feitos de vapores do delrio+. Para esse 
efeito, Fialho torna-se entre ns o representante tpico e extremo da criture 
artiste

a que os irmos Goncourt serviram em Frana de modelo; atribui a si, como  sua 
gerao, o papel de criao de uma nova linguagem mais plstica. Da experincias de 
ritmo frsico e um vocabulrio que, segundo o preceito decadentista, se inspira nas 
mais variadas fontes: o arcasmo, o galicismo, o regionalismo, o glossrio mdico, a 
prpria fantasia sufixal e etimolgica do escritor, alis exuberante em rebusques de 
evocao sensorial (fibilhas, espiralitas, fosfenas, titilaes, estrupidos, 
putrilagens, por exemplo).  sinestesia,  anotao preciosista, amaneirada, das 
percepes sensitivas e de certos estados psicolgicos correspondem as audcias de 
uma imaginao real, ou, pre- tensamente, alucinatria, que se pode exemplificar com 
a descrio do enterro de D. Lus, n'Os Gatos, e com diversas equivalncias plsticas 
e

dramticas que em vrios passos d para certas obras musicais. Toda a obra de Fialho 
vibra numa tenso destinada a recuar os limites da sensibilidade

consciente.                                                                       1

Mas importa descortinar em que dimenses se aventura Fialho pelos terrenos do 
inexpresso.

Uma dessas dimenses  a da psicologia, tal como ela foi exaltada no romance por Paul 
Bourget, um dos seus mentores, e sobretudo exemplifi-

6. @ POCA - 0 ROMANTISMO                                                     943

cada pelos grandes mestres eslavos recm-divulgados, Gogol e Dostoievski. Para no 
insistirmos nas j mencionadas sondagens ao psicopatolgico, notemos que toda a 
distncia que vai desde o realismo anedtico e exterior,  Maupassant, at ao 
realismo de escola russa, se pode avaliar comparando
0 Tio do Brasil com 0 Filho. Em ambos os contos, as circunstncias objectivas so 
escolhidas com o mesmo rigor tipificante, mas no primeiro conto apenas caracterizam 
os objectos e no segundo servem essencialmente para aferir a ansiedade e, depois, o 
imenso abatimento da velha camponesa que, numa estao ferroviria, espera pelo filho 
emigrado e acaba por sab-lo j falecido. Raul Brando reconhecer em Fialho o seu 
precursor directo na captao da dor alheia, mormente a dos humilhados e ofendidos, 
para usar esta frmula dostoievskiana.

Por outro lado, Fialho de Almeida apura-se em avanar para alm das fronteiras 
normais de percepo sensvel, e da uma sua torturada estilstica impressionista. 0 
melhor e mais conhecido espcime dessa dimenso de desen- volvimento so Os 
Ceifeiros, em que o autor tenta adivinhar a sensibilidade dos segadores numa seara 
alentejana, com a sua agudeza sensorial elevada, sob o aguilho da luz e do calor, 
at a um registo de dor e de confuso dos sentidos, ou sinestesia. Nestas pginas no 
 propriamente um drama social o que est em foco, mas uma explorao at ao limiar 
superior das sensa-

es definidas, at  dor j insuportvel,  consciencia em delquio, percorrendo 
metodicamente toda a gama das qualidades e das intensidades criticas nos sentidos 
externos. Esta acuidade impressionista e como que divinatria faz tambm de Fialho o 
melhor cronista da vida nocturna lisboeta, digno de confronto com Cesrio Verde, e um 
admirvel paisagista do Alentejo e

da Galiza, precursor das impresses pictricas subtis em que viro a distinguir-se o 
seu amigo Teixeira Gomes e o seu discpulo Raul Brando.

Alm destas dimenses da simpatia sofredora e da sensibilidade impressionista, h 
ainda outra em que Fialho no foi menos inovador. Designemo-Ia como expressionsta, 
nome que se justifica, quer sob o ponto de vista das origens, quer sob o da estrutura 
da esttica correspondente, cujas manifestaes mais tpicas e intencionais se 
desenvolveram nos pases germnicos a seguir  guerra de 1914-18. Com efeito, h um 
ponto de partida comum:

Fialho interessou-se desde muito cedo pela fico de terror e fantasmagoria que 
podemos acompanhar do romance gtico de H. Walpole e Ana Rad-

944                                         HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

eliff at aos surtos romnticos de Hoffmann, de Achin von Arnim, Edgar Poe, e, j em 
plena poca decadentista, Villiers de I'Isle-Adarn, sem esque-

cer o malogrado portugus lvaro de Carvalhal. Em muitas das pginas fialhescas paira 
uma atmosfera de pesadelo; isso ia alis ao encontro de uma convico tipicamente 
decadentista, e que o nosso escritor por mais de uma

vez afirma, acerca da veracidade da telepatia, das materializaes medinicas e, em 
geral, do ocultismo;  mesmo de crer que certos contos de escola naturalista, como A 
Ruiva e Trs Cadveres, sejam afinal transposies das suas obsesses, em termos de 
degradao psicofisiolgica e social, a tal ponto se acumulam, mesmo  custa do 
equilbrio narrativo, as cenas repulsivas de taberna, cemitrio, priso, hospital, 
necrotrio, enterro miservel, necro-

filia, seduo abjecta, lenocnio, prostituio, degenerescncia sifiltica ou

alcolica, infncia faminta, tsica ao desamparo ou tragdia de bairro infecto. Mas o 
escritor acaba por descobrir as possibilidades de largar a rdea ao

seu *bestirio da alucinao doida e dsforrne+, e isso quer dizer que descobre o 
expressionismo.

 o que acontece, por exemplo, em 0 Abandono do Pombal. Neste conto os 
pressentimentos e angstias de doena e morte de uma jovem exprimem-se atravs das 
imagens de um estranho comportamento nos elementos da

natureza e nas aves. Em 0 Roubo, os terrores largamente acumulados (e to bem 
conhecidos por Fialho) de um moo caixeiro, hospitalizado e febril, condensam-se num 
enredo terrfico e inverosmil. Mas nada poder equiparar~se, sob este aspecto, s 
pginas de 0 Sineiro de Santa gata, que trans-

pem em imagens visuais o efeito auditivo de um carrilho. 0 expressonismo abeira-se 
a de um exerccio de fantasia autenticamente livre, como

s vir a ser atingida nos melhores textos reivindicados, desde 1924, pela esttica 
surraliste. Por outro lado, em 0 Ano, que alis se baseia na histria popular de um 
ano incrivelmente minsculo, encontramo-nos perante qualquer coisa que prenuncia um 
no menos importante desenvolvimento do expressionismo germnico: a fantasia 
mitificadora de Kafka. Sentimos com efeito que Carrasquinho, o pobre ano, simboliza, 
como o clebre homem-insecto kafkiano de Metamorfose, todos aqueles que, por qualquer 
contingncia, parecem condenados a todas as arbitrariedades, e as aceitam,


sem as compreender, como um destino, embora debatendo-se ainda em vo e por mero 
impulso vital.

6. @ POCA - 0 ROMANTISMO

M Outros autores

945

A fico em prosa foi muito cultivada em Portugal nesta poca, e no se pode 
pormenorizar a massa de produes que serve de pedestal s obras mais duradouras 
acima caracterizadas. Apontem-se, no entanto, Eduardo de Barros Lobo (Beldemnio, 
1857-12-17 - t 1893-12-17), tradutor de Zola, polemista e autor de Musa Loira, 
Viagens no Chiado e Contos Imorais; Alberto Braga (1851-1911), um dos mais dotados 
contistas de escola realista: Contos da Minha Lavra (1879), Contos da Aldeia, Novos 
Contos, Contos Escolhidos; Lus de Magalhes (1859-09-13 - t 1935-12-14), que no

romance 0 Brasileiro Soares (18 86), prefaciado por Ea, inverte uma situao 
romanesca tipicamente camiliana apresentando um honestssimo *brasileiro+ 
quinquagenrio como vtima de uma jovem calculista e imoral; Francisco Leite Bastos 
(1841-1886), autor de contos, romances policiais e outros, que tiveram certo favor 
popular, e que continuou o Rocambole de Ponson du Terrail com as Maravilhas do Homem 
Pardo; Alfredo Possolo Hogan (1830-1865), operoso fornecedor dos teatros de Lisboa, 
autor de romances

e de uma continuao do Conde Monte Cristo, A Mo do Finado, que foi 
internacionalmente tida como produo autntica de Dumas; Gervsio Lobato (1850-
1905), que voltaremos a encontrar a propsito do teatro, e cuj os roman-

ces satricos, A Comdia de Lisboa, A Primeira Confessada, Lisboa em Camisa, Os 
Dramas de frica, onde se revela >um talento caricatural comparvel ao de Rafael 
Bordalo Pinheiro, se tornaram muito populares (alm do romance de terror Os 
Invisveis de Lisboa, de co-autoria com Jaime Vital); Maria Amlia Vaz de Carvalho, 
que conta alguns volumes de fico numa

vasta obra variada, como Seres no Campo (1877), Arabescos (1880), Contos e Fantasias 
(1880), Contos para os Nossos Filhos (1880), este ltimo em colaborao com Gonalves 
Crespo, seu marido; Jos Augusto Vieira (1856-1890), conhecido pelo ruralismo de 
Fototipias do Minho, conto, 1879, e pelo romance naturalista A Divorciada, 188 1. 0 
Conde de Ficalho, Francisco Manuel de Melo Breyner (1837-1903), mais conhecido como 
botnico, historiador da botnica em Portugal, bigrafo de Garcia de Orta e Pro da 
Covilh,  tambm um notvel ficcionista de ambiente alentejano, merecendo salientar-
se a novela e os contos regionais em Uma Eleio Perdida, 1888, reedio 1982, 
devido, sobretudo, ao seu apurado impressionismo local. Pela sua singularidade entre 
ns e pela influncia que exerceu em Fialho, merece

HLP - 60

946                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

ainda ser mencionado lvaro de Carvalhal (1844-1868), cujos Contos, postumamente 
editados em 1868 (reeditados sob ttulo de 6 Contos Frenticos,
1978), so, embora cronologicamente posteriores aos Contos Fantsticos,
1865, de Tefilo Braga, a mais tpica manifestao portuguesa dos enredos 
melodramticos de terror e violncia, que rastremos em Herculano, Camilo e Fialho, 
levados ao mximo de tenso contraditria entre o inverosmil pretensamente 
explicado, a tirada sentimental debruada da pardia, e uma permanente e ostensiva 
agresso  moral ertica mais conservadora, de que todavia se apresenta como 
apologeta.

Teatro naturalista

Tal como noutros pases, o teatro naturalista  entre ns bastante posterior  
doutrinao da escola e s suas realizaes novelsticas. Alm disso, o repertrio 
naturalista de autores portugueses dificilmente se distingue do drama de tese 
idealisticamente anticlerical ou antiplutocrtica que o precede ou at da simples 
comdia de costumes. Assim, as peas Os Homens de Roma,
1875, 0 Padre Gabriel, 1877, de A. J. da Silva Pinto (1848-1911), um dos

polemistas pelo naturalismo, Os Lzaros, 1877, de Lino de Assuno (1844-1902), 0 
Casamento Civil, 1882, de Cipriano Jardim (1841-1923), esto dentro do esprito 
polmico da famosa pea Os Lazaristas, 1875, de Antnio Enes (1848-1901).

0 naturalismo caracterstico, com as suas pretenses de determinismo social e 
biolgico,  esboado com 0 Grande Homem, 188 1, que se integra na Comdia Burguesa 
de Texeira de Queirs, e sobretudo com as peas, ento escandalosas, de Abel 
Botelho, mais conhecido na dramaturgia como

Abel Accio: Jucunda, 1889, Claudina, 1890, e Vencidos da Vida, 1992.

Outro naturalista nosso conhecido, Alberto Braga, tende no teatro para o drama 
ntimo, influenciado pelo pscologismo de Paul Bourget: A Irm,
1894, 0 Estaturio, 1897.

 maneira de Antoine, que lanou em Frana e em toda a Europa a voga do teatro 
naturalista com a fundao do seu Teatro Livre, 1887, tambm em

Lisboa se fundou uma companhia de Teatro Livre, a de Luciano de Castro, em 1904, a 
que se seguiu outra companhia congnere, a do Teatro Moderno,
1905. Entre os dramaturgos portugueses que graas a elas viram representar peas suas 
de tendncia ento naturalista distngue-se Ramada Curto, que depois

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                947

teria uma operosa carteira teatral, e Manuel Laranjeira (1877-1912), cujo prlogo 
dramtico Amanh, 1902, talvez seja a melhor obra cnica da escola. Como veremos 
adiante, Henrique Lopes de Mendona, Marcelino Mesquita, D. Joo da Cmara e Jlio 
Dantas, embora mais conhecidos pelas suas peas de cunho histrico, escreveram tambm 
teatro naturalista, e esto em geral ligadas a esta escola as suas peas mais 
resistentes  moda.

111111B181106,AF1,4

1 - EA DE QUEIRS

1. Primeiras edies ou edies refundidas

0 Mistrio da Estrada de Sintra (em colaborao com Ramalho Ortigo, 1871, 2. ed. 
refundida, 1884); 0 Crime do Padre Amaro, 1876, 1880; 0 Primo Baslio, 1878; 0 
Mandarim, 1880; A Relquia, 1887; Os Maias, 1888; Uma Campanha Alegre (colectnea dos 
artigos publicados nas Farpas, corrigidos para esta ed.), 1890-91; A Ilustre Casa de 
Ramires, Correspondncia de Fradique Mendes, 1900, e A Cidade e as Serras publicados 
no ano da morte do autor e cujas provas tipogrficas no foram por ele revistas (fase 
importantssima de trabalho de Ea), sendo o penltimo revisto e corrigido por 
Ramalho Ortigo, e a Correspondncia de Fradique Mendes provavelmente revista e 
organizada em definitivo por Jlio Brando; Contos, 1902; Prosas Brbaras, 1903; 
Cartas de Inglaterra, 190 5; Ecos de Paris, 190 5; Cartas Familiares e Bilhetes de 
Paris, 190 7,- Notas Contemporneas, 1909 (estes vols. da coleco de inditos 
datados de 1902 a 1909 ou dispersos, organizados por Lus de Magalhes, carecem de 
reviso crtica); ltimas Pginas,
1912; A Capital, 1925; 0 Conde dAbranhos, 1925; Alves & C. >, 1925; Correspondncia, 
19 2 5; 0 Egipto, 19 2 6; Cartas Inditas de Fradique Mendes e mais Pginas 
Esquecidas, 1929; Cartas de Londres, 1940; Cartas de Lisboa, 1944; Crnicas de 
Londres, 1944; Eca de Queirs entre os seus (Cartas ntimas), 1949; Cartas de Eca de 
Queirs aos seus

editores, 1961; Tragdia da Rua das Flores, ed. pref. por Joo Medina, Moraes, 
Lisboa,
1980 (ver crtica desta e outras cinco edies de 1980 e 1982 em Castro, lvo, a 
*Tragdia da Rua das Flores+ ou a Arte de Editar os Manuscritos Autgrafos, sep. do 
*Boletim de Filologia+, XXVI, 1980-8 1, pp. 309-359, e por Castro, lvo/ Duarte, Lus 
Fagundes, Duas Notas sobre a * Tragdia da Rua das Flores+, ibidem, XXVII, 1982, pp. 
427-438); e crtica mais cuidada, ainda que discutida, num vol. IV de Obras, Lello, 
1982, com introd. e fixao do texto por Anbal Pinto de Castro; Correspondncia, 
leit. coord., pref. e notas de Guilherme de Castilho, 2 vols., IN-CM, 1983; Cartas 
Inditas de Eca de Queirs a Ramalho Ortigo, Batalha Reis e outros, introd. e notas 
de Beatriz Berrini, ed. *0 Jornal+, 1987; As Polmicas de Eca de Queirs, vol. 1 
(1867-77), org., introd e notas de J. Carios Reis, col. *Heuris+, 1986. Obra 
Completa, em papel Bblia, 2 vols., Aguilar, Rio de Janeiro, 1970.


0 Crime do Padre Amaro teve trs verses: a primeira, a publicada na *Revista 
Ocidental+; a segunda, em 1876, com a indicao *Edio definitva+ e a nota de que 
fora

948                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

muito refundida; a terceira (2. > ed. em volume), em 1880, com indicaco *Nova edico 
inteiramente refundida e recomposta+. Na primeira ed. em vol. a obra'tem 362 pp.,    
 1 na segunda 674. H uma edio crtica onde se pode fazer o cotejo entre as trs 
verses, org. por Helena Cidade Moura, 2 vols., Porto, 1964. Foi publicada ainda uma 
srie de Pginas Esquecidas (4 vols., 1965) por Alberto Machado da Rosa, Presena, 
Lisboa, que inclui folhetins juvenis e textos com mais de uma redaco, e um vol. de 
Folhas Soltas, Porto, 1966, que contm algumas verses no utilizadas na confeco 
dos volumes pstumos. Raul Rego publicou, com pref., um relatrio consular de E. de 
Queirs, A Emigraco como Fora Civilizadora, Lisboa, 1979. Pginas de Jornal 
(Distrito de vora, 1967), Lello, 1981. Anuncia-se uma ed. crtica da Obra Completa 
de Ea de Queirs por Carios Reis, EIza Min, Beatriz Berrini, L. Fagundes Duarte e 
M. do Rosrio Milheiro (ver entrevista em *JL+, n. 1 232, 15-21 de Dez. de 1986 e 
informaes de C. Reis no supi. Cultura do *Dirio de Notcias+, de 1987.07.12 e de 
1987.10.04, comunicaces de L. Fagundes Duarte e Carios Reis includas em Eca e *Os 
Maias+, Actas do 1. > Encontro Internacional de Queirosianos, Asa, Porto, 1990); 
deste ltimo investigador, com a colab. de M. do Rosrio Milheiro, ver A Construo 
da Narrativa Queirosiana. 0 Esplio de Ea de Queirs, IN-CM, 1990, que, alm de 
informaes e quadros comparativos sobre o esplio  guarda da Biblioteca Nacional, 
aproveita um conjunto afim de fragmentos para estudo da estruturao e redaco da 
narrativa queirosiana. Anteriormente Helena Cidade Moura, num estudo publicado em 
Esttica no Romantismo em Portugal, Grmio Literrio, Lisboa, 1974 pp. 163-167 na ed. 
das Lendas de Santos, por Livros do Brasil, j estudara as variantes no 
aproveitadas; Carmela M. Nuzzi publicou uma Anlise Comparativa de duas verses de *A 
Ilustre Casa de Ramires+, Leilo, Porto, 1979 (trata-se do texto inicial e incompleto 
publicado na Revista Moderna, 1877, e do texto do volume de 1900).  fundamental para 
informao bibliogrfica completa e crtica o Apndice de Bibliografia e Iconograf, 
em cinco tomos, 1975-84, e ainda o vol. de Addenda et Corrigenda, 1984, de Ernesto De 
Cal, que adiante se indicam sob a rubrica de Estudos. H importantes contribuies a 
ter em conta, quer na Obra Completa, ed. Aguilar, Rio de Janeiro, 1970, e na eddas 
Obras de E. de 0. por Livros do Brasil, com fixao de texto e notas de Helena Cidade 
Moura, quer na de Lello e Irmo, Porto, 4 vols. em papel Bblia, 1986, sendo o

4.1 vol. de textos reunidos, fixados e anotados (incluindo correspondncia, por vezes 
indita) por Anbal Pinto de Castro. H uma ed. dos Contos no apenas mais completa 
do que a de 1942 mas ainda com registo de fontes e variantes, por L. Fagundes Duarte, 
Dom Quixote, 1988. Este ltimo investigador apresentou em tese de doutoramento  
Univ. Nova de Lisboa, 1989, A Gnese de um Romance, em dois tomos: 1 - Estudo 
Gentico de *A Capitafi+; 11 - Edio Diplomtica e Crtica de *A Capital!+, com 
base em todos os manuscritos e impressos conhecidos, e em fases diversas de 
elaborao de um romance, que em 1925 fora editado em verso fixada pelo filho mais 
velho e quase homnimo do autor; alm disso organizou e apresentou uma ed. crtica de 
0 Primo Baslio, com texto fixado por Helena Garvo, Dom Quixote, 1990. Entre os 
projectos queirosianos inacabados, salientemos o de A Batalha do Caia, referente a 
uma imaginria invaso e anexao de Portugal por Espanha, apresentado a Ramalho em 
carta de 1878-11 -10, e cuja publicao Ea se prope suspender em troca de um 
subsdio oficial (desse projecto resta um pouco trabalhado fragmento, A Catstrofe, 
publicado no vol. de 0 Conde dAbranhos de 1926).

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
    949

2. Antologias

Volumes antolgicos na Antologia Portuguesa, de Agostinho de Campos, e em Questes 
Morais e Sociais na Literatura, de Cmara Reys; Os Melhores Contos Portugueses, na 
*Coleco Antologias Universais+, Lisboa. Polmicas de E. de Queirs (1867-1872),
2 vols., org., selec. e notas de Joo de Carios Reis, col. *Heuris+, 1987.

3. Estudos

Braga, Tefilo: As Modernas Ideias na Literatura Portuguesa, 1892. Reis, Jaime 
Batalha: intr. a Prosas Brbaras, 1903. Cabral, Antnio: Eca de Queirs, 3. > ed., 
Lisboa, 1945, e outros trabalhos. Moog, Viana: Eca de Queirs e o Sculo XIX, 4. 
ed., Porto Alegre, 1945. Srgio, Antnio: estudos capitais em Ensaios, vols. III, IV 
e VI. Chaves, Castelo Branco: Estudos Crticos, Coimbra, 1932, inci. em Crtica 
Inactual, Arcdia, 1981. Eca de Queirs, - In Memoriam, 2. ed. Atlntida, 1947.

Lins, lvaro: Histria Literria de Eca de Queirs, 4. > ed., Rio, 1964.

Simes, Joo Gaspar: Eca de Queirs, o homem e a obra, 1945, 3. > ed. refundida, 
Lisboa, 1980, e vol. da col. *A Obra e o Homem+, Lisboa.

Sacramento, Mrio: Eca de Queirs, uma esttica da ironia, Coimbra, 1945. Saraiva, A. 
Jos: As Ideias de Eca de Queirs, 1946, e A Tertlia Ocidental, Gradiva, 1990 (rev 
a anlise do livro anterior).

Oliveira, Lopes de: Eca de Quers, 1944. Corteso, Jaime: Eca de Queirs e a Questo 
Social, Lisboa, 1949.
0 principal estudo do estilo queirosiano  o de Cal, Ernesto Guerra da: Lngua e 
Estilo de Eca de Queirs, de texto original castelhano, New York University, 1954 
(trad. port., em 3. verso, Almedina, Coimbra, 1981), que tambm publicou o ensaio 
*A Relquia+, romance picaresco e cervantesco, Lisboa, 197 1, um Apndice de 
Bibliografia Queirosiana sistemtica y anotada e Iconografi, trs tomos de 
Bibliografia Pasiva, 1975-80, Imp. da Un. de Coimbra, 1975-80, um quarto tomo de 
Addenda et Corrigenda, ibidem, 1980, e um tomo V de ndices de Consulta, ibidem, 
1984.

Meneses, Djacir: Crtica Social de Eca de Queirs, 2. > ed., Fortaleza, Cear, 1962. 
Rosa, Alberto Machado da: Eca, discpulo de Machado?, ed. rev. Presena, 1964. Livro 
do Centenrio de Eca de Queirs, org. por Lcio Miguel Pereira e Cmara Reys. 
Martins, A. Coimbra: Ensaios Queirosianos, Europa-Amrica, Lisboa, 1967 (estudos 
seguros e fundamentais sobre o tema de 0 Mandarim, o incesto n'Os Maias e o dbito de 
A Capital! a Iluses Perdidas de Baizac).


Ver estudos de certas fontes queirosianas por Jean Girodon no *Builetin des tudes 
Portugaises+, t. XX, XX11, XX1V e XXV11; artigos de Tlio Ramires Ferro e Gaspar 
Simes contidos na colectnea Estrada Larga, Porto Editora, s/d.

Coelho, Jacinto do Prado: A Letra e o Leitor, Lisboa, 1969, e Ao Contrrio de 
Penlope, Bertrand, 1976, e um artigo sobre Os Maias na rev. Sillages, 1977/5, 
Poitiers.

950                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Cirurgio, Antnio: A Estrutura de *A Ilustre Casa de Ramires+, in Ocidente, 77, 377, 
Set. 1968.

Roche, Jean: Introduction  une tude quantitative ou sty1e de Eca de 0. dans *0 
Crime do Padre Amaro+, in Arquivos do Centro Cultural Portugus, Paris, 1, 1969.

Medina, Joo: Eca de Queirs e o seu tempo, ed. Horizonte, Lisboa, 1972; E. de 
Queirs Poltico, 1974, e Eca de Queirs e o anarquismo, Arquivos do Centro Cultural 
Portugus, 1972, vol. V, 1972, Ea de Queirs e a Gerao de 70, Moraes, 1980.

Lepecki, Maria Lcia: Eca na Ambguidade, Fundo, 1974. Reis, Carios: Estatuto e 
perspectivas do narrador na fico de Eca de Queirs, 1975,
3. a ed. rev., 1984, e Introduo  leitura d'*Os Maias+, 1978, 3. ed. 1986 (reimp. 
1990), Almedina, Coimbra, 1978; de colab, com M. do Rosrio Milheiro, A Construo da 
Narrativa de E. de Queirs, IN-CM, 1989.

Sire, Dominique: Une Premire bauche ou roman *0 Primo Baslio+, e Roche, Jean: Sur 
Deux Pages d'Ea de Oueirs, in *Builetin des tudes Portugaises et Brsiliennes+, t. 
33-34, 1972173.

Torres, Alexandre Pinheiro: Os falsos cdigos ednicos de *A Cidade e as Serras+, in 
Colquio/Letras, 31, Maio de 1976.

Nunes, Maria Lusa: As tcnicas e a funo do desenho da personagem nas trs verses 
de *0 Crime do Padre Amaro+, Lello, Porto, 1976.

Pires, A. M. Bettencourt Machado: A Ideia de Decadncia na Gerao de 70, Ponta 
Delgada, 1980.

Caleman, Alexander: E. de Queirs, an European Realism, New York Univ. Press, 1980. 
Do ponto de vista didctico (e no s), h um bom caderno para uma direco de 
leitura de Os Maas, por M. Antnio Garden e Lus Amaro de Oliveira, Porto Editora, 
1979.

Uma biografia apoiada em documentaco recente, incluindo correspondncia: Fialho, L. 
Viana: A Vida de Eca de Queirs, Lello, Porto, 1983.

Delille, M. Manuela Gouveia: A Recepo Literria de H. Heine no Romantismo 
Portugus, IN-CM, 1984 (aponta motivos de Heine ao longo da obra queirosiana, desde 
os folhetins de 1866).

Lopes, scar: 0 Mandarm, A Relquia, Os Maias, in lbum de Famlia, Caminho, Lisboa, 
1984, pp. 69-114, e Efeitos e politonia vocaln'*0 Primo Baslio+, in Eca e *Os 
Maias+, vol. adiante referido.


Berrini, Beatriz: Portugal de E. de Oueirs, IN-CM, 1984. Min, Elza: E. de Queirs 
Jornalista, Livros Horizonte, 2. a ed., 1986 (crnicas da estadia em Inglaterra).

Lima, Isabel Pires de: As Mscaras do Desengano - para uma abordagem sociolgica de 
*Os Maias+ de Ea de Queirs, Caminho, Lisboa, 1987.

Monteiro, Oflia Paiva: Um jogo humorstico com a verosimilhana romanesca -

*0 Mistrio da Estrada de Sintra+, in Colquio/Letras, 97, Maio-Junho, e 98, Julho-
Agosto
1987.

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
  951

Freeland, Alan: 0 Leitor e a Verdade Oculta - ensaio sobre Os Maias, IN-CM, 1989. 
til vol. de consulta: o Dicionrio de Eca de Queirs, coord. por A. Campos Matos, 
Caminho, 1988, de que se anuncia reedio actualizada e ampliao em dois vols.-

Ea e *Os Maias+, Actas do 1. 0 Encontro Internacional de Queirosianos, ed. Asa, 
Porto, 1990. (0 2. 1 Encontro congnere realiza-se em Coimbra, 1992.)

Dos outros autores, ver no texto a indicao das primeiras edies.

Estudos:

Figueiredo, Fidelino: Histria da Literatura Realista, 192 1, Monograf ias insertas 
na Histria da Literatura Portuguesa Ilustrada nos Sculos XIX e XX e na Perspectiva 
da Literatura Portuguesa do Sculo XIX.

Serro, Joel: Temas Oitocentistas, vol. li, Livros Horizonte, 1962.

Alguns dos autores referidos esto abrangidos pela 1. > srie da antologia Os 
Melhores Contos Portugueses, org., pref. e anotada por Guilherme de Castilho, na col. 
Antologias Universais.

Ver a srie de vria autoria sobre *A fico em prosa na Literatura Portuguesa+, reu-

nida em Estrada Larga, vol. 1., Porto, s/d.

Castro, Anbal de: BaIzac em Portugal, Coimbra, 1960. Dcio, Joo: Trs Contistas do 
Realismo em Portugal (Eca, A. Botelho, T. Coelho), in Alfa, Fac. de Filosofia e 
Letras de Marlia, 13-14 (1968).

Pires, Antnio Machado: Natureza e civilizao nos escritores naturalistas 
portugueses, in Colquo/Letras, 22, Nov. 1974, e Teoria e Prtica do romance 
naturalista portugus, ibidem, 3 1, Maio 1976; A Ideia de Decadncia na Gerao de 
70, Ponta Delgada,
1980.

Antologia: Trajectos do Porto na Memria Naturalista, selec. e pref. de Isabel Pires 
de Lima, Guimares Edit., 1989.

Obras de Fialho de Almeida: Contos, 1881; Cidade do Vcio, 1881; Os Gatos,

1889-94, reed. por Costa Pimpo, 1945; Pasquinadas, 1890, 1. vol. do Jornal de um 
Vagabundo, que abrange ainda Vida Irnica e  Esquina; Lisboa Galante, 1890; Vida 
Irnica, 1892; 0 Pas das Uvas, 1893; Madona do Campo Santo, 1896;  Esquina, 1903. 
Volumes pstumos: Barbear, Pentear, 1911; Saibam Quantos, 19 12; Estncias de Arte e 
de Saudade, 1921; Aves Migradoras, 1921; Figuras de Destaque, 1924; Actores e 
Autores, 1925; Vida Errante, 1925. Antologia: Os Gatos, selec. e intr. de M. Antnia 
Carmona Mouro e M. Fernanda Pereira Nunes, Ulisses, 1986.

Sobre Fialho de Almeida: o principal estudo biogrfico-interpretativo  o de Costa 
Pimpo, Fialho, Coimbra, 1944. Caracterizaes mais condensadas: Martins, Antnio 
Coimbra: Portrait de Fialho, in *Builetin des tudes Portugaises+, XVII, 1953, e 
Jacinto do Prado Coelho, em A Letra e o Leitor, Lisboa, 1969. H uma antologia 
organizada e prefaciada por Jacinto do Prado Coelho, na col. *As Melhores Pginas da 
Literatura Portuguesa+, Lisboa, 1944. Consulte-se ainda Brando, Raul: Memrias; e o 
In Memoriam de Fialho de Almeida, Porto, 1917.

952                                                  HISTORIA DA LITERATURA 
PORTUGUESA

Moiss Massaud: A *Patologia Social+ dAbel Botelho, Univ. de So Paulo, 1962. Benoit, 
Monique: Contribution  Ia biographie dAbel Botelho, in Sillages, 1977/5, Poitiers,

Ficalho, Conde de: Uma Eleio Perdida, com introd. e notas de Nuno de Sampayo, IN-
CM, 1982.

Sousa, Maria Leonor Machado de: A Literatura *Negra+ ou *de Terror+ em Portugal 
(sculos XVIII e XIX), Lisboa, 1979, e 0 *Horror+ na Literatura Portuguesa, col. 
*Biblioteca Breve+, lCLP, 1979.

Ivo, Pedro: Seres de Inverno, introd. de M. Adelaide Neuparth, Civilizao, Porto,
1983.

Sobre Trindade Coelho: ler Fernandes, Rogrio: Ensaio sobre a obra de Trindade 
Coelho, 196 1; e os estudos de Augusto da Costa Dias contidos na edio pstuma de 0 
Senhor Sete, 1961, e em Crise da Conscincia Pequeno-Burguesa - 0 Nacionalismo 
literrio da Gerao de 90, 1962, reed. 1964. Ainda de Trindade Coelho saiu em 1968, 
ed. Portuglia, 0 Meu Livrinho, destinado a crianas. No suplemento *Cultura+ do 
*Dirio de Notcias+ de 8 Out. 1989 Viale Moutinho, que prepara a ed. da 
Correspondncia, d a conhecer dois textos inditos.

Coelho, Trindade: Gente do Sculo XIX, Ulmeiro, Lisboa, 1987; Outros Amores, 
Labirinto, Lisboa, 1986; Fbulas, Labirinto, Lisboa, 1987 (edies org. e pref. por 
Viale Moutinho).

Antologia de T. Coelho, por Ant. Manuel Machado, Lello, Porto, 1980. Esto em 
reedio as Obras de Abel Botelho; os dois primeiros vols. saram em 1978. 
Entretanto, h urna ed. de todos os seus romances em papel Bblia, 2 vols., Lello, 
Porto, s/d.

lvaro de Carvalhal, apresentao e notas de Pedro da Silveira, in *Revista da 
Biblioteca Nacional+, vol. 2, n. > 2, Julho-Dez. 1982, pp. 303-310; reed. dos Contos, 
Relgio d'gua, 1990. 0 realizador Manoel de Oliveira produziu um filme baseado no 
conto Os Canibais, 1988.

Os naturalistas, Fialho de Almeida e Trindade Coelho, bem como as derivantes e 
contracorrentes do naturalismo a partir de 1890 esto desenvolvidamente estudados em 
Lopes, scar: Entre Nemsio e Fialho, 2 vols., IN-CM, 1987. No n. 6, 1991, da rev. 
Diacrtica, Univ. do Minho, h dois importantes estudos sobre autores naturalistas -


Jesus, M. Saraiva de: Erotismo Decadentista e Moralismo Romntico n'*O Livro de Alda+ 
de Abel Botelho, pp. 141-162; e Santana, M. Helena/Simes, Maria Joo: Realismo e 
Quimera no Ideal Cientfico Finissecular: Abel Botelho e Teixeira de Queirs, pp. 
187-208.

Quanto ao teatro naturalista, ver Rebelo, Lus Francisco: Teatro Portugus, 2. > 
vol., Histria do Teatro Portugus, col. *Saber+, e 0 Teatro Naturalista e Neo-
Romntico (1870-19 10), *Biblioteca Breve+, ICALP, 1987; Picchio, Luciana Stegagno: 
Histria do Teatro Portugus, Lisboa, 1969; Frana, Jos-Augusto: A *fisiologia+ do 
capitalismo no teatro do primeiro perodo do Fontismo, in Colquio/Letras, 30, Maro 
1976; Pimentel, F. J. Vieira: Literatura dramtica e fim-de-sculo (1886-1904), in 
Literatura e Modernidade, Ponta Delgada, 199 1; Barata, Jos Oliveira: Histria do 
Teatro Portugus, ed. Universidade Aberta, 199 1, pp. 294-304; e ainda artigos de 
autoria vria reunidos em Estrada Larga, vol. 2. >, Porto, s/d.

Captulo X1

POETAS REALISTAS E PARNASIANOS

Condies gerais

Conhecemos j, dos captulos anteriores, as condies histricas mais gerais, 
europeias e portuguesas, relacionadas com o surto e desenvolvimento da poesia 
panfletria, satrica, combativa, doutrinria, filosfica, ou ento

descritivamente pitoresca, narrativa e, quanto possvel, objectiva e impessoal.

Agora que as tendncias se definem melhor, torna-se mais fcil sentir o que h de 
peculiar na poesia portuguesa quando comparada com a fran-

cesa, que  a mais conhecida pelos nossos poetas do sculo XIX e por alguns deles 
imitada. Por um lado, havia nas feies do idioma e nos costumes pequeno-burgueses e 
populares portugueses certas particularidades tradicionais que no podiam deixar de 
afirmar-se. Joo de Deus, sem deixar de se situar, muito reconhecivelmente, entre o 
Romantismo sentimental e a agitao ideolgica posterior a 1860, , por excelncia, o 
poeta dessas particularidades. Por outro lado, o meio social portugus no consente 
seno tardiamente (e saltando, por isso, fases intermedirias) certas audcias que a 
sociedade francesa, mais evoluda, permite mais cedo aos seus poetas. Em Frana, o 
ideal, em poesia, da *arte pela arte+ define-se desde a dcada de 30 no grupo 
romntico de Thophile Gautier, e desde meados do sculo no culto da rima rica e da 
forma perfeita por Thodore de Banville, fundindo-se depois, entre os

Parnasianos, com o gosto dos grandes temas impessoais: a reflexo filos-

fica e cientfica, a epopeia do Homem examinada em todas as variantes do

seu panorama histrico e geogrfico. Pois bem: s, talvez, Ea de Queirs,

954                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

com a sua ponta de ironia, pde assimilar bem o ideal do artista p    >uro da 
palavra, em contemplao turstica de todo o espectculo humano, personific ando-o 
mais tarde em Fradique Mendes. 0 culto da rima rica, da variedade rtmica 
(inclusivamente na cesura do alexandrino) e da joalharia verbal ser apresentado, 
ainda em 1890, como uma inovao entre ns por Eugno de Castro, que alis se 
inspira no prefcio de Thophile Gautier  edio de Les Fleurs du Mal de 1888.

Data de 1857 a 1. a edio deste livro de Baudelaire, que trouxe  poesia um *frisson 
nouveau+, impondo a teologia amoral do vcio (a insaciedade do vcio constituiria a 
mais directa vivncia do infinito das almas) e refundindo o sentimento da realidade 
quotidiana pela sugesto das suas imensas co,rrespondncias secretas e misteriosas 
subjacentes ao domnio da percepo e do raciocnio; e, com a derrocada do Segundo 
Imprio e a represso da Comuna parisiense em 70-71, culminam em Frana os 
sentimentos de frustrao social, declara-se em crise a ideologia progressista: 
correspon~ dentemente, os poetas sentem-se mais isoladamente artistas ou videntes, 
caminhando para o Decadentismo atravs da *msica antes de tudo+ de Verlaine, do 
*longo, imenso e irracional desregramento de todos os sentidos+, de Rimbaud, e da 
intentada purificao do sentido das *palavras da tribo@>, isto , da intentada 
eliminao de todos os lugares-comuns e referncias prticas da linguagem, de 
Mallarm. Ora Baudelaire  compreendido s avessas pelos principais poetas 
portugueses: o satanismo baudelairiano aflora, em geral, numa srie de poetas 
panfletrios como smbolo daquela podrido das altas camadas burguesas citadinas que 
seria preciso varrer.

A nossa poesia de 1870-80 raro transcende o moralismo caritativo e o vago 
progressismo da pequena burguesia de ento, incapaz, em geral, de aceitar o 
amoralismo e o intuicionismo dos mais significativos poetas ocidentais 
contemporneos; influenciam-na Vtor Hugo e o parnasianismo descritvo, narrativo e 
doutrinrio, numa versificao ainda rgida e discursiva que contrasta com a 
plasticidade versificatria de Verlaine e o versilibrismo de Rimbaud. As Odes 
Modernas e os Sonetos de Antero, os artigos satnicos de Ea, depois parcialmente 
recolhidos nas Prosas Brbaras, e os poemas tambm satnicos do pretenso Fradique 
salientam-se pelas influncias recebidas. Vamos passar em revista os principais 
poetas, reservando para o fim Gomes Leal, que, pela variedade das suas facetas, 
representa, mais do que nenhum outro, a encruzilhada donde partem alguns dos caminhos 
do Simbolismo e de correntes posteriores.

6. a pOCA - 0 ROMANTISMO                                                            
  955

ffiJOO DE DEUS

Intelectual pouco curioso, com urna concepo de vida tradicional fnoldada no seu 
catolicisnio popular, animada pela sua bondade e sensibilidade inatas, Joo de Deus 
tinha, contudo, o sentido dos recursos de expresso potica mais permanentes no 
idioma: a sua lrica amorosa e a sua stira conservam-se muito mais comunicativas do 
que o sentimentalismo ultra-romntico e a poesia panfletria sua contempornea.

Filho de um pequeno comerciante de S. Bartolomeu de Messines, Joo de Deus Ramos (n. 
1830-03-08 - t 1896~0 1 - 11) distinguiu-se em Coimbra, durante os dez anos ern que 
fez a sua formatura (1849-59), por uma srie de dons que o tornavam indispensvel aos 
companheiros: o jeito para desenhar, para tocar viola e para improvisar lricas de 
gosto popular e stiras estudantis. J ento, como sempre, eram os amigos que 
tratavam de escrever, seleccionar e publicar os versos que cantava ou ditava de cor. 
Depois de formado, tentou vida de advogado e de jornalista em Coimbra, Beja, vora e, 
depois, Lisboa. Recordemos que em 1863, n'O Bejense, criticava Castilho. No meio de 
difceis con-

dies monetrias, que o obrigavam a aceitar trabalho de costura e a escrever versos 
pagos de encomenda,   diligncia de amigos e admiradores que deve, em 1869, duas 
surpresas: uma eleio para deputado e a edio da sua primeira grande coleco de 
poesias, Flores do Campo. Por solicitao de um livreiro, dedica-se depois  
preparao da sua

conhecida Cartilha Maternal, que se publica em 1876. Inicia-se deste modo a sua 
carreira de pedagogo, que lhe acarretou srios desgostos at ao fim da vida, fazendo-
o reagir com polmicas e stiras, mas que tambm lhe valeu em 1895, a poucos meses do

falecimento, uma das mais entusisticas consagraes pblicas de que foi alvo um 
escri-

tor portugus. Em 1893, Tefilo Braga, um dos seus mais fervorosos admiradores, 
editava-lhe a mais completa coleco de poemas, o Campo de Flores, que em breve se 
esgotou, exigindo uma reedio que se seguiu de perto ao seu memorvel funeral 
nacional.

0 hbito de improvisar  viola variantes musicais e poticas do cancioneiro popular e 
estudantil, de versificar para msica, de trabalhar os seus


poemas de cor e auditivamente, deve ter contribudo para que Joo de Deus nos 
deixasse uma srie de poesias de to simples e pura expressividade rtmica. 0 seu dom 
lrico, e tambm satrico, revela-se pela capacidade de regressar  expresso mais 
directa dos sentimentos,  expresso infantil ou feminina. Os seus poemas so feitos 
do material mais comum da lngua: repeties, exclamaes, anacolutos, um vocabulrio 
correntio e um teclado restrito mas universal de imagens I, que ele, s vezes, 
percorre enumerativamente: a flor, a ave, a prola, a estrela, a lua, o cu, a luz, a 
fonte, o vento, a nuvem,

956                                              HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

o perfume... De to Simples recursos, ou no se faz nada, ou faz-se uma poesia que 
resiste como a do patrimnio oral das naes.  isto o que acontece com Joo de Deus: 
se o julgarmos pelos seus melhores poemas, nenhum dos poetas seus contemporneos tem 
uma fala mais moderna que ele. A sua poesia repele qualquer declamao pretensiosa; 
as inflexes de voz que ela nos pede esto no ouvido, so as inflexes das crianas e 
da gente espontnea. Eis o que pode verificar-se em lricas como Beijo, Folha Cada, 
Sede de Amor, Adorao, Sol ntimo; na fbula Cabra, Carneiro e Cevado; e em stiras 
como 0 Dinheiro, A Monarquia, Elei es.

A esta simplicidade so, contudo, inerentes alguns riscos e defeitos. Joo de Deus 
nem sempre consegue evitar certa monotonia melopeica; o pequeno mbito dos seus temas 
e recursos foram-no, por vezes, a deslizar para os lugares-comuns ultra-romnticos; 
certos preconceitos de moralismo burgus impem~lhe que cubra de eufemismo 
pretensamente religioso alguns impulsos do seu temperamento ingenuamente sensual, 
como se todo o seu lirismo devesse subordinar-se  atitude do amor-adorao e a uma 
profisso de religiosidade.

Mas o poeta no recorre apenas  estilstica ultra-romntica, quando desdobra a sua 
inspirao lrica para alm dos recursos mais ingnuos. Um tino seguro leva-o a 
aproximar-se de Dante, Petrarca e Cames, sem falar da Bblia, que  a sua predilecta 
fonte literria. Como vimos, Antero confessa dever a Joo de Deus a reabilitao do 
soneto camoniano.  evidente a lio dos poemas bblicos no gosto das imagens em 
cascata, a dos renascentistas na idealizao religiosa do amor e na capacidade de 
desdobramento dialctico de certos sentimentos, embora tudo isso esteja assimilado a 
uma ndole

prpria, que nunca deixa de manifestar-se na simplicidade dos meios ver-

bais. A elegia A Vida, que  a sua obra-prima, constitui o melhor exemplo da sntese 
de todos estes elementos.

Joo de Deus teve precursores, como vimos, em Toms Gonzaga, Caldas Barbosa e, at 
dispersamente, numa ou outra poesia em que os romnticos de 40 a 50 consegui- ram 
abeirar-se autenticamente da tradio folclrica, como pretendiam. Nem por isso deixa 
de impressionar o seu isolamento entre os poetas que se imprimem no sculo XIX. 
Apesar do seu magistrio, depois ligado ao de Campoamor, o lirismo ertico e ntimo 
seu contemporneo ou posterior , em comparao, intelectualizado ou mundanizado 
(Lira ntima, 1891, do erudito Joaquim de Arajo (1868-1917); Mocidade, 1882, de 
Fernando Caldeira (1815-1894); Dspersos, 1884, de Eduardo Coimbra. (1864-84); 0 Meu 
Livro, 1908,

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
   957

de Fausto Guedes Teixeira (1871-1930). Mesmo Augusto Gil (1873-1929), que j tem

sido aproximado de Joo de Deus, no pode considerar-se um produto genuinamente 
popular:  antes um produto da gazetilha jornalstica, da graa do teatro ligeiro, da 
bomia intelectual de caf e noitada. No entanto, deve ter-se em conta a tradio dos 
poetas e

cantadores populares que, no Algarve, Alentejo e outras regies de Portugal, se 
prolonga at aos nossos dias, como o mostra o caso de Antnio Aleixo (1899-1949), 
cujos versos, por excepo, forani reunidos em volume (Quando comeo a cantar, 1943, 
reeditado sob o ttulo de Intencionais, 1945; Auto da Vida e da Morte, 1948, Este 
Livro que vos deixo.---
1969, 3. a edio, em dois volumes, 1990, Inditos, 1978). H uma antologia de Poetas 
Populares, em quatro volumes, organizada por Fernando Cardoso, 1978. Joo de Deus  
uma combinao desta tradio oral e musicada e da literatura impressa.

GUILHERME DE AZEVEDO

A poesia revolucionria das dcadas de 70 e 80 mantm-se afastada da castia 
naturalidade de Joo de Deus, do mesmo passo que da prpria realidade quotidiana 
portuguesa. Joo de Deus deixou-nos poucas e breves stiras polticas e sociais; mas, 
por exemplo, as trs que citmos so excelentes pela sua exacta apreenso de factos 
caractersticos. Se lhes falta grande flego sinttico, so, em compensao, 
inexcedivelmente fi is ao bom senso popular, de que se diriam uma emanao. 0 
carcter social do revolucionarismo literrio de 70-80, a sua ligao com as 
aspiraes bastante vagas e contra-

ditrias da pequena burguesia descontente, denuncia-se claramente na incapacidade, 
que normalmente manifesta, de digerir perfeitamente os modelos franceses, 
assimilando-os s condies portuguesas; e no cunho em geral retrico e abstracto da 
sua expresso literria, destinado a iludir a sua impotncia ou as suas contradies 
reais -nomeadamente quando s imagens de uma camada de espoliadores farisaicos e 
devassos, ope com insistncia uma imagem inconscientemente caricata do povo, que 
esses poetas s conseguem ver envilecido, degenerado, fsica e moralmente atrofiado 
pela misria. , por exemplo, significativo que todos os poetas revolucionrios 
aceitem to amide a designao de canalha para o povo, embora com ironia e chamando-
a tambm a si.

As Odes Modernas fixaram muitos dos elementos oratrios dessa poesia, nomeadamente as 
suas abstraces de matiz religioso ou nietafsico, a tendncia proudhoniana para 
situar na conscincia, e portanto no apostolado pedaggico e literrio, os meios mais 
eficazes para operar qualquer transformao que

958                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

melhore a condio humana. Vitor Hugo forneceu, como temos dito, o principal figurino 
versificatrio e estilstico para revestimento destas concepoes gerais. Mas, como 
tambm notmos, foi a um Baudelaire mal (ou negativamente) entendido, se no 
conhecido em segunda mo (e at sob a forma de caricatura, no satanismo de um 
pretenso Fraffiques Mendes, autor dos Poemas de Macadam publicados n'O Primeiro de 
Janeiro), que poetas panfletrios portugueses de ento foram buscar a imaginaria da 
podrido das urbes burguesas modernas. Distingue-se, neste sentido, o papel 
desempenhado por Guilherme de Azevedo (n. Santarm, 1839-11-30 - t 1882-04-08).

Fisicamente mal dotado, ocultando a todos, desde os 14 anos, uma chaga incurvel de 
que morreu aos 43, com uma infncia dura, os estudos suspensos ao findar o curso

liceal por incompreenso do pai, Guilherme de Azevedo revelou desde cedo uma clara

simpatia pelos revoltados. 0 seu primeiro volume de versos, Aparies, 1867, nada 
acres-

centa ao lirismo amoroso romntico e ao vago progressismo j ento consagrado na 
nossa

poesia; mas anos depois, como redactor de um jornal da sua terra, Santarm, 
escandaliza quase todos os assinantes com uma apologia, alis vacilante, da Comuna de 
Paris. A partir de ento fixa-se em Lisboa, onde publica os seus principais livros, 
Radiaes da Noite,
1871, e Alma Nova, 1874 (3. edio 1981), e faz a sua vida no jornalismo, especial- 
mente no folhetim humorstico, devendo salientar-se a sua colaborao na revista 
Ocidente e aquela que prestou ao Antno Maria e ao lbum de Glrias de Rafael 
Bordalo Pinheiro, que tiveram urna enorme projeco no tempo. Tentou tambm, sem 
xito, o teatro, escrevendo, de colaborao com Junqueiro, a Viagem  roda da 
Parvnia, stira social e poltica em forma de revista (1878). Viveu os dois ltimos 
anos em Paris, como correspondente de um jornal brasileiro.

As Radiaes da Note e sobretudo a Alma Nova contam-se entre os livros de versos que 
mais contriburam para fixar o estilo dos numerosos poetas panfletrios desta poca. 
Reagindo contra o sentimentalismo pessoalista e

pretendendo *colher a flor do realismo/nas coisas triviais+, o seu tema , por 
excelncia, a Cidade burguesa, industrializada, enegrecida de fumo, proletarizada, de 
que, a uma primeira vista, se destacam as torpezas, as promiscuidades, a sordidez das 
excrees e podrides humanas acumuladas: a


vala comum com as suas larvas, os esgotos; e a lama, o gs, o vapor, etc.. Noutros 
poemas, a Cidade identifica-se em especial com tripdio dos exploradores,  uma 
*cortes devassa+, um centro de *bacanais+, onde dominam

6. - POCA - 0 ROMANTISMO                                                     959

agiotas, fariseus, dom-joes, 0 poeta trai a cada passo o seu romantismo ertico, 
pois as metforas exprimem, ao contrrio do que ele prprio pretende, a fascinao 
pela mulher requintadamente perversa e fria: essa *Flor da Moda+ vem sobrepor-se, com 
efeito, a tudo, como produto acabado da Cidade viciosa, que alis a sugeria 
fortemente desde as primeiras impresses. A prpria poesia , de algum modo, mulher - 
ou antes, so mulhe-

res: a poesia sentimental, uma *virgem quebradia+ que ele, poeta, desdenha; a poesia 
panfletria, a *irm da Justia+ que ele pretende amar; e a poesia baudelairiana  
aquela *que mostra no caminho a liga  multid o+ e que ns bem sentimos ser por ele 
inconfessavelmente preferida.

Tudo isto nos surge, em geral, excessivamente amplificado, recortado do figurino 
londrino ou parisiense que os cansados galicismos de palavras e construes, alm de 
uma adjectivao banal, ainda mais convencionalzam, despegando o leitor de qualquer 
relao ntida com a Lisboa do tempo, que tem pouco que ver com Paris ou Londres. 
Chega a sentir-se alvio quando Guilherme de Azevedo, traindo o seu pendor secreto, 
se revela em certas

poesias positivamente baudelairiano sem dar por isso, num hlito febril, num 
desespero vicioso e surdo, dando-nos estranhezas de pesadelo ou alucina-

o. Mas nem todo o seu revolucionarismo  retrico e pessoalista. Entre as 
*multides+ de *vtimas+ que perpassam nos seus versos, predominam,  certo, os 
tipos que podem vir do realismo literrio e artstico francs, como os cavadores, os 
mineiros, os britadores, os palhaos e, no conjunto, um

vago *povo legendrio+ rimando com *velho dromedrio+; h, contudo, tipos tingidos 
por uma simpatia mais viva, como *as gentis e pobres costureiras+ *que passam a 
tossir, cansadas com olheiras+, *as velhotas+, etc.. E se s

vezes se perde o sentido da dignidade da humanidade explorada, quando o

poeta continua a exaltar romanticamente a caridade esmoler; se um hbrido

eclectismo ideolgico domina uma parte da sua poesia, com a natureza feita

templo, Cristo feito proletrio, a Bblia arvorada em manual de revoluo,  tambm 
verdade que certas imagens e noes se animam por vezes, e as

coisas se desdobram nos seus conflitos reais: a mquina, *o Deus-Vapor+, as multides 
desumanizadas pela misria, a prpria Cidade nas suas tenses

internas so exaltados em versos enrgicos como condies dinmicas daquilo que o 
poeta parece julgar a nica esperana possvel sobre a Terra.

960                                                 HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

GUERRA JUNQUEIRO: vida e obra

0 mais clebre dos poetas combativos de ento  Guerra Junqueiro (n.
1850-09-15 - t 1923-07-07).

Nascido em Freixo de Espada  Cinta, de uma famlia abastada, Junqueiro viu os

seus primeiros versos editados e elogiados aos 14 anos. 0 pai destinava-o  carreira 
eclesistica, mas formou-se afinal em Direito ao tempo de Joo Penha, em cuja Folha 
colaborou. Nas poesias da fase estudantil j se revelam uma extrema facilidade 
improvisadora, a tendncia para as antteses e encarecimentos oratrios sobre temas 
da actualidade (derrota de Napoleo III, Repblica em Espanha), e o gosto da 
grandiloquncia pretensamente visionria. Completado o curso em 1873, trava contactos 
com os intelectuais do Cenculo, principalmente Guilherme de Azevedo, com quem 
colabora na revista Lanterna Mgica e na pea de teatro ligeiro j citada. Publica 
ento A Morte de D. Joo (1874), com que pretende satirizar o dom-joanisrno como 
forma de egosmo e perverso social, anunciando logo uma futura stira contra Jeov, 
que, em oposio a Cristo, personificaria a forma transcendentalista, inumana e 
farisaica da religio. 0 livro consagrou-o: combina uma alegoria reminiscente de 
Dante, a grandiloquncia de Hugo e traos pretensamente baudelairianos de condenao 
da Cidade capitalista.

Fez a seguir uma carreira de burocrata e poltico, como secretrio dos governos civis 
de Angra e Viana e, depois, como deputado. A Musa em Frias (1879), incorporando 
alguns poemas dispersos e sensivelmente influenciada por Chansons des rues et des 
bois, de Hugo, tinha a aparncia de uma acalmia na sua combatividade (* ... arrumei 
num canto a lata/com que fabrico os troves+), embora os poemas de reconciliao com 
a prosaica vida burguesa alternem ainda com outros de moderado idealismo 
progressista. Em 1885, publica, no entanto, A Velhice do Padre Eterno, que preparava 
desde h vrios anos dentro do plano anunciado, propondo-se complet-la por um poema 
pico sobre Prometeu Lbertado (o libertador seria Cristo), que deixou afinal 
incompleto. A Velhice  uma coleco de poemas em que predomina a stira 
anticlerical, contrapesada por uma religiosidade pantestica e humanitria com 
influncias bem reconhecveis de Proudhon, Michelet e

Hugo. A nebulosidade desta ideologia anticlerical permitia que, entretanto, 
prosseguisse at  crise poltica de 1890 a sua carreira de deputado monrquico, 
gravitando na rbita de Oliveira Martins e na do grupo de literatos e aristocratas 
dos Vencidos da Vida.

Com o Ultimato assiste-se, porm,  sua rotura com Martns e  passagem para as


fileiras republicanas. Datam de 1891 Finis Patriae e Cano do do, violentas 
stiras  dinastia brigantina e  Inglaterra, das quais ainda  sequncia Ptria 
(1894), poema j, no entanto, repassado de um patriotismo elegaco a condizer com as 
tendncias saudosistas do tempo. A sua retirada de ento para as suas propriedades no 
Douro coincide

com o princpio de uma evoluo para uma pacfica religiosidade. 0 estilo oratrio 
volve-se para o sentimento de decadncia nacional, para uma vaga piedade crist com 
os humildes;

6, aPOCA - 0 ROMANTISMO                                                             
  961

e , por outro lado, contrariado, neste coleccionador de bricabraque, por um gosto 
novo de variedade formal, que o simbolismo despertara. Eis os incentivos mais 
evidentes de Os Simples, de 1892. Mas o tom oratrio retoma todo o seu predomnio 
para, na Orao do Po (1902) e na Orao da Luz (1903), continuar o misticismo 
pantesta, caldear motivos bblicos com certas pretenses cientficas, sobretudo 
transformstas, servindo de ponte entre a temtica anteriana e a dos saudosistas, que 
muito admiraram e imitaram este ltimo poema. A Repblica f-lo regressar  poltica, 
chegando a representar diplomaticamente o novo regime em Berna. 0 seu iderio 
continua a caracterizar-se por uma grande impreciso, A atitude de retraco e 
recolhimento caseiro domina os seus ltimos tempos (Poesias Dispersas, 1920; Prosas 
Dispersas, 1921).

Vitoriado em vida como um dos maiores poetas portugueses, e at como o grande poeta 
contemporneo da Pennsula, severamente criticado sob os

mais diversos pontos de vista no segundo quartel do sculo actual, o caso

literrio de Junqueiro constitui uma das pedras-de-toque para determinao dos 
preconceitos estticos de duas pocas. As deficincias, as incoerncias de 
construo, o demagogismo oratrio de A Morte de D. Joo, e, secundariamente, de 
outros poemas, j foram, no apenas denunciados, mas at explicados pela gnese 
dessas obras. A Velhice do Padre Eterno e A Morte de D. Joo correspondern, 
respectivamente, ao Crime do Padre Amaro e ao Primo Basilio no desenvolvimento de 
dois temas sociais j tratados nas Farpas e predilectos de outros poetas do tempo: o 
farisasmo e o dom-joanismo. Mas, enquanto Ea soube represent-los com certa 
perspiccia sociolgica e psicolgica, Junqueiro recorreu a smbolos cuja 
agressividade mascara uma

viso muito inconsistente: o seu D. Joo nada sugere de vivo e imediato, no passa do 
velho heri byroniano, caricaturado de um ponto de vista pequeno-burgus, mas com o 
seu romantismo ainda mal virado do avesso; a Velhice, bastante melhor, reduz-se, em 
parte,  boutade antibblica e  caricatura anticlerical.

Sob o aspecto rtmico e estilstico, os detractores de JunqueTo fizeram o inventrio 
dos seus recursos versificatrios, indicando o abuso de alguns efeitos fceis, 
sobretudo no alexandrino, visivelmente decalcado no de Hugo, que tambm  o seu 
principal mestre do *modo estridente e relampejante de chocar a antftese+ (Ea) e da 
sua caracterstica mistura de grandiloquncia e prosasmo. Certos defeitos da poesia 
huguesca reflectem-se, por vezes agravados, na poesia junqueiriana, nomeadamente a 
explorao exaustiva de analogias retricas (por exemplo, entre o pensamento e o mar, 
entre as coisas religiosas e a grandiosidade cenogrfica da natureza), o estirado 
tra-

962                                         HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

tamento alegrico ou a frequente personificao maiusculada de sentimentos e 
abstraces (por exemplo, a Conscincia e o Remorso; a Lgrima; a

Ideia, a Dor, o Crime, a Misria, etc.). Por outra banda, as insistentes imagens da 
sordidez urbana e burguesa provieram do baudelairianismo mal entendido de Guilherme 
de Azevedo. Junqueiro no dignifica a sua galeria de espezinhados sociais com 
qualquer reaco dinmica e consciente; tanto em Os Simples, livro onde constituem o 
terna dominante, como nos volumes anteriores, as vtirrias do dom-joanismo masculino, 
da violncia e da explorao, as crianas desamparadas, os cavadores, os operrios, 
os pobrezinhos, a moleirinha, etc., elevam-se em coros ou recortam-se isolados num 
ambiente

de mera compaixo passiva, se no de pitoresco e de contemplao devaneante ou 
pretensamente mstica. 0 simbolismo foi para Junqueiro um renovo

do romantismo luarento, sentimental e cemiterial a envolver, quer os sim-

ples, quer as suas prprias saudades da infncia.

Mas apesar destas limitaes hoje evidentes, Junqueiro no teria conse-

guido identificar-se com to vastas camadas da pequena burguesia, no teria exercido 
uma influncia to considervel, mesmo para alm da sua poca, se no dispusesse de 
certos meios notveis de expresso literria. Em primeiro lugar, o seu simplismo 
pensante relaciona-se corri uma flagrante visualidade de imagens: Junqueiro no pensa 
com finura, porque v logo as ideias

e sentimentos em alegoria ou imagem. Certas stiras so caricaturas comparveis s de 
Bordalo Pinheiro ou de Leal da Cmara, que to habilmente as

ilustraram. Da uma chusma de imagens impressivas, como a que reduz os acrobatas do 
circo a *grandes letras gticas+; comparaes sugestivas, como

a do obscurantismo ao *apagador de lata duma igreja+ com que se pretendesse apagar o 
Sol; grandes quadros, em que os prprios lugares-comuns, certas noes vagas 
vulgarmente aceites sem qualquer reflexo, se tomam visveis, numa espcie de 
mitificao do senso comum (como, na Velhice, o quadro da adulterao medieval do 
vinho eucarstico em Vinha do Senhor, visualizao simplista mas impressiva da Idade 
Mdia; e na Ptria, a alegoria da histria de Portugal, visionada pelo Doido). Por 
outro lado, a facilidade rtmica do verso junqueiriano colhe, nalguns poemas, certas 
tonalidades de emoo inapreensvel para uma versificao menos espontnea;  o caso 
de 0 Regresso ao Lar, e de A Moleirinha, em Os Simples, dois poemas que perduram, e, 
na poesia panfletria, o caso de certas composioes enrgicas de Finis Patriae, como 
Falam pocilgas de operrios, falam condenados.

6.3 POCA - 0 ROMANTISMO                                                    963

Outros poetas panfletrios

Quase todos os principais poetas portugueses de 1870 e 1890 aderem  mstica 
progressiva e humanitarista e lanam o seu protesto contra as mais flagrantes 
injustias sociais, as prepotncias das autocracias europeias, ou

contra os acontecimentos, atitudes polticas, casos do dia em que se denun-

ciavam certas hipocrisias e deficincias do regime monrquico constitucional. Como 
veremos, at num parnasiano como Gonalves Crespo e num lrico

realista como Cesrio Verde se encontram expresses de protesto ou aspiraes 
humanistas que, por enraizarem nesta ou naquela fibra mais viva da sua res-

pectiva personalidade, conseguem manter hoje uma real comunicabilidade.

Contudo, a maior parte dos panfletos versificados desta gerao ressente-se dos 
defeitos que apontmos, em Guilherme de Azevedo e Junqueiro, e que derivam de um 
iderio estereotipado e inconsequente, constantemente desmentido no prprio poema 
pelo lugar-comum, por um egotismo gritante, por um ponto de vista despercebidamente 
superior e de classe, que reduz os *cavadores+ e *operrios+ a uns seres larvares, 
sem personalidade, sem

dinamismo prprio, meros objectos de compuno, se no de receio; sendo ainda de 
notar que a indignao antiplutocrtica e anticlerical destes poetas se traduz por 
vagas e estafadas imagens caricaturais. Tefilo Braga fez a

antologia desta poesia no Parnaso Portugus Moderno (1877); os seus cultores so 
numerosos, destacando-se Alexandre da Conceio (1842-1889), cujas Alvoradas, de 
1865, tiveram uma reedio muito aumentada em 1875, e Cludio Jos Nunes, autor das 
Cenas Contemporneas (1873). No entanto, Gomes Leal foi o nico rival de Junqueiro 
pela violncia, larga divulgao e mrito intrnseco das suas stiras, que cobrem, 
como veremos, os principais acontecimentos da poca.

ffiParnasianos: GONALVES CRESPO, ANTNIO FEU e

outros

Entre a Questo Coimbr e as Conferncias Democrticas formou-se, como sabemos, na 
juventude universit ria, uma corrente esteticista, que teve como reconhecido mentor 
Joo Penha, como rgo a eclctica Folha e como personalidades de futuro salientes 
Ea, Gonalves Crespo e Junqueiro, dos quais s os dois primeiros assimilaram bem a 
lio dos mestres da forma

964                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

literria ento acatados, como Heine, Gautier, Leconte de Lisle, Coppe. As 
circunstncias europeias do ano terrvel de 1870-71, a revoluo espanhola, os 
primeiros movimentos operrios internos imprimiram uma orien-

tao geral combativa aos escritores que ento se revelaram. Mas, pelos finais da 
dcada de 70, surge em Coimbra um novo grupo parnasiano, com Lus

de Magalhes, Antnio Feij, Manuel da Silva Gaio, etc., seguidos de outros, at ao 
aparecimento dos primeiros simbolistas, pelos fins da dcada de 80.

Antnio Cndido Gonalves Crespo (n. 1846-03-11 - t 1883-06-11) foi, 
cronologicamente, o primeiro e tambm o mais destacado parnasiano portugus. Nascido 
no

Rio, de me negra, formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, e a sua delica-

deza insinuante, o seu talento de poeta e recitador de um novo estilo discreto 
granjearam-lhe muitos admiradores, entre os quais a escritora Maria Amlia Vaz de 
Carvalho, com quem casou e que, por seu turno, o p s em contacto, no seu salo, com 
a roda dos consagrados, e lhe possibilitou uma carreira de deputado. As suas poesias, 
editadas inicialmente nos volumes Miniaturas (1870) e Nocturnos (1882), oscilam 
entre, de um lado, a profunda nostalgia da me e da paisagem tropical, a aguda 
sensitividade de mulato intimamente inadaptado ao meio, e, de outro lado, certo 
amaneiramento literrio do ambiente em que se fixou.

H ainda nas Miniaturas de Gonalves Crespo certas composies em

que os lugares-comuns dos temas, da estilstica e da versificao ultra-romntica so 
apenas arejados pela expresso mais francamente sensual do drama da sua juventude 
estudantil perante o amor mercenrio ou fcil. 0 que o poeta traz de novo , noutras 
composies, a eliminao das banalidades pretensamente ntimas do lirismo romntico: 
o registo mais delicado das reaces ntimas pela sbria notao precisa dos 
ambientes - ou antes, pela notao daquilo que em dado ambiente desperta as reaces 
mais significativas. Sente-se que, por influncia de Coppe, Verlaine e outros, o 
objectivo de Crespo consiste em rejuvenescer o lirismo pela dialctica entre a 
intimidade e o mundo exterior, registada com realismo sensorial e escrpulo de forma. 
Para isso, introduz no verso, com incontestvel mestria, certos processos da prosa 
queirosiana. Por vezes, como numas impresses de A Bo,rdo, Ni Aldeia, o poeta 
consegue ferir a tecla justa;  o que acontece nomea~ damente em vrias das suas 
poesias que focam os variados dramas do engenho brasileiro, como As Velhas Negras, Ao 
Meio-Da.

0 volume Nocturnos contm as suas poesias mais elaboradas, que so, -por um lado, uma 
srie de narrativas dramticas, algumas delas da actuali-

6. @ POCA - 0 ROMANTISMO                                                   965

dade, outras localizadas em ambientes exticos da histria e da geografia, e, por 
outro lado, as suas verses dos Nmeros de lntermezzo de Heine. As cenas dramticas, 
delineadas com o preciosismo que depois faria escola at em prosa, com Jlio Dantas, 
por exemplo, ressentem-se quase todas da superficialidade decorativa da sua inteno; 
salientemos a mestria narrativa de 0 Juramento do rabe e do incio de A Venda dos 
Bois, poema em que ressalta flagrantemente um ambiente rural e epocal. Em A Resposta 
do Inquisdor, avulta o recorte sbrio de dada ideologia histrica. Mas as suas ver-

ses de Heine no apreendem o extraordinrio misto da ironia e emoo do original. E 
 de notar que, mesmo no tratamento de um tema que lhe era

particularmente grato, o da Mater Dolorosa, Gonalves Crespo produziu um

soneto, sem dvida impressionante de imagem e ritmo, mas em que se evidencia por 
demais o trabalho de oficina estilstica.

0 mais importante discpulo de Gonalves Crespo e do parnasianismo francs, Antnio 
Feij (Antnio Joaquim de Castro Feij, n. Ponte de Lima,
1862 - t 1917-06-21), passou, na sua fase estudantil, da temtica de epo~ peia da 
humanidade (Transfiguraes, 1878-82) para a do exotismo parnasiano, que culminou 
numa versificao de certo Cancioneiro Chins (1890), a partir de tradues em prosa 
francesa. De entre o mostrurio de temas pitorescos ou exticos e de proezas 
versificatrias que reuniu nas Lricas e Buclicas (1883), salienta-se o soneto 
Plida e Loira@ a mais famosa das muitas poesias que nesta poca se consagraram a um 
falecimento. As saudades da Ptria, curtidas no seu exlio de diplomata na Sucia, 
transparecem em cer-

tas poesias de Ilhas dos Amores (1894) e Sol de Inverno (edio pstuma em 1922), com 
uma mgoa discreta que, para se tornar mais comunicativa, precisaria daquele senso de 
auto-ironia, daquela liberdade de imaginao e

versificao que o autor veio depois a encontrar nas Bailatas (1907) e Novas Bailatas 
(edio pstuma, 1925), a partir de uma simples pardia do simbolismo.

0 parnasianismo tornou-se facilmente um processo descritivista, oposto ao verbalismo 
ntimo dos ultra-romnticos, mas apropriado  mesma funo fundamental de sucedneo 
pobre para uma reaco viva da sensibilidade aberta s novas circunstncias 
ambientais e sociais. Entre os numerosos autores que, de algum modo, o cultivaram, 
distingamos: Manuel Duarte de Almeida (1844-1914), em Terra Azul, edio 1933; Lus 
Osrio (1860-1900), em Neblinas, 1884; Cristvo Aires (1853-1930), que poetou a 
ndia natal em

966                                        HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Indianas e Portuguesas, 1880, e Novos Horizontes, 1882; Antnio Fogaa (1863-1888), 
que morreu estudante, rendilhando *um verso voluptuoso e

triste+, Versos da Mocidade, 1888 (reedio 1903; edio centenria das Obras, 1964); 
Macedo Papana, conde de Monsaraz (1852-1913), autor de uma eufrica e patriarcal 
Musa Alentejana (1908, edio definitiva das Obras, trs volumes, 1957-58); Paulino 
de Oliveira (1864-1914), em Dor, 1893; Cndido Guerreiro (1871-1953), cujos Sonetos, 
1904, reedio 1916, so muito anterianos, mas que levar mais tarde ao apogeu o 
pitoresco parnasiano (Promontrio Sacro, 1929).

CESRIO VERDE

Entre os poetas sensveis  esttica de inteno objectiva, merece meno  parte 
Jos Joaquim Cesrio Verde (n. Lisboa, 1855-02-25 - t 1886-07-19), que morreu logo no 
termo de uma juventude passada em estudo no Curso

Superior de Letras, em viagens a Paris e Londres, em aventuras tresnoitadas e nos 
negcios paternos, e cuja influncia se faz mais sentir a partir da edio pstuma, 
em 1901, das suas poesias, coligidas incompletamente pelo seu amigo Silva Pinto no 
Livro de Cesrio Verde (anteriormente, em 1887, fizera-se do mesmo Livro uma tiragem 
de 200 exemplares que no foram postos no mercado). A ele se deve a expresso potica 
superior da pequena burguesia lisboeta irreligiosa e republicana do tempo. 
Acrescentos feitos em

edies recentes revelaram que o poeta procura reagir desde novo (1873, pelo menos) 
contra a insinceridade piegas, segundo o processo de Joo Penha: a auto-
ridicularizao de uma poesia sentimental por um desfecho burlesco. Acaba no entanto 
por descobrir o seu profundo tom natural, vencendo tal alternativa ultra-romntica 
entre o piegas e o cmico. No lirismo ertico, Cesrio teve tambm de vencer o misto 
hiperblico de dio-adorao  mulher aristocratizada e distante, estigma de um 
sentimento de inferioridade social

que tanto se detecta em poetas como Guilherme de Azevedo e Gomes Leal,

nas suas imitaes baudelairianas.

Cesrio Verde  o nico poeta do grupo tido como realista que consegue romper, de 
facto, com a herana romntica. Em poemas como De Tarde, Ns, Contrariedades, 
Cristalizaes, Sentimento de um Ocidental, no se nos deparam os vagos operrios e 
prostitutas do progressismo verboso de certos contemporneos, nem o oco pessoalismo 
ultra-romntico. Ele  o

6. - POCA - 0 ROMANTISMO                                                     967

poeta cuja neurastenia se retrata e ironiza num quadro real,  vista de dramas 
flagrantes dos vizinhos; que, perceptivelmente, deambula e namora em

Lisboa, ou examina o campo com o olhar objectivo do administrador rural. Assim tudo 
ganha volume: o sonho no diminui a vida: alimenta-se dela e a ela volta, a 
tonificar-se *<Lavo, refresco, limpo os meus sentidos/E tangem-me excitados, 
sacudidos, /0 tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o oIfcto>@).

Esse poeta, quase sem precedentes nem continuadores entre ns, assimilando 
organicamente o que aprendeu de Baudelaire e Coppe, descobre a beleza enrgica da 
*riqueza qumica do sangue+ nos operrios * enfarruscados e secos+, dos arsenais, ou 
de um *cardurne negro+ de varinas, ou do

tinir no granito do ao dos calceteiros, e de toda a utensilagem dos ofcios manuais; 
vibra em simpatia com toda uma cidade viva, por vezes num *desejo absurdo de sofrer+: 
com o enjoo do gs extravasado, o chorar dos pianos das burguesinhas, o arrepio de um 
*Dezembro enrgico e sucinto+, com o Sol espelhado nas poas da chuva recente, as 
trindades, os passos da patrulha, o toque das grades nas cadeias, os clares das 
lojas nas naves das ruas, uma hortaliceira regateando para o po, uma engomadeira 
tuberculizando e sem ceia, os focos infecciosos da febre-amarela. Sente-se 
frequentemente o conflito entre a simpatia pelo povo urbano ou rural explorado e o 
ditame

naturalista de impassibilidade descritiva, reforado pela ideia darwinista de que os 
fracos (inaptos ou decadentes) esto condenados a perecer.

Para exprimir este mundo, at ento realmente desconhecido da poesia, embora com 
algumas razes tolentinianas - este novo mundo que completa o de Ea  luz de um 
radicalismo plebeu que no romancista no existe -, Cesrio renovou completamente a 
estilstica tradicional da nossa poesia. Experimentou uma imaginria por vezes muito 
feliz. Introduziu no verso o processo querosiano de suprir pelo adjectivo ou pelo 
advrbio uma relao lgica extensa, de imediatizar, pela surpresa da relao verbal, 
uma sugesto que morreria se fraseologicamente se desdobrasse: *quando passas, 
aromtica e normal+; *cheiro salutar e honesto ao po no forno+; *ps decentes, 
verdadeiros+; *eu tudo encontro alegremente exacto+; *amareladamente, os c es

parecem lobos+; etc.. A par disto, Cesrio consegue valorizar poeticamente o 
vocabulrio e o tom de fala mais correntios na linguagem coloquial urbana, embalando 
o leitor num ritmo que ondula entre a ateno ao pormenor e um

968                                       HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

abrir de horizontes, entre a stira ou a degradao, que nos oprimem, e um

relance de beleza imprevista, que nos expande.

As citaes j feitas exemplificam bem o sopro renovador da sua sensi-

bilidade, quaisquer que sejam os grumos de prosasmo ainda por diluir nas

poesias da sua maturidade, datvel de cerca de 1877. Os *delrios mornos+, as 
notaes convencionalmente neurticas ou depravadas, os excessos meta-

fricos de encarecimento sensual, certas margens de stira demasiado crispada no 
condizem com o seu sentir mais apurado. Mas seria errado ver

apenas Cesrio Verde como ele frequentemente queria ver-se nos textos mais

citados da sua obra, prematuramente interrompida pela morte aos 31 anos.

0 recorte voluntariamente britnico, *hbil, prtico, viril+, masculamente protector 
das feminilidades frgeis, com que se apresentava em pessoa, e muitas vezes em verso, 
o seu intermitente prosasmo, que ama *a claridade, a robustez, a aco+, no devem 
fazer esquecer outras facetas de uma afecti-

vidade por vezes finssima. De outro modo, em sensibilidade sadia mas complexa, 
Cesrio poderia confundir-se com a sade mais banal do seu amigo, tambm poeta 
realista, Macedo Papana, futuro conde de Monsaraz, a quem de resto so endereadas 
algumas cartas suas com deliciosos textos em prosa do mesmo estilo.

A coragem de assumir atitudes tidas como prosaicas no deixa de con-

sentir muitos momentos frouxos, mas o que melhor distingue Cesrio  o

dom de chegar a percepes surpreendentes como estas: *Um parafuso cai nas lajes, s 
escuras+, pormenor que s por si denuncia o fundo acstico rarefeito da cidade 
anoitecida e despovoada; *e os olhos de um caleche espantam-se sangrentos+; *e o sol 
estende, pelas frontarias, /seus raios de laranja destilada+, imagem que Pablo Neruda 
redescobriria ao falar tambm do sol lisboeta. Por outro lado, a Lisboa de Cesrio, 
no apenas se diferencia nitidamente da Cidade baudelairiana, como ganha dimenses 
histricas: o poeta adivinha nas burguesinhas solteiras que tocam piano o mesmo 
histerismo das antigas freiras, tambm condenadas a uma estril vida solteira por 
falta de noivos socialmente idneos; de vez em quando d a sentir, nas sombras de um 
templo ou dos arruamentos estreitos, o peso secular de tradies clericais redivivas; 
e os seus calceteiros talvez se inspirem nos do clebre

quadro de Courbet, mas denunciam, como em geral os seus operrios urbanos


e a prpria paisagem ainda suburbana, as penetraes de massas rurais com

6 - POCA - 0 ROMANTISMO                                                             
  969

que a capital engrossava. E, alm disso, h em certos passos uma aflitiva nsia de 
viver vidas alheias, presentes, passadas, futuras: o toque das grades prisionais ao 
sol-pr  um *som/que mortifica e deixa umas loucuras mansas+; toda a panormica 
vespertina, actual e histrica de Lisboa em 0 Sentimento de um Ocidental afina, logo 
na primeira estrofe, por *um desejo absurdo de sofrer+; e, de sbito, surge-lhe, 
perante a ideia da morte, este desejo inslito, que, como outras coisas suas, poderia 
ocorrer no discurso imaginativamente liberto de Guillaume Apollinaire ou de outros 
poetas modernistas:

*Se eu no morresse, nunca! E eternamente buscasse e conseguisse a perfeio das 
cousas. Esqueo-me a prever castssimas esposas, que aninhem em manses de vidro 
transparente!@>

GOMES LEAL

Colhendo todos os ventos da poesia portuguesa na Gerao de 70 e, pelas suas 
deficincias como pelos seus dons e at pela extenso da sua carreira, abrindo 
passagem para a fase simbolista e ps-simbolista, Gomes Leal  a

personalidade adequada para se assinalarem, no remate de uma poca, as

tendncias que j vinham minando e preparando a seguinte.

Antnio Duarte Gomes Leal (n. Lisboa, 1848-06-6 - t 1921-01-30), filho ilegtimo de 
um funcionrio, viveu quase toda a sua vida da gazetilha e outras formas de trabalho 
jornalstico, da edio dos livros e sobretudo panfletos, dos rendimentos de que a 
me dispunha por morte do pai, e, finalmente, da caridade alheia, reforada por uma

penso da Repblica. Chegou a estudar no Curso Superior de Letras, mas a sua cultura

literria foi sobretudo feita de outiva, nas redaces e cafs, e em leituras 
dispersas. A superficialidade ftua das suas elucubraes, a ingenuidade com que 
sempre misturou, sem fundir numa sntese, a mxima disparidade de influncias e 
frases feitas denunciam-


-se nas suas constantes ambiguidades concepcionais, na dbil construo dos seus 
pretensos poemas cclicos, mas no nos devem iludir (como quase sempre tem 
acontecido) acerca da sua conscincia de artista do verso e at de poemetos inteiros. 
Salvo quando o improviso se lhe impe, ou quando pretende ter largas vistas sobre os 
destinos humanos, sobre a cincia, a filosofia ou a poltica, Gomes Leal  o mais 
hbil dos nossos poetas do seu tempo:  uma conscincia fragmentria, mas lcida nos 
seus fragmentos poticos, se assim nos podemos exprimir. Todas as suas mltiplas 
virtualidades esto  vista nas Claridades do Sul, publicadas em 1875; mas, desde 
1873 at pouco depois do Ultimato, a sua carreira literria liga-se com uma vida 
prdiga e dispersa de agitao pol-

970                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

tica, em asociaes, comcios e jornais, onde a cada passo se denuncia a demagogia do 
seu pessoalismo, a inconscincia da sua vaidade literria. Alm da colaborao nos 
jornais, publica uma srie de poemas panfletrios ou satricos que, por entre a 
retrica dos seus defeitos, assinalam hoje, por vezes com garra emocional e justeza 
de trao, todo um rol de efemrides: a revoluo republicana espanhola e os 
movimentos operrios seus

contemporneos (0 Tributo de Sangue e A Canalha, 1873); a celebrao republicana de 
Cames (A Fome de Cames, 1880); a questo de Loureno Marques, a agitao conse-

quente e a passagem de Rodrigues de Sampaio  reaco (A Traio e 0 Renegado, 188 
1); o Ultimato (Troa  Inglaterra, 1890); etc.. A edio do Anticrsto, em 1886, 
pretende culminar essa obra combativa com um poema naturalista que, superando, 
pretensamente, o Fausto de Goethe, teria digerido toda a cincia e toda a filosofia 
do tempo.

Mas Gomes Leal, que trs anos antes, com a Histria de Jesus, se revelara saudoso das 
crenas ingnuas da infncia, fere j a nota do seu pessimismo quanto a qualquer 
possibilidade de progresso humano, d da evoluo histrica uma viso de apocalipse. 
Em Fim do Mundo (1900) incorpora vrias das stiras anteriores, pretendendo fazer o

processo da corrupo da civilizao que estaria a findar com o sculo, visivelmente 
sugestionado pelo tom acerbo dos Mensonges Conventionnels (1883) de Max Nordau e 
pelos filsofos pessimistas ento em moda; num posfcio, Autpsia Final, s v 
remdio para tantos males na educao do sentimento, *verdadeiro nome de Deus+. Este 
 ainda, fundamentalmente, o iderio do Anticristo refundido em 1907 e acrescentado 
de Teses Selvagens (*o homem  progressivamente mau+; *a cincia fortifica a maldade 
humana+; *o homem ser sempre o lobo do homem+ ; etc.). Entretanto, A Mulher de Luto 
(1902), um poema do Alm, revela-o como aderente das cincias ocultas. Com a sua 
converso ao catolicismo, em 19 10, coincide o lirismo marinico de A Senhora da 
Melancolia. Os ltimos tempos de Gomes Leal lembram muito os de Verlaine pelo 
contraponto que neles se verifica entre a sua religiosidade fervorosa de ento e uma 
impressionante degradao moral e fsica pelo alcoolismo.

Uma considervel parte da obra lrica de Gomes Leal est marcada pela busca de 
efeitos de surpresa, exotismos ou simples humorismo gazetilheiro na imprensa 
peridica onde colaborava;  o que acontece com as seces A Carteira de um 
Fantasista e Misticismo nas Claridades do Sul, e com MeflisOfeles em Lisboa (1907). 
Podem classificar-se nesta categoria muitas das suas composies de colorido satnico 
ou mefstoflico, em que a lio de Baudelaire ou de Goethe nos surge reduzida a 
simples contrafaco para assa-


rapantar o leitor. Acrescentemos-lhe ainda numerosos sonetos em que o lirismo se 
ridiculariza a si prprio numa grosseria,  maneira de Joo Penha, e obras versejadas 
que no passam de uma corrida discursiva para chegar at um

conceito final estranho, ou que se d ares de paradoxal ou perverso.

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                   971

Quanto aos seus panfletos e stiras, j notmos que as suas limitaes so as do 
muito que contm de demagogia egotista - o que resulta, afinal, da mesma necessidade, 
aqui ainda mais evidente, de dar nas vistas, de interessar um pblico sem grande 
experincia de ordem esttica ou ideolgica, vagamente iconoclasta, anti-romntico, 
antimonrquico, anticlerical, antiplutocrtico, mas sem aspiraes definidas a um 
teor de vida ou a uma ordem social diferente. Os poemas cclicos de Gomes Leal falham 
inteiramente como

tais, quer se trate das duas verses quase opostas do Anticristo (naturalista a de 
1886, mstico-sentimental a de 1907), quer do nlista Fm de um Mundo, ou da 
ocultista Mulher de Luto.

No entanto, a obra de Gomes Leal obedece, no conjunto, a impulsos mais autnticos, 
que lhe do uma fundamental unidade orgnica e se denunciam

constantemente na sua estilstica. Vrios desses impulsos j se haviam veri-

ficado em poetas como Grard de Nerval e Baudelaire, que influenciaram Gomes Leal, 
atravs, sobretudo, das Prosas Brbaras de Ea, de que o nosso

poeta  o legtimo herdeiro.

Como os outros contemporneos, ele sofreu do profundo abalo das crenas da infncia, 
em sintonia com a crtica bblica e o darwinismo; e o fundo psicolgico da sua obra 
acusa nitidamente o conflito que se trava entre o apelo afectivo da concepo 
transcendentalista crist, constantemente sustentado pela influncia da me e por um 
conjunto de rotinas quotidianas - e, por outro lado, uma aspirao indefinida de 
progresso histrico e de sobrevi-

vncia pessoal, que , ao tempo, contraditada por sentimentos opostos de decadncia 
histrica, de fim do mundo, e por uma obsesso materialista meca-

nicista da realidade. A natureza aparece-lhe como uma vasta necrpole de vidas 
findas, de pessoas, e at de deuses desacreditados: *a morte sai da vida
- a vida, que  um sonho!+. Mas da constante converso recproca entre a morte e a 
vida, o que mais impressiona a poesia de Gomes Leal  a morte, a dissoluo de vidas, 
pessoas, religies. No fundo, interessa-o, especulativa e afectivamente, no o que 
ser, mas o que fo: de que modo poder subsistir o que morreu (como subsistir o 
prprio corpo, o da mulher amada, o das flores, etc.?). Uma vez que os deuses tm 
todos morrido, Gomes Leal pergunta: *qual ser o deus novo de amanh?+. A natureza, 
alis divinizada em P, ou identificada com Sat, ora lhe parece condenada  
destruio, visvel na Lua Morta, ora secretamente animada, cheia de estranhas 
corres-

972                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

pondncias que s ele, poeta, pressente, no seu sentido de fraternidade uni-

versal que, franciscanamente, se estende  podrido, s coisas grotescas e

miserveis. A riqueza metafrica de Gomes Leal, certa explorao certeira de 
sinestesias da alucinao nevrtica so o selo autenticador destes sentimentos. 0 seu 
erotismo transfunde-se das mulheres para as coisas. Sob a

luz do sol meridional, ele julga perceber, agudamente, corno as mais diver-

sas sensaoes ecoam umas s outras: *Nas lnguidas noutes estreladas/como espectros 
de espinhos e rosas, /erguem-se em ns as cousas apagadas+; h noites em *que a 
tristeza tem formas monstruosas/como, num sonho, os prticos claustrais+. E frui *as 
gostosas torturas do mistrio+. Em numerosos

passos, a sua poesia documenta uma agudeza sensorial que exige o inedi-

tismo da imagem e da comparao, como pode sobretudo exemplificar-se com a conhecida 
Nevrose Nocturna das Claridades (*fria como o luar/sobre

o dorso luzente e excepcional de um peixe+, por exemplo).  claro que este

ineditisnic, deriva tambm, nalguns passos frustes, do mero rebusque de 
excentricidade, de imitaes baudelairianas e outras, e de ingredientes fixos, como, 
por exemplo, o do exotismo dos nomes bblicos. Mas algumas das suas ines-

peradas combinaes no deixam de fazer pensar em tendncias muito posteriores de 
poesia experimental.

Gomes Leal apresenta-nos, assim, a mais requintada esttica do verso seu 
contemporneo em portugus. H nele, alis, amostras de tudo quanto os outros poetas 
portugueses do seu tempo variadamente tentaram; h ritmos fraseolgicos j batidos, e 
h-os surpreendentes: narraes, descries, enu-

meraes, desdobramentos analgcos banais, mas tambm a expresso inexcedivelmente 
exacta dos mais variados tons de sensibilidade, que exige fartos elementos de uma 
escrita potica completamente nova no idioma. A contradio mais importante da sua 
poesia consiste em que nos sugere, sim, uma desconhecida animao do mundo objectivo 
e subjectivo, a riqueza de correspondncias materiais e psquicas, mas atravs de uma 
estilstica e, em parte, atravs de uma linha de evoluo ideolgica que esto 
carregadas de sugestes, precisamente opostas, de catstrofe universal apocalptica, 
de degenerescncia civilizacional, de submisso pessoal a foras ou ditames ocultos 
que, pretensamente, acabariam por dominar os homens. 0 mundo, tal como


Gomes Leal o sente, parece radicalmente inumano por duas razes opostas mas 
concorrentes nisso: o seu alheamento fatal a qualquer animao, incluindo

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
      973

a animao do esprito humano (materialismo mecanicista, inspirado por certa

divulgao da cincia, por certo darwnismo, pela crtica bblica de Renan, etc.); e 
a sua animao devida a uma vontade transcendente, a que s cum-

pre resignarmo-nos (concepo teolgica ou ocultista). Quer dizer que o drama ntimo 
de Gomes Leal , no fundo, o de Antero e o da ideologia dominante do tempo, mas 
expresso por uma forma menos conceptual, e mais potica;  o drama do empate entre o 
mecanicismo e o transcendentalismo.

1111118161106,AFI,4

1. Textos fundamentais

Deus, Joo de: Flores do Campo, 1869; Campo de Flores, 1893; ed. ne varietur,
1896; Prosas, 1898.

Azevedo, Guilherme de: Aparies, 186 1; Radiaes da Noite, 187 1; Alma Nova,
1874, ed. com intr. e notas de Manuel Simes, IN-CM, 1981; Viagem  roda da Parvnia, 
revista teatral escrita de colaborao com Junqueiro, 1879.

Junqueiro, Guerra: Duas Pginas dos Catorze Anos, 1864; Mysticae Nuptiae, 1866; A 
Vitria da Frana, 1870; A Espanha Livre, 1873; A Morte de D. Joo; 1874. Tragdia 
Infantil, 1877; Contospara a Infncia, 1877; A Musa em Frias, 1880; A Velhice do 
Padre Eterno, 1885; Finis Patriae e Cano do dio, 1890; Os Simples, 1892; Ptria, 
1896; Orao ao Po, 1903; Poesias Dispersas, 1920; Obra Potica, papel Bblia, 1 
vol., Lello, Porto, s/d.

Crespo, Goncalves: Miniaturas, 1870, reed. 1875 (Paris), 1884, 1922, 1943 (as duas 
ltimas no Porto); Nocturnos, 1882, reed. 1882; 1888; 1942; Obras Completas, 
prefaciadas por Teixeira de Queirs e Maria Amlia Vaz de Carvalho, um vol., 1897, 
reed.
1913, Lisboa; 1942, Rio. Poesias no includas no vol. anterior, 1898.

Feij, Antnio: Sacerdo Magnus, 1881; Transfiguraes, 1882; Lricas e Buclicas, 
1884;  Janela do Ocidente, 1886; Cancioneiro Chins, 1890; Ilha dos Amores,
1897; Bailatas, 1907; Sol de Inverno, 1922, reed. com 20 poesias inditas, intr_ 
bibliog. e notas de lvaro Manuel Machado, IN-CM, 1981. (Tem ampla bibliografia e 
algumas incorreces - ver recenso de Jos Carios Seabra Pereira in ColquiolLetras, 
70, Nov.
1982.) Novas Bailatas, 1926. Obras Completas, Lisboa, Bertrand, s/d.


Verde, Cesrio: 0 Livro de Cesrio Verde, 1897, com pref. de Silva Pinto; Obra 
Completa de Cesri Verde, org., pref. e anot. por Joel Serro, incluindo as cartas 
conhecidas, col. *Poetas de Hoje+, Lisboa, 1964, ed. * definitiva+, corrig. e aum., 
Horizonte, 1988, com fac-smiles dos originais conhecidos, cartas e extensa 
bibliografia.

Leal, Gomes.: Tributo de Sangue e Canalha, 1873; Claridades do Sul, 1875, reedio 
revista e aumentada de 1901; A Fome de Cames, 1880; A Traio, 0 Herege, 0 Renegado, 
1881; Histria de Jesus, 1883, reedio 1913; Anticristo, 1886, reedio muito 
refundida em 1907; Troca  Inglaterra, 1890,- Fim de um Mundo, 1900; Senhora da 
Melancolia, 1910. Para bibliografia completa e inditos ver a primeira antologia a 
seguir indicada.

974                                               HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Monsaraz, Conde de: Obras, 2 vols., 1891-92. Musa Alentejana, 1908. Obras, 3 vols., 
1957-8-9, ed. pelo Instituto de Alta Cultura.

2. Antologias

Realistas e Parnasianos, organizao e introduo de scar Lopes, Lisboa, editorial 
ECE.

0 Livro deAmorde Joo de Deus, organizado por Afonso Lopes Vieira, Lisboa, 1921. 
Antologia de Joo Penha, ed. Bibi. Pblica de Braga, 1991. Junqueiro, volume da 
Antologia Portuguesa dirigida por Agostinho de Campos. Parnaso Portugus Moderno, 
1877, organizado por Tefilo Braga. Gomes Leal, poesias escolhidas, com introduo de 
Vitorino Nemsio, reeditado em
1963 sob o ttulo de Destino de Gomes Leal, Lisboa. Gomes Leal, antologia potica, 
selec. de Cunha Leo e Alexandre O'Neill, colec. *Poesia e Verdade+, Lisboa, 1959. 
Antologia Potica de Gomes Leal, Ceclia Barreira, Rolim, 1988.

Poesias de Cesrio Verde, selec. de Margarida Vieira Mendes, col. *Textos 
Literrios+, 1979, com largo estudo e bibliografia.

Ver ainda os pequenos cadernos da col. Patrcia, org. por Aibino Forjaz de Sampaio.

3. Estudos

Barreto, Moniz: A Literatura Portuguesa no Sculo XIX, cadernos Inqurito. 
Figueiredo, Fidelino de: Histria da Literatura Realista, 192 1. Cidade, Hernni: 0 
Conceito da Poesia como Expresso da Cultura, Coimbra, 1954.

Simes, Joo Gaspar: Histria da Poesia Portuguesa, Lisboa, 1956. Rgio, Jos: 
Pequena Histria da Moderna Poesia Portuguesa, cadernos Inqurito. Monografias 
insertas em Perspectiva da Literatura Portuguesa do Sculo XIX, dir. por J. Gaspar 
Simes.

Hourcade, Pierre: Temas de Literatura Portuguesa, Moraes, Lisboa, 1978. (Inclui 
estudos sobre o folhetim de *A Revoluo de Setembro+ na poca da Questo Coimbr, 
sobre o grupo de *A Folha+, 1868-73, e sobre Guerra Junqueiro.)

Braga, Tefilo: Modernas Ideias na Literatura Portuguesa, 2 vols., Porto, 1892. Hess, 
Rainer: Die Anfngen der Modemen Lyrik in Portugal (1865-1890), W. Fink Verlag, 
Munique.

Estudos parcelares, alm dos prefcios das obras, sobretudo das antologias, e das 
monograf ias contidas na Histria da Literatura Portuguesa Ilustrada dos Sculos XIXe 
XX.


Sobre Joo de Deus: Braga, Tefilo: As Modernas Ideias na Literatura Portuguesa, vol. 
li, 1892, e pref. do Campo de Flores; Sfady, Naif: 0 Sentido humano do Lirismo de 
Joo de Deus, So Paulo, 1961; um estudo includo em A Letra e o Leitor, de Jacinto 
do Prado Coelho, 1969.

6. a POCA - 0 ROMANTISMO                                                            
  975

Dias, Graa Silva: Antnio Aleixo. Problemas de uma Cultura Popular, sep. da Revista 
de Histria das Ideias, Instituto Nacional de Investigao Cientfica, Coimbra, 1977, 
pp.
419-513.

Sobre Guilherme de Azevedo: Elina de Guimares: Guilherme de Azevedo em Famlia, 
1940; estudo de Mrio Dionsio, in Perspectiva da Literatura Portuguesa do sc. XIX; 
Lucas, Maria Helena: Guilherme de Azevedo na Gerao de 65, in *Boletim do Instituto 
de Angola+, n. 12, 1959; S, M. das Graas Moreira de: G. de Azevedo na Gerao de 
70, *Biblioteca Breve+, lCLP, 1986 (com bibliografia).

Lima, M. Isabel Pires: Ultimatum e Discurso Agnico - Os Casos de G. Junqueiro e G. 
Leal, in Diacrtica, Univ. do Minho, n. 6, 1991, pp. 71-84.

Sobre Junqueiro: Srgio, Antnio: Ensaios, l; Hourcade, Pierre: Guerra Junqueiro et 
le probime des influences franaises dans son oeuvre, Paris, 1936, includo em Temas 
de Literatura Portuguesa, Moraes, 1978; Almeida, Vieira de: A Obra de Guerra 
Junqueiro,
1928; Carvalho, Amorim de: Guerra Junqueiro e a Sua Obra Potica, 1945; Barros, Joo 
de: Os Elementos Novos na Poesia de Junqueiro, no vol. Vencidos da Vida (ciclo de 
conferncias organizado por 0 Sculo), 1941; inqurito sobre Junqueiro em Vrtice, 
10. > vol., 1950; Mendes, Jo o: estudos includos em Literatura Portuguesa, 111, 
Verbo, 1977; Azevedo, Manuela de: Guerra Junqueiro, col, *A Obra e o Homem+, Arcdia, 
Lisboa, 1981. Antologia: Poesia de G. Junqueiro, apres., selec. e notas de Nuno 
Jdice, col. *Textos Literrios+, 1981.

Sobre Gonalves Crespo: Lima, M. Isabel - Um elo Inquebrantvel - a Poesia de G. 
Crespo, in Estudos Portugueses - Homenagem a Antnio Saraiva, 1 CALP/Fac. de Letras 
de Lisboa, 1990, pp. 177-184.

Sobre Antnio Feij: ver a introduo s poesias Completas e a da ed. de Sol de 
Inverno, de 1981; e ainda Lemos, Jlio de: Achegas bio-biblio-iconogr ficas no 1. > 
centenrio do nascimento de Antnio Feij, 1960.


Sobre Cesrio Verde: Oliveira, Lus Amaro de: Cesrio Verde. Novos Subsdios para o 
Estudo da sua Personalidade, Coimbra, 1944, e Trs Sentidos Fundamentais na Poesia de 
Cesrio Verde, Lisboa, 1949; estudo de Adolfo Casais Monteiro includo em Perspectiva 
da Literatura Portuguesa do Sc. XIX, dir, por Joo Gaspar Simes, vol. 11, tica, 
Lisboa, 1949, pp. 329-341; Loureno, Eduardo: Os Dois Cesrios, in Etudos Portugueses 
- Homenagem a L. Stegagno Picchio, Difei, 1990, pp. 969-986. Serro, Joel: Cesrio 
Verde. Para uma edio crtica das suas poesias, sep. de Vrtice, 1955; Cesro 
Verde. Interpretao. Poesias Dispersas e Cartas, 2. > ed. rev., 1961; Temas 
Otocentistas, Lisboa, 1959; e 0 Essencial sobre C. Verde, IN-CM, 1986; Monsaraz, 
Alberto: Cesrio Verde e Macedo Papana, Lisboa, 1956; outros artigos includos em 
Vrtice, n. 147, Dez. 1955 (dedicado ao centenrio do poeta), e em Estrada Larga, 
vol. 1, Porto, s/d, reproduzidas de um suplemento especial de *0 Comrcio do Porto+ 
(1955.02.22). Ver mais bibliografia em Obra Completa. Sacramento, Mrio: Lrica e 
Dialctica em Cesrio Verde, in Vrtice, n.os 165 e 166, e includo em Ensaios de 
Domingo, 1, Coimbra, 1959; Lopes, Oscar: Modo de Ler, Porto, 1969, e Entre Fialho e 
Nemsio, vol. 1, IN-CM, 1987; Quatro estudos includos em Hospital de Letras e dois 
em Sob o Mesmo Tecto, Presena, 1989, de David Mouro-Ferreira, 1966; e vrios em A 
Letra e o Leitor, 1969, Problemtica da Histria Literria, 2. aed. rev. e ampi., 
1972, e Ao Contrrio de Penlope, 1976, de Jacinto

976                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

do Prado Coelho; Atkinson, Dorothy M.: Notas sobre 8 Estilistica, de Cesrio Verde, 
in Ocidente, 75, 367, Nov. 1969; Silveira, Pedro da: importantes estudos sobre 
dispersos de Cesrio Verde, in Vrtice, 24, n. 1 273 (1966), 27, n. > 284 (1967); 
Figueiredo, Joo P. de: A Vida de Cesrio Verde, col. *A Obra e o Homem+, Arcdia, 
1981, 3. ed. 1986; Macedo, Hlder: Ns - Uma Leitura de Cesrio Verde, Lisboa, 1975, 
3. ed., Dom Quixote, 1986, C. Verde - 0 Romntico e o Feroz, 1988; Pereira, Jos C. 
Seabra: Cesrio Verde - um Realismo insatisfeito, sep. da *Rev. da Univ. de 
Aveiro/Letras+, n. > 415,
1987-88; Carter, Janet E.: Cadncias Tristes - 0 Universo humano na obra potica de 
C. V., IN-CM, 1989; J. J. Cesrio Verde - Poesia, intr., trad. e bibliog. muito 
nformativas de Piero Ceccucci, Peruguia, 1982; Castro, Slvio: 0 Percurso 
Sentimental de Cesrio Verde, ICALP, 1990. Vols. colectivos comemorativos do 
centenrio: Colquio/Letras, n. 1 93, Set. 1986; Cesrio Verde, *Boletim Cultural+, 
Vi Srie, n. > 7, Julho 1986, Fund. Calouste Gulbenkian (contm antologia comentada); 
Cadernos de Literatura, 24, 1986, INIC (Centro de Lit. da Fac. de Letras de Coimbra); 
vol. 22 dos Arquivos do Centro Cultural Portugus, F. C. Gulbenkian, Paris, 1986; 
Prelo, 12, Jul./Set. 1986, IN-CM; aguarda-se a ed. da srie comemorativa de 
conferncias realizadas na Acarte, incluindo uma de
0. Lopes sobre Cesrio e A. O'Neil].

Diogo, A. A. Lindeza: Tpicos Benjaminianos para uma leitura de Cesrio, in 
*Diacrtica+, n. > 6, 1991, Braga, pp. 101 -116. No suplem. Cultura do *Dirio de 
Notcias+ de
1987-12-12, Antnio Valdemar revela um manuscrito indito do poema Ns, com dados 
relevantes para o trabalho literrio de Cesrio Verde.

Sobre Gomes Leal: alm de estudos e bibliografia contidos na antologia de Vitorino 
Nemsio e nos trabalhos de conjunto, ver Neves, lvaro e Jnior, Henrique Marques: 
Gomes Leal, Sua Vida e Sua Obra, Editorial Enciclopdia, 1948; Martins, A. Coimbra: 
Os Trs Anti-Cristos, in Builetin des tudes Portugais et Brsiliennes, t. 33-34, 
1972/73.

Ver ainda livros de memrias, como os de Raul Brando e Lopes de Oliveira; e 
suplementos culturais da imprensa diria, especialmente *0 Comrcio do Porto+ (1955-
02-22) e *Jornal de Notcias+ (1955-02-24), consagrados ao centenrio do nascimento 
de Cesro Verde.

POCA CONTEMPORNEA


Captulo 1 INTRODUO

Condies gerais da literatura ocidental contemporanea; a sua evoluo

Pelo ltimo quartel do sculo XIX, principiam a definir-se certos contornos novos

no ambiente em que se enquadra a produo literria e, correlativamente, nas 
directrizes

que esta segue naqueles pases com que o nosso est em contacto cultural mais 
directo.

No campo cientfico, inicia-se um considervel avano, que  particularmente 
espectacular nos diversos ramos da fsica, revolucionando os mtodos experimentais 
interdependentes de novas snteses matematizadas, como a termodinmica ou energtica 
(Carnot, Mayer, Joule, Maxwell), depois a electrnica e a fsica atomstica (esposos 
Curie, Roentgen, Lorenz, Rutherford, Bolir, etc.), as teorias dos quanta (Planck, 
1900) e da

relatividade (Einstein, 1905-1915). Na qumica orgnica, na fisiologia e outras 
disciplinas biolgicas, os progressos so tambm impressionantes. Mas este avano 
cientfico est intimamente ligado a um progresso tcnico no menos impressionante, 
cujos aspectos fundamentais se podem encontrar no motor elctrico (Gramme, 1869) e de 
exploso (Diesel, 1895), em mtodos novos de fuso do ao e do alumnio, etc.. A 
iluminao elctrica, o telefone, a T.S.F., o automvel, a aviao, a arquitectura em 
beto armado, entre outras coisas, podem considerar-se desenvolvimentos destas 
invenes lentamente preparadas e aperfeioadas, mas decisivas.

Toda esta transformao foi possibilitada pelo tipo de relaes sociais que se tornou

dominante por incios do sculo XIX. A concorrncia capitalista acarreta a corrida 
para a mecanizao e racionalizao industriais. Mas  precisamente pelo ltimo 
quartel do sculo XIX que se revelam com toda a clareza os conflitos internos desta 
fase de evoluo tcnica e social. A mecanizao exige a mobilizao de grandes meios 
financeiros, a concentrao crescente de capitais, recursos tcnicos e organizao, a 
busca de merca-

980                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

dos cada vez mais vastos de mo-de-obra, de matrias-primas e de consumo. Assiste-se, 
desta forma,  simbiose do capital industrial em grandes unidades ou agrupamentos 
(monoplios, holdings, cartis) ramificados por todo o Mundo. Apoiando-se no poder 
dos estados, estas organiza es disputam o domnio dos pases que s dispem de 
matrias-primas e mo-de-obra barata. A frica  partilhada na Conferncia de Berlim, 
em 1885; a sia dividida em zonas de influncia. Esta dinmica contribuir em grande 
parte para os grandes conflitos europeus e mundiais (guerra franco-prussiana de 1870, 
conflagraes de
1914-18, 1939-45). Como, ao contrrio da antiga economia artesanal, corporativamente 
controlada para um limitado consumo, a produo se desenvolve agora de um modo fun-

damentalmente imprevisvel, apesar das tendncias concentradoras - verificam-se 
desigualdades no desenvolvimento entre os ramos produtivos, entre as regies, entre a 
produtividade e o poder de compra salarial, do que resulta a alterrincia entre fases 
de rpido incremento produtivo e crises de subconsumo, mais ou menos mundialmente 
generalizadas, das quais a mais dramtica foi a de 1929, que acarretou dezenas de 
milhes de desempregados e uma profunda queda na produo e no comrcio mundiais.

Na sequncia da guerra de 1939-45 proclarna-se a independncia poltica de numerosos 
pases colonizados da sia e da frica; mas, a par disso e da instituio de regimes 
marxistas numa larga rea, sobretudo euro-asitica, a economia capitalista consegue 
reestruturar-se mais eficazmente em moldes transnacionais, dispondo de lobbies para 
con-

trolo estatal, tirando partido de um avano cientfico e tcnico sem precedentes 
(qumica sintetizadora de plsticos, de polmeros artificiais e frmacos, novos tipos 
de propulso, comunicao e controlo integrado, informtica, semicondutores, 
robtica, lascr, holografia, biologia molecular, biotecnologia gentica e outra, 
aviao supersnica e astro-


nutica, microfsica, novas ligas e cermicas, erguendo novos cenrios ecolgicos e 
cosmolgicos, etc.). A uma indubitvel hegemonia norte-americana segue-se a notvel 
emergncia econmica dos dois grandes vencidos da guerra, o Japo e a Alemanha 
Federal, que tendem a hegemonizar amplos blocos econmicos e tendencialmente 
polticos hoje em perspectiva, um no Pacfico, outro na Europa. Trs ou quatro 
decnios depois da Segunda Guerra Mundial, o chamado Terceiro Mundo, embora 
formalmente quase todo emancipado desde ento, cai em profunda crise e dependncia 
econmica, tecnolgica e, mais visivelmente, financeira, relativamente a empresas e 
instituies bancrias tansnacionais, e verifica-se uma crtica redistribuio e 
recomposio das reas de hegemonia capitalista, e o surto de novas potncias 
industriais, sobretudo na sia. A escala e a imbricao transnacional da economia 
capitalista inviabiliza o Estado garantidor de direitos sociais (para alm dos de 
democracia poltica tradicional), que parecia ter emergido da guerra, alm de 
condicionar de facto a plena soberania dos pases subdesenvolvidos ou perifricos.

Por outro lado, patenteiam~se graves disfunes na economia socialista em moldes de 
rgida centralizao e planificao, que no imediato ps-guerra alastrara da URSS a 
um largo conjunto de estados. A conjuntura actual caracteriza-se, no Ocidente, pelo 
des-

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                                      
    981

crdito ou problematizao da modernidade progressista que informara a sua tradio 
cultural desde o sculo XV111; caracteriza-se pela desagregao dos Estados 
constitudos segundo o modelo da Unio Sovitica, extensa rea cuja evoluo 
socioeconomica, cultural e at mesmo geopoltica no parece ainda definida; e 
caracteriza-se por uma no menos dramtica instabilidade dos pases subdesenvolvidos 
- tudo dominado pela cres-

cente conscincia da globalidade planetria quanto aos problemas-chave: conflitos 
inerentes a uma nova escala de internacionalizao tcnico-cientfica, de integrao 
econmica e de assimetria no desenvolvimento e disponibilidade dos recursos mundiais; 
ameaas ecolgicas j sem fronteiras, a urgncia de novos mtodos e at de uma nova 
mentalidade na abordagem de todos os tipos tradicionais de desequilbrio e de 
conflito.

Assistimos desde o sc. XIX a uma sequncia de grandes ciclos de expanso industrial 
e mercantil, alternando com fases de relativa estagnao que ora estimulam o esprito 
*progressista+ e racionalista tradicional na burguesia, ligando-se s trs sucessivas 
revolues industriais do vapor, dos motores elctricos e de exploso, e da 
informtica, ora lhe inspiram atitudes de desnimo e desconfiana em relao a esse 
mesmo progresso e a essa mesma razo que a justificavam nas origens. Esto neste caso 
ideros que, ora

tendem a um irracionalismo que se apresenta como antitecnolgico ( o caso dos pr-
rafaelitas britnicos, como Ruskin, de Nietzsche, Bergson, Heidegger), ora restringem 
o alcance tradicionalmente amplo dos ideais racionalistas e progressistas vindos do 
sculo das Luzes e do Romantismo progressista (sociocrtica de Max Weber e de Adorno-
Horkheimer).

, com efeito, considervel e por vezes contraditria a irradiao de certos modelos 
cientficos: as teorias einsteinianas da relatividade contribuem para uma renovada 
medi-

tao filosfica e esttica acerca do espao-tempo e da energia-matria; a mecnica 
ondulatria est na base de crescente preocupao e polmica acerca do determinismo e 
da interaco sujeito-objecto no conhecimento; a noo metafisica de Inconsciente 
ganha,

com a psicanlise de S. Freud, um novo significado numa teorizao muito influente, e 
em constante evoluo polmica, sobre a constituio din mica do sujeito humano, sua


gnese individual e social, comportamento normal ou patolgico, sonho, manifestaes 
estticas, religiosas e outras; com E. Husserl consagra-se uma tambm produtiva e 
pol~ mica meditao fenomenolgica sobre o objecto ntencional e pr-reflexivo de 
qualquer vivncia ou actividade psicolgica, segundo uma tendncia racionalizante mas 
no-cientfica que teria muitas variantes e serviria de ponto de partida  filosofia 
de Heidegger, ao existencialismo e s reflexes de tipo hermenutico de Gadamer; o 
estruturalismo psicolgico (Gestalttheorie) e lingustico (desde F. Saussure), 
sobretudo o ltimo, esto tambm, por incio do sculo, na origem de uma corrente 
doutrinria dominante cerca de
1950-60; a escola sociolgica francesa de Durkheim e Levy-Brhl, pela mesma altura, e 
mais tarde o positivismo lgico de Viena (anos 30), na origem de uma escola de 
semntica formal sedeada nos Estados Unidos, constituem outras tendncias filosficas 
extrapoladas de problemticas cientficas. No menos importante foi a irradiao 
cultural do marxismo, sobretudo cerca de 1930 a 1970.

982                                                 HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Nas artes plsticas e rtmicas, a caracterstica dominante  a conjugao de novos 
meios e dimenses: impressionismo (1874), que reduz o objecto da pintura a impresses 
sintticas de cores puras; cubismo (1911), s interessado em reestruturar a trs 
dimen-

ses, ou numa superfcie plana, os objectos correntemente percebidos segundo as 
quatro dimenses do espao-tempo; surrealsmo (1924), pretendendo libertar 
automatismos inconscientes; abstraccionismo (1932), que pretende produzir o seu 
objecto plstico, como a msica, em vez de o usar como meio expressivo. 0 prprio 
expressionismo germnico (1912), que tentou enriquecer de intencionalidade a arte 
naturalista, evolui da stira social para a simples viso humoral, dando um dos 
acessos  arte abstracta. Na msica, procura-se revolucionar os sistemas seculares 
europeus de modos, tons, leis de associao de ritmo e timbre, acabando o compositor 
por abalanar-se ao aproveitamento integral e programado de todas as possibilidades 
acsticas (msica serial, 1912, e electrnica, 1953). Em resultado do crescimento do 
mercado de consumo do produto artstico, do enorme desenvolvimento

dos meios de difuso, e da padronizao da economia de mercado, uma parte da produo 
artstica  absorvida por novas indstrias culturais (cinema, gravao sonora ou 
audio-

visual, televiso, vdeo, revista ilustrada, livro de bolso - tudo segundo tcnicas 
cres-

centemente sofisticadas), ficando outra parte confinada a elites de quase-
especialistas.

Sob o ponto de vista literrio, o sentimento de decadncia e consequente gosto da 
evaso para o que Baudelaire designava como *parasos artificiais+, para o mistrio, 
para a encantao hipntica ou pretensamente mgica ou ento para uma beleza pura, 
fazem escola com os decadentistas fin-de-sicle (Huysmans, Oscar Wilde, Aubrey 
Beardsley, Laforgue); os futuristas e dadastas que precedem e acompanham a Primeira 
Guerra Mundial (Marinetti, Tzara, Apollinaire) desafiam a esttica, a tica e a razo 
dominantes no sculo XIX; e o surrealismo, doutrinado por Andr Breton desde 1924, 
postula um super-real que se exime s categorias da razo e da percepo sensvel, 
como s de qualquer tica ou esttica definveis.


s correntes que partem do simbolismo opem-se, em geral, na literatura, as que 
continuam o realismo-naturalismo. No entanto, esta oposio nem sempre  ntida. 0 
naturalismo, pela contradio fundamental que o fere (a impossibilidade, inerente  
arte, de eliminar o prprio trabalho artstico), pela indeterminao, insuficincia 
ou unilateralidade do seu critrio de concepo e valorizao dos dadosrcais, desliza 
frequentemente, neste ou naquele sentido, conforme os autores e seus meios, para uma 
metafsica do mistrio, passando ao campo oposto. Assim, ToIstoi e Dostoievski, 
romancistas realistas russos do sculo XIX, condicionados por uma forte tradio 
religiosa rural, esto no

ponto de partida de vrios tipos de romance introspectivo, metafisico ou potico, que 
no sculo XX se abeiram, por diversas formas, do modernismo ps-simbolista: Marcel 
Proust, Gide, Virgnia Woolf, D. H. Lawrence, Thomas Mann, James Joyce, Robert Musil, 
Hermann Brech, etc.

0 realismo crtico recebeu sucessivos estmulos de determinados movimentos sociais. 
Alguns desses movimentos foram o trade-unionismo operrio de fins do sculo XIX, o

7 >POCA -POCA CONTEMPORNEA                                                        
   983

feminismo, certo radicalismo burgus que em 1906 vencia a Questo Dreyfus em Frana, 
a guerra de 1914-18, a revoluo sovitica de 1917, a crise de 1929, Frentes 
Populares antifascistas, a guerra civil de Espanha em 1936-39, a concentrao, por 
ento realizada em Paris, de escritores refugiados alemes, italianos, etc..

Para melhor situarmos as correntes literrias portuguesas, esbocemos, apesar de todas 
as dificuldades e inconvenientes inevitveis, uma provis ria periodizao das 
tendncias literrias novecentistas j mais ou menos definveis e que mais tm 
importado  formao dos nossos prprios gostos nacionais contemporneos.

1 - Entre a esquina do sculo e a Primeira Grande Guerra, assistimos, por um lado,  
presena ainda sensvel do naturalismo, e por outro lado ao que, em conjunto, se pode 
designar como modernismo. Aquele dobra o sculo na fase gloriosa do teatro nrdico 
(Ibsen, Strindberg, Hauptmann, Bernard Shaw); traduz-se nos Estados Unidos por 
libelos dos chamados muckrakers, como Upton Sinclair, de que podemos aproximar 
Dreiser e Jack London; e entre outras manifestaes afins, como o verismo italiano, 
as obras de Romain Rolland e Galsworthy, devem destacar-se qualitativamente o incio 
ainda naturalista da carreira de Thornas Mann (Buddenbrook, 1901), os contos e peas 
de Tchekhov, e a obra de Grki. Quanto ao modernismo,  de sublinhar urna certa e 
importante contradio existente entre o sentido que esta corrente atribui  noo de 
moderno e a noo sensivelmente diversa que a qualificao de moderno assume dentro 
de uma

tradio, vinda sobretudo dos sculos XVII e XVIII, e que se liga com uma grande 
confiana no progresso cientfico, tcnico e social, a realizar segundo os ditames da 
simples razo imanenternente humana. Uma das primeiras e mais importantes formulaes 
do moderno modernista foi publicada em 1863 por Baudelaire, a propsito da pintura, e 
subli-

nha que o aspecto eterno da arte  dialecticamente inseparvel daquilo que ela tem de 
transitrio, flutuante, contingente (poderia, no mesmo esprito, acrescentar-se: 
fragmentrio). Baudelaire reage a um assinalvel terramoto nos ideais progressistas 
burgueses: o fracasso da revoluo de 1848, o autoritarismo do 11 Imprio e a 
primeira crise econmica (a de 1846-47 que abalou a confiana nas lei do mercado 
puramente concorrencial). Em 1888 Ruben Dario designa como modernista a literatura 
hispano-americana de influncia pr-simbolista francesa; mais tarde, Virgnia Woolf e 
D. H. Lawt-ence datam de 1910

e 1915 o modernismo europeu que representam, em rotura explcita com o objectivismo 
cientificista ou realista, numa linha de intuio subjectiva que problematiza a 
percepo comum, ou cientfica, da realidade, do espao, do tempo e dos valores 
consagrados.


Nos modernistas poderamos detectar diversas evolues daqueles requintes de 
decadncia consciente e assumida em Frana e na Inglaterra, como o decadentismo 
vienense de Hoffmannsthal e TrakI. J vimos que, com o Ultimato de 1890, a 
sensibilidade literria portuguesa foi deflectida por um sentimento de catstrofe 
nacional, embora com significado e ressonncia muito diferentes daquele que resultou, 
por exemplo, em Frana, da derrota de 1871 e da Comuna. De 1898, ano da derrota 
espanhola em Cuba perante o

984                                                HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

poderio norte-americano, costuma datar-se o surto de uma notvel gerao, a de Una-

muno, Bareja, Antnio Machado, Valle-Incin, Azorti, Ortega y Gasset, que se 
interroga sobre os destinos e alma dos povos hispnicos, com uma nova sensibilidade, 
 certo que diferente do decadentismo dos trs grandes centros culturais europeus, 
mas tambm
alheia a um caracterstico realismo social.

Entre os principais autores modernstas que se evidenciam neste perodo e condicio-

nam a evoluo posterior contam-se, na fico em prosa, Andr Gde, que, apesar da 
sua racionalidade clssica de estilo, personifica o individualismo extremo, e Marcel 
Proust, mestre da finura introspectiva; no teatro, Pirandello, que (como F. Pessoa) 
pe em causa

a unidade psquica pessoal; na poesia, G. Apollinaire, que faz de cenas parsienses, 
casos

e emoes um simples teclado de tons no poema; Valry, continuador de Mallarin na

arte de desrealizar o real; Rilke, a regressar ao Paraso Perdido por uma reduo 
potica do visvel ao invisvel; Yeats, cuja poesia se abeira de uma encantao 
mgica de tradio popular irlandesa, ou cltica em geral, mas tambm inspirada em 
msticas orientais

e no simbolismo francs.

Il - A meta do realismo social eclipsou-se por 1919-29, salvo na produo sovitica 
(realismo socialista inspirado por Grki em 1934) e em movimentos  parte. Apontemos 
apenas depoimentos da guerra, como os de Remarque, Barbusse e da chamada Lost 
Generation americana, que mencionaremos adiante; algumas tendncias do expressionismo 
e, depois, da nova objectividade (Neue Sachlichkeit, 1925) alemes, donde vir a 
nascer o teatro pico e anti-ilusionista de Brecht; e casos como o do romancista 
checo K. Chapek (que premonitoriamente lanou o termo robot) e o do norte-americano 
Sinclair Lewis, em cujo Babbit, 1922, se reviu a burguesia americana de entre as duas 
guerras.


Na fico em prosa, a tendncia ento dominante nas literaturas ocidentais  a do 
introspectivismo, mais ou menos ligado ao intuicionismo e atento s reaces 
instintivas ou inconscientes (D. H. Lawrence, Virgnia Woolf, Aldous HuxIey, 
Fitzgerald, Sherwood Anderson). Kafka adapta a liberdade imaginativa dos 
expressionistas a um sentimento de radical absurdo, que ter depois larga recepo. 
James Joyce revoluciona toda a arte do romance, explorando as possibilidades extremas 
do monlogo ntimo, fazendo surgir cpifanias transracionais da experincia mais banal 
ou de associaes verbais subconscientes (U]ysses, 1922, Finnegans Wake, 1939). Na 
Espanha, em torno do tricen-

tenrio de Grigora, em 1927, h um notvel surto de poetas que fundem tendncias 
ps-simbolistas, ou de afinidade surrealista, com o melhor da tradio nacional 
barroca e

folclrica (Lorca, Alberti, Vicente Aleixandre, dos quais Juan Ramn Jimenez foi 
precursor, e de que se podem aproximar Cernuda, Jorge GuilIn e Pedro Salinas). 
Quanto  poesia de lngua inglesa, as influncias caractersticas vm do imagismo 
(1912-1917) de Ezra Potind, e de um contraponto entre as frustraes modernas e o 
sentido do eterno

que T. S. Eliot ligar a certa tradio de ironia metafsica (o seiscentista Donne, 
os oitocentistas Laforgue, francs, e Gerard Matiley Hoptkins). Em Frana inicia-se, 
com o

7. >POCA - POCA CONTEMPORNEA                                                      
     985

primeiro manifesto de Andr Breton, em 1924, a extensa influncia do surrealismo, 
filosofia em aco (sobretudo literria) do primado dos automatismos inconscientes, o 
que at certo ponto se pode considerar em sintoma com a psicanlise. 0 surrealismo 
tem como precursor o movimento Dada, ou dadasmo, que se definira em 1916 na Sua.

III - A grande crise econmica que deflagra em 1929, bem como as tenses sociais e 
polticas a que deu origem, intensificam a problemtica social no conjunto das 
corren-

tes literrias. Uma Lost Gencration, americana, incluindo o aventuroso mas contido 
Herningway, John dos Passos, Faulkner, a que vm juntar-se Caldwell e Steinbeck, d 
expresso literria a diversas e acrescidas tenses sociais americanas; a efmera II 
Repblica e depois a Guerra Civil de Espanha radicalizam a alis destroada gerao 
de poetas de 27, do que vm a sentir-se efeitos no enraizamento popular e nacional do 
peruano

Csar Vallejo e sobretudo do chileno Pablo Neruda. Figuras salientes do surrealismo 
francs, como Tzara, luard e Aragon, assumem um papel de vanguarda revolucionria, 
que se acentua com a Resistncia antinazi. Malratix celebriza-se com os seus 
primeiros roman-

ces, de aventura revolucionria (ser no aps-guerra ministro de De Gaulle e um 
penetrante analista de artes plsticas, com algumas afinidades existencialistas). 0 
Brasil, que, com Oliveira Lima e Gilberto Freire, delineara as linhas da sua histria 
social e, desde
1922, com o modernismo, emancipara definitivamente a sua poesia, encaminhando~a num

sentido bem mais enraizado que o da portuguesa (e ento a culminar em Drummond de

Andrade, Manuel Bandeira, Murillo Mendes), revela-se depois atravs do produtivo 
romance nordestino de Jorge Amado, Lins do Rego e Graciliano Ramos. Na Inglaterra o 
incio dos anos 30  assinalado por um grupo oxfordiano com ares revolucionrios, em 
que se salienta a poesia discursiva de Auden, um futuro mstico. Silone e Morvia, 
Brecht e Ana Segliers representam, no exlio, o movimento realista dos seus pases. 
Pode, em suma, dizer-se que os grandes nomes das tendncias ps-simbolistas ou 
psicologistas que melhor produzem vm, em geral, j dos decnios anteriores.

IV - Nos pases ocidentais, a seguir  primeira Grande Guerra e a um certo perodo 
posterior de reajustamento decorreu, como vimos, um decnio de aparente equilbrio e 
prosperidade, o que no obsta a que a literatura d conta de certo sentimento de 
inquietao (palavra-chave). Mas as aspiraes nascidas dos horrores da Segunda 
Guerra Mundial, e alis bem diferentes, comearam a ser desmentidas dois ou trs anos 
depois, com

o incio do perodo que ficou conhecido como de Guerra Fria. Isso coincide com a 
tendncia, na literatura mais influente, para a atitude de desengano radical, 
universal repulsa, angstia, sentimento de absurdo ou pesadelo vivente; muitos 
escritores tpicos da poca exprimem a negao de qualquer sada para fora do abismo 
humano. 0 romancista Cline, alis acusado de colaboracionismo com os nazis,  a 
expresso mais qualificada de um

certo culto da abjeco, que o existencialismo valorizou, e opera a fuso de registos

986                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

de linguagem, sobretudo invectivadora e carnavalesca, que os decnios seguintes muito 
apreciariam. Esta atitude de aparncia milista encontrou uma tradio em todos 
aqueles que tinham visto o homem como um ser condenado a optar, a autodeterminar-se 
nas tre-

vas, sem razes bastantes, perante contradies insolveis, em situaes sempre 
nicas e incompreensveis (Pascal, Kierkegaard, Dostoievski, Nietzsche), e a sua 
filosofia foi o existencialismo, mais ou menos sentido corno doutrina da opo 
infundamentvel, dada a irracionalidade ou inessencialidade dos seres objectivos; ao 
homem, *o ser que  o que no , e no  o que +, estaria reservada a instaurao do 
Ser, atravs da contnua equiparao dos aparentes objectos ao Nada que a angstia 
patenteia (Heidegger, Jaspers). Pela sua prpria aderncia s situaes,  s 
oportunidades e individualidades, a doutrina existencialista dominante tende para a 
polmica e a figurao literria. Jean-Paul Sartre , como pensador, romancista e 
dramaturgo, a sua personalidade dominante dos anos
40 e 50; Camus aproxima-se, entretanto, de uma fico e de um teatro ento 
interpretados como de absurdismo ou niilismo assumido; Simone de Beativoir converte-
se, pela fico e pelos seus volumes de memrias, na mais conhecida campe mundial do 
feminismo (existencialsta).

Extravasando do romance, onde se faz sentir como ideologia dominante at incios da 
dcada de 50, o estado de nimo colectivo correntemente designado como 
existencialista irradia da literatura francesa, embora os principais poetas franceses 
da mesma fase, luard, Aragon, F. Ponge, H. Michaux, Saint-John Perse, Ren Char, 
estejam longe do doutrinarismo sartriano, e encaminhem em vrios sentidos a 
libertao imaginativa e verbal do surrealismo.

Na poesia inglesa o imediato aps-guerra caracteriza-se pelo signo de uma vaga 
religiosidade, pantesta ou *apocaliptica+, cujas figuras ento de proa eram o 
malogrado Dylan Thomas e Edith Sitwe11; a promoo de poetas de incios de 50 reage 
todavia, pelo menos em grande parte, com um apelo ao imediato comunicvel,  *matter 
of fact+, que sintoniza com a atitude de desengano ideolgico geral de George Orwell. 
A poesia americana, por outro lado, retrai a sua origem e circulao principais aos 
meios universitrios, donde irradia uma escola de crtica (*New Crticism+, 1941) 
atenta, em *close reading+,  estrutura autnoma das obras, e afim da espanhola de 
Dimiaso Alonso. Manifestao genericamente anglo-saxrrica, pode considerar-se a 
tendncia para formas diversas e beterclitas de *revival+ no sentimento religioso. 
Fenmeno ocidental genrico do segundo aps-guerra  o culto da juventude anrquica 
(Franoise Sagan, Beat Generation americana de A. Cinsberg e J. Kerouac, os angry men 
ingleses, entre os quais se consagrou o dramaturgo John Osborne).


Mais uma vez as realizaes cnicas retardaram sobre as meramente escritas: as 
manifestaes teatrais mais tpicas do absurdismo, levadas at ao ponto de pr em 
causa, pelo intencional sem-sentido, as prprias convenes tradicionais do teatro, 
surgem no decnio de 50, com Adamov, Samuel Beckett, antes romancista, lonesco e H. 
Pinter, coincidindo, alis, corri a mxima consagrao de Bertolt Breclit, que, 
denunciando como eles

7. a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                                     
      987

a iluso cnica, faz, contudo, manifesto de um novo realismo baseado na participao 
activa e crtica do pblico, e coincidindo com a notoriedade tardia do *teatro da 
crueldade+, radicalmente gestual e corpreo de A. Artaud. Posteriormente, acentuou-se 
o con-

traste entre o teatro fantstico, mgico ou ritualizado (Genet, Obaldia, Arrabal, 
Grotowski), e o teatro alemo de montagem documental (Peter Weiss, Hochhut), entre 
outras formas de interveno ou denncia (Kateb Yacine, Lving Theatre). Entretanto, 
e sob o ponto de vista tcnico, ao antiteatro, e ao como que explosivo antipoerna de 
Michaux, veio corresponder, nos anos 60, uma espcie de anti-romance de escola 
francesa (Robbe-Grillet, Marcel Butor, Claude Simon, Marguerite Duras), que, por 
vrios processos, renega as

linhas estruturais do romance tradicional: intriga definida, tempo irreversvel, 
caracteres consequentes, interaco de pessoas e ambientes. Esta profunda 
transformao do romance

j tinha, alis, os seus precursores, como, alm de vrios autores mencionados 
(sobretudo James Joyce), os austracos Hermann Broch (1886-195 1) e Robert Musil 
(1880-1942), e vir contribuir para a teoria do texto (potico) como desfilada 
metafrica e metonmica de significantes sem significado ltimo ou originrio, na 
perseguio de um desejo que afinal subverte, quer o objecto, quer o sujeito (o 
psicanalista Lacan, os semiologistas R. Barthes, T. Todorov, J. Kristeva). Na crtica 
 razo iluminista-naturalista tiveram repercusso importante os pensadores da escola 
de Francoforte, nomeadamente T. Adorno, E. Frorrim, H. Marcuse: sob influncia da 
psicanlise e das decepes dos anos 30 e

40, imprimiram s doutrinas de K. Marx um sentido no~racionalista, delineando uma 
esttica da negao que, em oposio ao realismo marxista de G. Lukacs, serviu de 
justificao a tendncias vanguardistas em arte. No extremo da irracionalidade 
modernista

encontra-se a preocupao por uma gnose do mito, assinalvel na teoria geral da 
rnitologia da religio de Mircea Eliade, ou a exaltao, por G. Bataille, de uma 
mstica de trans-

gresso sexual, de violncia e obsesso da morte.


Um dos aspectos salientes da literatura desta fase  o da dialctica, por vezes 
polmica, entre o realismo e o vanguardismo. Opostos entre si por Lukacs e Della 
Volpe, aproximados por Brecht e L. Goldrnann, ou criticado o primeiro em nome do 
segundo pelo grupo Te] Quel (anos 60 e 70), sua relacionao apresenta numerosas 
facetas e trans- formaes. 0 inicialmente chamado anti-romance (e depois novo 
romance), cuja rea de maior desenvolvimento coincide em geral com os pases europeus 
continentais do Ocidente mais evoludos, pretende desalojar o realismo 
individualizante balzaquiano, o qual, segundo Goldiriann, estaria condicionado por 
uma sociedade de concorrncia, e portanto se teria desactualizado numa sociedade 
neocapitalista, caracterizada pelo mono-

plio de Estado. Nos pases de lngua inglesa, porm, a tradio permanece mais 
inquebrantvel. 0 realismo sovitico atravessa desde os anos 50 uma evoluo 
sobretudo terica que prepara uma compreenso mais aberta, quer das inovaes do 
Ocidente, quer da prpria e notvel tradi o de crtica e semiolgica dos 
*forinalistas+ dos anos 20 e

de M. Bakhtine (1. Lomian e a chamada Escola de Tartu). No Brasil tem-se verificado 
um algo anrquico abrir em leque de tendncias efrneras, como as da poesia 
concretsta

988                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

(1952), agarrada s prprias possibilidades da sua materializao grfica, mas as 
realizaes mais notveis do aps-guerra, embora integrem todo o experimentalismo 
concepcional e at lingustico, empenham-se em opostas formas de desvendamento do 
inslito costumeiro (Joo Guimares Rosa, Clarice Linspector na fico em prosa, Joo 
Cabral de Melo Neto na poesia, por exemplo). 0 realismo social , entre cerca de 1946 
e 1970, o rumo preferido da poesia e da prosa espanholas na fase de desagregao do 
fascismo franquista, e combina-se nesta ltima com a tradio picaresca nacional 
(Gabriel Celaya, Blas de Otero; Camilo Cela, Zunzenegui), mas segue-se nos anos 60 e 
70 uma reaco em sentido vanguardista experimental, a que adere Juan Goitysolo, a 
partir desse rea-

lismo; por fins dos anos 80, o romance de narrativa enredada e algo ldica e um certo 
eclectismo ps-modernista esto na base de grandes xitos editoriais, como os de 
Antonio Mufloz Molino (Un Inviorno en Lisboa, 1986) e sobretudo Luis Landera, (Juegos 
de Ia Edad Tarda, 1990). Fenmeno a assinalar  tambm a expanso editorial e a 
qualificao das literaturas de lnguas catal e galega. A fico neo-realista 
italiana posterior  guerra (Vittorini, Moravia, Cario Levi), como acontece com o 
cinema correspondente, aproxima-se do ps-modernismo. Fenmeno semelhante se verfica 
com o chamado Grupo
47 na Alemanha (H. BMI, G. Grass, H. M. Enzensberger). A rea geogrfica de melhor 
produtividade na fico em prosa, em termos inovadores de realismo social, e, em 
certos casos, ao mesmo tempo transfigurador, ou mgico, foi nos anos 60~70 a Amrica 
Latina: Alejo Carpentier, Garca Marquez, Carlos Fuentes, Vargas Llosa, entre outros.

V - 0 termo ps-modernismo, numa certa afinidade com ps-estruturalismo, e, mais 
indirectamente, relacionvel com a concepo de sociedade ps-industrial (A. 
Touraine,

1969, D. BelI, 1973), designa um conjunto de tendncias que j pelos anos 60 eram 
assim nomeadas nos Estados Unidos, e como tais chamadas em Frana e Itlia desde 
finais dos anos 70, embora seja possvel encontrar-lhes precursores desde os ltimos 
anos do sc. XIX e sobretudo desde cerca de 1940. Num mbito mais amplo, o alvo de 
contestao ou, antes, de rejeio expresso pelo prefixo *ps-+  uma certa tradio 
de modernidade, ou de expectativa optimista em volta do *novo+, que se acentua desde 
o Renascimento, as seiscentistas Querelas dos Antigos e Modernos (mormente em Frana, 
1688), culminando com a confiana na Razo e suas Luzes em sucessivos ideais de 
emancipao ou de progresso humano. Sob este aspecto, certas manifestaes ps-
modernistas tm j antecedentes na reabilitao romntica alem do Mito contra a 
Razo iluminista (Schiller, F. Schiegel), no esteticismo das correntes Decadentes-
Simbolistas, no intuicionismo de Bergson ou no cepticismo de alguns seus 
contemporneos, e mais obviamente no *niilismo+ anti-racionalista, anti-humanitarista 
e amoralista com que Nietzsche, cerca de 1880, apregoou uma simples e super-humana 
vontade de poder, opondo s fundamentaes lgico-cientficas a simples retrica da 
metfora, concebida como criadora livre de valores.

Mais complexas so as relaes do ps-modernismo com o modernismo, que, conforme 
circunstncias nacionais e as muitas variaes inerentes ao espectro esttico e dou-

7 1 POCA - POCA CONTEMPORNEA                                                      
       989

trinrio ps-modernista, ora aparece datvel de fins de sc. XIX, ora de 19 10 (em 
Portugal, de 1915). De qualquer modo, Mallarm, James Joyce, R. Musil contam-se entre 
os modernistas mais frequentemente tidos ainda corno exemplares.  particularmente 
sen-

svel o magistrio de M. Heidegger, que desde 1927 elabora uma crtica mais radical 
do que a da Escola de Francoforte (Horkheimer, Adorno, 1947)  *razo (meramente) 
instrurnental+ ou cientfico-tcnica do progresso (capitalista) das Luzes, pois 
Heidegger desqualifica toda uma tradio *metafsica+ vinda da filosofia grega 
clssica, a qual assentaria na mera racionalidade da manipulao de *objectos+ por um 
correlativo e fixista *sujeito+ humano racional, e procura abrir espao para urna 
atitude meramente hermenutica (interpretativa) da simples *fenomenologia+ do existir 
(humano) para a morte e

sempre acareado com o Nada. Mais tarde (desde 1937) Heidegger apoia-se na herme-

nutica de textos poticos, os quais conteriam evidncias fundadoras ou desvendadoras 
do Ser, *metafisicamente+ esquecido pela possessiva razo tecnolgica - evidncias 
toda-

via inerentes a um *aberto+ que  sempre epocal e indissolvel da prpria linguagem. 
J desde os anos 50 sensivelmente influente na literatura de temtica *existencial+, 
Heidegger corrobora no ps-modernismo uma eclctica receptividade a diversas e 
desencon-

tradas revelaes do Ser, disseminadas atravs da secular errncia da metafisica e da 
arte, sobretudo potica.

Esta valorizao da hermenutica, nomeadamente perante a arte e as cincias huma-

nas, em oposio (pelo menos limitativa)  metodologia cientfica, conta entre os 
seus protagonistas H. G. Gadamer (1960) e Paul Ricoeur (desde 1965). Outros motivos 
heideggerianos so sensveis no ps-estruturalismo francs, que depois da sublevao 
estudantil parisiense de Maio de 1968 deixa de interessar-se pela anterior busca de 
uma sn-

tese estruturalsta-marxista-psicanaltica. 0 R. Barthes dos anos 70 e 80 
caracteriza-se por um hedonismo ldico perante a entidade mais em foco na semiologia 
francesa (e outra), a entidade texto, sempre a fazer-se ou refazer-se numa dinmica 
intertextual infinita (J. Kristeva e revista Tel Que] dos anos 60-70) e afasta-se da 
sua aparente racionalidade lingustica-semiolgico-estruturalista anterior. M. 
Foucault principal teorizador ps-nietzschiano (ao lado do marxista-estruturalista L. 
Althusser) da *morte do homem+ como

conceito-chave, da histria sem *sujeito+, da descontinuidade *arqueolgica+ dos 
saberes, e atento  *genealogia+ nas formas de represso burguesa, evolui para uma 
*microfisica+ do poder que fluidifica toda a conflitualidade social da anlise 
marxista, e acaba por preocupar-se com a gnese esteticista- sexual da subjectivao 
a partir da Grcia clssica (1984). J. Derrida torna-se (sobretudo em Frana e nos 
Estados Unidos) a figura central do desconstrucionismo, isto , de um comentrio 
fundamentalmente retrico, que detecta metforas despercebidas, que tanto incide 
sobre textos literrios como sobre tex-

tos filosficos, e que radicaliza a critica heideggeriana  *mctafsica>@ ocidental: 
essa meta-

fisica basear-se-ia na iluso da existncia de qualquer sentido que esteja 
imediatamente presente aos textos, os quais afinal nunca passariam de construes 
sempre indecidveis, pois o respectivo jogo interno, constitudo por meras 
diferenas, postula sempre uma ulte-

990                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

rior e diferida interpretao-desconstruo, mediante uma anlise fundamentalmente 
textual

(e no lgica), que escaparia a qualquer metodologia (1967, 1972). J nos anos 60 M.

Blanchot preconizara uma abordagem tendente  desconstruo e  revelao das 
apori,'@s e pontos cegos dos textos literrios.

Em termos doutrinrios gerais, o ps-modernismo  cptico em relao a qualquer 
*metanarrativa+, ou narrativa englobante de um projecto de progresso humano (F. 
Lyotard, 1979), projecto que j K. Lwit (1949) considerava simples *secularizao+ 
do mito judaico-cristo da Salva o; descr da cientificidade de tradio 
positivista, enfatizando a incomensurabilidade entre paradigmas cientficos (T. 
Kulin, anos 70 e 80), as margens de indeterminao causal e previsibilidade (teoria 
das catstrofes de R. Thom, 1977; 1. Prigogine e 1. Stengers, 1979); desvaloriza as 
teorias de formalizao matemtica ou de metodologia da prova cientfica, tornando-se 
proverbial (alis tambm em termos de estru-

turao esttica) o afrismo *anarquista+ de P. K. Feyerabend (1975): anything goes 
(tudo serve), o qual legitima a astrologia em moda, a medicina *popular+ ou extica, 
os saberes locais e empricos. Ao mtodo matematizado e experimental clssico (embora 
tecnologicamente to produtivo) prefere-se a estratgia circunstancial, a intuio ou 
compreenso hermenutica, a racionalidade *microlgica+, o *pensamento (modestamente) 
dbil, ou

fraco+ (G. Vattimo, 1985), os consensos limitados e prticos, as lutas, ou 
resistncias, simplesmente transversais, e no socialmente frontais, as opinies 
ligadas a formaes tnicas ou regionais, a experincia especfica e no 
generalizvel. H tambm um ps~ -feminismo que rev as reivindicaes pelas quais 
muitas mulheres lutaram *na poca moderna+. Uma tendncia influente, a de R. Rorty 
(198 1), nsere-se na tradio pragmatista americana, valoriza sobretudo o 
funcionamento prtico dos enunciados e a capacidade dialogal de manter relaes de 
comunicao, mesmo quando inconclusivas. Dois conhecidos filsofos alemes, J. 
Habermas (198 1) e L. 0. Apel (1976), defendem a con-

tinuidade do ainda inacabado projecto moderno da Aufklrung, ou poca das Luzes, mas

no com argumentos epistemolgicos, ou da teoria do conhecimento, e sim  base das 
regras inerentes  simples razo comunicativa que a investigao lingustica pusera 
em


relevo desde J. Austn e Searle, nos anos de 50-60; enquanto outro tambm influente 
pensa~ dor alemo, H. Blumenberg (1979), ope  concepo romntica, que  tambm 
modernista e ps-modernista, do mito como entidade pr- ou transracional (E. 
Cassirer, 1925, M. Eliade, anos 50-60) uma concepo diferente: o mito reocupa, de 
modos historicamente sempre mudveis, um certo lugar em articulao com o logos, ou 
racionalidade, ora suscitando novas interpretaes, ora, e crescentemente, 
disseminando-se sob a forma de metforas correntes e at despercebidas, e prope por 
isso pesquisas metaforolgicas.

Do ponto de vista mais especificamente esttico e literrio, o ps-modernismo 
apresenta caractersticas variadas e que variamente se opem, ou no, ao modernismo: 
o revivalismo (ou reciclagem) de antigos estilos, com efeitos de amlgama ou 
hibridao, desde a frequncia da citao, do pastiche ou de uma pardia no 
necessariamente depreciativa, at ao dialogismo (Bakhtine, tradues francesas dos 
anos 70) entre diversos regis-

7 @ POCA - POCA CONTEMPORNEA                                                      
      991

tos de fala, e  combinao dos diversos *jogos de linguagem+ (conceito de L. 
Wittgenstein). Na arquitectura, que tanto contribuiu para a sensibilidade ps-
modernista, nomea-

damente nos Estados Unidos e na Itlia dos anos 70 e 80, reage-se contra a 
racionalidade funcional, fundem-se, compositamente, estilos histricos e (como no 
Barroco) dissimulam-se as estruturas bsicas. Eis outras manifestaes mais ou menos 
ligadas ao ps-modernismo: o palimpsesto, ou sobreposio de interpretaes 
possveis; a contamina-

o intencional e no hierarquizada entre a arte exigente e feies pop, kitsch ou

estandardizadas da *indstria culturab>; o apreo neornaneirista, ou neobarroco, pela 
subtileza, pela vaguidade ou ambiguidade, pela complexidade; o labirinto (Jorge Lus 
Borges, entre outros), os ns inextricveis de figuras ou enredos; a organizao em 
*rizoma+

(metfora de G. Deleuze e F. Guattari, para designar qualquer rede de relaes 
insusceptvel de precisa racionalidade); o interesse (alis comum a matemticos e a 
artistas) em focar e analisar as transies entre a ordem e o caos.

Assim como o jornalismo, incluindo o folhetim de fico ou comentrio, afectou a 
sensibilidade romntica, -  tambm bem sensvel na evoluo actual da esttica 
geral, ou literria, o impacto das tcnicas audiovisuais e de formas do lazer dos 
ltimos tem-

pos: os *efeitos especiais+ dos vdeo-clips, de certos spots publicitrios e da 
fico cientfica, por vezes computorizados segundo normas da recente geometria 
fractal (B. Mandelbrat, 1984). A prpria percepo sensvel agudiza-se nas geraes 
mais novas: elas

habituam-se  apreenso simultnea ou imediata de imagens dispares e anteriormente 
ina-

preensveis dentro da escala dimensional, da velocidade, da distncia, do grau de 
com-


plexidade que h poucos decnios se considerariam normais. Por outro lado, quer essa 
experincia intensificada e plurifacetada, quer a conscincia hoje acrescida acerca 
dos cordelinhos narrativos ou retricos, das convenes sermolgicas (e 
particularmente narratolgicas ou lingusticas) a que a arte e a literatura 
despercebidamente obedeciam propiciam a elaborao de estruturas mais complexas ou 
sofisticadas, nas quais as mais antigas se subsumem. Romances de xito como 0 Nome da 
Rosa, 198 1, do alis conhecido semiologista da narrativa Umberto Eco, e Dulluth, 
1984, de Gore Vidal, supem um leitor capaz de se aperceber do enlace e da ironia 
que, nessas obras, contaminam gneros narrativos muito diversos, conhecimentos 
heterogneos colhidos numa certa informao enciclopdica, personagens ou situaes 
tpicas de outras fices mais ou menos
consagradas; referncias destinadas a lograr o leitor ou a obter um seu largo 
complemento (ou cumplicidade) de imaginao, ou a faz-lo aceitar uma atitude de 
dvida radical, se no mesmo de impresso desrealizadora em relao a qualquer 
realidade plausvel. Por vezes ( o caso do mencionado romance de U. Eco e de certos 
filmes ou obras plsticas) a multiplicidade de pistas interpretativas (e judicativas) 
acomoda-se a uma grande diversidade de pblicos, como a diversos graus, ou critrios, 
de exigncia, fenmeno alis j preludiado por obras-primas romnticas de 
comunicativa aparncia folhetinesca ou melodramtica (Balzac, entre ns Garrett ou 
Camilo Castelo Branco). De resto, a rpida mutao de gostos e interesses culturais 
induzida pelos mass media induz uma valoriza-

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o positiva da moda e da j referida contaminao no-hierarquizada quanto a nveis

de exigncia dantes separados.

Certos comentaristas aproximam o ps~modernsmo de uma transformao das sociedades 
tecnologicainente mais evoludas j bem evidente por incio dos anos 70, se no 
antes: desapario do equilbrio entre a produo localmente concentrada e em srie 
(iniciada em 1913 por H. Ford) e o Estado Providncia institucionalizado a seguir  
Segunda Guerra Mundial, o que proporcionou quase trs decnios de prosperidade 
ocidental sem

crise grave; disperso e parcelamento geogrficos, *flexibilizao+ ou precarizao 
do trabalho, tendncia para a individual izao e hierarquizao do contrato; 
transio da produo altamente concentrada de escala para a produo diferenciada, 
especializada, com

grande acelerao das inovaes (e o mnimo possvel de stocks); papel cada vez mais

importante do sector de servios, e da informao, que invade ou tende a controlar, 
directa ou indirectamente, toda uma gama larga de *indstrias culturais+ (televiso, 
vdeo e outras

gravaes, turismo, adereos, design, alta costura, obras de arte, ou automveis, 
valorizados como simples imagens, ou simulacros, de prestgio; distanciao crescente 
entre os centros de deciso financeira e a localizao, cada vez mais instvel, do 
trabalho -

donde sentimentos dominantes de desregulao, de desrealizao, de justaposio ou 
colagern de estilos (ou mundos aparentes), o aliciamento (tipicamente televisivo) de 
mltiplas e transientes formas de nostalgia local ou temporal, mimtica ou 
fantasista.

Condies portuguesas (1890-1974)

0 Ultimato e a crise financeira e econmica de 1890-91 balizam uma sensvel 
transformao na vida portuguesa, cujos prenncios e efeitos se distinguem facilmente 
na actividade literria. Sob o ponto de vista poltico, o fracasso da primeira 
insurreio republicana (1891,10.31) no impede o esfacelamento dos dois principais 
partidos at ento rotativos, o Regenerador e o Progressista, e a degradao do 
regime monrquico constitucional em ditaduras virtuais ou declaradas, como as duas de 
Joo Franco, tendo como

consequncia nova fase de agitao em 1907/08, que culmina no regicdio. Dois anos


depois proclama-se a Repblica. A sua propaganda mostra que os dirigentes polticos 
da pequena burguesia comercial e industrial, bem como o artesanato e as camadas 
operrias das manchas industriais (j a adensar-se em torno das duas principais 
cidades,  base da indstria txtil e das de transformao das matrias-prinias 
agrcolas) eram tambm sensveis  tutelagem do capital bancrio, cuja influncia se 
tornara muito not ria. No entanto, a mudana de regime no acarretou alteraes 
profundas, nem nas estruturas econmicas e sociais, nem nas tendncias ideol gicas e 
estticas.

Com efeito, a poca do Fontismo, isto , do desenvolvimento das linhas de 
comunicao, sobretudo de construo da rede ferroviria, decisivamente unificadora 
do mercado interno, esgotara as suas possibilidades de fomento da produo agrcola, 
que a estrutura da propriedade e do crdito, o baixo nvel de conscincia poltica 
mal permitiam

7 - POCA - POCA CONTEMPORNEA                                                      
        993

arrancar a instrumentos e processos ainda rotineiros. A partir de 1870 Portugal deixa 
de se remediar como produtor agrcola e pecurio complementarmente subordinado  
indstria britnica, e avoluma-se muito a emigrao dos camponeses pobres. Mas uma

crise brasileira relacionada com a abolio tardia da escravatura e a proclamao da 
Repblica, 1888-89, diminura a importncia das entradas de divisas possibilitadas 
por essa enorme corrente emigratria. A corrida  colonizao da frica e da sia, 
que constitui uma das caractersticas do capitalismo imperialista no ltimo quartel 
do sc. XIX, determinou nos ltimos decnios da Monarquia uma poltica de explorao 
sertaneja, ocupao militar e explorao econmica africanas, esta ltima atravs, em 
grande parte, de companhias majestticas estrangeiras. A Repblica rematou e 
consolidou tal poltica, e

para a queda da Monarquia muito contriburam, alis, os reveses parciais da 
diplomacia monrquica nesse domnio (Questo de Loureno Marques; Conferncia de 
Berlim; Ultimato). A influncia desta evoluo  j, bem vimos, bastante sensvel na 
fase final da

chamada Gerao de 70, e faz surgir na literatura (em oposio a ideias bem 
conhecidas

de Herculano e Antero de Quental, por exemplo) uma corrente nacionalista-
colonialista, dentro da qual se no distinguem monrquicos ou republicanos, e mais 
tarde integralistas (embora estes, inicialmente, de tendncia agrria 
antiexpansionistas) e, por outro lado, positivistas ou laicistas; podemo-la 
distinguir claramente no primeiro plano desde pouco antes do Ultimato at ao segundo 
quartel do sc. XX.

Tal rumo acarretou a participao de Portugal na guerra de 1914-18, o que agravou as 
dificuldades do novo regime e o incidentou de golpes militares, pondo-o tambm 
perante problemas financeiros, econmicos e sociais de amplitude antes desconhecida. 
Duas sries de movimentos reivindicativos operrios, em fins de 1910 e incios de 
1919, so coroadas por vrias leis populares, como a do inquilinato e a das 8 horas 
de trabalho. Entretanto, e embora a ritmo lento em comparao com as transformaes 
em curso nos pases capitalistas evoludos, contnua a acentuar-se o predomnio 
demogrfico das cidades litorais e a concentrao e importncia econmica relativa do 
sector industrial (conservas de peixe, adubos qumicos, moagem, cimento, 
metalomecnica). A correspondente acumulao do capital, de que nesta fase 
participaram ainda certos estratos da mdia burguesia, deve-se ao acrscimo da taxa 
de lucro obtida atravs do manejo de urna enorme inflao e de medidas repressivas 
que cedo descontentaram o operariado, embora ele houvesse participado na revoluo 
republicana e, por via dela, tivesse conquistado o direito


 greve e uma mais ampla organizao sindical.

0 regime republicano parlamentar acabou por ceder perante as tenses polticas e

sociais criadas; em 1926 instaura-se urna ditadura militar, e a partir de 1933 
institucionaliza-se um Estado de moldes autoritrios. Os acontecimentos 
internacionais de maior repercusso na vida portuguesa so, no decnio de 1930, a 
crise econmica desencadeada em
1929 e vicissitudes, como a nazificao da Alemanha e a Guerra Civil de Espanha, 
atravs das quais se prepara a guerra de 1939-45. Internamente, acentuam-se as 
tendncias econmicas, sociais e demogrficas, j vindas de trs, nomeadamente a 
concentra-

994                                                HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

o e centralizao capitalistas. Aumenta consideravelmente a fuso e organizao 
capitalista das indstrias qumicas, metalrgicas e dos transportes, e, depois da 
guerra de
1939-45, as da refinao e derivados do petrleo, a hidroelctrica e a siderrgica. 
Os investimentos coloniais crescem tambm consideravelmente, desde ento. A evoluo 
geral de toda a poca que estamos considerando pode resumir-se pelas percentagens da 
populao que se dedica aos trabalhos rurais e aos industriais: em 1890, 61,1% e 
18,4%, respectivamente; em 1960, os nmeros correspondentes so de 47% e 27% - sendo 
de notar, por outro lado, que quanto  origem do produto interior, em 1961, se 
verificavam as seguintes percentagens: agricultura, silvicultura e pesca 24,4%; 
indstria e constru-

o 41,3 %; servios 34 %. Cerca da quarta parte da populao estava j por ento 
con-

centrada em Lisboa, Porto e concelhos limtrofes, verificando-se uma concentrao 
financeira e latifundiria fora de correspondncia com o relativo atraso dos meios de 
produo (o nmero de patres rurais, fabris e comerciais diminuiu para menos de 1/3 
entre 1950 e 1970).

Quer no plano econmico- social, quer no da ideologia dominante, o Estado corporativo 
limitou-se a levar ao extremo certas tendncias da Repblica democrtica liberal: a 
concentrao do capital  custa de assalariados e rendeiros, o mito da regenerao 
pelas virtudes agrrias provincianas, e de um nacionalismo passadista que se 
projectava em

novo ciclo de expanso colonial. No entanto, a partir da Segunda Guerra Mundial este 
iderio, literariamente dominante at cerca de 1930, j visivelmente em crise ao 
longo das correntes modernistas, e frontalmente criticado pelo neo-realismo de 40, 
que corresponde  emergncia do marxismo entre uma faixa do proletariado fabril (e 
mesmo rural, no Alentejo), tende para uma ideologia desenvolvimentista e 
tecnocrtica, face  cada vez mais flagrante evidncia do atraso econmico, tcnico e 
cultural do pas,  intensificao em escala indita da emigrao (c. 1 milh o e 500 
mil entre 1956 e 1974), e ao

beco sem sada de um colonialismo de tipo oitocentista, insustentvel a prazo e 
universalmente condenado.

0 movimento de 25 de Abril de 1974 desencadeia-se numa altura em que se perspectiva 
uma das mais graves crises da histria nacional, e em coincidncia com mais uma crise 
do capitalismo mundial. A degradao da razo de troca no comrcio externo 
(depreciao dos artigos exportados em relao aos importados), a estagnao de certo 
surto industrial de incios dos anos 60, o enfraquecimento absoluto do sector 
agrcola, acarre-


tando a reduo de entre 1/6 e 1/4 da populao de certos distritos interiores e a 
diminuio deniogrfica entre 1960 e 1970, a acentuao das assimetrias de 
desenvolvimento regional, a acentuao da dependncia econmica ou tecnolgica e da 
inflao (c. 30% no ltimo ano do anterior regime) - ressaltam sobre o plano de fundo 
das guerras coloniais, mantidas atravs de dependncias diplomticas e de cedncias a 
transnacionais, e com o perfilar-se de uma grande catstrofe a maior ou menor prazo. 
Mas as transformaes mais radicais (descolonizao, nacionalizao dos monoplios 
nacionais, reforma agrria, forte dinamismo sindical, intervenes estatais em 
empresas mais ou menos aban-

7 - POCA - POCA CONTEMPORNEA                                                      
    995

donadas) no chegam at  instaurao da economia socialista que se advogou em 1975, 
e cedem lugar  recuperao econmico-social capitalista, que prev a plena 
integrao concorrencial no Mercado Comum Europeu a partir de 1993.

Do ponto de vista cultural, o 25 de Abril vem encontrar uma crise do ensino pblico, 
com um irreprimvel aumento da escolarizao, todavia socialmente discriminada e no 
orientada para as necessidades de um aumento da produtividade econmica conexo a uma

democratizao real; uma investigao cientfica e tcnica em geral de baixo nvel e 
descoordenada; um acentuado divrcio entre certas vanguardas doutrinrias e estticas 
influenciadas pelas dos pases capitalistas ocidentais (sobretudo, como  tradicional 
da Frana) e uma opinio pblica rapidamente politicizada mas apenas a nvel da 
interveno imediata. Da resulta, no campo estritamente esttico, uma rpida e em 
parte transitria expanso, alis mundial, de formas novas de comunicao pelos mass 
media, como a reportagem, o debate colectivo, a cano livre, o teatro popular, o 
festival multiforme, o cartaz, a pintura mural, banda desenhada, autocolantes, mas s 
muito lentamente parece abrir caminho uma produo literria com aspectos inovadores 
ou um espao livre de simples aculturaes teorticas e estticas, graas a uma 
actualizada apreenso da especificidade das condies portuguesas, histricas ou 
actuais, embora inevitvel e desejavelmente inserido no intenso intercmbio e na 
rpida transformao mundiais.

 particularmente sensvel na cultura portuguesa uma certa perplexidade de projecto 
nacional. Falhou a ltima pretenso (c. 1945-1974) de um espao econmico 
relativamente autrquico, assente nas colnias e na directa represso salarial. 
Passou a situao pr-revolucionria de 1974-1975. Decorre o processo de insero do 
pas num largo bloco de redes econmicas transnacionais, a da CEE, onde,  partida, 
assentar basicamente em sectores de baixo salrio e baixa produtividade, sem,dispor, 
nem da capacidade autodeterminativa de um dinmico sector pblico, nem de 
significativas concentraes com-

parveis s de antes de 1975, que apenas, provavelmente, se podero reconstituir numa

situao de dependncia estrangeira. No admira que na literatura portuguesa 
contempornea predominem uma atitude de retrospeco ou perplexidade e tentaes 
epigonais de adaptao a uma conscincia de periferia *europeia+. No mercado do 
livro, a produo nacional tem-se defendido talvez melhor nos ltimos anos graas a 
uma mquina promocional sem precedentes, mas claramente vedetista, em que se 
salientam numerosos


prmios de certo vulto e uma intensa publicidade, sobretudo ligada ao auge do 
periodismo semanrio, com a notoriedade rpida de alguns nomes e o no menos rpido 
esquecimento de geraes anteriores. Em mbito internacional, a literatura portuguesa 
beneficia de um relativo interesse, em parte ligado a uma tardia voga de Fernando 
Pessoa (alis sob certos aspectos j to ps-moderno), mas o processo de unificao 
econmica e inevitavelmente outra, inclusivamente cultural, de um largo espao 
europeu plurilngue vai sujeitar autores e editores a uma difcil concorrncia. A 
existncia de sete pases lusfonos com eixo no Atlntico Sul e constituindo 
demograficamente o sexto domnio lingustico da Terra constitui uma potencialidade 
cultural cuja importncia futura depende da resoluo de srios problemas econmico-
sociais e outros.

996                                                  HISTRIA DA LITERATURA 
PORTUGUESA

////// fil, UZ 10 G,AFI, 4

Parte histrica geral: Crouzet, Maurice: L'poque Contemporaine, Histoire Gnrale 
des Civilisations, t. Vil, P. U. F., Paris, 1954; Pacaut, Marcel/Bouiu, Paul: 0 Mundo 
Contemporneo (1945-75), trad. port., ed. Estampa, Lisboa.

Evoluo esttica:- Dionsio, Mrio: A Paleta e o Mundo, 2 vols, 1956-62; Debate 
sobre a Arte Contempornea, vol. dos Encontros Internacionais de Genebra, trad. 
port.,
1963.

Evolucilo literria: alm das histrias das literaturas nacionais que se indicaro no 
final deste livro, ver:

Raymond, Marcei: De Baudelaire au Surralisme, 2. > ed., Paris, 1952.

Cohen, J. M.: Poetry of this Age (1908-1958), Londres, 1960.

Histoire des Lttratures, t. li, Encyclopdie de Ia PIiade, 1956.

Friedrich, Hugo: Estrutura de Ia Poesia Moderna, trad. castelhana, Barcelona, 1959, 
trad. port. Duas Cidades, So Paulo, 1973.

Lukacs, G.: 0 significado actual do realismo crtico, trad. portuguesa, 1964. Bowra, 
C. M.: The Heritage of Symbolism. Rousseaux, A.: Littrature du XXe sicle (5 vols.), 
Paris, 1948. Picon, Gaeton: Panorama de Ia Nouvelle Littrature Franaise, 2. > ed., 
1960, Paris (contm antologia; na mesma col. encontram-se vols. de panorama sobre as 
literaturas contemporneas alem, espanhola, italiana, inglesa, americana e russa).

La Posie Franaise: Panorama Critique, 2 vols. (De Rimbaud au Surralisme, Nouveaux 
Potes Franais), col. Melior, Paris, 1959.

Richard, Jean-Pierre: Onze tudes sur Ia Posie Moderne, Seul, 1967; H. Nadeau, 
Histoire du Surrealisme, Paris, 1945.

Durozi, Grard/Lecherbonnier, Bernard: 0 Surrrealismo, trad. port., Coimbra, 1976. 
Golcimann, Lucien: Pour une Sociologie du Roman, Paris, 1964. Eco, Umberto: L'Oeuvre 
Ouverte, trad. fr., Paris, 1965 (orig. it. 1962). Les Chemins Actues de Ia Critique 
(volume colectivo, com ampla bibliografia), col.
10/18.

Fiedier, Leslie: Waiting for the End (from Hemingway to Baldwin), Pelican Book, 1967. 
Hamburger, Michael: The Truth of Poetry, Tensions in Modem Poetry from Baudelaire to 
the 1960, Pelican Books, 1972.

A editora Penguin Books tem uma boa e acessvel srie de antologias actualizadas e 
prefaciadas de poesia inglesa, alem, russa, italiana e espanhola, entre outras, e 
uma srie Writing Today com antologias de prosa e verso dos principais pases, reas 
lingusticas ou continentais, e ainda The Pelican Guide to English Literature, de que 
aqui interessam o vol. 7, The Modem Age, com edies revistas desde 1964 e o vol. 8, 
The Present, de ensaios selec. e ed. por Boris Ford, 1983, 4. > reimp., 1987.

7. a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                                     
   997

Ver ainda a coleco antolgica internacional em lngua ou traduo francesa, Potes 
d'aujourd'hui, Seghers, Paris, 1978.

Brenner, Jacques: Histoire de Ia Littratura francaise de 1940  nos jours, Fayard, 
Paris, 1978.

Bre, G. e E. Morot-Sir, Littrature Franaise, 9. Du Surralisme  VEmpire de Ia 
Critique, Arthaud, Paris, 1984 (com ampla informao bibliogrfica, cronolgica e 
outra).

Poesia espanhola: Antologia de los Poetas dei 27, selec. e intr. de J. L. Cano, col. 
*Austral+, Madrid, S. a ed. 1982, Poesia Espanhola do Aps-Guerra, selec. e trad. de 
Egito Gonalves, Portuglia, s/d, Antologia de Poesia Espanhola Contempornea, 
selec., trad. e intr. de Jos Bento, Assrio e Alvim, 1985. Paz, Otavio: Los Hijos 
dei Limo, Barcelona,
1974 (importante reflexo de um poeta hispano-americano precursor do ps-modernismo).

*0 Romance Contemporneo+, srie de conferncias promovidas e editadas pela Sociedade 
de Escritores, Lisboa, 1964.

Dervignaud, Jean/Lagoutte, Jean: Le Thtre Contemporain, col. Larousse Universit, 
1974.

Vilaa, Mrio: Caminhos do Teatro na Actualidade, Vrtice, 1974. Entre as mais 
influentes reflexes acerca da literatura contempornea sobressaem as que se 
relacionam com a chamada *Teoria crtica da escola de Francoforte+, de que 
salientaremos as seguintes obras com tradu o francesa e espanhola: Benjamin, 
Walter: llluminationen, Francoforte, 1961, trad. esp. Tanens, 1980, Lesezeichen, 
Leipzig, 1971; e Adorno, T. W.: Aestetische Theorie, Francoforte, 1970, trad. franc. 
1974. Antologia: The Essential Frankfurt School Reader, org. A. Arata e E. Gebhardt, 
pub. Urizen Books, N. Y., 1978. De um ponto de vista diferente, mas que se pretende 
marxista-freudiano, ver os estruturalistas franceses do grupo Tel Quel, a partir da 
Thorie d'Ensemble, Paris,
1968, e representantes de outras correntes indicadas na bibliografia das Reflexes 
Preliminares deste livro. Muitos dos livros referidos contm estudos de textos 
exemplificativos de um novo conceito de modernidade. Introduo em portugus aos 
problemas da vanguarda esttica em Edoardo Sanguineti, Ideologia e Linguagens, trad. 
de A. Ramos Rosa e C. Gonzalez e importante prefcio de Arnaldo Saraiva, 
Portucalense, Porto, 1972.

Seixo, M. Alzira, org. e pref. de Poticas do Sculo XX, Livros Horizonte, 1984. 
Sobre tendncias predominantes designadas como ps-modernistas: Vattimo, Gianni:

0 Fim da Modernidade, trad. port. 1987 (original it. 1985), Presena; Fokkema, 0. W.: 
Modernismo e Ps-Modernismo, trad. de original ingls de 1983, Vega, 1988; Fokkema,
0. W./Berttens, H. (org.): Approaching postmodernism, Amesterdo, 1986, Calabrese, 
Omar: A Idade Neo-Barroca, trad. port. 1988, de original it. 1987, Edies 70.

Doutrinrio geral mais conhecido: Lyotard, J. F.: La Condition Posmoderne, Paris,
1979, trad. Gradiva s/d, e 0 Ps-Moderno Explicado s Crianas, correspondncia 
polmica, trad. port. Dom Quixote, 1987, do original de 1986.

Habermas, Jrgen: 0 Discurso Filosfico da Modernidade, trad. port. Dom Quixote,
1990 (original alemo de 1885). Nmeros especiais sobre o ps-modernismo das revistas 
Comunicao e Linguagens, n. 0 6/7, 1988, e Revista Crtica de Cincias Sociais, 24, 
Maro 1988. H artigos importantes sobre o ps-modernismo nos n.'s 2 (1987) e 5 
(1989) da rev. Crtica, Lisboa. Numa perspectiva mais larga, ver Theories of 
Modernity

998                                                 HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

andPostmodemity, org. por B. S. Turner, Sage Pub. Londres, 1991, onde se confrontam 
interpretaes diversas, e Harvey, David: The Condition of Postmodernity, Blackweli, 
Oxford, 1990, que integra o ps-modernismo na estrutura actual do capitalismo e em 
formas novas de percep o do espao-tempo e da vida urbana. Nestes estudos e artigos 
h referncia  importante polmica centrada  volta de Lyotard, Habermas e Rorty. 
Para a novelstica, uma obra informada  a de McHale, B.: Postmodernist Fiction, 
Londres,
1987. H anlises de alguns autores estrangeiros e nacionais de afinidade ps-
modernista em Coelho, Eduardo Prado: A Noite do Mundo, IN -CM, 1988. 0 n. 1 da 
revista Dedalus, de Literatura Comparada, 1991, dir. por M. Alzira Seixo, contm as 
Actas do Seminrio sobre o Ps-Modernismo na Literatura Europeia, realizado em Abril 
desse ano (9 estudos, 3 dos quais sobre autores portugueses).

Viso global do desconstrucionismo europeu e norte-americano: Christopher Norris, 
Desconstruction, Methuen, Londres e Nova lorque, 1982. reed. aum. 1988.

Condies portuguesas fundamentais:

Castro, Armando: A Economia Portuguesa no Sculo XX (1900-1925), Lisboa, 1973, e 
Estudos de Economia Terica e Aplicada, 2. > ed. ref., Seara Nova, 1977 (sobre os 
anos
60e 70).

Histria do Regime Republicano em Portugal, dirigida por Montalvor, Lus de: Histria 
de Portugal, de Barcelos, vol. Vil, e o seu Suplemento, vol. IX; Histria da 
Repblica Portuguesa, ed. *Sculo+, 1959-60.

Marques, A. H. de Oliveira: A Primeira Repblica Portuguesa (Para uma Viso 
Estrutural), ed. *Horizonte+, s/d (1971), e Guia de Histria da 1. > Repblica 
Portuguesa, Estampa, Lisboa, 1981; e Histria da 1. > Repblica Portuguesa (em 
publicao por fascculos).

Ferreira, David: Histria Poltica da Primeira Repblica Portuguesa, vol. 1 (1910-
15),
1 e 11 Partes, Lisboa, 1973.

Baptista, Jacinto: 0 Cinco de Outubro, 2. > ed. corr. e aum., 1965, e Surgindo Vem ao 
Longe a Nova Aurora (Para a histria do dirio sindicalista *A Batalha+, 1919-1927), 
Bertrand, 1977.

Oliveira, Csar: 0 Operariado e a Repblica Democrtica (1910-1914), vol. 
fundamentalmente antolgico, mas com ampla bibliografia que interessa  histria 
social e poltica entre 1820 e 1920, 2. > ed., Lisboa, Seara Nova, 1974.


Valente, Vasco Pulido: 0 Poder e o Povo: a Revoluo de 19 10, Dom Quixote, Lisboa, 
1974.

Costa, Ramiro da: 0 Desenvolvimento do Capitalismo em Portugal (1850-1974), Lisboa, 
1975.

Mnica, M. Filomena: A Queda da Monarquia, Dom Quixote, 1987. Cabral, M. Villaverde: 
Portugal na Alvorada do Sculo XX, 2. ed., *Mtodos+, 1987. Histria Contempornea 
de Portugal, de autoria colectiva, publicado em fascculos, dir. por Joo Medina, 
Amigos do Livro, Lisboa.

Suevos, Ramon L.: Portugal no Quadro Peninsular, AGAL, 1987.

7. J POCA - POCA CONTEMPORNEA                                                     
   999

Perspectivas histrico-sociolgicas: Portugal Econmico: do Vintismo ao Sculo XX, n. 
> especial, 112-113, de *Anlise Social, 199 1; A Sociologia e a Sociedade Portuguesa 
na Viragem do Sculo, 2 vols., Associao Portuguesa de Sociologia, 1990; Santos, 
Boaventura de Sousa: 0 Estado e a Sociedade em Portugal (1974-1988), Afrontamento, 
1990.

As pectos da e voluo cultural portuguesa (artes plsticas, musicais e teatrais): 
vrios estudos insertos em Estrada Larga, 2, antologia do suplemento Cultura e Arte 
de
0 Comrcio do Porto, organizado por Costa Barreto, 1960; Cuesta, Pilar Vsquez: A 
Espanha e o Ultimatum, ed. Horizonte, 1975 (contm desenvolvido estudo das condies 
e

repercusses ideolgicas do Ultimato em toda a Pennsula); Frana, Jos Augusto: A 
Arte e a Sociedade Portuguesa no Sc. XX, Livros Horizonte, Lisboa, A Arte em 
Portugal no sculo XX, 2. > ed., Bertrand, 1986 e Breve Resenha de Cem Anos de Arte 
Portuguesa (1880-1980), in Estudos da Hist. de Port., vol. 11 - scs. XVI-XIX, em 
homenagem de H. de Oliveira Marques, Estampa, 1983, pp. 547-556. Martocq, Bernard: Le 
Pessimisme Portuguais (1890-1910), in *Arquivos do Centro Cultural Portugus+, vol. 
V, Fund. C. Gulbenkian, Paris, 1972, pp. 420-458, Centro Cultural Portugus, Paris 
1985. Serro, Joel: Temas Oitocentistas, H, 1962, reed. 1978 (ensaios sobre o 
ambiente fsico urbano e sobre traos ideolgicos do naturalismo finissecular, com 
incidncias sobre o sc. XX), Livros Horizonte, Lisboa.

Viso de conjunto nas relaes literrias portugueses do sc. XX:

Tentativa de um Panorama Coordenado da Literatura Portuguesa de 1901 a 1950, por 
Jorge de Sena, em Tetracrnio - Meio Sculo XX de Literatura Portuguesa, Lisboa,
1955.

Mendona, Fernando: A Literatura Portuguesa no Sc. XX, So Paulo, 1973. Antecedentes 
- Ferro, Tlio Ramires: Breves Notas sobre as Tendncias da Literatura Portuguesa no 
final do Sc. XIX, em Vrtice, n.",84, 89 e 99, Ag., Nov. e Dez.
1950; Ramos, Fidelino: Estudos de Literatura Contempornea, 4 vols., 1917-21-34; 
Ramos, Feliciano: Estudos de Histria da Literatura Portuguesa, 1958 (transio do 
sc. XIX para o sc. XX); Simes, Joo Gaspar: 59 Anos de Poesia Portuguesa: do 
simbolismo ao Surrealismo, Lisboa, 1967; Pereira, Jos Carios Seabra: Do Fim-do-
Sculo ao Tempo de Orfeu, Almedina, Coimbra, 1979. Belchior, Maria de Lourdes: Os 
Homens e


os Livros, li, Verbo, 1980 (sobre correntes literrias de 1890 a 1927); Moura, Vasco 
da Graa: Vrias Vozes, 1987. Um Sculo de Poesia, 1888-1988, amplo conjunto de 
estudos  >Assrio e Alvim, 1989; Ferreira, D. Mouro: Sob o Mesmo Tecto, Presena, 
1989, e Tpicos Recuperados, Caminho, 1992 (inclui estudos sobre M. Teixeira-Gomes, 
Raul Brando e A. Lopes Vieira).

Em A Arte e a Sociedade Portuguesa no sc. XX ed. Livros Horizonte, que resume a sua 
tese L'Art dans Ia Socit Portugaise au XX Sicle, 1963, Jos-Augusto Frana rene 
dados que tambm importam  literatura contempornea. Ver ainda Saraiva, Arnaldo: 
Encontros (Des) Encontros, 1973, e Simes, Joo Gaspar: Perspectiva Histrica da 
Poesia Portuguesa, Porto, 1976, Critica IV (artigos de entre 1942 e 1979), e Crtica 
V (sobre crticos e ensastas contemporneos), IN-CM, 1983. Le Roman Portugais 
Contemporain, Actes du Colloque, Centre Culturei Portugais, Paris, 1984.

Lopes, scar: Entre Fialho e Nemsio, 2 vols., 847 pgs., IN-CM, 1987.

1000                                               HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

H trs importantes inventrios-estudos sobre as revistas que interessam a esta parte 
em geral: uma est contida em Fernando Guimares, Simbolismo, Modernismo e 
Vanguardas, IN-CM, 1982; os outros so: Rocha, Clara: Revistas Literrias do Sculo 
XX em Portugal, IN-CM, 1986; e Pires, Daniel: Dicionrios das Revistas Literrias 
Portuguesas do Sculo XX, Contexto, 1986.

Antologias gerais:

Lricas Portuguesas, ed. Portuglia, 2. >, 3. > e 4. a sries, organizadas, 
respectivamente, por Cabral do Nascimento, Jorge de Sena (3. ed. em 2 vols., Edies 
70, 1983-84) e Antnio Ramos Rosa; antologia contida em Histria da Poesia Portuguesa 
do Sc. XX, de Joo Gaspar Simes; Os Melhores Contos Portugueses, ed. Portuglia, 3. 
> srie org. por Joo Pedro de Andrade; Antologia Potica, Porto Editora, 1974; 
Neves, Joo Alves das: Poetas Portugueses Modernos, So Paulo, 1967; A Semente nas 
Palavras, antologia dos contos, 2. > ed. aum., Centelha, Coimbra, 1977, org. de Jos 
Manuel Mendes; Edoi Lelia Doura, org. por Herberto Hlder, Assrio e Alvim, 1985 
(antologia muito pessoal da tradio de poesia vidente portuguesa).

Captulo II

NEO-ROMANTISMO E SIMBOLISMO-DECADENTISMO

POCA CONTEMPORNEA: Ressurgncias romnticas: o teatro e o romance histrico

Pelos fins do sculo XIX e primeiro quartel do sculo XX, por entre os fios de 
continuidade do naturalismo, que sero apontados, e certas influncias simbolistas, 
mais consonantes com as condies gerais europeias, assiste-

-se em Portugal a uma revivescncia do historicismo de recorte romntico

cuja extenso corresponde, sem dvida, a um certo tradicionalismo j em

decadncia na burguesia rural e ao que havia de vago, como que de sebastinico 
patriotismo, no esprito das camadas mdias urbanas, animado pelas perspectivas de um 
novo Brasil na expanso africana. 0 romance, a novela

e o drama histricos nunca, de resto, haviam perdido o favor pblico, como

vimos. No palco, A Morgadinha de Valflor (1869), de Pinheiro Chagas, com-

binando o sentimentalismo ultra-romntico, umas tintas de pretenso ambiente do sculo 
XVIII e a exaltao,  Jlio Dinis, dos valores da tradio rural, manteve-se anos e 
anos como um grande xito de cartaz. A voga do drama histrico em verso de Edmond 
Rostand (t 1918) viria reavivar esta velha tendncia. Entretanto a dramaturgia 
portuguesa original caa na imitao do teatro romntico e realista francs, em 
superficiais peas de tese como as de Antnio Enes (1848-1907), na comdia galante de 
Fernando Caldeira (1814-94), nas pardias de Francisco Palha (1826-90), nas revistas 
do ano. Mas a vinda de boas companhias teatrais estrangeiras, o desempenho de muitas 
das melhores criaes de repertrio internacional formaram uma notvel escola de 
actores (Eduardo Braso, os irmos Rosa, Rosa Damasceno, Chaby Pinheiro,

1002                                       HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

etc.), possibilitando deste modo um ltimo florescimento digno de nota do nosso 
teatro.

 em grande parte a Henrque Lopes de Mendona (1856-193 1) que se

deve a animao do hstoricismo sob as formas, ento predilectas, de drama 
pretensioso e declamatrio em verso (0 Duque de Viscu, 1886, A Morta,
1891, etc.), e de novela herica, como os folhetins reunidos desde 1920 nos oito 
volumes de Cenas de vida herica. Marcelino Mesquita (1856-1919) principiou a sua 
operosa carreira de dramaturgo com o primeiro dos seus

oratrios dramas em verso, Leonor Teles (1889), a que se seguem, entre outros, 0 
Regente (1897) e Peraltas e Scias (1899). 0 mais notvel escritor teatral desta 
corrente foi, porm, D. Joo da Cmara (1852-1907), cuj os

dramas histricos, como Afonso VI (1890) e Alccer Quibir (189 1), apresentam uma 
maior densidade de contedo social e psicolgico. Os dois lti~ mos autores 
cultivaram o romance histrico. Jlio Dantas (n. 1876-1962) aligeira e academiza, 
posteriormente, o drama e a novela de ambiente histrico, que na sua pena alternam 
com a crnica frvola e mundana, num estilo de influncia queirosiana (A Severa, 
romance e drama, 190 1, filme em 193 1; A Ceia dos Cardeais, 1902, obra que teve um 
enorme xito, 48. a edio
1962; Ptria Portuguesa, 1914, 9 edies at 1962; 0 Amor em Portugal no sculo 
XVIII, 1915, etc.); o seu melhor teatro , contudo, naturalista (Pao de Veiros, 
1903, 0 Reposteiro Verde, 1912).

Entre os numerosos cultores da literatura historicista destaquemos ainda: Carlos 
Malheiro Dias (1875-194 1), com Os Teles de Albergaria, 190 1, Paixo de Maria do 
Cu, 1902, e o drama 0 Grande Cagliostro, 1905, obras com notao de ambiente 
histrico notavelmente preciso, mas pobres sob os outros pontos de vista (r. pstumo, 
Amor de Mulher, 1987, reed. 199 1); o conde de Sabugosa (1854-1923), autor de 
Embrechados, 1908, Donas dos Tempos Idos, 1912, Neves de Antanho, 1919, livros onde 
paira a saudade das grandes pocas ulicas e aristocrticas; Antero de Figueiredo (n.
1866.11.2 8 - t 1953.04, 10), com D. Pedro e D. Ins, 1913, Leonor Teles,
1916, D. Sebastio, 1925. No teatro deixaram, entre outros, a sua contribuio 
historicista Rui Chianca (1891-193 1; Aljubarrota, 1913) e Jaime Cor~ teso, que, 
antes de distinguir-se corno historiador, produziu dois dramas histricos em verso, 0 
Innte de Sagres, 1916, e Egas Moniz, 1919.

Henrique Lopes de Mendona, Marcelino Mesquita. D. Joo da Cmara e Jlio Dantas 
cultivaram tatribm a comdia de costumes. a pea naturalista ou o drama de con-

7. - POCA - POCA CONTEMPORNEA                                                     
   1003

flito moral, podendo distinguir-se, em tais gneros, Dor Suprema (1895) e Envelhecer 
(1909) de M. Mesquita, e sobretudo Os Velhos (1893) e A Triste Viuvinha (1895), peas 
de D. Joo da Cmara que, pelo recorte de tipos e ambientes da burguesia rural, so o 
melhor equivalente cnico do realismo  Jlio Dinis. Tambm todos eles colaboraram no 
esforo, seu contemporneo, de criao do teatro lrico portugus. Lopes de Mendona 
 autor dos libretos das operetas Tio Negro e Serrana, musicados, respectivamente, 
por Augusto Machado e Alfredo Keil (que comps o hino nacional sobre a letra de Lopes 
de Mendona); D. Joo da Cmara, alm do libreto para uma opereta de Filipe Duarte, 
escreveu com o humorista Gervsio Lobato (1850-95) os libretos de vrias das operetas 
de Ciraco de Cardoso, como 0 Burro de Sr. Alcaide (189 1) e Solar dos Barri-

gas (1892). Todos estes escritores colaboraram ainda em revistas do ano, gnero 
ligeiro mas ento cheio de vivacidade satrica, ao lado de Eduardo Schwalbach (1860-
1946), do humorista Andr Brun (1881-1926) e de outros.

Salientemos, por fim, que D. Joo da Cmara foi o introdutor da dramaturgia 
simbolista, segundo a evoluo que Maeterlinck imprimira a certas facetas metafsicas 
do

naturalismo de Ibsen, com 0 Pntano (1894) e Meia-Noite (1900), peas dominadas por 
uma sugesto de mistrio indeterminado. Raul Brando, personalidade que trataremos  
parte, pode considerar-se, depois de D. Joo da Cmara, o nosso mais interessante 
dramaturgo bafejado por influncias simbolistas. Estas ainda se fazem sentir na 
orientao de certas tentativas que, esporadicamente, se realizaram para reabilitar o 
teatro portugus. No entanto, as correntes dominantes, atravs do escasso fio que nas 
dcadas seguintes mantm o teatro original portugus, so a comdia de costumes, o 
naturalismo e o regionalismo, de Alfredo Corts (1880-1946: Lodo, 1923; T@ Mar, 1936, 
etc.; contudo em

Gladiadores, 1934, o naturalismo cede lugar a um tratamento expressionista dos 
conflitos), J. J. Coelho de Carvalho (1855-1934), Vasco de Mendona Alves (1883-
1962), Carlos Selvagem (pseud. de Carlos Tavares A. Afonso dos Santos, 1890-1973), 
Samuel Maia (1874-195 1), Ramada Curto, Virgnia Vitorino, Vitoriano Braga (1888-
1940), e outros.

Entre os que posteriormente procuraram imprimir ao teatro portugus uma orientao 
realista de estrutura mais imaginativa contam-se, como veremos, Joo Pedro de 
Andrade, Lus-Francisco Rebelo e Romeu Correia. Adiante nos referiremos a autores que 
cultivaram o teatro  margem de outros gneros ou que rompem de todo com esta 
tradio realista.

POCA CONTEMPORNEA: Outras correntes nacionalistas


Como adiante veremos, o simbolismo e derivantes constituem, entre ns, durante muito 
tempo, uma corrente importada e pouco definida, com projeco social bastante tardia, 
que s se verifica quando, ao longo da dcada de 30, aflora na conscincia do pblico 
leitor um sentimento modernista de crise. Os temas do sonho evasivo, da intuio 
vidente, da mstica oculta, bem como

1004                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

os respectivos textos cheios de smbolos multivalentes e de sinestesias tenderam, 
entre ns, a diluir-se em historicismo, em pitoresco regional, em
moralismo discursivo, em propsitos educativos, num nacionalismo mais ou menos 
sebastianista, num idealismo pronunciadamente religioso, embora com

frequentes veleidades heterodoxas. Esta sobrevivncia das tendncias romnticas 
atravs de uma poca j bafejada pelo simbolismo-decadentismo euro-

peu condiz, sem dvida, com uma sociedade ainda muito predominantemente agrria, 
comercial e burocrtica, com o seu sector industrial em grande parte atrasado e 
condicionado ao capital estrangeiro. Ressalve-se que estas con-

dies no obstaram, cerca da Primeira Guerra Mundial, ao surto de tendncias 
literrias no s actuais mas at originais dentro do panorama europeu.

A proclamao da Repblica em 1910, que afinal est na linha de continuidade do 
romantismo setembrista de 1836, ocorre no meio da bifurcao do neo-romantismo 
academizante do princpio do sculo em dois veios que ento correspondem 
ideologicamente, nas suas grandes linhas,  diviso entre monrquicos e republicanos 
e, nas suas leituras francesas, queles que se

haviam situado de um modo reaccionrio ou de um modo progressista na

clebre Questo Dreyfus. Tal bifurcao, alis flutuante em diversos casos 
individuais, origina, por um lado, as correntes designadas como neogarrettismo, 
lusitanismo, nacionalismo, integralismo, e que aqui agruparemos sob a designao de 
passadistas; e por outro lado a Renascena Portuguesa e

o saudosismo. Importa, contudo, relevar a poesia de Antnio Nobre, que, embora 
largamente influente, no cabe de todo em tais moldes; e, por outro lado, certas 
tendncias e personalidades que se salientaram na Renascena Portuguesa e nas 
correntes republicanas por um pendor mais acentuadamente racionalista, agnstico ou 
progressista, por vezes ligado com um sentido mais realista e terrants.

As correntes tradicionalistas tm um dos seus pontos de partida na fase descendente e 
final do mpeto crtico e reformador da gerao realista. Por isso houve entre eles 
to grandes admiradores de Ea e de Ramalho, embora ambos estes ironizassem o ar 
livresco de tais correntes. Outros pontos de partida residem na abundante literatura 
historicista do sculo XIX e sua sequncia que atrs estudmos, e no amplo movimento 
de investigaes etnogrficas, lingusticas, histrico-literrias, de Adolfo Coelho, 
Tefilo Braga, Martins

7. >POCA - POCA CONTEMPORNEA                                             1005

Sarmento, Jos Leite de Vasconcelos, Joaquim de Vasconcelos, etc. 0 tradicionalismo 
reflecte-se, por vezes, no gosto literrio sob a forma de zelo purista e de culto 
quase meramente formal dos clssicos do idioma, em que particularmente se distinguiu 
Agostinho de Campos (1870-1944), pedagogo, articulista e orientador de uma influente 
Antologia Portuguesa (24 volumes).

Alberto de Oliveira (1873-1940), que se estreou com as suas Poesias (1891), foi o 
primeiro doutrinrio do tradicionalismo literrio folclorista, alis fundido com a 
apologia da bomia dandy ou estudantil coimbr e com certas tintas decadentistas, 
lanando um prego de neogarrettismo antijacohino e anti-racionalista com as Palavras 
Loucas, editadas em 1894, e as Cartas da ltima Hora, publicadas j dois anos antes, 
na Revista de Portugal de Ea. 0 neogarrettismo pode, no fundo, considerar-se como 
uma teorizao inspirada pela poesia de Antnio Nobre, que focaremos adiante.

Afonso Lopes Vieira (1878-1947), um dos melhores poetas tradicionalistas, revaloriza 
alguns temas romnticos da histria e do lirismo portugus com uma estilstica e uma 
versificao cuidadas em que certos toques simbolistas se assimilam ao gosto da 
simplicidade popular e infantil (Os Versos, 1897-1921, edio global completa por 
Onde a Terra se acaba e o Mar comea, 1940); entre vrias campanhas a favor das 
tradies literrias e artsticas portuguesas, tentou rejuvenescer, traduzindo-os e 
adaptando-os, os textos

do Amadis, da Diana de Montemor, do Cd e-de vrias peas vicentinas. Do saudosismo, 
com que Lopes Vieira teve contactos, passaram para uma

corrente mais acentuadamente nacionalista conservadora os poetas Antnio Correia de 
Oliveira (1879-1960), autor de umas Tentaes de S. Frei Gil, 1907, de meditao 
religiosa sobre a gnese csmica e humana, na linha anteriana-junqueiriana, mas cujo 
lirismo rural  dominante desde
1897, salientando-se o ciclo A Minha Terra (1915-17), e Mrio Beiro (n. 1892 - t 
1965-02-19), em que a evolu o referida se consuma desde
0 ltimo Lusada, 1913, at Novas Estrelas (1940) e Mar de Cristo (1957).

A Revista de Histria, 1912-28, constitui em dada fase o centro da reviso histrica 
antijacobina, destacando-se, entre os seus colaboradores, Lcio de Azevedo (1855-
1933), especialista dos scs. XVII e XVIII, em Jesutas no Gro-Par, 190 1, 0 
Marqus de Pombal e a sua poca, 1909, Histria de Antnio Vieira, 1918-20, Evoluo 
do Sebastianismo, 1918, ete., e da histria econmica, em pocas de Portugal 
Econmico, 1929, 4.1 ed. 1978,

1006                                       HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

que alis abriu uma perspectiva economicista  historiografia; Fortunato de Almeida 
(1859-1933), autor de uma erudita Histria da Igreja em Portugal,
6 volumes, 1922-29; e Fidelino de Figueiredo (1889-07-20 - t 1967-03-20), que ento 
representava uma reaco contra Tefilo Braga no domnio da

histria da literatura portuguesa, e que ao par de uma notvel carreira internacional 
de professor produziria uma importante e diversificada obra de investigao e de 
ensaio, em que salientaremos, alm de monozrafias j oportunamente referidas: vols. 
de Histria da Literatura Romntica, 1913, da Literatura Realista, 1914, e da 
Literatura Clssica, 1917-24, portuguesas; Pirene, 1935, de literatura comparada 
luso-espanhola, Um Coleccionar de Angstias, 1950. Certos historigrafos posteriores 
assumem uma atitude polemicamente antidernocrtica, caso de Alfredo Pimenta (1882-
1950), Caetano Beiro (n. 1892: D. Maria 1, 1934), e outros, que procederam 
reabilitao de figuras e instituies tidas como antidemocrticas.

0 ncleo mais definido de escritores tradicionalistas est ligado ao Integralismo 
Lusitano, surgido entre monrquicos emigrados na Blgica (Alma Portuguesa, 1913), que 
teve como rgo desde 1914 Nao Portuguesa, e

ganhou notoriedade em 1916, ano em que publicou uma srie de conferncias sobre A 
Questo Ibrica. Distinguiu-se, entre os seus mentores, Antnio Sardinha (1887-1925), 
que, alm de doutrinrio (Feira dos Mitos, 1926; Purgatrio das Ideias, 1929), foi 
tambm poeta (Epopeia da Plancie, 1915, reedio 1960; Na Corte da Saudade, 1922, 
Chuva da Tarde, 1923; Ao Ritmo da Ampulheta, 1925, reedio 1978). Mencionemos ainda 
Hiplito Raposo (1885-1953, autor de Boa Gente, contos, 1911, e 0 Bero, drama da 
Serra,
1928, obras que melhor acreditam o regionalismo de que foi doutrinrio); Alberto de 
Monsaraz, 2. conde (1889-1959), poeta, como o pai; e Lus Almeida Braga (n. 1886-11-
20 - t 1970-03-02), que escreveu Po Alheio,
1916, Paixo, Graa da Terra, 1932.

Pela sua ideologia integralista, pode aqui situar-se, embora seja de uma

gerao posterior, o malogrado Guilherme de Faria (1907-28), poeta de um

passadismo nocturno, elegaco e doce que s se realiza em dilogo com a

morte e que, formalmente, conjuga ainda ressaibos da velha lrica da medida velha 
corts com um -vontade e uma fluncia rtmica mais modernas (Saudade Minha, 1929, 
poesias escolhidas entre as que vinham sendo editadas desde 1921).

7. a pOCA - pOCA CONTEMpORNEA                                           1007

POCA CONTEMPORNEA: Continuidade romntica-decadente

A arrumao dos escritores por grupos, escolas ou concepes de vida  um simples 
mtodo de exposio ou iniciao pedaggica, e no nos deve fazer esquecer a 
multiplicidade e fluncia concretas das personalidades e das obras literrias. Isso 
verifica-se particularmente com certa poesia lrica em

que, no s se d uma complexa combinao de tendncias, como uma evo-

luo mais lenta e profunda. Por outro lado, o pequeno flego e insuficiente 
caracterizao pessoal de certas obras lricas tornou o favor do pblico para com os 
autores muito dependente de simples factores meramente biogrficos ou acidentais. 
Assim  que Hamilton de Arajo (1867-88), Jos Duro (1875-99), Bernardo de Passos 
(1876-1930), Fausto Guedes Teixeira (1871-1940; reunio dos principais poemas em 0 
Meu Livro, 1908, reed.
2 volumes 1941-42) tiveram o seu momento de nomeada, embora no passem de exemplos de 
sobrevivncia romntica onde mal afloram traos de Junqueiro, Cesrio e fin-de-
scle. Cndido Guerreiro (1871-1954) inseriu-se analogamente num renovo parnasiano 
esteticista que veremos servir de ressaca ao nosso simbolismo-decadentismo inicial, 
singularzando-o apenas pelo pitoresco algarvio. J em Queirs Ribeiro (1860-1928), 
sonetista como o anterior, existe uma insistncia mais individualizadamente potica 
no tema

de *s  eterno o que no pode ser+ (Pedras Falsas, 1903). Joaquim Nunes Claro (1878-
1949) apresenta caractersticas semelhantes: predileco pelo soneto (A Cinza das 
Horas, 1928) e inquestionvel personalidade, marcada, no pela expresso rtmica, mas 
por um tema comunicativamente expresso, o tema de que a verdade dos sentimentos 
amorosos passa de uma para outra alma e gerao, dos seres naturais para as pessoas, 
esboando-se aqui, consumando-se alm, incoercvel e at incoincidente em cada par de 
enamorados.

Florbela Espanca (n. Vila Viosa, 1895-12-08 - t 1930-12-08), tambm sonetista com 
laivos parnasianos esteticistas,  uma das mais notveis personalidades lricas 
isoladas, pela intensidade de um emotivo erotismo feminino, sem precedentes entre 
ns, com tonalidades ora egotistas ora de uma sublimada abnegao reminiscente da de 
Sror Mariana, ora de uma expanso pantesta que se vai casar com a ardncia da 
charneca natal. A sua obra principiou a ser editada em 1919 (Livro das Mgoas); em 
1978 tinham sado
23 edies dos Sonetos Completos, alm de contos algo decadentes; pre-

1008                                         HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

cede, portanto, de longe e estimula um mais recente movimento de emancipao 
literria da mulher, exprimindo nos seus acentos mais patticos a imensa frustrao 
feminina (e afinal tambm masculina), das nossas opressivas tradies patriarcais.

ANTNIO NOBRE

A obra deste poeta (ri. Porto, 1867-08-16 - t 1900-03-18) est reunida nos volumes S 
(1892, reedio revista 1898, 21.1 edio 1989), Despedidas (1902), Primeiros Versos 
(192 1), Alicerces (1983). Influenciado de incio por Junqueiro e, mais tarde, pelo 
simbolismo francs, que apreendeu no seu curso coimbro e sobretudo em Paris, onde 
concluiu a formatura em Direito, A. Nobre traz para a poesia o Portugal provinciano 
nortenho, que os seus tdios escolares, o seu exlio parisiense, o seu egotismo 
doentio fizeram aderir  sua prpria personalidade inadaptvel, s suas saudades da 
infncia numa burguesia rural nortenha, saudosista e com pretenses aristocrticas, 
solarengas. Do decadentismo de Laforgue aproveitou Nobre certas liberdades de 
versificao e linguagem: um tom de conversa ou dirio ntimo; o contraponto da 
ternura com o humorismo, da religiosidade com o diletantismo.

Toda a sua renovao lrica, comparvel  que Cesrio fez para expresso do seu 
burguesismo lisboeta, se funda em querer ver o mundo com olhos infantis e 
ingenuamente populares. Falhado o seu destino de doutor, descriraizado num meio 
social em estagnao (*Que desgraa, nascer em Portugal!+, generaliza ele), a  nsia 
de Nobre seria, em parte, a de encher o seu

ser anmico do sangue vermelho (*Febre Vermelha+), da vida colorida e dramtica dos 
camponeses e pescadores, do canto das *suaves e frescas raparigas+ populares. *Pobre 
Lusada, coitado+, o mundo familiar e provinciano de Garrett e Jlio Dinis , para 
ele, uma saudade j sem iluses optimistas: o poeta embala-se no pitoresco das 
romarias, dos topnimos evocativos, da ortografia errada dos barcos, dos preges; 
embala-se na linguagem da gente simples, na sua mitologia ingnua, nas suas aluses 
de lenda e romanceiro. Tal poesia assimila todo o prosaico do romance autobiogrfico 
de um narcisista que se sente exilado, quer no espao, quer no tempo, e que traduz o

seu enguio, o seu fadrio, na crendice folclrica da infncia. 0 mistrio simbolista 
ronda a vida popular, no em certa policromia soalheira, mas no

calvrio das suas dores, das suas misrias, mortes, gangrenas de pedintes,

7. - POCA - POCA CONTEMPORNEA                                          1009

enterros de anjnhos, arrolar de nufragos. , com muito mais arte, e sobretudo muito 
mais vivida e personalizada, a metafisica da dor de Os Simples, que depois se 
adensar em Raul Brando. Quando se pe a sonhar o seu noivado provinciano com a 
Purinha, Nobre exprime muito mais do que a

sua permanente obsesso da morte pessoal: esta obsesso no seria to forte se ele 
sentisse que o seu mundo lhe sobreviveria muito. 0 caso  que Nobre descobre bem mais 
vivamente que os panfletrios a tragdia do seu povo, mas com a simpatia agnica e, 
apesar disso, diletante do seu prprio mundo, que ele sentia desmantelar-se.

Esta simpatia relaciona-se claramente com a contribuio que Nobre traz para certa 
vivificao da poesia portuguesa. Ao lado de Gomes Leal e Ces-

rio,  um dos poetas mais renovadores do sculo XIX por ter libertado a linguagem e a 
imaginao das convenes de um estilo que se pretendia simultaneamente potico e 
elevado, graas a certos ornatos e limitaes de tom j atrs verificados em Antero 
ou Junqueiro, por exemplo. Em Nobre, como

em Cesrio, a linguagem potica assimila a viveza coloquial, mais citadina neste, 
mais provinciana e emocional naquele. Nisto lembra um Joo de Deus
mais variado na paleta de imagens, mas um Joo de Deus desdobrado que contemplasse 
com ironia amarga a sua prpria e perdida candura.

fflTEIXEIRA DE PASCOAIS e a evoluo do Saudosismo

A designao de Saudosismo pertence, em sentido restrito e corrente, a um movimento 
esttico e doutrinrio inspirado por Teixeira de Pascoais (ri. 1877-11-02 - t 1952-
12-14). Embora nalguns dos seus poemas aflore o simbolismo, o saudosismo deve 
considerar-se sobretudo como um desen-

volvimento do misticismo pantesta que se acentua na fase final da Gerao de 70. Tal 
como, contemporaneamente, Gomes Leal ou Raul Brando, no terreno de expresso 
literria, e Jos Pereira Sampaio (Bruno), 1857-1915 - o

erudito cujo positivismo cientista se assimilou a um certo profetismo paritesta -, 
no terreno da doutrinao filosfica, Pascoais parte da formulao metafisica do 
problema do mal e da dor; tal como Oliveira Martins, como Junqueiro na Ptria e como 
Antnio Nobre, parte de um sentimento de frustrao ptria que foi agravado pelo 
Ultimato. A sua soluo consistiu

HLP - 64

1010                                       HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

em, como o Antero dos anos de 1880, transmudar em sentido vagamente pantesta e 
espiritualista o transformismo csmico-geolgico-biolgico e a

ideia do progresso, em elevar a apologia de saudade, j tradicional no lirismo

portugus, s propores de uma intuio da *Raa Lusitana+, intuio de uma essencia 
espiritual a que a humanidade tenderia, atravs da sua marcha

histrica, e que justificaria uma Igreja Lusitana, desta, ou animista-pantesta - 
uma das vrias propostas de religio no-catlica que obceca muitos republicanos de 
ento (Sampaio Bruno, Joo de Barros, Jaime Cortes o, Aquilino Ribeiro, etc.).  
maneira de Gomes Leal e de Junqueiro (cuja Orao  Luz, 1904, F. Pessoa considerar 
<@obra mxima+ da poesia de tipo saudosista), tambm Pascoais se deixa influenciar 
pelos divulgadores da cincia de propenso idealista; e tenta ele prprio um tipo de 
biografia histrica inteiramente dominada pela personificao de valores metafisicos, 
cujo primeiro e melhor espcime  S. Paulo (1934).

A comunicabilidade da obra de Pascoais est limitada pela pretenso de atingir uma 
profunda vidncia atravs de meras extrapolaes analgicas, por abstractas 
coincidncias de opostos (Cu/Terra, Deus/Demnio, Jesus/Pan, Vnus/Virgem Maria, 
matria/esprito), por um certo provincianismo ainda romntico, onde a persistente 
admirao por Hugo e Michelet se mescla, heterogeneamente, de traos simbolistas, 
toIstoianos ou bergsonianos. No entanto, subsiste nalguns dos seu livros certo 
flego, certa largueza de concepo do romantismo progressista (Sempre, 1898; Vida 
Etrea, 1906; Regresso ao Paraso, 1912); e no seu lirismo, monotonamente elegaco e 
sombrio, h, em compensao, uma sensibilidade vibrtil que alarga os seus motivos de 
interesse para fora do vulgar mbito pessoalista e er-

tico: h como que um sentido franciscano de companheirismo que abrange mulheres, 
homens, smbolos, bichos, animiza rvores, pedras, o Maro, o Tmega e a prpria 
morte (Senhora da Noite, 1909; Marnus 1911; 0 Doido e a Morte, 1912; Elegia do Amor, 
1924, etc.). Sob orientao de Jacinto do Prado Coelho editou-se desde 1965 o 
conjunto de Obras, em 6 volumes, que regista muitos dos retoques ou refundies do 
autor. Publicao pstuma mais recente: Uma Fbula - 0 Advogado e o Poeta, 1978.

Proclamada a Repblica, Teixeira de Pascoais, que ligara a sua esttica

a uma utpica posio religiosa e poltica, congregou em torno da revista A guia (5 
sries, 1910-32) e da sociedade portuense Renascena Portu-

7. a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                             1011

guesa um grupo de intelectuais, de que vieram a distinguir-se o pintor Antnio 
Carneiro, o poeta e dramaturgo Jaime Corteso, que se tornaria depois um historiador 
de tomo, o filsofo Leonardo Coimbra, os poetas Augusto Casimiro, Antnio Correia de 
Oliveira, Mrio Beiro (estes dois j atrs referidos ) e Afonso Duarte (1884-01 -01 
- t 1958-03-05). 0 ltimo acompanharia em Coimbra sucessivas geraes de poetas, 
salientando-se, a partir de Ossadas (1947), como um dos melhores lricos actuais pela 
contenso descamada com que d, no drama de uma velhice, todo o drama de uma gerao 
arnordaada (Obra Potica, 1956, reedio em Obras Completas 1, 1974);

os seus primeiros livros, afins do neo-romantismo saudosista, de resto tocados por 
certa tradio buclica medievo-renascentista, foram reunidos em

Os 7 Poemas Lricos, 1929; os seus volumes editados nos anos 50 inscrevem-se numa 
tradio aforstica popular-bandarrista-vicentina e do Cames de Sobre os rios que 
vo.--- e apresentam modulaes do inicial pantesmo para um certo -vontade 
prosaico, para uma certa religiosidade apocalptica, mas

numa constante fidelidade  materialidade ptrea ou ssea que sentiremos repercutir, 
tanto no Vitorino Nem sio, como no Carlos de Oliveira finais.

Nas suas ltimas sries, A guia esteve estreitamente ligada , depois extinta, 
Faculdade de Letras do Porto dos anos 20. A poesia saudosista caiu numa banalidade 
nebulosa, reticente e interjeccional, onde subsiste certo lxico de sabor romntico, 
com frequentes maisculas'ao gosto de Antero (Dor, Noite, Saudade, Sonho, Alm, 
Distncia, Sombra, Outono, Mistrio, Exlio Nvoa, Abismo), adjectivos como triste, 
exttico, ctreo, mstico, e o

uso metafrico-pantesta de referncias rituais crists (rezar, ajoelhar, comun-

gar, uno ... ). Pascoais tem alis observaes interessantes sobre a expressividade 
de certas palavras do Portugus (remoto, ermo, sozinho, errar, nevoeiro ... ), embora 
v at ao ponto de se bater por uma ortografia implausvel (lagryma, lyrio, peccado, 
cuja consoante dupla exprimiria o inerente *enigma penal+, etc.). Alguns dos melhores 
saudosistas enveredaram depois pela investigao, por outros gneros literrios ou 
por formas diversas de regionalismo, tradicionalismo ou lirismo pessoal. No entanto, 
alm de con-

ter o ncleo de uma sensibilidade muito esparsa no primeiro quartel do sculo, o 
saudosismo pascoalino  muito (e nem sempre polemicamente) sensvel em F. Pessoa, que 
foi alis seu teorizador em A guia, e nos presencistas; a sua aforstica paradoxal 
entusiasmou os surrealistas, ressurge em Bessa-

1012                                              HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

-Lus, e veremos como certos poetas *metafsicos+ dos anos 60 asseguram uma 
continuidade, embora desromantizada, da religiosidade de Pascoais.

Gerao da Repblica

Quando em 1910 se proclamou a Repblica, quase todas as principais personalidades da 
grande gerao realista tinham desaparecido: Antero, Ea e Oliveira Martins nem mesmo 
desde h dez ou mais anos se contavam entre os vivos. E, como sabemos, entre os 
autores surgidos por altura do Ultimato e ainda depois de dobrado o sculo, corriam 
variantes de um mesmo neo-romantismo historicista, etnografista, sentimental e 
oratrio, com pequenos afluentes, aqui e alm, de naturalismo francs ou russo, de 
simbolismo, de esteticismo, e, doutrinariamente, de positivismo e do amoralismo 
nietzschiano.  de entre estas tendncias que, sob o estmulo da mudana de regime, 
tenta a pouco e pouco irromper uma nova concepo dirigente e uma nova representao 
literria da realidade portuguesa. Mas a dificuldade que os intelectuais 
republicanos, predominantemente originria da mdia burguesia provinciana, 
encontraram em definir uma atitude coerente prpria pode verificar-se, quer na 
descoordenao entre a dualidade poltica e

as correntes mencionadas, quer na falta de originalidade e flego de duas e opostas 
inspiraes filosficas: o positivismo, e um certo transcendentalismo (ou pantesmo?) 
ostensivamente heterodoxo, cuja principal cristalizao se encontra, j vimos, em 
Sampaio Bruno e que, aparentemente, se estende a Junqueiro, Pascoais, Raul Brando, 
Leonardo Coimbra (mais tarde, a seus discpulos) e ainda influencia Fernando Pessoa. 
A instabili~ dade de todo este conglomerado doutrinrio e esttico verificar-se- 
sobretudo quando as condies reais vierem extremar as atitudes. Mas j as Cartas e o 
Dirio ntimo de Manuel Laranjeira (1877-1912), respectivamente editados em 1943 
(reed. aum. inclusa em M. Laranjeira et son Temps (1877-1912), de B. Martocq, 1985, 
pp. 630-673) e 1957 (reed. corr_ s/d, alis 1987, e 199 1; Prosas Dispersas, 199 1; 
Cartas, reed. 1990), reve~

Iam um profundo sentimento de cepticismo e tdio, ou desalento, num fogoso 
intelectual republicano mas imbudo de darwinismo social e de um rifilismo algo 
nietzschiano, cuja misoginia, alis dom-juanesca, no impede de deixar nesse Dirio 
uma admirvel figura feminina, de recorte quase camiliano. Unamuno, amigo de 
Laranjeira, que conhecia a

nossa vida intelectual, mostrou-se ento impressionado pela psicose suicida de muitas 
das melhores personalidades portuguesas nos anos prximos do virar do sculo 
(Portugal

es un pueblo de suicidas, tal vez un pueblo suicida).

Tal instabilidade liga-se com as prprias condies bsicas em que veio a implantar-

-se o novo regime, pois, apesar da incontestvel popularidade de que durante muitos 
anos

se rodeou a propaganda e a defesa da Repblica, o desiderato de um sistema 
parlamentar no conseguiu consolidar-se e, atravs das dificuldades agravadas pela 
participao na

guerra de 1914-18, o seu mais efectivo papel, sob o ponto de vista econmico- social, 
foi o de continuar duas tendncias pouco anteriores: a tendncia para um constante, 
embora

7. - POCA - POCA CONTEMPORNEA                                                     
  1013

lento, desenvolvimento do capital industrial e a tendncia para assentar o domnio 
colonial. Pelos seus reflexos na vida intelectual, deve salientar-se a importncia da 
reforma universitria de 1911, completada, no decnio de 1920, com a criao da 
primeira e efmera Faculdade de Letras do Porto.

Entre os agrupamentos intelectuais precursores da Repblica salienta-se o que 
publicou em 1907 os cinco nmeros de Nova Silva, organizou em 1908 os *Amigos do A. 
B. C.+ e em 1910 iniciou a publicao de A guia (Jaime Corteso, lvaro Pinto, 
Leonardo Coimbra, Cludio Basto). Em 1912, na continuidade e expanso desse grupo, 
inicialmente anarquista, surgiu a Renascena Portuguesa. Surge ento a segunda srie 
de A guia (20 vols. at 1921) j ligada a esse movimento, que tambm tem como rgo 
o quinzenrio Vida Portuguesa (39 ri.@, 1912-1915). Da parte a iniciativa das 
Univer-

sidades Populares, que se propagam do Porto e Coimbra a outros centros provincianos, 
e uma considervel actividade editorial. 0 grupo da Renascena Portuguesa distinguiu-
se entre os que propugnaram a interveno de Portugal na guerra de 1914-18, pelo que 
no admira que ela viesse a editar os principais livros de memrias dos seus 
combaten-

tes. Destaquemos entre eles as Memrias da Grande Guerra, 1919, de Jaime Corteso, 
Nas Trincheiras da Elandres, 1918, de Augusto Casimiro, e Ao Parapeito, 1919, 3.1 ed. 
1924, depois traduzido para francs, de Pina de Morais (1889-1953), que viria a 
tornar-

-se um contista pattico, embora algo prolixo, da regio duriense (Sangue Plebeu, 
1942).

A guia continuou, embora irregularmente (3. > srie, 60 ri. 0 1922-27; 4. a srie,
12 ri.<@ 1928-30; e 3 ri.@ do 20. ano, 1932) podendo alis considerar-se como seu 
prolongamento desde 1928 a Portucale, que partilhou da sua sede e em cuja editorial 
anexa se integraram as suas publicaes; uma dissidncia originou a rev. Prometeu, 
1947-52. A guia pde reunir o intuicionismo aforstico de Pascoais, o influente 
filsofo Leonardo Coimbra, os tradicionalismos provincianos de Mrio Beiro e Correia 
de Oliveira ou, mais estetizantes, de Lopes Vieira, Vila Moura e Veiga Simes, a 
orientao j ento bem mais iconoclasta de S-Carneiro e Fernando Pessoa, e, entre 
outras tendncias ainda, um senso mais prtico das realidades sociais portuguesas por 
parte de certos outros colaboradores.

Entre estes ltimos viria a sobressair Antnio Srgio (ri. Damo, 1883-09-03

1968-01-24), que polemizando j em 1913-14 no interior da Renascena Portuguesa por 
no aceitar o nebuloso pensamento saudosista apregoado por Pascoais em nome do grupo, 
fundou e dirigiu a revista Pela Grei (1918) e em 1920 reuniu o primeiro volume dos 
Ensaios (8 vols. em 1958, reed. crticas 1971-74). Antnio Srgio pode considerar-se 
o mais importante ensasta portugus do seu tempo. Vrias polmicas em que tomou 
parte principal balizam a evoluo ideolgica dos decnios 10 a 60, nomeadamente 
aquelas em que tomou posio contra o saudosismo como programa nacional (1912-14), 
contra a demagogia na stira junqueiriana, contra a interpretao cruzadista da 
tomada de Ceuta (1920), con-

tra o culto sentimentalista e retrgrado de D. Sebastio (1924-25), contra o 
intuicionismo

1014                                                 HISTRIA DA LITERATURA 
PORTUGUESA

de Bergson e Leonardo Coimbra (1924-25). e contra a divulgao incrtica do 
positivismo lgico (1937), embora no deixem tambm de ser significativas outras 
polmicas, desde
1937, contra marxistas (J. Amara] Nogueira, A. J. Saraiva), de que alis fora 
precursor. Ensasta por excelncia, no sentido de que os problemas lhe interessam 
principalmente como exerccio comunicativamente pedaggico de uma atitude racional 
criadora, a educao escolar e cvica cooperativista foi uma das suas preocupaes 
dominantes.  historiografia contempornea o seu ensasmo trouxe uma meditao 
actualizada dos problemas tradicionais portugueses, na sequncia de Herculano, 
Marreca, Henriques Nogueira, Antero, Oliveira Martins, Silva Cordeiro, Basilio Teles; 
e uma srie de tentames de inter-

pretao sociolgica ou socioeconmica de acontecimentos e pocas histricas 
nacionais, que estimularam historiadores da categoria de Lcio de Azevedo, Jaime 
Corteso, e se

podem considerar inspiradores imediatos da melhor historiografia contempornea. Em 
teoria do conhecimento, o racionalsmo idealista de Antnio Srgio fez frente a vagas 
sucessivas de empirismo e de intuicionismo, insistindo sempre na inventividade 
dinmica do esprito humano perante quaisquer dados aparentemente imediatos, e no 
carcter, no apenas terico, mas tambm prtico (e sempre activo) dessa mediao 
entre ns e a reali-

dade de ns independente. Todavia, apesar do aspecto sociolgico do seu ensasmo 
histrico, pretendia ligar tal mediao mais  psique individual do que  dinmica e 
interac-

o social. Na crtica e histria literria, a sua influncia, tambm ao arrepio das 
correntes prevalecentes at cerca de 1940, exerceu-se atravs de anlises 
racionalistas e por vezes histrico-sociolgicas da obra de Cames, Antnio Vieira, 
Tolentino, Herculano, Camilo, Ea, Antero, Oliveira Martins, Fialho e outros.


A personalidade talvez mais dinmica do que podemos chamar a jovem gerao da 
Repblica  Jaime Corteso (ri. An, 1884-04-29 - t 1960-08-14), a que j nos 
referimos como poeta e como dramaturgo. Principal animador do movimento da Renascena 
Portuguesa, afasta-se dele em 1921. Na Biblioteca Nacional de Lisboa, da qual foi 
nomeado director em 1919, formara-se entretanto um notvel grupo intelectual de que, 
a partir de 1921, a revista Seara Nova surgiu como rgo, e que tambm deu alento  
revista Lusitnia (1924-27), drigida por Carolina Michalis de Vasconcelos. Desde 
1922, por estmulo das comemoraes do centenrio da independncia brasileira, a sua 
principal actividade literria inflecte-se para a historiografia. Salienta-se a sua 
colaborao nas principais obras colectivas que surgem desde ento (Histria da 
Colonizao Brasileira, 1922, dirigda por Carlos Malheiro Dias, Histria de 
Portugal, 1928-37, dirigida por Damio Peres, Histria do Regime Republicano em 
Portugal, 1930, dirigida por Lus de Montalvor). Exilado com pequenas intermitncias 
desde 1927 a 1957, realiza no estrangeiro, e sobretudo no Brasil desde 1940, uma 
srie de trabalhos, quer de investigao erudita, quer de sntese, que contribuem 
para uma importante reviso da teoria geral da histria portuguesa. Ao morrer, deixou 
quase completo e em curso de publicao um trabalho actualizado de conjunto sobre Os 
Descobrimentos Portugueses. Alm disto e do monumental estudo sobre o sculo XVIII 
luso-brasileiro, Alexandre de Gusino e o Tratado

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                                      
      1015

de Madrid (cinco partes, de dois tomos cada, Rio de Janeiro, 1940), as mais recentes 
snteses do seus trabalhos so A Geografia e a Economia da Restaurao, 1940, e o 
Sentido da Cultura em Portugal no sc. XIV, 1956. Certa mstica de um franciscanismo 
paritesta representa ainda na sua ltima fase a continuidade do seu novi-romantismo 
juvenil.
0 significado fundamental renovador desta obra  servido por grandes dons de 
elegncia expositiva. Em 1964 iniciou-se a edio das suas Obras Completas, com Os 
Factores Democrticos na Formao de Portugal e Introduo  Histria das Bandeiras, 
dois dos mais polmicos ensaios de sntese que produziu; em 1966 terminou a 
publicao em dois volumes de Portugal - a Terra e o Homem (reed. IN-CM, 1987), 
lcida e atraente srie de textos de geografia humana e histria regionais 
portuguesas.

0 doutrinrio mais importante da tendncia intuicionista de guia foi Leonardo 
Coimbra (1883-1936), cuja filosofia est fundamentalmente exposta em 0 Criacionismo, 
1912,
0 Pensamento Cracionista, 1915, reed. 1920, 0 Pensamento Filosfico de Antero de 
Quental, 192 1, reed. (incorrecta) 1983, 3. a ed. 199 1). Fundador e personalidade 
central da primeira Faculdade de Letras do Porto (1921-3 1), orador arrebatado e 
expositor corri

raptos de sensibilidade lrica (A Alegria, a Dor e a Graa, 1916, reed. 1920), 
tornou-se o principal transmissor at hoje de uma filosofia antipositivista e 
idealista de actualizada tradio anteriana. Alguns dos seus discpulos, nomeadamente 
lvaro Ribeiro (1905-198 1: Os Positivistas, 195 1; Memrias de um Letrado, 3 vols., 
1977-80) e Jos Marinho (1904-1975: Teoria do Ser e da Verdade, 196 1; Estudos sobre 
o Pensamento Portugus Contemporneo, 198 1), distinguem-se inicialmente pela rev. 
Princpio (4 ri.,@ 1930), que originaria em 1933 o movimento de Renovao 
Democrtica, mas vieram a ser desde os anos 40 os primeiros paladinos de uma teoria 
da Filosofia Portuguesa inspirada por Antero, Bruno, L. Coimbra e pela tradio 
sebastianista, saudosista e esotrica, que nas

rev. 57 (13 n.@ 1957-62) e Espiral (13 ri.@ 1964-66), dirigidas por Antnio Quadros 
(ri. 1923), se aproxima do existencialismo. As mais importantes manifestaes actuais 
dessa linha de continuidade tm corno rgos as revs. Nova Renascena, dirigida desde
1990 por Jos Augusto Seabra, e Leonardo, em publicao desde 1988. Entre os autores

afins de maior influncia nomearemos Agostinho da Silva, Antnio Brs Teixeira, 
Afonso Botelho, Pinharanda Gomes e Orlando Vitorino.


Ao Grupo da Biblioteca Nacional pertenceu ainda, como Antnio Srgio e Aquilino 
Ribeiro. o combativo polemista da Seara Nova, Raul Proena (1884-194 1), que foi 
tambm o primeiro perito portugus em biblioteconomia e que, na direco e parcial 
redaco do Guia de Portugal, incompleto, e suas verses menores (a sua parte em 
Estradas de Portugal), contribuiu para que atingisse um notvel acabamento literrio 
e informativo o inventrio do nosso patrimnio paisagstico e artstico iniciado por 
Garrett e Ramalho. A sua polmica incide principalmente sobre doutrinas 
iniprogressivas da poca, sobre o isolamento dos intelectuais, a literatura 
esteticista e irresponsvel, e liga-se  enrgica reivindicao de uma filosofia e 
uma moral todas imanentes  condio mortal e contingente do homem, reivindicao que 
nele soa a um certo aristocracismo intelectual (Pgi-

1016                                              HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

nas Polticas, 1938; em 1964 foi reeditada uma parte desta coleco, constituda por 
artigos de uma polmica modelar Acerca do Integralismo Lusitano).

Pela Seara Nova, passaram, em geral, os mais importantes vultos literrios 
republicanos, corno Raul Brando, Teixeira Gomes, Aquilino Ribeiro; entre os seus 
primeiros e mais constantes colaboradores contam-se o poeta Augusto Casimiro (n. 
1889: Vitria do Homem, 19 10; Primavera de Deus, 1915) e o crtico Cmara Reys (n. 
1885 - t 196 1). Raul Proena e Antnio Srgio, que no fez parte dos fundadores mas 
veio a exercer

a influncia dominante, conceberam a revista como endereada quele escol intelectual 
restrito que sempre tiveram em vista.

Entre os autores que a revista editou conta-se Manuel Teixeira Gomes (1860-05-27 - t 
194 1), colega de estudos de Fialho, que representou o novo regime em Londres de um 
modo brilhante e foi presidente da Repblica. No conjunto das suas obras, reeditadas 
em 1962, por motivo do centenrio, como o acrescento de dois importantes volumes de 
correspondncia, destacam-se as rernemoraes de episdios erticos ou de viagem, 
sobretudo as que escreveu sob a forma de carta ou novela e exprimem uma saboreada e 
patrcia fruio sensual da paisagem, em especial algarvia, das coisas de arte e

do corpo humano em livre nudez pag (Inventrio de Junho, 1899, 5. a edio 1984; 
Agosto Azul, 1904, 4. edio aum. 1986; Sabina Freire, 1905; Gente Singular, 1909; 
Cartas a Columbano, 1932; Regressos, 1935; Novelas Erticas, 1935; Maria Adelaide, 
1938). 0 ciassicismo de Teixeira Gomes, como o de Manuel Bernardes, que tanto 
admirava, realiza-se ao nvel da escolha vocabular e da frase, e prolonga por escrito 
um isolado e ausente *fruir sem alterao+. Apesar da realidade vivida dos seus temas 
fragmentrios, h neles uma gostosa transfigurao com encanto imaginativo, quer nos 
transmita notas de exotismo fiamengo ou sevilhano, por exemplo, quer *o exotismo s 
avessas+ do passado distante ou da terra ptria, vista de cor

no exlio. A sua regio natal, a de Portimo e Lagos, transformou-se, pelo seu 
estilo, na verdadeira Hlade clssica,        uma Hlade de sonho, em vrias

pginas admirveis; e sente-se uma emoao represa que se esconde atrs de requintes 
epicuristas, atrs de um amoralismo ertico e de desapiedadas farsas narrativas em 
tom quase fialhesco.

Teixeira Gomes representa o mais alto apuro diletante de um esteticismo cultivado por 
certo patriciado irreligioso, mas tambm antinaturalista, antiplebeu, que na 
Repblica pretende suprir a aristocracia deposta. Ao lado

7.1 POCA - POCA CONTEMPORNEA                                               1017

de Antnio Patrcio, do mundano Jlio Dantas e, como veremos, de Aquilino Ribeiro, 
podia ento aparecer integrado num escol republicano da sen-

sibilidade e do estilo, tal como os doutrinrios da Seara Nova surgiram como

uma nova aristocracia de mentores.

A nota pantesta, esteticista ou pag , com efeito, ferida por vrios escrtores da 
gerao republicana, em oposio ao tradicionalismo catlico. As imagens helnicas 
tornam-se particularmente insistentes em Joo de Barros (1881-1960), que, alm das 
suas campanhas de pedagogia e de aproximao luso-brasileira, se distingue por uma 
educativa confiana no progresso, na razo, nas reservas de energia imanentes ao 
homem terreno e ao povo. A melhor expresso deste iderio algo abstracto reside no 
poema dramtico Anteu, 1912, e numa srie de poesias de que fez a antologia em Vida 
Vito-

riosa (1919, reedio 1934).

AQUILINO RIBEIRO

0 amor pago das coisas naturais, a alegria de abrir os sentidos humanos  vida sobre 
a terra, dentro dos limites da nossa experincia carnal, atinge, na gerao 
republicana e, at hoje, na literatura portuguesa, o seu apogeu em Aquilino Ribeiro 
(n. Sernancelhe, 1885-09-13 - t 1963-05-27), cuja experincia de homem muito 
instintivo, criado, ao ar livre da serra,  vista de hipocrisias e espoliaes 
primrias e por isso flagrantes, se temperou com uma bonomia cptica,  Anatole 
France, de origem cosmopolita parisiense, e se firmou em extraordinrias faculdades 
inatas para tirar partido da expressividade sensorial do idioma. Os seus temas 
dominantes so a luta da ladinice pcara, por parte de camponeses, almocreves e 
outros tipos esmagados na base da pirmide social, contra todas as opressoes que lhes 
tolhem os

impulsos vitais; a exaltao teoricamente libertina, acrtica e algo machista do amor 
carnal; a integrao do drama humano no concerto das foras naturais atravs do amor 
e dos sentidos.

Iniciada e globalmente preludiada em 1913 com Jardim das Tormentas, a sua carreira 
literria mobiliza uma rica experincia em meios humanos nacionais e outros, 
incluindo conflitos vividos na sua origem rural popular, vrias conspiraes, fugas 
romanescas, exlios e desenganos (Via Sinuosa, 1918; Filhas da Bablnia, 1920; 0 
Homem que matou o Diabo, 1930; Lpides


1018                                        HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
Partidas, 1945; O Arcanjo Negro, 1947). At 1932, data do 
regresso definitivo ao Pas e sua fixao na capital, a matria 
predilecta das obras de fico vem dos ambientes da sua Beira 
Alta natal, e Aquilino Ribeiro, servido por um facndia 
lexicolgica e frsica que  a mais exuberante de Camilo para c 
e que alis no deixa de se encantar de mais consigo prpria, 
pde ser unilateralmente apreciado, no pblico da sua gerao 
prpria, como um caso superior de regionalismo e prosa rica. 
Terras do Demo, 1919, O Malhadinhas, inserto pela primeira vez 
em Estrada de Santiago, 1922, e depois ampliado, e Andam Faunos 
pelos Bosques, 1926, so os mais elevados cumes desta fase. 
Aquela conceituao unilateral de prosador, sem o prejudicar no 
conjunto dos seus leitores mais fiis, diminui, no entanto, a 
sua influncia entre os jovens autores durante um perodo 
seguinte, em que foi apoucada a importncia do estilo e se 
exaltou a do *documento humano+, entendido quer como caso de 
introspeco burguesa, quer como caso de explorao social. 
Maria Benigna, 1933, e Mnica, 1939, romances de cenrio 
lisboeta, onde o autor se recusou ao mimetismo de um estilo 
escrito ou oral, para as protagonistas, que fosse diferente do 
seu prprio, revelam sempre uma decidida vantagem no registo da 
percepo sensvel sobre o da simpatia psicolgica. Entretanto, 
a Aventura Maravilhosa de D. Sebastio, 1936, e S. Banaboio, 
1937, alargando o espao imaginativo pelos domnios da lenda e 
da hagiografia virtuais, realam o fundo trgico das degradaes 
da carne (doena, velhice, morte) contra o qual se recorta a 
festa dos sentidos, contraste barroco muito inerente  sua 
maneira. O Arcanjo Negro, continuao de Mnica, escrito em 
1930-40, embora proibido at 1947, assinala o momento
de maior negrume trgico na obra de Aquilino: assiste-se  
conjugao das ms estrelas (o envelhecer coincide com o 
fascismo), e carrega-se um pessimismo histrico muito frequente 
na sua obra, onde se testemunham com toda a crueza tantas formas 
impunes de prepotncia, iniquidade, brutalidade e onde nada 
parece continuar-se do homem que morre ao homem que nasce, salvo 
a repetio do acto amoroso na origem e no apogeu de cada vida.

Na ltima fase discernvel da carreira deste escritor, em que 
sobressaem A Casa Grande de Romaniges, 1957, e Quando os Lobos 
Uivam, 1958, o borbulhar de ritmos e imagens, a absoro e 
sntese dos coloquialismos, matizes e inflexes idiomticas 
vivas - no atinge o superior virtuosismo

7 3 EPOCA - EPOCA CONTEMPORANEA                                 
           1019
O
de O Malhadinhas e As Terras do Demo, mas a sua temtica alarga-
se para alm do anterior dptico barroco entre a carne estuante 
de vida e as potncias da opresso e morte. E, assim, o primeiro 
desses romances  a crnica romanceada de um morgadio minhoto 
atravs de nove geraes, procurando apreender as linhas 
essenciais de relao social. A comparao desta obra com A 
Ilustre Casa de Ramires, de Ea de Queirs, revela sob uma 
aparente semelhana intenes muito diferentes. O romance de 
1958, ainda que estruturalmente pouco equilibrado, enfrenta um 
drama tpico dos seus compatriotas serranos da Beira: a 
florestao compulsiva dos baldios comunais. Ambos se erguem a 
uma perspectiva mais ampla daquelas maranhas do amor

carnal e da luta pela terra de que Aquilino j dera tantas cenas 
palpitantes.

Excepcional animalista literrio, com um dom insuperado de 
captar o

brio e o bafo dos impulsos vitais e de estender a gama da 
percepo sensorial verbalizada, deve-se a Aquilino a melhor 
buclica da nossa literatura, a melhor reconciliao desta 
natureza antinatural, que  o homem e o meio

por ele criado, com a natureza mais livre que h, uma natureza 
neutra em

matria de bem e mal, e que em toda a tradio da cloga nos 
vinha morrer

aos dedos na retrica do animismo, do antropomorfismo, se no 
mesmo da

prosopopeia. Esta presena do inefvel sensorial fica muito 
contgua, na sua

obra, ao inefvel da unidade carnal dos amantes. Mas aqui se 
descobre um

dos seus bvios condicionamentos. A mulher amada (no a mulher 
inserta numa rede variada de relaes, sobretudo se popular) mal 
se personifica na


sua obra, torna-se em geral objecto quase passivo de um impulso 
masculino, raro  ela prpria uma fora autnoma. O peso enorme 
da tradio patriarcal portuguesa, que modelou ainda a gerao 
de Aquilino, e se faz

mesmo sentir noutras posteriores, tende a encarar a mulher como 
uma presa esquiva ou caprichosa, que sabe seduzir mas deseja 
render-se. O amor aquiliniano tem todo o aspecto de um logro: 
logro  deix-lo escapar por cobardia masculina (Terras do Demo, 
Quando ao Gavio cai a Pena), mas logro ou decepo realiz-lo 
(0 Homem que matou o Diabo, S. Banaboio).

Esta coordenada esttica e social da obra de Aquilino cruza-se 
com a

do seu pessimismo histrico j referido, que s nas ltimas 
obras se atenua.
O espao determinado por tais coordenadas corresponde ao seu 
estilo de fico e de prosa.  grande organizao artstica de 
Aquilino falta algo como

aquela largueza de horizontes do realismo de 1870-90; por isso, 
como  visvel

1020                                         HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA principalmente em prefcios e outros 
razoados, evita discorrer por conceitos, preferindo a insinuao 
verbal ou alusiva.  mesmo curioso notar que, ligado por atitude 
consciente de origem e de luta ao grupo da Biblioteca Nacional e 
da Seara Nova de 2 1, Aquilino Ribeiro exprime, no fundo, uma 
poro de vivncias que se no enquadram no racionalismo 
idealista e, a seu modo, aristocrtico desse grupo; exprime uma 
fora como que ainda instintiva e anrquica de comunicao 
humana que se desenvolve, literariamente, no pressuposto da 
criatividade da experincia popular, pelo menos ao nvel da 
graa idiomtica, supondo um conceito diferente, e no fundo mais 
densamente dialctico, de escol cultural. O volume pstumo de 
memrias, infelizmente incompletas, Um Escritor Confessa-se, 
1974, que cobre o perodo de 1901-1908,  um importante 
depoimento histrico e biogrfico, e no desmerece 
literariamente da sua melhor produo. Foram reunidas Pginas do 
Exlio, de correspondncia jornalstica, organizao de Jorge 
Reis, 1,
1908-1914, 11, 1927-30.

Ao grupo inicial da Seara Nova pertence tambm Jos Maria 
Ferreira Sarmento Pimentel (n. 1888-12-14 - t 1987-10~13), cujas 
Memrias do Capito, So Paulo, 1963, reedio, Porto, 1974, 
acrescentam ao seu interesse documental os mritos de um estilo 
exuberante de humor e de pitoresco.

POCA CONTEMPORNEA: Decadentistas-simbolistas

Enquanto no desenvolvimento do saudosismo e outras correntes 
atrs estudadas predominam as tendncias tradicionais e certas 
condies a que se encontrava exposta a literatura portuguesa, o 
simbolismo e ainda parte do seu desenvolvimento representam uma 
certa quebra de continuidade, uma brusca adaptao da literatura 
portuguesa a formas europeias evoludas da arte potica. Por 
isso pospusemos o seu estudo. As estadias em Paris de Xavier de 
Carvalho, de Antnio Nobre, de Eugnio de Castro, mais tarde, de 
S-Carneiro, Almada-Negreiros e outros desempenham um papel 
importante nas correntes inovadoras. Insubmissos e Bomia Nova, 
revistas coimbrs, disputaram em 1889 a primazia nas inovaes 
rtmicas (tripartio do alexandrino) e estilsticas, fazendo 
grande alarde dos nomes ento em voga nas letras francesas. A 
Arte - Revista Internacional, que Manuel da Silva Gaio, Eugnio 
de Castro e Carlos Mesquita orientaram em 1895-96, teve como

7. a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
            1021
O
colaboradores alguns dos poetas estrangeiros mais famosos, como 
Verlaine, Gustave Kahn, Rgnier, Verhaeren. Ao longo do decnio 
de 1890 vrias e efmeras revistas publicam obras que se 
apresentam como de autores simbolistas, decadentes, 
decadentistas ou decadistas, como novos, novlistas ou modernos, 
ou como nefelibatas (*viandantes das nuvens+).

Deixando de parte certas tentativas precursoras de vrios 
poetas, como Gomes Leal, Manuel Duarte de Almeida, Alexandre da 
Conceio, e ainda as que se encontram naquelas revistas 
coimbrs, pode dizer-se que o decadentismo-simbolismo se lana 
com Alma Pstuma, srie de vinte sonetos que D. Joo de Castro 
(1871-1955) publica, em 189 1, na Revista de Portugal, e com os 
livros que Eugnio de Castro (n. 1869-03-04 - t
1944-08-17) publica no regresso de uma estadia no estrangeiro: 
Oaristos (1890), Horas (1891), Silva e Interldio (1894). Tais 
publicaes so acompanhadas de prlogos e notas doutrinrias. 
Destas, como das prprias poesias, como das discusses ento 
havidas, se depreende que as preocupaes versificatrias e 
verbais dominam os nossos pioneiros simbolistas: trata-se de 
experimentar novas colocaes de cesura no alexandrino e dos 
acentos fixos no decasslabo; de impor a prosa rtmica, o verso 
livre, e certas estruturas estrficas novas ou desusadas; trata-
se ainda de surpreender o leitor
pelo ineditismo das imagens, pela estranheza de um vocabulrio 
erudito sobretudo colhido no Petit Glossaire [ ... 1, 1888, 
simbolista, decadentista de Jacques Plowert, pseudnimo de Paul 
Adam, e alusivo a um mundo deslumbrante de pedrarias raras e 
alfaias litrgicas, perfumes exticos, smbolos herldicos. Tudo 
isto se associava a uma pretensa degenerescncia que se 
comprazia no tdio, ou spleen, na nevrose, se no perverso 
sadomasoquista. Os autores pretendiam escrever *para os raros 
apenas+, numa aura de misticismo e deliquescncia, sugerida por 
arcasmos, aluses estranhas e por um novo lxico ou sufixao 
preciosos, frequentemente galicistas ou alatinados (oirescente, 
fulvo, lilial, ruisselante, crulo, hiemal, por exemplo). Notas 
dominantes desta poesia so um profundo pessimismo e formas 
contraditrias de expresso religiosa, ora casta e fielmente 
catlica, ora ocultista, budista, se no mesmo satnica, 
blasfema ou mera e exteriormente ligada aos ritos e liturgias 
tradicionais.


Tais inovaes foram acolhidas com escrnio pelo pblico e pelos 
crticos, mesmo aqueles que, como Fialho, apresentam manifestas 
afinidades com

1022                                              HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
o decadentismo. O prprio Eugnio de Castro, ao lado do crtico 
simbolista e tambm poeta Manuel da Silva Gaio (1861-1934; 
Versos Escolhidos, 1905; Sulamite, 1928), e tal como 
contemporaneamente acontece com Moras e

Rgnier, evolu no sentido de uma disciplina formal clssica 
cada vez mais sbria, at se aproximar do folclore (Constana, 
1900; Depois da Ceifa, 1901; Sombra do Quadrante, 1906; Camalus 
Romanos, 1921; Cravos de Papel,
1922; ltimos Versos, 1938). Representante tpico do cunho 
artificioso e

completamente desenraizado dos nossos primeiros grupos 
simbolistas, este poeta denuncia no entanto, pelo contraste, a 
penria imaginativa de quase toda a poesia sua contempornea, a 
incapacidade de transcender as banalidades de um murcho ou vago 
idealismo romntico formalmente desleixado. Eugnio de Castro, 
incapaz de uma inovao radical na poesia e mesmo de criar 
smbolos com uma ressonncia potica que transcenda o 
maravilhoso sumpturio, contribuiu, todavia, para a reabilitao 
da intencionalidade artstica, contra o preceito romntico da 
improvisao inspirada, que os parnasianos no tinham entre ns 
vencido. Contribuiu deste modo para um orgulhoso culto da *arte 
pela arte+, ou *esteticismo+, que, de uma forma ou de outra, 
abrange numerosos escritores portugueses at cerca de 1925; e, 
adaptando ao portugus certas experincias rtmicas simbolistas 
(Um Sonho, em Oaristos; Pelas Landes,  Noite, em Horas, por 
exemplo), iniciando certas audcias metafricas, abriu caminho a 
S-Carneiro e a outros decadentes.

Da esttica simbolista foram tributrios, como vimos, diversas 
personalidades e grupos na transio do sculo XIX para o sculo 
XX, Mencionemos Joo Barreira (1866-196 1, autor de Gouaches, 
1892, prosa potica); Antnio de Oliveira Soares, cuja 
imaginaria litrgica se assemelha  de Eugnio de Castro 
(Paraso Perdido, 1892); os aorianos Carlos Mesquita (1870-
1916, ligado s feies decadentes-simbolistas da revista Ave 
Azul,

1899-1900, de Viseu) e Roberto Mesquita (1871-1923; Almas 
Cativas e Poemas Dispersos, 1973); Joo Lcio (1880-1918), que 
pelo seu exuberante gosto de cor e de mitologia popular foi um 
Antnio Nobre algarvio (0 Meu Algarve, 1905); Jlio Brando 
(1869-1947; Livro de Aglais, 1892); e Henrique de Vasconcelos 
(1876-1924), autor de Flores Cinzentas, 1893, que posteriormente 
alternaria a poesia com o conto simbolistas. Entre 1891 e cerca 
de 1896 muitos destes e outros primeiros decadentes evoluem em 
sentido lusitanista-nacionalista, neoquinhentista ou 
neogarrettista, ruralista, saudosista ou neoclassicista. Augusto 
Gil (1873-1929) adaptou certa plasticidade da imaginao 
simbolista a um lirismo

7. a POCA - PO@ CONTEMPORNEA                                
                     1023

e stira de grande pblico (Luar de Janeiro, 19 10; Canto da 
Cigarra, 1910; Alba Plena,
1916, 7.1 edio, 1962).  gerao simbolista portuguesa no 
falta a nota do exotismo oriental que Pierre Loti deu em Frana. 
Encontramo-la em Alberto Osrio de Castro (1868-1946), autor de 
Flores de Coral, Dili, 1908, e, em prosa, sobretudo em Venceslau 
de Morais (1854-05-30 - t 1929-07-0 1), oficial da marinha que 
acabou por se fixar no Japo, onde se casou e converteu ao 
budismo, interessando os leitores portugueses na vida oriental e 
especialmente nipnica, atravs da crnica jornalstica e de 
vrios livros com xito, especialmente Dai-Nippon, 1897, Cartas 
do Japo, 1904, O Culto do Ch,
1905, O Yon e Ko-Haru, 1923, O Bon-Odori em Tokushima, 1911.
O
CAMILO PESSANHA
O
A um poeta que estanciou largos anos em Macau e que fez curiosos 
estudos e tradues sobre a civilizao e a literatura chinesas 
(China, 1944), Camilo Pessanha (n. Coimbra, 1867-09-07 - t 1926-
03-01), se deve o melhor conjunto de poemas simbolistas 
portugueses, que exerceram profunda influncia na gerao de 
Orpheu, embora s em 1922 viessem a ser reunidos sob o ttulo de 
Clepsidra (reedio aumentada de 1945; poemas inditos e 
variantes reunidos por Gaspar Simes no volume da coleco A 
Obra e o Homem; reeditada com outros poemas, tradues de oito 
elegias chinesas e variantes, tica, 1969). Pessanha criou uma 
arte meticulosa no tratamento musical e evocativo do verso que 
muito lembra a de Verlaine. Os seus sonetos, sobretudo, so 
lanados com um cuidado extremo em eliminar quaisquer inflexes 
previsveis da expresso sentimental. O equilbrio fontico do 
verso, a simplicidade e o saber de cada palavra parecem nele ser 
escrupulosamente ponderados.  um novo rigor de afinao que se 
impe na poesia portuguesa, e que corresponde a uma nova gama de 
sensibilidade, e o mais surpreendente  que tal rigor se 
encontra j consumado em poemas dispersos desde
1887, muito superiores s obras decadentes editadas no decnio 
de 1890, e que o seu magistrio se manter permanentemente 
sensvel at Fernando Pessoa e outros poetas posteriores.


Na verdade, no se trata do amor, da esperana, da desiluso, da 
dor, do desejo, dos grandes sentimentos romnticos encarecidos 
ou bem reconhecveis. O desejo e o amor suspendem-se, e 
desistem, e fruem a msica agridoce da desistncia, seguros de 
que a sua consumao seria o tdio. Dos grandes naufrgios 
sentimentais, Pessanha recolhe apenas, *na fria transparncia 
luminosa+ duma lucidez desistente, *rseas unhinhas que a mar

1024                                        HISTORIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
partira ... /Dentinhos que o vaivm desengastara.. O./Conchas, 
pedrinhas, pedacinhos de ossos ... +.  parte um ou outro 
momento amargo em que se sente que a vida se poluiu de um 
qualquer modo estranho, a poesia de Pessanha  a de puro 
desfibramento pessoal em tnues e inteis agonias, na ateno a 
um ritmo cada vez mais abstracto daquilo que os dias trazem e 
levam do tempo em si mesmo, feito inodoro e incolor como a gua 
que lhe serve

de imagem. Muito significativo  que esta decantao da 
personalidade at ao puro ritmo de um tempo vazio se tenha, como 
veremos, comunicado a uma parte dos lricos mais dotados que se 
estendem at  actualidade.

Na poesia de Pessanha reconhece-se ainda, embora esfumado, certo 
ponto de partida num neo-romantismo cavaleiresco e caraveleiro, 
talvez muito ligado  prpria ascendncia paterna brasonada, e 
que vem at s franjas eruditas do vocabulrio; mas os seus 
smbolos mais insinuantes de um paraso perdido conduzem-nos at 
 pureza materna da infncia popular rural, at  aceitao do 
destino, mesmo atravs de um naufrgio da esperana apaixonada e 
das ltimas palpitaes em que, j afogada, ela vai morrendo, 
quase mineralizada como ossos, fsseis, restos de vida entre as 
coisas inertes.


Nenhum poeta portugus pde, como Pessanha no seu esplio lrico 
to breve, eliminar quase completamente as categorias mentais 
prosaicas do discurso potico. Cada um dos seus principais 
poemas  um pequeno mas inesgotvel mundo de motivos rtmicos e 
imaginficos associados, com uma ordem prpria brotando de 
exclamaes e reticncias orais espontneas, mas diluidora da 
sintaxe-padro que tem o verbo como fulcro. A perspectiva das 
coisas no espao-tempo tambm se refaz pela primeira vez, com 
Pessanha, na poesia portuguesa. E disso resulta um tipo, at 
ento indito em portugus, de partitura lrica, em que palavras 
muito escolhidas jogam, de cada vez, com todo um conjunto de 
evocaes (significados, timbres ou inflexes de voz em que so 
usuais, valores articulatrios), quase apenas expressivas por 
efeito de constelao. Deste modo, a metafsica das realidades 
materiais e psquicas implcita no senso comum liquefaz-se, e, 
por exemplo (e esquematizando), uma esperana frustrada pode 
fruir o doce ocaso da realizao... que no teve (Floriram por 
engano as rosas bravas); a substancialidade dos fenmenos 
objectivos e a unidade pessoal so interrogadas (Imagens que 
passais pelaretna); o prprio poema tende para uma msica de 
palavras associadas a motivos visuais, auditivos e outros 
(Chorai arcadas).

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
          1025
O
ANTNIO PATRCIO

O escritor que melhor realiza a sntese do saudosismo com o 
simbolismo e ainda com influncias de Nietzsche  Antnio 
Patrcio (n. Porto,
1878-03-07 - t Macau, 1930-06-04), cuja original sensibilidade 
tanto se exprime nas Poesias (edio pstuma 1942) como nos 
contos (Sero Inquieto,
1910), e sobretudo nos trs poemas dramticos Pedro o Cru 
(1918), D. Joo e a Mscara (1924), aos quais acresce a breve 
pea O Fim (1909).

Com efeito, a fora potica to manifesta nesta obra, toda feita 
da aceitao pantestica da vida que s se vive uma vez em face 
da morte (como uma onda que *encrespou, arqueou num grande 
esforo, foi um cncavo glauco cheio de asas e explodiu a rir 
toda espumante+), confere  saudade, naqueles dramas, uma 
tenso trgica inapreensvel  musa elegaca de Pascoais. Nos 
momentos mais patticos do teatro de Patrcio, a saudade 
constitui uma contradio viva de desespero e alegria louca, uma 
afirmao herica de sobrevivncia eterna, como simples forma de 
sensibilidade, daquilo que

se amou e perdeu. Negando, de um modo nietzschiano, qualquer 
finalidade para a vida que seja extrnseca  prpria vida, e 
tomando o amor como tipo das paixes humanas, os dramas de 
Patrcio exprimem um imenso apego quilo mesmo que no amor 
existe de necessariamente irrealizvel, quer devido  morte 
(Pedro o Cru), quer devido  contradio do finito-infinito 
inseparvel das aspiraes humanas - e isto sob a forma de 
contraste inevitvel de carne-esprito (Dinis e Isabel, em que a 
prpria santa se revela sensual e humana no limiar da morte), ou 
sob a forma de insaciabilidade (D. Joo e a Mscara). Mesmo o 
que h de esquemtico, de metafsico ou de doentia obsesso do 
corpo cadavrico em Antnio Patrcio se justifica inteiramente 
em extraordinrias pginas de ambiente lrico ou pattico, como 
certos monlogos de D. Pedro, D. Joo, o dueto amoroso final de 
Dinis e Isabel e os desfechos dos contos O Precoce, Stize e O 
Veiga, trechos poticos pelo seu


prprio ritmo de verso, pois s graficamente so prosa. A ideia 
dominante da morte  como que o recorte, a conscincia plena e 
definida, neste escritor, do valor insubstituvel de cada 
momento da vida tensa; e, deste modo, o lugar da morte  muitas 
vezes nele o lugar, tambm, da natureza, que poucos poetas 
sentiram to liricamente: a chuva, a nvoa, o vento sul, a neve, 
o luar, tudo o que nos enche com o *herosmo humilde de 
aceitar+, e sobretudo o mar, que em Patrcio se diria o smbolo 
supremo da vida.
O
HLP - 65

1026                                       HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

RAUL BRANDO

Integrado por volta de 1890 nuni grupo portuense de bomia 
simbolista, cujos ideais romanceou na Histria de Um Palhao, de 
1896, ref. 1926 sob o ttulo de A Morte do Palhao e o Mistrio 
da rvore, Raul Brando (n. Foz do Douro, 1867-03-12 - t 1930-
12-05) revela-se desde incios do sculo

como o principal reelaborador dos motivos do remorso confitente 
e da autoculpabilizao religiosa pelos males sociais que 
Tolstoi e Dostoievski tinham transmitido ao Ocidente. H tambm 
no seu estilo uma contoro decadente, que se nota sobretudo no 
obstinado apego a determinadas imagens e palavras, e no registo 
pertinente das expresses coloquiais e populares do pattico e 
do ridculo. No seu esplio literrio figuram volumes de 
impresses de pitoresco local ou de costumes, a que se agarra um 
espanto sempre extasiado de ver e sentir (Pescadores, 1923; 
Ilhas Desconhecidas, 1926); e ensaios de ressurreio histrica 
quase  Oliveira Martins. Estes, como os seus trs volumes de 
memrias, esto percorridos pela obsesso de amplificar em tudo

e todos a faceta louca e grotesca, o ponto de contacto entre o 
trgico e o

reles (EI-Rei Junot, 1912; 1817 - A Conspirao de Gomes Freire, 
1914, ref. de A Conspirao de 1817, 1914; Memrias, 1919-25-31, 
este ltimo volume sob o ttulo de Vale de Josafat).

Mas o aspecto mais palpitante da obra de Raul Brando  o da sua 
dor de conscincia perante a humanidade explorada. Certas 
contradies, que o afligem, entre a passividade desse 
sentimento de simpatia e as fronteiras egostas da ternura 
familiar burguesa ditam-lhe pginas de uma confisso pungente, 
nas Memrias e sobretudo em O Pobre de Pedir (edio pstuma,
1931). Ningum falou de ternura mais emocionadamente do que ele 
denunciando, por outro lado, os limites dessa ternura nas 
relaes humanas que o dinheiro condiciona, e so a seu ver 
quase todas; ningum capta como


ele a poesia do lar - denunciando, por outro lado, na vida de 
casados o espezinhamento da mulher e a coincidncia sensual de 
um equvoco de fins, o fojo em que o homem, lobo do homem, 
esquece a lei da selva burguesa onde tem de ganhar a vida; o 
poeta da dor sabe que ele no existe literariamente sem meia 
dose de teatralidade, sabe que *a nsia de eternidade+, a

que se apega, se reduz, sinceramente, a uma coisa como *jogar o 
gamo pela eternidade+, e denuncia um acto de dever ou de 
caridade corno sendo, na sociedade capitalista, um disfarce 
ntimo para o egosmo imposto pela

7 @ POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
          1027
O
prpria estrutura das relaes entre os homens. 
Complementarmente, a Farsa (1903), Os Pobres (1906, 8. a ed. 
1978) e Hmus (1917, 2. a ed. 1921 e 3. > s/d, revistas; 7. a 
ed. 1986), mais do que novelas, so trs poemas em prosa da dor 
dos humildes e esmagados, poemas extraordinrios na nossa 
literatura. Os temas da frustrao e remorso burgueses e do 
sofrimento humilhado reencontram-se admiravelmente teatralizados 
em O Doido e a Morte e O Gebo e a Sombra (Teatro, 1923) e O A 
vejo, 1929. As suas impressionantes confisses, bem mais 
corajosas que as que noutros autores se inspiram na psicanlise, 
a sua pattica galeria de sofrimentos (Gabiru, Gebo, Candidinha, 
Joana, Lusa, etc.) so o que no-lo impe como um grande 
escritor, para alm de uma maneira literria, em que se 
exprimem: o pantesmo lgubre de Prosas Brbaras; patticas 
configuraes dostoievsquianas de certas deformaes de 
psicologia social, como impulsos criminosos ou humildades 
abnegadas; uma obsesso de se identificar com todo o sofrimento, 
humilhao, remorso, ou, opostamente, o mero e ocasional espanto 
de existir, que o leva a transfigurar a vida mdia quotidiana 
entre o ulular da dor e a teia de sonho, entre uma mixrdia e 
uma coisa doirada e imensa, esfarrapada e imensa. De colaborao 
com a mulher, Maria Angelina Brando, escreveu uma narrativa 
para crianas, Portugal Pequenino, 1930, verso mais simples de 
dois tempos: paisagem portuguesa; criao da alma pela dor.

BIBLIOGRAFIA

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Historiografia Portuguesa do sc. XX, em Revista de Histria de 
So Paulo, n. 20, 1954.

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Orientaes, Problemas, Perspectivas, ibidem, n.os 21-22, 1955.

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Figueiredo, sep. do Boletim da Fac. de Filosofia, Cincias e 
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Escolhidos, 1, 1989, Caminho, pp. 33-49.

1028                                                HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

O ltimo cap. de Silbert, A.: Do Portugal do antigo regime ao 
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2. > ed. 1977, contm uma resenha da historiografia portuguesa 
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Ver ainda Marques, A. H. de Oliveira: Esboo Histrico da 
Historiografia Portuguesa in Ensaios de Historiografia 
Portuguesa, Palas Editores, 1988.

Dossier bibliogrfico sobre Ficielino de Figueiredo, Letras e 
Letras, n. 23, Nov. 1989. Amora, A. Soares: o Essencial sobre 
Fid. de Figueiredo, IN-CM, 1989.

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Portugus no Sc. XX, e de vrios artigos insertos em Bulletin 
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Contemporneo, Lisboa, 1 960,Teatro Portugus, 2. O vol., 
Histria do Teatro Portugus, col. *Saber+, reed.
1972, D. Joo da Cmara e os caminhos do teatro portugus, 1962, 
O Teatro simbolista e modernista, *Biblioteca Breve+, ICALP, 
1979, e 100 Anos de Teatro Portugus (1880-1980), Braslia, 
Porto, 1984 (contm um excelente guia alfabtico dos principais 
autores e peas); Histria do Teatro de Revista em Portugal, 1, 
Da Regenerao  Repblica, 1984.

Picchio, Luciana Stegagno: Histria do Teatro Portugus, Lisboa, 
1969; Duarte lvo Cruz, Introduo ao Teatro Portugus do Sc. 
XX, Lisboa, 1969. Barata, Jos Oliveira: Histria do Teatro 
Portugus, ed. Universidade Aberta, 1991. Pimentel, F. J. 
Vieira: Literatura Dramtica e Fim-de-Sculo (1886-1904), in 
*Diacrtica+, n. 6, Univ. do Minho,
199 1, pp. 47-60, e vol. Literatura Portuguesa e Modernidade, 
Ponta Delgada, 199 1.

Martocq, Bernard: Manuel Laranjeira et son Temps (1877-1912), 
Centro Cult. Portugus, Fund. C. Gulbenkian, Paris, 1985, espec. 
chap. Vil, * Le Thtre Portugais vers
1900+, pp. 387-448.

Neogarrettismo e passadismo:


Poesia Completa de A. Nobre, pref. de Mrio Cludio, Crculo de 
Leitores, 1988. Nemsio, Vitorino: Conhecimento da Poesia, 
Verbo, 1958, reed. 1970 (contm dois breves textos impressivos).

A Crise da Conscincia Pequeno-Burguesa - 1; O Nacionalismo 
Literrio da Gerao de 90, Augusto da Costa Dias, 1962, 3. > 
ed. 1978.

Castilho, Guilherme de: Antnio Nobre, Lisboa, 1950, reed. 1968 
e 1980, outro volume com o mesmo ttulo na coleco *A Obra e o 
Homern+ , 1966, 3. ed. rev. e ampliada 1988, alm da introd. e 
notas  Correspondncia, Lisboa, 1967; e trs captulos do seu 
vol. Presena do Esprito, IN-CM, 1989.

Cintra, L. F. Linciley: O Verso de A. Nobre, in Brotria, 86, n. 
O 2, Fev. 1968, e Antnio Nobre, poeta romntico, in Ocidente, 
vol. 31.

Lopes, scar: A oralidade de Nobre, in Modo de Ler, Porto, 1969, 
pp. 263-275; A. Nobre ou uma espcie de solido, in Afecto s 
Letras (Homenagem a J. do Prado Coelho), IN-CM, 1984, pp. 585-
595; e Entre Fialho e Nemsio, 1, IN-CM, 1987, pp. 67-84.

7 a pOCA - pOCA CONTEMpORNEA                                 
                           1029

Bento, Jos: Notas para uma ed. crtica do *S+ de A. Nobre, in 
*Brotria+, vol. 113, n. 1, Julho 1981, pp. 3-40.

Duarte, Isabel Margarida/Silva, Augusto Santos: A. Nobre, 
problemas de uma aproximao cultural, *Colquio/Letras+, 64, 
Nov. 198 1, pp. 31-40.

Simes, J. Gaspar: Antnio Nobre, col. *Cadernos Culturais+, 
1984. Delille, Maria Manuela Gouveia: A *Santa Iria+ de A. 
Nobre e a Nacionalizao do Motivo de Oflia, sep, Biblos, n. > 
45 (com fac-smiles).

Lamon, R. A.: Dix-huit sonnets dAntnio Nobre, in Sillages, 
1977/5, Poitiers, pp.
103-126.

Moro, Paula: O S de Antnio Nobre - Uma Leitura do Nome, 
Caminho, 1991 (tem bibliografia extensa).

Edies recentes d  e A. Nobre: Correspondncia, org., intr. e 
notas de Guilherme de Castilho, 2. ed. ampi. e rev., IN-CM, 
1982; Correspondncia com Cndida Ramos, leit., pref. e notas de 
Mrio Cludio, Bibl. Pbl. Municipal do Porto, 1982; Alicerces 
seguido de Livro de Apontamentos, leit., pref. e notas de Mrio 
Cludio, IN-CM, 1983; Poesia Completa de A. Nobre, pref. de 
Mrio Cludio, Crculo de Leitores, 1988. Primeiros Versos e 
Cartas Inditas, org. Viale Moutinho, ed. Notcias, Lisboa, 
1983. Antologia: S, apres., selec. e notas de M. Madalena 
Gonalves, *Textos Literrios+, 1987.

cIogas de Agora de Afonso Lopes Vieira, stira anti-
salazarista, pref. e notas de Ceclia Barreira, col. Heuris, 
1986 (1. > ed. semiciandestina, 1935). Mouro-Ferreira, David: 
Aco Cultural de Afonso Lopes Vieira, 1978.

Castro, Anbal Pinto de: Antnio Sardinha e o Movimento 
Literrio do Integralismo Lusitano, sep. rev. *A Cidade+, 
Portalegre, 1989.

Monografia informativa sobre um neo-romntico e suas relaes: 
Fernando Lemos Quintela, Fausto Guedes Teixeira, C. M. de 
Lamego, 1990.


Guedes, Maria Estela:  Sombra de Orfeu, antologia de sonetistas 
entre Joo Penha, n. 1838, e Guilherme de Faria, n. 1907, 
*Coleco Textos Escolhidos+, APE - Guimares Editores, 1990.

Florbela Espanca:

Florbela Espanca - A Vida e a Obra, estudo e antologia por A. 
Bessa-Lus, Arcdia,
1979.

Obras Completas, 6 vols., 1985-86, incluindo Dirio e Cartas, e 
ainda um 7. > vol. biobibliogrfico e documental Acerca de 
Florbela, 1986, org. Rui Guedes, Dom Quixote. (Recenso dos 
vols. 1, 11 e III, IV, respectivamente, por Silvina Rodrigues 
Lopes e por M. Lcia dai Farra, Colquio/Letras, 92, Julho 1986, 
pp. 86-90, e de Cartas e do 7. > vol. por M. Lcia dai Farra in 
ColquiolLetras, 99, Set./Out. 1987, pp. 109-113.)

Silva, Zina M. Bellodi da: F. Espanca: Discurso do Outro e 
Imagens de Si, tese univ., Araraquara, So Paulo, 1987.

David, Celestino: O Romance de Florbela, vora, 1949. Pref. de 
Jos Rgio  8. a ed. dos Sonetos Completos dessa poetisa, 
Coimbra, 1950. Sacramento, Mrio: Ensaios de Domingo, Coimbra, 
1950. Alexandrina, Maria: A Vida Ignorada de Florbela Espanca, 
Porto, 1965.

1030                                               HfSTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

Saudosismo

Guimares, Fernando: Potica do Simbolismo, Presena, 1988 (com 
antologia e bibliografia).

Botelho, Afonso: O Saudosismo como Movimento, Braga, 1960; O 
Saudosismo e

Pascoais, srie de artigos insertos em Estrada Larga, 1, 
antologia do suplemento Cultura e Arte de *0 Comrcio do 
Porto+, org. por Costa Barreto, Porto, 1959.

Bordalo, lvaro: Bibliografia de Pascoais, em Fichas 
Bibliogrficas da Gazeta do Biblifilo, anexa  revista 
Portucale, Porto, 1950.

As reedies das obras de Pascoais apresentam, por vezes, 
profundas remodelaes do texto, pelo que o leitor atento no 
deve dispensar a ficha bibliogrfica supracitada de lvaro 
Bordalo.

Coelho, Jacinto do Prado: A Poesia de Teixeira de Pascoais, 
estudo e antologia, Coimbra, 1954, e pref. ao 1. > vol. de 
Obras Completas de T. de Pascoais, Lisboa, 1965.

Antunes, Manuel: Do Esprito e do Tempo, Lisboa, 1960. Lopes, 
scar: Presena de Pascoais, entre outros artigos sobre Pascoais 
insertos em

Vrtice, n. 115, Maro 1953, e, sobretudo, Entre Fialho e 
Nemsio, 1, IN-CM, 1987.

Simes, J. Gaspar: Perspectiva Histrica da Poesia Portuguesa, 
Porto, 1976. Ver ainda o vol. da coleco *A Obra e o Hornern+ 
dedicado a Teixeira de Pascoais, da autoria de Alf redo 
Margarido, 196 1.

Estudos de Jacinto do Prado Coelho e Vitorino Nemsio nos 7 
volumes de Obras Completas de Pascoais, Bertrand, Lisboa.

Pascoais (In Mernoriam), SEC e IN-CM, 1980.


Principal fonte de estudos pascoalinos: Mrio Garcia, Teixeira 
de Pascoais, contribuio para o estudo da sua obra, ed. da Fac. 
de Filosofia de Braga, 1976. Ver ainda Joaquim de Carvalho, 
Problemtica da Saudade, Revista de So Paulo, Abril-Junho 1958, 
e Filosofia da Saudade, IN-CM, 1986. Epistolrio Ibrico - 
Cartas de Unamuno e Pascoaes, Assrio e Alvim, 1986.

Carvalho, Jlio Sinde Martins de: Roteiro Filosfico para o 
Universo de Teixeira de Pascoais, tese de licenciatura, Coimbra, 
1972.

Nmeros especiais de homenagens de Gazeta Literria, Porto, 
1952, Vrtice, 13, n. 115, Maro 1953, e Via Latina, Coimbra, 
1951-05-11. N. duplo especial, 27-28, da Nova Renascena 
consagrado ao 75. > aniv. da Renascena Portuguesa, Porto, 
1987.

Um Momento de Pensamento Filosfico Portugus, in Aufgestze zur 
Portugiesischen Kulturgeschichte, vol. 2, Mnster, 196 1; 
sntese de Vtor de S em A Esperana e a Saudade no 
Nacionalismo da 1. > Repblica, in *Seara Nova+, n. O 1583, 
Set. 1977.

Santos, A. Ribeiro dos: A Renascenca Portuguesa - um movimento 
cultural portuense, Fund. Eng. > Antnio de Almeida, Porto, 
1990 (com extensas referncias e bibliografia).

Pascoaes, vol. de autoria colectiva IN-CM, 1977; e Catlogo da 
Exposio Bibliogrfica, Bib. Nac. de Lisboa, 1977.

7. @ POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
                        1031

Silva, A. Santos/Duarte, Isabel Margarida: Pascoaes: Temas para 
uma literatura actual, Prmio Teixeira de Pascoaes, ed. Anos 
Oitenta, Porto, 1980.

Pereira, Jos Carios Seabra: Tempo Neo-Romntico, in *Anlise 
Social+, vol. 19, n.os
77-78-79, 1983, pp. 845-873.

Antologias de Teixeira de Pascoais: A Poesia de T. de Pascoais, 
org. Jacinto do Prado Coelho, Coimbra, 1945; Antologia Potica, 
por Cunha Leo e Alexandre O'Neili, Lisboa, 1962, col. *Agir+, 
Rio de Janeiro, org. e pref. por Jorge de Sena, 1965, 3. > ed. 
rev., Porto, 1982; ed. org. por M. Cesariny de Vasconcelos, Cor, 
Lisboa, 1972; e col. *Textos Literrios+, selec., apres. e 
notas de Silvina Rodrigues Lopes, 1987. Os textos de Pascoaes 
sobre a saudade, incluindo prefcios e a polmica com A. Srgio, 
esto reunidos em A Saudade e o Saudosismo, compilao, intr. e 
notas de Pinharanda Gomes, Assrio e Alvim, 1988. Antologia de 
textos de Filosofia da Saudade, de D. Duarte  actualidade, 
incluindo os saudosistas, seus continuadores ou exegetas e 
autores galegos, selec. e org. de Afonso Botelho e A. Brs 
Teixeira, IN-CM, 1986; Antologia de Teixeira de Pascoaes sobre A 
Saudade e o Saudosismo, por Pinharanda Gomes, Assrio e Alvim, 
1988 (inclui tambm a polmica com A. Srgio).

Afonso Duarte:

Obras Completas - 1 Obra Potica, Pltano, Lisboa, 1974.

Pereira, Jos Carios Seabra: *Lpides e outros poemas+ e a Obra 
Potica de A, Duarte, in *Colquio/Letras+, 47, Janeiro de 
1979, pp. 49-58.

Antologias: Poesias de A. Duarte, apres., selec. e notas de M. 
Madalena Gonalves, *Textos Literros+, 1984 (com um bom 
estudo e ampla bibliografia); e A. Duarte - Antologia Potica, 
pref. e selec. de Lus Valle, Direco-Geral de Divulgao, 
Lisboa, 1984.

Simbolismo e esteticismo:

Est em curso uma nova ed. das Obras Completas de Eugnio de 
Castro, de que foi editada uma Antologia, intr., selec. e 
bibliog. de Albano Martins, IN~CM, 1987.


Antologia:

Poesia Simbolista Portuguesa, apres., selec. e notas de Fernando 
Cabral Martins *Textos  Literrios+, Comunicao, 1990.

Estudos:

O Simbolismo e os Simbolistas, srie de artigos insertos em 
Estrada Larga, j referida. Ferro, Tlio Ramires: Raul Brando 
et le Symbolisme Portugais, em Bulletin des tudes  Portugaises, 
vol. XIII, 199, alm dos artigos da Vrtice j referidos.

Cidade, Hemni: O Conceito de Poesia como Expresso de Cultura, 
2.1 ed., Coimbra, 1957.

Simes, J. Gaspar: Histria da Poesia Portuguesa do Sculo XX, 
Lisboa, 1959 (contm antologia), e Perspectiva Histrica da 
Poesia Portuguesa, Porto, 1976.

Sena, Jorge de: Da Poesia Portuguesa, Lisboa, 1960.

1032                                              HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

Belchior, Maria de Lourdes: Verlaine e o Simbolismo em Portugal, 
in *Brotria+, 90, n. 3, Maro 1970.

Carvalho, Rui Galvo de: Carlos de Mesquita e as Origens do 
Simbolismo Portugus, in Ocidente, vol. 31.

Cabral, Alexandre: Notas Oitocentistas, com estudo sobre Eugnio 
de Castro, 1973.

Pereira, Jos Carios Seabra: Decadentismo e Simbolismo na Poesia 
Portuguesa, 1976 (obra fundamental, com extensa bibliografia de 
estudos, textos, revistas e testemunhos; conceptualiza o 
decadentismo e o simbolismo, sobretudo franco-belgas, analisa os 
precursores portugueses, seque cronologicamente as revistas e 
livros caractersticos da corrente nos anos de 90, e estuda os 
principais temas e inovaes estilsticas e mtricas); e Do Fim-
de-Sculo ao tempo de Orjoheu, Almedina, Coimbra, 1979.

Lopes, Maria Teresa Rita: Fernando Pessoa et le drame symboliste 
(1. a parte), Paris,
1977.

Rebelo, Lus-Francisco: O Teatro Simbolista e Modernista, 
*Biblioteca Breve+, lCLP,
1979, Lisboa.

Guimares, Fernando: Simbolismo, Modernismo e Vanguardas, IN-CM, 
1882. Do mesmo autor, selec. e pref. de Antologia de Fico e 
Narrativa no Simbolismo, Guimares Editores, 1988 (inclui Os 
Nefelibatas, folheto provocativa mente decadentista de
1891-92 e atribudo a um imaginrio Lus de Borja, mas parece 
que da co-autoria de Jlio Brando, Raul Brando e Justino de 
Montalvo); e Potica de Simbolismo em Portugal, IN-CM, 1990 
(contm antologia teortica e potica, incluindo a polmica de 
1889 sobre a tripartio do verso alexandrino).

Em publicao, as Actas do Colquio Intern. *0 simbolismo e 
modernismo em Portugal+, 1990, pelo Centro Cultural Portugus, 
Fund, C. Gulbenkian Paris. N. > especial sobre o simbolismo da 
rev. Nova Renascena, 35-38, Vero de 1989 e Vero de 1990.

O n. > 6 da rev. Diacrtica, Univ. do Minho, 199 1, contm 
importantes artigos sobre a literatura finissecular, entre eles, 
Marinho, M. de Ftima: Constana ou o outro lado do mito, de que 
se fez separata.

Cruz, Duarte lvo: O Simbolismo no Teatro Portugus, *Biblioteca 
Breve, ICALP, 1991.

Principais publicaes colectivas e revistas da corrente, alm 
das mencionadas: Os Novos, Porto, 1889, Coimbra, 1893-94; 
Revista d'Hoje, Porto e Lisboa, 1894-96; Os Livres, Porto, 1897; 
Ave-Azul, Viseu, 1899-1900. O principal memoralista do grupo dos 
*Nefelibatas+  Jlio Brando (Galeria de Sombras, Civilizao, 
Porto, 1935; Desfolhar dos Crisntemos, Civilizao, Porto, 
1938; e Recordaces de um Velho Poeta, Lisboa, 1943).

Camilo Pessanha:

Edio conjunta de Clepsidra e outros poemas, Lisboa, 1969, por 
Joo de Castro Osrio, que rene dispersos, regista variantes e 
historia as edi es anteriores. Edio de toda a Obra, 
incluindo contos, crnicas, cartas e estudos sobre a China, org. 
Antnio Quadros, 2 vols., Europa-Amrica, 1988 (o 2. > vol.  
constitudo por Contos, Crnicas, Cartas Escolhidas e Textos de 
Temtica Chinesa).

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
                       1033

Antologias na coleco *A obra e o Homem+, Lisboa, *Agir+, Rio 
de Janeiro, e Clepsidra de C. Pessanha, apres., selec. e notas 
de Teresa Coelho Lopes, col. *Textos Literrios+, 1979.

Spaggiari, B.: Clepsidra, trad. italiana, intr., comentrios, 
Adriatica Editrice, Bari, 1983; e O Simbolismo na obra de C. 
Pessanha, *Biblioteca Breve+, ICALP, 1982.

Seixo, M. Alzira: O Pensamento da Morte na Poesia de C. P., in 
*Anlise+, 13, 1990, pp. 193-264.

O vol. 10 da rev. Persona, Centro de Estudos Pessoanos, Porto, 
1984, contm estudos e importantes documentos sobre Pessanha, 
entre eles o Caderno Potico, autgrafo de C. Pessanha, com 
importantes variantes, que depois teve ed. fac-similada em 
Macau,
1986, e Cartas a A. O. de Castro, J. B. de Castro e Ana de 
Castro Osrio, intr. e notas de M. Jos de Lencastre, IN-CM, 
1984.

Ver cronologia, bibliografia activa e passiva, documentao 
grfica em 70. > Aniversrio da Primeira Edio da Clepsidra de 
C. P. - Exposio Bibliogrfica Itinerante, Instituto Portugus 
do Oriente, org. por Daniel Pires, Lisboa, 199 1.

Estudos:

Miguel, Antnio Dias: Camilo Pessanha, elementos para o estudo 
da sua biografia e da sua obra, Lisboa, 1956.

Lemos, Ester de: A *Clepsidra+ de Camilo Pessanha, Porto, 1956 
e A Clepsidra de C. P. - Notas e Reflexes, Verbo, 1991.

Ferro, Tlio Ramires: Perfilde Camilo Pessanha, em Vrtice, n.os 
99-101, Nov. 1951, Jan. 1952.

Estrada Larga, 1, atrs referida. Simes, Joo Gaspar: Camilo 
Pessanha, col. *A Obra e o Hornern+ (1967). Barreiro, Danilo: O 
Testamento de Camilo Pessanha, 1961. Lopes, scar: Ler e Depois, 
2. > ed., Porto, 1969; e Entre Fialho e Nemsio, 1, IN-CM, 
1987.

Monteiro, Oflia Milheiro C. Paiva: O Universo Potico de C. 
Pessanha, sep. do Arquivo Coimbro, 24, 1969.


Rodrigues, Urbano Tavares: estudos sobre C. Pessanha includos 
em Ensaios de Aps-Abril, Moraes, 1977, e Ensaios de Escreviver, 
Inova, Porto, 1977.

N. O de 1967-10-10 de *0 Comrcio do Porto+, comemorativo do 
centenrio de C. Pessanha.

Oliveira, Antnio Falco Rodrigues de: O Simbolismo de Camilo 
Pessanha, 1979, tica,
1979.

Em O Primeiro Modernismo Portugus, de A. Quadros, Europa-
Amrica, 1989, h um longo estudo sobre Pessanha, pp. 77-120.

Antnio Patrcio:

Obras, ed. Assrio e Alvim, Lisboa: Serro Inquieto, 1979, e 
Poesia Completa, 1980, Teatro Completo, 1982.

1034                                              HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

Corra, Manuel Tnger: A. Patrcio (poeta trgico), sep. de 
*Ocidente+, vols. 57, 58 e 59, 1959-60.

Estudo - Botelho, Afonso: Da saudade ao saudosismo, *Biblioteca 
Breve+, ICALP,
1990, pp. 173-212.

Venceslau de Morais:

Artigo de Castro Soromenho em Perspectiva da Literatura 
Portuguesa no sculo XIX, dir. por J. Gaspar Simes.

Janeiro, A. Martins: O Jardim do Encanto Perdido, Porto, 1956, e 
Venceslau de Morais Redescoberto, in *Colquio+, 53, Abril, 
1969. Pgina especial de *0 Primeiro de Janeiro+,
1954-06-02, e n. especial de Ocidente, n. 375, vol. 77, Julho 
1969.

Oldemiro Csar e ngelo Pereira, Os Amores de V. de Morais, 
Lisboa, 1937. A Parceria A. M. Pereira empreendeu a reedico 
integral das Obras de Venceslau de Morais.

Raul Brando:

Alm do estudo de T. Ramires Ferro supramencionado, Castelo 
Branco Chaves, Raul Brando, Lisboa, 1934.

Reys, Cmara: As Questes Morais e Sociais na Literatura, lI, 
Lisboa, 1943. Vol. da col. *A Obra e o Homem+, org. por Joo 
Pedro de Andrade; e outro vol. org. por Alfredo Margarido, 
Arcdia.

Ferro, Tlio Ramires: R. Brando et /e Symbolisme portugais, 
Coimbra Editora, 1949. Marques, Maria Emlia: O Teatro Potico 
de Raul Brando, Teixeira de Pascoais e A. Patrcio, tese de 
licenciatura, Lisboa, 1956.

R. Brando - Homenagem no seu Centenrio, vol. colectivo, 
Guimares, 1967. Lopes, scar: dois artigos includos em Estrada 
Larga, 1, e reunidos em Ler e Depois,
2.1 ed., Inova, Porto, 1969, e Entre Fialho e Nemsio, 1, IN-CM, 
1987.

Mini, Anne-Marie: Le Thme de Ia mort dans les oeuvres de Raul 
Brando, in Brotria, 9 1, n. > 12, Dezembro 1970 (extracto de 
uma disserta o).


Scatti-Rosin, Michael: Geschichtsbild, GeselIschaftskritik uno 
Romantechnik Raul Brando, tese de doutoramento na Univ. de 
Bochum, 1970.

Machado, lvaro M.: Raul Brando, Entre o Romantismo e o 
Modernismo, *Biblioteca Breve+, ICALP.

Estudo fundamental: Guilherme de Castilho, Vida e Obra de Raul 
Brando, Bertrand,
1979 (534 pp.) e trs captulos do mesmo autor no seu vol. 
Presena do Esprito, IN-CM,
1989.

Vioso, Vtor: A Mscara e o Sonho (Vozes, imagens e smbolos na 
fico de Raul Brando), tese de doutoramento na Univ. de 
Lisboa, 1989.

A Noite de Natal, drama da co-autoria de Raul Brando e Jlio 
Brando estreado em
1899, foi editado pela IN-CM, 198 1, com leitura, desenvolvida 
introduo, notas e apndice sobre Jlio Brando por Jos Carios 
Seabra Pereira.

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
                     1035

A Biblioteca Nacional editou, em 1984, textos fragmentrios de 
um inqurito sobre Os Operrios, de 1923, por R. Brando, com 
notas e uma extensa introduo de Tlio Ramires Ferro, que 
resume e caracteriza numerosos textos jornaisticos do escritor 
sobre as classes oprimidas.

H reedies recentes de R. Brando pela IN-CM, *Seara Nova+, 
Assrio e Alvim, Atlntda e Comunicao, estas com estudos 
importantes de Vtor Vioso, que regista ainda variantes 
textuais.

Antologia de Hmus, apres. de V. Vioso, col. *Textos 
Literrios+, 1978.

*Renascena Portuguesa+: Artigos e depoimentos insertos em 
Portucale, 3. srie, 1955, n.os 1, 2 e 3.

Pinto, lvaro: Para a Histria da *guia+ e da *Renascenca 
Portuguesa+, in Ocidente, vols. 1, 15, 20, 42 e 44.

Gomes, Pinharanda: A *Renascena Portuguesa+ - Teixeira Rego, * 
Biblioteca Breve+, ICALP, 1984; Dicionrio de Filosofia 
Portuguesa, Dom Quixote, 1987 (de arruniao temtica, tem 
bibliografia e ndice de autores mencionados).

Santos, Antnio Ribeiro dos: A Renascena Portuguesa - um 
movimento cultural portuense, Fundao Eng. Antnio de Almeida, 
Porto, 1990 (com bibliografia, tbua cronolgica, dados 
histricos e bibliogrficos, incluindo um captulo sobre 
artistas e sobre manifestaes de continuidade da guia).

Samuel, Pedro: A Renascena Portuguesa - Um Perfil Documental, 
Fund. Eng. Antnio de Almeida, Porto, 1990 (contm manifestos, 
registos histricos, textos de polmicas e ndices das revistas 
do movimento.

A linha de continuidade da Renascena Portuguesa at  
actividade pode ser seguida em O Movimento 57 na Cultura 
Portuguesa, por Manuel Gama, Biblioteca Breve, ICALP,
1991.

Antnio Srgio: Artigos insertos em Seara Nova, n.Is 1365, 1368, 
1369 e 1370, Julho, Out., Nov. Dez. 1959 (Joel Serro, Ensaismo 
histrico-pedaggico de A. Srgio, depois includo em Temas de 
Cultura Portuguesa, Lisboa, 1961).


Vilhena, V. de Magalhes: Antnio Srgio e a Filosofia, editado 
em volume, Lisboa,
1960; Antnio Srgio: o idealismo crtico e a crise da ideologia 
burguesa, Lisboa, 1964, reed. 1974.

Lopes, scar: vrios ensaios em Ler e Depois, 1969; Entre Fialho 
e Nemsio, IN-CM,
1987, 1, pp. 255-270.

Grcio, Rui: Pedagogia de aco social e racional de A. Srgio. 
Lima, Slvio: Ensaio sobre a Essncia do Ensaio, col. Stadium, 
Coimbra. N. O especial de O Tempo e o Modo dedicado a Antnio 
Srgio, 69-70, Marco-Abril de 1969.

Branco, Fernando Castelo: Antnio Srgio no Brasil, in *Dirio 
de Notcias+,
1978-02-09 e 1978-02-16.

1036                                             HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

S, Vtor de: A Historiografia Sociolgica de A. S., Biblioteca 
Breve, ICALP, 1979. N. > especial do seu centenrio, coord. de 
Fernando Catroga e Jos Carvalho Homem, Revista de Histria das 
Ideias, 5, 2 vols., Coimbra, 1983. (Tem larga bibliografia de e 
sobre A. Srgio); n, > especial da rev. Prelo, IN-CM, 11, 
Abril-Junho 1986.

Pita, Antnio Pedro: Uma Esttica da Inteligibilidade, 
(Re)leituras serganas, Coimbra, 1985.

Branco, J. Oliveira: O Humanismo Crtico de A. Srgio, Grfica 
de Coimbra, 1986. Edio de Antnio Srgio - Correspondncia 
para R. Proena, org. J. C. Gonzlez, estudo de F. Piteira 
Santos, Dom Ouixote-Bibl. Nac., 1987.

Medina, Joo/Mota, Srgio Campos/Ventura, Antnio, Estudos sobre 
Antnio Srgio, INIC, Lisboa, 1988.

H uma ed. crtica dos 8 vols. dos Ensaios de A. Srgio, S da 
Costa, 1971-74, no mbito de Obras Completas.

Jaime Corteso:

Volume na srie *A Obra e o Hornem+, organizado por scar 
Lopes. Saraiva, Ricardo: Jaime Corteso: subsdios para a sua 
biografia, Lisboa, 1953. Pref. de David Mouro-Ferreira ao vol. 
Poesias Escolhidas, Lisboa, 1960. Lopes, scar: Cinco 
Personalidades Literrias, Porto, 196 1, Modo de Ler, 1969; Os 
Sinais e os Sentidos, Caminho, 1986; Jaime Corteso, ed. 
Biblioteca Nacional, 1985.

guas, Neves: Bibliografia de Jaime Corteso; n.@ dedicados ao 
centenrio de J. Corteso da rev. Prelo, Dezembro 1984, 
*Colquio/Letras+, 83, Janeiro 1985, *Nova Renascena+, 17, 
Jan./Fev. 1985, *Rev. de Histria Econmica e Social+, n.@ 6-7 
dos seus *Cadernos+ sob o ttulo de Cidadania e Histria.

Costa, S da: 1985, *Rev. da Biblioteca Nacional+, 2. srie, 
1, 1986. Jos Garcia, Manuel: O Essencial sobre J. Corteso, IN-
CM, 1987 (tem bibliografia).

Raul Proena: Reys, Cmara: As Questes Morais e Sociais na 
Literatura, Lisboa, 1943. H uma muito completa ed. Dom Quixote, 
das Polmicas (995 pgs., incluindo textos de contendores), 
org., pref. e larga bibliografia por Daniel Pires, Dom Quixote, 
1988.

Teixeira Gomes:

Mouro-Ferreira, David: Aspectos da Obra de M. Teixeira Gomes, 
Lisboa, 1961, e

Sobre Viventes, 1976; e A Aco Cultural de A. Lopes Vieira, in 
Jornal Novo, 1978-03-13,
1978-03-16 e 1978-03-17.

Rodriques, Urbano Tavares: Manuel Teixeira^Gornes. introduo ao 
estudo da sua obra, Teixeira-Gomes e a reaco an tina 
turalsta, Lisboa, 1960, e M. T. Gomes: O Discurso do Desejo, 
Edies 70, 1984.

Em 1984 iniciou-se, com Inventrio de Junho, a reed. das Obras 
Completas de M. Teixeira Gomes, Bertrand, com anotao de 
variantes e pref. de U. Tavares Rodriques e Helena C. Buescu.

7.3 POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
                       1037

Mouro-Ferreira, David: Dois Estudos sobre T. Gomes, in Lmpadas 
no Escuro De Herculano a Torga, Arcdia, 1979.

Prefcios de Castelo Branco aos 2 vols. de Correspondncia, em 
Obras Completas, Lisboa, 1958-61.

Leonardo Coimbra:

Outros volumes: Adorao, 1921 (prosa lrica); A Razo 
Experimental, 1923; A Filosofia de Bergson, 1934; A Rssia de 
Hoje e o Homem de Sempre, 1935. Alm da ed. pstuma de Obras 
Completas, h 3 vols. de Dspersos, compilados e anotados por 
Paulo Samuel e Pinharanda Gomes, Verbo, 1986-88.

Marinho, Jos: O Pensamento Filosfico de L. Coimbra, Porto, 
1945; Alves, ngelo:
O Sistema Filosfico de L. Coimbra, Porto, 1962; Dionsio, 
Sant'Ana: L. Coimbra - O Filsofo e o Tribuno, IN-CM, 1985: 
Spinelli, Miguel: A Filosofia de L. C., Braga, 1981; Patrcio, 
M. Ferreira: A Pedagogia de L. C., Porto Editora, 199 1. Artigos 
em n.Is diversos da Nova Renascena, na rev. Leonardo e em L, C. 
Filsofo do Real e do Ideal, colectnea 1. D. 2_ Lisboa, 1985; 
h tratamento desenvolvido de L. C. no livro atrs mencionado de 
A. Ribeiro dos Santos sobre A Renascena Portuguesa, 1990; 
Lopes, scar: Entre Fialho e Nemsio, IN-CM, 1987, 1, pp. 235-
239.

Seara-Antologia, edio comemorativa do cinquentenrio, com um 
importante pref., org. e notas de Sottomayor Cardia, de que se 
encontram  data publicados os dois primeiros vols., Pela 
Reforma da Repblica (1921-26). Estudos sobre Raul Proena e 
Antnio Srgio em Joel Serro, Portugueses Somos, 1976. S, 
Vtor de: A Esperana e a Saudade no Nacionalismo da 1. 1 
Repblica, in Seara Nova, n. 1583, Set. 1977, Crticas severas 
de A. Srgio e de J. Corteso em Orlando Ribeiro, Introdues 
Geogrficas  Histria de Portugal, Lisboa, 1977.

Baptista, Jacinto: Jaime Corteso, Raul Proena      Idealistas 
do Mundo Real, Biblioteca Nacional, Lisboa, 1990.

Aquilino Ribeiro:


Pginas do Exlio, 1 (1908-14), 11 (1927-30), recolha de Jorge 
Reis, Vega, 1988. Volume da col. *A Obra e o Hornem+, org. por 
Manuel Mendes. Lopes, scar: Cinco Personalidades Literrias, 
Porto, 1961; Entre Fialho e Nemsio,
1, IN-CM, 1987, Para uma nova leitura de A. Ribeiro, in *Jornal 
de Notcias+, 1985.09.13, e Precises sobre o ruralsmo de A. 
Ribeiro, in *JL+, n. > 167, de 17 a 23 de Set. 1985 (n.@ 
especiais dedicados ao centenrio de A. Ribeiro); Ler e Depois e 
Modo de Ler, Porto,
1969; Uma Arte de Msica e outros ensaios, Oficina Musical, 
Porto, 1986; extenso pref.  ed. de A Casa Grande de Romariges, 
Crculo de Leitores, 1988; e artigo sobre A R. e a Infncia, in 
*Letras e Letras+ n. > 55, 18 de Set. 1991.

Coelho, Neily Novais: Aquilino Ribeiro: *Jardins das 
Tormentas+, gnese da fico aquiliniana, So Paulo, 1973.

Vol, Aquilino Ribeiro da Galeria Artis, 1963, pref. de F. Namora 
(iconograf ia e cronologia); ColquiolLetras, 85, Maio 1985, n. 
> dedicado ao centenrio de Aquilino; Boletim

1038                                              HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

Cultural, Vi srie, Nov. 1985, Fund. C. Gulbenkian, tambm 
comemorativo do centenrio; Vidigal, Lus: O Jovem A. Ribeiro, 
Livros Horizonte, 1986; Reis, Jorge: A. Ribeiro em Paris, 1987; 
Glossrio Aquiliniano, Henrique Almeida, Centro de Est. 
Aquilinianos, Viseu, 1988.

H trs estudos sobre A. R. em David Mouro-Ferreira, Sob o 
Mesmo Tecto, Presena, 1989.

Antologia da poesia desse perodo (e do seguinte): Lricas 
Portuguesas, 2. > srie, organizada por Cabral do Nascimento. 
Estudo e antologia: Joo Gaspar Simes, Histria de Poesia 
Portuguesa - Sculo XX, 1959. Antologia de sonetistas em geral 
esquecidos de cerca do 1. O quartel do sc. XX:  Sombra de 
Orfeu, selec. e apres. de M. Estela Guedes, Col. *Textos 
Esquecidos+, Guimares Editores, 1990.

Da obra de fico de Jlio Brando h um vol. de Contos 
Escolhidos, 1917, 2. a ed,

aum. 1945, 3. > ed., Lello, Porto, 1980. Informao sobre este 
autor no n. > especial de *Gazeta de Farnalico+, 1 de Abril de 
1991 (com bibliografia activa e passiva).

Para conhecimento do conjunto desta poca e das diversas 
personalidades, consultar livros e memrias e a correspondncia 
publicada de Jlio Brando, Raul Brando, Manuel de Laranjeira, 
Teixeira Gomes, Lopes de Oliveira, Eduardo Schwalbach, Brito 
Camacho, Nrton de Matos, Joo Chagas (4 vols., 1987), entre 
outros. Ver ainda Veiga Simes, A Nova Gerao, 1911, e o 
Inqurito Literrio, de Boavida Portugal, 191 S. (Incide sobre o 
saudosismo); ver sumrio desta e outras polmicas em J. Palma-
Ferreira, Os Inquritos Literrios (1912-1920), sep. da *Rev. 
da Histria das ldeias+, vol. 8, Coimbra, 1986, pp. 507-533.). 
Castelo Branco Chaves, Memorialstas Portugueses, *Biblioteca 
Breve+, lCLP, Lisboa.

Martocq, Bernard: le Pessimisme au Portugal (1890-1910), in 
Arquivos do Centro Cultural Portugus, vol. V, Fundao C. 
Gulbenkian, Paris, 1972, e Manuel Laranjeira etson Temps (1877-
1912), Centro Cult. Port., Paris, 1985. Tem tambm colab. no n.o

15 da rev. Prelo, IN-CM, Abril-Junho 1987, dedicado ao terna 
DecadncaIPessimismo.


Coelho, Jacinto do Prado: A Letra e o Leitor, 2.1 ed. 1977, e Ao 
Contrrio de Penlope, Bertrand, 1976 (estudos sobre Pessanha, 
R. Brando e Pascoais). Fernando Guimares, em Linguagem e 
Ideologia, Porto, 1972, estuda as implicaes do estilo 
simbolista.

Actas do Colloque Intern.: Du Symbolisme au Modernisme au 
Portugal, 1990, a ed. pelo Centro Cultural Portugus, Fund. C. 
Gulbenkian, Paris.

Captulo III

GERAO DE *ORFEU+

Primeiro grupo modernista

Por incios da guerra de 1914-18 reuniram-se os factores de um 
movimento esttico ps-simbolista em Lisboa. A se conheceram, 
entre outros, Fernando Pessoa, cuja adolescncia se formara na 
frica do Sul, dentro da cultura inglesa, Mrio de S-Carneiro, 
que entre 1913-16 passou grande parte do tempo em Paris, Almada-
Negreiros e Santa-Rita Pintor, que traziam de Paris as novidades 
literrias e sobretudo plsticas do futurismo e correntes afins. 
A estas e outras personalidades do grupo atribuiu a opinio 
pblica sinais de degenerescncia, mas hoje  fcil reconhecer 
que eles produzem, em conjunto, a maior renovao potica 
portuguesa deste sculo. Particularidades de formao e 
temperamento relacionveis com uma maior instabilidade social, e 
com influncias cosmopolitas mais ou menos directas, haviam-nos 
alheado tanto dos republicanos jacobinos como de um 
tradicionalismo mais ou menos novi-romntico. Alguns manifestos 
como o Ultimatum de Almada-Negreiros e o de lvaro de Campos, no 
Portugal Futurista, exprimem at o repdio de todas as formas de 
idealismo romntico da pequena burguesia e tambm de todas as 
formas culturais que assumiam no tempo, quer esse idealismo, 
quer as suas mistificaes. Pessoa colaborou em A guia, mas 
dando do saudosismo uma verso extremista e provocatria, e 
rompendo as ltimas amarras que o poderiam, dubiamente, prender 
ao senso comum

do tempo.

Neste grupo, e afins, cujos rgos principais formam Orpheu (2 
nmeros,
1915), Ehreal!l (1 n. 1, 1915), Centauro (1 n. 1, 1916), Exffio 
(1 n. O, 1916),

1040                                       HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
Icaro (3 n.@, 1916), Portugal Futurista (1 n.o 1917), 
Contempornea (1922-26, 3 sries, 13 n.'s), Athena (1. srie, 
1924-25, 5 ri.@), Revista Portuguesa, 1923, e Sudoeste (S. W., 
3 vols., 1935), nada h de definidamente programtico: com a 
irreverncia iconoclstica, que utiliza todas as

formas possveis de publicidade, mesmo as mais cabotinas, 
alternam apenas certas formas de um sebastianismo delirante, o 
gosto das cincias ocultas, da metapsquica, da astrologia e uma 
religiosidade heterodoxa e esotrica. Em vez do escndalo 
poltico  Gomes Leal,  o escndalo dos costumes e do senso 
comum que traz a notoriedade. O grupo modernista acolhe ngelo 
de Lima (ri. 1872-07-30 - t 1921-08-14), cuja poesia  uma 
mensagem do seio da loucura; Antnio Botto (ri. 1897-08-17 - t 
1959-03-17, Brasil), que, desde Canes (1921-22, reed. aum. 
1956 e 1980), alia uma boa versificao livre, em ritmo cantante 
quase tradicional, a uma grande candura e irregularidade de 
estilo, e que deixou tambm um volume extraordinariamente 
fluente de Contos; e Raul Leal (ri. 1886-09-01 - t 1964-08-18), 
poeta em francs de uma mstica paracletiana. Mrio Saa (ri. 
1893 -06-18 t 1971-01-23), paradoxalmente modernista e 
arcaizante, distinguir-se- pelo anti-semitismo e por teses 
eruditas sensacionais. Antnio Ferro (ri.
1895-08-17 - t 1956-11-11), ligado ainda novo ao grupo de 
Orphcu, levaria para o jornalismo e para a orienta o do 
Secretariado de Propaganda Nacional (1933) um certo modernismo 
formal, cujo lado provocativo se fizera antes sentir nos 
aforismos algo paradoxais da Teoria da Indiferena, 1920, e de 
Leviana - novela em fragmentos, 1921, 4. a edio definitiva, 
1920, e na

pea de escndalo Mar Alto, 1924. (Obras de A. Ferro: I - 
Interveno Modernista, org. e intr. de Antnio Quadros, 1987.)


 parte Fernando Pessoa e no mencionando S-Carneiro, que 
adiante estudaremos, a figura mais original do grupo modernista 
 Jos Sobral de Almada-Negreiros (ri. Lisboa, 1893-04-07 - t 
1970-06-15), que se distinguiu como artista plstico. Redigiu 
alguns dos mais irreverentes manifestos futuristas e outros, 
conferncias e vrios textos doutrinrios: Manifesto Anti-
Dantas, 1915, apresentao da Exposio de Amadeu de Sousa 
Cardoso, 1916, A Cena de dio, ed. 1923, Direco nica, 1933, 
orientao e colaborao de S. W., o Elogio da Ingenuidade, 
1938, Mito - Alegoria - Smbolo, 1948. Produziu algumas curiosas 
e diferentes experincias do interseccionismo teorizado por 
Pessoa, como Saltimbancos (em Portugal Futurista), K 4 O 
Quadrado Azul, 1917, e A Engomadeira, 1917, o melhor

7. a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
            1041
O
texto do gnero, precursor de uni automatismo *Surrealista+ que 
to bem sabe captar a atmosfera epocal e lisboeta. Mais bem 
logradas so ainda as pequenas obras-primas em que tenta 
recuperar uma ingenuidade mtica e infantil, todas dispersas por 
vrias revistas, sobretudo Contempornea, excepto a de maior 
flego, A Inveno do Dia Claro, 1921. Em 1938 saiu Nome de 
Guerra, reed. 1956, onde a caracterstica candura recuperada do 
seu estilo se integra num bom romance de aprendizagem, cujo 
protagonista acaba por descobrir com espanto, numa experincia 
ertica, a sua prpria espontaneidade inalienvel. Trata-se de 
uma obra j com afinidades existencialistas, mas com uma verdade 
(ou um cinismo burgus) que o nosso existencialismo literrio 
no voltaria a atingir to naturalmente. Almada  ainda autor de 
peas teatrais com estrutura simblica, por vezes quase 
baltica, em que os temas, anlogos aos do romance e de certos 
textos doutrinrios, giram em torno

da autenticidade individual nas suas relaes com o amor e a 
mais larga convivncia humana: Antes de Comear, 1919, editado 
em Teatro Portugus de Lus-Francisco Rebelo, Deseja-se Mulher, 
1928, reed. Teatro - I Volume,
1959, Pierrot e Arlequim, 1924, S. O. S., ed. parcial em S. W., 
1935, alm de inditos e tambm do texto e coreografia de trs 
bailados. Obras Completas publicadas em seis volumes, 1970-72, 
agora em reedio aumentada.

MRIO DE S CARNEIRO

Mrio de S-Carneiro (n. Lisboa, 1890.05.19 - t 1915.04.26) 
principiou a sua carreira individual como contista (Princpio, 
1912, reed. 1985; A Confisso de Lcio, 1914, reed. 1945; Cu em 
Fogo, 1915, reed. 1966), e s em 1913, em Paris, se descobre, de 
facto, poeta (Disperso, 1914, reed.
1939; Indcios de Oiro, 1937; Poesias, 1946). O motivo central 
da sua obra

 o da crise de personalidade, a inadequao do que sente ao que 
desejaria sentir. Essa crise transmuta-se nalguns poemas na 
expresso frentica de uma

iminente plenitude vivencial apontada a *viajar outros 
sentidos, outras vidas+, para alm do ponto em que as 
categorias lgicas deixam de impor-se e quando tudo 
psicologicamente se perverte ou subverte. As novelas traem mais 
a


formao decadentista-saudosista da sua esttica, empenhada em 
perseguir virtualidades onricas ou implaus veis e certos 
meandros que hoje podem parecer psicanalticos das relaes 
erticas reais ou desejadas. As Cartas a

Fernando Pessoa, dois volumes, 1958-59, escritas quase todas de 
Paris entre

1042                                        HISTORIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
1912 e o seu suicdio, so como o dirio da sua converso  
poesia paulista, sensacionsta e interseccionista do amigo, e da 
elaborao da sua novelstica, bem como da poesia que em grande 
parte a condensa e depura, at ao

verdadeiro e trgico encontro frontal com as suas frustraes, 
que lhe custou a vida, embora nos valesse tambm o melhor da sua 
obra. Os poemas empenham-se, sobretudo, em pesquisar indcios de 
um oiro perdido de plenitude. H uma exuberncia de imagens em 
que se traduzem, por vezes, as

dimenses de uma alma intensamente vibrtil, capaz de 
multiplicar-se e

identificar-se com as coisas e as pessoas; mas so sensveis as 
limitaes de uma megalomania egoltrica: a primeira pessoa 
verbal e pronominal torna-se obsessiva, a tortura das 
construes e metforas, a acumulao orgistica de sinestesias 
traem esforos falhados e o esgotamento narcsico de qualquer 
simpatia irradiante (vertiginar, odorar, zebram-se armadas de 
cor, a

luz a vrgular-se de medo; etc.). So em geral mais 
comunicativos poemas como Quase, em que palpita um drama j sem 
imagens decadentes e prximo do tom da fala normal; e mormente 
as suas ltimas poesias, carregadas do auto-sarcasmo de filho-
famlia que se sente intil, desajeitado, incapaz de afectos 
comezinhos, *Esfinge Gorda+ tramando a traio balofa ao

mundo real por outro mundo que j nem consegue fingir. (Ver a 
relao de numerosos inditos e dispersos no livro de F. Castex, 
ref. em Bibliografia.)

O estilo caracterstico de S-Carneiro foi preludiado na poesia 
Pauis de Fernando Pessoa, publicada em 1914 na revista 
Renascena, e tem no Oipheu outros cultores, como Alfredo 
Guisado (n. 1891-10-30 - t 1975-11-30) ou, em pseudnimo, Pedro 
de Meneses, que aproxima o decadentismo da alegoria ou de uma 
saudade rural luso-galega (Distncia, 1914; As Treze Baladas das 
Mos Frias, 1916; Mais Alto, 1917; nfora, 1918, reed. conjunta 
em Tempo de Orfeu, 1970), e Armando Cortes-Rodrigues (n.

1891-02-28 - t 1971-04-14), em pseudnimo Violante de Cisneiros, 
que de simples epgono de S-Carneiro se transformaria depois 
num lrico da simplicidade franciscana popular, e de uma 
comovida saudade do amor ausente por morte (Antologia de Poemas, 
1956, abrangendo poesias publicadas entre
1915-55). Mencionemos ainda entre os colaboradores de Orpheu, 
alm do brasileiro Ronald de Carvalho, Lus de Montalvor 
(pseudnimo de Lus da Silva Ramos, 1891-1947), poeta de gosto 
decadentista (Poemas, 1960), que mais tarde lanaria a 1. 1 
edio das Obras Completas de Pessoa e de S-Carneiro e, deste 
modo, a sua tardia mas fulgurante consagrao.

7. - POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
          1043
O
ffiFERNANDO PESSOA (n. 1888-06-13 - t 1935-11-20)

 a mais importante personalidade das tendncias modernistas 
portuguesas At morrer, a sua influncia quase s se fez sentir 
num crculo estreito de admiradores; a partir da atribuio de 
um discutido segundo prmio oficial  Mensagem (1934), surgem 
contraditrias correntes de admirao; quando, no mesmo ano de 
1942 em que sai, organizada por Adolfo Casais Monteiro, uma 
antologia em dois volumes, Lus de Montalvor e Joo Gaspar 
Simes iniciam a publicao das suas Obras Completas, em 11 
volumes, - Fernando Pessoa torna-se o mais influente dos nossos 
poetas modernos. A esta generalizao tardia e sbita da sua 
influncia significa, plausivelmente, que a

sua obra apreendeu certas inquietaes e ansiedades numa altura 
em que elas passavam despercebidas, porque ainda se fingia 
acreditar em certos valores ou sentimentos de expresso potica, 
em certos ideais ou emoes retoricamente caritativos ou cvicos 
que, no fundo, se haviam esvaziado de qualquer autenticidade. Na 
sua obra h um mundo de velhas certezas ou sinceridades que se 
desagregam e expem com uma justeza potica inexcedvel, porque 
Pessoa ope-se  metafisica sentimentalista romntica, que 
abstrai da razo a sensibilidade: *o que em mim sente est 
pensando.+

A distribuio que o poeta faz de grande parte da sua obra por 
vrios heternimos tem dado ensejo a numerosas discusses sobre 
a sua unidade ou pluralidade, nvel de sinceridade ou sobre a 
fundamental dinmica, quer de conjunto, quer peculiar a cada 
signatrio.

Com efeito, os heternimos so, pode dizer-se, uma inveno nova 
na


lrica europeia, embora j inerente  tradio dramtica. 
Podemos talvez compreend-la supondo que cada heternimo 
corresponde ao ciclo de uma atitude de aparncia implausvel, 
mas experimentada at s ltimas consequncias - como se fosse 
um repto a dada convico ou opinio aceite; cada heternimo 
parece apostado em invalidar uma tese de algum modo consagrada, 
e acaba por tambm se invalidar como anttese. Assim, o 
heternimo Alberto Caeiro reage em verso prosaicamente livre 
contra o transcendentalismo saudosista, evidenciando que *o 
nico sentido oculto das coisas /  elas no terem sentido 
oculto nenhum+, e contra o farisasmo, ento concorrentemente j 
acobino e devoto, da poesia compassiva humanitria. O heternimo 
Ricardo Reis exprime, contra aspiraes de sobrevivncia post 
mortem ou de progresso humano, e em estilo que pelas formas 
estrficas

1044                                       HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
e loci communes clssicos pode parecer neo-arcdico (embora 
apresentando por vezes uma densidade potica revivificadora de 
modelos horacianos), - a

antiga sabedoria epicurista egocntrica, que se reduz  
estimativa e opo astuta entre dores e prazeres provveis, num 
mundo que tanto faz considerar dominado pelos fados inelutveis 
como por um jogo de foras transcendentes ao nosso conhecimento; 
e assume por vezes um herico orgulho pela precria conscincia 
humana, num mundo talvez todo ele inconsciente. O heternimo 
lvaro de Campos, pelo contrrio, prega nas odes em verso livre 
entusistico,  maneira de Walt Whitman, a sabedoria futui-ista 
da sem-razo, da energia mecnica, da vida jogada por aposta; ou 
ento o anseio, mais whitmaniano ou sensaconista, de *sentir 
tudo de todas as maneiras+. A assinatura Fernando Pessoa, em 
oposio ao normalmente extrovertido lvaro de Campos, formula, 
em redondilhas rimadas  tradicional maneira portuguesa, a 
meditao introvertida fazendo *novelo embrulhado para o lado 
de dentro+, em que o eu se perde na contradio de, ao mesmo 
tempo, querer

ser uma *alegre inconscincia/E a conscincia disso+; e, pela 
sua fina conjugao de sugestes de tom verbal, de timbres, 
articulaes, ritmo e rima, tanto lembra, por vezes, Eugnio de 
Castro, Pessanha, o simbolismo verlainiano francs, como Edgar 
Poe, isto , o poeta que nas literaturas de lngua inglesa serve 
de modelo a uma escola de poetas-artfices, geralmente em 
oposio  improvisada exuberncia unilinear e enumerativa de 
Whitman.

Ora, estas atitudes fundamentais de cada heternimo desdobram-
se, por seu turno, em paradoxos insanveis. Na fico de 
interItdio que  cada um

deles, pode mesmo distinguir-se o esboo de um ciclo em que a 
postura inicialmente assumida acaba por se reduzir ao absurdo. 
Assim, ao negar progressivamente todo o substrato de percepo 
sensvel, todo e qualquer alm para os dados ou para os objectos 
sensoriais individualizados, Caeiro acaba tambm por reduzir 
toda a racionalidade do aqum visvel a uma tautologia 
conformista (*tudo  como , e assim  que +) ou a um simples 
ver que


nem assevera qualquer ser presente ou nomevel; Caeiro, 
portanto, at pelo modo irnico e inteiramente consequente como 
desdobra as suas premissas, tanto destri o postulado, 
caracteristicamente saudosista, de uma transcendncia ao 
concreto sensvel, como se destri a si mesmo, em vrios 
momentos, formas ou fases de irnica absurdez, incluindo um 
peculiar e mais radi-

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
             1045
O
cal saudosismo-transcendentalismo, por vezes at explcito 
(Pastor Amoroso, e antepenltimo dos Poemas Inconjuntos). De 
qualquer modo, os seus versculos pausadamente insistentes, 
tendentes a uma ingenuidade por vezes

cnica, como a de Almada, trazem uma respirao inteiramente 
nova  poesia portuguesa.

O heternimo lvaro de Campos, o das odes dionisacas, 
entusisticas,  Whitman, subscreve tambm desde cedo algumas 
das expresses mais penetrantes de um tema oposto, o que 
acarreta por seu turno uma das perplexidades axiais de Pessoa: o 
tema dos estados evanescentes de sonolncia, enjoo, cansao, 
ateno marginal, desagregao subjectiva, apreendidos no 
entanto

com uma segurana e apetncia de lucidez que problematiza e 
dinamiza a unidade do eu, arreda a espontnea metafsica da 
substancialidade psicolgica. A este problema do *eu+ trouxe 
Pessoa muitas frmulas inquietantes (*de quem  o olhar que 
espreita por meus olhos?+; *tenho um medo maior do que eu+), 
ligando alis o desgarramento da unidade pessoal, a frustrao 
individualista, a um vazio de simpatia social - mas tambm  
sbita e paradoxal surpresa de que *os outros tambm so eu+.

Em muitas das lricas assinadas pelo seu nome prprio o tema 
central  o de aspirao a um objecto indistinto, ou que o poeta 
quer indistinto para que no minta, ou decepcione. Acontece que 
tal objecto seja tambm um

sujeito, no menos indeterminado, um sujeito no apenas 
individual, mas

irradiante para outros seres, como uma pobre ceifeira (*Ah! 
poder ser tu, sendo eu!+), um gato que brinca na rua, a criana 
que o poeta mal foi mas

finge (sabe-o bem) no seu prprio passado, um sujeito annimo, 
porque (como tambm se descobre em certas odes, alis epitfios, 
de Ricardo Reis) o que em ns conta e o que subsistir um dia de 
ns no  coisa nenhuma, nem


mesmo o nosso prprio nome, que to ntimo sentimos de ns mas 
nada diz aos outros:  o esquema impessoal de um acto, um 
sorriso ocasional sem nome, algo em ns de dinmico mas que mal 
nos representamos. E para apreender to fluido objecto (e 
sujeito) das mais inefveis ansiedades, Pessoa, discpulo de 
Pessanha, usa muitas vezes, como em Cessa o Teu Canto, uma 
construo ditemtica de tipo musical, forma-sonata: a 
alternao e conjugao de dois temas, o tema solar de apego a 
uma qualquer estrita aparncia positiva (nesga paisagstica, 
voz, companhia, msica) - e o antitema lunar de algo que, no 
sendo real, comea talvez a ser real, mas se no define, 
portanto no satisfaz, portanto remete, ciclicamente, ao 
primeiro tema.

1046                                        HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
Pessoa apreende, assim, todo um conjunto de vivncias, 
intuies, em

pleno conflito interno. A explcita carga inquisitva da sua 
poesia  inesgotvel, e seria necessrio ir a Cames para 
encontrari-nos na literatura um poeta comparvel sob este 
aspecto. Quase no h recanto na sua personalidade que no tenha 
noutro recanto uma anttese justa, mas tambm precria. O que 
explica a busca de uma dramaturgia sem precedentes. O seu 
*drama esttico+, O Marinheiro,  um maravilhoso poema 
polimonologal em prosa lrica, provavelmente a melhor realizao 
europia do teatro simbolista; deixou ainda outros 
impressionantes esboos dramticos, inclusive de um Fausto 
oposto ao de Goethe - um Fausto da abulia, impotncia, 
cepticismo radicais. lvaro de Campos subscreve longos poemas 
admirveis, como Ode Martima, Tabacaria, que sondam ou revolvem 
o senso camoniano da mudana, agudizando uma inquietao sobre o 
destino csmico e humano j a esboar-se em O Firmamento de 
Soares de Passos. Mas a sua emoo, como toda a emoo pensante, 
imensamente variada, da obra de Pessoa, no chega a ganhar 
movimento dramtico ou pico. Pessoa fica-se no cais, confinado 
numa espcie intelectual de coragem, alis como tal muito funda, 
com o *medo ancestral+, o *enjoo+ de partir, de abalar, de 
cortar amarras. A sua lucidez vibrtil v todo um mundo 
conceptual a esboroar-se, sem razo de ser, e limita-se a 
testemunhar os seus fragmentos, e contra-sensos. A vida (segundo 
sugere, ou explicita de um modo alis sempre dbio, em smbolos 
esotricos rosa-crucianos, ou bandarristas como na Mensagem) s 
poderia ter um sentido oculto, no seu todo pessoal, nacional ou 
humano.

Na Tabacaria, por exemplo, ope o ramerro quotidiano, a 
pequenez do destino humano pessoal (ou nacional, ou humano) ao 
alternativo pavor pela infinidade espacial (e temporal) dos 
mundos, que todavia Giordano Bruno e Isaac Newton tinham 
descoberto com religioso entusiasmo. Tudo criticando ou 
desvalorizando, depois de anulado qualquer sentido do progresso, 
o esprito reflexivo de Pessoa acaba, em certos momentos, por 
desvalorizar a sua prpria razo humana. Da um estado de 
disponibilidade para todos os fingimentos, desde um super-
saudosismo irnico, ao super-sebastianismo de um


Quinto Imprio Espiritual portugus (de que ele seria o Super-
Cames),  astrologia e outras cincias ocultas. E, 
alternativamente com isso, e por isso mesmo, uma *terrvel 
estranheza de existir+, um acordar para a *inisteriosa 
importncia de existir+, que preludia existencialismo de meados 
do sculo.

7. a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
                1047
O
No entanto, se Pessoa se escusa  expresso inequvoca, no-
irnica, de qualquer convico, ele  um verdadeiro e grande 
poeta porque transborda de uma grande tenso comunicvel. 
Aponta-se muitas vezes S-Carneiro como

o poeta em que a conscincia sinttica do mundo e da 
personalidade se desintegra e perde os seus suportes. Todavia,  
Fernando Pessoa o poeta que anula toda a metafisica mais 
corrente (e inconsciente) acerca do mundo e da personalidade. 
Apesar do seu namoro corri as cincias ocultas, que,  luz dos 
valores literrios produzidos, conta como mais um *fingimento+, 
sincero pela negao das convices e de outras pretenses 
cientficas e progressivas, - a
metafisica, o absoluto transcendente aos homens, em Pessoa, 
parece quase sempre algo de inapreensvel, que s se depreende 
das suas poesias (e ensaios) pelo facto de elas ficarem 
imprecisas quanto a qualquer perspectiva do devir humano; e o 
sentido do mistrio , em Pessoa, quase inteiramente movedio, 
dialctico, alternando, se no coexistindo, com a prpria 
lucidez,  a sombra inevitavelmente projectada pela prpria luz 
pensante. Com excepo de atitudes mais ou menos ocultistas, a 
obra de Pessoa, como a de Poe, Mallarin ou Valry, raro se 
gratifica com a pretenso romntica e, nalguns casos, simbolista 
ou modernista, de uma inspirao, uma origem meramente 
inconsciente. Pessoa sente-se muito consciente, altamente 
consciente como poeta; simplesmente, os estados poticos de 
conscincia so, como todos

os outros (ou mais que todos os outros), autocontraditrios e 
instveis, pressupondo por isso a conscincia de no ser 
absolutamente consciente: a conscincia de se ser sempre, de 
algum modo, inconsciente. Tal perplexidade da conscincia-
inconscincia percorre toda a poesia de Pessoa.

Analogamente, a dialctica da sinceridade-fingimento: a 
sinceridade reduz-se a um momento mais ou menos impondervel de 
um fingimento que  vital, psicolgica e socialmente necessrio, 
embora a abulia de Pessoa (como j no sculo XVIII a de Matias 
Aires) no aponte para uma viso reconstrutiva do mundo material 
ou social; Pessoa limita-se a sentir o que h de *prtica anti-
social+ na sinceridade. Todo o sentimentalismo acamado pela 
nossa


tradio lrica desaba com a sua intuio liricamente 
subversiva, na poca, de que *o que em mim sente est 
perisarido+. O prprio conceito substancialista do eu, to 
arregado pelo subjectivismo romntico, e que iria ainda 
resistir, em muitos autores novecentistas, ao varejamento de 
Pessoa, se reduz com ele a uma corrente de conscincia que  
inapreensvel, salvo em relao a

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LITERATURA PORTUGUESA
O
um no-eu; o mundo ntimo, diz-nos constantemente a sua poesia, 
no  nem

mais nem menos ntimo que o mundo exterior, pois no passa de 
resduo inefvel do que se diz ou pensa ou age. Deve, no 
entanto, notar-se que Pessoa quase no d, em verso, imagens 
flagrantes das fases de gnese da conscincia (ou do eu) a 
partir de uma experincia de sociabilidade quotidiana;

a sua poesia sugere antes sucessivos graus (e no fases) do eu, 
que iriam desde a personalidade viva em dado momento - at 
formas talvez descarnadas, e graduadas em srie indefinida, de 
conscincia csmica mais ou menos contemplativa, que ele designa 
por vezes como os deuses. Quer dizer: o poeta esboroa, reduz a 
coisa meramente relativa o eu psicolgico, mas o condicionamento 
desse eu  deslocado (mesmo em certos momentos de Caeiro) para 
uma srie de cus em que a interaco sujeito individual/sujeito 
social e objecto material se exime a qualquer determinao, 
salvo a de um mito

emanatista de recorte neoplatnico.

Com esta abulia, este evidente abstractismo relativamente  
realidade histrico-social e outra (e, dentro de certos limites, 
caractersticos do comportamento psicolgico do prprio Pessoa, 
se ressalvarmos a sua eficaz vontade de expresso) est 
relacionada a sua principal limitao literria: o conceptismo 
escolstico da maioria dos seus textos doutrinais ou novelescos 
e a subalternidade, quase s exemplificativa, das suas imagens 
sensoriais. Com excepo de poemas como Hora Absurda, concebido 
dentro de uma esttica  S-Carneiro, e Chuva Oblqua, poema 
nterseccionsta modelo, em que as imagens esto dispostas no 
sentido de desarticular a prpria evidncia da percepo, e, 
ainda, de vrios poemas dominados pela preocupao de denunciar 
a construo da experincia passada pela experincia presente, e 
vce-versa - isto , resumindo: com excepo das imagens 
exigidas funcionalmente por inquietaes e apelos ntimos bem 
pouco sensoriais, a poesia de Pessoa  mais *musical+ que 
visualista. Ricardo Reis, que se pretende um


epicurista horaciano, e Alberto Caeiro, para quem teoricamente 
s a percepo visual existe, exprimem-se, afinal, quase s por 
ideias ou emblemas caractersticos dos estilos que adoptam. 
Fernando Pessoa pertence, com efeito, como Bernardim, Cames e 
Antero de Quental, a uma categoria de poetas em que uma apreens 
o das prprias contradies do sentir pensando corresponde, 
formalmente, ao predomnio de ritmos sempre de algum modo 
verbais sobre a evocao de objectos plsticos.

7. a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
            1049
O
A obra de F . Pessoa j editada (e muita aguarda adequada edio 
crtica) abrange mais de uma trintena de volumes. Salientemos, 
ao lado da Obra Potica, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 
1965, Obra em Prosa da mesma coleco, 1986, Pginas de Doutrina 
Esttica, 1946, Pginas de Esttica e de Teoria e Crticas 
Literras, 1966, Pginas ntimas e de Auto-Interpretao,
1966, Textos Filosficos, 2 vols., 1968, Cartas de Amor de F. 
Pessoa, 1978, Da Reptblica (1910-1935), 1978, Sobre Portugal - 
Introduo ao Problema Nacional, 1979, Textos de Crtica e de 
Interveno, 1980, Ultimatum e Pginas de Sociologia Poltica, 
1980.

Teve muito especial importncia a classificao e publicao de 
fragmentos que o autor destinava a um Livro do Desassossego, 
1982, onde, entre esboos, paradoxos e reflexes de um suposto 
diarismo ablico anlogo ao

do suo Henri-Frdric Amiel, ento em voga, avultam certos 
tratamentos dos temas de outros heternimos, aqui atribudos a 
Bernardo de Passos (ou Vicente Guedes), empregado de escritrio 
(como Pessoa), muito densos de referncias a um quotidiano 
lisboeta que , sensivelmente j actualizado para cerca de 1930, 
o de Cesrio. Esboado entre 1912 e 1917 como recolha de

fantasias decadentistas-simbolistas e outros textos heterogneos 
de breve ensasmo, o projecto do Livro avulta desde 1929 num 
registo pouco ficcionista de anotaes ocasionais oscilando 
entre o sonho, o tdio, a tortura da auto-anlise, a pluralidade 
das franjas em que se desdobra uma ateno-desateno 
despolarizada, as vicissitudes entre uma dominante misantropia e 
uma sbita simpatia humana, e, por outro lado, uma requintada 
sensibilidade entre impressionista e decadentista aos estados 
meteorolgicos, s gradaes de cor, de claro-escuro, de som ou 
rudo, nos ciclos dirio ou anual da cidade (e hortas 
circundantes), e  comparsaria entre ridcula e enternecedora de 
tipos humanos comuns: gente de escritrio e armazm, de 
restaurante, caf ou barbearia, de rua, entre-portas e sacadas. 
A seguir a Ea e

Cesrio, para cerca de 1880, a Rodrigues Miguis, para o 
primeiro quartel do sculo, -  Bernardo Soares quem mais 
inesquecivelmente reaviva uma


Lisboa onde ainda se ouvem preges, mas j tambm o ranger dos 
elctricos nas calhas, as buzinas e o atrito dos automveis no 
pavimento, tudo dentro de uma redoma onde se contm as imensas 
frustraes de uma galeria de gente simples ou pelintra que, sem 
ele, ficariam inconfessas.

1050                                             HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
11111M191f106,AFIA
O
De todos os principais autores h extensos estudos em scar 
Lopes, Entre Fialho e Nemsio, li, IN-CM, 1987, pp. 474-581; Os 
Sinais e os Sentidos, Caminho, 1986, pp.
17-29; Cifras do Tempo, ibidem 1990.

Sobre autores de fins de sculo XIX -e sculo-XX:

Nemsio, Vitorino: Conhecimento de Poesia ed. Verbo, s/d.

Simes, Joo Gaspar: Perspectiva Histrica da Poesia Portuguesa, 
Porto, 1976. Monteiro, Adolfo Casais: A Poesia Portuguesa 
Contempornea, Lisboa, 1977. Pereira, Jos Carios Seabra: Do 
Fim-do-Sculo ao Tempo de Orpheu, Almedina, Coimbra, 1979.

Guimares, Fernando: Simbolismo, Modernismo e Vanguardas, IN-CM, 
1982 (contm o inventrio das principais revistas desde o 
Simbolismo at 1980), e No Cinquentenrio da *Rev. de Portugal+ 
de V. Nemsio, in *Colquio/Letras+, n. 100, Nov./Dez.
1987, pp. 87-92.

Lisboa, Eugnio: Poesia Portuguesa: do *Orjoheu+ ao Neo-
Realismo e O Segundo Modernismo, *Biblioteca Breve+, ICAP, 1980 
e 1977, respectivamente.

Importam ao estudo de toda a tradio vanguardista os dados 
recolhidos por Clara Rocha, Revistas Literrias do Sculo XX em 
Portugal, IN-CM, 1985.

Neves, Joo Alves das: O Movimento Futurista em Portugal, 2 a 
ed. rev. e ampi., 1987. Ver estudos panormicos e monogrficos 
de Um Sculo de Poesia (1888-1988), Assrio e Alvim, 1989 
(contm um artigo de sntese de O. Lopes).

Grupo de Orpheu

Artigos constantes da seco Fernando Pessoa e o Movimento de 
*Orpheu+, em

Estrada Larga, 1, j referida.

Simes, Joo Gaspar: Vida e Obra de Fernando Pessoa (Histria de 
uma Gerao),
3. a ed. rev., Lisboa, 1973.

Vrios artigos insertos em Tetracrnio - Meio Sculo XX de 
Literatura Portuguesa, atrs referida.

Introduo de Jos Augusto Seabra  sua traduo de Fernando, 
Pessoa, le retour des Dieux, manifestes ou modernisme portugais, 
Ed. Champ Libre, Paris, 1973.

Os dois vols. de Orpheu foram reeditados em 1959 (1) e 1976 
(11), com estudos de Maria Aliete Dores Galhoz; de Orpheu 3 
foram publicadas em fac-smile Provas de Pgina, ed. Nova 
Renascena, Porto, 1983, com apres. de Jos Augusto Seabra, e 
ainda ed. com preparao de texto, intr. e cronol. de Arnaldo 
Saraiva, tica, Lisboa, 1984. Ed. fac-similada dos dois n.@ e 
das provas de pgina da 3. a p. Contexto, 1989.

Antologia: A Gerao de Orpheu para estudantes liceais, selec. e 
orientao de M. Manuela Cabral, 1988, e de Poesia de Orpheu, 
org. e apres. de Ftima Freitas Morna, *Textos Literrios+, 
Comunicao, 1982, reed. 1987.

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
                          1051

Sousa, M. Leonor Machado de: O Futurismo do *Portugal 
Futurista+, in Estudos Italianos em Portugal, 38-39, 1975-76, 
pp. 171-182.

Reproduo fac-similada de Portugal Futurista, Contexto Editora, 
Lisboa, 1981, com

estudo de Nuno Jdice e Gustavo Nobre, tbuas cronolgicas e 
bibliografia, 4. > ed. 1990, e ainda, pela mesma editora, das 
revistas Exlio, Centauro, Revista Portuguesa, SIN (Sudoeste), 
Eh Real, Athena e Contempornea (esta at ao vol. IV, em 1992, 
faltando apenas o vol. V).

Ver ainda Orpheu: 60 anos, Biblioteca Munic. de V. N. de Gaia, 
s/d (1976), de colab. colectiva. Cleonice Berardinelli, Estudos 
de Literatura Portuguesa, IN-CM, 1985 (contm
12 estudos sobre a Gerao de Orpheu). Saraiva, Amaldo: O 
Modernismo Brasileiro e o Modernismo Portugus, com um vol. de 
Documentos Inditos e outro de Documentos Dispersos, dissertao 
de doutoramento, ed. Porto, 1986. Jdice, Nuno: Poesia Futurista 
Portuguesa, Regra do Jogo, 198 1, e A Era de *Orpheu+, Teorema, 
1986 (sobre reaces jornaisticas  revista). Quadros, Antnio: 
O Primeiro Modernismo Portugus. Vanguarda e Tradio, Europa-
Amrica, 1989. Martinho, Fernando J. B.: Poesia e a Moderna 
Poesia Portuguesa - de Orpheu a 1960, *Biblioteca Breve+, 1983; 
Pessoa e os Surrealistas, Hiena, 1988; Mrio de S Carneiro, e 
o(s) outroW, Hiena, 1990 (estudos de recepo activa).

S-Carneiro

Poemas Juvenis (1903-08), intr. e notas de F. Castex, Centro de 
Estudos Pessoanos, Porto, 1986; A Alma, pea de S-Cameiro e 
Ponce de Leo, Rolim, 1987; Cartas de M. S-Carneiro, Limiar, 
1977, e Correspondncia Indita de M. de S-Carneiro e F. 
Pessoa, Centro de Estudos Pessoanos, Porto, 1980, ambos os vols. 
com intr. e notas de Arnaldo Saraiva. Obra Potica e em Prosa de 
M. S-C., org. A. Quadros, 3 vols., Europa-Amrica, 1985.

S-Carneiro em ---Azulejos- (Contas Breves), Contexto, 1986; 
Obra Completa (1903-1916), org. por Ant. Quadros, Europa-
Amrica, 1991). Cartas de Mrio de S Carneiro a Lus de 
Montalvor, Cndida Ramos, Alfredo Guisado e Jos Pacheco, 
leitura, seleco e notas de Arnaldo Saraiva, Limiar, Porto, 
1977.

Correspondncia Indita de M. de S-Carneiro e F. Pessoa, 
Arnaldo Saraiva, Centro de Estudos Pessoanos, Porto, 1980, com 
estudo e bibliografia extensa de e sobre M. de S-Cameiro.

Cartas a Maria e outra Correspondncia indita de M. S.-C., 
leit. e introdues de F. Castex e Marina Tavares, Quimera, 
1992.

Alm, sonhos, ed. por Petrus, Porto, 2 vols. s/d (196 1). H uma 
antologia org. e pref. por Cleonice Berardinelli, col. Agir, Rio 
de Janeiro, 1958, reed. 1965, e outra org. por M. Aliete Galhoz, 
Presena, Lisboa, 1963.

Antologia, apres. e selec. de Maria Estela Guedes, Presena, 
1985.

Estudos: prefcio de Joo Gaspar Simes s Poesias, Lisboa, 
1946. Rodrigues, Urbano Tavares: prefcio das Cartas a Fernando 
Pessoa, 2 vols., Lisboa,
1958-59.

1052                                                HISTORIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

Galhoz, Maria Aliete: Mrio de S-Carneiro, col. *Bibliografia 
de Bobo+, Lisboa, 1963. Carpinteiro, Maria da Graa: A Novela 
Potica de Mrio de S-Cameiro, Lisboa, 1960. Lopes, Maria 
Teresa Rita: Pessoa e S Carneiro, itinerrio de um percurso 
esttico iniciado em comum, in Colquio, 48, Abril, 1968, e 
Pessoa, S Carneiro e as trs dimenses do sensacionismo, in 
ColquolLetras, n. > 4, Dezembro 19 7 1.

Woli, Dieter: Realidade e ldealidade na Lrica de S-Carneiro, 
Delfos, Lisboa, 1968, e Decifrando *A Confisso de Lcio+, in 
Revista da Faculdade de Letras de Lisboa, 111 Srie, n. 13, 
1972.

Castex, Franois: Mrio de S-Carneiro e a Gnese de *Amizade+, 
Coimbra, 1971 (com ampla bibliografia, incluindo inditos, e 
reproduo textual da peca teatral mencionada no ttulo).

Bellodi, Zina Maria: Funo e Forma do tradicional em Mrio de 
S Carneiro, Araraquara, 1975.

Dias, Marina Tavares: Fotobiografia de Mrio de S-Carneiro, ed. 
Quimera, 1988. Sousa, M. Leonor Machado de: O elemento *negro+ 
na novelstica de Mrio de S-Carneiro, n. A 39, 1979, do 
Bulletin de L'Insttut des tudes Portugaises e de I'Institut 
Franais au Portugal, e Uma leitura das poesias de Mrio de S 
Carneiro, in Portugiesische Forschungen, der Goerresgeseischaft, 
vol. 14, 1976/77.

N. > especial da rev. Colquio Letras, 117/118, Set.-Dez. 1990, 
dedicado ao centenrio de M. de S.-C. (inclui documentos); e n. 
> especial de Vrtice, 11 Srie, 36, Maro 199 1.

Fernando Pessoa


Alm da edio (com reed. aum., 1965) Aguilar, Rio de Janeiro, 
da Obra Potica e da de Obras Completas, 11 vols., 1942-44-46-
46-45-56-55-56-65-73-74, na coleco *tica+, h nurneirosos 
dispersos, em que avultam: Ensaios de Doutrina Esttica, 
editados e prefaciados porJorge de Sena, Lisboa, 1946; Pginas 
ntimas e deAuto-Interpretao e Pginas de Esttica e de Teoria 
e Crtica Literrias, Lisboa, 1966, prefcios de J. do Prado 
Coelho e Georg Rudolf Lind; Textos Filosficos, 2 vols., Lisboa, 
1968, org. por Antnio de Pina Coelho; Sobre Portugal - 
Introduo ao Problema Nacional e Da Repblica, org. por M. 
Isabel Rocheta e Maria Paula Moro, pref. de Joel Serro, 1979; 
alm de diversos outros editados por Petrus, Porto. A tica 
editou, em 2 vols., 1982, O Livro do Desassossego, atribudo ao 
heternimo Bernardo Soares, leit. de M. Aliete Galhoz e Teresa 
Sobral Cunha, pref. e org. de J. do Prado Coelho; em novas 
arrumaes por A. Quadros, 2 vols., Europa-Amrica, e para Lello 
e Irmo, ambos em 1986; tambm em
1986, Leyla Perrone-Dias publicou uma verso mais selecta dos 
fragmentos do Livro, pela Editora Brasiliense de So Paulo; 
Teresa Sobral Cunha apresenta nova reedio do Livro, com 
leitura, fixao de inditos, organizao e notas em 2 vols., 
Editorial Presena,
1990 e 1991, que corresponderiam, respectivamente, a uma fase 
inicial, imputvel a Vicente Guedes, e a uma fase datvel desde 
1929 - 1930, de cunho virtualmente diarista, condicente com o 
semi-heternimo Bernardo Soares. F. Pessoa. Santo Antnio, So 
Joo e So Pedro, com intir. e notas de Alfredo Margarido, A 
Regra do Jogo, 1986; F. Pessoa, o ltimo ano, Bibl. Nac., 
Lisboa, 1985 (com textos de stira anti-salazarista). F. Pessoa, 
O Privilgio dos CaminhoslLe Privilge des Chemins, leitura e 
montagem de fragmentos dramticos, por Teresa Rita Lopes, Rolim, 
1988. F. Pessoa, Fausto, Tragdia Subjectiva, Fragmentos, texto 
estabelecido por Teresa Sobral Cunha, Presena, 1988. A Aguilar 
do Rio de Janeiro editou tambm Obras em Prosa, 1974, reed. 
1976, org.,

7 - POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
                       1053

intr. e notas de Cleonice Berardinelli, que preparou a ed. 
crtica dos poemas de lvaro de Campos, IN-CM, 1990, 11 vol. da 
prevista edio crtica global da obra de F. P. em

5 vols. (contm rev. a ed. anterior de A Passagem das Horas, 
1988). Teresa Rita Lopes organizou e apresentou Vida e Obras do 
Engenheiro, conjunto de 63 inditos atribuveis a lvaro de 
Campos, col. *Fico+ 1990, e 2 vols. sobre F. P. por Conhecer: 
1 - Roteiro para uma Expedio, 11 - Textos para um novo Mapa, 
1990. O Louco Rabequista, ed. bilngue de poesias em ingls, por 
Jos Blanc de Portugal, Presena, 1988. F. Pessoa: os Trezentos 
e outros ensaios, org. e apres. de Yvette Centeno, Presenca, 
1988. Quanto  epistolograf ia, h as Cartas a Cortes-Rodrigues, 
editadas por Joel Serro, Lisboa, 1944, reed. 1960, as Cartas a 
Joo Gaspar Simes, editadas e prefaciadas pelo destinatrio, 
Lisboa, 1957, reed. 1988, IN-CM, e as Cartas de Amor de F. 
Pessoa, 1978, alm das Cartas de S-Cameiro a Fernando Pessoa, 2 
vols., 1958-59, includas nas Obras Completas do primeiro. Em 
1991, a ed. Lucarini, Roma, editou em italiano uma narrativa 
Eliezer, atribuda a F. P. mas trata-se de uma autobiografia de 
um seu amigo, Eliezer Karnnezky, revista pelo poeta. Ver Fontes 
Impressas da Obra de F. Pessoa, Jos Galvo, Lisboa,
1969, e Algumas peas de fico ainda inditas de F. Pessoa, A. 
de Pina Coelho, Brotria, 83, n. > 10, Out. 1966. Jos Blanco, 
F. Pessoa. Esboo de uma bibliografia, IN-CM,
1983, e Pessoana Recente, 1985. Maria Jos de Lancastre, F. 
Pessoa. Uma Fotobiografia, IN-CM/Centro de Estudos Pessoanos, 
1981. F. Pessoa. Fotobiografia (1902-1935), IN-CM, 1988.

Est em processo um trabalho fundamental de apuramento crtico 
dos textos pessoanos, j iniciado por Silva Beikior, F. Pessoa-
Ricardo Reis: Os Originais, as Edies, o Cnone das Does, IN-
CM, 1983, seguido do Texto Crtico das Odes, de F. Pessoa-
Ricardo Reis, IN-CM, 1988 (com variantes e inditos), e pela 
edio fac-similada com texto crtico de *0 Guardador de 
Rebanhos+ por Ivo Castro, Dom Quixote, 1986. Antologias 
comentadas na col. *Textos Literrios+: A. Caeiro e R. Reis, 
(por Manuel Gusmo), 1985,
1992, lvaro de Campos (por Cabral Martins), 1986, F. Pessoa 
ortnimo (por Isabel Pascoal), 1986, Mensagem (por Silvina 
Rodrigues Lopes), 1986, e Livro do desassossego (por M. Alzira 
Seixo, 1986).

Fernando Pessoa - Estudos

Simes, Joo Gaspar: Vida e Obra de Femando Pessoa, 2 vols., 
Lisboa, s/d (ver algumas rectificaes de ordem biogrfica no 
livro polmico de Eduardo Freitas da Costa, F. Pessoa - Notas a 
uma biografia romanceada, 1951), 6. > ed. rev., Lisboa, 199 1; 
e

Heteropsicografia de F. Pessoa, Porto, 1973.

Coelho, J. do Prado: Unidade e Diversidade de F. Pessoa, Lisboa, 
1949, 10. a ed. ref. com extensa bibliografia actualizada, 
Verbo, 1991; A Letra e o Leitor, Lisboa, 1969Sacramento, Mrio: 
F. Pessoa, Poeta da hora absurda, Lisboa, 1949, reed. aum., 
Porto, 1970.

Monteiro, Casais: Estudos sobre a poesia de F. Pessoa, Rio, 
1958, reed. rev. e aum.

com o ttulo A Poesia de F. Pessoa, org. Jos Blanco, IN-CM, 
1985.

Quadros, Antnio: F. Pessoa - A Obra e o Homem, 1960, reed. 
1965, e F. Pessoa - Vida, Personalidade e Gnio, 1977, 4. ed. 
1992, Lisboa.

Intr. e notas de M. Aliete Galhoz  Obra Potica, ed. Aguiar, 
Rio, 1960, reed. corr.

e aum. 1965 (com bibliografia).

1054                                              HISTORIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

Lopes, scar: Ler e Depois, 2 eds., Porto, 1969; Uma Arte de 
Msica e outros Ensaios, Porto, 1986, e Entre Fialho e Nemsio, 
2. vol., IB - CM, 1987, pp. 474-526; Os Sinais e os Sentidos, 
Caminho, 1986, pp. 17-29; Cifras do Tempo, Caminho, 1990. com 
trs estudos, pp- 123-166.

Maria da Encarnao Monteiro, Incidncias Inglesas na Poesia de 
F. Pessoa, Coimbra, 1956.

Sena, Jorge de: O Poeta  um Fingidor, 196 1. F. Pessoa & C. > 
Heternima (2 vols.), Edices 70, Lisboa, 1982, reed. (1 vol.) 
1984.

Coelho, Antnio Pina: Os Fundamentos Filosficos da Obra de F. 
Pessoa, 2 vols., Lisboa, 1971, O *Livro do Desassossego+, um 
brevirio do decadentismo, in Persona, Centro de Estudos 
Pessoanos, 8, Maro 1983, pp. 21-27.

Guerra, Maria Lusa: Ensaios sobre lvaro de Campos, 1969. 
Padro, Maria da Glria: A Metfora em F. Pessoa, Inova, Porto, 
1972.

Loureno, Eduardo: Pessoa Revisitado, Porto 1973, e Poesia o 
Metafsica, S da Costa,
1983, Fernando - Rei da Nossa Baviera, 1986.

Seabra, Jos Augusto: Fernando Pessoa ou o Poetodrama, So 
Paulo, 1974; 3. ed. actualizada, IN-CM, 1988, e O Heterotexto 
Pessoano, Dinalivro, 1985.

Cleonice Berardinelli e Diana Bernardes, Estudos sobre Fernando 
Pessoa, in Cadernos do PLIC, 1, Rio, 1969.

Quesado, Jos Clcio B.: O Constelado F. Pessoa, Rio, 1976. 
Jakobson, RomanIPicchio, Lucana S.: Os Oximoros Dialcticos de 
F. Pessoa, Edi es 70, 1976.

Lopes, Maria Teresa Rita: Fernando Pessoa et le Thtre 
Symboliste: Hritage et cration, Centro Cultural Portugus, 
Paris, 1977; estudos sobre F. Pessoa e S-Carneiro em 
ColquiolLetras, Abril 1968 e Dez. 1971, e ainda nas edices de 
textos atrs referidos.

Hess, Rainer: Fernando Pessoa e W. Whtman, in Aufgestze zur 
Portugiesischen Kulturgeschichte, vol. 4, 1964, Mnster.


Serro, Joel: O Sentido de Portugal segundo F. Pessoa, in 
Memrias da Academia das Cincias de Lisboa, t. 20, 1978., e 
introduo s edies de textos atrs referidos.

Rebelo, Lus de Sousa: Fernando Pessoa e a Tradio Clssica, in 
Arquivos do Centro Cultural Portugus, XIII, 1978, pp. 235-263.

Martinho, Fernando J. B.: Pessoa e a Moderna Poesia Portuguesa - 
do *Orpheu+ a 1960, *Biblioteca Breve+, ICALP, 1983, reed. 
1991.

O Centro de Estudos Pessoanos do Porto editou, desde 1977 a 
1984, 10 nmeros da revista Persona, e Actas do 1. O Congresso 
Internacional de Estudos Pessoanos, 1978, Braslia Editora, 
Porto, Actas do 2. 1 Congresso Internacional de Estudos 
Pessoanos (Nashville, Maro/Abril 1983), Porto, 1985.

Saram em 1978 2 vols. de Quaderni Portoghesi inteiramente 
dedicados a Pessoa, Giardini Editori, Pisa.

7 @ POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
                     1055

H ensaios sobre Pessoa recolhidos em Temas de Literatura 
Portuguesa, de Pierre Hourcade, Moraes, Lisboa, 1978.

Sousa, M. Leonor Machado de: F. Pessoa e a literatura de fico, 
1978 (contm o

original e uma traduo do conto A Very Original Dinner).

Centeno, Yvette: O Pensamento Esotrico de F. P., ed. Etc. 1990- 
F. Pessoa e a Filosofia Hermtica, Presena. 1985, reed. aum. Em 
1978 Y. K. Centeno publicara com Stephen Reckert F. Pessoa. 
Tempo. Solido. Hermetismo, Moraes, Lisboa.

Gusmo, Manuel: O Poema Impossvel - O *Fausto+ de Pessoa, 
Caminho, 1986. Boletim Informativo, Centro de Est. Port. da 
Univ. de So Paulo, n. 2, 3,1 srie,
1985, dedicado a F. Pessoa.

Finazzi-Agr, Ettore: O Alibi Infinito, IN-CM, 1987. Coelho, 
Joaquim-Francisco: Microleituras de lvaro de Campos, Dom 
Quixote, 1987. Crespo, Angel: Estudos sobre F. Pessoa, trad. 
port., Teorema, 1988 e A Vida Plural de F. P., trad. port. 
Bertrand, 1990. Circumnavegando Pessoa, cicio de confs. 
comemorativas do cinquentenrio, Fac. de Letras de Coimbra, 
1986.

ColquiolLetras, 88, Nov. 1985, n. > comemorativo do 
cinquentenrio da morte de Pessoa, incluindo recenses.

Lind, Georg Rudolf: Estudos sobre F. Pessoa, IN-CM, 1988.

Mouro-Ferreira, David: Nos Passos de Pessoa, 1988. Dois estudos 
de M. Helena Rocha Pereira em Novos Ensaios sobre Temas 
Clssicos na Poesia Portuguesa, IN-CM, 1988.

Garcez, M. Helena Nery: Trilhos em Fernando Pessoa e Mrio S-
Carneiro, Univ. de So Paulo, 1989; e O Tabuleiro Antigo (uma 
leitura do heternmo Ricardo Reis), ibidem,
1990.

A rev. Anthropos, Madrid, consagra a F. Pessoa um importante n. 
> especial, 74175, Jul./Ag. 1987, e o 4.1 vol. dos seus 
Suplementos-Antologias Temticas. Ver ainda nmeros 
comemorativos, como: Vrtice, n.Is 8 e 9, Nov. e Dez. 1988; Nova 
Renascena, n. O


30/31, Abril/Set. 1988; Rev. da Biblioteca Nacional, n. 3, 
Set.IDez. 1988; F. Pessoa no seu tempo, coord. de Ed. Loureno e 
A. Braz de Oliveira, SEC, 1988. Actas do Encontro Intern. do 
Centenrio de F. P. Sec. de Est. da Cultura e Bibi. Nac, 1990, 
Aguarda-se a publicaco de outras Actas dos Congressos ou 
Encontros comemorativos do centenrio, nomeadamente em So Paulo 
e Nova Orlees. H 15 estudos sobre F. P. em Estudos Portugueses 
- Homenagem a L. Stegagno Picchio, Difel, 1990.

ngelo de Lima

Reunio das obras: Folhas de Poesia, n. > 4, Junho 1959, 
organizao de Antnio Salvado, Lisboa. Ver Rui Galvo de 
Carvalho, Nota breve sobre os poemas de ngelo de Lima, in 
Atlntida, V. n.@ 4-5, 1961. Obras Completas, org, e importante 
prefcio de Fernando Guimares, Porto, 197 1: reed. rev. Assrio 
e Alvim, 199 1; Poemas de A. de Lima, in Orpheu 2 e outros 
escritos, Hiena Editora, Lisboa, 1984.

1056                                               HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

AI mada- Negreiros

Lopes, scar: de Entre Fialho e Nemsio, 2. vol., IN-CM, 1987, 
pp. 552-580. E ainda: estudos includos no n. > 60 de Colquo-
Re vista de Artes e Letras, Out. 1970; Jos-Augusto Frana, 
Almada-Negreiros, O Portugus sem Mestre, Estdios Cor, Lisboa,
1974, reed. Bertrand, 1986; e Maria Manuela E. Ferraz da Silva, 
Jos de Almada Negreiros, dissertao de licenciatura, Coimbra, 
1967. Almada (compilao das comunicaes ao Colquio de 1984), 
Fund. C. Gulbenkian, 1985.

Acciaivali, Margarida: A, Negreiros sem mestre e sem discpulo, 
in suplemento Cultura do *Dirio de Notcias+, 1984.07.08; e 
Celina Silva, A. Negreiros e as Minas, suplemento literrio de 
*Minas Gerais+, n. > 1077, pp. 6-8 (a 3 colunas), 13 de Junho 
de 1987.

Sapega, Ellen: Fices Modernistas: a contribuio de J. de 
Almada Negreiros para * renovao da prosa portuguesa, tese, 
Vanderbilt Univ., Nashville, Tennessee, 1988. Posteriormente  
ed. em 6 vols. das Obras Completas, Estampa, saram na IN-CM: * 
1. 1 vol, Poesia; o 2., Nome de Guerra; o 3. vol., Artigos no 
*Dirio de Lisboa+, 1988; e, em 1989, o 4. vol., Contos e 
Novelas, tambm de Obras Completas, revistas.

Outros autores

Lima, M. Isabel Pires de: Mrio Saa - uma presena surrealista 
na *Presena+, in *Afecto s letras - Homenagem a J. de Prado 
Coelho+, IN-CM, 1984.

Ferro, Antno: Obras de A. F.: 1 - Interveno Modernista, org. 
e intr. de Antnio Quadros, 1987; A. F - estudo e antologia por 
Raquel Pereira Henriques, Alfa, 1990.

Captulo IV

GERAO DE *PRESENA+

O GRUPO DE *PRESENA+

Os escritores e artistas que se agruparam em torno de Orpheu e 
outras

revistas afins constituam em parte, como vimos, um reflexo 
lisboeta localizado de certas correntes estticas 
internacionais, sobretudo parisienses, embora apresentem 
aspectos de originalidade bem reconhecvel relativamente aos 
seus correspondentes europeus. Esses inovadores pouco afectam 
por ento o conjunto da literatura portuguesa, em que predominam 
ainda por 1925 as

sobrevivncias romnticas do sentimentalismo amoroso e do 
historicismo, retocadas pelo gosto decadente ou pelo saudosismo, 
pelas preocupaes da prosa rica  Camilo ou Fialho, ou pela 
academizao do estilo queirosiano. Aquilino, Raul Brando, 
certa derivante regionalista do naturalismo que focaremos 
adiante e um tardio pitoresco de viagens e do extico, 
constituam as manifestaes ento mais largamente apreciadas. E 
assim, como acontecera frequentemente desde o sc. XVI, um grupo 
de jovens intelectuais a

sair da universidade  que vai ser o veculo de consagrao do 
modernsmo.

A revista coimbr presena (54 nmeros, 1927-40), fundada por 
Jos Rgio, Gaspar Smes, Branquinho da Fonseca, Edinundo de 
Bettencourt, Fausto Jos e Antnio de Navarro e de cuja direco 
depois participam Casais Monteiro e Miguel Torga,  o centro 
desse grupo. Dando, por um lado, a mo aos modernistas de 1915-
25, que ajudou a impor, e, por outro lado, aproximando-se, 
atravs de sucessivas gradaes e polmicas internas 
(nomeadamente a ciso de que resultaram as revistas dirigidas 
por Torga, Snal,

1058                                        HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
nmero nico, 1930, Manifesto, cinco nmeros, 1936-38, e a ciso 
de Casais Monteiro) do neo-realismo, que se lhe oporia em dada 
fase posterior, a presena corresponde a um certo anibiente de 
apoliticsmo forado, depois do colapso da primeira Repblica em 
1926, e por isso os presencstas aspiram, em geral, a uma 
literatura e a uma arte desvinculadas, se no mesmo alheadas, de 
qualquer posio de carcter poltico ou religioso. Esta 
atitude, alis cambiante e matizada de vrias gradaes 
pessoais, conjuga-se com aquilo que podemos designar como 
psicologsmo de presena, com fixaes tipicamente adolescentes 
e provincianas. Rgio, Sim es e Casais, sobretudo, descobrem um 
filo de literatura viva que at ento quase passara 
despercebido aos nossos autores: a *imaginao psicolgica+, a 
confisso ou *transposio+ imaginativa da conscincia 
introspectiva. Contriburam directamente para tal interesse: 
Andr Gide e a Nouvelle Rvue Franaise; o modernismo francs, 
em geral, sobretudo Marcel Proust; Dostoievski e suas afinidades 
em Raul Brando; Leonardo Coimbra, Bergson e suas derivaes, 
como a teoria intuicionista da poesia de Henri Brmond, a 
critica da *aproximao+ e *simpatia+ de Charles du Bos e 
Thibaudet; a psicanlise freudiana; Alain, Chestov, etc. Em 
relao s tendncias precedentes, os escritores de presena 
consideram-se como prospectores de certa riqueza humana entre 
ns literariamente ignorada: os valores da sinceridade vinda da 
regio mais profunda, inocente e virgem, do acto gratuito 
germinando no inconsciente, da recriao individual do mundo, da 
pe-rsonalidade original. Pode considerar-se seu manifesto o 
artigo *Literatura livresca e literatura viva+, assinado por 
Rgio em Fevereiro de 1928; e a ele se deve tambm uma crtica 
sumria mas corajosa e fundamentalmente certeira dos escritores 
portugueses ento mais consagrados.  presena, de que se podem 
considerar como precursores as revistas coimbrs Bizncio (6 
nmeros, 1923-24) e Trptico (9 nmeros, 1924-27), pertence 
ainda o mrito de analisar, bibliografar e proclamar como 
*mestres+ os melhores colaboradores de Orplicu; de insistir na 
importncia da pintura cubista, futurista, primitivista e 
expressionista, incluindo Amadeu Sousa-Cardoso, Almada-Negreiros 
e Eloy; de, atravs de Lopes Graa, chamar a ateno para a 
msica contempornea; de iniciar entre ns a crtica do cinema 
como arte. A consagrao dos seus principais colaboradores pode 
datar-se de cerca de 1936 (Encruzilhadas de Deus, de Rgio, e 
seco crtica Os Livros da Semana, de Gaspar Simes, em O 
Dirio de Lisboa, precedidas da atribuio de um segundo prmio 
 Mensagem, de Pessoa, em

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
            1059
O
1934), e representa Sem dvida uma considervel transformao de 
gosto literrio, embora na ptica dos crticos influentes dos 
anos 60 e 70 (E. Loureno e E. Prado Coelho) o presencismo 
viesse a ser concebido corno uma contra-revoluo do modernismo. 
A Revista de Portugal (1937-40), dirigida por Vitorino Nemsio, 
revela que a nova esttica punha j o p na Universidade, apesar 
das suas irreverncas, que iam da apresentao grfica  
recusa, sempre rnantida pelos presencistas, de ingresso na 
Academia das Cincias.

A personalidade de presena que encontrou mais pronto favor 
entre o

pblico foi Jos Rgio (Jos Maria dos Reis Pereira, n. 
1901.09.17 - t
1969.12.22). O trao mais caracterstico da sua obra de poeta e 
romancista, sobretudo na fase inicial, que abrange Poemas de 
Deus e do Diabo (1925,
9. a ed. ref. 197 8), Biografia (1929, duas refundies 
posteriores), Jogo da Cabra-Cega (1934, reed. 1963), 
Encruzilhadas de Deus (1936, 6. a ed. 1978),  o de uma 
confidncia que no v qualquer possibilidade de sntese real, 
ou sequer de satisfatria comunicao humana, para as 
contradies psicolgicas, e que se conjuga com uma profunda 
crtica da convivncia humana aparentemente mais ntima (o amor, 
a amizade, a camaradagem intelectual) e com uma nsia de graa 
divina. O achado literrio de uma introspeco constante, 
estimulada pela psicanlise vulgarizada, d a Rgio uma nova 
expresso ao tema da incomensurabilidade das aspira es humanas 
com o


mundo, tema que j tambm o saudosismo interpretara de um modo 
metafsico. O romance Jogo da Cabra-Cega, onde repercutem 
motivos das novelas metapsquicas de M. S-Carneiro, e as suas 
novelas sobre frustraes femininas, circunstancializadas na 
burguesia provinciana dos anos de 1930, Histrias de Mulheres 
(1946, 4. > ed. 197 8) e o Fado (194 1) contm alguns dos mais 
sagazes e impressionantes aspectos da crtica da convivncia por 
Jos Rgio. A tendncia para a dramatizao, que imprime a 
tantas poesias de Rgio um cunho de dilogo entre planos 
diferentes, e considerados corno irredutveis, da conscincia 
humana, consuma-se numa obra dramtica, iniciada pelo *mist 
rio+ Jacob e o Anjo (1941), em que o autor formula, de um modo 
um tanto enftico e pattico, a maneira como sente a antinomia 
vital do absoluto e do relativo. Na srie A Velha Casa (cinco 
romances,
1945-66), em O Prncipe com Orelhas de Burro (1942, 5. ed. 
1978), no

teatro e poemas posteriores, o pscologismo religioso de Rgio 
parece evoluir no sentido de uma tica idealista, e a 
confidncia romanceada de fundo autobio-

1060                                        HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
grfico apresenta um certo ar de apologia contra a crtica neo-
realista, ou de doutrinao muito explcita (H mais mundos, 
1962). No entanto, a sua

poesia ganha novos acentos de serenidade lrica com uma extrema 
simplicidade de meios (Mas Deus  Grande, 1945; Filho do Homem, 
1961) ou de stira (A Chaga do Lado, 1954; Cntico Suspenso, 
1968) e, no teatro posterior, em que preferimos Benilde (1947) e 
Trs Peas em um Acto (1957), traduz a sua concepo acerca de 
uma jerarquia mstica de verdades num

estilo dialogal muito sbrio, nobre e com aprecivel garra 
emotiva. Da sua

obra ensastica salienta-se a reunida em Trs Ensaios sobre Arte 
(1967) e

Pginas de, Crtica e Crtica da *Presena+, 1977. Poesia 
pstuma: Msica Ligeira, 1970, Colheita da Tarde, 1971, 16 
Poemas a no includos, 197 1. Tambm pstumas as Confisses 
dum Homem Religioso, 1971.

Adolfo Casais Monteiro (n. 1908.07.04 - t 1972.07. 24) 
assinalou-se em diversos ensaios e nos primeiros poemas, depois 
reunidos em Versos (1944), por uma rudeza ou bufonaria sem 
amabilidades, mesmo rtmicas, a que correspondia um conflito 
interno entre o lirismo j tradicional do alheamento, do 
isolamento, da insatisfa o egosta, e o lirismo da adeso ao 
momento que passa. O Canto da Nossa Agonia (1941) e Europa 
(1946) reagem por uma forma tensa s angstias da fase de apogeu 
do fascismo blico. Algumas das ressonncias mais patticas 
dessa terrvel experincia histrica


na nossa poesia encontram-se em Noite Aberta aos Quatro Ventos 
(1943, reed. 196 1); a se retoma o tema da noite j tratado por 
Pessoa, conduzindo a sugesto desse tema at  *ltima e 
suprema flor da angstia, em que o homem bebe a acre certeza de 
que tudo ficou certo+. Nos ltimos poemas (Simples Canes da 
Terra, 1948; Voo sem Pssaro dentro, 1954; Poesias Completas, 
incluindo O Estrangeiro Definitivo, 1969) uma tendncia para 
maior regularidade rtmica alia-se a uma aceitao quase 
clssica ou estica de cada momento da vida efmera, aceitao 
tendente a minimizar o que num poema existe de voz pensante, 
para tudo apreender como simples inflexo subjectiva. A docncia 
universitria do Brasil levou-o, nos ltimos anos, a dedicar-se 
mais ao ensaio crtico e teortico, onde se ergueu acima do seu

polemismo dos anos 30 e 40 (0 Romance, Rio, 1964; A Palavra 
Essencial, So Paulo, 1965; A Poesia Portuguesa Contempornea, 
Lisboa, 1977).

A obra de Miguel Torga (Adolfo Rocha, n. 1907) procura banhar 
num

ambiente de mitos agrrios e pastoris que da sua origem alde 
transmontana

7 @ POCA - ffiCA CONTEMPORNEA                                
             1061
O
remontam aos smbolos bblicos. A semente, a seiva, a colheita, 
a gua, a

terra, o vento, o po, o parto, o pastoreio, Ado e Eva, por 
exemplo, recorrem nos seus livros como se fossem, no ideias, 
mas imagens irradiantes. Numerosos pequenos contos de que  
autor (Bichos, 1940, 15.1 edio ref.
1985; Montanha, 1941, 5. a reedio ref. 1976; Novos Contos da 
Montanha, 1944, 13.1 edio rev. 1986; Pedras Lavradas, 1951, 
3. edio rev.

1976; Fogo Preso, 1976) do, por vezes de uma forma tensamente 
dramtica, a dura e simples coragem da vida humana rural, e 
animal, despindo os casos de toda a inteno alheia ao ambiente 
simblico referido. A sua poesia exprime os mesmos mitos 
agrrio-pastoris, mas de um modo simultaneamente mais genrico e 
mais pessoalista, e  percorrida por apstrofes e reptos ao 
Criador do *homem de carne e osso+, do *arbusto de dois ps+, 
Ado universal, multiplicado e sempre redivivo pela procriao 
apesar da morte, ascendendo titanicamente desde a lama para um 
sentido terreno de vida, atravs de todos os erros e egosmos 
que o tornam inimigo e explorador de si prprio. Essa poesia 
reflecte ainda as apreenses, esperanas e angstias do seu 
tempo, dentro de um ngulo individualista e, no fundo, religioso 
de viso, e a sua pureza e originalidade rtmicas, a coerncia 
orgnica das suas imagens impem-se (Tributo, 193 1; O Outro 
Livro de Job, 1936; Libertao, 1944; Odes, 1946, ref. 1951; 
Cntico do Homem, 1950; Penas do Purgatrio, 1954; 
Cmara~Ardente, 1962; Antologia Potica, 1981, 3. ed. aum. 
1985). Algumas das mais densas poesias de Torga esto contidas 
no

Dirio (15 vols., alguns refundidos, 1941-90), que pode ser 
considerado uma continuao, sob outra forma, do romance de 
fundo autobiogrfico A Criao do Mundo (3 vols., 1937-39; Sexto 
Dia.--- 1981). Mas apenas o primeiro volume de A Criao do 
Mundo atinge a viveza e a densidade exemplares da prosa dos 
contos. Na sua obra dramtica salientam-se Terra Firme e Mar 
(1941, edies ref. e sep. de 1960 e 1958, respectivamente).

Branquinho da Fonseca (Antnio Jos Branquinho da Fonseca, n.

1905.05.04 - t 1974; usou tambm o pseudnimo de Antnio 
Madeira) revelou o seu virtuosismo de expresso verbal em Poemas 
(1926) e Mar Coa~ lhado (1932) e o de efabulao em diversas 
tentativas dramticas, mas a sua melhor obra reside nas 
coleces de contos, onde inicialmente se sentia o magistrio de 
Raul Brando. Nestes consegue sugerir um halo de mistrio, de 
medo ou pesadelo indefinido, de constante surpresa na 
perseguio a um

1062                                        HISTORIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
impreciso ideal, sem todavia nos desprender de um senso de 
verosimilhana, antes como que acordando nesse halo misterioso 
os ecos emotivos da realidade (Caminhos Magnticos, 1983, 3. a 
ed. 1956; Rio Turvo, 1945, 3. a ed.
1969; Porta de Minerva, romance de ambiente coimbro, 1947, 
reed. 196 1; Bandeira Preta, 1956, reed. 1986). Do conto O 
Baro, 6. a edio em 1972, inicialmente includo em Rio Turvo, 
extraiu Lus de Sttau Monteiro uma pea de teatro (1964).  esta 
a obra-prima de Branquinho da Fonseca,  qual, em qualidade, se 
segue um bom romance ambientado na Nazar, Mar Santo,
1952, com trs edies. A edio conjunta das suas Obras inclui 
um volume de Teatro, 1974, caracterizado pela alegorizao das 
preocupaes psico-estticas do grupo.

Joo Gaspar Simes (n. 1903.02.25 - t 87.01.06), o mais 
importante e influente crtico e investigador literrio sado da 
presena, fez, entre ns, com Eli ou Romance numa Cabea (1932, 
4. a edio refundida 197 1), o

primeiro espcime convincente do romance introspectivo, que no 
dispensa um certo romanesco de bas-fonds mas se concentra num s 
dia de reaces psicolgicas de um homem ciumento quase vulgar. 
Os seus romances subsequentes (Uma Histria da Provncia, dois 
volumes, 1934-35; O Marido Fiel, Pntano, 1940; Amigos Sinceros, 
1941, reedio 1962; Internato, 2. edio corr. 1969 e Unha 
Quebrada, c., 1941; As Mos e as Luvas, r., 1975) no do tanta 
impresso de atmosfera livre em torno dos tipos - e curiosa- 
mente, como alis os contos de Rgio, esto por vezes mais 
prximos do quadro de costumes do que do psicologismo que os 
presencistas advogam. A sua obra de ensaio crtico e histrico-
literrio  muito extensa (uns 35 volumes em 1969, em que se 
destacam seis volumes de Crtica, um estudo biogrfico-
interpretativo de flego sobre Pessoa e outro sobre Ea de 
Queirs). Manteve cerca de meio sculo de crtica literria 
regular em diversos jornais.

Entretanto, Toms Ribeiro Colao (n. 1899 - t 1965), Folha de 
Parra,
1932, Casais Monteiro e outros, entre os quais, como vimos, 
Rgio, cultivaram o romance introspectivo, que mesmo entre os 
neo-realistas posteriores se manteria, sobretudo sob a forma de 
fico sobre motivos da infncia e da adolescncia.


Entre os poetas mais directamente ligados  presena, 
mencionemos: Francisco Bugalho (1905-49), cuja nota lrica 
principal vibra numa ansiedade

7. a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
            1063
O
insatisfeita de identificao com nesgas de paisagem, sobretudo 
de buclica alentejana (Canes de entre o Cu e a Terra, 1940; 
Paisagens, 1947; edio global da Poesia, 1960); Carios Queirs 
(1907-1949), que verte em formas mais flexveis mas cantantes a 
temtica lrica tradicional (Desaparecido,
1935; Breve Tratado de no Versificao, 1948); Antnio de 
Navarro (n.
1902.11.09 - t 1980.05.20), cujo ritmo e metaforismo, muito 
livres e cor- tados de suspenses ou descontinuidades, procuram 
forar os limites entre a conscincia e a natureza (Poemas de 
frica, 194 1; Ave de Silncio, 1942; Poema do Mar, 1957; Metal 
TransIticido, antologia, 1968). O Momento e a Legenda (1930) de 
Edmundo de Bettencourt (n. 1899.08.07 - t
1973.02.01)  um dos mais estranhos livros de poesia editados 
por presena, misto de verdadeira audcia imaginativa e de 
evidente voluntariedade discursiva e rtmica experimental; o seu 
autor foi durante muitos anos mais conhecido como cantor de 
canes populares e baladas coimbrs, e editou em 1963 o 
conjunto disperso ou indito dos seus Poemas. Alberto de Serpa 
(n.
1906.12.12)  sobretudo o poeta dos momentos de recolhimento 
reagindo  mediania burguesa *numa cidade provinciana e triste+ 
(obra reunida em

Poesia, 1944, e mais completamente em As Poesias de A. de Serpa, 
198 1). Saul Dias, pseudnimo de Jlio dos Reis Pereira (n. 
1902. 11.01 - t
1938.01.17), que ilustrou vrios poemas seus e do irmo, Jos 
Rgio,, com

a rubrica de Jlio,  um lrico das breves evases sonhadoras em 
contraste

com o grotesco vulgar (Mais e Mais, 1932;        Ainda, 1936; 
Obra Potica
1932-60, 1962). A poesia de Cabral do Nascimento (n. 1897 - t 
1978.03.02) evolui de um certo neoclassicismo esteticista at ao 
lirismo que tudo tende a reduzir como que  simples apreenso do 
ritmo do tempo pela melodia das palavras e imagens, num tom que 
lembra muito a amarga sabedoria desistente de Pessanha 
(Descaminho, 1926, reed. aum. 1969; Cancioneiro, 1943, 3. a

ed. aum. 1976, incluindo Confidncia, 1946, Digresso, 1953, e 
Fbulas,

1955). E  pelo seu equilbrio sereno, cantabile, por essa como 
que interiorizao do tempo (coisas muito tpicas de uma 
corrente potica duradoira e j caracterstica da sua obra 
publicada desde 1932 e reunida na ltima edio de Cancioneiro), 
que aqui inclumos este poeta, pois foi de incio bafejado por 
ventos decadentistas e saudosistas-nacionalistas.

Como acontece com o anterior, os poemas de Antnio de Sonsa (n.
1898.12.25 - t 1981.02.16), que usou o pseudnimo de Antnio de 
Portu-

1064                                             HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
cale, vm a editar-se desde o tempo da Primeira Guerra Mundial, 
mas os

seus melhores dons s se revelam cerca da Segunda Guerra, quando 
sabe reduzir a uma lrica ironia um ali s inextinguvel 
egotismo de sempre menino que, como o de Antnio Nobre, se 
acolhe a um fundo folclrico da infncia. Eis os temas em que 
mais se erguem as suas poesias, geralmente breves mas

generosas (se no excessivas) de imagens e rima: as tenses e 
ambiguidades de que, animal raivoso, o poeta reveste um intenso 
sentido religioso do pecado (*Pecados? O pior  nem os ter+); o 
vaivm entre uma vontade teolgica de Ser e o apego ao simples 
Estar circunstancial; e, ebriedade final de Estar, uma irnica 
reconciliao, frente  morte, do poeta-meia-voz com todos os 
lodos e pobrezas de viver, includa a irreversibilidade do 
envelhecer e morrer no se sabe porqu (Sete Luas, 1943; O 
Nufrago Perfeito, 1944; Jangada, 1946; Livro de Bordo, 1950; 
Linha de Terra, 195 1; Terra ao Mar,
1954).

Pedro Homem de Melo (n. 1904 - t 1984.03.05) canta com uma fria 
sensualidade a beleza da juventude transitria em ritmos 
insinuantes que elaboram, por forma discreta e moderna, certos 
recursos paralelsticos do lirismo popular nortenho (Segredo 
1939; Prncipe Perfeito, 1944; Bodas Vermelhas,
1947; Miscrere, 1948; O Rapaz da Camisola Verde, 1954; Grande, 
Grande era a Cidade, 1955; Poemas Escolhidos, 1957; Perguntas 
Indiscretas, 1968; Povo que lavas no Rio, 1969; Poesias 
Escolhidas, 1983).
O
11111181fi-f106,AFIA
O
Grupo de presena: H dois importantes depoimentos 
complementares e acompanhados de antologia acerca da origem e 
evoluo da revista: o de Adolfo Casais Monteiro, A Poesia da 
*Presena+, Rio, 1959, reed. Lisboa, 1972, completada pelos 
ensaios reunidos em A Poesia Portuguesa Contempornea, S da 
Costa, 1977; e o de Joo Gaspar Simes, Histria do Movimento da 
*Presena+, Coimbra, 1958.


A antologia de Lricas Portuguesas, 2. > srie, organizada por 
Cabral do Nascimento, inclui os poetas presencistas; antologia 
especfica: A Poesia da Presena, org. e apres. de M. Teresa 
Arsnio Nunes, *Textos Literrios+, Comunicao, 1982.

Estudos que abrangem diversos vultos ou aspectos do movimento e 
da poesia sua contempornea:

Artigos insertos na seco Cultura e Arte, d'O Comrcio do 
Porto, 1960.06.14, no vol. n. 1 3 de Estrada Larga.

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
                       1065

Lopes, scar: Cinco Personalidades Literrias, Porto, 1961, Ler 
e Depois, Porto, 1969, e Modo de Ler, Porto, 1971, Entre Fialho 
e Nemsio, 2. vol., IN-CM 1987, pp. 615-819.

Nogueira, Franco: Jornal da Crtica Literria, Lisboa, 1954. 
Nemsio, Vitorino: O Conhecimento da Poesia, Baa, 1958, reed. 
Lisboa, 1970. Sacramento, Mrio: Ensaios de Domingo, Coimbra, 1, 
1950; li, 1959; lii, Lisboa, 1990. Mouro-Ferreira, David: Vinte 
Poetas Contemporneos, Lisboa, 1960, reed. tica,
1979, Motim Literrio, 1962, Hospital das Letras, 1966, Tpicos 
de Crtica e de Histria Literria, Lisboa, 1969, e Sobre 
Viventes, 1976.

Antunes, P. Manuel: Do Esprito e do Tempo, Lisboa, 1960.

Sena, Jorge de: *0 Poeta  um fingdor+, Lisboa, 196 1. 
Loureno, Eduardo: *Presena+ ou a contra-revoluo do 
modernismo portugus, in * Revista do Livro+, VI, n.@ 23-24, 
1961, e outros ensaios, includos em Tempo e Poesia, 1974, reed. 
1988.

Guimares, Fernando: A Poesia da Presena e o aparecimento do 
Neo-Realismo, ensaio e antologia potica, 1969, reed. Braslia, 
Porto, 1981; Linguagem e Ideologia, 1972, em reed. Caminho; 
Simbolismo, Modernismo e Vanguardas, IN-CM, 1982.

Coelho, Jacinto do Prado: estudos includos em Problemtica da 
Histria Literria,
2. a ed., Bertrand, 1972, e Ao Contrrio de Penlope, Bertrand, 
1976.

Hourcade, Pierre: O Ensaio e a Crtica na *Presena+, in 
ColquiolLetras, 38, Julho
1977, pp. 20-29, e, em geral, Temas de Literatura Portuguesa, de 
Pierre Hourcade, Moraes,
1978.

Coelho, Eduardo Prado: A Palavra sobre a Palavra, Portucalense 
Editora, 1972, e artigo Teorias da *Presena+, in 
Colquio/Letras, 42, Maro 1978, pp. 44-45.

Lisboa, Eugnio: O Segundo Modernismo em Portugal, *Biblioteca 
Breve+, Instituto de Cultura Portuguesa, 1977, reed. 1984.


Segundo Modernismo e Vanguarda, *Cadernos Colquio/Letras+, 
colectnea de estudos, 1984.

Moura, Vasco Graa: Vrias Vozes, Presena, 1987. Estudos 
panormicos ou monogrficos e inqurito includos no vol. 
colectivo Um Sculo de Poesia Portuguesa (1888-1988), Assrio e 
Alvim, 1989.

Monografias individuais:

Miguei Torga Torga, Miguel, vol. da coleco O Homem e a Obra, 
organizado por Jos de Meio. Anlises estruturais de um mesmo 
conto (Vicente, de Bichos) de Torga, em ColquiolLetras, uma de 
Nayade Anido, 24, Maro 1974, outra de Teresa Rita Lopes, 25, 
Maio 1974, tambm autora de M. Torga - Rito e Disformismo, 
*Builetin des tudes Portugaises et Brsiliennes+, ts. 35-36, 
1974-75, pp. 205-233.

Cayron, Clayre:, Pour une bio-bibliographie de Torga, *Builetin 
des tudes Portugaises et Brsiliennes+, ts. 42-43, 1981-82, 
pp. 199-224.

1066                                                HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

Loureno, Eduardo: O Desespero Humanista de M. T. e o das Novas 
Geraces, Coimbra, 1955.

Gonalves, Ferno de Magalhes: Ser e Ler Torga, 1986.
4 estudos no n. O esp. de homenagem a M. Torga por 
ColquolLetras, 98, Julho-Ag. 1987.

Filho, Linhares: O Potico como Humanizao em M. Torga, tese de 
dout. pela Univ. Fed. do Rio de Janeiro, de 1985, extractado no 
referido n. > especial.

Torga, M,: Boletim Cultural do Servio de Bibliotecas 
ltinerantes e Fixas, Fund. C. Guibenkian, Vi Srie, n.I 10, Maio 
1988.

N. espec. de *Letras e Letras+, n. 1, Dez. 1987.
O n. > 43 de ColquiolLetras, Maio 1978,  especialmente 
dedicado a Miguei Torga, como celebrao do 50. o aniversrio da 
sua carreira literria.

Jos Rgio Obra de Jos Rgio, ensaio crtico seguido de um 
questionrio ao escritor, por scar Lopes, Porto, 1956; 
desenvolvimento em Entre Fialho e Nemsio, IN-CM, 1987, vol. li, 
pp. 655-679.

Rgio, Jos: estudo bibliogrfico e interpretativo por Eugnio 
Lisboa, Porto, 1957; do mesmo autor e com o mesmo ttulo, vol. 
da colec. A Obra e o Homem, Arcdia, Lisboa, 1976, incluindo 
antologia e uma extensa bibliografia de Lus Amaro sobre o 
movimento presencista, reed. rev. e aum., Dom Quixote, 1986; e 
ainda J. Rgio - Uma Literatura Viva, *Biblioteca Breve+, 1978, 
e J. Rgio ou a Confisso Relutante, Rolim, 1988.

N. O 11, especial, de ColquiolLetras, Janeiro 1973. Antologia, 
selec. e org. de Cleonice Berardinelli, Nova Fronteira, Rio de 
Janeiro, 1985. Dois trabalhos sobre o *Jogo da Cabra-Cega+: 
Duarte Faria, Um fantstico de imerso social em Jos Rgio, in 
ColquiolLetras, 18, Maro 1974, includo em Metamorfoses do 
Fantstico na Obra de Jos Rgio, F. C. Guibenkian, Centro 
Cultural Portugus, Paris, 1977, e Yara Frateschi Vieira, Nveis 
de Significao no Romance, Editora tica, So Paulo, 1974.


Simes, J. Gaspar: Jos Rgio e a Histria do Movimento da 
*Presena+, 1977. Carlos, Lus Adriano: O Classcismo 
Modernista de J. R- in *Rev. da Fac. de Letras+, Porto, Lnguas 
e Literaturas, 11 Srie, vol. 8, 199 1, pp. 103-134.

Em cinema: Antnio Macedo filmou O Prncipe com Orelhas de 
Burro, 1980, e Manuel de Oliveira Benilde ou a Virgem Me, 1975, 
e, em francs, Mon Cas, 1987.

Casais Monteiro: prefcios de A. Ramos Rosa, J. Rui de Sousa e 
E. M. de Meio e Castro a uma antologia de poesia de Adolfo 
Casais Monteiro, col, *Documenta+, Lisboa, 1973.

Cury, Jorge: Itinerrio Potico de Casais Monteiro, tese de 
concurso de docncia livre, Araraquara, So Paulo, 1976.

Tese de doutoramento, O Estrangeiro Definitivo (um estudo da 
poesia de A. Casais Monteiro), defendida na Universidade de So 
Paulo por Ndia Battella Gotlib, 1977.

H uma eci. do poema Europa, com verses francesa, inglesa e 
neerlandesa, ed. Nova Renascena, Porto, 1991.

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
                     1067

Branquinho da Fonseca: n. esp. do Boletim Cultural - Servio de 
Bibliotecas da F. C. Gulbenkian, 1983 (com estudos originais, 
bibliografia e antologia, org. de David Mouro-Ferreira).

Para conhecimento da doutrina esttica presencista e sua 
evoluo, ler, alm de um longo captulo em Entre Fialho e 
Nemsio, 2. > vol., scar Lopes, e dos ensaios citados de 
Rgio, os de Joo Gaspar Simes (Temas, 1938; O Mistrio da 
Poesia, 1931, reed. Inova, 197 1; Novos Temas, 1938; Caderno de 
um romancista, 1942; Liberdade de esprito, 1948; Crtica 1 a V, 
1942-62-69-81-83), Retratos de Poetas que conheci, Braslia, 
Porto, 1974; e Adolfo Casais Monteiro (De Ps fincados na Terra, 
1941), e ainda o estudo atrs referido de Ed. Prado Coelho.

Comemorando o cinquentenrio da presena, a editorial Braslia, 
do Porto, publicou em 1977: um nmero nico da revista dir. por 
Gaspar Simes e Alberto Serpa, com textos inditos dos 
colaboradores da revista, e ainda: Jorge de Sena, Rgio, Casais, 
a *Presena+ e outros afins; David Mouro-Ferreira, Presenca da 
*Presenca+; Joo Gaspar Simes, Jos Rgio e a Histria do 
Movimento da *Presena+; Lus Pina, Jos R gio o Ser 
Conflituoso; alm da recolha de Pginas de Doutrina e Crtica da 
*Presena+, de Jos Rgio. Tambm a revista ColquiolLetras 
dedicou a presena o seu vol. 38, Julho
1977. E h ainda um vol. com estudos de diversa autoria dedicado 
a comemorar o cinquentenrio da presenca, ed. do Secretariado de 
Estado da Cultura, 1977Queirs, Carlos: Epstola aos Vindouros e 
outros poemas, pref. de David Mouro-Ferreira, Atica, 1990.

Pedro Homem de Mello, Poesias Escolhidas, 1934 a 1979, IN-CM, 
1983.

H uma antologia geral d'Os Modernistas Portugueses, em oito 
vols., na coleco *Textos Universais+, Porto, organizada por 
Petrus (Pedro Viegas), s/d (decnio de 1950).

Captulo V

NOVAS TENDNCIAS REALISTAS

Ressurgimento do realismo social com FERREIRA DE CASTRO e outros 
autores da gerao de ,@Presena+

A fico em prosa caracteristicamente portuguesa surgira, a bem 
dizer, com Camilo e Jlio Dinis, graas  descoberta de 
interesse ficcionista para a realidade nacional; Ea de Queirs 
conseguira ver as camadas sociais mdias e superiores com um 
pitoresco de trao e um irnico distanciamento que ficariam 
modelares; certos ps-naturalistas e Fialho, Raul Brando, 
Aquilino Ribeiro alargaram o horizonte social da fico aos 
meios urbanos e rurais

em que a vida  mais dura e pattica, desprendendo-se 
correlativamente das formas oitocentistas de hipocrisia 
moralizante. No entanto, com o lento processo de evoluo da 
sociedade portuguesa, onde s a guerra de 1939-45 estimulou um 
sensvel alastramento das trs ou quatro manchas industriais de 
certa importncia, manteve-se nas tendncias realistas uma 
alternncia entre o pitoresco regional, por um lado, e uma certa 
atrac o dos bas-fonds urbanos ou um certo humanitarismo 
compassivo do outro lado.

O ciclo da escola naturalista entre ns mais tpica pode 
considerar-se essencialmente encerrado por altura da Primeira 
Guerra Mundial. Entre o seu legado salientam-se: Filho das 
Ervas, 1900, de Carlos Malheiro Dias; Famintos, 1903, e Gente 
Pobre, 1912, de ambiente proletrio, e Eterna Mentira, 1904, de 
ambiente burgus, de Joo Grave

1070                                               RISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

(1872-1934); e Lisboa Trgica, 1910, Prosa Vil, 1911, Vidas 
Sombrias, 1917, de Albino Forjaz de Sampaio (1884-1949), cuja 
notoriedade foi granjeada por umas Palavras Clnicas, 1905, sem 
originalidade, com 63.1 edio em 1978, a que depois ops uma 
obra de erudio e exaltao do patrimnio nacional. De um modo 
geral, a tradio naturalista inflecte, pelo decnio de 1920, em 
sentido regionalista, esteticista ou de doutrina o regressiva, 
sendo ento muito reconhecveis os rastos, por vezes cruzados, 
de Camilo e sobretudo Fialho. Manuel de Brito Carnacho (1862-
1934), entre numerosos volumes de crnica e de comentrio 
mordaz, deixou quatro bons volumes de memrias de fico 
predominantemente rural alentejana, Quadros Alentejanos, 1925, 
Gente Rstica, 1927, Gente Varia, 1928, Cenas da Vida, 1929 
(antologia pref. e selec. por scar Lopes: B. Carnacho, Memrias 
e Narrativas Alentejanas, col. *Textos Esquecidos+, Guimares 
Editores, 1988); Manuel Ribeiro (1878-194 1), cuja converso a 
um misticismo franciscano com abandono da anterior combatividade 
sindical foi ao tempo discutida, produziu duas trilogias, uma 
Social e outra Nacional, e deixou como melhor legado os 
ambientes alentejanos de A Plancie Hertica, 1927, alm de 
certos passos de outros romances mais irregulares; o 
regionalismo beiro est representado por Sarnuel Maia (1874-195 
1), em


Sexo Forte, romance, 1917, e Lngua de Prata, contos, 1929, 
muito superiores  sua restante obra, e por Hiplito Raposo 
(1885-1953) em Boa Gente, contos, 1911; o regionalismo 
transmontano verifica-se em Ares da Minha Terra, contos de 
Ablio Campos Monteiro (1876-1934), tambm autor de um romance 
satrico de costumes portuenses, As Duas Paixes de Sabino 
Atruda, e de dois xitos livreiros efrneros de escola 
camiliana, Miss Esfinge e Cmilo, Alcoforado; o Douro est 
representado por Joo Pina de Morais (1885-1953), cujos contos 
se reuniram em Sangue Plebeu, 1942, e Vidas e Sombras, 1949, e 
ainda pelo visconde de Vila Moura (1877-1935), em cuja 
irregularssima fico se cruzam sugestes naturalistas, 
decadentistas, saudosistas, estetizantes e antidemoerticas 
(Nova Safo, 1912, xito de escndalo, Doentes da Beleza, 1913, e 
a srie da Novela Mensal de 1924); o Minho tradicionalista e 
crente rev-se em Antero de Figueiredo (1886-1953), Senhora do 
Amparo, 1920, e Miradouro, 1934, motivando-lhe ainda algumas 
pginas antolgicas em volumes de viagem ou de doutrinao 
conservadora; e os Aores encontraram o seu contista desta poca 
em Florncio Terra (1859-194 1), Contos e Narrativas, 1942. 
Acrescentemos os dois romances populistas lisboetas de Norberto 
de Arajo (1884-1949): Novela do Amor Humilde, 1925, Fado da 
Moutaria, 193 1; o esteticismo cosmopolita ou ertico de Joaquim 
Leito (1875-1956), Augusto de Castro (n. 1883 - t 1971.07.24), 
Urbano Rodrigues (n. 1888 - t 1971.07.15) e Justino de Montalv 
o (1875-1956); e a carreira muito heterognea de Sousa Costa 
(1879-196 1), cujas produes perdurveis tm alis o cunho 
regional duriense (Ressurreio dos Mortos,
1917, As Flhas do Pecado, 1946), e se ligam, por esse lado, a 
um outro volume a destacar, o primeiro de Pginas de Sangue, 
1919, de evocao histrica oitocentista.

A Batalha, 1919-27, propriedade da Unio Operria Nacional, 
principal rgo sindicalista da Repblica liberal tem a 
colaborao de um conjunto

7 - POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
            1071
O
de escritores salientes, como Manuel Ribeiro, Campos Lima, 
Antnio Srgio, Emlio Costa, Toms da Fonseca, Vitorino 
Nemsio, Jos Rgio, e ainda outros. Entre os que se mantiveram 
mais caracteristicamente fiis aos ideais sindicalistas contam-
se Assis Esperana (ri. 1872.03.27 - t 1975.03.03), cujos mais 
significativos romances e novelas (0 Dilvio, 1932, reed., ref. 
1947; Gente de Bem, 1939, e sobretudo Servido, 1946; Trinta 
Dinheiros, 1958; Po Incerto, 1964; Fronteiras, 1973) viriam a 
sair j dentro da baliza cronolgica do neo-realismo.

Mas o autor mais importante desta tradio sindicalista  
Ferreira de Castro (Jos Maria Ferreira de Castro, ri. perto de 
Oliveira de Azemis,
1898.05.24 - t 1974.06.29) cujos Emigrantes 1928 (17. a edio 
1977) assinalam o incio de uma nova fase do realismo social 
entre ns. Este ltimo romance, decisivo para a carreira do 
autor e que impressionou numerosos

leitores pela denncia das desumanidades da emigrao, ainda 
padece de um

visvel esquematismo e de frouxido no dilogo; contudo, 
Ferreira de Castro aprendeu com o seu xito, e A Selva (1930; 
36. > edio 1987) faz esquecer o que ainda tem de didctico na 
psicologia do protagonista, graas  crua

intensidade da sua experincia social e  exuberncia epopeica 
do ambiente natural. Nos romances subsequentes (Eternidade, 
1933; Terra Fria, 1935,
11. 1 edio 1977; Tempestade, 1940), Ferreira de Castro, 
irredutvel  novelstica inspirada pela introspeco dos 
impulsos impremeditados, que entretanto ganhava o favor do 
pblico mais exigente, manteve e aperfeioou o

tipo do romance de inqurito aos meios e problemas sociais, onde 
supre uma


certa elernentaridade psicolgica e insegurana formal com a 
palpitao, que nos comunica, de algo de vivido. As afinidades 
deste gnero de fico com um tipo superior de reportagem foram 
depreciativamente encaradas pela crtica psicologstica, 
dominando a opinio corrente por sugesto dos seus posteriores 
livros de viagem, alis mais caracterizados pela sua largueza de 
compreenso humanista do que por um pitoresco saboreado  
Teixeira Gomes (Pequenos Mundos, 1937-38; A Volta ao Mundo, 
1941-44). No entanto, A L e a Neve (1947, 14 a edio 1985), A 
Curva da Estrada (1950) e A Misso (1954), publicados quando j 
o neo-realismo se consagrara, revelaram um domnio anteriormente 
inexcedido na montagem de fico que, sem

abandonar (ou tornando mais discreto) um enquadramentojudicativo 
e crtico sobre a realidade social portuguesa, nos d, apesar de 
certos ndulos de dureza

1072                                        HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
estilstica e planejadora, um incontestvel convencimento de 
verdade social, psicolgica e sensorial, e uma comunicativa 
tenso de luta.

Ferreira de Castro foi dos mais populares e traduzidos dos 
escritores portugueses, o que se deve ao facto de os dois 
romances que o mais consagraram ressumarem, apesar de todas as 
limitaes de escrita, a sua prpria dura experincia, mal 
conhecida, de emigrao num seringal da floresta amaznica. Com 
efeito, toda a sua bibliografia at  consagrao, mesmo 
fragmentariamente contada como a conhecemos por amigos, equivale 
a um

romance de infncia pobre, engajamento para o Brasil, explorao 
desumana, misria, esforo autodidctico, ascenso desde a 
literatura popular em fascculos (distribuda s portas pelo 
prprio autor) at ao jornalismo local, deste at ao jornalismo 
defensor do imigrante, regresso  Ptria, jornalismo sindical em 
Lisboa, novelstica folhetinesca (depois publicada em volumes) e 
finalmente o xito nacional e internacional. Eternidade, apesar 
da intensidade claramente vivida do seu tema central (o da lenta 
diluio da viuvez dolorosa, com a nsia individualista de urna 
eternidade pessoal, afinal abstracta, a entrelaar-se com um 
impulso crescente de comunho social humana), apresenta o 
desequilbrio de um didactismo doutrinrio demasiado evidente e 
de um pitoresco (madeirense) muito menos essencial  aco que o


d'A Selva. Terra Fria e Tempestade tm de comum uma compreenso 
das pretensas infidelidades femininas que talvez nenhum outro 
ficcionista. portugus patenteara, mas o primeiro destes livros, 
cuja intriga se localiza em Terras de Barroso, alcana uma 
densidade muito maior de vida e de ambincia social-regional. A 
L e a Neve foca os conflitos relacionados com a pastorcia e a 
tecelagem na Beira Baixa, e contm algumas das situaes mais 
emocionantes do novo realismo social. A Curva da Estrada, cuja 
aco decorre em Espanha nas vsperas da Guerra Civil, assinala 
uma nova fase em que pode incluir-se o volume A Misso (de 
novelas): uma fase de problemtica moral mais precisa, embora 
menos comunicvel ao seu largo pblico dos outros livros, e, em 
compensao, um domnio muito mais consciente de variados 
processos e ritmos narrativos, e dos recursos conducentes  
caracterizao indirecta dos tipos humanos e das situaes. A 
ltima obra publicada de Ferreira de Castro, O Instinto Supremo, 
1968, romanceia a vida do conhecido sertanejo Cndido Rondon. 
Miscelnea pstuma de esboos e crnicas: Os Fragmentos, 1974.

7. a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
          1073

O escritor que primeiro se distingue na transio doutrinria 
conducente ao neo-realismo, Com cuja maturidade veio coincidir 
mais tarde,  Jos Rodrigues Miguis (n. Lisboa, 1901.11.09 - t 
1980.10.28). A sua primeira notoriedade literria data de Pscoa 
Feliz, 1932, (3. edio 1965), a melhor obra de certa tradio 
dostoievskiana j ento assimilada entre ns por Raul Brando. 
Em 1930-31 afasta-se, aps polmica interna, do grupo da Seara 
Nova, de que critica a falta de conexo com qualquer movimento 
organizado de massas, e, apesar do psicologismo do livro de 
estreia, manteve-se afastado dos presencistas, com que tambm 
polemizou numa linha precursora do neo-realismo, Exilado durante 
longos anos do Pas, sobretudo nos Estados Unidos, onde se 
esforou incansavelmente pela organizao democrtica de 
trabalhadores portugueses imigrados, s em 1946 volta a 
publicar, no Brasil, e depois de longa expectativa, uma coleco 
de contos, Onde a noite se acaba (5. a edio 1983). Em 1957, 
com Saudades para Dona Genciana, e depois em 1958 com a nova 
recolha de contos e novelas, Lah (9. a

edio 1983), que mereceu o primeiro Prmio Castelo Branco, 
principia a

sair a lume a srie principal das suas obras, que abrange, em 
1959, Uma A ventura Inquietante (4. > edio 1984), e a 
extraordinra narrativa autobiografada Um Homem sorri  morte 
com meia cara (3. a edio 1984), em
1960 o romance Escola do Paraso (6. a edio 1984), e a pea 
teatral O Passageiro do Expresso. Servido por uma das escritas 
mais limpidamente elegantes do seu tempo, capaz de sugerir 
varadssimos tons de ambiente e humor narrativo, de reintegrar 
toda uma cena pelo pormenor ou dito mais evocativo, Rodrigues 
Miguis sabe amoldar-se a muitas tcnicas novelsticas, de 
tradio portuguesa e estrangeira. O problema mais vivo e 
aliciante nas suas fices e memrias  o da integridade e 
responsabilizao pessoal; e o rasto


mais duradoiro de toda a sua ambientao diz respeito s 
peculiaridades de vida social, na Lisboa da sua infncia ou na 
Blgica da sua juventude. A novela de estreia ainda, por certas 
ambiguidades, pode satisfazer o culto, ento literariamente em 
moda, do acto gratuito dostoievsquiano, numa apetncia de crime-
e-remorso que por fim aliena o protagonista de uma verdadeira 
responsabilidade; mas as obras posteriores so uma contagiante 
afirmao de vontade e do direito responsvel de agir e viver na 
mxima plenitude moral atingvel.

 neste sentido que o divertimento joco-srio Uma Aventura 
Inquietante faz revalorizao da novela policial, desdobrando um 
caso de coragem soliHLP - 68

1074                                         HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
dria e autojustificativa diainetralmente oposto  de Pscoa 
Feliz, que em vrios contos do volume de Lah se varejam as 
hipocrisias mais peculiares da mediania social do tempo. Entre 
os volumes que se baseiam directamente, quase testemunhalmente, 
numa experincia vivida, salientam-se Escola do Paraso, de um 
magistral realismo que apreende em flagrante, desde o seu foco 
ntimo de sensibilidade e vontade actuante, a dinmica pequeno-
burguesa alfacinha que fez a Repblica, e Um Homem sorri  morte 
com meia cara, palpitante depoimento da sua prpria experincia, 
num hospital nova-iorquino, de resistncia a uma doena 
aparentemente sem cura. Escola do Paraso  a primeira parte de 
um triptico incompleto a que tambm pertence O Milagre Segundo 
Salom, dois volumes, 1975 (3. edio 1984), que em vez de 
romance de espao social, como aquele,  uma simples stira,  
clef, das condies de colapso da 1. > Repblica. Em 1981 saiu, 
j pstumo, o romance O Po no cai do Cu, escrito no exlio, 
entre 1943 e 1975, sobre um imaginrio mas

tpico levantamento de camponeses alentejanos contra o regime, e 
que documenta, como o anterior romance, dados histricos e 
debates polticos vividos pelo autor; e em 1982, com reedio 
1984, Pass()os Confusos, contos. Reuniu artigos e ensaios 
dispersos em Reflexes de um Burgus, dois volumes, 1964-74, e 
produziu ainda um romance sobre a inadaptao do exilado que 
regressa, Nikolai, NikoIai, 1971, e Espelho Polidrico, 1973, de 
crnica e testemunho. Volumes posteriores de contos: Gente de 
Terceira Classe,
1962 (4. a edio 1984), e Comrcio com o Inimigo, 1973. ltimo 
volume, pstumo, de um esplio ainda em parte por editar: 
Idealista do Mundo Real,
1986, onde mais uma vez retoma ficcionalmente o tempo da 
Repblica liberal, glosando um ttulo caro aos mentores da Seara 
Nova dos anos 20.

Irene Lisboa (n. 1892.12.25 - t 1958.11.25), que publicou 
diversas obras de pedagogia sob o pseudnimo masculino de Manuel 
Soares, assinou com outro, o de Joo Falco, as suas primeiras 
obras literrias, Contarelos,

1926, e volumes de impresses e meditaes muito directas, em 
prosa ou verso livre, que exprimem uma angstia de profundo 
isolamento (Solido, 1939, reedio 1965, 2. O volume, 1966; Um 
Dia e Outro Dia, 1936; Outono, Havias de Vir, 1937). No se 
trata propriamente de uma ficcionista, embora o carcter mais ou 
menos documentrio de Comea uma Vida, 1940, e Voltar atrs para 
qu, 1956, e a srie de cenas sobre Adelina em Esta Cidade!, 
1942, se possam ler como excelentes novelas, e muitos dos seus 
outros passos como

7. a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
            1075
O
contos. O essencial da sua obra constituem-no apontamentos e 
observaes directas de episdios e tipos da vida popular 
lisboeta ou serrana. Tudo o que produziu reage a uma desolada 
situao de mulher culta e livre num atrasado meio provinciano; 
e consegue vencer a solido graas a uma convivncia aberta a 
gente simples de rua, escada de servio, oficina, construo 
civil, etc., cujos problemas, filosofia, afectividade e 
pitoresco apreende fielmente, num estilo transparente em que se 
integra o prprio linguajar do povo (srie de trs cadernos  
Pena, 1940; Apontamentos, 1943; O Pouco e o Muito, 1956; Ttulo 
Qualquer Serve, 1958; Crnicas da Serra, 1958). Outros dos seus 
livros so de histrias, onde eleva a uma alta qualidade 
literria certa fantasia e certa fraseologia infantil ou 
folclrica (Urna Mo Cheia de Nada, Outra de Coisa Nenhuma, 
1955, 7.1 edio, 1984; Queres Ouvir?

a Eu Conto, 1958, 3. edio, 1977). Crnica: Folhas da *Seara 
Nova+ (1929-1955), 1985, selec., pref. e notas de Paula Moro, 
que dirige a edio em curso de Obras de L L., 1. 1 volume, 
Poesia, 199 1.


Um dos aspectos do alargamento temtico ligado a uma nova 
representao da vida portuguesa  constitudo pelo 
desenvolvimento da literatura da autoria feminina e sobre 
questes que se prendem com a posio social e poltica da 
mulher, j debatidas em fins do sc. XIX pela publicista Alice 
Pestana, de pseudnimo Caiel, e no sc. XX por outras como 
Adelaide Cabete (ri. 1867), Maria Veleda (1871-1955), Carolina 
Michalis de Vasconcelos e Elina Guimares (ri. 1904). Em 
conjunto, ser quando tratarmos da dcada de 50 que, sobretudo 
em prosa, encontraremos uma decidida qualificao literria 
geral dessa autoria feminina. Mas, como temos visto e ainda 
veremos, a tendncia vem de trs. Pode dizer-se que a nova 
conscincia literria surgida de vivncias femininas principiou 
pela afirmao, com Florbela Espanca, da livre intimidade de 
mulher, e que atingiu com Irene Lisboa a sua primeira notvel 
realizao em prosa. Mas no deixaremos de assinalar precursoras 
como Guiomar Torreso (1844-98), Maria Amlia Vaz de Carvalho 
(1842-1921); e ainda Ana de Castro Osrio (1872-1935) e Angelina 
Vidal (1853-1927), a primeira autora e publicadora de literatura 
infantil, ambas ficcionistas, dramaturgas e activamente ligadas 
a lutas de emancipao feminina e social; e, posteriormente, as 
poetisas Fernanda de Castro (ri. 1900: 70 Anos de Poesia, 
antologia, e Urgente, Porto, 1989), Marta Mesquita da Cmara 
(ri. 1984: Poesias Completas, 1960), a poetisa e dra-

1076                                        HISTORIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
maturga Virgnia Vitorino (ri. 1898 - t 1967: Namorados, 1918, 
com 14 edies); Maria Lamas (ri. 1893.04.12 - t 1983.12.06), 
que, alm de romancista, directora de revistas, autora de 
literatura infantil, se distinguiu por amplos e reveladores 
inquritos aos problemas da mulher (Mulheres do Meu Pas, 1948; 
A Mulher no Mundo, 1952); Maria Archer (ri. 1905 - t
1982.01.24), cujos romances e contos denunciam a dependncia 
civil da mulher portuguesa (Trs Mulheres, 1935; Ela  apenas 
Mulher, 1944; Havia de haver uma lei, 1949; A Primeira Vtima do 
Diabo, 1954); as romancistas e contistas Adelaide Flix (ri. 
1896 - t 197 1: Eu Pecador me Confesso, 1954) e

Raquel Bastos (ri. 1903: Um Fio de Mtsca, 1937; Largo de D. 
Tristo,
1955). Nomeie-se ainda Manuela Porto (1908-1950), que foi tambm 
ficcionista (Um filho mais e outras histrias, 1954), mas se 
notabilizou sobretudo como declamadora, e muito contribuiu desse 
modo para a consagra o do modernismo; e ainda Judite Navarro 
(ri. 1910), a partir de cuja obra se pode datar o incio do mais 
recente e melhor surto do romance feminino (Esta  a Minha 
Histria, 1947; A Azinhaga dos Besouros, 1948, e Terra

de Nod, 196 1; Os Dias Selvagens, 1964), nela se cruzando a 
nsia de independncia econmica e sentimental feminina com uma 
profunda simpatia pelas pessoas simples de ao p da porta, 
brancos ou negros moambicanos.

De entre aqueles que, a partir do regionalismo, to cultivado 
desde o

sculo passado, se ergueram a formas superiores de fico 
realista destaca-se Joo de Arajo Correia (ri. 1899.01.01 - t 
1985.12.3 1), um dos nossos melhores contistas, que assimila  
mais correntia e elegante prosa a fala oral dos seus aldeos, e 
se tornou capaz, como poucos, de organizar a narrativa de modo a 
dispensar a mnima nota judicativa extrnseca  aco, 
convertendo muitas vezes o prprio narrador rural da primeira 
pessoa em personagem bem caracterizada e que se mexe  nossa 
vista. O mundo social, admiravelmente notado, dos seus livros 
(Contos Brbaros, 1939; Contos Durienses, 194 1; Terra Ingrata, 
1946; Cinzas do Lar, 195 1; Folhas de Xisto,

1959; Montes Pintados, 1960; Rio Morto, 1973; Tempo Revolvido, 
1974) abrange a aristocracia duriense dos fins da Monarquia, 
brasileiros, doutores, burgueses alcandorados, padres 
aburguesados, caseiros, almocreves e

outros tipos populares. Temtica dominante: supersties, luta 
pela terra, caa ao lucro pelo logro, sujeio das mulheres  
tutela masculina, culto dos figures locais, ritualizao 
domstica dos objectos hereditrios. Antologias:

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
         1077
O
Os Melhores Contos de J. de A. Correia, 1960, e Noite de Fogo, 
1974. Coligiu ainda vrios volumes de crnicas, por vezes muito 
saborosas, o ltimo dos quais Pontos Finais, 1975.

Dentro do realismo pitoresco de costumes tiveram certa voga dois 
contistas cujo assunto se inspira na Estremadura litoral: 
Antnio Gomes Vitorino (ri. 1898 - t 1962.04.27), que da sua 
prpria origem e experincia popular arrancou Gente de Vieira, A 
Vida comea assim; e Jos Loureiro Botas (ri. 1902 - t 1963), 
mais levemente pitoresco (Litoral a Oeste, 1940; Frente ao Mar, 
1944; Mar Alta, 1952; Barco sem ncora, 1963).

Com todos os inconvenientes de qualquer esquematizao, , 
contudo, possvel agrupar vrios ficcionistas em que, deste ou 
daquele modo, se cruzam certa continuidade do naturalismo, certo 
populismo (quer dizer, uma

ostensiva simpatia por tipos populares e vagabundos), por vezes 
certo psicologismo ou certa preocupao tica. Assim, do 
populismo lisboeta de Norberto de Arajo (1889-1952) e, a nvel 
superior, de Irene Lisboa, Miguis e Gomes Ferreira, pode 
aproximar-se o do Bairro Excntrico, 1946, de Aleixo Ribeiro 
(ri. 1898 - t 1977), que fizera uma profunda evoluo anterior e

se evidenciara com um romance, tipo dostoievsquiano-presencista, 
dos impulsos irreprimveis, Bssola Doida, 1938. O naturalismo 
russo e o francs, certa atmosfera de aventura e sonho palpitam 
em Domingos Monteiro (ri. 1903.09.06 - t 1980.08.18: Enfermaria, 
Priso e Casa Morturia, 1943, ed. def. 1962; O Mal e o Bem, 
1945; O Sobreiro dos Enforcados e outras narrativas, 1979). Uma 
semelhante nsia de nomadismo, amor das terras

e sua gente, sonho democrtico e experincia fsica alterna com 
estudos de artistas plsticos e de escritores em Manuel Mendes 
(ri. 1906.01.18 - t
1969.05.04: Bairro, 1945; Estrada, 1952; Pedro, 1954, reedio 
1963; Roteiro Sentimental, 3 volumes, 1964-65-67). Faure da Rosa 
(n. 1912 - t

1985.01.23) apropria a intuio psicolgica a um realismo 
crtico que incide penetrantemente sobre a degradao da famlia 
burguesa e sobre os meandros da sensibilidade religiosa na 
classe mdia (Fuga, 1945, reedio 1977; Retrato de Familia, 
1952; De Profundis, 1958, reedio 1974; Appassionata, r., 
1982). Est muito prximo da sensibilidade neo-realista.

Por razes de ordem etria e ainda por aspectos relevantes de 
focagem objectivamente social, terminaremos esta seco com a 
referncia a dois

1078                                        HISTORIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
ficcionistas de orientao doutrinria conservadora, em 
contraste corri as feies mais tpicas, mesmo quando no 
permanentes, dos anteriores.

Na obra de Joaquim Paos d'Arcos (n. 1908.09.02 - t 1979.06. 10) 
distingue-se um conjunto de romances e especialmente de contos 
assentes sobre uma grande experincia colhida em vrios 
continentes (Dirio de Um Emigrante, 1936; Neve sobre o Mar, 
1942; O Navio dos Mortos, 1952), e, por outro lado, o ciclo de 
romances Crnica da Vida Lisboeta, que constitui flagrante 
depoimento literrio sobre os arrivistas e a alta burguesia de 
meados do sculo, incluindo O Caminho da Culpa, 1944, o seu 
melhor romance, de que podemos aproximar ainda vrios dramas de 
costumes e os

contos de Carnaval, 1959. O seu estilo, inicialmente muito 
frouxo, apurou-se at s Memrias duma Nota de Banco, 1962, que 
ainda lembra o Escritrio do Avarento de D. Francisco Manuel de 
Melo. Em 1965 publicou o

seu primeiro volume e ciclo de Teatro, e em 1967 Novelas Pouco 
Exemplares. H uma antologia sua de Os Melhores Contos, 1963, e 
trs volumes de Memrias da Minha Vida e do Meu Tempo, 1973-76-
70.

Realista pela notao de linhagens aristocrticas em decadncia 
e de aspectos pcaros rurais, Toms de Figueiredo (n. 1902.07.06 
- t 1970.04.29), apesar da sua tardia revelao, deve ser tido 
corno um dos melhores ficcionistas, quer pela originalidade da 
intriga, em que alis se reintegra por vezes

o novelesco camiliano, quer por uma prosa flexivelmente castia 
(A Toca do Lobo, 1947, reedio 1963; N-Cego, 1950; Uma Noite 
na Toca do Lobo,
1952; Teatro - 1, 1965; Noite das Oliveiras, r., 1966, reedio 
1986); Tnica de Nesso, 1989).

Surto e evoluo do neo-realismo

A revalorizao do realismo processou-se, como vimos, ao longo 
da dcada de 30. Para isso contribui a crise econmica 
desencadeada em 1929 e a literatura de crtica social a que 
internacionalmente deu azo, associada em Portugal ao movimento 
de resistncia democrtica.


O neo-realismo apresenta como caracterstica bsica (e explcita 
no seu

prprio nome, que se generaliza desde 1938) uma nova focagem da 
realidade portuguesa, de certo modo anloga  da Gerao de 70, 
mas que, como j Miguis fizera em 1930, critica o elitismo 
pedaggico proudhoniano anteriano e dos democratas da Seara Nova 
dos anos 20, pois tem em vista a conscientificao e dinamizao 
de classes sociais mais amplas.

7. - POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
             1079
O
As manifestaes tericas ligadas ao novo realismo e as 
polmicas atravs das quais se foi definindo principiam a 
verificar-se desde meados da dcada de 30, em revistas juvenis 
como Outro Ritmo, Porto 1933, Gleba, Lisboa
1934, Gldio, Lisboa 1935, gora, Coimbra 1935; em O Diabo 
(1934-40), Lisboa, Sol Nascente (1937-40), Porto e Coimbra, 
Altitude (1939), Sntese (1939-40), Coimbra, e Pensamento, Porto 
(1939-40), nas quais alternam ou

se aliam com outras tendncias ento consideradas afins; entre 
estas destaca-se um certo empirismo e agnosticismo de inspirao 
cientfica, em cuja exposio se distinguiu a personalidade 
multifacetada de Abel Salazar (n. Guimares, 1889.07.19 - t 
1946.12.29), investigador cientfico, divulgador do 
neopositivismo e da caracterologia aplicada a escritores ou 
artistas, artista plstico, crtico de arte, ensasta em 
variados domnios, e autor de um gnero ento prestigiado, o de 
impresses de viagem e arte (Uma Primavera em Itlia, 1934; Um 
Estilo na Alemanha, 1934; Digresses em Portugal, 1935; etc.). 
Abel Salazar , por um lado, o continuador, em redaco 
improvisada e nervosa, do esteticismo de Teixeira Gomes, por 
outro lado o ltimo representante da tradio agnstica, ento 
neopositivista; nesse sentido, o seu influente magistrio 
opunha-se, no Porto, ao intuicionismo metafisico de Leonardo 
Coimbra, e o seu empirismo veio mais tarde (1937) a polemizar 
com veemncia contra o idealismo racionalista de Antnio Srgio. 
 de resto tpica do neo-realismo uma parte da sua obra 
pictrica; que se compraz em enrgicos tipos populares femininos 
(vendedeiras, carrejonas, camponesas).

Outras revistas, como Seara Nova, Presena, Manifesto, 
Portucale, publicaram tambm colaborao neo-realista. Os 
primeiros e ainda incipientes volumes saudados como 
representativos da nova corrente aparecem nas vsperas e nos 
incios da ltima Guerra Mundial: Iluso na Morte, 1938, contos 
de Afonso Ribeiro (n. 1911); Sinfonia de Guerra, 1939, poesia, e

A Arte e a Vida, 1941, ensaio, de Antnio Ramos de Almeida 
(1912-61); Rosa-dos- Ventos, 1940, poesia, de Manuel da Fonseca; 
Corsrio, 1940, poesia, de Alvaro Feij (Os Poemas de Alvaro 
Feij, Lisboa, 1961, 3. edio

1978). A partir de 1941 assinala-se a srie de ensaios de 
Cadernos Azuis, no Porto, a dos dez volumes de poesia Novo 
Cancioneiro, 1941-44, em Coimbra, completados desde 1943 pela 
srie Novos Prosadores e pela revista Vrtice, na feio que ela 
assume a partir do n. 4/7 de Fevereiro de 1945. Ao mais popular 
dos pioneiros do neo-realismo, Soeiro Pereira Gomes

1080                                        HISTORIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
(ri. 1909-04-14 - t 1949-12-05), deve-se nesse mesmo ano de 1941 
a primeira notvel obra desta corrente, Esteiros, que nos 
sensibiliza perante a

explorao dos adolescentes assalariados nos telhais do 
Ribatejo. Entre as

suas obras pstumas salientam-se Reffigio Perdido (1950, 
reedio 1975), Contos Vermelhos, em edio clandestina, s/d, e 
Engrenagem (1951, 3. a

edio 1975), texto no revisto de um romance que foca a 
transformao de um grupo de camponeses colhidos nas malhas da 
proletarizao fabril.

O Novo Cancioncro acolheu o esplio literrio de dois poetas 
que a morte

no deixou realizar quanto prometiam: Os Poemas, 1941 (reedio 
1961,
3. a edio 1978), de lvaro Feij (1916-4 1), cuja 
combatividade linear e

lmpida, desentranhando-se de uma anterior formao 
individualista tingida de erotismo juvenil, se vaza num 
imaginrio de aventura martima caracterstico do neo-realismo 
inicial, e em smbolos de antigas vivncias religiosas e 
infantis, s quais atribui um novo sentido revolucionrio; e Voz 
que Escuta, 1944, j precedido, em 1938, por As Trs Pessoas, de 
Polifflio Gomes dos Santos (n. 1911-08-08 - t 1939-09-03), que 
traz  stira social uma

arte potica de estranha qualidade, um temperamento rico e 
doloridamente original, capaz de unir certos motivos num mesmo 
fio: o do sangue de muitas vidas corrente em direco  morte e 
o da bacia hidrogrfica a escoar-se

para o mar; o do prprio corpo doente e o da pobre cidade 
burguesa febril e visionariamente radiografada, numa 
impressionante identificao da doena fisiolgica com a social 
que transfigura o narcisismo de Antnio Nobre, ponto de partida 
da sua esttica (Poemas, edio global, Porto, 1981).

Pode dizer-se que, desde as vsperas da ltima Guerra Mundial, o 
neo-realismo, apesar das suas deficincias e vicissitudes, 
apesar de nem os seus

escritores, nem o pblico largo a que, imediata ou mediatamente, 
se destinavam, terem atingido um grau de maturao cultural 
comparvel quele a que anteriormente chegaram as vagas 
literrias de endereo minoritrio (como o classicismo de corte, 
o romantismo-realismo oitocentista), se tornou a tendncia de 
maior irradia o; o seu prestgio estava ligado ao do ncleo de 
resistncia social e urna ditadura plutocrtica.

 fase inicial do neo-realismo, em que predominou o articulismo, 
a polmica de revista, seguiu-se outra fase, at cerca de 1950, 
em que a principal ateno se deslocou gradualmente da poesia e 
do conto para o romance, para urna teorizao esttica de certo 
flego e para o ensaio histrico. A seguir ao Novo Cancioneiro, 
as principais sries editoriais onde a sua poesia esteve

7. @ POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
            1081
O
representada foram a d Galo (1948), em Coimbra, e, desde 1950, 
a do Cancioneiro Geral, Lisboa. Entretanto, a mais importante 
corrente simultnea e alternativa ao neo-realismo deixa de ser o 
psicologismo presencista, que tambm por ento se inclina 
sobretudo para o ensaio e a fico em prosa, e passa a ser um 
certo imagismo ou vanguardismo em poesia que, mais tarde, em 
1948, tenta em Portugal, com atraso de dois decnios sobre o 
modelo inicial francs, a sua aventura surrealista.

Atinge-se, no dobrar da dcada de 40 para a de 50, o perodo 
mais negro e angustioso da chamada Guerra Fria. As tendncias 
alheias ao neo-realismo

passam ento, em poesia e prosa, por uma evoluo em que se 
tornam dominantes os temas existencialistas da universal nusea 
e cptica indiferena a

respeito dos credos e ideais de progresso. As dificuldades de 
uma sntese

entre o marxismo e a vanguarda literria comprometeram a 
existncia da

revista cultural de grande tiragem Mundo Literrio (1946-48), e 
repetiram-se em 1952-53 com a tambm ampla revista Ler, ambas 
alis suspensas pela censura; e desencadeia-se por ento a mais 
viva discusso interna do neo-realismo, cujos ecos se encontram, 
por exemplo, em nmeros da Vrtice

desse ano e do seguinte e em tendncias inovadoras de rvore 
(1951-53).
O seu objecto imediato girava em torno dos conceitos de forma, 
contedo, formalismo, mas o principal desencanto residia na 
difcil adequao da literatura neo-realista quelas camadas por 
que pretendia interessar-se, e vice-versa. Os principais 
ficcionistas neo-realistas, subitamente cnscios das suas

limitaes e em plena ressaca da Guerra Fria, vo tentar apoiar-
se nos gostos e nos pblicos j feitos, invocando ora tradies 
nacionais como a camiliana, ora vivncias existenciais, ora os 
recursos da tcnica moderna da poesia, do conto e do romance.


Entretanto, na investigao e no ensaio crtico, verificam-se 
alteraes de problemtica de histria e de projecto nacional a 
que Antnio Srgio, Jaime Corteso e Lcio de Azevedo serviram 
alis de precursores e em que se cruzam influncias marxistas 
com as da historiografia, sociologia e geografia humana 
representada pelos Annales dhistoire conomique et sociale (1929 
... ). Vitorino Magalhes Godinho (n. 1918) traz  
historiografia portuguesa, com Documentos sobre a Expanso 
Portuguesa, trs volumes,
1943-45-56, A Economia dos Descobrimentos Henriqunos, 1962, Os 
Descobrimentos e a Economia Mundial, em publicao desde 1963, e 
Ensaios,

1082                                          HISTORIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
cinco volumes, 1968-72, uma metodologia e uma perspectiva que 
apagam as polmicas de tradio j acobina e antij acobina 
(polmicas cujo apogeu fora atingido pelas *reabilitaes+ 
integralistas do absolutismo) e ainda a querela travada durante 
decnios entre a apologtica cruzadista, henriquista ou 
nacionalista dos Descobrimentos (Joaquim Bensade, Manuel 
Heleno, Mrio de Albuquerque, etc.) e os seus crticos (Lcio de 
Azevedo, Veiga Simes, Duarte Leite), assentando o trabalho numa 
investigao das estruturas econmicas e sociais que 
interessaro pesquisadores to diferentes como Virgnia Rau, 
Orlando Ribeiro e Borges de Macedo; Lus de Albuquerque (n. 1917 
- t 1992.02.22) apoia a histria dos Descobrimentos numa slida 
informa o histrico-cientfica, enquanto outros investigadores 
tendem para a sntese ou para a
monografia histrico-sociolgica marxista (Armando Castro, 
posteriormente Vitor de S, Jos Tengarrinha, etc.); Joaquim 
Barradas de Carvalho assenta numa vasta erudio uma viso 
materialista do nosso Renascimento; Joel Serro procura lanar 
conexes entre a histria das mentalidades e a econmico-social, 
associando a anlise quantificada  da utensilagem mental, e 
dirigir uma importante obra colectiva, o Dicionrio da Histria 
de Portugal, quatro volumes, 1963 -7 1. Numa perspectiva 
liberal, mas permevel a uma nova problemtica, A. H. de 
Oliveira Marques elabora uma sntese da Histria de Portugal 
(1972). Em Esboo Histrico da Hstoriografia Portuguesa, 
inserta nos seus Ensaios de Hstoriografia Portuguesa, Oliveira 
Marques considera a *autntica revoluo na historiografia 
portuguesa+ a da *gerao de 1939-45+, que apenas julga 
comparvel  do tempo de Herculano.

No mbito da teoria esttica geral,  oportuno mencionar Mrio 
Dionsio, que discute e analisa, na obra de flego A Paleta e o 
Mundo, dois volumes, 1956-62, reed. popular, cinco volumes, s/d 
(o mais importante trabalho de teoria e hermenutica esttica 
neo-realista), e em vrios ensaios, os problemas das artes 
plsticas modernas. No ensasmo especificadamente crtico ou 
histrico-literrio verifica-se uma acentuada mutao de 
perspectivas, ento representada pelos autores do presente 
livro, por Augusto da Costa Dias, Mrio Sacramento, Alberto 
Ferreira, Alexandre Pinheiro Torres.


Entre as manifestaes culturais que assinalaram uma mudana 
efectiva, hoje muito despercebida, da mentalidade culta 
portuguesa conta-se a *Bibloteca Cosmos+, dirigida, desde 
1940, por Bento de Jesus Caraa (n.
1901-04-18 - t 1948-06-25), cuja polmica com Antnio Srgio 
mareou

um momento importante (Vrtice, 1945-46, textos includos na 
reunio das suas Conferncias e outros escritos, 1970).

7. - POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
            108.3

Ao longo da dcada de 50, o neo-realismo e certas vanguardas 
estticas convergem. A 3. a srie antolgica das Lricas 
Portuguesas, publicada em

1958 por Jorge de Sena, constitui claro indcio de uma guinada 
para o realismo, mesmo por parte de poetas com tradio imagista 
e surrealista; e as

posteriores publicaes colectivas mais homogneas e permanentes 
de poesia (Notcias do Bloqueio, 9 brochuras, Porto, 1957-62, 
Cadernos do Meio-Dia, 5 nmeros, Faro, 1958-60) podem balizar 
tambm esse desenvolvimento, em que alis se sente a analogia 
com uma simultnea evoluo na poesia espanhola. Quanto  fico 
em prosa e ao teatro, os anos de 60 parecem assinalar uma 
recuperao, a nvel esteticamente superior, dos autores 
consagrados ao novo realismo social e que no decnio de 50 
experimentaram novos moldes, evitando a estagnao (Redol, 
Namora, Manuel da Fonseca, Cardoso Pires, etc.); a nova fico 
de inspirao existencialista, que nesse decnio se lhe opunha, 
tende ento a aproximar-se-lhe (Urbano Tava~ res Rodrigues, 
Fernanda Botelho, etc.).

Esbocemos agora a trajectria das principais personalidades e 
grupos de orientao realista. Notemos desde j que, na fico, 
como alis no ensasmo e na investigao histrica, o neo-
realismo  urna tendncia onde se salientam certas concepes 
marxistas dos anos 30 a 50, mas em cujas guas confluem, tal 
como delas tambm derivam, outras tendncias mais antigas ou

recentes ao sabor das condies gerais dominantes. A imagem que 
melhor traduz a realidade literria  sempre alis a de uma rede 
particularmente apertada de interseces e tangncias de 
carreiras individuais. Assim, por exemplo, a fico neo-realista 
em prosa constitui, em grande parte ainda, uma

redescoberta da vida rural, ou de qualquer modo regional, mas 
encarada com uns olhos aos quais avulta a dinmica social do 
salariato e, em contraste, a decadncia, proletarizao, ou 
quase, de certa pequena burguesia. Alm do regionalismo, temas 
como o do paraso da infncia, o da frustrao individual, em 
especial feminina, servem muitas vezes de base a 
desenvolvimentos tangenciais ao neo-realismo.


Entre os precursores da corrente, Afonso Ribeiro (n. 1911) 
prosseguiu

no seu inqurito aos sofrimentos e reaces da gente popular 
nortenha, alde ou suburbana, com uma intencionalidade 
transparente e usando como contraponto  narrativa os modismos 
da fala ntima popular (Aldeia, 1943; Maria, ciclo da servial 
domstica prostituda, 1946-56-59; Os Comedores de Fomes,
1983). Manuel do Nascimento (1912-1966), cuja melhor prosa  
tambm

1084                                       HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
a mais despretensiosamente linear, continua a oferecer como 
principal ttulo de interesse as suas situaes realistas de 
dependncia feminina, sujeio pequeno-burguesa ao dinheiro, e 
explorao salarial (Eu queria Vver, 1942; Mineiros, 1944; O 
ltimo Espectculo, 1955).

Antnio Alves Redoi (n. 1911-12-29 - t 1969-11-29), o primeiro 
romancista da nova tendncia que encontrou uma larga aceitao, 
interessou-se primeiro pelo drama social ribatejano (Glria, 
estudo etnogrfico, 1938; Gaibus, 1939, 6.1 edio 1989; Mars, 
1941, 4. edio 1972; Avieiros, 1943,
7. edio revista, 1976; Fanga, 1943, 9. a edio revista 
1976), num estilo que apenas se pretendia documental e acusava a 
influncia do Jorge Amado inicial; mais tarde reconstitui, por 
forma demasiado didctica, esquematicamente precisa, os 
conflitos histricos da regio duriense (Porto Manso, 1946; 
ciclo Port Wne, 3 cols., 1949-53, 3. a edio 1975); volta com 
Olhos de gua, 1954, 3. a edio 1967, a focar o Ribatejo, de um 
modo mais gil e um tanto romntico-pitoresco; A Barca dos Sete 
Lemes, 1958, 8. a edio
1986,  um romance de aco longa e intensa que, sob animao 
picaresca, agita o problema tico-poltico do traidor potencial 
e o problema da prpria esttica realista da narrao; os 
romances posteriores, Uma Fenda na Mura- a lha, 1959, 4. edio 
1976, e O Cavalo Espantado, 1960, 3. edio 1972, comprimem, 
pelo contrrio, o tempo e o elenco da intriga, tendendo para as 
linhas sbrias de um conflito tico. Observador atento, capaz de 
largas concepes originais, Redol, cuja obra se estende ainda 
ao teatro, ao conto, a estudos etnogrficos e outros, no chegou 
a atingir, no seu contnuo progresso, um seguro gosto narrativo 
e dialogal. O seu melhor livro, onde apreende a evoluo social 
e moral que desde fins do sculo XIX se pode descortinar em 
torno de um latiffindio ribatejano,  o Barranco dos Cegos,
1962, 5. edio 1976. ltimas obras editadas: Histrias 
Afluentes, 1963;
O Muro Branco, 1966, 5.1 edio 1976; Teatro, dois volumes, 
1966-67, e

Reinegros (1974, edio pstuma de um romance antes proibido 
pela censura).


Nos primeiros agrupamentos da tendncia, ganham notoriedade 
Sidnio Muralha (ri. 1920 - t 1982-12-09: Beco, 1941; Poemas 
(1941-1971), Porto, 1971; O Homem Arrastado, novela, 1972) e 
Armindo Rodrigues (n. 1904-6-27), pela acessvel 
intencionalidade, que os torna, ao primeiro, como que o 
prolongamento neo-realista da gazetilha e do quadro lrico ou

satrico de costumes de Augusto Gil, e, ao segundo, o 
actualizador de velhas tradies, sobretudo lrico-epigramticas 
e sentencirias (em curso a reedi-

7. J POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
           1085
O
o da sua extensa Obra Potica, em 14 volumes, 1970-76; 
Quadrante Solar,
1984; antologia, com autobiografia, O Poeta Perguntador, 1979).

Entre os poetas editados pelo Novo Cancioneiro, Mrio Dionsio 
(n. 1916-07-16), tambm mais ligado aos agrupamentos lisboetas, 
atinge em

Riso Dissonante, 1950, os melhores momentos de uma aliana entre 
as

vibraes lricas e combativas, entre o desespero e a esperana, 
o senso do irrecupervel e o do futuro a criar, vencendo o 
esquematismo dos livros anteriores (ltima edio de conjunto, 
Poesia Incompleta, 1966; Terceira Idade, s/d 1982); seguro 
contista tambm (0 Dia Cinzento, 1944, reed. aum,
1967; Monlogo a duas Vozes, 1986; A Morte  para os Outros, 
1988), autor de um romance de inovadora estrutura realista (No 
h Morte nem

Princpio, 1969), a sua mais influente actividade exerceu-se, 
como vimos, no ensaio e na crtica de literatura e sobretudo de 
arte. Joo Jos Cochofel (n. 1919-07-17 - t 1982-03-14: Sol de 
Agosto, 194 1; Os Dias ntimos, 1950; edio de conjunto, 46. > 
Aniversrio, 1966; Obra Potica, 1989) , fundamentalmente, um 
lrico de amor cujos registos incluem as vicissitudes e a *dor 
da esperana+ no negrume de muitos anos. Pelo contrrio, 
Joaquim Namorado (n. 1914-06-30 - t 1986-12-29: poesia reunida 
em Incomodidade, 1945, a que acresce A Poesia Necessria, 1966) 
tende todo  exaltao da energia, do desengano que abre 
horizontes, ao epigrama satrico;  um dos mais activos 
organizadores e impulsionadores do neo-realismo.

A publicao, em 1948-50, pela srie do Galo, dos volumes Poesia 
I e II permitiu o conhecimento de Jos Gomes Ferreira (n. 1900-
06-09 t 1985 -02-08), poeta consagrado, da gerao da presena, 
mas comummente

conotado com a corrente neo-realista. O volume Poesia III foi 
editado em
1961 (5. a edio dos 2 volumes 1972, vol. IV 1970, V 1973, VI 
1976. Reunio da obra potica completa em Poeta Militante - 
Viagem do Sculo Vinte em Mim, 1. vol. 1977, reed. 1978, 2.1 e 
3. volumes, 1978; 4.a edio

1991. Antologia Potica, 1975.)  parte certa dosagem 
surrealista e (sobretudo em Elctrico, 1956) uni toque de Afonso 
Duarte, Gomes Ferreira foi principalmente o porta-voz de um 
sentimento de remorso e responsabilizao do intelectual por 
todas as brutalidades e injustias, pelo drama colectivo dos 
ltimos cinco decnios; as contradies da auto-sinceridade, j 
focadas por Raul Brando e Rgio, ganham com ele tons 
alternativos de sarcasmo, de nojo, de revolta, de melancolia, de 
perplexidade, anotados no quotidiano de resistncia. As crnicas 
de O Mundo dos Outros (1950, 8. a edio 1990) e, mais

1086                                        HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
efabuladamente, a narrativa O Mundo Desabitado (1960) e os 
contos Os Segredos de Lisboa (1962) revelam a proximidade a que 
esta poesia fica do tema de responsabilidade inteira por si 
prprio e pelas frustraes e iniquidades sociais, tema que 
percorre, entre outras, a obra de duas personalidades marcantes 
da mesma gerao de Gomes Ferreira, vm a ser Rodrigues Miguis 
e Irene Lisboa. Reuniu uma srie de histrias imaginativamente 
didcticas e satricas, muitos anos antes publicadas num 
semanrio juvenil, as A venturas de Joo Sem Medo, 1963 (6. a 
edio 198 1), e produziu dois excelentes volumes de impresses 
e reflexes, A Memria das Palavras, 1965, 4. a edio
1979, Imitao dos Dias, 1966. Antologia de contos: Tu, 
Liberdade!, 1977.

Desde Turismo, 1942, ou Me Pobre, 1945, at s verses 
definitivas reunidas em Trabalho Potico, dois volumes, 1976, 
incluindo a ento indita Pastoral, edio  parte 1977, a 
poesia de Carlos de Oliveira mantm-se fiel a um *sentido da 
terra+ muito diverso das exaltaes telricas de Pascoais ou 
Torga, embora numa continuidade mais sensvel de Afonso Duarte. 
 mesmo caracterstico um obsessivo contraste entre o cu e a 
terra, ou entre

a ascenso e a queda, a que a astronutica, o cinema ao 
retardador e uma sua especial concepo materialista do acto 
potico como magia desrealizadoralrealizadora trazem feies 
muito originais. A preocupao dominante  a de encontrar, na 
prpria estrutura e na elaborao do seu texto potico (marcado 
pela insnia e por palpitaes de angstia hipersensvel, num 
horizonte histrico cerrado ou perverso), o reflexo, ou 
homologia, da rida e

pobre Gndara natal, de um sombrio quotidiano lisboeta, 
predominantemente nocturno ou quase, ocasionalmente da Amaznia, 
e de fases de toda uma gestao (dele, poema) que passa pela 
gnese geolgica e histrica de um areal, de cada seu grnulo 
calcrio, das formas arcaicas ou fsseis da vida, de uma 
estratificao que tambm envolve geraes humanas e classes 
sociais em conflito, pairando uma incerta, ocasional, ou mesmo 
tnue esperana de dada ave solar humana, que assegure o 
*dornnio integral da conscincia+ dos espaos terrestres e 
csmicos - velho sonho prometeico que vem das Odes Modernas at 
ao Cancioneiro das Pedras de Afonso Duarte, mas para o qual 
Carlos de Oliveria s encontra como smile mais credvel um 
corpo de mulher.


O seu romance Casa na Duna (1943, 7. a edio ref. 198 1)  
feito da tragdia de estagnao e decadncia de uma famlia 
burguesa da Gndara; em Alcateia (1944, reed. rev. 1945) e 
Pequenos Burgueses (1948, 7. edio revista 1981) apreende a 
cadeia de condicionamento recproco entre a

7 3 POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
           1087
O
burguesia regional e vrios tipos marginais, ao passo que Urna 
Abelha na

Chuva (1953, ref. e com 23. a edio 1987) concentra a sua 
narrao incisiva numa reactualizao da novela camiliana. O 
Aprendiz de Feiticeiro  um volume de comentrios e impresses, 
1971, 6.1 edio corrigida 1979.
O ltimo livro, Finisterra, paisagem e povoamento, 1978, 4. a 
ed. 198 1, trabalha as principais obsesses de toda a sua obra, 
nomeadamente a de, por magia (ou alquimia) potica, apreender a 
*geornetria submersa+ da realidade, numa gama de imagens, ou 
reflexos (desenho infantil, enquadramento de vidraa, 
fotografias, pirogravura, maqueta caseira das dunas 
circundantes), que esto permeados pelo drama de uma famlia 
pequeno-burguesa decadente, pelo remorso (algo  Raul Brando) 
da explorao social em que essa famlia assenta (e se perde) e 
por evocaes dos sucessivos, ou encaixados e diversos tempos de 
configurao e desagregao: o tempo csmico e geolgico, ou 
paleontolgico, o tempo de dramticos ciclos vitais ou 
geracionais, o tempo do povoamento inicial e o das impiedosas 
reapropriaes sociais da terra.

Manuel da Fonseca (n. 1911-10-15) e Fernando Namora (n. 1919-04-
15
- t 1989-01-3 1) preludiavam j nos seus poemas de Novo 
Cancioneiro a

posterior obra em prosa. Manuel da Fonseca foi, j vimos, um dos 
pioneiros da poesia neo-realista, onde encontrou os tons mais 
justos da frustrao provinciana e burocrtica (Poemas 
Completos, 195 8, Obra Potica, 7. a edio revista 1984), e 
insere-se entre os mais notveis contistas actuais, fundindo a 
recuperao cornovente da experincia infantil com uma 
figurao, por vezes cheia de carcter, dos conflitos e do 
processo social de regio campania, no Alentqio (Aldeia Nova, 
1942, 8. edio revista 1987; Cerromaior,
1943, 5. a edio revista 1982; O Fogo e as Cinzas, 1953, 17.1 
edio revista
1989; Seara de Vento, 1958, 14. a edio 1988, novela de trgica 
resistncia  opresso social; Um Anjo no Trapzio, 1968, 
reedio revista 1986; Tempo de Solido, 1973, 2. a edio 
1987).


Fernando Namora, cuj a poesia desde 1937 se reuniu em As Frias 
Madrugadas, 1961, 6. a edio 1978, e que principiou, em prosa, 
pela fico sobre a adolescncia em moldes presencistas (As Sete 
Partidas do Mundo, 1938), notabilizou-se pelo que, em 
refundio, viria a ser o nico romance neo-realista da mocidade 
universitria (Fogo na Noite Escura, 1943, 14. a edio ref. 
1988), revelou-se depois um vigoroso contista dos ganhes no 
Alentejo (Casa da Malta, 1945, 9. a edio ref. 1978), um 
cronista da experincia do

1088                                        HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
Joo Semana de hoje (Retalhos da Vida de um Mdico, 1. srie, 
1948, 25.1 edio refundida 1989, 2. > srie, 1963, 15. 1 
edio refundida 1989), e, como romancista, a sua carreira 
evolui desde um tipo de romance-testemunho at uma efabulao 
ainda assente em problemas sociais, mas banhando numa atmosfera 
 qual o capricho ou humor da aventura picaresca, a notao da 
natureza local procuram dar uma atmosfera potica (Minas de S. 
Francisco,
1946, 8. edio refundida 1977; A Noite e a Madrugada, 1950, 
9. edio
1978; O Trigo e o Joio, 1954, 15. a edio 1979). Os seus dois 
volumes seguintes (0 Homem Disfarado, romance, 1957, 10. a 
edio revista 1988, Cidade Solitria, contos, 1959, 6. a edio 
1977) acusam o toque existencialista do decnio, focando-se 
polemicamente no penltimo certos aspectos corruptos da clnica 
liberal; mas Domingo  Tarde, 1962, 16. a edio 1988, Prmio 
Lins do Rego e inspirador de um filme, assinala, com uma 
composio mais equilibrada, o momento em que o romancista 
assimila tal sensibilidade a um

realismo social amadurecido. Nos volumes Dilogo em Setembro, 
1966, 5. a

edio 1978, Um Sino na Montanha, 1968, 4. a edio 1977, Os 
Adoradores da Sol, 1971, 5. edio 1988, Estamos no Vento, 
1974, a crnica e as impresses predominam sobre a fico. 
Marketing, 1969, 4.1 edio 1978,  um livro de breves 
comentrios prosaicos, vazados em verso livre; ao passo que Os 
Clandestinos, 1972, 4. edio 1978, representa o reajustamento 
de uma narrao at ento mondica  tcnica do romance 
multilinear (a clandestinidade conspirativa em contraponto com 
certa clandestinidade e certa

degradao burguesas). Depois de Cavalgada Cinzenta, 1977, 
romance-crnica sobre a vida nova-iorquina, do *divertimento+ 
Resposta Matilde,
1980, 7. a edio 1986, produziu com O Rio Tfiste, 1982, um dos 
seus melhores romances, em que um horizonte poltico-social 
opressivo se casa com uma intriga formalmente policial.


O romance da adolescncia fora trazido  literatura portuguesa 
pela gerao presencista, como corolrio do seu 
introspectivismo, que  afinal um aprofundamento do memorialismo 
romntico. Encontramo-lo em obras mencionadas de Rgio (Cabra-
Cega, A Velha Casa), em Branquinho da Fonseca (Bandeira Preta), 
em Gaspar Simes (Internato, 1946), em Casais Monteiro 
(Adolescentes, 1949); mencionmos a sua melhor consuma o em 
Miguis. Mas j podemos tambm verificar pela resenha anterior a 
insistncia com que o tema ocorre na fico neo-realista, por 
vezes, nomeadamente em Pereira Gomes, j fora dos moldes da 
intro-retrospeco na classe mdia. Cerro-

7 1 POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
             1089
O
maior, 1943, 5. > edio revista 1982, de Manuel da Fonseca, e 
Manh Submersa, 1955, de Vergilio Ferreira, assinalam alguns dos 
melhores momentos da apropriao neo-realista deste tema. Alguns 
ficcionistas da corrente tornaram-se conhecidos por essa 
apropriao: Joaquim Frrer (Rampagodos, 1941; Ilha Doida, 
1945), e sobretudo Jos Marmelo e Silva (ri.
1911-05-07 - t 1991-10-11), que com uma grande e tensa 
sobriedade, sem prejuzo de certa fora potica, deu o 
testemunho mais corajosamente realista das experincias de 
seminarista e miliciano (Seduo, 1938, 5.1 edi o
1989; Depoimento, 1939, 4. > edio s/d; O Sonho e a A ventura, 
1943, edio refundida 1965; Adolescente, 1948, ref. sob o 
ttulo de Adolescente Agrilhoado, 1985, 5. edio revista 1986. 
ltimos livros: O Ser e o Ter, 1968, reedio ampliada 1973; 
Anquilose, 1971, ampliao de uma novela do anterior volume; 
Desnudez Uivante, romance de experincia castrense, 1983).

Pelas suas afinidades com o neo-realismo, embora tematicamente 
integrado na literatura angolana, a que serviu de precursor, 
deve ser aqui mencionado Fernando Monteiro de Castro Soromenho 
(n. 1910-01-31 t 1968-06-19), que, depois de vrias obras de 
fundo etnogrfico e histrico, se salientou pela trilogia de 
romances de ciclo dito de Camaxilo (Terra Morta,
1949; Viragem, 1957; A Chaga, 1972), que pateticamente denunciam 
a violncia colonial numa tpica regio do Norte de Angola, com 
a desagregao das estruturas gentlicas e atravs de um 
processo inumano de que os prprios agentes administrativos de 
base sofrem, por ressaca, as consequencias degradantes.

Suspendamos aqui a focagem do neo-realismo na fase que decorre 
entre as vsperas da Segunda Guerra Mundial e o apogeu da Guerra 
Fria, digamos que entre 1938 e 1950. A simples caracterizao 
sumria das suas personalidades permite reconstituir uma 
primeira curva de evoluo. De um pendor dominante que se 
aproxima do populismo (de gostos e de pblico estimulados em 
parte por um novo realismo social posterior  crise de 1929-32, 
sobretudo brasileiro), transita-se a preocupaes que tm em 
melhor conta a qualidade especificamente artstica. Com excepo 
de Manuel da Fonseca, que nos surge notavelmente equilibrado 
logo no romance de estreia, j vimos que os ficcionistas da 
primeira hora e cuja obra continua a centrar-se em


ambientes populares, Afonso Ribeiro, Manuel do Nascimento, 
Redol, no ultrapassaram o melhor nvel de escrita de um 
precursor de outra gerao, Ferreira de Castro, embora a 
efabulao de Redol seja bastante mais imaginativa.

1090                                      HISTRIA DA LITERATURA 
PORTUGUESA

O caso mais importante de transio do neo-realismo para o 
existencialismo caracterstico do decnio de 50, e que por isso 
voltaremos a considerar adiante, verifica-se em Vergilio 
Ferreira (n. 1916-01-28), cuja obra se

caracterizou desde cedo por uma certa inquietao entre esttica 
e especulativa, uma constante experincia de novos meios 
expressivos, que ora incide sobre a notao minuciosa, lenta e 
dialogal da aco, ora sobre o aproveitamento directo da fala 
vulgar, ora sobre o tratamento romanceado de um problema 
doutrinrio (permanncia ou mudana histrica do imperativo 
moral), ora sobre a caracterizao fenomenolgica da percepo e 
da imaginao sensorial (Onde tudo fo morrendo, 1944; Vago J., 
1946, 3. > edio 1982; Face Sangrenta, 1953; Mudana, 1949, 4. 
a edio 1978; Manh Submersa,
1955, 5. edio 1978). Focaremos adiante uma sua fase bem 
demarcvel e que alis coincide com a real consagrao pblica.
O
111111,61,61106,AFIA
O
Antecedentes das novas tendncias realistas

Vol. da col. A Obra e o Homem dedicado a Ferreira de Castro, 
organizao de Jaime Brasil.

Gazeta Literria, n. > 9, 2. > srie, Maro 1960. Livro do 
Cinquentenrio de Vida Literria de Ferreira de Castro, Lisboa, 
1968, que contm uma sntese histrico-literria por scar 
Lopes.

Ferreira de Castro, introd. e antologia de lvaro Salema, 
Europa-Amrica, 1974. Depoimentos e artigos sobre A Fico em 
Prosa na Literatura Portuguesa includos em Estrada Larga, 
antologia do supi. cultural de O Comrico do Porto, 1. > vol., 
Porto.

Alguns temas da Moderna Poesia Portuguesa, in A Letra e o 
Leitor, Lisboa, 1969, de Jacinto do Prado Coelho.

Alm dos ensastas e crticos atrs referidos, ver, sobre 
Miguis, Cinco Personaldades Literrias, por scar Lopes, e 
Jos R. Miguis: Lisbon in Manhattan, colectnea de depoimentos 
e estudos, ed. da revista bilngue Gvea-Brown, Providence, 
Rhode Island,

1986 - esta rev. organizara um simpsio acerca de Miguis cujas 
comunicaes integra o seu n. > especial 1982-83 e que, com 
acrescentos, constituem o referido volume; e Mrio Neves, J. 8. 
M. - Vida e Obra, Caminho, 1990 (fundamentalmente, uma biografia 
muito testemunhal com importantes dados epocais e cartas 
inditas); John Ken, Miguis - to the Seventh Decade, Univ. do 
Mississipi, 1977. O esplio de J. M. M. est depositado na Univ. 
de Brown. A ed. Estampa tem publicado uma srie das suas Obras 
Completas.

Os Melhores Contos Portugueses, 2. > srie, sei. e pref. de 
Guilherme de Castilho,

7. @ POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
                         1091

O Problema do Romance Portugus Contemporneo, por Joo Pedro de 
Andrade,
1942.

Moro, Paula: lrene Lisboa. Vida e Escrita, Presena, 1989 (tese 
de doutoramento), e O Essencial sobre 1. Lisboa, IN-CM, 1985.

Cunha, M. Helena Ribeiro da: Aspectos da obra de fico de 1. 
Lisboa, tese de doutorarnento, Univ. de So Paulo, 1968Surto e 
evoluo do neo-realismo Novo Cancioneiro, reed. num s vol. das 
10 obras da coleco com apres. de AI. Pinheiro Torres, Caminho, 
1989.

Andrade, Joo Pedro de: Poetas da Novissima Gerao, 1943 (ver 
tambm a crtica deste ensaio por Mrio Dionsio, Ficha 14, 
1944, separata de Seara Nova) e um artigo contido em 
Tetracrneo, 1955; suplemento Cultura e Arte d'O Comrcio do 
Porto, 11 de Out. e 22 de Nov. 1960, sobre a poesia portuguesa 
posterior a 1940, incluindo antologia e artigos de panormica de 
scar Looes.

Simes, Gaspar: Crtica 1 e 11, 1941-6 1, e Histria da Poesia 
Portuguesa do Sculo XX, Lisboa, 1959.

Vols, de recenso crtica e ensaio, j anteriormente referidos, 
de Franco Nogueira, Mrio Sacramento, David Mouro-Ferreira.

Para obras editadas ou reeditadas desde 1951, ver recenses na 
seco *A Crtica do Livro+ do suplemento cultural quinzenrio 
de O Comrcio do Porto, por scar Lopes; do mesmo autor, Os 
Sinais e os Sentidos, Caminho, 1986, e Cifras do Tempo, ibidem, 
1990.

Coelho, Jacinto do Prado: Problemtica da Histria Literria, 2. 
> ed., Lisboa, 1961.

Lricas Portuguesas, 3. > srie, selec. e pref. de Jorge de 
Sena, 1958, reed. 1972. Vrtice, 38, n.@ 412-413-414, Coimbra, 
1978, dedicado a Bento de Jesus Caraa, com bibliografia 
actualizada, enquadramento cronolgico e histrico.


Vrtice, 11 srie, Dez. 1989, n. > dedicado ao neo-realismo 
(com extensa bibliografia). Quanto aos problemas doutrinrios do 
neo-realismo, ver, em vrios nmeros de Vrtice de 1952-53, 
artigos assinados por Antnio Jos Saraiva, Antnio Vale, 
Armando Bacelar, Joo Jos Cochofel e Mrio Dionsio, Mrio 
Sacramento, H uma Esttica Neo-Realista?, Lisboa, 1968, e 
Ensaios de Domingo, li, Porto, 1973.

Torres, Alexandre Pinheiro: Poesia: Programa para o Concreto, 
1966, Romance: O Mundo em Equao, 1967; O Neo-Realismo 
Portugus, 1977; O Movimento Neo-Realista em Portugal na sua 
primeira fase, *Biblioteca Breve+, ICALP, 1977, Ensaios 
Escolhidos, Caminho, 1, 1989, li, 1990.

Mendona, Fernando: O Romance Portugus Contemporneo, Assis 
(So Paulo),
1966, e Trs Ensaios de Literatura, ibidern, 1967.

Carmo, Jos Palia e: Do Livro  Leitura, 197 1.

Soares, Fernando Luso: Literatura. Dialctica, Estrutura, 
Lisboa, 197 1.

Guimares, Fernando: A Poesia do Presena e o Aparecimento do 
Neo-Realismo, ensaio e antologia, 1969, reed. 1981, Braslia 
Editora, Porto.

1092                                              IIISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

Serro, Joel: A Novelstica Social da dcada de 40, in Colquio, 
9, Set. 1972. Coelho, Eduardo do Prado: vrios estudos includos 
em O Reino Flutuante, 1972, e em A Palavra sobre a Palavra, 
1972.

Loureno, Eduardo: Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista, 
Ulisseia, 1968, Tempo e Poesia, Inova, Porto, 1974, e A Fico 
dos Anos 40.

O Neo-Realismo e o Resto in *Ji_+, ano li, n. 42, Maio de 
1982, e Literatura e Revoluo, in *Colquio/Letras+, 78, 1984, 
pp. 7-29.

Coelho, Jacinto do Prado: Ao Contrrio de Penlope, 1976.

Ver artigos de Jos Fernandes Fafe em Vida Literria e 
Artstica, 63.06.20 e 63.07.11, bem como em Seara Nova, n. 
1423, Maio 1964. Nesta mesma revista, Rogrio Fernandes, Para 
uma definio do neo-realismo, n. 1423, Maio 1964.

Brckner  >Heidrun: Sobre o neo-realismo, in Vrtice, 36, n. O 
390-391, pp. 320-329,
1976, e 37, pp. 26-31, e 470-485, 1977.

Santilii, Maria Aparecida: Arte e representao da realidade no 
romance portugus contemporneo, Quron, So Paulo, 1979.

Reis, Carios: O Discurso Ideolgico do Neo-Realismo Portugus, 
dissertao de doutoramento, Almedina, Coimbra, 1983, e Textos 
Tericos do Neo-Realismo, apres., selec. e notas, col. *Textos 
Literrios+, 1981.

Pita, Antnio Pedro: Estudos e Documentos do Neo-Realismo, in 
Vrtice, 1, vol. 39, n.os 426-427, vol. 40, li, Nov.-Dez. 1979, 
pp.523-542, n.@ 428-429, Jan.-Fev. 1980, pp. 58-68; 111, vol. 
40, n.@ 430-431, Maro-Abril 1980, pp. 141-149; IV, vol. 41, 
n.@
440-441, Janeiro-Abril 198 1, pp. 37-46 (sobre revistas de 
Coimbra e de Ponte de Sor, de 1937 a 1940), e, em vol., Neo-
Realismo: Ideologia e Esttica, Coimbra, 1983.

Seixo, Alzira: A Palavra do Romance, Horizonte Universitrio, 
1986.

Antologia de contistas neo-realistas: A Semente nas Palavras, 2. 
> ed. modificada, Centelha, Coimbra, 1977.


Lopes, scar: Cifras do Tempo, Caminho, 1990 (nomeadamente, 
sobre Abel Salazar e Alves Reciol).

Cochofei, Joo Jos: Iniciao Esttica seguida de Crticas e 
Crnicas, Caminho, 1992 (3. > e ltimo vol. de Obras Completas 
do autor, poeta, doutrinrio e crtico da corrente neo-realista, 
com um posfcio historiante de Rui Feij).

Depoimentos

Namorado, Joaquim: Da dissidncia presencista ao neo-realismo, 
in Vrtice, n. 1 279, Dez. 1966, pp. 782-786.

Dionsio, Mrio: Autobiografia, ed. *0 Jornal+, 1987. Silva, 
Garcez da: Alves Redol e o Grupo Neo-Realista de Vila Franca, 
Caminho, 1990 (pref. de A . Rocha Pita; tem referncias de 
bibliografia testemunhal). A rev. *Vrtice+, 11 srie, 45, 
Dezembro de 199 1, contm depoimentos e estudos sobre Joaquim 
Namorado.

Captulo VI

ANOS 40: IMAGISMO E SURREALISMO

Por incios da guerra de 1939-45, na altura em que os 
presencistas se dispersam e deixa de publicar-se a sua principal 
revista e quando o neo-realismo passa da fase polmica inicial 
s suas primeiras obras individuais, verifica-se uma evoluo em 
que nomeada e progressivamente se sente o

alargamento dos horizontes de ateno: pouco a pouco descobrem-
se o conjunto, ento em publicao, da obra de F. Pessoa e M. S 
Carneiro, o surrealismo francs, o imagismo anglo-saxnico, 
Rilke (que  traduzido por Paulo Quintela) e a gerao espanhola 
de 1927; entre 1937 e 1940 publica-se a Revista de Portugal, 
dirigida por Vitorino Nemsio, que contribui para esse 
alargamento de horizontes.

Um precursor: VITORINO NEMSIO (n. 1901-12-19 - t 1978-02-21)

Em 1938 e 1940, Vitorino Nemsio publica o Bicho Harmonioso e 
Eu, Comovido a Oeste, que representam a primeira transformao 
dos gostos presencistas capaz de resistir ao seu rpido 
envelhecimento posterior  publicao pstuma de Pessoa. Nemsio 
, como poeta, a prpria negao daqueles discursos de maior ou 
menor flego que fazem a fraqueza dos presencistas, embora eles 
pretendessem ser apenas fiis ao fundo inconsciente e gratuito 
da sua intimidade. Nemsio, ou conta maravilhosamente uma short 
story de humor, ou obtm admirveis enxertias no jardim de temas 
da sua infncia aoriana,, a voz num registo e no ritmo dos 
compatrcios mais ingnuos, diluindo em ternura delicada as 
misrias da carne e as coisas do mar, do

1094                                       HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
porto, do campo, da casa, por vezes das viagens e at o 
pitoresco das leituras ou glossrios especiais que movimenta 
como pequenas alucinaes vivas (Poesia 1935-1940), @1986.  um 
jardim ednico, apenas arripiado pelo evidente drama de um 
insatisfeito amor juvenil; mas, posteriormente, Nemsio poeta, 
quando sente j delidas as imagens do seu den infantil, 
consagrou a sua oficina a revivescncias do romanceiro, a uma 
tocante mstica ps-heideggeriana, ou a imaginosas associaes 
ldicas, tirando o melhor e mais imprevisvel partido de imagens 
e do lxico teolgico ou litrgico, filosfico, da equitao, da 
biologia molecular, de viagens diversas no espao e no tempo 
(Festa Redonda, 1949; Nem Toda a Noite a Vida, 1953; O Po

e a Culpa, 1955; O Verbo e a Morte, 1959; O Cavalo Encantado, 
1963; Canto de Vspera, 1966; Vesperais, 1968; Limite de Idade, 
1972; Sapateia Aoriana, Andamento Holands e outros poemas, 
1976; antologia de Poesas, 1983). Razes aorianas animam a sua 
obra de fico em prosa, em que se deve salientar, pela 
fiagrncia de ambiente regional e epocal e pela magia de um 
drama de amor, em surdina, o romance Mau Tempo no Canal,
1945, 6. > edio 1973, ao lado de vrias colectneas, e em 
parte rearrumaes, de contos e novelas vivas de humor e 
pitoresco: Pao do Milhafre,
1924; A Casa Fechada, 1937, 2. a edio 1979; O Mistrio do Pao 
do Milhafre, 1949; Quatro Piises debaixo de Armas, 197 1. Quase 
os vi viver, ensaios sobre autores de fins do sculo XIX, 1982. 
Iniciou-se em 1978 uma publicao das Obras Completas, com 
reedio de A Mocidade de Herculano; Nova edio de Obras 
Completas, volume 1, Poesia, IN-CM, 1989.

*Cadernos de Poesia+. Sena, Sophia e Eugnio de Andrade


As alternativas que em poesia surgiram para o neo-realismo 
fundamentaram-se, em geral, no princpio de autonomia da arte, 
mas o seu descomprometimento raro se manteve to estreme como 
pretendiam. E  o que passaremos a verificar, primeiro, num 
grupo de poetas que evolui do eclectismo dos Cadernos de Poesia, 
primeira srie, cinco nmeros, 1940-42, ao idealismo 
predominantemente catlico de Aventura, cinco nmeros, 1942-44, 
para depois, atravs de vrias aproximaes, afastamentos e 
agregaes individuais, oscilar entre o neo-realismo, o 
surrealismo e a linha tradicionalista das revistas Litoral, seis 
nmeros 1944-45, que em Tvola Redonda, 1950, se confundiria 
episodicamente com outros destinos, reagrupando-se em Graal,

7. - POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
            1095
O
quatro nmeros, 1956-57, Encontro, 1 srie, quatro nmeros, 
1956-68, para ainda mais se extremar com Tempo Presente, 27 
nmeros, 1959-1961.

Ruy Cnatti (ri. 1915.03.08 - t 1986.12. 10; importante 
Antologia de poesia e prosa organizada e prefaciada por Joaquim 
Manuel Magalhes, Presena, 1986): o conto juvenil Ossob (ave 
*mensageira da chuva+ na floresta equatorial), editado em 1967, 
e Ns no somos deste Mundo, 1941, fixam j algumas vvidas 
obsesses deste poeta. So a imagem da me precocemente perdida, 
o fascnio mortal da ilha ednica (Timor ou S. Tom ), a 
fatalidade (ntima compulso angustiosa?) que o fora 
reiteradamente  partida,  viagem e  soledade. Em Anoitecendo 
a Vida Recomea, 1952, e

O Livro do meu Amigo Nmada, 1958, certo anterior romantismo , 
em

geral, firmemente contido na justeza da imagem e da frase sbria 
e incomum. Sete Septetos (o primeiro dos quais uma obra-prima), 
1967, acusam a viragem para um flego mais extenso, e ora 
pattico ora prosaico, numa

religiosa prestao de contas  vida cinquentenria. Doravante 
Ruy Cinatti evolui em trs sentidos cronologicamente paralelos 
mas humoralmente diversos (apesar de algumas interinfluncias): 
uma notao paisagstica e histrico-socialmente realista de 
ambientes coloniais, em que salientaremos Crnica Cabo-Verdiana, 
1967, e Lembranas de S. Torn e Prncipe, 1974; acentuao da 
nota prosaica, msantrpica e/ou religiosa (0 Tdio 
Recompensado, 1968, por exemplo); e panfleto sarcstico perante 
os sinais de desagregao do regime e do imprio (Borda dgua, 
1973).

Registem-se ainda dois directores dos Cadernos de Poesia de 
1940-41: Torns Kini (Joaquim Fernandes Toms Monteiro Grilo, 
1915-1967: Em Cada Dia se Morre, 1939; Flora e Fauna, 1958; 
Exerccios Temporais, 1966), um poeta de resignadas 
insatisfaes, por vezes contguo ao neo-realismo, que da poesia 
anglo-saxnica sua contempornea assimilou certo eliptismo 
prosaico; e Jos Blanc de Portugal (ri. 1914: Parva Naturafia, 
1960; O Espao Prometido, 1960; Odes Pedestres, 1965; 
Descompasso, 1987, Enadas 9 Novenas, 1989), tambm ensasta e 
crtico musical, cuja poesia intencionalmente pedestre se 
entrecruza com uma larga inforniao cultural muito 
originalmente meditada e versificada em termos de conscincia 
religiosa.

Obra a todos os ttulos singular  a de Jorge de Sena (n. 1919-
11-02 - t
1978-05-04). O livro de estreia, Perseguio, 1942, 
individualiza-se sobretudo por este contraste: uma grande 
audcia de desarticulao lgica e sintctica, que, em certos 
melhores poemas (como o da criana esgazeada

1096                                        HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
de uma janela para as estrelas), o leva ao surrealismo, e uma 
obstinao, ainda a claramente teolgica, de atingir pela razo 
o inefvel de alm da

razo. Em Coroa da Terra, 1946, avoluma-se outra faceta 
doravante caracterstica: a verberao sarcstica ou nauseada, 
mediante imagens cumulativas, da misria, ou lixo podre, da 
condio humana (mais do que de uma

conjuntura histrica humana, que vir a precisar nos livros 
seguintes); e apostolado do indizvel formula-se como recusa *a 
tudo+, *s verdades acabadas+. Pedra Filosofa], 1950, As 
Evidncias, 1955, e Fidelidade, 1958, reedio 1968, elevam 
sucessivamente as contradies vivas do poeta a uma

altura que lhes confere a mxima representatividade: um realismo 
de stira

ou visualidade aguda; e, por outro lado, o anseio de uma 
inefabilidade por vezes abstracta, operando por negaes 
sucessivas, mas que se comunica

e nos empolga nos seus melhores conseguimentos, um surrealismo, 
na tenso de perodos largos, cortados de incidncias, com 
adjectivos negligentemente estenogrficos, uma lgica sintctica 
torcicolada num ritmo oratrio preciso - e, ao mesmo tempo, a 
predileco por dadas construes quinhentistas, um petrarquismo 
ou conceptismo que s por si acusam certos rasgos tradicionais. 
Jorge de Seria revelou-se, at hoje, o nico poeta capaz de, 
torturadamente, *pensar sentindo+, de opor  pulverizao, com 
Pessoa, do mundo romntico da pretensa sinceridade sem problemas 
- uma enrgica deciso de testemunhar, referenciar, pensar, 
totalizar a experincia histrica e individual, numa torrente 
voluntariamente impura de informaes, aluses, reaces 
multilateralmente agressivas, onde o mais exigente virtuo~ sismo 
formal alterna com a mais escandalizante rudeza. Metamorfoses, 
1963, e Arte de Msica, 1968, assinalam a acine de um poeta 
excepcionalmente culto e lcido, em vrias formas de reaco 
finssima a muito diversas obras

de arte plstica ou musical. Os seguintes volumes de poesia, de 
Peregrinatio ad Loca Infecta, 1969, a Sobre esta Praia, 1977, 
alargam, atravs de um


realismo provocativo, mais uma das facetas no constante extremar 
das suas linhas de fora. Nos volumes pstumos acentuam-se as 
tendncias para a

stira directa e o impressionismo de ambiente histrico-
geogrfico, este muitas vezes ligado a uma aguda meditao sobre 
o amor fsico, levada ora at uma filosofia de raiz platnica 
(ou anti?), ora a uma sintaxe normal articulando lexemas com 
traos fonolgicos de intensa sugesto ertica. Foi ainda um

tradutor destro e incansvel em prosa e verso. Obra potica, ed. 
pstuma:

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
          1097
O
Poesia 1, 3. edio corrigida 1987; 11, 1978, reedio corr. 
1988; 1111978, reedio corr. 1989.  tambm autor de O 
Indesejado, 1951, 3. a edio corr.

apndice, 1986, que retoma os moldes essenciais da tragdia 
histrica em

verso; e de Amparo de Me e mais 5 peas em 1 acto, 1974, que 
evoluem cronologicamente de uma pea grotesco-pattica de 
costumes  Raul Brando para o teatro de vanguarda, entre a 
stira e o nonsense.

Reuniu trs livros de contos de vria estrutura e temtica 
(testemunhal-pessoal, neo-realista ou ps-naturalista, 
historizante, ou surrealista), que bastariam para o notabilizar: 
Andanas de Demnio, 1960, Novas Andanas do Demnio, 1966, Os 
Gro-Capites, 1976 (reunio revista em Antigas e Novas Andanas 
do Demnio, 1978, 5. a edio 1989; edio separada da novela 
fantstica, O Fsico Prodigioso, em 1977, 4. edio 1986), 
Gnesis, conto, 1983, reedio 1986. Romance pstumo de um ciclo 
incompleto, testemunho efabulado de um adolescer de conscincia 
geral e agudamente ertica ou potica, ao tempo da Guerra de 
Espanha, onde o dom da poesia emerge a suprir uma cabra-cega de 
desencontros de famlia, amizade e de amor (mesmo violentamente 
orgistico ou momentaneamente realizado): Sinais de Fogo, 1979, 
3. a edio 1985. Produziu ainda volumes de crtica, 
investigao e ensaio, em grande parte proporcionados por uma 
docncia universitria no Brasil e nos Estados Unidos.

Logo no primeiro livro de Sophia de Mello Br  eyner Andresen (n. 
1919), Poesia, 1944, 3. a edio, 1975, encontramos um mundo 
potico depurado, em que as imagens se organizam segundo as suas 
prprias foras de coeso, em clssico equilbrio ou balana 
(uma imagem-chave). Essa coeso , de resto, a de uma 
identifica o, como at ento ainda se no sentira (apesar de 
tanto pantesmo, professo desde Antero), do poeta com as coisas, 
ou melhor (e ela o diz), *com o milagre das coisas que eram 
minhas+: uma certa casa, um certo jardim, batidos dos ventos de 
um certo mar, a noite, a lua, a luminosidade e a brancura caiada 
de certo Algarve, imagens subsistentes por si, sem eu e no-eu. 
O segundo livro, Dia do Mar, 1947, 3. a edio 1974, contm 
certas regresses ao *paganismo+ invocativo de deuses e figuras 
clssicas que veio morrer nas Odes de Torga; e a razo disso 
salta  vista dos livros seguintes, Coral, 1950, 3. a s/d, No 
Tempo Dividido, 1954, Mar Novo,

1958, reedio em conjunto 1985:  que j *tombam as imagens+; 
*a raiz da paisagem foi cortada+; vem um sobressalto perturbar 
o jardim (*Terror

1098                                        HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
de te amar num stio to frgil como o mundo+); onde h 
encontro, h j tambm despedida; e, por fim, *este  o tempo 
da selva mais obscura+, em que o epteto-chave ideal do *puro+ 
contradana como sentimento-chave real do *nojo+: *E puro  o 
nojo+. Livro Sexto, 1962, 7. edio 1991, o seu melhor livro 
de poesia at agora (e de que algo se prolonga em Geografia, 
mais heterogneo, 1967, 3. edio 1990, e ainda mais 
limpidamente em O Nome das Coisas, 1977, 3. a edio 199 1), 
torna mais comunicativo e vibrante o tema fundamental da 
separao ou corte que o tempo opera, pois a poetisa d 
testemunho da realidade histrica imediata e socorre-se da 
stira para decantar o que sente como eterno. Em Dual, 1972, 3. 
edio 1986, Navegaes, 1983 e Ilhas, 1989, reedio 1990, 
mantm-se, em imagens clssicas portuguesas e mediterrneas, a 
identificao ao divino, a inteireza moral e cvica, *uma 
relao justa como homem+. Fez-se uma Antologia, 1968, 5. a 
edio aum.

1985, dos seus poemas em geral, e outra dos de resistncia, 
Grades, 1970. Sophia de Mello Breyner  tambm autora de um 
volume de Contos Exemplares, 1962, 22. a edio 1989, 
descarnadas alegorias tico-religiosas, a que recentemente 
acrescem as Histrias da Terra e do Mar, 1984, reedio 1984, e 
de seis volumes de uma literatura infantil cheia de fantasia, um 
deles j em 16. e outro em 13. edio em 1978. Obra Potica, 
j 3 vols. em 1991.

A feio mais frequente na poesia de Eugnio de Andrade (Jos 
Fontinhas, n. 1923-01-18) , desde o livro de consagrao, As 
Mos e os Frutos,
1948, 13. a edio 1988, a evidncia de um paraso puramente 
terrestre, emanao do desejo e perceptvel  simples 
transparncia dos ritmos frsicos orais, das conotaes de um 
lxico severamente escolhido e sobre o qual opera um permanente 
movimento de metfora, aparentemente modulador de imagens 
diversas para um mesmo conjunto de elementos mticos 
fundamentais: a terra densa com os seus frutos e corpos; a gua 
fluvial ou marinha; o ar, ou tudo o que h de voltil; o lume, 
ou ardor, ou ainda a luz de um Abril adolescente, de um Vero a 
prumo, ou de um Outono dourado a rever-se, a desdobrar-se em 
imagens de perdurao aprilina, juvenil.


O conjunto da sua obra, onde, mais do que do nosso modernismo, 
se reconhece a continuidade da gerao espanhola de 1927, 
constitui a consumao talvez inultrapassavelmente consistente 
de algo que, sem ela, nem talvez se pudesse considerar definido: 
uma espcie de imagismo portugus. Sem perder o p neste mundo 
de referncias materiais, sem omitir o seu prprio testemunho 
das violncias histricas a que assistiu, sem deixar de ter

7 - POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
              1099
O
corpo, sentidos e razes sociais, sem nunca deixar delir-se a 
audibilidade oral da emoo frsica, Eugnio de Andrade , a par 
de Pessanha, o poeta portugus mais prximo de uma poesia-
msica, numa linguagem maximamente cerrada sobre si, ou 
inesgotvel a qualquer parfrase interpretativa, quer dizer, uma 
linguagem obviamente referencial mas corresponsabilizando o 
leitor pelo qu, sempre mvel, da referncia real. As prprias 
imagens elementais assumem, em cada poema, ou em cada corpus 
escolhido dos seus poemas, os valores de posio mais diversos 
(Os Amantes sem Dinheiro, 1950, lo. a

edio 1986; As Palavras Interditas, 195 1, lo. a edio 1990; 
At Amanh,
1956, 10. a edio 1990; Corao do Dia, 195 8, 7. 1 edio 198 
1; Mar de Setembro, 1961, 8. a edio 19 8 1; Ostinato Rigore, 
1964, 9. > edio 1984). Em livros posteriores (Obscuro 
Domnio, 1972, 5. a edio 1986; Escrita da Terra, 1974, 5. a 
edio 1983; Limiar dos Pssaros, 1976, 6. a edio
1990; Memria doutro Rio, 1978, 4. a edio revista 1985; O 
Outro Nome da Terra, 1988, reedio 1989; Rente ao Dizer, 1. a 
edio e reedio revista
1992), a gama de tonalidades humorais alarga-se 
consideravelmente, abrangendo, em conjuno, o murchar do desejo 
e a sua directa imagem fsica, ou, mais ainda, a estilizao 
apenas irnica e irritantemente eufmica de certo tradicional 
obsceno; a reaco s espessuras ou texturas mais speras e 
incmodas da matria; fendas a abrir no prprio paraso potico 
reinventado e

at na convico demirgica das palavras, de que j se permite 
sentir viscosidades e labirintos; erupes por vezes violentas 
de toda a potencial perversidade do Eros infantil, o que de 
resto traz consigo toda uma radicao rural do poeta, 
anteriormente no de todo expressa, numa buclica cheirando a 
mato, a hmus e a plen, mas tambm s excrees, ao smen e aos 
dejectos de uma animalidade que inclui o humano; a prpria 
presena da morte at ento eclipsada, embora sempre como 
simples limite  luminosidade vital, e ligada  imagem serena da 
gua, o prottipo dos diluentes. A manifestao mais formal 
desta extenso do espectro cromtico  a polimorfia dos ritmos, 
paralela  do campo semntico. A poesia mais recente reconquista

uma nova limpidez, ainda mais reconciliada e segura (Matria 
Solar, 1980;

O Peso da Sombra, 1982, 3. a edio 1989; Branco no Branco, 
1984, reedio revista 1985; Vertentes do Olhar, 1987, reedio 
1987; O Outro Nome da Terra, 1988, reedio 1980). Afluentes do 
Silncio (1968, 4. a edio refundida 1979), era j uma recolha 
de dispersos de poesia em prosa, a pretexto de impresses ou 
reflexes de arte ou outra experincia; mas em Limiar dos

1100                                        HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
Pssaros, 1976, reedio 1978, e, mais tarde, em Memria doutro 
Rio, 1978, Rosto Precrio, 1979 (reflexes sobre poesia), a 
prosa vem corresponder exactamente  aludida extenso temtica. 
Volumes globais: Poemas, 1966,
3. edio 1971; Antologia Breve, 1972, 5. edio revista e 
aum. 1985; Poesia e Prosa (1940-80), 1980, reedio 1981, 4. a 
edio aum., dois volumes 1990, e que inclui Primeiros Poemas, 
5. a edio 1986.

Surrealismo e seu rasto

As influncias do surrealismo francs em Portugal s se tornam 
bem reconhecveis pela altura em que a escola de Breton entra na 
fase das grandes antologias e retrospeces histricas.  com 
efeito a seguir  guerra de 1939-45 que se desenham com nitidez 
crescente certas suas manifestaes cuja iconoclastia se pode 
comparar, embora menos qualificadamente nos seus resultados 
imediatos,  da gerao de Orpheu. E esse atraso, se por um lado 
j no permite uma originalidade to convincente como a dos 
melhores modelos de alm-Pirenus, por outro lado proporciona um 
amlgama com tendncias l fora cronologicamente posteriores, 
vindas principalmente do teatro do absurdo (lonesco, Beckett, 
Arrabal) e de certos testemunhos de abjeco humana que a 
psicanlise e o existencialismo tinham valorizado (Sade, 
Lautramont, Artaud, Cline, Genet, etc.). Ao amlgama deu-se o 
nome de Abjeccionismo (antologia, Grifo, 1970).


O que mais importa no surrealismo no  a sua doutrina de 
Breton, formulada nos dois Manifestos (1924, 1929), nos 
Prolegmenos a um terceiro manifesto (edio 1946 com os 
anteriores) e ainda por teorizadores afins, mesmo dissidentes ou 
excomungados, filosofia que outros repetiram com poucas 
variantes: a coincidentia oppositorum entre dicotomias como 
vida/morte, real/imaginrio, dizvel/inefvel, 
conscincia/inconscincia ou vigilia/sonho, masculino/feminino, 
divino/demonaco, entre polaridades como alto/baixo, 
ideal/material, que tm precursores, alis assumidos como tais, 
na tradio cabalista-gnstica-alqumica e na teologia negativa 
de Nicolau de Cusa. O mais importante  a arte potica destes 
apoetas, tambm anestetas, amorais, arracionais e, com A. Breton 
desde 1933, apolticos: a explorao (vigilante ... ) dos acasos 
objectivos proporcionados por simples sugesto de rima ou ritmo, 
por paronmia, trocadilho, aliterao, derivaes, ou 
aglutinaes antes no-ousadas (rnots-valises), por anfora ou 
enumerao catica, por prticas como a do cadavre exquis 
(justaposio de frases ou

7.1 POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
            1101
O
palavras de pessoas diferentes, num papel que se vai dobrando 
para ocultar o texto prvio), etc.. Em geral, o surrealismo 
portugus encartado (o dos grupos desavindos e instveis de 1947 
a incios dos anos 50)  pobre em

comparao com os modelos franceses, e at com certos 
precursores portugueses (Fgados de Tigre, de Gomes de Amorim), 
o variadssimo interseccionismo, ingenusmo e transracionalismo 
em verso e/ou narrativa de Pessoa e Almada, ou Vitorino Nemsio. 
O afeioamento absurdizante do aforismo, provrbio ou definio 
 j um processo que vem do paradoxo ou oximoro maneirista-
barroco, de Pascoais (que por isso Cesariny tanto admira) e de 
Pessoa, - o que ganha  novos registos mais falados; a 
reabilitao do esoterismo, da magia encantatria vinha do 
decadentismo, da obsesso saudosista quanto a paramnsias, 
vidncias, premonies, - embora Rimbaud, a alquimia e a cabala 
sejam agora tomados mais a srio (graas a Pessoa

e a divulgadores franceses), e tambm se aceitem melhor o 
anarquismo ou

exacerbamento das pulses sexuais mais reprimidas, graas  
consagrao surrealista francesa de Sade e Lautramont. De 
qualquer maneira, o abalo produzido pelo surrealismo  muito 
sensvel entre ns dos anos 50 em diante.

O primeiro portugus distintivamente surrealista, Antnio Pedro 
(ri.
1909-12-09 - t 1966-08-17), contactara com o Grupo Surrealista 
Ingls quando locutor da B. B. C. durante a guerra e tornou-se o 
mentor do primeiro Grupo Surrealista de Lisboa. Num efme'ro 
perodo de dois ou trs anos, 1947-50, atravs da grande 
instabilidade desse grupo e da, ainda maior, de outro grupo 
dissidente (1949-5 1), editaram-se quatro cadernos, realizaram-
se exposies e conferncias, alm de outros actos, cuja maior 
notoriedade foi, em 1949, atingida por uma srie de debates 
pblicos, a certa altura tumultuosamente boicotados, no Jardim 
Universitrio de Belas-Artes. Antnio Pedro, que j tivera um 
papel importante nos movimentos renovadores de artes plsticas e 
que logo a seguir principiaria a distinguir-se como encenador e 
como animador de vrios empreendimentos de teatro experimental e

profissional, deixou, entre outros textos surrealistas, Apenas 
uma narrativa,

1942, reedio 1978, e Protopoema da Serra dArga, 1948, e o seu 
postumamente reunido Teatro Completo, Biblioteca Nacional 1981, 
e dirigiu a

revista Variante, dois nmeros 1942-43. As principais edies 
colectivas de produes surrealistas portuguesas so, alm de 
sries multicopiadas e das coleces impressas Contraponto e 
Antologia em 1958, Afixao Proibida,

1102                                        HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
1953, Antologia Surrealista do Cadver Esquisito, 196 1, 
reedio (Assrio e Alvim) 1989, SurreallAbjeccionismo, 1963, e 
A Interveno Surrealista,
1966, as ltimas trs organizadas por Mrio Cesariny de 
Vasconcelos.

Cesariny, que  pintor alm de poeta, salienta-se como principal 
animador e figura representativa da mais tpica fase do 
surrealismo lisboeta (n.
1923-08-09: Corpo Visvel, 1950; Pena Capital, 1957, e Poesia 
1944-55,
1961, que abrangem obras anteriores no mencionadas; 
Planisfro, 1961; Titnia e Cidade Queimada, 1977; Obras de 
Mrio Cesariny, redistribudas, trs volumes, 1980-82. As 
sucessivas edies conjuntas alteram a ordem

e, embora no muito significativamente, o texto dos poemas). 
Logo nas suas

primeiras produes h um certo rasgo e uma explosiva 
dessacralizao referida a circunstncias reais portuguesas que 
sugerem a continuidade de Cesrio, do Pessoa mais lisboeta e de 
um neo~realismo auto-ironizado. So muito sensveis os processos 
de escola: sequncias anafricas ou paralelsticas, por vezes de 
inventrio catico, e animadas por jogos verbais; a absurdez 
provocativa de pseudodefinies, pseudo-etimologias ou 
pseudomicromitologias; dilogos desconexos e outras formas de 
sem-sentido; pardia; exerccios de automatismo frsico; 
tentativas de poesia autogrfica ou caligramtica; - e, de vez 
em quando, alguns versos certeiros de veemncia passional, de 
sarcasmo, de relance sobre situaes corriqueiras mais ou menos 
grotescas, sobre ridculos quotidianos (alheios ou prprios) e 
sobre experincias ntimas. Acrescentemos Antnio Maria Lisboa 
(n. 1928-08-01 - t 1953-11 -11: Ossptico e Erro Prprio, 
conferncia-manifesto, 1952, esta ltima reedio com

outros textos em prosa em 1962; Isso-Ontem-nco, 1953; A 
Verticaldade e a Chave, 1956; Poesia, seleco, 1962; Poesia de 
Antnio Maria Lisboa, incluindo produes colectivas, cartas, 
desenhos e apndice com apreciaes, texto estabelecido e 
anotado por M. Cesariny). A sua produo conhecida contm alguns 
dos mais surpreendentes textos do surrealismo portugus, mas 
que, na maioria, talvez por morte precoce do autor, ou pela 
destruio de quase todo o esplio indito, nos deixa sobretudo 
intrigados.

Qualidade decididamente comprovada , em conjunto, a de outro 
poeta que soube manter a vivacidade inovadora e irritante dos 
tempos hericos, Alexandre O'Neill (n. 1924-12-19 - t 1986-08-
21). Essa qualidade ressalta j em Tempo de Fantasmas, 195 1, 
depois refundido e ampliado sob o ttulo de No Reino da 
Dinamarca, 1958. O'Neill propaga  mordacidade

7. a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
            1103

satrica e  COMOO lrica, por vezes combinadas entre si e com 
vrios tons humorais flutuantes, a liberdade metafrica e 
sintctica do surrealismo. Leva como que  coagulao potica as 
molculas desagregadas do prosaico, dentro de uma tradio que 
vem das cartas de Cames at Garo, e desde o Abade de Jazente, 
Tolentino e Bocage at Penha e ao Junqueiro da Musa em Frias. 
Raras vezes se ter apreendido to bem, e de um mesmo lance, a 
intimidade invisvel *num tropeo de ternura+ e a intimidade 
convincente da *vrgula manaca+ do burocrata, como na *pequena 
dor  portuguesa+, de Um Adeus Portugus (um dos 
extraordinrios poemas de amor que escreveu). A apreenso 
flagrante e humorada de ambientes e tipos (sobretudo velhotes) 
de Lisboa, dos pequenos e reveladores ridculos nacionais, 
prprios e alheios, supre bem alguns excessos de epanforas 
inventariantes, de enumeraes caticas, de associaes 
inicialmente aleatrias ou metodicamente viradas do avesso, 
entre outros ingredientes pobres ou de eficcia mais ocasional 
(Abandono Vigiado, 1960; Poemas com Endereo, 1962; Feira 
Cabisbaixa, 1965, reedio 1979; De Ombro na Ombreira, 1969; 
Entre a Cortina e a Vidraa,
1972; A Saca de Orelhas, 1979; Poesias Completas 1951/1981, IN-
CM, 1982,
2. edio revista e aum. 1986, 3. edio revista e aum. 1990).

Dos instveis grupos surrealistas de fins dos anos 40 no h 
qualquer outro currculo individual a salientar. Lus Pacheco 
(n. 1926), que pela sua

editorial Contraponto (nome, tambm, de uma revista, dois 
nmeros, 1950-52) publicou alguns dos textos colectivos e 
individuais mais importantes da corrente, viria a salientar-se a 
ttulo diverso, alis condicente com o facto de ter tambm sido 
o editor da primeira traduo portuguesa de Sade. Trata-se, com 
efeito, de uma manifestao portuguesa tardia, de irregular 
qualidade (por vezes muito boa, nas peculiaridades da sua 
insero nacional) do autor libertino, cujo desplante produz um 
complexo efeito de profundo desmascaramento moral-social, de 
auto-exibio pcara, de cinismo, de agressividade e de simpatia 
humana (Crtica de Circunstncia, 1966, com muitas reedies 
semiclandestinas; Exerccios de Estilo, 1971; Literatura 
Comestvel,
1972; e Textos Malditos, 1977, reunio de produes dispersas, 
inditas ou


apreendidas, de 1946 a 1973; Textos de Guerrilha, 1. > srie, 
1979, 2. a 198 1; Textos de Barro, 1984; Textos Sadinos, 1991).

No entanto, apesar do seu atraso e das limitaes apontadas, o 
surrealismo marca quase toda a poesia posterior a 1950 que 
referiremos, pelos seus

1104                                         HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
exerccios de automatismo subconsciente, humor negro, tcnicas 
de utilizao do acaso objectivo ou das interferncias de 
associao verbal. Isso  j muito sensvel num poeta de ritmo 
inestancvel, pouco selectivo, mas borbulhante de fugas 
imaginativas e seguro em certas evocaes da sua infncia 
alentejana, Raul de Carvalho (n. 1920-09-04 - t 1984-08-03: As 
Sombras e as Vozes, 1949; Poesia I e 11, 1955-58; Poesia, 1949-
65; Talvez Infncia, 1968; Tudo  Viso, 1970; Realidade Branca, 
antologia, 1975; Mgico Novembro, 1983). Num sentido de stira 
corrosiva, a continuidade ressalta em Natlia Correia (n. 1923-
09-13: Poesia, 1955; Dimenso Encontrada,
1957; Cntico, do Pas Emerso, 196 l; As Mas de Orestes, 
antologia, 1970; Poemas a Rebate, antologia, 1975; Sonetos 
Romnticos, 1990, reed. 199 1; teatro: O Homnculo, 1964; 
Pcora, 1983, reedio 1990; O Encoberto,
1969; romance: A Madona, 1968, 5. a edio 1986). A experincia 
surrealista repercute-se no absurdismo de Manuel de Lima (t 
1976-10-30: Um Homem de Barbas, 1944, reedio aum. 1973; 
Malaquias, 1953; O Clube dos Antropfagos, 1965); e nas 
alternativas de autobiografia romanceada e fantasia livre, 
recombinando e transfigurando experincia vivida e experincia 
histrica ou regional portuguesa com que Ruben A. (Ruben Alfredo 
Andresen Leito, n. 1920 - t1975-09-26) acabou por erguer-se at 
uma originalidade orgnica (Pginas, seis volumes, 1949-50-56-
60-67-70; Caranguejo, 1954, reedio 1988; Cores, contos, 1960; 
A Torre de Barbela, 1965, com trs edies; O Outro que era Eu, 
1966, reedio 1991; O Mundo  Minha Procura, trs volumes, 
1964-66-68; Silncio para Quatro, romance,
1973, Kaos, romance, 1982). Entre as mais tardias mas 
qualificadas repercusses do surrealismo, salientaremos as da 
obra de Mrio-Henrique Leiria (n. 1922 - t 1980-01-09), ligado 
ao grupo dissidente de 1949 mas ausente do pas por muitos anos 
(Contos do Gin-Tonc, 1973, reedio 1976; Novos Contos do Gin-
Tonic, 2. a edio 1978); e um autor mais novo, Jos Viale 
Moutinho (n. 1945), que principia pela publicao de narrativas 
de uma absurdez geralmente truculenta, numa espcie de nonsense 
estruturado por n-croenredos, aluses, digresses e virtuais 
aplogos, onde pouco a pouco se multiplicam os traos de um pas 
real, com aldeias desertas pela enfigrao e agitado por 
episdios repressivos ou revolucionrios de rua (No Pas das 
Lgrimas,
1972; Romancciro da Terra Morta, contos, 1988; Arqueologia da 
Terra Prometida, contos, 1989; e, em verso, Atento como um Lobo, 
1975; Crnica do Cerco, 1978; O Princpio do Outono, 1992).

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
                            1105
O
llllll,6.f8,lo6t@AFIA
O
Vitorino Nernsio

Crticas sobre V. Nemsio, com biografia, bibliografia e 
antologia, Bertrand, 1974; ver tambm n.Os especiais do caderno 
Cultura in Dirio de Notcias, 1978-03-23 e
1978-03-30.

Belchior, M. de Lourdes: O Espaco Asctico-Mstico da Poesia de 
V. Nemsio, sep. de *Brotria+, 1979.

Silva, Heraldo Gregrio da: Acorianidade na Prosa de V. Nemsio, 
IN-CM, 1984. Garcia, Jos Martins: Vitorino Nemsio, col. *A 
Obra e o Homem+, Arcdia, 1978, reed. Vega, 1988, e Temas 
Nemesianos, Angra do Heroismo, 1981.

Textos do Encontro de Mateus sobre V. Nemsio, ed. Univ. dos 
Aores, Ponta Delgada, 1988.

Mouro-Ferreira, David: O Essencial sobre V. Nemsio, IN-CM, 
1987. Gouveia, M. Margarida: V. Nemsio: Estudo e Antologia, 
ICALP, 1986. Antologia de Poesias, apres. por M. Madalena 
Gonalves, col. *Textos Literrios+, 1983.

Ed. de Poesia (1935- 1940), Bertrand, 1986.

Mau Tempo no Canal tem trad. franc.: Le SerpentAveugle, por O. 
Chast, 1953, Pion, Paris.

A IN-CM comeou em 1989 a editar Obras Completas, com os vols. 
Poesia 1 e li.

Vanguardas na poesia dos anos 40

Alm dos ensastas e crticos j mencionados, ver Nemsio, 
Vitorino: Conhecimento da Poesia, Baa, 1958.


Frana, Jos Augusto: Balano das Actividades Surrealistas em 
Portugal, 1949. Mouro-Ferreira, David: Vinte Poetas 
Contemporneos, 1960. Sampayo, Nuno de: O Esprito da Obra, 
1961. Lricas Portuguesas, selec., pref. e an. de Jorge de Sena, 
3. > ed., 2 vols., Ed. 70, 1984. Simes, Joo Gaspar: Crtica 
//, Lisboa, 196 1. Estrada Larga, 3, s/d (196 1), Porto Editora, 
coleco de artigos e antologia sobre A Poesia Post-Orpheu, pp. 
201-446, incluindo uma panormica de Oscar Lopes, que tem com 
estudos monogrficos em Modo de Ler, Inova, 1972.

Coelho, Eduardo Prado: O Reino Flutuante, 1972, e A Palavra 
sobre a Palavra, 1972Guimares, Fernando: Linguagem e Ideologia, 
Porto, 1972. Rosa, A. Ramos: Poesia Liberdade Livre, 1962, reed, 
1985.

Loureno, Eduardo: Tempo e Poesia, 1975. Castro, E. M. de Meio 
e: O Princpio Potico, So Paulo, 1973.
O vol. 3 de Quaderni Portoghese, 1978, Pisa, rene artigos e 
testemunhos de A. O'Neili, J. A. Frana, Alfredo Margarido, 
Almeida Faria, Cruzeiro Seixas e outros sobre

1106                                              HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

o surrealismo em Portugal, movimento a que so tambm dedicados 
o n. > 1 da revista Sema, 1979, e o n.o 39, Junho de 1991, da 
rev. Vrtice.

Fafe, Jos Fernandes: A Modernidade na Poesia Portuguesa 
Contempornea, Iniciativas Editoriais, 1980.

Sobral, L. de Moura: Le Surralisme Portugais (catlogo de uma 
exposio), e Surralisme Prijohrique, ambos na Univ. de 
MontraI, 1984.

Martinho, Fernando J. B.: Pessoa e os Surrealistas, col. 
*Ideias e Atitudes+, 1988. Cuadrado, Perfecto E.: Situacin 
Histrica de Ia Poesia Surrealista Portuguesa, 1 rev. Mayurqa, 
n. 19, Palma de Maiorca, pp. 93-125, e 2 -rev. Caligrama, 1.1 
vol., Palma de Maiorca, 1984, pp. 93-135. Deste mesmo autor, 
Para una posible historia del Surrealismo portugus in *Men - 
6+ (Cadernos de Poesia), Teruel, Cuenca, 1991, n. que contm 
ainda o artigo Surrealistas en Ia poesia portuguesa, de Juan 
Carios Valera, tradutor de A. Maria Lisboa, e uma informao 
cronologicamente ordenada de publicaes e aces surrealistas 
portuguesas de 1935 a 1991. A revista *Espacio/Espao Escrito+, 
n. 1 6/7, Invierno, 199 1, Badajoz, inclui um extenso inqurito 
e uma cronologia referentes a Mrio Cesariny e, em geral, ao 
Surrealismo portugus.

Torres, Alexandre Pinheiro: Ensaios Escolhidos, li, Caminho, 
1990. Estudos recentes de flego: Marinho, Maria Ftima: O 
Surrealismo em Portugal, tese de doutoramento, Porto, 1987, 
editado pela IN-CM, e A Poesia Portuguesa nos Meados do Sculo 
XX - rupturas e continuidades, Caminho, 1989.

Captulo V11
O
SEGUNDA METADE DO S CULO: POESIA

Anos de 50: poesia

Logo no seu incio, o decnio de 1950 na poesia portuguesa 
apresenta um fenmeno

editorial caracterstico: o pulular de pequenas brochuras de 
poesia e crtica de autoria

vria, em sries ditas no peridicas para iludir a censura mas 
identificveis pela aparncia e por um grupo de organizadores, 
geralmente mais instvel que a prpria srie. Alm de outras 
sries que oportunamente foram ou sero referidas, mencionemos 
ainda: Ssil,
4 nmeros, 1952, Cassiopeia, 1 nmero, 1955, Bzio, 1 nmero, 
Madeira, 1956, Graal,
4 nmeros, 1956-57, Notcias do Bloqueio, 9 brochuras, 1957-62, 
Cadernos do Meio-Dia, 5 nmeros, Faro, 1958-60, e ainda Momento, 
2 nmeros, Coimbra, 1950, Folhas de Poesia, 4 nmeros, 1957-58, 
Pan, 1 nmero, 1958, Coordenada, 2 nmeros, Porto,
1958-59, Poesia 1961, e outras publicaes no peridicas de 
assuntos menos exclusivamente poticos, tais como Encontro, 
1954, Bandarra, 3 sries e 88 nmeros, 1953-64, Porto, a srie 
Uni-Bi-Tri-Tetra-Pentacrnio, 1951-55, Pir mide, 3 nmeros, 
1958-59, Tempo Presente, 27 nmeros, 1959-6 1, Cidadela, 2 
nmeros, 1959, Coordenada, 2 nmeros, 1958-59, Sibila, 1 nmero, 
Castelo Branco, 1961, xodo, 1 nmero, Coimbra, 1961, Poesia e 
Tempo, 1 nmero, 1962, A Poesia til, 1962. O aparecimento de 
coleces de obras poticas com editor comercial, depois da 
*tica+, nomeadamente a *Coleco Poesia e Verdade+, a 
*Coleco Crculo de Poesia+, e *Iniciativas Editoriais+ e de 
*Poetas de Hoje+, e da *Poesia e Ensaio+  um fenmeno 
posterior a 1955.

H o reforo de uma corrente alternativa ao primeiro neo-
realismo que j no decnio anterior constelara nas revistas 
Aventura (cinco nmeros,
1942-44), Litoral (seis nmeros, 1944-45), na coleco Bzio, 
sob outro ponto de vista no primeiro Grupo Surrealista lisboeta, 
e que, a uma segregao

1108                                       HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
editorial da poesia com sua crtica e doutrina, ligava, pelas 
penas de Alberto de Lacerda, de Mouro-Ferreira, de Eduardo 
Loureno e outros, a revalorizao do mito (mais ou menos 
entendido como expresso do inconsciente colectivo de Jung), a 
apologia da imaginao (isto , da analogia metafrica), da 
aventura existencial (que, de acordo com certo heideggerianismo, 
desvendaria o ser pela palavra), da ambiguidade (modo como W. 
Empson,
1961, e outros doutrinrios interpretam a superdeterminao dos 
smbolos poticos). A sua doutrina acerca do que seja a 
especificidade potica baseia-se numa teoria da linguagem 
segundo a qual a funo representativa da linguagem (a de 
relacionar e referenciar) se distinguiria radicalmente de uma 
sua

funo desvendadora, ou de algum modo constituidora, dos seres e 
dos valores, num plano originrio em que sujeito e objecto 
estariam ainda indistintos.

Na primeira das publicaes no peridicas de poesia dos anos de 
50, Tvola Redonda, 20 nmeros 1950-54 (reedio fac-similada, 
Contexto,
1989), podem distinguir-se duas formas de reaco contra a 
tendncia de realismo social.

Uma dessas formas estticas  a de um verismo cptico, quase 
cnico por vezes, e de qualquer modo propenso aos matizes 
nauseados, sartrianos ou camusianos, do existencialismo. Antnio 
Manuel Couto Viana (ri. 1923-01-29 - t 1986) preludia essa forma 
de sensibilidade, desde O A vestruz Lco, 1948, com uma recusa 
algo envergonhada do *social+, um enorme


pudor de afirmar qualquer ternura ou sentimento intenso, com a 
sua obses- siva conscincia do vazio e cansao de menino amimado 
de *papas e carinho+, depois bom rapaz das amizades de caf.  
um *soluo de fim de raa+, em ritmos estrficos muitas vezes 
tradicionais e sensivelmente rimados, que, para se manterem * 
castos+, procuram ser breves, mas so ainda mais discursivos 
que imagistas (Poesia (1948-63), 1965; Voo Domstico, 1978). 
David Mouro-Ferreira (ri. 1927~02-24) compensa este cepticismo 
geral com grande vitalidade instintiva, embora algum ressaibo de 
culpa teolgica ainda, s vezes, ensombre a insatisfao dom-
joanesca da sua lrica do amor adolescente, agressivo, sem 
objectivo feminino individuado, ao par das vises apocalpticas 
de final de civilizao. Para isso se serve da mais informada e 
consciente oficina potica do decnio (Obra Potica, (1948-88), 
1988). Tem ainda volumes de contos: Gaivotas em Terra, 1959, 7.a 
edio 1988, com

boa apreenso de figuras femininas, num hbil entrosamento de 
subenredos;

7. >POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
           1109
O
Os Amantes, e Outros Contos, 1968, 4. edio 1989, em que 
flagrantes de experincia quotidiana do amor se adensam por 
transfigurao virtualmente onrica e graas ao virtuosismo da 
focagem e montagem narrativas; e As Quatro Estaes, 1980, 
reedio 1982, tambm centrado em tipos femininos; uma pea 
teatral, O Irmo, 1965, reed. 1988; e, mais recentemente, um bem 
construdo romance de errncia e transfigurao ertica, Um Amor 
Feliz, 1986, 6. a

edio 1991, alm de importantes volumes de crtica e ensaio: 
subscreveu a principal obra de polmica e teorizao que teve 
incio na Tvola Redonda.

As Coordenadas Lricas, 1951, pequeno volume potico de estreia 
de Fernanda Botelho (n. 1926),  dos mais sbios e seguros que 
saram do grupo da Tvola Redonda: imagens e ritmos certssimos; 
poucos versos falhados; uma conscincia *mope e cansada+, 
impiedosa com a morte dos sentimentos; no fundo, por isso, uma 
poesia menos ldica e cptica. Se procurarmos o ponto de partida 
donde divergem Couto Viana e Mouro-Ferreira, teremos de ligar 
certas das suas poesias historicistas  obra de Sebastio da 
Gama (n. 1924 - t 1952: Cabo da Boa Esperana, 1947, reedio 
1962; Campo Aberto, 195 1; Pelo Sonho  que Vamos, 1953), que 
numa candura

ainda romntica,  qual a morte prxima d as notas mais 
pungentes, traz at Tvola Redonda o culto do passado e da 
paisagem que o modernismo desacreditara e com que ele tenta 
reconciliar-se.

A outra forma de sensibilidade representada na Tvola Redonda 
veio a prevalecer durante uns anos.  uma sensibilidade a que 
daremos o nome

inexacto mas cmodo de *metafisica+ e que se pode talvez 
considerar como

a mais tpica na oposio ao realismo. Dela irradiam numerosas 
poesias sobre poesia, poesias a uma instncia onde se isolam as 
simples *palavras+ (ou um *nome+), as palavras pelas quais se 
opera a nova e constante Gnesis do mundo, palavras que 
inventam, constroem todo o espao habitvel, numa


arquitectura bafejada pelo vento dos anjos e dos deuses, no 
perfil dos ombros da manh ou da tarde. A grande maioria dos 
poetas portugueses consagrados nos anos 50 empenhou-se nesta 
construo de um Paraso Perdido infantil, para alm da 
infncia, para alm da morte, e de toda a sociedade conhecida ou 
por conhecer.

Alberto de Lacerda (n. 1928: Poemas, 195 1; Tauromagia, 198 1; 
Elegas de Londres, 1987; Meio-Da, 1988) pouco mais conseguia, 
inicialmente, do que multiplicar, em fragmentos lricos, o 
Pessoa mais ou menos ocultista e menino da sua me, esse menino 
que na sua solitria orfandade se sente

1110                                         HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
habitado por um deus, ou sucessivos deuses de deuses, do lado de 
l da morte. Nos ltimos poemas publicados essa tenso ganhou 
muito em espontaneidade meditativa e ritmo vivo. Recolha: 
Ofrenda, 1, 1984.

Outro destes poetas *metafsicos+  Victor Matos e S (n. 1927 
- t
1975: Horizonte dos Dias, 1952; O Silncio e o Tempo, 1956; O 
Amor Vigilante, 1962). Como Fernando Guimares (n. 1928), co-
director de Eros,
15 nmeros, 1951-58, que lhe  afim na perspiccia ensastica ao 
nvel da

fenomenologia da linguagem, parece ter partido de uma metafisica 
potica  Mallarm: o Ser puro, o Real supremo seria um ritmo 
acordado do no-ser pela poesia. Da uma poesia vivida como 
*degrau interno da morte+, do silncio e solido, da noite 
absoluta. Da urna estilstica de talvez, de condicionais 
dubitativos, de negao ou, menos que isso, de interrogao; e 
depois uma filosofia platnica-rilkeana do regresso ao divino ou 
anglico de alm-memria e alm-vida. Os valores espirituais 
exprimem-se, por isso, em tom

elegaco, como inatingidos, inatingveis, como ausncias e no 
como presenas. Matos e S, em O Silncio e o Tempo, 1956, 
alarga essa temtica

 experincia dual do amor (*quem de um ao outro nos faz ser 
assim?+); o claro-escuro ganha algum verismo plausvel, a maior 
regularidade versificatria sugere mais peso emotivo. O seu 
ltimo livro  um poema cclico religioso cujo frmito se 
amortece numa construo demasiado alegrica. Fernando Guimares 
prope-se a transcendncia ao mundo (exterior ou psquico) 
imediato ou trivializado por um amor em que o outro  (e no 
apenas est) em mim, e, por isso, prope-se uma poesia no 
apenas do conhecer, mas sobretudo do ser, uma poesia de dilogo 
com outrem e com as imagens que, narcisicamente, reconhecemos no 
rio heraclitiano do tempo, visando o encontro com a nossa morte, 
pois ela chega de ns, e -nos, mais do que nos limita. No fluxo 
e  superfcie desse rio, h imagens, ou razes, dispersas que 
se fazem rvore (humana) e folhas: folhas vegetais, folhas de 
velino ou papel branco, pginas onde (como, homologamente, na 
nossa pele e nas


paredes da casa, no sudrio dos mortos, e do Deus-Homem), 
inesperadamente, poeticamente, Surgem nomes, palavras, vozes, 
indcios, que apontam sulcos de voo O sem ave dentro), vozes, 
gestos bafejados por um vento

ou brisa, uma sombra, anjos que acordam a memria extrema do 
outro coipo, da outra casa, da outra rosa (p s-pulverizada), 
uma forma recorrente nas

estaes e outros signos cclicos - l, no silncio, no segredo, 
na morte,

7. a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
             1111
O
no centro sereno onde fica o rosto j consumado. A poesia seria 
o silncio de um nome, e  s por existir por fim repartida se 
poder chamar silncio, para que a ningum pertena. Mas o que 
talvez mais interessa neste poeta (e hermeneuta da poesia) no  
tanto certo esquema de evidente transmisso platnica-gnstica-
saudosista-rilkeana-heideggeriana, mas aquilo que tal esquema 
lhe permite articular (e que tanto ele como os leitores 
dificilmente conceptualizaro) em obras-primas como Discbulo 
(Facejunto ao Vento,
1956), Sarclago de um casal etrusco  >, Escultura, Arte 
Potica, Corrida Pedestre de um Vasco Grego, Eva (As Mos 
Inteiras, 198 1), Acerca de uma Jarra, Adormecida (Trs Poemas, 
1975, que rene dois livros anteriores). Nos seus

livros de poesia incluem-se admirveis textos teorticos ou 
aforsticos, desde Poesia (1952-1980) a A Casa: o seu Desenho, 
1986, e Tratado de Harmonia, 1988; A Analogia das Folhas, 1990, 
 constituda por tais aforismos ou breves histrias 
absurdizantes de dados do senso comum.

Mais explicitamente transcendentalista, Fernando Echeverra (ri. 
1929) exprime-se, de incio, por imagens obsessivas: a da pedra, 
da massa, do peso frreo e inerte, e do seu contraplo, a fora 
pura, um terramoto, a gua, o mar, uma lgrima divina de 
diluvial intensidade emotiva que lhe rompa os limites: em suma, 
a bruteza mais opaca oposta (ou identificada?) a uma

Suma Conscincia que a digira, isto , que absorva a matria por 
dentro, sem a elidir. Echeverra comunica-nos, at nas asperezas 
cacofnicas e nos

castelhanismos ainda no reabsorvidos do seu primeiro livro, 
Entre Dois Anjos, 1956, a sua ansiedade fundamental pela 
desproporo com que mede a sua humanidade e o respectivo 
objecto, metafisicamente ideado, o que leva a desequilbrios 
maneiristas: expresso castelhana, grandiloquente do amor

divino (*bomba+, *monstro de ternura+), a coincidncia ainda 
abstracta dos


opostos, nomeadamente a do *frio de arder+, o excesso de uma 
tenso metafrica que aposta em exceder os limites das 
significaes correntes (Trguas para o Amor, 195 8; Sobre as 
Horas, 1963; Ritmo Real, 197 1). Em poemas posteriores, certa 
disciplina classicista, nomeadamente sonetista, e certa

tradio mstica, em que avulta o Cames de Sobre os rios, o 
Pascoais das sombras, o Pessoa esotrico, o Nemsio 
heideggeriano e o Seria mais discursivo, do-lhe o suporte 
expansivo de uma espiritualidade que nunca

abandona a obsesso de certas sobredeterminaes barrocas, 
imagens e

analogias certeiras (A Base e o Timbre, 1974; Media Vita, 1979; 
Introduo

1112                                       HISTORIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
 Filosofia, 1981; FenOmenologia, 1984; Figuras, 1987; Sobre os 
Mortos,
1991; Poesia, 1956-1979, 1989).

Na transio desta poesia de perfil metafisico ou religioso para 
uma outra

cujo interesse intencional se situa mais em terreno psquico, 
conviria recordar Reinaldo Ferreira (Reinaldo Edgar de Azevedo e 
Silva Ferreira, ri.
1922-03-20 - t Junho de 1959), filho do homnimo jornalista, 
mais conhecdo pelo pseudnimo de Reprter X, e intrigante 
revelao na poesia, graas a uma edio conjunta dos seus 
Poemas, postumamente surgida em 1960

(reedio Lisboa, 1966), onde se reconhece a prevalecente 
influncia dos vrios estilos, heternimos ou no, de Fernando 
Pessoa: o mesmo sentir pensando, a mesma disponibilidade 
imensamente cptica e fingidora de crenas, recordaes ou 
afectos, o mesmo gosto amargo de assumir todas as formas de 
negatividade ou avesso conceptual. Seus, originais, os temas e 
tons

de uma enorme piedade a acompanhar as dores a que, desde o 
parto, damos causa ou testemunho indiferente, e a acompanhar os 
vcios de degradaes prprios ou alheios, consagrados a uma 
Nossa Senhora do baixo mundo instintivo; a horrorizada suspeita 
de que a morte psquica no venha a ser total; e uma viso 
simblica muito sua e intensamente pungente da Paixo de Cristo.

Pela sua opo de nacionalidade portuguesa, assinalemos Rui 
Knopfli (ri. 1932), que produziu em Moambique a maior parte da 
sua obra, integrada numa tradio de rigor comedido e 
desencantado e de sbria discursividade onde convergem mltiplas 
razes ocidentais antigas e modernas (0 Pas dos Outros, 1959; 
Reino Submerso, 1962; Mangas Verdes com Sal,
1969; O Escriba Acocorado, 1978; Memiia Consentida - 20 Anos de 
Poesia (1959-1979), 1982; O Corpo de Atena, 1984).


Trs poetas ligados  revista rvore, quatro nmeros 1951-53, 
momento esteticamente mais exigente de uma continuidade neo-
realista, mas que evoluem diversamente: Lus Amaro (n. 1923-05-
05: Ddiva, 1949; Dirio ntimo, 1975), um lrico no qual se 
requintam, numa melodia verbal cantante mas em surdina, certos 
temas saudosistas, como os do recolhimento ntimo crepuscular, 
os da ausncia-e-presena e os da noite onde se diluem todos os 
contornos do ser e do sentir; Albano Martins (ri. 1930: Secura 
Verde, 1950; A Margem do Azul; 1982, Rodomel Rododendro, 1989; 
Vocao do Silnco-Poesia, 1950-1985), tambm 
caracteristicamente lrico,

7. >POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
               1113
O
domina sobretudo o poema breve, eliptico, de abrupto recorte que 
vai at  ciso lexical e com uma contensa expresso emotiva ou 
entre pitoresca e metafrica; e Jos Bento (ri. 1932) que, entre 
uma intensa actividade de tradutor de poesia espanhola e muitos 
poemas ainda dispersos, publica uma

revolta e flagrante Sequncia de Bilbau 1978, a elegia In 
Memoriam, 1979, e, em edio bilngue, E] Entierro de] Sefior de 
Orgaz y outros Poemas, 1986.

Derivas da poesia de interveno: anos 50, 60 e 70

A tenso da resistncia poltico-social, que, desde a emergncia 
do neo-realismo, acompanha a institucionalizao de um Estado 
repressivo e conservador nos anos 30, faz-se sentir em grande 
parte nos poetas dos anos 50,
60 e 70 que acompanharam as vicissitudes da luta, intensificada 
em torno

de perodos eleitorais, conflitos laborais, acadrnicos e outros 
(nela se insere a extino em 1965 da Sociedade de Escritores), 
a guerra colonial e depois o intenso processo subsequente ao 25 
de Abril de 1974, at  ressaca posterior, literariamente j bem 
sensvel quatro ou cinco anos depois. Em termos de poesia de 
qualidade, no  possvel isolar uma tendncia de intervenao 
poltica ou de inteno realista, pois ela manifesta-se, e por 
vezes de modo bem vivo, em obras de sensibilidade to diferente 
como as de Jorge de Seria, Sophia de Mello Breyner, Alexandre 
O'Neill, ou de posteriormente consagrados, como Ruy Belo, Melo e 
Castro, Gas'to Cruz. Vamos no entanto

agrupar um conjunto de poetas cuja fase de consagrao se liga a 
uma clara atitude de polmica ou de crtica social, embora, como 
verificaremos, venham, em geral, a seguir derivas muito 
diferentes, sobretudo das de finais dos anos 70.


Entre os poetas que nos anos de 50 se tornaram conhecidos pela 
opo de realismo social popular e pela combatividade 
democrtica nenhum se manteve mais firme do que Lus Veiga 
Leito (n. 1915-05-27 - t 1987-10-09: Noite de Pedra, 1955; 
Ciclo de Pedras, reunio com dispersos, 1964; Longo Caminho 
Breve, Poesias Escolhidas (1943-1983), 1985). Caracteriza-se 
pela recuperao de uma certa ingenuidade directa, muito 
afectiva, sob uma pretenso de dureza rochosa, numa poesia de 
resistncia ou em textos de testemunho e sonho; reunio da obra 
em Biograria Ptrea, Thesaurus, Brasilia, 1989.

Mais complexa  a evoluo de Egito Gonalves (ri. 1922-04-08), 
a partir de um ps-surrealismo construtivista em A Evaso 
Possvel, 1952,

1114                                        HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

O Vagabundo Decepado, 1957, e sobretudo em Vagem com o Teu 
Rosto,
1958: ressalta a irisao hUMoral, no do Inconsciente 
metafisico, onde a

teoria surrealista quer transracionalmente unir as oposies 
reais (o estar vivo e o estar morto, por exemplo), mas da 
Cidade, ao denunciar-se flagrantemente a absurdez sufocante do 
vivido pela absurdez comparativamente expansiva do imaginrio. 
Os Arquivos do Silncio, 1963, confirmam a tendncia deste poeta 
at um n vel de stira e de potico prosasmo que s encontra 
afinidades em certos poetas espanhis contemporneos (antologia 
Poemas Polticos, 1952-1979, 1980). Em O Fsforo na Palha, 1970, 
fundem-se vicissitudes da vivncia resistente com as de um certo 
intimismo, de um modo que adensa a j anterior concretizao 
psquica e testemunhal deste poeta. Sem que o contacto com isso 
se perca em Luz Vegetal, 1975, este livro constitui, 
predominantemente, o ciclo de uma lrica do amor, emocional e 
ritmicamente muito sofreada; os poemas reunidos em Os Pssaros 
Mudam no Outono, 1981, e a sequncia de textos de Falo da 
Vertigem, 1983, qualificam a tradio da lrica do amor por uma 
partitura onde, s vezes com extraordinrio acerto e audcia, a 
exuberncia de registos metafricos e de timbres afectivos se 
casa com a dialctica ausncia-presena, saudade-desejo, 
textualizao possvel-impossvel, de um(dois) corpo(s) e suas 
circunstncias. Reunio dos poemas publicados de 1951-59 em O 
Amor desagua em Delta,
197 1, Pndulo Alctivo (Antologia Potica), com inditos, 1850-
1990. Dirigiu ou codirigiu as publicaes Serpente, trs 
nmeros, 195 1, e Notcias do Bloqueio, nove nmeros, Porto, 
1957-62, que representa uma fase amadurecida da tradio neo-
realista.

Trao caracterstico de Casimiro de Brito (n. 1938)  a sua 
inestancvel fluncia. No livro de estreia dos vinte anos, 
Solido Imperfeita, 1958, j se detectam certas suas obsesses 
permanentes (a eroso, o p, imagens de praia e de materialidade 
terrosa), num democratismo juvenil sem nfase excessiva. Nos dez 
livros desta inicial fase combativa que seleccionou para o 
volume Ode & Ceia, 1985, h clara evoluo de uma estrutura 
regular de Telegramas, 1961, para uma certa prolixidade ou 
heterogeneidade de meios e intenes, que atinge depois a mxima 
opacidade em Labyrinthus, 1981. Entretanto ganha intensidade 
original uma linha de meditao ertica que tem os seus melhores 
momentos libertinos em Imitao do Prazer, romance,

7. a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
             1115
O
1977, reedio 1980. A seguir  radicalidade democrtica de 
Prtica da Escrita,
1977, e  fico experimental de Ns, Outros, romance colaborado 
por Teresa Salema, 1977, reedio 1980, de Ptria Sensvel, 
romance de percursos textuais ad lbitum, 1983, e de Contos da 
Morte Eufrica, 1984, publicou dois volumes gnmicos ou 
aforsticos de teor mstico-pantesta, onde acentua uma j 
anterior atraco budista zen (ligado a outras msticas 
orientais e a um nlismo ps-nietzschiano), por vezes 
provocativamente anti-humanitarista, efectiva palindia do seu 
prvio progressismo. Salientemos a elegncia incisiva de muitas 
frmulas e imagens, a materialidade antiteolgica de emoes 
relacionadas com o corpo (sobretudo feminino), a respirao, o 
vazio e a morte prpria; imagens obsessivas de excrees, 
dejeces, putrefaces, em reeiclagem trrea e csmica; e a 
curiosa audcia deste paradoxo central: pensar o no-pensamento, 
exprimir aquilo que se proclama inexprimvel.

De duas revistas coimbrs, A Poesia Livre, um nmero, 1962, e 
Poemas Livres, trs nmeros, 1962-63, saram Manuel Alegre (n. 
1937: Praa da Cano, 1964, 3. a edio 1979; O Canto e as 
Armas, 1967, 3 a edio
1974; Nova do Achamento, 1979, Atlntico, 198 1; Chegar Aqui, 
1984), que testemunha a resistncia, a guerra colonial, o drama 
dos emigrantes, as vicissitudes de exlio, esperana e decepo, 
tudo recortado sobre a tradio histrica nacional; e Fernando 
Assis Pacheco (n. 1937), que, depois da sua estreia com Cuidar 
dos Vivos, 1963, produziu em Cu Kin: Um Resumo, 1972, o mais 
cru e acerbo testemunho potico da guerra colonial, de que em 
1976 deu uma verso sem disfarce vietnamita, Catalabanza Quiolo 
e Volta. Entretanto publica Memrias do Contencoso, 1976, um 
poema de amor que assegura, noutro tom, o mais conseguido 
equilbrio entre as tradies neo-realistas e vanguardistas; 
Siquer este Refgio, 1976, onde sobressai a fragmenta o e 
justaposio de mltiplas referncias vividas, por 
desconstruo-reconstruo textual potica; e Variaes em 
Sousa, 1987, onde um prosasmo  Abade de Jazente, o ar de sem-
cerimnia nem respeito, o anacoluto, o calo, e a pardia mais 
autenticam a saudade ou ternura da ascendncia galega, da 
infncia rural e da estroina coimbr; volume de reunio, Musa 
Irregular, 1991. Bom testemunho de uma emotividade e 
combatividade revolucionria , nos anos de 60, a do malogrado 
Daniel Filipe (n. 1925-02-11 - t 1964-04-06), atravs de A 
Inveno do Amor, 1960;

7. a edio 1988; Discurso sobre a Cidade, 1961, e culminando em 
Ptria Lugar de Exi7io, 1963.

1116                                        HISTORIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

Mais desconcertante do que a maioria destas vozes revela-se a de 
Armando Silva Carvalho (ri. 1938: Lrica Consumvel, 1966; O 
Comrcio dos Nervos, 1968; e O Alicate, 1972; Portugucx, 
romance, 1977, reedio
1981; Donamorta, romance, 1984, que em prosa expandem a temtica 
dos seus versos) no modo como utiliza a associao aleatria, 
verbal ou narrativa, e consegue captar certa atmosfera lisboeta 
actual, certas razes rurais ainda portuguesas, para, 
sarcasticamente, reduzir a farsa vrias maneiras e discursos de 
actualidade cultural ou, geralmente, nacional. Caso de final 
amadurecimento de um autor de tradio neo-realista  o de 
Alexandre Pinheiro Torres (n. 1923): em Ilha do Desterro, 1968, 
surge muito comunicativo na

evocao de imagens retrospectivas; em A -Terra do Meu Pai, 
1972, graas a um estilo enriquecido e temperado pela 
experincia, implanta-nos numa

ilha que  (mas irradiando de outros sentidos) o So Torn da 
sua infncia, da sua hereditariedade paterna e nacional. A 
experincia so-tomense est tambm na raiz do excelente romance 
A Nau de Quixb, 1977, impublicvel antes do 25 de Abril, 
reedio 1989. Os seus dois mais recentes livros de poesia, O 
Ressentimento dum Ocidental, 198 1, A Flor Evaporada, 1984, so 
animados por um apaixonado e imaginativo sarcasmo dirigido  
contemporaneidade nacional. Recente volume de contos, Tubares e 
Peixe Mido,
1986, com quadros da emigrao na Inglaterra, cheios de humor 
local e de profusa evocao verbal portuguesa, e o romance 
Espingardas e Msica Clssica, 1987, actualizao contrastiva e 
certeiramente humoral do Amor de Perdio, nas circunstncias de 
fins de 1961, incios de 1962, em Riba-Tmega. Alexandre 
Pinheiro Torres foi durante os anos de 60, na pgina literria 
do Dirio de Lisboa, o mais influente crtico de posio neo-
realista.


Entre os poetas fundamentalmente realistas mas mais contensos 
avulta Antnio Gedeo (pseudnimo de Rmulo de Carvalho, n. 
1906~ 11-24), tarde e surpreendentemente revelado como poeta 
atravs de Movimento Perptuo, 1956, Teatro do Mundo, 1958, e 
Mquina de Fogo, 1961, Linhas de Fora, 1967, livros que 
cristalizam, numa sensibilidade bastante original, certas coisas 
aparentemente muito heterogneas: uma nitidez de recorte ora 
parnasiana, ora vinda da redondilha corts, ora permeada pela 
sua formao cientfica; uma comunicativa simpatia algo neo-
realista pelo sofrimento e

tambm pelo trabalho popular; e uma vivncia meditativa e 
inquieta da sua prpria e crescente solido humana (Poesias 
Completas, 1964, 7. a edio

7. POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
          1117
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1978; Poemas Pstumos, 1984; Novos Poemas Pstumos, 1990). Em 
Poltrona e Outras Novelas, 1973, ressalta mais a sua 
sensibilidade realista s frustraes e repeties cclicas, da 
vida mediana ou pelintra lisboeta.

Nas fases que imediatamente precedem ou seguem o 25 de Abril 
ganharam largo e interessado pblico autores (nalguns casos 
tambm cantores) de poesia combativa, alguns dos quais 
diferenciaram e qualificaram a sua gama temtica, entre eles 
Jos Afonso (n. 1929-08-02 - t 87-02-23: Textos e Canes, 1988) 
e Srgio Godinho (volume Canes, 1977, reedio actualizada 
1983). Jos Carios Ary dos Santos foi o mais popular autor de 
poesia para canto ou declamao a um grande pblico (ri. 1937 - 
t 84-01-18: Adereos, Endereos, 1965, com trs edies; 
Isoffimento in Sofrimento,
1969; Resumo, 1972, reedio 1974, que contm antologia de 
anteriores livros esgotados; O Sangue das Palavras, 1978; 20 
Anos de Poesia, antologia, 1983, Oito sonetos, 1984). Joaquim 
Pessoa (n. 1948) trouxe  stira poltica e

social o humor realista de um Soropita, Tolentino ou Cesrio 
ambientados em Lisboa, o seu esturio, acompanhando a gestao, 
a alegria breve e a

repulsa posterior de uma revoluo trada, e debruando um tal 
ciclo por outro ciclo paralelo de experincia ertica. Evolui 
depois no sentido de aguda e

rediviva sensibilidade s tradicionais intuies da dor e da 
morte humanas como microcosmo consciente de um macrocosmo por 
reconhecer (0 Pssaro no Espelho, 1975; Os Olhos de Isa, 1980, 
3.1 edio 1983; Os Dias da Serpente, 198 1, reedio 1983. 
Antologias: 125 Poemas, 1982, reedi o
1983, e Paiol de Plen, 1983; posteriormente, numa gama humoral 
variada:
O Amor Ififinito, 1983; Peixe Nufrago, 1985; Mas, 1987). Tambm 
inicialmente conhecido pelas suas canes de combate ou para 
crianas, Jos Jorge Letria (n. 1951-06-08) prossegue no sentido 
de uma lrica de tnues e desencantadas referncias ou memrias, 
num ritmo e numa figurao rigorosos (Corao em Armas, 1977; 
ntimo das Ondas, 1988; O Percurso do Mtodo, 1990; Os 
Ofciantes da Luz, 1991; A Sombra do Re-Lua, 1991; Bagagem 
Imaterial do Voo, 1991).

Anos de 60


De longe o mais original poeta religioso dos anos 60  Ruy Belo 
(n. 1933-02-27 - t 1978-08--07), que nos seus primeiros poemas 
publicados espraia, com um belo flego, um caudal de metforas e 
paranomsias des-

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LITERATURA PORTUGUESA
O
valorizadoras da Cidade humana, na obstinada perseguio de 
evidncias de uma outra Cidade em que a morte ganhe sentido para 
alm de tudo o que qualquer desejo humano saiba dizer-se (Aquele 
Grande Rio Eufrates, 196 1, reed. 1972; O Problema da Habitao, 
1962), tornando depois essa perseguio cada vez mais evidente 
em termos onde uma meditao religiosa como

a de Nemsio da ltima fase fica na contiguidade da tradio 
neo-realista de luta democrtica, com flagrantes de certa aldeia 
do Noroeste litoral, entre outra experincia vivida (Boca 
Bilingue, 1966; Homem de Palavra(s), 1969, reed. 1978; Toda a 
Terra, 1976; Despeo-me da Terra de Alegria, 1977; Obra Potica, 
trs volumes, organizada e prefaciada por J. Manuel Magalhes, 
1981-84, sendo o 3.1 volume de textos sobre poesia).

Antnio Ramos Rosa (n. 1924~10-17) vem aqui a propsito, pela 
fase de consagrao da sua obra, tardiamente editada. Nela, 
contenso e vigilante, oscila entre composies de maior flego, 
onde apreende as frustraes cansadas do ramerro burocrtico, 
rplicas portuguesas  surdina lrica eluardiana, e vrias 
formas suas lucidamente experimentais de poesia. O trao mais 
caracterstico da sua obra dos anos 60  um extremo pudor dos 
sentimentos ou ideais nomeveis e at da simples presena 
humana, substitudos pela corno osmose do sentir s coisas de 
materialidade mais bvia (a terra, a luz, uma pedra, um muro, 
ossos) ou perante a coincidncia ocasional e

como que instintiva de eu a mim, a ti, a ns ou ao simples 
espao fsico onde brota uma pequena experincia, ou se dilata 
um desejo (Viagem atravs duma Nebulosa, 1960; Ocupao do 
Espao, 1963; Terrear, 1964; No Posso Adiar o Corao (volume 1 
de Obra Potica, 1960-61), 1973; Horizonte Imediato, antologia, 
1974; Animal Olhar (volume Il de Obra Potica) e O Ciclo do 
Cavalo, 1975; Respirar a Sombra Viva, 1975 (volume 111 de Obra 
Potica, 1969-73); Boca incompleta, 1977; A Palavra e o Lugar, 
recolha,
1977; O Incerto Exacto, 1982; Matria de Amor, antologia, s/d 
(1983); Dinmica Subtil, 1984; Acordes 1989; Facilidade do Ar, 
1990; A Rosa Esquerda,
1991). Estes livros contm algumas das melhores poesias 
contemporneas,

com uma aguda perspiccia potica ligada ao empenho de 
compreender a

prpria poesia, e com hiatos de comunicabilidade que os xitos 
justificam como acidentes de trajecto, numa experincia 
intentada at aos limites do dizvel na intuio de um espao, 
de um corpo que respira e se move, de uma presena de mulher, da 
Terra e sobretudo do irromper genesaco da

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
          1119
O
prpria poesia na sua agnica abertura ao ser. Ramos Rosa , 
corno terico e crtico de poesia, muito representativo daquilo 
que urna gerao posterior designaria como modernidade (Poesia, 
Liberdade Livre, 1962, reedio 1985; A Poesia e a Interrogao 
do Real, 2 volumes, 1979-80; Incises Oblquas,
1987; A Parede Azul, 1991).

Joo Rui de Sousa (n. 1928), atravs de alguma excessiva 
facilidade de ritmo e imagem, apreende todavia certas coisas 
exactas como as muitas mortes antecipadas na simples e vulgar 
incoincidncia de eu a mim (Circulao, 1960; A Habitao dos 
Dias, 1962; recolha destes e outros volumes,
O Fogo Repartido (1960-80), 1983; Enquanto a Noite a Folhagem, 
1991); Mencionemos Cristovam Pavia (pseudnimo de Francisco 
Antnio Flores Bugalho (ri. 1933 - t 1968), cuj os 35 Poemas, 
1959, em grande parte recheados das imagens de uma infncia 
vivida, tm o raro dom de transfigurar a

realidade vivida em expresso lrica fundamentalmente 
persuasiva. Maior densidade e gama humoral mais larga, atinge, 
nos seus ltimos livros, Rlder de Macedo (ri. 1935), que, desde 
Vesperal, 1957, sustm uma funda mas ainda ento monocrdica 
meditao acerca da precaridade do ego, como

mero esboo de urna identidade humana impessoal, mas acaba por 
modular esse tema central em tons diversos e inesperados, 
enriquecendo-o de subtemas que exemplificaremos esquematicamente 
como sendo o da secreta, inconsciente comunho ertica, perante 
espelhos paralelos, de uma sombra e uma ausncia; ou o da mera 
inerncia da morte  vida sob a forma de todos os seus limites 
assumidos (Das Fronteiras, 1962; Poesia 1957-77, 3. edio 
actualizada - de 1957 a 77-1979).

fflPoesia experimental ou afim


Alguns poetas tm-se orientado no sentido de experimentar ou 
construir objectos poticos, perseguindo flutuantes intuies em 
relao dialctica com os signos a que se ligam. Esses recursos 
variam entre o autornatismo surraliste e a explorao planeada 
de uma anlise combinatria previaniente aplicada s estruturas 
morfolgicas e sintcticas, a todas as espcies de rima, s 
analogias verbais (homnimos, parnimos, anagramas) ou at 
simples~ mente  distribuio visual dos espaos e dos 
caracteres grficos -  o que tambm ento acontece com a escola 
concretista brasileira (1956) e outras

decorrentes, que pretendem teorzar tais experincias  base de 
disciplinas matemticas, como a topologia e a informtica. 
Trata-se de uma tendncia

1120                                       HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
genrica, a tendncia para explorar ao mximo as possibilidades 
estruturais de um dado material artstico (msica serial e 
electrnica; pintura abstracta; arte cintica; etc.), 
independentemente de qualquer inteno significativa, ou 
suscitando essa inteno nos prprios actos e acasos das 
experincias combinatras, que podem ser computadorizadas e 
associadas a meios audiovisuais, hologrficos ou cinticos.

As experincias matemtico-combinatrias de Max Bense e sua 
escola de Estugarda, as reflexes de Mallarin e outros 
precursores sobre a importncia do espao grfico, as tentativas 
de Ezra Pourid e outros no sentido de assimilar os recursos da 
escrita ideogrfica chinesa  j milenar escrita fontica 
ocidental, a teoria de W. Empson sobre a ambiguidade potica e

a de Umberto Eco sobre a obra aberta, que conta com o aleatrio 
de cada execuo ou interpretao - tudo isto, alis assimilado 
pelo concretismo e no praxismo brasileiros de Haroldo de Campos 
e Mrio Chamie, respectivamente, converge nos actuais 
teorizadores e crticos portugueses da poesia experimental: 
Ernesto Manuel de Melo e Castro (A Proposio 2.01, 1961), Ana 
Hatherly, M. S. Loureno, Gasto Cruz, Herberto H lder e 
Antnio Ramos Rosa, estes trs tangencialmente. Manifestaes 
colectivas: Poesia
61, de um grupo de jovens universitrios lisboetas que depois 
evoluiu em

sentidos diversos; volume Poesia e Tempo, 1962; srie editorial 
Pedras Brancas, iniciada em 196 1, e dois conjuntos de Cadernos 
de hoje e Poesia Experimental, 1965-66, organizao de A. 
Arago, E. M. Melo e Castro, H. Hlder; Antologia de Poesia 
Concreta em Portugal, 1973, J. A. Marques e E. M. Melo e Castro; 
um suplemento especial panormico no Jornal do Fundo, 1965-01-
24; Hdra, 1966, Porto, 1969, Lisboa; Operao-], 1967, Lishoa; 
Grifo (antologia abjeccionista), 1970; Po. Ex., Textos e 
Documentos de Poesia Experimental Portuguesa, por Melo e Castro 
e A. Hatherly, 198 1; Literatura Ciberntica, 1, 1977, 11, 1980; 
e Mquinas Pensantes, aforismos gerados por computador, 1987, 
Pedro Barbosa, Porto; Fernando Aguiar e

Silvestre Pestana, Poemografias, 1985.


A personalidade mais empreendedora desta actividade, Ernesto 
Manuel de Meio e Castro (ri. 1932-04-19), que com Maria Alberta 
Meneres organizou, actualizada em 1961, em 1971 e em 1979, a 
mais informativa Antologia da (ento) Novissima Poesia 
Portuguesa, tem uma j considervel bibliografia de textos 
originais, entre eles: Entre o Som e o Sul, 1960; Mundo Mudando,

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
            1121
O
Ideogramas, 1962; Concepto Incerto, poesia visual, 1977; 
Autologia Poemas Escolhidos - (1951-82), 1983. Reunio de 40 
anos de obra: Trans(a)parncias, 1990. Ana Hatherly (n. 
1929.06.13), polifactica e muito produtiva, tem os seus 
primeiros volumes de poesia reunidos em Poesia (1958-1978), a 
que se seguiram O Cisne Intacto, 1983; Anacrusa (narrativas de 
sonhos, comentados por outrem), 1983; e As Palavras, 1988, alm 
de fico O Mestre, 1963, reedio 1976), ensaios, volumes de 
autoria conjunta, e mais recentemente estudos sobre a esttica 
barroca e neobarroca.

A teorizao dos experimentalistas portugueses fica longe do 
interesse cientfico, matemtico-lingustico, da escola de 
Estugarda, e da originalidade concepcional de Eco ou Haroldo de 
Campos, sendo um dos seus tpicos a reivindicao da tradio 
ldica do Barroco. Ver no entanto a recolha de textos tericos 
de Melo e Castro, como In-novar, 1977, Essa Crtica Louca,
198 1, e o posterior Projecto: Poesia, 1984. Quanto a M. S. 
Loureno (Manuel Antnio dos Santos Loureno, ri. 1936),  um 
autor desconcertante, quer pela extrema irregularidade 
qualitativa da sua obra, onde no faltam momentos de completo 
acerto, quer pela intencional alterrincia, ou fuso, de 
processos e fontes: epigramas da mais eliptica sintaxe; 
evocaes de certos ambientes histricos ou exticos 
reconhecveis, sumptuosos de imagens e raiados de absurdo, em 
prosa ou poema de larga respirao; parfrases e justaposies 
de textos, com o sabor sugestivo e ao mesmo tempo evasivo de uma 
erudio delicada  Ezra Pound; etc. (0 Desequilibrista, 1960; 
O Doge, 1962; Ode a Upsala, 1964; Arte Combinatria, 1971; Nada 
Brahama, 1991).

A mais curiosa e exuberante personalidade que entre ns passou 
pela poesia experimental  Herberto Hlder (ri. 1930-11-23). 
Usou o processo ainda fundamentalmente surraliste de caar 
grandes surpresas significativas na coutada dos automatismos e 
acasos frsicos, e assim obteve em O Amor em Visita, 1958, 
significativos conseguimentos. Nalgumas das melhores composies 
de A Colher na Boca, 1961, arrisca-se pela primeira vez, e

com sucesso, a condicionar essa caada ao acaso por uma srie ou 
constelao de palavras que como definem o campo geral de foras 
do poema; voltou a repetir o processo mais generalizadamente em 
Electronicolrica, 1964. Entretanto publicava outros dois livros 
(Poemacto, 1961; Lugar, 1962), em

que as experincias de significao aleatria, obedecendo a 
automatismos de associao verbal ou imaginativa, e sincopadas 
por aglutinaes ou pau-

1122                                      HISTRIA DA LITERATURA 
PORTUGUESA
O
sas arbitrrias, traem no entanto a inteno geral de gnose 
esotrica a que o inconsciente serviria de veculo. Volumes de 
recolha: OFicio Cantante, 1967; e Poesia Toda, dois volumes, 
1973, reedio um volume 198 1, edio refundida, 1990. Deve 
alis a primeira notoriedade a Os Passos em Volta, 1963,
5

a O. edio emendada em 1984, livro de contos, ou, antes, livro 
onde a sua

fantasia se disciplina por um mnimo de enredo e de referncias 
claramente objectivas, o que o exime a um transcendentalismo que 
ainda tem algo de romntico. Ap-resentao do Rosto, 1968, com 
maior carga de viol ncia, pode integrar-se na sua continuidade, 
ao passo que a Vocao Animal, 197 1, retoma, em ritmo de prosa 
ou versculo, a experincia do quase aleatrio sem narrao. 
Cobra, 1977, O Corpo o Luxo a Obra, 1978, Photomaton E Vox, 
1979, reedio 1987, so, no fundo, meditaes de aile potica, 
que, em certo sentido quase-teortico, condensam a experincia 
do autor, evidenciando a sua ascendncia surrealista, obsesses 
ligadas  tradio hermtica-alqumica, mas tambm pontos 
fundamentais e muito lcidos da sua originalidade prtica e 
concepcional (a poesia corno montagem; a sua imanncia corprea 
e objectiva; a exemplaridade no apenas da infncia, mas tambm 
do medo, na poesia, servindo de momento dialctico a um tempo 
recriado, antiespacial e antiteolgico, atravs de uma como que 
experincia da morte; a homologia do irromper da poesia a toda a 
gnese terrena e csmica dos corpos, e  mtica e universalmente 
obsessiva rvore da vida). Mais recentemente: Flash, 1980, A 
Cabea entre as Mos, 1982, ltima Cincia,
1988, alm da reedio acrescentada de um volume de belas 
tradues livres de encantaes muito heterogneas, As Magias, 
1988. . Pedro Tamen (n. 1934-12-01) enveredou em O Sangue, a 
gua e o

Vinho, 1958, por experincias de exploso sintctica e de 
analogias paronmicas que deram os seus melhores frutos em 
Primeiro Livro de Lapinova,

1960; Poemas a Isto, 1962; Poesia 1956- 78, 197 8; Horcio e 
Corico, 198 1; Princpio do Sol, 1982; Antologia Provisria, 
1983; Delfos, Opus 12, 1987; Tbua das Matrias (Poesia; 1956-
1991). Em vrios excelentes poemas est no prosseguimento feliz 
dos acertos que Nemsio, j instrudo pelo surrealismo, atingia 
atravs da recuperao de certo ludismo verbal infantil, entre 
uma ingenuidade de elpse e transgresso semntica ou 
sintctica, que chega a indistinguir as categorias morfolgicas 
verbais e uma reflexo densamente

7. - POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
          1123
O
sentenciosa. Antnio Barahona da Fonseca (ri. 1939-01-17) traz 
da poesia experimental um estilo corrosivo, em que apenas, e 
ambiguamente, o amor

se resgata (Capelas Imperfeitas, 1965; Ritual Anlogo, 1968; Aos 
Ps do Mestre, dois volumes 1974-75; Ptria Minha, 1 e H, 1978-
79; Livros da ndia,
1980, estes trs ltimos ligados  sua converso ao Islo, a que 
deve certas notas exticas e o nome, alternativo, de Muhammad 
Rashid). Sallete Tavares (n. 1922-03-31) experimenta, sobretudo, 
com a disposio grfica, certas pequenas deformaes 
sintcticas ou ortogrficas, e parnimos, e no fundo atinge um 
tratamento mais discreto de uma lrica tradicional de 
passividade feminina (Espelho Cego, 1957; Concerto em Mi Bemol 
para Clarinete e Bateria, 1961; Quadrada, 1967); mas em Lex 
Icon, tais processos ajustam-se

a uma espcie de fenomenologia poetizada, muito comunicativa, 
dos objectos mais familiares. E  aquela mesnia atitude 
conservadoramente feminina, num tom de espera-expectativa 
contemplativa e sem esperana real, salvo a de inventar ou 
construir idealisticamente o mundo pela poesia, que encontramos 
nos versos hermticos mas extraordinariamente eurtmicos e ricos 
de modulaes afectivas de Maria Alberta Meneres (n. 1930-08-25: 
Intervalo, 1952; gua-Me, 1960; Poemas Escolhidos, 1962; 
recolha acrescida,
O Robot Sensvel, 1978), a qual posteriormente se tem 
distinguido em obras para crianas. Acrescentemos dois autores: 
Arnaldo Saraiva (n. 1939), de um humor corrosivamente imaginoso 
tocado pelo concretismo brasileiro, e (Poemas 1959-66), 1967, 
In, 1983, mais conhecido como ensasta, notvel cronista e 
investigador, e o malogrado Nuno Guimares (n. 1923 t 73), em 
cujo mundo imaginrio a poesia surge como emanao da terra, 
Corpo Agrrio, 1970, consagrando-se postumamente com Os Campos 
Visuais, 1973.

A mais diversificada evoluo de poesia ps-surrealista, que, 
pelo tempo da guerra colonial, de algum modo aflora uma crtica 
poltico-social,  a


do grupo predominantemente universitrio de Poesia 61. De facto, 
numa Antologia de Poesia Universitria de 1964 j a maior parte 
dos seus elementos se integrava, com outros jovens, numa 
tendncia de crtica poltico-social, entretanto amadurecida 
entre a poesia estudantil. No meio do grupo lisboeta 
distinguiram-se, pela extenso e qualidade da obra reunida em 
volumes individuais, os autores que referiremos no pargrafo 
seguinte, e cujas trajectrias se diferenciam cada vez mais:

1124                                        HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
Fiama Hasse Pais Brando (ri. 1938-08-15) enveredou tambm, como

veremos, pela dramaturgia. Logo de incio, associa, em verso, a 
preciso seca do trao descritivo com a prpria emergncia do 
texto; a seguir, num permanente renovo conjunto de percepes e 
de memrias que entretanto se inserem com mestria crescente numa 
espcie de espao-tempo com estatutos e limiares incertos para o 
que  ou se sente: (Este) Rosto, 1970; O Texto de Joo Zorro, 
1974; mago, 1, 1985; antologia de oito volumes de verso e 
dispersos em F de Fiama, 1986; reunio com inditos, Obra Breve,
1991. Gasto Cruz (ri. 1941: Morte Percutiva, 1961; Doena, 
1963; As Avos, 1969, reedio 1972; O Panista, 1984; rgo de 
Luzes - Poesia Reunida, 1990) produz a mais tensa, 
autoconsciente e antieloquente poesia, onde  frequente a 
modulao de ternas ou simples estilemas de clssicos 
quinhentistas e de autores recentes, num desprendimento 
conscientemente letrado perante evocaes vividas, 
referencialmente muito rarefeitas, muito neutralizadas por 
subtis efeitos versificatrios, ou fonolgicos, por homologias 
entre corpo e fala, pela insistncia de sugestes cclicas 
(dia/noite, meses, estaes do ano), em que o mundo parece, ora 
localizado e datado, ora meramente simblico.  o principal 
crtico do grupo (Poesia Portuguesa Hoje,
1973); ltimo volume de poesia As Leis do Caos, 1990. De 
temperamento radicalmente diverso, Maria Teresa Horta (ri. 1937: 
Vero Coincidente,
1963; Poesia Completa, 1 (1960-66), 2 (1967-82), 1983; Os Anjos, 
1983; Rosa Sangrenta, 1987), tanto na sua obra de fico (Ambas 
as Mos sobre o Corpo, em prosa, 1970, 3. a edio 1984), como 
na sua poesia dos anos

70 e 80, vir a caracterizar-se pela veemncia da sua 
iconoclastia feminista. Lusa Neto Jorge (ri. 1939-05-10 - t 
1989-02-23: Noite Vertebrada, 1960; Terra Imvel, 1964; O Tempo 
a Seu Tempo, 1966; Dezanove Recantos,
19r69; Os Stios Sitiados, recolha, 1973; A Lume, edio 
pstuma, com fac-smile de fragmentos, 1989) reduz a uma 
desolada ou desesperada e, no


entanto, fria lapidaridade as pulses da mais feroz 
agressividade anti-senso comum, libertada pela aleatria 
apreenso ps-surrealista de evidncias surpreendentemente 
certeiras; o seu agudo senso de temporalidade ou transitoriedade 
assimila cada objecto ou acontecimento ao stio nico, logo 
depois insensibilizado, daquilo que em geral se concebe como 
sendo as suas coordenadas espcio-temporais.

No omitiremos ainda a densidade epigramtica de Jaime Salazar 
Sampaio (ri. 1925: Em Rodagem, 1949; O Sil ncio de um Homem, 
1960), tam-

7 a PO@ - PO@ CONTEMPORNEA                                  
              1125
O
bm, como veremos, dramaturgo, e autor de textos entre 
narrativos, aforsticos e lricos, de qualquer modo contendo 
excelentes flagrantes do absurdo quotidiano (Ramal de Sintra, 
1960; O Viajante Imvel, 1979); e a l rica fluvialmente rtmica 
e correntia de Liberto Cruz (n. 1935), centrada sobre um

tema exclusivo, ou quase, o prprio acto de poetar (Nvoa ou 
Sintaxe, 1959, Itinerrio, 1962) - autor tambm de um aforstico 
dirio da guerra colonial, Jornal de Campanha, 1986.

Na transio dos anos 60-70 registemos, ainda, Manuel Antnio 
Pina (Ainda no  o Fim Nem o Princpio do Mundo  Apenas um 
Pouco Tarde,
1974; Aquele que quer morrer, 1978), intrigantemente 
monocrdico; Lus de Miranda Rocha (0 Corpo e o Muro, 1963; 
Alterao de Julho, 1977), com estranhos textos dominados pela 
obsesso de certas frases-chave; e Antnio Osrio (n. 1933), que 
recupera, dignificada, uma transparncia tradicional, em 
referncia aos gestos ancestrais do amor,  infncia rural, aos

familiares falecidos, s suas razes italianas, e cuja 
modernidade reside numa simples e segura mestria (Raiz 
Afectuosa, 1972, reedio revista 1984; O Lugar do Amor, 198 1; 
Ado, Eva e o Mais, 1983; Aforismos Mgicos, 1985). Teresa Rita 
Lopes reuniu em Os Dedos, os Dias, as Palavras, 1987, vrios 
conjuntos de poesias suas deste perodo, em que salientaremos 
uma srie

de *sonetos em mutao+, pela sua forte e transparente 
veemncia.

Aquilo a que poderamos chamar a gerao, contempornea da 
guerra colonial e dos movimentos acadmicos dos anos 60 tem como 
principal representao ensastica Eduardo Prado Coelho (n. 
1944), que se distinguiu primeiro na exposio do estruturalismo 
(anti) antropolgico desse decnio e, a partir de ento, tem, 
sempre actualizadamente, acompanhado a teorizao e crtica que 
atravessa a semiologia de informao lacassiana-althusseriana, o 
ps-estruturalismo de R. Barthes, M. Foucault e S. Deleuze, e 
rumos de afinidade ps-modernista; dada a sua presena na 
bibliografia destes ltimos captulos, mencionaremos apenas o 
seu volume de maior flego e fundamental em questes de teoria 
da literatura, Os Universos da Crtica, 1982.

Anos 70-80

Partilhada pela generalidade dos novos poetas cujo perfil j se 
definiu

nos anos de 70 h a aguda percepo de que aquilo que importa 
no preexiste aos significantes verbais, mas se impe a um 
trabalho inter-subjectivo de perse-

1126                                        HISTORIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
guir objectos (entre sociais e individuais) do desejo, em lances 
do prprio mester potico que  impossvel prever, que no se 
legam em aprendizagem e cujos resultados nunca de todo coincidem 
(quando, ou se  que, coincidem) com a respectiva inteno 
inicial, ou com as respectivas e mltiplas leituras. Raramente 
em to poucos anos se assistiu a um to considervel conjunto de 
revelaes, muito diversas entre si em temperamento e em 
tcnica, mas assentando num mesmo radical questionamento, que 
abala a anterior convico de comunicabilidade humana atravs de 
meros actos de linguagem, e refuta a teoria do signo lingustico 
de F. Saussure, a qual distinguia o aspecto signficante do 
aspecto significado, e portanto no encarava a fala

(e a histria social) humana como cadeia sem fim nem princpio 
de significados-significantes, a emergir num trabalho comum e 
sem balizas. Os

principais entrecruzamentos a que nos anos 70-80 assistimos, por 
vezes dentro

da mesma breve trajectria individual, so, talvez, os que 
decorrem entre uma intertextualidade ostensiva e o gosto da 
circunstncia mais flagrante; entre a translao metafisica e a 
imagem imediatamente bvia; entre a elipse e formas novas (ou 
reassumidas) de discursividade; entre uma esttica de

pura negao  Adorno e um humor crtico datvel.

Urna das manifestaes extremas desta concepo, sobretudo 
inspirada pela problematizao psicanaltica do sujeito e pela 
teoria semitica do texto Q. Lacan, Roland Barthes, J. Derrida, 
J. Kristeva, etc.), encontra-se em

Jos Augusto Seabra (n. 1937-02-24), tambm ensasta de escola 
semiolgica, que, na destruio dos campos semnticos 
tradicionais da poesia, segue uma estratgia baseada em negaes 
no dialcticas, ou disjunes irresolveis, interrogaes por 
vezes no marcadas, rasura de nexos lgicos previsveis e 
aproximaes desconcertantes do tipo da paronmia ou do 
anagrama. Seabra fora, em A Vida Toda, 1961, um dos mais 
sensveis poetas da resistncia poltica vivida nas vicissitudes 
da sua dialctica psquica: tristeza-alegria, desespero-
esperana, medo-audcia. Em Os Sinais e a O,rigem, 1967, a 
tnica


deslocara-se para a nsia de inteireza ntima e sua frustrao 
no *quase+; mas j em Tempo Tctil, 1972, apontava o tema 
heideggerano do nada, ou

morte, ou silncio, no mago do ritmo e do ser, que subjaz  
noo de desmem,ria, isto ,  suspeita ontolgica lanada 
sobre todo o conscientemente

vivido, mesmo como memria.

Alm desta orientao teortica, e do uso variamente qualificado 
de tcnicas de tradio surrealista, outro fen meno caracteriza 
a poesia portuguesa

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
              1127
O
actual de pblico formalmente exigente: uma extensa informao 
cultural que transborda da predominante origem ou transmisso 
francesa de at  guerra de 1939-45 e que, de vrios modos, 
propicia a tendncia caracteristicamente ps-modernista para a 
parfrase, a citao, a arnlgama de referncias literrias, 
artsticas, doutrinais, de viagens e de experincia prpria, 
tudo expresso de modo mais ou menos ambguo ou refractado. Caso 
tpico do poeta de larga informao cultural activa  Vasco 
Graa Moura (n. 1942). Desde os seus primeiros livros avulta, 
alm das conhecidas estratgias ps-surrealistas, uma fuso 
transgressiva de mltiplos cdigos comunicativos, que vo das 
grias  fraseologia de diversos registos de fala corrente, a 
inseres de variada terminologia tcnico-cientfica, incluindo 
distores paronmicas, etimolgicas e morfolgicas, junes 
poliglticas, etc., produzindo uma larga paleta de humor. Em O 
Ms de Dezembro e outros poemas, 1977, e nos poemas depois 
includos em Instrumentos para a Melancolia, 1980, a 
politonalidade humoral restringe-se a favor de uma espcie de 
neoclassicismo, num campo de parfrases reinterpretativas ou 
parodsticas de clssicos (greco-romanas, (pr-)renascentistas 
ou outros e de idiomas diversos), conjugando toda a vasta 
combinatria da sintaxe potica hoje admissvel com

uma difcil disciplina de estruturas ou diapases antigos, como 
o soneto, a oitava, a sextina e a elegia, e tpoi, ou motivos, 
que tanto podem ser helnicos como trecentistas ou 
seiscentistas, hoelderlinianos como rilkeanos, etc.. Na assuno 
de to informada e explcita intertextualidade h uma larga 
margem de exerccio ldico e at erudito, mas dela emerge uma 
cada vez mais sensvel e gratificante emoo, ligada a 
efemrides e experincias actuais. N Cego, o regresso, 1982, 
contm uma remeditao emotiva do neoplatonismo renascentista. 
Os ltimos livros de versos, como A Sombra das Figuras, 1986, 
acentuam a virtuosidade com que percorre uma gama humoral e 
referencial excepcionalmente larga. Muito naturalmente, Vasco 
Graa Moura  um excelente tradutor de poetas to diversos como 
Dante, Shakespeare, Enzensberger e Gottfried Benn, e um muito 
perceptivo ensasta sobre textos literrios e sobre obras de 
arte plstica.  ainda autor de dois romances, Quatro ltimas 
Canes, 1987, que pela dramaticidade dos (des)encontros de 
amor, pelas impresses e meditaes musicais e por uma certa 
genealogia transmontana de sabor camiliano se prende de perto 
com vrias suas poesias; e Naufrgio de Seplveda, 1988, espcie 
de divertimento inspirado pelo

1128                                         HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
clebre naufrgio (fundido com outras tragdias), reenquadrando 
alguns dos seus traos e personagens no Portugal contemporneo e 
na prpria vida pblica do autor. Como se verifica, so, sob 
vrios critrios, muito  bvias as suas

afinidades ps-modernistas.

A potica de uma intertextualidade ps-modernamente bem  vista 
procede em Mrio Cludio (Rui Manuel Barbot Costa, n. 1941) de 
um modo menos meditativo e bem mais directamente sobre as 
analogias de um imaginrio que associa uma infncia ou 
adolescncia claramente rural ou (provincianamente) citadina 
portuguesa com um vasto leque de leituras (literrias e outras), 
viagens, evocaes plsticas ou rtmicas, em textos que so, por 
isso, de composio potica mesmo quando no versificadas 
(Estncias, 1980;

a Um Vero Assim, 1974, 3. edio revista 1988; Terra Sigilata, 
1982). O gosto da digresso livre sobre motivos culturais ou 
mltiplas vivncias mantm-se nas suas quase-biografias de um 
pintor, de uma clebre violoncelista e de uma ceramista 
artesanal: Amadeo, 1984, 4.1 edio 1986; Guilhermina, 1986, 
reedio 1987; Rosa, 1988, reedio 1989; e nos monlogos de 
inspirao entre evanglica e pictrica de Fuga para o Egipto, 
1988. Em 1990 publicou A Quinta das Virtudes, que  como que um 
painel de trs geraes de uma famlia entre aristocrtica e 
burguesa portuense dos scs. XVIII e XIX, apontando para uma 
esttica sem quaisquer pretenses continustas ou 
homogeneizadoras, e onde a prpria Casa ou Quinta se apaga num 
amlgama de vvidas evocaes domsticas, rurais, histricas ou 
populares tripeiras.

Nuno Jdice (n. 1949: A Noo de Poema, 1972; Lira de Lquen, 
1986; A Condescendncia de Ser, 1988); Enumerao de Sombras, 
1989; Obra ,Potica (1972-1981), 1991, maneja como unidade 
rtmica recorrente, no a palavra, o verso ou a estncia, mas 
blocos de fraseologia aparentemente normal e tpicos narrativos 
de parbola. Parte da meditao discursiva sobre o prprio acto 
potico como aniquilador de certezas quotidianas ou herdadas e 
tende para um visionarismo, rtmica e imagisticamente 
insinuante, em


que a morte e vida, *eu+ e outrem, *ns+ e as coisas (e toda a 
<@fingida memria do poeta+) se abrem s inesgotveis 
virtualidades de uma *vida alterna+, indistintamente actual, 
revivida ou pressagiada. Joo Miguel Fernandes Jorge (n. 1943) 
tem uma j extensa obra, cerca de uma vintena de ttulos, to 
aliciante como evasiva, num ritmo de verso, entoao e imagens 
extremamente

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
            1129
O
fluido, com a constante surpresa de referncias pessoais ou 
culturais, onde se justapem ttulos e traos histricos, 
aluses sibilinas de diverso sabor epocal, farrapos de fala 
viva; por vezes parece que esta mtsca concreta verbalizada d 
lugar  simples imagem flagrante, embora desgarrada, que 
tenderia por isso a eclipsar a metfora, ou seja,  translao 
universal do significante; noutros momentos, a rasura do sujeito 
e dos objectos, o senso de precariedade atingem a sua mais 
sbria aridez (Sob Sobre Voz, 1971; Crnca, 1977; Poemas 
Escolhidos, 1982; Tronos e Dominaes, 1985; Obra Potica, 
quatro volumes em 1991).  tambm numa alusiva (e ilusiva) 
potica da intertextualidade ostensiva e da ubiquidade dos 
lugares e tempos que Antnio Franco Alexandre (n. 1944) se 
instala em Sem Palavras nem Coisas, 1974, Objectos Principais, 
1979; mas em Visita o e A Pequena Face, ambos de 1983, As 
Moradas, 1 e 2, 1987, a carga de referncias, ou co-referncias, 
reais ou fictcias, quase se reduz a um entredizer nascido por 
aproximao evocativa de palavras ou dizeres selectivamente 
pobres (*vou dizer o que sei como quem mente+), onde, tirante 
certos ciclos vitais ou sazonais, rastros de viagem ou encontro, 
tudo parece tender para qualquer fugaz e pequeno pr-sentido, ou 
pr -percepo, no mero sopro de uma boca ainda inarticulada, e 
quedar-se num quase ou como se. Este requinte de subassero, 
numa espcie de teologia negativa do dizer potico, subtiliza a 
negatividade ainda raciocinante de Pessoa e pode considerar-se o 
melhor conseguimento, at hoje, de certa deriva elassificvel 
ps-modernista em portugus.

Tematicamente mais restritas, mas excepcionalmente consistentes 
so as

peculiares interseces com que Lus Miguel Nava (n. 1957) obtm 
um tecido potico inconstitil entre as evid ncias da pele, do 
corao ou vsceras, das estaes entre-evocadas, e de uma 
rebentao-latejo do mar, das pedreiras, dos corpos e de uma 
pgina que tambm  pele e memria: A Inrcia da Desero, 198 
1; Como Algum Disse, 1982; Rebentao, 1984; A Poesia,
1987.


O mais importante crtico da poesia consagrada nos anos 70-80 
(Os Dois Creptsculos, 1981; Um Pouco de Morte, 1989), Joaquim 
Manuel Magalhes (n. 1945), , desde 1974, autor ou co-autor de 
cerca de uma quinzena de obras de poesia que ele prprio 
exigentemente reuniu e que, de momento, se contm em Alguns 
Livros Reunidos, 1987, Os Dias, Pequenos Charcos,
198 1, e Segredos, Sebes, Aluvies, tambm de 1981 mas com 
reedio refun-

1130                                        HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
dida de 1985, Uma Luz com um Toldo Vermelho. A orientao que 
nele prevalece contrasta com poetas do seu grupo de idade e 
colaborao por um

realismo flagrante, a certo nvel, de percepes urbanas, 
suburbanas ou de  beira-mar, e que em pormenores evocativos de 
certa experincia rural nortenha vai at  mincia de um lxico 
regional. Mas sabemos que o gosto de um certo rigor fragmentrio 
se insere no conglomerado de tendncias enfeixadas como ps-
modernista. De qualquer modo, este peculiar realismo de J. M. 
Magalhes surpreende pela elipse, pelo microrrigor referencial 
nas

suas relaes de complexa ou conflitual coincidncia, ou de 
focagem-desfocagem com o motivo mais plausivelmente condutor: o 
de breves, precrios encontros-desencontros erticos.  sensvel 
o contraste entre a agressividade quase feroz com que 
estigmatiza circunstncias mais ou menos

citadinas de degradao (e o ridculo de notoriedades poticas 
ou literrias) e a densa buclica, mais ou menos erotizada e em 
geral erguida sobre fragmentos de memria infantil, que fazem de 
Segredos, Sebes, Aluvies um

dos melhores livros da poesia actual.

O balano das trajectrias poticas individuais iniciadas nos 
anos 70  empreendido por um poeta mais novo, Fernando Pinto do 
Amaral (n. 1960), nos ensaios reunidos em O Mosaico Fluido, 
1991, e tambm autor de Acdia, 1990, conjunto de poemetos de 
concepo muito informada mas legivelmente elegacos, em que as 
breves referncias objectivas se recortam numa

atmosfera de perda, ausncia, mito, sem-razo, negatividade.

Certo realismo rural nortenho ocorre tambm em Antnio Manuel 
Pires Cabral (n. 194 1), alis autor de breves contos rurais (0 
Diabo veio ao Enterro,
1985; Memrias de Caa, 1987; Sancrilo, 1984), que em Algures a 
Nordeste, 1974, Solo Arvel, 1976, assinala tambm um bem 
logrado regresso das palavras s imagens do campo transmontano, 
do corpo, do amor e da fala, mas como actos comunitrios, 
enquanto que em Trrreme, 1979, o foco da ateno parece tornar-
se mais acentuadamente verbal e de cida aluso intertextual, 
tendncia actualmente mais tpica.

A apreenso precisa, como fotografia-arte, de cenas de misria 
rural ou martima alterna com um largo flego de transfigurada 
experincia ertica, em duas colectneas de AI Berto (ou Alberto 
Pidwell Tavares, editor): Trabalhos do Olhar, 1982, e SaIsugem, 
1984; O Medo, obra reunida (1974-1986),
1987, onde figuram textos anteriores com um estendal mais 
caudaloso de atitudes transgressivas.

7. 3 POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
             1131
O
Alberto Pimenta (ri. 1937)  um dos mais originais poetas que se 
revelaram nos anos de 70. Alm dos documentos de uma experincia 
provocativa, Homo Sapiens, 1977, a de se expor no Jardim 
Zoolgico numa jaula do sector dos smios, de um libreto para 
uma aco potica encenado em
1979, Heterolnia, e de um volume de teoria esttica (e 
antiteoria potica),
O Silncio dos Poetas, 1978, publicou um conjunto de obras que 
constituem o mais bem conseguido repto a todas as convenes de 
seriedade comunicativa, recorrendo a efeitos de distribuio 
grfica, de paronomsia, de pardia, de transgresso caligrfica 
ou ortogrfica, de absurdez narrativa ou retrica, de 
dessacralizao radical, de irritante repetio frsica e de 
insistncia nas mais desagradveis ou inconfessveis pequenas 
experincias ou situaes do quotidiano (0 Labirintodonte, Os 
Entes e os Contraentes, ambos de 1970; Corpos Estranhos, 1973; 
Bestirio Lusitano, o seu melhor volume,
1980; e Read and Mad, 1984, onde opera excelentes efeitos de 
montagem e parfrase sobre textos de Cames e Pessoa). 
Posteriormente, em outros volumes e peas radiofnicas acentua a 
sua agressividade iconoclasta. Obra quase Completa, 1991 (com 
inditos), IV de Ouros, 1992.

Na obra j extensa de Isabel de S (ri. 195 1) distinguem-se 
duas fases: de Esquizofrenia, 1979, O Festim das Serpentes 
Novas, 1982, a Nervura,
1984, ressaltam aproximaes surpreendentemente imprevistas 
entre imagens que tm muito que ver com certo feiticismio 
perverso por fragmentos corpreos, certa atraco-e-repulsa 
apavorada ou raivosa por uma infncia libidinalmente 
influenciada e angustiosa, ou com o encontro da iniciao 
ertica adolescente; a segunda fase (Em nome do Corpo, 1986; 
Escrevo para Desistir, 1988; O Avesso do Rosto 199 1)  muito 
feita de uma reflexo j quase descritiva ou narrativa, muito 
menos densamente metafrica e, de incio, algo prosaica, em que 
assoma a conscientificao verbalizada dessas mesmas obsesses e 
do paradoxo da vida (ou morte)  parte que  o prprio poema.


Apetrechado com o saber e o saber-fazer discursivo de uma 
extensa e precisa informao de literaturas antigas e modernas, 
e assentando, em especial, de incio, num gnero clssico (a 
lamentao ou meditao atribu da a uma personagem histrica ou 
lendarizada), Paulo Teixeira (ri. 1962) abeira-se da 
sensibilidade ps-moderna pela copresentificao, ou 
disponibilidade, das mais diversas memrias reais ou virtuais de 
leituras, viagens, experincias vividas supostas ou recriadas 
por uma proteica evocao verbal, com

1132                                        HISTORIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
remates em geral elegacos. (As Imaginaes da Verdade, 1985; 
Epos, 1987; Conhecimento do Apocalipse, 1988; A Regio 
Brilhante, 1988; Inventrio e Despedida, ttulo muito 
significativo, 1991; e Arte da Memria, 1992.) Pelo seu 
interesse contrastivo (entre outro) assinalem-se ainda Joo 
Camilo (ri. 1943), que consegue conferir vibrao potica a 
textos de aparente vivncia comum (Para a Desconhecida, 1983; Na 
Pista entre as Linhas, 1982; A Mala dos Marx Brothers, 1988; A 
Mais Nobre das Artes, 1991), e Jos Agostinho Baptista, cuja 
poesia se situa para alm da inteligibilidade proposicional, 
perseguindo conotaes ideoverbais muito dspares, mas algo 
cclicas (0 ltimo Romntico, 198 1; Morrer no Sul, 1983; O 
Centro do Universo,
1989).
O
1111118M1106,,4FIA
O
Segunda metade do sculo - Poesia:

A fonte mais importante de informao  o volume-lbum de 
autoria diversa Um Sculo de Poesia, ed. especial de *A Phala+, 
Assrio e Alvim, 1989. Lricas Portuguesas, 3 O. a srie.

Antologias: Antologia da Novssima Poesia Portuguesa, Maria 
Alberta Meneres e E. M. de Meio e Castro, Lisboa, 1956, 4   O. 
aed. rev. e aum. sob o ttulo de Antologia da Poesia Portuguesa 
- 1940-1977, em 2 vols., 1979.

Cautela, Afonso/Ferreira, Serafim: Poesia Portuguesa do Ps-
Guerra (1945-1976). Rosa, Antnio Ramos: Lricas Portuguesas, 
Quarta Srie, 1969. Gonalves, Egito/Valente, Manuel Alberto: 
Poesia 70; Egito Gonalves e Fiama Hasse Pais Brando, Poesia 
71, Porto.

20 Anos de Poesia Portuguesa (1959-1976), org., pref. e notas de 
Pedro Tamen, Moraes, Lisboa, 1977.

1 - Antologia da Poesia Contempornea, por ngela Rodrigues, 
1989.

Estudos gerais: Mouro-Ferreira, David: Depoimento sobre a 
Poesia da Gerao de 50, em Gazeta Literria, 2. > srie, n. 1 
12, Junho de 1960.

Supi. Cultura e Arte d'O Comrcio do Porto de 1960.11.08, sobre 
a poesia de 1950 a 1960.

Belchior, Maria de Lourdes: artigos sobre Poesia Portuguesa 
Contempornea: a Gerao de 40, in *Brotria+, vol. 76, n. 6, 
e vol. 77, n.o 1, 1963.

Castro, E. M. de Meio e: Quatro Caminhos na Moderna Poesia 
Portuguesa Feminina, in Bandarra, 2. > srie, n. > 3, 1961, O 
Prprio Potico, So Paulo, 1973, Dialctica das

7. - POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
                     1133

Vanguardas, 1976, In-novar, 1977, As Vanguardas na Poesia 
Portuguesa do Sc. XX, *Biblioteca Breve+, Projecto: Poesia, 
IN-CM, 1984, e Literatura Portuguesa de Inveno, Difei, So 
Paulo, 1984.

Matos, Nlson de: A Leitura e a Crtica, 197 1.

Coelho, Eduardo Prado: O Reino Flutuante e A Palavra sobre a 
Palavra, ambos de
1972; A Noite do Mundo, IN-CM, 1989, especialmente a sntese da 
pp, 113-122.

Cruz, Gasto: A Poesia Portuguesa Hoje, 1973. Guimares, 
Fernando: Um Novo Caminho na Poesia Portuguesa Contempornea, in 
ColquiolLetras, 16, Nov. 1973, A Poesia Contempornea 
Portuguesa e o Fim da Modernidade, Caminho, 1989.

Marinho, M. de Ftima: A Poesia Portuguesa nos Meados do Sculo 
XX, Caminho,
1989.

Garcia, Jos Martins: Linguagem e Criao, 1973. Loureno, 
Eduardo: Tempo e Poesia, Porto, INOR, 1974. Viana, Antnio 
Manuel Couto: Coraco Arquivista (Memrias e Encontros), 1977. 
Saraiva, Amaldo: A Vanguarda e a Vanguarda em Portugal, Porto, 
1972, Literatura Marginalizada, 1975, e prefcio s Canes de 
Srgio Godinho, 1977.

Moura, Jos Barata: Esttica da Cano Poltica, 1977. Letria, 
Jos Jorge: A Cano Poltica em Portugal, Porto, 1978. 
Hatheriy, Ana: Situao da Vanguarda Literria em Portugal, in 
ColquiolLetras, 45,
1978, pp. 57-61; artigo incluso em Loreto 13, n. > 2, Abril 
1978, revista da Ass. Portuguesa de Escritores, e O Espao 
Crtico - do simbolismo  vanguarda, Editorial Caminho, 1979.

Rosa, Antnio Ramos: A Poesia Moderna e a Interrogao do Real, 
1 e li, 1979; Incises Oblquas, 1987; A Parede Azul, Caminho, 
1991.

Magalhes, Joaquim Manuel: Os Dois Crepsculos - Sobre a Poesia 
Portuguesa Actual e outras crnicas, A Regra do Jogo, 198 1, e 
Um Pouco de Morte, Lisboa, 1989.


Aurlio, Diogo Pires: O Prprio Dizer, Lisboa, 1984; Os Homens e 
os Livros - Sculos XIX e XX, Verbo, 1980; Poemografias, 
Perspectivas de Poesia Visual Portuguesa, Ulmeiro,
1985.

Silveira, Jorge Fernandes da: Poesia 6 1, IN-CM, 1985 (contm 
anlises de texto e

ampla bibliografia).

Lopes, scar: Os Sinais e os Sentidos, Caminho, 1986.

Martins, Manuel Frias: Sombras e Transparncias da Literatura, 
IN-CM, 1983, e 10 Anos de Poesia em Portugal (1974-84), Caminho, 
1986.

Lisboa, Eugnio: As Vinte e Cinco Notas do Texto, IN-CM, 1987. 
Moura, Vasco Graa: Vrias Vozes, Presena, 1987. Amaral, 
Fernando Pinto do: Mosaico Fluido - Modernidade e Ps-
Modernidade na Poesia Portuguesa mais Recente, Assrio e Alvim, 
1991 (contm bibliografia de artigos e estudos dedicados a cada 
poeta).

1134                                               HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

Mais importantes publicaes colectivas de poesia: Contravento, 
2 nmeros, 1968, dir. de F. Pinto Ribeiro; Textos de Poesia 
(Outubro,
197 1; Fevereiro, 1972; Novembro, 1972), org. de Gasto Cruz e 
Casimiro de Brito; Movimento, dir. A. J. Vieira de Freitas, 
Funchal, 1973; Nova, Magazine de Poesia e Desenho, Inverno de 
1975/76, e Outono de 1976, org. de A. Paulouro, Antnio Sena e 
Herberto Hlder; Lugar Comum, Braga, 4 nmeros, 1976-78; 
Exerccios de Dizer, 3 vols. colectivos, 1977-81-82, entre 
outros individuais, Porto. Principais sries posteriores de 
publicaes individuais ou colectivas: Arco-ris, 1 a V, Porto e 
Lisboa, 1977-78; O Oiro do Dia, Publicaes em 1917-81, Inova, 
Porto; Cadernos para o Degelo, de poetas transmontanos, 2 
nmeros, 1977-78; Quebra-Noz, n. 1, Porto, 1978; Viola Delta, 
16 vols., 1978-91; Fenda, 5 vols., 1979-83, Coimbra, com reed. 
corr. em 1981 do 1. > vol, e uma srie editorial; Silex, 5 
vols., 1980, Lisboa; Frenesi, 1980-81; As Coisas Mnimas, Porto, 
1982; Os Poetas do Caf, Porto, 198 1; Palavras, Porto, 1984; 
Arca, Lisboa, 1984; E alm, 1989; Aquilo, 1987; Palavras, 
Lisboa, 1988. Crisol, 1983; Serpente, 1983; As Escadas no tm 
Degraus, 4 nmeros 1989-91; Amor, Luxria e Morte, Porto, 1987; 
Orpheu 4, Porto,
1988. Antologia: 20Anos de Poesia Portuguesa (1958-76), org. 
pref. e notas de Pedro Tamen, col. Crculo de Poesia, 1977.

Entre as editoras ou as sries editoriais mais recentes de 
poesia, mencionemos: Plural (IN-CM, desde 1982), & Etc., Lisboa, 
iniciada a partir da revista homnima, 25 nmeros, 1973-74, 
Quetzal, Caminho da Poesia, Presenca, A Regra do Jogo, Assrio e 
Alvim, Vega e Centelha, Lisboa, Limiar, Os Olhos e a Memria, 
Gota de gua e Babel, 1986, Porto.

Entre as revistas posteriores ao 25 de Abril que contm poesia 
ou ensaios sobre potica, alm das atrs citadas, mencionemos: 
Critrio, 8 nmeros, Lisboa, 1975-76; Raiz e Utopia, Lisboa, 
1977; Cadernos de Literatura, Coimbra, desde 1978; Loreto 13, 7 
nmeros, Lisboa, 1973; Sema, 4 nmeros, Lisboa, 1978-82; Nova 
Renascena, Porto 21 nmeros, 1988-90; As Palavras da Tribo, 
Lisboa, 198 5; Hfen, Porto, 6 nmeros, 1987 a 199 1. Assinale-
se ainda a iniciativa de um Anurio de Poesia de autores 
inditos, j com 4 vols.,
1984-85-86-87; e uma revista bilngue luso-castelhana, 
EspaciolEspao, Badajoz, com
6/7 n.11 1988/89 a 1991.

Captulo VIII

SEGUNDA METADE DO SCULO NA NOVELSTICA

A segunda metade do sculo caracteriza-se pela consagrao de 
autores em que de diversos modos se inflecte a anterior 
tendncia dominante do realismo social. Pelo seu significado, 
salientemos desde j a evolu o e tardio reconhecimento pblico 
de Vergilio Ferreira, a partir de Apario, 1959,
16. edio 1986, seguida de Cntico Final, 1960, 7. edio 
revista 1986, Apelo da Noite, 1963, reedio 1978, e Estrela 
Polar, 1962, reedio 1978, que insistem numa preocupao 
teortica e em certo *maneirismo+ estilstico que vinham a 
acentuar-se desde 1949, e cuja concepo dominante se

avizinha do existencialismo, pela nfase posta nos instantes-
limite de alarmante redescoberta da morte. Obras posteriores: 
Alegria Breve, 1965, reedio 1983, o mais inovador romance da 
ltima tendncia, meditativo mas de bvia implantao serrana e 
com novas audcias de escrita; o seu tema central (meditao 
perante o silncio da origem e da morte) ressurge, mais 
prolixamente, em Ntido Nulo, romance, 1971, reedio 1983; 
Apenas Homens, conto, 1973, Rpida a Sombra, um dos seus mais 
densos livros, onde vibra o pnico do envelhecer, 1974, tema que 
retoma, ainda com mais

certeira contenso, num dos seus melhores romances, Para Sempre, 
1983,
8. edio At ao Fim, Grande Prmio do Romance 1987, 4. edio 
1989, agudiza o seu tema obsessivo da relao pai/filho, ligado 
 interrogao sobre o sentido da vida e da prpria fico. Em 
Nome da Terra,  um impressionante romance sobre a degradao 
corprea de um homem num lar de idosos, com reafirmao herica 
de uma eternidade inerente ao corpo e a relances da memria, com 
duas edies em 1990. Em Espao do Invisvel, 1, 11,

1136                                         HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
(reeditados em 1991) 111, IV e V, 1965-76-77-81-90, rene os 
seus principais ensaios. Reunio de Contos, 1976. Uma Esplanada 
sobre o Mar, contos e poesias, 1986. Publicou tambm j cinco 
volumes de Conta-Corrente, dirio crtico, 1980-81-83-86-87.

Jos Cardoso Pires (ri. 1925), talvez o melhor prosador 
narrativo actual, assimilou, de um modo que inicialmente se 
sentia demasiado, a arte da short story americana, e reagiu 
contra certa sentimentalidade ainda inerente ao

nosso neo-realismo tradicional, com uma lcida impassibilidade 
inspirada por Hen-iingway e, depois, por Roger Vailland (Os 
Caminheiros, conto, 1949; Histrias de Amor, conto, 1952; O Anjo 
Ancorado, novela, 1958, 8. a edio 1986; O Render dos Heris, 
obra de teatro pico  Brecht), acabando por conquistar o 
primeiro plano da fico actual com a refundio dos seus contos 
em Jogos do Azar, 1963, 5. a edio 1986, e o romance Hspedes 
de Job, 1963, 7. a edio 1986, e com um excelente romance 
construdo por convergncia de vrios testemunhos que se 
problematizam entre si, e ao prprio romance, sobre um foco 
aparentemente policialesco mas, no fundo, muito significativo da 
acelerao do tempo num meio social rural portugus, O Delfim, 
1968, lo. a edio 1988. A sua stira poltica Dinossauro 
Excelentssinio estava, quando saiu em 1972, ultrapassada (6. a 
edio 1977), mas a colectnea de testemunhos e reflexes, E 
agora, Jos91 1977,  um depoimento extraordinariamente 
sensbilizante acerca do fascismo, das fases posteriores  
revoluo democrtica, e dos problemas de tica e de tcnica 
artstica de um escritor portugus, numa exposio muito 
amadurecida em relao ao seu anterior livro de ensaio, Cartilha 
do Marialva, 1960, que no entanto

j teve grande repercusso (7. edio 1990). Em 1979 foi 
apresentado um

seu novo texto teatral, Corpo-Delito na Sala de Espelhos, edio 
1980, que evoca a relao de torturador/torturado do recente 
passado repressivo. Com os contos de O Burro em P, 1979, e o 
romance tambm aparentemente policial de inspirao histrica 
Balada da Praia dos Ces, 14. a edio 1990, ergue-se ao nvel 
dos melhores narradores portugueses, aquele que melhor promove  
escrita de qualidade artstica os registos mais comuns e 
espontneos da fala lisboeta de hoje. No romance Alexandra 
Alpha, 1987, 5. a edio

1988, cuja introduo  fascinante, acompanhamos um grupo de 
frequentadores diversificados de um bar (ou de vrios) atravs 
das vicissitudes lisboetas precedentes e subsequentes ao 25 de 
Abril. A Repblica dos Corvos,

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
            1137
O
1988,  um conjunto de histrias de animais estranhos ou 
caprichosos, msticos ou alegricos, em que sobressai um 
extraordinrio Corvo lisboeta.

Augusto Abelaira (ri. 1926-03-18) soube surpreender 
admiravelmente as vicissitudes de graa e frustrao ou 
debandada na sua jovem gerao intelectual (A Cidade das Flores, 
1959, 8. a edio 1990; Os Desertores, 1960,
4. > edio 197 8) e produziu posteriormente trs romances 
inovadores cuj a

estrutura, numa espcie de contraponto e fuga de dilogo ou 
episdios, corresponde a uma inexplcita dialctica dos 
sentimentos, dos valores, a uma

acareao entre o tempo histrico e o tempo vivido (As Boas 
Intenes, 1963,
3. a edio 1978; Enseada Amena, 1966, reedio 197 1; Bolor, 
1968, 4. a

edio 1978); a que se seguiram os volumes de contos Quatro 
Paredes Nuas,
1972, Ode (quase) Martima, 1978, e, em 1979, o romance Sem 
Tecto Entre Runas, reedio 1978, centrados sobre as 
incoincidncias, as reincidncias moduladas, os logros e a morte 
ntima das relaes e ideias, sobretudo as que se ligam com o 
amor e com a revoluo. De 1982, reedio 1988, 
O Bosque Harmonioso, gil e cptico anti-romance histrico, e de 
1985 o nico Animal Que.... de cunho tambm satrico. Deste Modo 
ou Daquele,
1990, romance de desencontro no amor, cuja narrao percorre 
reversivelmente dois planos: um dirio, biografia a que ele d 
ensejo, e jogo de (eventual) cabra-cega entre eles.


Outras obras de carcter diversificadamente realista: Angstia 
para o Jantar, 1961 (9. a edio 1989), de Lus de Sttau 
Monteiro, a que ainda nos referiremos; O Signo da Ira, 1961, 3. 
a edio 1985, de Orlando da Costa (ri. 1929), que, com fina 
sensibilidade e compreenso humanas, apreende os agudos 
conflitos de uma aldeia de Goa sob administrao portuguesa, 
seguido, em 1964, de Podem Chamar-me Eurdice..., romance sobre 
o amor na clandestinidade antifascista, 3. a edio 1985, e a 
que a pea Sem Flores nem Coroas, 197 1, constitui natural 
complemento; e Matai-vos Uns aos Outros de Jorge Reis, 1963 (5. 
edio 1977), curioso enquadramento policial de um episdio 
alis vivido de luta salarial e poltica, obra todavia isolada, 
num

estilo reminiscente do de Aquilino Ribeiro.

Pelos anos de 50, o existencialismo, sobretudo tal corno 
literria e doutrinariarnente se exprime pela obras de J. P. 
Sarte e A. Camus, exerce uma larga influncia sobre ficcionistas 
portugueses cuja carreira se iniciara sob o signo cronolgico do 
neo-realismo, ou que ento comeava. Alguns temas

1138                                        HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
dominantes: o senso de abandono, ou derrelico, do homem, 
expresso em

termos (pelo menos imediatamente) pessimistas, se no niilistas; 
a importncia de certas experincias-limite (n usea radical, 
angstia, alarme da morte pessoal, do nada como alternativa 
permanente para o ser que (se) ), na afirmao da primazia da 
existncia sobre a essncia (humana ou natural); a

inerncia ao homem da capacidade imotivada de deciso (moral ou 
ontolgica), de liberdade, de responsabilidade, ou seja, de 
sempre potencial transcendncia ao ser, mesmo quando a 
conscincia finge (em *m conscincia+) escapar a essa 
liberdade. Embora j anteriormente apresentado na Revista

de Portugal, de Vitorino Nemsio, contemporaneamente  exposio 
universitria de diversas das suas fontes fenomenologistas 
(Joaquim de Carvalho, 1892-1958; Delfim Santos, 1907-66, Obras 
Completas, trs volumes, Gulbenkian, 1971-77), as teses de M. 
Heidegger, com maior incidncia na

teoria da potica (a palavra como *casa do ser+, a poesia como 
fundadora

desse mesmo ser no *horizonte+ do tempo), s a partir dos anos 
60 entre

ns prevalecem, em geral, e se distinguem dos temas agitados 
pelos filsofos da existncia. Esboou-se por finais dos anos de 
50 uma tendncia (revistas
57, de 1957-62, e Espiral, 1964-66) para assimilar certas teses 
existencialistas a uma *filosofia portuguesa+, que Jos Marinho 
(1904-1975) fazia concentrar em Sampaio Bruno e Leonardo 
Coimbra, que lvaro Ribeiro acabou por aproximar do 
aristotelismo, e que Antnio Quadros aproxima de um legado neo-
sebastianista ps-Orphcu. No entanto, o mais dotado e influente 
ensasta em que aflora a antologia heideggeriana numa reflex o 
original sobre peculiaridades e os mitos diferenciais da 
histria e da cultura portuguesa  Eduardo Loureno (ri. 1923: 
Heterodoxia 1 1947, 111967, Tempo e Poesia,
1974, O Labirinto da Saudade, 1978, entre outros livros 
oportunamente referido).


No entanto, as mais significativas repercusses literrias 
portuguesas correspondentes ao existencialismo aproximaram-se em 
fase subsequente do realismo social, a partir do degelo da 
Guerra Fria e da campanha de Humberto Delgado  presidncia. Foi 
o que vimos em mais do que uma trajectria individual e  o que 
voltaremos a verificar na fico de problemtica feminina.
O mais consagrado e dotado ficcionista proveniente do 
existencialismo de
50  Urbano Tavares Rodrigues (n. 1923.16.06), hoje com uma obra 
considervel, abrangendo romances, como Bastardos do Sol, 1959, 
5.1 edio

7. - POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
            1139
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1983; lnsubmssos, 1961, 6.1 edio 1976; Desta gua Beberei, 
1979, reedio 1986, mais uma vintena de livros de contos ou 
novelas, como A Noite Roxa, 1956, 4. a edio 1976; Uma Pedrada 
no Charco, 1958, 4. a edio
1973; As Aves da Madrugada, 1959; 5. a edio 1990, Nus e 
Suplicantes,
1960, 5. a edio 1978; Fuga Imvel, 1982 (antologias com 
inditos: As Pombas so Vermelhas, Estrcas Alentejanas, 1977, 
reedio 1985; Abec da Negao, 1980; Violeta e a Noite, 
romance, 1991), alm de mais de uma trintena de livros de 
viagem, crnica, ensaio ou crtica. Uma tal produtividade 
dificilmente poderia manter o mesmo nvel, mas, ora linear, ora 
esteticamente complexo,  um dos melhores contistas de posio 
empenhada e reflexivamente protestativa. Caracterizemo-lo 
sumariamente pelo frequente enlace entre os temas do sexo, da 
coragem e de uma combatividade em riste

contra a burguesia, cuja insinceridade ntima vem denunciando, 
desde o Baixo Alentejo natal at alm-fronteiras.

Como anteriormente, algumas das obras de tendncia realista 
social assentam na observao regional; e, deste modo,  a 
partir das suas razes alentejanas que melhor acabam por erguer-
se os contos e romances de Antunes da Silva (n. 192 1: O Amigo 
das Tempestades, conto, 195 8, 3. a edio 1978; Sam Jacinto, 
conto, 1959, 2. a edio aumentada 1978; Suo, romance, 1960,
6.1 edio 1978; Terra do Nosso Po, romance, 1964, 2. edio 
refundida
1975, alm de outros volumes de crnica regional anterior  
reforma agrria ou a ela referente).  tambm a um certo saber 
de experincia rural, ligado a uma certa tenso de aventura, que 
devem o seu interesse os contos e romances de Lus Cajo (n. 
1920: Torre de Vgia, conto, 1954, edio refundida
1967; Escarpas do Medo, romance, 1959; A Estufa, romance, 1964; 
Um Castelo na Esccia, conto, 1971).

Num maior ou menor progresso de efabulao e de tipificao, 
podem mencionar-se alguns casos do neo-realismo tradicional, 
isto , do neo-realismo formalmente conservador: Jlio Graa (n. 
1923: Buza, romance, 1954; Um Palmo de Terra, romance, 1959; A 
Voz das Sereias, romance, 1968; e dois


volumes de depoimentos recolhidos: Operrios Falam, 1972; 
Histrias da Priso, 1975); Armando Ventura Ferreira (n. 1920 - 
t 1987: Nocturno, conto, 1956); e Alexandre Cabra[ (n. 1917), 
hoje sobretudo entregue  investigao camiliana, autor de um 
dos melhores romances de internato adolescente (Malta Brava, 
1955) e volumes de fico ou memorialismo da resis-

1140                                       HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

a tncia (Histrias do Zaire, conto, 1956, 4. edio 1982; 
Margem Norte, romance, 1961; Memrias de um Resistente, 1970). A 
carreira de Manuel Ferreira (n. 1917 - t 1992-03-17) iniciou-se 
por obras com as caractersticas de neo-realismo inicial; a 
partir dos contos Morna, 1948, e Morabeza, 1958, conjuntamente 
em 3. a edio comum sob o ttulo de Terra Trazida, 1972, 
reedio 1989, d-nos um dos mais completos e interessantes

conjuntos de testemunho romanceado acerca da vida e temperamento 
cabo-verdianos, quer no arquiplago, quer na emigrao em 
Lisboa. A este ciclo pertencem os romances Hora di Bai, 1962, 4. 
a edio 1989, e, posteriormente, Voz de Priso, 1971, 3. a 
edio 1986, onde intervm a pleno rendimento algumas das 
tcnicas modernas da narrao, com vrios planos cronolgicos 
sobrepostos, e a vrias vozes, alternando ou fundindo o fluxo 
das imagens externas com o da corrente de conscincia e tirando 
ainda partido de certas contaminaes do crioulo. Destaquemos, 
pelo equilbrio de factura que, por fim, atingem, entre a 
intencionalidade ainda algo informe de uns e as experincias 
algo formalistas de outros, os contos neo-realistas de Mrio 
Braga (n. 1921: Serranos, 1848, 3.1 reedio refundida 1959; Os 
Olhos e as Vozes, 1971). Mrio Ventura (n. 1946) d nos seus 
romances

(A Noite da Vergonha, 1963, 3. edio 1977; O Despojo dos 
Insensatos,

1968, 2. a edio 1974; Vida e Morte dos Santiagos, 1985, 3. a 
edio 1986; vora e os Dias da Guerra, 199 1) um depoimento 
informado sobre poemas sociais da juventude ou da populao 
meridional que, em interesse documental, abrem caminho aos seus 
textos de jornalismo reunidos em Alentejo Desencantado, 1969, 
embora atravs de uma arquitectura romanesca cujo didactismo  
muito bvio. Antnio Rebordo Navarro (n. 1939.08.01) produziu 
um bom romance de opressivo ambiente provinciano, Um Infinito 
Silncio, 1970, a sua melhor obra at  data, a que fez seguir a 
mais provocativa e desigual fico de O Discurso da Desordem, 
1972, o pungente quadro de uma clnica de recuperao dos 
diminudos fsicos em O Parque dos Lagartos, 1982, e dois 
romances minudentemente satricos de intriga e atmosfera 
portuenses contemporneas, Mesopotmia, 1984, e Praa de Lge, 
1988. Bento da Cruz (n. 1925) representa a melhor continuidade 
actual do rea- lismo regional; os seus contos e romances 
proporcionam uma flagrante, pitoresca e tensa caracterizao do 
Barroso dos anos 30 e 40, ainda com feies comunalistas, 
clivagens e conflitos sociais especficos, mas j a envolver-se

7 a po@ - fflCA CONTEMpORNEA                                
              1141
O
nas malhas da arbitrariedade autoritria, da guerra civil 
espanhola, e, mais tarde, da emigrao (Contos de Gostofrio, 
1973; Planeta do Gostofrio, r.,
1982; O Lobo Guerrilheiro, r., 1991).

As liberdades de expresso e as mudanas sociais obtidas atravs 
do movimento de 25 de Abril de 1974 apenas cerca de 1980 se 
fizeram sentir numa nova promoo de escritores, depois da 
edio de obras anteriormente censuradas e de uma genrica 
evoluo dos j consagrados. Estes, durante os primeiros anos de 
maior instabilidade, encontravam-se absorvidos por tarefas de 
carcter jornalstico, pedaggico, administrativo ou partidrio, 
enquanto que o pblico se precipitava, de preferncia, sobre 
textos informativos ou

doutrinrios. Por isso os efeitos mais importantes no terreno 
literrio manifestam-se, de incio, sob a forma de novas 
inflexes, quer nos autores

que acabmos de referir, quer naqueles que adiante referiremos a 
propsito de duas tendncias que vm a acentuar-se desde os anos 
50 e 60, uma social e outra mais especificamente literria, 
embora, como veremos, estreitamente ligadas: a tendncia de 
emancipao feminina, que ainda em geral se implanta na 
experincia das camadas mdias; e a tendncia para 
transformaes mais ou menos radicais da prpria fico 
narrativa, em correspondncia com urna

profunda crise de concepo de vida que questiona as 
tradicionais categorias da novelstica (enredo, caracteres, 
efeito do real, coerncia de concepo de vida ou de estrutura). 
Principiemos por alguns casos a individualizar, dentro de urna 
tradio realista que, no entretanto, empreende, ocasionalmente, 
renovaes importantes.

Assim, j nos ltimos anos do regime derrubado a crtica  
guerra colonial,  oligarquia monopolista,  privao das 
liberdades polticas e sindicais se exprimia sob formas quase-
jornalsticas, ou ento sob formas mais


ou menos alegricas, alusivas, por vezes cumulativamente 
vanguardistas. Merece especial destaque Baptista-Bastos (n. 
1934: O Secreto Adeus, romance, 1963, 4. 1 edio revista 199 1; 
O Passo da Serpente, romance, 1965, reedio 1977; Co Velho 
entre Flores, 1974, 3. a edio 1983, evocativo de uma 
adolescncia que experimenta, na famlia e outras relaes, os 
efeitos complexa e diversificadamente dramticos da represso 
fascista e da pelintrice sonhadora - entre outros volumes de 
reportagem ou crnica; mais recentemente, Viagem de um Pai e de 
um Filho pelas Ruas da Amargura, belo romance de estrutura to 
densa e recorrente como um poema narrativo, 198 1,

1142                                         HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

reedio 1986; Elegia para um Caixo Vazio, romance, 1983, 3. a 
edio
199 1, amargo confessionrio que reage a uma ressaca contra-
revolucionria; Colina de Cristal, romance, 1987, 3.1 edio 
1991, referida preferencialmente, como os precedentes,  zona 
lisboeta da Ajuda, num ambiente pitoresco e pessin-sta que 
cobre a fase da instaurao do salazarismo; Um Homem

a Parado no Inverno, romance 1991, 3. ed. 1992, complexo labor 
de luto de uma viuvez pessoal, que o  tambm de uma esperana 
democrtica). Acrescentemos os seguintes nomes esteticamente 
mais prximos do neo-realismo inicial: Antnio Modesto Navarro 
(ri. 1942: Histria do Soldado que no foi condecorado, conto, 
1972; Bares de Fina Flor, baseado em

factos reais transmontanos, 1974; Velha Querida, romance, 1978; 
Contos Transmontanos, 1988; A Morte do Pai, romance, 1989, ao 
par dos volumes sobre problemas sociais agrrios em Trs-os-
Montes, Beira e no Alentejo); Altino M. do Tojal (ri. 1939: Os 
Putos, que contm alguns dos melhores contos contemporneos da 
inf ncia, ou adolescncia, pobre, 1973, 19. a edio, dois 
volumes, 1991 (Os Novos Putos, 1982); Viagem a ver o que d, 
romance, 1983); S Coimbra (ri. 1919: O Sol e a Neve, 1963; 
Teia, 1964; Eva, 1968; Chancela, 1978); Jos Manuel Mendes (ri. 
1948: Ombro, Arma!, conto, 1978, 3. a edio refundida 1986, e O 
Despir da Nvoa, romance,
1984, que acompanham a resistncia militar clandestina e 
posteriores vicisa situdes do processo histrico; A Esperana 
Agredida, 3. edio 1979; Limiar da Terra, poesia, 1983; O Homem 
do Corvo, conto, 1989, entre outros volumes de poesia, crnica e 
crtica). Antologia da sua extensa e depurada obra potica: 
Rosto Descontnuo, 1992. A nvel de estrutura narrativa 
efabulada,  justo salientar, como o mais informativo, o mais 
exemplar e vivencialmente denso dos romances baseados numa 
intensa e ntima experincia de organizao clandestina, At 
Amanh, Camaradas!, 1975, 3. 1 edio 1977, subscrito por Manuel 
Tiago, que tambm assina uma excelentemente conseguida novela 
sobre o salto da fronteira por motivos polticos, 5 dias e 5 
Noites, 1975.


Joo de Melo (ri. 1949.02.04) inspira a sua obra de fico em 
dois temas bsicos, o de uma experincia rural pobre aoriana e 
o da guerra colonial, alm de vivncias de seminrio e de vida 
lisboeta. A ruralidade aoriana, suas misrias, exploraes, 
tradies e supersties, e emigrao informam o seu j 
assinalvel romance O Meu Mundo no  deste Reino, 1987, 4.1 
edio 1991, mas tem a melhor expresso em Gente Feliz com 
Lgrimas,

7. - POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
                   1143
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Grande Prmio do Romance, 1988, 6. edio 1990, sobretudo pela 
narrativa do *Livro+ inicial, que rene testemunhos de trs 
(entre nove) irmos, os quais no *2.1 Livro+ se encontram todos 
eles emigrados na Amrica do Norte, com excepo do narrador 
singular desse *Livro+ (ou de um seu duplo, tambm escritor). 
Esto a alguns dos quadros ou cenas mais pateticamente 
realistas da fic o actual. De entre os trs romances de 
experincia blica salienta-se Autpsia de um Mar de Runas, 
1984 (refundio de A Memria de ver Matar e Morrer, 1977), cuj 
as melhores pginas registam as reaces intensamente dramticas 
de um furriel enfermeiro, que o autor foi em Angola, e so 
apenas comparveis ao melhor das Memrias de guerra do oficial 
mdico Jaime Corteso. Os contos de Entre Pssaro e Anjo, 1986, 
e Bem-Aventuranas, 1992, completam tematicamente os romances, 
incluindo traumas de ordem religiosa, profissional, conjugal ou 
literria.
O
Joo de Melo organizou uma antologia de textos literrios, 
portugueses e outros, sobre as vrias frentes da guerra 
colonial, Os Anos da Guerra (1961-1975), dois volumes, Crculo 
de Leitores, 1988, com textos de enquadramento histrico de 
Joaquim Vieira e bibliografia. Mencionemos os principais autores 
portugueses que ainda no referimos a outros ttulos: lamo 
Oliveira (n. 1945: At Hoje, romance, 1987); Emanuel Flix (n. 
1963: A Palavra O Aoite, poesia, 1977); Fernando Grade (n. 
1943: 10 Anos de Poesia, 1977); Filipe Leandro Martins (n. 1945: 
O P na Paisagem, romance, 198 1); Jos Correia Tavares (n. 
1938: Atrado ao Engano, 1984, O Verso e o Rosto, 1987); Jos 
Martins Garcia (n. 1941: Katafaraum  uma Nao, contos, 1974; 
Lugar de Massacre); Srgio Matos Ferreira (n. 195 1: O Descascar 
da Pele, romance, 1982); Vergilio Alberto Vieira (n. 1950: 
Salrio de Guerra, contos, 1979); Wanda Ramos (n. 1948: 
Percursos - do

Luachimo ao Luena, romance, 1981).
O
Um caso particularmente notvel de grande consagrao j 
posterior ao

25 de Abril  o de Jos Saramago (n. 1922), que iniciara a sua 
carreira


literria como poeta reactualizador de uma certa linha clssica, 
bem sensvel no predomnio do decassilabo e numa meditao ou 
sabedoria contida e lcida, colhida no amor, na experincia dos 
limites humanos e na resistn~

cia (Os Poemas Possveis, 1966, 3.1 edio revista 1984; 
Provavelmente Alegria, 1970, reedio 1985). O volume de contos, 
Objecto Quase, 1977,
3. a edio 1986, aponta para uma transfiguradora percepo do 
real como

pesadelo de coisificao humana, num estilo por vezes 
ironicamente ciassicizante. Manual de Pintura e Caligrafia, 
romance, 1977, 3. a edio 1985,

1144                                        HISTORIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
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concebido como autobiografia, meditao esttica e testemunho de 
um pintor, passou despercebido, mas Levantado do Cho, 1980, 7. 
a edio 1986, ergue em quatro geraes de uma famlia popular a 
epopeia social do Alentejo, entre a reconstituio histrica, a 
imaginao pitoresca, dramtica ou alegrica, e com adequadas e 
surpreendentes mutaes de estilo narrativo e verbal. 
Entretanto, firma (como veremos) uma obra de dramaturgo, apura

os seus j comprovados dons de cronista com Viagem a Portugal, 
1981,
4. a edio 1985, e produz, em 1982, Memorial do Convento, 
romance,
19. a edio 1990, um animado e rico painel do Portugal barroco, 
conventual, ulico e sobretudo popular, onde melhor cabe uma j 
sua anterior ironia de quinta-essncia barroca, bem como a j 
evidenciada capacidade de soldar notaes flagrantes a uma 
esfera alegrica de plenitude e sonho.

Romance imaginado sobre um heternimo de Pessoa que se supoe 
regressar do Brasil e morrer em Lisboa, no ano politicamente 
crucial de 1936: O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984, 9. a 
edio 1990, livro que , simultaneamente, um denso quadro 
histrico e um agudo questionamento sobre o modo

de existncia das figuras de fico e dos mortos. A Jangada de 
Pedra, romance,
1986, insere uma poligonal histria de amor e de errncia numa 
hiptese imaginativa de fundo mtico-alegrico: o de um 
desprendimento e deslocao da Pennsula Ibrica pelo Atlntico 
fora. O Cerco de Lisboa, romance,
1989, insere uma verso novelesca da conquista de 1147 entre o 
enredo de amor do seu imaginrio redactor e o de um casal 
popular ligado aos acontecimentos. Em O Evangelho Segundo Jesus 
Cristo, romance 1991, a insistente exaltao do amor humano 
articula-se com um imaginoso libelo contra a doginatizao 
transcendentalista do poder.


Uma das feies mais notveis do ps-guerra  o desenvolvimento 
da fico de autoria fminina, fenmeno ali s universal, mas 
entre ns de extraordinrio relevo histrico-social e 
qualitativo. Algumas das autoras celebradas pela crtica dos 
anos 50-60 no passaram de um bom livro, ou parecem nele ter 
dado o essencial do seu recado, o que evidencia o aspecto social 
do fenmeno como conscincia acerca de situaes femininas 
tpicas na sociedade portuguesa; e isso liga-se a factores como 
a crescente entrada das mulheres nas profisses intelectuais e 
certa atenuao das dependncias domsticas nas classes mdias.

7. - POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
          1145
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Eis algumas das ficcionistas mais salientes: Maria da Graa 
Freire (n. 1918), de incio conhecida como autora de literatura 
colonial, de que alis podemos ver um prolongamento no conflito 
racial domstico surpreendido em A Terra Fo-lhe Negada, 
romance, 1958, entre outros romances, novelas e contos de 
problemtica feminina burguesa como Talvez sejam Vagabundos, 
romance, s/d, e O Inferno Est mais Perto, conto, 197 1; 
Patrcia Joyce (n. 1913), em cuja obra se destaca, pela sua 
vibrao, o romance O Pecado Invisvel, 1955; Celeste de 
Andrade, que em Grandes Vivas, 1954, captou bem a tenso de 
certos desajustes psquicos conjugais; Ilse Losa (n.
1913), que trouxe  nossa literatura a amarga experincia do 
terror da sua

infncia na Alemanha e da sua juventude sob o regime nazi, do 
exlio e de um reajustamento penoso, quer  irreconhecvel 
ptria de origem, quer  de adopo (0 Mundo em que Vivi, 
romance, 1949, 5. edio refundida
1987; Histrias quase Esquecidas, contos, 1950; Rio sem Ponte, 
romance,
1952, reedio revista 1988; Aqui Havia uma Casa, contos, 1955; 
Caminhos sem Destino, recolha antolgica de contos anteriormente 
dispersos ( autora tambm de insinuantes volumes de literatura 
infantil); Natlia Nunes (n. 1921), um dos mais tpicos casos de 
revolta contra a tica repressora da liberdade feminina burguesa 
(Regresso ao Caos, romance, 1960; O Caso Zulmira L, novela, 
1967); Ester de Lemos (n. 1929), alis ensasta literria, numa 
focagem tica de conflitos da juventude intelectual (Rapariga, 
romance, 1949; Companheiros, romance, 1959); Lusa Dacosta (n. 
1927), tambm ensasta e crtica literria, que fiagelou com 
sarcasmo a mesquinhez provinciana em A Provncia, conto, 1955, 
reedio 1984, e nos seus volumes posteriores Vov Ana, Bisav 
Filomena e eu, 1969, Corpo Recusado,
1985  agudamente sensvel s frustraes da pelintrice pequeno-
burguesa,  rude vida popular e  solido e dependncia da 
mulher.


Algumas das melhores revelaes femininas podem ligar-se quela 
tendncia subjectivamente demolidora que procura atingir a mola 
ntima, existencial, de liberdade, atravs de uma nauseada, ou 
angustiada, negao genrica, afinal muito semelhante  teologia 
negativa dos msticos. Em regra, tal negatividade recobre um 
inconfessvel apego aos valores de religiosidade tradicional, e 
isso  bem sensvel no alis interessante romance de Graa Pina 
de Morais (n. 1929 - t 1992), A Origem, 1958, reedio 1991, 
cuja linguagem trai, por outro lado, as fontes dostoievskianas-
saudosistas

1146                                       HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
do seu senso de mistrio (Na Luz do Fim, contos, 1962; Jernimo 
e Eulla,
1969).

Uma negatvidade mais radical, nascida de um ainda mais profundo 
sentido de decadncia na burguesia originariamente rural e 
servido por uma

extraordinria exuberncia de evocaes, pormenorizadas de modo 
transfigurador ou amplificadas em propores estrememente 
significativas, eis o

que informa os romances caudalosos de um dos mais importantes 
ficcionistas de hoje, Agustina Bessa-Lus (n. 1922.10.15). 
Algumas obras: Mundo

a Fechado, 1948; A Sibila, 1954, 13. edio 1991; Os Incurveis, 
1956; A Muralha, 1957; O Susto, 1958; Ternos Guerreiros, 1958; a 
trilogia As Relaes Humanas, 1964-66; o dptico A Bi'bla dos 
Pobres, 1967-70; As Pessoas Felizes, 1975; e Crnica do Cruzado 
Osb., 1976, que, com As Frias,
1977, constitui um dptico sobre o 25 de Abril. De todos os seus 
romances poder-se-iam desentranhar muitos textos autnomos 
comparveis aos seus

excelentes Contos Impopulares (cinco fascculos, 1951-52-53, 4.1 
edio, um volume, 1984).

A vocao de facto excepcional de A. B.-L. no  do romance como


figurao de um mundo social, psquica ou esteticamente coeso, 
mas a de colher momentos de surpreendente micro-rigor e 
irradiao instrutiva, quer em percepes objectivas, quer em 
vivncias interpessoais, quer em formas de sabedoria ancestral 
que, precisamente, ponham em causa qualquer forma de ordem ou 
inteligibilidade aceite; tudo nela aponta para um *amor+ que  
transcendente a valores ou a evidncias consagradas, e que 
parece um dom peculiar de gineceu ou de intimidade feminina; a 
narrao  feita de reiteradas corridas para essa intuio 
lucilante, relegando qualquer relevncia de continuidade pessoal 
ou ambiencial, qualquer hierarquizao plausvel do acessrio ao 
essencial narrativo, qualquer esquema bvio de sequenciao; h 
mutaes bruscas que garrotam ou anulam personagens ou relaes 
antes salientes; o rumo narrativo salteia e ziguezagueia do modo 
mais surpreendente, como em busca de pontos fusveis por 
incandescncia: uma rplica bem audvel e estonteante; uma 
imagem flagrante ou impossvel, mas de qualquer modo enigmtica; 
uma situao inaudita; um aforismo sibilino; de qualquer modo, 
nenhum grande flego realista: - antes o mito de foras ocultas 
e contagiantes, antes o magnetismo pessoal, antes os mistrios 
eleusinos ou demonacos. Desde os anos 70 revela predileco por 
algo que lembra

7. a pOCA - pOCA CONTEMpORNEA                                
          1147
O
ainda as biografias sentenciosas de Pascoais (Santo Antnio de 
Lisboa, 1973; Florbela Espanca, 1979, reedio 1983; Fanny Owen, 
1979; Sebastio Jos,
198 1, reedio 1984; Os Meninos de Oiro, 1983, 5. a edio 
1984; e Adivinhas de Pedro e Ins, 1983). O Mosteiro, romance, 
1980, 3. a edio 1984, retoma e afina os temas de certo 
matriarcado na administrao rural nortenha, da 
incomensurabilidade e incomunicabilidade radical das paixes 
humanas e do inslito-revelao que vm das suas obras dos anos 
50. Volta a apresentar excelentes sequncias contsticas em A 
Brusca, 1971, 3. > edio 1984, e Conversaes com Dimitri e 
outras fantasias, 1979 (mais referncias na bibliografia final  
sua extensa obra).

Pelo contrrio, Fernanda Botelho (ri. 1926.12.01) caracteriza-se 
pela hbil, se no virtuosstica, arquitectura romanceadora. 
Assumindo a rebeldia de certa juventude universitria do aps-
guerra, com aquela frieza geometrizante que conhecemos na sua 
poesia, os seus dois primeiros romances

(Angulo Raso, 1957, 3. a edio 1986; Calendrio Privado, 1958, 
3. a edio 1986) assinalam o balano cada vez mais lcido de 
uma vida estril; o terceiro, A Gata e a Fbula, 1960, 5. a 
edio 1987, extravasa dos meios universitrios e juvenis e 
desenha com mais verdade a situao e a motivao da 
protagonista, dentro de uma tica desmistificadamente burguesa, 
que  o complemento inintencional do neo-realismo. Os romances 
posteriores, como Xerazade e os Outros, 1964, 3. a edio 1989, 
e, aps um grande intervalo, Esta Noite Sonhei com Brueghel, 
1987, reedio 1989, acentuam, at pela sua maior complexidade 
narrativa, a impresso de desencantada sondagem. Relacionemos 
ainda com esta desapiedada denncia da frustrao e solido 
humanas um das mais importantes ficcionistas, a contista Maria 
Judite de Carvalho (n. 192 1: Tanta Gente, Mariana, 1959, 5. a 
edio 1987; As Palavras Poupadas, 1960, 4. a edio 1988; 
Paisagem sem Barcos, 1963, reedio 1990; Os Armrios Vazios, 
1966, reedio 1979; Alm do Quadro, 1983), cuja mestria chega a 
captar aqueles momentos de inefvel desespero que apenas se 
definem pela entoao audvel de uma frase, ou por um gesto 
aparentemente sem sentido. Reuniu em A Janela Fingida, 1975, e O

Homem no Arame, 1970, um excepcional conjunto de pequenas 
crnicas de jornal. Antologia de crnicas: Este Tempo, 1991.


Isabel da Nbrega consagrou-se com o romance Viver com os 
Outros,
1964, seguido, em 1966, da novela J no h Salomo, em 1973, 
dos contos

1148
O
HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
Solo para Gravador, e, em 1976, de Quadratim. Mencionemos ainda 
Um Dia no so Dias, 1969, de Marta de Lima (Zulmira de 
Almeida); Nem s quem nos Odeia, 1966, As Palavras, que Pena, 
1972, romances de estrutura lrica e meditativa de Yvete K. 
Centeno (n. 1940), tambm autora de volumes de poesia, corno 
Perto da Terra, 1983, alm de ensasta.

Em consonncia com um movimento feminista internacional que, nos

ltimos decnios, alargou a precursora campanha poltica das 
sufragistas de incios do sculo at ao mbito de unia completa 
emancipao profissional, econmica, civil e moral das mulheres, 
a rebelio contra as embiocadas tradies patriarcalistas 
portuguesas atingiu o seu ponto de escndalo literrio

com a publicao, em 1972, do volume colectivo Novas Cartas 
Portuguesas, por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e 
Maria Velho da Costa.  qualitativamente desigual, mas 
construdo numa procura que no deixa e alcanar excelentes 
achados atravs de reinterpretaes (e reefabulaes) do caso 
romantizado de Sror Mariana Alcoforado, atravs da narrao 
epistolar (ou, de qualquer modo, caracterologicamente 
conotativa) de casos exemplares de represso feminina, atravs 
de breves ensaios e desmascaramentos e ainda atravs de urna 
ertica desinibida. As autoras foram a tribunal, que as absolveu 
j depois do 25 de Abril. Todas elas produziram, posteriormente, 
outros textos combativos pela emancipao feminina, 
nomeadamente, em volumes  parte, a primeira, A Morte da Me, 
doutrinariamente arguta
1979, reedio 1989, e a segunda, Mulheres de Abril, mais 
documental, 1977. Maria Isabel Barreno (n. 1938.07. 10) 
consagrara-se j com os romances De Noite as rvores so Negras, 
1968, 3. a edio 1987, e Os Outros Legtimos Superiores, 1970, 
em que a efabulao tradicional se alegoriza numa

crtica caricatural da sociedade de consumo e, sobretudo, de 
condicionamento patarcalista da mulher burguesa. Desde 
Inventrio de Ana, 1982, reedio

1985, e Clia e Clina, 1985, as suas preocupaes de afirmao 
feminina balanceiam entre a narrativa, a inquirio dialogal e 
metafsica e a expres- so lrica ou fantstica. A insistncia 
do fantstico na recente fico feminina motivou alis a 
publicao de um volume antolgico de Fantstico no Feminino, 
1985, onde M. Isabel Barreno figura num conjunto de oito autoras 
mais ou menos consagradas. ltimos volumes de M. Isabel Barreno: 
Crnica do Tempo, 1990, romance dominantemente realista, e O 
Enviado, contos, O Cho Salgado, r., 1992, em que volta a 
acentuar-se o fantstico.

7 >POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
             1149
O
Maria Velho da Costa (ri. 1938.06.26) estreia-se com um livro de 
contos em que se sente uma certa afinidade (alis nunca, 
posteriormente, de todo dissipada) com a sua melhor 
predecessora, Bessa-Lus, na demanda e reivindicao do que h 
de inintegravelmente e inefavelmente pessoal (e doloroso) no 
mundo adolescente ou feminino, embora numa construo 
perfeitamente centrada a nvel do enredo ou do pargrafo (0 
Lugar Comum, 1966). Segue-se Maina Mendes, 1969, reedio 1977, 
romance da sua consagrao, que acompanha, atravs de trs 
geraes de uma famlia, outras tantas formas (ou fases) de 
radical inconformismo feminino (psictico, tolerantemente 
permissivo e abertamente rebelde), com uma exuberncia nas 
mutaes de focagem, nas gradaes entre a referncia objectiva 
e a deformao conotativa de subjectividades vrias, e nas 
prprias microestruturas estilsticas - que de facto fazem poca 
na nossa arte de romancear. Rene duas

colectneas de crnicas (vrios textos so virtualmente 
poesias), que correspondem, respectivamente,  atmosfera 
literria de antes e depois do 25 de Abril: Desescrita, 1973, 
cujo ttulo resume uma especfica tcnica de interaco (e 
entredestruio) da escrita a simples nvel vocabular e frsico, 
da narrao - e da prpria teoria da arte literria, alcanando 
os melhores resultados numa espcie de aplogos de interpretao 
aliciantemente problemtica; e Cravo, 1976, cuja fantasia 
textual ganha, pelo contrrio, e sem sacrifcio de recriao 
constantemente inesperada, uma grandeza limpidez e certeza

de alvo. O romance Casas Pardas, 1977, reedio 1986,  
essencialmente animado por um conflito profundo representado por 
duas vertentes sem encontro  vista: numa das vertentes est a 
protagonista-escrtora, servida de toda a melhor cultura de 
origem (ou transmisso) burguesa ocidental, desmontando 
escaninhos relacionais e pessoais da sua formao (e insatisfa 
o); na

outra vertente, a deuteragonista, proletria, apostrofada de 
incio num tu (o tu de uma identificao social procurada) que 
remata em primeira pessoa narradora-herona, e que se apresenta 
to exemplarista como o heri positivo de certo neo-realismo. 
Note-se que esta tenso interna se descortina j no conto que d 
o nome ao primeiro livro, e que a autora a formula com


toda a poderosa carga de experincia emotva, humoral e 
artstica atingida em condies histricas portuguesas 
(condies que tambm lhe servem de terna para meditao). 
ltimas obras: Lucialima, 1983 (duas edies), bom romance de 
ambientes, pretextado pelo cruzamento e disperso de alguns

1150                                        HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
destinos de mulher, e Missa in Albis, romance, 1988 (duas 
edies), que tem como ncleo um amor adolescente, todavia 
inseparvel de uma apetncia de morte e de no-consumao.

Maria Ondina Braga (n. 1932) traz para a fico e a crnica uma 
densa experincia, no apenas de uma vida difcil de mulher 
amadurecida ao contacto de civilizaes diferentes, como a 
percepo fina de certos conflitos ntimos (A China fica ao 
lado, contos, 1968, 4.1 edio 1982; Esttua de Sal, 
autobiografia romanceada, 1969, 3.1 edio 1983; A Personagem, 
romance, 1978; O Homem da Ilha e outros contos, 1982; Lua de 
Sangue, conto, 1986; A ventura em Macau, novela, 1991, a sua 
obra de ambientao e estilo mais consumados).

POCA CONTEMPORNEA: Inovaes estruturais na novelstica

Para evitar duplicaes de referncia, omitiremos nesta seco 
os autores que interessariam a ttulo de inovao estrutural 
narrativa mas que j mencionmos a propsito da sua obra de 
poesia, de fico de crtica social, elou a de autoria feminina 
- devendo notar-se que o seu impacto inovador se acentua nos 
anos 60 e 70 (Jorge de Seria, Cardoso Pires, Abelaira, Bessa-
Lus, Fernanda Botelho, M. Isabel Barreno, M. Velho da Costa). 
Numa arrumao apenas provisria, e reconhecidamente inadequada, 
s consideraremos certos casos mais ou menos extremos de 
transgresso aos cnones narrativos dominantes at cerca de 
1960.

Nos anos de 60 assistiu-se de facto  repercusso do ento 
chamado novo

romance, distinguindo-se Alfredo Margarido (ri. 1928), autor de 
No Fundo deste Canal, 1960; A Centopeia, 196 1; e As Portas 
Ausentes, 1963, e ainda Artur Portela Filho, autor de A venda 
de Roma, 1961; Thelonus Monk,
1962; e Rama verdadeiramente, 1963, reedio 1988, que atestam 
dons de enredamento e observao, mas foram eclipsados pela sua 
obra de crnica e stira, parcialmente recolhida nos volumes de 
Funda, sete sries, 1972-77, rplica contempornea das Farpas, e 
pelos romances  clef de actualidade poltica Fotomontagem, 
1978; Marcelazar, 1979, facetas onde  sensvel o


magistrio estilstico queirosiano . Rumor Branco, 1962, 
reedio revista 1970, de Almeida Faria (n. 1943), construdo de 
um modo no menos inovador, com nome do protagonista servindo a 
diversas experincias humanas socialmente incompatveis entre 
si, surgiu como uma revelao muito promete-

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
               1151
O
dora, depois sobejamente confirmada com Paixo, 1965, 6.1 edio 
1986, integrado, com Cortes, 1978, 3.1 edio revista 1986, e 
com Lusitnia, 1980,
5. edio 1987, numa Trilogia Lusitana, 1982, que d as tenses 
internas de uma famlia proprietria rural alentejana e seus 
dependentes, entre a fase final do fascismo e a ressaca 
posterior ao 25 de Abril, sob a forma de monlogos interiores 
alternativos, em diversos registos idiomticos e ritmos 
cclicos, Cavaleiro Andante, romance, 1983, 3.1 edio 1988, 
retoma e prolonga o ciclo de opresso, esperana e desencanto, 
numa agora Tetraloga Lusitana, acrescida de O Conquistador, 
parodstica projeco de um dorn-joanesco presente sobre o 
sebastianismo nacional inveterado, 1990. Recordemos que neste 
processo de refundio ou exploso da arte narrativa tradicional 
se integram dois dos melhores livros de Herberto Hlder, Os 
Passos em volta, 1963, e Apresentao do Rosto, 1968. Pelo seu 
cruzamento entre o ensaio e a reflexo autobiogrfica mencionem-
se aqui Dirio dipo, 1965, 3. a edio 197 1, e Csc, 1974, de 
Alberto Ferreira, fundamentalmente investigador e ensasta. No 
h Morte nem Princpio, 1969, de Mrio Donsio, j 
anteriormente referido, tambm aqui caberia, pela montagem 
descontnua de um conglomerado de relaes humanas. O mximo 
grau de deslaamento da narrativa ou da sua diluio em monlogo 
mais ou menos cclico de meditaes, impresses vividas ou 
transpostas, circunstncias de sabor local lisboeta mas 
estilizadas em situaes-limite de pesadelo, eis o que 
encontramos nos volumes mais tpicos de Joo Palma-Ferrera (n. 
1931 - t 1989.08.23), Trs Semanas em Maio, 1968; A Viagem, 
1971; Os Cranioclastas, 1972, ao par de um livro de contos de 
feies mais comuns, A Porta do Inferno; a novela picaresca Vida 
e Obras de D. Gibo, 1987, alusiva  contemporaneidade; trs 
volumes de Dirio, 1972-83; e estudos de histria literria.  
de um

fundo de memria experiente e reaco sarcstica, onde 
assistimos ao desabar da tica burguesa provinciana meridional e 
s agruras da guerra colonial ou do exlio cosmopolita, que 
lvaro Guerra (n. 1936) alimenta os seus


volumes, com uma efabulao rornanceante correndo em vrios 
planos paralelos, um deles a servir de alegoria a outros, 
justapondo evocaes dispersas, misturando os registos da 
narrativa e do comentrio, da lrica e da farsa, numa sintaxe 
que procura rebelar-se contra a disciplina periodal e aproveitar 
incidncias de aliterao, de rima, de anagrama (os Mastins, 
1967, reedio aumentada 1986; O Disfarce, 1969; A Lebre, alm 
de Memria, 197 1, recolha

1152                                        HISTORIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
de textos diversos que incluem algumas das suas melhores 
produes); Razes do Corao, romance, 1991, inspirado pelo 
dirio de um frade no tempo das Invases Francesas. Experincia 
interessante de renovao na arte narrativa de flego  a de 
Comente o Seguinte Texto, 1972, evocao, por simples 
justaposio de dados e como que documentos, de um ambiente de 
contacto alunos-professores, por Eduarda Dionsio (ri. 1946), 
que dirigiu um

efmero peridico de Crtica, 1972, depois autora de um complexo 
texto de experincia pessoal epocal: Retrato do Amigo enquanto 
Falo, 1979,
3. edio 1988. lvaro Manuel Machado, mais conhecido como 
crtico, ensasta e comentarista televisivo da literatura, 
produziu, com Exi7io, 1978, um

arejado romance da emigrao poltica. Olga Gonalves (ri. 
1929), tambm poetisa, tem-se evidenciado num tipo de romance de 
subjectividade individual falante, monologal ou colectiva, que 
procura apreender as frustraes femininas dos burgueses, ou a 
dinmica da conscincia de classe do proletariado, especialmente 
emigrante e fen-nino (A Floresta de Bremerhaven, 1975,
4.1 edio 1992; Mandei-lhe uma Boca, 1977, 3. edio 1987; 
Este Vero o

emigrante ]-bas, 1978; Sara, duas edies 1986; Cantar de 
Subverso, 1990).


Entre as carreiras mais inovadoras salienta-se a de Maria 
Gabriela Llansol (ri. 193 1: Os Pregos na Erva, 1962; O Livro 
das Comunidades, 1977; Causa Amante, 1984; Contos do Mal 
Errante, 1986; De Sebe ao Ser, 1988; Amar um Co, 1990). Os seus 
livros no so em rigor narrativas, mas sries de pequenos 
quadros ou medita es, localizadas em geral na Alemanha ou 
regies prximas, pelo incio do Renascmento, e em que,  volta 
de Coprnico, Hadewijcb e de Isabol, e em ambiente fantstico ou 
ucrnico, de um misticismo sexual de corpo e de escrita, em 
torno da revolta dos anabaptistas de T. Muntzer e no cerco dos 
herticos de Mnster, gravitam personagens inspiradas por (e 
nomeadas como) autores msticos ou tidos como tais (S. Joo da 
Cruz, Mestre Eckart, Suso e Nietzsche, etc.). Embora com partes 
que de um ponto de vista no-esotrico parecem frouxas ou 
gratuitas, estes livros so perpassados por transfiguraes ou 
por uma comunicvel experincia de alta qualidade, dentro de uma 
concepo ps-modernista (no-histrica, no-cientfica, cptica 
em relao a qualquer progresso social ou

outro). Os volumes publicados do seu Dirio, Um Falco no Punho, 
1985, e Finita, 1987, apenas se distinguem dos de fico (ou 
poesia?) pela aparente distribuio cronolgica e por 
importantes reflexes acerca da pertur-

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
            1153
O
bante concepo materialista, ou pelo menos corprea, em que 
assenta a sua mstica e a sua potica dirigidas a uma busca de 
cenas fulgor. Um Beijo Dado mais Tarde, 1990, desencadeia a 
mesma perplexidade dos textos de aparente localizao bsica 
estrangeira, mas sob sugesto de um vago drama familiar lisboeta 
e de um quadro de Domingos Sequeira.

Registemos agora a inflexo de uma carreira meterica e o 
fulminante xito de um livro, ambos marcados pela nova 
problemtica e pelo degelo relacionados com o 25 de Abril. O 
primeiro  o caso de Nuno de Bragana (n. 1927), que se tornara 
conhecido com o romance A Noite e o Riso, 1969, imbricado de 
textos narrativos de diverso flego e estrutura focados sobre a 
marginalidade adolescente e adulta, e com a sua prpria gnese  
vista, erguendo-se pouco a pouco at uma fulgurante 
autenticidade e a um virtuosismo estilstco que inclui o mais 
livre calo da bomia lisboeta. No seu segundo romance, Directa, 
1977, o registo coloquial desinibido integra-se perfeitamente 
numa histria contada em terceira pessoa que, a dada altura, 
absorve a meditao da primeira pessoa narradora sobre a prpria 
narrativa e narrao (acto de narrar). H uma mobilizao de 
todos os indicadores de um acto de clandestinidade poltica da 
protagonista, enquanto, noutro plano, ele sofre o afastamento, 
pela droga (ou algo mais profundo, e motivador da droga), da 
mulher a que o liga um lao afectivo autntico, e a 
inexplicabilidade dessa espcie de divrcio, ou suicdio, serve 
de epicentro a uma

vivncia do valor irredutvel da pessoa singular. Estas 
preocupaes vm de trs (de Verglio Ferreira e Bessa-Lus, 
nomeadamente), mas o que lhe confere uma nova fora  o concreto 
originalmente percepcionado da sua implantao e a abertura para 
a inevitvel dialctica de qualquer esperana humana (a opo do 
narrador  patentemente religiosa). Romance ainda afim: Square 
Tolstoi, 198 1; novela pstuma e inacabada, O Fim do Mundo, 
1990.


xito imediato teve O que diz Molero, de Dinis Machado, 1977, 
13.1 edio 1984, que, num irnico enquadramento detectivesco e 
numa imaginosa escrita encorporando, tambm, os registos mais 
distensos da oralidade juvenil e popular, capta os mitos da 
prpria estruturao infantil e adolescente, obtendo uma 
qualificao da gria, da obscenidade, do palo, do paleio 
evasivo, da imaginao alcunhadora, onomatopeica, entonatria, 
mmica, gesticular, no teatro pobre do quotidiano infantil - 
apesar da debilidade do remate. Publicao recente: Reduto Quase 
Final, 1989. xito posterior, Walt,
O
HLP - 73

1154                                        HISTORIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
*noveleta+ de Fernando Assis Pacheco, 1978, 3. a edio 1979, 
que, em linguagem e justaposio narrativa imaginosas e livres, 
transpe para as fases de embarque e partida de soldados 
americanos destinados ao Vietriame uma anloga experincia 
vivida por militares inconvictos das nossas guerras coloniais, 
camuflagem que j utilizara em Cu-Kin, volume de poesia, como 
vimos.

Registemos a alta qualidade no tratamento irnico, culturalmente 
muito informado, da ideologia imperialista * ocidental+ por 
Joo Medina, atravs da reefabulao desmistificadora dos mitos 
de Swift e Crusoe, em Novas A venturas de GuIliver, 1974, e A 
Ilha est cheia de vozes, 1978, numa espcie de antitextos 
clssicos, incluindo o segundo *sete histrias plausveis+, 
mordentes parbolas de colorido extico.

Ldia Jorge (n. 1946) produziu originais romances de mltiplas 
aces e de mltiplas vozes que se cruzam num ambiente colectivo 
de marasmo, quer numa aldeia algarvia anacrnica e que apenas 
mtica e alucinatoriamente reage aos sinais externos de uma 
guerra e de uma revoluo urbana (0 Dia dos Prodgios, 1979), 
quer num grupo de ex-camponeses desenraizados pelos servios 
tursticos e erguidos a prottipo da dependncia e mimetismo 
cultural do estrangeiro, o que sugere todo o drama de um novo 
projecto nacional de vida (0 Cais das Merendas, 1983, 4. a 
edio 1989). Notcia da Cidade Silvestre, 1984, romance, 
desdobra uma pattica tenso entre o amor e a

alienao econmica em duas mulheres. A Costa dos Murmrios, 
1988, romance, d uma implacvel viso da guerra colonial tal 
como vivida em Moambique por mulheres de oficiais combatentes.

Teolinda Gerso (n. 1940) exprime nos romances Silncio, 1981, 
Paisagem com mulher e mar ao fundo, 1982, no volume de 
impresses diaristas, Os guarda-chuvas cintilantes, 1984, e no 
mais recente romance O Cavalo de Sol, 1989, um desajuste de 
apetncias e realidades quase incoercvel entre mulher e homem, 
ou entre o sujeito de percepo ou sentimento e o sujeito que 
escreve.


a Consagrada com a novela Montedemo, 1983, 3. edio 1987, em 
que se baseou uma pea de teatro e que funde sugestivamente um 
caso de maternidade mal vista com um ambiente rural e uma aura 
de prodgio, Hlia Correia, depois de outras obras intrigantes, 
publica, em 1991, A Casa Eterna, em que a reconstituio quase 
detectivesca de uma estranha morte d ensejo

7. O POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
          1155
O
a curiosas mini-histrias e flagrantes caracterizaes 
conotativas dos narradores.

Antnio Lobo Antunes (n. 1942)  um dos mais desconcertantes 
romancistas actuais, pelo cruzamento de uma larga experincia de 
iniliciano na

guerra colonial e de psiquiatra com uma inestancvel profuso de 
analogias ou metforas, e ainda pela expanso de uma 
permissibilidade e de uma hiperblica truculncia que 
tradicionalmente se reprimiriam (Memria de Elefante, 1979, 13. 
1 edio 1989; Fado Alexandrino, 1983, 5. a edio 1987; Auto 
dos Danados, 1985; Naus, 1988, cruzamento parodisticamente 
anacrnico de figuras da Expanso e de Retornados da 
descolonizao; Tratado das Paixes da Alma, 1990, impiedoso 
painel de um mundo social degradado e sem sada, colhido em 
flagrantes descritivos e por vezes inextrincavelmente dialogais.

Entre os romancistas que se evidenciaram nos anos 80 mencionemos 
Amrico Guerreiro de Sousa (n. 1942). O seu primeiro romance, 
Exerccio no

Futuro, 1980, est construdo sob a forma de futuras 
alternativas de uma

expectativa (a de um regressado em procura da amada) que acaba 
por sugerir a gnese do prprio enredo; seguiram-se Os Cornos de 
Cronos, 1980, reedio 1982, misto de humorado quadro de 
costumes e de fantasia dramtica, atingindo em Onde ca a 
Sombra, 1983, o nvel superior de um romance


de aprendizagem do amor e da comunicao humana. Dentro de uma 
orientao que se caracteriza pela fuso entre um certo 
pitoresco de bairro lisboeta ou de evocao histrica e um 
motivo central absurdo ou inslito, tem vindo a assistir-se ao 
crescente domnio narrativo de Mrio de Carvalho (n. 1944): 
salientemos Os Casos do Beco das Sardinheras, 1981, 3. a edio 
1991, O Livro Grande de Tebas, Navio e Mariana, 1983, e A Paixo 
do Conde de Fris, 1986, o seu melhor e mais depurado livro. No 
extremo oposto de uma linearidade quase ensastica, assinalemos 
o xito do romance de Antnio Alada Baptista (n. 1927), Os Ns 
e os Laos, 1985, 5. edio 1991, edio brasileira 1986, com 
uma lgica que, em sociedade sexualmente permissiva, se sente 
continuar a do Banquete platnico ou a dos Dilogos de Amor 
renascentistas, no encalo de uma filosofia do mistrio do amor 
(e da morte) e de uma intuio vital feininina que, sempre a 
partir de posies de incomodidade, se evada aos esquemas de um 
poder tradicionalmente masculino. Na fluente novela Catarina ou 
o Sabor da Ma, duas edi-

1156                                       HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
es 1988, a sua psicologia convivencial ertica assenta na 
crena do Demnio ou de um certo centro do mal.

A Casa do P, 1986, de Fernando Campos, tem o seu eixo na figura 
estranha de Frei Pantaleo de Aveiro para, romanceando (por 
vezes rectificando) o seu Itinerrio, produzir uma 
reconstituio de factos, personagens, ambientes, paisagens 
naturais e humanas do Mediterrneo renascentista, com aliciante 
mincia, alguma teatralidade (como uma anagnrise), e num estilo

onde se evidencia uma slida formao clssica, incluindo a 
melhor tradio humanista inerente. O seu ltimo romance, O 
Pesadelo de dEus, 1990, consuma a tendncia para transfigurao 
fantstica do quotidiano em que parece ter evoludo.

O romance O Vivo, 1986, de Fernando da Costa, procura, do ponto 
de vista de um virtual narrador popular, seguir as mutaes que 
a guerra, a emigrao, o 25 de Abril e as inovaes tcnicas 
desencadeiam numa aldeia

antes isolada, num certo enquadramento utopicamente optimista 
quanto a uma grande misso histrica portuguesa, inspirado por 
Agostinho da Silva. Mais acentuadamente alegrico o seu romance 
Os Infiis, 1992.

Paulo Castilho (n. 1944)  autor de Do Outro Lado do Espelho, 
1983, e Fora de Horas, 1989, que foca de forma densa e sbria o 
reajustamento (ou no) da gerao idealista e combativa de 60 ao 
pragmatismo *desideologizado+ dos anos 80, tal como isso  
vivido por um grupo de portugueses nos Estados Unidos.

Hlder Macedo, j conhecido como poeta e ensasta, estreia-se em 
1991 como ficcionista, com Partes de frica, em que profusos 
dados factuais de vria experincia colonial e poltica 
portuguesa se enlaam numa narrativa

inextricavelmente testemunhal, interpretativa e ficcional, 
incluindo um subenredo que parodia o libreto de Don Giovann de 
Mozart.


Merece ainda meno Amadeu Lopes Sabino (n. 1943), de que, entre 
outros volumes, de fico, desde Aps Aljubarrota, 1979, 
salientaremos, pela agilidade da narrativa e por um requintado 
hedonismo, os contos cosmopolitas de Novelas Imperfeitas, 1991.

7 - POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
                          1157
O
1111111u187f1061C4E1A
O
Segunda metade do sculo - Fico:

Os Melhores Contos Portugueses, 3. > srie, seleco e prefcio 
de Joo Pedro de Andrade. Lopes, scar: Dois Decnios de 
Literatura; Tendncias Recentes da Ficco Portuguesa em Prosa; 
Alguns Livros de Fico em Prosa; Alguns dos Melhores Romances 
de
196 1, na revista Colquio, n. 2, Maro, 1959, n.@ 5 e 6, Nov. 
1959, n. O 9, Junho
1960, n. > 12, Fev. 196 1, respectivamente, alm de recenses 
desde 1951 no supi. Cultura e Arte de O Comrcio do Porto.

Mendona, Fernando: O Romance Portugus Contemporneo, Assis, 
So Paulo, 1966. Torres, Alexandre Pinheiro: Romance: O Mundo em 
Equao, Seara Nova, 1967. Pires, Alves: Do Romance Portugus 
ltimo, in Brotria, 86, 1968.04.04. Carmo, Jos Palia e: Do 
Livro  Leitura, 197 1. Sacramento, Mrio: Ensaios de Domingo 
11, Porto, 1973. Cruz, Liberto: Viragem do Romance Portugus, in 
Arquivos do Centro Cultural Portugus, vol. III, Fundao C. 
Gulbenkian, Paris, 1971.

Salema, lvaro: Trinta Anos de Novelistica Portuguesa, 
Ministrio da Comunicao Social, 1975.

Machado, lvaro Manuel: A Novelistica Portuguesa Contempornea, 
*Biblioteca Breve+, ICP, 1977.

Mendes, Jos Manuel: Por uma Literatura de Combate, 1975; Alguns 
dos Instantes, 1978. Braga, M. Ondina: Mulheres Escritoras, col. 
A Mulher e o Mundo, 1980. Eminescu, Roxana: Novos Caminhos do 
Romance Portugus, *Biblioteca Breve+, ICALP,
1983; Le Roman Portugais Contemporain, Centro Cult, Port., Fund. 
C. Gulbenkian, Paris, 1984.

Seixo, Maria Alzira: A Palavra do Romance, Horizonte 
Universitrio, 1986; De Novo o

Romance, 1986; e Para um estudo da expresso do tempo no romance 
portugus contemporneo, 2. ed. rev., IN-CIVI, 1987.


Os Rostos na Fico Portuguesa Contempornea, artigos de Manuel 
Gusmo, Clara Rocha, J. Fernandes Jorge, 1. Allegro de 
Magalhes, Graa Abreu, 1. Pires de Lima, Teresa Amado e Urbano 
Tavares Rodrigues, in *Vrtice+, n. > 6, 11 Srie, Set. 1988.

Lopes, Silvina Rodrigues: Aprendizagem do Incerto, ec. Litoral, 
1990. Lepecki, M. Lcia: Sobreimpresses, Caminho, 1988.

Sobre autoria feminina na fico portuguesa contempornea: 
Sadlier, J. Dariene: The Question of How - Wornen Writers and 
New Portuguese Literature, Greenwood Press, N. YANestpart, 
Connecticut/Loncion, 1989 (Estuda Novas Cartas Portuguesas, 
romances de F. Botelho, Ldia Jorge, Hlia Correia, Teolinda 
Gerso, e tem um informativo apndice sobre o movimento 
feminista em Portugal).

Magalhes, Isabel Allegro de: O Tempo das Mulheres, 1987 (foca, 
em especial, A. Bessa-Lus, M. Velho da Costa, Olga Gonalves, 
Teolinda Gerso, Ldia Jorge, e suas

precursoras desde o Renascimento, procurando discernir traos 
femininos distintivos na sua expresso portuguesa). Como 
iniciao a muitas debatidas questes relacionveis com a 
autoria feminina portuguesa da ltima metade do sculo pode 
utilizar-se: Toril Moi, Teoria Literria Feminista, trad. esp. 
Ctedra, 1988, que foca em especial ficcionistas e doutrinrias 
de expresso inglesa ou francesa. (Tem ampla bibliografia.)

Captulo IX

POCA CONTEMPORNEA: O TEATRO DESDE O NATURALISMO

Aps o novo romantismo historicista que observmos na viragem 
dos sculos, com que vieram a cruzar-se pouco depois, como 
vimos, uma corrente naturalista, inicialmente apoiada nos 
agrupamentos do *Teatro Livre+,
1904, e do *Teatro Moderno+, 1905, e uma mais dbil corrente 
simbolista - o

teatro original portugus, minado na sua fraca base 
institucional pela concorrncia crescente do cinema comercial 
estrangeiro, do desporto profissional, da rdio e, depois, da 
televis o, perdeu pouco a pouco a continuidade dos seus 
melhores actores e tcnicos que se haviam formado na escola de

incios do sculo e numa tradio ainda anterior. Ao lado da 
companhia de Amlia Rey Colao, concessionria, posteriormente 
subsidiada, quase s em

Lisboa se mantiveram algumas condies de sobrevivncia, mais ou 
menos

regular, para outras companhias profissionais, geralmente 
instveis, obrigando alguns dos melhores actores a recorrer aos 
espectculos de revista, cujo nvel de stira ligeira a censura 
fez degradar. A esta decadncia procuraram reagir tentativas 
subsidiadas pelo Fundo do Teatro e pela Fundao Calouste 
Gulbenkian, ou ento constitudas sobre a precria base do 
amadorismo ou da associao cooperativa do pblico.

 nestes ltimos alicerces que assenta, em grande parte, o 
Teatro Experimental do Porto, uma das mais duradouras tentativas 
de teatro experimental, inicialmente sob a direco artstica 
(1953-62) de Antnio Pedro, depois de experincias lisboetas 
mais efmeras, que vm desde o Teatro Novo, 1925, e em que 
avultam o Teatro-Esttdio do Saltre, 1946-50, dirigido por Gino

1160                                       HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
Saviotti (autor de uma obra doutrinria com certa repercusso, 
Paradoxo sobre o Teatro, 1944), um grupo dirigido por Manuela 
Porto em 1949-50, Ptio das Comdias, 1948-49, onde Antnio 
Pedro se fez encenador, o Teatro Experimental (1951-53) de Pedro 
Bom, o Grupo de Teatro da Sociedade Guilherme Cossoul, desde 
1951, e o Teatro de Arte de Lisboa, 1955-56. Entre os grupos 
amadores, destacam-se, em meios universit rios, o Teatro dos 
Estudantes da Universidade de Coimbra (T. E. U. C.), fundado em 
1938 e dirigido por Paulo Quintela, e, posteriormente, o Teatro 
Clssico Universitrio

do Porto (T. U. P.), desde 1948, o Centro de Iniciao Teatral 
de Coimbra (C. 1. T. A. C.), desde 1956, e o Grupo Cnico da 
Faculdade de Direito de Lisboa. Acresce posteriormente o Teatro 
Experimental de Cascais, 1965, de Carlos Avilez. As mais 
categorizadas companhias profissionais foram a

dos Comediantes de Lisboa, 1944-50, do Teatro Nacional Popular, 
1955-60, de Francisco Ribeiro, a do Teatro Moderno, 1961-64, a 
Companhia Portuguesa de Comediantes e o Teatro Estdio de 
Lisboa, 1964. Como no sculo XVIII, a carncia de condies 
materiais para uma escola nacional de teatro (que no pode ser 
garantida pelo grau actual de profissionalizao e pelo 
Conservatrio de Arte Dramtica existente, criado por Garrett) 
provocou, em meados do sculo, numerosas reaces de ordem 
teorizante, em manifesta desproporo com a prtica 
organizadora. Na renovao do gosto dramtico, desempenhou papel 
importante Eduardo Scarlatti (1899-1990), quer na apresentao 
crtica de autores ento dominantes na Europa (Ideias de Outros, 
1927), quer pelo entusiasmo teorizador de A Relgio do Teatro, 
1928.

Quanto ao aspecto propriamente literrio da nossa dramaturgia 
recente, vamos apenas completar os apontamentos dados acerca das 
correntes historicistas e das afins ao naturalismo e as notas 
que ficaram dispersas a propsito de autores como Raul Brando, 
Antnio Patrcio, M. S-Carneiro, Almada-Negreiros, Antnio 
Botto, Rgio, Branquinho da Fonseca, Torga, Migus, Gaspar 
Simes (os dois ltimos, alis, mais prximos que os outros

de um realismo de costumes, populares ou burgueses), focando os 
autores


que balizam a trajectria intermitente, inconsequente, e nem 
sempre cenicamente efectivada, de um teatro ps-simbolista, 
expressionista ou, de algum modo, no-naturalista.

7. - POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
           1161
O
Faamos, pois, uma rpida revista retrospectiva desde o teatro 
historicista e naturalista, que apontmos como dominante por 
incios do sculo, at aos principais dramaturgos de hoje. A 
transio pode alis reconhecer-se na carreira de alguns dos 
autores a seu tempo nomeados. Assim, Vasco Mendona Alves (1883-
1962) deixou o drama histrico para se dedicar ao teatro de 
costumes populares (Meu Amor  Traioeiro, 1935) ou ao drama 
moral burgus (Perdida no Mundo, 1946); Francisco Laje (1888-
1957) e

Joo Correia de Oliveira (1881-1960) colaboraram na factura, 
quer de uma

pea histrica, A Ribeirinha, 1923, quer num drama de costumes 
rurais; Os Lobos, 1923, que serviu posteriormente de argumento a 
um filme; Vitoriano Braga (1888-1940) adquiriu a notoriedade com 
o escndalo naturalista de Octvio, 1916, mas veio depois a 
produzir o seu melhor teatro versando temas sociais e 
psicolgicos (A Casaca Encarnada, 1922, sobre os

novos-ricos da Grande Guerra; Os Inimigos, 1926); Alfredo Corts 
(1880-1946), partindo do naturalismo e passando pelo teatro de 
moralismo passadista, renovou-se com recursos expressionistas em 
Gladiadores, 1934, regressando depois a um teatro *bem 
carpinteirado+ de costumes regionais (T Mar, 1936) e de stira 
burguesa (Saias, 193 8;.Bton, 1939; L-Ls, 1940); Ramada Curto 
(1886-1961), que foi quantitativamente o escritor mais produtivo 
do teatro portugus na primeira metade do sculo, se excluirmos 
as parcerias autoras de revistas, manteve ocasionalmente certas 
caractersticas do seu naturalismo inicial, mas de um modo geral 
adaptou-se a um tipo de crtica muito ligeira ou circunstancial 
(Os Redentores da Ilria, 1916; O Homem que se arranjou, 1928; O 
Perfume do Pecado, 1935; Fogo de Vistas, 1956); Carios Selvagem 
(pseudnimo de Carlos Afonso dos Santos, ri. 1890.08.13 - t 
1973.06.05) fizera nome como memorialista da Grande Guerra e 
contribuiu para a voga da pea de costumes rurais da Beira Baixa 
(Entre Giestas, 1917), a que se seguiram a colaborao em vrias 
peas de crtica humorstica ou melodramtica e depois algumas 
comdias individuais centradas sobre problemas de moral 
domstica, colonial ou genericamente poltica (Ninho de guias, 
1920; Telmo, o Aventureiro, 1937; Dulcincia,

1944); Samuel Maia (1874-195 1) situa-se entre o naturalismo e o 
populismo rural em Brs Cadunha, 192 8; Carlos Amaro (1879-1946) 
ocupa um lugar  parte, no centro de muitas tentativas suas 
contemporneas de teatro infantil, com o seu imaginativo 
*mistrio+, S. Joo subiu ao Trono, 1927, que

1162                                       HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
tanto interessa a crianas como a adultos. Antnio Ferro (1895-
1956), que j vimos ligado ao grupo de Orpheu e que dirigiu o 
Secretariado da Propaganda Nacional salazarista, alm de 
organizar um grupo de *Teatro Novo+
1925, que entre ns contribuiu para revelar Jules Romains e 
Pirandello, foi autor de peas de provocativo escndalo: Mar 
Alto, 1922, e O Estandarte,
1932.

Um fenmeno notrio, que vem detrs,  o trabalho de parerias 
autorais estimuladas por um xito fcil: Flix Bernardes (1874-
1960) e Joo Bastos

(1883-1957), autores da farsa O Conde-Baro, 1918; Carvalho 
Barbosa (1884-1936) e Arnaldo Leite (1886-1968), que 
subscrevero perto de uma

trintena de peas ligeiras, das quais apenas lembraremos Cama, 
Mesa e Roupa Lavada, 1922.

Saltando agora Raul Brando, os escritores de Orpheu e presena 
e ainda outros que, como Aquilino, A. Botto, Jos Gomes 
Ferreira, Alves Redol, Pao d'Arcos, Toms de Figueiredo, 
Domingos Monteiro, Bessa-Lus, Mouro-Ferreira, Antnio Gedeo, 
Cesariny de Vasconcelos, Mrio Braga, Natlia Correia, Joaquim 
Pacheco Neves, Mrio Cludio, que conhecemos j pela sua obra 
literria, mencionemos apenas os principais dramaturgos que se 
revelaram desde finais dos anos 30: Armando Vieira Pinto (1906-
1964), cuja obra oscila entre a dramatizao de conflitos 
sociais, a de conflitos passionais romnticos e a experincia 
sobretudo formal (Desencontro, 1935; Direito  Vida, 1943;  
Esquina da Noite, 1956); Joo Pedro de Andrade (1902-1974), 
crtico literrio e teatral que representa a transio do 
naturalismo para as conquistas do teatro simblico, 
expressionista ou da escola de Pirandello (A Outra Face da Vida, 
1934; Continuao da Comdia, 1939; as duas peas de Teatro, 
1941; O Saudoso Extinto, 1947; A Inimiga dos Homens, 1951; O 
Diabo e o Frade, 1963); Costa Ferreira (n. 1918), actor e 
produtivo autor, actualiza os moldes da crtica s relaes de 
convivncia que determinam a dissoluo dos laos sociais e o 
isolamento individual (Tragdia do Rio, 1937; Quando a Verdade 
Mente, 1955; Um Dia de Vida, 1958; Um Homem S, 1959; Os 
Desesperados, 1961); Lus-Francisco Rebelo (n. 1924), animador 
do Teatro-Estdio do Salitre, crtico e historiador do teatro 
portugus, que experimenta diversos recursos

contemporneos da linguagem teatral no sentido de uma crtica 
iluminada, quer pela obsesso existencial da morte, quer pelo 
seu progressismo social

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
            1163
O
(dois volumes de Teatro, 1959, reunindo obras datadas desde 
1947, Condenados  Vida, 1963; ver adiante e, quanto  histria 
do teatro, notar a bibliografia); Alexandre Babo (ri. 1916), 
crtico de teatro e autor de H uma Luz que se apaga, 195 1, e 
Encontro, 1955.

Das criaes mais originais dos ltimos decnios, quase todas 
ainda irrepresentadas, nomeemos as seguintes de autores que no 
so fundamentalmente dramaturgos: O Indesejado, 195 1, de Jorge 
de Seria, que  de h muito tempo o mais significativo tentame 
portugus de um teatro em verso, sugerido pelo de T. S. Eliot, 
mas sobre assunto nacional e com inteno diferente (as peas em 
um acto e ainda esboos dramticos de Jorge de Seria esto 
reunidas no volume Mater Imperialis, 1989); Sucubrina ou a 
Teoria do Chapu, 1953, pea surraliste de Manuel Lima e 
Natlia Correia, autora individual de outras provocativas peas 
de stira, e, mais recentemente, de Erros meus, m Fortuna, Amor 
Ardente, 199 1; A Palavra  de Oiro, 196 1, e O Nariz de Cic 
patra, 1962, Anfitrio outra vez, 1980, de Augusto Abelaira, 
farsas onde palpitam problemas de tica social e poltica; O 
Render dos Heris, 1960, de Jos Cardoso Pires que,  luz de 
certos processos assimilados do teatro de Breclit, utiliza o 
levantamento de Maria da Fonte como tema de reflexo sobre as 
revolues rurais tradas (do mesmo autor, a pea Corpo-Delito 
na Sala de Espelhos, estreada em 1979); Os Implacveis, 196 1, e 
O Gigante Verde, 1963, No Princpio ser< a Carne, 1969, 
tentames de um teatro de *liturgia mgica+ oficiada pelos 
actores, de Manuel Granjeio Crespo (ri. 1939 - t 83.03.23); A 
Engrenagem, 1972, de Jos Fernandes Fafe, concebida em anttese 
ao guio cinematogrfico homnimo de L-P. Sartre. As marcas do 
teatro *do absurdo+ ou do ritual sentem-se na produo de 
Manuel Barbosa (n. 1925): O Palheiro, 1963, O Piquenique, 1964,
O Insecticida, 1967.

A mais conhecida revelao de uma personalidade de dramaturgo , 
nos

ltimos decnios, a de Bernardo Santareno (pseudnimo de Antnio 
Martinho do Rosrio, ri. 1924 - t 80.08.29), cuja bela 
imaginao dialogal e


cnica vai inspirar-se na fraseologia e num misto de poesia e 
superstio populares, e organiza tal inspirao segundo certo 
sentimento, ertico e religioso, de uma ntima comunho humana a 
realizar atravs mesmo da crueldade, teorizada por Artaud 
(Teatro, 1957; Lugre, 1959; O Crime da Aldeia Velha, 1959; 4. a 
edio 1974; Antno Marinheiro, O dipo de Alfama,

1164                                        HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
1960, reedio 1966; Os Anjos e o Sangue, 196 1). O Judeu, 1966, 
6. > edio 1983; O Inferno, 1967; A Traio do Padre Martinho, 
1969, 4.1 edio
1974, assinalam urna evoluo no sentido da denncia das 
represses inquisitoriais ou fascistas, com integra o dos 
recursos e obsesses j anteriormente pessoais numa estruturao 
sugerida pelo teatro pico de Brecht. Nas peas reunidas em Os 
Marginais e a Revoluo, 1979, focam-se quer os conflitos quer 
as tenses entre a situao poltica de 1974-76 e variadas 
formas de marginalidade.

O Vagabundo das Mos de Oro foi, em 1961, 4. a edio 1974, a 
melhor consagrao drarnatrgica de Romeu Correia (n. 
1917.11.17); na linha de experincias anteriores, integra na 
tradio realista, focada em tipos ribeirinhos de Almada e 
Cacilhas, um conjunto de recursos que vm do expressionismo, da 
tradio popular (romanceiro e fantoches) e do antiteatro, 
elevando sensivelmente o nvel a uma carreira de teatro, romance 
e conto muito marcada pela sua origem popular, e pela intuio 
da aco cnica, o que nem sempre acontece com os autores aqui 
mencionados (Desporto-Re, teatro,
195 1, revista, 1955; Casaco de Fogo, 1955, edio refundida 
1970; O Cravo Espanhol, 1967; Trs Peas, 1968; Roberta, 197 1; 
Tempos Difceis, 1982;
O Andarilho das Sete Partidas, 1983; Cais de Ginja], revista, 
1989). Aponte-se tambm a evoluo de Pedro Serdio, pseudnimo 
de Avelino Cunhal (1887-1966), tambm contista (Senalonga, 1965; 
Areias Secas, 1980), que de Dois Compartimentos, 1944, Naquele 
Banco e Ajuste de Contas, ambos de 1947, at Tudo Noite, 1965, 
progrediu no sentido de um mais imaginativo neo-realismo.

 consagrao de Bernardo Santareno, veio, j no decnio de 
1960, acrescentar-se a de Lus de Sttau Monteiro (n. 1926), com 
Felizmente h Luar, 1961 (10. a edio em 1978), que, sobretudo 
no primeiro acto, ade- qua  interpretao das condies 
histricas portuguesas a tcnica realista de Bertolt Brecht. 
Sttau Monteiro produzira j um romance em 1960, Um Homem no 
chora, 8.1 edio 1979, e em 1961 obtivera tambm um grande 
xito nesse gnero com Angtistia para o Jantar, a] is 
construdo segundo uma


sucesso de cenas dramticas que denunciam impiedosamente certos 
preconceitos e iluses dominantes (8. edio 1980). Algumas 
obras posteriores: Peas em um Acto (A Guerra Santa, A Esttua), 
1966, reedio 1974; As Mos de Abrao Zacut, 1968; Sua 
Excelncia, 1971, 4. a edio 1974; E

Z a PO@ - POCA CONTEMPORNEA                                 
           1165

se for rapariga chama-se Custdia, narrativa, trs edies 1978, 
em que se mantm constante a denncia da violncia e a 
responsabilizao pelos direitos humanos; Crnica Atribulada do 
Esperanoso Fagundes, 1981, stira construda com intencionais 
sobreposies anacrnicas entre as revolues de 1383, 1820, 
1910, 1974.

Estreitamente afim do experimentalismo formal de Poesia 61 e da 
Coleco Nova Vaga, que desde 1961 se consagra s tentativas do 
novo romance, so as colectneas de obras do Teatro de Novos, 
1961, Novssmo Teatro Portugus, 1962, e Teatro 62, s quais 
alis (como  Nova Vaga) no  alheia uma inteno de realismo 
social. Algumas das peas includas merecem o

maior interesse. Entre os jovens autores representados na 
segunda colectnea, Fiama Hasse Pais Brando (n. 1938) tem j 
quatro volumes de teatro publicados individualmente: Os Chapus 
de Chuva, 1961, que foi Pr mio Revelao de Teatro; O 
Testamento, 1962; A Campanha (com mais trs peas), 1965; Quem 
move as rvores, Poe ou o Corvo, ambas de 1979 (o volume Teatro-
Teatro, 1990, inclui, alm deste ltimo, trs outras peas, em 
que obras e figuras conhecidas da tradio cultural mergulham 
num fundo

potico, talvez esotrico); e Augusto Sobral (n. 1933) publica 
individualmente, entre outras obras, Os Degraus, 1963, pungente 
dramatizao de certa juventude intelectual combativa, e depois 
Memrias de uma Mulher Fatal e A Morte de Alfred Man, 
representadas em 1982. Acrescentemos Jos Estvo Sasportes (n. 
1937), Artur Portela Filho (n. 1937), Maria Teresa Horta e 
Teresa Rita Lopes (n. 1937), esta ltima autora de Os Trs 
Fsforos, de Adeus, Joo e de Sopinhas de Mel, representados em 
1983, alm de uma sntese dramtica dos heternimos de Pessoa. 
Mencionemos ainda, entre as melhores peas: Alia, 1963, de 
Rben A.; R TX 78124, de Antnio Gedeo,

1963; O Motim, 1965, de Miguel Franco (n. 1918 - t 1988), que 
publicou Legenda do Cidado Miguel Lino sobre o tema da 
revoluo burguesa trada pelo bonapartismo, Prmio Almeida 
Garrett de 1969, edio 1970, reedio 1973, e Afonso 111, 1970, 
de Ernesto Leal (n. 1913), ambas com fundo histrico e inteno 
actual, como outras de Santareno, Sttau Monteiro e Cardoso 
Pires, a que podemos acrescentar A Outra Morte de Ins, 1968, e 
Antnio Vieira, 1973, esta ltima excelentemente construda, de 
Fernando Luso Soares (n. 1924), autor de outras peas teatrais, 
de vrios volumes de combativa novelstica intervencionista e de 
estudos literrios, e Prncipe

1166                                      HISTRIA DA LITERATURA 
PORTUGUESA
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Perfeito, 1988, expresso cnica da profisso historiogrfica de 
Jos Borges Coelho. Entre outras evocaes de inspirao 
histrica ou mtica, mas de matiz helnica, mencionemos Mulheres 
de Tria, 1989, pea trgica de Fonseca Lobo.

Na fase final do regime deposto em 74.04.25, assistiu-se a uma 
multiplicidade de esforos na organizao de grupos teatrais 
no-comercialistas destinados a um novo pblico popular, que de 
modo mais ou menos precrio se sucederam e, por vezes, se 
mantiveram numa difcil e corajosa continuidade, arcando com a 
impreparao geral desse pblico e dos prprios agentes teatrais 
e com um atrofiante sistema censrio de vrias instncias, que, 
inclusivamente, discriminava entre o teatro para a burguesia da 
Costa do Sol, o do Teatro Nacional, o do pblico popular 
lisboeta e o do resto do pas, colocados sob tutelas 
gradativamente vigilantes. A extino da(s) censura(s) permitiu 
a reanimao das companhias ento existentes e o aparecimento de 
novos grupos, alguns dos quais chegaram a vilas, bairros 
populares, aldeias ou unidades agrcolas colectivas, no Sul e no 
Norte. Alm das associaes de amadores, de semiprofissionais ou 
de (precariamente) profissionalizados a que j fizemos 
referncia,  justo mencionar, a este respeito, com a indicao 
dos anos de estreia, o Grupo Quatro, 1967 (depois Novo Grupo), 
Os Bonecreiros, 197 1, A Comuna, 1973, O Grupo de Campolide, 
1973, a Casa da Comdia, a Corriticpia, 1973, a Centelha, o 
Teatro Experimental de Cascais, 1965, o Teatro-Estdio de 
Lisboa, Os Cmicos, 1975, a Barraca, 1975, a Seiva Trupe do 
Porto, 1973, Teatro Hoje,
1975, Proposta, 1976, o Adque, 1975 (que renovou a tradio da 
revista de stira poltica e social anterior ao salazarismo), O 
Bando, nos anos 80,

e ainda outros agrupamentos na margem sul, nas Caldas da Rainha, 
nos arredores do Porto, em Viseu, em S. Pedro do Sul, em Setbal 
(TAS, 1975), o Centro Cultural de vora, fundado por Mrio 
Barradas, dirigido depois por Lus Varela e que integrou os 
tradicionais *Bonecos de Santo Aleixo+,
1975, Teatro Malaposta (Grande Lisboa), Teatro de Noroeste 
(Viria, 1991) etc.. Deve tambm salientar-se o papel 
desempenhado pelo Instituto Alemo, sob a direco ou inspirao 
de Curt Meyer-Clason, pela oportunidade concedida para o 
conhecimento, atravs da representao por troupes portuguesas, 
de formas entre ns ainda desconhecidas do teatro germnico 
desde o expressionismo  actualidade; j depois de 25 de Abril, 
a encenao

7.  POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
            1167
O
de peas portuguesas at ento proibidas, no Teatro Maria Matos, 
sob direco de Artur Ramos; bem como a aco de encenadores 
estrangeiros, entre os quais o brasileiro Augusto Boal; e, mais 
recentemente, o apoio da Acarte, da Fundao C. Gulbenkian. 
Entre os frutos da descentralizao mencionaremos as Sete Peas 
em um Acto, de Antnio Cabral e Antnio Manuel Pires Cabral, 
1977, de implantao transmontana, e Saco das Nozes, 1982, deste 
ltimo.

Estes referidos grupos levaram  cena originais portugueses 
anteriormente irrepresentveis, embora (como  natural, dada a 
imaturidade da experincia teatral portuguesa) o trabalho 
imediato consistisse em apresentar, e nalguns casos adaptar, 
autores estrangeiros mais ou menos interditos e que todavia 
balizam o progresso do ltimo meio sculo de dramaturgia e de 
encenao, incluindo algumas das peas mais nomeadas de Grki, 
Brecht, Sean O'Casey, Peter Weiss, Sternheim, Wolfgang Bauer, 
etc.. Animou-se, correspondentemente, a publicao de sries de 
obras dramticas, como Cena Actual, Coleco Teatro Vivo, Teatro 
Centelha, Repertrio da Sociedade Portuguesa de Autores, 
Contravento, Movimento, Arcdia, a seco teatral da Editorial 
Caminho, etc., e, desde Nov./Dez. 1990 a revista Adgio do 
Centro Dramtico de vora, alm de outras publicaes mais 
directamente ligadas a

grupos ou a espectculos de maior xito.

Deste modo, alm das peas j anteriormente referidas, 
tentaremos registar alguns aspectos desconhecidos ou inflexes 
particularmente importantes nos

autores consagrados. Assim, Jaime Salazar Sampaio (n. 1925) j 
figurava em colectneas dos anos 60 e era conhecido por obras 
sumariamente classificveis como de teatro do absurdo e da 
frustrao (Os Visigodos e outras peas, 1968; A Batalha Naval, 
1970), mas em 1976 representa-se e publica-se, da sua autoria, 
Os Preos, de stira social directa e actual, conquanto mantendo 
marcas da sempre intencionada liberdade imaginativa. (Ver o

volume Seis Peas, coleco Teatro Vivo, ainda Inaugurao da 
Esttua e

O Professor de Piano, 1991.)


Notemos ainda: Tongatabu, 1965, de Orlando Vitorino (n. 1923); e 
A

Rabeca, 1959, A Bengala, 1972, A Caixa, 1980, peas do absurdo 
objectivo e da frustrao de Hlder Prista Monteiro (n. 1922), 
cuja maturidade de dilogo, numa problemtica da amizade, o 
amor, a generosidade (ou no) se atinge com O Mito, 1980, 
Naturalmente! Sempre, 1982.

1168                                        HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
No extremo esteticamente oposto, Richard Dernarcy e Teresa Motta

realizam e publicam uma srie de Fbulas sobre a Revoluo 
Portuguesa (coleco Centelha), que constituem o comentrio 
sinttico e imediato de

acontecimentos de relevncia histrica. Lus-Francisco Rebelo 
alcana a oportunidade de publicar um volume de Teatro de 
Interveno, incluindo cinco peas mais ou menos geralmente 
interditas, redigidas entre 1946 e 195 1, uma farsa indita, um 
Prlogo adaptando  reforma agrria portuguesa aquele que Brecht 
fizera para o Crculo de Giz, e escreve o texto do espectculo 
de documentrio retrospectivo Portugal Anos Quarenta, edio 
1983. Luzia Maria Martins (n. 1927), directora do Teatro-Estdio 
de Lisboa, tornara-se conhecida com Bocage, Alma sem Mundo, 
1967, e Anatomia de uma Histria de Amor, 1968, e teiri com o 25 
de Abril o ensejo de fazer representar Lisboa 72-74, 
actualizando um texto at ento proibido, a que faz seguir 
Trapos e Rendas.  precisamente em Abril de 1974 que Mendes de 
Carvalho, autor de alguns volumes de stira, publica A 10. 1 
Turista, farsa pretextada num jogo de absurdo de certa pretensa 
estatstica *decimal+, em busca

de solues para a economia nacional que se pretenderiam basear 
na dependncia turstica ou na exportao sumpturia.

A mais importante revelao imediata da dramaturgia posterior ao 
25 de Abril , provavelmente, Carlos Coutinho, que por sinal se 
encontrava em julgamento sob priso na altura do movimento. Em 
1972 editara O Herbicida, reedio 1974, baseado numa fantasia 
alegorizante (Lisboa, por um

lapso militar, seria atingida por um desfolhante txico 
destinado ao Vietname), que constitui uma sofisticada crtica 
aos idelogos do estruturalismo psicanaltico em moda, cuja 
linguagem impregna o dilogo dos ltimos * sobre- viventes+ 
lisboetas. Muito diferentemente, A ltima Semana antes da Festa,
1974,  uma srie de quadros flagrantemente documentais de um 
asilo de velhos, dando a ler  transparncia, e sem artifcio 
visvel, toda a estrutura


social envolvente. Por ltimo, h a considerar os dois volumes, 
muito variados, do seu Teatro de Circunstncia: no primeiro 
volume, com cinco peas, 1976, est em foco directo a actuao 
do aparelho de represso e a luta dos militantes resistentes; no 
segundo volume, com duas peas, 1977, sob o ttulo a trao 
demasiado grosso de A Estratgia do Cnismo, consegue 
surpreender as grandes tenses dos nossos dias no 
desenvolvimento das prprias relaes ntimas e domsticas das 
personagens. (Carlos Coutinho  tambm autor

7. - POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
            1169
O
de dois livros de crnica ou testemunho de represso interna e 
colonial, Recordaes da Casa dos Mortos, 1976, e Uma Noite na 
Guerra, 1978, e de uma novela de tema anlogo, O que agora me 
inquieta, 1985.) Um produtivo autor e encenador de stira e de 
oportunas reconstituies histricas em cima dos acontecimentos 
 Hlder Costa (ri. 1939), de que apenas mencionaremos A Camisa 
Vermelha, 1977, Trs Histrias do dia-a-dia, 1977, Z do 
Telhado,
1978, D. Joo VI, 1979, e A Viagem, 1982. Uma das mais 
conseguidas peas sobre o 25 de Abril  A Noite, 1979, reedio 
1987, de Jos Saramago, que tipfica o impacto imediato da 
revoluo democrtica nos conflitos internos  redaco e  
oficina grfica de um jornal; deve-se-lhe tambm o melhor entre 
os numerosos dramas histricos relacionados com o 4. > 
centenrio camonano, Que fare com este livro?, 1980, e ainda A 
Segunda Vida de S. Francisco de Assis, 1986, reduo ao absurdo 
da apologia franciscana da pobreza. Em 1992 Mrio de Carvalho 
publicou um volume gua em Pena de Pato - Teatro do Quotidiano, 
trs peas produzidas desde 1986 e em

que vibra, surda, e descompensada frustrao dos entusiasmos de 
1974; e

Eduardo Dionsio, Antes que a noite venha, onde se contrastam as 
vozes

de quatro figuras trgicas tradicionais femininas.

 ainda de notar a adaptao teatral de obras de histria ou 
fico narrativa, como Os Bichos, de Torga, Seara de Vento, pelo 
autor, Manuel da Fonseca, O Muro, extrado, pela Comuna, de um 
conto de J. Gomes Ferreira, Contos Cruis, que a Seiva Trupe 
encenou a partir de obras diversas de Jorge de Seria, e At 
Amanh , Camaradas!, de Manuel Tiago. Tambm da primeira parte 
da Crnica de D. Joo I de Ferno Lopes se fizeram em
1977 duas verses dramticas com um directo cunho exemplarista.e 
sem preocupaes de fidelidade filolgica ou de distanciao 
histrica: 1383, de Virglio Martinho (ri. 1928), que pertenceu 
ao agrupamento surrealista-abjeccionista e  autor de outras 
peas de alegoria concentracionria, como


O Grande Cidado, 1976, entre outros volumes de novelstica com 
rastos surrealistas; e Arraia Mida, de Jaime Gralheiro, tambm 
autor de O Farruncha, pea infantil, 1975. Houve outras 
tentativas motivadas pelo 6. > s culo da revoluo de 1383. 
Entre outras peas de tendncia intervencionista, mencionemos 
ainda as de Jlio Valarinho (ri. 1948), com A Grande Marcha,
1975, O Artilheiro, 1980, s Portas do Sol, 1984; e Mrio 
Castrim: Com Fantasmas no se brinca, 1988. A experincia 
directa ou indirecta da guerra
O
HLP - 74

1170                                          HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
colonial patenteia-se em Isabel Mediria (frica, 1989) e 
Fernando Dacosta (Um Jeep em Segunda Mo, 1979).

Uma filosofia pessimista da histria portuguesa, uma introverso 
romntico-simbolista caracterizam a obra do malogrado Miguel 
Rovisco (n. 1959.12.09-t 1987.10.03), que se suicidou na altura 
em que parecia consagrar-se: Dilogia Portuguesa (0 Bicho; A 
Infncia de Leonor de Tvara;
O Tempo Feminino), edio 1987, Trilogia dos Heris (0 Homem da 
Pluma Azul; O Homem dentro do Armrio; Um Homem para qualquer 
Ptria), alm de numerosos outros textos inditos e 
irrepresentados. Maria Lusa Gomes em Nunca nada de ningum 
versa temas de actualidade em focagem feminina, 1991. 
Registemos, entre outras vrias tentativas de farsa musical, A 
Jangada, de Jos Viana, e Os Macaces e A Mo Misteriosa, de 
Augusto Sobral e Ary dos Santos.

So de assinalar vrias tentativas de levar o teatro a boites, 
bares, restaurantes ou de ressuscitar o caf-concerto: principal 
xito foi o de Um Clice de Porto, em cena durante 1982-84, por 
iniciativa da Seiva Trupe,  qual se deve tambm a organizao 
anual no Porto do FITEI, festival baseado em teatro de expresso 
ibrica. Entre vrias tentativas de teatro infanto-juvenil, que 
mereceriam estudo  parte, salientemos As Histrias de Hakim, 
1978, de Norberto de vila (ri. 1936).

No domnio da crtica, da teoria e da histria teatral, 
mencionemos a

actividade permanente de Carlos Porto, Lus-Francisco Rebelo, J. 
A. Osrio Mateus e ainda Pedro Barbosa (Teoria do Teatro Moderno 
- Axiomas e Teoremas, 1982), tambm autor de uma provocativa 
pea que conta com

vrias hipteses de eventual reaco do pblico, Erstrato, 
1983.

Salientemos a reabertura, em 1978, do Teatro Nacional de Lisboa, 
edifcio que um incndio destrura h anos. Tm-se mantido muito 
incertos os critrios de apoio  descentralizao e 
democratizao do teatro pelo fundo oficial correspondente.

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                      1171
O
////// & UZ 10 M FIA
O
Teatro:

Rebelo, Lus-Francisco: Teatro Moderno: Caminhos e Figuras, 
1965, reed. 1977; Imagens do Teatro Contemporneo, Lisboa, 196 
1; Histria do Teatro Portugus, 4. > ed --1989; Combate por um 
Teatro de Combate, 1977; O Teatro Naturalista e o Neo-Romntico 
(1870-1910), 1978; O Teatro simbolista e modernista, 1979, in 
*Biblioteca Breve+, ICP; Histria do Teatro de Revista em 
Portugal, 2 vols., Dom Quixote, 1984-8 5; e 100 Anos de Teatro 
Portugus (1880-1980), Edit. Braslia, Porto, 1984; Histria do 
Teatro, col. Snteses da Cultura Portuguesa, IN-CM, 1991.

Vilaa, Mrio: Teatro Contemporneo, *Vrtice+, Coimbra, 1967. 
Picchio, Luciana Stegagno: Histria do Teatro Portugus, Lisboa, 
com uma desenvolvida e bem ordenada bibliografia, Portuglia, 
1969; Profilo Storico delia Letteratura Dramatica Portoghese, 
Milo, 1967.

Cruz, Duarte lvo: Introduo ao Teatro Portugus do Sc. XX, 
Lisboa, 1969. Porto, Carlos: Em busca do Teatro Perdido, 2 
volumes (1958-71), 1973; Teatro de Abril (e no), in Dirio de 
Lisboa, 78.04.25, includo numa folha especial desse peridico 
sobre Quatro Anos de Cultura em Portugal (25 de Abril de 1974 a 
25 de Abril de 1978);
O Teatro nos anos 60, *Vrtice+ 11 Srie, 27, Junho 1990, pp. 
36-41 (contm cronologia).

Mendona, Fernando: Para o estudo do teatro em Portugal (1946- 
1956), Faculdade de Filosofia, Cincias e Letras de Assis, So 
Paulo, 197 1.

Tabucchi, Antonio: /I Teatro Portoghese dei dopoguerra 
(Trent'anni di Censura), Edizioni Abete, Roma, 1976.

Osrio, J. A.: Escrita de Teatro, Bertrand, 1977.

Santos, M. Antnia dos Reis: O Teatro no Sc. XX em Portugal, 
Grfica Olmpica, Rio de Janeiro, 1979.

Porto, Carlos/Meneses, Salvato Teles de: 10 Anos de Teatro e 
Cinema em Portugal (1974-84), Caminho, 1985. Ferreira, Costa: 
Uma Casa com Janelas por Dentro (Memrias de Teatro), lN-CM e 
SPA, 1985.


Simes, J. Gaspar: Crtica VI - O Teatro Contemporneo (1942-
1982), IN-CM, 1985. Barata, Jos Oliveira: Histria do Teatro 
Portugus, Universidade Aberta, 1991 (interessa a toda a 
histria teatral portuguesa, embora no o tenhamos conhecido a 
tempo de mencionar em captulos anteriores; examina, em 
especial, obras de Bernardo Santareno e Sttau Monteiro, e cita 
bibliografia monogrfica para autores e obras).

Em M. Manuela Gouveia Delille, *0 Judeu+ de Bernardo Santareno: 
suas relaes com o teatro pico e 8. Brecht e com o teatro de 
P. Weiss sep. rev, *Runa+, 2/84, 1985, encontram-se bem 
determinadas certas linhas de influncia desses dois autores 
alemes e ainda de outros, na dramaturgia portuguesa.

Do Pobre B. B. em Portugal - Aspectos da Recepo de Bertolt 
Brecht antes e depois do 25 de Abril de 1974, coord. e pref. de 
M. Manuela Gouveia Delille, Editora Estante, Aveiro, 1991 (com 
muitos dados e bibliografia de interesse geral, ilustraes e um 
inventrio cronolgico).

1172                                               HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
1111119187f106,,4HA COMPI-PNEXT4,DVEA UrMES,0OS CAp-TUZ OS V, 
VI, VII e VIII
O
Apenas se mencionam as principais obras no referidas no texto e 
estudos no includos em bibliografia geral. Excluem-se tambm 
estudos que acompanham edies. Como tradues, apenas se 
referem as principais coleces antolgicas individuais de 
poesia. RUBEN A. - estudos: in Memoriam, 3 vols., IN-CM, 1981.

AUGUSTO ABELAIRA - fico: Ode (quase) martima, c. 1978; O 
Triunfo da Morte,
198 1. - teatro: Anfitrio outra vez, 1980. - estudos: tese de 
doutoramento de M. Elvira Souto Presada, Santiago de Compostela, 
1989; M. Lcia Lepecki: Meridianos do Texto, Assrio e Alvim, 
1979.

MANUEL ALEGRE - poesia: Um Barco para taca, 1974; Coisa Amar 
(Coisas do Mar),
1976; Babilnia, 1983, reed. 1986; 6 Homens do Pas Azul, 1989 - 
fico: Jornada de frica, r., 2 eds., 1989, sobre a guerra 
colonial com trgicos ressaibos da demncia sebastianista; O 
Canto e as Armas e Atlntico, reunio de poemas anteriores, Dom 
Quixote, 1989. EUGNIO DE ANDRADE - poesia: Adolescente, 1942; 
Pureza, 1944; reed. separadas em 1978 e 198 1; Primeiros Poemas, 
5. ed., 1986; Vspera de gua, 1973, reed. 1975; Poesia e Prosa 
(1940-1986), 4. ed. aum., 3 vols., e um 4. vol. com 
bibliografia de Arnaldo Saraiva, Crculo de Leitores, 1987, 4. 
> ed. aum., 2 vols., O Jornal - Limiar,
2 vols.; Rente ao Dizer, 1992. - antologia: col. *Textos 
Literrios+, org. por Paula Moro,
198 1; para criancas: Histria de gua Branca, 1977, 3. > ed. 
1986; Aquela Nuvem e Outras, 1986; prosa: Porto: Os Sulcos do 
Olhar, lbum, 1988; tradues: Poemas de G. Lorca, 1946, 4. > 
ed. 1979; Cartas Portuguesas, 1969, 5. > ed. 1986; Poemas e 
Fragmentos de Safo, 1974, 2. a ed. 1982; Trocar de Rosa 
(tradues antolgicas), 1980,
2. > ed. 198 1; principais tradues: Ostinado Rigore, por C. 
V. Cattaneo, Abete, Roma,

1975; Antologia Potica, por Angel Crespo, Plaza & Jans, 
Barcelona, 1981; Vingt-sept Pomes de E. Andrade, por Michei 
Chandeigne, Paris, 1983; Matire Solaire e Le Poids de L'Ombre, 
ambos trad. e pref. por Michel Chandeigne et alii, ditions de 
Ia Diffrence, Paris, 1986, seguidos de Blanc sur Blanc e crits 
de Ia Terre, 1988; Inhabited Heart, por Alexis Levitin, Private 
Press, Califrnia, 1985; Memoria d'Outru Riu, trad. asturiana, 
por Antonio Garca, Libros de Frou, Oviedo, 1985; Poemas, trad. 
cast. e asturiana, Oviedo,
1988; Memory of Another River, trad., New Rivers Press, N. 
lorque, 1988; El Otro Nombre de Ia Tierra, por Angel Crespo, 
Valncia, 1989; Versants du Regard, por P. Quillier, La 
Diffrence, Paris, 1989; LAutre Nom de Ia Terre, trad. por M. 
Chandeigne, La Diffrence, Paris, 1990; Com Palavras Amo, ed. 
bilngue portugus-chins, Inst. Cult. de Macau,
1990; Ostinato Rigore, trad. catal, Edicions 62, Barcelona, 
1991; Slopes of a Gaze, trad. A. Levitin, Apalaches Press, 
Florida, 1992 - estudos: 21 Ensaios sobre E. de Andrade, Inova, 
Porto, 1971 (com ampla bibliografia); Maria Lgia Martila Aiele, 
A Poesia de E. Andrade em Tempo de Metamorfose, tese de dout., 
So Paulo, 197 1; S. P. de Azevedo, Rigorosa Arquitectura, 
Sorbona, 1976; scar Lopes, Uma Espcie de Msica, IN-CM,
1979; Lus Miguei Nava, O Essencial sobre E. de Andrade, IN-CM, 
1987; Vasco da Graa Moura, Vrias Vozes, 1987, pp. 120-148; 
Carios A. Mendes de Sousa, O Nascimento da Msica - A Metfora 
em E. de Andrade, dissertao de mestrado, Fac. de Letras,

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
                        1173

Coimbra, 1988. *Letras e Letras+, n. - especial dedicado a E. 
de Andrade, 32, Agosto de 1990.

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN - poesia: O Cristo Cigano, 
1961, reed. s/d.; Poesia, 3. a ed. 1975; Tempo Dividido e Mar 
Novo, reed. rev. e ampi., 1985; Poemas Escolhidos; Crculo de 
Leitores. - antologia: Poesia de S. M. 8. A., apres, e selec. de 
Silvina Rodrigues Lopes *Textos Literrios+, Comunicao, 1990 
(tem bibliografia). Saram em 1990-91 trs vols. previstos de 
Obra Potica, Caminho, Lisboa. - contos: A Casa do Mar, 1979; 
Histrias da Terra e do Mar, 1984, 3. ed., Texto Editora, 1989 
tradues: /I Nome delle Cose, trad. Fogli di Portucale, Roma, 
1984. Mediterrane (antologia), d. de Ia Diffrence, Paris, 
1980, Marine Rose (antologia), Black Swan Book, 1988;
11 Nome delle Cose, intr. e trad. V. Cattaneo, Fogli di 
Portucale, 1983; Navigations, Paris,
1988, e Contes Exemplaires, 1988, Paris, ditions de Ia 
Diffrence; 11 Muro, il Mare, Japadre Ed., Roma, 1987. - 
estudos: ver textos e bibliografia no n. O especial (dossier) de 
*Letras e Letras+, n. O 47, Maio de 199 1. ANTNIO LOBO ANTUNES 
- romances: Os Cus de Judas, 1979, 14. ed. 1986; Conhecimento 
do Inferno, 1980, 8. ed. 1987; Explicao dos Pssaros, 1981, 
9. ed. 1988. ANTNIO ALADA BAPTISTA - Peregrinao Interior, 
vol, 1 - Reflexes sobre Deus,
1971, 7. > ed. 1986, ed. brasileira 1983, vol 11 - O Anjo da 
Esperanca, 1982, 3. > ed.
1986; Tia Suzana, Meu Amor, 1989. BAPTISTA-BASTOS - entrevistas: 
As Palavras dos Outros, 3. ed. rev. e aum. 1988; Ensaio: O 
Filme e o Realismo, 1962, reeditado. ANTNIO BARAHONA - poesia: 
Impresses Digitais, 1968; Eunice, 1971; Um Livro Aberto diante 
dum Espelho, 1992.

MARIA ISABEL BARRENO - fico: A Dama Verde, 1983; Contos 
Analgicos, 1983; Clia e Celina, 1985; O Mundo sobre o outro 
Desbotado, *conto fan,tstico+, 1986.

RUY BELO - poesia: Homem de Palavra(s), 1969; Transporte no 
Tempo, 1973; Pas Possvel, 1973; A Margem da Alegria, 1974; 
Obra Potica, 2 vols., Presena, 1. ed. 1981, reed. 1990.

AL BERTO -  procura do Vento num Jardim de Agosto, 1977; Meu 
Fruto de Morder Todas as Horas, 1980; Trs Cartas de Memria das 
ndias, 1985; Uma Existncia de Papel,

1985. - fico: Lunrio, 1988. - outros textos: A Secreta Vida 
das Imagens, 1991. trad.: Lavori dello Sguardo, por C. V. 
Cattaneo, Roma, 1985, AGUSTINA BESSA-LUS - fico: Os Super-
Homens, r. 1950; O Manto, r., 1961; Sermo do Fogo, r., 1962; Os 
Quatro Rios, r., 1964; A Dana das Espadas, r., 1966; A Cano 
diante de uma Porta, r., 1966; Homens e Mulheres r., 1967; As 
Categorias, r.,
1970; Camiloeas Circunstncias, 1981; Um Bichoda Terra (Urielda 
Costa), 1984; Martha Telles, 1986; A Monja de Lisboa 
(bibliografia de Maria da Visitaco, do sc. XVID, 1985; A Corte 
do Norte, 1987; Prazer e Glria, r., 1988; Eugnia e Silvina, 
1989; Verbo Abrao, r., 1991 - teatro: O Inseparvel, 1958; A 
Bela Portuguesa, 1986; Aforismos, extrados dos livros de 
fico, 1988. - viagens e ensaios: Embaixada da Caligula, 1967; 
Longes Dias Tm Cem Anos, 1982. - estudos: lvaro Manuel 
Machado, Agustina Bessa-Lus (o Imaginrio Total), Dom Quixote, 
1983 (com extensa bibliografia); e A. 8. L.., col. *Vida

1174                                             HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

e Obra+, Arcdia, 1979; M. Antnia Cmara Manuel e J. M. 
Morais, Anlise de *A Sibila+ de A. 8. L., Didctica Editora, 
1987; n. > especial de * Letras e Letras+, 12, Dezembro
1988; M. Glria Padro e M. H. Padro, A Sibila de A, B. L., 
compilao de crticas e ensaios, Asa, Porto, 1982; Silvina 
Rodrigues Lopes, A Alegria da Comunicao, IN-CM,
1989, e A. 8.-L. As Hipteses do Romance, tse, 1992 (contm 
bibliografia que inclui dispersas, entrevistas e artigos sobre a 
escritora); Laura Fernanda Bulger, A Sibila Uma Superao 
Inconclusa, Guimares Editores, Lisboa, 1990; teses de 
doutoramento de Simone M. de Oliveira, Rio de Janeiro, 1978; 
Catherin Konga Dumas, 3. > cicie, Sorbona,
1984; Elisa Guimares Pinto, So Paulo, 198 1; e M. E. Souto 
Presado, Santiago de Compostela, 1989. Agustina por Agustina, 
entrevista por Artur Portela, Dom Quixote, 1986.

FERNANDA BOTELHO - fico: O Enigma das Sete Alneas, 1956,, 
Terra sem Msica,
1969 reed. 1991; Loureno  Nome de Jogral, 1971. - estudo: M. 
Lcia Lepecki, O Romance Portugus Contemporneo: Fernando 
Botelho, Belo Horizonte, 1969. MARIA ONDINA BRAGA - fico: Amor 
e Morte, 1970; Os Rostos de Jano, 1973; A Revolta das Palavras, 
1975; Esta o Morta, 1980; A Casa Suspensa, novela, 1982; 
Angstia em Pequim, narrativa, 1984, reed. 1988. - crnica: Eu 
vim para ver a Terra,
1965. - biografias: Mulheres Escritoras, 1980. - estudo: Regina 
Lamas, A Arte da Sugesto em M. O. B., *Colquio/Letras+, 
reed., 1988. MRIO BRAGA - ficco: Caminhos sem Sol, 1948; 
Quatro Reis, 1957, 3, ed. ref. 1979;
O Cerco, 1959; O Livro das Sombras, 1960; Corpo Ausente, 1962; 
Viagem Incompleta,
1963; Antes do Dilvio, 1967. - teatro: Caf Amargo, 1966. NUNO 
BRAGANA - antologia de contos: Estao, 1984. - novela pstuma: 
Do Fim do Mundo, 1990. FIAMA HASSE PAIS BRANDO - poesia: 
Morfismos, 1961; Barcas Novas, 1967; Novas Vises do Passado, 
1975; Homenagemiteratura, 1976; rea Branca, 1979; Falar sobre 
o Falado, 1989; mago /I (Trs Rostos), Assrio e Alvim, 1989.

CASIMIRO DE BRITO - poesia: Poemas da Solido Imperfeita, 1957; 
Sete Poemas Rebeldes, 1958; Telegramas, 1959; Canto Adolescente, 
1961, Viemame, 1968; Labyrinthus,

1981. - prosa: Um Certo Pas ao Sol, 1975; Prtica da Escrita em 
Tempo da Revoluo, 1977; Ns, Outros, colab. com Teresa SaJema, 
1979; Regresso  Fonte, 1985; Onde se acumula o p?, 1987; Arte 
da Respirao, aforismos de um misticismo zen, de profisso 
pantesta e anti-humanista, 1988. ANTNIO MANUEL PIRES CABRAL - 
poesia: Roleta em Constantim, 1981; Os Cavalos da Noite. - 
contos: O Homem que vendeu a cabea, 1987. - crnicas: Os 
Arredores do Paraso (Grij), 199 1.

FERNANDO CAMPOS - fico: Psich, r., e O Homem da Mquina de 
Escrever, novela, ambos de 1987.

ARMANDO SILVA CARVALHO - poesia: Os Ovos de Oiro, 1969; O Peso 
das Fronteiras, 1974; Tcnicas de Engate, 1979; Sentimento de um 
Acidental, 1981; O Livro de Alexandre Bissexto, 1983. - fico: 
O Uso e o Abuso, 1975; A Vingana de Maria de Noronha, r., 1988 
(verso satrica do Frei Lus de Sousa).

MARIA JUDITE DE CARVALHO - fico: Flores ao Telefone, 1968; Os 
Idlatras, 1969; Tempo de Mercs, 1973.

7. a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
                     1175

MRIO DE CARVALHO - fico: O Teu Amorpor Etel, 1967; Os Contos 
da Stima Esfera,
198 1, reed. 1990; A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho, 
1983, reed. 1984; Era uma Vez um Alferes, 1984, reed. 1985; 
Contos Soltos--- 1986; Os Alferes, Caminho,
1989; Quatrocentos Mil Sestrcios Seguida de o Conde Jano, 
Caminho, 1991.

RAUL DE CARVALHO - poesia: Mesa da Solido, 1955; Pargrafos, 
1956; Poemas Inactuais, 1971; Tempo Vazio, 1976; Quadrangular, 
1976; Elsinore, 1980; Um e o mesmo livro, 1984. - estudo: no n. 
> especial dedicado a R. de Carvalho da rev. Silex, 10, Set,
1986.

E. MANUEL DE MELO E CASTRO - poesia: Poligonia do Soneto, 1963; 
Versus-in-Versus,
1965; lea e Vazio, 1971; Viso, 1972; O Prprio Potico, So 
Paulo, 1973; Ciclo Queda Livre, 1973; Crculos Afins, 1977; Re-
Cames, 1980. - ensaio: Literatura Portuguesa de Inveno, So 
Paulo, 1984; Potica dos Meios e Arte High Tech, Vega, 1988.

YVIETTE K. CENTENO - poesia: O Barco na Cidade, 1965; Poemas 
Fracturados, 1967, Irreflexes, 1974; Sinais, 1977; Algol, !979. 
- fico: No Jardim das Nogueiras, 1983; Matriz, r., 1988. - 
ensaio: F. Pessoa, Tempo, Solido, Hermetismo, com Stephen 
Reckert, 1978; A Viagem de * Os Lusiadas+: Smbolo e Mito, com 
S. Reckert, Hlder Godinho e M. Clara Almeida Lucas.

RUY CINATTI - poesia: Sete Septetos, 1969; Poemas Escolhidos, 
org. Alberto Lacerda,
1951; Crnica Cabo-Verdiana, sob pseudnimo Jos Celso Delgado, 
1967; Borda d'Alma,

1970; Uma Sequncia Tmorense, Braga, 1970; Memria Descritiva, 
1971; Conversa de Rotina, 1973; O a Fazer Faz-se, 1976; 56 
Poemas, 1981; Manh Imensa, 1984. prosa: Ossob, c., 1967;  
ainda autor de trabalhos cientficos de fitogeografia, 
meteorologia e antropologia cultural, que se ligam com outros 
textos em prosa ou verso de assunto ultramarino, e de folhetos 
de stira de 1970-76, que reagem conservadoramente  crise final 
do colonialismo, embora tivesse antes dado traos flagrantes e 
compreensivos relativamente s populaes colonizadas. - 
estudos: alm dos includos em bibliografia geral, h uma 
excelente sntese versificada no final da Antologia de 1986, 
pelo seu organizador, Joaquim Manuel Magalhes. MRIO CLUDIO - 
textos: A Voz e as Vozes, 1972; Damascena, 1983; Improviso para 
duas Estrelas de Papel, 1983; Duas Histrias do Porto, 1986; 
Emerenciana ou o Teor das Artes, 1990. - antologia: O Outro 
Gnesis, crnicas, org. e pref. de Paula Moro, Rolim, 1988. - 
estudos: n. > especial de *Letras e Letras+, n. > 10, Nov. 
1988; artigo de Carios Figueiredo Jorge, sobre a descrio ps-
realista em M. C., *Dedalus+, 1, Dez. de 1991, pp. 333-346. 
JOO JOS COCHOFEL - ensaio: Iniciao esttica seguido de 
crticas e crnicas, Caminho, 1992. HLIA CORREIA - fico - O 
Separar das guas, r., 1981, reed. 1985; O Nmero dos Vivos, r., 
1982; Soma, r. 1987; A Fenda Ertica, 1988. JOO DE ARACIJO 
CORREIA - estudo: J. Bigotte Choro, J. de A. Correia - Um 
Clssico Contemporneo, *Biblioteca Breve+, ICALP, 1986. 
NATLIA CORREIA - poesia: Comunicao, 1959, Rio de Nuvens, 
1974; O Vinho e a Ira, 1965; Mtria, 1968; A Mosca Iluminada, 
Poemas a Rebate, 1976; Epstola aos lamitas, 1976; O Dilvio e a 
Pomba, 1979; Armisticio, 1985; Sonetos Romnticos, 1990;

1176                                               HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

- teatro: O Progresso de dipo, 1957; O Hornnculo, 1964; O 
Encoberto, 1969, reed.
1977; Erros meus, m fortuna, amorardente, 1981; Pcora, 1983 - 
fico: Anoiteceu no Bairro, r., 1946; A Ilha de Circe, r., 
1983; Onde est o Menino Jesus, c., 1987.  tambm autora de 
ensaios, de memrias e de volumes antolgicos, como uma 
Antologia da Poesia Ertica e Satrica, 1966.

ROMEU CORREIA - fico: Sbado sem Sal, c., 1974, reed. 1975; 
Trapo Azul, 1948,
3. a ed, ref. 1978; Calamento, 1950, 3. > ed. 1978; Bonecos de 
Luz, r., 1961, 5. > ed.
1988, in Obras de R. Correia; Os Tanoeiros, r., 1976; Um Passo 
em Frente, c., 1976;
O Trito, 1983; Grito no Outono, 1984; Cais do Ginjal, n. 1989 - 
teatro: Isaura, 1955; Sol na Floresta, 1957; Bocage, 2. ed. 
1979; As Quatro Esta es, 198 1; Tempos Difceis, 1985. - 
estudos: n. especial do Suplemento cultural do *Dirio+ 
dedicado ao 70. O

aniversrio de R. Correia, n. > 322, 1987,11.2 1; Alexandre A. 
Flores, R. C. - O Homem e o Escritor, com. aum. de Aimada, 1987 
(larga bibliografia).

MARIA VELHO DA COSTA - ensaio: Ensino Primrio e Ideologia, 
1972; O Mapa Cor de Rosa, 1984. - poesia versicular ou 
aforstica: Corpo Verde, 1979, reed. 1982; Da Rosa Fixa, 1978.

ORLANDO DA COSTA - teatro: A Como esto os Cravos hoje?, 1984. 
BENTO DA CRUZ: Ao Longo da Fronteira, r., 1964; Filhas de Loth, 
r. 1988; Histrias da Vermelhinha, reconto de histrias 
populares, 199 1. GASTO CRUZ - poesia: Hematoma, 1961; A 
Doena, 1963; Escassez, 1967; Teoria da Fala, 19 7 2; Os Nomes 
(reunio dos livros an tenores), 19 79,- Campnula, 19 7 8; 
rgo de Luzes, 1981; Carta a Otelo, 1984. - traduziu: Doze 
Canes de Blake, 1980 estudo: pref. de Manuel de Gusmo a rgo 
de Luzes, 1990. LUSA DACOSTA - crnica: A-Ver-0-Mar, 1980; 
Morrer a Ocidente, Porto, 1990 ensaio e crtica: Aspectos do 
Burguesismo Literrio, 1959; Notas de Crtica Literria, 1960. 
EDUARDA DIONSIO - fico: Pouco Tempo Depois (As Tentaes), 
1984; Histrias, Memrias e Mitos duma Gerao Curiosa, 1987. - 
dirio: Alguns Lugares muito Comuns,
1987.


MRIO DIONSIO - poesia: Poemas, 1941; As Solicitaes e 
Emboscadas, 1945. ensaio e crtica: Ficha 14, 1944; A Paleta e o 
Mundo, 1956, reed. 1960, 1973-82; Obras de M. Dionfsio, 10 
vols., 1966-1982. - estudos: ColquiolLetras, n. 92, Julho 
1986, em homenagem a M. D. - Mrio Dionisio - Autobiografia, O 
Jornal, 1987 (interessa tambm como testemunho sobre o neo-
realismo); M. D. - 50 Anos de Vida Literria, Museu do Neo-
Realismo, V. F. de Xira, 1991. FERNANDO ECHEVERRA - estudos: 
Dossier *em Letras e Letras+, n. > 57, 17 Outubro 1991. - 
traduo: Figures, por J. Lageira e Bernard Noel, *Les Cahiers 
de Royaumont+, 1990. JOS GOMES FERREIRA - fico: Tempo 
Escandinavo, 1969; Sabor das Trevas, 1976, reed. 1978; O Enigma 
da rvore Enamorada, 1980. - teatro: 5 Caprichos Teatrais,
1978. - crnica e memrias: O Irreal Quotidiano, 1971; Gaveta de 
Nuvens, 1975; Revoluo Necessria, 1975; Interveno Sonmbula, 
1977; Coleccionador de Absurdos, 1978. Pela ed. das Obras, Dom 
Quixote, foi lanado em 1990 o 1 . > vol. de um dirio indito,

7 @ POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
                         1177

Passos Efmeros - Dias Comuns / - estudo: Alexandre Pinheiro 
Torres, Vida e Obra de J. G. F., 1975; e n.Os 473-475, 
Julho/Dez. 1986.

MANUEL FERREIRA - fico: Grei, 1944, 3. ed. ref. 1984; A Casa 
dos Motas, 1956. ensaio: A Aventura Crioula, 1967, 3. > ed. 
rev. 1989; No Reino de Caliban (ant. de poesia africana em 
portugus), 1 (Guin e Cabo Verde) 1975, reed. 1989, 11 (Angola 
e S. Tom), 111 (Moambique), 2. > ed. 1989; Literaturas 
Africanas de Expresso Portuguesa,
1 e 2, *Biblioteca Breve+, 1977; Que Futuro para a Lngua 
Portuguesa em frica?, 1988. Fundou e dirigiu frica, importante 
revista de literatura africana de lngua portuguesa. VERGLIO 
FERREIRA - estudos: V. F., crtica e antologia por Joo Palma-
Ferreira , col. *0 Universo do Estudante+; Joo Dcio, V. F.: a 
Fico e o Ensaio, So Paulo, 1977; Mria Lucia Dai Farra, O 
Narrador Ensimesmado (o foco narrativo em V. F.), So Paulo, ed. 
tica, 1978; Maria Alzira Seixo, O Labirinto e a voz em 
*Estrela Polar+ de V. F., caderno *Cultura+ do Dirio de 
Notcias, 78.05.25, e 78.06.01; Estudos sobre V. F. org. e pref. 
de Hlder Godinho, IN-CM, 1982 (contm ampla bibliografia); n. 
> de homenagem a V. F. de ColquiolLetras, 90, Maro 1986; Jos 
Rodrigues de Paiva, O Espao-Limite no Romance de V. F., ed. 
Encontro-Gabinete Portugus de Leitura, Recife, 1984. H. 
Godinho, O Universo Imaginrio de V. F., INIC, 1985; J. L. 
Gavilanes Laso, V. F. Espao Simblico e Metafisico, Dom 
Quixote, 1988; Rosa M. Goulart, Romance Lrico - O Percurso de 
V. F. Bertrand, 1990. N. > especial, 101, 1989, da rev. 
Anthropos, Barcelona, com ambos dados bibliogrficos e outros; 
Fernanda Irene Fonseca, V. F. A Celebrao da Palavra, Almedina, 
1992; Verschneider, M. da Graa/Santos, Teresa Paula: Introduo 
ao

Estudo de *Apario+, Almedina, 1992 - entrevistas (antologia): 
V. F.: Um Escritor Apresenta-se, IN-CM, 1981 Adaptaes ao 
cinema: Cntico Final, 1975, por Manuel e

Drdio Guimares; Manh Submersa, 1979, por Lauro Antnio - 
ensaio: Penso, Bertrand, 1992. TOMS DE FIGUEIREDO - fico: 
Procisso de Defuntos, 1954; A Gata Borralheira,
1962; Dom Tanas de Barbatanas, 1962; Vida de Co, 1963.


MANUEL DA FONSECA - crnica: Crnicas Algarvias, Caminho, 1986, 
reed. 1987. estudos: Urbano Tavares Rodrigues, O Vento, Coro da 
Tragdia, Signo de Espanto e Violncia em *Seara de Vento+, in 
Vrtice, 38, n. 415, pp. 689-701; Joo de Meio, M. da F.: 
contribuio para uma leitura (talvez ideolgica) de *Seara de 
Vento+, in Vrtice,
38, n. O, 410-411 , pp. 381-398; M. Lourdes Belchior / M. Isabel 
Rocha / M. Alzira Seixo, Trs Ensaios sobre Manuel da Fonseca, 
ed. Comunicao, Lisboa, 1981 (contm bibliografia); Manuel 
Simo, Garcia Lorca e M. da F., Cisalpina - Goliardiea, Milo, 
1979; M. da F. - 50 Anos de Vida Literria, estudos, Vila Franca 
de Xira, 199 1. Cerromaior, foi adoptado ao cinema em 1980, por 
Lus Filipe Rocha. SEBASTIO DA GAMA - poesia; Itinerrio 
Paralelo, 1967; O Segredo  Amar, 1969,
3. > ed. 1986. - prosa: Dirio, 196 1. Edio de Obras... pela 
tica. - estudos: M. de Lourdes Belchior, S. da G.: poesia e 
vida, Castelo Branco, 196 1. TEOLINDA GERSO - fico: O 
Silncio, 1981, 3. a ed. 1984.

SOEIRO PEREIRA GOMES - estudos: Augusto da Costa Dias, 
Literatura e Luta de Classes: S. P. G., Lisboa, 1975; lvaro 
Pina, S. P. G. e o Futuro do Realismo em Portugal, 1977.

1178                                             HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

EGITO GONALVES - poesia: Luz Vegetal, 1975; As Zonas Quentes do 
Inverno, 1977; Os Pssaros mudam no Outono, 1981; Falo da 
Virgem, 1983; Poemas Polticos (1952-1979), 1980; Dedikatria, 
1989. Traduziu mais de uma dezena de livros de poesia. - 
estudos: em *Letras e Letras+, n. > 31, dedicado aos 40 anos de 
carreira literria de E. G., Julho 1990; pref. de Pndulo 
Afectivo, por scar Lopes. OLGA GONALVES - fico: Ora 
Esguardae, 1982, 3.8 ed. 1989; Rudolfo, 1985; Mandei-lhe uma 
Boca, 2. ed. 1986; Sara, 1986; Armandina e Luciana, O 
Traficante de Canrios, r., 1988; Cantar de Subverso, 1990. - 
poesia: Movimento, 1972; S de Amor,
1975; Caixa Inglesa, 1983; O Livro de Olotolilisobi, 1983. - 
estudos: depoimentos e crticas em n. > especial de *Letras e 
Letras+, n. O 10, Outubro 1988. FERNANDO GUIMARES - ensaio: 
Linguagem e Ideologia, 1972; Conhecimento e Poesia, Oficina 
Musical, Porto, 1992. - estudos: dossier de Letras e Letras, n. 
> 65, Fev.
1992. Traduo: Comment Labourerla Terre, por Rmy Hourcade, 
Cahiers, de Royaumont.

LVARO GUERRA - fico: O Capito Nemo e Eu, 1973; Do Generalao, 
Cabo mais Ocidental, 1976; Caf Repblica (1914-1945), 1982; 
Caf Central (1945-1974), 1984; Caf
25 de Abril, 1987; Crimes Imperfeitos, 1990,

ANA HATHEFILY - poesia: 39 Tisanas, 1969, Anagramtica, 1970; 
Anacrusa, 1983 (narrativas de 68 sonhos, em parte comentadas por 
outros autores). HERBERTO HLDER - poesia: O Corpo, o Luxo, a 
Obra, 1977; A Plenos Pulmes, 1981; A Cabea entre as Mos, 
1982; As Magias (trad. livre de textos encantatrios), 1987, 
reed. acresc. 1988; ltima Cincia, 1988. - traduo: 
VocazoneAnimale, ed. Messapo, Siena, 1982. - estudos: Maria 
Estela Guedes, H. H. - Poeta Obscuro, col. *Margens do Texto+, 
Moraes, 1979; Maria Ftima Marinho, H. H., col. *A Obra e o 
Homern+, Arcdia,
1982; Jos Martins Garca, H. H., um Silncio de Bronze, 
Horizonte, 1983; Maria Lcia Dai Farra, Alquimia da Linguagem, 
Leitura da Cosmogonia Potica de H. H., IN-CM, 1986; Amrico A. 
Lindeza Diogo, H. H.: Texto, Metfora, Metfora do Texto, 
A)medina, 1990.

MARIA TERESA HORTA - poesia: Candelabro, 1964; Jardim de 
Inverno, 1966; Cronista no  Recado, 1967; Minha Senhora de 
Mim, 1971, Minha Me, MeuAmor, 1985; Rosa Sangrenta, 1987. - 
fico: Ana, 1975; Ema, 1985 (2 eds.); Cristina, 1985. JOO 
MIGUEL FERNANDES JORGE - poesia: Turvos Dizeres, 1973; Alguns 
Crculos,

1975; Meridional, 1976; Crnica, 1977; Vinte e Nove Poemas, 
1978; Actus Tragcus,
1979; A Beira do Mar de Junho, 1982; A Jornada de Cristvo de 
Tvora - Primeira Parte, 1986, - Segunda Parte, 1988, Terceira 
Parte, 1990; Obra Potica, vols. 1 e 2,
1987, 3, 1988 - ensaios sobre arte: O que resta da Manh, 
Queual, 1990. LUSA NETO JORGE - poesia: A Lume, 1989, vol. 
pstumo com fac-smiles, texto fixado e anotado por Manuel Joo 
Jorge, Assrio e Alvim, 1989. NUNO JDICE - poesia: As 
Inumerveis guas, 1974; O Mecanismo Romntico da Fragmentao, 
1975; Nos Braos da Exgua Luz, 1976; A Partilha dos Mitos, 
1982; - prosa: ltima palavra *Sim+, 1977; O Voo de Igturnum 
Copo de Dados, 198 1; Plncton, 1981; A Manta Religiosa, 1982; 
Adgio, novela, 1988. TOMS KIM - poesia: Para a Nossa 
Iniciao, 1940; Os Quatro Cavaleiros, 1943; Dia da Promisso, 
1945.

7 @ POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
                        1179

ALBERTO LACERDA - poesia: Palcio, 1962; Exlio, 1963. - edies 
bilngues: Selected Poems, 1969; Lisboa, 1987. LUS VEIGA LEITO 
- poesia: Latitude, 1950. - crnicas e narrativas: Linhas do 
Trpico, 1977; Livro de Ver e de Andar, ed. brasil. 1976. ed. 
port. 1978; Livro da Paix o, narrativas, 1986. JOS JORGE 
LETRIA - poesia: Cantos da Revoluo, 1975; Os Dias Cantados, 
1978;
O Navegador Solitrio, 1980; O Desencantador de Serpentes, 1984; 
Adivinhao do Azul,
1984; As Estaces do Rosto, 1985; Cartas de Afectos, Horizonte, 
1989; Corso e Partilha, Cronos, 1989; Cesrio: Instantes da 
Fala, 1989.  tambm autor de literatura infantil. ANTNIO MARIA 
LISBOA - publicao especial e nica, sob o seu nome, do 
cinquentenrio do nascimento, Ass(rio e Alvim, 1978; A Afixao 
Proibida, 1953, de colab. com M. Cesariny de Vasconcelos.

IRENE LISBOA - crnica: Lisboa e quem c vive, 1940; O Pouco e o 
Muito, 1956; Solido //, 1966. - estudos: ver bibliografia em 
Irene Lisboa - Folhas Soltas da Seara Nova (1929-1955), ant., 
pref. e notas de Paula Moro, 1983, e O Essencial sobre Irene 
Lisboa, pela mesma organizadora, que produziu tambm Irene 
Lisboa. Vida e Escrita, Presena, 1989 (tese de doutoramento 
pela Univ. de Lisboa).

MARIA GABRIELA LILANSOL - Depois de os Pregos na Erva, 1973; A 
Restante Vida,
1983; Na casa de Julho e Agosto, 1984; Um Falco no Punho - 
Dirio 1, 1985, Finita,
1987. - estudos: Silvina Rodriques Lopes, Teoria da Des-
Possesso, Black Sun Editores, Lisboa, 1988; dossier de *Letras 
e Letras+, 29, Maio de 1990.

ILSE LOSA - fico: Sob Cus Estranhos, 1962, reed. ref. 1987; 
Encontro no Outono,
1965; O Barco Afundado, 1979; Estas Searas, 1984. Tem uma 
importante bibliografia de literatura infantil. O Mundo em que 
vivi foi traci. para alemo, com recenses muito favorveis, por 
ex---da Sddendentsche Zeitung de 1990.12.05.


DINIS MACHADO - Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel        
   Garcia Marquez, 1984. JOAQUIM MANUEL MAGALHES - poesia: Trs 
Poemas, 1975; Dos Enigmas, 1976; Ave de Partida, 1981; Alguns 
Antecedentes mitolgicos, 1984 (com lida David); Assnar o Mar, 
1984 (com Ana Marchand); Alguns Livros Reunidos, 1987 
(refundio de livros anteriores de 1974-1985).

ALBANO MARTINS - poesia: Os Remos Escaldantes, 1983; Sob os 
Limos, 1986; Poemas de Retomo, 198 7; A Voz do Chornho [    ... 
1, 1987; Vertical o Desejo, 1988; Os Patamares da Memria, 1990; 
Entre a Cicuta e o Mosto, 1992 (com bibliografia completa do 
autor).

JOO DE MELO - fico: Histrias da Resistncia, c., 1975; 
Memria de Ver e Matar, r., 1977. JOS MANUEL MENDES - poesia: 
Salgema, 1969, 3. ed. 1983; Depois do Olhar, 1986: Les Ports 
Inadrevs, cronos, Viana do Castelo, 1991. - crtica e ensaio: 
Por uma Literatura de Combate, 1975; Mastros na Areia, 1987.

DOMINGOS MONTEIRO - fico: O Caminho para l, 1947; Contos do 
Dia e da Noite,
1952; Histrias Castelhanas, 1955; O Dia Marcado, 1963; Contos 
de Natal, 1964; O Vento e os Caminhos, 1970.

1180                                             HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

HLDER PRISTA MONTEIRO - teatro: A Meio da Ponte, 1960; O 
Anfiteatro, 1961; O Fio, 1978; A Vila, 1985; entre outras peas. 
LUS DE STTAU MONTEIRO - teatro: Todos os Anos pela Primavera, 
1963, 4.1 ed.
1972; O Baro (dramatizao do conto de Branquinho da Fonseca), 
1966, reed. 1974; Auto do Motor fora de Borda, 1966; Um Homem 
no chora, 1975. VASCO GRAA MOURA - poesia original: Modo 
Mudando, 1963; Semana Inglesa,
1965: Recitativos, 1977; Sequncias Regulares, 1978; A Variao 
dos Semestres deste Ano, 1981; Os Rostos Comunicantes, 1984; A 
Furiosa Paixo pelo Tangvel, 1987; Ronda dos Meninos Expostos, 
Auto Breve de Natal, col. *Graffiti+, 1987. - poesia traduzida: 
Dezassete Sonetos de Shakespeare, 1978; Vinte e Trs Poemas de 
H. M. Enzensberger,
1980; 50 Poemas de G. Benn     > 1982.

DAVID MOURO-FERREIRA - poesia: A Secreta Viagem, 1950; 
Tempestade de Vero,
1954, reed. aum. tal como a anterior em 1960; In Memoria 
Memorae, 1962; Infinito Pessoal, 1962; Do Tempo ao Corao, 
1966; Cancioneiro do Natal, 1971, 3. ed. aum,
1986; reed. dos 5 primeiros vols. A Arte de Amar, 1967; Lira de 
Bolso, antoL, 1969; reed. 1971; Matura Idade, 1973. Vols. 
posteriores  Obra Potica: Entre a Sombra e o Corpo, 1980; Ode 
 Msica, 1980; Os Ramos e os Remos, 1985; O Corpo Iluminado,
1987; No Veio de Cristal, 1988. - ensaio: Os Ofcios do 
Escritor, Guimares Ed., 1989, Terrao Aberto, crc. Leitores, 
1992 - estudos: Jos Martins Garcia, O. Mouro-Ferreira, col. 
*A Obra e o Hornem+, Arcdia, 1980; Vasco Graa Moura, O. M.-F. 
ou a Mestria de Eros, Braslia, Porto, 1978, Helena Malheiro, 
*Os amantes+ ou a arte da novela de D.M.F., IN-CM, 1980; Jos 
Martis Garcia, D.M.F. narrador, Vega, 1987; n. especial de 
*Letras e Letras+, n. 1 8, Julho 1988. JOS VIALE MOUTINHO - 
fico: Jogo do Srio, 1974; Apenas uma Esttua na Praa da 
Liberdade, 1978; Entre Povo e Principas, 1981; Histrias do 
Tempo da Outra Senhora, reed. rev. 1985; A Torre de Menagem, 
1988; Pavana para Isabella de Frana, c,, 1992 poesia: Correm 
turvas as guas deste rio, 1982; Os Tmulos, 1984; O Rude Tempo, 
1985; Piano Bar, 1986; Mscaras Venezianas, 1987; Retrato de 
Braos Cruzados, 1989; As Portas Entreabertas, 1990, poesia 
completa de 1975 a 1985; O Princpio do Outono,

1992 - tradues; Tretze Ouadres de Mrio Botas, catalo, 1987; 
Mzcares Venecanas, asturiano, 1989; Cuentos Fantsticos, 
asturiano, 1992; Un, Caballo en Ia Niebla, castelhano, 1992; 
Nombres de rboles Muertos, castelhano, 1992.

FERNANDO NAMORA - prosa: Os Adoradores do Sol, 6. ed. 1988; 
Sentados na Relva,
1986, 4. a ed. 1987; As Sete Partidas do Mundo, 6. ed. 1978; 
Tinha Chovido na Vspera, 1975; Jornal sem Data, 1988. - poesia: 
Nornepara uma Casa, 1984. - estudos: F. N., vol. da colec. *0 
Universo do Estudante+, Arcdia, org. por Taborda de 
Vasconcelos; lbum comemorativo de F. N. 40 Anos de Vida 
Literria, 1978; Jos Manuel Mendes, Encontros com F. N., Porto, 
1979; Yvonne David Peyre, O Elemento Picaresco em trs romances 
de F. N., *Colquio/Letras+, 40 e 41, Nov. 1977 e Jan. 1978. 
Ver ainda biografia e bibliografia de F. N. em JL, n. > 235, 5 
a 11 de Jan. 1987, e Em Outubro com F. N., entrevistas por 
Quirno Teixeira, Flamingo, 1987; Autobiografia, O Jornal, 1987; 
estudos de U. T. Rodrigues e D. Mouro-Ferreira in 
*Colquio/Letras+, n. > 103, MaiolJunho
1988, em homenagem a F. N.; n. o espec . de *Letras e Letras+, 
n. > 9, Agosto 1988. Domingo  Tarde foi em 1956 adaptado ao 
cinema por Antnio Macedo, e O Trigo e o Joio em 1965 por Manuel 
Guimares, e j antes Batalha da Vida de um Mdico, em 1962,

7. a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
                       1181

por Jorge Brun do Canto; em 1985 Artur Ramos realizou um filme 
baseado em A Noite e a Madrugada.

JOAQUIM NAMORADO - evocao e estudos in *Vrtice+, 45, Dez. 
1991. LUS MIGUEL NAVA - poesia: Pelculas, 1979; Poemas, 1987; 
O Cu sob as Entranhas,
1989. - ensaio: O Po, a Culpa, a Escrita e Outros Textos, 1982. 
ANTNIO REBORDO NAVARRO - poesia: A Condio Reflexa Poemas 
(1952-1989), IN-CM, 1990; O Inverno, 1978, entre outros vols. - 
conto: Dante exilado em Ravena,
1990 - impresses de viagens: As Portas do Cerco, ed. Livros 
Oriente, 1992.

CARLOS DE OLIVEIRA - poesia: Turismo, 1942; Me Pobre, 1945; 
Colheita Perdida,
1949; Terra de Harmonia, 1950; Cantada, 1960; reunio em 
Poesias, 1962; Sobre o Lado Esquerdo, 1968; Micropaisagem, 1969; 
Entre duas Memrias, 197 1. - traduo: Officina Poetica, org. e 
pref. por Giulia Lanciani, 1978. - estudos: Fiama Hasse Pais 
Brando, Nexos sobre a obra de C. de O., in *Colquio/Letras+, 
26, Julho 1975, 29, Janeiro
1976; Carios Reis, Introduo  Leitura de *Uma Abelha na 
Chuva+, Almedina, Coimbra,
1980; Joo Camilo dos Santos, C. de O. et /e roman, Fund. C. 
Gulbenkian, Paris, 1988; A. Pinheiro Torres, A Tetralogia da 
Gndara de C. de O., in Romance: O Mundo em Equao, Portuglia, 
Lisboa, 1967, pp. 249-265: Rosa M. Goulart, C, de O.: Arte 
Potica, Univ. dos Aores, 1990 (com bibliografia) ver estudos 
importantes no n. > 38, 11 Srie da rev. Vrtice, Maio de 199 
1, e no n. > especial, n. > 6 1, Dezembro, 199 1, de Letras e 
Letras - antologia: A Poesia de C. de O., apres., selec. e notas 
de Manuel Gusmo, *Textos Literrios+, 1981, com importante 
estudo e ampla bibliografia. Uma Abelha na Chuva, inspirou um 
filme de Fernando Lopes, 1972.

ALEXANDRE O'NEILL - poesia: A Ampola Miraculosa, 1948; Tempo de 
Fantasmas,
1951; No Reino da Dinamarca, 1958; Abandono Vigiado, 1950; 
Poemas com Endereo,
1962; Feira Cabisbaixa, 1979; No Reino da Dinamarca - Obra 
Potica (1951-1965),
1968, reed. 1969 e 1974; De Ombro na Ombreira        > 1969 (2 
eds.); Entre a Cortina e a Vidraa, 1972; A Saca de Orelhas, 
1979. - crnica: As Andorinhas no tm Restaurante, 1970; Uma 
Coisa em Forma de Assim, 1980; O Princpio da Utopia (pstumo),

1986. Antologia org. pelo autor sob o ttulo de Tomai l do 
O'Neil, 1987. - tradues: Portogalo Mio Rimorso, Einaudi, 
1986; Made in Portugal, org. por Antonio Tabucchi, Ed. Guanda, 
Milo, 1978. - estudo: Perfecto E. Cuadrado, Um Adeus Portugus 
com pretexto para uma primeira aproximao  poesia de A. O., in 
*AnnaIs S. Humatitats+, n.

1, Univ. das Ilhas Baleares, 1985, pp. 35-54. ANTNIO OSRIO - 
poesia: A Ignorncia da Morte, 1978; Dcima Aurora, 1982; 
Planetrio e Zoo dos Homens, 1985; Aforismos Mgicos, 1985. - 
tradues: Dcima Aurora, in Fogli di Portucale, Roma, 1984; e 
Antologia Potica, trad. esp., Olifante, Zaragoza,
1986. - estudo: Eduardo Loureno, A. Osrio, col. *Poetas+, 
Presena, 1984.

FERNANDO ASSIS PACHECO - Viagens na minha Guerra, 1972; Enquanto 
o autor queima um caricoco, 1979; Memria do Contencioso e 
outros poemas, 1980; Profisso Dominante, 1982; Nausicaah, 1984. 
LUS PACHECO - O Caso das Criancnhas Desaparecidas, 1986.

JOAQUIM PESSOA - poesia: O Pssaro no Espelho, 1975; O Livro da 
Noite, 1981; FIy,
1983; Sonetos Perversos, 1984.

1182                                            HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

ALBERTO PIMENTA - poesia: Ascenso de 7 Gostos  Boca, 1977; 
Metamorfoses de Vdeo, 1986 (selec. de textos de 1970 a 1984); 
Sex Shop Suey, 1988, 2. > parte da trilogia Divina Multi 
(CoJMedia, iniciada por As 4 Estaes, 1984; Obra Quase 
Incompleta, Fenda, 1990. - prosa: Discurso sobre o Filho da 
Puta, 1977, 3. a ed. ampi.
1981. - In Modo di Verso, Edizioni Ripostes, 1983. MANUEL 
ANTNIO PINA - teatro: A Guerra dos Tabuleiros de Xadrez, 1985. 
- poesia: Aquele que quer morrer, 1978; A Lmpada do Quarto?, A 
Criana?, 1982; O Pssaro da Cabea, 1983. JOS CARDOSO PIRES - 
estudos: J. C. P., org. por liberto Cruz, colec. *0 Universo do 
Estuciante+, Arcdia, 1972; M. Lcia Lepeck, Ideologia e 
Imaginrio: Ensaio sobre J. C. P., Lisboa, Moraes, 1977; scar 
Lopes, Time and Voice in the World of J. C, P., in *Portuguese 
Studies+, li, Londres, 1986, includa em Cifras do Tempo, 
Caminho, 1990, Maria Virgnia Gonalves, O Heri Degradado e o 
Deslocamento Trgico em J. C. P., Fund. C. Gulbenkian, 1976; 
Jueil do Nascimento Campelo, O Delfim - o maneirismo como 
expresso do romance contemporneo, Tese de livre docncia, 
Univ. Fed. de Paran, Curitiba, 1976; Eunice Cabral Nunes da 
Silva, Ciclos Romanescos de J. C. P., Tese de dout., Univ. Nova 
de Lisboa, 1981. Cardoso Pires por Cardoso Pires, autobiografia, 
entrevista bibliografia, Dom Quixote, 1991. Dossier em *Letras 
e Letras+, n. > 45, 17 de Abril de
1991. A Balada da Praia dos Ces teve uma acipatao ao cinerna 
por Fonseca e Costa,
7987.

JOS BLANC DE PORTUGAL - ensaio: Anticritico, 1960; Um Exame de 
Conscincia,
1964. - estudo: in *Letras e Letras+, n. > 4, Maro 1988.

ALVES REDOL - a sua obra abrange 7 vols. de contos, 3 voJs. de 
teatro, 5 de literatura infantil e ainda estudos, sobretudo 
etnogrficos - estudos: Jos Manuel Mendes, Charrua em Campo de 
Pedras, seleco de textos sobre A. Redol, 1975; A. Pinheiro 
Torres, Os Romances de A. Redol, Morais, 1979. lvaro Salema, 
org. do vol. A. Redol da colec. *A Obra e o Homem+, Arcdia, 
1980. LUS DE MIRANDA ROCHA - poesia: As Mos no Ar, 1976; O 
gil Co, 1976; Corao Transitivo, 1977.


ARMINDO RODRIGUES - Obra Potica, 16 vols., SEC, Lisboa, 1970-
1980, O Poeta Perguntador, antologia org. por Jos Saramago, 
Caminho, 1979. URBANO TAVARES RODRIGUES - fico: A Porta dos 
Limites, 1952, 4. ed. 1979; Vida Perigosa, 1955, 3. ed. 1971; 
Exlio Perturbado, 1962, 3. ed. 1982; As Mscaras Finais, 1963, 
reed. 1972; Terra Ocupada, 1964, reed. 1972; Dias Lamacentos, 
1965,
3. ed. 1988; Imitao da Felicidade, 1966, 3. ed. 1988; Casa 
da Correco, 1968,
3. > ed. rev. 1987; Contos da Solido, 1970, reed. 1972; 
Dissoluo, 1974, reed. 1983; Oceano Oblquo, 1985; A Vaga de 
Calor, 1986, 3. ed. 1987. Filipa nesse Dia, c., 1989.  ainda 
autor de 14 vols. de viagem ou crnica, e de 20 vols. de ensaio 
ou crtica. estudos: n. O espec. de *Letras e Letras+, 18, 
Junho, 1989.

ANTONIO RAMOS ROSA - O Grito Claro, 1958; Voz Inicial, 1960; 
Terrear, 1964; Estou vivo e escrevo Sol, 1966; A Construo do 
Corpo, 1969; Nos seus Olhos de Silncio,
1970; Pedra Nua, 1972; Animal Olhar, 1975; Cicio do Cavalo, 
1975; A Imagem, 1977; A Nuvem sobre a Pgina, 1978; Crculo 
Aberto, 1979; O Incndio dos Aspectos, 1980;

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
                       1183

O Centro na Distncia, 1981; Quanto o Inexorvel, 1983; 
Gravitaces, 1983; Mediadoras, 1985; Volante Verde, 1986; No 
Calcanhar do Vento, 1987; O Livro da Ignorncia,
1988; Trs Lices Materiais e Acordes, 1989; O No e o Sim; 
1990; A Intacta Ferida,
1991 - antologia: Poemas de A. R. R., apres., selec. e notas de 
Cristina Almeida Ribeiro, *Textos Literrios+, 1985. A Mo de 
gua e a Mo de Fogo, 1987 - tradues: Poesia, n. > 2, ed. 
bilngue das poesias da A. R. R., Ed. Ministrio da Cultura, 
Madrid, 1979; Animal Regard (antologia), ditions Unes e Meuy 
(France); As Marcas do Deserto, edio bilngue portugus-
francs, 1980. Traduziu, nomeadamente, luard, A. MaIraux e

M. Foucault. - estudos: n. > espec. de *Letras e Letras+, n. O 
4, Maro 1988; n. O espec.,
185-186, de Le Courrier, Centre Intem. d'tudes Potiques, 
Bruxelas, Jan. - Jun. 1990.

FAURE DA ROSA - fico: Espelho da Vida, 1955; Escalada, 1961; O 
Massacre, 1972. Adgio, 1974; As Imagens Destrudas, 1975; Ns e 
os Outros, 1979; Apassionata, 1980.

BERNARDO SANTARENO - teatro: A Promessa, 1957, reed. 1974; O 
Duelo, 1961, reed.
1974; O Pecado de Joo Agonia, 1961; Irm Natividade, 1961; 
Anunciao, 1962, reed.
1974; Portugus, escritor, 45 anos de idade, 1974. - crnica: 
Nos mares do Fim do Mundo, 1959. Obras Completas, 4 vols. (27 
peas, poesia e crnica), 1986-1987, Caminho, Lisboa. - estudo: 
M. Manuela Gouveia Delille, *0 Judeu+, de B. S.: suas relaes 
com o Teatro pico de 8. Brecht e com o Teatro de P. Weiss, sep. 
da rev. *Runa+,
2/84, 1986. JOS CARLOS ARY DOS SANTOS - poesia: As Portas que 
Abril abriu, 1975; 20 Anos de Poesia (1963-1983), 1984; As 
Palavras das Cantigas, 1989. JOS SARAMAGO - poesia: O Ano de 
1993, 1987. - crnicas: Deste Mundo e do Outro, 1971, 3, ed. 
1986. A Bagagem do Viajante, 1973; As Opinies que o D. L. teve,

1974; Os Apontamentos, 1976, reed. 1990. - estudos: M. Alzira 
Seixo, O Essencial sobre J. Saramago, IN-CM, 1987; de Teresa 
Cerdeira da Silva, J. S. Entre a Histria e a Fico: uma saga 
de Portugueses, D. Quixote, 1989., e M. Elvira Souto Presado, 
Santiago de Compostela, 1989. Memorial do Convento serviu de 
base a uma pera, Baltasar e Blimunda, msica do italiano Azio 
Corghi, estreada em Milo em 1990 (em Portugal, em Maio de 
1991), e serviu de tema a um debate realizado em Itlia: Viaggio 
interno ai Convento di Mafra, dirigido por P. Ceccucci, Guerini, 
Milo, 199 1. JOS AUGUSTO SEABRA - poesia: Desmemria. Porto, 
1977; O Anjo, 1980; Gramtica Grega, Porto, 1985, Fragmentos do 
Delrio, Porto, 1990; Do Nome de Deus, Macau, 1990.

JORGE DE SENA - poesia: Exorcismos, 1972; Conheo o Sal e outros 
poemas; 1974; Quarenta Anos de Servido (dispersos, 1936-1978), 
1979, 3. > ed. rev. 1989; 1979, reed. rev, 1982; Sequncias, 
1980; Viso Perptua (inditos, 1942-78), 1982, reed. aum.

1989. Edio 70; Post-Scriptum, 2 vols. de juvenflia (1936 - 
Nov. 1938, Dez. 1938 Nov. 1941), 1985; Mater Imperialis 
(teatro), 1990. - tradues suas de poesia: 90 e mais Quatro 
poemas de Cavai'y, Porto, 1970, reed. Coimbra, 1986; Poesias de 
Vinte e Seis Sculos, 19 7 2; Poesia do Sculo XX, 19 7 8; 80 
Poemas de Emily Dckinson, 19 7 9; Poemas Ingleses de F. Pessoa, 
ed. bilngue, tica, 1974. Os estudos com que acompanhou 
numerosas tradues de romances esto reunidos no vol. Sobre o 
Romance, 1985, na colec. Obras e J. de S., Edies 70. - 
antologias: Trinta anos de Poesia, Porto, 1972, reed. Lisboa, 
1984; Versos e alguma prosa de J. de S., org. e pref. por 
Eugnio Lisboa, Moraes, 1979; do mesmo org. e pref., por Eugnio 
Lisboa, Moraes, 1979; do mesmo

1184                                               HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

org. e pref., J. de S., Presena, 1984; Poesia de J. de S., 
apres. e notas de Ftima Freitas Morna, col. *Textos 
Literrios+, Comunicao, 1985. - edies bilnques de poesia: 
The Poetry of J. de S., antologia, intr. e notas de F. G. 
Williams, Mudborn Press, Califrnia, 1980; Sobre Esta Praia, 
trad. por J. Griffin, lnklings, Santa Barbara, Califrnia, 1979; 
Esorcismi, antolog., trad. e org. de C. V. Cattaneo, Edizione 
Academica, Milo,
1974; Su questa spiaggia, antologia, trad. R. Jacobbi, Roma, 
1984; 11 Medico Prodigioso, trad. L. S. Picchio, 1987; In Crete 
with the Minotaur, antologia, Providence, 1980; Metamorfos, 
com., trad. e notas de C. V. Cattaneo, Empiria, Roma, 1987; h 
trad. cast., catal, it., francesa e ingl., sobretudo do Fsico 
Prodigioso, Metamorfoses e Sinais de Fogo (ver bibliog. em Odes 
Completas, Edies 70). -ensaio: O Reino da Estupidez, 1961, 
reed.
1979, 3. a ed. 1984; Literatura Inglesa, 1963, reed. 1989. 
Estudos de Histria e de Cultura, 1967; Dialcticas da 
Literatura, 1973, reed. ampl. (Dialcticas Tericas da 
Literatura), 1973; Dialcticas Aplicadas da Literatura, 1978; 
Estudos de Literatura Portuguesa,
1, 1982, li, lli, 1988; Sobre Cinema, 1988; Do Teatro em 
Portugal, 1989; Maquiavel, Marx e outros estudos, 1991 - 
correspondncia: com Guilherme de Castilho, 198 1, com Mcia de 
Sena, 1982, com Jos Rgio, 1986; com Verglio Ferreira, IN-CM, 
1986; com Eduardo Loureno, IN-CM, 1991 - estudos: J. de S., 
*Quaderni Portoghesi+, 13-14, org. por L. Stegagno Picchio, 
Giardini Editori, Pisa, 1985; Studies on J. de S. by his 
colleagues and friends, Sarrer, H. L./Williams, F. G. (eds), 
Univ. da Califrnia, Santa Barbara, 198 1; Estudos sobre J, de 
S., org. e intr. de Eugnio Lisboa, IN-CM, 1984; 
*Colquio/Letras+, 67, Maio 1982 (n. > especial); Alexandre 
Pinheiro Torres, O Cdigo Cosmognico-Meta fsico da * 
Perseguio+ de J. de S., Moraes, 1980; scar Lopes, Uma Arte 
de Msica e outros Ensaios, Oficina Musical, Porto, 1986; coord. 
de M. Alzira Seixo,
O corpo e os Signos - Ensaios sobre O Fsico Prodigioso, 
comunicao 1990. Recenso de trad. e estudos italianos e outros 
por J. Fazenda Loureno, *ColquiolLetras+,
98, Julho-Ag. 1987, pp. 93-96. Deste mesmo autor, O Essencial 
sobre J. de S., IN-CM,
1987 e Uma Bibliografia sobre J. de S., separata de As Escadas 
no tm degraus, Lisboa, 1991; Fagundes, Francisco Cota: In the 
Beginning there was Jorge de Sena's *Genesis+, Univ. of 
California, Santa Barbara, 199 1. N.Os espec. de *Letras e 
Letras+, n. > 7, Junho 1988, de *Col quiolLetras+, 104-105, 
Julho/Out. 1988 e de Nova Renascena,

32-33, Outono de 1988, Inverno de 1989. H um vol. Hommage  J. 
de S., Centro Cultural de Paris da Fund. C. Gulbenkian, 1989. 
Obra de consulta: ndices de Poesia, de J. S. e nomes citados, 
org. Mcia de Sena, Cotovia, 1990. JOS MARMELO E SILVA - 
estudo: n. O 15, especial, de * Letras e Letras+, Maro 1989. 
AMRICO GUERREIRO DE SOUSA - romances: O Rei dos Lumes, 1984, 
reed. 1985; A Morte das Baleias, 1988 (do ciclo inic. por Os 
Cornos de Cronos, o qual serviu de base a um filme que Jos 
Fonseca e Costa levou ao cinema, 199 1).

PEDRO TAMEN - poesia: Daniei na Cova dos Lees, 1970; Escrito de 
Memria, 1973; Os 42 Sonetos, 1973; Agora Estar, 1975; Dentro de 
Momentos, 1984 - tradues: Aliegria dei Silenzio, por G. 
Lancari e E. Finazzi Agr, ed. Japadre, Roma, 1984; Deiphes, 
Opus 12 et autres po mes, trad. colectiva, Les Cahiers de 
Royaumont, 1990. Estudos: n. 1 especial de *Letras e Letras+, 
Porto, Jan. 1990; ver bibliografia de artigos e ensaios no vol. 
Tbua das Matrias, Tertlia, 1991.

ALEXANDRE PINHEIRO TORRES - poesia: Novo Gnesis, 1956; A Voz 
Recuperada,
1984; A Flor Evaporada, 1984.

7. a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
                   1185

MRIO CESARINY DE VASCONCELOS - poesia: Discursos sobre a 
reabilitao do real quotidiano, 1952; Louvor e simplificao de 
lvaro de Campos, 1953; Um Auto para Jerusalm, 1964; 19 
Projectos de Prmio Aldonso Ortigo, 1971; As Mos na gua,
1972; Burlescas, Tericas e Sentimentais, 1972; Jornal do Gosto, 
1974; Textos de Afirmaco e de Combate do Movimento Surrealista 
Mundial, 1977; Manual de Prestidigitao, 1981; As Mos na gue 
e a Cabea no Mar, 1985; Nobilssma Viso, 1976, reed.
1991; Primavera Autnoma das Estradas, 1980; A Virgem Negra. F. 
Pessoa explicado s criancinhas naturais e estrangeiras, 1988. - 
estudos: artigos e informaes bibliogrficas contidas no n. > 
6 de A Phata, Maio/Junho 1988, Assro e Alvim; bibliografia e 
inqurito a crticos e poetas em EspaciolEspao Escrito, 6-7, 
Badajoz, 199 1. MARIO VENTURA - fico:  Sombra das rvores 
Mortas, 1966, 2. > ed. rev. 1977; Outro Tempo, Outra Cidade, 
1980; Vida e Morte dos Santiagos, 1985; Maro Desavindo, r., 
1987, reed. 1988 - crnica: Alentejo Desencantado, 1969, 3.1 ed. 
1977. ANTNIO MANUEL COUTO VIANA - poesia: No Sossego da Hora, 
1949; O Corao e a Espada, 1951; A Face Nua, 1954; Mancha 
Solar, 1959; A Rosa Sibilina, 1960; Desespero Vigilante, 1968; 
Uma Vez, uma Voz, 1986.  ainda autor de 9 peas de teatro 
predominantemente infantil, e de vols. em prosa, nomeadamente 
Coraco Arquivista, livro de memrias e encontros, 1977.
O
1111119191106,AFJA
O
Anselmo, Antnio Joaquim: Bibliografia das Bibliografias 
Portuguesas, separata da Reviste de Histria, ano VIII, 1919, 
n. 29.

Biblioteca Lusitana, por Diogo Barbosa de Machado, 3. ed. 1965-
66, 4 vols. Dicionrio Bibliogrfico Portugus, de Inocncio 
Francisco da Silva, continuado por Brito Aranha e Alvaro Neves, 
Lisboa, 1858-1923, 22 vols., com um vol. de Aditamentos de 
Martinho da Fonseca, 1927, e um Guia Bibliogrfico de Ernesto 
Soares, 1958.

Portugal (Dicionrio histrico, corogrfico, biogrfico, 
bibliogrfico, herldico, numismtico e artstico), por Esteves 
Pereira e Guimares Rodrigues, Lisboa, 1904-1915, 7 vols.


Boletim de Bibliografia Portuguesa, da Biblioteca Nacional. 
Boletim Internacional de Bibliografia Luso-Brasilera, publicado 
desde 1960 pela Fundao Calouste Guibenkian, Lisboa.

Arquivo de Bibliografia Portuguesa, editado pela Atlntida, 
Coimbra. Dicionrio Universal da Literatura, Henrique Perdigo, 
2. ed. 1950, Porto. Dicionrio das Literaturas Portuguesa, 
Galega e Brasileira, dirigido por Jacinto do Prado Coelho, Por-
to, 1960, 3. a ed., 5 vols., 1978.

Grande Dicionrio da Literatura e da Teoria da Literatura, 
Lisboa, dirigido por Joo Jos Cochofei, publicao em 
fascculos (completado em 1978 o 1. vol.).

Massaud Moiss organizou com outros uma Bibliografia da 
Literatura Portuguesa, So Paulo, 1968.

Recorrer ainda, sobre autores contemporneos,  Enciclopdia 
Luso-Brasileira e  enciclopdia Verbo.
O
HLP - 75

1186                                                  HISTRIA 
DA LITERATURA PORTUGUESA

A Histria Ilustrada da Literatura Portuguesa contm numerosa 
bibliografia. Saiu em 1985 o vol. 1 de um Dicionrio Cronolgico 
de Autores Portugueses, que vai at final do sc. XVIII, 
Instituto Portugus do Livro - Europa-Amrica.

Sob o ponto de vista iconogrfico, pode recorrer-se a esta 
ltima obra, bem como a certas revistas do sculo XIX, como o 
Almanaque das Lembranas, a Revista Contempornea e Ocidente.

til pronturio: Pequeno Roteiro da Histria da Literatura 
Portuguesa, Instituto Portugus do Livro, 1984 (bibliografias 
sumrias por ordem cronolgica, com ndice alfabtico 
remissivo).

ColquiolLetras, ri. 1 78, Maro 1984, contm retrospectivas 
sumrias por especialistas sobre a literatura portuguesa de 1974 
a 1984, o ri. * 84, Maro 1985, contm um balano anlogo sobre 
o ano literrio de 1984, e o n.<> 96, Maro-Abril 1987, sobre o 
ano literrio de 1986. J o Centro Portugus da Ass. Intern. dos 
Crticos Literrios publicara em 1982 um Balano da Actividade 
Literria (ano de 1981), em 1983 um Balano da Actividade 
Literria (ano de 1982), e em 1985 outro Balanco congnere, 
relativo a
1983-84, ed. Dom Quixote.

A revista Prelo, da IN-CM, publicou um balano do ano literrio 
de 1985 no ri. > 10, Jan.-Maro 1985, e outro sobre o ano 
literrio de 1986 no ri. 1 14, Jan.-Maro 1987. H um balano do 
ano literrio de 1987 em ColquiolLetras, ri. 101, Jan.-Fev. 
1988.

O Ano Literrio de 1988 (por A. Guerreiro, C. Porto, E. M. de 
Meio e Castro, J. F. Jorge e Matilde Rosa Arajo in Vrtice, 15 
(11 Srie), Junho de 1989.

No ano literrio de 1990 h um balano de Cario F. Jorge, H. C. 
Buescu, Antnio Guerreiro, J. A. Gomes e Carios Porto na rev. 
*Vrtice+, ri. > 38, 2.1 srie, Maio de 1991.

Ver ainda actas do 1 (1974) e do 11 (1982) Congresso dos 
Escritores Portugueses, Dom Quixote, 1982.


Ensaios que alcanam vrios gneros: Seixo, M. Alzira: Discurso 
do Texto, Bertrand, 1977. Rocha, Lus de Miranda: Algumas notas 
sobre a literatura portuguesa nos anos 70180, in Sema, ri.@ 3, 
1979, pp. 77-83.

Meio, Joo de: Toda e Qualquer Crtica, ed. Vega, Lisboa, 1982. 
Lopes, scar: Os Sinais e os Sentidos, Caminho, 1986. Uma arte 
de Msica e outros ensaios, Oficina Musical, Porto, 1986.

Geografia literria:

Coleco Antologia da Terra Portuguesa, Bertrand, com 13 volumes 
separados para os textos antolgicos de cada provncia, Porto, 
Lisboa, A ores, Madeira; Saudades de Lisboa: de Ea de Queirs 
a Miguel Torga, coligida por David Mouro-Ferreira, Estdios 
Cor; Escritores Modernos da Beira Baixa, selec. de Arnaldo 
Saraiva, Lisboa, 1988.

Narrativa Literria de Autores da Madeira do sc. XX, apres. e 
selec. de Nlson Verssimo, Funchal, 1990; PoetArte 90: 
Antologia de Poesia Madeirense (autores nascidos entre 1772 e 
1967), Imprensa Regional da Madeira, 1990.

O mais minucioso inventrio, digressivamente desenvolvido, de 
autores naturais do Porto  o de (Sampaio) Bruno, Portuenses 
Ilustres, vols. 1. O e 2.O 1907, vol. 3. > 1908, Porto.

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
                            1187

Os vols. ilustrados Daqui Houve Nome Portugal, 1958, antologia 
de textos sobre o

Porto, 4.8 ed. 1986, e Memrias de Alegria, 1971, orientados e 
pref. por Eugnio de Andrade, dir. grfica de Armando Alves, 
Cano do Mais Alto Rio, ant. liter. do Douro, orient. e pref. 
de Eugnio de Andrade, colab. plstica de Jlio Resende e Dario 
Gonalves, ed. Asa, 1990;

Portugal - A Terra e o Homem, ant. de autores dos scs. XIX e 
XX, por Vitorino Nemsio, Fund. C. Gulbenkian, 1978.

Terras do Norte na Literatura Portuguesa, selec. e ap. de Lus 
Forjaz Trigueiros, Inapa, Lisboa, 1990. Antologia da Poesia 
Contempornea Portuguesa de Trs-os-Montes e Alto Douro, coord. 
de Carios Loures, col. *Setentrio+, Vila Real, 1968.

Antologia de Poesia Aoriana do Sc. XVIII a 1975, Pedro da 
Silveira, S da Costa,
1977. Antologia Panormica do Conto Aoriano - scs. XIX e XX, 
org., pref. e notas de Joo de Meio, 1978, tambm autor de A 
Produo Aoriana nos ltimos Dez Anos (1968-1978), 
*ColquiolLetras+, 50, Julho 1979, e H ou no uma Literatura 
Aoriana, Vrtice, 448, Maio/Junho 1982. N. O especial do 
caderno Cultura do *Dirio de Noticias+ dedicado  literatura 
aoriana, 1978-06-15. Garcia, Jos Martins: para uma Literatura 
Aoriana, Univ. dos Aores, Ponta Delgada, 1987. Sempre disse 
tais coisas esperanado na vulcanologia, antol. de poetas 
aorianos por E. Jorge Botelho, pref. de Lus de Miranda Rocha, 
IN-CM, 1989. Foram j publicados em 1985 dois tomos de uma 
Bibliografia Geral dos Aores (sequncia do Dic. Bibliog. 
Port.), por Joo Afonso, Secretaria Regional de Educao e 
Cultura, Angra do Heroismo.


Revista antolgica regional: Cadernos do Tmega, j com o n. > 
6 em Dezembro de 199 1. Alm de certos suplementos literrios, 
nomeadamente o Dirio de Notcias, O Comrcio do Porto, Dirio 
de Lisboa e Dirio Popular, inseriram crtica literria 
responsvel e regular as revistas Seara Nova, Brotria, Vrtice, 
ColquiolLetras e o Builetin des tudes Portugaises. Este ltimo 
contm uma utilssima revista das revistas, com men o e por 
vezes sumrio de artigos que interessam  literatura e histria 
portuguesas. O mensrio *Letras e Letras+, Porto, publica desde 
1987 em cada n. 1 um dossier-bibliograf ia e estudos sobre um 
autor contemporneo. Para a historiografia e informao 
histrico-cultural, recorrer ao Dicionrio de Histria de 
Portugal, dirigido por Joei Serro, 2. ed., 6 vols., 1978.

Antologias temticas da col. Antologias Universais, Portuglia: 
A Saudade na Poesia Portuguesa, selec. e pref . de Urbano 
Tavares Rodrigues, Prosa Doutrinei de Autores Portugueses, 2 
vols., org. de Antnio Srgio; e Os Mais Belos Contos de Amor da 
Lteratura Portuguesa. Natlia Correia org. e pref. uma 
Antologia da Poesia Ertica e Satrica Portuguesa, 1966.

Literatura infantil: lemos, Ester de: A Literatura Infantil em 
Portugal, Lisboa, 1972; Pires, M. Laura Bettencourt: Histria da 
Literatura Infantil Portuguesa, Vega, sld; S, Domingos 
Guimares de: A Literatura Infantil em Portugal, Ed. 
Franciscana, Braga 1981; Rocha, Natrcia: Breve Histria da 
Literatura Portuguesa para Crianas em Portugal, lCLP - ME,
1984, reed. 1992 (com bibliografia e sinopse cronolgica) e 
Bibliografia Geral da Literatura Portuguesa para Crianas, 
Comunicao, 1987. A Fundao C. Gulbenkian promove anualmente, 
desde 1980, Encontros de Literatura para Crianas.

Literatura policial: Jorge, C. J. F.: O Policial Portugus, in 
*Vrtice+, 11 Srie, 9, Dez.
1983, pp. 115-119. Guerra, Orlando: A Literatura policial 
Portuguesa e os escritores marginais, in *Vrtice+, 11 Srie, 
45, Dez. 1951, pp. 101-119.

1188                                                 HISTORIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

Fico cientfica: Hoistein, lvaro de Sousa/Morais, Jos 
Manuel: Bibliografia de Fico Cientfica e Fantstica 
Portuguesa, 1987; revista do g nero: *Ornnia+, em publicao 
desde 1988; Almeida, Teresa Sousa de: Estranha Viagem ao Mundo 
da Fico Cientfica em Portugus, in *Vrtice+, 41, Agosto, 
1991, pp. 717.

Literatura popular: Guerreiro, Manuel Viegas: Para a Histria da 
Literatura Popular Portuguesa, ICALP, 1978; Traa, M. Emlia: 
OFiodaMemriaDo ContoPopularao Conto para Crianas, col. Mundo 
de Saberes, Porto Editora, 1992.

Est desde 1971 em publicao em fascculos um Dicionrio do 
Teatro Portugus, dirigido por Lus-Francisco Rebelo.

Sries monogrficas: a nica existente para a literatura 
portuguesa  a da Editora Arcdia, inicialmente sob o ttulo de 
A Obra e o Homem, com 17 vols., e desde 1973 sob o ttulo de 
Universidade do Estudante.

Mtrica: artigos de A. Coimbra Martins no Dicionrio das 
Literaturas Portuguesa, Galega e Brasileira; Amorim de Carvalho. 
Tratado de Versificao Portuguesa, 2. ed., Lisboa, 1965, e 
Teoria Geral da Versificao, 2 vols., 1988; Celso Cunha, Lngua 
e Verso, Lisboa, 1984.

O Boletim Internacional de Bibliografia Luso-Brasileira e a 
revista Vrtice contm ndices onomsticos de autores e artigos 
de certas revistas culturais importantes.

Jorge Peixoto, Histria do Livro Impresso em Portugal, in 
Arquivo de Bibliografia Portuguesa, 10-12, n.os 37-48, 1967.

Para a literatura brasileira ou o que possa ter-se como tal, 
recorrer ao Dicionrio Literrio Brasileiro, de Raimundo de 
Menezes, Ceitrix, Rio de Janeiro/So Paulo, 1980 ou  Pequena 
Bibliografia Crtica da Leitura Brasileira, Otto Maria Carpeaux, 
Afrnio Coutinho, A Literatura do Brasil, 6 vols., Sul 
Americana, Rio de Janeiro, 1968-1971, 3.1 ed. co-dirigida por E. 
de Faria Coutnho, Jos Olympio, 1986; A. Castelo/A. A. Amaro/J. 
Pacheco/M. Moiss/A. Bosi/W. Martins, A Literatura Brasileira, 6 
vols., Cultrix, So Paulo,
1962-1965; A. Bosi, Histria Concisa da Literatura Brasileira, 
Cultrix, So Paulo,
3. ed. 1937.


Para genricas relacionaes com as literaturas estrangeiras 
mais interligadas com a portuguesa, pode recorrer-se aos 
pequenos volumes de histria dessas literaturas includos nas 
coleces Que Sais-Je? e Armand Colin, ou, em portugus, na 
coleco dos cadernos Inqurito e na Biblioteca Cosmos.

Como ponto de partida de maior desenvolvimento, recorrer, por 
exemplo, aos manuais da coleco Hachette, nomeadamente: 
Histoire de Ia littrature franaise, por G. Lanson (ou o Manuel 
iliustr de Ia lit. fran. de Lanson e Tuffrau); Histoire de Ia 
lttrature latine, por R. Pichon; Histoire de Ia littrature 
espagnole, por Fitzmaurice-Keliy; Histore de Ia lttrature 
italienne, por H. Hauvette.

Uma das histrias da literatura espanhola mais actualizada, 
embora difusa,  a de Angei Valbuena Prat, 2 vols. 2. a ed., 
Barcelona, 1946; ver tambm C. B. Aguinaga, J. R. Purtolas e 1. 
M. Zavala, Historia de Ia Literatura Espafiola (en lengua 
castellana), 2. ed. corr. e aum., 3 vols., Editorial Castalia, 
Madrid, 1981-84.

Riego, Francisco Fernandez dei: Manual de Histria de Literatura 
Gallega, Vigo, 1951. Jcome, Bento Varela: Histria de Ia 
Literatura Gallega, Santiago de Compostela, 1951.

7. a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                
                          1189

Calero, Ricardo Carballo: Histria de Ia Literatura Gallega 
Contempornea, 1. vol., Vigo, 1964.

Histria Ilustrado das Grandes Literaturas, Editorial Cor, 
Lisboa (em vrios vols.). Principais histrias desenvolvidas da 
literatura brasileira: as de Liberato Bettencourt, Rio, 6 vols., 
1945; Silvio Romero, 6. ed., Rio, 1960; Jos Verssimo, 3. ed. 
Rio, 1954; Nelson Werneck Sodr, 4. 1 ed., Rio, Afrnio 
Coutinho, A Literatura no Brasil, 2. a ed.,
5 vols., 1968-70. Resumos da mesma literatura, os de Ronald de 
Carvalho (Pequena Histria da ... ), 9. > ed., Rio, 1953, Alceu 
Amoroso Lima (Quadro Sinttico da ... ), Rio, 1956; Jos Osrio 
de Oliveira (Pequena Histria da ... ), 4. > ed., So Paulo, 
1967. Mais recentemente, Luciana Stegagno Picchio, La 
Letteratura Brasiliana, 1972, na col. La Letterature dei Mondo, 
Sansoni-Accadernia, Florena e Milo, e Jos Guilherme Merquior, 
De Anchieta a Euclides, Jos Olympio Editora, Rio, 1977.

Para a histria da literatura inglesa, alm do manual clssico 
de Legouis e Cazamian, vrias vezes revisto em francs e ingls, 
utilizar os 7 vols. do Pelican Guide to English Literature, 
tambm com vrias revises desde 1961. Ver ainda Jorge de Seria, 
A Literatura Inglesa, So Paulo, 1963, com boa informao 
especfica e comparativa.

Histrias da literatura portuguesa em lngua estrangeira: 
Antnio Jos Saraiva, Histona de Ia Literatura Portuguesa, ed. 
Istmo, Madrid, 197 1; Georges Le Gentil, La Littrature 
Portugaise, ed. rev. e aum., Paris, 1951; CIaude-Henri Frches, 
Histoire de Ia Littrature Portugaise, col. Que Sais-je?@- 
Dejiny Portugaisk Literatury, traduo checa da S. ed. da 
presente obra por Zdenek Hampi, Praga, 1972.

H quatro sries de gravaes comerciais de textos literrios 
portugueses contemporneos lidos pelos autores: uma da marca 
Orfeu, que abrange tambm prosadores, outra da Decca, mais 
numerosa, incluindo discos de 33 e de 45 rotaes, outra da 
Philips, e a coleco *Disco Falado+ da Sasseti. Alm de 
entrevistas, comemoraes, recenses televisionadas sobre outros 
autores, existem extensos filmes documentais acerca de Raul 
Brando, Aquilino Ribeiro, Miguei Torga, Joo de Arajo Correia, 
Eugnio de Andrade, Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner 
Andresen, Verglio Ferreira, alm de Conversa Acabada, 1982, 
sobre F. Pessoa e M. S Carneiro.

Algumas antologias colectivas em traduo: Angei Crespo, Pliego 
de Poesia Portuguesa, Madrid, 1960, e Antologia de La Nueva 
Poesia Portuguesa, ed. Adonais, Madrid, 1961.

Revista Cormorn y Delfin, * 10 Poetas Portugueses+, Outubro de 
1967, Buenos Aires. Insula, ri.os 96-7, dedicados a *Letras 
Portuguesas+, Madrid; Sophia de Mello Breyner Andresen, Quatre 
Potes Portugais (Cames, Cesrio, S-Cameiro, Pessoa), P. LI. 
F., 1970.

Meyrelles, Isabel: Anthologie de Ia Posie Portugaise du XII au 
XXe Sicle, Gallimard, Paris, 1971.

Le Journal des Potes, ri. > 9, 1952, organizado por Casais 
Monteiro. Kochnitzky, Lon: Syrithse, *Keepsake Portugais+, 
n.05 145-6, Bruxelas, 1958. Lopez, F. Lopez/Marrast, Robert: La 
Posie Ibrique de Combat, ed. Pierre Jean Oswald, Paris, 1966: 
*Les Belles Paroles+ n. O 1, Marselha, 1966, com antologia de 
16 poetas portugueses.

1190                                               HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA

Potes Portugais, Esprit, Paris, 1966. Primtre, n. 1, Paris, 
1970, antologia de 12 poetas com estudo de Alcides de Campos.

Modern Poetry in Translation (de Pessanha  gerao de 1961), 
n.I duplo 13114, Londres, 1972, org. de Hlder de Macedo.

Contemporary Portuguese Poetry, antologia bilngue por Jean R. 
Longlanci, ed. Harvey House, New lork; The Journal of the 
American Portuguesa Society, n. O dedicado  moderna poesia 
portuguesa, vol. 12, n. > 1, Vero de 1978 (selec. e introd. de 
Alberto de Lacerda), 1966.

Meyer-Clason, Curt: Der Gott der Seefahrer und andere 
Portugiesische ErzhIungen (de Ferreira de Castro a Luandino 
Vieira), eci. Horst Ercimann, Tbingen/ Basel, 1972, e 
Portugiesische Gedichte, in Jahresring 72-73, Deutsche Verlags-
Anstalt, Estugarda,
1972.

Pais, Erwin Walter: Neue Portugiesische Lyrk, Literatur und 
Kunst, in Neue Zrcher Zeitung, 1963-04-07.

lise Losa e . Lopes, Portugiesische ErzhIer, Aufibau Verlag, 
1962, lch kannn die Liebe nicht vertagen (poesia), 1969, com 
Egito Gonalves, Portugiesische Erkundungen (contos), Volik und 
Welt, 1973, e com Tilla Thonig, Liebesgeschichte mit Datum 
(contos), Aufibau Veriag, Berlim.

Golubieva, E.: Portuglscaia Poeziia XX Vieca, Moscovo, 
Khudojestvinnaia Litieratura, 1974.

Tavani, Giuseppe: De Pessoa a Oliveira, Edizioni Accademia, 
Milo, 1973. Cattaneo, Cario Vittorio: La Nuova Poesia 
Portoghese, Edizioni Abete, Roma, 1975 (poetas nascidos entre 
1930 e 1949). L'Europa letteraria e artistica, n. > dedicado a 
Portugal, Elvetica Edizioni, Chiasso, Zrich-Genve, Janeiro de 
1975.

Cuesta, Pilar Vsquez: Poesia Portuguesa Actual, Edicin 
Bilingue, Madrid, 1976 (de Pessoa a Eugnio de Andrade).

A revista Esprit publicou em 1967 uma antologia de poetas 
portugueses contemporneos, selec. A. Ramos Rosa, apresentao 
de Arnaldo Saraiva, e o n. 1 de Janeiro de

1979, dedicado a Portugal, contm estudos e tradues de textos 
portugueses. O vol. lii, n. 1 2 da Intemational Poetry Review, 
1977, que contm antologias bilngues,  dedicado  poesia 
portuguesa contempornea.

Macedo, Hlder:lCastro, E. M. Melo e: Contemporary Portuguese 
Poetry, Carcanet Press, Manchester, 1978.

O n. de Inverno de 1978 de rev. World Literature Today, Univ. 
de 0k1ahorna,  dedicado ao conjunto das literaturas lusfonas.

H, em russo, uma antologia do Conto Portugus Contemporneo e 
outro de Poesia Portuguesa Contempornea (J. G. Ferreira, J. de 
Sena, Sophia de M. Breyner, Carios de Oliveira e E. de Andrade), 
ambos org. e trad. por Elena Riuzova, editorial Progress, 1980.

Fernando Pessoa - Antologia de lvaro de Campos, ed. bilngue 
por J. A. Liardent, Editora Nacional, Madrid, 1978.

7 a POCA - POCA CONTEMPORNEA                                 
                      1191

Crespo, Angel: Antologia de Ia Poesia Portuguesa Contempornea, 
1 e li, Ed. Jcar, Madrid, 1982.

Nejar, Carios: Poesia Portuguesa Contempornea (de Nemsio a J. 
Manuel Magalhes), So Paulo.

Europe - Littrature au Portugal, n.@ de Abril, 1984, Paris. 
Viagem  Literatura Portuguesa Contempornea, antologia, 
apresentao e entrevista por Cremilde de Arajo Medna, 
Nrdica, So Paulo, 1984.

Pampano, Angei Campos: Los Nombres del Mar (Poesia Portuguesa 
1974-1984), antologia bilngue, Editora Regional de Extremadura, 
1985.

PortugaIski Kvartet (J. de Sena, M. Cesariny, E. de Andrade, H. 
Hlder), org. e trad. servo-croata de Mirio Tomasovic, Znanje, 
Zagreb, 1984.

Saldels, Marianne: Smaken Av Oceanerna, Lyrikkiubb, 
Kristianstads, Sucia, 1982. Willemsen, Augusto: IK verheerlijk 
het Verieden niet, Meuienhoff, Amesterdo, 1985. J. M. Liompart, 
Poesia Gallega, portuguesa i brasileira moderna, edicions 62 i 
*la Caixa+, Barcelona, 1988 (portugueses: de Rgii e H. 
Hlder).

Cuadernos de Poesia Men, n. 314, Cuenca, contm antologia de 
poetas portugueses dos anos 70-80.

A rev. Anthropos (suplementos), n. > 15, publica uma bibiograf 
ia da poesia portuguesa de autores nascidos entre 1900 e 1960.

Action Potique, n. 119, 1990; Nouveaux Potes Portugais. 
Antologia da Poesia Portuguesa (Antologia de Ia Posie 
Portugaise) - 1960-90, Caminho, 1992.

1192                                               HISTRIA DA 
LITERATURA PORTUGUESA
O
IIIIII@4D,EYDA 61,UZ,106,k@F[C,4

O tempo necessrio para rever, actualizar, compor e imprimir uma 
obra destas impossibilita que se mantenha em dia a bibliografia 
das pocas mais antigas. Decidimos, no entanto, registar neste 
final algumas das edies e estudos que entretanto se 
publicaram, seguindo uma ordem cronolgica aproximativa dos 
assuntos:

Buescu, M. Gabriela: Perceval e Galaaz Cavaleiros do Graal, 
*Biblioteca Breve+, n.o 125, 1991;

Cirurgio, Antnio: A Sextina em Portugal nos sculos XVI e 
XVII+, * Biblioteca Breve+, n.o 126, 1992;

Matos, Lus de: L'Expansion Portugaise dans le Littrature 
Latine de Ia Renaissance, Fund. C. Gulbenkian, Paris, 1991 
(textos traduzidos);

Dias, Duarte: Vrias Obras em Lngua Castelhana e Portuguesa, 
introd. e notas de Ant. Cirurgio, Fund. C. Guibenkian, Paris, 
1991 (a 1. edico era de Madrid, 1592);

Lobo, F. R.: Corte na Aldeia, fixao de texto, intr. e notas de 
Jos Adriano de Carvalho, Ed. Presena, 1992;

Baa, Jernimo: Lampadrio de Cristal, fixao de texto, apres. 
e notas de Ana Hatheriy, Comunicao, 1991;

Costa, Manuel da: Arte de Furtar, intir. e notas de Roger 
Bismut, Fund. C. Gulbenkian, Paris, 1991;

Verney, L. Antnio: Verdadeiro Mtodo de Estudar - Cartas sobre 
Retrica e Potica, intir. e notas de M. Lucilia Gonalves 
Pires, Ed. Presen a, 1991.

@ A -A., Ruben (Ruben Alfredo Andresen Leito): 1104, 1165      
       . ...... Abelaira, Augusto: 1137, 1150,

1163   . ...........................      .... Abraham, Richard 
D.: 100,                     ..... Abranches, Antnio da Silva: 
.. Abreu, Graa:            ...................... Abreu, 
Guilherme Augusto de

Vasconcelos: 100,            ............... Accio, Abel: V. 
Botelho, Abel Acciaivali, Margarida:               ............ 
Acenheiro, Cristvo Rodrigues:

79, 133, 134, 270, 439,                   ....... Adam de Ia 
Halle:              ................. Adam, Jean-Michel:        
         .......... .... Adam, Paul: V. Plower, Jacques Adamov: 
          ............................. Addison, Joseph: 580, 
620, 638,

639, 641        ........................... Adier:       
................................. Adorno, T. W.: 987, 989, 997, 
Adro, Maria do:              ................... Afonso, D. 
(irmo de D. Dinis): Afonso, D. (filho de D. Joo 11):

140, .... .   .........................   ... Afonso, D. (conde 
de Barcelos e

1. duque de Bragana):                   ..... Afonso II, D.: 
19, 58,               ......... ... Afonso III, D.: 37, 46, 47, 
58, 94,

120, 156        ......................    ..... Afonso IV, D.: 
79, 97, 120, 140,

141, 162, 270, 271, 272, 443,

Pgs.
O
Afonso V, D.: 99, 106, 107, 120,

133, 137, 138, 139, 140, 141,
143, 147, 155, 157, 178, 269,
297, 367, 381,           ...................          448 Afonso 
VI, D.: 461, 541, 549, 556,                        774 Afonso VI 
(rei de Leo e Castela):

59,    ..................................              81 Afonso 
VII:           .........................            47 Afonso X, 
o Sbio: 10, 18, 40, 46,

47, 48, 58, 66, 67, 69, 77, 79,
86, 87, 156,         ......................           439 
Afonso, Joo:            ......................           1187 
Afonso, Jos:           .......................           1117 
Afrodsias, Alexandre de:                  .......        175 
Agostinho, Jos             ..................  .        679 
Agostinho, Santo: 16, 111, 144,

216, 326, 327, 331, 472, ,               .....        478 Aguas, 
Jos Neves: 311,                .........          1036 Agudo, 
Francisco Dias:                 ..........         354 Aguar, 
Fernando:              ......  ...........        1120 Aguiar, 
Joaquim Antnio de: 606,                          694 Aguiar, 
Jorge de:             ..................          159 Aguinaga, 
C. W:               ..................          1188 Aiele, 
Maria Lgia Martha: .                  ....        1172 Aires de 
Magalhes Seplveda,

Cristvo: 314, ...         ........  . ......        965 Aires, 
Gil:       .....................    . .....        142 Aires, 
Matias: 499, 608-613, 614,                         1047 Alain:  
    .................................             1058 Alarco, 
Jorge:           ...........  ..........          28 Alarcn, 
Juan Ruiz de: 220, .                  ...        469 Alatorre, 
Margit Frenk:                ..........          73 Albergaria, 
Manuel Soares de: .                           369 Alberti, Leo 
Baptista: 174, 265,                         399

1196

HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
Pgs.

Alberti, Rafael:         ......................          984 
Alberto, Carlos:          ............         ......... 798 
Alberto Magno, Santo: 308, 312,                          381 
Albuquerque, Afonso de: 308,

312,   ..................................            381 
Albuquerque, Brs de: 309,                     ......    312 
Albuquerque, Lus de: 188, 294,

311, 357, 358, 613, 675, 694,
782, .... .  .........................     ....      1082 
Albuquerque, Mrio de:                         .......... 1082 
Albuquerque, Martim de:                        ........  358 
Alceu:     ..................................            628 
Alciato:      .............................    ...       338 
Alcipe: V. Alorna, Marquesa de Alcochete, Nuno Daupias d:      
                        595 Alcoforado, Francisco: 310, 484,    
                     486 Alcoforado, Sror Mariana: 499,

509, 1007,      ..........................           1148 
Alegre, Manuel: 1115              ........     . .....   1172 
Alegria, Jos Augusto:               ............           74 
Aleixandre, Vicente:            ................         984 
Aleixo, Antnio Fernandes:                     .... ..   957 
Alemn, Mateo: 184, 185, 459,

485,   ..........................          ........  569 
Alembert, Jean de Rond de:                     ....      664 
Alexandre, Antnio-Franco:                     .....     1129 
Alexandre Magno: 40, 93,                       ........  398 
Alexandrina, Maria:             ........       ........  1029 
Alewyn, Richard:             ...................         465 
Alfieri, Vittorio: 578, 638, 641,

709, 713,      ...........................           721 Ali, 
Manuel Said:            ...................            29 Allem, 
M.:       ....... . .................   ...       465 Almada, 
Anto Vasques de:                      .....     342 Almada-
Negreiros, Jos Sobral

de: 1020, 1039, 1040, 1041,

1045, 1055, 1058, 1101,                    .......   1160 
Almeida, Antnio Ramos de:                     ...       1079 
Almeida, Eduardo de: 555,                                569 
Almeida, Fortunato de: 537,                    ....      1006 
Almeida, Francisco Antnio de:                           589 
Almeida, Francisco Lopes Vieira

de: 356, 357,        ......................          975 
Almeida, Henrique:              ................         1037 
Almeida, J. Mendes de:               .....     ......    830 
Almeida, Joo de:             .........        .. ....... 800
O
pg5.

Almeida, Jos Valentim Fialho de:

699, 934, 940, 941, 942, 943,
945, 946, 951, 952, 1014, 1016,
1021, 1069,         ........................         1070 
Almeida, Leonor de: V. Alorna,

Marquesa de Almeida, Lus Manuel da Rocha

Ferrand de:         ........................         613 
Almeida, p.e Manuel de: 300,                  ...        444 
Almeida, Manuel Duarte de: 965,                          1021 
Almeida, Manuel Lopes de: 144,

391, 433, 448, 449,           ..............         570 
Almeida, D. Maria de:                ............        659 
Almeida, Roberto A. V. F. de: V.

Rocha, Jorge Almeida, Teresa Sousa de:                  ......  
      1187 Almeida, p.e Teodoro de: 485,

591, 664, .... .    ......................           665 
Almeida, Francisco L. Vieira de:                         849 
Almeida, Zulmira de: V. Lima,

Marta de Almodvar, Antnio:               ..............       
  702 Alonso, Drnaso: 75, 222, 508,                           
986 Alorna, Marquesa de: 623, 652,

659, 661, 664, 669-670, 675,
676,     .......... .......................          737 AI-
Razi, Ahmed:           ....................              88 
Althusser, Louis:         ....................           989 
Alvar, Carlos:          ................. .......           72 
Alvar Lopez, Manuel: 28, 70,                  ...           73 
Alvarenga, Manuel Incio da


Silva: 623, 655, 657, 665,               .....       674 
lvares, Afonso: 214, 216, 217,                          226 
lvares, p.e Francisco: 300, 3 10,                       314 
lvares, Frei Joo: 141, 142, 144,

146, 149     . ...........................           152 
lvares, P.e Manuel:             ...............         599 
Alvarez de Villasandino, Alfonso:

V. Villasandino, Afonso lvares de Alvarez, Manuel Fernridez:  
               .....        186 Alvarez, Vicente:         
....................           389 Alves, Ana Maria:            
..................          850 Alves, ngelo:          
.......................          1037 Alves, Armando:           
....................           1187 Alves, Constncio:          
 ..................          552

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO
O
Pgs,

Alves, P.e Francisco Manuel: V.

Baal, Abade de Alves,      Jos: 315,        .............     
   ......  875 Alves,      Jos dil de Lima: ..                
  .....   832 Alves,      Jos da Felicidade:                   
 ....... 297 Alves,      Manuel dos Santos: ..                  
....    552 Alves,      M. Theresa Abelha:                     
......  572 Alves,      Pinheiro:        ....................   
       815 Alves, Vasco de Mendona: 1003,                      
      1161 Amado, Jorge: 985,                 ...............   
      1084 Amado, M. Teresa: 488,                             
......... 1157 Amador, Beato:               .................... 
         549 Amaral, Antnio Caetano do:

447, ...     ..............................            593 
Amara], Baltasar do:                   ....        ......... 183 
Amaral, Fernando Pinto do: 1130,                           1133 
Amaral, Melebior Estcio do: 301,                          312 
Amaro, A. A.: .. .            ................     ...     1188 
Amaro, Carlos:             .....................           1161 
Antaro, Francisco Lus: 1066,                              1112 
Amaro, Santo:            ...... . .............               96 
Amaro, Teresa: 133              ...........        ......  245 
Ambrsio, Santo: 16,                ..............            96 
Ameno, Francisco Lus: 517,.....                           637 
Amiel, Henri-Frdric:                 .......     .....   1049 
Amora, Antnio Soares:                             ......... 
1028 Arnorim, Francisco Gomes de:

733, 796, 797, 801, 809, 810                           811 
Anacreonte: 248, 628,                  .............       762 
Anastcio, Vanda:               ...............    ..      359 
Anaxgoras:            .............   ......      ......  425 
Anchieta, p.e Jos de:                 .....       ....... 655 
Anderson, Sherwood:                    .....       ........984 
Andrada, Francisco de: 380, 387,

392, 432, 438, 439, 440, 448,                          477 
Andrada, Paulo Gonalves de:..                             506 
Andrade, A. A. Banha de: 315,                              616 
Andrade, Antnio Alberto de: 596,

614,    .................................              615 
Andrade, P.e Antnio de: 300,

311,    .................................              314 
Andrade, Antnio Pinto Correia

de:     .........................              .. ....... 506 
Andrade, Baltasar de Brito e: V.

Brito, Frei Bernardo de Andrade, Carlos Drummond de:            
                   985 Andrade, Celeste de:                
..............         1145

Andrade, Diogo de Paiva de (telogo):   
..............................    . Andrade, Diogo de Paiva de: 
227,

432, 442, 448, 476,               ............. Andrade, Eugnio 
de: 1094, 1098,

1099, 1172, 1173, 1187, 1189,
1190,    ..........  .........    ............ Andrade, 
Francisco de Paiva de:

V. Andrada, Francisco de Andrade,      Francisco Leito de: 
Andrade, Gomes Freire de (1.

Conde de Bobadela):               ........... Andrade,       
Gomes Freire de (sc.

xix):      ...................    ........... Andrade,      
Jacinto Freire de: 447,

449, 493, 502,       .................... Andrade, Joo Pedro 
de: 1000,

1003, 1034, 1091, 1157,              ....... Andrade, Miguel 
Leito de: 301,

439,   ......................     .. ...... ... Andrs, Maria 
Soledad de:                ...... Andresen, Sophia de Mello 
Breyner: 1094, 1097, 1098, 1173,
1189,    ...................      .. .......... ngelo, Miguel: 
176, 177, 249,


289, 290, 296,       ................   .... Angenot, Marc:     
      ..........   ........... Angls, H.:         .......... 
................ Anglade, J.:         ......................... 
Anido, Nayade:           ..................... Anfiques, Lus:  
        ..................... Anselmo, Antnio Joaquim: 188, 
Anselmo, Santo:          .................  ... Antoine: .. .   
   ........................... Antnio, D. (Prior do Crato): 
365,

447,   ................................. Antnio, Lauro:        
  .................... Antnio, Nicolau:              
.................. Antnio, Santo: 498,           
............... Antscherl, Otto:         .............   ....... 
Antunes, Antnio Lobo: 1155, . Antunes, P.e Manuel:             
     ............. Apel, K. O.:         .............    
............ Apollinaire, Guillaume: 497,

969,982,       ..........  ................. Apolodoro:         
 .......................... Apolnio de Rodes: 333              
  . .........

1198

HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
Pgs.

Aquarone, Jean-Baptiste:                ........         316 
Aquino, S. Toms de: V. Toms

de Aquino, S. Arago, Antnio:             ..................   
       1120 Arago, Augusto Carios Texeira

de:    .......................          .....        887 Aragon, 
Louis: 985            . ..............           986 Arata, A.: 
        ...........................           997 Aranda,       
 Conde de:       ................          577 Aranha, Pedro 
Venceslau de

Brito:     755, 757, 838,        ..........          1185 
Arajo,        Hamlton de:          ............        1007 
Arajo,        Joaquim de: 872,          .......         956 
Arajo,        Lus de:    ............ .  ......        800 
Arajo,        Matilde Rosa:         ........  ...       1186 
Arajo,        Norberto de: 1070,           .....        1077 
Archer,        Maria:    ....................   .        1076 
Aretino, Pietro:           ....................          176 
Arfet, Ana d: 310, 472,               .........         484 
Argensola, Bartolomeu Leonardo

de:    ..................................            480 
Argensola, Luprcio Leonardo de:                         480 
Argent, Marc:            ......................            26 
Aris, Philippe:          .....................            42 
Ariosto, Ludovico: 249,                .........         335 
Aristarco:        .................  ...  ........       429 
Aristfanes: 265,           ..................  .        644 
Aristteles: 38, 107, 176, 179, 183,

184, 207, 261, 267, 268, 269,
281, 425, 426, 477, 493, 592,
599, 601, 603, 624, 625, 664,
716, 720,       ..........................           864 
Arlincourt, Charies de:              ...........         817 
Arnaut, Manuel Pinheiro:                  .......        495 
Arnim, Achin von (Ludwig Joachim):     
..............................            944 Arnoso, 1 . Conde 
de (Bernardo


P. C. de Melo):            .................         902 
Arquimedes: ... .         .....................          346 
Arrabal, Fernando: 987,                 .........        1100 
Arrais, Frei Amador: 427, 430-431,

433, 434, 444,         ....................          527 Arrais, 
Jernimo: ..            ................         430 Arrazi, 
Ahmed: V. AI-Razi, Ahmed Arriaga Brum da Silveira, Manuel

de:    ..................................            838 Arroyo, 
Leonardo:              .......... . .....        311
O
Pgs.

Artaud, Antnio: 987, 1100, ...                          1163 
Asensio, Eugenio: 74, 187, 224,

225, 226, 227, 243, 246, 256,
257, 275, 316, 348, 357, 392,
417, 418, 489,        ....................          571 Askins, 
Arthur Lee-Francis: 69,

222, 356, 387        .....................          388 Assis, 
Machado de: 524,                .........         907 Assuno, 
Toms Lino de:                   ......        946 Atade, 
Catar na de:              ........... ...        318 Atkinson, 
Dorothy M.: 134, 875,                          976 Aubailly, 
Jean-Claude:               ...........         228 Aubin, Jean: 
          ........................          146 Auden, Wystan 
H.:                 ......... ......       985 Augier, Emile: 
799,               ...............        800 Augin, Jean: 295, 
                ..................     315 Augusto (imperador 
romano): 13,                          398 Aurlio, Diogo Pires: 
            .............          1133 Austen, Jane: 583,      
          ...... ..........      804 Austin, John:           
.......................          990 Aveiro, Duque de: V. 
Lencastre,

D. Joo de Aveiro, Frei Pantalco de: 300, 3 10,                
    1156 Averris Qbn. Rochd):             .............        
  175 Avieno, Rufo Festo:               ...............        
533 vila, Antnio Jos de:               ...........        839 
vila, Norberto de:               ................       1170 
Avilez, Carlos:         .......................          1160 
Avranches, conde de:              ..............         744 
Ayala, Pero Lopez de: V. Lopez de

Ayala, Pero Azceta, Jos Maria:              ..............    
     164 Azambuja, Maria da Graa: V.


Freire, Maria da Graa Azevedo, lvaro Rodrigues de:            
                310 Azevedo, Guilherme de: 838, 839,

941, 957, 958, 959, 960, 962, 963,
966, 973,       ..........................          975 Azevedo, 
D. Joo de:              .............          801 Azevedo, 
Joo Lcio de: 465, 526,

552, 553, 594, 615, 1005, 1014,
1081,     . ...........      ..................     1082 
Azevedo,       Julo Soares de:          .......        595 
Azevedo,       Manuela de:        .............          975 
Azevedo,       Maria Kruz:        .............          730 
Azevedo,       Melo de:           ....... ..........     143 
Azevedo,       Pedro de: 293, 55 1,           ...        887

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO

Azevedo, Rui de:             .................. Azevedo, Soares 
de:             ............... Azevedo, S. P. de:             
................ Azevedo, Visconde de: 291,                 
..... Azevedo Filho, Leodegrio A. de:

70,     .................................. Aziza, CI.:        
........................... Azorn (Martinez, Ruiz Jos): .. 
Azurara, Gomes Eanes de: V.

Zurara, Gomes Eanes de Azzolini, Giacomo:             
................

Babeuf, Franois Noel:                .......... Babo, 
Alexandre:              .................. Baal, Abade de:     
        ................... Bacelar, Dr. Antnio Barbosa:

384, 492, 495,           .................    .. Bacelar, 
Armando:               ................ Bach, Johan Sebastian:  
              .......... Bacon, Francisco: 173, 186, 303,

345, 455, 456,            ................... Bacon, Rogrio:   
         ...............       ..... Bada,     A.:     
........................... Badel,    P. 1.: 4 1,      ......   
.............. Baena, Joo Afonso de:                  ......... 
Baena, Visconde de Sanches de (D. Augusto Royano S. de B        
            *

e Farinha): .         ...................... Bagley, C. P.:     
      ...................... Baa ou Vaia, Frei Jernimo: 495,

498, 501, 504, 602,              ............. Baffio, Antnio: 
143, 292, 295,

310, 311, 312, 390, 449,                      ...... Baio, P.e 
Joseph Pereira:                       ...... Bakhtine, Mikhail: 
987,               .......... Bakounine, Mikhail A.:            
    .......... Balbn, R. de:          ....................... 
Baldinger, Kurt:           ......   ..........   ... Baldino, 
Justo:           ..................... BaIzac, Honor de: 686, 
690, 691,

787, 801, 802; 804, 818, 894,
903, 904, 919, 932, 935, 936,
949, .... .    ................  .. ....      ...... Bandarra, 
Gonalo Anes: 205,


382, 541, 542, 549,              ............. Bandeira, Jos de 
Sousa:                 ........
O
Pgs.

42
769
1172
294

355
26
984
O
589
O
577
1163
450

502
1091
458

578
107
28
73
156

678
74

1192

756
132
990
857
28
28
178

961

555
777


Bandeira, Lus Saldanha Monteiro: Bandeira, Manuel: 676         
         . .......... Bandeira, Marqus de S da: 796, Bandello, 
Matteo:                ................. Banville, Thodore de: 
692,                   ..... Baour-Lormian:                   
.................... Baptista, Abel Barros:                 
............ Baptista, Antnio Alada: 1155, Baptista, Jacinto: 
758, 998,                ...... Baptista, P.e Joo:             
 ................ Baptista, Jos Agostinho:                   
....... Baptista-Bastos: 1141,                 ............ 
Barahona, Antnio: ver: Fonseca,

Antnio Barahona Barahona, Margarida:                   
............ Barata, Antnio Francisco:                    ..... 
Barata, Jos Oliveira: 224, 523,

524, 525, 526, 952                 .............. Barata, 
Manuel:                  .................... Barbadinho: V. 
Verney, Lus

Antnio Brbaro,         Ermoiao         . ................ 
Barbero,         Ablio:         .................... Barbieri, 
       F. A.:          .................... Barbieri,        M.: 
   ........................ Barbosa,         Agostinho:         
   ...........  ... Barbosa,         Aires: 178, 181,           
....... Barbosa,         Carvalho:       ................ 
Barbosa, Domingos Caldas (Lereno): 650, 655, 657, 674, Barbosa, 
        Duarte: 301, 313,            ..... Barbosa,         
Jernimo Soares:           ...... Barbosa,         Joo Morais: 
         ........... Barbosa,         Dr. Jos:       ...... .. 
 ........ Barbosa,         Manuel:         .................. 
Barbosa,         Pedro: 1120,          ............ Barbosa,    
     Rui:    ....................... Barbusse, Henri:           
      ................... Barchiesi, Roberto:              
................ Baretti, Giuseppe:               
................. Baroja, Pio:          ......     
................... Barradas, Mrio:                 
.......+...........

Barreira, Ceclia: 974,                .... ........ Barreira, 
Joo:            ..................... Barreiro, Danilo:        
        ................... Barreiros, Gaspar: 300,             
   .......... Barreno, Maria Isabel: 1148, 1150,

1200

HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
Pgs.

Barrento, Joo de Sousa:                 ........        553 
Barret, Elisabeth:           ..................          691 
Barreto, Evaristo Jos Pereira da

Costa: 999,         ...................  . ...       1030 
Barreto, Francisco:             ................         318 
Barreto, Guilherme Moniz: 845,

846, 852, 884, 889, 893,                ......       974 
Barreto, Joo Franco:                ............        359 
Barreto, Lus Filipe: 145, 146, 188,

315,    ...........................    . .....       316 
Barreto, Lus, Lima:              ..............         313 
Barros, F. Ozaram Pessoa de:                            535 
Barros, Guilherme de:                ............        775 
Barros, Henrique da Gama: 42,                            887 
Barros, Joo de: 140, 179, 180,

181, 182, 185, 254, 262,
277-285, 286, 291, 292, 293,
294, 319, 336, 340, 341, 357,
392, 395, 431, 437, 440, 443,
476   . .................................            565 Barros, 
Dr. Joo de (sc. XVI):

23, 41, 348,        ......................           489 Barros, 
Joo de (sc. XX): 849,

851, 975, 1010           . ..................        1017 
Barthes, Roland: 987, 989, 1125,                         1126 
Basto, Artur de Magalhes: 133,

134, 147, 152, 311, 677,                ......       811 Basto, 
Cludio: 354,              ..............         1013 Basto, 
Evaristo:             ....................        792 Basto, 
Rafael E. de Azevedo: ..                          310 Bastos,   
  Francisco Jos Teixeira:


845,    864,     ..........................          942 Bastos, 
    Francisco Leite:           ..........        945 Bastos, 
Joo:           .......................          1162 Bastos,   
  Raquel:     ......................           1076 Bastos,     
Sousa:      ......................           800 Bataille, 
Georges:           ..................          987 Bataillon, 
Marcei: 186, 187, 245,

295   . .............    ....................        553 
Baudelaire, Charles: 688, 691,

870, 894, 897, 911, 954, 958,
967, 970, 971, 982          . .............          983 Bauer, 
Helga:           ............ ... ........        551 Bauer, 
Wolfgang:             ..................          1167 Bayle, 
Pierre: 580, 588, ..              ........        592 Beardsley, 
Aubrey:              ............  ....       982 Beatrice, 
Coimbra:              ................         872
O
Pgs.

Beatriz, Infanta D. (duquesa de

Sabia): 197, 240, ..           ............          717 Beau, 
Albin Eduard: 134, 465,

757,     ....................   ......    .......     874 
Beaumarchais: 581,              ................          684 
Beauvoir, Simone de:                .............         986 
Bec, Pierre:          ..........................             27 
Beccaria, Marqus de:               ............          584 
Beckett, Samuel: 986,               ............          1100 
Beckford, William: 608, 660,                      ...     773 
Beethoven: 585             .....................          895 
Bguin, Albert:            ...................    ..      700 
Beirante, Cndido:              ................          758 
Beiro, Caetano:              ...................         1006 
Beiro, Mrio: 1005, 1011                     . .....     1013 
Belchior, Maria de Lourdes: V.

Pontes, Maria de Lourdes Belchior Beikior, Silva:            
......................         1053 BelI, Aubrey: 295, 417, 449, 
                 ....        537 BelI, Daniel:         
..................      .......     988 Bellay, Joachin du:     
        ................          177 Bellodi, Zina Maria:      
          ..............        1052 Belo, Ruy de Moura: 832, 
873,


1113, 1117        . ..............        .........   1173 
Beltrn, Vicente:             ...................           72 
Bembo, Cardeal: 249, 287, ..                  ... .       351 
Bene, Orietta del:            ..................          391 
Benjamim, Walter:               ................          997 
Benjumea, Diaz:               ...................         395 
Benn, Gottfried:              ...................         1127 
Bermassar, Bartolom: 185,                    .....       464 
Benolt, Monique:              ..................          951 
Bensade, Joaquim: 143, ...                   .....       1082 
Bense, Max:           .........................           1120 
Bento, Jos: 997, 1028,                       ..........  1113 
Bento de Nreia, So: 144,                    .....       440 
Beolco, Angelo: V. Ruzzante,

Angelo Beolco Branger, Pierre-Jean de: 766,                    
        767 Berardinelli, Cleonice: 223, 225,

226, 227, 356, 357, 876, 1051,
1053, 1054        ........................            1066 
Beresford: 587,            .....................          662 
Beretta, M. Spampinato:                       ........      71 
Bergson, Henri: 693, 981, 988,

1014, .     ..............................            1058

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO
O
Pgs.

Berkeley, George:                 ..................       580 
Bermudez, Frei Jernimo:                          .......  270 
Bernard, Claude: 691, 692,                        .....    903 
Bernardes, Diana:                 .................        1054 
Bernardes, Diogo: 250, 260, 354,

356, 365, 366, 367, 373, 387,
388, 390, 412,                ...................      415 
Bernardes, Flix:                 ...................      1162 
Bernardes, p.e Manuel: 444, 503,

531-535, 536, 537, 609                        . ....... 1016 
Bernardino, Teresa:               ...............          703 
Bernardo, So: 151,               ...............          441 
Berrini, Beatriz: 947, 948,                       .......  950 
Bertens, Hans:                    ......................   997 
Berto, AI: 1130,                  ....................     1173 
Bertoni, Giulio:                  ....................      72 
Bessa-Lus, Agustina: 1011, 1029,

1146, 1149, 1150, 1153, 1157,
1162   . .............................        ..       1173 
Bessario: 175,                   .....................    425 
Besselaar, Jos van den: 551, 552,                         553 
Betteneourt, Edinundo de: 1057,                            1063 
Bettencourt, Liberato:                .....       .......  1189 
Bezzola, Reto R.:                 ..................        42 
Bibbiena, Cardeal:                .................        267 
Biedermann, A.:                   ...................      594 
Biester, Ernesto: 763, 788, 799,

800,     ................     .................        836 
Bilac, Olavo:                     ........................ 671 
Bingre, Francisco Joaquim:                        .....    623 
Bon (de Esmirna): 230,                           ....... ... 
633 Bismarck, Otto, prncipe de: 879,                          
881 Bismut, Roger: 275, 354, 355, 357,


358, 488, 569, 572,               .....       ........ 1192 
Blake, Augusto Vitorino Sacramento:       .................    
............         674 Blanchot, Maurice:                
.........       .......  990 Blanco, Jos: 1074,               
...............          1053 Blasco, Pierre: .                 
.....................     71 Bloch, Marc:                       
                         41 Bluche, Franois:                 
..................       594 Blumenberg, Hans:                 
................         990 Bluteau, D. Rafael: 23, 463, 568,

585, 588, 617                 . ...................    618 Boal, 
Augusto:                    .....................    1167 
Bocage, Manuel Maria Barbosa

du: 324, 503, 623, 650, 651,
O
HLP - 76
O
652, 661, 662, 663, 665,
670-673, 675, 676, 677, 712,
713, 726, 730, 737, 752, 760,
762, 854       . .......................... Bocarro, Antnio:   
                               ................. Bocarro, 
Manuel: V. Francs,

Manuel Bocarro Boccaccio, Giovanni: 40, 108, 174,

199, 230, 231, 234, 236, 266,
533, .... .    .....................           ....... 
Boccalini, Trajano:                                
................ Bodin, Jean:           ........................ 
Boerhaave, Hermann: 580, .                         ..... Bohr, 
Niels:         ......................... Boiardo:        
...........                        ................... Boileau-
Despraux, Nicolas: 456,

493, 578, 588, 601, 618, 624,
634, 635       . .......................... Boissonade:         
 .......................... Boisvert, G.:          ....         
               .................... Bolo, Manuel de Paiva: 29, 
                       ... Bolingbrocke, Henry Saint-John:

580,     ................................. BII, Heinrich:      
     ...                      ................... Bom, Pedro:   
         ........................ Bonald, Louis-Gabriel-
Ambroise,


visconde de: 690,                              ............... 
Bontempo, Dorriingos: 589,                         ... Bordalo, 
lvaro:                                   ................ ... 
Bordalo, Francisco Maria: 801, 809, Borges, Jorge Lus: ... .   
                       ........... Borges, Jos Ferreira:       
                      ............ Borja, Lus de:              
                      ..................... Boron, Robert: 94,  
                               ................ Bos, Charies du: 
                                  ................... Boscn, 
Juan: 249, 328,                            ......... Bosi, A.,  
        ............................. Bossuet, Jacques-Bnigne: 
457, Botas, Jos Loureiro:                              
............. Botelho, Abel Accio de Almeida:

932, 933, 934, 936, 937, 946, Botelho, Afonso: 118, 1015, 1030,

1031,      ......................              ......... 
Botelho, E. Jorge:                                 
.............. ... Botelho de Faria e Castro, Maria

Fernanda: 1083, 1109, 1147,
1150, 1157       . ........                    ...............

1202

HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
Pgs.

Botrel, J.-F.:        ........................              26 
Botto, Antnio: 1040, 1160,                  ....        1162 
Bouiu, Paul:          ........................           996 
Bouloiseau, M.:            ....................          594 
Bourciez, E.:         ........................              27 
Bourdaloue, Louis:              ................         543 
Bourdon, Lon: 143,                       .............. 595 
Bourget, Paul: 692, 942                   . .........    946 
Bouterweck, Friedrich:                    ...........    232 
Boutroux, Etierme-Marie-mile:

693,    .......................       ..........     862 Bowra, 
Cecil M.: 357,                     ............   996 Boxer, 
Charles Ralph: 146, 187,

293,    .................................            315 Boyle, 
Roberto:            ....................          455 
Braatncamp, Anselmo Jos: V.

Freire, Anselmo Jos Braamcamp Braga, Alberto: 945,             
         .............. 946 Braga, Alexandre: 790, 793, 796,    
                     798 Braga, Guilherme: 793, 798,            
      ....        810 Braga, Lus de Almeida:                   
.........      1006 Braga, Manuel Marques: 69, 221,

244, 273, 274, 291, 292, 356,                        388 Braga, 
Maria Ondina: 1150, 1157,                         1174 Braga, 
Mrio: 1140, 1162,                    ......      1174 Braga, 
Tefilo: 69, 164, 227, 232,

234,    240,    256,   274,           355, 389,
489,    524,    525,   571,           596, 647,
675,    676,    677,   697,           698, 699,
702,    732,    733,   734,           735, 740,
747,    757,    763,   766,           781, 786,
811,    815,    834,   835,           837, 838,
840,    842,    843,   844,           845, 847,
849,    852,    857,   859,           864, 868,
872,    874,    879,   885,           891, 892,
903,    942,    946,   949,           955, 963,

974,    1004,     ........................          1006, Braga, 
     Vitoriano: 1003,              ..........     1161 Bragana, 
D. Constantino de: 260,                        318 Bragana, 
Duquesa de (filha de

D. Pedro de Meneses): Bragana, Jos de: 143, 144,              
     ...       448 Bragana, Nuno de: 1153,                  
.......        1174 Brahe, Ticho:           
.......................          477 Branco, Camilo Castelo: V. 
Castelo Branco, Camilo
O
Pgs.

Branco, Fernando Castelo: V.

Castelo Branco, Fernando Branco, Joo de Freitas:               
   .........        526 Branco, Joo Rodrigues de Castelo: V. 
Castelo Branco, Joo Rodrigues de Branco, J. Oliveira:          
    ...............          1036 Branco, Lus de Freitas:      
            .........        526 Branco, Manuel Bernardes:      
                .....       509 Brando, Frei Antnio: 79, 440,

442-"3,         ...........................            448 
Brando, Caetano:                ................          615 
Brando, Diogo: 159               . ............           162 
Brando, Fiama Hasse Pais: 358,

505, 1124, 1132, 1165, 1174,                           1181 
Brando, Frei Francisco: 89, 440,                          443 
Brando, Francisco Maria de

Sousa: 697, 786,             ................          787 
Brando, Jlio: 920, 947, 1022,

1932,       ...............................            1034 
Brando, Lus Pereira: 380,                    ....        392 
Brando, D. Maria:                 ...............         232 
Brando, Maria Angelina:                       ......      1027 
Brando, Raul: 433, 864, 940,

943,951,976,999,1003,                  1009,
1012, 1016, 1026, 1032,                1034,
1035, 1038, 1057, 1058,                1061,
1069, 1073, 1085, 1087,                1097,

1160, 1162       . .......................             1189 
Brando, So:            ......................               96 
Brando, Toms Pinto: 503, ..                              507 
Braso, Eduardo: 558,                     ...........      1001 
Brasil, Jaime:           .......................           1090 
Brasil, Reis: 143,            ...................          370 
Brsio, P.e Antnio:                ..............         147 
Braudel, Fernand: 185,                    ...........      464 
Brech, Herman:               ....................          982 
Brecht, Bertolt: 199, 205, 523,

984,985,986,987,1136,1163,
1164, 1167,          .......................           1168 
Bre, G.:         .............................            997 
Brmond, Claude:                ........  .........           25 
Brmond, Henri: ..              .....     ............     1058 
Brenner, Jacques:              ..................          997 
Brentano, Franz:              ...................          687 
Bresson, Marie:              ...............   .....       153 
Breton, Andr: 982, 985,                  ........         1100

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO
O
Pgs.

Breughei-o-Velho: 350,                 ...........         394 
Breyner, Francisco Manuel de

Meio: V. Ficalho, Conde de Brito, Frei Bernardo de: 284, 386,

439, 440-442, 443, 445, 448 505,                       566 
Brito, Bernardo Gomes de: 312,

314,     .................................             316 
Brito, Casimiro de: 1114, 1134,                            1174 
Brito, Duarte de:            ...................           162 
Brito, Jos Maria de:                .............         661 
Brito, Jos Sanches de:                 ..........         570 
Brito, Manuel Carlos de:                   ........        525 
Brocardo, M. Teresa Leito:                      ...       143 
Broch, Hermann:                ..................          987 
Brochado, D. Jos da Cunha: 558,

569, 585, 589, 613,              ............  .       614 
Brooks, Cleanth:             ...................              24 
Brotei, J.-F.:          ........................           420 
Brotero, Flix de Avelar: 593,                             659 
Brown ou Browne, Maria da

Felicidade do Couto: 792, 793,
812, .... .......                                      815 
Brckner, Heidrun:                ...............          1092 
Brun, Andr: ... .           ....................          1003 
Bruneti, Almir de Campos:                     .....        102 
Bruno, Giordano: 454, 458,                     ....        1046 
Bruno, Jos Pereira de Sampaio:

117, 152, 421, 536, 781, 805,
811, 846, 847, 848, 852, 864,
875, 1009, 1010, 1012, 1015,

1138   . ...............................               1186 
Buceta, Erasmo:              ...................           245 
Buchanan, Jorge: 179, 259                  . .....         269 
Bucimer, Ludwig:               ..................          864 
Bud, Guilherme: 174, 175,                    .....        425 
Bueno, F. da Silveira:                ............            30 
Buerger, Wieland: 670, 716, 740,                           791 
Buescu, Helena C.: 1036,                   ........        1186 
Buescu, M. Gabriela:                 .............         1192 
Buescu, Maria Leonor Carvalho:

101, 222, 291, 292, 293, 448,                          551 
Buffon, Georges-Louis:                  ..........         582 
Bugalho, Francisco:                ...............         1062 
Bugalho, Francisco Antnio Flores: V. Pavia, Cristovam Bulger, 
Laura Fernanda:                    ........        1174

Bunyan, John: 208,               ............... Burgos, Andr 
de: 233,               ......... Burns, Robert:          
................  .  ..... Busnardo-Neto, J. M.:                
 ........... ButIer, Samuel:           ..................... 
Butor, Marcel:          ..... . ................ Byron, Lord: 
687, 689, 690, 711,

714, 715, 716, 731, 767, ... --Cabete, Maria Adelaide:          
        ......... Cabral, Alexandre: 830, 831,

1032, 1139,         ....................... Cabral, Antnio: 
830, 831,                    ..... Cabral, Antnio Bernardo da

Costa: 696, 708, ... .           ............ Cabral, Antnio 
Manuel Pires:

1130, 1167,         ....................... Cabral, Joo Rebelo 
da Costa:

759,    ................................. Cabral, Manuel de 
Castro:                   ...... Cabral, Manuel Villaverde: 701,

702,     ................................. Cabral, Maria 
Manuela:                   ......... Cabral, Paulino Antnio: V.

Jazente, Abade de: Ccegas, Frei Lus de: 444, Cadamosto, 
Aluise: 313,                 ....... Caeiro, Alberto: V. Pessoa, 
Fernando Caeiro, Francisco da Gama:                     .... 
Cafezeiro, Eduardo:                .............. Caiado, 
Henrique:              ................. Caiei: V. Pestana, 
Alice Cajo, Jos Lus:             .................. Cal, 
Ernesto Guerra da: 948                    .... Calabrese, Ornar: 
..             ................ Calado, Adelino de Almeida: 144,

146,  .................................. Calafate, Pedro: ---   
        .................


Caldas, P.e Antno Pereira de

Sousa: 659, 664, ...            ............. Caldeira, 
Fernando: 956,                  ........ Caldern de Ia Barca, 
Pedro: 220,

221, 427, 460,           ...................

1204

HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
pg5.

CaldwelI, Erskine: .               ................      985 
Caleman, Alexander:                .............         950 
Calero, Ricardo Carballo:                  .......       1188 
Calheiros, L. P. L.:               ...............       830 
Calixto, Maria Leonor:                ..........         702 
Calmette, J.:         ........................           108 
Caimn, Pedro:             ....................          487 
Camacho, Diogo de Sousa:                   .....         502 
Camacho, Manuel de Brito: 1038,                          1070 
Cmara, D. Joo da: 947, 1002,                           1003 
Cmara, Leal da:             ............. .....         962 
Cmara, p.e Lus Gonalves da:                           260 
Cmara, Marta Mesquita da: ..                            1075 
Camargo, Cacilda de O.: 71, ...                          116 
Crnera, Rodriguez de Ia: V.

Rodriguez deI Padrn Camilo, Joo: ...          
...................           1132 Caminha, Antnio Loureno:

367, 388,      ...................     .......       390 
Caminha, Pro de Andrade: 250,

260, 365-366       . ....................            388 
Caminha, Pro Vaz de: 299, 313,

314  . .................................             339 Cames, 
Lus Vaz de: 23, 41, 61,

132, 140, 158, 162, 180,               181,
182, 185, 203, 214, 221,               242,
257, 264, 267, 285,                    290,
317-359,      364,     365,    366,    369,
370,    371,   376,    377,    378,    381,
382,    383,   387,    388,    394,    397,
402,    406,   407,    412,    415,    426,
427,    429,   430,    461,    478,    479,
480,    491,   493,    502,    507,    520,
565,    602,   626,    654,    660,    663,
664,    671,   698,    709,    715,    723,
726,    750,   842,    844,    866,    905,
956,    1011, 1014, 1046, 1048,

1103, 1111, 1131,              ...............       1189 
Cames, Vasco Pires de:                    ........      156 
Campanella, Toms: 173,                    .......       186 
Campelo, Jueil do Nascimento:                            1182 
Campoamor, Ramon de:                       ........      956 
Campos, Agostinho de: 133, 292,

356, 449, 536, 537, 948, 974,                        1005 
Campos, Alcides de:                ..............        1190 
Campos, lvaro de: V. Pessoa,

Fernando
O
pg5.

Campos, Fernando: 434, 1156,                               1174 
Campos, Haroldo de: 1120,                       ....       1121 
Campos, Hermo de:                       .............     164 
Campos, Viriato:               ..................          311 
Camus, Albert: 986,                      ..............    1137 
Cancela, Arturo:              ...................          486 
Candeias, Alberto:               ......  ..........        465 
Cndido, Antnio: 27,                    .....  ......     677 
Cano, J. L.:           .........................           997 
Cantel, Raymond:                .....    ............      553 
Canto, Jorge Brun: ...                   ............      1181 
Co   >  Diogo:        .........................           140 
Capela, Jos:           ...........      .......... ...    810 
Caraa, Bento de Jesus: 1082,                              1091 
Cardia, Mrio Sottomayor:                       .....      1037 
Cardim, Lus:           ............     ...........       615 
Cardoso, Ciraco:              ..................          1003 
Cardoso, Fernando:                       ...............   957 
Cardoso, Jernimo: 23,                   ..........        181 
Cardoso, P.e Manuel Godinho:                               301 
Caria, Joo de Sousa:                    ............      494 
Carilla, E.:         ..........................            465 
Carlo, Augustn Millares:                       .......    101 
Carlos, Frei: ..        .......................            208 
Carlos, Lus Adriano:                    .........-        1066 
Carlos, Rei D.:            .....................           860 
Carlos V: 169, 170, 176, 181, 206,


335, 394,        ..........................            575 
Carlos 11 de Inglaterra:                 ..........        471 
Carlos 111 de Espanha: 577,                     ....       578 
Carlyle, Thomas: 691, 699,                      .....      882 
Carmo, Jos Palla e: 24, 1091,                             1157 
Carneiro, Antnio:               ................          1011 
Carneiro, Manuel Borges:                        .......    778 
Carnot, Nicolas-Lonard-Sadi:                              979 
Carpeaux, Otto Maria: 674,                      ....       1188 
Carpentier, Alejo:              .................          988 
Carpinteiro, Maria da Graa: ..                            1051 
Carreira, Laureano:                      ...............   648 
Carreiro, Jos Bruno: 733, 870,

872,     .................................             875 
Carreter, Fernando Lzaro:                      .....         26 
Carrillo, Francisco:             ...............   .       572 
Carstens-Grockenberger, Dorothee:     
................................             117 Carter, Henry 
Hare: 68, 69, 100                            154

NDICE O~STICO REMISSIVO
O
pgs.

Carter, Janet E.:            ...................           976 
Cartuxo:         ........................      ......      549 
Carvalhal, lvaro de: 944,                     ......      946 
Carvalho,        A. Farinha de:                ........    450 
Carvalho,        Alberto:       ................           733 
Carvalho,        A. Martins de:                ........    144 
Carvalho,        Amorim de: 975,               ....        1188 
Carvalho, A. Nunes de:                  ..........           88 
Carvalho, Armando da Silva:

1116, ..     .............................             1174 
Carvalho, Cariota Almeida de:                              257 
Carvalho, Dias de:              ................           294 
Carvalho, Fausto Lopo de:                      .....       852 
Carvalho, Incio de:               ........... ...         183 
Carvalho, Joaquim de: 145, 187,

223, 434, 614, 849, 852, 870,
872, 873, 874, 1030,               ...........         1138 
Carvalho, Joaquim Barradas de:

145, 311, 315, 757,            .............           1082 
Carvalho, Joaquim Jos Coelho de:                          1003 
Carvalho, Jos Adriano de: 143,

257, 391, 409, 420, 435, 449, 488,
572,         ............. ....................        1192 
Carvalho, Jos Gonalo Herculano

de: 22, 30, 31, 245, 246, 420,                         488 
Carvalho, Jlio Sinde Martins de:

118, 296,       ..... . ....................           1030 
Carvalho, Lus Fernando de:                    ....        434 
Carvalho, Margarida Barradas de:

146,         ...........................   ......      315 
Carvalho, Maria Amlia Vaz de:


945, 964, 973,          ....................           1075 
Carvalho, Maria Judite de: 1147,                           1174 
Carvalho,        Mrio de: 1155, 1169,                     1175 
Carvalho, Mrio Vieira de:                     .......     648 
Carvalho, Maximiano da Silva:                              223 
Carvalho,        Mendes de:        .............           1168 
Carvalho,        Raul Penedo de: 1104,                     1175 
Carvalho, Rmulo de: V. Gedeo,

Antnio Carvalho, Ronald de: 1042,                     ......   
   1189 Carvalho, Rui Galvo de: 873, 875,

1032,        ...............................           1055 
Carvalho, Silva:           .....................           759 
Carvalho, Teotnio Gomes de: 620,                          641 
Carvalho, Xavier de:               ...............         1020 
Casa, Giovanni della:              ..............          409

Cascais, Joaquim da Costa: 772, Casimiro, Augusto: 486, 487, 
1011,

1013,     ............................     ... Casqucio, 
Ferno:            .... ............. Cassiodoro:        
........................... Cassirer, Ernst:         
...................... Cassuto, lvaro Leon:               ..... 
....... Castanheda, Ferno Lopes de: 283,

286, 293, 294, 307> 308, 336, 357, Castanhoso, Miguel de:       
         ........... Castel, Ren-Louis-Richard: 652, Castel-
Branco, Vasco Mouznho de

Quevedo: 367-368, 380-381, 388, Casteleiro, Joo Malaca:        
       .......... Castelo, A.:        ...............  . 
.......... Castelo Branco, Antnia Margarido:    ...... ......  
.................... Castelo Branco, Camilo: 23, 212,

371,390,486,499,504,506,514,
526,608,662,697,711,740,763,
768,772,775,781,789,790,792,
793, 795, 800, 801, 802, 805, 806,
808, 809, 813, 814, 815, 817, 818,
819, 820, 821, 822, 823, 824, 825,
826, 827, 828, 829, 830, 832, 838,
841, 845, 864, 876, 901, 931, 933,
937, 941, 946, 991, 1014, 1018,
1069,      ............................... Castelo Branco, 
Fernando: 43, 109,

8M   . ..... .  ........................... Castelo Branco, Joo 
Rodrigues de:

159,     ................................. Castelo Melhor, Conde 
de: 461,

471, 540,        .......................... Castelvetro: 269,   
        .................... Castex, Franois: 1042, 1051, .    
            ... Castiglione, Baldassare: 280, 409,

425,     ................................. Castilho, Antnio de: 
309,                 ....... Castilho, Antnio Feliciano de: 
535,

623,695,697,737,738,740,760,
761,762,763,764,765,767,768,
770,777,780,781,786,788,794,
816, 836, 837, 838,            .............. Castilho, Augusto: 
           .................. Castilho, Guilherme de: 947, 951,

1028, 1029, 1034, 1090,              ........

1206

HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
pg5.

Castilho, Jos Feliciano de: 761,                          838 
Castilho, Jlio de: 275, 674, ....                         838 
Castilho, Paulo:            ....................           1156 
Castillo, Hernandez dei:                 .........         157 
Castrim, Mrio:             ....................           1169 
Castro, Alberto Osrio de: 1023,                           1033 
Castro, Ariffial Pinto de: 243, 275,

312, 314, 359, 388, 420, 450,
508, 525, 536, 554, 615, 646,
678, 812, 831, 947, 948, 951,                          1029 
Castro (ou Crasto), Antnio Serro de: 504, 506, .            
..............          816 Castro, Armando: 35, 42, 43, 109,

118, 186, 701, 702          . .............            998 
Castro, Augusto de: 852,                 ........          1070 
Castro, Azevedo e: .... .                ...........       645 
Castro, Ernesto Manuel de Meio

e: 1066, 1105, 1113, 1120, 1121,
1132, 1175, 1186          . .....    ......  ....      1190 
Castro, Estvo Rodrigues de:

375-376, 387,          ....................            390 
Castro e Almeida, Eugnio de:

500,699,954,1020,1021,1022,
1031, 1032,         .....................    ..        1044 
Castro, Fernanda de:               .............           1075 
Castro, Gabriel Pereira de: 383,

392,    492,    ..........................             508 
Castro, Guilln de:             ................           220 
Castro, Ins de: 159, 165, 270,

271,    272, 273, 275, 338, 341,
492,    641  . ..........................              718 
Castro,     Ivo de: 69, 95, 100, 102,

165,    507, 947     . .........     ..........        1053 
Castro, D. Joo de: 180, 291, 297,


311, 316, 345, 378, 379, 447,                          1021 
Castro, D. Joo de (scs. XIX-XX):                         500 
Castro,     J. B.:      .......................            1933 
Castro,     Joaquim Machado de: .                          590 
Castro,     Jos Cardoso Vieira de:                        815 
Castro,     Jos Manuel de:              .........         486 
Castro,     Jos Maria Ferreira de:

797,    1071, 1072, 1089, 1090                         1190 
Castro,     Luciano de:          ..............  .         946 
Castro,     Maria Helena Lopes de:                         117 
Castro,     Pereira de: . .       .....  .........         837 
Castro,     Pblia Hortnsia de:                 ...       179 
Castro,     Rosala de:         ................           57
O
Pgs.

Castro, Slvio,               ........ ..............       976 
Castro, Vieira de:            ........  ..  ........        837 
Castro, Zlia Maria Osrio de:

702, ..   ........................    .  ......        782 
Catalri, Diego: V. Menridez

Pidal, Diego Catalri Catarina, Rainha D. (mulher de D. Joo 
111): 181, 198, 286, 293,                           476 Catarina 
de Bragana, D. (filha de

D. Joo IV):             .....................         471 
Catarina 11:         ...................   . ......         577 
Catroga, Fernando de Almeida:

852, 875,        ..........................            1035 
Cattaneo, Carlo Vittorio: 1172,

1173, 1184,              .......................       1190 
Catulo, Caius Valerius:                  ..........         248 
Catz, Rebecca:                ....................          314 
Cautela, Afonso:              ................   ...        1132 
Cavaleiro, Estvo:             ......  .....  .....        181 
Cavour, Camilo Benso, conde de:                             698 
Cayron, Clayre:               ...................  .        1065 
Cazamian: O.           O..........................            
1189 Ceccucci, Piero: 976,                .............         
 1183 Cela, Camilo Jos:               ................         
  988 Celaya, Gabriel:              ....................        
  988 Cline, Louis-Ferdinand: 985, ..                          
  1100 Cellini, Benvenuto:              ................        
   176 Centeno, Yvette K.: 1053, 1055,

1148,    ............................       ...        1175 
Cepeda, Isabel Vilares: 152,                   ....         154 
Cerdan, Francis:              ......* ............          508 
Cerejeira, D. Manuel Gonalves:                             187 
Cernuda, Lus:                .................  ....       984 
Cervantes Saavedra, Miguel: 40,

184, 185, 220, 221, 395, 412,
445, 459, 460, 481, 482, 520,                          684 
Cerveira, Afonso: 138,                 ...........          142 
Csar, Jlio: 16, 40, 713,                ........          881 
Csar, Oldemiro:              ...................           1034 
Cu, Sror Maria do: 499, 506,

508, 525, 533,           ...................           537 Cu, 
Sror Violante do: 324, 499,

500,   ..... . ...........................             506 
Chabrol, Claude:              ..................            25 
Chagas, Frei Antnio das: 492,

495, 504, 506, 508, 528,
529-530, 531, 535, 536, 558,                           602

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO
O
Pgs.

Chagas, Joo:          ......................         1038 
Chagas,           Manuel          Joaquim

Pinheiro: 763, 767, 775, 780,
781, 788, 789, 836, 837, 838,
847, 901    . ..........................          1001 Chamie, 
Mrio:            ....................        1120 Champfleury, 
Jules:            ...............        691 Chandeigne, Michel: 
           ..............         1172 Chapek, Karel:           
 .....................       984 Char, Ren:         
.........................         986 Charcot, Jean Martin:     
        ............        858 Chardin, Teilhard de:           
  ............        584 Charles de Orlans:            
...............        108 Chast, D.:        
...........................         1105 Chateaubriand, 
Franois-Ren:

689, 695, 709, 711, 716, 727,
737, 774, 840,        ...................         841 Chaucer, 
Geoffrey: 108, 689, ..                       826 Chauriu, 
Pierre: 186, 465,             .......        594 Chaves, Jos 
Castelo Branco: 295,

595, 703, 781, 782, 832, 852,
949, 1034,       ........................         1038 Chaves, 
Jos Maria:            ..............         788 Chaves, Maria 
Adelaide Godinho

Arala: 134     . .......................          315 Chnier, 
Andr:           ....................        579 Chestov, Leo:  
       .......................         1058 Chevalier, J.: .    
   :,***@@**@*@*****               26 Chevalier, Maxime:      
       ...............        420 Chiado, Antnio Ribeiro: 214,

215, 216-217, 226, 227, 349,                      775 Chianca, 
Rui:         .......................         1002 Choiseul, 
tierme-Joseph, duque

de:   ..................................          577 Choro, 
Joo Bigote: 831               . ......       1175 Chrtien de 
Troyes:            ...............          94 Christophorus, 
Dr. (Crist vo):                       121 Cibber, Colley:     
      .....................       583 Ccero, Marco Tlio: 16, 
111, 112,

150, 173, 174, 176, 283, 425, 437,                    942 
Cicino,     Bernardo:        ..................       348 
Cidade, Hernni Antnio: 72,

134,    146, 165,     225, 274,     292,
293, 294, 314,        356, 392,     450,
466,    489, 501,     506, 507,     551,
552,    553, 571,     596, 615,     647,
652,    664, 669,     670, 675,     676,

677, 678, 702, 734, 757, 812,
832, 874, 875, 876        . ............. Cimarosa, Domenico:   
             ............ Cinatti, Ruy: 1095,            
................ Cntio, Geraldo:          .................... 
Cintra, Lus Filipe Lindley: 28, 29,

30, 69, 88, 89, 90, 133, 134,
147, 292    . .......................... Cintra, Lus Miguel: 
523,               ....... Cintra, Maria Adelaide Vale: .. 
Crizio:     ................................ Cirillo, Teresa: 
314,           ............... Cirurgio, Antno Amaro: 257,

391, 392, 418, 419, 420, 525,
949,   ................................. Cisneiros, Violante de: 
V. Cortes-Rodrigues, Armando Cisneros (Cardeal):            
................ Claramonte, Joo Sucarelo ou

Assucarelo: V. Sucarelo Claramonte, Joo de Claro, Joaquim 
Nunes:                .......... Claude (Gele, dito Lorrain, ou

Loreno):       ........................... Cludio, Mrio: 1028, 
1029, 1128,

1162   . ............................... Cochofel, Joo Jos: 
1085, 1091,

1092, 1175,        ....................... Codax, Martim: SO, 
71,               .......... Coelho, Adolfo: 29, 697, 838, 839,

840, 878,      ............ . ............. Coelho, Antnio 
Borges: 44, 109,

132, 133, 134, 144, 447, 466,
756,   ................................. Coelho, p.e Antnio de 
Pina:

1052, 1053,        ....................... Coelho, Antnio do 
Prado: 536,

552, 733, 830,         ......... .......... Coelho, Eduardo 
Prado: 26, 998,

1059, 1065, 1067, 1092, 1105,
1125,     ..............................   . Coelho, Estvo:   
         ................... Coelho, Jacinto Almeida do

Prado:188,276,358,391,610,
614, 616, 647, 676, 678, 733,
734, 758, 781, 810, 812, 830,
831, 832, 949, 951, 974, 976,

1208

HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
Pgs.

1010, 1028, 1030, 1031, 1038,
1052, 1053, 1065, 1090, 1091,
1092   . ............                 ................... 1185 
Coelho, Joaquim-Francisco:                      ....       1055 
Coelho, Joaquim Guilherme

Comes: V. Dinis, Jlio Coelho, Jorge:                           
 ...................... 181 Coelho, Jos Borges:                
      .............    1166 Coelho, Jos Francisco Trindade:

938, 939,        ..............       . ...........    952 
Coelho, Jos Maria Latino: 535,

786, 787,        ..........................            789 
Coelho, Neily Novaes: 852,                      .....      1037 
Coelho, Possidnio Mateus

Laranjo:        ...........................            293 
Cohen, J. M.:                             ...................... 
996 Coimbra, Eduardo:                         ...............  
956 Coimbra, Leonardo Jos: 874,

1011, 1012, 1013, 1014, 1015,
1037, 1058, 1079                      ................ 1138 
Coimbra, S:            ..............    ..........       1142 
Colao, Ainfia Rey:                      ..............   1139 
Colao, Toms Ribeiro:                    .........        1062 
Colbert, Jean Baptiste: 456,                    ....       540 
Coleridge, Samuel Taylor: 686,

687,     .............................      ....       689 
Collins, William: 580,                    ............     583 
Colocci, ngelo:                          ...................  
47 Colombo, Cristvo:                       .............    
302 Colorns, Jean: 487,                      ..............   
488 Coloriria, Vitria:                       .................. 
249 Comenius, Joo Amos: .                    ....  ;....      
590 Comestor, Pedro:                          ...... .. 
.......... 153 Conite, Augusto: 691, 697, 698,

699, 835, 843                         ....................863 
Conceio, Alexandre da: 816,

824, 845, 846, 963,                   .............    1021 
Conde, Gil Peres:                         ..................  67 
Condorcet, Antoine-Nicolas:                     ...        582 
Congreve, William:                        ................ 455 
Conscincia, P.e Manuel:                  ........         533 
Constncio, Francisco Solano:

698, 779, 781,                        ................... 783 
Constantino, Imperador: 175, ..                            606 
Contente, F.: 145,                        ................. 315 
Coprnico, Nicolas: 477, 546, ..                           1152 
Coppe, Franois: 964,                    ...........      966
O
pg5.

Cordeiro, P.e Antnio: 301, ....                            590 
Cordeiro, Antnio Xavier Rodrigues:     .............  . 
.................           766 Cordeiro, Jacinto: 494, 506,    
                ....        512 Cordeiro, Joaquim Antnio da

Silva: 889,        ........................            1014 
Cordeiro, Luciano: 143, 788,                    ...         846 
Corghi, Azio: .... .           ..................           1183 
Corneille, Pierre: 265, 456, 457,

516, 619, 638, 641, 709,                   ......      721 
Cornil, Suzanne:              ...................           276 
Corominas, Juan:               ..................             28 
Corra, Manuel:               ...................           370 
Corra, Manuel Tanger:                          .........   1033 
Correia, Diogo lvares:                         .........   658 
Correia, Gaspar: 294, 301,

307-309, 312, 314,                         .............. 438 
Correia, Hlia: 1154, 1157,                     .....       1175 
Correia, Joo de Arajo: 1076,

1175,     ...............................              1189 
Correia, Joo David Pinto: 313,

315,    .................................              537 
Correia,       Lus Franco: 318,                ......      370 
Correia,       P.e Manuel Alves:                .....       434 
Correia,       Natlia: 72, 507, 1104,


1162,     1163, 1175,         ...............          1187 
Correia,       Romeu: 1003, 1164,               ...         1176 
Correia,       Virglio:      ...................           296 
Cortazar, J. A. Garca de:                      ......        41 
Corte Real, Diogo de Mendona:

464,    ........... .  .........           ............ 585 
Corte Real, Jernimo: 302, 356,

378-380, 387, 388,                         .............. 391 
Corts, Alfredo: 1003                           . ........... 
1160 Corteso, Armando: 311                          . .......  
 313 Corteso, Jaime: 42, 109, 146,

147, 311, 313, 465, 596, 613,
615,858,949,1002,1010,1011,
1013, 1014, 1036, 1037, 1081,                          1143 
Cortes - Rodrigues, Armando: ...                            1042 
Corvo, Joo de Andrade: 772,

774,    .......................            ..........  800 
Costa,       Abel Fontoura da:                  .......     311 
Costa, Alberto Mrio de Sousa:                              1070 
Costa,       D. Antnio da:                     ........... 823 
Costa,       Avelino de Jesus da:               ....          30 
Costa,       Brs da:       .....................           161

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO
O
pg5.

Costa, Cludio Manuel da: 633,

655, 656,       ...................... ....      674 Costa, 
Emlio:            ......................    1071 Costa, 
Fernando da:            ........   ......    1156 Costa, D. 
Francisco da: 216, 227,

369,   ...  ..............  ................     389 Costa,    
Hlder:         ................... ...   1169 Costa,    J. 
Fonseca e: 1182              .......   1184 Costa,    Jaime 
Raposo:          ............       782 Costa,    Joo da:      
  ....................      179 Costa,    Joaquim:        
...................       117 Costa, Jos Daniel Rodrigues da:

523, 570, 645,         ...................       646 Costa,    
Jlio Dias da:       .............        830 Costa,    Lus 
Xavier da:         ...........       615 Costa,    P.@ Manuel 
da: 559, 560,

571,   ...  ..............................       1192 Costa, 
Maria Velho da: 1148,

1149, 1150, 1157,           ...............      1176 Costa, 
Mrio Alberto Nunes da:                      449 Costa, Orlando 
da: 1137             .........       1176 Costa, Ramiro da: ... 
         ..............       998 Costa, Rui Manuel Barbot: V.

Cludio, Mrio Costa, S da: 876, 1036, 1064,                   
   1186 Costa, Toms da:          ..............  ...       633 
Costa, Uriel da:          ....................      579 Costigan 
A. W.: 595,           ...  ...   .......   608 Courbet, Gustave: 
691, 692, 840,                    968 Cournot, Antoine-Augustin: 
862,                     881 Coutinho, Afrnio: 27, 465, 677,   
                 1188 Coutinho, Bernardo Xavier. 145,


313, 359, .... .       .....................     570 Coutinho, 
Carlos:              .................    1168 Coutinho, D. 
Francisco: ...               ......    260 Coutinho, E. de 
Faria:            ......  .....     1188 Coutinho, Francisco de 
Sousa: .                     318 Coutinho, Francisco de 
Vasconcelos: 495,     ...........................        506 
Coutinho, Gago:           ...................       311 
Coutinho, Lopo de Sousa: 309,                       312 
Coutinho, Manuel de Sousa: V.

Sousa, Frei Lus de Couto, Diogo do: 179, 232, 292,

308, 309, 318, 437-438, 447,
448, 449,      ..........................        565 Covilh, 
Pro da: O..           O................     945
O
Craesbeeck, Pedro: 354, 388, 390,

419   . ................      ................. Craveiro, Lcio 
Silva:                   ......... --Crbillon, Prosper Jolyot, 
dito:

579,    ........................     ......... Crespo, Angel: 
1055, 1172, 1189, Crespo, Antnio Cndido Gonalves: 10, 767, 
945, 963, 964, 965,
973,    .......................      .......... Crespo, Firmino: 
74,              ............. Crespo, Manuel Granjeio:         
        ....... Crisstomo, So Joo:                    
........... Cristina da Sucia, Rainha: ---                ...

Cristvo, Fernando:              ...........  .. Cromweil, 
Olivier:                ................. Crouzet, Maurice:     
            ................. Crucius, Ludovicus: V. Cruz, P.e

Lus da Cruz, Frei Agostinho da: 35 5, 367,

388, 502,       .......................... Cruz,     Antnio: 
43, 89,               ........ ... Cruz,     Bento da: 1140     
     ............. Cruz,     Bernardo da:            ........... 
 +...

Cruz,     Duarte Ivo: 1028, 1032, Cruz,     Frei Gaspar da: 300, 
                ..... Cruz,     Gasto: 1113, 1120, 1124,

1133, 1134      . ......      . .... ............ Cruz, S. Joo 
da: 184, 363, 423, Cruz, Liberto: 524, 812, 1125, 1157, Cruz, 
P.e Lus da: .              ................ Cruz, Maria Isabel 
G. Ferreira da: Cruz, Maria Augusta Lima: .... Cuadrado, 
Perfecto E.: 1106, .. Cuesta, Fernndez de Ia: .               
....... Cuesta, Pilar Vsquez: 29, 392,


467,    999,    .......................... Cueva,      Juan de 
Ia:           ................ Cunha,      A. Geraldo: 30,      
        .......... Cunha,      Alfredo da:           
............... Cunha,      D. Antnio lvares da: Cunha,      
Barros e:             .................. Cunha, Celso Ferreira 
da: 70, 73,

224, 245,       ......        .................... Cunha, Ins 
da:                   .................... Cunha, Joo Loureno 
da:                       ..... Cunha, Jos Anastcio da: 651,

668-669, 672, 675, 678, 726,

1210

HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Cunha, D. Lus da: 464, 585, 589, Cunha, Maria Helena Ribeiro 
da:

359 .... .   ............................. Cunha, Pereira da:   
         ................ Cunha, Bispo D. Rodrigo da: 354,

377, 391,       .......................... Cunha, Teresa Sobral: 
             ........... Cunha, Vicente Pedro Nolasco da: 
Cunhal, lvaro Barreirinhas: ... Cunhal, Avelino: V. Serdio,

Pedro Curie, Marie:,         ...................... Curie, 
Pedro:         ....................... Curt, Nely Pereira Pinto: 
            ........ Curtius, Ernest Robert:             
.......... Curto, Anulcar da Silva Ramada:

946, 1003,        ........................ Cury, Jorge: 71, 116, 
           ............. Cusa, Nicolau de: 107, 425             
. .... Cusati-Covuccia, Maria Lusa: . Custdio, Jorge:         
  ...................

Dacier, Anne Lefebvre:               .......... Dacosta, 
Fernando:             ............... Dacosta, Lusa: 1145,     
        ........ . ... Dalmira, Doroteia Engrcia Tavareda; V. 
Orta, Teresa Margarida da DaIrymple:        
........................... Damasceno, Darcy:              
.............  .. Damasceno, Rosa:             ................. 
Damas, Jlio: 274, 509, 773, 947,

965, 1002,       ................ ......... Dante Alighieri: 40, 
58, 60, 94,

108, 157, 158, 162, 163, 326,
682, 894, 956, 960           .............. Dantisco, L. 
Gracin:             ............ Dario, Ruben:          
....................   .. Darwin, Charles:             
.................. Dati, Leonardo:              
.................. Daumier, Honor:             
................. Daveau, S.:         .......................... 
David (rei israelita): ...        ............ David, Jacques-
Louis (pintor): David, Celestino:            ............ ......
O
Pgs.
613

1091
772

444
1052
652
109

979
979
678
41

1161
1066
1100
569
756

624
1170
1176

608
507
1001

1017

1127
409
983
835
265
692
43
218
579
1029
O
Pgs.


David, Ilda:         .........................            1180 
David, P.e Pierre: 79, 90,                        ....... 101 
Davies, R. Trevor:                 ................       464 
Dcio, Joo: 951,                  ..................     1177 
Defoe, Daniel: 581,                ............   ...     684 De 
Gaulle, Charles:                ...............        985 
Delacroix, Eugne:                 ................       691 
Delavigne, Casimir:                ...............        771 
Deleuze, Georges: 465, 991,                       ....    1125 
Delfim, P.e Antnio:               ...............        631 
Delgado, Humberto:                 ..........     ....    1138 
Delgado, Iva:           ................          ....... 571 
Delgado, Jos Celso: pseud. de

Cinatti, Ruy Delille, Jacques: 583, 652, 664,

670, 671,       ..........................           672 
Defille, Maria Manuela Gouveia:

646,648,850,950,1029,1171,                           1183 
Deloffre, F.: .... .               ...................    509 
Delumeau, Jean: 108, 186                          . ...... 464 
Deluy, H.:         .............   .......        .......   72 
Dernarcy, Rchard:                 ................       1168 
Demfilo:          ...........     .................      265 
Demstenes:          .........................            789 
Derrida, Jacques: 26, 989,                        ......  1126 
Dervignaud, Jean:                  ............... ..     997 
Descartes, Ren: 394, 454, 456,

477, 541, 590, 627,           .............          654 
Deschamps, Eustache:                 ............         108 
Deswarte, Sylvie: 296,               ............         297 
Deus, Joo de: 415, 657, 763, 768,

837, 854, 865, 869, 953, 955,
956, 957, 970, 974,           .............          1009 
Deusdado, Manuel de Ferreira:                             865 
Deyermond, A. D.:                  ...............        246 
Dias, Aida Fernanda: 164,                         ......  165 
Dias, Mestre Andr (Andr Hispano, Andr de Escobar, Andr de 
Rendufe): 150, 152,                       ........ 223 Dias, 
Antnio Gonalves:                          ....... 797 Dias, 
Augusto da Costa: 732, 733,

780, 952, 1028, 1082,                        .......... 1177 
Dias, Augusto Epifnio da Silva:

29, 244, 310,                 .....................  353 Dias, 
Baltasar: 214, 216, 217, 226,                       512 Dias, 
Carlos Malheiro: 773, 1002,

1014, 1027      . ...............            . ....... 1069

NDICE O~STICO REMISSIVO
O
Pgs.

Dias, Duarte:           .......................           1192 
Dias, Graa Silva: ,                  ................    975 
Dias, Helena Marques:                 ...........         165 
Dias, Joo Jos:            ................  ...         117 
Dias, Jos Sebastio da Silva: 187,

435, 465, 537, 596,               .............       615 Dias, 
   Jos Simes:                 ................    767 Dias,   
 L. Carvalho: ...             .............       417 Dias,    
Lus Augusto Costa:                  ......      733 Dias,    
Manoel:        .......................           506 Dias,    
Marina Tavares:              ............        1052 Dias,    
Maria Helena Costa:                  ......      733 Dias,    
Paulo Roberto ..             ............        525 Dias, Saul. 
(pseud. de Jlio Maria

dos Reis Pereira):                ..............      1063 Daz, 
Emlio Orozco                   ..............      465 Daz, 
Manuel C. Daz y:                       ........      27 Diaz-
PIaja, Fernando:                 ............        508 Diaz-
PIaja, Guilhermo:                ..........          508 
Dickens, Charles: 396, 686, 687,

691, 804, 807, 904                ....... .......     908 
Diderot, Denis: 577, 582, 584, 643,                       717 
Diesel, Rudolph:             ...................          979 
Dfilo:      .................................            265 
Digulleville, Guillaume de:                   ......      208 
Dilthey, Wilhelm:             ........ . .... .....       465 
Dinis, P.e A. J. Dias: 143,                   ......      145 
Dinis, D.: 20, 22, 38, 46, 47, 53,

56, 57, 60, 63, 71, 79, 80, 86,
94, 97, 98, 112, 120, 156, 157,
333    ..................................             443 Dinis, 
Jlio (pseud.): 697, 712, 747,

793, 795, 801, 802, 804, 805,
806, 807, 808, 810, SIS, 823,
920,937,938,1001,1003,1008,                           1069 
Diogo, Amrico A. Lindeza:                    ...         1178 
Dionsio, Eduarda: 1152               . ........          1176 
Dionsio, Jos Augusto de

Sant'Ana: 874, 875,               ...........         1037 
Dionsio, Mrio: 701, 975, 996,

1082, 1085, 1091, 1092,                   .......     1176 
Donne, John:                                              984 
Dria, Antnio lvaro: 101, 294,

295, 316, 357, 488, 569, 570,                         616 
Dostoievski, Fcior: 693, 848, 943,

982, 986, 1026,           ..................          1058 
Doubrovsky, S.:             ....................            74

Doux, mile:           ........................ Dreiser, 
Theodor:                       .................. Druyfus, F.:  
        ......................... Dryden, John:                 
          ...................... Duarte, Afonso: 1011, 103 1, 
1085, Duarte, Custdio Jos:                  ........... 
Duarte, D.: 22, 41, 94, 97, 106,

107, 111, 112-116, 117, 118,
119, 120, 139, 140, 141, 142,
147, 151, 155, 156                  . ............. Duarte, D. 
(marqus de Frechilha

e Malago): 377, 407,               ......... Duarte de 
Bragana, D.:                 ......... Duarte, Filipe: . -     
                ..................

Duarte, Infante D.:                     ............... Duarte, 
Isabel Margarida: 1029, Duarte, Lus Fagundes: 75, 244,

919, 947        ........................... Dubois, Claude 
Gilbert                  . ......... Dubuy, Georges:            
             ................... Ducrot, Oswald:                
         ................... Dumas Filho, Alexandre: 3%,799, 
Dumas (Pai), Alexandre: 770, 77 1,

792,     ................................. Dumas, Catherin 
Konga:                    ........ Dumesnil, Antoine-Jules:     
             ........ Durri, Agustn:                        
.................... Durand, Georges:                        
.................. Durand, Gilberto:                       
................. Duro, Antnio Figueiroa:                    
...... Duro, Jos de Santa-Rita: 651,


655, 658, 662,                      ................... Duras, 
Marguerite:                      ................ Drer, 
Alberto: 287,                    .............. Durkhem, mile: 
                       .................. Duro, Jos:           
..............    ............ Durozi, Grard:                  
       ..................... Dzhivelgov, Boiadzhev:           
       ........
O
E. Morot-Sir   ........................ Earle, T. F.: 256, 257, 
 ........... Ea, Matias Aires Ramos da Silva

de: V. Aires, Matias Echeverra Ferreira, Fernando-.

1111,   ...............................

1212

HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
Pgs. Eckart, (Mestre) Johannes: 107,                           
 1152 Eco, Umberto: 25, 991, 996, 1120,                         
 1121 Einstein, Albert:             ...................         
 979 Elcock, W. D.:             .....................           
   27 Elia, Slvio:        ...........      +..............    
     28 Eliade, Mircea: 987,                  ...........  ...  
   990 Eliot, George:          ...............   . .......      
  687 Eliot, Thomas Stearris: 11, 984,                          
 1163 Elsio, Filinto: 296, 623, 626, 627,

631, 651, 652, 659-661, 663,
664, 670, 674, 676, 709, 716,
726, 761,       .... . .....................           768 
Elliot, J. H.: ,         ...........  ..........   ..      186 
Elordy, Eleutrio:            ..................           571 
Eloy, Mrio:           ........................            1058 
Elton, G. R.: ...          .....................           185 
luard, Paul: 985, 986,                 ..........         1183 
Emery, Bernard: .             .....   .............        569 
Emlia, Patrcia:           ....................           814 
Emineseu, Roxana:                     ................     1157 
Empson, William: 1108,                   .........         1120 
Encarnao, Frei Antnio da: 445,                          449 
Encina, Juan dei: 192, 195, 199,

230,     ..................       ...............      404 Enes, 
Antnio Jos: 800, 946,                              1001 
Engels, Friedrich:            ..................           691 
Ennes, Ernesto J. B.: 614,                  ......         616 
Entwistle, Wilham J.: 28, 101, 133,                        142 
Enzensberger, Hans Magrius: 988,                           1127 
Epifnio (Epifnio Aniceto Gonalves, actor, dito):             
............         770 Erasmo, Desidro: 170, 175, 176,

178, 179, 181, 186, 206, 207,
280, 282, 287, 403, 409, 430,                          476 
Erhard, J. B.:          .....................      ---     594 
Ericeira, 3.1 conde de: V. Meneses, Lus de Ericeira, 4.1 conde 
de: V. Meneses, D. Francisco Xavier de Ericeira, 5.1 conde de: 
V. Meneses, D. Lus Incio Xaver de Erimanteu, Cridon: V. 
Garo,


Pedro Antnio Correia Escalgero, Giulio Cesare:                
 .......         624 Escobar, Andr de: V. Dias, Mestre Andr 
Escobar, Frei Antnio de:                  .......         484

Escobar, Gerardo: V. Escobar,

Frei Antnio de Escobar, Joo de:              ................. 
Escoto, Duns:           ....................... Esopo:       
...... .... . ... .................. Espanca, Florbela d'Alma da

Conceio: 324, 781, 1007,
1029,     ....... . ......................    , Esperana, 
Assis:              .................. Esperana, Frei Manuel 
da: .... Espinel, Vicente:              ................... 
Espinosa, Bento de: 454, 580, Espronceda, Jos de:              
  ............. squilo: 267,          ................    --- 
... ...

Esquio, Fernando: 50,               ............ Estao, 
Aquiles: 178,               ............. Estao, Baltasar: 368, 
389,                ...... Estvo, Jos: 695, 708, 776, 777,

778, 779, 780           ...........    ......... Esteves, Maria 
Helena Seirs da

Cunha de A.:            .................... Estorninho, Carlos: 
             >***     ...*... --Estrada, Francisco Lpez:     
             ...... Eurpides: 267, 268, 269,                  
......

Fabre, Jean: 594,             .................. Fafe, Jos 
Fernandes: 1092, 1106, Fagundes, Francisco Cota:                
  ...... Fajardo, Saavedra:              ...... .......... 
Falco, Cristvo: 229, 230, 232,

244,  ................................. Falco, Joo: V. Lisboa, 
Irene Faria, Alberto:           ...........  .......... Faria, 
Antnio Machado de:                     ... Faria, Benigno de 
Almeida: 1105, Faria,     Duarte: ...     ... . ............... 
Faria,     P.e Francisco Leite: 144, Faria,     Guilherme de: 
1006,              ..... Faria,     Jorge de:       
.................... Faria,     Jorge Brando de: 524, Faria,   
  Manuel Severim de: 279,

292, 370, 443, 462, 564-565, 570, Faria, Maria do Cu Novais: 
... Farinha, Bento Jos de Sousa: . Farra, Maria Lcia dai: 
1029, 1117,
O

Pgs.
O
215
107

9

1075
1071
444
408
592
767
268
54
181
390

782

702
702
419
425

700
1163
1184
482

364

656
144
1150
1066
295
1029
647
831

587
434
417
1178

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO
O
Pgs.

Faulkner, William:              ................           985 
Febvre, Lucien:            .....................           109 
Feij, lvaro: 1079,               ..............          1080 
Feij, Antnio Joaquim de Castro: 964, 973,          
....................           975 Feij (ou Feijoo), Incio 
Maria:                           772 Feij, Joo de Madureira:  
                    ......      617 Feijo y Montenegro, Frei 
Benito

Jernimo: 578,           ..................            620 Feio, 
Jos Vitorino Barreto:                   ....        221 
Felgueiras, A.:           ......................           830 
Flix, Adelaide:            ....................           1076 
Flix, Emanuel: ....            .........      .......     1143 
FeIner, Rodrigo:             ...................           312 
Fnelon, Franois de S. de Ia

Mothe: 485, 499, 543,                      .........   605 
Fernandes,         Diogo:       .................          396 
Fernandes,         Domingues:                  ..........  354 
Fernandes,         Mestre Joo: 181,                       188 
Fernandes,         Rogrio: 118, 952,                      1092 
Fernandes,         Valentim: 300,              ......      315 
Fernridez,        Lucas:    ..................            192 
Fernando, D.: 37, 106, 107, 112,

120, 121, 123, 124, 127, 130,
155, 341, 443, 738, 739,                   ......      745 
Fernando, D. (conde de Vila

Real):     ...............................             138 
Fernando, Infante D. (0 Santo):

119,     .......................           ..........  141 
Fernando 11 de Leo: ...                       ..........   81 
Fernando 111 de Castela:                       .........    40 
Fernando de Saxe de Coburgo, D.:                           786 
Ferrari, Anna: 69,              .........      ........     75 
Ferraris, Coco:            .....................            74 
Ferraz, Maria de Lourdes A.: 524,

526, 735       .................           ..........  832 
Ferreira, Alberto: 702, 757, 849,


1082,      ...............................             1151 
Ferreira, A. Magina Gomes:                     ...         757 
Ferreira, Antnio: 23, 98, 181,

182, 183, 185, 250, 254, 256,
259-276, 281, 317, 319, 320,
330, 333, 341, 362, 364, 365,
366, 397, 425, 429, 622,                   ......      644 
Ferreira, Armando Ventura:                     ....        1139 
Ferreira, Carios Alberto: 390, 391,                        419 
Ferreira, Costa: 1162,                ............         1171

Ferreira, David:            .................... Ferreira, 
Francisco Leito: 421,

493, 508, 554, 568,                      ............. Ferreira, 
Joaquim: 390, 559, 614, Ferreira, Jos de Azevedo:              
     ...... Ferreira, Jos Esteves:                      
.........  ... Ferreira, Jos Comes: 1077, 1085,

1086, 1162, 1169, 1176,                  ....... Ferreira, Jos 
Maria de Andrade:

781, 788, 799,           ................... Ferreira,      Lus 
Afonso:                  ........... Ferreira,      Maria de 
Ftima S e

Melo:      701,    ........................ Ferreira,      
Manuel: 1140,                 .......... Ferreira,      Manuel 
Lopes:                 ......... Ferreira,      Maria Ema 
Tarracha: Ferreira,      Manuel Pedro: 71, .... Ferreira, Maria 
Emlia Cordeiro:

595,     ......... ..........            .............. 
Ferreira, Miguel Leite: 259,                 ..... Ferreira, 
Miguel Lopes:                      .......... Ferreira, P.: ..  
       ....................... Ferreira, Reinaldo Edgar de 
Azevedo e Silva:          ..................... Ferreira, 
Serafim:             .................. Ferreira, Srgio 
Matos:..                    .......... Ferreira, Silvestre 
Pinheiro: 864, Ferreira, Verglio: 1089, 1090,

1135, 1153, 1177, 1184                   . ....... Frrer, 
Joaquim: 571                         . ............ Ferrin, Xos 
L. Mndez:                      ........ Ferro,       Antnio: 
1040, 1056,              .... Ferro,       Joo Pedro:          
           ................ Ferro,       Tlio Ramires: 832, 
949,


999, 1031, 1033,                         ................ 
Feuerbach, Ludwig: 690, 754, .. Feuillet, Octave: 800,          
             ............. Fval, Paul-Henri-Corentin:          
          .... Feyerabend, Paul:               .........    
......  .. Fialho, L. Viana: ...                        
............... Ficalho, Conde de (Francisco

Manuel de Melo Breyner): 187,
945, 951      . .......................... Fichte, Johann 
Gottlieb: 686, 689,

858,     ................................. Ficino, Marslio: 
174, 242,                  ...... Fiedier, Leslie:          
......................

1214

HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
pg5.

Ficiding, Henry: 583,              .............         684 
Figueira, Maria Fernanda Reis:                           876 
Figueiredo, Antero de: 1002, ...                         1070 
Figueredo,         p.e Antnio Pereira

de: 591,        ...........................          608 
Figueiredo,         Fdelino de Sousa:

274, 357, 392, 434, 450, 489,
508, 552,       569, 571, 647, 781,
811, 849,       874, 889, 951, 974,
1006, 1027,         .......................          1028 
Figueiredo, Joo de:               ..............        526 
Figueiredo, Joo P.:               ........... ...       976 
Figueiredo,         Frei Manuel de: ....                 443 
Figueiredo, Manuel de: 620, 621,

622, 626, 627, 639-644, 646,                         676 
Figueiredo, Martinho de:                 ........        181 
Figueiredo, Toms Xavier de Azevedo Cardoso de: 1078, 1162,     
                    1177 Figueiredo, Violeta Crespo: 614,       
                  616 Figueiroa, C. S. de: ..            
.............         409 Figueiroa, Diogo Ferreira de: ..      
                   416 Filangieri, Gaetano:               
...............       584 Filelfo, Francisco:                
.................     174 Filmon:        ................   
..............        265 Filipe 11 de Espanha: 171, 219,

220, 303, 366, 380, 412, 447,
453, 511        ...........................          564 Filipe 
11 de Portugal (111 de Espanha): 219, 392, 408, 412,            
    .....       557 Filipe 111 (IV de Espanha): 220,

439, 469, 470, 472,            ............  .       474 Filipe 
V de Espanha:               .......... ...        578 Filipe da 
Macednia:               .............         283 Filipe de 
Orlees: .. .            ........ .......      576 Filipe, 
Danjel:          ......................          1115 Finazzi-
Agr, Ettore: 71, 418,


420, 537, 1055,                ..................    1184 Fiore, 
Joaquim da: ...             .............         549 Fisher, 
Jango:           ......................          674 Fitzgerald, 
Francis Scott:               ........        984 Fitzmaurice-
Kelly:                 .................     1188 Fiza, Mrio: 
72, 507,                ...........        552 Flaco, Valrio:  
        ......    ........ ---  .....   335 Flamant, M.: .      
    .....      ..................    700 Flaubert, Gustave: 688, 
691, 692,

840, 892,       ..........................           928 
Fletcher, John:           .....................          455
O
pss.

Fleury, Abade: 589,               ..........       .....   606 
Flor, J. Almeida:              ......  ............        702 
Flores, A.:        ...... . ....................           315 
Flores Alexandre A.:                   .........   ....    1176 
Florian, Jean-Pierre Claris de:                            583 
Fogaa, Antnio:               ....... ... .       ....... 966 
Fokkerna, Douwe W.: ... .                          ........ 997 
Fonseca, Antnio Barahona da:

1123,     ...... .  ........................           1173 
Fonseca, Antnio Belard da:                        ...     509 
Fonseca, Antnio Jos Branquinho da: 313, 1057, 1061, 1062,
1067, 1088, 1160,             ...............          1180 
Fonseca, Antnio de Melo da:                               617 
Fonseca, Fernanda Irene Barros:                            1177 
Fonseca, Fernando V. Peixoto da:

72,     ..................................                90 
Fonseca, P.e Joo da:                  .........   -       533 
Fonseca, Manuel da: 1079, 1083,

1087, 1089, 1169,             .........        ......  1177 
Fonseca, Maria Amlia Ortiz da:                            782 
Fonseca, Martinho Augusto Ferreira da: 389, 419, ..             
.....       ......  1185 Fonseca, P.e Pedro da:                 
...........         183 Fonseca, Pedro Jos da:                 
           ......... 518 Fonseca, Toms da:                
...............          1071 Fontana, Jos: 698, 839, 857, 877, 
                        878 Fontenelle, Bernard le Bovier:

580, 588,        ..........................            624 
Fontinhas, Jos: V. Andrade,


Eugnio de (pseudnimo) Ford, Boris:          
.........................            996 Ford, Henri:           
........................            992 Fortes, Manuel de 
Azevedo: 568,

585,     .................................             588 
Fortuna, Rcardo:               .................          645 
Fortvieille, J.: ... .       ...................           486 
Fossier, Robert:            ........   ............          41 
Foucault, Michel: 989, 1125,                       ...     1183 
Fourier, Charles: .           .................    .       696 
Fourquin, G.:           ..........     .............         41 
Fragonard, Jean-Honor:                            ........ 579 
Fragoso, Joo de Matos: .                          ....... 512 
Frana, Antnio de Oliveira Pinto

da:   .................   . , ...........      +...    674 
Frana, Eduardo de Oliveira: ..                            466 
Frana, Filipe Jos de:                ...........         390

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO
O
pg5.

Frana, Jos Augusto: 595, 701,

734, 757, 782, 811, 812, 831,
850, 952, 999, 1055            . ...........           1105 
France, Anatole:              ...................          1017 
Francs, Manuel Bocarro: 381-382,

384,     .........        ...................  .....   549 
Francisca de Sabia, Rainha: ..                            550 
Francisco 1: 174, 176,                   ............      286 
Francisco de Assis, So: 211, 216,

430   . ......................       ...........       472 
Franco, Afonso Arinos de Meio:                             656 
Franco, Francisco de Meio: 665,                            675 
Franco, Joo:                 .......................      992 
Franco, Miguel:               ....................         1165 
Franklin, Benjamim:                ............   ..       664 
Frappier, Jean:               .....................        102 
Frches, Claude-Henri: 227, 246,

524, 525, 526, 648,            ...........    ..       1189 
Frches, Jos:                .......................      297 
Frederico 11: 577,            ..................           578 
Freeland, Alan:               .....................        950 
Freire, Anselmo Jos Braamcamp:


133,    190, 223, 243, 879           . ......          887 
Freire, Francisco Jos: V, Lusitano, Cndido Freire, Gilberto de 
Meio:                ........          985 Freire, Joo Nunes:  
              ...............         416 Freire, Maria da 
Graa:                  .........         1145 Freire, Pedro de 
Lupina:                 ........          551 Freitas, A. J. 
Vieira de:                .........         1134 Freitas, 
Gustavo de:               ..............          569 Freitas, 
Jordo Apolinrio de: .                           312 Freitas, 
P.e Jos Joaquim de Sena:                         865 Freitas, 
Lima de:             .............    ....        676 Freitas, 
Rodrigues de:                   ............      903 Freud, 
Sigmund:               ...................          981 Frias, 
Frei Pedro de: 439, .                 ......        449 
Friedrich, Hugo:              ...................          996 
Fris, Lus: 309,             ...................          316 
Froissart, Jean: 108, 123,                 .......         129 
Fromm, Erich:                 ......................       987 
Fronteira, Marqus de (D. Jos de

Trazimundo Mascarenhas Barreto):     
...............................             463 Frota, Guilherme 
Andrea:                    .......        554 Fructuoso, P.e 
Gaspar: 232, 301,

310, 413, 442,            ...................          484

Frye, Northrop:    .......... Fuentes, Carios:   .......... 
Furter, Pierre: .  ........... Fuschini, Augusto: 840,

Gadamer, Hans-Georg: 981, ... . Gaio, Antnio de Oliveira da 
Silva: Gaio, Manuel da Silva: 232, 964,

1020    . ............................... Galds, Benito Perez: 
               ............ Galeno: 599,           ..... 
........... .... .... Galhegos, P.e Manuel de: 383,

492, 565,       .......................... Galhoz, Maria Aliete 
Farinha das

Dores: 1050, 1051, 1052, Galileu Galilei: 173, 373, 454, 
Galsworthy, John:              ................. Galvo, 
Antnio: 300, .                .......... Galvo, Duarte: 121, 
133, 134,

141, 144, 146, 279, 311,                ...... Galvo, Jos: 
535,             ................. Gama, A. Pimenta da:         
         ........... Gama, Arnaldo de Sousa Dantas

da:     697, 774, 775, 780, 781,
786,    792, 793,        ................... Gama,       Duarte 
da: 159,           ........... Gama,       Ferno Dantas da:    
          ....... Gama,       Jos Baslio da: 623, 651,

655,    657, 658, 659,         ......... . ... Gama,       
Manuel:          ..................... Gama,       Paulo da:    
    .................. Gama,       Sebastio Artur Cardoso

da: 1109,       ......   .................... Gama, Vasco da: 
311, 336, 338,

341, 343, 344,           ................... Gambetta, Lon:    
          ...........  ........ Gndavo, Pro de Magalhes:

181, 312,       ..............  . ........... Garo, Pedro 
Antnio Correia:

517,    620, 621, 622, 623, 626,
627,    629-631, 632, 633, 639,
642,    644, 645, 651, 653, 655,
661,    667,    .......................... Garcia,     Alexandre 
M.: 256,               ..... Garcia,     Angei Gonzlez:        
     .........

1216

HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
Pgs.

Garca, Antonio:              ...................      1172 
Garcia, Jos Manuel: 313,                ......        756 
Garcia, Jos Martins: 1105, 1133,

1143, 1177, 1180,           ...............        1187 Garcia, 
Manuel Emdio:                  .........      864 Garcia, 
Mrio:                ......................   1030 Garcia, 
Rodolfo:              ...................      487 Garcia de 
Castela:            .................           86 Garcilaso de 
Ia Vega: 249, 250,

251, 257,      ........   *******@*@***@+          351 Garden, 
M. Antnio:               .............        950 Garibaldi, 
Giuseppe: 698, 834,

854,   ..........................   ... .,..       867 Garin, 
Eugenio:               ....................     185 Garnier, 
Roberto:             ..................       265 Garrett, Joo 
Baptista da Silva

Leito de A@mei4: 10, @126,
24ii @<4 415,14-451           62J_,636,
640,                      058, 694,  695, @q6:(@05,      706,   
    707, 708,  709,
710    711,    712,       713, 714,  715,
716,   717,    781,       719, 720,  722,
723,   724,    725,       726, 727,  728,
729,   730,    731,       732, 734,  735,
737,   738,    740,       742, 745,  752,
757,   760,    764,       768, 770,  772,
773,   775,    776,       777, 778,  779,
781,   782,    796,       801, 803,  809,
816,   818,    836,       844, 863,  877,
888,   926,    991,       1008, 1015,    ...       1160 Garvo, 
Helena:               ...................      948 Garzoni, T.: 
        ........................  .       409 Gautier, 
Thephile: 688, 692, 953,


954,   .................................           964 Gebhardt, 
E.:                 .......................  997 Gedeo, 
Antnio: 596,1116,1162,                        1165 Geich, J. 
B.: ... .           ....................     594 Genet, Jean: 
987,             ..................       1100 Genette, Grard: 
25,            ..............         812 Gerlis, Condessa de 
(Stphanie-Flicit du Crest de Saint-Aubin):       
...........................         801 Genovesi, Antnio: 597, 
                .........      605 Gentil, Georges le: 314, 356, 
734,                     1189 Gentil, Pierre le: 73, 164,       
      .......        524 Gerhardt, Mia I.:             
..................       419 Gerli, E. Michael:            
.................        134
O
pg5.

Gerso, Teolinda: 1154, 1157, ...                          1177 
Gessner, Salomon: 583, 652, 760,                           809 
Gettel, Raymond: 571,                   ...........        594 
Gheerbrand, A.:                   ................ ---        26 
Gide, Andr: 693, 982, 984,                     ....       1058 
Gier, A.:         .............................               75 
Gil, Augusto Csar Ferreira: 957,

1022,      ..............     .................        1084 Gil, 
S. Frei: 549,                ............. .. ....    716 
Gilbert, A.:         ...............    ...........        850 
Ginsberg, Allen:                  ....................     986 
Giotto, Ambrogio de Bandone,

dito: 40, 107,                ....................     129 
Giraldo, Mestre: 112,                   .............      116 
Girard, Ren:            .......................           832 
Girodon, Jean: 616, 850,                   ........        949 
Glaser, Edward: 358, 387, 388,

418, 433, 434, 465,                 .............      508 
Glria, Sror Madalena da:                      ....       506 
Cluck, Cristoph Willibald:                      ......     579 
Godinho, Hlder: 89,                    .............      1177 
Godinho, p.e Manuel: 300,                       .....      312 
Godinho, Srgio:                  ...................      1117 
Godinho, Vitorino de Magalhes:

43,109,146,186,316,465,571,
595, 701, 1027,               ..................       1081 
Goerres, Jacob Joseph:                  ..........         687 
Goertz, Wolf:            .......................           418 
Goethe, Johann Wolfgang von:

583, 584, 670, 686, 688, 691,
719, 762, 821, 866, 894, 970,                          1046 
Gogol, Nicolai V.:                .................        943 
Gis, Damio de: 121, 141, 147,

179, 181, 182, 286-288, 289,
292, 293, 294, 295, 357, 364,
365,    .............         ....................     437 
Goldrnann, Lucien: 465, 987, ..                            996 
Goldoni, Carlo: 516, 578, 644,                             645 
Golcismith, Olver: 583, 801, 804,                         806 
Golubieva, E.:                    ......................   1190 
Gomes,         Alberto Figueira: 226,                      227 
Gomes,         Antnio: ...       ...............          388 
Gomes,         Antnio Henriques:               ....       569 
Gomes,         P.e Barros: 740, ...             ......     753 
Gomes,         Diogo:             .....................    313 
Gomes,         Francisco Casado:                ......     465 
Gomes,         Gualdino:          .................        940

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO
O
Pgs.

Gomes, Henrique:                     .................     512 
Gomes, J. A.:             ......................           1186 
Gomes, P.1 Joo Pereira: 571,

615, 639,        ..........................            1088 
Gomes,         Joaquim Soeiro Pereira:

1079,      ...............................             1177 
Gomes,         Maria Lusa:          .............         1170 
Gomes,         Manuel Teixeira: 943,

1016,      1036, 1038, 1071,              .......      1079 
Gomes, Pinharanda: 1015, 1031,

1035,      ..........................     .....        1037 
Gomes,         R. V.:     ......................           315 
Gonalves, Antnio:                  ..............        353 
Gonalves, Antnio da Silva: ..                            648 
Gonalves, Elsa: 69, 72, .... .....                           75 
Gonalves, Ferno de Magalhes:                            1066 
Gonalves, Francisco da Luz

Rebelo: 275,           ........  .............         357 
Gonalves, Jos Egito de Oliveira:

997, 1113, 1132, 1178, ..                 ......       1190 
Gonalves, Maria Madalena: 874,

1029, 1031,          .......     ................      1105 
Gonalves, Maria Virgnia:                    .....        1182 
Gonalves, Olga: 1152, 1157                     ...        1178 
Gonalves, Rui:              ....................          476 
Goncourt, Edmundo: 692,                       ......       942 
Goncourt, Jlio: 692,                .............         942 
Grigora, Lus de Argote y: 185,

254, 363, 408,           459, 460, 470,
474, 479, 480,           493, 500, 501,
504, 602, 688,           ...................           984 
Gonzaga, Toms Antnio: 10,

415, 633, 647,           651, 655, 656,

688, 674, 676,           ...................           956 
Gonzalez, Jos Carlos: 997,                   ....         1036 
Gorani, G.:          .................   .........         595 
Grki, Mximo: 983,                  .............         1167 
Gotlib, Ndia Batella:               ............          1066 
Gottsched, Johann Christoph:                               578 
Goulart, Rosa M.: 1177,                  .........         1181 
Gourevitch, A. J.:                   .................       42 
Gouveia,       Andr de: 179, 182, ..                      218 
Gouveia,       Antnio de:           .............         179 
Gouveia,       Frei Antnio de:               ......       300 
Gouveia, Antnio Aires de: 790,                            793 
Gouveia, Diogo de (0 Moo):                                179 
Gouveia, Diogo de (0 Velho):                               179

HLP - 77
O
Gouveia, Jos Frutuoso Aires de: Gouveia, Marcial de:           
        .......     ...... Gouveia, M. Margarida:               
     ......... Gower, John:             ..........    .. 
........... Goya y Lucientes, Francisco:                       
... Goytysolo, Juan:                ................... Graa, 
Fernando Lopes: 628, Graa, Jlio:            
...................       .. Graa, Lus:             
......................... Graciano:          
............................ Gracin y Morales, Baltasar: 254,

409, 411, 460, 492, 493, 544, Grcio, Rui:             
......................... Grade, Fernando:                
.................. Gralheiro, Jaime:               
.................. Gramme, Th ophile Zenobe:                   
       ... Grandgent, C. H.:               ....   ............. 
Grass, Gunther:                 .................... Gravata, 
Jos Manuel Garcia: Grave, Jo o Jos:               .......... 
        ..... .. Gravina, Gian Vicenzo: 577, 580, Gray, Thomas: 
583,                ............... Green, F. G.:            
....................... Gregrio, So:           
..................        .... Greimas, Algirdas Julien:        
                  ....... Griffin, J.:        
.....................          ...... Grilo, Joaquim Fernandes 
Toms

Monteiro: V. Kim, Toms Grinun, irmos:                 
.................... Grcio, Geert: 454, 580,                  
...      ...... Grockenberg, Dorothee E.: 243, Grotowski, Jerzy: 
              .................. Grouchy, Nicolau: 179, 259, 
286, Gual, C. Garca:                .................  .. 
Guarini, Giambattista: 412, 459, Guattari, F.: ..         
...................... Guedes, Maria Estela: 1029, 1038,


1051,       ............................... Guedes, Rui:        
     ........................ Guedes, Vicente: 1049,            
     ........... Guene, Bernard:                
.................. Gurente, Guilherme:                   
............. Guerra, lvaro: 1151,                  
............ Guerra, Gregrio de Matos:                         
.... Guerra, Maria Lusa:                   ............. 
Guerra, Miller: .... .          ................ Guerra, 
Orlando:                ..................

1218

HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Guerreiro, A. Machado: 312, .. Guerreiro, Francisco Xavier 
Cndido: 966,         ......................... Guerreiro, 
Manuel Viegas: 311,

890, Guevara, Lus Vlez de:                    ......... 
Guiette, R.:         .......................... Guilarte, Afonso 
Maria:                    ......... Guilhade, Joo Garcia de: 
61, Guilherme, Augusto (irmos): Guilherme de orange:           
       ............ GuilIri, Jorge:          
...................... Guilleragues, Gabriel J. Lavergue: 
Guimar es, Antnio Jos Gonalves:    
................................. Guimares, Conde Castro:      
               ...... Guimares, Delfim de Brito: 232,

243,    .............  :,**@*@**@*      ... * * Guimares, 
Drdio:                ............... Guimares, Elina de: 975, 
                 ....  ... Guimares, Fernando: 999, 1030, 1032, 
1038, 1050, 1055, 1065,

1091, 1105, 1110, 1132,                ....... Guimares, 
Horcio de Castro: Guimares, Manuel: 1177                    . 
...... Guimares, Nuno:               ............  . .... 
Guimares, Ricardo (visconde de

Benalcanfior): 792,             ............. Guisado, Alfredo 
Pedro de Meneses:    ................................. Guizot, 
Franois: 690,                ............ Gusmo, p.e Alexandre 
de: 464,

485, 568, 585, 589, 596, 609,
613, 619, 635,           ................... Gusmo, Bartolomeu 
Loureno

de:    ..............  . ................... Gusmo, Manuel: 
1053, 1055,

1157, 1176,          .......................

Haadsma, R. A.:     .................. Habermas, Jrgen: 990, 
997, ... Hadewijch (mstica flamenga, do

sc. XIII):   ........................ Haeckel, Ernst: ...  
.................. Haendel, Georg-Friedrich:    .......
O
pgs.
1186

1007

1188
220
42
186
63
686
580
984
509

164
144

390
1177
1075

1178
509
1180
1123

793

1042
738

639

589

1181

27
998

1152
863
458
O
pg5.

Halle, Adam de Ia: V. Adam de


Ia Halle Haliensleben, Ekkehard:                   ..... ....   
    890 Haller, Albrecht:             ...................       
   583 Hals, Frariz:          .........................         
  454 Hamburger, Michael:                       .............   
 996 Hampi, Zdenek:               .......      .. ...........   
1189 Hardung, Victor Eugne: 387, .                             
388 Hart, Thomas R.: 75, 222, 224,                             
315 Hartmann, Eduard von: 858, 870,                            
882 Harvey, William: 603,                     ............     
998 Hatherly, Ana: 467, 497, 506, 508,

525, 1120, 1121, 1133, 1178,                           1192 
Hatzfeld, Helmut: 465,                    ..........       648 
Hauptrnann, Gerhart: 693, 771,                             983 
Hauser, Arnold: 186, 465,                    ......        700 
Hauser, Henri: .             ....................          464 
Hauvette, H.:            .......................           1188 
Haydn, Franz Joseph:                      ............     579 
Hazard, Paul: 458, 464,                   .........        594 
Hebreu, Leo:             ......................           239 
Hegel, George Wilheim F.: 584,

585, 697, 835, 836, 846,                 ......        858, 
Heidegger, Martin: 981, 986, 989,                          1138 
Heine, Heinrich: 687, 690, 697,

791, 865, 894, 897, 913, 950,
964,     ...............................       ..      965 
Hlder, Herberto: 1000, 1120,

1121, 1134, 1151, 1177                . .......        1191 
Heleno, Manuel:               .........   ..........       1082 
Heivetius, Jean-Claude-Adrien:                             582 
Herningway, Ernest: 985,                  ........         1136 
Henrique, Conde D.: 58, 81, 83,

120, 279, 386, 441, 442, 448,                          588 
Henrique, D. (Cardeal- Infante):

182, 260, 287, 288, 439               . ......         450 
Henrique, Infante D.: 118, 137,

141, 142, 147, 484,                   .............    884 
Henrique VIII de Inglaterra: 170,

176, ... .   ............................      .       454 
Henrique de Trastmara:                   ........         130 
Henriques, D. Afonso: 36, 58, 79,

80, 81, 82, 83, 121, 128, 130,
133, 141, 333, 334, 340, 441,

442,     ....................         .............    750 
Henriques, Joo Carios Guilherme       
.............................             295

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO

Heraclito:       ............................ Herculano de 
Carvalho e Arajo,

Alexandre: 23, 35, 42, 84, 85,
89,126,133,143,146,250,311,
439,    442,    449,       450,   487,       493,
604,    670,    673,       694,   695,       696,
698,    709,    712,       718,   735,       737,
738,    739,    740,       741,   742,       743,
744,    745,    746,       747,   748,       749,
750,    751,    753,       754,   756,       757,
758,    760,    761,       763,   764,       767,
768,    770,    772,       773,   774,       775,
777,    778,    790,       791,   801,       804,
806,    809,    817,       818,   835,       836,
839,    840,    843,       854,   855,       857,
859,    863,    864,       868,   869,       877,
884,    886,    887,       888,   916,       921,
937,    938,    993,       1013,  ........... Herder, Johann    
            Gottfried von.584, 690, 835,             
................... Herman, Joseph: .             
................  :* Hermenegildo de               Tancos, Frei: 
Hernndez, Jos L. A.:               .......... Herrera, 
Fernando de:                ........... Hervey:       
..............  ..     ............... Hesodo de Ascra: ... .  
            ............. Hespanha, Antnio Manuel: 186,

464,    ............       . .................... Hess, Rainer: 
974,            ................. Heur, Jean-Marie d: 52, 68,  
                  ... Highet, Gilbert:              
.................... Higuera, Romano:              ...........  
     ...... Hirsch, Elisabeth Feist:             .......... 
Hispano, Andr: V. Dias, Mestre

Andr Hita, Arcipreste de:                 ............... 
Hobbema, Meindert:                   .......... .... Hobbes, 
Thomas: 455, 592, ..                    ... Hochhut:         
............ ...    .............. Hffding, Harald:            
 .............     . ... Hoffmann, Ernst T. A.: 687, 846, 
Hoffmannsthal, Hugo:                 ........... Hogan, Alfredo 
Possolo: 800, . Hogarth, William:             ................. 
Holanda, Francisco de:               .........  . Holanda, 
Srgio Buarque de:                     ... Holbach, Paul Henri 
Dietrich,

baro d:       ................  ...        .......
O

Pgs.
459

1082

836
27
153
225
492
608
716

596
1054

74
275
441
295

204
454
664
987
594
944
983
945
584
289-290

676

582

Holliday, Frank:             ................... HoIstein, 
lvaro de Sousa:                     ..... Homem, Jos Carvalho: 
                   ......... Homero: 333, 383, 425, 442, 664,

760,    .....  ......    ...................... Hooch, Rorneyri 
de:               ............... Hook, David: ...             
.................... Hoptkins, Gerard Manley:                   
    ...... Horcio (Quintus Horatius Flaccus): 176, 248, 251, 
252, 263,
267, 269, 290, 323, 371, 601,
623, 624, 626, 628, 630, 661,

709, 712, 716, 719            . ............. Horkheimer, Max: 
981,                   .......... Horrent, Jules: .... .        
    ..............   .. Horta, Maria Teresa: 1124, 1148,

1165,      ............................... Hourcade, Pierre: 
974, 1055,                   .... Hourcade, Rmy:               
    .................. Howorth, A. H. Arajo Stott: . Huber, 
Joseph:               ..................... Hugo, Vtor: 682, 
686, 687, 688,

690,    692,    693,     695,    697,      699,
711,    717,    738,     742,    743,      762,
767,    770,    771,     793,    795,      798,
799,    801,    817,     818,    834,      835,
843,    854,    868,     894,    954,      958,
960,    961    . .......................... Hugo de So Vtor   
              ................ Huizinga, Johan:                 
 .................. Humboldt, Alexandre von:                    
   ... .. Hume, David:                 ..................... . 
Hilmerich, F.:               ...................... Humington, 
Archer Milton:                      .... Husseri, Edmund:       
           ...... ........... HuxIey, Aldous:              
.................... Huyghens, Christian:                 
............. Huysmans, Joris Kal: 692, 693,

lannone, C. A.: 71,            ............... Ibri Rochd: V. 
Averris Ibsen, Henrik: 693, 771, 983, Ignatov:      
............ . ................. Imperial, Francisco:           
............... Incio de Loiola, Santo:             .........

1220

HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
ludini, M. L.: .... .      .................. Ingarden, Roman:  
           ................. Intino, Rafaela d:           
................ lonesco, Eugne: 986, .           ........... 
lordan, lorgu:         ........... ..  ......... Isabel, rainha 
de Inglaterra: 265, Isabel 11 de Espanha:            
............. Iser, Wolfgang:         ..................... 
Isidoro, Santo: 77,           ................ Isla, P., Jos 
Francisco de:             ..... Ivo, Manuel Tibrio Pedegache

Brando: 626,          ................... Ivo, Pedro 
(pseudnimo de Carlos Lopes): 937, 938,           .....

Jabouille, Victor:           .................. Jackson, K. D.: 
           ......... ..  ......... Jacobbi, R.:         
......................... Jcome, Benito Varela:                
.......... Jacopone de Todi: 150,                .......... 
Jacquart, Jean:           ..................... Jaime I de 
Inglaterra:              ............ Jakobson, Roman: 72,      
          ........... Janeiro, Armando Martins: 316, Jardim, 
Cipriano:            .................. Jaspers, Karl: O.       
  O...................... Jauss, Hans Robert: 8, 26, 42, 
Jazente, Abade de: 631, 650, 65 1,

653-655, 674, 676, 677, 791,
1103, ...    ....................   ..  ...... Jeanroy, Alfred: 
           ................... Jensen, Frede:           
...................... Jensen, Gordon Kay:                 
............. Jerabricense, Sincero: V. Sousa,

Jos Xavier de Valadares e Jernimo, So: .... .           
................ Jesus, Frei Rafael de: 443,                
...... Jesus, Frei Torn de: 431-433, 434, Jesus, M. Saraiva de: 
              ............. Jimenez, Juan Ramn:                
........... Joana-a-Louca:            ..................... Joo 
1, D.: 37, 106, 107, 111, 112,

116, 119, 120, 121, 122, 126,
127, 130, 131, 142, 149, 155,
156, 333, 340, 342, 443, 718,
O
Pgs.
O
71
25

309
1100

27
454
698

8
79
578

639

952

524
353
1184
1188
207
185
454
1054
1034
946
986
102

1115

72
75
356

16
448
531
952
984
240

745

Joo 11, D.: 106, 134, 140, 146,

155, 157, 158, 161, 178, 192,
253, 288, 303, 333, 398, 447,
474,    ...............................     .. Joo 111, D.: 38, 
94, 97, 134,             171,


176, 178,       179,   182,    185,    190,
192, 193,       198,   202,    205,    206,
207, 216,       221,   250,    266,    269,
277, 278,       279,   287,    309,    333,
348, 395,       439,   461,    568,    ...... Joo IV, D.: 383, 
385,             443,    461,

470, 471,       472,   474,    483,    539,
540, 541,       542,   549,    555,    559,
560, 564,       567,   ................... Joo V, D.:         
185,   219, 443, 460,

463, 464,       467,   493, 499, 505,
516, 565,       567,   585,    586,    588,
589, 591,       592,   597,    605,    607,
620, 621,       636,   ................... Joo VI, D.: 587, 
662, 694, 707, Joo 1 de Castela, D.:             ............ 
Joo da ustria, D.:               .............. Joo, Prncipe 
D. (filho de D.

Joo 111): 250, 266, 269,              ..... Jodelle, tienne:  
        ..............  ..   ... Johnson, Samuel:            
.................. Jong, Marcus de:            
.................. Jonson, Ben:               
........................ Jorge III:       
............................. Jorge (filho de Camilo Castelo

Branco)       ............................ Jorge Carlo F.:      
      ..................... Jorge, Carlos Figueiredo: 1175, 
Jorge, duque de Coimbra, D.:

259,    ................................. Jorge, Joo Miguel 
Fernandes:

1128, 1157, 1178,              ............... Jorge, Ldia: 
1154,                ................ Jorge, Lusa Neto: 1124,  
                 ........ Jorge, Manuel Joo:                
.............. Jorge, Ricardo: 419                . 
.............. Jos, D.: 499, 516, 565, 589, 590,

592, 595, ...          ....................... Jos 11 da 
ustria:                ................ Jos, Fausto:          
    ........................ Jos Garcia, Manuel:               
............. Jost, Franois:            ......................
O
pg5.
O
880


750

590

648
760
106
367

398
265
578
434
455
576

815
1186
1187

303

1185
1157
1178
1178
831

598
577
1057
1036
700

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO

Joule, James Prescott:                ........... Joyce, James: 
982, 984, 987,                  .... Joyce, Patrcia:          
..... ..  .............. Jdice, Nuno: 872, 873, 975, 1051

1128,      .............................. Jung, Karl Gustav:    
          ................ Junqueiro, Ablio, Manuel Guerra:

699, 767, 768, 799, 838, 846,
860, 864, 879, 887, 958, 960,
961, 962, 963, 973, 974, 975,
1007, 1008, 1009, 1010, 1012 Juromenha, Visconde de:            
      ........ Jussieu, Antoine Laurent:                  
....... Juvenal, Decimus Junius:                   .......

Kafka, Franz: 944,               ................ Kahn, Gustave: 
            ..................... Kamnezky, Eliezer:            
   ................ Karit, Emmanuel: 545, 584, 847, KaussIer:   
      ............................. Kaiser, Wolfgang: 25,       
         ............ Keats, Laurence: 224, 687,                
  ...... Keil, Alfredo:          ....................... Keller, 
J. E.:          .................. . ..... Kempis, Toms de:    
            ....... ......... Ken, John:          ......... 
.................. Kermode, F.:            
........................ Kerouac, Jack:             
..................... Kierkegaard, Sren Aabye:                 
   ..... Kim, Toms (pseudnimo de Joaquim Fernandes Toms 
Monteiro de Grilo): 1095,             .......... King, Larry D.: 
143,               .............. Kitto, H. D. F.: 687,         
      ............. Kleist, Heinrich von: Klopstock, Friedrich 
G.: 583,

737,     ................................. Knopfli, Rui:        
   ........................ Kochnitzky, Lon:              
................. Kotzebue, August von:                 
........... Krauss, Werner:             .................... 
Kriedke, P.:         ............  . ............ Kristeva, 
Jlia: 25, 987, 989,                 ... Krll, Heinz:          
 ........................ Kuhn, Thomas:              
.....................
O
Pg .
979
989
1145


1178
1108
O
1103
355
582
248

984
1021
1053
862
164
875
688
1003
101
107
1090
700
986
986

1178
145
275

742
1112
1189
769
595
464
1126
509
990

La Rame, Pierre:             ................. Labrousse, E.:  
          ....... ............... La Bruyre, Jean de:          
     ............. Lacan, Jacques: 832, 987,                 
....... Lacape, Henri:            ..................... Lacerda, 
Bernarda Ferreira de:

378, 382,      .......................... Lacerda, Carlos 
Alberto Portugal

Correia de: 1108, 1109, 1175,
1179,     ............................... Lacerda, Csar de: 
....            ............ Lacerda, Ferno Correia de: 369,

387,   ................................. Lacerda, Margarida 
Correia de:

100 ... . .............  . ................ La Chausse, Pierre-
Claude

Nivelle de:           ........................ Lacroix:      
.............................. Larcio, Digenes:            
................. Lafayette, m.me de: 458,                  
......... Lafes, 2. duque de:              ............ La 
Fontaine, Jean de: 9, .                ....... Laforgue, Jules: 
982, 984,                ...... Lageira, J.;       
.......................... Lagoa, Visconde de: 311,             
     ........ Lagoutte, Jean:           ..................... 
Laje, Francisco:          .................... Larnartine, 
Alphonse de: 659, 687,

727, 764, 841, 854,            ............. Lamas, Maria:      
       ...................... Lamas, Regina:            
..................... Lamermais, Flicit-Robert: 694,

738,   ................................. La Mettrie, Julien 
Offroy de: 582, Lamy, P.e Bernard:              ............... 
Lancastre, Maria Jos de:                 ....... Lanciari, 
Giulia: 71, 226, 313, 316,

357, 1181,            ........................ Landera, Lus:   
         ...................... Landim, Caspar Dias de: .       
          ....... Lang, Henry R.: 70, 163,                  
....... Lange, Friedrich Albrecht:                ...... Lanson, 
Gustave:             .................. Lapa, Manuel Rodrigues: 
30, 3 1,

47, 55, 67, 70, 71, 73, 90, 95,
101, 116, 117, 118, 133, 134,

1222

HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
pg5.

145, 164, 165, 245, 256, 292,
294, 313, 314, 356, 447, 487,
536, 552, 646, 656, 674, 676,
677,   .......... . ......................            732 
Lapesa, Rafael: 28,             ...............           101 
Laplace, Pierre Simon, marqus

de: 790    . ...........................              862 Lara, 
Manuel Tufin de:                 ........          28 
Laranjeira, Manuel: 947, 1012,                            1038 
Launay, M.:         .......... . ..............           594 
Lausberg, Heinrich: 26,               ..........          27 
Lautensach, H.:           ................  . ...         43 
Lautramont, Isidore Ducasse,

conde de: 1100,           .................           1101 
Lavanha, Joo Baptista: 282, ..                           292 
Lavaud, R.: ....          .....................           73 
Lawrence, David Herbert: 982,

983,   ........................   . ........          984 
Lawton, R. A.: 732, 734, 735, 83 1,                       1029 
Leal, Antnio Duarte Gomes:

699, 799, 866, 870, 895, 940,
954, 963, 966, 969, 970, 971,
972, 973, 976, 1009, 1010, 102 1,                     1040 Leal, 
Ernesto: .... .        ..................           1165 Leal, 
Jos da Silva Mendes: 697,

763, 764, 771, 772, 780, 798,
799, 801, SIO,         ...... ..  ...........         854 Leal, 
Raul: 889           .....................           1040 Leal, 
Raul de Oliveira de Sousa                           1040 Leo X: 
.. . .     ...........................            176 Leo, 
Duarte Nunes do: 23, 181,


439,   ............................     .....         448 Leo, 
Francisco da Cunha de: 974,                         1031 Leo, 
Frei Lus de: 184,                .........         476 Leo, 
Ponce de:           ............  . .......         1051 Le 
Bossu, Ren:            ....................           624 
Lebrun, Franois: 185,               ...........          464 
Lecherbormier, Bernard:                 .........         996 
Lcussan-Verdier:            ..................           646 
Lefvre d'taples, Jacques:                 .....         175 Le 
Goff, Jacques: ...            ....... . ......         41 
Legouis:       .............  . ................          1189 
Leibniz, Gottfried Wilhelra von:

457, 500, 578, 794, 861, 862,                         864 
Leiria: Mrio-Henrique:                 .........         1104 
Leiriense, Josino: V. Costa, Jos

Daniel Rodrigues da
O
pg5.

Leito, Humberto:                                          311 
Leito, Joaquim:             ...................           1070 
Leito, Lus Veiga: 1113,                          ........1179 
Leito, Ruben Alfredo Andresen:

V. A., Ruben Leite, Arnaldo:            .....................   
        1162 Leite, Duarte: 145, 146,                           
.......... 1082 Leite, P.e Jernimo Dias:                       
   ....... 311 Leite, p.e Serafim: 551,                         
  .......... 552 Leite, Solidnio: 559, .                       
    ............ 614 Lemos, Ester de: 1033, 1145,               
        ...     1187 Lemos, D. Francisco de:                    
        ......... 592 Lemos, Joo de: 761, 765, 767,

772,    780, 790, 796                          . ............. 
809 Lemos, Jorge de:               ....                *--------
----- 309 Lemos, Jlio de:              ...................     
     975 Lemos,       Maximiano Augusto de

Oliveira:       ...................            ........ 614 
Lencastre, D. Filipa de:                           .......... 
156 Lencastre, D. Joo de (1.1 duque

de Aveiro): 260, .                             ............... 
365 Lencastre, Maria Jos de: 226,                             
1033 Leonardo da Vinci:                                 
............... 177 Leonor da ustria, D. (mulher de

D. Manuel):           ......................           348 
Lepecki, Maria Lcia Torres: 42 1,

812, 831, 832, 950, 1157, 1172,

1174,       ...............................            1182 
Lerma, Duque de:                                   
................. 557 Lesage, Alain-Ren: 581, 684, .           
                 776 Lesser, Arlene T.:                         
        .................  74 Lessing, Gotthold Ephraimy: ...   
                         584 Letourneur, Pierre: ... ..         
                ........... 681 Letria, Jos Jorge: 1117, 1133, 
                           1179 Leeuwenhoek, Antoine von: .     
                   ...     454 Levi, Carlo:           
.........................           988 Levitin, Alexis:        
    .......                .............. 1172 Lvy-BruhI, 
Lucien:                                ...............981 Lewis, 
Sinclair:            .....................          984 Lily, 
John:          ....................          .. ..... 454 Lima, 
Alceu Amoroso:                               ........... 614 
Lima, Alexandre Antnio de: 519,                           637 
Lima, ngelo de: 1040,                             .......... 
1055 Lima, Augusto Jos Gonalves                               
766 Lima, Augusto Csar Pires de:

388,     .................................             535 Lima, 
Ebion de:              .....                 . .............. 
537

INDICE ONOMASTICO REMISSIVO
O
Pgs.

Lima, P.e Francisco Bernardo:

639, 650, 664, 675, ...                        .......... 791 
Lima, Henrique de Campos Ferreira de: 733, 734,                 
           .............. 1071 Lima,          Isabel Pires de: 
950, 951,

975, 1056,                                     
........................ 1157 Lima, Jaime de Magalhes:         
                 .....   865 Lima,          Lus Costa:         
                .................  26 Lima,          Manuel de: 
1104,                    ......... 1163 Lima, Marta de (Zulmira 
de

Almeida):                                      
......................... 1148 Lima, Oliveira:                  
                  ..................... 985 Lima, Slvio Vieira 
Mendes:                        ....    1035 Lind, Georg Rudolf: 
1052,                          ......  1055 Lineu, Carl von:    
                               ................... 582 Linhares, 
Conde de:                                .............. 470 
Linhares Filho:                                    
.................. ... 1066 Lins, lvaro: ... ....              
                       949 Linspector, Clarice:                 
              ............... 988 L psio, Justo: 477, 479,     
                      ... .. ..... 482 Lisboa,        Antnio 
de: 215                     . ........ 226 Lisboa, Antnio 
Maria: 1102,

1106       . ...............................           1179 
Lisboa,        Eugnio: 1050, 1065,

1066,      1133, 1183, ..                      ............. 
1184 Lisboa, Irene do Cu Vieira: 1074,

1075, 1077, 1086,                              
...............1179 Lisboa, Joo Lus:                          
       .............. . .488 Lisboa,        Zara:               
                ....................... 872 Lisle, Charies Marie 
Leconte de:

692, .     ....                                ........... 
...**********@ 964 Littr, Maximilien P. mile: 698,

843,       ............                        
..................... 863 Lvio, Tito: 174, 282, 283, 284,

437,       .......                             
.......................... 566 Llansol, Maria Gabriela: 1152,   
                          1179 Liardent, J. A.: 874, .          
                  ............. 1190 Liosa, Vargas:             
                        ...................... 988 Liompart, J. 
M.:                                   ................... 1191 
Llullu, Ramn: V. Liio, Raimundo Lobato, Adlia:               
                     .................... 294 Lobato, Baltasar 
Gonalves:                        ....    396 Lobato, Gervsio 
Jorge Gonalves: 945,                                      
.......................... 1003 Lobeira, Joo de: 97            
                   . .............  98 Lobeira, Vasco de: 97,   
                          ...........  98

Lobo, Antnio de Sousa da Silva

Costa: 109, 313, .          ............... Lobo,        Eduardo 
de Barros:           ...... Lobo, Fonseca: ...              
.................. Lobo, D. Frei Francisco Alexandre:     
..............................   ... Lobo,        Francisco 
Rodrigues: 23,

351, 366, 371, 373, 380, 382,
388, 406, 407-416, 419, 420,
421,     427, 461, 462, 480, 491,
503,     504, 517, 555, 558, 627,
633,     ................   ................. Lobo,        Maria 
Edith:       ............... Lobo,        Miguel:    
...............   ....... Locke,       John: 455, 457, 578, 580,

581,     603, 605, 627,           ............. Lombroso, 
Cesare:               ................ London, Jack:           
............. ... ...... Longino, Dionsio Cssio:              
   ....... Longland, Jean R.:              ............... 
Longo:       ....................     ............ Loornis, R. 
S.:         ............  .......... Lope de Rueda:             
.................... Lope de Vega, Flix: 185, 205, 220,

221,     406, 408, 412, 459, 460,
469,     473, 480, 481, 492, 511, Lopes,       Afonso: 214, 215, 
216, Lopes,       Ana Cristina M.: 25,             ... Lopes,   
    Anrique: 214, 215,           ....... Lopes,       Carlos: V. 
Ivo, Pedro Lopes,       David de Meio: 42, 293,

749      . ........ ......................... Lopes,       
Estvo:      .................... Lopes,       Fernando:       
   .................. Lopes, Ferno: 21, 22, 33, 40, 41,

83, 85, 87, 97, 98, 103, 115,
119-135, 137, 138, 139, 140,
141,     142, 145, 146, 147, 163,
270,     292, 294, 307, 308, 342,
344,     443, 447, 483, 718, 725,
727,     745,   .......................... Lopes,       Maria da 
Graa Videira:

676,     ................................. Lopes,       Maria 
Teresa Rita: 1032,

1052, 1053, 1054, 1065, 1125, Lopes, scar Luso de Freitas: 25,

224, 245, 257, 314, 358, 464,

1224

HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
Pgs.
O
488, 594, 596, 646, 677, 735,
758, 781, 811, 832, 849, 852,
874, 875, 890, 950, 952, 974,
975, 999, 1028, 1030, 1033,
1034, 1035, 1036, 1037, 1050,
1054, 1055, 1065, 1066, 1067,
1070, 1090, 1091, 1092, 1105,
1133, 1157, 1172, 1178, 1182,
1186,      ............................... Lopes, Silvina 
Rodrigues: 1029,

1031, 1052, 1157, 1173, 1177, Lopes, Teresa Coelho:             
   ............ Lopez, F.:        .........   .. 
................. Lopez, Ramn Martnez:                     
......  .. Lopez, Robert S.: .            ................. 
Lopez de Ayala, Pero: 121,                    ..... Lorca, 
Federico Garcia: ...                ....... Lorenz, Hendrik-
Antoon:                    ....... Lorenzo, Ramn: 30, 69,      
              ........ Losa, A.:         
............................. Losa, Ilse: 1145, 1179,           
         ........... Loti, Pierre (pseud. de Julien

Viaud):        ...................     ......... Lotman, louri: 
25,               ................ Loureiro, Diogo Gornez:      
              ......... Loureiro, F. Sales:              
................ Loureiro, Mrio J. P.:                     
........... Loureno, Eduardo: 358, 735,

850,876,890,975,1054,1055,
1059, 1065, 1066, 1092, 1105,
1108, 1133, 1138, 1181,                ....  ... Loureno, J. 
Fazenda:                      ........... Loureno, M. S. 
(Manuel Antnio

dos Santos Loureno): 1120, Loures, Carlos:            
..................... Lousada, Antnio Jos Coelho:

775, 780, 786, 792,              ............. Lovelace Richard: 
             ................. Lwit, K.:          ............. 
   .............. Lucas, J. de Almeida: 419,                    
..... Lucas, Maria Clara Almeida: 154,


226, 523,        .......................... Lucas, Maria Helena 
Baptista: . Lucena, Francisco de: 146, 483, Lucena, Joo de: 
444, 448, ..                    ... Lucena, Jo o Roiz de:      
                ........... Luciano de Samsata: 193,           
          .....

1190

1179
1032
1189

89
41
130
1172
979
101
315
1190

1023
987
389
449
434

1184
1184

1121
1187

793
455
990
780

1175
975
567
449
163
481


Lcio Pouso Pereira, Joo:                   ... Ludolfo de 
Saxnia:               .............. Ludovice:         
............................ Ldtke, H.:          
......................... Lus, D     . 
.............................. Lus XI:       
.............................. Lus XIII:        
............................ Lus XIV: 265, 455, 456, 457, 458,

463, 471, 575, 577, 579, 583, Lus, Andr:          
........................ Lus de Granada, Frei: 184, 423,

433,    ................................. Lus, Infante D. 
(filho de D.

Manuel):        .......................... Lus, Nicolau: 637, 
641,                ......... Lukacs, Gyrgy: 783, 987,         
         ...... Llio (ou Lulo) Raimundo: 151, Lulli, Jean-
Baptiste: ..           ............. Lund, Christopher L        
    ... ............ Lusitano, Amato (pseud. de Joo

Rodrigues de Castelo Branco): Lusitano, Cndido: 23, 591, 593,

601, 619, 621, 622, 624-626,
628, 639, 641, 645,            ............. Lusitano, p.e 
Francisco Soares:

183,    ...................  ...... . ....... Lusitano, Vieira: 
          ................... Lutero, Martinho: 170, 176, 206,

287,    ................................. Luz, Maria Albertina 
Mendes da: Luz, Viscondessa da:               ............. 
Luzn Claramunt de Suelves y

Guerra, Ignacio: 578, 601, 620,
624,    ................................. Lyly, John:        
......... .  ................ Lynch, I.:        
............................ Lyotard, Jean-Franois: 26, 990,

997,    ................................. Lyra, Manuel de: 255, 
354,                  .....

Mabillon, Jean:           .................... Macchi, Giuliano: 
132, 133,                .... Mac Donnel, Reinaldo:             
   .......... Macedo, Antnio de Sousa de:

383-384, 392, 492, 558, 559,
560, 564, 565, 1066            ............
O
pgs.
O
1022

180
589
27
934
141
265

639
407

554

365
645
996
207
515
297

181

663

590
589

289
29
708

625
515
186

998
389

442
134
814

1180

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO
O
Pgs.

Macedo, Diogo de:                .....       ...........    466 
Macedo, Duarte Ribeiro de: 462,

506, 559, 565, 570, 586,                ......         587 
Macedo, Hlder: 72, 240, 244,

246, 357, 976, 1119, 1156, ...                         1190 
Macedo, Jorge Borges de: 188,

465, 595, 758,           ...................           1082 
Macedo, P.e Jos Agostinho de:

623, 626, 650, 651, 652,
661-664, 663, 665, 671, 673,
675, 707, 733, 760,                     .............  769 
Macedo, Newton de:                           .............. 615 
Macedo, Pedro de Sousa:                      .......        772 
Machado, lvaro Manuel: 678,

781,850,973,1034,1152,1157,                            1173 
Machado,          A. M. Bettencourt: ..                     952 
Machado,          Antnio: 508,              .........      984 
Machado,          Antnio A.:                ...........    417 
Machado,          Augusto:                   ............... 
1003 Machado,          Augusto Reis:              ........      
 448 Machado,          Dinis: 1153,               ...........   
 1179 Machado,          Diogo Barbosa: 397,

417, 472, 494, 526, 568,                ......         1185 
Machado, Joo Pedro:                         ...........    311 
Machado, Jos Pedro: 30, 69, 291, 387,    
.................................              448 Machado, Jos 
de Sousa:                      ........       256 Machado, Jlio 
Csar: 777, 789,

801, 802, 803, 809, 810,                ......         841 
Machado, Lus Saavedra: 31, 72,


101, 133, 153,           ...................           164 
Machado, R.:             .......................            313 
Machado, Raul:               ....................           294 
Machado, Simo: 218,                         ...........    227 
Machaut, Guillaume de: 112,                      ...        156 
Machin, Roberto: 310, 472,                     .....        484 
Macias, o Enamorado: ..                      .........      156 
Macpherson, James: 583, 664, .                              714 
Madeira, Antonio: V. Fonseca,

Antnio Jos Branquinho da Madureira, Virglio:                 
        ............... 152 Maeterlinck, Maurice: 221,          
           .....        1003 Maffei, Scipione: 709,             
          ............   721 Maf`fre, Claude:             
....................           488 Magalhes, Ferno de: 180,   
                   ....        288 Magalhes, 1. Allegro de:    
                .......        1157
O
Magalhes, Joaquim Manuel: 1095,

1118, 1129, 1133, 1175, 1179, Magalhes, Jos de:               
............... Magalhes, Jos Estvo Coelho

de: V. Estvo, Jos Magalhes, Lus Cipriano Coelho

de: 887, 923, 945, 947                  ........ Magalhes, 
Rodrigo da Fonseca:

739,    ................................. Magalhes Jnior, 
Raimundo: . Magne, Augusto: 100,                 ............ 
Maia, Clarinda de Azevedo:                     .... Maia, 
Gonalo Mendes da (o

Lidador):       ..... . .................... Maia, p.e Joo:    
         .................... Maia, Joo Augusto Machado de

Faria e:       ............................ Maia, Jlio 
Rodrigues Donato: Maia, Manuel Rodrigues:                     
....... Maia, Samuel Domingos: 1003,

1070,      ............................... Maier, Harri:        
    ....................... Mailhos, G.:          ... . 
.................... Maistre, Xavier de:              
................ Maiorano, M.:             
...................... Malagrida, P.e Gabriel:                  
   .......... Maldonado, Herrera:                  .....  .. 
...... Maldonado, Joo Vicente Pimentel:   ..............  ..  
.................. Malebranche, Nicolas:                 
............ Maler, Bertil:           ..............     ... 
...... Malheiro, Helena               .................. 
Malherbe, Franois: 414, 456, Malhoa, Jos:            
.............      .......... Malkiel, Maria Rosa Lida de: 101, 
Mallarm, Stphane: 693, 954,


984, 989, 1047, 1110,                   .......... Malraux, 
Andr: 985,                  ....  ........ Mandelbrot, B.:     
        .................... Mandeville, Jean de:               
 .............. Manescal, Miguel:               
................. Manique, Pina: 516, 590, 593, Mann, Thomas: 
982,                   ............. Mancio, Aldo:             
  .................... Manuel 1, D.: 134, 140, 141, 155,

157, 178, 179, 190, 192, 205,

1226

HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
Pgs.

210, 281, 290, 299, 309, 341,
348, 365, 414, 438, 663, 717,                         770 
Manuel, Infante D. (irmo de

D. Joo V):          ......................           609 
Manuel, D. Joo: 108                             . ........... 
162 Manuel, Maria Antnia Cmara:                             
1174 Manuel, Passos (Manuel da Silva

Passos): 695, 707, 708, 759,
778, 791     . ............                  .............. 792 
Manuel do Cenculo, Frei: 592,                            593 
Manuelinho:           .......................    ..       461 
Manuppella, Giacinto: 390, 487,                           488 
Map:       .......................               ....... ....  
94 Maquiavel, Nicolau: 176, 178,

186, 267,        ..........................           542 
Marasso, Arturo:               .......           ......... .. 
508 MaravalI, J. Antnio:                            
............ 465 Marchand, Ana:                 ...........     
  ........ 1179 Marchon, Maria Lvia Diana de

Arajo: ... ..      .......................           812 
Marcial, Marco Valrio:                          ......... 248 
Marcuse, Herbert:              .................          987 
Margalho, Pedro:               ..................         178 
Margarido, Alfredo: 316, 1030,

1034, 1052, 1105           . ...............          1150 
Margato, Isabel:               ................  ...      246 
Maria 1, D.: 586, 589, 590, 593,

638, 653, 659, 669, 760,                     ......   789 Maria 
11, D.:          ............              ............ 707 
Maria, Infanta D. (filha de D.

Manuel): 179, 278, ... .                     ......... 318 Maria 
da Fonte: 696, 738, 777                             1163 Maria 
de Frana:               ..................           94 
Mariana, Juan de:              .................          441 
Marichalar, Antnio:                             ............. 
508 Marinetti, Filippo Tommaso:                      ...      
982 Marinho, Jos : 852, 875, 1015,

1037, ,     ..............................            1138 
Marinho, Maria de Ftima: 849,

1032, 1106, 1132,                            ............... 
1178 Marinho, Maria Jos: ...                         ......... 
849 Marinho, Martim Eanes:                           ........   
67 Marino ou Marini, Giambattista:

363, 377,        ......... ................  .        460 
Marivaux, Pierre de: 579, 583,                            684 
Mariz, Pedro de: 370, 439, 448,                           450 
Marlowe, Christopher: 265,                       .....    455
O
Pgs.

Marmontel, Jean-Franois:                     ......        624 
Marques, Antnio Henriques de

Oliveira: 28, 43, 109, 117, 143,
186, 594, 890, 998, 999, 1028,                         1082 
Marques, Francisco da Costa:

101, 117, 245, ...             ................        274 
Marques, Henrique: 830,                       ........      976 
Marques, J. A.:              .............    .. .....      1120 
Marques, Jo o Francisco: 467,                               554 
Marques, Loureno:                  ......    ........      302 
Marques, Maria Emlia:                        .........     1034 
Marques J nior, Henrique:                     .....         976 
Marquez, Garca:               ..................           988 
Marrast, Robert:             ...................            1189 
Marreca, Antnio de Oliveira:

698, 775, 776, 777, 836, 879,                          1013 
Marroni, G.: 70, ... + ... -                  ....-...        
73 Marrou, Henri-Irne:                 ............           
 72 Martelo, Rosa Maria:                  ............          
506 Martin, Alfred von:                 ...............         
185 Martin, Herri-Jean:                ...............         
109 Martinez, Maria Teresa Leal de:

390,    ............    .....................          875 
Martinho, Fernando J. B.: 1051,


1054,     ..... . .........................            1106 
Martinho, Virglio:                 ................        1169 
Martins, Ablio: 153,               .............           154 
Martins, Albano: 1031, 1112, ..                             1177 
Martins, Ana Maria:                 ..............            31 
Martins, Ana Maria de Almeida:

873, 874,        .....................   -...          876 
Martins, Antnio Coimbra: 275,

359, 449, 536, 537, 596, 648,
832, 850, 949, 951, 976, .               .....         1188 
Martins,       Atlio A. Rego:                ........      292 
Martins,       Cabral:       ...................            1053 
Martins,       P.e Diamantino: ...            .....         118 
Martins,       Fernando Cabral:               ......        1031 
Martins,       F. A. de Oliveira: 873                       889 
Martins,       Filipe Leandro:                .........     1143 
Martins,       Gabriela: 466,                 ..........    570 
Martins,       Guilherme de Oliveira:

889,                                                   890 
Martins,       Heitor:       ....................           508 
Martins, Isaltina das Dores Figueiredo:     .................   
 ........... ...         188 Martins, Joaquim Pedro de Oli-

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO
O
pg5.
O
veira: 126, 608, 697,            698,    699,
701,     757,   758,    786,     794,    835,
838,     840,   843,    846,     854,    857,
859,     860,   863,    869,     870,    872,
877,     878,   879,    880,     881,    882,
883,     884,   885,    886,     887,    888,
890,     891,   892,    902,     913,    916,
921, 922, 960, 1009, 1012, 1014, Martins, Jos Vitorino de Pina:

109, 186, 188, 225, 256, 257,
258, 356, 358, 359, 433, 487,
488, 616, 734,          ................... Martins, Jlio:     
      ...................... Martins, Luzia Maria:              
  ............ Martins, M. Manuela Oliveira: Martins, Manuel 
Frias:               ........... Martins, P.e Mrio: 43, 74, 91,

102, 118, 134, 146, 152, 153,
165, 223, 390,          ...........      ........ Martins, Jos 
Toms de Sousa:

858, .... .   ............................ Martins, W.:         
 ........................ Mrtires, Frei Bartolomeu dos:

446, 447, ..      ..................     .. .... Mrtires, D. 
Prspero dos:                   ..... Martocq, Bernard: 999, 
1012,

1028,      ............................... Marx, Karl: 691      
     . ..........       ......... Mascarenhas, Andr da Silva: . 
Macarenhas, Brs Carcia de: 384,

385-386,        ........................... Mascarenhas, D. Joo 
de:                     ....... Mateus, J. A. Osrio:           
     ............ Mateus, Maria Helena Mira: 117,

165,     830,   .......................... Matias,      Elze M. 
H. Vonk: 466, Matos,       A. Campos:              
............... Matos,       Gasto de Meio e: 135,

555,     ................................. Matos, Gregrio de: 
502, 503,

504,     506, 507,      ................... Matos, Joo Xavier 
de: 612, 650,

651, 653-655,           .................... Matos, Jlio de:   
         .................... Matos,       Lus de: 187, 275, 
292,

294,     295, 316,      .............    ...... Matos,       
Marcelino de:           .............

1026

876
646
1168
890
1133

434

940
1188

529
502

1038
987
386

392
378
1170

832
509
950

570

508

674
864

1192
786
O
Matos, Maria Vtalina Leal de:


257, 356,      ......        .. .................. Matos, Nlson 
de:                ................. Matos, Jos Maria Mendes 
Nrton de:     .....            ........................ Matos, 
Santos:                   ..................... Matos, Xavier 
de:                -----------------Mattoso, Jos: 42, 44, 75, 
86, 89,

90, 109, 144, ..             ....... .. ... ....... Maupassant, 
Guy de: 692,               ...... Maurer Jnior, Theodoro 
Henrique: 27,     ........        ................... Maurcio, 
p.e Domingos: 118,

147, 389, 435,               ................... Mauro, 
Frdric: 187, 358,               ..... MaxwelI, James Clerk:   
               ........... Mayer, Carlos: ... .             
................. Mayer, Julius-Robert von:              ...... 
Mazarino, Jlio: 455,            ............. McPheeters, D. W: 
               ........+.......

Mdicis, Cosme de: 108,                ......... Medina, 
Cremilde de Arajo: .. Medina, Isabel:                  
..................... Medina, Joo: 594, 758, 850, 947,

950, 998, 1036,              .................. Meendinho:      
   .......................... Megale, Heitor:                  
.................... Meireles, Germano Vieira de: 837, 
Melanchton (Phlippe Schwarzerd): 174, 175,             
................. Mello, Pedro Homem de: 1064, Meio, Antnio 
Maria de Fontes

Pereira de: 696, 697, 739, .... Meio, Arnaldo Faria de Atade e: 
Meio, Francisco de Pina e:               ..... Meio, D. 
Francisco Manuel de:

41, 65, 254, 310, 370, 404, 406,
409, 411, 413, 429, 462,
469-489, 491, 492, 494, 500,
501, 507, 508, 512, 513, 514,
523, 528, 556, 558, 559, 561,
562, 566, 607, 617, 627, 634,
726, 816,      .......................... Meio, Joo de: 1065, 
1142, 1143,

1177, 1179, 1186,            ............... Meio, Jos de:     
              ...................... Meio, J. S. de:            
      .....................

1228

HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
Pgs.

Meio, Jorge Silva:              .................          523 
Meio, Martim Afonso de:                                    121 
Meio, Sebastio Jos de Carvalho

e: V. Pombal, Marqus de Mriager, D.:         
........................             186 Menandro:           
................  ..  .........        265 Mendes, Afonso:      
        ...... ...  ..........        444 Mendes, Carlos 
Fradique: 838,

850, 851, 866, 896, 987, 920,
929, 954,       ..........................             958 
Mendes, P.e Joo: 357, 508, 553,

678, 734, 757         . ...................            975 
Mendes, Joo:             ......................           875 
Mendes, Joaquim de Sousa: 315,                             613 
Mendes, Jos Manuel: 1000, 1142,

1157, 1179, 1180,             ...............        1182 
Mendes, Manuel: 296, 297, 613,

733, 781, ... .       ........ ........   ......     1077 
Mendes, Manuel Odorico:                       .......      395 
Mendes, Margarida Vieira: 552,

553    ..................................              974 
Mendes, Murilo:              ...................           985 
Mendes, Soeiro: 81               ................            82 
Mendes, Sousa: V. Albuquerque,

Lus Mendona, Agostinho Gavy de:                               
309 Mendona, Antnio Pedro Lopes

de:295,696,697,766,775,777,
781, 782, 786, 787, 788, 789,
801, 802, 809,           ...................           811 
Mendona, Fernando de: 832,

999, 1091, 1157, .... ...            .........       1171 
Mendona, Henrique Lopes de:


947, 1002,        ..........  . .............        1003 
Mendona, Jernimo de:                    ........         439 
Mendoza, Diego da Silva y:                    ....         387 
Mendoza, D. Iffigo Lpez de Mendoza (Marqus de Santillana):
156, 161, 162,           ...................           249 
Menegaz, Ronaldo:                ...........  .....        226 
Menridez Pidal, Diego Cataln:

28, 42, 89,       ........................               90 
Menndez Pidal, Ramn: 28, 73,                               90 
Menndez y Pelayo, Marcelino:

101, 164, 245, 275, 395, 418,
420, 533,       ..........................             537
O
Pgs.

Meneres, Maria Alberta: 312,

1120, 1123,          .......................           1132 
Meneses, Antnio de:                 ..........    ...     250 
Meneses, Djacir:              ...................          949 
Meneses, D. Duarte de: 137, 139,                           141 
Meneses, D. Fernando Xavier de (2. conde de Ericeira): .       
        ......        586 Meneses, D. Francisco de S de:

250, 260, 356, 365, 366, 381,                          392 
Meneses, D. Francisco Xavier de (4. conde de Ericeira): 386,

463, 558, 566, 586, 588, 618,
620,     ...............................       ..      645 
Meneses, Joo Roiz de S e: 163,                           365 
Meneses, D. Lus Incio Xavier de (5.O conde de Ericeira): 586, 
                         588 Meneses, D. Lus Xavier de (3.

conde de Ericeira): 463, 473,
556, 566, 568, 570, 585, 586,                          587 
Meneses, D. Manuel de: 469, ..                             483 
Meneses, Miguel Pinto de:                    ......        188 
Meneses, D. Pedro de: 139,                         ....    141 
Meneses, Pedro de: V. Guisado,


Alfredo Pedro de Meneses Meneses, Salvato Teles de:             
      ......        1171 Menezes, Raimundo de                   
 ..........         1188 Menino, Pro: 112,                
...............          116 Mrat:      ..............   . 
..................          269 Mera, Manuel Paulo: 42, 118,   
                           571 Meredith, George:               
.........    ..... ...     693 Merquior, Jos Guilherme:        
            .....         1189 Mesquita, Carlos de: 1020,       
            .....         1022 Mesquita, Marcelino Antnio da

Silva: 126, 947, .           ................          1002 
Mesquita, Mrio: 1003                  ...........         1027 
Mesquita, Roberto:               ................          1022 
Metastsio (Pietro-Bonaventura

Trapassi, dito): 463, 515, 516,
517, 519, 579, 624, 636,                 ......        657 
Metdio, S.:          .........................            549 
Mettmann, Walter:                ........    ........         69 
Meyer-CIason, Curt: 1166,                    ......        1190 
Meyer-Lbke, Wilhelm:                   ..........           27 
Meyrelles, Isabel:             ..................          1189 
Michaud, G.:             .......................           700 
Michaux, Henri: 986,                .............          987 
Michelet, Jules: 686, 687, 690,

VDICE ONOMSTICO REMISSIVO
O
Pgs.

697, 699, 834, 835, 843, 858,
868, 882, 887, 925, 960,                     ......  1010 
Midosi, Lusa:                   ......................  706 
Miguis, Jos Rodrigues: 1049,

1073, 1077, 1078, 1086, 1088,
1090,      ...............................           1160 
Miguel, D.: 707, 759, 760, 765,                          886 
Miguel, Antnio Dias: 391,                       .....   1033 
Milheiro, M. Rosrio: 948,                       .....   950 
MilI, John Stuart: 691,                ...........       863 
Millevoye, Charles Hubert:                       .....   764 
Milton, John: 455,               ................        760 
Min, Elza: 948,                 ...................     950 
Minervi, Vicenzo:                ..................        70 
Mini, Anne-Marie:                ................        1034 
Miranda, Francisco S de: 41,

159,    160,    161,         181, 182, 202,
204,    229,    230, 247, 249-258,
259,    260,    261,         264, 266, 269,
270,    277,    317,         320, 330, 341,
356,    362,    364,         365, 366, 368,
381,    387,    388,         389, 406, 408,
474,    480,    486,         491, 514, ..    ....    667 
Miranda, Joo da Costa:                          ........ 523 
Miranda, Jos da Costa:                .........         647 
Miranda, Martim Afonso de: ..                            564 
Mirandola, Pico della: V. Pico

della Mirandola, Giovanni Missac, Pierre:                  
....................    186 Moiss, Carlos Filipe: 874,         
             ......  876 Moiss, Massaud: 102, 418, 951,

1185,      ..............................    .       1188 
Molire (Jean-Baptiste Poquelin):

65,196,457,511,513,516,578,

641, 644, 645, 762,            ..........    ...     903 Molina, 
Lus de:                 ...................     183 Molina, 
Tirso de: 184, 214, 220,                         469 Molino, 
Antnio Mufloz:                          ........ 988 Molinos, 
Miguel de:              ..............          532 Moll, 
Francisco B.:              ...............           27 Molteni, 
Enrico:                 ...................       69 Monaci, 
Ernesto:                 ..................        69 Moncada, 
Lus Cabral de: 613,                            616 Monfort, 
Jacqueline:               .............         525 Mongeli, 
Lnia Mrcia de Medeiros:    .................................  
          646 Mnica, M. Filomena:                   ........... 
      998

Moniz, Egas: 80, 81, 82, 808, .. Moniz, Pato: 623,              
 ................. Mormier, Henri:             
.................... Monsaraz, Alberto de (2.1 conde):

975,     ................................. Monsaraz, Conde de 
(Antnio de

Macedo Papana): 966, 968, Montaigne, Michel Eyquem de:

114, 176, 179, 286, 303, 427,
429, 610,       ...................     ....... Montalvo, 
Justino de: 1032, .. Montalvo, Garcia Rodriguez, ou

Ordoflez, de: 97, 98, 99, 278, Montalvor, Lus de (Lus Filipe 
de

Saldanha da Gama da Silva Ramos): 998, 1014, 1042,              
    .... Montebelo, 1. marqus de:                    .... 
Monte Carmelo, Frei Lus de: . Monteiro, Ablio Adriano de

Campos:         .......................... Monteiro, Adolfo 
Casais: 312,

873, 874, 975, 1043, 1050, 1053,
1057, 1058, 1060, 1062, 1064,
1066, 1067, 1088,             ............... Monteiro, Ayala:  
             .................. Monteiro Pereira Jnior, 
Domingos: 1077, 1162,             ................ Monteiro, 
Hlder Prista: 1167, Monteiro, J.:           
........................ Monteiro, Joo Gouveia: 118, . 
Monteiro, Joaquim Gomes:                      ..... Monteiro, 
Lus de Sttau: 1062,

1137, 1164, 1165, 1171,                 ....... Monteiro, p.e 
Manuel:                  ........... Monteiro, Maria da 
Encarnao: Monteiro, Oflia Milheiro Caldas

Paiva: 596, 675, 733, 734, 950, Montemor, Jorge de: 182, 230,

250, 393, 411, 412, 413, 456,

459, 515,       .......................... Montes, Jos Ares: 
391,                   ......... Montesquieu, Baro de:         
           ......... Monteverdi, Cludio:                 
............. Montia, p.e Lus de:                 ............ 
Moog, Viana:             ....................... Moore, George: 
              .................... Morais, Cristvo Alo de:   
                 .....

1230

HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
Pgs.

Morais,       Francisco de: 395,                 ......   417 
Morais,       Graa Pina de:                     .......... 1145 
Morais,       Joo Pina de: 1013,                ...      1070 
Morais,       Jos ngelo de:                    ......... 494 
Morais,       Jos Manuel: 1174,                 ....     1187 
Morais,       Jlio de:       ..................          552 
Morais, Venceslau Jos de Sousa

de: 1023,        ........................    ..       1034 
Moro, Maria Paula: 733, 734,

1029, 1052, 1075, 1091, 1172,
1175,     ...............................             1179 
Moratin, Leandro Fernandez de:                            578 
Morato, Francisco Manuel Trigoso de Arago:             
................          132 Morvia, Alberto: 985             
 . ...........          988 Moraz, Charles:             
...................          700 Moras, Jean:           
.......................           1022 Moreirinhas, Jos 
Cerqueira:                     ...      647 Moreli, Antnio 
Gallego:                         ........ 245 Moreno, Bento: V. 
Queir s, Francisco Teixeira de Moreno, Humberto Baquero: 42,

43, 145,        ...........................           146 
Moreri, Louis:           ......................           602 
Morier, Henri:           .....................   .          26 
Morna, Ftima Freitas: 1050, ..                           1184 
Morris, William:             ...................          691 
Morujo, A.:            .......................           852 
Morujo, Isabel:             ...............     ....     506 
Morus, Toms (Sir Thomas

More): 173, 186, 252, 281, 302,                       425 
Moscos: 230,          ........................            663 
Moser, Fernando de Mello: 223,                            702 
Moser, Gerald (ou Gerd):                         .......  702 
Mota, Anrique da: 158, 192, 217,


227,    ............  . ..............       ......   270 Mota, 
Srgio Campos:                             ......... . .1036 
Mota, J. Xavier da:               ...............         830 
Motta, Teresa:            ......................          1168 
Moura, D. Francisco Child Rolim

de:     ..........................           ........ 382 Moura, 
Helena Cidade: 832, 923,                           948 Moura, 
Jos Barata:                .....         ......... 1132 Moura, 
Vasco da Graa: 358, 359,

999, 1065, 1127, 1133, 1172,                          1180 
Mouro, Maria Antnia Carmona: 676,          
.......................           951

Mouro-Ferreira, David: 257,

508, 678, 734, 975, 999, 1029,
1036, 1037, 1055, 1065, 1067,
1091, 1105, 1108, 1109, 1132,
1162, 1180,         ....................... Mousnier, Roland: 
464,                   ....  ...... Moutinho, Jos Vale: 952, 
1029,

1104      ................................ Moxa, Martim: 66,    
             ................ Mozart, Wolfgang Amadeus: 579,

895, ...    .............................. Miinster, Sebastio: 
              ............... Muntzer, Thomas: (Munzer,

Muncerus ou):           ................... Muralha, Sidnio:   
           ...........     ...... Muratori, Ludovico Antonio: 
493,

578, 597, 598, 599, 601, 605,
618, 624,        .......................... Mrias, Manuel:     
         ................... Murillo (Bartolomeu Esteban,

dito): 350     . ........................ Murphy, Arthur:       
       ................... Murta, Guerreiro:              
................    . Musil, Robert: 982, 987,                  
.... ..... Mussato, Albertino: ..               ............. 
Musset, Alfred de: 687, 690, 697,

Nadeau, H.:          ..........   .. ............. Nagel, Ralf: 
         ......................... Naharro, Bartolorn de 
Torres:

193, 195,        .......................... Namora, Fernando 
Gonalves.


781, 1037, 1083, 1087,                 ........ Namorado, 
Egdio:                ................ Namorado, Joaquim: 1085, 
1092 Napoleo 111: 779, 786, 854, ... Napole o Bonaparte: 662, 
                  ....... Npoles, Estvo de:               
............. Naro, A. J.:          .................    .....  
... Nascentes, Antenor:               ............... 
Nascimento,              p.e       Francisco

Manuel do: V. Elsio, Filinto Nascimento, Joo Cabral do: 392,

832, 1000, 1038, 1063,                 ........ Nascimento, 
Manuel do: 1083,
O
Pgs.
O
1186
594

1180

67

1156
287

1152
1084

640
849

474
608
676
989
265
731

996
293

218

1180
357
1181
960
689
178

30
30

1064
1089

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO
O
pg5.

Nava, Lus Miguel: 419, 1129,

1172,       ...............................            1181 
Navarro, Antnio de: 1057,                        ....     1063 
Navarro, Antnio Modesto:                         ....     1142 
Navarro, Antnio Rebordo:

1140     . ....................   . ..........         1181 
Navarro, Judite:             .... ...............          1076 
Nazar, Jos Jlio dos Santos:                             801 
Nazzoni, Nicolau:               .................          589 
Nebrija, Antnio de: 174, 175,                             278 
Negro, Manuel Nicolau Esteves:                            620 
Nejar, Carlos:               ......................        1191 
Nelli, Ren:         ..........................               73 
Nemsio, Jorge:              ....................          812 
Nernsio Mendes Pinheiro da

Silva, Vitorino: 72, 134, 675,
676, 678, 702, 756, 757, 781,
812, 832, 850, 874, 974, 976,
1011, 1028, 1030, 1050, 1059,
1065, 1071, 1093, 1094, 1101,
1105, 1111, 1118, 1122, 1138
1186     . ..............................              1191 
Nri, S. Filipe         ....... . ..............           531 
Nero (Lucius Domicius Nero


Claudius):       ..................    . ......        268 
Neruda, Pabio: 968,                ..............          985 
Nerval, Grard de: 690, 697, 897,                          971 
Neto, Joo Cabral de Melo: ....                            987 
Neto, Lus Camilo de Oliveira:                             656 
Neto, Serafim da Silva: 27, 29,                            152 
Neuparth, M.a Adelaide:                   ........         952 
Neves,       lvaro: 976,         ...............          1185 
Neves,       Emlia das:        .................          770 
Neves,       Joo Alves das: 1000, ..                      1050 
Neves,       Joaquim Pacheco:              .......         1162 
Neves,       Jos Acrsio das:            ........         702 
Neves,       Mrio:      ......................   .        1090 
Nevizan:       .................   .  ............         476 
Newton, Isaac: 455, 457, 458, 662,                         1046 
Nicolau, So: .... .         .............    .....        266 
Nietzsche, Friedrich: 693, 986,

988, 1025,         ........................            1152 
Nisa, Marqus de:              ..............     ...      558 
Nisiely:     ..... ................   . ..........         624 
Nisin, A.: 8,         ....   ...................  ..         26 
Nobiling, Oskar:             ...................             70 
Nobre, Antnio Pereira: 699, 887,

1004, 1005, 1008, 1009, 1020,
1022, 1029, 1064               ................ Nobre, Gustavo: 
                    ................... Nbrega, Isabel da:     
            ............... Nodier, Charles:                    
................... Noel, Bernard:                      
...................... Nogueira, Alberto Franco: 1065, Nogueira, 
Csar: .... .             .............. Nogueira, Jofre Amaral: 
                        ........ Nogueira, Jos Flix Henriques:

697, 786, 836, 850, ...            ....    ...... Nogueira, 
Margarida S:                         .... . ... Nogueira, D. 
Vicente: 558,                      ...... Nolen, Dsir:        
              ...................... Nonacriense, Elpino: V. 
Silva,

Antnio Dinis da Cruz e Nordau, Max:                        
.................. Noronha, Pedro Severim de:                   
   ... Noronha, D. Sebastio de Matos (arcebispo de Braga):     
         .......... Noronha, Tito de: 225,                  .... 
   ...... Noronha, D. Toms de (sculo

XV11): 495, 503,               ................ Norris, 
Christopher: 26                 . ......... Nrton, Artur:      
                .............. ...... Novais, Faustino Xavier 
de: 697,

793  . ...........             ................. Novalis 
(Friedrich von Hardenberg, dito):                   
....................... Nozick, Martin:                     
.................... Nuchelmans, J.: ,                   
................... Nunes, Airas: 53, 61, 63,                   
    ........ Nunes, Cludio Jos:                ............. 
Nunes, Eduardo: ....                ............... Nunes, 1. 
F.:                       ........................ Nunes, Jos 
Joaquim: 29, 31, 69,


71, 89, 101, 117, 143, 145, .. Nunes, Maria Lusa: ...          
       ........... Nunes, Mrio Ritter:                
............. Nunes, M. Fernanda Pereira: 676, Nunes, M. Teresa 
Arsnio:                       ..... Nunes, Natlia:            
         ..................... Nunes, Dr. Pedro: 180, 345,      
               ... Nunes, Teotnio:                    
.................. Nuzzi, Carmela M.:                  
............... NykI, A. R.:                        
........................

1232

HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Obaldia, Ren: .... ..              ............... Ocampo, 
Floriano de:                ............ O'Casey, Sean:         
   ..................... Occam, Guilherme de:                
........  .... Oeyrihausen, Conde de:                  
.......... Oliva, Hermn Perez de:                 ........ 
Olivares, Conde-duque de. 470,

474,    ...........................   ..  .... Oliveira, A. Braz 
de:               ............. Oliveira, lamo:            
................... Oliveira, Alberto de:               
.............. Oliveira, Antnio Corra de

Almeida e: 31, 72, 101, 133,
153, 164, 486, 487, 488, 507,
508, 524     . .......................... Oliveira, Antnio 
Correia de:

1005, 1011, .... .        ...... .... ........ Oliveira, Antnio 
Falco Rodrigues de:       ........................... Oliveira, 
Antnio Comes de:                    ... Oliveira, Antnio 
Resende de: Oliveira, Carlos Alberto Serra de:

1011, 1086, 1181,               ............... Oliveira, 
Cavaleiro de (Francisco

Xavier de Oliveira): 607-608,
614,    ............. . ......  ............. Oliveira, Csar: 
850                ............... Oliveira, P.e Ferno de: 22, 
181, Oliveira, Francisco Paulino

Comes de:          ........................ Oliveira, Francisco 
Xavier de: V.

Oliveira, Cavaleiro de Oliveira, Frei Nicolau de: Oliveira, 
Henrique Valente de: Oliveira, Joo Correia de:                 
 ...... Oliveira, Jos Lopes de: 889, 949,

976,    ......... . ....................... Oliveira, Jos 
Osrio de Castro e:

735,    .......................     .......... Oliveira, Lus 
Amaro de: 734, 832,


950,    ................................. Oliveira, M. J. L. 
Ortigo de: Oliveira, Manoel:             .................. 
Oliveira, Manuel de: 216, 227, Oliveira, Manuel Botelho de: ...
O
Pgs.
O
987
441
1167
107
670
269

483
1055
1143
1005

646

1013

1033
505
75

1190

616
998
291

966

570
505
1161

1038

1189

975
852
952
1066
506

Olivieri, CI.:      ............  ............. Olms, George:   
         ...................... O'Neili, Alexandre: 668, 974,

1031, 1102, 1105, 1113,            ....... Oquendo, D. Antnio: 
             ........... Oriente, Ferno lvares do: 23,

373, 411, 412-415, 419,            ....... Orsio, Paulo:       
    ...................... Orta, Dr. Garcia de: 180, 316,

318, 319, 345, 354,           ............. Orta, Teresa 
Margarida da Silva

e: 485, 489, 499, 609,           ......... Ortega y Gasset, 
Jos: ... .          ........ Ortigo, Jos Duarte              
Ramalho:

698,   699, 735,     777,     789, 792,
793,   802, 809,     837,     838, 840,
841,   842, 850,     860,     863, 879,
892,   898, 901,     902,     903, 923,
941,   947, 1004     .................   .. OrwelI, George:     
     .................... Osan, Joseph Maregelo de: V.

Morais, D. Jos de ngelo Osborne, John:           
..................... Osrio, Ana de Castro: 1033, .. Osrio, 
Antnio: 1125,              .......... Osrio, D. Jernimo: 181,

290-291, 297,        .................... Osrio de Oliveira, 
Joo de Castro: 314, 389        . .................... Osrio, 
Jorge Alves: 75, 188, 224,

293,   295, 358, 435, 677,          ...... Osrio, Lus:       
........................ Osrio, Paulo:           
...................... Ossian:    (lendrio bardo escocs):

583,   664, 670      . ................... Otero, Blas de:      
    ..................... Ovdio     (Publus Ovidius Nasus):

163,   173, 231, 628, 634, 672,
O
Pgs.

27
70

1181
483

497


14

945

610
984

Pacaut, Marcel:   ............... ..... Pacheco, Diogo Novais: 
V. Sousa,

Jos Xavier Valadares e Pacheco, Fernando Assis: 1115,

1154,   ...............................

1015
986

986
1075
1181

427

1032

1171
965
831

714
987

762

996

1181

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO
O
Pgs.

Pacheco, Lus: 1103,               ..............          1181 
Pacheco, Manuel Antnio de

Moura:         ............................            850 Pao, 
Afonso do:              ..................           135 Pao 
d'Arcos, Joaquim: 702,

1027, 1078,          .....................     . .     1162 
Padro, Maria da Glria: 1054,                             1174 
Padro, M. H.:                ....................         1174 
Padrn, Rodriguez del: V. Rodriguez del Padrn Pagani, W.:      
      .........................             70 Paganino, 
Rodrigo: 793, 800, 803,

806, 823, 937,            ...................          938 Pais, 
Pro: 444,              .............. ......        449 Pais, 
Romaris Andrs: .                 ..........         876 
Paisiello, ou Paesiello, Giovarmi:                         515 
Paiva,     A. Costa:             ................          450 
Paiva,     Castelo de:           ................          311 
Paiva,     Joo Soares de: 19,               ......          47 
Paiva,     Jos Rodrigues de:               .......        1177 
Paiva,     Manuel Jos de: 617,                ....        637 
Paiva,     Maria Helena Novais:                    ...     293 
Paixo, Frei Alexandre da:                    .....        556 
Palestrina, Giovanni Pierluigi,

dito: .. .    .............................            458 Palha 
Oogral): 47,              .................            59 Palha, 
Francisco:             ..................           1001 
Palhano, Herbert:               .................          118 
Palissy, Bernardo de:                .............         176 
Palma, Manuel Gomes da:                      ......        495 
Palmada, Guy:                 ....... .. .... ........     700 
Palma-Ferreira, Joo: 164, 312,

417, 450, 466, 467, 487, 489,
503, 507, 509, 536, 537, 569,
572,646,648,678,1038,1151,                             1177 
Palmeirim, Lus Augusto: 766, 800,                         809 
Palmela, Duque de (D. Pedro de


Sousa e HoIstein):              ..............         707 Pals, 
Erwin Walter:               ...............          1190 
Pampano, Angel Campos:                       ......        1191 
Pandolfi, Vito:               .....................        228 
Panunzio, Saverio:              ..........  . .....          70 
Papana, Antnio de Macedo: V.

Monsaraz, Conde de Paravicino, Hortnsio:                 
.........           480 Pascal, Blaise: 406, 457, 458, 790,     
                   986 -Pascoais, Teixeira de (Joaquim
O
HLP - 78
O
Pereira Teixeira de Vasconcelos): 864, 1009, 1010, 1011,
1012, 1013, 1025, 1030, 1031,
1038, 1086, 1101, 1111,                 ....... Pascoal, Isabel: 
           .............    ........ Pascual, J. A.:            
 ..................... Passos, Antnio Augusto Soares

de: 697, 790, 793, 795, 796, 809,
811, 841, 854, .... .          .............. Passos, Bernardo 
Rodrigues de:

1006,     ..................   ............. Passos, John dos:  
                 ................. Passos, Jos: 707, ..        
       .......  ........ Passos, Manuel da Silva: V.

Manuel, Passos Passos, M. L. Perrone Faro: Pastor, Adelaide:    
               .......  ...... Pato, Raimundo Antnio de

Bulho: 312, 757, 767, 768,
781, 809, 811, .... .          .............. Patrcio, Antnio: 
1017, 1025,

1033,           ....... ****   ... ****@**** Patrcio, M. 
Ferreira:              .... Patrick, R.:         ....... @**1-
****1-*Paul, Jacques:              ...................... PaulcF 
III: ...       ......................... Paulouro, A.: ..       
     .....   ................ Pavo, J. de Almeida:             
    .....  ... ... Pavia, Cristovam:                   
................. Paxeco, Elza: 69, ...               
............... Paxeco, Manuel Fran:                ............ 
Pedro, Antnio: 1101, 1159,                    ... Pedro, 
Condestvel Dom (filho do

regente D. Pedro): 107,                 ....... Pedro, Dom 
(conde de Barcelos):

22, 47, 79, 80, 81, 82, 84, 86,
87, 155,       ......  ..................... Pedro      I, D.: 
37, 122, 127, 130,

270, 271, 272, 443,            ............. Pedro 11, D.: 463, 
499, 529, 549,

550, 556, 567, 586,            ............. Pedro IV, D.: 707, 
738, 759,                   ... Pedro V, D.:           .......  
    ................. Pedro, Infante D. (duque de

Coimbra): 106, 111, 112,
113-116, 117, 120, 138, 140,
141, 142, 146, 333             . .............

1234

HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
Pgs.

Pedro, S.: 545,            .....................           547 
Pedro-o-Cru (de Castela): 86, ..                           130 
Pegado, Csar: 312,               ...............          570 
Peixoto, Afrnio: 506,                ...........          552 
Peixoto, Incio Jos de Alvarenga: 633, 655, 657,               
..........         674 Peixoto, Jorge:            
.....................           1188 Pelayo, M. Menridez: V. 
Menndez y Pelayo, Marcelino Pellegrini, V. Silvio: 70, 73,     
                          74 Pelletan, Pierre-Clment-Eugne:

795,    .................................              854 Pena 
Jnior, Afonso de: 558, 559,

571,    .................................              677 
Penha, Joo: 623, 631, 767, 780,

960, 963, 966, 970, 1029,                  ....        1103 
Pepys, Samuel:             .....................           556 
Perdigo, Henrique:                ..............          1185 
Pereira, D. lvaro Gonalves (Prior do Hospital): 85,           
      ......          86 Pereira, ngelo:           ........... 
 . ........         1034 Pereira, Antnio J. da Silva:          
         ...        702 Pereira, Antnio Pinto:                 
..........         448 Pereira, Augusto Xavier da Silva:        
                  571 Pereira, P.e Bento: 23,                
...........         568 Pereira, Carios de Assis:               
  ........         1027 Pereira, Duarte Pacheco: 180,

288, 300, 310, 316, 319,                 ......        345 
Pereira, Firmino:              ..................          677 
Pereira, Francisco Maria Esteves:

116, 143, 145, 226, 273, ..                ....        887 
Pereira, Gabriel:            ...................           116 
Pereira, Galiote:            ...................           311 
Pereira, Isaas da Rosa:               ... . ......        295 
Pereira, Joaquina:             ............  .. ...        814 
Pereira, Jos Carlos Seabra: 973,

976,    990, 1031, 1032, 1034,                         1050 
Pereira, Jos Esteves: 616, 811,                           1185 
Pereira,     Jlio dos Reis: V. Dias,

Saul Pereira,      Lcio Miguel:            ...........         
949 Pereira, Maria Helena da Rocha:

118, 275, 648, ....          ..... .. .....  ...       1055 
Pereira, Miriam Halperr: 701, 781,                        810 
Pereira, Nuno:             ......................          159 
Pereira, Nuno lvares: 97, 106,
O
pg5.

119, 121, 125, 127, 130, 134,
142, 338,            ..........................      342 
Pereira, Nuno Marques:                 .........         485 
Pereira, Paulo:          .....................           525 
Pereira, S. R.:          ......................            71 
Peres, Damio: 132, 133, 274,

310, 311, 569, 849,            .............         1014 Peres 
(Prez), Domingos Garcia:                          390 Peres, 
Fernando da Rocha:                   .....        508 Peres, 
Gil:        ...........................             80 
Perestrelo, Pedro da Costa: 367,                         388 
Pergolesi, Giovarmi-Battista:                 ...        515 
Perrane-Dias, Leyla:               ..............        1052 
Perrot:       ................................           762 
Perse, Saint-John:                 .................     986 
Pessanha, Camilo de Almeida:

1023, 1032, 1038, 1044, 1045,
1063, 1099           . .......................       1190 
Pessanha, Jos:          .....................           233 
Pessoa, Fernando Antnio

Nogueira: 231, 241, 320, 368,
549, 631, 666, 864, 887, 984,
995, 1010, 1011,               1012, 1013,
10231     1024,      1039,     1040, 1042,
1043,     1044,      1045,     1046, 1047,
1048,     1049,      1052,     1053, 1054,
1055,     1058,      1062,     1093, 1096,
1101,     1102,      1109,     1111, 1112,
1129,     1131,      1144,     1165, .......         1189 
Pessoa,       Joaquim: 1117        . ..........          1181 
Pestana, Alice           ....................   ..       1075 
Pestana, lvaro de Brito: 159,                           204 
Pestana,      Fernando Aguiar e Silvestre:     
..............................           1120 Petrarca, 
Francisco: 40, 58, 60,

61,108,150,157,158,162,163,

174, 231, 247, 265, 326, 329,
348, 351, 363, 425,            .............         956 Petrus 
(Pedro Veiga):              .............         1067 Pezelho, 
Diego:            ....................            67 Peyre, 
Henri:            .......................         700 Peyre, 
lvonne David:               .............         1180 Picchio, 
Luciana Stegagno: 70, 75,

101, 222, 225, 227, 228, 257,
274, 275, 291, 315, 418, 488,
508, 525, 647, 734, 782, 811,
952, 975, 1028, 1054, 1171, 1184,                    1189

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO

Piccolomini, Encias Slvio:                ...... Pichon, Ren: 
          ....................... Pico, M. A. Tavares Carbonnel: 
Pico delia Mirandola, Giovanni:

174, 242,       .......................... Picon, Gacton:       
    ................   . .... Pidal, Diego Catalri Merindez:

V. Menridez Pidal, Diego Cataln Pidal, R. Menridez: V. 
Menridez

Pidal, Ramri Piei, Joseph Marie: 29, 100, 101 Pigafetta, 
Francesco Antonio: . Pilatos, Pncio:            
.................... Pimenta, Agostinho: V. Cruz, Frei

Agostinho da Pimenta, Alberto: 646, 733, 1131, Pimenta, Alfredo 
Augusto Lopes:

89, 449,       ........................... Pimenta, Leonardo 
Jos:                  ........ Pimentel, Alberto Augusto de

Almeida: 226, 536, 775, 780, 814, Pimentel, Antnio de Serpa:   
                 ... Pimentel, F. J. Vieira: 952,               
  ..... Pimentel, Jos Freire de Serpa:

764, 772, 780,           ................... Pimentel, Jos 
Maria Ferreira Sarmento:       ............................. 
Pimpo, lvaro Jlio da Costa:

72, 73, 91, 145, 164, 222, 223,
226, 233, 245, 256, 274, 312,
355, 358, 390, 448, 647, 782,
849, 874     . .......................... Pina, lvaro:         
  ....................... Pina, Lus:         
........................... Pina, Manuel Antnio: 1125, .. Pina, 
Rui de: 120, 121, 134,

140-141, 142, 144, 146, 147,
270, 288, 292, 294, 296,                ...... Pndaro: 248,    
      ....................    ... Pinheiro, Chaby:             
................... Pinheiro, Rafael Bordalo: 945,

958  . ................................. Pinho, Clemente 
Segundo:                    ...... Pinhoni, Zanobio:            
  ................. Pinter, Harald:            
..................... Pinto, lvaro: 1013,               
..............
O

Pgs.
425
1188

30

425
996

117
314
271

1182

1006
645

831
782
1028

800

1020
O
951
1177
1067
1182

443
628
1001

962
314
390
986
1035

Pinto, Antnio Jos da Silva: 816,

845, 846, 946, 966, ...                  .......... Pinto, 
Armando Vieira:                        .......... Pinto, Elisa 
Guimares:                       .......... Pinto Ferno Mendes: 
302,

303-307, 309, 312, 313, 314,

315 . ................................. Pinto, Frei Heitor: 182, 
242,

425-430, 433, 434, 435, 444, Pinto, J. N. Pereira: .            
           ............. Pinto, Jorge: 214,             
................. Pinto, Jlio Loureno: 845, 846,

931,    ......................           *********

Pinto, Roberto Correia:                       ......... Pintor, 
Santa-Rita:                           ................ Pio 11: 
V. Picoolomini, Eneias Slvio Piper, Anson C.:             
.........        .......... Pirandello, Luigi: 984,             
          ........... Pires, Alves: . .. .       
..................... Pires, Antnio Machado: 449,

850, 852, 873, 950,                      ............. Pires, 
Daniel: 1000, 1033, .                  ...... Pires, Jos 
Cardoso: 489, 1083,

1136, 1150, 1163, 1165,                  ....... Pires, Maria 
Laura Bettencourt:

702, 782,       ..................       .. ...... Pires, Maria 
Luclia Gonalves:

390, 392, 421, 507, 536, 537 Pires, Sebastio:            
................... Pires, Tom: 301, 313,                      
  ........... Pisano, Cristina de: 111,                     
........ Pisano, Mateus: 143,                          
............. Pita, A. Rocha:             .................... 
Pita, Antnio Pedro: 1036,                    ..... Pitgoras:  
      .... ..............         .. ........ Piva, Lus:       
  ............................ Pixrcourt, Ren Charles 
Guibert: 770,       ......................... Pizzorusso, 
Valeria Bertolucci: 70, Place, Edwin B.:             ........   
      .. ......... Plcido, Ana Augusta: 815, 816, Planck, Max: 
...            .....             ............... Plato: 175, 
207, 290, 326, 327,

425, 426, 427, 428                       . ............. Plauto 
(Titus Maccius Plautus):

196, 217, 249, 255, 265, 266,
346, 347, .      .....................   ....

1236

HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
Pgs.

Plnio-o-Moo (Gaius Plinius Caecilius Secundus): 176, 411, 429, 
                    546 Plotino: 175, 425,           ...... . 
..........         426 Plowert, Jacques (pseudnimo de

Paul Adams):           ....................          1021 
Plutarco: 348, 425, 533,               .........         566 
Poe, Edgar Allan: 846, 944, 1044,                        1047 
Poggio, Cian Francesco: .               ........         174 
Policarpo, Joo Francisco de

Almeida:        ..........................           850 
Policiano, ngelo: 178,               ..........         333 
Pombal, Marqus de: 460, 464,

499, 516, 577, 585, 586, 591,
592, 593, 598, 605, 607, 608,
609, 622, 623, 630, 633, 638,
644, 645, 654, 657, 658, 667,
668, 669, 774       . .............   . .....        883 
Pombeiro, Conde de: 650,                   ......        671 
Pomeau, Ren:            ............ .  ........        594 
Pomponcio (Pomponazzi), Pedro:    
.................................            175 Ponge, Francis: 
          .....................          986 Ponson du Terrail, 
Pierre-Alexis,

visconde de:         ......................          945 Ponte, 
Pro da: 56, 64             . ..........            66 Pontes, 
P., J. M. da Cruz:                  .....        153 Pontes, 
Maria de Lourdes Belchior: 225, 227, 275, 387, 390,
419, 450, 466, 508, 535, 536,
569, 999, 1032, 1105, 1132,                          1177 Pope, 
Alexander: 578, 580, 620,

624,    .................................            669 Portela 
Filho, Artur: 616, 1150,

1165,     ...............  . ...............         1174 Porto, 
Carlos: 1170, 1171,                 ......        1186 Porto, 
Manuela: 1076, ..                .........        1160 
Portucale, Antnio de: V. Sousa,


Antnio de Portuense, Vieira:             .................     
    590 Portugal, Boavida:             ..............   ..      
 1038 Portugal, F. F.:           ....................          
417 Portugal, D. Francisco de (1.O

conde de Vimioso): 158, 159,
240, 289,       ..........................           296 
Portugal, D. Francisco de: 365,

377, 388, 390,          ...................          391 
Portugal, D. Joo de: ..               ..........        445

Portugal, Jos Blane de: 1053,

1095,     ...... . ..................   ...... Portugal, D. 
Manuel de: 250, 356,

365, 387,        .................... Portugal, Marcos: 589,    
               ..... Post, H. Howens: 224,                    
...... Pourid, Ezra: 984, 1120,                 ......... Pousa, 
R. Fernridez:               ............ Pouso-Smith, Selma:  
              ............ Poussin, Nicolas:            
.................. Praa, Jos Joaquim Lopes:                   
 .... Prado, J. F. de Almeida:                 ........ Prat, 
Angel Valbuena:                    ........... Pratt, scar de: 
190, ...                .......... Prclin, Edmond:             
.................. Preminger, A.:             
..................... Presado, Maria Elvira Souto:

1172, 1174,         ....................... Prestage, Edgar: 
486, 487,                  ...... Prestes, Antnio: 214, 215, 
216, Preto-Rodas, Richard A.:                    ....... 
Prvost, Antoine-Franois:                  ...... Priebsch, 
Robert:            .................. Prigogine, Iliya:         
  ...................  . Proena, Martinho de Mendona

Pina e: 464,          .............  ......... Proena, Raul 
Sangreman: 1015,

1016, 1036,         ....................... Proprcio (Sextus 
Aurelis Profercius): . . .  ...... . ..................... 
Proudhon, Pierre-Joseph: 696,

697, 699, 754, 835, 838, 840,
841, 843, 845, 858, 864, 867,

868, 869, 880, 892,             ............. Proust, Marcel: 
982, 984,                   ....... Ptolomeu, Cludio: 425, 429, 
.. Purtolas, J. R.:            ................... Puffendorf, 
Samuel: 580,                    .......

Quadros, Antonio: 1015, 1032,

1033, 1040, 1051, 1052, 1053,
1056,   ............................... Quadros Ferro, Antnio 
Gabriel

de:  .................................. Queirs, Carlos: 1063,  
...........
O
Pgs.
O
1182

388
636
357
1121

70
420
578
615
311
1188
223
185
26

1183
488
217
420
684
388
990

591

1037

248

960
1058
546
1188
604

1138

1040
1067

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO

1237
O
Queirs, Fernando Jos:               ......... Queirs, 
Francisco Teixeira de:

932, 935, 936, 937, 946,            ...... Queirs, Jos Maria 
Ea de: 666,

668,   697,   698,     699,  726,   727,
767,   802,   803,     808,  815,   823,
824,   834,   835,     838,  839,   840,
841,   842,   845,     846,  848,   850,
851,   860,   861,     863,  866,   868,
870,   874,   876,     879,  891,   892,
893,   894,   895,     896,  897,   898,
899,   900,   901,     902,  903,   904,
906,   907,   909,     910,  911,   912,
913,   914,   916,     917,  918,   919,
920,   922,   923,     924,  925,   926,
927,   928,   929,     930,  931,   932,
935,   936,   941,     945,  947,   948,
953,   954,   961,     963,  967,   971,
1004, 1005, 1012, 1014, 1019,
1049,                             1062, Queneau, Raymond:       
       .............. Quental, Antero            Tarqunio de:

324,   672,   697,     698,  699,   742,
754,   763,   767,     768,  786,   788,
794,   795,   798,     834,  835,   836,
837,   838,   839,     840,  841,   843,
844,   845,   846,     850,  853,   854,
855,   856,   857,     858,  859,   860,
861,   862,   863,     864,  865,   866,
867,   868,   869,     870,  871,   872,
875,   876,   877,     878,  881,   882,
884,   891,   892,     893,  894,   895,
896,   901,   954,     956,  973,   993,
1009, 1010, 1011, 1012, 1014,
1015, 1048,       ....................... Quental, P.e 
Bartolomeu do: 531,

590,   ................................. Quesado, Jos Clcio B: 
.             ........ Quesnay, Franois: O..          
O.............. Quevedo, Vasco Mouzinho de: V.

Castel-Branco, Vasco Mouzinho de Quevedo Quevedo y Villegas, 
Francisco

Grnez de: 460, 470, 472, 476,
477, 479, 480, 485,          ............. Quillier, P.:       
......................... Quinault, Philippe:           
................
O
Pgs.                                                           
      pg5.

769        Quint, Anne-Marie:               ...............     
      433

Quintana, Don Manuel Jos:                      ...        789
973        Quintela, Diogo Mendes: 368, .                       
      389

Quintela, Fernando Lemos:                       .....      1029 
Quintela, Paulo: 25, 1093,                      ......     1160 
Quintiliano (Marcus Fabius Quintilianus): 174, 176,             
   ........... . .    224 Quita, Domingos dos Reis: 620,

621, 622, 632, 639, 646, ...                ...        655
O
R
O
Rabelo, Gabriel:             ........   ...........        309 
Racine, Jean: 265, 457, 624, 638,

641,     .............................      ....       721 
Radeliffe, Ana: 769, 818                . .......          943 
Raddatz, F. J.:            .....................             25 
Radulet, C. M.:             ...............     .....        71 
Rarnalho, Amrico da Costa: 117,
1069           118, 187,'188, 293, 295, 359,
700            390,    ....... ...  .......................     
      391


Rambouillet, Marquesa de:                       .....      456 
Ramos, Artur: 1167,                     ..............     1181 
Ramos, Emanuel Paulo: 355, ..                              874 
Ramos, Feliciano: 849,                  ...........        999 
Ramos, Fidelino:             ......     .............      999 
Ramos, Graciliano:               ................          985 
Ramos, Lus A. de Oliveira: 596,                           615 
Ramos, Lus da Silva: V. Montalvor, Lus de Ramos, Maria Ana: 
72,                   ..........           75 Ramos, Prieles E. 
da Silva:                    ...        507 Ramos, Vtor:       
      ..................    ....       616 Ramos, Wanda: ..     
         ..................           1143
1097       Ramuzio, Gian-Battista:                 ......  ...  
      301

Rapin, P.e Ren: 602, 605, 624,                            664
853        Raposo, Jos Hiplito Vaz: 1006,                     
      1070
1054       Rashid, Muhammad: V. Fonseca,
581            Antnio Barahona da

Rattazzi, Condessa: .... .              ..........         816 
Rau, Virgnia: 487, 571,                .......            1082 
Raymond, Marcel:                ...............            996 
Real, Diogo de Mendona Corte:

V. Corte Real, Diogo de Men-
492            dona
1172       Real, Jernimo Corte: V. Corte
644            Real, Jernimo

1238

HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
Pgs.

Reale, Erilde Melilla: 314,                   ......       316 
Reali, E.:       .............................               70 
Rebelo, Amador: 439,                          ............ 450 
Rebelo, P.e Gaspar Pires: 484,..                           569 
Rebelo, Jacinto Incio de Brito:                           312 
Rebelo, Lus-Francisco: 224, 226,

227, 782, 810, 811, 952, 1003,
1028, 1032, 1041, 1162, 1168,
1170, 1171, .        ......................            1188 
Rebelo, Lus de Sousa: 135, 188,

274, 357, 359, 832,                       ............. 1054 
Reckert, Stephen: 72, 222, 224,

225, 1055,         .......................    .        1175 
Redol, Antnio Alves: 1083, 1084,

1089, 1092, 1162,                         ............... 1182 
Redondo, Conde de:                            .............. 354 
Rgi:     ..................................              1191 
Rgio, Jos (pseud. de Jos Maria

dos Reis Pereira): 256, 832, 887,
974, 1029, 1057, 1058, 1059,
1062, 1063, 1066, 1067, 1071,
1085, 1088, 1160, ..                      ............. 1184 
Regnard, Jean-Franois:                       .........    644 
Rgnier, Henri-Franois de: 688,

1021,      ..............  ..             ............... 1022 
Rego, Jos Lins do:                           ............... 
985 Rego, Jos Teixeira: 239, .,                  .... ..      
245 Rego, Raul: 188, 295, 486, 614,                            
948 Rego, Yvonne Cunha:                           ............ 
467 Regras, Dr. Joo das: 119, .                  ....         
130 Reis, P.e Antnio dos: 181,                   .....        
493 Reis, Beatriz C. Batalha:                     ........     
849 Reis, Carlos: 25, 26, 735, 947, 948,

950, 1092,         ........................            1181 
Reis, Jaime Batalha: 697, 838,

840, 845, 849, 850, 866, 876,
878, 894, 896,           ...................           949 Reis, 
Jorge: 1020, 1037, ..                   .......      1137 Reis, 
Ricardo: V. Pessoa, Fernando Remarque, Eric Maria:              
           ...........  984 Rembrandt van Ryn: 454,             
          .......      458 Remdios, Joaquim Mendes dos:

144, 146, 164, 221, 274, 294,
296, 388, 433, 487, 506, 507,
524, 525,        ..........................            613 
Rmusat, Franois-Marie-Charles,

conde de:         ...........             ....... . ...... 862
O
Pgs.

Renan, Ernest: 697, 754, 835, 840,

841, 892, 896, 898,                          ........... . .973 
Renduf, Andr de: V. Dias, Andr Rennert, Hugo A.:             
                   ........... ..... 420 Resende, Andr de: 179, 
181, 182,

188,    ...............................      . .      336 
Resende, Andr Falco de: 187,

365, 370-371, 390,                           .............. 391 
Resende, 6. Conde de (Manual B.

de Castro Pamplona):                         ......... 892 
Resende, Garcia de: 140, 144, 146,

147, 155, 157, 159, 161, 162,
165, 180, 190, 204, 229, 244,
270, 272, 288, 289, 294, 296,
333, 354, 447, 495,                          ............. 717 
Resende, Lcio Andr de: 441,                             564 
Retz, Cardeal de (Jean-Franois-Paul de Gondi):                 
            ................ 458 ReuchIin, Johann: 175,         
                  .......... 242 Rvah, 1. S.: 22, 187, 190, 
222,

223, 291, 292, 293,                          .............553 
Reyriler:      .........................         .....    420 
Reys, Alfonso:           ......................           508 
Reys, Lus da Cmara: 851, 948,


949, 1016, 1034          . ................           1036 
Rheinhardstoettner, Karl von: ..                          100 
Riuzova, Elena A.:                              .............. 
1190 Ribeiro, Afonso: 1079, 1083,                     ...      
1089 Ribeiro, lvaro: 1015,                           
........... 1138 Ribeiro, Antnio lvares:                      
  .......  506 Ribeiro, Aquilino Gomes: 24, 244,

405, 607, 614, 615, 616, 678,
831, 1010, 1015, 1016, 1017,
1018, 1019, 1020, 1037, 1057,
1069, 1137, 1162,                            ............... 
1189 Ribeiro, Bernardim: 61, 159, 162,

163, 182, 210, 229-246, 247,
318, 319, 362, 364, 368, 373,
393, 400, 413, 424, 427, 429,
430, 435, 656, 717, 723, 726,
746, 820, 821, 827,                          ............. 1048 
Ribeiro,       Carlos Portugal:                  ........ 757 
Ribeiro,       Casal (Jos Maria Caldeira,     1. 1 conde do):  
                 .......... 786 Ribeiro,       Cristina Almeida: 
                ......   1183 Ribeiro,       F. Pinto:          
               ...... --- ........ 1134 Ribeiro,       
Francisco:                        ................ 1160 Ribeiro, 
      Gaspar de Queirs:                ....     1007

NDICE O~STICO REMISSIVO
O
Pgs.

Ribeiro, J. A. Peral:                  ..............        29 
Ribeiro,         Jernimo: 214, 215,               ...     226 
Ribeiro,         Joo: 226,            ............. ...   569 
Ribeiro,         Joo Pedro:           .............       593 
Ribeiro,         Joo Pinto:           ..............      559 
Ribeiro,         Joaquim Pinto: 793, ..                    810 
Ribeiro,         Jos Aleixo:          .............       1077 
Ribeiro,         L. ......................         .....   313 
Ribeiro,         Manuel Antnio: 1070                      1071 
Ribeiro, Maria Manuela de Bastos Tavares: 782,                  
...............     811 Ribeiro, P.e Mateus:                   
..............      484 Ribeiro, Orlando: 43, 890, 1037,        
                   1082 Ribeiro, P.e Pedro:                    
................    355 Ribeiro Ferreira, Toms Antnio:

697, 763, 767, 794, 795, 796,
810,    ...............................        ..      836 
Ribet, Simone:           ......................            225 
Ricard, Joseph:            .....................           434 
Ricard, Robert: 118, 147, 294,

450, 536,        ..........................            553 
Richard, Jean-Pierre:                  .............       996 
Richardson, Samuel: 583, 684,                              804 
Richelieu (Armand Jean du Piessis, cardeal de): 455,            
 ...........         577 Rico, Francisco: 75,                   
...............     489 Ricoeur, Paul:           
......................            989 Riego, Francisco Fernandez 
dei:                            1188 Riffaterre, Michel: 8,     
            .............         25 Rilke, Rainer Maria: 984,  
                .......         1093 Rimbaud, Arthur: 693, 954, 
                        ....    1101 Rio, Martim Castro (ou 
Crasto)

do: 369, 387,           ....................           502 Rita, 
Anabela:           ..........    ............        734 Rivas, 
Duque de (Angel de Saavedra): .,     ...................   
...........         715 Robbe-Grillet, Alain:                  
.............       987 Robespierre, Maximilieri-Franois-
Isidore de: 577,              ...........         583 Robles, 
Sainz de:                      ..................    26 
Roboredo, p.e Amaro de:                    .......           23 
Robortello, Francesco:                 ...........         624 
Rocha, Adolfo: V. Torga, Miguel Rocha, Andre Crabb: 164, 165,

256, 274, 297, 388, 391, 420,
487, 489, 536, 569, 596, 613,
614, 616, 734, 756,                .............       874

Rocha, Lus Filipe:                      ................ Rocha, 
Clara: 356, 999, 1050, Rocha, Lus Filipe:                      
................ Rocha,       Lus de Miranda: 1125,

1182, 1186         ........................ Rocha, Frei Manuel 
da:                   .......... Rocha, Maria Isabel:           
          ............. Rocha,       Natrcia:                  
 ................... Roche,       Jean: 949,                  
................. Rochefoucauld, Franois, duque de: Rocheta, 
Maria Isabel:                   ......  ..... Rodrigus, ngela: 
                      ................ Rodrigues, Antnio 
Augusto

Gonalves: 489, 614, 616, 675 Rodrigues, Armindo Jos: 1084, 
Rodrigues, Estvo:                      ............... 
Rodrigues, P.e Francisco: 450, 559, Rodrigues, Graa Almeida: 
292,

293, 294, 295, ..                   ------------ ...... ***

Rodrigues, Guimaraes:                    ........... Rodrigues, 
Maria Idalina Resina:

225,    ...............................     . . Rodrigues, 
Jacinto:                      ................ Rodrigues, Joo 
Bernardo de Oliveira: 310,        .......          ------* ... -
-- .... **

Rodrigues,         Jos Lus:            ............. 
Rodrigues,         Jos Maria: 355,              .... Rodrigues, 
        Miguel:               ................ Rodrigues,       
  P.e Simo:            ............ Rodrigues,         Teresa 
S.: ...        .......... Rodrigues,         Urbano:            
   ............. .. Rodrigues, Urbano Augusto

Tavares: 1033, 1036, 1051,
1083, 1138, 1157, 1177, 1180,
1182,     ......... .  .......      ....... ....... Rodriguez de 
Ia Crnera: V.

Rodriguez dei Padrn Rodriguez dei Padrn: .                  
....    .. .... Rodriguez-Moffino, Antnio: 101,


165,    ..... ........  ..          .................. Roentgen, 
William-Konrad von: Rogers, F. M.:              
..................... Rohlfs, Gerhard: 27,                     
.............. Roig, Adrien: 165, 257, 274, 275, Roiz, Estvo: 
V. Castro, Estvo

Rodrigues de Rojas, Fernando de: 349,                         
........

1240
O
HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
pg5.

Rolla, Gilberto:                                
.................... 786 Rolland, Romain: 688,                  
         ........... 983 Rollin, Charles: 601,                  
         .............. 605 Romano, Egdio: 111,                
            ............ 112 Romains, Jules:                    
             .................... 1162 Romeralo, Antonio 
Snchez: 74,                             165 Romero, E. M.:     
                             ....................  70 Romero, 
Slvio: 677,                            ..... .. ....... 1189 
Rondon, Cndido:                                
................. 1072 Ronsard, Pierre de: 335,                 
       .........  501 Roquete, Frei Jos Incio:                
      ......     117 Rorty, Richard: 990,                       
     .............. 998 Rosa, Alberto Machado da: 948,          
                   949 Rosa, Antnio Ramos: 997, 1000,

1066, 1105, 1118, 1119, 1120,
1132, 1133, 1182,                           ............ ... 
1190 Rosa, Augusto:            ....                  
................. 1101 Rosa, Joo:            ...........       
       -*** ... *-* 1101 Rosa, Joo Guimaraes:                  
         ....... ... 988 Rosa, Jos de Azevedo Faure da:

1077,      ...................              ............ 1183 
Rosrio, Antnio Martinho do: V.

Santareno, Bernardo Rosset, Pierre Fulcrand de: .....           
               672 Rossi, Giuseppe Carlo: 246 315,

389, 434, 647, 675,                         ............. 677 
Rossi, Luciano: 75, 90,                         ........   102 
Rostand, Edmond:                                ............. 
... 1001 Rougemont, Denis de: 246,                       .....  
    832 Rougeot, Jean:            .....................         
   509 Rousseau, Jean-Jacques: 303, 582,

583, 584, 592, 602, 681, 688,

713, 715,        ............               .............. 817 
Rousseaux, A.:            .....................            996 
Rousset, Jean: 465,                             ............... 
672 Rovisco, Miguel:                                
................... 1170 Royen, Theda von:                      
         ................. 187 Rbecamp, Rudolf:                
               ...............  29 Rubens, Pierre-Paul:         
                   .............. 458 Ruggieri, Jole M.:        
                      ................. 164 RhI, Maus:         
  ...................       ......     554 Ruskin, John: 691,   
                           ................ 981 Russo, Harold 
J.:                               ...... .. ......... 118 
Rutebeuf (trovador):                            ..............  
40 Rutherford, Ernest, lord:                       ........   
979 Ruysdael, Jacob-lsaac van:                      .....      
454 Ruzzante, Angelo Beolco: ..                     .....      
224

S, Artur Moreira de: 43,                 .... ... S D. Leonor 
de:             ........ . ......... S, Domingos Guimares de: 
.. S, Isabel de:          ....................... S, Joo Roiz 
de: V. Meneses,

Joo Roiz de S e S, Joaquim Vtor Baptista Gomes de: 614, 615, 
616, 701, 782,
811, 850,        .......................... S, Maria das Graas 
Moreira de: S, S. J. Ribeiro de:              .............. 
S, Vietor Matos de: 875, 876,

1035, 1037, 1082,            ............... Saa, Mrio: .... . 
       ....... . ............. Saavedra, Fernando Ballesteros y: 
Sabino, Amadeu Lopes:                   ......... Sabia, Duque 
de (Carlos III): Sabia, Duque de (Vtor Amadeu 11):      
............ . ............... Sabugosa, Conde de (Antnio

Maria Jos de Melo Csar e Meneses): 190, 222, 226,             
    ..... S-Carneiro,          Mrio de: 1013,

1020, 1022, 1039, 1040, 1041,
1042, 1043, 1047, 1048, 1051,
1054, 1059,        1093, 1160, ..        ..... S Leonor de:    
      ..  ..................... Saccheti, Franco:             
.................. Sacramento, Mrio Emlio de

Morais: 852, 949, 975, 1029,
1053, 1065, 1082, 1091,               ....... Sade, Marqus de 
(Donatien-Alphonse-Franois): 579,
1100, 1101,         ....................... Sadino, Elmano: V. 
Bocage,

Manuel Maria Barbosa du Sadlier, J. Darlene:             
............... Sadoletto, Cardeal Jacopo: 175,


249,     ................................. Sfady, Naief: 734, 
810, ------              .....

Safo: 248,        ............................ Sagan, Franoise: 
            .................. Sagrada Famlia, Frei Alexandre

da:     .................................. Saint-Pierre, 
Bernardin de: 583,
O
Pgs.
O
188
379
1187
1131

1030
975
782

1110
1040
406
1156
240

516
O
1002
O
1189
379
533

1157

1103

1157

287
974
628
986

705
672

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO
O
Pgs.

Saint-Sinton, Louis de Rouvroy (duque de): 458, 556,            
 ..........         696 Salaiin, S.: 26, ... .       
..................          420 Salazar, Abel de Lima: 1079, .. 
                         1092 Saldanha, Jos Joaquim Rocha:     
                       637 Saldanha, Marechal:                  
 ..............     785 Salema, lvaro: 1090                  . 
............     1157 Salema, Teresa: 1115, ..              
..........         1174 Salgado Jnior, Antnio: 233,

236, 237, 240, 245, 355, 357,
604, 613, 615, 647, 734, 781,
849, 872,       ..........................           874 
Salgado, Maria Antonieta: ..                 ....        733 
Salinas, Conde de: 408,               ..........         492 
Salinas, Pedro:           ...................    ..      984 
Salorno:        .............................           252 
Saffistio (Gaius Saflustius Crispus):    
................................            460 Salvado, Antnio 
Forte:                 .........        1055 Salvador, James 
Amado:                   ........        506 Sampaio, Alberto: 
42, 887,                               893 Sampaio, Albino 
Forjaz de: 523,

553, 646, 812, 974,               .............      1070 
Sampaio, Antnio Rodrigues de:

695, 696, 776, 777, -             .......... .       970 
Sampaio, Jaime Salazar: 1124,                            1167 
Sampaio, Jos Pereira de: V.

Bruno, Jos Pereira de Sampaio Sampayo, Nuno de: 951,           
        ........        1105 Samuel, Paulo:            
.....................          1037 Samuel, Pedro: .          
.........   ...........        1035 Sanceau, Elaine: 297, 311,  
                 ......      316 Sanches, Antnio Nunes Ribeiro:

464, 591, 605, 606, 607, 608,
614, 615,        ..........................          616 
Srichez-Albornoz, Claudio:                  ....           42 
Sancho 1, D.: 19, 47, 58, 133, 134,


140, 141,        .....................   .....       442 Sancho 
11, D.: 66, 67, 121,                  .....       442 Sancho de 
Castela: ...                .............         86 Sand, 
George: 696, 787, 801,                     ...     818 Sandeau, 
Lonard-Sylvain-Jules:                          800 Sandels, 
Marianne: O.                  O...............    1191 
Sanguineti, Edoardo:                  .............      997 
Sarmazzaro, Jacopo: 230, 231,

249, 322, 408, 411, 412, 413,                        425 San 
Pedro, Diego de: ,                ............       234

Sansone, G. E.:             .................... Santa Catarina, 
Frei Lucas de:

444, 448, 484, 502, 505,                ...... Santa Cruz, Maria 
de:                 ......... Santana, M. Helena:               
 ........... Santarm, 2. visconde de (Manuel Francisco de 
Barros e

Sousa): 117,          ...................... Santareno, Bernardo 
(pseud. de

Antnio Martinho do Rosrio):
526, 1163, 1164, 1165, 1171, Santiago, Joo Airas de: 10, ... 
Santillana, marqus de: D. liligo

Lpez de: Santilli, Maria Aparecida de Campos: 507, 812, .      
     ..............  .... Santo Agostinho, Frei Joaquim

de: -    ................................

Santos, Antnio Ribeiros dos: Santos, Dr. Antnio Ribeiro dos:

593,     652, 664, 760, 1036, .... Santos, Boaventura de Sousa: 
.. Santos, Carlos Tavares A. Afonso

dos: V. Selvagem, Carios Santos, Delfim Pinto dos: 875, Santos, 
Eugnio dos:                 .....  ........ Santos, Fernando 
Piteira: 595, . Santos, Guilherme G. de Oliveira:

244,     ................................. Santos,      Frei 
Joo dos:            ...  ...... .. Santos,      Joo Camilo 
dos:               ....... Santos, Jos Carlos Ary dos:

1117, 1170,          ....................... Santos,      Leonel 
Ribeiro dos:               .... Santos,      Manuel dos:        
   ............  .. Santos,      Frei Manuel dos:               
........ Santos,      M. Amnia dos Reis: Santos,      Maria 
Jos de Moura: Santos,      Maria de Lourdes C. L.


dos:     ........... ...........  . .......... Santos, Mariana 
Arnfia Machado:

297,     ................................. Santos, Piedade 
Braga:                  .......... Santos, Polbio Gomes dos:   
                  .... Santos,      Reyrialdo dos: 466,         
      ..... Santos,      Teresa Paula:            ............ 
So Bernardino, Frei Caspar de:

1242

HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
Pgs.

So Boaventura, Frei Fortunato

de: 152, 443,        .....................           593 So 
Loureno, Conde de: 630,                              632 So 
Lus, Frei Francisco de (Cardeal Saraiva): 313,            
.............         593 So Toms, P.e Frei Domingos

de:    ..................................            528 So 
Vitor, Hugo de:               ..............          425 
Sapega, Ellen:            ......................          1056 
Sragga, Salomo:                 .................       840 
Saraiva, Antnio Jos: 25, 43, 73,

90,91,102,109,118,133,134,
145,   153,    187, 223, 224, 232,
233,   245,    256, 275, 292,             297,
312,   313,    314, 353, 356,             357,
418,   434,    466, 526, 553,             645,
733,   734,    756, 757, 812,             851,
889,   949,    1013, 1091      . ..........          1189 
Saraiva, Arnaldo: 997, 999, 1050,

1051, 1123, 1172, 1186,                   .......    1190 
Saraiva, Cardeal: V. So                       Lus,

Frei Francisco de Saraiva, Jos Hermano: 43, 133,

135, 224, 297, 355,            ............  .       358 
Saraiva, Maria de Lourdes: 223,

244    . .................................           355 
Saraiva, Ricardo (pseud.):                     .......    1036 
Saramago, Jos: 1143, 1169, 1182,                         1183 
Sardinha, Antnio:                ................        1006 
Sarduy, S.: ..         ..................      ......     465 
Sargedas, Crisfiniano Pantaleo

da Cunha:         ......     .........    .........  770 
Sarmento, Francisco Martins: 887,                         1005 
Sarmento,           Incio Pizarro de

Morais:      764, 772,       ...............         780 
Sarmento,         Jacob de Castro:             ....       597 
Sarmento,         Maria da Conceio

Morais:      ............................            487 Sarrer, 
H.        L.:    .......................          1184 Sartre, 
Jean-Paul: 986, 1137, ...                         1163 
Sasportes, Jos Estvo:                       .........  1165 
Saulnier, VerIun-L.:              .........    ......     700 
Saussure, Ferdinand: 497, 981,                            1126 
Sauvage, Odette:                  ...................     391 
Savigny, Friedrich Karl von: 695,                         749 
Saviotti, Gino: ,         .................    ....       1160 
Scarlatti, Domenico:              ..............          589
O
Pgs.

Scariatti, Eduardo:              ................          1160 
Scatti-Rosin, Michael:                ............         1034 
Schelling, Friedrich Wilhelra von:

584, 689,       ..........................             836 
Schiller, Friedrich von: 584, 688,

689, 711, 716, 719, 927, 737,
767  . .................................               988 
SchIegel, August-Wilheim von:

318, 752,       ..........................             988 
SchIegel, Friedrich von: 681, 686,

687, 695,       ..........................             752 
Schmidt-Radefeldt, Jrgen:                    .....           31 
Schneer, Walter i.:             ........  ..  ......       419 
Schoenberg, Arnold: .                .............         499 
Schopenhauer, Artur: 363, 699,

858, .    ................................             882 
Schwalbach Lucci, Eduardo:

1003,      ...............................             1038 
Scott, Sir Walter: 396, 583, 689,

690, 695, 714, 715, 717, 727,
742, 743, 761, 763, 772, 773                           908 
Scribe, Augustin-Eugne: 770, .                            800 
Scudry, Madeleine de:                  ..........         456 
Seabra, Ana de:              ....................          524 
Seabra, Jos Augusto: 10 15, 1050,


1054, 1126,         .......................            1183 
Seabra, Rocha e:             ...................           519 
Searle, John R.:             ...............               990 
Sebastio, D.: 219, 260, 261, 291,

297, 342, 366, 379, 393, 394,
397, 398, 427, 432, 439, 461,
568, 880, 885,           ...................           1013 
Seghers, Ana:           .... ..  .................         985 
Segre, Cesare:          ...............  .  .......          42 
Segurado, Jorge: 296,                 ............         297 
Seixas, Cruzeiro:            ...................           1105 
Seixas, Jos Maria da Cunha: ..                            865 
Seixo, Maria Alzira: 25, 735, 832,

997, 990, 1033, 1053, 1092,
1157, 1177, 1183, 1184,                 .......        1186 
Selvagem, Carios (pseud. de Carlos T. de A. Afonso dos Santos): 
1003      . ...........   . ........... .        1161 Semedo 
Torres de Sequeira Belchior, Manuel Curvo de: 623,              
             650 Sena, Antnio: .             .......... 
..........         1134 Sena, Joo B.:               
......................        701

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO
O
Pgs.
O
Sena, Jorge de: 165, 186, 245, 257,

275, 355, 357, 358, 389, 392,
507, 999, 1000, 1031, 1052,
1054, 1065, 1067, 1083, 1091,
1094, 1095, 1096, 1105, 1111,
1113, 1149, 1163, 1169, 1183,
1189, 1190,           ....................... Sena, Mcia de:   
        .................... Senancour, tienne Pivert de: .. 
Sneca (Lucius Annaeus Seneca):

112, 113, 116, 150, 173, 227,
265, 268, 269, 272,            ............. Seplveda, Manuel 
de Sousa: 312 Sequeira, Domingos: 590, 715, Sequeira, Gustavo de 
Matos: 225,

227, 274, 418, 524, 536,              ...... Srgio de Sousa, 
Antnio: 312,

313, 356, 466, 552, 570, 678,
756, 757, 831, 870, 872, 874,
889,949,975,1013,1014,1015,
1016, 1031, 1035, 1036, 1037,
1071, 1079, 1081, 1082              ........ Serdio, Pedro 
(pseud. de Avelino

Cunhal):       .....  ...................... Seromenho (ou 
Soromenho), Augusto Pereira de Vabo e Anhaya Gallego: 838,      
   .................... Serpa, Antnio Ferreira: 450, .. Serpa 
Esteves de Oliveira, Alberto

de: 1063,       .............  ............. Serra, Abade Jos 
Francisco Correia da: 587,         ..................... Serra, 
Ferno Correia da:                ....... Serra, Joo B.:       
    ..................... Serro, Joaquim Verssimo: 43,

134, 146, 164, 187, 296, 312,
450, 489, 570, 571,            ............. Serro, Joel: 28, 
42, 43, 109, 188,

421, 466, 486, 570, 675, 678,
701, 702, 756, 758, 781, 782,
810, 832, 849, 850, 873, 874,
876, 890, 951, 973, 975, 999,
1037, 1052, 1053, 1054, 1082,

1092,      .................   .............. Serro, Vtor:    
        ....................... Svign, M.--- de (Marie de

Rabutin-Chantal):              ..............

1191
1184
792

460
379
1153

849

1187

1164

840
800

1067

593
143
781

758

1187
359

458

Shaftesbury, Anthony AshIey

Cooper:        ........................... Shakespeare, William: 
84, 127,

265, 350, 455, 511, 583, 669,

682, 684, 689, 762, 894, 903, Sharrer, Harvey L.: ..            
  ............. Shaw, George Bernard: 693, 771, Shelley, Percy 
Bysshe: 687                . ..... Sculo, Cataldo quila: 178, 
                   ... Sideri, Sandro: 595, 701,                
 ........ Sidney, Sir Philip: 412,                  .......... 
Sigea, ngela:           ...................... Sigea, Lusa: 
179,            .................. Silbert, Albert: 595, 701, 
783, 890, Silone, Ignazio:          ..................... Silva, 
Agostinho da: 449, 733,

1015,      ............................... Silva, Andr Nunes 
da:                    .......... Silva, Antnio Carlos Leal da: 
Silva, Antnio Dinis da Cruz e:

620, 621, 622, 626, 627, 628,
632-636, 642, 644, 646, 651,
655, 667,        .......................... Silva, Antnio Jos 
da (o Judeu):

484, 503, 517-523, 524, 525,
526, 563, 617, 636, 637, 645, Silva, Antnio Manuel Policarpo

da:    ............ .  ...................  .. Silva, Antnio de 
Morais e:                     .... Silva, Armando Antunes da:   
                   ... Silva, Augusto Santos: 850, 890,

1029,      ...........................      .... Silva, Azevedo 
e:             ..........  ........ Silva, Frei Bernardino da: 
442, Silva, Carlos Eugnio Correia da (Pao d'Arcos):           
 ................. Silva,     Celina:     
........................ Silva,     Eunice Cabral Nunes da: 
Silva,     Feliciano da:         ...........    ..... Silva,    
 Francisco Vieira da:                 .... .. Silva,     Garcez 
da:        ........     .. ......... Silva,     Heraldo Gregrio 
da: .... Silva, Inocncio Francisco da:

487, 505, 525, 535, 551, 570,
614, 675, 677,                 .....  ......... Silva, Isidro 
Ribeiro da:                 ......... Silva, Joo Manuel Pereira 
da:

1244

HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
pg5.

Silva, Jos Maria da Costa e: 647,                        788 
Silva, Jos Marmelo e: 1089,                   ...        1184 
Silva, Jos de Seabra da:                      ........   592 
Silva, Luciano Pereira da:                     .......    291 
Silva, Lus Augusto Rebelo da:

465, 763, 764, 772, 773, 774,
777, 778,       ..........................           780 Silva, 
Margarida Garcs da:                    ....       358 Silva, 
Maria Beatriz Nizza da: 311,                       876 Silva, 
Maria Manuela E. Ferraz

da:      ..................................          1055 Silva, 
Rosa Virgnia Mattos e:                               30 Silva, 
Silvestre Silvrio da Silveira

e: V. Paiva, Manuel Jos de Silva, Teresa Cerdeira da:          
           .......    1183 Silva, Vtor Manuel Pires de

Aguiar e: 25, 186, 354, 355,
358, 388, 389, 391, 467, 507,
535, 647, 700, ..          .................         811 Silva, 
Zina M. Bellodi da:                     ......     1029 
Slveira, lvaro F. Sousa da: 221,

223,     .......................          .. ........ 244 
Slveira, Antnio da:                          ............. 380 
Slveira, F. Maciel: ....                      ............ 507 
Slveira, Francisco Rodrigues: ..                         313 
Silveira, Jorge Fernandes da: ...                         1133 
Silveira, Jos Xavier Mouzinho

da: 606, 698, 707,                        .............. 748 
Silveira, Lus:          ............          ........... 756 
Silveira, Miguel da: ..                        ............. 508 
Silveira, Pedro da: 872, 952,                             976 
Simo, Manuel:              ..........         .......    1177 
Simes, Alberto da Veiga: 109,

1013, 1038,         ....... ................         1082 
Simes, Joo Gaspar: 418, 420,

489, 537, 734, 735, 781, 782,
812, 850, 852, 874, 876, 949,

974, 975, 999, 1000, 1023,                1029,
1030,    1031, 1033, 1034, 1038,
1043,    1050, 1051, 1053,                1057,
1058,    1062, 1064, 1066,                1067,
1088,    1091, 1105, 1160,                ... ....   1171 
Simes,       M.:     ................         .........     71 
Simes,       Maria Joo:                      .............. 
952 Simes,       Manuel: 314, 874,                ......     
973 Simon,        Claude:      .....................          
987 Sinclair, Upton:            ....................          
983
O
Pgs.

Sire, Dominique:             ...................         950 
Sitwell, Edith:              ......................      986 
Smith, Adam: ...             ..................  ..      584 
Soares, Alcides:             ....................        434 
Soares, Antnio lvares:                 ........        506 
Soares, Antnio Duarte de Oliveira:    
...............................            1022 Soares, Antnio 
da Fonseca: V.

Chagas, Frei Antnio das Soares, Bernardo: V. Pessoa, Fernando 
Soares, Cipriano:            ..................          554 
Soares, Ernesto:             .................  ...      1185 
Soares, Fernando:              .................         677 
Soares, Fernando Luso: 1091,                             1165 
Soares, Francisco (Lusitano): V.

Lusitano, P.e Francisco Soares Soares, Frei Joo:             
.................         179 Soares, Manuel: V. Lisboa, Irene 
Soares,       Nair de Nazar Castro:                     273 
Soares,       Pro Roiz:          ................       439 
Soares,       Raul:    ........................          232 
Soares,       Torquato de Sousa: 42,

133,      143 . ............... .  ..........        145 Sobral, 
      Augusto: 1165       . ...........          1170 Sobrar,   
    L. de Moura:        .............          1106 Scrates:   
    ..............................           859 Sodr, Nelson 
Werneck:                  .........        1189 Sfocles: 267, 
268, 269,               ..........        641 Soromenho, 
Fernando Monteiro

de Castro: 1034, ...          .............          1089 
Soropita, Ferno Rodrigues Lobo,

por alcunha o: 350, 351, 354,
368, 370, 371-375, 376, 387,

380, 394, 406, 461, 555, 816                         1117 Sotto 
Maior, Frei Eli (ou Elio)

de S: 368, 389, 416, .             .........        419 Souli, 
Frdric:            ....................        818 Soult, 
Nicolas-Jean de Dieu: 774                         819 Soure, 
Conde de:             ..................          517 Sousa, 
Alberto de:             .................         509 Sousa, 
Amrico Guerreiro de: 1155,                       1184 Sousa, 
Antnio de (pseud.: Antnio de Portucale):            
..............         1063 Sousa, D. Antnio Caetano de:

117,      .................................          568 Sousa, 
Antnio da Silva e:                 ......        559

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO
O
pgS@

Sousa,      Carios A. Mendes de:                           1172 
Sousa,      P.e Celestino de:                   .........  312 
Sousa,      Filipe de:       ...................           526 
Sousa,      Francisco de:                       .............. 
159 Sousa,      p.e Francisco de:                   .........  
444 Sousa,      Gabriei Soares de                              
301 Sousa,      Joo Rui de: 1066,                  ......     
1119 Sousa,      Joaquim Francisco M. de

Campos Coelho e: .... .                     ..... ...  564 
Sousa, Jos A. Soares de:                       .......    674 
Sousa, Jos Xavier de Valadares

e: 618, 619, 622, 626, 640, ...                        1188 
Sousa, Frei Lus de (Manuel de

Sousa Coutinho): 439, 444,
445-447, 448, 449, 450,                     .......    716 
Sousa, D. Manuel Caetano de:                               567 
Sousa, Manuel de Faria e: 240,

317, 354, 355, 370, 391, 439,
442,    ........  . ..................      ......     448 
Sousa, Maria Leonor Machado

de:165,276,702,734,780,781,
783, 812, 951, 1051, 1052,                  ...        1055 
Sousa, Pro Lopes de:                           ........... 314 
Sousa, R. H. P. de:                ...............         315 
Sousa-Cardoso, Amadeu:                          ........   1058 
Souto-Maior, Caetano Jos da

Silva: ... .    ..............              ............. 618 
Soveral, Eduardo Abranches de:                             852 
Soveral, Lus Maria Pinto (marqus de):        .............    
          ............. 879 Spaggiari, Barbara: 70,             
            ....... ... 1033 Spencer, Herbert:              
..................          863 Spenser, Edmund:                
....            *............ 454 Spina, Segismundo: 71, 72, 74, 
507,                        508 Staack, Maria:            
......................           873 Stal, Cermaine Necker, 
baronesa


de:669,681,699,709,711,713,                            752 
Stathotos, Constantine C.:                      ......     225 
Steele, Richard: 580,                           .............. 
583 Steinbeck, John:             ...................           
985 Stendhal (pseud. de Marie-Henri

Beyle): 235, 669, 686, 691, ..                         903 
Stengers, Isabelle:            ..................          990 
Stephen, Leslie          . ........             ............ 594 
Stern, Irwin:           ..............          .. ........ 812 
Stern, Samuel M.:               .................             73 
Sterne, Lawrence: 593, 684,                     ....       728
O
Sternheim, Carl:             ................... Storck, Dr. 
Wilheim: 355,                 ....... Straparoli, Gian 
Francesco:                  ..... Strauss, David Friedrich:     
           ........ Strindberg, August: 693,                
......... Suarez, Francisco:             ................. 
Subrats, Jean:         ..........  ....... Sucarelo 
Clararnonte, Joo de:

502,     ................................. Sue, Eugne: 396, 
696, 774, 787,

801, .   ......................   . ......... Suevos, Ramon L.: 
             ......... .  ...... Suso, Henri de: 107,           
    .............. Swft, Jonathan: 303, 581, 684, Swinburne, 
Algernon Charles: . Sypher, Wylie: 186,             .........  . 
.....

Tabucchi, Antonio: 1171               . ......  . Tacca, scar: 
.         ......   .. .............. Tcito: 174, 460,          
 .................   --Tagarro, Manuel da Veiga: 377-378, 390,  
     ...... ................... Taille, Jean de Ia:             
 ................. Taine, Hippolyte: 691, 692, 840,

846, 892, 898,          ................... Talassi, Carlota 
(actriz):             ......... Tamen, Miguel:              
.................... Tamen, Pedro: 1122, 1132, 1134, Tancos, 
Frei Hermenegildo de, V.

Hermenegildo de Tancos, Frei Tapi, Victor-L.: .         
.................. Tarouca, p.e Carlos da Silva: .. Tarroso, 
Domingos:               ............... Tasso, Joaquim Jos 
(actor):                    ... Tasso, Torquato: 335, 381, 382,


412, 459, 515,          ...  ................ Tauler, Johann:   
          ..................  .. Tavani, Giuseppe: 28, 47, 69, 
70,

74, 165, 222, 225, 257, 274, Tavares, Alberto Pidwell: V.

Berto, AI Tavares, Jos Correia:               ........... 
Tavares, Jos Pereira: 31, 71, 101,

117, 145, 188, 256, 449, 487,
524, 525, 569, 646,            ............ .

1246

HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
pg5.

Tavares, Salette:           ...................          1123 
Taveirs, Paio Soares de: 19,                              47 
Tchekhov, Anton PavIovitch:                              983 
Teensma, B. N.: 487, .... .                    ........  488 
Teive, Diogo de: 179, 182, 259,

269,     .......  ........................  ..        273 
Teixeira, Antnio Brs: 876, 1015,                       1031 
Teixeira, Antnio: 526,                        .......... 589 
Teixeira, Bento: 386,              .............         655 
Teixeira, Fausto Guedes: 957, ..                         1007 
Teixeira, Francisco Gomes:                     .....     678 
Teixeira-Gomes, Manuel:                        ........  999 
Teixeira, Heitor Gomes: 506, ..                          508 
Teixeira, Maria Teresa Camanho:                          757 
Teixeira, Paulo:           ....................          1131 
Teixeira, Quirino:           ..................          1180 
Teles, Aires:        .........................           158 
Teles, P.e Baltasar: 183, 300,                 ...       444 
Teles, Baslio:         ...............        ........  1014 
Teles, Gilberto Mendona:                      ......    507 
Teles, Leonor: 119, 122, 123, 126,

127, 130,         .............  ..         ........... 641 
Teles, Maria:        ....................      ....      641 
Tenenti, A.:         ........ ...  ..............        464 
Tengarrinha, Jos Manuel: 571,

780, 782, 809, 811, .... .                  ........  1082 
Tenreiro, Antnio: 300, 310,                   ...       314 
Tentgal, Conde de: Tecrito: 230, 248, 424,                    
   .......... 633 Teodorico:           
...........................         770 Teodsio 11, Duque D.: 
377, 407,

472,     ......................             ...... ..... 486 
Terncio (Publius Terencius Afer):

255, 265,         ..........................          266 
Teresa, D.:          .................         .........   81 
Teresa de vila, Santa: 150, 184,


363, 394, 423,           ...................          530 
Tesauro, Manuel: 493                           ............ 618 
Terra, Florncio Jos:                         ............ 1070 
Terra, Jos (pseud. de Jos Fernandes da Silva): 275, 291,      
                     356 Textor, Ravsio:           
.............       .. .....  425 Teyssier, Paul: 29, 213, 222, 
224,

227,     ........ ...............           .. ........ 228 
Thibaudet, Albert:            .................          1058 
Thieghem, Paul van:               ......       ........  700 
Thierry, Augustin: 690, 738, 748,                        749
O
Pgs.

Thom, Ren:              ......................          990 
Thomas, Dylan:             ...................   .       986 
Thomas, Henry: 418, .               ............         420 
Thomas, Lothar:             ..................   .       435 
Thomasius (Christian Thomas):                            580 
Thomasseau, Jean-Marie:                   .......        783 
Thompson, Francis:                  ...............      693 
Thomson, James: 583, 664,                     .....      670 
Thonig, Tilla:          ..........  ......... ....       1190 
Tiago, Manuel: 1142,                .............        1169 
Tibulo (Albius Tibullus):                ........        248 
Tieck, Ludwig:           .....................           686 
Timoneda, Juan:             ...................          533 
Todi, Lusa:          .........................          589 
Todorov, Tzretan: 25, 26, 74,                            987 
Toffanin, Giuseppe:                 ...............      186 
Tojal, Altino M. do:                ..............       1142 
Toland, John:            ......................          580 
Tolentino de Almeida, Nicolau:

65, 373, 374, 405, 474, 631, 635,
637, 650, 651, 653, 657, 665-668, 672, 675, 676, 726, 793,
1014, 1103,         .......................          1117 
Tollenare, L. F.:           ...................          595 
ToIstoi, Leo, conde de: 693, 938,

982  . .................................             1026 Toms 
de Aquino, S.: 107, 113,


184, 281, 326, 382,             .............        425 Toms, 
Fernandes:                   ................     778 Toms, 
Manuel: 382,                 .............        384 Toms, 
Manuel Fernandes: 706,                            780 Tomasovic, 
Mirko:                   ................     1191 Tom, J. L. 
Pensado:                ......... ....       101 Tom, S.: .... 
.        .......................          309 Toralins, Jack E.: 
                 .................    224 Torga, Miguel 
(pseudnimo de

Adolfo Correia da Rocha):
1057, 1060, 1065, 1066, 1086,
1097, 1160, 1169,               ......... ......     1189 
Torgal, Lus Manuel Reis: 466,

571,     ................       .................    782 
Toriello, Fernanda:                 ................       71 
Tormo, Elias:           .......................          296 
Torneol, Nuno Fernndez: 56, .                             64 
Torres, Alexandre Pinheiro: 72,

950, 1027, 1082, 1091, 1106,
1116, 1156, 1181                . ...............    1184

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO

Torres, Amadeu:               ................... Torres, 
Flausino: 849,              ............ Torreso, Guiomar:     
          ............... Toscano, Francisco Soares:            
      ..... Touraine, Alain:              .............. ..... 
Tournand, J.-C.:              .................... Traa, Maria 
Emlia:               ............. TrakI, Georg: ..            
  ..................... Trancoso, Gonalo Fernandes:

532, 533, 536,            ................... Trevelyan, George 
Macaulay: .. Trigoso, M.:           .....  ................... 
Trigueiros, Lus Forjaz:               .......... Trindade, 
Maria Jos:              ..........  ... Trissino, Gian. 
Giorgio:               .......... Tuffrau, P.:          ......  
................... Turgot, Jacques:              
................... Turner, B. S.:          
....................... Turpin: V. Veiga, Torn Pinheiro

da Tzara, Tristan: 982,              ...............

Unamuno, Miguel de: 984, Urf, Honor d: 412, 456, Usodimare:  
    .......................... Usque, Abrao: 229, 233,       
....... Usque, Samuel: 239, 413, 424-425,

433, .. ............................ ...
O
Vannen, V.:           ...................... Vaena, Antnio 
de: 439,              ......... Vaia, Jernimo: V. Baa, 
Jernimo Vailland, Roger:          ......... .......... 
Valarinho, Jlio:          ................... Valdemar, 
Antnio: 782,               ........ Valds, Alfonso de:        
    ............... Vaids, Juan de:          ....... ...  
......... Vale, Antnio:          ................... ... 
Valena, Marqus de (D. Francisco de Portugal e Castro):
619   . ................................. Valente, Manuel 
Alberto:               .......
O
pg5.
296
890
1075
440
988
465
1188
983


537
594
313
1187
887
265
1188
581
998

985

1012
515
313
243

434

27
450

1136
1169
976
280
280
1091

639
1132

Valente, Vasco Pulido: 701, ,                  ... Valera, Juan. 
Carios:             .............. Valry, Paul: 984,           
  ................. Valla, Lorenzo: 108, 174, 175, . Valie, 
Lus: .       ......................... Valledor, A. Cotarelo y: 
               ...... ... Valle-Incin, Ramn del:              
   ........ Vallejo, Csar:         ........ .  ............. 
Vallicroso, Jos Maria Milis: Valverde, Jos Figueira:         
       ......... Valverde, X. F.: ..            
................. Van. Eyck, Hubert:...             
.............. Van Eyck, Jean:              ................... 
Varela, Lus: ...        ....... ..  ......    ...... Varela, 
Maria Helena:                ............ Varga, A. Kibdi:     
         ................. Varnhagem, Francisco Adolfo de:

240,    ............................      ..... Vasconcelos, 
Carolina Michalis


de: 29, 69, 187, 223, 225, 232,
243, 255, 256, 355, 389, 1014, Vasconcelos, Francisco Lus de: 
Vasconcelos, Henrique de:                      ...... 
Vasconcelos, Joo Teixeira de:

775, 801,       .......................   ... Vasconcelos, 
Joaquim de: 294,

295, 296,      ................  .  ......... Vasconcelos, Jorge 
Ferreira de:

23, 182, 242, 254, 262, 263,
264, 267, 347, 350, 351, 394,
397-406,      417, 418, 440, 504, Vasconcelos, Jos Leite de: 
29, 3 1,

71, 89, 117, 145, 227,              ......... Vasconcelos, Lus 
Mendes de:

462, 564, 570,          .............     ...... Vasconcelos, 
Mrio Cesariny de:

1031, 1101, 1102, 1106, 1162,
1179, 1185,         ....................... Vasconcelos, Miguei 
de: 461, ... Vasconcelos, Paulino Antnio Cabral de: V. Jazente, 
Abade de Vasconcelos, Taborda de:                       ....... 
Vascosan, Michel:               ................. Vasques, 
Ferno:              .................. Vattimo, Giarmi: 26, 
990, -                    .....

Vaz, P.e Francisco: 216, 226, .. Vaz, Joana:           
.........................

1248

HISTORA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
Pgs.

Vegcio, Flvio Renato:                 .........        112 
Veiga, A. Botelho da Costa: 135,                         146 
Veiga, Albino de Bem:                 ...........        152 
Veiga, Antnio Lope$ da:                  .......        495 
Veiga, Manuel da: V. Tagarro,

Manuel da Veiga !@ Veiga, Tont Pinheiro da: 484,

557-558, 559,          ....................          569 
Velasquez, Diego-Rodriguez de

Silva y: 350, 458, 460,              ........        474 Veleda, 
Maria:           ......................          1075 Veles, 
Marqus de los:                ...........        470 Velho, 
lvaro: 299, 313, 316, 336,                       357 Velho, p.e 
Diogo: 159,                ...........        161 Veloso, Jos 
Maria Queirs: 439,

450,     .................................           465 
Ventura, Antnio:              .................         1036 
Ventura, Mrio: 1140,               .....+ ......        1185 
Vera, Augusto: 858,              ... . ..........        862 
Verba, Frei Joo de:              ..............         113 
Verceal, Clemente Sanchez de:                            179 
Verde, Jos Joaquim Cesrio631, 699, 799, 940, 943, 963
966, 967, 968, 973, 975, 976:
1007, 1008, 1009, 1049, 1102,
1117, ... .    ...........................           1189 
Verdelho, Telmo:               ..................        357 
Verhaeren, mile:              .................         1021 
Verssimo, Jos: 677,              ....... . .....       1189 
Verssimo, Nlson:             ................          1186 
Verlaine, Paul: 693, 954, 964, 970,

1021,      ...............................           1023 
Vermeer de DeM, Jean:                   .........        454 
Vermuel, Fernando Antnio:                     ...       645 
Verney, Lu s Antnio: 23, 464,

548, 554, 588, 590, 591,
597-605, 608, 613, 614, 618,
619, 620, 624, 626, 628, 645,

663, 750,        ..........................          1192 
Versclineider, M. da Graa                   .....       1177 
Vespasiano (Titus Flavius Vespasianus):       
............................            14, Vespcio, Amrico:  
             ...............         302 Viana, Amorim: 875,    
             .............        876 Viana, Aniceto dos Reis 
Gonalves: 23, 29, 100,          ................          152

Viana, Antnio Manuel Couto:

1108, 1109, 1133,            .......... ..... Viana, Jos:      
   ......................... Viana,      Mrio Gonalves: 419,

487,    536, 552,      ................... Viana,      Pedro de 
Arnorim: 786,

794,    864,     .......................... Vicente, Alonso 
Zamora: .                 ....... Vicente, Gil: 20, 23, 41, 67, 
100,

103,    150,     151,  158,    159, 160,
180,    181,     182, 183, 189-213,
214,    215,     216,  217,    218, 221,
222,    223,     224,  225,    229, 230,
249,    277,     278,  280,    281, 282,
340,    341,     346,  347,    349, 368,
394,    395,     403,  408,    512, 513,
514,    521,     .......................... Vicente, Lus: 190, 
195, 221,                 ... Vicente, Mateus:           
.........  . ......... Vico, Giambattista: 580, 584, .. Vioso, 
Vtor: 1034,             .............. Vidal, Angelina:        
   .................... Vidal, Gore:         
......................... Vidigal, Lus:         
.................... Vidos, B. E.:          ... ................ 
... Vieira, Afonso Lopes: 101, 355,

417, 419, 974, 999, 1005, 1013, Vieira,     P.e Antnio: 382, 
421,

429,    469, 496, 499, 528, 529,
534,    536, 539-554, 556, 558,
559,    560, 562, 565, 587, 600, Vieira,     Custdio Jos: 697, 
            ..... Vieira,     Joaquim:       ................... 
Vieira,     Jos Augusto:          ............. Vieira,     
Jos Luandino (pseud.): Vieira,     Verglio Alberto:           
......... Vieira,     Yara Frateschi:          ........... 
Vigil, Marcelo:            ..................... Vigny, Alfredo 
de:               ................ Vilaa, Mrio: 997,          
    ............... Vila Moura, Visconde de (Bento

de Oliveira Cardoso e Castro):
1013,      ............................... Vila Real, Marqus 
de:                 .......... Vilas Boas, Frei Manuel do 
Cenculo de: V. Manuel do Cenculo, Frei
O
Pgs.
O
1184
1170

676

876
222

717
222
590
843
1035
1075
991
1037

27

1029

1014
786
1143
945
1190
1143
1066

41
690
1171

1070
556

NDICE ONOMSTICO REMISSIVO

Vilela, Jos Stichini:              ..............       297 
Vilhena, D. Joana de:               ............         240 
Vilhena, D. Madalena de:                  .......        445 
Vilhena, Vasco de Magalhes:                           1035 
Villasandino, Afonso lvares:..                          156 
Villiers de L'Isle-Adam, Auguste:                        944 
Villon, Franois:            ...................         108 
Vimioso, Conde de: V. Portugal,

D. Francisco de Vindel, Pedro:           ...................... 
          71 Virglio (Publius Virgilius Maro):

230, 231, 248, 322, 333, 334,
383, 424, 628, 664, 672,               ......        762 
Visitao, Maria da:                ..............     1173 
Vital, Jaime:          ........................          945 
Viterbo,      nio de:       ..................          441 
Viterbo, Francisco Marques de

Sousa:146,256,295,313,533,                           887 
Viterbo,      Frei Joaquim de Santa

Rosa:     29, .    ........................          593 
Vitria,      Toms Lus de:            .........        458 
Vitria,      Henrique Aires: 269, ..                    273 
Vitorino, Antonio Gomes:                  .......      1077 
Vitorino, Orlando: 1015,                 ........      1167 
Vitormo, Virgnia Villa Nova de

Sousa: 1003,         .....................         1076 
Vittormi, Elio:          ......................          988 
Vivas, Frei Joo: -            ................           95 
Vives, Juan Lus: 174, 175, 277,

278, 280, 283, 287, 333, 425,                        476 Volney, 
Constamm-Franois de

Chasseboeuf, conde:             ...........          583 Volpe, 
Galvano Della:               ............         987 Voltaire 
(pseud.): 516,             577, 578,

579, 581, 588, 592,             602, 624,
638, 641, 648, 656,             669, 683,            721 
Voragine, Jacques de:               ............         153 
Vssio (Gerhard-Joseph Voss):                            624 
VossIcr, Karl:         .......................            74


w

Waldron, T. P.:          .....................           222 
Walker, R. M           ........................          357 
Walpole, Horace: 769, 818,                  .....        943 
Warning, R.:           .........................          25 
Warren, Austin:          .....................            24

Wartburg, W. von:              ................

Watteau, Antoine:             .................. Weber, Max.:   
         ....................... Weiss, Peter: 987,            
................. Wellek, Rene: 24,             .....+ 
............

Werner, Zacarias:             .................. Wesley, John: 
575,             ................ Whitman, Walt: 211, 1044,     
              ..... Wicki, Josef:          
........................ Wieland, Christoph Martin: 579,

652, 670, ,      ......................... Wilde, scar: 693,   
          ................ Willard, Charity Carmon: 117, 
Willemsen, Augusto:               .............. Williams, Edwin 
B.:               .............. Williams, Frederik G.: 153,    
             ..... Wittgenstein, Ludwig:                
............ Wimsatt, W. K.: -             .................

Wlfflin, Heinrich von: 458,                   ... Woli, Dieter: 
         ........................ Woolf, Virgnia: 982,         
     ............. Wordsworth, William: 686, 687, Wright, Roger: 
           ..................... Wycherly, William:             
................

--- x

Xavier, Antonio: 645, Xavier, S. Francisco: Xenofonte:  
...............

y

Yacine, Kateb:  ........... Yeats, William Butler: Y11era, 
Alicia: ........... Young, Edward: 583, .

Zacuto, Abrao:             ........ Zagalo, Joana Tavares: 
Zamperini, Anna:             ....... Zavala, 1. M.:         
............ Zeno de Eleia:          .......... Zeno, Apstolo: 
           ......... Zilli, Carmelo:         ...........

1250
O
HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA

Zimia, Stanislav:  ................... Zola, mile: 687, 688, 
692, 823,

827, 847, 848, 904, 931, 932,
933, 935,   .......................... Zorrilla, Jos:  
....................... Zorro, Joo:   ......................... 
Zurnthor, Paul: 42,   ................ Zfiiga, J. E.: 874,  
................
O
pg5.
O
225

945
469
53
74
875

Zunzenegui, Juan Antonio de: . Zurara, Gomes Eanes de: 97,

98, 99, 113, 120, 121, 129,
137-140, 141, 142, 143, 145,
146, 151, 161, 163, 178, 284,
288, 292, 294, 299, 316, 335,
339,   ................................. Zurbarn, Francisco:   
 .............
O
Pgs.
O
988

340
458

N D 1 C E   O E R A 1

Introduo Geral
O
Captulo 1 - Reflexes Preliminares                    
.......................................           7

Captulo 11 - Origens e Evoluo da Lngua Portuguesa           
                  .............        13
O
1.1 poca - DAS ORIGENS A FERNO LOPES

Captulo 1          - Introduo         
...................................................           35 
Captulo 11         - A Poesia dos Cancioneiros                
........................   .....        45

Captulo 111        - Historiografia e pica              
....................................         77 Captulo IN     
    - A Prosa de Fico              
.........................................         93

2.a poca - DE FERNO LOPES A GIL VICENTE

Captulo        1   - Introduo         
...................................................         105 
Captulo        11  - A Prosa Doutrinal de Corte                
  ............................       111

Captulo        111 - Ferno Lopes            
...............................................        119 
Captulo        IN  - Outros Cronistas             
...........................................       137

Captulo        V   - Literatura Apologtica e Mstica          
        ......................       149 Captulo        VI  - A 
Poesia Palaciana              
........................................       155

3.a poca - RENASCIMENTO E MANEIRISMO

Captulo        1   -    Introduo      
...................................................         169 
Captulo        11  - Gil Vicente        
...................................................         189

Captulo        111 - Bernardim Ribeiro              
.........................................       229


Captulo        IV  -    S de Miranda entre as tradies 
medievais e as inovaes italianas        
.............................................       247 Captulo 
       V   -    Antonio Ferreira: um clssico renascentista 
isolado                         259

Captulo        VI  -    Joo de Barros e outros Prosadores da 
Primeira Fase

do Sc. XVI        
.................................................        277

Captulo        VII -    Literatura de Viagens Ultramarinas     
            ..................       299 Captulo        VIII-  
  Lus de Cames           
............................................       317

Captulo        IX  -    Poesia Maneirista          
..........................................       361

Captulo        X   -    Fico cavaleiresca e buclica, seu 
esgotamento e o

gosto de notao dos costumes .               
.......................       393 Captulo        X1  -    Prosa 
Doutrinal Religiosa             ............................... 
      423 Captulo        XII - A Evoluo da Historiografia    
              ..........................       437

HISTRIA DA LITERATURA PORTUGUESA
O
4.1 poca - POCA BARROCA

Captulo 1          - Introduo...          
...............................................         453 
Captulo Il         - D. Francisco Manuel de Melo               
     ........................        469

Captulo      111   - Poesia Cultista e Conceptista             
    .........................        491 Captulo      IV    - 
Tentativas Teatrais            
.......................................         511 Captulo    
  V     - Prosa Doutrinal Religiosa                
..............................        527 Captulo      VI    - 
P.e Antnio Vieira             
.......................................         539

Captulo      VII   - Prosa Doutrinal, Panfletria e Historial  
                   ...........       555

5. a poca - O SCULO DAS LUZES

Captulo      1     - Introduo          
..................................................         575 
Captulo      11    - Doutrinrios das *Luzes+ em Portugal     
                  .............       597 Captulo      111   - 
A Arcdia Lusitana              
......................................         617

Captulo      IN    - Irradiao e Evoluo da Poesia Arcdica  
                      ........       649

6.1 poca - O ROMANTISMO

Captulo      1     - Introduo          
..................................................         681 
Captulo      11    - Almeida Garrett             
..........................................         705

Captulo      111   - Alexandre Herculano                
....................................        737

Captulo      IV    - As Primeiras Correntes Romnticas         
             .................       759

Captulo      V     -   O Romantismo sob a Regenerao          
           ..................        785 Captulo      VI    - 
Camilo Castelo Branco                 
.................................        813

Captulo      VII   -   Incios da Gerao de 70              
...............................        833 Captulo      VI 11 - 
Antero de Quental              
.......................................         853 Captulo    
  IX - Oliveira Martins               
..........................................         877

Captulo      X     - Ea de Queirs e a Fico Realista        
           ..................        891 Captulo      X1 - 
Poetas Realistas e Parnasianos                     
.......................        953

7.a poca - POCA CONTEMPORNEA

Captulo      I     - Introduo          
..................................................         979 
Captulo      11    - Neo-Romantismo e Simbolismo-Decadentismo  
                           ...     1001

Captulo      111   - Gerao de *Orphett+                
...................................      1039 Captulo      IN  
  - Gerao de *presena+                
..................................      1057 Captulo      V    
 - Novas Tendncias Realistas                 
............................      1069

Captulo      VI    - Anos 40: Imagismo e Surrealismo           
           ...................     1093

Captulo      VII   - Segunda Metade do Sculo: Poesia          
           ..................      1107 Captulo      VIII - 
Segunda metade do sculo na novelstica                        
..........     1135

Captulo      IX - O Teatro desde o Naturalismo                 
     ........................      1159

Execuo cirfica de Ri n(,n           LDA, - R. da Reslaura

o, 387 - 4000 PORTO - PORTUGAL
